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JEFFREY

ARCHER
O ARQUEIRO E SUAS FLECHAS
Tradução de
JOSÉ ANTONIO ARANTES
Revisão de
RACHEL HOLZHACKER
DIFEL
Difusão Editorial S. A.
Título do original: "A Quiver Full of Arrows”
Copyright © 1980 by Jeffrey Archer
Capa: Isabel
Composição: Intertexto

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
A712a
Archer, Jeffrey, 1940-
O arqueiro e suas flechas / Jeffrey Archer ; tradução de José Antonio Arantes ; revisão de Rachel
Holzhacker. — São Paulo : DIFEL, 1986.
1. Contos ingleses I. Título. 86-0282
CDD-823.91
ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO:
1. Contos : Século 20 : Literatura inglesa 823.91
2. Século 20 ; Contos : Literatura inglesa 823.91
1986

Direitos para a língua portuguesa, no Brasil, adquiridos por:


Difusão Editorial
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Primeiro, a magnífica saga das famílias Rosnovski e Kane em Caim e Abel e
sua sequência em A filha pródiga; depois, a instigante e atual intriga política em
Primeiro entre iguais; e agora O arqueiro e suas flechas, através do qual a
DIFEL oferece ao leitor brasileiro a oportunidade de conhecer o Jeffrey Archer
contista.

Publicado antes de Caim e Abel, este livro já consolida o estilo direto e


dinâmico com que o autor aborda os temas modernos que posteriormente viriam
a tornar-se o conteúdo central de sua obra: a esfera do poder — com seus
bastidores obscuros e traiçoeiros — e a esfera dos sem poder — habitada por
homens comuns em permanente luta com uma sociedade que ora os acua, ora os
glorifica.

O arqueiro e suas flechas compõe-se de onze narrativas curtas, que, embora


concentradas por força da própria natureza do gênero literário, anunciam a
mesma grandeza vertiginosa dos principais romances que o consagraram
internacionalmente como escritor. Com extrema habilidade e requinte, o autor
brinda o leitor com breves e decisivos momentos da vida de memoráveis
personagens: o arrematador de leilão que, ao investigar a história secular de uma
estatueta chinesa, acaba por desvendar o desenvolvimento de três gerações de
família, em “A estátua chinesa”; o jovem romancista que, com autoironia, deixa-
se iludir pelos possíveis benefícios advindos da influente esposa de um
importante produtor cinematográfico, em “O almoço”; os imprevistos que
invertem as expectativas de um homem de negócios brasileiro em Uganda, em
“O golpe”; a perplexidade de um menino que assiste ao nascimento de Cristo,
em “O primeiro milagre”; o honesto e metódico funcionário de empresa que em
determinado dia perde o controle sobre sua vida cotidiana, em “Rotina
quebrada”; e o insólito e indestrutível amor de um casal, alimentado pelo ódio e
pela competição desde os bancos de escola, em “Amor antigo”, este uma
pequena obra-prima.

Construídos com base em aguda observação, todos os contos apresentam


uma situação crucial, uma experiência limite que, ao desestruturarem os
personagens, leva-os a ocultar ou revelar pensamentos e sentimentos os mais
íntimos; a construir ou destruir sonhos de um mundo melhor; a romper ou
refazer relações. Archer vai disparando seus contos como um arqueiro imbatível,
seguro de sua técnica, moldando-os ao mesmo tempo com rigor e liberdade e
reservando para cada final uma surpresa. Evidentemente, dispara suas flechas na
direção do leitor, como que a desafiá-lo a antecipar os desfechos. Mas é inútil:
Archer, de fato, nunca erra o alvo, confirmando ser um mestre.

Contracapa

O arqueiro e suas flechas é uma reunião de contos primorosos, nos quais


encontramos o talento de Jeffrey Archer em desenvolver o tema central de sua
obra: o confronto entre os indivíduos na sociedade e suas mais íntimas reações.
Extremamente bem-humorados, são relatos que deliciam a imaginação e
mostram-nos uma realidade plena de surpresas, coincidências e pequenas
alegrias; e no final, depois do suspense, o desfecho inesperado.
Nestas breves histórias vamos nos deparar com personagens peculiares,
situados em diversas partes do mundo — como a demonstrar que sob as
diferentes raças, credos e nacionalidades, há sempre as características e
sentimentos comuns à humanidade como um todo. Equilibrando-se entre o amor
e o ódio, a vida publica e a privada, a competição individualista e a
solidariedade, os personagens de Archer retratam os erros e os sucessos de todos
nós: erros e sucessos que geralmente nos escapam, compondo a maliciosa trama
do destino.
Nota do Autor

Destes doze contos, onze foram baseados em episódios conhecidos (alguns


romanceados com grande liberdade).
Apenas um é pleno produto da minha imaginação.
“O almoço” foi inspirado por W. Somerset Maugham.

J. A.
Índice
A estátua chinesa
O Almoço
O Golpe
O primeiro milagre
O perfeito cavalheiro
Amantes por uma noite
Quebra de rotina
O contratempo de Henry
Uma questão de princípio
O professor húngaro
Amor antigo
A estátua chinesa
A estatueta chinesa era o próximo item a ser posto ao correr do martelo do
leiloeiro. O Lote 103 provocou um daqueles discretos murmúrios que sempre
precedem a venda de uma obra-prima. O assistente do leiloeiro ergueu a delicada
peça de marfim para que o superlotado auditório a admirasse, enquanto o
leiloeiro corria os olhos pela sala para certificar-se de que sabia onde estavam
sentados os verdadeiros arrematadores. Examinei com atenção o meu catálogo e
li a minuciosa descrição da peça, e o que se conhecia de sua história.
A estátua fora adquirida em Ha Li Chuan, em 1871, e era mencionada, na
peculiar designação da Sotheby, como “de propriedade de um cavalheiro”, em
geral querendo significar que algum membro da aristocracia não desejava
admitir que precisava se desfazer de uma das heranças de família. Pensei comigo
mesmo se não era este o caso naquela ocasião e decidi investigar para descobrir
como a estatueta chinesa tinha ido parar na casa de leilões naquela manhã de
quinta-feira, pouco mais de um século depois.
— Lote n° 103 -— anunciou o leiloeiro. — Quanto me oferecem por este
magnífico exemplar de... ?
Sir Alexander Heathcote, além de cavalheiro, era um homem exato. Media
exatamente um metro, noventa e um centímetros e sete milímetros, levantava-se
às sete horas todas as manhãs, juntava-se à esposa no desjejum para comer um
ovo que tinha sido cozido durante precisamente quatro minutos, duas fatias de
pão torrado com uma colherada de geleia de laranja Cooper e tomar uma xícara
de chá chinês. Apanhava então uma carruagem de aluguel à porta de sua casa em
Cadogan Gardens, exatamente às oito e vinte, e chegava no Ministério das
Relações Exteriores pontualmente às oito e cinquenta e nove, voltando para casa
às dezoito horas em ponto.
Sir Alexander fora exato desde tenra idade, pois era o filho único de um
general. Mas, ao contrário do pai, optou por servir à Rainha na diplomacia, outra
profissão precisa. Progrediu de simples funcionário no Ministério das Relações
Exteriores em Whitehall a terceiro secretário em Calcutá, segundo secretário em
Viena, primeiro secretário em Roma, embaixador adjunto em Washington e,
finalmente, ministro plenipotenciário em Pequim. Ficou encantado quando o Sr.
Gladstone o convidou para representar o governo na China, já que cultivava,
havia algum tempo, um interesse mais do que de amador pela arte da dinastia
Ming. Essa nomeação real em sua notável carreira lhe proporcionaria o que até
então ele julgara impossível: a oportunidade de observar, em seu habitat de
origem, algumas das magníficas estátuas, pinturas e desenhos que ele até então
pudera admirar apenas nos livros.
Quando chegou em Pequim, após uma viagem por terra e mar que lhe tomou
quase dois meses, Sir Alexander apresentou à Imperatriz Tzu-Hsi suas
credenciais e uma carta pessoal, de caráter confidencial, da Rainha Vitória.
Vestindo branco e dourado da cabeça aos pés, a Imperatriz recebeu o novo
embaixador na sala do trono do Palácio Imperial. Leu a carta da soberana
britânica diante de Sir Alexander, que permanecia de pé, aguardando atento. Sua
Alteza Imperial nada revelou de seu conteúdo ao novo ministro, limitando-se a
lhe desejar completo êxito no exercício de suas funções. Em seguida contraiu
ligeiramente os cantos dos lábios, levando Sir Alexander à correta conclusão de
que a audiência estava encerrada. Ao ser conduzido à saída por um mandarim
em traje palaciano longo, negro e dourado, Sir Alexander percorreu o mais
vagarosamente possível os vastos salões do Palácio Imperial, atraído pela
esplêndida coleção de estátuas de jade e marfim, distribuídas ao acaso pelo
interior do edifício, mais ou menos como Cellini e Michelangelo permanecem
hoje amontoados em Florença.
Tendo em vista que seu mandato ministerial era de apenas três anos, nesse
período Sir Alexander não tirou licença, preferindo usar suas horas livres para
deixar a embaixada e percorrer a cavalo os distritos mais distantes, com o intuito
de aprender mais sobre o país e o povo. Nessas excursões, sempre se fazia
acompanhar por um mandarim do corpo de assistentes do palácio, que lhe servia
de intérprete e guia.
Numa dessas viagens, passando pelas ruas lamacentas de um vilarejo muito
pequeno chamado Ha Li Chuan, a uma distância de cerca de oitenta quilômetros
de Pequim, Sir Alexander deparou com a oficina de um velho artesão.
Apartando-se de seus servos, o ministro apeou da cavalgadura e entrou na
deteriorada oficina de madeira, a fim de admirar as delicadas peças de marfim e
jade que abarrotavam as prateleiras de cima abaixo. Embora modernas, as peças
eram soberbamente trabalhadas por um experimentado artesão, e o ministro
adentrava a pequena cabana com a intenção de adquirir uma lembrança de
viagem. Uma vez na oficina, quase não pôde avançar em qualquer direção, com
receio de bater a cabeça em algum objeto e derrubá-lo. A construção não fora
projetada para um visitante de um metro, noventa e um centímetros e sete
milímetros. Sir Alexander ficou paralisado e fascinado, aspirando o suave
perfume de jasmim que impregnava a atmosfera.
Um velho artesão, trajando longa bata azul de cule e usando boina preta,
adiantou-se alvoroçadamente para recebê-lo; um rabicho preto-azeviche caía-lhe
pelas costas. Ele curvou-se profundamente e então levantou os olhos para aquele
gigante oriundo da Inglaterra. O ministro retribuiu o cumprimento, enquanto o
mandarim explicava quem era Sir Alexander e o desejo deste de obter permissão
para examinar os trabalhos do artesão. O velho estava expressando seu
consentimento com um sinal de cabeça antes mesmo de o mandarim concluir seu
pedido. Durante mais de uma hora, suspirando e sorrindo de satisfação, o
ministro examinou com admiração várias peças, até que, finalmente, voltou-se
para o velho e elogiou-lhe a habilidade. O artesão curvou-se mais uma vez e seu
sorriso tímido não revelou os dentes, mas apenas uma verdadeira alegria
despertada pelas lisonjas de Sir Alexander. Apontando para os fundos da oficina,
convidou os dois distintos visitantes a que o seguissem. Assim fazendo-o,
penetraram numa verdadeira Caverna de Aladim, com fileiras e fileiras de belas
miniaturas de imperadores e personagens clássicos. O ministro seria capaz de
entregar-se alegremente àquela profusão de marfim por no mínimo uma semana.
Sir Alexander e o artesão puseram-se a conversar através do intérprete, e em
breve se revelou o amor e o conhecimento do ministro com relação à dinastia
Ming. O rosto pequeno do artesão iluminou-se diante desta descoberta e,
voltando-se para o mandarim, fez um pedido com voz sussurrada. O mandarim
aquiesceu e traduziu.
— Vossa Excelência, eu possuo uma peça do período Ming que o senhor
gostaria de ver. Uma estátua que pertence à minha família há mais de sete
gerações.
— Eu me sentiria honrado — respondeu o ministro.
— Eu é que me sentirei honrado, Vossa Excelência — retrucou o
homenzinho, que em seguida precipitou-se pela porta dos fundos, quase
atropelando um cão vadio, e entrou apressado numa velha casa rústica situada a
alguns metros da oficina.
O ministro e o mandarim permaneceram na sala dos fundos, pois Sir
Alexander sabia que o velho jamais pensaria em convidar uma visita tão ilustre a
entrar em sua humilde casa antes que se conhecessem por anos e anos, e ainda
assim só depois de ter sido primeiramente convidado para ir à casa de Sir
Alexander. Passaram-se alguns minutos até que o homenzinho de azul voltasse
às pressas, o rabicho saltando de um lado para outro sobre os ombros. Ele estava
agora agarrando-se a um objeto que, pelo jeito com que o estreitava contra o
peito, devia ser um tesouro. O artesão entregou a peça ao ministro para que ele a
examinasse. Sir Alexander ficou boquiaberto e não pôde esconder a emoção. A
estatueta, que não media mais que dezesseis centímetros, era do Imperador Kung
e o mais admirável exemplar Ming que o ministro jamais vira. Sir Alexander
tinha certeza de que o artífice era o notável Pen Q, que fora protegido do
Imperador, e que, portanto, a data de sua produção estaria situada por volta da
virada do século XV. A única imperfeição da estátua era a inexistência da base
de marfim, sobre a qual as peças deste tipo em geral são assentadas, e uma
minúscula vareta que se projetava na parte inferior dos trajes imperiais; mas, aos
olhos de Sir Alexander, nada era capaz de aviltar a plenitude de sua beleza.
Embora os lábios do artesão não se mexessem, seus olhos brilhavam
intensamente diante da satisfação que seu visitante manifestava ao examinar o
imperador de marfim.
— O senhor acha que a estátua é de boa qualidade? — perguntou o artesão
através do intérprete.
— É magnífica — respondeu o ministro. — Realmente magnífica.
— As minhas peças não merecem ficar ao lado dela — acrescentou com
humildade o artesão.
— Não, não — fez o ministro, embora, na verdade, o pequeno artesão
soubesse que o grande homem estava apenas sendo gentil, pois só o modo com
que Sir Alexander segurava a estátua de marfim já denunciava o mesmo amor
que o velho tinha pela peça.
Ao devolver o Imperador Kung, o ministro sorriu para o artesão e proferiu
talvez as únicas palavras pouco diplomáticas que jamais pronunciara em trinta e
cinco anos de serviço à Rainha e ao seu país.
— Como eu gostaria que esta estátua fosse minha!
Sir Alexander arrependeu-se de exprimir seu pensamento assim que ouviu o
mandarim traduzi-lo. Conhecia muito bem a velha tradição chinesa segundo a
qual, quando uma ilustre visita pede alguma coisa, o doador crescerá na estima
de seus semelhantes ao desfazer-se dela.
Uma expressão de tristeza toldou o rosto do velho artesão quando ele
devolveu a estatueta ao ministro.
— Não, não. Eu estava apenas brincando — disse Sir Alexander, procurando
devolver rapidamente a peça ao proprietário.
— Vossa Excelência desonraria a minha modesta casa se não aceitasse o
Imperador — disse ansiosamente o velho, enquanto o mandarim concordava
gravemente com uma inclinação de cabeça.
O ministro permaneceu em silêncio por um momento.
— Desonraria a minha própria casa, meu senhor — retrucou, olhando para o
mandarim, que permanecia inescrutável.
O pequeno artesão curvou-se.
— Preciso fixar uma base na estátua — disse —, senão Vossa Excelência não
poderá expô-la.
Retirou-se para um canto do cômodo e abriu uma abarrotada arca de madeira
que devia conter uma centena de bases destinadas às suas próprias estátuas.
Depois de muito vasculhar, escolheu uma base decorada com minúsculas figuras
negras que não mereceu a apreciação do ministro, mas que, no entanto, ajustava
perfeitamente à peça; assegurou a Sir Alexander que, embora desconhecesse sua
história, a base trazia em si a marca de um excelente artesão.
O ministro, desconcertado, aceitou o presente e tentou, inutilmente,
agradecer ao velhinho. O artesão curvou-se profundamente mais uma vez
enquanto Sir Alexander e o imperturbável mandarim deixavam a pequena
oficina.
No caminho de volta a Pequim, o mandarim deu-se conta do deplorável
estado em que se encontrava o ministro e, numa atitude que lhe era pouco
característica, falou primeiro:
— Vossa Excelência sem dúvida conhece o velho costume chinês segundo o
qual, quando um estranho mostra-se generoso, deve-se retribuir a gentileza antes
que finde o ano civil.
Sir Alexander agradeceu com um sorriso e ponderou sobre as palavras do
mandarim. Já em sua residência oficial, foi imediatamente para a extensa
biblioteca da Embaixada, para ver se descobria o real valor da pequena obra-
prima. Após intensa e diligente pesquisa, encontrou um desenho de uma estátua
da dinastia Ming que era quase uma cópia exata daquela que agora estava em seu
poder; com a ajuda do mandarim, pôde estimar seu valor real, um montante
equivalente aos vencimentos de três anos de um funcionário da Coroa. O
ministro expôs o problema a Lady Heathcote e ela não deixou o marido em
dúvida quanto ao procedimento que ele deveria adotar.
Na semana seguinte, através de um mensageiro particular, o ministro enviou
uma carta aos seus banqueiros, Coutts & Co., no Strand, Londres, pedindo-lhes
que remetessem para Pequim, o quanto antes, boa parte de suas economias.
Quando o dinheiro chegou, nove semanas depois, o ministro voltou a consultar o
mandarim, que lhe ouviu as indagações e, passados sete dias, lhe forneceu os
pormenores solicitados.
O mandarim descobrira que o pequeno artesão, Yung Lee, descendia da
antiga e honrada família de Yung Shau, cujos membros dedicavam-se ao
artesanato havia cerca de cinco séculos. Sir Alexander soube também que muitos
dos ascendentes de Yung Lee possuíam exemplares de seus trabalhos nos
palácios dos príncipes manchus. O próprio Yung Lee, envelhecido, desejava
retirar-se para as colinas que encimavam o vilarejo, onde seus ancestrais tinham
morrido. Seu filho estava preparado para assumir a oficina e continuar a tradição
da família. O ministro agradeceu ao mandarim por sua presteza e fez-lhe apenas
mais um pedido. O mandarim ouviu cordato ao embaixador da Inglaterra e
retornou ao palácio a fim de aconselhar-se.
Poucos dias mais tarde, a Imperatriz deferiu o pedido de Sir Alexander.
Quase um ano depois, o ministro, acompanhado pelo mandarim, deixou de
novo Pequim e partiu para o vilarejo de Ha Li Chuan. Ao chegar, Sir Alexander
imediatamente apeou de sua cavalgadura e adentrou a oficina de que tão bem se
lembrava; o velho estava sentado em seu banco, a boina ligeiramente inclinada,
uma peça de marfim por esculpir segura carinhosamente entre os dedos. Ele
desviou os olhos do trabalho e caminhou arrastando os pés em direção ao
ministro, não reconhecendo o visitante até quase poder tocar o gigante
estrangeiro. Curvou-se, então, profundamente. O ministro falou através do
mandarim:
— Voltei, meu senhor, antes de findar o ano civil, para saldar a minha dívida.
— Não era preciso, Vossa Excelência. É uma honra para a minha família que
a estatueta habite uma grande embaixada e possa um dia ser admirada pelo povo
de sua nação.
Não encontrando palavras para formular uma resposta adequada, o ministro
simplesmente pediu ao velho que o acompanhasse numa pequena viagem.
O artesão concordou sem fazer perguntas e os três homens partiram em
lombos de burros em direção ao norte. Por mais de duas horas subiram por
estreitas e sinuosas trilhas as colinas que se erguiam atrás da oficina do artesão;
ao alcançarem o vilarejo de Ma Tien, foram recebidos por outro mandarim, que,
curvando-se profundamente, solicitou ao ministro e ao artesão que seguissem
viagem com ele a pé. Caminharam em silêncio até muito além da aldeia e
pararam somente ao atingirem uma cavidade na montanha, de onde se
descortinava uma esplendida vista do vale até Ha Li Chuan. Na cavidade erguia-
se uma casinha branca recém-construída, com linhas das mais harmoniosas
proporções. Dois leões de pedra, com as línguas projetando-se da boca aberta,
guardavam a porta de entrada. O pequeno velho artesão, que nada dissera desde
que tinha deixado a oficina, continuou sem saber do propósito daquela viagem
até que o ministro, voltando-se para ele, ofereceu:
— Um pequeno e insuficiente presente meu, numa humilde tentativa de
retribuir-lhe em espécie.
O artesão caiu de joelhos pedindo perdão ao mandarim, pois ele devia saber
que a um artesão era proibido aceitar presentes de um estrangeiro. O mandarim
ergueu do chão o amedrontado homem de azul, explicando ao seu compatriota
que a própria Imperatriz aprovara o pedido do ministro. Um sorriso de alegria
tomou conta do rosto do artesão e ele dirigiu-se vagarosamente para a entrada da
bela casinha, não resistindo a deslizar a mão pelos leões esculpidos. Por mais de
uma hora os três viajantes admiraram a casinha antes de voltarem para a oficina
em Ha Li Chuan, compartilhando em silêncio a mesma felicidade. Satisfeito o
ponto de honra, os dois homens separaram-se e Sir Alexander retornou a cavalo
para a Embaixada naquela noite, contente por seu procedimento ter recebido a
aprovação do mandarim e de Lady Heathcote.
O ministro concluiu seu mandato em Pequim, a Imperatriz conferiu-lhe a
Estrela de Prata da China e a Rainha, agradecida, acrescentou a Comenda de
Cavaleiro da Ordem Real Vitoriana à sua já extensa lista de condecorações. Após
passar algumas semanas no Ministério das Relações Exteriores, redigindo os
últimos relatórios sobre a missão na China, Sir Alexander retirou-se para o seu
Yorkshire natal, o único condado inglês em que os habitantes ainda esperam
poder morrer no lugar onde nasceram, a exemplo dos chineses. Sir Alexander
viveu seus últimos anos na casa do falecido pai, em companhia da esposa e do
pequeno Imperador Ming. A estátua ocupava o centro do consolo da lareira na
sala de estar, para que todos a vissem e a admirassem.
Homem exato que era, Sir Alexander fez um longo e pormenorizado
testamento no qual deixou instruções precisas sobre a transmissão de seus bens,
inclusive que destino teria a estatueta após sua morte. Legara o Imperador Kung
ao filho mais velho, instruindo-o que fizesse o mesmo, para que a estátua sempre
passasse ao primeiro filho, ou à primeira filha, caso a descendência direta
masculina viesse a ser interrompida. Dispôs também que a estátua jamais fosse
vendida, a menos que a honra da família estivesse em jogo. Sir Alexander
faleceu à meia-noite em ponto, ao completar setenta anos de idade.
Seu primogênito, o Major James Heathcote, estava servindo à Rainha na
Guerra dos Boêres no momento em que recebeu por herança o Imperador Ming.
O major era um homem guerreiro, lotado junto ao Regimento do Duque de
Wellington, mas, embora tivesse pouco interesse pela cultura, mesmo ele pôde
perceber que aquela herança de família não era um tesouro comum. Assim,
emprestou a estátua para o quartel em Halifax, para que o Imperador, exposto no
refeitório, pudesse ser apreciado pelos seus irmãos de armas.
Quando James Heathcote tornou-se general dos duques, o Imperador
figurava orgulhosamente sobre a mesa, ao lado de troféus conquistados em
Waterloo, Sebastopol, na Crimeia e em Madri. E ali ficou a estátua Ming até o
general retirar-se para a casa do pai, em Yorkshire, oportunidade em que o
Imperador voltou ao consolo da lareira da sala de estar. O general não era
homem que desobedecesse ao falecido pai, mesmo depois de morto, e deixou
claras instruções para que a herança de família sempre se transmitisse ao
primogênito dos Heathcote, a menos que a honra da família estivesse em risco.
O General James Heathcote M. C. não teve morte de soldado; certa noite
simplesmente adormeceu junto à lareira, o Yorkshire Post no colo.
Naquela época, o primogênito do general, o Reverendo Alexander
Heathcote, presidia um pequeno grupo de fiéis na paróquia de Much Hadham,
em Hertfordshire. Depois de enterrar o pai com honrarias militares, colocou o
pequeno Imperador Ming sobre o consolo da lareira do presbitério. Poucos
membros da Liga de Mães apreciaram a obra-prima, mas uma ou duas velhas
senhoras chegaram a fazer comentários sobre a delicadeza de seu entalhe. E
somente depois de o Reverendo tornar-se Reverendíssimo, e de a estatueta
encontrar seu lugar no palácio episcopal, o Imperador atraiu a merecida
admiração. Muitos dos que visitavam o palácio, e que tinham ouvido a história
de como o avô do bispo adquirira a estátua Ming, ficavam fascinados ao
constatarem a disparidade entre a magnífica estátua e a base que a sustentava. O
assunto sempre ensejava uma boa conversa após o jantar.
Deus leva até mesmo Seus próprios embaixadores, mas Ele não o fez sem
antes permitir que o Bispo Heathcote concluísse um testamento, segundo o qual
deixava a estátua para o filho, com as exatas instruções do avô devidamente
reiteradas. O filho do bispo, o Capitão James Heathcote, era um oficial lotado no
regimento do avô, de modo que a estátua Ming retornou à mesa do refeitório em
Halifax. Durante a ausência do Imperador, os troféus regimentais foram
acrescidos pelos conquistados em Ypres, Marne e Verdun, O regimento achava-
se de novo em guerra com a Alemanha, e o jovem Capitão James Heathcote foi
morto nas praias de Dunquerque, sem deixar testamento. Por conseguinte,
prevalecendo a lei inglesa, a conhecida vontade de seu bisavô e o senso comum,
o pequeno Imperador passou a pertencer ao filho do capitão, de dois anos de
idade.
Alex Heathcote não tinha, lamentavelmente, o mesmo caráter de seus
valorosos antepassados e cresceu sem nenhum desejo de servir a ninguém que
não fosse ele mesmo. Quando da trágica morte do Capitão James, a mãe de
Alexander cercou profusamente o menino de tudo o que lhe permitiam os seus
parcos rendimentos. Isso nada remediou, e não foi inteiramente por culpa do
jovem Alex que ele se tornou, nas palavras de sua avó, um pirralho mimado e
egoísta.
Quando deixou a escola, apenas um pouco antes de estar na iminência de
uma expulsão, Alex concluiu que jamais conseguiria sujeitar-se a um emprego
por mais de algumas semanas. Sempre lhe parecia necessário gastar um pouco
mais do que ele, e em última instância sua mãe, podia suportar. A boa senhora,
sentindo que não tinha mais forças para levar aquela vida, partiu para reunir-se
aos outros Heathcote, não em Yorkshire, mas no céu.
Quando se abriram os cassinos na Inglaterra, nos agitados anos 60, o jovem
Alex estava convencido de que tinha encontrado a forma ideal de ganhar a vida
sem de fato precisar trabalhar. Desenvolvera um sistema de jogar na roleta com o
qual era impossível perder. Mas, com efeito, perdeu. Aperfeiçoou então o
sistema, mas logo perdeu mais; tornou a aperfeiçoá-lo e, como resultado, viu-se
obrigado a tomar dinheiro emprestado para cobrir os prejuízos. Por que não? Se
acontecesse o pior, consolava-se, sempre poderia vender o pequeno Imperador
Ming.
O pior aconteceu, na medida em que cada um dos sucessivamente
aperfeiçoados sistemas de Alex o levava, gradativamente, a uma dívida cada vez
maior — até que os cassinos começaram a exigir-lhe o pagamento. Numa manhã
de segunda-feira, Alex finalmente cedeu ao receber a inesperada visita de dois
homens que pareciam decididos a cobrar-lhe cerca de oito mil libras devidas aos
seus patrões e que chegaram a lhe fazer ameaças veladas de agressão física caso
o assunto não fosse resolvido dali a catorze dias. Afinal, as instruções de seu
trisavô tinham sido precisas: a estátua Ming poderia ser vendida se a honra da
família estivesse eventualmente em jogo.
Alex tirou o pequeno Imperador de cima do consolo da lareira de seu
apartamento, em Cadogan Gardens, e examinou o delicado trabalho artesanal,
tendo ao menos o cuidado de sentir uma certa tristeza por ter de se privar da
herança de família. Dirigiu-se em seguida para Bond Street e entregou a obra-
prima à Sotheby, instruindo-os de que o Imperador fosse posto a leilão.
O chefe do departamento de arte oriental, um homem magro e pálido,
apareceu à mesa de recepção para examinar a obra-prima com Alex, de alguma
maneira ele se parecia muito com a estátua Ming que segurava tão
carinhosamente nas mãos.
— Serão necessários alguns dias para estimarmos o valor real da peça —
disse ele em tom satisfeito —, mas estou quase certo, após este exame
superficial, de que a estátua é a mais admirável das peças de Pen Q que jamais
apregoamos em leilão.
— Isso não é problema — retrucou Alex —, desde que o senhor possa me
informar sobre seu valor dentro de duas semanas.
— Oh, certamente — respondeu o especialista. — Estou certo de que poderei
lhe dar o preço mínimo já na sexta-feira.
— Não poderia ser melhor — disse Alex.
Durante aquela semana, ele contatou todos os seus credores, que, sem
exceção, se declararam prontos a aguardar a avaliação do especialista. Alex
voltou pontualmente a Bond Street na sexta-feira com um largo sorriso nos
lábios. Sabia quanto seu trisavô pagara pela peça e tinha certeza de que a estátua
devia valer mais de dez mil libras. Uma importância que lhe permitiria não
apenas cobrir todas as dívidas mas também, com o que sobrasse, pôr à prova seu
recém-aperfeiçoado sistema na mesa de roleta. Enquanto subia os degraus da
Sotheby, Alex agradecia intimamente ao trisavô. Pediu à recepcionista para falar
com o chefe do departamento de arte oriental. Ela falou pelo interfone e dali a
instantes o especialista apareceu à primeira mesa com uma expressão grave no
rosto. O coração de Alex quase parou de bater ao ouvir as palavras que o homem
tinha para lhe dizer:
— Uma bela peça, o seu Imperador, mas, lamentavelmente, falsa;
provavelmente feita há duzentos, duzentos e cinquenta anos, mas apenas uma
cópia da original. As cópias eram muito comuns, porque...
— Quanto ela vale? — interrompeu-o, ansioso, Alex.
— Setecentas libras, oitocentas no máximo.
O suficiente para comprar um revólver e algumas balas, pensou Alex com
sarcasmo, enquanto se voltava e começava a afastar-se.
— Senhor, será que...? — continuou o especialista.
— Sim, sim, venda essa droga — disse Alex, sem se dar ao trabalho de olhar
para trás.
— E o que o senhor deseja que eu faça com a base?
— A base? — repetiu Alex, virando-se para encarar o orientalista.
— Sim, a base. Ela é realmente magnífica, século XV, sem dúvida uma obra
de gênio. Não posso imaginar como...
— Lote n° 103 — anunciou o leiloeiro. — Quanto me oferecem por este
magnífico exemplar de... ?
O especialista acertara em sua avaliação. No leilão da Sotheby, naquela
manhã de quinta-feira, adquiri o pequeno Imperador por setecentos e vinte
guinéus. A base? Foi comprada por um senhor americano, descendência de
forma nenhuma desconhecida, por vinte e dois mil guinéus.

The chinese statue


O almoço
Ela acenou para mim do outro lado do apinhado salão do Hotel St. Regis, em
Nova Iorque. Acenei de volta, percebendo que o rosto não me era estranho,
embora não fosse capaz de reconhecê-lo. Ela veio se comprimindo entre garçons
e convidados e chegou até mim antes que eu pudesse perguntar a alguém quem
era ela. Espremi aquela parte dos miolos que arquiva pessoas, mas dela não
consegui resposta alguma. Percebi, então, que teria de lançar mão daquele velho
truque, comum em reuniões sociais: formular cautelosas perguntas até que as
respostas dela me estimulassem a memória.
— Como vai, meu amor? — gritou ela, me dando um abraço, numa
introdução que em nada ajudou, já que estávamos num coquetel da Sociedade
Literária e nessas ocasiões todo mundo abraça todo mundo, até mesmo os
diretores do Clube do Livro do Mês. Seu sotaque denunciava claramente que ela
era americana; aparentava estar perto dos quarenta, mas, apesar dos milagres da
maquiagem moderna, podia até mesmo tê-los ultrapassado. Usava um longo
vestido branco social e o cabelo louro estava penteado para o alto, num daqueles
coques que lembram um pão de açúcar. O efeito geral fazia-a parecer um pouco
com uma rainha de xadrez. É claro que o pão de açúcar também não ajudava em
nada, porque na última vez em que nos vimos ela bem poderia ter usado cabelos
pretos soltos sobre os ombros. Eu de fato gostaria que as mulheres tivessem
perfeita consciência de que, quando mudam o estilo do penteado, elas muitas
vezes conseguem atingir exatamente o que pretendem: parecerem
completamente diferentes aos olhos de um homem ingênuo.
— Bem, obrigado — disse eu à rainha branca. — E você? — perguntei,
recorrendo ao meu primeiro gambito.
— Estou ótima, meu amor — respondeu, pegando uma taça de champanhe
com um garçom que passava.
— E a família, como vai? — perguntei, sem saber se ela ao menos tinha
uma.
— Estão todos bem — respondeu. Nada que me ajudasse. — E como está
Louise? — indagou.
— Deslumbrante — disse eu. Então ela conhecia a minha mulher! Não
necessariamente, pensei. A maioria das americanas é especialista em guardar os
nomes das esposas dos homens. Têm de ser, porque no circuito de Nova Iorque
eles mudam com tanta frequência que constituem um desafio ainda maior do que
as palavras cruzadas do The Times. — Você tem ido a Londres, ultimamente? —
berrei em meio à balbúrdia. Uma pergunta corajosa, pois era possível que ela
jamais tivesse ido à Europa.
— Uma vez só desde que almoçamos juntos. — Ela me lançou um olhar
zombeteiro. — Não está se lembrando de mim, não é? — perguntou, enquanto
devorava um aperitivo de salsicha.
Sorri.
— Não seja tola, Susan — respondi. — Como eu poderia esquecer?
Ela sorriu.
Confesso que me lembrei do nome da rainha branca na hora H. Embora
guardasse apenas uma vaga lembrança daquela senhora, certamente jamais me
esqueceria daquele almoço.
Eu tinha acabado de publicar meu primeiro livro e os críticos dos dois lados
do Atlântico tinham sido favoráveis, embora os cheques dos meus editores não
chegassem a tanto. Por diversas ocasiões meu agente literário tinha me alertado
de que eu não deveria escrever se quisesse ganhar dinheiro. Isso criava um
dilema, porque eu não via como ganhar dinheiro sem escrever.
Fiquei contente por ela não poder ver a minha cara de infeliz, enquanto, com
uma naturalidade inabalável, ela acrescentava:
— Segunda-feira, a uma da tarde. Deixe que eu mesma faço a reserva... sou
conhecida lá.
No dia marcado, pus o meu único terno decente, uma camisa nova que desde
o Natal estava guardada para uma ocasião especial, e a única gravata que não
dava a impressão de já ter sido usada como suspensório. Fui então ao banco e
pedi um extrato da minha conta corrente. O caixa me entregou um pedaço de
papel desproporcionalmente grande em relação à quantia registrada. Examinei a
cifra como quem estava para tomar uma importante decisão financeira. A última
linha, em caracteres pretos, mostrava que o meu saldo era de trinta e sete libras e
sessenta e três pence. Preenchi um cheque de trinta e sete libras. Acredito que
um cavalheiro deve sempre manter sua conta em saldo positivo, e posso
acrescentar que o meu gerente de banco partilhava desta mesma crença. Em
seguida me dirigi ao Mayfair, para o almoço marcado.
Assim que entrei no restaurante, observei garçons e cadeiras aveludadas
demais para o meu gosto. A gente pode nem comer, mas paga por tudo isso!
Numa mesa de canto para dois, estava sentada uma mulher que, embora não
fosse jovem, era elegante. Usava uma blusa azul-pálido de crepe da China e
penteara o cabelo louro para trás, num estilo que lembrava os anos de guerra e
que tinha voltado à moda. Era, sem dúvida, a minha admiradora transatlântica,
que me saudou ao estilo “te conheço há muito tempo”, como o faria anos depois
no coquetel de recepção da Sociedade Literária. Embora ela estivesse tomando
um drinque, não pedi nenhum aperitivo, explicando que nunca tomava nada
antes do almoço... E gostaria de ter ajuntado: “Mas, assim que seu marido
transformar em filme um romance meu, passarei a tomar”.
Ela logo desandou a falar dos últimos mexericos de Hollywood, declamando
os nomes das pessoas em vez de enumerá-los, enquanto eu ia forrando o
estômago de batatas fritas. Minutos depois, um garçom apareceu junto à mesa e
nos presenteou com dois enormes cardápios com capa de couro gravada em
relevo, consideravelmente mais bem encadernados do que os exemplares do meu
romance. O lugar, positivamente, cheirava a despesa desnecessária. Abri o
cardápio e, tomado de horror, examinei o primeiro capítulo: era francamente
afrontoso! Não me entrava na cabeça como simples alimentos comprados em
Covent Gardens naquela manhã pudessem custar os olhos da cara apenas por
terem sido transportados para Mayfair. Eu poderia ter oferecido a ela os mesmos
pratos por um quarto do preço no meu bistrô predileto, a apenas uma centena de
metros dali... E para aumentar ainda mais meu desconforto, observei que se
tratava de um daqueles restaurantes onde o cardápio destinado aos convidados
não traz a relação de preços. Pus-me a examinar a longa lista de pratos franceses,
que serviu apenas para me lembrar que eu não me alimentava bem havia mais de
um mês, situação que estava por se prolongar por mais um dia. Lembrei-me do
saldo bancário e sombriamente pensei que, antes de poder arcar outra vez com
uma boa refeição, provavelmente teria de esperar que o meu agente negociasse
os direitos autorais do meu romance com a Islândia.
— O que gostaria de pedir? — perguntei cavalheirescamente.
— No almoço, gosto de comida leve — informou ela com espontaneidade.
Suspirei no meu alívio precipitado, somente para constatar que “leve” não
significava, necessariamente, “barato”.
Ela sorriu suavemente para o garçom, que, ele sim, dava a impressão de que
não tinha a menor dúvida sobre a proveniência de sua próxima refeição, e pediu
somente uma fatia de salmão defumado, seguida de dois pequenos pedaços de
carne tenra de cordeiro. Hesitou, mas apenas por um momento, antes de
acrescentar: “e uma salada simples”.
Eu estudava o cardápio com certa cautela, correndo o indicador, não pelos
pratos, mas pelos preços.
— Eu também sempre faço refeições ligeiras no almoço — disse eu
mentirosamente. — Para mim, basta uma salada completa. — O garçom se
mostrou claramente indignado, mas nos deixou pacificamente.
Ela falou de Coppola e Preminger, de Al Pacino e Robert Redford, e ainda de
Greta Garbo, como se fosse sua amiga mais íntima. Foi bastante gentil em parar
por um instante para me perguntar o que eu estava agitando no momento. Eu
bem que gostaria de ter respondido que não sabia como iria explicar à minha
mulher que no banco me restavam apenas sessenta e três pence — mas de fato
acabei comentando as minhas ideias para o próximo romance. Ela pareceu bem
impressionada, mas nem assim fez qualquer referência ao marido. Deveria eu
mencioná-lo? Não. Não devia dar uma de abusado ou de quem estivesse
precisando do dinheiro.
A comida chegou — isto é, o salmão defumado dela chegou — e eu fiquei
em silêncio, beliscando um pãozinho, observando-a comer minha conta bancária.
Ergui os olhos apenas para descobrir um sommelier esvoaçando ao meu lado.
— Não apreciaria um vinho? — arrisquei, corajoso.
— Não, acho que não — fez ela.
Sorri um tanto cedo demais:
— Bem, talvez um vinhozinho branco seco.
O sommelier me entregou um segundo livro encadernado em couro, desta
vez com uvas douradas gravadas em relevo na capa. Procurei pelas meias
garrafas na parte inferior das páginas, explicando à minha convidada que eu
nunca bebia no almoço. Escolhi o mais barato. Um momento depois, o
sommelier reapareceu com um grande balde de prata cheio de gelo, no qual a
meia garrafa parecia estar se afogando e, como eu, perdendo o pé
completamente. Um auxiliar de garçom levou o prato vazio enquanto outro
empurrava um carrinho para o lado da nossa mesa e servia os pedaços de
cordeiro e a salada completa. Ao mesmo tempo, um terceiro garçom preparava
para a minha convidada uma requintada salada simples, na verdade bem maior
que a completa que eu pedira.
Para ser sincero, a salada completa estava excelente — embora, confesse,
não me fosse muito fácil degustar plenamente o prato enquanto tentava articular
um plano praticável para o caso de a conta ultrapassar trinta e sete libras.
— Que besteira a minha pedir vinho branco com cordeiro — disse ela,
depois de ter quase esvaziado a meia garrafa. Pedi outra meia garrafa de vinho
tinto da casa, sem consultar o cardápio de vinhos.
Ela acabou com o vinho branco e desandou a falar de teatro, música e outros
escritores. Todos os que ainda estavam vivos ela parecia conhecer, mas todos os
que já estavam mortos ela não tinha lido. Eu até poderia ter apreciado o
espetáculo se não me assaltasse o medo de não poder arcar com a despesa depois
que caísse o pano. Ao recolher os pratos vazios o garçom perguntou à minha
convidada se ela desejava mais alguma coisa.
— Não, obrigada — fez ela, e eu quase aplaudi. — A menos que vocês
tenham uma das suas famosas surpresas de maçã.
— Acho que a última já foi servida, madame, mas vou verificar.
Não tenha pressa, eu quis dizer, mas em vez disso apenas sorri, enquanto
sentia a corda apertando no meu pescoço. Instantes depois, o garçom, serpeando
entre as mesas com passadas largas, voltava triunfante com a surpresa de maçã,
que erguia acima da cabeça na palma da mão. Invoquei Newton para que a maçã
obedecesse à sua lei. Não obedeceu.
— A última, madame.
— Oh, que sorte! — festejou ela.
— Oh, que sorte! — repeti, desviando o olhar do cardápio para não descobrir
o preço. Estava eu agora tentando fazer uma aritmética mental e percebi que só
escaparia por um triz.
— Mais alguma coisa, madame? — perguntou o garçom, insinuante.
Suspendi a respiração.
— Um cafezinho — disse ela.
— E para o senhor?
— Não, não, para mim não. — Ele se afastou. Não consegui encontrar uma
explicação para não tomar o café.
Ela então tirou da enorme bolsa Gucci ao seu lado um exemplar do meu
romance, que autografei com uma assinatura floreada, na esperança de que o
chefe dos garçons me visse e concluísse que eu era o tipo de homem a quem se
podia dar a conta para assinar — mas ele permaneceu firme do outro lado do
salão, enquanto eu escrevia “um inesquecível encontro” e acrescentava minha
assinatura.
Enquanto a cara senhora tomava o cafezinho, belisquei outro pãozinho e pedi
a conta — não porque tivesse alguma pressa, mas porque, como um réu culpado
em julgamento no Old Bailey, eu preferia não esperar muito mais tempo pela
sentença do juiz. Um homem que até então eu nunca vira, trajando um elegante
uniforme verde, apareceu trazendo uma bandeja de prata com uma folha de
papel dobrada, muito parecida com o meu extrato bancário. Levantei bem
devagar a pontinha da nota e li: trinta e seis libras e quarenta pence.
Despreocupadamente, coloquei minha mão no bolso interno do paletó, saquei
todas as posses da minha vida e depositei as notas estalando de novas na bandeja
de prata, prontamente retirada. O homem de uniforme verde voltou instantes
depois com o meu troco de sessenta pence, que logo tratei de embolsar, já que
sem ele não poderia pagar o ônibus de volta para casa. O garçom me lançou um
olhar que sem dúvida alguma lhe teria garantido um papel de vilão em qualquer
filme produzido pelo ilustre marido da senhora.
Minha convidada se levantou e atravessou o restaurante, acenando e de vez
em quando beijando pessoas que eu até então só vira em revistas. Ao chegar à
porta, parou para reaver o casaco de visom. Ajudei-a a vesti-lo, novamente sem
dar gorjeta. Quando estávamos na calçada de Curzon Street, um Rolls-Royce
azul-escuro encostou; um motorista de libré saltou para fora e abriu a porta de
trás. Ela entrou.
— Adeus, querido — disse, enquanto baixava a janela automática. —
Obrigada por um almoço tão delicioso.
— Adeus — disse eu, e, reunindo toda a minha coragem, acrescentei: — Na
próxima vez que você estiver na cidade, espero ter a oportunidade de conhecer
seu ilustre marido.
— Oh, meu amor, então você não soube? — disse ela me olhando do Rolls-
Royce.
— Soube o quê?
— Há séculos que nos divorciamos.
— Divorciaram? — fiz eu.
— Pois é — fez ela jovialmente. — Há anos não falo com ele.
Fiquei ali parado, sem saber o que pensar.
— Oh, não se preocupe por minha causa — disse. — Ele não faz falta. Seja
como for, me casei de novo recentemente. — Outro produtor de cinema, torci.
— Aliás, eu estava certa de que hoje ia topar com o meu marido... Veja você, ele
é dono deste restaurante.
Sem outra palavra, a janela elétrica subiu com um ruído surdo e o Rolls-
Royce arrancou suavemente até desaparecer, deixando-me só para que eu
andasse até o ponto de ônibus mais próximo.
Ali, cercado pelos convidados da Sociedade Literária, enquanto olhava
fixamente para a rainha branca com seu coque pão de açúcar, eu ainda podia vê-
la partindo naquele Rolls-Royce azul. Tentei me concentrar nas palavras que
dizia:
— Eu sabia que você não me esqueceria, meu amor — afirmava ela. —
Afinal de contas, eu o levei para almoçar, não levei?

The luncheon
O golpe
O jato 707 azul e prata, ostentando um grande “P” pintado em seu
estabilizador, deslizou sobre a pista e foi parar na cabeceira norte do Aeroporto
Internacional de Lagos. Uma frota de seis Mercedes pretos aproximou-se da
lateral do avião e esperou em fila, numa disposição que lembrava um crocodilo.
Seis motoristas, suados e uniformizados, saltaram dos carros e puseram-se de
prontidão, Assim que o motorista do primeiro carro abriu a porta traseira, o
Coronel Usman, da Guarda Federal, desceu e caminhou apressadamente até o pé
da escada de passageiros, trazida às pressas por quatro funcionários do
aeroporto.
A porta da cabina na seção dianteira abriu-se e o coronel, olhando fixamente,
avistou, no vão, contra a penumbra do interior da cabina, a silhueta de uma
aeromoça esguia e encantadora, vestindo um tailleur azul com debrum prateado.
Na lapela de seu paletó havia um grande “P”. Ela voltou-se na direção da cabina
e fez um sinal de cabeça. Segundos depois, um homem de estatura elevada,
impecavelmente vestido, de bastos cabelos pretos e olhos castanho-escuros,
tomou-lhe o lugar no vão da porta. O homem possuía um porte naturalmente
elegante que outros milionários à custa de muito esforço pagariam boa parte de
sua fortuna para possuir. O coronel bateu continência quando o Senhor Eduardo
Francisco de Silveira, comandante do império Prentino, fez um breve
cumprimento de cabeça.
Silveira deixou a agradável temperatura do ar condicionado do 707 para
entrar no calor do causticante sol nigeriano sem demonstrar o menor sinal de
desconforto. O coronel conduziu o alto e distinto brasileiro, que se fazia
acompanhar por seu secretário particular, até o primeiro Mercedes, enquanto os
demais funcionários da Prentino desciam em fila a escada colocada na traseira
do avião e ocupavam os outros cinco carros. O motorista, um cabo que fora
destacado para servir dia e noite ao ilustre visitante, abriu a porta de trás do
primeiro carro e faz continência. Eduardo de Silveira não mostrou sinal de
reconhecimento. O cabo sorriu nervosamente, revelando a dentadura mais
branca que o brasileiro jamais vira.
— Bem-vindo a Lagos -— arriscou o cabo. — Espero que realize bons
negócios durante sua estada na Nigéria.
Eduardo nada comentou. Recostou-se no banco e pôs-se a observar, através
da janela embaçada, a longa fila dos passageiros do 707 da British Airways, que
aterrissara pouco antes dele, que, de pé na pista escaldante, esperavam
pacientemente passar pela alfândega. O motorista engatou a primeira marcha e o
crocodilo preto iniciou sua viagem. O Coronel Usman, agora sentado no banco
da frente ao lado do motorista, logo descobriu que o visitante brasileiro não era
de muita conversa, e que seu secretário, sentado ao seu lado, em nenhum
momento abriu a boca. Acostumado a tomar como exemplo a conduta alheia, o
coronel permaneceu em silêncio, deixando Silveira refletir sobre o plano de sua
campanha na Nigéria.
Eduardo Francisco de Silveira nascera na pequena cidade de Rebeti, 160
quilômetros ao norte do Rio de Janeiro, herdeiro de uma das duas maiores
fortunas familiares do Brasil. Recebera instrução particular na Suíça e em
seguida cursara a Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Completou os
estudos na Escola de Comércio de Harvard. Depois de formado, deixou os
Estados Unidos para trabalhar no Brasil, onde não começou nem por cima nem
por baixo na firma, mas pelo meio, gerenciando a empresa de mineração da
família em Minas Gerais. Em pouco tempo conseguiu chegar ao topo da
hierarquia, mais rápido até do que o pai imaginara, mas então o rapaz mostrou
que filho de peixe, mais que peixinho é. Aos 29 anos, casou-se com Maria, a
filha mais velha do melhor amigo do pai, e quando este veio a falecer, doze anos
depois, Eduardo o sucedeu no trono da Prentino. Eram ao todo sete filhos:
Alfredo, o segundo, cuidava dos negócios bancários; loão gerenciava a
expedição; Carlos organizava a construção; Manuel providenciava mantimentos
e suprimentos; Jaime administrava os jornais da família; e o caçula Antonio, o
último — mas não menos importante —, dirigia as fazendas. Todos dirigiam-se a
Eduardo antes de tomar qualquer decisão importante, pois ele ainda era o
presidente da maior empresa privada do Brasil, não obstante as pretensões
arrogantes de seu velho inimigo de família, Manuel Rodrigues.
Quando o regime militar do General Castelo Branco depôs o governo civil,
em 1964, os generais, uma vez que não podiam eliminar todos os Silveira ou os
Rodrigues, concordaram que era melhor aprender a conviver com as duas
famílias rivais. Os Silveira, de sua parte, sempre tiveram o bom senso de nunca
se envolverem em política, a não ser distribuindo recompensas financeiras a
membros do governo, militares ou civis, conforme seu escalão. Isto assegurava
que o império Prentino crescesse independentemente da facção que subisse ao
poder. Uma das razões por que Eduardo de Silveira reservara três dias de sua
abarrotada agenda para uma visita a Lagos era a grande semelhança entre os
sistemas de governo nigeriano e o brasileiro, e ao menos naquele projeto ele
conseguira frustrar os planos de Manuel Rodrigues, o que compensaria
plenamente a perda da concorrência do aeroporto do Rio em favor do rival.
Eduardo sorriu ao pensar que Rodrigues nem sequer o imaginava na Nigéria para
fechar um negócio que o tornaria duas vezes mais poderoso que ele.
Enquanto o Mercedes preto movia-se lentamente pelas ruas barulhentas e
congestionadas, sem respeitar os vermelhos ou verdes dos semáforos, Eduardo
recordava-se de seu primeiro encontro com o General Mohammed, o Chefe de
Estado nigeriano, por ocasião de sua visita oficial ao Brasil. Falando durante o
jantar oferecido em homenagem ao General Mohammed, o Presidente Ernesto
Geisel manifestou sua esperança de que as duas nações chegassem a uma
cooperação mais estreita nos campos político e comercial. Eduardo concordava
com seu líder não-eleito e com a maior satisfação deixaria a política para o
presidente se este lhe permitisse desenvolver a parte comercial. O General
Mohammed formulou sua resposta em nome dos convidados, com um sotaque
britânico que normalmente só se atribuía a Oxford. Discorreu longamente sobre
o projeto que lhe era mais caro, a construção de uma nova capital nigeriana em
Abuja, uma cidade que, no seu entender, poderia até mesmo rivalizar com
Brasília. Encerrados os discursos, o general chamou Silveira de lado e, depois de
lhe falar mais detidamente sobre o projeto da cidade de Abuja, perguntou se ele
não gostaria de refletir sobre a possibilidade de apresentar uma proposta sua.
Eduardo sorriu e apenas desejou que seu inimigo, Rodrigues, estivesse ouvindo
aquela conversa confidencial com o Chefe de Estado nigeriano.
Eduardo examinou atentamente a proposta inicial que recebeu uma semana
mais tarde, após o retorno do general à Nigéria, e, concordando com o que lhe
tinha sido solicitado, enviou a Lagos uma equipe de sete pesquisadores para que
concluíssem um estudo sobre a viabilidade de Abuja.
Um mês depois o minucioso relatório da equipe estava nas mãos de Silveira.
Eduardo chegou à conclusão de que a lucratividade potencial do projeto
justificava a elaboração de um estudo completo endereçado ao governo
nigeriano. Contatou pessoalmente o General Mohammed e verificou que ele
estava de pleno acordo e autorizava o prosseguimento do trabalho. Desta vez,
vinte e três homens foram enviados a Lagos e, três meses e cento e setenta
páginas depois, Eduardo assinou e chancelou o projeto denominado “Uma nova
capital para a Nigéria”. Fez apenas uma alteração no documento final. A capa da
proposta era azul e prata, com o logotipo da Prentino estampado no centro;
Eduardo mudou-a para verde e branco, as cores nacionais da Nigéria, com o
emblema nacional de uma águia sobre dois cavalos: aprendera que pequenas
coisas é que impressionavam os generais e faziam pender a balança. Mandou ao
Chefe de Estado da Nigéria dez exemplares do estudo de viabilidade, junto com
uma fatura no valor de um milhão de dólares.
Depois de estudar a proposta, o General Mohammed convidou Eduardo de
Silveira para ir à Nigéria como seu hóspede, a fim de discutirem a etapa seguinte
do projeto. Silveira respondeu por telex, em princípio aceitando o convite e
lembrando, polida mas firmemente, que ainda não tinha recebido o
ressarcimento do um milhão de dólares gasto no estudo inicial de viabilidade.
Em resposta o dinheiro foi mandado por telex pelo Banco Central da Nigéria e
Silveira conseguiu encontrar quatro dias consecutivos de sua agenda para o
“Projeto da Nova Capital Federal”. Seu programa exigia que chegasse a Lagos
numa manhã de segunda-feira, porque teria de estar em Paris o mais tardar na
noite de quinta-feira.
Enquanto esses pensamentos atravessavam a mente de Eduardo, o Mercedes
se deteve diante de Dodan Barracks. Os portões de ferro abriram-se e um guarda
apresentou armas, numa saudação normalmente reservada apenas a um Chefe de
Estado em visita. O Mercedes preto transpôs lentamente os portões e parou
diante da residência presidencial. Um brigadeiro esperava nos degraus da escada
para conduzir Silveira até a presença do presidente.
Os dois homens almoçaram numa pequena sala que lembrava muito um
rancho de oficiais britânicos. A refeição consistia de um bife que não teria sido
apreciado nem mesmo por um vaqueiro sul-americano, rodeado por legumes que
despertaram em Eduardo lembranças do tempo de escola. Até aquele momento,
contudo, Eduardo jamais conhecera um soldado que compreendesse que um bom
cozinheiro-chefe era tão importante quanto um bom ordenança. Durante o
almoço conversaram genericamente sobre os problemas envolvidos na
construção de uma nova cidade, inteiramente incrustada na floresta equatorial.
A estimativa provisória do custo do projeto fora de um milhão de dólares,
mas, quando Silveira alertou o presidente de que, concluída a obra, seu
orçamento poderia alcançar, aproximadamente, três milhões de dólares, o
presidente ficou um tanto alarmado. Silveira tinha de admitir que aquele seria o
mais ambicioso projeto já assumido pela Prentino International, mas não deixou
de salientar ao presidente que o mesmo seria verdadeiro para qualquer empresa
construtora do mundo.
Silveira, um homem que não punha seus maiores trunfos na mesa antes de
chegar o momento oportuno, esperou até o café para introduzir o assunto de que
acabara de ganhar a concorrência, contra um grupo de fortes opositores (que
incluía Rodrigues), para construir uma rodovia de oito pistas que atravessaria a
selva amazônica e, eventualmente, faria ligação com a Pan-americana; um
contrato inferior em grandeza apenas àquele que agora pretendiam fechar na
Nigéria. Impressionado, o presidente quis saber se o empreendimento não
impediria Silveira de envolver-se no projeto da nova capital.
— Terei uma resposta a esta pergunta dentro de três dias — respondeu o
brasileiro, e comprometeu-se a manter um breve encontro com o Chefe de
Estado ao final de sua visita, quando lhe esclareceria se estava ou não em
condições de assumir a execução da obra.

Após o almoço, Eduardo foi levado ao Federal Palace Hotel, cujo sexto
andar inteiro fora colocado à sua disposição. A vários hóspedes queixosos que
estavam na Nigéria para fechar negócios que envolviam alguns meros milhões a
gerência do hotel solicitou que desocupassem seus quartos imediatamente, de
modo que abrigassem Silveira e sua comitiva. Eduardo nada sabia desse
procedimento, já que sempre havia um quarto disponível para ele em qualquer
parte do mundo em que chegasse.
Os seis Mercedes estacionaram diante do hotel e o coronel guiou seu tutelado
pela porta de vaivém, passando direto pela recepção. Eduardo não fazia um
registro de entrada num hotel havia catorze anos, salvo nas ocasiões em que
preferia registrar-se com nome falso, não desejando que se conhecesse a
identidade da mulher que eventualmente o acompanhasse.
O presidente da Prentino International cruzou o centro do corredor principal
do hotel e entrou no elevador que esperava. Suas pernas fraquejaram e ele de
repente sentiu-se mal. No canto do elevador estava um homem excessivamente
gordo, atarracado, calvo, vestindo calças jeans surradas e camiseta, abrindo e
fechando a boca ao mascar um chiclete. Os dois homens mantiveram-se distantes
um do outro o mais possível, sem darem o menor sinal de reconhecimento. O
elevador parou no quinto andar e Manuel Rodrigues, presidente da Rodrigues
International S.A., saiu, deixando atrás de si o homem que havia trinta anos era
seu inimigo figadal.
Ainda aturdido, Eduardo procurou equilibrar-se agarrando o anteparo do
elevador. Como desprezava aquele novo-rico inculto e batalhador, cuja família
de quatro meios-irmãos, todos de pais diferentes, arrogava-se a direção da maior
empresa construtora do Brasil. Os dois homens estavam tão interessados um no
fracasso do outro quanto em seu próprio sucesso pessoal.
Eduardo ficou um tanto intrigado com a presença de Rodrigues em Lagos,
uma vez que tinha certeza de que seu adversário não fizera nenhum contato
prévio com o presidente nigeriano. Afinal, Eduardo jamais cobrara o aluguel da
pequena casa no Rio em que morava a amante de um antigo funcionário do
departamento de protocolo do governo. E a única tarefa daquele homem era
assegurar que Rodrigues nunca fosse convidado a qualquer solenidade a que
comparecesse um dignitário em visita ao Brasil. A sistemática ausência de
Rodrigues nessas cerimônias governamentais garantia a “distração” do agente
imobiliário de Eduardo no Rio.
Eduardo jamais admitiria explicitamente que a presença de Rodrigues o
preocupava, mas, apesar disso, resolveu averiguar imediatamente o motivo que
trouxera o velho inimigo à Nigéria. Assim que chegou à suíte, instruiu o
secretário particular de que verificasse o que tramava Manuel Rodrigues.
Eduardo estava pronto para retornar imediatamente ao Brasil se descobrisse que
Rodrigues estava de algum modo envolvido no projeto da nova capital, ao
mesmo tempo que a jovem senhora do Rio se veria de uma hora para outra
obrigada a procurar outras acomodações.

Uma hora depois o secretário particular voltou com a informação. Rodrigues,


segundo descobrira, encontrava-se na Nigéria para apresentar uma proposta de
contrato para a construção de um novo porto em Lagos e tudo indicava não estar,
de modo algum, envolvido no projeto da nova capital — com efeito, ainda
estava tentando marcar uma entrevista com o presidente.
— Qual é o ministro responsável pelos portos e em que dia serei recebido
por ele? — perguntou Silveira.
O secretário particular consultou a agenda de compromissos.
— O ministro dos Transportes — respondeu. — O senhor tem uma entrevista
marcada com ele para as nove horas da manhã de quinta-feira. — A
administração pública nigeriana programara para Silveira quatro dias de
encontros com cada um dos ministros envolvidos no projeto da nova cidade. —
É o último encontro antes do acerto definitivo com o presidente. Em seguida o
senhor voará para Paris.
— Ótimo. Lembre-me desta conversa cinco minutos antes de eu me avistar
com o ministro e depois, mais uma vez, quando eu me reunir com o presidente.
O secretário fez uma anotação na agenda e retirou-se.
Eduardo ficou sozinho na suíte, reexaminando os relatórios sobre o projeto
da nova capital que lhe foram submetidos à apreciação pelos seus especialistas.
Alguns elementos de sua equipe já mostravam sinais de nervosismo. Uma
preocupação que sempre surgia com um grande contrato era a capacidade do
contratante de pagar o principal, e pagar pontualmente. A menor falha, nesse
aspecto, representava o caminho mais rápido para a falência. Mas desde a
descoberta de petróleo na Nigéria aparentemente não havia escassez de divisas, e
decerto nenhuma escassez de gente disposta a bancar esse empreendimento ao
lado do governo. Essas preocupações não afligiam Silveira, uma vez que ele
sempre insistia no pagamento antecipado de uma considerável parcela; do
contrário nem ele nem sua numerosa equipe conseguiriam aventurar-se um
centímetro fora do Brasil. Entretanto, o poderoso alcance daquele contrato
específico tornava as circunstâncias algo extraordinárias. Eduardo sabia que, se
iniciasse aquela tarefa e não lograsse concluí-la, sua reputação internacional
ficaria seriamente prejudicada. Tornou então a ler os relatórios durante um
solitário jantar em seu quarto e deitou-se cedo, depois de perder uma hora
tentando inutilmente falar com a mulher pelo telefone.
O primeiro encontro marcado na manhã seguinte era com o diretor do Banco
Central da Nigéria. Eduardo usava um terno recém-saído do alfaiate, uma camisa
nova e sapatos caprichosamente polidos: por quatro dias, ninguém o veria com
as mesmas roupas. Às oito e quarenta e cinco soou uma discreta batida à porta da
suíte e o secretário, ao atender, deparou com o Coronel Usman de prontidão, à
espera para levar Eduardo ao banco. Quando deixavam o hotel, Eduardo viu de
novo Manuel Rodrigues, que, ao subir no BMW, usava as mesmas calças jeans, a
mesma camiseta amarrotada e provavelmente mascava o mesmo chiclete.
Silveira só desviou o olhar mal-humorado do BMW que se afastava quando se
lembrou do encontro da manhã de quinta-feira com o ministro responsável pelos
portos, ao qual se seguiria a entrevista com o presidente.
O diretor do Banco Central da Nigéria tinha por hábito dar as cartas quanto
às formas de pagamento e prazos de entrega. Nunca ouvira alguém informá-lo de
que, se o pagamento atrasasse sete dias, ele poderia considerar o contrato irrito e
nulo e agir como julgasse melhor. O ministro teria feito algum comentário, se
Abuja não fosse o projeto favorito do presidente. Estabelecidas essas condições,
Silveira passou a examinar as reservas do banco, depósitos a longo prazo,
compromissos externos, e avaliou as receitas de petróleo para os cinco anos
seguintes. Deixou o diretor num estado que só poderia ser comparado ao de uma
geleia: reluzente e trêmulo. O compromisso seguinte de Eduardo era um
inevitável almoço de cortesia com o embaixador brasileiro. Detestava tais
obrigações, pois pensava que as embaixadas eram úteis apenas para coquetéis e
conversas fúteis e anacrônicas, nos quais não tinha o menor interesse. A comida
nessas instituições era invariavelmente ruim e a companhia, ainda pior. Verificou
que nesta ocasião não foi diferente e que o único lucro que obteve do encontro
(Eduardo considerava tudo em termos de lucros e perdas) foi a informação de
que Manuel Rodrigues constava numa pequena lista de três empresas
pretendentes a empreender a construção do novo porto de Lagos e estava
aguardando uma audiência com o presidente para sexta-feira, caso ganhasse a
concorrência. Na manhã de quinta-feira haverá uma pequena lista com apenas
duas empresas e nenhuma audiência com o presidente, prometeu Silveira a si
mesmo, e considerou isso o máximo de proveito que tiraria daquele almoço até o
momento em que o embaixador acrescentou:
— Rodrigues parece estar bastante empenhado em que você ganhe o contrato
da nova cidade em Abuja. Anda tecendo elogios a você para todo ministro que
encontra. Engraçado — continuou o embaixador —, sempre pensei que vocês
não simpatizavam um com o outro.
Eduardo não respondeu, pois tentava compreender que artimanha Rodrigues
preparava ao promover sua causa.

Eduardo passou a tarde com o ministro das Finanças e confirmou os acertos


provisórios que fizera com o diretor do banco. Este alertara o ministro das
Finanças para o que poderia ser um encontro com Eduardo de Silveira e o
aconselhara a não se deixar tomar de surpresa pelas incisivas exigências do
brasileiro. Silveira, levando em conta a possibilidade dessa advertência, permitiu
que o pobre homem negociasse um pouco e até mesmo cedeu em alguns
pequenos pontos, sobre os quais poderia falar com o presidente no próximo
encontro do Conselho Superior Militar. Ao sair, deixou o sorridente ministro
convencido de que marcara um ou dois pontos contra o temível sul-americano.

Naquela noite, Eduardo jantou reservadamente com seus assessores mais


experientes que já estavam negociando com os oficiais do segundo escalão dos
ministérios. Cada qual agora apresentava relatórios diários sobre os problemas
que teriam de enfrentar quando trabalhassem na Nigéria. O engenheiro-chefe
apressou-se a salientar que não seria possível contratar mão de obra
especializada a qualquer preço, uma vez que os alemães já haviam
monopolizado o mercado de trabalho em função de seus numerosos projetos de
construção de estradas. Os assessores financeiros também apresentaram um
relatório desalentador sobre companhias internacionais que chegaram a esperar
seis meses ou mais para que seus cheques fossem pagos pelo Banco Central.
Eduardo anotava cada um dos pareceres que lhe davam, mas não se atreveu a
emitir uma opinião. Assim que a equipe se foi, pouco depois das onze horas, ele
resolveu andar um pouco pelas cercanias do hotel antes de recolher-se. Durante o
passeio pelos exuberantes jardins tropicais só conseguiu evitar um confronto
direto com Manuel Rodrigues escondendo-se rapidamente atrás de uma grande
planta iroko. O homenzinho passou mascando ruidosamente seu chiclete,
indiferente ao seu olhar feroz. Eduardo participou a um papagaio cinzento e
tagarela seus pensamentos mais secretos: nesta tarde de quinta-feira, Rodrigues,
você estará voltando para o Brasil com uma pasta cheia de planos que poderão
ser arquivados sob o título de “projetos malogrados”. O papagaio esticou a
cabeça e palreou para ele, como se tivesse partilhado do segredo. Eduardo
permitiu-se sorrir e retornou ao quarto.

No dia seguinte, o Coronel Usman chegou de novo às oito horas e quarenta e


cinco minutos em ponto e Eduardo passou a manhã reunido com o ministro do
Abastecimento e das Cooperativas — ou da falta deles, segundo comentou
posteriormente com seu secretário particular. À tarde reuniu-se com o ministro
do Trabalho, reavaliando a disponibilidade de mão de obra não-especializada e a
ausência total de operários qualificados. Estava chegando depressa à conclusão
de que, apesar do manifesto otimismo dos ministros envolvidos, aquele seria o
mais ingrato contrato que já assumira. Perderia muito mais além de dinheiro se
todo o mundo internacional dos negócios assistisse ao seu retumbante fracasso.
À noite a equipe reuniu-se mais uma vez, resolvendo alguns dos velhos
problemas e descobrindo outros novos. Chegaram à conclusão provisória de que,
se o regime do momento permanecesse no poder, não haveria por que se
preocuparem com pagamento, já que para o presidente a nova cidade era um
projeto prioritário. Tinham mesmo ouvido rumores de que o Exército estaria
disposto a ceder parte de seus efetivos caso se verificasse escassez de mão de
obra qualificada. Eduardo fez uma anotação para que este ponto fosse
confirmado por escrito pelo Chefe de Estado durante seu último encontro no dia
seguinte. Naquela noite, porém, não era o problema da mão de obra que ocupava
os pensamentos de Eduardo ao vestir o pijama de seda. Ele estava rindo sozinho,
exultante com a ideia da iminente e súbita partida de Manuel Rodrigues para o
Brasil. Eduardo dormiu um sono tranquilo.

Na manhã seguinte, levantou-se com as energias renovadas, tomou um banho


de chuveiro e vestiu um novo terno. Os quatro dias iam se revelando dignos de
tanto esforço e uma cajadada só ainda poderia matar dois coelhos. Às oito e
quarenta e cinco já esperava ansiosamente pelo até então pontual coronel. Ele
não apareceu às oito e quarenta e cinco e ainda não o tinha feito quando o
relógio sobre o consolo da lareira deu as nove horas.
Andando enraivecido de um lado para outro na suíte do hotel, Silveira
mandou o secretário particular procurá-lo. Minutos depois ele voltava em pânico
com a notícia de que o hotel se achava cercado por guardas armados. Eduardo
não se alarmou diante da notícia. Passara por oito golpes de estado na vida e
aprendera uma regra de ouro: o novo regime nunca elimina visitantes
estrangeiros, pois precisa de seu dinheiro tanto quanto o governo anterior.
Eduardo tentou obter alguma informação por telefone, mas não obteve resposta.
Ligou o rádio. Transmitia-se uma mensagem gravada:
“Esta é a Rádio Nigéria, esta é a Rádio Nigéria. Houve um golpe de estado.
O General Mohammed foi deposto e o Tenente-Coronel Dimka assumiu a
liderança do novo governo revolucionário. Não há o que temer: permaneçam em
suas casas e tudo voltará à normalidade em poucas horas. Esta é a Rádio Nigéria,
esta é a Rádio Nigéria. Houve um...”
Quando Eduardo desligou o rádio, ocorreram-lhe dois pensamentos: os
golpes sempre interrompiam tudo o que estava sendo encaminhado e
inauguravam um período de caos administrativo; portanto, sem dúvida alguma,
tinha desperdiçado os quatro dias. Mas, seria possível agora pelo menos deixar a
Nigéria e prosseguir normalmente com seus negócios no resto do mundo?

Na hora do almoço, a rádio transmitia a música marcial intercalada com a


mensagem gravada que ele agora sabia de cor. Eduardo escalou todos os
elementos de sua equipe para descobrirem tudo o que pudessem e comunicar-lhe
imediatamente. Todos voltaram com a mesma constatação: era impossível passar
pelos soldados que cercavam o hotel, de modo que não se podia obter qualquer
informação extra. Eduardo praguejou pela primeira vez em meses. Para
aumentar ainda mais seu aborrecimento, o gerente do hotel telefonou dizendo
que, infelizmente, o Sr. Silveira teria de fazer a refeição no restaurante principal,
pois o serviço de copa estava suspenso por tempo indeterminado. Eduardo
desceu para o restaurante com certa relutância. O maître, que logo revelou não
ter o menor interesse em saber com quem estava tratando, levou-o. com a maior
sem-cerimônia, até uma pequena mesa já ocupada por três italianos. Manuel
Rodrigues estava sentado a apenas duas mesas dali. Eduardo enrijeceu o corpo
ao imaginar que o outro homem poderia estar se divertindo com sua desgraça e
só então se lembrou de que naquela manhã deveria avistar-se com o ministro dos
Transportes. Comeu rapidamente, embora demorasse a ser servido, e quando os
italianos tentaram entabular uma conversa ele lhes fez um sinal com a mão,
fingindo não compreendê-los. apesar de falar fluentemente sua língua. Assim
que terminou o segundo prato, subiu para o quarto. Seu pessoal tinha recolhido
apenas boatos e não havia conseguido entrar em contato com a embaixada do
Brasil para apresentar um protesto oficial.
— Que grande benefício nos trará um protesto oficial — disse Eduardo,
afundando na cadeira. — A quem deveremos encaminhá-lo, ao novo ou ao velho
governo?
Ficou sozinho no quarto o resto do dia, interrompido em seu silêncio apenas
pelo que julgou ser o som de um tiroteio a distância. Pela terceira vez, leu a
proposta do projeto da Nova Capital Federal e os relatórios dos assessores.

Na manhã seguinte, trajando o mesmo terno que usava no dia de sua


chegada, Eduardo foi saudado pelo secretário com a notícia de que o golpe fora
esvaziado; após uma violenta luta, informou ao seu estarrecido chefe, o velho
regime retomara o poder, embora não sem algumas perdas; entre os mortos na
contraofensiva estava o General Mohammed, o presidente. A notícia dada pelo
secretário foi confirmada mais tarde naquela manhã pela Rádio Nigéria. O líder
do fracassado golpe fora um certo Tenente-Coronel Dimka, que, juntamente com
um ou dois jovens oficiais, tinha fugido; o governo decretara o toque de recolher
que ficaria em vigência até que os insidiosos rebeldes fossem presos.
Basta liderar um golpe para tornar-se um herói nacional; basta fracassar para
tornar-se um insidioso rebelde. No campo dos negócios, existe a mesma
diferença entre a falência e a consolidação da fortuna, refletiu Eduardo ao ouvir
o noticiário. Começava a fazer planos de sua próxima partida da Nigéria no
momento em que o locutor leu um comunicado que o arrepiou até a medula:
“Enquanto o Tenente-Coronel Dimka e seus cúmplices permanecerem
foragidos, os aeroportos do país ficarão fechados até segunda ordem.”
Encerrada a transmissão do boletim, entrou no ar a música marcial em
memória do falecido General Mohammed.

Eduardo desceu ao térreo tomado de cólera. O hotel continuava cercado por


guardas armados. Olhou para a frota de seis Mercedes vazios estacionados a
apenas dez metros dos rifles dos soldados. Voltou apressadamente para o saguão
do hotel, irritado com o vozerio de diferentes línguas que lhe chegava de todas
as direções. Olhou ao redor: tudo levava a crer que muitas pessoas haviam
acorrido ao hotel para pernoitar, na noite anterior, e acabaram por dormir na sala
de espera ou no bar. Aproximou-se da estante de livros do saguão em busca de
algo para ler, mas encontrou apenas quatro exemplares de um guia turístico de
Lagos; o resto fora vendido. Autores que durante anos nunca haviam sido lidos
tinham seus livros agora disputados a preço muito superior ao normal. Eduardo
voltou para o quarto — que ia assumindo rapidamente as feições de uma prisão
— e pela quarta vez pôs-se a ler, resignado, o projeto da Nova Capital Federal.
Tentou mais uma vez entrar em contato com o embaixador do Brasil pensando
em conseguir uma autorização especial para deixar o país, já que possuía seu
próprio avião. Ninguém atendeu o telefone da embaixada. Eduardo desceu mais
cedo para o almoço e de novo deparou com o restaurante lotado. Colocaram-no à
mesa com alguns alemães preocupados com um contrato que o governo assinara
na semana anterior, antes do golpe malogrado. Discutiam se ele seria ou não
respeitado. Manuel Rodrigues entrou no salão poucos minutos depois e foi
encaminhado à mesa vizinha.

Durante a tarde, Silveira examinou desgostoso sua agenda para os sete dias
seguintes. Deveria estar em Paris naquela manhã para avistar-se com o ministro
do Interior e de lá voaria para Londres para um encontro com o presidente da
Steel Board. Todos os próximos noventa e dois dias, até as férias de sua família,
em maio, estavam preenchidos. “Passarei as férias deste ano na Nigéria”,
comentou ele, amargurado, com um assistente.
O que mais aborrecia Eduardo com respeito ao golpe era a consequente
interrupção da comunicação com o mundo exterior. Não sabia o que estava
acontecendo no Brasil e irritava-se por não poder telefonar ou passar um telex
para Paris ou Londres explicando pessoalmente sua ausência. Contraíra o hábito
de ouvir a cada instante a Rádio Nigéria esperando alguma nova informação. Às
cinco horas soube que o Supremo Conselho Militar havia eleito um novo
presidente, que se dirigiria à nação através do rádio e da televisão às nove horas
daquela noite.

Eduardo de Silveira ligou a televisão às oito e quarenta e cinco; normalmente


um assistente fazia isso para ele um minuto antes das nove. Assistiu à entrevista
de uma nigeriana sobre costura e depois ao boletim do homem do tempo, que lhe
transmitiu a reveladora informação de que a temperatura continuaria elevada até
o mês seguinte. Enquanto esperava o discurso do novo presidente, Eduardo
agitava a perna nervosamente para cima e para baixo. Às nove horas, após a
execução do hino nacional, o novo Chefe de Estado, General Obasanjo, apareceu
uniformizado no vídeo, Começou falando da trágica morte e da lamentável perda
para a nação do presidente anterior, assegurando em seguida que seu governo
continuaria a trabalhar em prol dos mais legítimos interesses da Nigéria. Parecia
sinceramente constrangido ao desculpar-se perante os visitantes estrangeiros
pelos transtornos causados pela tentativa de golpe, mas esclareceu que o toque
de recolher continuaria até que os líderes rebeldes fossem capturados e entregues
à justiça. Confirmou que todos os aeroportos permaneceriam fechados até que o
Tenente-Coronel Dimka fosse capturado. Encerrou sua declaração garantindo
que todos os outros meios de comunicação voltariam a funcionar normalmente o
mais breve possível. Ouviu-se o hino nacional pela segunda vez, enquanto
Eduardo pensava nos milhões de dólares que estava perdendo confinado naquele
quarto de hotel, a alguns quilômetros de seu avião particular, inutilmente
estacionado na pista do aeroporto. Um de seus principais executivos arriscou-se
a opinar sobre quanto tempo as autoridades levariam para capturar o Tenente-
Coronel Dimka; só não disse a Silveira quanto perderiam, se se estendesse por
um mês.
Eduardo desceu para o restaurante envergando o terno que usara no dia
anterior. Um ajudante de garçom colocou-o numa mesa em companhia de alguns
franceses que tinham tentado fechar um contrato de mineração no estado de
Niger. De novo Eduardo fez um indolente sinal de mão quando tentaram incluí-
lo na conversa. Naquele exato instante deveria estar reunido com o ministro do
Interior francês, não com alguns furadores de mina franceses. Tentou concentrar-
se na sopa aguada, perguntando-se quantos dias mais seriam necessários para
que ela se transformasse em pura água. O maître apareceu ao seu lado e,
apontando para uma cadeira vazia à mesa, acomodou Manuel Rodrigues. Mesmo
assim os dois homens não deram sinal de se conhecerem. Eduardo hesitou entre
abandonar a mesa e comportar-se como se o seu velho inimigo ainda estivesse
no Brasil. Decidiu que esta última atitude era mais digna. Os franceses
começaram a conversar sobre quando poderiam deixar Lagos. Um deles afirmou
categórico que, segundo ouvira de uma alta autoridade, antes de abrir os
aeroportos o governo pretendia capturar todos os que estavam envolvidos no
golpe, o que demandaria um mês.
— O quê? — exclamaram os dois brasileiros ao mesmo tempo, em inglês.
— Não posso ficar um mês aqui — reagiu Eduardo.
—- Nem eu — disse Manuel Rodrigues.
— Pois terão de ficar, pelo menos até prenderem Dimka — observou um dos
franceses, de repente passando a falar inglês. — Por isso é melhor os dois
relaxarem, certo?
Os dois brasileiros continuaram a refeição em silêncio. Quando terminou,
Eduardo levantou-se da mesa e, sem olhar diretamente para Rodrigues, disse
boa-noite em português. Em resposta, seu velho inimigo inclinou a cabeça.

O dia seguinte não trouxe nenhuma novidade. O hotel continuava cercado


por soldados e à noite Eduardo já tinha-se indisposto com todos os membros de
sua equipe. Desceu sozinho para jantar e, assim que entrou no salão, avistou
Manuel Rodrigues sozinho numa mesa de canto. Rodrigues viu-o, vacilou por
um momento e chamou-o com um aceno. Eduardo também vacilou, mas dirigiu-
se lentamente até a mesa de Rodrigues e sentou-se à sua frente. Rodrigues
serviu-lhe um copo de vinho. Eduardo, que raramente bebia, bebeu. No início o
tom da conversa se manteve formal, mas, à medida que foram consumindo mais
vinho, ambos começaram a descontrair-se. Ao ser servido o café, Manuel já
estava dizendo a Eduardo o que ele podia fazer com aquele país perdido no
mapa.
— Não continuará por aqui se ganhar o contrato dos portos? — perguntou
Eduardo.
— É impossível — disse Rodrigues, sem demonstrar qualquer surpresa por
Silveira saber de seu interesse no contrato dos portos. -— Eu me retirei da
pequena lista de concorrentes um dia antes do golpe. Eu pretendia voltar para o
Brasil naquela manhã de quinta-feira.
— Pode me dizer por que se retirou?
— Principalmente por causa dos problemas de mão de obra, e depois pelo
congestionamento dos portos.
— Acho que não entendi — disse Eduardo, entendendo muito bem, mas
curioso por saber se Rodrigues sabia de algum outro detalhe que escapara aos
seus assistentes.
Manuel Rodrigues fez uma pausa para digerir o fato de que o homem que ele
considerara o seu mais perigoso inimigo por mais de trinta anos estivesse ali
agora ouvindo às suas informações mais secretas. Avaliou a situação por um
momento, enquanto tomava um gole de café. Eduardo ficou em silêncio.
— Para começar, há uma grande escassez de mão de obra especializada.
Além disso, há esse contingenciamento maluco.
— Contingenciamento? — perguntou Eduardo inocentemente.
— A porcentagem de pessoal do país contratante que o governo permite
trabalhar na Nigéria.
— E por que isso é um problema? — tornou Eduardo, inclinando-se para
frente.
— Por lei, pode-se empregar cinquenta trabalhadores nacionais para cada
estrangeiro, de modo que eu só poderia trazer vinte e cinco dos meus
especialistas para tocar um contrato de cinquenta milhões de dólares, devendo
operar, em qualquer outro nível, com os nigerianos. O governo está sendo vítima
do sistema abominável que ele mesmo criou; é impossível que homens sem
qualquer qualificação, sejam negros ou brancos, se tornem engenheiros
experientes da noite para o dia. Isso tudo por causa da soberania nacional.
Alguém precisa alertá-los de que, se desejam concluir o trabalho a um. custo
razoável, não podem se dar ao luxo de obedecer a essa noção de soberania. É o
caminho certo para a falência. Além do mais, os alemães já arrebanharam a nata
de toda a mão de obra especializada para os seus projetos de construção de
estradas.
— Mas, então — disse Eduardo —, você faz o seu preço segundo essas
regras, por mais estúpidas que sejam, contando com todas essas restrições, desde
que tenha certeza de que o pagamento está garantido...
Manuel ergueu a mão, interrompendo o raciocínio de Eduardo.
— Este é um outro problema. Não se pode ter certeza. Há apenas um mês o
governo rescindiu um importante contrato para a produção de aço. Com isso —
explicou — levou à falência uma companhia de renome internacional. Como vê,
eles são perfeitamente capazes de fazer a mesma coisa comigo. E se eles não
pagam tudo, quem você processa? O Supremo Conselho Militar?
— E o problema dos portos?
— O porto está totalmente congestionado. Há uma fila de cento e setenta
navios precisando descarregar, com um prazo de espera de seis meses. Além
disso, há uma taxa de sobrestada de cinco mil dólares ao dia e só se dá alguma
prioridade aos que têm cargas perecíveis.
— Mas sempre há um jeitinho para resolver esse tipo de problema — disse
Eduardo, esfregando uma na outra duas vezes as pontas do polegar e do
indicador.
— Suborno? Não funciona, Eduardo. Como é que você pode furar a fila, se
todos os cento e setenta navios já subornaram o capitão do porto? E não pense
que vai adiantar alguma coisa arrumar um apartamento para uma das amantes
dele — acrescentou Rodrigues, divertido. — Para um homem desses você
também tem que arranjar a amante.
Eduardo respirou fundo, mas não disse nada.
— Por falar nisso — continuou Rodrigues —, se a situação piorar, o capitão
do porto deste país ficará mais rico que você.
Eduardo riu pela primeira vez em três dias.
— E eu lhe digo mais, Eduardo, ganharíamos muito mais dinheiro com uma
salina na Sibéria.
Eduardo riu de novo, e alguns funcionários da Prentino e da Rodrigues que
jantavam em outras mesas olharam embasbacados para a mesa de seus patrões.
— Você veio para fechar um grande negócio, a nova cidade de Abuja? —
perguntou Manuel.
— Isso mesmo — admitiu Eduardo.
— Fiz tudo o que podia para que você ganhasse esse contrato — disse o
outro serenamente.
— O quê? — fez Eduardo, com ar de descrença. — Por quê?
— Achei que Abuja daria ao império da Prentino tanta dor de cabeça, que
nem você, Eduardo, poderia com ela, e isso me deixaria o caminho livre lá no
nosso país. Pense bem. Toda vez que há uma reviravolta na Nigéria, o que cai
primeiro? “A cidade supérflua”, como a chamam por aqui.
— “A cidade supérflua”? — repetiu Eduardo.
— Sim, e não adianta me dizer que não fecharia negócio sem pagamento
adiantado. Você sabe tão bem quanto eu que você precisaria de uma centena de
seus melhores homens aqui, trabalhando em período integral, para tocar um
empreendimento desse vulto. Eles teriam necessidade de alimento, salário,
habitação, talvez até mesmo de uma escola e de um hospital. Depois que
estivessem estabelecidos aqui, você não poderia despedi-los a cada duas
semanas, sob a alegação de que o governo estaria atrasando o pagamento. Não
seria praticável, você sabe disso.
Rodrigues serviu outro copo de vinho para Eduardo de Silveira.
— Eu já tinha pensado nisso — disse Eduardo, tomando um trago do vinho.
— Mas pensei nisso contando com o apoio do Chefe de Estado.
— Do falecido Chefe de Estado...
— Entendo o que você quer dizer, Manuel.
— Talvez o próximo Chefe de Estado também o apoie, mas e o seguinte?
Nestes últimos três anos a Nigéria presenciou três golpes de estado.
Eduardo permaneceu em silêncio por um momento.
— Você joga gamão?
— Sim, por quê?
— Preciso pelo menos ganhar algum dinheiro, enquanto estiver aqui — disse
Manuel, rindo.
— Não quer subir até o meu quarto? — propôs Silveira. — Mas alerto-o de
que sempre consigo ganhar do meu pessoal.
— Talvez eles é que sempre consigam perder — disse Manuel, levantando-se
e pegando pelo gargalo a garrafa de vinho pela metade.
Saíram rindo do restaurante.

Depois disso os dois presidentes passaram a almoçar e jantar juntos todos os


dias. Ao cabo de uma semana, as duas equipes estavam tomando as refeições na
mesma mesa. Eduardo começou a aparecer no restaurante sem gravata, enquanto
Manuel vestiu uma camisa pela primeira vez em muitos anos. Depois de duas
semanas, os dois inimigos tinham jogado pingue-pongue, gamão e bridge com
apostas à base de cem dólares por ponto. Ao fim de cada dia, Eduardo sempre
acabava devendo a Manuel cerca de um milhão de dólares, que Manuel, de boa
vontade, trocava por uma garrafa do melhor vinho disponível na adega do hotel.
Embora o Tenente-Coronel Dimka tivesse sido visto por aproximadamente
quarenta mil nigerianos em diversos locais diferentes, ele continuava,
efetivamente, solto. Como o novo presidente alertara, os aeroportos continuavam
fechados, mas as comunicações funcionavam, o que ao menos permitia a
Eduardo telefonar ou passar um telex para o Brasil. Hora após hora os irmãos e a
mulher entravam em contato com ele, implorando que voltasse para casa a
qualquer custo: as decisões a respeito de importantes contratos em todo o mundo
estavam pendentes com sua ausência. Mas a resposta de Eduardo captada no
Brasil era invariavelmente a mesma: enquanto Dimka estiver em liberdade, os
aeroportos permanecerão fechados.
Numa noite de terça-feira, durante o jantar, Eduardo cismou de explicar a
Manuel por que, na sua opinião, o Brasil perdera a Copa do Mundo. Manuel
descartou os absurdas razões de Eduardo, considerando-as equivocadas e
preconceituosas. Era o único assunto sobre o qual discordavam nas últimas três
semanas.
— Atribuo todo o fracasso ao Zagalo — disse Eduardo.
— Não, não, você não pode culpar o dirigente da confederação — contestou
Manuel. — A culpa é dos estúpidos dos nossos técnicos, que entendem bem
menos de futebol do que você. Eles nunca deveriam ter tirado o Leão do gol;
além disso, devíamos ter aprendido com a derrota argentina, no ano passado, que
a nossa tática está errada. Quem quer marcar gols, tem de atacar, atacar.
— Bobagem. Ainda temos, sem dúvida alguma, a melhor defesa do mundo.
— Isso significa que o melhor resultado que podemos esperar é um zero a
zero.
— Nunca... — começou Eduardo.
— Com licença, senhor...
Eduardo ergueu os olhos para seu secretário particular, que parecia nervoso.
— Sim, qual é o problema?
— Um telex urgente do Brasil, senhor.
Depois de ler o primeiro parágrafo, Eduardo pediu a Manuel que o
desculpasse por alguns minutos. Manuel assentiu cortesmente com um gesto de
cabeça. Eduardo levantou-se da mesa e, à medida que atravessava o salão do
restaurante, foi seguido por outros dezessete hóspedes, que interromperam suas
refeições para acompanhá-lo à suíte no último andar, onde já se achava reunido o
resto da equipe. Ele se sentou sozinho num canto da sala. Ninguém se arriscou a
falar enquanto ele lia atentamente o telex, o que o fez, de repente, sentir quanto
tempo estivera retido em Lagos.
O telex, enviado pelo irmão Carlos, referia-se ao projeto da Pan-americana,
uma estrada de rodagem com oito pistas que ligaria Brasil a México. A Prentino,
que apresentara uma proposta de orçamento para o trecho que corta o coração da
selva amazônica, dependia das garantias bancárias, que precisavam ser assinadas
e registradas até meio-dia do dia seguinte — terça-feira. Mas Eduardo se
esquecera completamente de que terça-feira se tratava e de que documento
deveria assinar naquele prazo.
— Qual é o problema? — perguntou Eduardo ao secretário particular. — O
Banco do Brasil respondeu a Alfredo que concordava em avalizar. Por que
Carlos não pode assinar o acordo na minha ausência?
— Os mexicanos exigem agora que a responsabilidade pelo contrato seja
dividida, por causa de problemas de seguro: o Lloyd de Londres não cobrirá todo
o risco se houver apenas uma empresa envolvida. Todas as exigências estão
detalhadas na folha sete do telex.
Eduardo virou as folhas rapidamente. Soube que seus irmãos já haviam
tentado pressionar o Lloyd, sem resultados. É como tentar induzir uma tia
solteirona a tomar parte num bacanal, pensou Eduardo, e não lhes diria outra
coisa se estivesse no Brasil. O governo mexicano insistia em que o contrato
fosse partilhado com uma empresa construtora internacional que o Lloyd
julgasse aceitável, para que os documentos legais fossem assinados no prazo
final, ao meio-dia do dia seguinte.
— Esperem-me — disse Eduardo à sua equipe, e voltou sozinho ao
restaurante, com o longo telex.
Rodrigues viu-o chegar apressado, em curtas passadas, até a mesa.
— Você me parece enrolado com algum problema.
— Pois estou — disse Eduardo. — Leia isto.
Os olhos experientes de Manuel percorreram o telex detendo-se no essencial.
Ele mesmo também apresentara uma proposta orçamentária para o projeto da
estrada amazônica, e ainda se lembrava dos detalhes. Mas, como Eduardo
insistisse, releu a página sete.
— Esses bandidos mexicanos — disse, devolvendo o telex a Eduardo. —
Quem eles pensam que são, dizendo a Eduardo de Silveira como ele deve
conduzir seus negócios?! Passe imediatamente um telex para eles dizendo que
você é o presidente da maior empresa construtora do mundo e que podem tirar o
cavalinho da chuva, porque você não se dobra a essas exigências absurdas. Você
sabe que é tarde demais para eles abrirem nova concorrência, com trechos
esparsos da estrada prontos para entrar em funcionamento. Teriam um prejuízo
de milhões. Compre a briga, Eduardo.
— Acho que você está certo, Manuel, mas qualquer atraso agora só vai me
fazer desperdiçar tempo e dinheiro. Por isso pretendo concordar com a exigência
deles e procurar um sócio.
— Jamais encontrará um assim tão de repente.
— Encontrarei.
— Quem?
Eduardo de Silveira vacilou um momento.
— Você, Manuel. Ofereço à Rodrigues International S.A. cinquenta por
cento do contrato da estrada amazônica.
Manuel Rodrigues encarou Eduardo. Pela primeira vez tinha sido pego de
surpresa pelo velho inimigo.
— Imagino que isso ajudaria a pagar os milhões que você me deve das
partidas de pingue-pongue.
Os dois homens desataram a rir. Rodrigues levantou-se e ambos apertaram-se
as mãos com ar solene. Silveira saiu do restaurante apressado e redigiu um telex
para que seu gerente o transmitisse.
“Assine, aceito termos, sócio meio a meio será Rodrigues International
Construction S.A., Brasil.”
— Passarei o telex, senhor, mas o senhor está ciente de que é legalmente
definitivo?
— Passe — disse Eduardo.

Eduardo voltou mais uma vez ao restaurante; Manuel tinha pedido uma
garrafa do melhor champanhe do hotel. Quando tinham mandado vir a segunda
garrafa, cantando uma animada versão de Está chegando a hora, o secretário
particular de Eduardo voltou a apresentar-se ao seu lado, desta vez com mais
dois telexes: um do presidente do Banco do Brasil e o outro do irmão Carlos.
Ambos solicitavam a confirmação do acordo de sociedade para o projeto da
estrada amazônica. Eduardo desarrolhou a segunda garrafa de champanhe sem
olhar para o secretário particular.
— Confirme Rodrigues International Construction para o presidente do
banco e para o meu irmão — disse, enquanto enchia o copo de Manuel. — E não
me incomode mais esta noite.
— Sim, senhor — respondeu o secretário particular, retirando-se sem mais
uma palavra.
Nenhum dos dois seria capaz de lembrar-se a que horas se deitou naquela
noite, mas na manhã seguinte, logo cedo, Silveira foi bruscamente despertado de
um sono profundo por seu secretário. O Tenente-Coronel Dimka fora capturado
em Kano, às três da madrugada, e todos os aeroportos tinham voltado a
funcionar. Eduardo pegou o telefone e discou três números.
— Manuel, você já sabe das novas?... Bom... Então vamos embora comigo
no meu 707, senão você só conseguirá viajar daqui a dias... Dentro de uma hora
nos encontramos no saguão... Certo. Até lá.

Às oito e quarenta e cinco bateram calmamente na porta do quarto. Lá estava


o Coronel Usman de prontidão, como antes do golpe de estado. Trazia um
envelope na mão. Era um convite para almoçar naquele dia com o novo Chefe de
Estado, General Obasanjo.
— Por favor, transmita as minhas desculpas a seu presidente — disse
Eduardo — e faça-me a gentileza de explicar que tenho compromissos urgentes
para cumprir em meu país.

O coronel retirou-se com relutância. Eduardo vestiu o terno, a camisa e a


gravata que usara no primeiro dia na Nigéria e tomou o elevador; no saguão,
encontrou-se com Manuel, que mais uma vez usava jeans e camiseta. Os dois
empresários deixaram o hotel e, depois que se instalaram na parte traseira do
primeiro Mercedes, os seis automóveis, em fila, partiram em direção ao
aeroporto. O coronel, agora sentado na frente com o motorista, não se aventurou
a falar com nenhum dos dois distintos brasileiros durante todo o percurso. Os
dois homens — conforme pôde relatar mais tarde ao presidente — pareciam
estar absortos numa conversa sobre o projeto de uma estrada amazônica e em
como dividir a responsabilidade entre suas duas companhias.
Desviaram-se da alfândega, já que nenhum dos dois desejava levar nada do
país a não ser eles mesmos, e a frota de carros parou ao lado do 707 azul e prata
de Eduardo. Os funcionários das duas empresas subiram a bordo do avião pela
parte traseira, também ocupados com o assunto da estrada amazônica.
Um cabo saltou de um carro blindado e abriu a porta traseira do Mercedes;
os dois empresários puderam dirigir-se diretamente à escada que os levaria a
bordo da parte dianteira do avião.
Quando Eduardo desceu do Mercedes, o motorista nigeriano apressou-se em
saudá-lo.
— Adeus, senhor — disse, mais uma vez pondo à mostra sua alva dentadura.
Eduardo não respondeu.
— Espero — disse o cabo cortesmente — que tenha realizado bons negócios
durante sua estada na Nigéria.

The coup
O primeiro milagre
O dia seguinte seria o primeiro anno Domini, mas ninguém tinha lhe dito
isso.
Se tivessem, ele não teria entendido, porque para ele aquele era o
quadragésimo terceiro ano do reinado do imperador e, além do mais, tinha outras
preocupações na cabeça. A mãe ainda estava zangada com ele e ele não podia
negar que se comportara mal o dia inteiro, mesmo pelos padrões normais de uma
criança de treze anos. Não tinha culpa de ter quebrado o cântaro quando a mãe o
mandou buscar água no poço. Tentou explicar-lhe que tropeçara sem querer
numa pedra; e isso, pelo menos isso, era verdade. O que não lhe contou foi que,
quando isso aconteceu, estava correndo atrás de um cão vadio. E depois foi o
caso daquela romã; como podia adivinhar que era a última e que o pai tinha
predileção por romãs? O menino agora estava com medo que o pai voltasse e lhe
desse outra surra. Lembrava-se ainda da última: por dois dias não pôde se sentar
sem sentir dor e as pequenas feridas avermelhadas levaram mais de três semanas
para cicatrizar.
Sentado num canto assombreado do peitoril da janela, ele tentava encontrar
alguma forma de redimir-se aos olhos da mãe, agora que ela o havia expulsado
da cozinha. Vá lá para fora brincar, insistiu ela depois que ele derramou um
pouco de óleo de cozinha sobre a túnica. Mas isso não era nada divertido, já que
só podia brincar sozinho. O pai proibira-o de se misturar com os meninos da
região. Como detestava aquele país! Se estivesse em sua terra natal, com os
amigos, teria muitas coisas para fazer.
Ainda bem que só faltavam três semanas para ele... A porta escancarou-se e a
mãe entrou. Vestia uma daquelas finas túnicas pretas que se usavam na região:
deixavam o corpo mais arejado, explicara ela ao pai do menino. Ele resmungara,
desaprovando, e todas as noites, antes que ele voltasse, ela tornava a vestir uma
túnica romana.
— Ah, você está aqui — disse ela ao filho, que estava de cócoras.
— Sim, mamãe.
— Sonhando acordado como sempre. Bem, acorde, porque preciso que você
vá à aldeia fazer compras para mim.
— Sim, mamãe, vou já já — disse o menino, saltando do peitoril da janela.
— Mas pelo menos espere eu dizer o que quero.
— Desculpe, mamãe.
— Agora escute, e escute com atenção. — Enquanto falava, enumerava as
coisas nos dedos da mão. — Quero uma galinha, um punhado de passas, figos,
tâmaras e.. . ah, sim, duas romãs.
À menção das romãs o rosto do menino enrubesceu e ele apressou-se a
baixar os olhos, na esperança de que ela tivesse esquecido. A mãe tirou duas
pequenas moedas da bolsa que trazia presa na cintura, e antes de entregá-las
obrigou o menino a repetir o que devia trazer.
— Uma galinha, passas, figos, tâmaras e duas romãs — recitou ele, tal como
fazia com os versos do moderno poeta Virgílio.
— E preste atenção para ver se lhe dão o troco certo — acrescentou ela. —
Lembre-se de que as pessoas daqui não perdem a oportunidade de trapacear.
— Sim, mamãe... — Por um momento o menino hesitou.
— Se se lembrar de tudo e trouxer de volta o troco certo, nada direi a seu pai
sobre o cântaro quebrado e a romã.
O menino guardou sorrindo na túnica as moedinhas de prata, saiu correndo
da casa, e foi dar na guarda da guarnição. O legionário em serviço levantou a
grande tranca de madeira do portão para deixá-lo sair. O menino passou, de um
salto, pela abertura no portão e sorriu para o guarda.
Ainda bem que só faltavam três semanas para ele...
A porta escancarou-se e a mãe entrou. Vestia uma daquelas finas túnicas
pretas que se usavam na região: deixavam o corpo mais arejado, explicara ela ao
pai do menino. Ele resmungara, desaprovando, e todas as noites, antes que ele
voltasse, ela tornava a vestir uma túnica romana.
— Ah, você está aqui — disse ela ao filho, que estava de cócoras.
— Sim, mamãe.
— Sonhando acordado como sempre. Bem, acorde, porque preciso que você
vá à aldeia fazer compras para mim.
— Sim, mamãe, vou já já — disse o menino, saltando do peitoril da janela.
— Mas pelo menos espere eu dizer o que quero.
— Desculpe, mamãe.
— Agora escute, e escute com atenção. — Enquanto falava, enumerava as
coisas nos dedos da mão. — Quero uma galinha, um punhado de passas, figos,
tâmaras e.. . ah, sim, duas romãs.
À menção das romãs o rosto do menino enrubesceu e ele apressou-se em
baixar os olhos, na esperança de que ela tivesse esquecido. A mãe tirou duas
pequenas moedas da bolsa que trazia presa à cintura, e antes de entregá-las
obrigou o menino a repetir o que devia trazer.
— Uma galinha, passas, figos, tâmaras e duas romãs — recitou ele, tal como
fazia com os versos do moderno poeta Virgílio.
— E preste atenção para ver se lhe dão o troco certo — acrescentou ela. —
Lembre-se de que as pessoas daqui não perdem a oportunidade de trapacear.
— Sim, mamãe... — Por um momento o menino hesitou.
— Se se lembrar de tudo e trouxer de volta o troco certo, nada direi ao seu
pai sobre o cântaro quebrado e a romã.
O menino guardou sorrindo na túnica as moedinhas de prata, saiu correndo
da casa, e foi dar na guarda da guarnição. O legionário em serviço levantou a
grande tranca de madeira do portão para deixá-lo sair. O menino passou, de um
salto, pela abertura no portão e sorriu para o guarda.
— Arrumou mais alguma encrenca hoje? — gritou-lhe o guarda.
— Não, desta vez não — respondeu o menino. — Estou a ponto de me
redimir.
Despediu-se do guarda com um aceno e começou a caminhar apressado em
direção à aldeia, cantarolando uma música que lhe lembrava a terra natal.
Andava no centro da trilha tortuosa e poeirenta que os habitantes ousavam
chamar de estrada e que lhe parecia exigir que passasse a metade do tempo
tirando pedrinhas das sandálias. Se o pai tivesse sido destacado para servir ali há
mais tempo, ele teria feito algumas obras; aí, sim, teriam uma estrada de
verdade, reta e larga o suficiente para passar uma carruagem. Sua mãe, então, já
teria escolhido melhor as servas. Das que tinham, nenhuma sabia pôr uma mesa
ou mesmo preparar uma comida que fosse pelo menos limpa. Pela primeira vez
na vida via a mãe na cozinha, e tinha certeza de que seria a última, pois
voltariam logo para casa, agora que o pai ia chegando ao fim de sua missão.

O sol da tarde o envolvia todo enquanto caminhava; era um sol bem grande e
vermelho, do mesmo vermelho vivo da túnica do pai. O calor de seus raios fazia-
o transpirar e deixava-o com muita sede. Talvez sobrasse dinheiro suficiente para
comprar uma romã para si mesmo. Não via a hora de levar uma para casa e
mostrar aos amigos quanto eram grandes ali naquele país bárbaro. Marcus, seu
melhor amigo, já devia ter visto romãs daquele tamanho, porque seu pai já tinha
comandado toda uma legião naquelas paragens, mas o resto dos companheiros
ficaria impressionado.
A aldeia para onde a mãe o mandara ficava a apenas três quilômetros da
guarnição e a trilha poeirenta estendia-se ao longo do pé de uma colina que se
elevava por sobre um extenso vale. A estrada já estava cheia de caminhantes que
deviam estar indo buscar abrigo na aldeia. Todos eles haviam abandonado as
colinas por ordens expressas do pai, que tinha sido investido de autoridade pelo
próprio imperador em pessoa. Quando completasse dezesseis anos, também ele
serviria ao imperador. Seu amigo Marcus desejava ser soldado e conquistar o
resto do mundo. Ele, porém, estava mais interessado no estudo das leis e em
ensinar os costumes de seu país aos povos bárbaros das terras conquistadas.
Marcus dissera: “Eu os dominarei para que depois você possa governá-los.”
Aquela era uma justa distribuição de tarefas entre miolos e músculos,
respondera ele ao amigo, que pareceu não gostar nem um pouco, pois deu-lhe
um caldo no primeiro banho que encontrou.
O menino apressou o passo, pois sabia que tinha de estar de volta à
guarnição antes que o sol desaparecesse por trás das colinas. O pai lhe dissera
várias vezes que ele deveria cuidar de recolher-se sempre à segurança de casa
antes do crepúsculo. Sabia que o pai não era benquisto pelos habitantes, e fora
alertado de que sempre estaria seguro enquanto fosse dia, já que ninguém se
atreveria a lhe fazer mal à vista de todos, mas com o cair da noite tudo poderia
acontecer. De uma coisa ele tinha certeza: quando crescesse, não queria ser
coletor de impostos nem censor.
Assim que chegou à aldeia, encontrou as estreitas e tortuosas vielas que
separavam as casinhas brancas fervilhando de gente que vinha de todas as
regiões vizinhas, a fim de, em obediência às ordens de seu pai, registrar-se no
censo, e passar então a recolher impostos. O menino tirou a plebe do
pensamento. (Fora Marcus que lhe ensinara a chamar todos os estrangeiros de
plebe.) Logo que entrou no mercado também tirou Marcus do pensamento para
se concentrar em procurar as provisões que a mãe queria. Desta vez não podia
errar, senão na certa acabaria levando uma surra do pai. Andou com vivacidade
por entre as barracas, examinando as mercadorias com muito cuidado. Algumas
pessoas do lugar olhavam com estranheza aquele menino de pele clara, de
cabelos castanhos encaracolados e nariz reto, de linhas firmes. Não apresentava
nenhum sinal de imperfeição ou doença, como a maioria deles. Outras
desviavam o olhar; afinal, ele era um autêntico representante do dominador. Tais
pensamentos não passaram pela sua cabeça. O menino notou apenas que a pele
daqueles nativos era crestada e cheia de sulcos devido à intensa exposição ao sol.
Ele sabia que tomar muito sol fazia mal: a gente envelhece bem antes do tempo,
prevenira-o o preceptor.
Na última barraca, o menino viu uma velha pechinchando uma galinha viva e
bastante carnuda; ao vê-lo aproximar-se ela saiu correndo, assustada, deixando a
ave. Ele olhou para o mercador e recusou-se a barganhar com o aldeão. Isso não
condizia com sua posição. Apontou para a galinha e deu ao camponês um
denário. O homem mordeu a moeda de prata e olhou a efígie de César Augusto,
imperador de metade do mundo. (Quando seu preceptor lhe falou, durante uma
aula de história, sobre as realizações do imperador, ele lembrava-se de ter
pensado: espero que César não conquiste o mundo inteiro antes que eu tenha a
oportunidade de participar.) O mercador continuava examinando a moeda de
prata.
— Vamos com isso! Não tenho o dia inteiro — disse o menino, à maneira de
seu pai.
O homem não respondeu, pois não entendia o que o menino estava dizendo.
Mas sabia, com certeza, que seria pouco prudente desagradar ao invasor.
Segurou com firmeza a galinha pelo pescoço e, sacando uma faca da cinta,
cortou-lhe a cabeça com um só movimento, entregando, depois, a ave abatida ao
menino. Em seguida devolveu-lhe algumas moedas locais que traziam
estampada a imagem de um homem que o pai do menino mencionava como
“aquele inútil do Herodes”. O menino conservou a mão estendida, a palma para
cima, e o homem foi nela depositando até o último de seus talentos de bronze.
Quando viu que ele não tinha mais nenhum, o menino o deixou. Na barraca
seguinte, apontou para os sacos de passas, figos e tâmaras. O outro mercador
pesou a quantidade de cada um deles, pelos quais recebeu cinco das inúteis
moedas de Herodes. Quando o homem estava prestes a reclamar da troca, o
menino olhou-o fixamente nos olhos, do jeito que vira o pai fazer inúmeras
vezes. O mercador desistiu e limitou-se a inclinar a cabeça.

E agora, o que mais queria a mãe? Deu tratos à bola. Uma galinha, passas,
figos e... claro, duas romãs. Procurou entre as barracas de frutas frescas e
escolheu três romãs; abrindo uma delas, começou a comê-la, cuspindo os
caroços no chão. Pagou o mercador com os dois talentos de bronze que lhe
restaram, sentindo-se feliz porque, além de ter comprado o que a mãe queria, ia
para casa com um dos denários de prata. Até o pai ficaria impressionado com
isso. Terminou de comer a romã e, com os braços carregados, deixou lentamente
o mercado rumo à guarnição, tentando desviar dos cães vadios que a toda hora se
punham no seu caminho. Eles latiam e de vez em quando avançavam nos seus
tornozelos: não sabiam quem era ele.
Ao deixar a aldeia, viu que o sol já estava se escondendo atrás da colina mais
alta e, lembrando-se da recomendação do pai de que estivesse em casa antes do
anoitecer, apertou o passo. Ao verem-no descer a trilha pedregosa, os
caminhantes que iam para a aldeia se afastavam respeitosamente, mantendo
distância, para que ele tivesse uma visão clara de até onde os olhos conseguiam
alcançar, o que não era muito, porque era grande o volume que carregava nos
braços. Apesar disso, erguendo rapidamente os olhos, vislumbrou alguns passos
à sua frente um homem de longas barbas — uma maneira desleixada e porca de
se apresentar, dissera-lhe uma vez o pai —, usando o traje roto que indicava ser
ele da tribo de Jacó, puxando um burro teimoso que carregava uma mulher
bastante gorda. A mulher, como ditava o costume, estava vestida de preto da
cabeça aos pés. O menino estava pronto para ordenar-lhes que saíssem de seu
caminho quando o homem deixou o burro na beira da estrada e entrou numa casa
que, a julgar pela tabuleta, era uma estalagem.
Uma construção como aquela, em sua terra natal, nunca teria sido aprovada
pela fiscalização dos conselheiros locais como abrigo de viajantes. Mas o
menino sabia que, principalmente naquela semana, era de fato um luxo encontrar
até mesmo uma esteira para estender o corpo. Viu o homem barbudo sair da casa
com uma expressão de desalento no rosto cansado. Não devia haver
acomodações na hospedaria.
O menino, que poderia tê-lo informado disso antes mesmo que ele entrasse,
ficou curioso por saber o que faria agora o homem, já que aquela era a última
estalagem da estrada. Não que estivesse verdadeiramente interessado pela sorte
deles; pouco se lhe dava se o casal dormisse ao relento nas colinas. Aliás só lhes
restaria fazer isso. O homem de longas barbas disse alguma coisa para a mulher
apontando para os fundos da hospedaria; em seguida, sem dizer mais nada,
conduziu o burro na direção que indicara. O menino não imaginava o que
poderia haver ali atrás da hospedaria e, com a curiosidade aguçada, seguiu-os.
Ao chegar aos fundos da casa, viu o homem tentando fazer o burro passar pela
porta de um lugar que lhe pareceu ser um estábulo. O menino seguiu o estranho
grupo e espiou através da fresta deixada pela porta entreaberta. O estábulo estava
coberto de palha suja e coalhado de galinhas, carneiros e bois; o cheiro ali
reinante recordava ao menino os esgotos instalados nas ruas de sua terra natal.
Começou a sentir enjoo. O homem começou a remover a parte mais suja da
forração do centro do estábulo, para terem um cantinho limpo onde descansar —
uma tarefa quase inútil, pensou o menino. Quando o homem terminou de fazer o
melhor que pôde, tomou a mulher nos braços, ajudando-a a desmontar do burro,
e depositou-a delicadamente sobre a palha. Em seguida aproximou-se de uma
tina de água no outro lado do estábulo, onde um dos bois bebia. Pegou água com
as mãos em concha e voltou para junto da mulher gorda.
O menino começava a se aborrecer e estava se preparando para partir quando
a mulher curvou-se para a frente e bebeu das mãos do homem. O xale
escorregou, descobrindo-lhe a cabeça, e pela primeira vez ele viu seu rosto.
Ficou paralisado, olhando-a fixamente. Nunca vira mulher mais bela. Ao
contrário dos membros comuns de sua tribo, sua pele tinha um quê de
translúcido e seus olhos brilhavam; mas o que mais impressionava o menino era
seu porte e sua presença. Nunca se sentira tão tomado pela admiração, nem
mesmo quando visitara o Senado para ouvir uma pronunciamento de César
Augusto.
Por um instante permaneceu hipnotizado, mas logo decidiu o que fazer.
Passando pela porta aberta, encaminhou-se para a mulher, ajoelhou-se diante
dela e lhe ofereceu a galinha. Ela sorriu; ele lhe presenteou também as romãs e
ela tornou a sorrir. Ele então depôs tudo o que trazia diante dela, que continuava
em silêncio. O homem de longas barbas voltou com mais água e, ao deparar com
o jovem estrangeiro, caiu de joelhos, derramando a água sobre a palha, e cobriu
o rosto. O menino ficou de joelhos por algum tempo, depois levantou-se e
caminhou lentamente até a porta do estábulo. Ao sair, voltou-se e olhou mais
uma vez o rosto da bela mulher. Ela nada disse.
Depois de breve hesitação, o jovem romano inclinou a cabeça e retirou-se.

Já estava escuro quando ele correu em busca da trilha sinuosa a fim de


retomar seu caminho, mas não sentiu medo. Ao contrário, sentia que fizera uma
coisa boa e por isso nada de mal lhe poderia acontecer. Olhou para o céu e viu, a
leste, bem acima de sua cabeça, a primeira estrela, cintilando com tanto brilho
que ele ficou perturbado por não conseguir ver as outras. Lembrou-se de que o
pai lhe dissera que em outras terras se viam estrelas diferentes, e tratou de
esquecer aquele mistério, deixando tomar lugar em sua mente a preocupação por
não ter chegado em casa antes do anoitecer. A estrada à sua frente agora estava
vazia, de modo que podia caminhar depressa rumo à guarnição. Não se
encontrava muito longe de seu abrigo seguro quando ouviu vozes que cantavam
e gritavam. Virou-se prontamente para ver de onde vinha o perigo, perscrutando
as colinas que se elevavam acima dele. No começo não discerniu bem o que via.
Depois, tomado de surpresa, fixou os olhos num ponto do prado onde pastores
davam pulos, cantando, gritando e batendo palmas. O menino percebeu que as
ovelhas haviam sido colocadas num cercado, num canto do prado, para passarem
a noite, de modo que os pastores estavam despreocupados. Marcus lhe contara
que às vezes os pastores daquela região faziam muito barulho à noite, porque,
segundo acreditavam, isso espantava os maus espíritos. É verdade! Como posso
ter sido tão tolo? perguntou-se o menino. Nisso um clarão de luz irrompeu no
céu e iluminou o prado por um breve instante. Os pastores caíram de joelhos, em
silêncio, olhando fixamente para o céu, como se ouvissem alguma coisa
atentamente. Em seguida tudo voltou a mergulhar na escuridão.
O menino saiu em desabalada carreira em direção à guarnição, quase
correndo mais do que podiam suas pernas; queria entrar, ouvir o seguro portão
fechar-se às suas costas e ver o centurião travá-lo com a barra de madeira. Teria
corrido sem parar se o que viu à frente não o fizesse deter-se bruscamente. O pai
lhe ensinara a jamais demonstrar medo diante do perigo. O menino tomou
fôlego, só para que não pensassem que estava com medo. Estava com medo, mas
mesmo assim seguiu caminho com determinação, procurando persuadir-se de
que ninguém o faria sair da estrada. Quando, enfim, chegou mais perto, estava
aterrorizado.
Havia diante dele três camelos montados por três homens que o olhavam
fixamente. O primeiro trajava uma roupa dourada e com um braço protegia algo
escondido sob o manto. De sua cintura pendia uma longa espada, cuja bainha
trazia incrustadas toda sorte de raras pedras preciosas, muitas das quais o menino
era incapaz de identificar. O segundo estava todo de branco e segurava junto do
peito um escrínio de prata, enquanto o terceiro usava roupa vermelha e trazia um
enorme estojo de madeira. O homem de dourado levantou a mão e dirigiu-se ao
menino num estranho idioma que ele jamais ouvira antes alguém falar, nem
mesmo seu preceptor. O segundo homem expressou-se em hebraico, sem melhor
resultado, e o terceiro tentou ainda uma terceira língua, mas também não se fez
entender.
O menino cruzou os braços sobre o peito, disse-lhes quem era, para onde
estava indo, e perguntou-lhes que destino tomavam. Confiava que sua voz, quase
esganiçada, não denunciasse seu medo. O homem de dourado foi o primeiro a
responder e a fazer perguntas no idioma do menino.
— Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus? Vimos a estrela dele a leste
e aqui estamos para reverenciá-lo.
— O Rei Herodes vive além das...
— Não nos referimos ao Rei Herodes — disse o segundo homem —, pois
ele, tal como nós, reina apenas sobre os homens.
— Nós estamos nos referindo — disse o terceiro — ao Rei dos Reis e para cá
viemos trazendo-lhe nossas dádivas de ouro, incenso e mirra.
— Nada sei sobre o Rei dos Reis — disse o menino, sentindo-se já mais
seguro. — Sei apenas de César Augusto, imperador do mundo conhecido.
O homem de dourado balançou a cabeça e, apontando em direção ao
firmamento, perguntou ao menino:
— Observe aquela estrela brilhante a leste. Qual é o nome da aldeia sobre a
qual ela cintila?
O menino olhou para a estrela: a aldeia, que se estendia na sua direção,
descortinava-se agora com mais nitidez do que à luz do dia.
— Mas aquela é Belém — disse o menino, rindo-se. — Lá os senhores não
encontrarão nenhum Rei dos Reis.
— Decerto lá o encontraremos — retrucou o segundo rei —, pois foi o
sumo-sacerdote de Herodes quem nos disse:

E tu Belém, na terra de Judá,


Não és inferior entre os príncipes de Judá,
Pois de ti haverá de vir um Governador
Que guiará meu povo de Israel.

— Impossível — disse o menino, agora quase gritando. — César Augusto


governa sobre Israel e todo o mundo conhecido.
Mas os três homens paramentados não lhe deram ouvidos e afastaram-se em
direção a Belém.
Aturdido, o menino reiniciou a última parte de sua jornada de volta a casa.
Embora o céu estivesse negro como breu, toda vez que ele se voltava para Belém
a aldeia ainda resplandecia sob a luz brilhante da estrela. Mais uma vez começou
a correr em direção à guarnição, aliviado por vê-la tomar forma à sua frente.
Quando alcançou o enorme portão de madeira, bateu com força freneticamente,
até o centurião — de espada em punho, segurando uma tocha — aparecer para
ver quem era o intruso que perturbava sua vigília. Assim que reconheceu o
menino, franziu o cenho.
— Seu pai está muito bravo. Voltou de tardinha e estava para mandar um
destacamento de busca à sua procura.
O menino passou voando pelo centurião e correu sem parar até a residência
da família, onde encontrou o pai conversando com um legionário da guarda. A
mãe estava ao lado dele, e chorava.
Logo que viu o filho, o pai voltou-se e gritou:
— Por onde andou?
— Fui até Belém.
— Disso eu sei, mas que diabo te deu para voltar assim tão tarde? Já não
estou cansado de dizer para nunca ficar fora da guarnição depois do anoitecer?
Venha já ao meu gabinete de trabalho.
O menino lançou um olhar desesperançado à mãe, que ainda chorava, mas já
parecia um pouco aliviada, e afastou-se para acompanhar o pai até o gabinete. O
legionário piscou-lhe o olho quando o menino passou por ele, mas o menino
sabia que ninguém poderia salvá-lo agora. Com passos largos, o pai caminhou à
frente até o escritório, onde sentou-se num tamborete de couro ao lado da mesa.
A mãe os seguiu e ficou em silêncio junto à porta.
— Agora me diga exatamente por onde andou e por que demorou tanto para
voltar. E trate de falar a verdade.

O menino, diante do pai, contou tudo o que acontecera. Começando pela ida
à aldeia, contou que tivera um grande cuidado em escolher a comida, porque,
com isso, economizava metade do dinheiro que a mãe lhe dera. Contou depois
que, já a caminho de casa, encontrara a senhora gorda montada no burro, que
não conseguira abrigo na hospedaria, e explicou por que lhe dera toda a comida.
Continuando a descrição, falou dos pastores que gritavam e cantavam até
aparecer no céu um grande clarão, quando fizeram silêncio e se ajoelharam; e
finalmente dos três homens paramentados que procuravam o Rei dos Reis.
À medida que ouvia a narrativa do filho, o pai ia ficando cada vez mais
furioso.
— Isso é história que se conte! — gritou ele. — Continue. Você encontrou
esse tal de Rei dos Reis?
— Não, senhor, eu não — respondeu ele, enquanto o pai se levantava e
começava a andar de um lado para o outro.
— Talvez haja uma explicação bem mais simples para o seu rosto e os seus
dedos estarem manchados do vermelho de suco de romã — insinuou ele.
— Não, papai. Comprei uma romã a mais, mas mesmo depois de ter
comprado tudo consegui economizar um denário.
O menino devolveu à mãe a moeda de prata, acreditando que assim
confirmava a veracidade de sua história. Ao ver a moeda, porém, o pai ficou
ainda mais irritado. Parou de andar e encarou o filho bem dentro dos olhos.
— Você gastou o outro denário com você mesmo e por isso não conseguiu
nada para trazer!
— Isso não é verdade, papai, eu...
— Pois então te dou uma outra oportunidade de me dizer a verdade — disse
o pai, sentando-se. — Se não for, filho, te darei uma surra que você não
esquecerá para o resto da vida.
— Mas eu lhe disse a verdade, papai.
— Ouça-me com atenção, filho. Nascemos romanos, nascemos para
governar o mundo, porque nossas leis e nossos costumes são sólidos, inspiram
confiança e foram sempre baseados em honestidade absoluta. Os romanos não
mentem jamais; isso constitui a nossa força e a fraqueza dos nossos inimigos.
Por isso governamos, ao mesmo tempo que outros são governados, e enquanto
for assim o Império Romano nunca será derrotado. Entende o que estou dizendo,
filho?
— Sim, papai, entendo.
— Então você também entende por que é imperioso dizer a verdade.
— Mas eu não menti, papai.
— Nesse caso, não há esperança para você — disse o homem, irado. — E
resta-me apenas uma maneira de resolver esta questão.
A mãe do menino teve o impulso de socorrer o filho, mas sabia que qualquer
protesto seria ignorado. O pai levantou-se da cadeira, tirou o cinto de couro da
cintura e o dobrou em dois, deixando os pesados botões de latão do lado de fora.
Ordenou então ao filho que se curvasse e tocasse os dedos dos pés. O menino
obedeceu sem vacilar; o pai ergueu a faixa de couro no ar e desceu-a com toda a
força contra a criança. O menino em nenhum momento retraiu o corpo ou emitiu
um lamento, enquanto a mãe dava as costas para a cena e chorava. Depois de
aplicar o décimo segundo golpe, o pai mandou que o filho fosse para o quarto. O
menino saiu sem dizer uma palavra; a mãe o seguiu e viu-o subir a escada.
Correu para a cozinha e pegou um pouco de unguento e óleo de oliva com que
esperava aliviar a dor das feridas do filho. Levou as pequenas ânforas para o
quarto dele, onde o encontrou já deitado. Aproximou-se dele e puxou o lençol.
Depois despiu delicadamente sua túnica de dormir, receando que a fricção do
tecido lhe aumentasse a dor. Olhou fixamente o corpo do filho, sem acreditar no
que via.
A pele do menino não exibia nenhuma marca.
Correndo levemente os dedos sobre o corpo perfeito do filho, ela constatou
que ele estava tão liso quanto após um banho. Virou-o de bruços: nenhuma
marca em parte alguma. Cobriu-o rapidamente com o lençol.
— Jamais diga a seu pai o que vou te dizer agora; tire de sua lembrança para
sempre, pois isso vai deixá-lo ainda mais furioso.
— Sim, mamãe.
A mãe curvou-se e apagou com um sopro a chama da vela junto à cama;
pegou os óleos dispensáveis e caminhou até a porta na ponta dos pés. No limiar,
imersa na penumbra, virou-se para olhar o filho e disse:
— Agora sei que você disse a verdade, Pôncio.

The first miracle


O perfeito cavalheiro
Eu nunca teria conhecido Edward Shrimpton se não fosse ele ter precisado
de uma toalha. Ele estava de pé ao meu lado, nu, olhando para o banco em frente
e resmungando:
— Sou capaz de jurar que deixei aquela maldita toalha aqui.
Eu tinha acabado de sair da sauna e, como estava enrolado em várias toalhas,
tirei uma do ombro e a passei para ele. Agradeceu-me e estendeu a mão.
— Edward Shrimpton — apresentou-se com um sorriso.
Apertei-lhe a mão e fiquei pensando que impressão devíamos estar dando ali
em pé, no vestuário do ginásio do Clube Metropolitano, à noitinha — dois
marmanjões nus trocando um aperto de mão.
— Não me lembro de tê-lo visto no clube antes — acrescentou ele.
— Não, sou um sócio estrangeiro.
— Ah, inglês. O que o trouxe a Nova Iorque?
— Estou atrás de uma romancista americana que a minha editora quer
publicar na Inglaterra.
— E está conseguindo alguma coisa?
— Sim, acho que fecharei o contrato esta semana... desde que o agente
desista de tentar me convencer de que a autora é um misto de Tolstói com
Dickens e de que deve ser paga de acordo.
— Se bem me lembro, nenhum dos dois foi pago exatamente à altura —
sugeriu Edward Shrimpton, esfregando com força a toalha nas costas.
— Esse foi um fato que, na ocasião, fiz ver ao agente, que, por sua vez,
respondeu lembrando-me de que quem originalmente publicou Dickens foi a
minha editora.
— Proponho — disse Edward Shrimpton — que você o recorde de que o que
se sucedeu revelou-se um sucesso para todos os envolvidos.
— Foi o que fiz, mas acho que esse agente está mais interessado no aqui e
agora do que na posteridade.
— Como sou banqueiro, eis aí uma posição que dificilmente eu reprovaria, já
que a única coisa que temos em comum com os editores é que os nossos clientes
estão sempre tentando nos contar uma boa história.
— Talvez você deva sentar-se e escrever uma delas para mim, que tal? —
sugeri polidamente.
— Pelo amor de Deus! Você deve estar cansado de ouvir que a vida de cada
ser humano é um romance, por isso desde já lhe garanto que a minha não é.
Eu ri, experimentando a rara tranquilidade de não ter ouvido de um recente
conhecido que suas memórias, caso encontrasse tempo para escrevê-las, dariam
um excelente best seller internacional.
— Talvez você tenha uma história, só que ainda não sabe — opinei.
— Se for assim, acho que passei por cima dela.
O Sr. Shrimpton ressurgiu de trás da fileira de estreitas cabines e me
devolveu a toalha. Estava completamente vestido agora e media, segundo eu
imaginava, pouco mais de 1,90 m. Trajava um terno de riscas típico de um
banqueiro de Wall Street e, embora fosse quase calvo, tinha um físico notável
para um homem talvez já entrado nos sessenta. Apenas seu alvo e espesso
bigode denunciava sua verdadeira idade, e lembrava mais um coronel inglês
aposentado do que um banqueiro novaiorquino.
— Vai ficar muito tempo em Nova Iorque? — perguntou ele, enquanto
pegava um pequeno estojo de couro do bolso interno do paletó e tirava um par
de óculos em meia-lua para colocá-los na ponta do nariz.
— Só uma semana.
— Por acaso estará livre para almoçar comigo amanhã? — perguntou,
olhando por cima das lentes.
— Sim, estarei. Sem dúvida não aguento mais um almoço com aquele
agente.
— Ótimo, ótimo, então por que não se encontra comigo, para que eu possa
acompanhar o desenvolvimento do drama de capturar a esquiva Autora
Americana?
— E talvez assim eu descubra que, afinal de contas, você tem uma história
para contar.
— Perca as esperanças — disse ele — você estaria apostando num perdedor,
caso dependesse disso — e mais uma vez ofereceu a mão. — A uma hora, no
restaurante dos sócios. Está bem para você?
— À uma, no restaurante dos sócios — confirmei.
Depois que ele saiu do vestiário, fui até o espelho e endireitei minha gravata.
Ia jantar naquela noite com Eric McKenzie, um amigo editor que tinha-me
apresentado como virtual sócio do clube. Para ser mais exato, Eric McKenzie era
mais amigo do meu pai do que meu. Conheceram-se pouco antes da guerra, ao
passarem férias em Portugal, e quando fui aceito pelo clube, logo após a
aposentadoria de papai, Eric assumiu para si o compromisso de jantar comigo
toda vez que eu viesse a Nova Iorque. A geração dos nossos pais nos vê sempre
como crianças que precisam de cuidados e atenções permanentes. Como era da
mesma época que papai, Eric devia ter uns setenta anos e, embora ouvisse mal e
fosse ligeiramente encurvado, era sempre uma boa e divertida companhia,
mesmo quando não parava de me perguntar se eu sabia que o avô dele era
escocês.
Ao fechar a pulseira do relógio, imaginei que ele chegaria em poucos
minutos. Vesti o paletó e saí lentamente para o saguão, onde já o encontrei
esperando por mim. Eric estava lendo os velhos boletins do clube para matar o
tempo. Os americanos, como pude notar, chegam sempre cedo ou tarde, nunca
na hora certa. Detive-me para observar aquele homem curvado, cujo cabelo,
salvo alguns poucos fios, estava totalmente branco. Faltava um botão no paletó
de seu terno de três peças, o que me fez lembrar de que sua esposa morrera no
ano anterior. Após outro aperto de mãos e cumprimentos, tomamos o elevador
para o segundo andar e nos dirigimos ao restaurante.

O restaurante dos sócios no Metropolitano não é muito diferente de qualquer


outro restaurante de clube masculino. Tem uma boa quantidade de velhas
cadeiras de couro, velhos tapetes, velhos retratos e velhos sócios. Um garçom
nos levou até uma mesa de canto que dava vista para o Central Park. Fizemos os
pedidos e nos acomodamos para conversar sobre todos os assuntos que em geral
se pode abordar com um conhecido que apenas se tem a oportunidade de
encontrar umas duas vezes por ano — nossas famílias, filhos, amigos em
comum, trabalho, beisebol e críquete. Quando chegamos no tópico críquete,
tínhamos também chegado no café, de modo que caminhamos
despreocupadamente até o outro canto do salão e nos instalamos
confortavelmente em duas poltronas de couro bastante surradas. Quando nos
serviram os cafés, pedi dois conhaques e fiquei observando Eric desembrulhar
um enorme charuto cubano. Embora ostentasse, na parte externa, uma etiqueta
antilhana, eu sabia que era cubano porque eu mesmo comprara uma caixa para
ele num vendedor de tabaco em St. James, no Piccadilly, que era especialista em
trocar os rótulos para os clientes americanos. Sempre achei que aquela devia ser
a única tabacaria do mundo que troca os rótulos para fazer um produto superior
parecer inferior. Tenho certeza de que o meu fornecedor de vinho faz a mesma
coisa, com intenção contrária.
Enquanto Eric tentava acender o charuto, meus olhos percorreram o
ambiente e foram fixar-se num quadro de avisos na parede. Mais exatamente,
tratava-se de uma placa de madeira bem envernizada com inscrições em letras
douradas inclinadas, enumerando os homens que, ao longo dos anos, ganharam o
Campeonato de Gamão do clube. Passei os olhos indolentemente pela lista de
nomes, quando o nome de Edward Shrimpton me chamou a atenção. Por uma
vez, ao final da década de 30, ele fora o segundo colocado.
— Interessante — disse eu.
— O quê? — perguntou Eric, agora coroado por uma quantidade de fumaça
suficiente para fazê-lo passar por locomotiva na Grand Central Station.
— Edward Shrimpton foi o segundo colocado no Campeonato de Gamão do
clube, no final da década de 30. Almoçarei com ele amanhã.
— Eu não sabia que você o conhecia.
— Não o conhecia até esta tarde — disse eu, explicando em seguida como
nos encontramos.
Eric riu e voltou-se para olhar o quadro. Depois ajuntou, misterioso:
— Foi uma noite que dificilmente esquecerei.
— Por quê? — perguntei.
Eric titubeou e pareceu inseguro em prosseguir:
— Muita água passou por baixo da ponte para alguém se lembrar agora. —
Fez nova pausa, ao mesmo tempo que caía no chão um pedaço de cinza em
brasa, acrescentando mais uma às marcas de queimado que formavam um
curioso desenho no tapete. — Pouco antes da guerra, Edward Shrimpton estava
entre os seis melhores jogadores de gamão do mundo. De fato, creio que foi por
volta daquela época que ele ganhou o campeonato mundial amistoso em Monte
Cario.
— E ele não conseguiu ganhar o campeonato do clube?
— Não conseguiu é uma expressão incorreta, meu caro. “Não ganhou” seria
a mais exata. — Eric mergulhou meditativo em outro lapso de silêncio.
— Não vai explicar? — perguntei, esperando que ele continuasse — vai me
deixar como uma criança que quer descobrir quem matou Cock Robin?
— Tudo tem seu tempo certo; antes permita-me reacender este charuto.
Eu permaneci em silêncio, e quatro fósforos depois ele disse:
— Antes de eu começar, dê uma olhada naquele homem sentado ali adiante,
no canto, com a jovem loura.
Virei-me e olhei na direção das mesas do restaurante, onde vi um homem que
atacava um bife de filé mignon. Aparentava ter a mesma idade de Eric e usava
um temo novo e elegante que não lhe chegava a disfarçar o problema de excesso
de peso: apenas o alfaiate devia sorrir para ele com genuíno prazer. Ele estava
sentado diante de uma frágil garota loura, bastante atraente, da metade de sua
idade, que poderia pisar num besouro sem ser capaz de esmagá-lo.
— Que casal mais curioso. Quem são?
— Harry Newman e sua quarta esposa. São sempre as mesmas. Quero dizer,
as esposas: louras, olhos azuis, quarenta e cinco quilos e sonsas. Nunca entendi
por que alguns homens se divorciam só para se casarem com uma xerox do
original.
— Onde Edward Shrimpton se encaixa nesse quebra-cabeça? — perguntei,
tentando trazer Eric de volta ao assunto.
— Calma, calma — disse meu anfitrião, acendendo o charuto pela terceira
vez. — Na sua idade, você tem muito mais tempo que eu para desperdiçar.
Eu ri e, pegando o copo de conhaque mais próximo de mim, comecei a girá-
lo nas mãos em concha.
— Harry Newman —- continuou Eric, agora quase escondido pela fumaça
— foi o sujeito que derrotou Edward Shrimpton na final do campeonato do clube
naquele ano, embora, na verdade, jamais tenha tido a mesma categoria que
Edward.
— Explique — disse eu, examinando a placa para verificar se de fato o nome
de Newman precedia o de Edward Shrimpton.
— Bem — fez Eric — terminada a semifinal, que Edward vencera com
tranquila facilidade, nós todos pensamos que a final seria apenas uma
formalidade. Harry sempre fora um bom jogador, mas eu, que tinha perdido para
ele nas semifinais, sabia que ele não podia ter esperanças de sobreviver a uma
competição com Edward Shrimpton. Quem ganha a final no clube é o primeiro
homem com vinte e um pontos, e se na época me tivessem pedido a opinião eu
teria concluído que o resultado seria em torno de 21 contra 5 a favor de Edward.
Droga de charuto — fez ele, acendendo-o pela quarta vez.
Tornei a esperar pacientemente.
— A final ocorre sempre numa noite de sábado, e o pobre do Harry ali —
disse Eric, apontando o charuto para o canto do salão e deixando cair um pouco
mais de cinza no chão —, que, todos acreditávamos, ia progredindo bastante no
negócio de seguros, recebeu um comunicado de falência na manhã da segunda-
feira anterior à final... E, deve-se dizer, não por culpa dele. Seu sócio converteu
as ações dele em dinheiro sem seu conhecimento, deixou-lhe todas as contas
para pagar e sumiu do mapa. Todo mundo no clube mostrou-se solidário. Na
quinta-feira, a imprensa divulgou o caso, acrescido da informação de que a
esposa de Harry havia fugido com o ex-sócio. Harry não deu as caras no clube
durante toda a semana, e alguns de nós já estávamos pensando que ele iria se
retirar da competição final e deixar Edward vencer por desistência, já que, de
qualquer modo, o resultado era inevitável. Mas a Comissão de Jogos não recebeu
nenhum comunicado de Harry declarando encerrada a competição, e procedeu
como se nada tivesse acontecido. Na noite da final, jantei com Edward
Shrimpton aqui no clube. Ele estava em plena forma. Comeu muito pouco e
bebeu apenas um copo de água. Se na época você me tivesse perguntado, eu
responderia que não apostaria um centavo sequer em Harry Newman, mesmo
que a vantagem de saída fosse de dez para um. Nós todos jantamos no terceiro
andar, já que, para acomodar sessenta pessoas em torno do tabuleiro, a Comissão
havia esvaziado este salão. A final estava marcada para começar às nove. Às
vinte para as nove não havia mais assentos e os sócios foram ficando de pé ao
fundo, já muito longe da mesa: não era todo dia que podíamos admirar de perto o
desempenho de um campeão mundial. Às cinco para as nove, Harry ainda não
havia aparecido e alguns sócios começavam a ficar impacientes. Quando soaram
as nove horas, o juiz aproximou-se de Edward e trocou umas palavras com ele.
Vi Edward balançar a cabeça aborrecido e retirar-se. Justo na hora agá, quando
pensei que o juiz decretaria a vitória de Edward, Harry entrou, muito elegante,
trajando um smoking muitas vezes menor do que o terno que ele está usando
hoje. Edward caminhou até ele, cumprimentou-o calorosamente e juntos
dirigiram-se para o centro do salão. Já nos primeiros lances aquela partida estava
cercada por uma certa tensão. Os sócios estavam curiosos por ver como Harry
iria se sair na primeira partida do jogo.
O obstinado charuto apagou de novo. Inclinei-me e acendi um fósforo para
ele.
— Obrigado, meu rapaz. Bom, onde é que eu estava? Ah, sim, a primeira
partida. Bem, Edward ganhou a primeira partida com certa dificuldade e eu
pensei cá comigo se ele não estava se concentrando o suficiente ou se talvez
tivesse relaxado um pouco demais enquanto esperava pelo adversário. Na
segunda partida, os dados estavam a favor de Harry e ele ganhou com relativa
facilidade. A partir daquele momento começou uma batalha acirrada, ponto por
ponto, e, quando a contagem chegou a 11 a 9 a favor de Edward, o grau de
tensão no salão tinha chegado ao máximo. Na nona partida, passei a prestar mais
atenção e notei que Edward deixou-se levar a um retrocesso, um pequeno erro de
tática que somente um jogador tarimbado teria detectado. Fiquei pensando
quantos desses erros sutis haviam sido cometidos sem que eu os tivesse
observado. Harry acabou por vencer a nona partida, perfazendo a contagem de
18 a 17 a seu favor. Vi que na décima partida Edward teve um desempenho
apenas o suficiente para ganhar e, numa jogada arriscada, apenas o suficiente
para perder a décima primeira e elevar a contagem para os vinte iguais, de modo
que tudo passou a depender da partida final. Posso garantir que naquela noite
ninguém deixou o salão por um instante e ninguém sequer se recostou na
cadeira; havia até sócios encostados nos peitoris das janelas. O salão já estava
abarrotado de garrafas vazias e impregnado da fumaça dos charutos, mas quando
Harry pegou a copa de dados para começar a última partida, podia-se ouvir o
chacoalhar dos cubinhos de marfim antes de serem lançados. Os dados
revelaram-se a favor de Harry nessa partida final e, que eu pudesse perceber,
Edward cometeu apenas um pequeno erro, o suficiente, na entanto, para entregar
a Harry a partida, o campeonato e a vitória. Após o último lance dos dados,
todos os presentes naquele salão, inclusive Edward, aplaudiram de pé o novo
campeão.
— Foram muitos os que perceberam o que realmente aconteceu naquela
noite?
— Não, creio que não — disse Eric. — E decerto Harry Newman também
não. O que se comentou depois foi que Harry nunca tinha jogado tão bem em
toda a sua vida e que sua vitória era merecida, ainda mais pelas dificuldades que
vinha enfrentando.
— Edward fez algum comentário?
— Disse que aquela tinha sido a mais dura partida que jogara desde Monte
Cario e que desejava apenas ter a oportunidade de uma revanche no ano
seguinte.
— Mas não teve — antecipei, olhando para o quadro. — Ele jamais ganhou
o campeonato do clube.
— Correto. Depois que Roosevelt nos convocou para lutar na Inglaterra, ao
lado de vocês, ingleses, o clube não promoveu mais competições até 1946, mas
nessa época Edward, que havia lutado na guerra, perdera todo o interesse pelo
gamão.
— E Harry?
— Ah, Harry... Depois daquilo nunca mais parou de progredir; deve ter feito
dúzias de negócios no clube naquela noite. Depois de um ano estava de novo no
apogeu, e até encontrou outra graciosa lourinha.
— E o que Edward diz do episódio agora, passados trinta anos?
— Sabe, até hoje isso é um mistério. Durante todo esse tempo nunca o ouvi
mencionar aquela partida sequer uma vez.
O charuto já tinha dado o que tinha de dar e Eric esmagou o toco num
cinzeiro até então imaculado. Isso pareceu lembrá-lo de que já era hora de ir para
casa. Levantou-se com alguma dificuldade e eu o acompanhei até a saída.
— Até logo, meu rapaz — disse. — Transmita os meus melhores votos de
felicidade a Edward quando almoçar com ele amanhã. E lembre-se de não se
meter a jogar gamão com ele. Ainda é capaz de derrotá-lo.

No dia seguinte cheguei ao saguão alguns minutos antes do horário


combinado, sem saber ao certo se Edward Shrimpton era um americano que
adiantava ou atrasava. Assim que o relógio deu uma hora, ele atravessou o limiar
da porta; sempre há uma exceção a toda regra. Concordamos em subir direto
para o almoço, pois ele tinha um compromisso em Wall Street às duas e meia.
Entramos no elevador lotado e apertei o botão de número três. As portas
fecharam-se como uma sanfona emperrada e o elevador mais lento dos Estados
Unidos partiu rumo ao segundo andar.
Ao entrarmos no restaurante, achei engraçado que Harry Newman já
estivesse lá, atacando outro bife de filé mignon, enquanto a pequena senhora
loura beliscava uma salada. Ele acenou expansivo para Edward Shrimpton, que
retribuiu com um amável movimento de cabeça. Sentamo-nos a uma mesa no
centro do salão e examinamos o cardápio. O prato do dia era bife e torta de rim,
como provavelmente devia ser em metade dos demais clubes masculinos pelo
mundo afora. Edward anotou nossos pedidos com letra caprichada num
papelzinho branco fornecido pelo garçom.
Edward perguntou-me sobre a escritora que eu andava perseguindo e fez
alguns comentários perspicazes sobre suas primeiras obras, aos quais tentei
responder da forma mais inteligente possível, ocupado com um plano que o
levasse a falar do campeonato de gamão anterior à guerra, o que, pensei comigo,
daria uma história bem melhor do que qualquer uma escrita por ela até então.
Mas, como ele não falou sobre si mesmo durante toda a refeição, eu já não sabia
mais o que fazer. Finalmente, fitando a placa afixada na parede, eu disse, com
certa precipitação:
— Pelo que vejo você se colocou em segundo lugar no campeonato de
gamão antes da guerra. Deve ter sido um excelente jogador.
— Não, de fato, não — respondeu ele. — Naquela época muito pouca gente
se interessava pelo jogo. Hoje é diferente, muitos jovens o levam a sério.
— E o que acha do campeão? — arrisquei.
— Harry Newman? Ele era um jogador de primeira, principalmente em
condições desfavoráveis. É aquele cavalheiro que nos cumprimentou quando
entramos. Aquele que está sentado no canto com a esposa.
Olhei convenientemente na direção da mesa do Sr. Newman, mas, como o
meu anfitrião não acrescentou mais nada, desisti. Pedimos o café. E aqui estaria
terminada a história de Edward se Harry Newman e sua esposa não se
aproximassem de nossa mesa logo depois de terminarem a refeição. Edward
levantou-se bem antes de mim, apesar dos meus vinte anos de vantagem. De pé
Harry Newman dava a impressão de ser ainda maior, e sua miúda mulher loura,
mais do que sua esposa, parecia sua sobremesa.
— Ed, — trovejou ele — como está?
— Bem, obrigado, Harry — respondeu Edward. — Gostaria de lhe
apresentar o meu convidado.
— Prazer em conhecê-lo — disse-me ele. — Rusty, sempre desejei que você
conhecesse Ed Shrimpton, de quem muito já lhe falei.
— Falou, Harry? — perguntou ela com a voz aguda.
— Claro que sim. Não se lembra, querida? O Ed consta do quadro de honra
do gamão — disse, apontando um dedo hirsuto para a placa. — E só há um
nome acima do dele, o meu. O Ed era o campeão mundial na época. Não é
verdade, Ed?
— É verdade, Harry.
— Então imagino que, na verdade, eu devesse ter sido o campeão mundial
naquele ano, não concorda?
— Sem dúvida nenhuma — respondeu Edward.
— No grande dia, Rusty, a coisa era para valer e a pressão era tremenda, eu o
derrotei justa e honradamente.
Eu fiquei mudo, perplexo por Edward Shrimpton até aquele momento não
manifestar qualquer discordância.
— Precisamos jogar de novo para lembrar os velhos tempos, Ed —
continuou o homem gordo. — Seria divertido ver se você é capaz de me derrotar
hoje. Sabe, Rusty, atualmente ando um pouco enferrujado. — Soltou uma risada
estridente com sua própria anedota*, mas o rosto de sua mulher permaneceu
imperturbável. Fiquei curioso por saber quanto tempo demoraria para que
surgisse uma quinta Sra. Newman.
— Foi ótimo revê-lo, Ed. Cuide-se, hein?
— Obrigado, Harry — disse Edward.
Voltamos a nos sentar enquanto Newman e esposa deixavam o restaurante.
Como o café havia esfriado, pedimos outro bule. O salão achava-se praticamente
vazio e no momento em que eu enchia as duas xícaras Edward inclinou-se para
mim, com um ar conspirativo, e sussurrou:
Rusty = enferrujado. (N. do T.)
— Agora há uma tremenda de uma história para um editor como você —
disse. — Quero dizer, a verdade sobre Harry Newman.
Apurei meus ouvidos antevendo que finalmente obteria sua versão do que
realmente acontecera na noite do campeonato de gamão, antes da guerra, havia
mais de trinta anos.
— É mesmo? — fiz, inocentemente.
— Oh, sim — contou Edward. — Não foi tão simples quanto você talvez
imagine. Pouco antes da guerra, Harry foi colocado numa situação bastante
difícil pelo seu sócio nos negócios, que não apenas roubou-lhe o dinheiro mas
também, para completar, a mulher. Na mesma semana em que ele estava
arrasado, ganhou o campeonato de gamão do clube, deu a volta por cima e,
apesar de todos os obstáculos, se recuperou a grande estilo. Sabe, ele merece a
fortuna que tem. Agora, convenhamos, isso não dá uma tremenda de uma
história?

The perfect gentleman


Amantes por uma noite
Os dois homens conheceram-se aos cinco anos de idade, época em que foram
postos lado a lado na classe, apenas porque seus sobrenomes, Thompson e
Townsend, eram consecutivos na lista de chamada. Logo tornaram-se amigos
íntimos, num laço que, nessa idade, costuma ser bem mais estreito que um
casamento. Depois de aprovados no exames de admissão ao ginásio,
prosseguiram os estudos no liceu da região sem nenhum Timpson, Tooley ou
Tomlinson que os separasse, e quando concluíram os sete anos do curso regular
nessa instituição acadêmica, chegaram à idade em que se impunha escolher entre
trabalhar ou entrar para a universidade. Optaram por esta última alternativa, com
base na tese de que o trabalho devia ser o mais possível adiado. Felizmente,
ambos eram dotados de razoável grau de inteligência e de talento inato que lhes
permitiu conquistar duas vagas na Universidade de Durham para estudar inglês.
A vida na universidade revelou-se tão favorável à sua convivência social
quando a da escola primária. Ambos apreciavam inglês, tênis, críquete, boa
comida e garotas. Por sorte, quanto a esta última predileção, divergiam apenas
em alguns poucos detalhes. Michael, que media 1,95 m de altura, era esbelto e
tinha cabelos escuros encaracolados, preferia louras altas, de seios fartos, olhos
azuis e pernas longas. Adrian, um homem atarracado de 1,60 m, cabelos ruivos e
lisos, sempre teve uma queda por garotas esguias, de olhos e cabelos escuros.
Toda vez que Adrian ou Michael deparava com uma garota por quem o amigo
estivesse interessado, e vice-versa, fosse ela universitária ou garçonete,
exagerava calculadamente as virtudes do outro. Assim, viveram e agiram unidos
durante três idílicos anos em Durham, e ganharam bem mais que um simples
diploma de bacharel em letras. Como nenhum dos dois conseguiu impressionar
os examinadores a ponto de terem de consagrar mais dois anos à formulação de
suas teses de mestrado, não mais conseguiram adiar o enfrentamento do mundo
real.
Inseparáveis que eram, foram juntos para Londres, onde Michael começou a
trabalhar como estagiário na BBC e Adrian foi contratado como auxiliar de
contabilidade pela agência de publicidade internacional Benton & Bowles.
Compraram um pequeno apartamento na Earl's Court Road, que pintaram de
laranja e marrom, e continuaram a viver uma vida de bon vivants, pois era assim
que, sem dúvida, se definiam.
Consumiram mais cinco anos nessa venturosa vida de solteiro, até que cada
um se apaixonou por uma garota que preenchia devidamente seus requisitos
particulares. Casaram-se com um intervalo de semanas: Michael com uma loura
alta de olhos azuis que conhecera jogando tênis no Clube de Hurlingham; Adrian
com uma morena esguia de olhos escuros, chefe de contabilidade da Kellogg's
Cornflakes. Foram padrinhos um do outro e geraram, cada um, três filhos em
intervalos de um ano; nisso chegaram a divergir, mas, como sempre, apenas em
alguns detalhes insignificantes: Michael teve dois meninos e uma menina e
Adrian, duas meninas e um menino. Cada um foi o padrinho do primogênito do
outro.
O casamento não conseguiu afastá-los — continuaram a seguir em grande
parte a mesma velha rotina, jogando críquete juntos nos finais de semana durante
o verão e futebol durante o inverno, sem contar os costumeiros almoços durante
a semana.
Depois de comemorar o seu décimo aniversário de casamento, Michael, já
um conceituado produtor na Thames Television, confessou um tanto
constrangido a Adrian que acabara de ter o seu primeiro caso extraconjugal:
cedera aos encantos de uma taquígrafa loura alta e bem-dotada que lhe estava
oferecendo muito mais dotes do que as setenta palavras que taquigrafava por
minuto. Algumas semanas depois, Adrian, agora um veterano chefe do setor de
contabilidade da Pearl & Dean, também sucumbiu a uma jornalista de Fleet
Street que andava em busca de certas informações confidenciais sobre uma das
empresas que ele atendia. Ela se transformara num item dedutível do imposto de
renda. Depois disso, os dois homens rapidamente retomaram sua antiga rotina.
Estavam sempre prontos a ajudar-se mutuamente de forma irrestrita, e isso não
criava, graças às suas diferentes preferências, nenhum conflito de interesses.
Suas vidas de homens casados não eram prejudicadas em nada — ou, pelo
menos, assim pensavam eles — e, aos 35 anos de idade, saindo ilesos dos
agitados anos 60, começaram a aproveitar ao máximo os anos 70.
No início da década, a Thames Television resolveu enviar Michael aos
Estados Unidos para editar um filme da ABC sobre a vida em Nova Iorque
exclusivamente destinado ao público britânico. Adrian, que sempre desejara
conhecer a Costa Leste, conseguiu, sem maiores dificuldades, ser destacado para
uma viagem no mesmo período, já que, segundo ele, era necessário realizar uma
pesquisa mais aprofundada para uma companhia de tabaco anglo-americana. Os
dois desfrutaram juntos de uma alegre semana em Nova Iorque, que culminou,
no última noite, com uma festa oferecida pela ABC, em que seria exibido o filme
de Michael sobre Nova Iorque, “A Megalópole vista por um inglês”.
Quando Michael e Adrian chegaram nos estúdios da ABC, a festa já estava a
todo o vapor. Ambos entraram juntos no salão pensando em beber algo e passar
umas poucas horas agradáveis antes de voltar para a Inglaterra no dia seguinte.
Viram aquela mulher exatamente ao mesmo tempo.
Com sua estatura mediana, seus olhos verdes e meigos e seus cabelos
castanho-avermelhados, ela encarnava uma inusitada combinação das fantasias
dos dois homens. Sem precisar pensar duas vezes, cada um deles soube
perfeitamente onde desejava terminar aquela noite, e foi obedecendo ao mesmo
imperativo que trataram de se aproximar dela.
— Oi, o meu nome é Michael Thompson.
— Oi — respondeu ela. — Sou Debbie Kendall.
— E eu sou Adrian Townsend.
Ela estendeu a mão e ambos se apressaram em apertá-la. Quando a festa
chegou ao final, tinham descoberto juntos que Debbie Kendall era uma editora
do noticiário noturno local. Era divorciada e tinha dois filhos que viviam com ela
em Nova Iorque. Mas nenhum dos dois chegou a impressioná-la realmente,
talvez por causa do esforço sobre-humano com que cada um procurou superar o
outro; ambos competiram acintosamente, a ponto de discutirem quem buscaria
para a nova companheira os aperitivos e as bebidas. Nas ausências do outro,
surpreenderam-se abalando as respectivas imagens de forma sutil mas
prejudicial.
— Adrian bebe demais, mas é um ótimo sujeito — disse Michael.
— O meu grande amigo Michael tem uma mulher adorável e três filhos
incríveis que você precisava conhecer — contou Adrian.
Ambos acompanharam Debbie até sua casa e se despediram a contragosto
nos degraus da porta de seu apartamento da 68th Street. Ela os beijou
mecanicamente no rosto, agradeceu e deu boa-noite. Voltaram para o hotel em
silêncio.

Quando chegaram ao quarto, no décimo nono andar do Plaza, Michael foi o


primeiro a falar.
— Desculpe — disse. — Me comportei como um idiota.
— Pois eu também — disse Adrian. — Não devíamos brigar por causa de
uma mulher. Nunca fizemos isso antes.
— Concordo — retrucou Michael. — Por que não fechamos um acordo de
cavalheiros?
— Como poderia ser?
— Já que nós dois voltaremos amanhã pela manhã para Londres, façamos o
acordo de que o primeiro que vier a Nova Iorque...
— Perfeito — disse Adrian, e ambos apertaram-se as mãos para selar o
acordo, como se estivessem jogando uma partida de críquete na escola e
tivessem que decidir quem rebateria a bola primeiro. Feito isso, foram se deitar e
tiveram o mais tranquilo dos sonos.

De volta a Londres, os dois homens empenharam-se ao máximo em


encontrar um pretexto para retornar a Nova Iorque. Nenhum deles comunicou-se
com Debbie Kendall por telefone ou carta, pois isso feriria os termos do acordo,
mas, à medida que as semanas iam se transformando em meses, ambos foram
desanimando e sentindo que não teriam mais oportunidade de voltar. Foi quando
Adrian recebeu um convite para falar na Associação de Média em Los Angeles.
A perspectiva da viagem deixou-o insuportavelmente presunçoso, seguro que
estava de que poderia passar por Nova Iorque a caminho de Londres. Michael
então descobriu que a British Airways estava oferecendo descontos nas
passagens para esposas que acompanhassem os maridos em viagens de negócios;
Adrian, portanto, não pôde voltar via Nova Iorque. Michael soltou um suspiro de
alívio, que se transformou em sorriso de vitória quando o destacaram para ir a
Washington cobrir o discurso do presidente ao Congresso. Sugeriu ao editor de
radiodifusão internacional que seria de bom alvitre passar por Nova Iorque na
volta, a fim de estreitar os contatos anteriormente feitos com a ABC. O chefe
concordou, mas alertou-o de que deveria voltar já no dia seguinte para cobrir a
abertura dos trabalhos no Parlamento.
Adrian telefonou para a mulher de Michael e informou-a dos descontos que
teria numa passagem para os Estados Unidos se quisesse acompanhar o marido.
— Obrigada por sua gentileza, mas, para meu azar, minha escola nunca me
permite tirar licença durante o período letivo. Além de tudo — acrescentou —
morro de medo de avião.
Michael, surpreendentemente compreensivo com a fobia da mulher, reservou
apenas uma passagem.
Michael chegou em Washington na segunda-feira seguinte e telefonou para
Debbie Kendall de seu quarto no hotel, curioso por saber se ela ao menos se
lembraria dos dois garbosos ingleses que conhecera de passagem meses antes e,
caso se lembrasse, se também saberia qual deles era ele. Discou nervosamente e
ouviu as chamadas uma por uma. Estaria ela em casa? Estaria em Nova Iorque?
Por fim ouviu um clique e uma voz suave dizer alô.
— Olá, Debbie, é Michael Thompson.
— Olá, Michael. Que surpresa agradável. Você está em Nova Iorque?
— Não, em Washington, mas estou pensando em ir até aí. Por acaso você
estará livre na quinta-feira para jantar?
— Deixe-me ver na agenda.
Michael segurou a respiração e esperou. Sentiu como se se passassem horas.
— Sim, estarei livre.
— Que ótimo! Posso buscá-la por volta das oito?
— Sim, obrigada, Michael. Estou ansiosa por revê-lo.
Encorajado pelo seu êxito inicial, Michael mandou imediatamente um
telegrama de condolências para Adrian em que lamentava sua triste perda.
Adrian não respondeu.

Michael pegou uma ponte área para Nova Iorque na tarde de quinta-feira
logo que terminou de passar a reportagem do discurso do presidente para a sede
de Londres. Depois de instalar-se em outro quarto de hotel — desta vez com
cama de casal, para o caso de os filhos de Debbie estarem em casa —, tomou um
demorado banho e fez lentamente a barba, cortando-se duas vezes e exagerando
um pouco demais na loção pós-barba. Remexeu as roupas, à procura da gravata,
da camisa e do terno mais elegantes, e assim que se vestiu examinou-se diante
do espelho, penteando cuidadosamente o cabelo recém-lavado de modo que os
finos fios longos formassem um penteado natural e ao mesmo tempo cobrissem
as entradas que começavam a se formar na testa. Depois de uma última
conferida, saiu convencido de que aparentava ter menos que seus 38 anos.
Tomou o elevador até o térreo e, deixando o Plaza para sair numa 5ª Avenida
toda iluminada por neon, dirigiu-se animadamente para a 68th Street. No
caminho, comprou uma dúzia de rosas na pequena floricultura à esquina de 65th
Street com a Avenida Madison e, cantarolando, prosseguiu confiante. Chegou à
porta da pequena casa de arenito pardo de Debbie Kendall às oito e cinco.
Quando Debbie abriu a porta, Michael achou-a ainda mais bela do que trazia
na lembrança. Ela trajava um vestido longo azul com colarinho e punhos de seda
branca enfeitados com rufos, que lhe cobria o corpo do pescoço aos tornozelos, o
que, no entanto, tornava-a ainda mais desejável. Praticamente não usava
maquilagem, salvo um toque de batom que Michael ansiava por remover. Seus
olhos verdes cintilavam.
— Diga alguma coisa — comentou ela, sorrindo.
— Você está um arraso, Debbie — foi tudo o que ele pôde dizer, enquanto
lhe entregava as rosas.
— Mas que gentileza a sua — respondeu ela, e convidou-o para entrar.
Michael acompanhou-a até a cozinha, onde ela cortou os caules longos das
flores e arranjou-as num vaso de porcelana. Conduziu-o depois à sala de estar,
onde colocou o vaso de flores sobre uma mesa oval, ao lado de uma fotografia
de dois meninos pequenos.
— Temos tempo para tomar um drinque?
— Claro. Reservei uma mesa no Elaine's para as oito e meia.
— Meu restaurante favorito — disse ela, com um sorriso que desenhou uma
covinha no rosto. Sem perguntar nada, Debbie serviu dois uísques e entregou um
copo a Michael.
Ela tem boa memória, pensou ele, enquanto pegava e largava o copo
nervosamente, como um adolescente enfrentando o primeiro encontro amoroso.
Quando finalmente Michael terminou de tomar o drinque, Debbie achou que
estava na hora de sair.
— O Elaine's não reservaria uma mesa nem por um minuto a mais, mesmo
que você fosse Henry Kissinger.
Michael riu e ajudou-a a vestir o casaco. Quando ela abriu a porta, ele se deu
conta de que não havia babá ou barulho de crianças. Devem estar com o pai,
pensou. Já na rua, ele parou um táxi e pediu ao motorista que os levasse à
esquina da 87th com a 2nd. Michael nunca estivera antes no Elaine's. Quem lhe
recomendara o restaurante fora um colega da ABC, que lhe garantiu: “Indo a
esse restaurante, você já terá meio caminho andado”.
Entraram no salão lotado e, enquanto esperavam o maître junto ao bar,
Michael percebeu que aquele era um lugar frequentado por ricos e famosos;
pensou se teria fundos para arcar com as despesas e, o que era mais importante,
se esse investimento se revelaria compensador.
Um garçom conduziu-os a uma pequena mesa no fundo do salão, onde os
dois tomaram outro uísque enquanto estudavam o cardápio. Quando o garçom
voltou para tomar nota dos pedidos, Debbie dispensou o primeiro prato, ficando
apenas com a vitela piccate, e Michael fez o mesmo pedido para si. Ela recusou
a manteiga de alho adicional. Michael concedeu-se apenas uma leve alta em suas
expectativas.
— Como vai Adrian? — perguntou ela.
— Oh, na medida do possível, vai bem — respondeu Michael. — Mandou-
lhe lembranças, naturalmente. — Deu destaque à palavra lembranças.
— Foi muito gentil em lembrar-se de mim. Mande-lhe também lembranças
minhas. Mas o que o trouxe de volta a Nova Iorque, Michael? Outro filme?
— Não. Nova Iorque pode até ter se tomado a escala obrigatória de muita
gente, mas desta vez vim apenas para vê-la.
— Para ver-me?
— Sim, eu tinha de editar um tape lá em Washington, mas, sabendo que
poderia terminar o trabalho à hora do almoço de hoje, eu estava torcendo que
você estivesse livre para sairmos Juntos à noite.
— Sinto-me lisonjeada.
— Pois não deveria.
Ela sorriu. A vitela chegou.
— A aparência está boa — comentou Michael.
— O sabor também — disse Debbie. — Quando volta para Londres?
— Amanhã de manhã, acho que no voo das onze.
— Não está com tempo para fazer muita coisa em Nova Iorque.
— Vim apenas para vê-la — repetiu Michael. Debbie continuou comendo
sua vitela. — Como é que foram se divorciar de você, Debbie?
— Oh, nada de original. Ele se apaixonou por uma loura de 22 anos e deixou
sua esposa de 32.
— Que estúpido! Ele bem que poderia ter tido um caso com a loura de 22 e
continuar fiel à esposa de 32.
— Isso não é uma contradição em termos?
— Oh, não, penso que não. Nunca achei anormal desejar outra pessoa.
Afinal, a vida é longa demais para que se espere de alguém que nunca deseje
outra mulher.
— Não sei se concordo com você — disse Debbie pensativa. — Eu gostaria
de ter podido continuar fiel a um só homem.
Oh, diabos, pensou Michael, eis aí minha filosofia nada animadora.
— Sente saudade dele? — tentou mais uma vez.
— Sim, às vezes. É verdade o que se fala nas revistas sobre a meia-idade: o
ser humano pode sentir-se muito solitário quando de repente se vê sozinho.
Isso já está melhor, pensou Michael, e deixou escapar;
— Sim, eu compreendo essas coisas, mas uma mulher como você não era
para continuar sozinha tanto tempo.
Debbie não respondeu.
Michael tomou a encher-lhe o copo de vinho quase até a borda, pensando em
pedir a segunda garrafa antes que ela terminasse a vitela.
— Michael, está querendo me deixar bêbada?
— Se você acha que isso pode ajudar... — respondeu ele, rindo.
Debbie não riu. Michael tentou de novo.
— Tem ido ao teatro ultimamente?
— Sim. Na semana passada fui ver Evita. Adorei. — Quem a terá
acompanhado?, pensou Michael. — Mas mamãe dormiu no meio do segundo
ato. Acho que vou assisti-la sozinha pela segunda vez.
— Eu gostaria de poder ficar mais tempo aqui para levá-la.
— Seria um prazer — disse ela.
— Mas terei de me contentar em assistir à peça em Londres.
— Com sua mulher.
— Garçom, por favor, outra garrafa de vinho.
— Para mim basta, Michael, falando sério.
— Bom, você pode me ajudar tomando só um pouquinho. — O garçom
desapareceu. — Já esteve na Inglaterra sozinha? — perguntou Michael.
— Não, só uma vez, quando Roger, meu ex, levou toda a família. Amo
aquele país. Ele correspondeu a todas as minhas expectativas, mas acredito que
tenhamos feito apenas o que se espera dos americanos. Visitamos a Torre de
Londres, o Palácio de Buckingham, e depois, antes de irmos para Paris,
passamos por Oxford e Stratford.
— Uma maneira abominável de se conhecer a Inglaterra. Eu poderia ter-lhe
mostrado muitas outras coisas.
— Suponho que quando vêm aos Estados Unidos os ingleses não conhecem
muito além de Nova Iorque, Washington, Los Angeles e talvez São Francisco.
— Concordo — disse Michael, não querendo contradizê-la. O garçom tirou
os pratos.
— Posso seduzi-la com uma sobremesa, Debbie?
— Não, não, estou tentando perder alguns quilinhos.
Michael passou delicadamente o braço em torno da cintura dela.
— Esqueça — fez ele. — Você está ótima.
Ela riu. Ele sorriu.
— Mesmo assim aceito só um cafezinho, por favor.
— Um conhaque?
— Não, obrigada, só café.
— Preto?
— Preto.
— Dois cafés, por favor — disse Michael ao irrequieto garçom.
— Eu gostaria de tê-la levado a um lugar mais calmo e menos badalado —
comentou ele, voltando-se para Debbie.
— Por quê?
Michael pegou-lhe a mão. Estava fria.
— Por que queria dizer-lhe coisas com a certeza de que ninguém ouviria.
— Michael, não acho que ninguém fica chocado com o que ouve por acaso
aqui no Elaine's.
— Pois então, muito bem. Você acredita em amor à primeira vista?
— Não, mas acredito que uma pessoa possa sentir-se atraída fisicamente por
outra ao encontrarem-se pela primeira vez.
— Bom, devo confessar que fiquei atraído por você.
Mais uma vez ela nada comentou.
O café chegou e Debbie tirou a mão para pegar a xícara. Michael também
tomou um gole.
— Na noite em que nos conhecemos, Debbie, havia cento e cinquenta
mulheres naquele salão, mas não consegui tirar os olhos de você.
— Nem durante o filme?
— Eu tinha assistido àquela droga uma centena de vezes. Mas você eu
poderia não ver nunca mais.
— Isso me emociona.
— E por quê? Provavelmente isso lhe acontece muito.
— De vez em quando — disse ela. — Mas nunca levei ninguém a sério
desde que o meu marido me deixou.
— Desculpe-me.
— Não é nada. É que não é tão fácil assim esquecer uma pessoa com quem
se viveu durante dez anos. Duvido que a maioria das divorciadas esteja
realmente disposta a ir para a cama com o primeiro homem que aparece, como
sugerem os filmes que andam fazendo ultimamente.
Michael tomou-lhe de novo a mão, desejando ardentemente não ser
enquadrado naquela categoria.
— Está uma noite muito gostosa. Por que não vamos caminhando até o
Carlyle para ouvir o Bobby Short? — O amigo da ABC lhe fizera essa
recomendação para o caso de ele ainda ter alguma chance.
— Sim, acho ótimo — disse Debbie.
Michael pediu a nota — oitenta e sete dólares. Se estivesse com sua mulher
ele teria conferido meticulosamente item por item, mas naquela ocasião não foi o
que fez. Deixou simplesmente cinco notas de vinte dólares no pires e não
esperou o troco. Ao saírem na 2ª Avenida, pegou na mão de Debbie e juntos
começaram a caminhar em direção ao centro. Na Avenida Madison detiveram-se
diante das vitrinas das lojas e ele lhe comprou um casaco de peles, um relógio
Cartier e um vestido de Balenciaga. Debbie achou que era uma sorte todas as
lojas estarem fechadas.

Chegaram ao Carlyle a tempo do show das onze. Um garçom, com uma


caneta-lanterna, guiou-os pelo pequeno salão imerso na penumbra, no andar
térreo, até uma mesa de canto. Michael pediu uma garrafa de champanhe no
momento em que Bobby Short deu um acorde e arrastou as palavras do verso
“Georgia, Georgia, oh, my sweet... Impossibilitado de falar com Debbie em meio
ao som ruidoso da banda, Michael contentou-se em segurar-lhe a mão. Quando o
cantor entoou “This time we almost made the pieces fit, didn't we, gal?”, ele
curvou-se para frente e beijou-a no rosto. Ela olhou para ele sorrindo — um
sorriso levemente cúmplice, pensou ele, ou estou apenas projetando meu desejo?
—, e tomou em seguida um gole de champanhe. Quando deu meia-noite, Bobby
Short baixou a tampa do piano e disse: “Boa-noite, meus amigos. Chegou a hora
dos bem-comportados irem para a cama... e os travessos também”. Michael riu
um pouco alto demais, mas ficou feliz por ver Debbie fazer o mesmo.
Caminharam calmamente pela Avenida Madison até 68th Street,
conversando despreocupadamente sem se deter em nenhum assunto especial,
enquanto os pensamentos de Michael fixavam-se num único assunto especial.
Ao chegarem ao apartamento de 68th Street, ela pegou as chaves.
— Gostaria de beber alguma coisa antes de dormir? — perguntou ela sem
nada sugerir no tom de voz.
— Não vou beber mais nada, Debbie, obrigado. Mas é claro que apreciaria
um café.
Ela o conduziu à sala de estar.
— As flores até que sobreviveram bem — brincou ela, deixando-o sozinho
para ir fazer o café. Michael entreteve-se folheando um velho exemplar da
revista Time, olhando as fotografias sem dar atenção ao texto. Passados alguns
minutos, ela voltou trazendo um bule de café e duas xicarazinhas numa bandeja
laqueada. Serviu o café, de novo preto, e sentou-se no sofá perto de Michael,
dobrando uma perna sob o corpo, ligeiramente voltado para ele. Michael tomou
o café em dois goles, queimando ligeiramente a boca. Depôs a xícara, inclinou-
se e beijou-a na boca. Ela abriu um pouco os olhos enquanto procurava assentar
sua xícara na mesa ao lado do sofá. Após outro beijo prolongado, ela afastou-se
dele.
— Tenho que acordar bem cedo amanhã.
— Eu também — disse Michael — mas a minha preocupação maior é não
poder voltar a vê-la durante muito tempo.
— Achou uma coisa bonita para me dizer — comentou Debbie.
— Não, eu realmente disse o que sinto — falou ele, e beijou-a de novo.
Desta vez ela correspondeu. Ele deslizou-lhe uma mão sobre o seio ao
mesmo tempo que a outra começava a abrir a fileira de botõezinhos nas costas de
seu vestido. Ela afastou-se novamente.
— Não vamos fazer nada de que possamos nos arrepender.
— Sei que não vamos nos arrepender — disse Michael.
Ele então a beijou no pescoço e nos ombros, baixando-lhe o vestido
enquanto descia habilmente até o seio; ficou contente ao descobrir que ela não
usava sutiã.
— Vamos subir, Debbie? Estou velho demais para fazer amor no sofá.
Ela levantou-se em silêncio e, pegando-o pela mão, levou-o até seu quarto,
impregnado do aroma leve e delicioso do perfume que ela usava.
Debbie acendeu a pequena lâmpada na cabeceira da cama e tirou o resto da
roupa, deixando-a ficar onde caíra. Michael não tirou os olhos de seu corpo, ao
despir-se desajeitadamente do outro lado da cama. Enfiou-se debaixo dos lençóis
e chegou-se a ela sem perda de tempo. Quando terminaram de fazer amor, com
um prazer que Michael não experimentava havia muito tempo, ele permaneceu
deitado, ruminando o fato de ela ter cedido totalmente, em especial num
primeiro encontro.
Abraçados, ficaram em silêncio antes de se amarem pela segunda vez, tão
boa quanto a primeira. Michael mergulhou num sono profundo.

Acordou na manhã seguinte e fitou a bela mulher que estava deitada ao seu
lado. O relógio digital sobre o criado-mudo marcava sete horas e três minutos.
Ele beijou-lhe levemente a testa e começou a acariciar-lhe o cabelo. Ela
despertou preguiçosamente e sorriu para ele. Amaram-se, lenta e ternamente,
com o mesmo prazer da noite anterior. Michael nada disse quando ela se
levantou da cama e foi preparar-lhe o banho antes de ir para a cozinha fazer o
café. Relaxou o corpo sob a água quente, cantando, a plenos pulmões, uma
canção de Bobby Short. Como gostaria que Adrian o visse naquele momento!...
Enxugou-se, vestiu-se e foi ter com Debbie na cozinha pequena mas bem
equipada, onde tomaram juntos o café da manhã — ovos, bacon, torradas, geleia
de laranja inglesa e um café preto bem quente. Debbie subiu para tomar um
banho e vestir-se, enquanto Michael ficou na sala de estar lendo o New York
Times. Quando ela reapareceu, num elegante vestido coral, ele lamentou ter de
partir tão cedo.
— Precisamos ir agora, senão você perderá o avião.
Michael levantou-se relutante e Debbie levou-o de volta ao hotel, onde ele
rapidamente jogou as roupas dentro da mala, fechou a conta do quarto com a
supérflua cama de casal e voltou para o carro dela. No trajeto até o aeroporto,
conversaram sobre as próximas eleições e torta de abóbora moranga, como se
fossem casados há muitos anos ou como se a noite anterior jamais tivesse
existido.
Debbie deixou Michael na frente do edifício da Pan Am e, depois de pôr o
carro no estacionamento, reencontrou-se com ele no balcão de registro de
chegada. Esperaram a chamada do voo.
“A Pan American anuncia a partida do voo número 006 com desembarque no
aeroporto de Heathrow, Londres. Senhores passageiros, queiram dirigir-se com
seus passaportes ao Portão Nove.”
Quando chegaram ao portão que só podia ser transposto pelos passageiros,
Michael tomou Debbie em seus braços por um momento.
— Obrigado por esta noite inesquecível — disse.
— Quem deve agradecer sou eu, Michael — respondeu ela, beijando-o no
rosto.
— Confesso que não imaginei que fosse acabar assim — disse ele.
— E por que não? — perguntou ela.
— Não é fácil explicar — respondeu, procurando palavras que elogiassem e
não embaraçassem. — Digamos que eu estava surpreso por...
— Estava surpreso porque dormimos juntos na primeira noite? Não era para
estar.
— Não?
— Não. E a explicação é bem simples. Meus amigos me diziam, quando me
divorciei, que eu procurasse um homem com quem pudesse passar uma noite. A
ideia era divertida, mas eu não gostaria que os homens de Nova Iorque me
achassem fácil. — Ela tocou delicadamente a face dele. — Assim, quando
conheci você e Adrian, os dois vivendo na segura distância de mais de seis mil
quilômetros, pensei comigo: “O primeiro de vocês que voltar... ”

One-night stand
Quebra de rotina
Septimus Horatio Cornwallis não vivia de acordo com seu nome. Com um
nome como este, deveria ter sido ministro, almirante ou pelo menos deão de uma
paróquia rural. No entanto, Septimus Horatio Cornwallis era analista de
ocorrências na sede da Prudential Assurance Company Limited, 172 Holborn
Bars, Londres EC 1.
O nome de Septimus era de responsabilidade do pai, que conhecera Nelson
brevemente, da mãe, que era supersticiosa, e do tataravô, que, segundo se
afirmava, fora primo de segundo grau do ilustre governador-geral da índia. Ao
deixar a escola, Septimus — um jovem franzino, anêmico e prematuramente
calvo — entrou na Prudential Assurance Company, seguindo os conselhos de seu
orientador profissional, para quem era este o começo ideal para um jovem com o
seu potencial. Algum tempo depois, quando Septimus se lembrava dessa
orientação, ficava aborrecido, porque até ele mesmo já percebera que não tinha
qualquer potencial. Apesar disso, ao longo dos anos Septimus progrediu
lentamente de office-boy para analista de ocorrências (não exatamente galgando
os degraus, mas estacando em cada um deles por um bom tempo), o que lhe deu
o pomposo título de gerente adjunto (seção de sinistros).
Septimus passava o dia num cubículo de vidro no sexto andar, analisando
ocorrências e liberando os pagamentos até um milhão de libras. Achava que se
trabalhasse honestamente (uma das expressões prediletas de Septimus) poderia
tornar-se, após outros vinte anos, um chefe (seção de sinistros), alojar-se entre,
paredes opacas e pisar num tapete diferente daquele composto de quadradinhos
em tons quase iguais de verde. Poderia até tornar-se o autor de uma daquelas
assinaturas que endossavam os cheques de um milhão de libras.
Septimus residia em Sevenoaks com sua esposa. Norma, e os dois filhos,
Winston e Elizabeth, que frequentavam uma escola técnica de nível médio. Ele
teria preferido colocá-los num liceu, conforme costumava dizer aos colegas, se o
governo trabalhista não houvesse acabado com eles.
Septimus dividia sua vida diária num conjunto de sub-rotinas invariáveis,
como um microcomputador, pois se acreditava um grande cultor da tradição e da
disciplina. Se não era nada, pelo menos era uma criatura de hábitos sólidos. Se,
por alguma razão inexplicável, a KGB quisesse eliminar Septimus, bastaria
vigiá-lo durante sete dias para conhecer cada um de seus movimentos ao longo
de todo um ano de trabalho.
Septimus levantava-se todas as manhãs às sete e quinze e vestia um dos seus
dois ternos de tweed. Saía de sua casa na 47 Palmerston Drive às sete e
cinquenta e cinco, depois do café da manhã de sempre, composto de um ovo
malcozido, duas fatias de torrada e duas xícaras de chá. Ao chegar à Plataforma
1 da estação de Sevenoaks, comprava um exemplar do Daily Express antes de
embarcar no trem das oito e vinte e sete que o levava a Cannon Street. Durante o
trajeto, Septimus lia o jornal e fumava dois cigarros, chegando em Cannon Street
às nove e sete. Caminhava então até o escritório e às nove e meia estava sentado
à sua escrivaninha no cubículo de vidro no sexto andar, examinando a primeira
ocorrência que exigisse verificação. Fazia um intervalo para o cafezinho às onze,
permitindo-se o luxo de fumar mais dois cigarros, enquanto, como de costume,
brindava seus colegas com as previsíveis proezas dos filhos. Às onze e quinze
voltava ao trabalho.
À uma hora deixava a Grande Catedral Gótica (outra de suas expressões) por
uma hora, que passava num bar chamado o “Havelock”. onde tomava um caneco
de Carlsberg amarga com uma gotinha de lima e almoçava o prato do dia.
Depois disso, fumava novamente dois cigarros. À uma e cinquenta e cinco,
voltava aos arquivos do seguro até o intervalo de quinze minutos para o chá, às
quatro horas, uma outra oportunidade ritual para mais dois cigarros. Às cinco e
meia em ponto, Septimus pegava o guarda-chuva, a pasta reforçada com aço e
com as iniciais S.H.C. em prata afixadas na lateral e ia embora, depois de trancar
com duas voltas de chave seu cubículo de vidro. Enquanto percorria a seção de
datilografia, despedia-se com uma cortesia mecânica:
— Até amanhã à mesma hora, garotas.
Cantarolava alguns compassos de The Sound of Music dentro do elevador
que o levava ao térreo e engrossava a torrente de trabalhadores que se
comprimiam pelo High Holborn. Dava largas e enérgicas passadas em direção à
estação de Cannon Street, batendo a ponta do guarda-chuva na calçada,
esbarrando em banqueiros, armadores, diretores de companhias de petróleo e
corretores, sentindo-se satisfeito por fazer parte da grande City de Londres.
Ao chegar à estação, Septimus comprava um exemplar do Evening Standard
e um maço de dez cigarros Benson & Hedges na banca de livros do Smith,
colocando-os sobre os documentos da Prudential que trazia na pasta. Entrava no
quarto carro do trem na Plataforma 5, às cinco e cinquenta e cinco, e garantia seu
banco predileto à janela num compartimento fechado voltado para a locomotiva,
do lado do cavalheiro calvo com seu inevitável Financial Times e em frente à
bem vestida secretária que lia longos folhetins românticos até alguma estação
bem além de Sevenoaks. Antes de sentar-se, tirava da pasta o Evening Standard
e o novo maço de Benson & Hedges, punha-os sobre o braço do banco e
colocava a pasta e o guarda-chuva fechado sobre o bagageiro acima de sua
cabeça. Uma vez acomodado, abria o maço de cigarros e fumava o primeiro dos
dois reservados para o trajeto, enquanto lia o Evening Standard. Com isto
restavam-lhe oito para fumar antes de tomar o trem das cinco e meia, na tarde
seguinte.
Quando o trem entrava na estação de Sevenoaks, ele murmurava um boa-
noite aos passageiros conhecidos (a única palavra que pronunciava durante todo
o trajeto) e descia, dirigindo-se para a casa geminada de 47 Palmerston Drive e
chegando à porta pouco antes das seis e quarenta e cinco. Entre seis e quarenta e
cinco e sete e meia, ele ou terminava de ler o jornal ou verificava a lição de casa
dos filhos, dizendo um “ora bolas” quando detectava algum erro ou suspirando
quando se sentia incapaz de resolver os problemas de matemática moderna. Às
sete e meia, a “boa cara-metade” (outra de suas expressões prediletas) colocava à
sua frente, na mesa da cozinha, o prato do dia extraído do Woman's Own ou o
seu jantar favorito, de três filés de peixe dispostos em forma de dedo, ervilha e
batata frita. Ele então comentava; “Se Deus quisesse que os peixes tivessem
dedos, Ele lhes teria dado mãos”. Ria, cobria o peixe com molho de tomate e
devorava a refeição ao som do relatório da esposa sobre os acontecimentos do
dia. Às nove, assistia ao grande noticiário da BBC 1 (jamais assistia à ITV) e às
dez e meia ia se deitar.
Esta rotina era adotada durante anos e anos, com intervalos apenas para as
férias, para as quais, evidentemente, Septimus também tinha uma rotina.
Alternadamente, passava um Natal com os pais de Norma em Watford e o outro
com sua irmã e o cunhado em Epson, enquanto que no verão, o ponto máximo
do ano, a família servia-se de um pacote de férias por duas semanas no Hotel
Olímpico, em Corfu.
Septimus não apenas apreciava seu estilo de vida como também se
desesperava quando, por alguma razão, sua rotina sofria uma pequena alteração.
Esta existência monótona, para ele, prometia durar até a morte, pois Septimus
não tinha aquele espírito que inspira os escritores em sagas de duzentas mil
palavras. Mas houve uma ocasião em que a rotina de Septimus não sofreu uma
mera alteração, mas foi, simplesmente, quebrada.
Certa noite, às cinco e vinte e sete, quando Septimus estava fechando a pasta
da última ocorrência do dia, seu superior imediato, o subgerente, chamou-o para
uma consulta. Por causa dessa flagrante falta de consideração, Septimus só pôde
deixar o escritório alguns minutos depois das seis. Embora todos já tivessem ido
embora na seção de datilografia, ele dirigiu às mesas vazias e às silenciosas
máquinas de escrever o seu invariável “Até amanhã à mesma hora, garotas”, e
cantarolou alguns compassos de Edelweiss enquanto descia de elevador. Assim
que pôs os pés fora da Grande Catedral Gótica, começou a chover. Com
relutância, Septimus desenrolou o seu guarda-chuva meticulosamente dobrado,
abriu-o, saiu desabalado pulando poças d'água, esperando ainda conseguir pegar
o trem das seis e trinta e dois. Ao chegar em Cannon Street, entrou na fila para
comprar o jornal e os cigarros, guardou-os na pasta e correu em direção à
Plataforma 5. Para aumentar ainda mais seu aborrecimento, o alto-falante
anunciou, em meio a pedidos formais de desculpas, que três trens já haviam sido
tirados de circulação naquela noite em virtude de um congestionamento da linha.
Septimus abriu seu caminho energicamente em meio àquela fervilhante
multidão de pessoas molhadas e conseguiu embarcar no sexto carro de um trem
extra. Estava lotado de pessoas que ele não conhecia e, o que era pior, com todos
os assentos já ocupados. O único lugar vago que encontrou para sentar situava-se
no meio do trem, de costas para a locomotiva. Jogou a pasta e o amarrotado
guarda-chuva sobre o bagageiro, espremeu-se no assento um tanto a contragosto
e passou os olhos pelo vagão. Não havia um só rosto familiar entre os seus seis
vizinhos. O banco à sua frente mal comportava uma mulher com seus três filhos,
enquanto um velhote dormia a sono solto à sua esquerda. À sua direita,
debruçado sobre a janela e olhando para fora, estava um jovem de cerca de vinte
anos.
Quando deitou os olhos pela primeira vez sobre o rapaz, Septimus não
acreditou no que viu. O jovem vestia uma jaqueta de couro preta e calças jeans
bem justas e assoviava. Seus cabelos pretos e empastados estavam penteados
para cima na frente e para baixo nos lados, e as duas únicas cores de seu traje
que combinavam eram a da jaqueta com a das unhas. Mas o que mais feriu a
natureza sensível de Septimus foi o slogan impresso nas tachas presas nas costas
da jaqueta: “Heil Hitler”, anunciava descaradamente sobre o símbolo nazista
pintado de branco. Como se isso não bastasse, abaixo da suástica cintilava em
ouro a palavra “Sifu”. Aonde ia parar aquele país? pensou Septimus. Era preciso
reconstituir o Serviço Nacional para delinquentes daquele naipe. O próprio
Septimus não fora aceito no Serviço Nacional por causa de seus pés chatos.
Resolvido a ignorar a criatura, Septimus pegou o maço de cigarros Benson &
Hedges que estava sobre o braço do banco ao seu lado, acendeu um e começou a
ler o Evening Standard. Recolocou então o maço sobre o braço do banco, como
sempre fazia, sabendo que fumaria outro antes de chegar à estação de
Sevenoaks. Quando finalmente o trem deixou Cannon Street, o rapaz de preto
virou-se para Septimus e, deitando-lhe um olhar feroz, pegou o maço de
cigarros, tirou um, acendeu-o e começou a dar baforadas. Septimus não pôde
acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Estava prestes a protestar quando
percebeu que naquele vagão não havia nenhum de seus conhecidos para apoiá-
lo. Refletiu sobre a situação por um momento e concluiu que a discrição era o
componente mais nobre da coragem. (Outra das expressões de Septimus.)

Quando o trem parou em Petts Wood, Septimus fechou o jornal, embora mal
tivesse conseguido ler uma palavra sequer, e, como quase sempre fazia, tirou o
segundo cigarro. Acendeu-o, deu uma tragada e estava prestes a reabrir o
Evening Standard quando o jovem o agarrou por uma ponta e cada um acabou
ficando com metade do jornal. Desta vez Septimus passeou os olhos pelo carro
em busca de apoio. As crianças à sua frente começaram a rir disfarçadamente,
enquanto a mãe se empenhava em fazê-las desviar os olhos da cena,
evidentemente para evitar se envolver; o velho à esquerda de Septimus agora
roncava. Septimus estava a ponto de salvar o maço de cigarros, colocando-o no
bolso, quando o jovem apoderou-se dele, tirou outro cigarro, acendeu-o, tragou-o
profundamente e soprou a fumaça propositalmente contra o rosto de Septimus,
antes de recolocar o maço sobre o braço do banco. Q olhar furioso de Septimus
expressou todo o ódio capaz de atravessar o halo cinzento. Rangendo os dentes
de raiva, retornou ao Evening Standard, apenas para constatar que ficara com os
classificados de empregos, carros usados e as seções de esporte, assuntos pelos
quais não tinha o menor interesse. A única compensação, contudo, era saber com
certeza que detinha a única seção que o marginal realmente queria, a de esportes.
Septimus, em todo caso, foi incapaz de ler o jornal, pois tremia em consequência
dos abusos sofridos.
Aplicava-se agora em planejar uma vingança, e não tardou a arquitetar um
plano com o qual, tinha certeza, convenceria o jovem de que a prática da virtude
pode valer mais do que sua própria recompensa (uma variação de uma das frases
de Septimus). Sorrindo levemente, ele tirou um terceiro cigarro e, quebrando sua
rotina, recolocou desafiadoramente o maço sobre o braço do banco. O rapaz
apagou seu cigarro e, aceitando o desafio, apossou-se do maço, tirou outro
cigarro e o acendeu. De modo algum Septimus estava derrotado; deu algumas
rápidas tragadas no cigarro, apagou-o — metade sem fumar —, tirou um quarto
e acendeu-o imediatamente. A corrida tinha de se acirrar ao máximo, pois agora
restavam apenas dois cigarros. Mas Septimus, não obstante a quantidade de
tragadas e de tosses, conseguiu terminar o quarto cigarro antes do rapaz.
Inclinou-se sobre o rapaz de jaqueta preta e apagou-o no cinzeiro da janela. O
carro, àquela altura, já estava impregnado de fumaça, mas o rapaz continuava
puxando suas tragadas o mais rápido que podia. As crianças em frente tossiam e
a mulher abanava, agitando os braços para cima e para baixo. Sem levá-la em
conta, Septimus manteve os olhos sobre o maço de cigarros, ao mesmo tempo
que fingia ler sobre as chances do Arsenal no campeonato da federação de
futebol.
Septimus lembrou-se então da máxima de Montgomery, segundo a qual a
surpresa e a escolha do momento são, em última análise, as armas da vitória.
Quando o jovem terminou o quarto cigarro e o apagou, o trem entrava
vagarosamente na estação de Sevenoaks. A mão do rapaz já estava no ar, mas
Septimus agiu com mais rapidez. Previra o gesto seguinte do inimigo e agora
apoderava-se do maço de cigarros. Depois de tirar o nono cigarro, colocou-o
entre os lábios, acendeu lenta e pomposamente e tragou o mais profundamente
que pôde antes de atirar a fumaça contra o rosto do inimigo. O jovem olhou-o
assombrado. Septimus então tirou o último cigarro do maço e desfez o fumo
esmagando-o entre o indicador e o polegar, deixando os pequenos flocos caírem
de novo dentro do maço vazio. Em seguida fechou meticulosamente o maço e,
num gesto vigoroso, recolocou a embalagem dourada sobre o braço do banco.
Em seguida, sem deixar ao adversário tempo para tomar fôlego, pegou de seu
banco vazio as seções de esportes do Evening Standard, rasgou o jornal ao meio,
em quartos, em oitavos e finalmente em dezesseis partes e empilhou os
minúsculos pedaços no colo do rapaz, formando uma pilha bem arrumada.
O trem parou em Sevenoaks. Um vitorioso Septimus, depois de ter
desfechado seu último golpe contra a maioria silenciosa, retirou o guarda-chuva
e a pasta do bagageiro e virou-se para sair.
Ao apanhar a pasta, esta chocou-se com o braço do banco à sua frente e a
tampa se abriu, mostrando a todos os passageiros tudo o que continha. Ali, sobre
os documentos da Prudential, achava-se um cuidadosamente dobrado exemplar
do Evening Standard e um maço ainda fechado de dez cigarros Benson &
Hedges.

Broken routine
O contratempo de Henry
Quando lhe nasceu o primeiro filho homem em 1900 (tivera antes doze filhas
com seis esposas), o Grande Paxá batizou-o de Henry, em memória de seu
amado rei da Inglaterra. Henry veio ao mundo já provido de muito mais dinheiro
do que mesmo um fanático coletor poderia sonhar e, assim, estava destinado a
viver uma vida de ócio e conforto.
O Grande Paxá, que imperava sobre dez mil famílias, defendia a opinião de
que um dia restariam apenas cinco reis em todo o mundo: o rei de espadas, o de
copas, o de ouros, o de paus e o da Inglaterra. Com base nessa convicção,
decidiu que Henry receberia uma educação à inglesa. O menino teve então de,
aos oito anos, abandonar o Cairo para começar sua educação formal,
suficientemente jovem para que retivesse apenas vagas lembranças do ruído, do
calor e da imundície de sua terra de origem. Henry começou a nova vida na
Escola Dragon, que, como asseguravam os conselheiros ao Grande Paxá, era o
melhor curso preparatório da Inglaterra. Quatro anos mais tarde, ao deixar
Dragon, havia desenvolvido entusiástica paixão pelo campo de polo e profunda
aversão pela sala de aula. Reunindo então o mínimo dos requisitos acadêmicos,
entrou no Eton, que, como asseguravam os conselheiros de seu pai, era o melhor
colégio da Europa. O Paxá estava feliz de saber que a escola fora fundada pelo
seu venerado rei. Lá Henry viveu cinco anos, acrescentando squash, golfe e tênis
às suas paixões, além de adicionar a matemática, o jazz e corridas pelos campos
às suas aversões.
Ao longo de sua estada em Eton, também só conseguiu impressionar seus
professores o suficiente para ser aprovado. Contudo, foi-lhe garantida uma vaga
na Universidade de Balliol, em Oxford, que, como asseguravam os conselheiros
ao Paxá, estava entre as maiores do mundo. Três anos na Balliol somaram outras
duas paixões à sua vida: os cavalos e as mulheres, e mais três aversões
irredutíveis: política, filosofia e economia.
Ao final de seu período statu pupillari, não sendo capaz de causar a mais
leve impressão nos examinadores, Henry ficou sem diploma. O pai, porém,
considerando os dois gols que Henry fizera contra Cambridge, na competição de
polo, um resultado plenamente satisfatório enviou o rapaz numa viagem pelo
mundo afora, para que ele pudesse completar sua instrução. Henry apreciou a
experiência, pois aprendeu mais sobre hipódromo em Longchamps e nas ruelas
de Bengazi do que ao longo de toda sua educação formal na Inglaterra.
Seu pai certamente teria se orgulhado do jovem alto, requintado e simpático
que retornou à Inglaterra um ano depois revelando apenas um levíssimo vestígio
de sotaque estrangeiro. O Grande Paxá, porém, morrera antes do adorado filho
chegar a Southampton. Henry, sem dúvida de coração partido, não estava
quebrado. O pai lhe deixara cerca de vinte milhões em bens, incluindo um
plantei de cavalos em Suffolk, um iate de cem pés em Nice e um palácio no
Cairo. Mas, decididamente, a parcela mais importante do legado era constituída
pelo refinado criado de Londres, um certo Godfrey Barker. Barker era capaz de
organizar ou dissolver qualquer coisa num abrir e fechar de olhos.
Henry, na ausência de coisa melhor para fazer, hospedou-se na velha suíte de
seu pai no Ritz, sem, é claro, preocupar-se em ler a seção de “precisa-se” do
London Times. Ao contrário, deu início a uma vida voltada exclusivamente à
procura do prazer, a única carreira para a qual Eton, Oxford e a herança tinham-
no preparado adequadamente. A bem da justiça, Henry possuía, a despeito da
generosa ajuda do charme e da boa figura, bastante senso para escolher as
pessoas que poderiam ganhar o privilégio de desfrutar inesquecíveis momentos
em sua companhia. Selecionava-as apenas entre os velhos amigos de escola, os
quais, embora nem sempre fossem muito bem-educados, não eram do tipo que
viesse pedir emprestado para saldar dívidas de jogo.
Sempre que perguntado sobre o maior amor de sua vida, Henry hesitava
entre os cavalos e as mulheres, e, como era possível passar o dia com uns e a
noite com outras sem despertar ciúmes ou recriminações, nunca exigiu de si
mesmo a resolução do dilema. Muitos de seus cavalos eram garanhões velozes,
lisos, de pele aveludada, com olhos negros e membros rijos; tal descrição caberia
perfeitamente à maior parte de suas mulheres, só que estas, é claro, eram
potrancas. Henry apaixonava-se e desapaixonava-se por todas as coristas do
London Palladium e, quando seus casos chegavam ao fim, Barker providenciava
para que elas recebessem uma lembrancinha conveniente, afastando a
possibilidade de escândalos. Henry também, antes de completar 35 anos, pôde
ganhar muitas das corridas clássicas do turfe inglês, e Barker sempre parecia
saber em quais delas deveria apostar nos cavalos do patrão.
Em pouco tempo a vida de Henry entrou numa rotina que poderia ser tudo
menos monótona. Passava um mês no Cairo fingindo cuidar de negócios; outros
três no Sul da França, ao fim dos quais costumava fazer uma excursão a Biarritz;
o restante do ano permanecia no Ritz. Quando se ausentava de Londres, a
magnífica suíte com balcão sobre o Parque de Saint James ficava desocupada.
Não se sabe se ele a deixava vazia porque não tolerava a ideia de pessoas
desconhecidas mergulhando na sua banheira de mármore ou se simplesmente
detestava as minudências do registro de entrada e saída no hotel, duas vezes por
ano. A gerência do Ritz jamais fizera comentários quando seu pai a usava; por
que faria agora ao filho? Este plano de vida orientava todos os dias dos anos de
Henry, exceto quando de uma brusca viagem a Paris, sempre que uma garota
parecia estar com muita pressa de aproximar-se do altar. Embora quase todas as
mulheres que conheceram o valor da herança de Henry quisessem desposá-lo, a
verdade é que boa parte delas o teria feito mesmo que ele fosse pobre. Contudo,
Henry não conseguia ver nenhuma razão para manter-se fiel a uma única mulher.
“Tenho uma centena de cavalos e uma centena de amigos”, explicava. “Por que
limitaria minha vida a uma mulher?” Difícil oferecer resposta imediata à lógica
de Henry.

A história de Henry teria terminado aqui caso continuasse a levar a vida que
o destino parecia lhe reservar. Mas até os Henrys do nosso mundo têm de sofrer
o seu primeiro contratempo.
Henry havia adquirido o hábito de nunca fazer planos antecipados, pois que a
experiência — e o seu competente criado, Barker — sempre o incentivara a crer
que uma vasta fortuna tudo poderia comprar, a qualquer momento. Ainda assim,
nem o próprio Barker pôde elaborar um plano de emergência para prever as
consequências do anúncio feito pelo Sr. Chamberlain. no dia 3 de setembro de
1939; o povo inglês estava em guerra com os alemães. Henry achou que
Chamberlain fora precipitado em logo declarar guerra após Wimbledon e Oaks. e
ainda mais precipitadas foram as autoridades do Ministério do Interior ao
determinar, poucos meses depois, que Barker deixasse de servi-lo para servir à
Sua Majestade, por tempo indeterminado.
O que o pobre Henry podia fazer? Agora, aos quarenta anos, não poderia se
acostumar a viver em nenhum outro lugar além do Ritz, e os alemães, que
provocaram a neutralização de Wimbledon, ocupavam também o George V, em
Paris, e o Negresco, em Nice. À medida que as semanas passavam e uma
invasão parecia mais certa, Henry acabou concluindo, a contragosto, que era
forçoso retornar ao neutro Cairo e lá aborrecer-se um pouco até que os ingleses
batessem os alemães. Nunca passara pela sua cabeça, nem mesmo por um
milionésimo de segundo, que os ingleses pudessem perder a guerra. Afinal, se
haviam saído vitoriosos na Primeira Guerra Mundial, como poderiam perder na
Segunda? “A história se repete” — era o único axioma do qual se lembrava de
seus três anos de Oxford.
Henry chamou o gerente do Ritz e disse-lhe que a suíte deveria permanecer
desocupada até sua volta. Pagou um ano adiantado, o que, esperava, era mais do
que suficiente para se dar cabo de gente arrogante como Herr Hitler, e partiu
para o Cairo. Mais tarde o gerente teria observado que a partida do Grande Paxá
para o Egito era tristemente simbólica; ele era, afinal, o mais britânico dos
britânicos.
Henry teve de viver um ano em seu palácio do Cairo, antes de concluir que
não poderia mais conviver entre seus conterrâneos; transferiu-se, pois, para Nova
Iorque apenas pouco tempo antes de ter de se ver face a face com Rommel. Em
Nova Iorque, Henry instalou-se no Pierre Hotel, na 5.ª Avenida, escolheu um
criado americano de nome Eugene e ficou à espera de que o Sr. Churchill
pusesse fim à guerra. De lá, como que para demonstrar seu sólido apoio aos
ingleses, a cada l° de janeiro enviava um cheque ao Ritz para cobrir os custos
com a reserva de seus aposentos.
Depois de comemorar o dia da vitória em Times Square com um milhão de
americanos, Henry pôs-se a fazer planos de imediato retorno à Inglaterra. Ficou
surpreso e até desapontado quando a embaixada inglesa em Washington
informou-o de que deveria esperar ainda algum tempo para voltar ao seu amado
país e, não obstante as pressões contínuas e todas as influências que conseguiu
reunir, só subiu a bordo de um navio com destino a Southampton em julho de
1946. Do alto do convés de primeira classe, fez seu aceno de adeus à América do
Norte e a Eugene, já ansioso para reencontrar-se com a Inglaterra e Barker.
Assim que desembarcou em solo inglês, dirigiu-se diretamente para o Ritz,
onde encontrou seus aposentos exatamente como deixara. Pelo que pôde avaliar,
nada mudara, exceto pelo fato de que seu criado (agora mordomo de um general)
não seria desmobilizado antes de pelo menos seis meses. Henry sentiu-se
estimulado a fazer sua parte na recuperação do pós-guerra — sobreviver sem o
criado durante o semestre seguinte — ao lembrar-se das palavras de Barker:
“Todos sabem quem o senhor é. Nada será diferente”. Confiava em que tudo
sairia bem. E, de fato, no Bonheur-du-jour, em seu quarto do Ritz, havia um
convite para jantar, na noite seguinte, com Lorde e Lady Lympsham na mansão
deles de Chelsea Square. Parecia que as previsões de Barker estavam se
cumprindo: tudo continuaria o mesmo de sempre. Henry escreveu aceitando o
convite, feliz ao pensar que retomaria sua vida na Inglaterra exatamente do
ponto em que a deixara.
Tão feliz que, na noite seguinte, chegou à entrada do palácio de Chelsea
Square alguns minutos depois das oito horas. Os Lympsham, um velho casal
pouco preparado para encarar qualquer possibilidade de conflagração, logo
deram evidências de que nem sequer haviam notado que se havia travado uma
guerra ou que Henry estivera ausente da sociedade londrina. A mesa, mesmo
com o racionamento vigente, era uma das mais fartas de que Henry já havia visto
e, mais importante, um dos convidados era uma das mais distintas
personalidades que jamais havia visto. Seu nome, como Henry soube pelos
anfitriões, era Victoria Campbell, a filha de outro comensal, o General Sir Ralph
Colquhoun. Lady Lympsham confidenciou a Henry, enquanto saboreavam ovos
de codorna, que a pobrezinha perdera o marido quando os aliados avançaram
sobre Berlim, apenas alguns dias antes da rendição dos alemães. Foi nesse
momento que Henry sentiu-se, pela primeira vez, culpado por não ter
desempenhado nenhum papel na guerra.
Durante todo o jantar não conseguiu tirar os olhos da jovem Victoria, cuja
beleza clássica só era comparável à sua conversa bem informada e animada.
Henry receava que estivesse sendo muito indiscreto para com a jovem esguia, de
cabelos pretos e maçãs salientes; agia como se, de tanto admirar uma bela
escultura, desejasse tocá-la. Seu sorriso cativante arrancava sorrisos cúmplices
em todos que o recebiam. Henry esforçou-se ao máximo por se tornar também
um receptor e em vários momentos viu-se recompensado, já ciente de que, pela
primeira vez na vida, estava ficando perdidamente apaixonado — e com muita
alegria.
Os galanteios seguintes foram para Henry dos mais insólitos, pois nada fizera
de extraordinário no sentido de obter o interesse de Victoria. Sempre atencioso e
cortês, assim que a jovem despiu o luto, procurou seu pai para ?aber se poderia
pedir a mão de Victoria em casamento. Henry encheu-se de expectativa,
primeiro, quando o general concordou e depois, de felicidade, quando Victoria o
aceitou. Após uma participação no The Times, festejaram o noivado com um
jantar seleto no Ritz, que teve a presença de cento e vinte amigos íntimos. Cada
um deles seria perdoado por julgar que Attlee exagerara no seu programa de
austeridade econômica para o pós-guerra. Saído o último convidado, Henry
acompanhou Victoria à casa do pai em Belgrave Mews, e, no trajeto,
conversaram sobre os preparativos para o casamento e seus planos para a lua de
mel.
— Você merece que tudo saia perfeito, meu anjo — disse ele, admirando
mais uma vez a graça com que os longos cabelos pretos de Victoria caíam
ondeados sobre os ombros. — Casaremos na Saint Margaret de Westminster.
Uma recepção no Ritz e então iremos à Estação Victoria. Fred, o mais antigo dos
carregadores, estará esperando por você. Fred não permitirá que ninguém além
dele leve minhas malas até o último vagão do Golden Arrow. É importante subir
sempre no último vagão, minha querida — explicou Henry —, para evitar o
incômodo dos outros viajantes.
Victoria estava impressionada pela mestria de Henry em fazer preparativos,
principalmente agora com a ausência de Barker.
Henry falava com gosto sobre seu assunto predileto do momento.
— Assim que estivermos no Golden Arrow, vão lhe servir chá chinês e
sanduíches de salmão defumado cortado em fatias finas, Com eles vamos nos
deleitar descontraídos até chegarmos a Dover. No porto, Albert, que Fred já terá
avisado, estará esperando por você. Albert só' vai tirar a bagagem do nosso
vagão depois de todos terem deixado o trem. Depois, ele nos acompanha até o
navio. Lá tomamos xerez com o capitão enquanto estiverem colocando nossas
malas no camarote três. Eu, como papai, sempre reservo o camarote de número
três; além de ser o maior camarote particular e o mais confortável, é situado no
centro do navio. Assim sempre desfruto de uma agradável travessia, mesmo
quando tenho o azar de pegar mau tempo. E, quando chegarmos em Calais, você
encontrará Pierre esperando por nós. Ele terá organizado tudo para o primeiro
vagão do Flèche d'Or.
— Um roteiro como esse realmente exige um plano extremamente detalhado
— comentou Victoria, os olhos castanhos-claros brilhando enquanto ouvia o
futuro marido descrever a prometida excursão.
— Isso é mais tradição que organização, minha querida — respondeu Henry
com um sorriso, enquanto caminhavam de mãos dadas pelo Hyde Park. — Devo
confessar, porém, que Barker sempre se prevenia contra todo imprevisto
desfavorável. De qualquer modo, sempre usei o primeiro vagão do Flèche d'Or
porque isso me garante deixar a estação antes que percebam minha chegada a
Paris. A não ser Raymond, é claro.
— Raymond?
— Raymond é um criado par excellence que adorava papai; ele terá
providenciado uma garrafa de Veuve Cliquot 37 e um pouco de caviar para nós.
E também um sofá para o carro do trem, no caso de você precisar descansar, meu
bem.
— Acho que você pensou em tudo, meu querido Henry — disse ela, quando
se aproximavam de Belgrave Mews.
— Espero que sim, Victoria, pois quando chegarmos a Paris, que não tenho
visitado há tantos anos, haverá um Rolls-Royce estacionado junto ao vagão, de
portas abertas. Você entrará no carro e Maurice nos levará ao George V, sem
dúvida o melhor hotel da Europa. Louis, o gerente, estará na entrada para recebê-
la e nos guiará até a suíte nupcial, que tem uma espetacular vista para a cidade.
Uma criada desfará as malas, para que você possa tomar um banho e descansar
da viagem. Quando recomposta, jantaremos no Maxim's. Você será escoltada a
uma mesa de canto, longe da orquestra, por Marcel, o melhor maître do mundo.
Assim que você se acomodar, os músicos executarão A Room with a View, minha
música preferida, e então nos servirão a mais magnífica lagosta que você já
provou.
Henry e Victoria haviam chegado à entrada da pequena casa do general, em
Belgrave Mews. Ele lhe tomou a mão e continuou.
— Depois do jantar, minha querida, vamos passear por Madeleine, que eu
quero lhe comprar uma dúzia de rosas vermelhas de Paulette, a mais bela florista
de Paris. Ela é quase tão bonita quanto você. — Henry suspirou e concluiu: —
Depois voltamos ao George V e passaremos juntos a nossa primeira noite.
Os olhos castanho-claros de Victoria brilharam com encantada ansiedade.
— Eu só gostaria que tudo isso acontecesse amanhã — disse.
Henry beijou-a suavemente no rosto e disse;
— Valerá a pena esperar, querida. Asseguro que nós dois jamais
esqueceremos esse dia.
— Tenho certeza — respondeu Victoria, enquanto Henry lhe soltava a mão.
Na manhã do casamento, Henry saltou da cama, abriu energicamente as
cortinas e se deparou com uma garoa cerrada.
— Este chuvisco vai passar às onze horas — disse em voz alta, com grande
convicção. Depois, enquanto se barbeava lenta e cuidadosamente pegou-se
cantarolando cheio de um delicioso entusiasmo.

Ao meio-dia o tempo ainda não havia melhorado. Ao contrário, caía uma


chuva irritante quando Victoria entrou na igreja. O desapontamento que Henry
vinha acumulando diluiu-se de imediato quando avistou sua bela noiva; só
conseguia pensar no momento de chegar a Paris. Ao fim da cerimônia, o Grande
Paxá e esposa permaneceram ainda diante da igreja. Eram um casal radiante,
transbordando de felicidade diante dos fotógrafos dos jornais londrinos, e dos
fiéis convivas que lhes jogavam arroz umedecido. Tão logo foi possível, todos
tomaram o caminho do Ritz. Henry e a noiva procuraram conversar com cada
um dos convidados, e teriam partido bem mais cedo, se Victoria tivesse se
trocado com mais rapidez e se o brinde do general à felicidade do casal tivesse
sido mais breve. Os convidados amontoaram-se à saída do Ritz e invadiram a
calçada de Piccadilly para acenar seu adeus ao casal que partia protegido da
chuva por um vasto toldo vermelho.
O Rolls Royce do general levou o Grande Paxá e a esposa para a estação.
Depois de descer as malas, o motorista recebeu ordem de voltar ao Ritz, já que
Henry tinha, a partir de agora, tudo sob controle. Tocando o boné, o motorista os
saudou:
— Que o senhor e a senhora tenham uma boa viagem, senhor — e deixou-os
em seguida.
Henry sentiu-se perdido na estação, à espera de Fred. Não detectando o
menor sinal dele, decidiu interpelar um carregador.
— Onde está Fred? — perguntou.
— Fred de quê? — veio a resposta.
— Como é que posso saber?
— Então como é que eu vou saber? — devolveu o carregador.
Victoria estremeceu. Em seu projeto, as estações de trem inglesas nunca
levaram em consideração casacos de seda da última moda.
— Por gentileza, leve a minha bagagem para o último vagão do trem —
disse Henry.
O carregador contemplou relutante as catorze malas.
— Tudo bem — acabou, enfim, concordando.
Henry e Victoria aguardaram pacientemente no frio até que o carregador
acomodasse as malas no carrinho e o conduzisse ao longo da plataforma.
— Não se preocupe, querida — disse Henry. — Uma xícara de chá Lapsang
Souchong e alguns sanduíches de salmão defumado farão você se sentir outra.
— Estou bem — disse Victoria, sorridente, embora não tão encantadora
como de costume, passando o braço em torno da cintura do marido. Juntos
caminharam até o último vagão.
— Posso ver seus bilhetes, senhor? — pediu o chefe de trem, bloqueando a
porta do último vagão.
— Meus o quê? — fez Henry, acentuando de forma incomum o seu sotaque.
— Seus bi-lhe-tes — repetiu o guarda, agora consciente de falar com um
estrangeiro.
— No passado sempre tomei esse tipo de providência já dentro do trem.
— Mas não pode mais nos dias de hoje, senhor. O senhor terá de ir até a
bilheteria e comprar os seus bilhetes, como todo mundo faz. E é melhor ir
depressa, porque o trem vai partir daqui a minutos.
Henry fitou o chefe de trem com ar de incredulidade.
— Suponho que a minha esposa poderá descansar no trem enquanto eu for
comprar os bilhetes, não? — perguntou ele.
— Lamento, meu senhor. Ninguém está autorizado a embarcar no trem sem
apresentar bilhete.
— Fique aqui, querida — disse Henry —, que vou resolver este probleminha
imediatamente. Por gentileza, carregador, guie-me até a bilheteria.
— Fica no fim da Plataforma 4, patrão — disse o chefe de trem batendo a
porta, certamente irritado pelo “carregador”.
Não era exatamente isso que Henry quisera dizer com “guie-me”. Entretanto,
deixou a esposa com as catorze malas e, aborrecido, foi sozinho à bilheteria no
final da Plataforma 4, tomando logo a dianteira de uma longa fila.
— Ô meu chapa, não está vendo que tem uma fila, não? — alguém gritou.
Henry não sabia.
— Estou com muita pressa — justificou.
— E eu também — respondeu o outro. — Vá lá para trás.
Henry ouvira dizer que os ingleses são pacientes quando tem de permanecer
em fila, mas, como nunca se vira numa antes, não sabia se a afirmação era
verdadeira ou falsa. A contragosto foi até o final da fila. Demorou algum tempo
até Henry chegar ao guichê.
— Quero pegar o último vagão para Dover.
— O senhor quer o quê?...
— O último vagão — repetiu Henry erguendo mais a voz.
— Desculpe, senhor, mas os lugares de primeira classe estão esgotados.
— Não quero um lugar — disse Henry. — Estou pedindo o vagão.
— Hoje em dia não se vendem mais vagões por inteiro, senhor, e, como
disse, todos os lugares de primeira classe estão esgotados. Posso arranjar-lhe um
lugar na terceira classe.
— Não importa quanto vá custar — disse Henry. — Tenho de viajar de
primeira classe.
— Não há mais um único lugar nem sequer na primeira classe, senhor. Não
me interessa que o senhor possa se dar ao luxo de ter todo um trem.
— Eu posso — disse Henry.
— Pois eu continuo não tendo um só lugar na primeira classe — disse o
bilheteiro impacientemente.
Henry teria insistido ainda mais se várias pessoas atrás dele não lembrassem
que o trem partiria dali a dois minutos e que queriam pegá-lo, de qualquer
maneira.
— Dois bilhetes, então — disse Henry, incapaz de pronunciar as palavras “de
terceira classe”.
Dois bilhetes verdes com destino a Dover foram passados pela pequena
grade. Henry pegou-os e virou-se para ir embora.
— Dezessete libras e seis pence, por favor.
— Oh, sim, claro — disse Henry, em tom de desculpa. Remexeu no bolso e
sacou uma das três grandes notas brancas de cinco libras que sempre trazia
consigo.
— Não tem mais trocado?
— Não, não tenho — disse Henry, que achava vulgar carregar dinheiro,
mesmo que em valores astronômicos.
O bilheteiro devolveu quatro libras e uma meia-coroa. Henry não pegou a
meia-coroa.
— Obrigado, senhor — fez o homem, espantado. Era bem mais do que a sua
comissão nas vendas dos sábados.
Henry enfiou os bilhetes no bolso e voltou apressado para junto de Victoria,
que sorria desafiadoramente à ação do vento gélido; não era exatamente o
mesmo sorriso que inicialmente o havia cativado. O carregador tinha
desaparecido havia muito tempo e Henry não descobria outro por perto. O chefe
de trem pegou-lhe os bilhetes e os perfurou.
— Embarque — gritou ele. Agitou uma bandeirinha verde e soprou o apito.
Rapidamente Henry jogou as catorze malas pela porta do vagão e apressou
Victoria para entrar no trem, que já se punha em movimento antes que ele
próprio subisse num salto. Depois de retomar o fôlego, percorreu o corredor ao
longo dos vagões examinando o interior dos carros de terceira classe. Nunca vira
nada assim antes. Os assentos não passavam de finas almofadas gastas e, quando
apontou à porta de um vagão já meio lotado, um casal de jovens, vindo de outro,
apressou-se para ocupar os dois últimos assentos duplos. Henry partiu então
numa furiosa busca por um carro disponível, mas não achou nem sequer dois
assentos juntos. Victoria, sem se queixar, acomodou-se num lugar vago de uma
cabine lotada, enquanto Henry, desanimado, sentou-se numa das malas no
corredor.
— Tudo vai ser bem diferente depois que chegarmos a Dover — disse ele,
sem sua habitual autoconfiança.
— Tenho certeza disso, Henry — respondeu ela, sorrindo gentilmente para
ele.
A viagem de duas horas parecia-lhes interminável. Passageiros das mais
variadas formas e proporções esbarravam em Henry ao passarem pelo corredor,
pisando em seus pés calçados com sapatos Lobbs, feitos sob encomenda, e
dizendo:
— Desculpe, senhor.
— Desculpe aí, meu chapa.
— Desculpe, companheiro.
Henry não tardou a lançar a culpa de toda aquela situação nos ombros de
Clement Attlee e à ridícula campanha da igualdade social, e pôs-se a esperar
distraidamente que o trem chegasse à Dover Priory Station. Assim que a
locomotiva parou, Henry foi o primeiro, não o último, a saltar do vagão, gritando
o nome de Albert o mais alto que pôde. Albert nenhum respondeu, salvo uma
multidão de pessoas que, passando precipitadas por ele, corriam em direção ao
navio. Finalmente Henry avistou o uniforme de um carregador. Correu até ele,
mas o encontrou já enchendo seu carrinho com as malas de alguém. Correu a
toda até um segundo, depois até um terceiro e então, já desesperado, acenou com
uma nota de uma libra para um quarto, que o atendeu prontamente e desceu as
catorze malas para seu carrinho.
— Pra onde, patrão? — perguntou o carregador amigavelmente.
— Para o navio — disse Henry, voltando para buscar a esposa. Ajudou
Victoria a descer do trem e ambos enfrentaram a chuva resfolegando, até a
rampa de acesso ao navio.
— Bilhetes, senhor — pediu um jovem oficial de uniforme azul-escuro,
postado ao pé da rampa.
— Sempre ocupo o camarote três — disse Henry, arfando.
— Ah, sim, senhor — disse o jovem, olhando para o seu bloco de anotações.
Cheio de confiança, Henry sorriu para Victoria.
— Sr. e Sra. William West.
— Como disse? — fez Henry.
— O senhor deve ser o Sr. William West.
— Mas é claro que não. Sou o Grande Paxá do Cairo.
— Bom, o senhor me desculpe. O camarote número três está reservado em
nome de um Sr. William West e família.
— Nunca antes na minha vida fui tratado com tanto desprezo pelo Capitão
Rogers — protestou Henry, acentuando ainda mais seu sotaque. — Vá buscá-lo
imediatamente!
— O Capitão Rogers morreu na guerra, senhor. Quem está no comando deste
navio é o Capitão Jenkins, não posso ir chamá-lo. Ele só deixa a ponte de
comando meia hora antes da partida.
A exasperação de Henry ia transformando-se em puro pânico.
— Não tem nenhum camarote vago?
O oficial examinou a lista.
— Não, senhor, sinto muito. O último foi ocupado há alguns minutos.
— Posso comprar dois bilhetes? — perguntou Henry.
— Sim, senhor. Mas o senhor terá de comprá-los na bilheteria, no cais.
Percebendo logo que apresentar outro argumento seria pura perda de tempo,
Henry virou-se bruscamente e, sem dizer palavra, deixou a esposa com o
carregador. A passos largos, dirigiu-se à bilheteria.
— Dois bilhetes de primeira classe para Calais — pediu ele com firmeza.
O homem atrás da janelinha de vidro olhou para Henry com fastio.
— Hoje em dia há uma classe só, senhor, a não ser que tenha um camarote.
E passou-lhe os dois bilhetes.
— Uma libra.
Henry lhe passou a nota, pegou os bilhetes e correu de volta até o navio.
O carregador estava colocando as malas ali mesmo, no chão do cais.
— Não pode levá-las a bordo — gritou Henry — e pô-las no porão?
— Não, senhor, agora não. Só os passageiros têm permissão para entrar no
navio depois do sinal de dez minutos.
Victoria carregou duas malas pequenas, enquanto Henry dava tudo de si para
levar as doze restantes, uma a uma, até o alto da rampa de acesso. Finalmente,
exaurido, sentou-se no convés. Todos os assentos pareciam já estar ocupados.
Henry não sabia dizer se estava com frio por causa da chuva, ou com calor por
causa de seus esforços. O sorriso de Victoria permanecia firmemente fixo no
rosto quando veio segurar a mão de Henry.
— Não fique assim tão chateado, querido — disse ela. — Acalme-se e
aprecie a viagem. Será tão agradável ficarmos juntos aqui fora, no convés.

O navio saía lentamente da tranquila baía, tomando a direção do Canal de


Dover. Mais tarde, naquela mesma noite, o Capitão Jenkins confidenciaria à
esposa que aquela viagem de vinte e cinco milhas estava entre as mais
acidentadas de que jamais participara. Por pouco não voltara atrás quando seu
segundo oficial, um veterano de duas guerras, adoeceu gravemente. Henry e
Victoria passaram a maior parte da viagem debruçados na amurada, aliviando-se
de tudo o que haviam ingerido na recepção do Ritz. Poucas pessoas já se
sentiram tão felizes em avistar terra quanto Henry e Victoria ao distinguirem a
silhueta da costa da Normandia. Cambaleantes, desceram as malas uma por vez.
— Talvez seja diferente na França — comentou Henry, sem convicção. Após
perfunctória e já cansada procura por Pierre foi direto à bilheteria e comprou
dois bilhetes de terceira classe no Flèche d'Or. Desta vez, por fim, poderiam
sentar-se um ao lado do outro, mas num carro que já abrigava seis passageiros,
sem contar um cachorro e uma galinha. Os seis incutiram em Henry a certeza de
muito apreciarem o moderno hábito de fumar em público e o antigo costume de
carregar no alho em sua comida. Em certo momento da viagem, Henry voltou a
sentir náuseas, embora seu estômago estivesse vazio. Pensou em percorrer o
trem de um extremo a outro, à procura de Raymond, mas logo reconheceu que o
único resultado seria o de perder seu lugar ao lado de Victoria. Em meio aos
ruídos produzidos pelo cachorro, a galinha e a tagarelice gálica, desistiu de
manter qualquer conversa com ela, contentando-se em olhar pela janela,
contemplando vagamente as áreas rurais francesas e, pela primeira vez em sua
vida, prestando atenção ao nome de cada estação pela qual passavam.
Na Gare du Nord, Henry nem sequer tentou procurar Maurice; dirigiu-se
diretamente à fila de táxi mais próxima. Quando afinal conseguiu reunir todas as
malas, estava praticamente no fim da fila. Ele e Victoria permaneceram de pé por
mais de uma hora, fazendo avançar as malas, aos centímetros, até que chegasse
sua vez.
— Monsieur?
— Fala inglês?
— Un peu, un peu.
— Hotel George V.
— Oui, mais je ne peux pas mettre toutes les valises dans le coffre.
Henry e Victoria então comprimiram-se no banco traseiro, com o corpo
dolorido, fatigados e famintos, cercados de malas de couro, sacolejando e
chocando-se um contra o outro enquanto o táxi seguia pelas ruas de
paralelepípedo rumo ao George V.
O porteiro do hotel apressou-se em ajudá-los, ao mesmo tempo que Henry
oferecia ao chofer de táxi uma nota de uma libra.
— Não aceita dinheiro inglês, monsieur.
Henry não pôde acreditar no que ouvia, mas o porteiro, muito satisfeito,
pagou ao motorista em francos e embolsou a nota de uma libra. Henry estava
cansado demais para esboçar alguma reação. Ajudou Victoria a subir os degraus
de mármore e se dirigiu ao balcão de recepção.
— O Grande Paxá do Cairo e sua esposa. A suíte nupcial, por favor.
— Oui, monsieur.
Henry sorriu para Victoria.
— O senhor tem a confirmação da reserva, senhor?
— Não — disse Henry. — Nunca no passado precisei confirmar minha
reserva com os senhores. Antes da guerra eu...
— Desculpe, senhor, mas o hotel está sem vagas no momento. Um
congresso.
— Inclusive a suíte nupcial? — perguntou Victoria.
— Sim, senhora, o presidente e esposa, como pode compreender. — Ele
sorriu dando uma piscadela.
Henry não chegava a compreender. No passado, sempre houvera um quarto
para ele no George V, a qualquer momento. Desesperado, sacou sua segunda
nota de cinco libras e deslizou-a sobre o balcão.
— Ah — fez o recepcionista. — Acabo de descobrir que ainda temos um
quarto desocupado, mas creio que não é grande o bastante.
Henry teve um gesto de indiferença.
O recepcionista tocou a campainha e um carregador apareceu imediatamente
para conduzi-los ao quarto prometido. Henry só pôde definir o aposento em que
foram introduzidos como “uma caixa de fósforos”. A razão peia qual as cortinas
deveriam ficar perpetuamente cerradas era que as incontáveis chaminés
parisienses compunham uma visão singularmente insossa. Este golpe, porém,
não haveria de ser ainda o mortal, como Henry sentiu logo depois, ao divisar as
duas estreitas camas de solteiro. Victoria, começou a desfazer as malas
silenciosamente, enquanto Henry sentava-se desanimado numa delas. Depois de
banhar-se numa banheira que comportava no máximo uma criança de seis anos,
Victoria deitou-se exausta na outra cama. Durante quase uma hora nada
disseram.
— Vamos, querida — disse Henry finalmente. — Vamos jantar.
Ainda que com alguma relutância, Victoria anuiu, começando a vestir-se
para o jantar. Henry ajustou-se na banheira, os joelhos contra o nariz, tentando
lavar-se de alguma forma, antes de vestir o traje a rigor. Prevenido desta vez,
telefonou para a recepção, pedindo um táxi e a reserva de uma mesa no Maxim's.
O chofer de táxi aceitou a nota de uma libra, mas, quando o casal entrou no
magnífico restaurante, Henry não reconheceu ninguém e ninguém o reconheceu.
Um garçom conduziu-o em direção a uma pequena mesa entalada entre dois
outros casais ruidosos junto ao palco. Quando atravessaram o salão, a banda
começou a executar Alexander's Rag Time Band.
Examinaram o extenso cardápio, fizeram o pedido e logo puderam
comprovar que a lagosta era de fato excelente, precisamente como Henry
antecipara, mas, como naquele momento nenhum dos dois tinha apetite para uma
rica refeição, quase toda ela ficou intocada.
Foi difícil para Henry convencer o novo maître de que a lagosta estava
realmente soberba e de que tinham ido deliberadamente ao Maxim's para não
tocá-la. Durante o café, segurando as duas mãos de Victoria, ele tentou se
desculpar.
— Vamos acabar agora mesmo com esta comédia — disse ele — concluindo
o meu roteiro: vamos a Madeleine para que eu possa presenteá-la com as flores
que lhe prometi. Paulette não estará lá para saudá-la, mas, sem dúvida, haverá
alguém que nos possa vender algumas rosas.
Henry pediu a nota, pagou com sua terceira nota de cinco libras (o Maxim's
tem sempre o máximo prazer em aceitar moedas estrangeiras e Henry não se
aborreceria com o troco) e saíram, de mãos dadas, tomando a direção de
Madeleine. Pela primeira vez Henry acertava: Paulette não estava em parte
alguma. Uma velha senhora, de cabeça coberta por um xale e uma verruga na asa
do nariz, ocupava o lugar de Paulette no canto da praça, cercada das mais belas
flores.
Henry escolheu uma dúzia de rosas vermelhas de talos longos e depositou-as
nos braços da esposa. A velha senhora sorriu para Victoria.
Victoria, desajeitada, retribuiu o sorriso.
— Dix francs, monsieur — disse-lhe a florista.
Henry rebuscou nos bolsos só para descobrir que já havia gasto todo seu
dinheiro. Olhou com certo desespero para a velha senhora, que cheia de
amabilidade, levantou as mãos e sorriu para ele:
— Não se preocupe, Henry, pode levá-las. Pelos velhos bons tempos.

Henry's hiccup
Uma questão de princípio
Sir Hamish Graham reunia muitas das qualidades e a maior parte dos
defeitos que caracterizam o indivíduo originário de uma família escocesa de
classe média. Bem-educado, trabalhador e honesto, era, ao mesmo tempo,
intolerante, briguento e orgulhoso. Em momento algum de sua vida permitiu-se
experimentar bebida alcoólica e tratava com desconfiança todos os homens que
não haviam nascido ao norte de Hadrian's Wall e a maior parte dos que
provinham desses lados.
Depois de passar seus anos de estudante na Fettes School, para a qual
ganhara uma magra bolsa de estudos, e na Universidade de Edimburgo, onde se
diplomara em engenharia com média distinção, viu-se selecionado entre doze
estagiários na empresa de construção multinacional TarMac (o nome
homenageia seu fundador, J. L. McAdam, o homem que descobriu que a mistura
de piche com pedras era a melhor solução para a pavimentação de estradas). O
novo estagiário, com um trabalho diligente e procedimentos rígidos, tornou-se
em breve o mais jovem e o mais de testado chefe de projetos da empresa. Aos
trinta anos, quando Graham foi nomeado subdiretor gerente da TarMac,
começou a compreender que não podia esperar maior progresso em sua vida
enquanto continuasse, apesar do cargo, um simples empregado. Passou, então, a
pensar em constituir sua própria empresa. Quando, dois anos depois, o
presidente da TarMac, Sir Alfred Hickman, o convocou para substituir o diretor-
gerente que se apo sentava, Graham demitiu-se. Afinal, se Sir Alfred o julgava
capaz de administrar a TarMac, ele também deveria ser mais que competente
para criar sua empresa própria.
No dia seguinte, o jovem Hamish Graham compareceu a uma entrevista com
o gerente regional do Banco da Escócia, que administrava a conta da TarMac e
com o qual mantinha relações profissionais havia dez anos. Graham lhe expôs
seus planos para o fu turo, e submeteu a sua apreciação uma proposta por escrito
em que solicitava um aumento em seu crédito de cinquenta para dez mil libras.
Três semanas depois, Graham recebeu o comunicado de que seu pedido tivera
parecer favorável. Continuou morando num quarto de pensão em Edimburgo ao
mesmo tempo que alugava um escritório (ou, para ser mais exato, um cômodo a
dez xelins por semana) na zona Norte da cidade; comprou uma má quina de
escrever, contratou uma secretária e encomendou papel de carta timbrado.
Empregou dois engenheiros, ambos diplomados pela Universidade de Aberdeen,
após dias de meticulosas entre vistas, e cinco operários desempregados de
Glasgow.
Ao longo dessas primeiras semanas de escritório próprio, Graham apresentou
propostas de orçamentos para a construção de diversas pequenas estradas nas
planícies do centro da Escócia, das quais perdeu as primeiras sete. A elaboração
de propostas para concorrência pública é tarefa sempre espinhosa e em geral
dispendiosa. Ao final dos primeiros seis meses no negócio, Graham já começava
a se perguntar se sua saída da TarMac não fora um rompante imprudente. Pela
primeira vez em sua vida experimentava uma sensação de insegurança, a qual,
entretanto, logo depois seria vencida pelo conselho administrativo do condado
de Ayrshire, ao aceitar sua proposta para uma curta estrada que ligaria uma
escola em projeto à rodovia principal. A estrada tinha apenas quinhentos metros,
mas sua conclusão exigiu da equipe de Graham sete meses de trabalho duro.
Quando as contas foram pagas e as despesas deduzidas, o balanço da
Construtora Graham apresentava um prejuízo de £143.10s.6d.
Mesmo assim, a coluna dos lucros indicava que a ponta de reputação fora
fisgada de forma imperceptível, como o demonstrou, mais uma vez, o conselho
administrativo de Ayrshire ao convidar Graham para construir também a escola
junto ao terminal da nova estrada. O contrato proporcionou à sua construtora um
lucro de £420, além de dar solidez à sua incipiente reputação.
A partir daí, a companhia só fez crescer a ponto de em apenas três anos de
atividades poder declarar um pequeno lucro isento de tributação e nos cinco
seguintes experimentar uma expansão acelerada. Quando as ações da
Construtora Graham passaram a participar da Bolsa de Valores de Londres, a
demanda por seus títulos multiplicou por dez seu ativo, e a recém cotada
empresa logo passou a ser considerada uma blue-chip, o que não deixava de ser
proeza de razoável importância para Graham. Apesar disso, Graham teve de
continuar a trabalhar duro, pois o típico investi dor inglês só aprecia capitães de
indústria meter-se em negócios arriscados.

Nos anos 60, a Construtora Graham construiu viadutos, hospitais, fábricas e


mesmo uma usina elétrica, mas a realização de que seu presidente mais se
orgulhava era a recém concluída galeria de arte de Edimburgo, o único
empreendimento a apresentar déficit no balanço anual. A coluna dos lucros
impalpáveis, contudo, registrava a concessão de um título de cavaleiro ao seu
presidente.
Com o título Sir Hamish achou que chegara o momento de a Construtora
Graham estender seus serviços a novos mercados, e lançou o olho, como
gerações de escoceses anteriores, na direção do Império Britânico. Na Austrália
e no Canadá construiu com seus próprios recursos e, na Índia e na África, com
subsídio do governo britânico. Em 1963 recebeu o título de “Empresário do
Ano”, conferido por The Times, e, três anos depois, o de “Dirigente do Ano”, por
The Economist. Sir Hamish jamais tentou conciliar seus métodos com o avanço
dos tempos, aferrando-se cada vez mais obstinadamente à convicção de que suas
noções sobre os negócios eram sempre corretas, não importando o que se
pensasse delas; nesse sentido, contava com um extenso rol de créditos para
provar que estava certo.
No início da década de 70, quando a repentina queda de preços explodiu no
ramo da engenharia civil, a Construtora Graham sofreu o mesmo corte da receita
orçamentária e, a exemplo de seus mais importantes concorrentes, perdeu
contratos. Sir Hamish reagiu como era de praxe, apertando o próprio cinto e
reduzindo os custos. Ao mesmo tempo, passou a rejeitar contratos menos
rentáveis que pudessem comprometer seus princípios empresariais. A
companhia, por conseguinte, deixava de crescer, e vários de seus jovens
executivos mais empreendedores transferiam-se para firmas que ainda
acreditavam na vantagem de assumir projetos eventualmente arriscados.
Somente quando a curva do gráfico de lucros passou a indicar uma linha
descendente em ziguezague, foi que Sir Hamish começou a mostrar
preocupação. Certa noite, enquanto meditava sobre os lucros e as perdas dos três
anos anteriores, e verificava que agora perdia contratos mesmo em sua Escócia
natal, um relutante Sir Hamish concluiu que deveria concorrer a
empreendimentos menos seguros ou, até, talvez, levar em consideração também
transações declaradamente de risco.
Seu assessor mais brilhante, David Heath, um atarracado solteirão de meia-
idade em quem não confiava plenamente — afinal, o homem se formara ao sul
da fronteira e, pior ainda, também estudara numa esquisita instituição dos EUA
chamada Escola de Comércio de Wharton —, sugerira a Sir Hamish que pusesse
a ponta do pé em águas mexicanas. O México, como Heath salientou, e não sem
entusiasmo —, havia descoberto vastas reservas de petróleo em sua costa leste e
da noite para o dia se abarrotara de dólares americanos. A engenharia civil no
México mostrava-se, de repente, altamente superativa e as licitações públicas
exibiam cifras que se situavam em torno de trinta ou quarenta milhões de
dólares. Heath insistiu com Sir Hamish para que entrasse numa dessas
concorrências divulgada em anúncio de página inteira em The Economist. A
licitação do governo mexicano visava a construção de um anel viário em torno
de sua capital, a Cidade do México. Num artigo da seção de negócios do
Observer, apresentaram-se argumentos minuciosos justificando como oportuna a
participação das empresas britânicas consolidadas no empreendimento. No
passado Heath atuara como um perspicaz conselheiro em contratos
internacionais, que Sir Hamish muitas vezes deixara escapar por entre os dedos.

Na manhã seguinte. Sir Hamish, sentado à sua mesa de trabalho, ouviu


atentamente que seu assessor Heath achava que, uma vez que a Construtora
Graham já havia construído os anéis viários de Glasgow e Edimburgo, qualquer
forma de proposta aos mexi canos levaria uma certa vantagem logo de saída.
Para surpresa de Heath, Sir Hamish não só aceitou a sugestão como determinou
que uma equipe de seis homens viajasse ao México para obter os documentos da
concorrência e levantar alguns dados sobre o projeto.
A equipe de pesquisa, chefiada por David Heath, era com posta de três
engenheiros, um geólogo e um funcionário do departamento de finanças. Logo
após sua chegada, eles obtiveram os documentos necessários junto ao ministro
do Trabalho e puseram se a estudá-los minuciosamente. Com os problemas
principais estabelecidos, o grupo percorreu a Cidade do México de ouvidos
atentos e bocas fechadas, alistando as dificuldades que encontrariam;
impossibilidade de qualquer tipo de descarregamento de material em Vera Cruz,
com o posterior translado até a Cidade do México sem que metade dele corresse
o risco de ser roubado; inexistência de boa comunicação entre os ministérios; e,
o pior de tudo, a atitude dos mexicanos para com o trabalho. Mas a contribuição
mais valiosa de David Heath para a lista foi a descoberta de que cada ministro
tinha seu homem atuando no exterior, a quem a Construtora Graham deveria ser
simpática caso desejasse ao me nos participar da pequena lista de concorrentes.
Heath procurou logo o homem do ministro do Trabalho, um certo Victor Perez, e
convidou-o para um pródigo almoço no Fonda el Refugio, onde ambos por
pouco não se embriagaram, embora Heath tenha permanecido sóbrio o suficiente
para aceitar, na dependência da aprovação por parte de Sir Hamish, todos os
termos impostos por Perez. Tendo tomado todas as precauções possíveis, Heath
aceitou uma cifra de proposta orçamentária que já trazia embutida a porcentagem
do ministro. Em seguida, voltou para a Inglaterra com a equipe e o relatório para
seu presidente.

Na noite do retorno de David Heath, Sir Hamish deitou-se cedo com a


intenção de estudar as conclusões de seu chefe de projetos. Noite adentro
examinou cada linha do relatório, com a mesma avidez de um leitor de Agatha
Christie, e não teve nenhuma dúvida de que aquela era a oportunidade que vinha
buscando para superar os transitórios reveses que afligiam a Construtora
Graham. Embora fosse concorrer com Costain, Sunley e John Brown, além de
outras companhias internacionais. Sir Hamish confiava em que qualquer
proposta que apresentasse teria uma “boa chance”. Ao chegar a seu escritório de
manhã, chamou David Heath sem perda de tempo.
Sir Hamish começou a falar assim que seu corpulento chefe de projetos
entrou na sala, sem ao menos convidá-lo para sentar-se.
— Contate imediatamente nossa embaixada na Cidade do México e informe-
os da nossa intenção — declarou Sir Hamish. — Eu mesmo poderia conversar
com o embaixador — disse, dando a entender que esta era a sua última
declaração naquela entrevista.
— Inútil — disse David Heath.
— O que foi que disse?
— Não desejo parecer grosseiro, senhor, mas isso não funciona mais. A
Inglaterra deixou de ser a grande potência que distribui presentes a longínquos
beneficiários gratos e arruinados.
— Tanto pior — disse Sir Hamish.
O diretor de projetos prosseguiu como se não tivesse ouvido a observação.
— Os mexicanos contam agora com uma grande riqueza própria, e os
Estados Unidos, o Japão, a França e a Alemanha mantêm poderosas embaixadas
na Cidade do México com representações comerciais altamente profissionais que
procuram manter mecanismos de pressão sobre cada um dos ministérios.
— Mas decerto a história vale alguma coisa — disse Sir Hamish. — Eles
preferem não fazer negócios com uma bem estabelecida empresa inglesa para
concedê-los a uma outra pretensiosa de...?
— Talvez, senhor, mas ao fim e ao cabo o que realmente importa é saber que
ministro se responsabiliza por qual contrato e quem é seu representante no
exterior.
Sir Hamish ficou intrigado.
— Sr. Heath, ainda não consigo entender plenamente o que o senhor está
dizendo.
— Permita-me explicar, senhor. No atual sistema do México, cada ministério
dispõe de verbas que são empregadas em projetos com o aval do governo. Cada
ministro está perfeitamente consciente de que sua permanência no cargo é bem
transitória. Por isso escolhe uma proposta que o beneficie entre as várias
apresentadas. É uma das maneiras de garantir uma pensão para o resto da vida,
caso o governo mude da noite para o dia ou o ministro simplesmente perca o
cargo.
— Não me venha com essa conversa, Sr. Heath. O que o senhor está
sugerindo? Que eu ofereça suborno a um oficial de governo? Jamais me envolvi
neste tipo de coisa em trinta anos de trabalho.
— E eu não gostaria de iniciá-lo nisso agora — respondeu Heath. — Os
mexicanos são muito experientes em ética comercial para insinuarem uma
proposta tão inepta, mas, se a lei exige um agente mexicano, creio que faz
sentido escolher como representante o homem do ministro, que, em última
instância, é a única pessoa que pode assegurar a concessão do contrato. O
sistema parece funcionar bem e, desde que o ministro transacione apenas com as
empresas internacionais conceituadas e não se mostre ganancioso, ninguém se
queixa. Basta alguém deixar de observar estas duas regras de ouro e todo o
castelo de cartas desaba. O ministro acaba em Le Cumberri por trinta anos e a
companhia implicada, além de ter todos os seus bens expropriados, é proibida de
levar adiante qualquer negócio no México.
— Eu realmente não quero me envolver nisso — disse Sir Hamish. — Ainda
prezo muito os títulos que tenho.
— Não precisa se envolver — disse Heath. — Depois que apresentarmos a
proposta para o empreendimento, o senhor espera até que a companhia apareça
na lista; então, se aparecer, espera um pouco, para ver se o homem do ministro
nos aborda. Conheço o homem. Se ele nos procurar é porque temos um negócio
fechado. Afinal, a Construtora Graham é uma empresa internacional respeitável.
— Precisamente. E por isso é que essa coisa vai contra meus princípios —
disse Sir Hamish com altivez.
— Espero sinceramente, Sir Hamish, que também vá contra os seus
princípios permitir que os alemães e os americanos açambarquem o contrato
bem debaixo do nosso nariz.
Sir Hamish lançou um olhar feroz para o chefe de projetos, mas permaneceu
em silêncio.
— E devo acrescentar, senhor — disse David Heath, cada vez mais
impaciente —, que os negócios na Escócia não têm exatamente proporcionado
bons resultados ultimamente.
— Está bem, está bem, vá em frente — disse Sir Hamish com relutância. —
Apresente uma proposta orçamentária para o anel viário da Cidade do México.
Mas fique avisado de que, se eu tomar conhecimento de que houve suborno, sua
cabeça rolará — ajuntou, batendo o punho cerrado no tampo da mesa.
— Qual o orçamento que o senhor estipulou, senhor? — perguntou o chefe
de projetos. — Penso, como já assinalei no meu relatório, que devemos manter a
cifra abaixo de quarenta milhões de dólares.
— De acordo — disse Sir Hamish, que fez uma pausa breve e sorriu consigo
mesmo antes de prosseguir. — Coloque £39,121,110.
— Por que exatamente esse número, senhor?
— Razões sentimentais — respondeu Sir Hamish, evitando maiores
explicações.

David Heath deixou a sala, satisfeito por ter persuadido o patrão a concorrer,
mas receoso de que, no fim das contas, fosse mais difícil superar os princípios de
Sir Hamish do que as exigências do governo mexicano. Mesmo assim preencheu
imediatamente a última linha da proposta orçamentária como fora instruído e
colheu para o documento a assinatura de três diretores, além da do presidente, tal
como a lei mexicana exigia. A proposta, enfim, chegou à Diretoria de Obras no
Paseo de la Reforma pelas mãos de um mensageiro especial: quando se concorre
a um contrato de mais de trinta e nove milhões de dólares, não é recomendável
enviar documentos pelo correio.

Passaram-se várias semanas antes de a embaixada mexicana em Londres


entrar em contato com Sir Hamish, para pedir-lhe que viajasse à Cidade do
México, onde deveria se encontrar com Manuel Unichuru, o ministro
encarregado de implementar o projeto do anel viário. À saída da entrevista. Sir
Hamish permanecia cético, ao contrário de David Heath, que não cabia em si de
contentamento: ele tinha sabido, por meio de outra fonte, que a proposta da
Construtora Graham era, até aquele momento, a única que tinha perspectiva de
ser aceita, apesar de um ou dois itens pendentes que exigiam maior discussão.
David Heath conhecia perfeitamente bem o significado dessa pendência.

Uma semana depois, Sir Hamish, viajando na primeira classe, e David


Heath, na classe econômica, deixaram o aeroporto de Heathrow com destino ao
México. Ao chegarem, perderam uma hora com a revista da alfândega e levaram
mais trinta minutos para descobrir um táxi que os levasse ao centro da cidade —
e isso somente depois de aceitar pagar os valores abusivos propostos pelo
motorista. O percurso de pouco mais de 20 quilômetros do aeroporto até o hotel
foi cumprido em mais de uma hora, de modo que Sir Hamish pôde observar, em
primeira mão, por que os mexicanos se mostravam tão ansiosos por construir um
anel viário. O táxi, um carro de dez anos de idade, apesar de todos os vidros
descidos, parecia um forno deixado em temperatura máxima por toda uma noite,
mas Sir Hamish em nenhum momento afrouxou a gravata. Os dois homens
registraram-se no hotel, subiram para os quartos, telefonaram para a secretária
do ministro informando-a de sua chegada — e então esperaram.

Dois dias se passaram e nada aconteceu.


David Heath garantiu ao presidente que demoras como aquela não eram um
fato extraordinário no México, pois o ministro sem dúvida estaria participando
de incessantes reuniões de trabalho — e afinal de contas manana não era uma
das palavras castelhanas que todo estrangeiro compreendia?

Na tarde do terceiro dia, com Sir Hamish já se preparando para voltar à


Inglaterra, o homem do ministro chamou David Heath ao telefone e aceitou um
convite para jantar na suíte de Sir Hamish.
Sir Hamish vestiu traje a rigor para a ocasião, apesar dos conselhos em
contrário de David Heath. Chegara até mesmo a providenciar uma garrafa de
xerez Fina La Ina, para o caso de o homem pedir algo refrescante. Às sete e
meia, conforme o combinado, a mesa estava posta e os anfitriões prontos para o
jantar. O homem do ministro não chegou às sete e meia, nem às sete e quarenta e
cinco, nem às oito, nem às oito e quinze, nem às oito e meia. Às oito e quarenta e
nove soou uma forte batida na porta e Sir Hamish resmungou uma reprimenda
inaudível enquanto David Heath abriu a porta para se deparar com seu contato.
— Boa noite, Sr. Heath, desculpe-me o atraso. Demorei-me com o ministro,
o senhor compreende.
— Sim, naturalmente — disse David Heath. — Foi bom ter vindo, Señor
Perez. Gostaria de apresentá-lo ao meu presidente, Sir Hamish Graham.
— Muito prazer, Sir Hamish. Victor Perez, às suas ordens.
Sir Hamish ficou estarrecido. E teve que continuar com os pés pregados no
chão, fitando aquele homenzinho de meia-idade que vinha a um jantar vestido
numa encardida camiseta e jeans desbotado. Perez dava a impressão de que não
se barbeava havia três dias, lembrando a Sir Hamish os bandidos de filmes de
faroeste que vira quando criança. O mexicano trazia um pesado bracelete de
ouro no pulso, que poderia ter comprado na Cartier, e uma corrente de platina
com um dente de tigre no pescoço, que poderia ter comprado na Woolworth.
Perez abriu um sorriso de orelha a orelha ao perceber a reação que provocava.
— Boa noite — respondeu Sir Hamish com acentuada formalidade e
recuando um passo. — Aceita um xerez?
— Não, obrigado. Sir Hamish. Aprendi a gostar do seu uísque, on the rocks e
com um pouco de soda.
— Desculpe, tenho apenas...
— Não se preocupe, senhor, tenho uísque no meu quarto — disse David
Heath, e saiu rápido para buscar uma garrafa de Johnnie Walker que escondera
sob as camisas na primeira gaveta da cômoda.
Apesar da colaboração do uísque escocês, a conversa antes do jantar entre os
três homens permaneceu no terreno das conveniências sociais. David Heath,
porém, não atravessara o Atlântico só para uma medíocre refeição de hotel em
companhia de Victor Perez, e Victor Perez, em quaisquer outras circunstâncias,
não teria sequer atravessado a rua para cumprimentar Sir Hamish Graham,
mesmo que Sir Hamish a tivesse construído. A conversa ia desde a recente visita
ao México de Sua Majestade, a Rainha — como Sir Hamish referiu-se a ela —,
até a visita de retribuição do presidente Portillo à Inglaterra. O jantar teria sido
um pouco mais agradável se o Sr. Perez não tivesse ingerido boa parte da comida
com as mãos, sempre limpando os dedos nas calças. Quanto mais Sir Hamish o
olhava com descrença, mais o homenzinho mexicano arreganhava os dentes em
sorrisos. Terminado o jantar, David Heath achou que já era tempo de dirigir a
conversa para o verdadeiro propósito do encontro, mas ainda teve que esperar
que Sir Hamish, contrariado, mandasse subir uma garrafa de conhaque e uma
caixa de charutos.
— Estamos procurando um agente que represente a Construtora Graham no
México, Sr. Perez, e o senhor nos foi altamente recomendado — disse Sir
Hamish, num tom que soava falso a seus próprios ouvidos.
— Chame-me de Victor.
Sir Hamish aquiesceu com um sinal de cabeça e deu de ombros. De modo
algum permitiria que aquele homem o chamasse de Hamish.
— Seria um enorme prazer para mim representá-los, Hamish — continuou
Perez —, contanto que aceitem as minhas condições.
— Talvez o senhor possa nos esclarecer o que entende por estas... hum,
condições — disse Sir Hamish com formalidade.
— Certamente — respondeu animadamente o mexicano. — Exijo dez por
cento do valor da proposta, cinco por cento pagos no dia em que o senhor ganhar
o contrato e cinco por cento quando o senhor apresentar o certificado, dando a
obra por concluída. Não precisa me pagar antes de o senhor receber seu
pagamento; os valores a mim destinados deverão ser depositados numa conta do
Crédit Suisse, em Genebra, uma semana depois que o Banco Nacional do
México tiver liberado seu cheque.
David Heath suspirou bruscamente e olhou para o chão.
— Mas com essas condições você lucrará aproximadamente quatro milhões
de dólares — objetou Sir Hamish, enrubescendo — Isso é mais que a metade do
nosso lucro estimado.
— Isso, como acredito que vocês devem dizer na Inglaterra, Hamish, é
problema seu. Você é que estabeleceu o valor da proposta — disse Perez —, não
eu. De qualquer maneira, ainda sobra nesta transação um bom lucro para cada
um de nós, o que é muito razoável, já que dividimos entre nós o trabalho na
mesa de negociações.
Sir Hamish remexia a gravata borboleta, pensativo. David Heath examinava
atentamente as unhas das mãos.
— Reflita mais uma vez sobre o assunto, Hamish — disse Victor Perez, sem
a menor ponta de perturbação —, e comunique-me sua decisão amanhã ao meio-
dia, qualquer que seja.
O mexicano levantou-se, apertou a mão de Sir Hamish e partiu. David Heath,
transpirando ligeiramente, desceu no elevador com o homem. No saguão,
estendeu a mão úmida para o mexicano.
— Boa noite, Victor. Tenho certeza de que tudo dará certo... amanhã ao
meio-dia.
— Espero que sim — respondeu o mexicano —, para o seu benefício. — E
atravessou o saguão assobiando.

Sir Hamish, um copo de água na mão, continuava sentado à mesa de jantar


quando seu diretor de projetos voltou.
— Não acredito que seja possível que aquele... que aquele homem possa
representar o ministro de algum governo.
— Asseguraram-me que sim — retrucou David Heath.
— Mas dividir quase quatro milhões de dólares com um indivíduo desses...
— Concordo, senhor, mas é assim que se conduz uma negociação por aqui.
— Não posso acreditar! — exclamou Sir Hamish. — Não vou acreditar!
Quero que você me marque um horário amanhã logo cedo com o próprio
ministro.
— Ele não vai gostar disso, senhor. Pode arriscar demais a posição dele.
— Pouco me importa se ele ficar ameaçado. O que está em jogo é um
problema de suborno. Será que preciso soletrar isso para você, Heath? Um
suborno de quase quatro milhões de dólares. Você não tem princípios, homem?
— Tenho, sim, senhor, mas ainda assim aconselho-o a não procurar o
ministro. Ele não vai querer que suas conversas com o Sr. Perez sejam
divulgadas.
— Dirigi minha empresa do meu jeito por quase trinta anos, Sr. Heath, e por
isso serei o juiz do que deve ser divulgado ou não.
— Naturalmente, senhor.
— A primeira coisa que farei amanhã cedo é ver o ministro. Por favor,
providencie a entrevista.
— Se o senhor insiste — resignou-se David Heath.
— Insisto.
O chefe de projetos partiu para seu quarto para enfrentar uma noite em claro.
Na manhã seguinte, logo cedo, entregou uma carta pessoal e manuscrita ao
ministro, que imediatamente mandou um carro apanhar o industrial escocês.

O Ford Galaxy preto oficial com uma bandeirola drapejando trafegava


lentamente através da maciça multidão da cidade, ruidosa e expansiva. As
pessoas abriam caminho para o automóvel, respeitosamente. O motorista
estacionou diante do Ministério de Obras Públicas, no Paseo de la Reforma, e
acompanhou Sir Hamish ao longo dos compridos corredores brancos, deixando-
o por fim numa sala de espera. Minutos depois, uma assistente introduziu Sir
Hamish no gabinete do ministro e sentou-se a seu lado. O homem, de aspecto
severo e aparentando mais de setenta anos, vestia um impecável terno branco,
com camisa branca e gravata azul. Imediatamente pôs-se de pé, inclinou-se sobre
a vasta superfície de couro verde do tampo da mesa e ofereceu a mão.
— Fique à vontade, Sir Hamish.
— Obrigado — disse o construtor, sentindo-se realmente mais à vontade
após um rápido exame no gabinete; no teto, as hélices enormes de um ventilador
giravam morosamente, pouco ou nada amenizando a sala abafada, e na parede,
atrás do ministro, destacava-se um retrato autografado do presidente José Lopez
Portillo, de fraque e calças listradas; abaixo da fotografia, uma placa ostentava
um brasão.
— Soube que se formou em Cambridge.
— É verdade. Estudei três anos no Corpus Christi College.
— Então conhece bem o meu país, senhor.
— Tenho lembranças muito felizes da minha estada na Inglaterra, Sir
Hamish; na verdade, eu ainda visito Londres sempre que a vida me permite.
— Precisa visitar Edinburgh uma hora dessas.
— Já fiz isso, Sir Hamish. Fui ao festival em duas ocasiões e sei agora que
sua cidade é chamada de a Atenas do Norte.
— Está bem informado, Ministro.
— Obrigado, Sir Hamish. Agora devo perguntar como posso ajudá-lo. A nota
do seu assistente foi bem vaga.
— Primeiro, deixe-me dizer, ministro, que minha empresa sente-se honrada
em ser considerada para o projeto de anel viário da cidade, e espero que nossa
experiência de trinta anos em construção, vinte deles no Terceiro Mundo — ele
quase disse países subdesenvolvidos, expressão contra a qual seu gerente de
projetos o advertira —, seja a razão da escolha natural de nossa empresa para
este contrato.
— Isso e sua reputação de terminar os trabalhos no prazo estipulado —,
respondeu o ministro. — Apenas duas vezes no seu histórico vocês voltaram ao
governo pedindo alterações no cronograma de pagamento. Uma vez em Uganda,
quando ficaram presos às exigências patéticas de Amin, e a outra, se bem me
lembro, na Bolívia, um aeroporto, quando atrasaram inevitavelmente por causa
de um terremoto. Em ambos os casos, sua empresa completou o contrato com o
novo preço estipulado, e meus conselheiros acham que vocês devem ter perdido
dinheiro nas duas ocasiões. — O ministro enxugou a testa com um lenço de seda
antes de continuar. — Eu não gostaria que você pensasse que meu governo toma
essas decisões de seleção de forma ligeira.
Sir Hamish ficou impressionado com a fala do ministro, ainda mais que não
havia notas na mesa de couro à sua frente. De repente, ele se sentiu culpado pelo
pouco que sabia sobre a história do ministro.
— Claro que não, ministro. Fico lisonjeado com sua preocupação pessoal, o
que me deixa ainda mais determinado a abordar um assunto embaraçoso que
tem...
— Antes de dizer mais alguma coisa, Sir Hamish, posso lhe fazer uma
pergunta?
— Claro, ministro.
— O senhor aceita o valor de sua proposta orçamentária, £39,121,110, em
qualquer circunstância?
— Sim, Ministro.
— Esta quantia lhe permite executar um bom trabalho e, ao mesmo tempo,
assegura lucro para a sua empresa?
— Sim, Ministro, mas...
— Ótimo. Então acho que só lhe resta decidir se deseja assinar o contrato
hoje ao meio-dia. — O ministro enfatizou a palavra meio-dia.
Sir Hamish, que nunca compreendera a expressão “um aceno de cabeça vale
tanto quanto uma piscadela”, cometeu a tolice de introduzir o assunto que ainda
o preocupava.
— Há, porém, um item do contrato que eu gostaria de discutir em particular
com o senhor.
— O senhor acredita mesmo que seja necessário, Sir Hamish?
Sir Hamish hesitou por um instante antes de responder. Se David Heath
tivesse acompanhado o diálogo, naquele momento ele se levantaria,
cumprimentaria o ministro, tomaria sua caneta-tinteiro e assinaria o contrato —
mas não seu patrão.
— Acho que sim, senhor — disse Sir Hamish com firmeza.
— Quer nos deixar a sós por favor, Srta. Vieites?
A assistente cerrou sua agenda, levantou-se e saiu da sala. Sir Hamish
esperou a porta fechar antes de continuar.
— Ontem recebi a visita de um conterrâneo seu, Sr. Victor Perez, que mora
aqui na Cidade do México e pede...
— Um homem excelente! — exclamou o ministro.
Mas Sir Hamish estava disposto a ir até o fim.
— Eu também acho, Ministro, mas ele quer representar a Construtora
Graham e eu me perguntei se...
— Uma prática corrente aqui no México, nada além do que dita a lei — disse
o ministro, girando sua cadeira para olhar pela janela.
— Entendo que é este o costume — disse Sir Hamish, falando agora para as
costas do ministro —, mas, se devo pagar dez por cento do dinheiro do governo,
preciso estar convencido de que o negócio tem sua aprovação. — Sir Hamish
julgou ter formulado bem a frase.
— Hum... — fez o homem, procurando as palavras para responder ao
construtor —, Victor Perez é um homem honesto e sempre foi fiel à causa
mexicana. Às vezes, sem dúvida, causa má impressão, o que o senhor não
poderia chamar de “altíssimo nível”, Sir Hamish, mas aqui no México não nos
preocupamos com barreiras sociais. — O ministro girou a cadeira para encarar
Sir Hamish.
O industrial escocês corou.
— Já notei esse notável fato, Ministro, mas não acho que seja este
precisamente o centro do problema. O Sr. Perez está me pedindo que lhe
entregue aproximadamente quatro milhões de dólares, o que é mais da metade
do meu lucro estimado no empreendimento, sem sequer levar em consideração
quaisquer contingências ou contratempos que possam vir a ocorrer
posteriormente.
— O senhor mesmo forneceu o custo da obra, Sir Hamish. Confesso que
achei engraçado o senhor ter acrescentado sua data de nascimento aos trinta e
nove milhões.
Sir Hamish ficou boquiaberto.
— Eu pensei — continuou o ministro — que, em vista do histórico de sua
companhia nos últimos três anos e a situação atual na Inglaterra, o senhor não se
daria ao luxo de ser tão meticuloso.
O ministro encarou impassível o espanto em que persistia Sir Hamish.
Ambos desandaram a falar ao mesmo tempo. Sir Hamish engoliu suas palavras.
— Deixe-me contar-lhe uma pequena história sobre Victor Perez. Quando a
guerra atingiu seu grau mais violento (o velho ministro referia-se à Revolução
Mexicana, da mesma forma que um americano recorda imediatamente do Vietnã
ou o inglês da Alemanha quando ouve a palavra “guerra”), o pai de Victor era
um dos jovens sob meu comando que morreram no campo de batalha em Celaya
poucos dias antes de nossa vitória. Deixou um filho, nascido no dia da
independência, que jamais conheceu o pai. Eu tenho a honra, Sir Hamish, de ser
o padrinho dessa criança. Nós o batizamos de Victor.
— Compreendo muito bem sua solidariedade para com um velho camarada,
mas ainda acho que quatro milhões é...
— Acha mesmo? Então vou continuar. Pouco antes de o pai de Victor
morrer, visitei-o num hospital de campanha e tudo que me pediu foi que eu
zelasse por sua esposa. Mas ela morreu durante o parto. Assim tomei o menino
sob minha responsabilidade.
Sir Hamish permaneceu em silêncio por um momento.
— Compreendo sua atitude, Sr. Ministro, mas dez por cento de um dos seus
maiores contratos?
— Certo dia — continuou o ministro, como se não tivesse ouvido o
comentário de Sir Hamish —, lutando na linha de combate em Zacatecas, o pai
de Victor olhou para um campo minado e viu um jovem tenente de bruços no
meio da lama, com a perna esquerda quase já arrancada. Sem pensar em sua
segurança pessoal por um único segundo, ele atravessou de gatinhas aquele
campo minado até alcançar o tenente e depois o arrastou, metro a metro, de volta
ao campo. Esta operação durou três horas. Ele então colocou o tenente num
caminhão e o levou ao hospital de campanha mais próximo, sem dúvida
salvando-lhe a perna e provavelmente a vida. Assim, como o senhor vê, o
governo tem profundas razões para dar ao filho de Perez o privilégio de
representá-lo de vez em quando.
— Concordo com o senhor, ministro — disse Sir Hamish calmamente. —
Admirável! — O ministro sorriu pela primeira vez. — Mas confesso que ainda
não compreendi por que lhe concede uma porcentagem tão alta.
O ministro franziu a testa.
— Sir Hamish, se o senhor não consegue compreender, jamais chegará a
entender os princípios segundo os quais nós mexicanos vivemos.
Dito isto, o ministro levantou-se da escrivaninha, dirigiu-se mancando até a
porta e mostrou-lhe a saída.
A matter of principle
O professor húngaro
As coincidências, costumam dizer (os críticos, geralmente) aos escritores,
devem ser evitadas. O mundo real, porém, está repleto de incidentes
inacreditáveis. Não há quem não tenha passado por uma experiência que,
transformada em literatura, pareceria pura ficção aos leitores.
Na mesma semana em que as manchetes dos jornais de todo o mundo
anunciavam “A Rússia invade Afeganistão” e “Os EUA se retiram das
Olimpíadas de Moscou”, saía em The Times o curto obituário de um eminente
professor de inglês da Universidade de Budapeste. “Um homem que nasceu e
morreu na sua Budapeste e cuja reputação permanecerá assegurada por suas
brilhantes traduções das obras de Shakespeare. Embora alguns linguistas achem
imaturo o seu Coriolanus, todos reconhecem que seu Hamlet é uma tradução de
gênio”.
Quase uma década após a Revolução Húngara, tive a felicidade de participar
de um encontro esportivo de estudantes em Budapeste. A competição se estendia
ao longo de uma semana, e por isso vi na viagem uma boa oportunidade de
conhecer um pouco aquele país. Nosso grupo chegou ao Aeroporto de Ferihegy
na noite de domingo e fomos levados imediatamente ao Hotel Ifushag. (Soube
mais tarde que Ifushag significa “juventude” em húngaro.) Uma vez instalados, a
maior parte dos meus companheiros preferiu recolher-se, já que a rodada
inaugural estava prevista para o dia seguinte.
No desjejum da manhã seguinte veio leite, torradas e um ovo, servidos ao
longo de três atos divididos por demorados intervalos. Os que entre nós
correriam naquela tarde evitaram o almoço, receando que um mau desempenho
inicial pudesse levar-nos a perder completamente a vez na série de jogos que
tínhamos pela frente.
Duas horas antes da prova, um ônibus nos levou ao estádio Nép e nos deixou
diante dos vestiários (sempre achei que deveriam ser chamados de despiários).
Pusemos nossos abrigos e nos sentamos nos bancos, à espera da chamada.
Depois de um tempo que nos pareceu interminável (na verdade, apenas alguns
minutos), apareceu um oficial que nos guiou até a pista. Como era o festivo dia
inaugural da competição, o estádio transbordava de espectadores. Mal completei
meus habituais exercícios de aquecimento — jogging, corridas de percurso curto
e um pouco de calistenia — e o alto-falante anunciou em três idiomas o início da
prova de cem metros. Tirei meu abrigo e dirigi-me à linha de largada. Ao ouvir
meu nome, pressionei os calcanhares contra o anteparo e esperei nervosamente o
tiro de pistola, que era o sinal de partida. Felkészülni, Kész — bangue! Dez
segundos depois estava terminada a prova, e a única vantagem por chegar em
último foi que ganhei os seis dias seguintes para empreender pesquisas pela
cidade húngara.

Caminhar por Budapeste lembrava minha infância na Bristol do pós-guerra.


Havia, contudo, uma importante diferença. Como acontece com os edifícios
bombardeados durante combates, algumas paredes ostentavam profundos talhos
abertos a bala, A revolução, mesmo depois de oito anos, ainda era visível por
toda a parte, talvez porque os húngaros não quisessem que ninguém a
esquecesse. As pessoas tinham rostos marcados por rugas e despojados de
qualquer sinal de emoção, combinação de aspectos que se leva a pensar na
Hungria como uma nação de gente envelhecida. Quando se perguntava
inocentemente a razão disso, respondiam que não viam motivo para se afobar,
buscar avidamente a felicidade, embora não pudessem esconder uma constante
preocupação uns com os outros.

No terceiro dia de provas, voltei ao estádio Nép para incentivar um amigo


que participava nas semifinais da corrida de obstáculos de quatrocentos metros,
o primeiro evento daquela tarde. Munido da credencial de atleta, podia
praticamente sentar-me em qualquer lugar no estádio quase vazio. Preferi assistir
à corrida do último degrau da arquibancada, para dispor da melhor vista da reta
de chegada. Estava sentado lá em cima sem prestar muita atenção às pessoas ao
meu redor. A corrida começou e, quando meu amigo alcançou a curva, vencendo
o sétimo obstáculo e tendo apenas mais três pela frente antes de romper a linha
final, pus-me de pé, dando urros entusiásticos durante todo o resto do percurso.
Ele conseguiu chegar em terceiro lugar, o que lhe dava direito a participar na
final do dia seguinte. Voltei a sentar e anotei carinhosamente no meu programa o
resultado do meu amigo. Preparava-me para ir embora, já que não havia
competidor inglês no peso ou na vara, quando uma voz soou às minhas costas:
— Você é inglês?
— Sim — respondi, virando-me na direção da voz.
Um velho senhor me encarava. Usava um terno de três peças que já devia
estar fora de moda no tempo de seu pai e que carecia de qualquer atrativo que
justificasse sua revalorização pela moda algum dia. Os protetores de couro nos
cotovelos autorizavam à certeza absoluta de que ele era solteiro, pois só podiam
ter sido costurados por um homem — ou, então os cotovelos do homem ficavam
em pontos muitos estranhos do corpo humano. O comprimento das calças
indicava que o dono anterior do terno fora cinco centímetros mais alto que o
atual. Quanto ao homem em si, tinha alguns fios de cabelos brancos, um bigode
de pontas descaídas e faces rosadas. Os cansados olhos azuis permaneciam
constantemente meio fechados, como o obturador de uma câmara fotográfica
que acabou de ser disparado. A testa era vincada por tantos sulcos que sua idade
podia estar entre cinquenta e sessenta anos. A impressão geral que transmitia era
a de um misto de fiscal de trem com um violinista desempregado.
Sentei-me pela segunda vez.
— Espero que a minha pergunta não o tenha aborrecido — desculpou-se o
velho.
— Mas é claro que não.
— É que quase não tenho oportunidade de conversar com um inglês. Quando
encontro um, eu sempre o agarro a unha. Está certa esta expressão?
— Está — respondi, tentando arrolar as palavras húngaras que eu conhecia.
Sim, não, bom dia, adeus, estou perdido, socorro.
— Está na competição dos estudantes?
— Estava, não estou mais. Fui eliminado já na segunda-feira.
— Não foi bastante rápido, não é?
Soltei uma risada, admirando mais uma vez seu tranquilo domínio do inglês.
— Como é que o senhor fala inglês tão bem?
— Acho que está um tanto descurado. Mas ainda permitem que eu o ensine
na universidade. Devo confessar, porém, que não tenho nenhum interesse por
esporte. É que essas ocasiões sempre me oferecem a chance de encontrar alguém
como você e de azeitar a máquina enferrujada, mesmo que só por alguns
minutinhos. — O sorriso foi triste, mas agora seus olhos cintilavam. — Mas de
onde você vem?
— Somerset — respondi.
— Ah — fez ele —, talvez seja o condado mais bonito da Inglaterra. —
Sorri, pois sabia que a maioria dos estrangeiros nunca ia além de Stratford-upon-
Avon ou Oxford. — Atravessar o Mendips — continuou — passando por zonas
rurais cheias de colinas verdejantes e parando em Cheddar para ver as cavernas
de Gough, em Wells para entreter-se com os cisnes negros tocando os sinos no
muro da Catedral, ou em Bath para admirar vestígios da Roma clássica, e então,
talvez, ir até a divisa do condado e seguir até Devon... Na sua opinião, Devon é
mais bonito ainda que Somerset?
— Nunca! — exclamei.
— Você deve ser um tanto preconceituoso — disse, rindo. — Agora vamos
ver se me lembro:

Dos condados do oeste sete existem


Mas o mais glorioso é decerto o de Devon.

... Talvez Hardy, como você, fosse preconceituoso a ponto de poder pensar
apenas em sua amada Exmoor, a aldeia de Tiverton e a Plymouth de Drake.
— Qual é o seu condado preferido? — perguntei.
— Na minha opinião, o North Riding de Yorkshire sempre foi subestimado
— respondeu o velho. — Quando se fala de Yorkshire, imagino que lá Leeds,
Sheffield e Barnsley acorrem à memória. Jazidas carboníferas e indústria pesada.
Os visitantes deveriam olhar também para os vales da região; eles os acharão tão
diferentes quanto um giz e um queijo. Lincolnshire é bastante plano e acho que
muitos dos condados centrais devem estar hoje prejudicados pela expansão das
cidades. Os Birmingham deste mundo não exercem nenhuma atração sobre mim.
Mas, no fim, acabo dando preferência a Worcestershire e Warwickshire, essas
duas graciosas e velhas aldeias inglesas aninhadas no Cotswalds e coroadas por
Stratford-upon-Avon. Como eu gostaria de estar na Inglaterra em 1959, enquanto
as feridas da revolução cicatrizavam entre meus conterrâneos. Olivier
interpretando Coriolanus — outro homem que não quis mostrar suas cicatrizes.
— Eu vi seu desempenho nessa peça — disse eu. — Fui com um grupo da
escola.
— Rapaz de sorte. Traduzi esta peça para o húngaro aos dezenove anos. No
ano passado, relendo meu trabalho, tomei consciência de que devo repetir o
exercício antes de morrer.
— O senhor traduziu outras peças de Shakespeare?
— Todas, menos três. Deixei Hamlet por último. Pretendo retomar
Coriolanus e começar de novo. Em que universidade você estuda?
— Oxford.
— E sua escola?
— Brasenove.
— Ah, BNC Que maravilha estar a poucos metros da Bodleian, a maior
biblioteca do mundo. Se tivesse nascido na Inglaterra, gostaria de passar os meus
dias em All Souls... fica do outro lado de BNC, não é?
— Fica.
O professor ficou em silêncio enquanto assistíamos à corrida seguinte, a
primeira semifinal dos 1.500 metros. O vencedor foi Anfras Patovich, um
húngaro, e a torcida vibrou de alegria.
— Isso que eu chamo dar força — comentei.
— Como o Manchester United, quando marcou o gol da vitória na final do
campeonato. Aqui, porém, os meus conterrâneos não aplaudiram porque o
húngaro foi o primeiro colocado — disse o velho.
— Não? — fiz eu, surpreso.
— Oh, não, deram vivas porque ele derrotou o russo.
— Nem notei nisso.
— Você não tinha por que notar, mas nós, a primeira coisa que pressentimos
é a presença de um russo. Além do mais, são raras as oportunidades que temos
de vê-los derrotados.
Procurei envolvê-lo num assunto mais alegre.
— Se não fosse aceito pelo All Souls, a que universidade o senhor gostaria
de ter ido?
— Como estudante, você quer dizer?
— Sim.
— Sem dúvida a universidade mais bonita é a Magdalen. Com a grande
vantagem de situar-se às margens do rio Cherwell. Já dá para você perceber
minha fraqueza pela arquitetura perpendicular e meu amor por Oscar Wilde.

Um tiro de pistola interrompeu a conversa e acompanhamos a segunda


semifinal dos 1.500 metros; o vencedor foi Orentas, da Rússia, e desta vez a
torcida expressou sua curiosa desaprovação aplaudindo de maneira que a mão
esquerda caísse sobre a direita sem que ambas se tocassem. A cena fez o
professor mergulhar num silêncio pesaroso. A última prova do dia foi vencida
por Tim Johnston, da Inglaterra, e pus-me de pé para aplaudir entusiasmado. A
torcida húngara concedeu-lhe aplausos discretos.
Voltei-me para dizer adeus ao professor, que continuava calado.
— Quanto tempo vai ficar em Budapeste? — perguntou ele.
— O resto da semana. Volto para a Inglaterra no domingo.
— Terá tempo para jantar com um velho uma noite dessas?
— Seria um prazer.
— Ótimo! — exclamou, e escreveu seu nome completo e o endereço em
letras de forma no verso do meu programa. — Que tal amanhã, às sete? E se
você tiver alguns jornais ou revistas velhos para trazer... — disse um tanto
acanhado. — Não se dê o trabalho de mandar me avisar se não puder vir...
Passei a manhã seguinte visitando a Igreja de St. Matthias e a antiga
fortaleza, dois dos edifícios que não exibiam nenhuma marca da revolução. Fiz
então um pequeno passeio até o Danúbio antes de passar a tarde torcendo por
nossos nadadores, na piscina, olímpica. Às seis deixei o clube e voltei para o
hotel. Vesti o paletó do time e calças cinzas, para parecer elegante ao meu ilustre
anfitrião. Fechei a porta e, quando já ia tomando o elevador, lembrei-me. Voltei
ao quarto para pegar a pilha de jornais e revistas que havia coletado com o
pessoal do time.
Não foi tão fácil quanto eu esperava encontrar a casa do professor. Depois de
errar pelas ruas de paralelepípedos e de mostrar seu endereço a várias pessoas,
fui finalmente guiado até um velho prédio de apartamentos. Subi os três lanços
da escada de madeira com alguns poucos saltos, tentando calcular em quanto
tempo o professor faria aquela escalada todos os dias. Detive-me diante da porta,
conferi o número e bati.
O velho abriu imediatamente, como se estivesse esperando atrás da porta.
Notei que ele usava o mesmo terno do dia anterior.
— Desculpe o atraso — disse eu.
— Não tem importância. Os meus estudantes também acham que é difícil
achar minha casa — disse, segurando-me a mão. Fez uma pausa. — É ruim isso
de usar a mesma palavra duas vezes numa única frase. “Localizar” teria ficado
melhor, não?
Caminhou a passos rápidos na minha frente, sem esperar a resposta. Era,
evidentemente, um homem acostumado a viver sozinho. Através de um pequeno
e escuro corredor, levou-me até a sala. Fiquei chocado com suas dimensões. Em
três paredes pendiam gravuras e aquarelas medíocres de paisagens inglesas,
enquanto a quarta parede estava totalmente forrada por uma enorme estante.
Pude distinguir Shakespeare, Dickens, Austin, Trollope, Hardy, até mesmo
Waugh e Graham Greene. Sobre a mesa havia um exemplar amarelado da New
Statements. Olhei ao meu redor para ver se estávamos sozinhos e não topei com
sinais da presença de uma esposa ou um filho, nem em retratos, nem em pessoa.
A mesa de fato fora posta apenas para dois.
O velho voltou-se e seus olhos brilharam com alegria infantil quando notou o
pacote de jornais e revistas que eu trazia.
— Punch, Time e o Observer, um verdadeiro banquete! — exclamou,
pegando-os com cuidado para depositá-los carinhosamente na cama ao canto da
sala.
O professor então abriu uma garrafa de Szürkebarát e, deixando-me a olhar
os quadros, foi preparar a refeição. Entrou num cômodo tão minúsculo, que mal
era possível imaginar que lá se situasse uma copa-cozinha. De onde estava, sem
que eu pudesse vê-lo, continuou a bombardear-me com perguntas sobre a
Inglaterra, muitas das quais eu não tinha condições de responder.
Minutos depois retomou à sala.
— Sente-se — pediu ele. — Não quero que puxe a cadeira. Quero que se
sente nela.
O prato que depositou à minha frente continha uma coxa de ave, galinha
talvez, algumas fatias de salame e um tomate. Senti tristeza, não porque a
comida fosse tão pobre, mas porque ele a julgava abundante.
Após o jantar, que, apesar do meu esforço para mastigar devagar e falar
bastante, não durou muito, o velho preparou um café amargo. Encheu um
cachimbo antes de retomar nossa conversa. Discutimos sobre Shakespeare, seu
ponto de vista sobre A. L. Rowse e então entramos na política.
— É verdade — perguntou — que logo a Inglaterra vai ter um governo
trabalhista?
— É o que as pesquisas de opinião parecem indicar.
— Imagino que, para os ingleses, Sir Alec Douglas-Home não esteja se
adaptando muito bem aos anos 60 — comentou o professor, agora tirando fundas
baforadas do cachimbo. Fez uma pausa — Não tenh do que me queixar. É um
privilégio ser professor de inglês numa grande universidade. Eles não interferem
no meu departamento e Shakespeare ainda não é considerado subversivo. — Fez
uma pausa, para extrair outra gigantesca tragada do cachimbo. — E o que você
fará, meu jovem, quando deixar a universidade... já que você nos mostrou que
não tem condições de viver do esporte?
— Quero ser escritor.
— Pois então viaje, viaje, viaje! — exclamou. — Não espere aprender tudo
nos livros. Deve conhecer o mundo por si, se pretende pintá-lo para os outros.
Olhando para o velho relógio sobre o consolo da lareira, verifiquei que o
tempo se escoara rapidamente.
— Infelizmente preciso ir. Temos que estar no hotel antes das dez.
— Naturalmente — disse num tom que pretendia ridicularizar a mentalidade
vigilante das escolas inglesas. — Eu o acompanho até a Praça Kossuth; de lá
você pode ver o hotel sobre a colina.
Ao sairmos do apartamento, notei que ele não se preocupou em trancar a
porta. Tinha muito pouco para perder. Guiou-me rapidamente pelo labirinto de
ruelas, fazendo comentários a respeito dos prédios veneráveis, dono que era de
uma inesgotável fonte de informações sobre o seu e o meu país. Na Praça
Kossuth, apertou minha mão e segurou-a, relutando em deixar-me ir, como
costumam fazer as pessoas solitárias.
— Obrigado por deixar que este velho se deliciasse com uma conversa sobre
seu assunto predileto.
— Obrigado pela hospitalidade — disse eu. — E quando for a Somerset,
apareça em Lympsham para conhecer minha família.
— Lympsham? Não me lembro desse lugar — disse ele, um tanto
preocupado.
— O que não me surpreende. A aldeia não tem mais que 22 habitantes.
— O bastante para formar dois times de críquete — observou o professor. —
Um jogo, confesso, que nunca me atraiu.
— Não se preocupe, metade da Inglaterra também não se interessa por
críquete.
— Ah, mas eu bem que gostaria de ver uma partida. O que é "gully", uma
"não-bola", um "vigia"? Esses termos sempre me intrigaram.
— Pois então venha me procurar quando for à Inglaterra da próxima vez e eu
o levo ao Lord para ensinar-lhe alguma coisa.
— É muita gentileza sua — comentou. Hesitou antes de acrescentar: — Mas
não creio que voltemos a nos encontrar.
— Por que não?
— Bom, veja, eu nunca saí da Hungria em toda a minha vida. Não pude sair
quando era jovem e, agora, não acredito que os atuais donos do poder vão me
permitir ver a minha querida Inglaterra.
Soltou minha mão, virou-se e dissolveu-se rapidamente nas trevas das ruelas
de Budapeste.
Mais uma vez li seu obituário no The Times, além das manchetes sobre o
Afeganistão e seus efeitos sobre as Olimpíadas de Moscou.
Ele estava certo. Nunca mais nos encontramos.

The Hungarian professor


Amor antigo
Algumas pessoas, dizem, apaixonam-se à primeira vista, mas não foi o caso
de William Hatchard e Philippa Jameson. Odiaram-se já no instante em que se
conheceram. A mútua aversão começou em suas aulas na universidade. No início
da década de 30, ambos conseguiram valiosas bolsas de estudos de língua e
literatura inglesas: William em Merton, Philippa em Somerville. A cada um os
mestres transmitiram a certeza de que seriam os alunos mais brilhantes de sua
turma.
Seu preceptor, Simon Jakes, do New College, ao mesmo tempo que se sentia
atônito e interessado pela feroz competição que rapidamente se instalou entre
seus dois alunos mais brilhantes, manipulava com habilidade esse antagonismo
para extrair o que havia de melhor neles, sem permitir que se chocassem
frontalmente. Philippa, uma ruivinha esguia e atraente, de voz um tanto aguda,
tinha a mesma estatura de William e por isso brandia todos os argumentos que
conseguia do alto de seus recém-adquiridos sapatos de salto; William, cuja voz
grave continha a inflexão da autoridade, procurava sempre expor suas opiniões
sentado. Quanto mais crítica se tomava a rivalidade, mais se esforçavam por
superarem um ao outro. Simon Jakes disse ao professor de estudos anglo-saxões
de Merton que jamais vira num mesmo ano uma dupla tão brilhante, que não
tardaria a desafiá-lo.
Durante as férias, cada um se entregou a um extenuante programa de
estudos, na ideia fixa de que o outro estaria se esforçando um pouco mais.
Dissecaram Blake, Wordsworth, Coleridge, Shelley, Byron e só iam para a cama
na companhia de Keats. Quando voltaram para o segundo ano, constataram logo
no primeiro dia que a separação intensificara ainda mais o sentimento de
hostilidade; nada adiantou terem empatado com um A-mais em suas dissertações
sobre o Beowulf. Nessa noite, Simon Jakes observou numa reunião de mestres no
New College que, se Philippa Jameson fosse homem, algumas de suas aulas
terminariam aos socos.
— Por que não os separa? — perguntou, sonolento, o reitor.
— O quê? E dobrar minha carga de trabalho? — retrucou Jakes. — Um
ensina ao outro a maior parte do tempo: eu simplesmente participo como árbitro.
Ocasionalmente os adversários queriam saber de Jakes quem estava à frente,
e cada um se sentia tão seguro de ser o predileto que fazia perguntas no
momento da inquirição do outro. Jakes era hábil demais para deixar-se aliciar; ao
contrário, lembrava-lhes que os árbitros decisivos seriam os examinadores, não
ele. Assim, passaram a empregar subterfúgios, referindo-se entre si, de forma
bastante audível, como “aquela garota idiota” e “aquele indivíduo arrogante”. Ao
final do segundo ano, já se tornara impossível deixá-los juntos numa mesma
sala.

Nas férias seguintes, William teve um interesse transitório por Al Jolson e


uma garota chamada Ruby, enquanto Philippa flertava com o Charleston e um
jovem tenente da Marinha. Mas quando o período letivo recomeçou, esses
interlúdios sentimentais foram abandonados bruscamente.
Seguindo os conselhos de Simon Jakes, ambos se inscreveram para o prêmio
Charles Oldham Shakespeare, ao lado dos outros estudantes daquele ano, como
fortes candidatos ao primeiro lugar. O prêmio Charles Oldham era atribuído a
um ensaio sobre determinado aspecto da obra de Shakespeare, e Philippa e
William compreenderam que nele teriam uma oportunidade única para se porem
à prova numa competição decisiva. Sorrateiramente, e cada um a seu modo,
esforçaram-se para superar as dificuldades de qualquer peça de Shakespeare, de
Henrique VI a Henrique VIII, e mantiveram Jakes ocupado muito além das horas
de aula, exigindo sempre uma discussão mais e mais precisa sobre pontos mais e
mais obscuros.
O tema escolhido para o prêmio daquele ano foi “A sátira em Shakespeare”.
Troilus e Cressida evidentemente requeria o máximo de atenção, mas ambos
descobriram que havia nuances de sátira em praticamente todas as trinta e sete
peças do dramaturgo. “Para não falar no conjunto de sonetos”, escreveu Philippa
para o pai num raro momento de incerteza. À medida que o ano chegava ao fim,
ia ficando claro para todos os envolvidos que ou William ou Philippa estava
destinado a ganhar o prêmio e que o segundo lugar ficaria para o outro.
Entretanto, ninguém se aventurava a prognosticar qual seria o vencedor. O
porteiro do New College, especialista no assunto, ao dar seu costumeiro palpite
sobre o resultado do Charles Oldham, atribuiu-lhes o mesmo escore; dez para os
dois, contra um ao resto dos candidatos.
Antes da entrega do ensaio, os dois tinham de prestar os exames finais de
graduação. Por duas semanas, Philippa e William confrontaram suas notas todas
as manhãs e tardes, com uma mesquinha avidez. Não foi surpresa para ninguém
ambos se diplomarem com distinção nos exames finais de especialização.
Comentava-se na universidade que os rivais haviam tirado A em cada um dos
nove exames.
— Bem que eu gostaria que fosse verdade — disse Philippa a William. —
Mas devo lembrar que há grande diferença entre um A-mais e um A-menos.
— Não posso concordar com você mais — disse William. — E quando sair o
nome do vencedor do Charles Oldham, você saberá quem recebeu menos.

Nas três semanas anteriores à entrega do ensaio, os dois trabalhavam doze


horas por dia, caindo no sono sobre livros escolares, sonhando que o rival
estudava mais ainda. Finalmente chegou o grande dia. À hora marcada para a
entrega do ensaio, encontraram-se no saguão de piso de mármore do
Departamento de Estudos carregado de uma penumbra lúgubre.
— Bom dia, William, espero que os seus esforços o coloquem entre os seis
primeiros.
— Obrigado, Philippa. Se eu não conseguir, vou procurar os nomes de C. S.
Lewis, Nichol Smith, Nevil Coghill, Edmund Bunden, R. W. Chambers e H. W.
Garrard à minha frente. Não há mais ninguém entre os concorrentes com quem
tenha de me preocupar.
— Fiquei muito satisfeita — disse Philippa, como se não tivesse escutado a
saudação do adversário — por você não ter se sentado perto de mim, o que
garantiu, pela primeira vez em três anos, a impossibilidade de você colar as
minhas anotações.
— A única coisa que colei de você até hoje, Philippa, foi o horário dos trens
de Oxford para Londres. E, como constatei mais tarde, ele estava ultrapassado,
coisa, por sinal, comum em tudo o que parte de você.
Os dois entregaram seus ensaios de vinte e cinco mil palavras na recepção do
Departamento de Estudos e se separaram sem nenhum comentário, retornando às
suas respectivas faculdades para aguardar impacientes o resultado.
William procurou relaxar no fim de semana e, pela primeira vez em três
anos, jogou tênis, contra uma garota da St. Anne. Não conseguindo ganhar uma
única partida. Quase morreu afogado quando foi nadar, coisa que teve de fazer
quando decidiu remar. Só sentia alívio por saber que Philippa não havia
testemunhado suas proezas musculares.

Na noite de segunda-feira, após um soberbo jantar com o professor de


Merton, resolveu passear ao longo das margens do Cherwell, para desanuviar a
cabeça antes de dormir. A noite de maio ainda estava clara quando desceu na
direção de Merton Wall, através da campina que o levaria às margens do
Cherwell. Perambulava pela trilha sinuosa, quando pensou ter avistado sua rival
logo à frente, lendo sob uma árvore. Achou que seria melhor fazer meia-volta,
mas, julgando que ela já o tinha visto, continuou a caminhada.
Por três dias não vira Philippa, embora raramente a tirasse do pensamento:
depois que ele ganhasse o Charles Oldham, aquela mulher idiota teria de descer
de seu pedestal. Sorriu com a ideia e decidiu passar por ela com indiferença. Ao
se aproximar, levantou os olhos até então fixos no chão para captá-la num
relance, enrubescendo ao antecipar o inevitável cumprimento áspero. Como nada
ouvisse, olhou com mais atenção e descobriu então que ela não estava lendo:
enterrara a cabeça entre as mãos e dava a impressão de soluçar silenciosamente.
Retardou-se para observar melhor; não era mais a formidável rival que o
perseguira por três anos que ali estava sentada, mas uma criatura infeliz e
solitária, totalmente desamparada.
A primeira reação de William foi pensar que ela já havia tomado
conhecimento do vencedor do prêmio, que era ninguém menos do que ele
próprio. Repensando no assunto, porém, compreendeu que este poderia não ser o
caso: os examinadores tinham recebido os ensaios naquela manhã e, como todos
os assistentes liam cada um dos trabalhos, não era possível que os resultados
saíssem antes do fim da semana. Philippa não levantou os olhos quando ele se
aproximou. William nem podia assegurar se ele se apercebera de sua presença.
Ao deter-se para encarar a adversária, William não pôde deixar de notar que seus
longos cabelos ruivos se encaracolavam na altura dos ombros. Sentou-se a seu
lado, mas nem assim ela se moveu.
— O que aconteceu? — perguntou. — Posso ajudá-la em alguma coisa?
Ela levantou a cabeça, revelando um rosto afogueado de tanto chorar.
— Não, em nada William, a não ser me deixar sozinha. Você me priva da
solidão sem me oferecer companhia.
William ficou satisfeito por ter reconhecido imediatamente a alusão literária.
— Que é que há, Madame de Sévigné? — perguntou, mais por curiosidade
do que por preocupação, dividido entre a solidariedade e a vontade de pegá-la
desarmada.
Um tempo enorme pareceu ter passado antes que ela respondesse.
— Meu pai morreu esta manhã — disse finalmente, como se falasse consigo
mesma.
Ocorreu a William como era estranho o fato de que ele, tendo convivido com
Philippa por mais de três anos, nada sabia a respeito de sua vida familiar.
— E sua mãe? — perguntou ele.
— Morreu quando eu tinha três anos. Nem mesmo me lembro dela. Meu pai
é... — Fez uma pausa. — Era pároco e me criou, sacrificando tudo o que tinha
para que eu estudasse em Oxford, até a prataria da família. Eu gostaria tanto de
ganhar o prêmio Charles Oldham por ele!
William ameaçou colocar timidamente a mão no ombro de Philippa.
— Não seja boba. Quando você ganhar o prêmio, eles a proclamarão a
melhor aluna da década. Afinal de contas, você teve de me derrotar para alcançar
a distinção.
Ela tentou sorrir.
— Claro que eu queria derrotar você, William, mas era só por papai.
— Como ele morreu?
— De câncer, mas nunca soube que estava doente. Ele me pediu para não
voltar para casa nas férias de verão, porque achava que a interrupção poderia
interferir nos exames finais e no prêmio Charles Oldham. E durante todo esse
tempo ele me mantinha afastada porque sabia que, se eu o visse no estado em
que se encontrava, eu não poderia completar qualquer trabalho sério.
— Onde você mora? — perguntou William, de novo surpreso por não saber.
— Brockenhurst. Em Hampshire. Vou para lá amanhã cedo. O funeral será
na quarta-feira.
— Posso acompanhá-la? — perguntou William.
Philippa fitou-o e captou uma suavidade nos olhos do adversário que ela
nunca notara antes.
— Seria muito gentil, William.
— Pois então venha, sua garota idiota! Vou levá-la de volta à faculdade.
— Na última vez em que me chamou de “garota idiota” foi a sério.
William não achou estranho que andassem de mãos dadas ao longo da
margem do rio. Nenhum dos dois falou antes de chegarem em Somerville.
— A que horas devo apanhá-la? — perguntou ele, sem soltar-lhe a mão.
— Não sabia que você tinha carro.
— Meu pai me deu um velho MG quando passei em primeiro lugar. Há
muito tempo que venho tentando encontrar uma desculpa para lhe mostrar
aquele cacareco. O botão de ignição é de pressão, sabe?
— Evidentemente ele não quis esperar para lhe dar o carro depois dos
resultados do Charles Oldham. — William riu mais do que a anedota merecia. —
Desculpe — fez ela. — Ponha na conta do hábito. Estou ansiosa para ver como
você dirige; se você dirigir como escreve é bem possível que a viagem jamais
termine. Eu o espero às dez.
Na viagem para Hampshire, Philippa falou a respeito do trabalho do pai e
perguntou sobre a família de William. Pararam para almoçar num bar em
Westminster. Guisado de coelho e purê de batatas.
— A primeira refeição que fazemos juntos — observou William.
Não houve nenhuma resposta irônica; Philippa simplesmente sorriu.
Após o almoço, tomaram a direção da aldeia de Brockenhurst. William
estacionou o carro desajeitadamente no terreno de cascalhos em frente ao
presbitério. Uma criada idosa, vestida de preto, atendeu à porta, surpreendendo-
se ao ver a Srta. Philippa em companhia de um homem. Philippa apresentou
Annie a William e pediu-lhe que preparasse o quarto de hóspedes.
— Fico muito feliz por ter encontrado um jovenzinho tão simpático —
comentou Annie mais tarde. — Conhece-o há muito tempo?
Philippa sorriu:
— Não, encontramo-nos ontem pela primeira vez.
Philippa preparou ela mesma o jantar para William, e ambos comeram ao
lado do fogo que ele fizera na lareira da sala. Embora tivessem trocado poucas
palavras no espaço de três horas, nenhum dos dois se sentia aborrecido. Philippa
começou a observar o modo como o cabelo claro e desalinhado de William caía
sobre a testa e calculou que ele teria uma aparência muito distinta quando velho.

Na manhã seguinte, ela entrou na igreja amparada pelo braço de William e


mostrou-se corajosa durante o funeral. Terminado o serviço, William levou-a de
volta ao presbitério, agora apinhado dos muitos amigos que o pároco fizera.
— Não nos leve a mal — disse o Sr. Crump, superior do vigário, a Philippa.
— Você era tudo para o seu pai e todos nós tínhamos de seguir estritamente as
instruções de esconder-lhe a doença para que você não fosse prejudicada nos
estudos para o prêmio Charles Oldham. É este o nome, não?
— Sim — fez Philippa, — Mas agora isso me parece tão insignificante.
— Ela ganhará o prêmio em memória do pai — disse William.
Philippa voltou-se para olhá-lo, percebendo, pela primeira vez, que ele
realmente desejava que ela ganhasse o prêmio.
Pernoitaram no presbitério e voltaram para Oxford na quinta-feira. Na manhã
seguinte, às dez horas William foi à faculdade de Philippa e pediu ao porteiro
para falar com a Srta. Jameson.
— Faça-me a gentileza de esperar no Horsebox, senhor — disse o porteiro
introduzindo William numa pequena sala nos fundos da residência. Em seguida
saiu correndo à procura da Srta, Jameson.
Voltaram juntos alguns minutos depois.
— Mas o que é que está fazendo aqui?
— Vim buscá-la para irmos a Stratford.
— Mas ainda nem tive tempo de tirar da mala as coisas que trouxe de
Brockenhurst!
— Vá tirar; dou-lhe quinze minutos.
— Naturalmente — disse ela. — Quem sou eu para desacatar as ordens do
iminente vencedor do Charles Oldham? Permitirei inclusive que você suba
comigo até o quarto por um minutinho, para me ajudar a desfazer as malas.
As sobrancelhas do porteiro ergueram-se a ponto de tocar a ponta do boné,
mas ele permaneceu em silêncio, em deferência à recente perda da Srta.
Jameson. Também agora William se surpreendia mais uma vez por nunca ter
estado no quarto de Philippa. Ele escalara muros de várias faculdades femininas
para desfrutar a companhia de garotas de diversos graus de estupidez, mas nunca
para estar com Philippa. Sentou-se na ponta da cama.
— Aí não, criatura estabanada. A criada acabou de arrumá-la. Os homens são
sempre os mesmos, nunca sentam em cadeiras.
— Um dia me sentarei — disse William. — A cadeira de língua e literatura
inglesa.
— Não, pelo menos enquanto eu estiver nesta universidade — disse ela,
entrando no banheiro.
— Boas intenções são uma coisa elogiável, mas talento é outra
completamente diferente — disse erguendo a voz, intimamente satisfeito por ter
recuperado sua verve para competições.
Quinze minutos depois voltou usando um vestido amarelo florido com um
elegante colarinho branco e punhos combinando. William achou que em seu
rosto havia até um toque de maquiagem.
— Não será bom para a nossa reputação que nos vejam juntos.
— Pensei nisso — disse William. — Se me perguntarem, eu direi que você é
minha protegida.
— Sua protegida?
— Sim, este ano estou protegendo órfãos necessitados.
Philippa marcou seu retorno à faculdade para até meia-noite e os dois
estudantes desceram para Stratford, parando em Broadway para o almoço. A
tarde remaram no rio Avon. Ela admitiu que já ouvira falar do quanto ele gostava
de exibir-se, mas voltaram sãos e salvos à margem: talvez porque Philippa tenha
se encarregado do remo. Assistiram a John Gielgud interpretando Romeu e
jantaram no Dirty Duck. Philippa mostrou-se um tanto rude com William
durante a refeição.
Iniciaram a viagem de volta pouco depois das onze e Philippa tratou de
cochilar, já que mal podiam conversar em meio ao ruído do motor do carro.
Deviam estar a cerca de vinte e cinco milhas de Oxford quando o MG parou.
— Pensei — disse William — que quando o ponteiro do mostrador chegasse
ao zero ainda haveria pelo menos um galão de gasolina no tanque.
— Pois enganou-se redondamente, e não pela primeira vez. Agora, por causa
desse horrível senso de previsão, terá de andar sozinho até o posto mais
próximo... nem tente imaginar que posso lhe fazer companhia. Pretendo ficar
exatamente aqui, no quentinho.
— Mas não existe nenhum posto entre este lugar e Oxford — objetou
William.
— Então você terá de me carregar no colo. Sou frágil demais para longas
caminhadas.
— Eu não chegaria a cinquenta metros, depois daquele jantar e todo aquele
vinho.
— Para mim é mais do que um mistério, William, como você conseguiu
diplomar-se com distinção em inglês quando não é nem mesmo capaz de ler o
mostrador do tanque.
— Só há uma coisa a fazer — disse William. — Teremos de esperar o
primeiro ônibus da manhã.
Philippa passou com dificuldade para o banco traseiro e não tornou a falar
com ele antes de adormecer. William pôs o chapéu, o cachecol e as luvas e
cruzou os braços para se aquecer. Dali a instantes, tirou o casaco e cobriu-a com
ele. Antes de adormecer, acariciou os cabelos desalinhados de Philippa, num
suave boa-noite.
Philippa acordou primeiro, pouco depois das seis, e gemendo ao tentar
esticar o corpo dolorido. Sacudiu William para acordá-lo e perguntar-lhe por que
o pai achou que ele não merecia um carro com um confortável banco traseiro.
— Mas este é o que há de melhor no momento — disse William,
massageando cuidadosamente os músculos do pescoço antes de recolocar o
casaco.
— Sem gasolina, parece apenas a lata velha que na verdade é — respondeu
ela, saindo do carro para esticar as pernas.
— Mas eu só deixei acabar a gasolina por uma razão — disse William, indo
ter com ela à frente do carro.
Philippa aguardou a conclusão da infame piada, e não ficou desapontada.
— Meu pai me disse que, se eu passasse a noite com uma garçonete poderia
simplesmente pedir mais uma cerveja, mas, se passasse a noite com a filha de
um pároco, então teria de me casar com ela.
Philippa riu. William, cansado, barba por fazer, sobrecarregado com o peso
do casaco, mal conseguiu cair sobre um dos joelhos.
— O que está fazendo, William?
— O que pensa que estou fazendo, sua garota idiota? Pedindo-a em
casamento!
— Proposta que recuso com muita satisfação, William. Se aceitasse, poderia
ficar pelo resto da minha vida encalhada numa estrada entre Oxford e Stratford.
— Casará comigo se eu ganhar o Charles Oldham?
— Como não há, absolutamente, o risco de que isso aconteça, posso garantir
que caso. Agora levante-se, William, antes que alguém o tome por uma cegonha
perdida.

O primeiro ônibus passou às sete e cinco da manhã daquele sábado e levou


Philippa e William de volta para Oxford. Philippa correu para seu aposento
ansiosa por um banho quente, enquanto William encheu um galão de gasolina e
retornou ao seu MG abandonado. Daí voltou diretamente para Somerville e mais
uma vez pediu para falar com a Srta. Jameson. Ela desceu minutos depois.
— Você outra vez? Será que não bastam os problemas em que já me meteu?
— Por quê?
— Porque não voltei antes da meia-noite.
— Mas você estava acompanhada.
— E é isso que os preocupa.
— Contou-lhes que passamos a noite juntos?
— Não, não contei. Não me importo que minhas colegas pensem que sou
promíscua, mas tenho fortes objeções quanto a acreditarem que não tenho bom
gosto. Agora, por favor, vá embora, pois estou prevendo o horror que vai ser
você ganhar o Charles Oldham e eu ter de passar o resto da minha vida a seu
lado.
— Se você sabe que sou capaz de ganhar, por que não vem viver comigo
agora?
— Sei que hoje em dia é moda dormir com qualquer um, William, mas se
este será o meu último fim de semana em liberdade prefiro aproveitá-lo
principalmente porque talvez eu tenha de pensar sobre o suicídio.
— Eu a amo.
— Pela última vez, William, vá embora. E, se você não ganhar o Charles
Oldham, nunca mais me ponha os pés em Somerville.
William foi embora, agora ainda mais ansioso por saber o resultado do
prêmio de ensaio. Se percebesse o quanto Philippa desejava que ele ganhasse,
não teria passado aquela noite em claro.

Na manhã de segunda-feira, ambos chegaram cedo ao Departamento de


Estudos e, sem se falarem, esperam impacientemente, comprimidos entre outros
graduandos do mesmo ano que também concorriam ao prêmio. Às dez em ponto,
o presidente dos examinadores, vestindo roupas acadêmicas, andando num ritmo
de tartaruga, entrou no grande auditório e fingindo grande indiferença afixou
uma comunicação no quadro de avisos. Todos os estudantes registrados no
concurso avançaram correndo, menos William e Philippa, que ficaram sozinhos,
cientes de que agora era tarde demais para influenciar um resultado que ambos
temiam.
Uma garota soltou um grito em meio à confusão que se formara em torno do
quadro de avisos e correu para Philippa.
— Parabéns, Phil. Você ganhou.
Lágrimas inundaram os olhos de Philippa. Ela voltou-se para William.
— Aceite também os meus cumprimentos — apressou-se ele a dizer. — Você
mereceu o prêmio.
— No sábado eu queria lhe dizer uma coisa...
— Você disse. Disse que se eu perdesse não deveria mais botar os pés em
Somerville.
— Não, eu queria dizer: não há nada no mundo que eu ame mais do que a
você. Não é estranho?
Ele a contemplou em silêncio por um instante. Era impossível superar uma
resposta de Beatriz.
— Tão estranho como as coisas que desconheço — disse ele brandamente.
Um amigo da universidade bateu-lhe no ombro, tomou-lhe a mão e apertou-a
vigorosamente. Proxime accessit era, evidentemente, façanha impressionante aos
olhos dos outros. Mas não aos de William.
— Parabéns, William.
— O segundo lugar não merece elogio — disse William com desdém.
— Mas você ganhou, meu Billy.
Philippa e William entreolharam-se.
— Mas o que é que você está dizendo?
— Isso mesmo que eu disse. Você ganhou o prêmio Charles Oldham.
Philippa e William foram correndo até o quadro e leram apressadamente o
comunicado.

PRÊMIO CHARLES OLDHAM


OS EXAMINADORES VIRAM-SE IMPOSSIBILITADOS,
NESTA OCASIÃO, DE CONFERIR O PRÊMIO A UMA ÚNICA
PESSOA, TENDO ENTÃO DECIDIDO DIVIDI-LO.

Ambos olharam fixamente o quadro por alguns segundos. Finalmente,


Philippa mordeu os lábios e disse em voz baixa:
— Bom, você não se saiu tão mal, considerando-se a concorrência. Estou
preparada para honrar meu compromisso, e a esta luz aceito-te por piedade.
William não precisava de inspiração.
— Não te negaria, mas por este dia perfeito cedo à poderosa persuasão, pois
segundo soube tu definhavas.
E para a alegria de seus colegas e assombro do lente que se retirava,
abraçaram-se ali, diante do quadro de avisos.
Passou-se a comentar que, a partir daquele momento, jamais se separaram
por mais de algumas horas.

O casamento ocorreu um mês depois na igreja da família de Philippa, em


Brockenhurst.
— Bom, afinal de contas — comentou o colega de quarto de William —,
com quem mais ela poderia ter casado?
O rixento casal começou a lua de mel em Atenas discutindo o significado da
arquitetura dórica e jônica, sobre as quais nenhum dos dois sabia mais do que
secretamente aprenderam num guia turístico de meia-coroa. Zarparam para
Istambul, onde William prostrou-se diante de todas as mesquitas que encontrou,
enquanto Philippa ficava sozinha a distância fervendo internamente com o
tratamento que os turcos davam às mulheres.
— Os turcos são uma raça inteligente — declarou William —, certeira no
julgamento dos autênticos valores.
— Então por que você não segue a religião muçulmana, William? Assim
precisarei estar na sua presença apenas uma vez por ano.
— Uma desventura de origem, uma lealdade erradamente dirigida e a
assinatura de um infeliz contrato impõem que eu passe a seu lado o resto da
minha vida.
De Volta a Oxford, com bolsas para pesquisa em suas respectivas faculdades,
dedicaram-se a um sério e criativo trabalho. William iniciou um grande estudo
sobre o uso vocabular de Marlowe e, nas horas vagas, era um autodidata de
estatística, que deveria usar como suporte para suas descobertas. Philippa
escolhera como tema a influência da Reforma sobre os escritores ingleses do
século XVII e logo ultrapassava os limites da literatura, atraída pelas artes
plásticas e pela música. Comprou uma espineta e passou a tocar Dowland e
Gibbons à noite.
— Pelo amor de Deus! — exclamava William, exasperado com aquele som
metálico. — Você não vai inferir nada das convicções religiosas dos protestantes
com suas partituras musicais.
— São mais informativas que as discussões dos especialistas — respondia
ela, sem se perturbar — e, à noite, bem mais relaxantes do que lavar louça.
Três anos mais tarde, depois de apresentarem elogiosas teses de
doutoramento, começaram, invariavelmente juntos, a dar aulas para bolsistas da
universidade. Enquanto a longa sombra do fascismo sufocou a Europa, leram,
escreveram e debateram diante das mesmas tranquilas lareiras.
— Magro ano para mim este no Departamento de Estudos — comentou
William. — Mesmo assim consegui que cinco entre onze alunos alcançassem o
primeiro lugar.
— Para mim foi ainda mais magro — disse Philippa —, mas em todo caso
espremi três dos meus seis alunos para um primeiro lugar; e não me venha
invocar o binômio de Newton, William, para concluir que minha vitória foi
apenas aritmética.
— O presidente da banca de examinadores me contou — disse William —
que a maior parte das coisas que seus alunos dizem não passa de uma recitação
decorada.
— Ele me contou também — retrucou ela — que os seus precisam puxar
pela memória enquanto estão discorrendo sobre um tema.

Quando jantavam juntos na faculdade, sua mesa logo se enchia de gente e,


assim que terminavam a oração, a intensidade de seus diálogos podia atiçar as
chamas dos candelabros.
— Philippa, ouvi dizer que a faculdade não está mais disposta a renovar sua
bolsa de estudos, é verdade?
— É a pura verdade, William — respondia ela. — Decidiram que não podem
renovar a minha e ao mesmo tempo me ofereceram a sua.
— Será que algum dia você será eleito membro da Academia Britânica,
William?
— Lamento dizer-lhe que isso nunca acontecerá.
— É uma pena. E por que não?
— Porque, quando me convidaram, informei ao presidente que eu preferia
esperar até ser eleito juntamente com a minha esposa.

Os convidados que não eram da universidade e sentavam-se à mesa pela


primeira vez levavam a sério suas batalhas verbais; os outros só podiam sentir
inveja daquele amor.
Um colega chegou a sugerir, maldosamente, que eles ensaiavam suas frases
antes do jantar, para que os outros pensassem que não viviam bem juntos.
Durante os primeiros anos de jovens professores, foram ganhando a reputação de
autoridades em seus respectivos campos. Como ímãs, atraíam para si os
graduandos mais brilhantes, ao mesmo tempo que eles próprios aparentemente
funcionavam como polos opostos.
— O Dr. Hatchard irá fazer metade das conferências — anunciou Philippa no
curso trimestral de conferências que dariam sobre a lenda arturiana, no início de
setembro. — Mas lhes asseguro de que esta não será a melhor parte. Vocês serão
mais inteligentes se sempre conferirem antes que tema ficou com o Dr. Hatchard.
Quando Philippa recebeu o convite para dar uma série de palestras em Yale,
William tirou licença para acompanhá-la.
A bordo do navio que atravessava o Atlântico, Philippa disse:
— Ainda bem que a viagem é por mar, meu querido, pois assim não
ficaremos sem gasolina.
— Sem dúvida, devemos agradecer a Deus — replicou William — pelo fato
de o navio ter um motor, porque você seria capaz até mesmo de desviar os
ventos das velas de Cunard.
A única tristeza na vida de ambos era que Philippa não tinha condições de ter
filhos, mas isso, de algum modo, os aproximou ainda mais. Philippa cobriu seus
alunos de uma afeição quase maternal e reservava para si apenas o amargo
comentário de que se livrara de gerar um filho com o corpo e o cérebro de
William.
Na guerra, a habilidade de William em lidar com palavras conduziu a uma
valiosa violação do código secreto. Ele foi recrutado por um homem que os
visitou em casa com uma maleta acorrentada ao seu pulso. Philippa ouvia
despudoradamente pelo buraco da fechadura a conversa sobre os problemas que
haviam surgido e, irrompendo sala adentro, exigiu também que fosse recrutada.
— O senhor sabia que consigo completar as palavras cruzadas do Times em
metade do tempo de meu marido?
O homem só pôde dar graças por não estar acorrentado a Philippa. Alistou os
dois na seção do Almirantado, onde deveriam se ocupar das mensagens de rádio
cifradas transmitidas entre os submarinos alemães.
O manual de sinais alemão era livro de códigos de quatro letras. Cada
mensagem era recifrada, tendo sua letra de substituição alterada diariamente
pelos alemães. William ensinou a Philippa como estimar as frequências de cada
letra, e ela aplicou o novo conhecimento dos textos alemães modernos, chegando
a uma análise de frequência que logo passou a ser utilizada por todos os
departamentos de quebra de códigos na Comunidade Britânica.
Apesar disso, quebrar os códigos secretos e elaborar um livro-padrão de
sinais foi uma tarefa colossal, que lhes tomou quase dois anos de dedicação.
— Eu não sabia que debater com você podia ser tão informativo — dizia ela,
admirando os resultados dessa aprendizagem em seu próprio trabalho.
Quando os aliados invadiram a Europa, marido e mulher puderam quase
sempre decifrar códigos secretos de até meia dúzia de linhas de texto codificado.
— São um bando de analfabetos — resmungava William. — Não codificam
o trema. Bem que merecem ser mal compreendidos.
— Como pode opinar sobre isso se você nunca põe o pingo nos is, William?
— Porque considero o pingo redundante e espero ser o responsável pela sua
abolição da língua inglesa.
— Será essa a sua maior contribuição à cultura, William? Sendo assim,
pergunto-lhe: como fará o professor que ler as redações dos nossos graduandos
para distinguir um I de um i?
— Um fraco argumento, minha querida, que, se tivesse algum fundamento,
exigiria que você pusesse um pingo em cima de um n, para que ele não fosse
confundido com um h.
— Continue trabalhando em suas teorias, William, porque eu pretendo gastar
as minhas energias arrancando de Hitler bem mais que um pingo e o I.

Em maio de 1945, participaram de um jantar reservado com o primeiro-


ministro e a Sra. Churchill no Número 10 de Downing Street.
— O que o primeiro-ministro quis dizer quando comentou que nunca
conseguiu entender o que você pretendia? — perguntou Philippa no táxi que os
levava de volta à estação de Paddington.
— A mesma coisa que queria dizer quando observou que sabia exatamente
do que você era capaz, imagino eu — retrucou William.
Quando o professor de inglês de Merton aposentou-se, no início dos anos 50,
toda a universidade esperou ansiosa para saber se o Dr. Hatchard seria indicado
para a cadeira.
— Se o conselho lhe oferecer a cadeira — disse William, passando a mão
pelos cabelos grisalhos —, será porque pretende me eleger vice-reitor.
— A única forma de o convidarem para ocupar um cargo muito além de sua
capacidade seria o nepotismo, e para isso eu já teria de ser a vice-reitora.
Depois de passar horas discutindo o problema, o conselho indicou no mesmo
dia William e Philippa professores catedráticos, criando mais uma cadeira.
Quando perguntaram ao vice-reitor por que se criara aquele precedente, ele
respondeu:
— É simples: se não tivesse dado uma cadeira para cada um, um deles
tentaria tomar o meu emprego.
Naquela noite, após um jantar de comemoração, quando iam a pé para casa
ao longo das margens do Isis, no lado oposto de Christ Church Meadows, no
ápice de uma discussão particularmente calorosa a respeito da qualidade do
último volume da monumental obra de Proust, um policial, atraído pela áspera
disputa, correu para eles e perguntou:
— Está tudo bem, senhora?
— Não, não está! — respondeu William. — Esta mulher vem me agredindo
há mais de trinta anos e até hoje a polícia lamentavelmente pouco fez para me
proteger.

No final dos anos 50, Harold Macmillan convidou Philippa para integrar o
conselho da IBA.
— Imagino que você vá se tornar o que se poderia chamar de telelente —
disse William — e, como a média de idade mental dos que assistem a esse
caixote não vai além dos sete anos, você vai sentir-se à vontade.
— Concordo — disse Philippa. — Vinte anos de vida com você me
capacitaram a lidar com crianças.
O presidente da BBC escreveu para William semanas depois e convidou-o
para integrar o conselho de diretores.
— Você substituirá o Meia Hora com Hancock ou o Dick Barton, Agente
Especial? — perguntou Philippa.
— Darei uma série de doze conferências.
— Sobre que assunto, se posso saber?
— Genialidade.
Rapidamente Philippa girou o botão do dial da Radio Times.
— Percebo que o “Gênio” poderá ser visto às duas da madrugada de
domingo, o que é bem compreensível: é quando você atinge seu mais alto grau
de brilhantismo.
Quando William recebeu um título de doutor honoris causa em Princeton,
Philippa compareceu à cerimônia e sentou-se orgulhosa na primeira fileira no
anfiteatro da universidade.
— Tentei garantir um lugar no fundo — explicou ela —, mas estava lotado
de estudantes sonolentos que obviamente nunca ouviram falar de você.
— Então, Philippa, surpreende-me que você não os tenha confundido com
alunos que frequentam suas aulas.
À medida que os anos foram se passando, muitas anedotas, das quais apenas
algumas eram apócrifas, engrossaram a trama dos diz-que-diz de Oxford. Todos
os que lá estudavam conheciam as histórias sobre os “briguentos Hatchards”.
Como passaram juntos a sua primeira noite. Como ganharam juntos o prêmio
Charles Oldham. Como Phil concluía as palavras cruzadas do Times antes
mesmo que Bill terminasse de fazer a barba. Como ambos foram indicados para
suas cadeiras no mesmo dia e trabalhavam longas horas mais que seus colegas,
como se ainda tivessem algo para provar, ao menos um ao outro. Parecia quase
uma exigência das leis da harmonia que eles fossem sempre considerados iguais.
Até que se anunciou nas comemorações do Ano Novo que Philippa fora eleita
Dama do Império Britânico.
— Pelo menos a nossa querida rainha compreendeu qual de nós dois é
realmente merecedor de reconhecimento — disse ela durante a sobremesa.
— Nossa querida rainha — disse William, abrindo o Madeira — sabe muito
bem que não há muita competição nas faculdades femininas: às vezes é
necessário encorajar as candidatas mais fracas na esperança de que isso inspire
algum autêntico talento recalcado.
Depois disso, toda vez que compareciam juntos a um acontecimento público,
Philippa pedia ao mestre de cerimônias que os anunciasse como Professor
William e Dama Philippa Hatchard. Esperava que, daí em diante, sempre
parecesse mais importante que o marido em todas as comemorações oficiais,
mas o sabor de triunfo durou apenas seis meses. William recebeu um título de
cavaleiro durante os festejos pelo aniversário da rainha. Philippa fingiu surpresa
ante o erro de julgamento da querida rainha e passou a exigir que fossem
apresentados em público como Sir William e Dama Philippa Hatchard.
— É natural — disse ele. — A rainha teve de condecorá-la primeiro para que
ninguém tomasse você como lady. Quando nos casamos, Philippa, você era uma
garota jovem, e agora fico sabendo que vivo com uma velha Dama.
— Não admira — disse Philippa — que os pobres dos seus alunos não
consigam resolver se você é homossexual ou se simplesmente sofre de fixação
materna. Agradeça por eu não ter aceitado o convite de Girton; então você
estaria casado com uma dona de casa.
— Eu sempre estive, sua velha idiota.
À medida que os anos se passavam, nunca abandonaram a suposta crença na
mediocridade mental do outro. Os livros de Philippa — “obras de muito mérito”,
insistia ela — eram publicados pela editora da Universidade de Oxford,
enquanto as “obras de monumental importância” de William, como ele próprio
as considerava, eram editadas pela Universidade de Cambridge.
O número de professores de inglês recém-nomeados, para quem haviam
lecionado quando ainda graduandos, dobrou.
— Se você considerar a politécnica, terei de incluir o público de Maguire, no
Quênia — disse William.
— Você não lecionou para o professor de inglês de Nairóbi — disse Philippa.
— Eu, sim. Você lecionou para o chefe de Estado, o que pode comprometer o
prestígio da Universidade, dada a desordem em que está o país.

No início da década de 60, promoveram uma batalha de correspondência no


suplemento literário do Times sobre os trabalhos de Philip Didney, sem nunca,
antes ou depois, terem discutido o assunto pessoalmente. Ao final, o editor pediu
que parassem com a correspondência e decidiu-se pelo empate.
Ambos julgaram-no um idiota.

Se havia uma coisa em Philippa que irritava William na velhice, era a sua
inabalável disposição matinal para completar as palavras cruzadas do Times
antes que ele se sentasse à mesa para o café da manhã. Por um período, William
manteve duas assinaturas do jornal até que Philippa passou a preencher as
cruzadas dos dois exemplares, explicando que estavam jogando dinheiro fora.

Certa manhã de junho, ao final de seu último ano letivo antes da


aposentadoria, William desceu para tomar o café e encontrou apenas um espaço
em branco no diagrama das cruzadas, que ela lhe deixara para preencher. Ele
analisou a deixa: “Skelton contou que isto caiu na sopa”. Imediatamente ele
preencheu as oito casas.
— Esta palavra não existe, seu velho arrogante — disse ela com firmeza. —
Você a inventou só para me atazanar. — Colocou diante dele um ovo cozido.
— Claro que existe, sua velha idiota. Procure whymwham no dicionário.
Philippa consultou o Oxford Shorter que estava entre os livros de culinária
na cozinha e anunciou, toda feliz, que a palavra não constava do dicionário.
— Minha querida Dama Philippa — disse William, como se estivesse
falando com uma aluna particularmente estúpida —, você certamente não pode
imaginar que é uma sábia só porque está velha e seu cabelo ficou todo branco.
Compreenda que esse Dicionário Oxford abreviado foi elaborado para os
simplórios, cujo domínio do idioma inglês não alcança mais que cem mil
palavras. Ainda esta manhã, na faculdade, vou comprovar a existência da palavra
no Dicionário de Inglês Oxford que está na minha mesa. Preciso lembrá-la de
que este é um dicionário sério, que, com mais de quinhentos mil verbetes, foi
criado para professores como eu?
— Bobagem — fez Philippa. — Quando eu provar que estou com a razão,
você vai ter de repetir esta história palavra por palavra, inclusive a sua ofensiva
não-palavra, na festa de Somerville.
— E você, minha querida, vai ter de ler as obras completas de John Skelton e
engolirá o insulto como se fosse o prato principal de sua refeição.
— Pediremos ao velho Onions que julgue.
— Combinado!
— Combinado!
Sir William pegou seu jornal, beijou a mulher no rosto e disse com um
suspiro exagerado:
— Em momentos como este é que desejo ter perdido o Charles Oldham.
— Você perdeu, meu querido. Vivíamos tempos em que não era moda
admitir a vitória de uma mulher em alguma coisa.
— Você me venceu.
— Sim, seu velho arrogante, mas pensava que você era um desses prêmios
que se pode devolver ao final do ano. E agora descobri que devo conservá-lo,
mesmo aposentado.
— Deixemos o próprio Dicionário de Inglês Oxford, minha querida, resolver
a questão que os examinadores do Charles Oldham não conseguiram — desafiou
Sir William e partiu para a faculdade.
— Não existe essa palavra — ainda murmurou Philippa quando ele fechou a
porta.
Sabe-se que a ocorrência de ataques cardíacos é mais rara entre as mulheres
que entre os homens. Quando sofreu o seu na cozinha, naquela manhã, Dama
Philippa caiu ao chão e com voz roufenha chamou por William, que já estava
longe demais para poder ouvi-la. Foi a faxineira que encontrou Dama Philippa
caída no chão da cozinha e saiu correndo para procurar ajuda. A primeira reação
da tesoureira da universidade foi achar que ela estivesse fingindo que Sir
William tinha-lhe golpeado a cabeça com uma frigideira, mas de qualquer forma,
por precaução, correu para a casa dos Hatchard, em Little Jericho. Tomou o
pulso de Dama Philippa e chamou o médico da universidade e em seguida o
diretor. Ambos chegaram em poucos minutos.
O diretor e a tesoureira esperaram ao lado de seu ilustre colega, já prevendo
qual seria a avaliação do médico.
— Está morta — confirmou. — Deve ter sido muito repentino e com o
mínimo de dor.
Consultou o relógio de pulso: nove e quarenta e sete. Cobriu o cadáver com
um lençol e chamou a ambulância. Tratara de Dama Philippa durante mais de
trinta anos e aconselhara-a tantas vezes para diminuir suas atividades que, diante
de sua inflexível desobediência, bem que poderia ter gravado um disco para
substituí-lo em suas advertências.
— Quem contará a Sir William? — perguntou o diretor.
Os três se entreolharam.
— Eu conto — disse o médico.
É curto o caminho de Little Jericho até Radcliffe Square. Foi longo o
caminho de Little Jericho até Radcliffe para o médico naquele dia. Nunca sentira
prazer em comunicar a ninguém a morte do cônjuge, mas aquele caso seria o
mais triste de toda a sua carreira.
Bateu na porta do professor e Sir William mandou-o entrar. O grande homem
encontrava-se sentado à escrivaninha, debruçado sobre o Dicionário Oxford,
tagarelando sozinho.
— Eu disse a ela, mas não me deu atenção, aquela velha idiota — disse para
si mesmo. Viu então o médico parado no limiar da porta: — Doutor, o senhor
será o meu convidado para ir à festa de Somerville, na próxima quinta-feira,
onde Dama Philippa estará engolindo um insulto. Tudo para mim tem sido só
jogo, partida, competição e campeonato. Mas agora será uma vingança de trinta
anos de estudos.
O médico não sorriu, nem mesmo se moveu. Sir William aproximou-se,
olhando o velho amigo fixamente. Nenhuma palavra era necessária. O médico
disse apenas:
— Estou mais arrasado do que qualquer coisa que possa dizer — e deixou
Sir William entregue a sua própria dor.
Os colegas de Sir William tomaram conhecimento do fato em poucas horas.
Na universidade, durante o almoço reinou um silêncio pesado, que foi quebrado
apenas pelo diretor perguntando a um professor se deveria levar comida para o
professor de Merton.
— Acho que não — respondeu o professor.
Nada mais se disse.
Professores, membros e estudantes moviam-se em contrito silêncio e, quando
se reuniram para jantar naquela noite, ninguém mostrava a menor disposição de
conversar. Ao final da refeição, o preceptor-chefe sugeriu mais uma vez que se
levasse algo de comer para Sir William. Desta vez o professor concordou com
um movimento de cabeça e o cozinheiro preparou uma refeição leve. O
professor e o diretor subiram os degraus gastos que levavam à sala de Sir
William, e enquanto um segurava a bandeja o outro bateu levemente na porta.
Não obtendo resposta, o professor, que tinha certa intimidade com Sir William,
entreabriu a porta e espiou para dentro.
O velho jazia inerte no chão de madeira em meio a uma poça de sangue, uma
pequena pistola a seu lado. Os dois homens entraram e examinaram a cena. Na
mão direita, Sir William segurava as Obras Completas de John Skelton. O livro
estava aberto em The Tunnyng of Elynour Rummyng, com a palavra whymwham
sublinhada.

After the Sarasyns gyse,


Woth a whymwham,
Knyt with a trym tram,
Upon her brayne pan1.

Sir William, com sua bela letra, fizera uma anotação à margem: “Perdoem-
me, mas eu tinha de informá-la disto”.
Do quê?, perguntou-se o professor. Tentou tirar o livro da mão de Sir
William, mas os dedos frios o prendiam com decisão.
Diz a lenda que nunca se separaram por mais de poucas horas.

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1 John Skelton (1460-1529), poeta e tutor do Rei Henrique VIII.

The Hungarian professor


Digitalização: José Eduardo Cruz
Novembro 2018