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Texto elaborado a partir do artigo publicado:

EFKEN, P.H.O. (2017) A dimensão de domínio na constituição do ego. Revista


Subjetividades, Fortaleza, 17(1): 22-34, janeiro, 2017

1. Introdução

O presente trabalho foi gestado por uma inquietação de minha dissertação de

mestrado, onde abordei a crueldade sob uma perspectiva psicanalítica. Iniciei a pesquisa

percorrendo os indícios da crueldade na psicanálise freudiana e logo descobri que ela estava

estreitamente relacionada ao domínio: surgindo precisamente como produto da pulsão de

dominação. (Freud, 1905/2006, p. 181) Seguindo adiante, notei que tal pulsão teria primazia

não só no exercício da crueldade, mas também no autoerotismo (Freud, 1915/2014) e, muito

além de uma pulsão, constituía uma dimensão cuja extensão acompanha toda a obra de Freud.

No intuito de demonstrarmos a radicalidade do domínio na obra freudiana, elegemos a

constituição do ego como mote, pois é no narcisismo que o ego é edificado através do

investimento originário próprio a esta operação. O narcisismo é fundado em uma relação de

domínio onde a onipotência da sua majestade o bebê é apenas um principado do imperial

desejo dos pais. São os cuidados, o olhar, e o ato de nomear que vão delimitar o narcisismo

primário da pequena majestade.

É também sob o império do desejo do Outro da cultura que o ego ideal, base do

narcisismo primário, deverá se submeter às exigências dos ideais do ego como forma de

sustentar o trono narcísico que o fundou. O narcisismo assinala a emergência de um Ego

calcado na relação de domínio com a alteridade e, não por acaso, Freud também nos diz, logo

no início do artigo “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914/2006 p. 92), que o aparelho

psíquico estaria “acima de tudo [...] destinado a dominar as excitações que de outra forma
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teriam efeitos patogênicos.” Essa passagem destaca a dimensão de domínio como primordial

ao aparelho psíquico que parece ser ontologicamente marcado para dominar a si próprio.

Veremos que essa perspectiva é ecoada ao longo da obra de Freud, onde a primeira

referência clara ao domínio está nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”

(1905/2006), pelo fio desta obra percorreremos seus desdobramentos. Em nosso percurso,

indicaremos que a dimensão de domínio está, desde o princípio, e ao longo de todas as suas

vicissitudes, atrelada à polaridade atividade/passividade, demarcando que tornar-se ativo

diante das experiências vividas passivamente parece ser uma necessidade ontológica que

nasce com todo ser humano: do contato instintivo com o mundo externo, passando pela

emergência do domínio pulsional até o ponto em que o Eu ascende ao registro simbólico, a

questão de assenhorear-se das experiências está sempre presente.

Domínio biológico  Domínio Pulsional  Domínio do

simbólico/domínio da razão

2. Atividade/passividade: a substância da dimensão de domínio na

metapsicologia freudiana.

É no tópico dedicado ao “Sadismo e Masoquismo”, nos “Três ensaios” (Freud

1905/2006), que o domínio é apresentado pela primeira vez. O destaque do tópico é dado à

correspondência do par sadismo/masoquismo com a polaridade atividade/passividade. O

masoquismo estaria ao lado da passividade e o sadismo, da atividade; contudo, o caráter

especular desta perversão impõe pensar a dominação como essencial tanto ao sádico quanto

ao masoquista.
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De acordo com Freud, o sádico é sempre, e ao mesmo tempo, um masoquista e o

masoquismo, por sua vez, não é outra coisa senão uma continuação do sadismo que se volta

contra a própria pessoa. (Freud, 1905/2006, p. 150) Portanto, a dimensão de domínio,

fundada na polaridade atividade/passividade, revela-se basilar à relação sadomasoquista, em

uma lógica onde a dominação/sujeição do sujeito/objeto teria caráter privilegiado para o

domínio do capital pulsional.

No pensamento freudiano, o caráter fundamental do domínio no sadomasoquismo nos

remete, necessariamente, ao seu caráter originário na vida psíquica, pois as elaborações

teóricas freudianas acerca da vida sexual adulta são fundamentadas em experiências sexuais

infantis que teriam caráter originário e universal, ou seja, as fases do desenvolvimento sexual

infantil são parte do desenvolvimento de todo ser humano, mas cada indivíduo viverá estas

fases de maneira singular, de modo que a influência de cada fase ao modo de funcionamento

psíquico de cada sujeito varia de acordo com a história pessoal de cada um.

Seguindo a trilha do sadismo, veremos que o domínio se faz presente desde o início,

se fazendo notar na fase oral e ganhando proeminência na fase anal, uma vez que, como

destacam Laplanche & Pontalis (1986/1967, p. 417-418), na passagem de uma organização

libidinal à seguinte, a fase anterior é integrada à que a sucede.

De tal modo, é válido salientar que, no artigo “A disposição à neurose obsessiva”

(Freud, 1913/2006, p. 346), Freud trata da correspondência entre o sadomasoquismo e o

erotismo anal, uma vez que este transcorre sob a égide da pulsão de domínio, revelada pelo

prazer associado à atividade do esfíncter que excita esta zona então erogeinizada. Nesse

momento, a criança começa a desenvolver sua atividade muscular e, conforme defende

Gantheret, (1981, p.109-110), o prazer associado à estimulação da mucosa intestinal se

estende por toda a musculatura que passa a gozar da dominação e oferece os meios ativos

para manter este gozo. A pulsão de domínio, inscrita na polaridade atividade/passividade, se


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faz notar na experiência de controle ativo, sobre o conteúdo fecal, atravessada pelo prazer

passivo decorrente da estimulação de uma zona erógena.

Todavia, como dissemos, a dimensão de domínio já se fazia presente na fase anterior e,

ainda no “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, também no tópico “Sadismo e

Masoquismo”, as origens do sadismo são relacionadas ao fato de que a agressividade e a

pulsão sexual estão desde muito cedo mescladas, em virtude de resíduos de desejos

canibalísticos, os quais trariam uma coparticipação de um “aparelho de dominação” que

atenderia a uma necessidade ontogeneticamente mais antiga. (Freud, 1905/2006, p. 150-151).

O que podemos extrair destas afirmações um tanto enigmáticas?

Cabe, antes de mais nada, destacar que o sadismo consiste em um prazer sexual na

atividade de domínio sobre o objeto e os desejos canibalísticos nos remetem à organização

oral, que é canibalesca porque, neste momento, a atividade sexual mal se separa da nutrição

(Freud, 1905/2006, p. 150-151). Mas o que seria este “aparelho de dominação”? Na anatomia

geral, o termo aparelho denomina um conjunto de órgãos, ou partes de um órgão, que

concorrem para uma mesma função que, nesse caso, seria a dominação em favor de uma

necessidade ontogeneticamente mais antiga.

Duas afirmações de Freud, retiradas do artigo “As pulsões e seus destinos”, nos ajudam

a esclarecer o sentido do que vem a ser este “aparelho de dominação” em sua relação com a

oralidade. Em tal artigo, afirma-se, primeiro, que “o objeto é levado do mundo externo ao

Eu, inicialmente, pelas pulsões de autopreservação” (1915/2014, p. 55) e, posteriormente, na

segunda afirmação a ser ressaltada, vemos uma alusão à dimensão de domínio quando, ao

tratar das polaridades que regem a vida psíquica, Freud afirma que a polaridade atividade-

passividade tem caráter biológico. (1915/2014, p. 63)

Como vimos acima, o sadismo nos fala de uma atividade sexual cujas origens remetem

à organização oral em um período em que a necessidade de nutrição mal se diferencia da


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atividade sexual; já o aparelho de dominação nos fala de um conjunto de órgãos regidos pela

finalidade de dominar em prol da satisfação de uma necessidade ontogeneticamente mais

antiga. Nessas condições, podemos pensar que a necessidade ontogeneticamente mais antiga

seria a nutrição, a qual revela a pulsão de autoconservação, que é anterior à pulsão sexual e

leva a criança a trazer o objeto para o Eu através de seu, biologicamente determinado,

“aparelho de dominação”.

Nesse sentido, o “aparelho de dominação” teria uma determinação biológica, própria à

vida humana, cujo logos seria atravessado pela dimensão de domínio. Contudo, se,

originalmente, é possível estabelecer uma natureza biológica do domínio, que, assim

colocado, se aproximaria de um instinto, veremos que este é imediatamente convocado a

trabalhar ao lado da sexualidade pelo fato de a satisfação da necessidade, relativa à

autopreservação, ser logo erotizada. A partir de então, o limite entre o instintual e o pulsional

se extrapola e o domínio do psíquico ultrapassa o domínio do biológico com a emergência da

pulsão.

2.1 A emergência do domínio pulsional.

Encontramos esclarecimentos acerca de como este “instinto de domínio” é convocado

a trabalhar ao lado da sexualidade quando Freud (1905/2006a, p. 171), ainda nos três ensaios,

nos fala do chuchar como a busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado, uma vez

que a primeira e mais vital das atividades das crianças – mamar no seio – a familiarizou com

esse prazer:

É dito que a transformação dos lábios da criança em zona erógena está associada à

necessidade de alimento. Ou seja, a atividade sexual apoia-se, primeiramente, numa das

funções que servem à preservação da vida, e só depois torna-se independente dela; A


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necessidade de repetir a satisfação sexual dissocia-se então da necessidade de absorção de

alimento.

Trata-se da montagem de um circuito pulsional iniciada pela atividade do recém-

nascido que – por meio de seu instinto de domínio – vai à busca do objeto externo que lhe

oferece um além do leite, uma “vivência de satisfação” que virá se inscrever enquanto traço

mnêmico a ser evocado na ausência do objeto como experiência alucinatória. (Freud,

1950/2006) Tal operação nos fala dos primeiros passos do aparelho psíquico, que começa a

ascender do registro biológico ao pulsional. A experiência alucinatória de satisfação já nos

encaminha para o autoerotismo como atividade de domínio que trabalhará na incorporação do

corpo pulsional.

2.2 Autoerotismo como autodomínio

Com efeito, o autoerotismo surge na esteira da experiência alucinatória de satisfação

como uma nova vicissitude do domínio. Conforme nos diz Freud, ainda nos Três ensaios, na

atividade autoerótica: [...] “A criança não se serve de um objeto externo para sugar, mas

prefere uma parte de sua própria pele, porque isso lhe é mais cômodo, porque a torna

independente do mundo externo, que ela ainda não consegue dominar” (Freud, 1905/2006, p.

171. Grifo nosso).

Trata-se da apropriação das experiências de caráter erótico vividas pelos cuidados

maternos, ou seja, uma experiência marcada pela passividade potencializa a atividade do

aparelho psíquico que começa a se incorporar, a se apropriar do corpo, e de si próprio, na

medida em que as experiências de satisfação com o objeto externo são nele atualizadas,

tornando-se, ele mesmo, sujeito e objeto em uma experiência atravessada pela

atividade/passividade; isto é, a atividade autoerótica é permeada pela reflexividade, como


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sugere a imagem dos lábios que beijam a si mesmos – modelo ideal do autoerotismo segundo

Laplanche e Pontalis (1967/1986, p. 80) – onde atividade/passividade se encontram, pois os

lábios que exercem a atividade também gozam passivamente, sendo, portanto, sujeito e

objeto simultaneamente.

O caráter reflexivo do autoerotismo, em seu trabalho de apropriação do corpo, coloca a

dimensão de domínio em primeiro plano e impõe aprofundá-la em sua relação com o

narcisismo, uma vez que o mito de narciso traz necessariamente a ideia de espelho, o reflexo

da imagem de narciso, tal como a atividade reflexiva das pulsões autoeróticas: “O auto-

erotismo seria, pois, a atividade sexual do estádio narcísico da distribuição da libido.” (Freud,

1917[1916-1917]/2006f, P. 417), tal como diz Freud na conferência XXVI, intitulada “A

teoria da libido e o narcisismo”

2.3 Domínio e Narcisismo

Pensar a organização narcisista é pensar necessariamente a alteridade na constituição do

ego. A dimensão de domínio atravessa a organização narcisista na medida em que é,

sobretudo, sob o domínio do outro que o trabalho de apropriação subjetiva se realiza. A

constituição do ego-ideal, como efeito de um investimento originário do ego, é tributária da

projeção do narcisismo dos pais à sua majestade o bebê (Freud, 1914/2006b), o que

pressupõe que o desejo de ter um filho perfaz um projeto a ser transmitido ao recém-nascido

que, por sua passividade, presta-se perfeitamente a realizá-lo.

Os cuidados ofertados ao bebê trazem consigo este projeto – do desejo dos pais – que é

primeiramente transmitido a nível sensório, uma vez que “as mães conhecem bem os prazeres

de pele do bebê – e os seus – e, com suas carícias e brincadeiras, elas os provocam

deliberadamente”, diz Anzieu (1988, p. 60), transmitindo assim mensagens sensoriais


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próprias à relação singular que ali se estabelece. A reflexividade da atividade autoerótica

reflete tais mensagens oriundas dos cuidados do outro. O “autodomínio” do autoerotismo se

dá sob o domínio do outro que cobre o autoerotismo da criança, instaurando uma

especularidade sensorial essencial ao investimento originário do ego que potencializa a

organização narcisista.

Nesse momento, estamos no registro de um Eu fundamentalmente corpóreo que se

desenvolve sob o primado do prazer, o que faz todo sentido quando o prazer é pensado como

referente existencial, como aquilo que nos permite habitar o corpo, torná-lo habitável à

medida que é prazeroso. (Green, 2000) Trata-se da instauração do domínio do princípio do

prazer, operada pela atividade reflexiva do autoerotismo como força que potencializa o

sentimento de existir, sendo esta a sua ação positiva que vem a agenciar o investimento

originário, estruturante do narcisismo.

Haveria, nessa perspectiva, um espelho de dupla face na configuração da unidade

egóica, pois o reconhecimento do corpo, a ser descoberto na atividade autoerótica, implica

tanto no olhar do outro quanto na conquista de um domínio próprio alcançado pelas

experiências sensoriais. Há um corpo projetado de dentro, a partir do sentimento corporal,

que encontra o reflexo totalizante no olhar do outro.

Segundo Bleichmar (1985) é o olhar fascinado dos pais que configura o ego-ideal –

um dos sentidos de fascinar é dominar com o olhar (Dicionário Hoauiss, 2001) – é sob o

domínio do olhar do outro que o sujeito é capturado em uma imagem que dá forma ao seu

ego-corpóreo ainda fragmentado, sendo este o algo de novo a ser aduzido ao autoerotismo, a

nova ação psíquica para dar forma ao narcisismo (eine neue psychische Aktion, um den

Narzissmus zu gestalten (Freud, 1914/1924, p. 7) que assim esboça uma unidade.

É a imagem que fascina, é pela imagem de seu corpo que Narciso se apaixona, sendo

pela imagem idealizada do olhar dos pais que o ego-corpóreo pode ser apreendido como
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unidade. O júbilo da criança diante de sua imagem unificada é reflexo do olhar fascinado dos

pais, o qual veicula os cuidados a ela ofertados, signo da segurança necessária à continuidade

de sua organização narcísica.

A habitual brincadeira dos pais que cobrem o rosto com as mãos e depois, para a

alegria da criança, o descobrem, diz respeito a tal júbilo, o júbilo daquele que se descobriu no

olhar deste outro significativo, cujo desaparecimento, então, não é mais vivido como

angustiante, uma vez que as experiências de prazer advindas dos cuidados do outro já foram

introjetadas e convertidas em fonte de bem estar e segurança; já existe, portanto, a esperança

que possibilita ao sujeito manter sua integridade narcísica fora deste olhar.

A esperança possibilita a brincadeira e anuncia a entrada da criança no universo

simbólico, sendo este o caminho de libertação do domínio absoluto do outro para a ascensão

de um domínio próprio. Sob o domínio do simbólico a frágil unidade egóica esboçada na

imagem pode ganhar consistência através da palavra. É a palavra que nomeia o sujeito e

ratifica sua unidade, pois quando se diz “Tu és Bernardo”, “Tu és Alice”, o nome com que se

designa o sujeito fala dele como se fosse uma unidade a partir da qual se vinculam os seus

atributos singulares. (Bleichmar, 1985)

É neste registro simbólico que o sujeito encontra o reconhecimento em um universo

mais amplo, no plano cultural, condição de possibilidade para sua inserção no social, o que

abre o horizonte para um domínio mais abrangente, para além das relações com os outros

significativos que marcaram o seu narcisismo primário que deve agora ascender a um

narcisismo secundário. (Freud, 1914/2006)

2.4 Sob o domínio do simbólico


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A dimensão do domínio, atrelada ao simbólico, configura a “grande realização

cultural” que, segundo Freud, seu neto realizara com o jogo do Fort Da, a partir dela pôde

elaborar psiquicamente a ausência de sua mãe e, assim, suportá-la sem protestar. (Freud,

1920/2006g, pp. 26-27). Freud descreve seu neto como um “bom menino” que desenvolve

um hábito “perturbador”, um jogo de fazer aparecer e desaparecer, no qual atira longe um

carretel emitindo um longo e arrastado ‘o-o-o-o’ (fort/foi), para depois puxá-lo de volta

saudando seu reaparecimento com um alegre ‘da’ (ali). Este jogo era realizado repetidamente

com um contentamento que atingia seu ápice no momento do retorno do carretel.

A capacidade de representar a partida e retorno da mãe através da brincadeira de jogar

longe e trazer de volta o carretel, acompanhada dos signos linguísticos Fort e Da, diz respeito

à negatividade da ausência materna como condição de possibilidade à positividade de um

domínio crescente, relativo à transformação do aparelho psíquico que dá os primeiros passos

no sentido da simbolização.

A interpretação que Freud (1920/2006g, p. 27) nos oferece a esse jogo radicaliza a

hipótese de uma pulsão de domínio, independente do princípio do prazer, que atua em prol da

apropriação das experiências de passividade. A criança, inicialmente, em uma situação

passiva, era dominada pela experiência angustiante; repetindo-a em jogo, porém, assumia

papel ativo, no caso, com o jogo do carretel foi possível, simbolicamente, assumir o domínio

sobre a presença e ausência da mãe.

Seguindo esta interpretação, no artigo “A sexualidade feminina” (Freud, 1931/2006),

vemos Freud afirmar a primazia da dimensão de domínio em um fragmento que é, até onde

sei, o mais substancial no tocante a este assunto. Freud enfatiza claramente que a passagem

da passividade para a atividade é uma tendência que, desde os primórdios da vida psíquica,

ocupa lugar central no psiquismo, segundo ele:

[...] Pode-se facilmente observar que em todo campo de experiência mental, não
simplesmente no da sexualidade, quando uma criança recebe uma impressão passiva,
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ela tende a produzir uma reação ativa. Tenta fazer ela própria o que acabou de ser
feito a ela. Isso faz parte do trabalho que lhe é imposto de dominar o mundo externo e
pode mesmo levar a que se esforce por repetir uma impressão que teria toda razão
para evitar, por causa de seu conteúdo aflitivo.
Também o brinquedo das crianças é realizado para servir ao fim de
suplementar uma experiência passiva com um comportamento ativo, e desse modo,
por assim dizer, anulá-la. Quando um médico abre a boca de uma criança, apesar da
resistência dela, para examinar-lhe a garganta, essa mesma criança, após a partida
daquele, brincará de ser o médico ela própria e repetirá o ataque com algum irmão ou
irmã menor que esteja tão indefeso em suas mãos quanto ela nas do médico. Temos
aqui uma revolta inequívoca contra a passividade e uma preferência pelo papel ativo.
As primeiras experiências sexuais e sexualmente coloridas que uma criança
tem em relação à mãe são, naturalmente, de caráter passivo. Ela é amamentada,
alimentada, limpa e vestida por esta última, e ensinada a desempenhar todas as suas
funções. Uma parte de sua libido continua aferrando-se a essas experiências e desfruta
das satisfações e elas relacionadas: outra parte, porém, esforça-se por transformá-las
em atividade. Em primeiro lugar, a amamentação ao seio dá lugar ao sugamento ativo.
Quanto às outras experiências, a criança contenta-se quer em se tornar auto-suficiente
- isto é, executando com ela própria com sucesso o que até então fora feito para ela -,
quer em repetir suas experiências passivas, sob forma ativa, no brinquedo (Freud,
1931/2006, pp. 244-245)

Essa passagem é a síntese do que buscamos mostrar no presente trabalho. Isto é, ao

longo da teorização freudiana, o movimento de assenhorear-se das experiências vividas

passivamente com o objeto, como condição para apropriar-se de si, se faz sempre presente, da

experiência alucinatória de satisfação até os estágios onde o ego já ascendeu ao registro

simbólico. Quando, em 1920, é enunciada a hipótese de “que o impulso para elaborar na

mente alguma experiência de dominação, de modo a tornar-se senhor dela, pode encontrar

expressão como um evento primário e independente do princípio de prazer” (Freud,

1920/2006g, p. 27), a primazia da dimensão do domínio no psiquismo, que já se fazia notar

desde os “Três ensaios”, é claramente afirmada.

3. Considerações finais

Os elementos apresentados não implicariam situar a metapsicologia freudiana no

horizonte da modernidade? Esta ontológica revolta inequívoca contra a passividade e uma


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preferência pelo papel ativo, em prol do domínio do mundo externo/interno, diz respeito a

uma verdade universal acerca da infância e, por extensão, do psiquismo humano, ou de um

Freud iluminista? Algumas de suas afirmações, no tocante à técnica psicanalítica, só reforçam

a interpretação de um Freud iluminista.

Com efeito, em 1905, no registro da primeira tópica, no artigo “Sobre psicoterapia”

(1905 [1904]/2017), é estabelecido que a cura psicanalítica consiste na tomada de consciência

de processos anímicos inconscientes que são a causa dos sintomas psicopatológicos. Tal

concepção é reeditada no horizonte da segunda tópica quando, em “O ego e o id”, Freud nos

diz que a psicanálise é um instrumento que capacita o ego a conseguir uma progressiva

conquista do Id.” (Freud, 1923/2006, p. 68)

Tornar consciente o inconsciente ressalta a dominância da representação como

caminho para a cura psicanalítica, a talking cure, ou cura pela fala, pelo discurso racional; No

mesmo sentido, a progressiva conquista do Id, sede das pulsões, nos fala do domínio das

paixões pela razão. Wo es war soll ich werden (Freud, 1923/2006), onde estava o isso, deve

advir o eu, estabelecendo sua soberania racional sobre as paixões ameaçadoras que devem ser

dominadas para o correto funcionamento do aparelho psíquico.

Nestas condições, se é verdade que a psicanálise representa a terceira ferida narcísica

infligida à humanidade, também é verdade que ela representa a sua cura. Me parece que a

psicanálise freudiana destitui a soberania da razão na mesma medida em que oferece uma

promessa de restituição, através de seu método de conquista dos territórios livres da

consciência racional.
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Referências

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