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Título em cabeçalho: Figura Complexa de Rey

FIGURA COMPLEXA DE REY E O SEU PAPEL EM CONTEXTO FORENSE

Ana Sofia Costa nº 21200450, Anabela Teixeira Pereira nº 21200338, Graça Santos nº
21200439

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Nota de Autor:

Escola de Psicologia e Ciências da Vida

Unidade Curricular: Avaliação Psicológica Forense

Professores: João Pedro Oliveira e Tânia Borja Manuel

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Resumo

A Figura Complexa de Rey é uma medida de construção visuo-espacial e memória não-

verbal, concebida por André Rey em 1942, para permitir “um diagnóstico diferencial

entre debilidade mental constitucional e o défice adquirido em consequência de

traumatismo craniocerebral” e foi padronizado por Paul Osterrieth em 1945, que

desenvolveu o estudo genético da prova. Esta prova serve para avaliar a atividade

percetiva e a memória visual, sendo a sua aplicação efetuada em duas fases: o processo

de cópia e a reprodução de memória, cujo objetivo é analisar a forma como o sujeito

apreende os dados percetivos e o que foi preservado espontaneamente pela memória.

Para testar a prova foi utilizado um estudo de caso. Pretendeu-se com este trabalho

perceber, em contexto forense, qual a importância deste instrumento de avaliação, bem

como conhecer as vantagens e desvantagens desta prova e respetiva versão em

comparação com outros modelos e outras provas de avaliação.

Palavras-chave: Figura de Rey, atividade percetiva, memória, estudo de caso,


contexto Forense

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Figura Complexa de Rey em Contexto Forense

A Figura Complexa de Rey é uma medida de construção visuo-espacial e

memória não-verbal, concebida por André Rey em 1942, para permitir “um diagnóstico

diferencial entre debilidade mental constitucional e o défice adquirido em consequência

de traumatismo craniocerebral” e foi padronizado por Paul Osterrieth em 1945, que

desenvolveu o estudo genético da prova (Cegoc-Tea, Lda., 1988). Osterrieth

desenvolveu a primeira análise qualitativa que avalia a maneira como o indivíduo

planeia a construção da figura, observando os métodos utilizados pelos sujeitos para

desenhar e os erros cometidos por estes durante a fase da cópia da figura,

principalmente erros na colocação dos detalhes da figura, distorções globais da figura

ou detalhes e linhas adicionais. Considerando hábitos intelectuais, rapidez da cópia e

precisão dos resultados identificou e classificou por categorias os diversos processos de

cópia e determinou a sequência do seu aparecimento no desenvolvimento mental,

visando, constituí-los em padrões característicos de um nível de desenvolvimento da

perceção visual, orientadora do trabalho de cópia.

Existem duas versões para as Figuras Complexas de Rey com formas

geométricas complexas e abstratas distintas. A forma "A" da figura é direcionada à

avaliação de pessoas com idades compreendidas entre 8 e os 88 anos e a forma "B" que

deve ser utilizada na avaliação de crianças com idades mais precoces entre 4 a 7 anos,

mas também poderá ser aplicada a adultos sobre os quais reside a suspeita de grande

deterioração mental (Rey, 1999).

Com esta prova pretende-se avaliar a atividade percetiva e a memória visual,

sendo a sua aplicação efetuada em duas fases: o processo de cópia e a reprodução de

memória, cujo objetivo é analisar a forma como o sujeito apreende os dados percetivos

e o que foi preservado espontaneamente pela memória (Cegoc-Tea, Lda., 1988).

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A Figura Complexa de Rey é um instrumento de avaliação neuropsicológica

amplamente utilizado no campo das neurociências para avaliar algumas funções

executivas, nomeadamente o planeamento e a memória operacional ou de trabalho, bem

como aferir a capacidade de desenvolvimento de estratégias e execução de ações, e

poderá aplicar-se em diversas situações clínicas ou comportamentais para despiste de

eventual comprometimento das funções executivas (Lezak, 1995).

Entende-se por funções executivas as funções de supervisão ou de controlo que

regulam o comportamento e conduzem à realização de ações voluntárias, independentes,

autónomas, auto-organizadas e orientadas para metas específicas, permitindo ao sujeito

tomar decisões, avaliar e adequar seus comportamentos e estratégias, buscando a

resolução de um problema de forma a interagir de forma intencional com o mundo que

o rodeia. Estas formas de cognição superiores podem definir-se como um conjunto de

atividades mentais que envolvem aquisição, armazenamento, retenção e uso do

conhecimento, dirigidas para um determinado objetivo e estão diretamente relacionadas

a comportamentos auto-organizados e voluntários. São necessárias para lidar com todas

as exigências práticas da vida, nomeadamente enfrentar o stress, manter

relacionamentos e contribuir para a aquisição de capacidades adaptativas face às

diferentes mudanças ambientais e sociais (Caffarra, Vezzadini, Dieci, Zonato eEstas

Venneri, 2002).

O planeamento, considerado uma das mais importantes funções executivas, pode

ser entendido como a capacidade de traçar mentalmente um trajeto, com recurso a

determinada estratégia sequencial, direcionada a atingir objetivos, especialmente

aqueles que abarcam soluções originais, novas ou não rotineiras (Souza, Ignácio,

Cunha, Oliveira e Moll, 2000). Assim, planear envolve a antecipação dos factos e das

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suas consequências, bem como permite monitorizar a distância a que se está de alcançar

o objetivo final (Krikorian e colaboradores, 1994).

Outra função executiva relevante é a memória operacional ou de trabalho que

poderá ser definida como um sistema que visa a manutenção temporária e a

manipulação da informação, à qual se poderá aceder, manipular e reorganizar durante o

desempenho de tarefas cognitivas como a compreensão, a aprendizagem e o raciocínio e

que permite integrar a informação a estímulos ambientais e a conhecimentos anteriores

oriundos da memória de longo prazo, facultando a manipulação ativa da informação e

sua constante atualização na própria memória de trabalho (Baddeley, 2000).

Meyers e Meyers (1995) e Deckersbach, et al. (2000) baseando-se em estudos

anteriores, obtiveram resultados que confirmaram que a boa organização na cópia da

figura, prognostica fortemente uma boa evocação da memória, postulando que há uma

correlação positiva entre a capacidade de planear a figura durante a cópia e a capacidade

de evocá-la posteriormente.

Apesar da maior parte dos estudos ter sido realizada com população considerada

normativa ou saudável, constatou-se que as populações mais frequentemente

encontradas foram pacientes com Demência, Esquizofrenia e Perturbação Obsessiva-

Compulsiva, mas sendo também significativos os estudos com sujeitos com Epilepsia,

Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade e Depressão (Jamus & Mader,

2005)

Ficha Técnica da Prova

Nome: Teste de cópia de Figuras Complexas

Autor: André Rey

Procedência: Centre de Psychologie Appliquée (Paris)

Adaptação Portuguesa: CEGOC-TEA, LDA. (Lisboa)

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Material: Manual, lâmina da prova, papel branco, lápis de cor, lápis preto, cronómetro

Aplicação: Individual

Idade: A partir dos 5 anos

Tempo de Aplicação: variável entre 5 e 25 minutos

Tempo de correção: 2 minutos

Indicações: estudo da atividade percetiva e da memória visual

Aferição portuguesa: diversas amostras de populações portuguesas a partir dos 5 anos

de idade

A Figura Complexa de Rey encontra-se aferida para a população portuguesa e

foi efetuada a partir de uma amostra de vinte sujeitos, de ambos os sexos, por cada

escalão etário (N/Total=220), com idades compreendidas entre os 5 e os 15 anos (foram

incluídas idades superiores). As populações observadas eram residentes em meio

urbano, frequentavam o ensino regular para a sua faixa etária (escola ou infantário) e

eram provenientes de extratos socioeconómicos heterogéneos (Cegoc-Tea, Lda., 1988).

Apesar da diversidade da amostra fazer supor diferentes níveis de desenvolvimento,

dela não foram excluídos, aqueles que foram referenciados pelos seus professores, como

sujeitos que apresentavam alguns défices de aprendizagem.

A Figura Complexa de Rey consiste numa figura geométrica complexa

composta por um retângulo grande, bissetores horizontais e verticais, duas diagonais, e

detalhes geométricos adicionais interna e externamente ao retângulo grande, reúne

como propriedades a ausência de significado evidente, fácil realização gráfica e uma

estrutura de conjunto complicada que exige uma atividade de análise e de organização.

A observação da forma como é efetuada a cópia da figura, permite conhecer a atividade

percetiva do sujeito. O grau e a fidelidade da memória visual, bem como a comparação

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com o modo de perceção definido, são aferidos através da reprodução da figura após a

retirada do modelo (Cegoc-Tea, Lda., 1988).

A aplicação do teste é efetuada em dois tempos. Inicialmente solicita-se que o

sujeito reproduza a cópia da figura, numa folha branca na posição horizontal. Em

seguida, o examinando terá que reproduzir de memória a figura anteriormente copiada.

O intervalo entre estas duas partes do processo não deve exceder os 3 minutos (Cruz,

Toni & Oliveira, 2011).

O modelo da prova é apresentado horizontalmente, com o losango orientado à

direita e a ponta voltada para baixo, devendo o sujeito copiá-lo numa folha em branco.

O examinador deve ter disponíveis para utilização cinco ou seis lápis de cores diferentes

para a cópia da figura, indicando a troca de lápis de acordo com a sequência dos

elementos copiados. O objetivo desta troca de lápis, cuja troca de cores deve ser

registada, é observar a sucessão dos elementos copiados e avaliar a capacidade de

desenvolvimento de estratégia do examinando. A mudança de lápis deverá suceder,

quando o sujeito inicia a cópia pelo retângulo e prossegue pelas diagonais, no momento

em que este passa às estruturas interiores e exteriores. Se por outro lado, a cópia

começar com um detalhe, trocar-se-á o lápis quando se passar ao detalhe seguinte. Após

o término da cópia solicita-se ao examinando que reproduza a figura de memória, sendo

que nesta parte pode ou não ser aplicada a troca dos lápis de cores diferentes. Não há

limite de tempo e é o próprio sujeito que deverá indicar quando terminou, mas este

deverá ser apontado (Cegoc-Tea, Lda., 1988).

Osterrieth analisou os desenhos, de 230 crianças com idades compreendidas

entre os 4 e os 15 anos e de 60 adultos entre os 16 e os 60 anos, de acordo com o

método utilizado pelo sujeito, para desenhar, bem como os erros de cópia específicos e

ordenou-os do mais racional para o menos racional, tendo em consideração os nossos

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hábitos intelectuais, a rapidez da cópia e a precisão dos resultados, identificando 7 tipos

diferentes de procedimento:

I – Construção sobre Armação - O sujeito inicia o desenho pelo retângulo principal

que passa a funcionar como armação e os detalhes vão sendo dispostos em relação a ele,

constituindo o retângulo a base e o ponto de partida para a construção da figura;

II – Detalhes Englobados na Armação - O sujeito começa com um detalhe ligado ao

retângulo principal, ou faz o retângulo incluindo nele um outro detalhe e depois termina

a reprodução do retângulo utilizando-o como armação, tal como verificado no tipo I;

III – Contorno Geral - O sujeito começa o desenho com o contorno geral da figura,

sem diferenciar o retângulo central e só depois adiciona os detalhes internos;

IV – Justaposição de Detalhes - O sujeito vai desenhando os detalhes um a um, sem

uma estrutura organizada, como se estivesse a fazer um puzzle. Uma vez terminada, a

figura é globalmente reconhecida;

V – Detalhes Sobre Fundo Confuso - O sujeito copia partes discretas do desenho

sem nenhuma organização, onde não é possível identificar o modelo, mas que contem

alguns detalhes reconhecíveis;

VI – Redução a um Esquema Familiar - O sujeito substitui o desenho por um objeto

que lhe é familiar, como um barco ou uma casa;

VII – Garatujas - O desenho é uma garatuja, na qual é impossível reconhecer os

elementos do modelo.

Na amostra de Osterrieth, que também englobou crianças com problemas de

aprendizagem e de socialização e adultos com distúrbios de comportamento, 83% dos

sujeitos do grupo de controlo de adultos seguiram os procedimentos tipificados em I e

II, 15% seguiram o Tipo IV e nenhum utilizou o Tipo III. Nenhuma criança com idade

superior a sete anos utilizou os Tipos V, VI e VII, mais 50% das crianças a partir dos 13

8
anos, usaram os Tipos I e II. A garatuja não foi produzida por nenhuma criança ou

adulto (Jamus & Mader, 2005).

O objetivo deste trabalho é analisar a utilização da prova Figura Complexa de

Rey em contexto Forense, tentando-se perceber através dos resultados como a

capacidade visual e de memória pode afetar um sujeito num contexto de avaliação

psicológica forense, seja como vítima, como arguido ou como testemunha.

Método
Participantes

Para a realização deste trabalho a amostra por conveniência foi composta por 1

participante do género feminino, com 29 anos de idade, licenciada e com vivência em

contexto urbano.

Instrumentos

O instrumento utilizado para a realização deste trabalho foi o Teste de cópia de

Figuras complexas, figura A (Anexo I).

Procedimento

Para dar início a este ensaio, foi explanado ao participante o que iria decorrer, para

que servia a prova, e quais as instruções que iria receber para boa execução da mesma,

foi fornecido ao participante um protocolo de consentimento informado (Anexo II). O

ambiente era calmo, composto por uma mesa e quatro cadeiras, onde nada mais se

encontrava na mesma além da prova e o material necessário para execução da mesma.

Foi apresentada a figura A e foi disponibilizada uma folha A5 na posição horizontal para

se proceder ao desenho de cópia. À medida que a participante ia desenhando foram-se

trocando os lápis de cor, consoante as imagens que desenhava. O tempo foi contabilizado

com um cronómetro de forma discreta. Terminada a primeira cópia. Fez-se uma pausa de

três minutos com um diálogo interativo para que a participante se abstraísse da prova.

Terminados os três minutos, foi colocada nova folha A5 em frente à participante para que

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a mesma pudesse reproduzir a figura de memória. À Semelhança da primeira prova

(cópia) foi feita a troca de lápis de cor bem como foi cronometrado o tempo sempre de

forma discreta. Não foi feita qualquer pressão sobre a pessoa relativamente a tempo, onde

esta determinou sempre em ambas as provas quando a mesma estaria terminada. Os

resultados e a figura foram apresentados à participante para ela poder observar o que fez

conforme sugerido pelo manual. Por fim agradeceu-se a colaboração para este trabalho.

As provas foram posteriormente analisadas e cotadas de acordo com a tabela de

normatização de dados Portugueses disponível no manual da prova.

Resultados

Após finda a prova e já na ausência da participante, foram recolhidas as figuras e

ambas analisadas. Puderam-se observar os resultados descritos de seguida.

Figura de cópia (Anexo III):

 Foram usadas as cores na seguinte ordem: preto, roxo, vermelho, azul, verde;

 Construção: IV – justaposição de detalhes

 Pontuação = 28 pontos

 Tempo de prova: 7 minutos;

Figura de memória (Anexo IV):

 Foram usadas as cores na seguinte ordem: verde, preto, roxo, vermelho;

 Construção: I – construção sobre a armação

 Pontuação = 18 pontos

 Tempo de prova: 6 minutos;

No Anexo V poderemos ver o desenho dividido em 18 unidades, com base nestas

unidades foi feita a cotação da prova, onde temos a seguinte pontuação: 0 pontos para

irreconhecível ou ausente, ½ ponto para deformada ou incompleta mas reconhecível e

10
mal situada, 1 ponto para correta e mal situada ou deformada ou incompleta mas

reconhecível e bem situada e 2 pontos para correta e bem situada.

Com base na aferição portuguesa podemos assim explanar os resultados da

seguinte forma: na figura de cópia nos tipos de cópia a participante em relação à idade

enquadra-se na percentagem de 25% e no percentil 25; relativamente à riqueza e exatidão

da cópia encontra-se no percentil 20; relativamente ao tempo de cópia encontra-se no

percentil 10; na figura de memória nos tipos de cópia a participante em relação à idade

enquadra-se na percentagem de 30% e no percentil 99; relativamente à riqueza e exatidão

da cópia encontra-se entre o percentil 50 e 40, relativamente ao tempo de cópia não existe

percentil pois o participante não tem tempo limite para executar a mesma.

Discussão

Como anteriormente definido por Lezak, (1995) a Figura de Rey é um instrumento

bastante utilizado para diagnosticar várias funções neuropsicológicas como as funções

executivas, o planeamento e a memória operacional. Também avalia a organização, o

planeamento, as habilidades de resolução de problemas bem como a memória imediata.

Apesar de já existirem mais formas de aplicação da prova, a mesma foi aplicada

conforme as normas de aplicação do manual da CEGOC-TEA, Lda.

A nível da memória visuo-construtiva verificou-se uma reprodução ligeiramente

satisfatória, como se pode observar no Anexo III, verificando-se alguma lentificação na

reprodução da mesma (tempo: 7; percentil 10). A participante integra os vários elementos

da imagem de modo a possibilitar uma construção o mais adequada possível mas em

forma de puzzle, onde omitiu poucos pormenores da figura. O desenho é iniciado por

detalhes sem traçado-base (cópia tipo IV), não tendo armação base para a sua reprodução,

este tipo é característico e dominante de crianças entre os 5 e os 10 anos, mas também

pode ser o tipo secundário dos adultos segundo Osterrieth, P.A. encontrando-se assim a

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participante na normatividade. Com base neste resultado e segundo Osterrieth, P.A.

podemos dizer que existe uma eventual insuficiência na apreensão percetiva.

Na reevocação de material visuo-construtivo o seu desempenho é superior à cópia

(Anexo IV), iniciando o desenho pela armação base (memória Tipo I) reevocando as

particularidades maiores da imagem seguindo-se dos detalhes englobados na armação e

dos restantes detalhes, teve alguma dificuldade na reprodução de memória omitindo

diversos pormenores da figura, mas encontra-se no percentil adequado para a sua idade.

Este resultado pode ser explicado por uma falta de atenção durante a execução da

tarefa, alguma distração, ou mesmo pelo facto da participante quando lhe estava a ser

explicada a prova ter partido automaticamente do princípio que tem fraca memória, onde

isso pode ter influenciado a sua dificuldade no armazenamento e recuperação da

informação. A participante assim que terminou a primeira figura ficou de imediato um

pouco ansiosa pois começamos logo um diálogo, esta assumiu de imediato que se ia

esquecer da imagem, verbalizando mesmo essa informação. Assim a sua preocupação

com a sua provável dificuldade em armazenar e recuperar informação pode ter funcionado

como variável espúria no armazenamento e recuperação da memória.

Na avaliação psicológica forense, é importante distinguir o olhar do direito e da

psicologia nas áreas da justiça.

Saber explicar perante a entidade que nos solicita a avaliação, como o sujeito

representa os acontecimentos vividos, agidos e na forma como este os transforma em

acontecidos, seja o avaliado vitima, agressor ou testemunha (Poiares, 2003).

O direito tem como base a produção da verdade única e inquestionável sobre o

acontecimento e sobre o sujeito, enquanto, para a psicologia uma dada verdade será

apenas uma hipóteses de trabalho, um instrumento que orienta a ação, mas que pode e

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deve ser revisto quando não se tornar útil ao trabalho do psicólogo (Machado &

Gonçalves, 2005).

Estas discrepâncias são verificadas quanto à analise da linguagem, ou seja, as

duas disciplinas têm olhares diferentes para os mesmos conceitos (e.g. culpa,

personalidade) e frequentemente os psicólogos forenses são chamados a avaliar

constructos que, pela sua própria natureza ou pelo entendimento que deles é feito,

extravasam o seu campo tradicional do saber (e.g.: perigosidade – característica

psíquica independente de causas patológicas) (Machado & Gonçalves, 2011).

Para o tribunal e para a lei, o arguido, a vítima ou a testemunha são tidos como

“entendidas unitárias “ (Gutheil, 1988), existindo dificuldades em entender ou aceitar as

ambiguidades e contradições que os psicólogos consideram inerentes ao ser humano

(Ros Plana, 1990).

Contudo verifica-se que cada vez mais é frequente, os psicólogos forenses serem

requisitados pelos tribunais, para poderem fazer a avaliação psicológica de um

determinado sujeito, estando em condição de arguido, vitima ou testemunha, ou seja, o

paradigma está a mudar. É importante mencionar que para o psicólogo forense, o cliente

é, em última instância o Tribunal ou o sistema judicial (Blackburn, 2006), ou seja, é

dever do mesmo atender em primeiro lugar às necessidades e interesses da justiça e do

tribunal.

Devido ao carácter coercivo da avaliação psicológica em contexto forense,

poderão existir problemas ao nível da cooperação e da veracidade das alegações dos

avaliados, principalmente no caso dos ofensores. É relevante mencionar que poderá

estar presente a mentira e a resistência, tendo, o psicólogo forense de criar estratégias

para as conseguir ultrapassar. Vários tipos de constrangimentos na avaliação

psicológica, poderão verificar-se em contexto de reclusão ou internamento,

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nomeadamente, no que concerne ao setting para a avaliação que frequentemente é

limitador, ou ainda quando o sujeito se encontra em estado depressivo ou em privação

de substâncias psicotrópicas, sendo nestes casos necessária a recolha cuidadosa da

história de vida do sujeito em conjunto com os seus outros significados para poder

ajudar o relato e a relativizar o seu estado atual (Matos, Machado & Gonçalves, 2011).

Um dos pontos fundamentais a referenciar é o risco de faltar validade ecológica

à avaliação psicológica causada pelo viés cultural em específico se a avaliação ocorrer

em âmbito de um processo penal. É importante mencionar que o viés cultural poderá ser

motivado pelas diferenças culturais ou mesmos pelas diferenças socioeconómicas

existentes entre os avaliados e os avaliadores o que poderá gerar dificuldades em

entender o ponto de vista do arguido sobre os alegados crimes, tais como tráfico de

droga considerado por este como um negócio igual a qualquer outro ou a sua

legitimação cultural do homicídio de “Honra”. Contudo, e em especial quando, para se

confirmarem as hipóteses avaliadas através da entrevista e da observação, surge a

necessidade de apresentar instrumentos psicométricos, constata-se que muitos arguidos

e vítimas vêm de meios socioeconómicos desfavorecidos e pouco escolarizados,

enviesando, por vezes, negativamente o resultado de várias provas aplicadas,

especialmente as que estão direcionadas a aptidões intelectuais (Matos, Machado &

Gonçalves, 2011).

Contrariamente ao atrás referido, a Figura Complexa de Rey, para além de

outras, tem as vantagens de ser facilmente aceite por indivíduos iletrados, tímidos,

inibidos ou com dificuldades de linguagem (Cegoc-Tea, Lda., 1988).

Tem como desvantagem a complexidade da figura.

Um dos grandes constrangimentos na aplicação de testes em contexto forense é a

escassez de provas aferidas para a população portuguesa, o que muitas das vezes

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suscitam problemas, já que, apesar de úteis e fiáveis na despistagem de constructos

psicológicos relevantes (e.g. inteligência, depressão, ansiedade) raramente

correspondem ao solicitado pelo tribunal (Matos, Gonçalves & Machado, 2011).

Segundo Otto e Heilbrum (2002), o psicólogo forense encontra-se na

circunstância paradoxal de “os instrumentos de avaliação melhor validados serem

frequentemente aqueles que são menos relevantes para as questões legais”. Por este

motivo Balckburn (2006) evidencia a importância de desenvolver instrumentos

psicológicos que meçam diretamente as questões legais sobre as quais os psicólogos são

chamados a dar parecer (e.g., sugestionabilidade, competências parentais, perigosidade).

O Psicólogo forense ao se decidir pela necessidade de aplicação da Figura

Complexa de Rey, tem como objetivo avaliar diversas funções cognitivas, perceber

determinados aspetos percetivos e caracterizar o tipo percetivo do sujeito, bem como o

tipo de apreensão efetuada, a forma como retém essa mesma perceção, a forma como a

processa no momento de cópia e no momento de memória, é importante perceber as

associações que ele faz para desenhar a figura de memória. Em contexto forense

perceber as alterações percetivas, pode permitir compreender alterações de

comportamento e de personalidade.

Outras das vantagens atribuídas a esta prova prende-se com o facto de poder ser

conjugada automaticamente com outros instrumentos de avaliação que irão permitir

confirmar o diagnóstico obtido. Assim, ao aplicar-se esta prova em simultâneo com a

Toulouse-Piéron, poderão ser detetados problemas na atenção, nomeadamente, a

hipertrofia “hiperprosexia” que impossibilita a atenção voluntária; a atrofia

“hipoprosexia” que se verifica na fraqueza do poder reflexivo do sujeito, ou seja,

incapacita também a atenção voluntária. Poder-se-á detetar sintomas de demência ou

loucura, idiotismo ou psicastenia, ou seja, funções cognitivas que se revelam pelo

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enfraquecimento da função do real, do poder de seleção ou síntese, que poderão ser

confirmados através da aplicação conjunta com a Wais. Quanto à memória, se for

efetuada uma aplicação conexa com a Escala Clínica de Memória de Wechsler –

Revista, poder-se-á confirmar o diagnóstico de Dismnésia, ou seja, incapacidade total de

fixar e conservar, a existência de Amnésia, onde são detetados esquecimentos (e.g.,

agnosias, apraxias, lesões cerebrais), Hipermnesias, em que o sujeito narra impressões

distantes e vagas com tanta nitidez como se fossem presentes, que poderá ser traduzida

por uma alucinação do passado e por último poderá ser detetada uma Paramnésia em

que o sujeito pensa já ter vivido aquilo que está a vivenciar pela primeira vez, fenómeno

a que se dá o nome de alucinação do presente. Existem ainda outras provas de

avaliação, como a Bender Gestáltico, ainda não aferida para a população portuguesa,

que para além de avaliar as mesmas funções que a Figura Complexa de Rey, ainda tem

como finalidade a avaliação de outras, nomeadamente as capacidades grafo-percetivas,

o desempenho motor com base na maturação incluindo fatores percetivos como o

movimento, a direção e o todo, encontrando-se assim ligada a diversas funções

cognitivas, tentando ainda perceber se existem perturbações na organização espacial.

Com a aplicação da Figura Complexa de Rey podem ser detetados também erros e

perturbações da perceção ou representação (Disgnosias), configurações deformadas,

imperfeitas, erros na perceção externa ou interna, resultando num sentimento de

despersonalização (Antunes, 2013).

É muito importante em Avaliação Psicológica Forense a conjugação de técnicas

de avaliação. Perante o sujeito que temos à frente, à medida que aplicamos a entrevista,

vamo-nos apercebendo das técnicas de avaliação necessárias para percebermos o sujeito

no seu Todo, e para melhor o explicarmos.

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Existem atualmente mais formas de aplicação deste instrumento de avaliação,

tornando a escolha de qual a melhor forma de aplicação sempre difícil. As versões e

autores existentes para administração da prova e cotação são: Rey (1941), RCFT & RT

(1995), BQSS (1949,1999) e DSS (1996). Com base nesta multiplicidade de versões,

levantam-se-nos algumas questões: Deve-se escolher o modo original da prova, ou

devem-se escolher as versões mais atualizadas de aplicação da prova? Existem estudos

feitos com mais aferições à população portuguesa, onde um deles encontra-se no livro

Instrumentos e Contextos de Avaliação Psicológica Volume I, estes estudos já são

aplicados com dois ensaios de evocação e não apenas um. Estas novas aplicações

referem que se deve aplicar a prova de cópia e memória, mas também aplicar uma

terceira vez para se averiguar a memória diferida, administrando assim a prova em 2

ensaios de evocação, sendo o primeiro de três minutos para avaliar a memória imediata

e o segundo para avaliar a memória diferida. A prova pode também ser aplicada com

vários lápis de cor ou toda apenas com uma única cor. Ao aplicar apenas com uma cor

não dificultará ao psicólogo a tarefa de análise da reprodução? Como se poderá saber

sem a aplicação das cores, como iniciou o sujeito a reprodução, quais os detalhes que

desenhou de seguida, qual a forma de reprodução da informação? Considerando as

formas de cotação existentes na prova original a não aplicação de lápis de cor torna

difícil esta tarefa.

Têm sido desenvolvidas propostas de análise qualitativa, relativamente à

estratégia e organização da reprodução por parte do sujeito como complemento da

avaliação quantitativa. As novas versões consideram a divisão da figura em três

elementos hierárquicos (configuração, agrupamentos e detalhes), cada um destes é

cotado de acordo com a sua presença, precisão e colocação no espaço. Todas estas

novas versões têm elevado grau de consistência interna e conseguem diferenciar os

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avaliados em diferentes grupos clínicos e grupos etários que com o modelo de

Osterrieth não é possível. Temos assim como uma grande desvantagem da versão

original, o sistema de avaliação da prova, sendo este demasiado vago, subjetivo e

complexo (Simões, R., Pinho, M., Lopes, A., Sousa, L. e Lopes, C, 2011).

Em contexto forense e uma vez que as provas de avaliação têm de constar nos

relatórios apresentados em tribunal, podemos sempre utilizar provas mais completas

mas teremos sempre de fundamentar os dados com provas aferidas para a população

portuguesa. Essa foi a principal razão que nos levou à escolha da Figura Complexa de

Rey para avaliação da atividade percetiva e da memória visual, bem como da

capacidade mnésica.

Este trabalho poderá servir como ponto de partida para pesquisas mais

aprofundadas sobre esta prova, bem como, se deixa a sugestão para que outros trabalhos

sejam efetuados com uma maior população de amostra, com o fim de se obterem

resultados mais vastos e fiáveis.

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REFERÊNCIAS

Antunes M.(2013). Psicologia Judiciária – Apontamentos. Petrony Editora

Caffarra, P.; Vezzadini, G.; Dieci, F.; Zonato, F. & Venneri, A. (2002). Rey-Osterrieth
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Anexo II

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Anexo III

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Anexo IV

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