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Volume 28, número 2

CADERNOS Julho a dezembro de


DE 2013

ESTUDOS ISSN 0102-4248


SOCIAIS
TEMAS LIVRES
A ANTROPOLOGIA NO ENSINO MÉDIO:
UMA ANÁLISE A PARTIR DOS LIVROS DIDÁTICOS12

Amurabi Oliveira3

Resumo

O presente trabalho visa realizar uma reflexão em torno do Ensino da


Antropologia no Ensino Médio, que se dá por meio da disciplina de Sociologia no
Ensino Médio, sintetizada principalmente através do conceito de Cultura. Partiremos
para a realização de nossa análise dos Livros de Sociologia selecionados pelo Plano
Nacional do Livro Didático (PNLD). Cabe-nos aqui uma crítica à redução da discussão
da Antropologia ao conceito de cultura, bem como à marginal posição que esta ciência
ocupa na discussão mais ampla elaborada no Livro Didático de Sociologia.
Palavras-chave: Ensino de Antropologia. Ensino de Ciências Sociais no Ensino Médio.
Antropologia da Educação.

The Anthropology in High School: an analysis from the textbooks

Abstract
This study reflects on the Teaching of Anthropology in High School, which is
through the discipline of Sociology in high school, mainly synthesized through the
concept of culture. We will use for our analysis the books of Sociology selected by the
Plano Nacional do Livro Didático [National Plan for Textbooks (PNLD)]. It behooves
us a critique here to the reduction of the discussion of the Anthropology to the concept
of culture as well as the marginal position which this science occupies the wider
discussion elaborated in Textbook of Sociology.
Key Words: Teaching Anthropology. Teaching of Social Sciences in High School.
Anthropology of Education.

Antropología de la educación secundaria: un análisis de los libros educativos

Resumen

Este trabajo tiene como objetivo llevar a cabo una reflexión sobre la enseñanza
de la Antropología en la escuela, que ocurre a través de la disciplina Sociología en la
escuela secundaria, sintetizada principalmente a través del concepto de cultura. Nos
vamos a llevar a cabo el análisis de los libros de Sociología seleccionados por el Plano
Nacional do Livro Didático [Plan Nacional de Libros Didácticos (PNLD)]. Hacemos
aquí una crítica de la reducción del concepto de la discusión de la Antropología al
concepto de cultura, así como la posición marginal que esta ciencia ocupa el debate más
amplio elaborado en los libros didácticos de sociología.

1Uma versão preliminar deste trabalho foi apresentada durante a IX Reunião de Antropologia do
Mercosul, junto ao GT: Etnografias e Culturas Escolares no Mundo Ibero Latino Americano.
2
Para citar este artigo: OLIVEIRA, Amurabi. A Antropologia no ensino médio: uma análise a partir dos
livros didáticos. Cadernos de Estudos Sociais, Recife, v.28, n. 2, p. 01-23, jul/dez, 2013. Disponível em:
< http://periodicos.fundaj.gov.br/index.php/CAD>. Acesso em: dia mês, ano. [v. em edição].
3
Licenciado e Mestre em Ciências Sociais (UFCG), Doutor em Sociologia (UFPE). Professor da
Universidade Federal de Alagoas, atuante em seu Programa de Pós-Graduação em Educação.

A ANTROPOLOGIA NO ENSINO MÉDIO


Amurabi OLIVEIRA
CADERNOS DE

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SOCIAIS
Volume 28, número 2, julho/dezembro de 2013

Palabras clave: Enseñanza de Antropología. Enseñanza de las Ciencias Sociales en la


escuela secundaria. Antropología de la educación.

[3]
INTRODUÇÃO

Ao refletirmos sobre a Antropologia, ao menos dentro da tradição acadêmica instaurada


no Brasil, inevitavelmente nos remetemos ao conceito de Cultura, tendo em vista que esta
ciência que se desenvolve ligada a esta categoria (KUPER, 2002; LARAIA, 2007).
Desde Tylor (2005) que buscou defini-la como um conjunto de hábitos, leis, costumes
etc., passando por Malinowski (2009) que almejou elaborar uma teoria científica da
Cultura, ou mesmo por Lévi-Strauss (2003) que a definiu como tudo aquilo que não é
natureza, este conceito mostrou-se central para a formulação e delimitação do campo da
Antropologia, pois como nos coloca Sahlins (1997, p. 41):

A "cultura" não tem a menor possibilidade de desaparecer enquanto objeto


principal da antropologia – tampouco, aliás, enquanto preocupação
fundamental de todas as ciências humanas. É claro que ela pode perder, e já
perdeu, parte das qualidades de substância natural adquiridas durante o longo
período em que a antropologia andou fascinada pelo positivismo. Mas a
"cultura" não pode ser abandonada, sob pena de deixarmos de compreender
o fenômeno único que ela nomeia e distingue: a organização da experiência
e da ação humanas por meios simbólicos. As pessoas, relações e coisas que
povoam a existência humana manifestam-se essencialmente como valores e
significados – significados que não podem ser determinados a partir de
propriedades biológicas ou físicas.

Em meio a este debate intelectual Elias (1994) realizou uma breve digressão
focando nos conceitos de Cultura e Civilização, especialmente nas línguas francesa e
alemã durante o século XVIII. Segundo o autor, para os alemães, civilização,
Zivilisation, significava algo útil, ao passo que para os franceses estaria relacionada ao
“orgulho pela importância de suas nações para o progresso do Ocidente e da
humanidade”, podendo se referir ainda a fatos políticos, econômicos, religiosos, morais
ou técnicos.
No que tange ao termo Kultur, este se referiria ao orgulho em suas próprias
realizações e no próprio ser, aludindo a fatos intelectuais, artísticos e religiosos,
excluindo assim, fatos econômicos, políticos e sociais. Acerca da distinção entre
Zivilisation e Kultur o autor nos esclarece que:

Enquanto o conceito de civilização inclui a função de dar expressão a uma


tendência continuamente expansionista de grupos colonizadores, o conceito
de Kultur reflete a consciência de si mesma de uma nação que teve de buscar
e constituir incessante e novamente suas fronteiras, tanto no sentido político

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como espiritual, e repetidas vezes perguntar a si mesma: ―Qual é,


realmente, nossa identidade? A orientação do conceito alemão de cultura,
com sua tendência à demarcação e ênfase em diferenças, e no seu
detalhamento, entre grupos, corresponde a este processo histórico (Ibidem,
p.25).

O conceito de Cultura, neste sentido, amplia o que a ideia de civilização traria


em sua gênese. Enquanto o conceito francês e inglês de civilização refere-se a fatos
materiais e a comportamentos humanos, o conceito de Kultur faz referência a
“comportamento”, ou ao valor que a pessoa tem pela sua própria existência, é segundo
Elias, muito secundário. O que o conceito descreve são determinadas produções
humanas, em especial, as de ordem espiritual, mais do que o valor da pessoa.
Outro profícuo debate em torno da Cultura envolveu alguns estudiosos da Escola
de Frankfurt, Adorno e Horkheimer (1985), possuindo como marco exponencial para tal
discussão a obra “A Dialética do Esclarecimento” (Dialektik der Aufklärung), na qual
foi debatido o conceito de Indústria Cultural (KulturIndustrie), marcada por uma
apropriação do capitalismo da cultura, convertendo-a em mercadoria.
No âmbito específico da Antropologia a escola conhecida como culturalista
trouxe substanciais avanços, como a distinção estabelecida entre raça e cultura realizada
por Boas (2004), bem como a busca pelo combate aos determinismos biológico e
geográfico. Dentre seus epígonos destacam-se as antropólogas Ruth Benedict que em
Padrões de Cultura (1983) buscou analisar a realidade a partir de um padrão mais
“macropsicológico”, visando identificar a configuração da “personalidade” coletiva da
cultura, do mesmo modo Mead (2004) se ateve à análise das formas como dada
configuração de personalidade se construía socialmente. A partir dessa escola o
relativismo cultural populariza-se, ainda haja inúmeros embates em torno da pertinência
e aplicabilidade do conceito, pois como nos coloca Geertz (2001) o relativismo cultural
não pode ser entendido como niilismo.
Em todo o caso a definição da Cultura parece sempre algo desafiador, em uma
das interpretações mais difundidas no campo da Antropologia Geertz (1989) elaborou
uma conceituação que ele assume como “semiótica”, partindo dos pressupostos
lançados por Weber, ele assume a cultura como uma teia de significados, tecida pelo
próprio homem. A definição de Geertz remete nitidamente a uma matriz hermenêutica,

[5]
através da qual se busca compreender a ação humana por meio do contexto no qual se
insere, no caso, através da visceral relação em termos compreensivos que se estabelece
entre as partes e o todo, como nos aponta Dilthey (2010).
Muito sinteticamente apontamos aqui alguns expoentes neste debate, ainda que
haja enésimas outras discussões que partem das teorias acima expostas, em todo o caso,
cabe ressaltar que esta discussão que historicamente tem adentrado no espaço escolar de
forma bastante marginal possui hoje, ao menos teoricamente, um lugar para sua
discussão, por meio do Ensino de Sociologia no Ensino Médio, que deveria garantir em
verdade espaço para o Ensino das Ciências Sociais, incluindo aí a Antropologia e a
Ciência Política.4
Buscaremos no decorrer desse texto problematizar o ensino de Antropologia na
Educação Básica, que se dá por meio da disciplina Sociologia5, e tem se substanciado
principalmente através do conceito de Cultura no Ensino Médio, que tomaremos como
fio condutor dessa discussão, para tanto partimos dos Livros Didáticos de Sociologia
selecionados pelo Plano Nacional do Livro Didático – PNLD6, bem como do
documento referente à avaliação de tais livros, para analisar como esse conceito tem
sido apresentado.

O ENSINO DE ANTROPOLOGIA NO ENSINO MÉDIO

Cabe-nos antes de avançarmos na discussão realizar alguns esclarecimentos em


torno da relação entre o Ensino de Antropologia e o Ensino Médio no Brasil, afinal, esta
ciência inexiste enquanto componente curricular7, todavia, seu ensino é garantido por

4Não nos interessa nesse momento aprofundar o debate em torno do conceito de Cultura, este é tomado
como fio condutor dessa discussão, por compreendermos que é por meio dessa categoria que a
Antropologia “aparece” no Ensino de Sociologia no Ensino Médio, ainda que de maneira residual e
dispersa. De forma mais contundente trata-se aqui de elaborar uma crítica a forma como a Antropologia
tem figurado no Ensino de Sociologia.
5Cabe ressaltar que no nível universitário a formação acadêmica no campo das Ciências Sociais se dá
através da articulação entre a Antropologia, Ciência Política e Sociologia, todavia, os limites existentes
entre essas ciências no nível superior não coincidem com os limites existentes dentro da disciplina de
Sociologia na Educação Básica.
6Esse programa surge em 1985 enquanto política pública, no qual o governo federal centraliza o
planejamento, avaliação, compra e distribuição do livro escolar para a maioria dos alunos da educação
básica no Brasil, tendo sido o programa ampliado progressivamente, e a partir de 2003 passou a abarcar
além do ensino fundamental o ensino médio (CASSIANO, 2007).
7Pontualmente algumas escolas de formação de professores de nível médio (escola normal) existentes
contam com a Antropologia em seus currículos, como em Alagoas, todavia, no Ensino Médio regular em
nível nacional essa disciplina não consta no currículo.

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meio da disciplina de Sociologia, reintroduzida no Ensino Médio através da lei nº


11.684/08.
Devemos ter em mente que o Ensino de Sociologia na escola possui uma história
que remete ao final do século XIX, e de forma mais enfática anos 20 do século passado,
período anterior à criação dos cursos de Ciências Sociais no Brasil 8. Considerando tal
questão, devemos reconhecer que:

O fato é que tradicionalmente nossos cursos de graduação foram organizados


e intitulados de Ciências Sociais e nos currículos do Ensino Médio e dos
cursos profissionalizantes a Sociologia tem logrado espaço como disciplina.
Quando o Governo Militar criou os Estudos Sociais, justificando que essa
área contemplava os conhecimentos de Antropologia, História, Geografia,
Economia e Sociologia, contribuiu para aprofundar os problemas de
definições e denominações científicas, disciplinares e profissionais. Sem
dúvida que, quando iniciamos levantamentos sobre o ensino de Sociologia
na escola secundária, imediatamente nos deparamos com esses desafios
tendo que criar critérios de definições para poder eleger os documentos,
conteúdos e disciplinas que consideraremos referentes às Ciências Sociais
e/ou à Sociologia especialmente (SILVA, 2010, p. 18).

Portanto, quando nos referimos ao Ensino de Sociologia na Educação Básica9


nos remetemos ao Ensino de Ciências Sociais, dentro dos limites da tradição acadêmica
que se instaurou no Brasil a partir dos anos de 1930, abrigando também a Antropologia
e a Ciência Política10. Neste cenário aqueles que buscam uma formação em nível de
graduação na Antropologia devem recorrer aos cursos de Ciências Sociais11, nos quais,
por vezes, encontrarão um bacharelado com habilitação em Antropologia.
Estas questões remetem à gênese das Ciências Sociais no Brasil, cujas primeiras
experiências em termos institucionais no Ensino Superior ocorreram em São Paulo
(MICELI, 1989), ainda que houvesse em período anterior, nos anos de 1920, vários

8Para uma melhor análise do histórico das Ciências Sociais na Educação Básica vide os trabalhos de
Santos (2004), Silva (2007, 2010), Oliveira (2013c).
9Apesar da Sociologia ser obrigatória em nível nacional apenas no Ensino Médio há algumas
experiências pontuais também no Ensino Fundamental, como no caso da rede estadual de educação do
Pará, e no Colégio Pedro II, devido a tanto em algumas passagens desse trabalho nos referimos à
Educação Básica e não apenas ao Ensino Médio.
10Cabe a ressalva que na primeira metade do Século XX temos várias experiências com a disciplina de
Antropologia Pedagógica, lecionada nas Escolas Normais, voltadas para a formação de professores
(OLIVEIRA, 2012, 2013b).
11 Ainda que devamos considerar que há atualmente cursos de graduação em antropologia no Brasil, no
entanto, ainda são ofertados em número incipiente.

[7]
profissionais que se dedicaram ao processo de rotinização do conhecimento dessas
ciências, principalmente por meio da docência e da produção de manuais, entretanto,
estes eram, via de regra, autodidatas nesse campo (MEUCCI, 2011).
O formato das Ciências Sociais existente na Escola Livre de Sociologia e
Política de São Paulo, primeira instituição que passou a ofertar cursos regulares de
Ciências Sociais a partir de 1933, privilegiava, justamente, a articulação entre essas três
ciências, como nos pontua o depoimento de Farkas (2009, p. 193) sobre os anos de
formação dessa escola:

Penso que a gente recebia um ensino de primeira qualidade. Fora Durkheim,


que era ensinado por Emilio Willems, ensinava-se uma matéria chamada
Ecologia Humana a partir da Escola de Chicago. Pierson dava um autor
sueco, Gunnar Myrdal. Agora, pensando melhor, acho que a escola era mais
de antropologia que de sociologia. Tenho a impressão que era mais voltada
para esse lado; de política também tinha pouco, apesar de termos História da
Política.
As disciplinas de antropologia eram mais fortes. Líamos a escola
funcionalista, Radcliffe-Brown, tínhamos Antropologia Cultural, dada pelo
Octávio Eduardo da Costa, e também havia toda a parte da antropologia
física, que eu também não sei mais como é que se chama hoje em dia.

Além desse depoimento de uma de suas ex-alunas, podemos verificar, ao


analisar o currículo do primeiro curso, que era oferecido em seis semestres, a presença
de disciplinas como Sociologia Geral, Antropologia Cultural e Ideias e Correntes
Políticas Contemporâneas (KANTOR, MACIEL, SIMÕES, 2009). Essa forma de
organização das Ciências Sociais em certa medida passa a ser adotada pela
Universidade de São Paulo, cujo paradigma de ciência social “[...] difundiu-se ou
confundiu-se com o paradigma de outras universidades, em São Paulo e noutros
estados.” (MOTTA, 2009, p. 149). Não sem menor relevância, deve-se considerar
algumas das questões levantadas por Peirano (2000, p. 219), ao indicar que:

É no período que compreende as décadas de 60 e 70 que a antropologia no


Brasil começa a se ver como uma genuína ciência social – isto é, como um
ramo da sociologia dominante dos anos 40 e 50. Penso não ser exagero usar
como metáfora o fato de a antropologia ter se desenvolvido como uma
“costela” da sociologia então hegemônica. No entanto, para se constituir
como antropologia nesse contexto, foi necessário manter e desenvolver um
estilo sui generis de ciência social, no qual uma dimensão de alteridade
assumisse a dupla função de produzir uma antropologia no Brasil e do
Brasil.

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Cabe-nos, portanto, reconhecer a Antropologia como uma Ciência Social


legítima, que ao mesmo tempo aproxima-se da Sociologia, mas também traz
características idiossincráticas no processo de produção do conhecimento. Essa
perspectiva se manteve, como podemos observar ao analisar as diretrizes curriculares
para os cursos de Ciências Sociais, nas quais se explicita a necessidade de que o aluno
egresso de tal graduação, seja na habilitação do bacharelado ou da licenciatura, deva ter
conhecimentos do substrato teórico e metodológico das três ciências (BRASIL, 2001).
Maggie (2006, p. 273) ao desenvolver uma reflexão sobre o modelo que foi adotado no
Brasil tece as seguintes críticas:

A nossa escolha por um curso de cunho enciclopédico, digo de aulas


magnas, sem orientação acadêmica e com uma grade curricular fixa e por
essa relação conversa limitadas à sociologia e à ciência política, tem
consequências. A escolha fez com que nos distanciamos na graduação da
linguística, da arqueologia e da antropologia biológica.

Tais questões mostram-se pertinentes, na medida em que apontam para os


limites do modelo de Ciências Sociais que adotamos, ainda que haja também vantagens,
Geertz (2001, p. 18-19), por exemplo, ao refletir sobre sua trajetória acadêmica felicita
o fato de ter realizado seu doutorado em Harvard no recém-formado departamento
interdisciplinar experimental de Relações Sociais, “[...] no qual a antropologia cultural
estava acoplada não com a arqueologia e a antropologia física, como costumava e
infelizmente costuma acontecer, mas coma psicologia e a sociologia.”. O que nos
interessa aqui ressaltar é que, devido à tradição intelectual instaurada no Brasil quando
discutimos o Ensino de Sociologia na escola estamos nos referindo, inevitavelmente, ao
Ensino das Ciências Sociais, o que não deve se confundir com o processo de
regionalização dos conhecimentos de Ciências Humanas por meio dos chamados
“Estudos Sociais”, que se deu no Brasil principalmente na segunda metade do século
XX, durante o regime militar.
A publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), em 1999, reforçou
o indicativo de que deveriam ser abarcados os conhecimentos das demais Ciências
Sociais no currículo do Ensino Médio, ainda que devamos ressaltar os limites postos na

[9]
elaboração desses parâmetros, assentados em uma perspectiva flexibilizante de currículo
(CASÃO, QUINTEIRO, 2007; OLIVEIRA, 2013a)
Posteriormente as Orientações Curriculares Nacionais – OCN (2006) assumiram
um caráter mais disciplinar, ao se voltarem exclusivamente para a Sociologia – ainda
que as fronteiras entre as Ciências Sociais sejam tênues e porosas – avançando ainda ao
pontuarem a finalidade dessa disciplina no Ensino Médio a partir do estranhamento e da
desnaturalização da realidade social. Porém, vale a pena rememorar que autores como
Durkheim são considerados clássicos tanto pela Sociologia, como pela Antropologia,
Laplantine (2006) chega a considerá-lo, junto com Mauss, como um dos pais da teoria
antropológica. Este reconhecimento se faz presente também no processo de seleção dos
livros didáticos de Sociologia pelo PNLD, tendo em vista os critérios utilizados:

1. Assegurar a presença das contribuições das três áreas que compõem


as Ciências Sociais: Antropologia; Ciência Política; e Sociologia.
2. Garantir que as Ciências Sociais se apresentem nas páginas do livro como
um campo científico rigoroso, composto por estudos clássicos e recentes e
por diferenças teóricas, metodológicas e temáticas.
3. Permitir, por meio de mediação didática exitosa, que o aluno desenvolva
uma perspectiva analítica acerca do mundo social.
4. Servir como uma ferramenta de auxílio ao trabalho docente, preservando-
lhe a autonomia (BRASIL, 2011, p. 8, grifo nosso).

Interessa-nos aqui destacar que o espaço que a Antropologia possui no Ensino


Médio dar-se, principalmente, através da discussão da Cultura. Segundo os PCN a
relevância desta discussão no Ensino Médio:

No entanto [em oposição à discussão em torno dos fatos sociais], isso não
significa assumir uma postura de ‘naturalização’ dos padrões, mas sim
motivar uma reflexão que permita ao aluno perceber o caráter de ‘construção
cultural’ das regras. Pois o conceito de cultura, considerado em sua
dimensão antropológica, emerge enquanto um recurso teórico capaz de
viabilizar uma atitude comparativa, através da chamada observação
participante, que nos permite compreender as relações entre um conjunto de
normas e outro conjunto diferente (BRASIL, 1999, p. 39).

Ainda neste documento, chama-se a atenção para outras possíveis contribuições


teóricas da Antropologia para o Ensino Médio:

Em outra vertente, a Antropologia também fornece elementos teórico-


metodológicos para se pensar as sociedades complexas, a partir de noções
como experiências culturais (que, em certa medida, moldam nossos

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“mapas” de orientação para a vida social), rede de relações, papéis sociais,


que informam o processo de constituição das identidades sociais, num
constante fluxo, na maioria das vezes etnocêntrico, de diferenciações, entre
‘nós’ e os ‘outros’ (Ibidem, p. 40).

Destaca-se que devemos considerar tais aspectos, mas não podemos simplificar a
Antropologia a um papel “auxiliar” no Ensino Médio, tendo em vista que esta ciência
possui uma episteme própria, e um campo de atuação específico, ainda que de forma
fluida com outros campos do saber. O próprio conceito de Cultura tem tido apropriações
múltiplas, especialmente por ciências fronteiriças, como a História, a Educação, a
Filosofia, a Sociologia etc.
Estes aspectos são relevantes tendo em vista que, segundo as OCN, os princípios
epistemológicos que norteiam o Ensino de Sociologia são o estranhamento e a
desnaturalização da realidade social. Acreditamos que a Antropologia tem buscado
justamente isso, produzir uma visão não estática da Cultura.
Em nossa interpretação trabalhar tal conceito implica, como nos coloca Wagner,
(2009) em um duplo exercício, pois, ao estudarmos outras culturas somos levados a uma
melhor compreensão da nossa, redimensionando-a. O que pode se dá tanto por meio de
leituras diversas, trazendo uma substancial contribuição teórica para a formação do
aluno do Ensino Médio, como também através da realização de aulas de campo,
apresentando aos alunos a metodologia própria da Antropologia, pois afinal, a pesquisa
mostra-se como uma importante ferramenta pedagógica para o Ensino de Sociologia
(BRASIL, 2006), ainda que haja limites para sua aplicabilidade na realidade escolar
brasileira (GOMES, 2007).
Além do mais, discutir a questão da Cultura no espaço escolar nos remete à
pluralidade existente neste universo, tendo em vista que:

No mesmo tempo e espaço da cultura da escola, outras tantas cores podem


ser vistas e apreciadas: processos mais particulares e contingentes das
diversas culturas presentes no cotidiano da escola, nas interações e nas redes
de sociabilidade que ali são trançadas. E que, multicoloridas, carregam tons
e variações de outros tempos lugares ou de bricolagem desses outros tempo
e lugares, oferecendo outras tessituras que traduzem as experiências dos
diferentes sujeitos e participantes das dinâmicas educacionais na escola
(TOSTA; ROCHA, 2008, p. 131).

[11]
Portanto, trata-se de uma problemática que tem a contribuir para o Ensino Médio
não apenas agregando uma bagagem teórica ao aluno, mas também, lançando elementos
que possam problematizar o próprio espaço educativo e o que se vivencia nele.
Buscaremos agora realizar um exame acerca de como o conceito de Cultura se
apresenta nos livros didáticos selecionados pelo PNLD, ainda que caiba aqui uma crítica
desde já à redução da Antropologia ao conceito de Cultura, uma vez que
compreendemos que a discussão dessa ciência ultrapassa esta categoria.

COMO A CULTURA DE APRESENTA NOS LIVROS DIDÁTICOS?

Para realizar nossa análise tomamos por base os livros de Sociologia


selecionados pelo PNLD12: “Sociologia para o Ensino Médio” (TOMAZI, 2010), e
“Tempos Modernos, Tempos de Sociologia” (BOMENY, FREIRE-MEDEIROS, 2010).
Neste sentido, devemos destacar a centralidade que o livro didático possui na realidade
educacional brasileira (FREITAG, MOTTA, COSTA, 1989), sendo por vezes não
apenas o principal recurso do professor, como também um dos principais elementos
organizadores dos conteúdos escolares a serem lecionados, especialmente na realidade
do Ensino de Sociologia, que não conta com um currículo nacional definido, e há uma
maioria absoluta, em termos nacionais, de professores sem formação acadêmica em
Ciências Sociais. Entretanto no que respeito ao currículo desta ciência, há elementos
que têm convergido nas diretrizes estaduais que delimitam os conteúdos de Sociologia,
como nos indica a pesquisa de Santos (2012, p. 46), e nestas a Cultura tem ocupado um
lugar privilegiado, ainda que assumindo diversos significados, segundo o autor:

Cultura também tem diferentes significados, sendo assim, no processo de


depuração, se utilizou como parâmetro o conceito atribuído pela
Antropologia. Não obstante, essa delimitação, observou-se a presença da
referida categoria praticamente em todas as diretrizes. Ressalta-se a
preocupação de algumas diretrizes em sugerir a problematização de noções
como cultura erudita, cultura de massa, cultura popular, indústria cultural
(ES); a contextualização histórica do conceito de cultura identificando as
especificidades de cada abordagem sobre o conceito: evolucionista,
funcionalista, culturalista, estruturalista e interpretativista (PR). Ademais, o
conceito de cultura em muitos casos é o ponto de partida ou é associado ao

12Apenas recentemente a Sociologia foi introduzida no PNLD, tendo sido a área que aprovou o menor
número de livros. A distribuição dos livros de Sociologia selecionados iniciou no ano de 2012 nas escolas
públicas.

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tratamento de outras categorias, sobretudo, a categoria identidade, como por


exemplo: gênero, etnia, identidade cultural, multiculturalismo e diversidade
(CE); identidade e diversidade (RJ); cultura, identidade, etnocentrismo e
relativismo (TO).

Percebe-se desse modo que a Cultura é reconhecida enquanto categoria relevante


para a compreensão da realidade social, porém as abordagens propostas não estão
assentadas exclusivamente na Antropologia, e muitas vezes os professores da Educação
Básica desconhecem o que está proposto nos documentos oficiais (OLIVEIRA, 2013a).
Takagi (2007) em sua pesquisa aponta também para o fato de que “Cultura” aparece
amiúde nos planos de ensino dos professores de Sociologia do Ensino Médio.
Em “Explorando o Ensino – Sociologia”, coletânea organizada pelo Ministério
da Educação visando fornecer um apoio ao professor do Ensino Médio, há um capítulo
denominado “Cultura e Alteridade”, porém podemos afirmar que este conceito também
se faz presente em outras partes do livro, como o “Religião: Sistema de Crença,
Feitiçaria e Magia”, “Família e Parentesco”, e “Grupos Étnicos e Etnicidades”.
No capítulo específico sobre Cultura, o livro traz um significativo avanço, pois
trata da Cultura tanto no singular quanto no plural, destacando a relevância de se
trabalhar este tema nas Ciências Sociais. Para os autores deste capítulo:

Cultura é um conceito central nas Ciências Sociais. É a ferramenta


intelectual básica com a qual se constrói a reflexão sobre dois temas vastos e
fundamentais: a unidade humana e a diversidade dos modos de existência
humana. Por meio da reflexão sobre esses dois temas, desenvolveram-se
duas grandes acepções do termo. Articuladas, essas duas acepções
contribuem para formular a visão da humanidade como unidade que se
realiza na diferença (SIMÕES; GIUMBELLI, 2010, p. 187).

Esta concepção que engloba tanto a diversidade quanto a diferença é um ganho


conceitual, em especial com relação aos temas transversais previstos para a Educação
Básica, que focam centralmente na questão da diferença deixando a questão da unidade
de lado, como nos destaca Valente (1998).
Neste material a significação do termo Cultura é trazida e referida tanto no
singular, como já afirmado, em cujo sentido “[...] serve para designar e sintetizar
determinadas capacidades e atributos universais nos seres humanos – tais como a
imaginação simbólica, a linguagem, a consciência de si, o raciocínio – que distinguem a

[13]
condição existencial da humanidade” (p. 187), quanto no plural que diz respeito “[...] à
variedade das produções humanas [...] que distinguem os modos de vida de grupos
humanos e de sociedades humanas particulares” (p. 188).
Dar-se relevo para a questão da alteridade, destacando-se à necessidade de se
pensar cada Cultura em sua singularidade. Há um bom número de referência a diversas
perspectivas teóricas, passando por autores como Elias, Boas, Lévi-Strauss,
Malinowski, Mauss, Geertz, Sahlins etc., possibilitando, assim, a abertura para o
questionamento das definições trazidas, uma vez que, as mesmas apresentam-se como
visões teóricas parciais, limitadas como qualquer outra. Por fim, busca-se realizar um
exercício de reflexão em torno da questão da alteridade a partir da obra de um clássico,
no caso Claude Lévi-Strauss.
Diferentemente dessa coletânea, os livros didáticos não se voltam para os
professores, enquanto público leitor, mas sim para os educandos, possuindo outra
linguagem, buscando transformar os conteúdos de uma disciplina acadêmica em uma
disciplina escolar, processo este bastante complexo e contraditório muitas vezes. Para
Sarandy (2004, p. 126) observa-se nos livros didáticos de Sociologia “[...] a junção de
temas, conceitos e autores normalmente estudados na graduação em ciências sociais,
sem nenhuma preocupação com a justificação dessas opções, como se elas por si
mesmas bastassem como justificativa para o ensino da disciplina.”, o que torna
consideravelmente difícil a compreensão por parte dos alunos, ainda mais quando
reconhecemos o desafio que se impõe na busca pela articulação entre os conceitos, as
teorias e os temas, como preconizam as OCN.
Ao tratar dos livros que se submeteram à avaliação do PNLD, mas que não
foram selecionados, levanta-se a seguinte questão:

Observou-se também que os livros analisados não conferem tratamento


equilibrado às diferentes regiões brasileiras e, por vezes, não apresentam
uma discussão efetiva sobre a diversidade cultural. Muitas vezes as situações
de diversidade cultural apresentadas, em vez de provocar deslocamentos
temporais, espaciais e sociais, se limitam a despertar nos alunos o espanto
diante da excentricidade ou do suposto arcaísmo do outro, reforçando a ideia
de que o diferente é perigoso e violento. Entende-se que a falta de
articulação da discussão sociológica com uma perspectiva antropológica e a
ausência de excertos ou citações de etnografias consagradas acarretam essa
leitura equivocada de etnias e culturas (BRASIL, 2011, p. 18).

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Volume 28, número 2, julho/dezembro de 2013

Chama a atenção o fato de que, entre os autores dos 14 livros avaliados nenhum
deles era doutor em Antropologia, o que aponta para a frágil articulação com esta
ciência, o que se reverbera no tratamento dado a seus conceitos chaves. Isso não
significa dizer que apenas doutores em Antropologia poderiam produzir um bom
material didático em termos de conteúdos antropológicos, porém esse dado é um
indicador da tênue conexão entre a Antropologia e o Ensino de Ciências Sociais na
Educação Básica.
No caso de “Sociologia para o Ensino Médio” devemos antes apontar uma
impressão mais geral sobre o livro: a esperada equidade no tratamento com relação às
três Ciências sociais não parece ocorrer a contento, produzindo a impressão no leitor,
em algumas passagens que há um diálogo mais forte desenvolvido com o campo da
História que da Antropologia, ainda que não neguemos aqui a necessidade desse diálogo
também, até mesmo porque a cultura é um produto histórico (MINTZ, 2010).
Explicitamente posta há uma unidade, a sexta, organizada em três capítulos que
se debruça sobre a temática aqui discutida, denominada “Ideologia e Cultura”, que em
seu título já anuncia o caminho assumido, desenvolvendo um substancial debate
também na discussão sobre a indústria cultural.
O primeiro capítulo da referida unidade mostra-se mais “antropológico”,
recorrendo a inúmeros autores clássicos nesse campo, como Tylor, Malinowski,
Benedict, Mead e Lévi-Strauss. Desse último, chega a realizar uma citação direta,
retirada de “Antropologia Estrutural”. Há ainda referências a Canclini, Smiers e Bosi.
Um ponto positivo é a relevância dada ao conceito de etnocentrismo, ainda que se sinta
falta de um tratamento específico para o conceito fundamental em seu questionamento:
o relativismo cultural. Problematizar o etnocentrismo, bem como demonstrar as
possibilidades trazidas pelo relativismo cultural, nos traria grandes possibilidades para
provocar uma visão desnaturalizada do mundo social junto ao aluno do Ensino Médio, o
que em nosso entender não é suficientemente explorada pelo livro. A discussão entre
cultura erudita e popular poderia ter um ganho substancial com fragmentos de
etnografias, especialmente aquelas produzidas por autores brasileiros.
Os demais capítulos assumem claramente uma aproximação mais enfática com a
Sociologia da Cultura, não que a discussão seja exclusiva do campo da Antropologia,

[15]
muito pelo contrário ela está presente em todas as Ciências Sociais (CHUCE 1998),
contudo, a discussão antropológica se esvazia nas demais partes do livro.
Em “Tempos Modernos, Tempos de Sociologia” o cenário é ambivalente, pois,
por um lado aprofunda-se a discussão em torno de aspectos que são relevantes para a
compreensão da Cultura como um todo, como no que tange às questões raciais e de
gênero, mas por outro, não há um espaço próprio no livro para se discutir a questão da
Cultura, que aparece, portanto, de forma marginal e pouco articulada com a
Antropologia. De tal modo que equipe avaliadora do PNLD apontou a seguinte ressalva:

[…] refere-se à não exploração da contribuição dos estudos antropológicos


em toda a sua potencialidade. Isso se manifesta, em particular, na preferência
da autoria pelo deslocamento temporal (em lugar do deslocamento cultural)
para cumprir o efeito do estranhamento e desnaturalização reclamados pelo
ensino da Sociologia. O resultado disso é que a História ocupa mais lugar
nas páginas do livro do que a Antropologia Cultural.
A referência tímida à contribuição da Antropologia também se revela no
repertório conceitual do livro. Ainda que termos como etnocentrismo e
gênero sejam apresentados de modo satisfatório, relacionados à dimensão
cultural, não há uma discussão sobre a alteridade, tampouco sobre o uso
antropológico do termo cultura. Trata-se de uma opção da autoria que,
entretanto, subutiliza a contribuição da Antropologia para a consecução de
um dos objetivos propostos pelo livro, qual seja, o de permitir que o aluno
veja de modo novo seu cotidiano. Por isso, a adoção do livro exigirá do
professor aprofundar reflexões e indagações próprias da Antropologia que,
acrescentadas à visão da História, Sociologia e Ciência Política, permitirão
uma perspectiva ainda mais inovadora da vida social (BRASIL, 2011, p. 30).

Este problema em torno da parca utilização dos referenciais da Antropologia,


bem como da apropriação aligeirada do conceito de Cultura apresenta-se em ambos os
livros analisados. Mostra-se especialmente problemática a dificuldade de trazer os
avanços da discussão no campo mais recente da Antropologia, mesmo análises já
consagradas como a de Geertz (1989) ganham pouca relevância, e outras como as de
Wagner (2009), ou mesmo de autores brasileiros como Cunha (2009) e Viveiro de
Castro (2002) são invisibilizadas no debate.
Obviamente reconhecemos que o processo de elaboração de um livro didático,
ainda mais no caso da Sociologia que não possui um currículo nacional estabelecido, é
sempre conflituoso, marcado escolhas nem sempre fáceis para os autores, todavia,
reafirmamos aqui tanto a colaboração central da Antropologia enquanto ciência para a
formação do educando na Educação Básica, quanto o papel insubstituível da
apresentação e problematização do conceito de Cultura nesse processo.

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Não podemos perder de vista as contribuições que a Antropologia traz para o


debate em torno da diversidade cultural em nosso mundo contemporâneo, que se
distingue substancialmente daquela sobre indústria cultural como elaborada pelos
frankfurtianos, por exemplo, ou mesmo sobre o debate mais recente no campo da
Sociologia da Cultura, proposto por autores diversos como Bourdieu (2003, 2007),
Alexander (2001), Williams (1992), Ortiz (1991), de modo que seria pertinente que os
livros didáticos esclarecessem a diferença existente entre a Antropologia e a Sociologia
da Cultura. Neste sentido, são-nos elucidativas as palavras de Lévi-Strauss (2012, p. 37)
acerca das contribuições próprias do campo da Antropologia:

A atenção e o respeito demonstrados pelo antropólogo às diferenças entre as


culturas como àquelas próprias a cada uma constituem o essencial de seu
procedimento. Assim, o antropólogo não procura elaborar uma lista de
receitas em que cada sociedade irá servir segundo seu estado de espírito toda
vez que perceber em seu seio uma imperfeição ou uma lacuna. As fórmulas
próprias a cada sociedade não são transponíveis a nenhuma outra.
O antropólogo apenas convida cada sociedade a não acreditar que suas
instituições, seus costumes e suas crenças são os únicos possíveis; ele a
dissuade de imaginar que, pelo fato de que os julga bons, essas instituições,
esses costumes e crenças estão inscritos na natureza das coisas e que é
possível impunemente impô-los a outras sociedades cujo sistema de valores
é incompatível com o seu.

Há que se ressaltar ainda que o ensino de Ciências Sociais no Brasil ainda é


realizado em grande medida por profissionais que não possuem formação na área,
segundo dados da CAPES de 2008 apenas 12% dos professores que lecionam
Sociologia possuem formação em Ciências Sociais, logo, para a grande maioria o livro
didático será o principal aporte para suas aulas, de tal modo que as fragilidades
apresentadas por estes artefatos culturais tendem a ser aprofundadas nas salas de aula,
invisibilizando ainda mais a discussão em torno da Antropologia como um todo, e do
conceito de Cultura em particular. Em meio a este debate as colocações de Lima e
Santos (2012, p. 50) nos são pertinentes, que indicam a angústia dos antropólogos com
relação ao que é ensinado aos jovens nas escolas:

Pensar a cultura, portanto, deve ir além de refletir folclore, cultura popular,


tradição e origem. Por que não levar esses jovens a refletir sobre si mesmos e
os diferentes elementos culturais que encontram no seu cotidiano, na

[17]
televisão, na padaria, na própria escola? Questionar os próprios hábitos e
pensá-los como culturais já é um bom caminho para formarmos pensadores
que vão além do senso comum e se aproximam daquelas teorias que por
vezes martelam as cabeças de seus formadores, os licenciados em Ciências
Sociais. Por esses caminhos nos distanciamos um pouco mais de concepções
ideológicas que resultam em preconceito e discriminação e nos aproximam
mais do impulso para a reflexão, o questionamento.

Tal exercício só é possível mediante a utilização do arcabouço teórico fornecido


pelas Ciências Sociais, mais especificamente da Antropologia. Trata-se de um esforço
que demanda a articulação deste conceito com teorias que possam subsidiar a discussão
em sala de aula, bem como conjuntamente com temas que toquem a realidade do aluno,
uma vez que a aula precisa ser significativa para esses sujeitos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Ensino Médio, na busca pela construção de um conhecimento que rompa


com as elaborações dadas no senso comum devemos destacar que a Cultura vai para
além de uma “herança social”, ou mesmo de um conjunto de crenças, costumes, ritos
etc. Ela é o que anima as práticas sociais, que permite que nós enxerguemos o mundo. O
que observamos nos livros didáticos analisados é, por um lado, uma reificação do
conceito de Cultura, por outro, uma redução da Antropologia ao debate em torno deste
conceito, além de ocupar uma posição menor dentro das discussões articuladas neste
artefato cultural.
Apesar de reconhecermos que os livros didáticos nunca são reproduzidos
integralmente e perfeitamente em sala de aula, voltamos a argumentar que na realidade
brasileira eles são centrais, e no caso específico do Ensino de Sociologia isso toma uma
proporção ainda maior, dada a ausência de um currículo nacional comum e reduzido
número de professores com formação na área, e isso torna a análise aqui empreendida
de suma importância para compreendermos a realidade do Ensino de Sociologia no
Ensino Médio.
Fica-nos evidente ao final do exame empreendido que os livros didáticos
selecionados não cumprem satisfatoriamente os critérios estabelecidos pelo PNLD no
que diz respeito a uma presença equitativa das Ciências Sociais, e neste sentido o lugar
da Antropologia ainda é marginal no Ensino Médio, o que reflete o fato de que a
temática da Educação de uma maneira geral ainda é pouco explorada pela Antropologia

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brasileira (GUSMÃO, 1997), além da incipiência do debate sobre o real significado do


Ensino de Sociologia na escola.
No atual documento de área da pós-graduação em Antropologia (CAPES, 2013),
faz-se referência na inserção dessa ciência no Ensino Fundamental e Médio, dentre
outros meios, através da oferta de disciplinas de Antropologia para alunos das
licenciaturas de Ciências Sociais, futuros professores do Ensino Médio, e da produção
de livros-textos para o ensino fundamental e médio, contudo a presença da Antropologia
enquanto conteúdo curricular é negligenciado, o que também converge com o que temos
indicado ao longo do trabalho acerca da posição periférica que essa discussão ocupa, o
que se reverbera na própria realidade escolar, ainda que esta seja um cenário em
transformação.13
Arriscaríamos afirmar que o ensino da Antropologia no Ensino Médio lida nesse
momento com os dilemas enfrentados pela Sociologia no final dos anos de 1990,
quando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação afirmava a necessidade dos alunos
egressos do Ensino Médio possuírem conhecimentos de Sociologia, porém não havia
garantias em torno do seu ensino, o que foi “resolvido” pelas Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino Médio, publicadas no final dos anos de 1990, pelo ensino
“interdisciplinar” dessa ciência através das demais disciplinas do currículo escolar, o
que na prática não ocorria. Obviamente que nos referimos aqui a momentos históricos
distintos, e a um grau diferente de proximidade entre as disciplinas escolares, todavia, a
garantia de um ensino equitativo das Ciências Sociais, que refletiria a formação dos
formados nessa área do saber, deve ir para além do estabelecido nos documentos
oficiais, e os livros didáticos, nesse caso, são ao menos um relevante indicador do
caminhar dessas tensões.
Trazer o debate da Antropologia para o Ensino Médio nos demanda um esforço
teórico e didático, de modo a que se possam alargar os horizontes de nossos alunos, que
eles possam perceber que o mundo vai para além de uma visão naturalizadora da

13Destaca-se que nos últimos anos a Associação Brasileira de Antropologia tem promovido seminários,
bem como dentro de seus eventos tem aberto espaço para a discussão sobre o Ensino de Antropologia,
porém ainda muito centrado na discussão sobre o ensino de graduação e pós-graduação, tomando
destaque mais recentemente a discussão acerca dos cursos de bacharelado em Antropologia. Todavia é
sintomático que haja ainda um número pífio de trabalhos em nível de pós-graduação sobre Ensino de
Antropologia.

[19]
realidade, pois como nos indica Mafra (2007), enquanto a diversidade for uma questão
para nossas sociedades haverá um lugar para a Antropologia.

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