Você está na página 1de 38

“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e

Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

A CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA: ANÁLISE DE FORMAÇÃO DE


PREÇOS DA CARNE BOVINA NO RIO GRANDE DO SUL1

Mikael Neumann¹, Cedinéia Zuchonelli², Rita Inês Pauli Prieb³

1 Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor do Departamento de Medicina Veterinária da UNICENTRO. E


mail: mikaelneumann@hotmail.com
2 Economista. E mail: cedineiazuconelli@bol.com.br
3 Economista, Dra., Professora do Departamento de Economia da UFSM

INTRODUÇÃO
A cadeia produtiva da carne bovina no estado do Rio Grande do Sul assume
características específicas em relação às demais regiões, devido aos seus solos e
campos, ao clima temperado como também pelo estilo dos manejos dos bovinos.
Fatores como competição por área, por outras atividades agrícolas, competição
de outros tipos de carnes, tais como: frango e suíno, somados à estabilidade
econômica, caracterizam o novo cenário da pecuária gaúcha.
Essas situações caracterizam a necessidade de novas formas de organização
e atuação dos agentes econômicos e governos, de modo que, a inserção com
sucesso, da cadeia produtiva da carne bovina, nessa nova dinâmica, depende em
grande parte, da capacidade de coordenação de seus agentes.
Em anos recentes se intensificaram os esforços para melhorar os índices de
produtividade da bovinocultura de corte, de forma que os produtores estão adotando
novas tecnologias, a fim de gerar aumentos tanto na produtividade, como na
eficiência econômica da produção. Haja vista, que os frigoríficos oferecem
bonificações pela oferta de bovinos de qualidade, dentro das
exigências/especificações de mercado.
Diante da importância que assume a bovinocultura de corte no estado do Rio
Grande do Sul, que possui o 5º maior rebanho bovino brasileiro, refere-se ao

1
NEUMANN, M.; ZUCHONELLI, C.; PRIEB, R.I.P. A cadeia produtiva da carne bovina: análise de
formação de preços da carne bovina no Rio Grande do Sul. In: JORNADA TÉCNICA EM SISTEMAS
DE PRODUÇÃO DE BOVINOS DE CORTE E CADEIA PRODUTIVA: TECNOLOGIA, GESTÃO E
MERCADO, 1., Porto Alegre, 2006. Anais... Porto Alegre: UFRGS – DZ – NESPRO, 2006. 1 CD-
ROM.

1
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

respectivo estado, bem como, salienta-se a produção do novilho precoce como


possibilidade de obter maior rentabilidade na prática da atividade.
O presente estudo visa estudar o segmento produtor, processador e distribuidor
da cadeia produtiva da carne bovina, com ênfase na dinâmica da formação de
preços no estado do Rio Grande do Sul, identificando os principais entraves
econômicos que afetam a atividade.
Enfatiza-se, também, o sistema de produção do novilho precoce como
alternativa a tornar o setor competitivo, gerando maior produtividade, lucratividade,
possibilitando maior controle e eficiência à cadeia, bem como apresentando os
pontos críticos que envolvem o sistema, tais como: maior custo de produção, falta de
informação dos diversos segmentos do mercado, falta de estruturação do setor de
acordo com os padrões exigidos na produção de um produto diferenciado, entre
outros.

CARACTERIZAÇÃO DA CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA NO RIO


GRANDE DO SUL

Caracterização da produção da bovinocultura de corte no estado


A cadeia produtiva da bovinocultura gaúcha envolve, aproximadamente 200 a
220 mil propriedades rurais, 24 indústrias frigoríficas sob a inspeção federal e 184
sob a inspeção estadual2.
Em relação às plantas de abate de bovinos, consta que 62% das plantas se
localizam na metade Sul do estado, principalmente nas regiões da Campanha,
fronteira Oeste e Sul3.
As raças bovinas mais criadas no estado são as raças européias, como Angus
e Hereford, com a presença também de raças sintéticas, como Brangus e Braford4.
O estado do Rio Grande do Sul apresenta uma forte tradição à produção de
bovinos em pasto natural, contando com cerca de 90% deste. A pecuária gaúcha
fornece uma alimentação à base de pasto em campos nativos e melhorados ou de
pastagens cultivadas; sendo que, a suplementação principal, em sistemas de

2
Segundo o SICADERGS (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul).
3
Idem.
4
Segundo Anuário Brasileiro da Pecuária, 2005.

2
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

confinamento ou de semi-confinamento (na produção de novilhos precoces), é


formada por grãos (farelos, resíduos e subprodutos) excedentes da produção
agrícola e por volumosos5, como silagens e feno, aliando-se a isso a
complementação mineral necessária6.
Com relação à extensão dos estabelecimentos agropecuários, é indicado no
mínimo 100 ha para produtores especializados na engorda e terminação, sendo
estes totalmente dependentes de fornecedores de bezerros e de área mecanizável
para produção de volumosos (silagens e feno), para a alimentação dos animais. À
medida que, a área aumenta, o produtor torna-se menos dependente de
fornecedores de bezerros, participando assim, de atividades pecuárias ligadas a cria
e a recria.
Fica difícil especificar se a produção pecuária se caracteriza por pequenos,
médios ou grandes produtores, visto que, um pequeno produtor pode ter uma
grande produção, enquanto um grande produtor pode não ter uma produção
significativa, pois depende muito da organização da propriedade, dos controles dos
produtores quanto aos elementos que envolvem a sua produção e das suas
perspectivas quanto ao seu negócio.
A Tabela 1 mostra uma comparação do rebanho bovino brasileiro com o
rebanho do estado do Rio Grande do Sul, nas diferentes categorias animais.
Verifica-se, com a Tabela 1, que a categoria de novilhos de 1 a 2 anos, animais
potenciais à produção do novilho precoce, representa 8,37% em relação à
população bovina correspondente à referida categoria no Brasil e 9,70% da
população estadual de bovinos.
Consta que o estado do Rio Grande do Sul ainda tem a avançar na produção
de carne de qualidade superior, pois apresenta um percentual baixo de produção do
novilho precoce, sendo esse o produto da preferência dos principais importadores.
Destaca-se que o rebanho bovino do estado do Rio Grande do Sul representa
8,25% do total do rebanho bovino nacional.
A Tabela 1 também mostra que a eficiência econômica da pecuária de corte no
estado Rio Grande do Sul tem de melhorar devido aos baixos índices técnicos de

5
Volumoso é um alimento forrageiro com teor de fibra acima de 16% (ex.: silagem e feno).
6
Conforme Anuário Brasileiro da Pecuária 2005.

3
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

apenas 65,3% de natalidade e do grande número de animais com idade acima de 2


anos direcionados para o abate.
Isso evidencia uma certa deficiência do setor, visto que, manter animais, que
passam da idade de abate na propriedade, gera custos desnecessários, os quais
interferem nas produções futuras, no sentido de que ocupam espaço destinado a
uma nova produção, como também no sentido de que se torna mais complicado
manter o peso de um animal nesses termos, associado aos índices técnicos de
natalidade baixos. Comprovando, portanto, que o setor deve procurar melhorar a
estrutura de sua produção, se organizando, para alcançar bons índices de
produtividade.

Tabela 1 – Rebanho bovino do estado do Rio Grande do Sul, nas diferentes


categorias animais e suas proporcionalidades em função, da referida
categoria animal e do rebanho brasileiro.
Rio Grande do Sul Brasil
Proporção por Proporção por
Categorias Cabeças categoria (%) Cabeças categoria (%)
Touros 154.140 1,14 2.171.719 1,32
Vacas 4.672.845 34,45 59.460.221 36,17
Novilhas 2-3 anos 965.639 7,12 12.298.246 7,48
Novilhas 1-2 anos 1.606.065 11,84 19.169.398 11,66
Bezerras 1.853.334 13,67 22.012.294 13,39
Bezerros 1.829.733 13,49 21.917.351 13,33
Novilhos 1-2 anos 1.315.708 9,70 15.710.335 9,56
Novilhos 2-3 anos 765.133 5,64 8.232.282 5,01
Bois 3-4 anos 318.237 2,35 2.764.984 1,68
Bois + de 4 anos 81.785 0,60 659.838 0,40
Total 13.562.616 100,00 164.396.667 100,00
Fonte: FNP Consultoria (Estimativa), 2005.

Já a Tabela 2 mostra como se distribui a produção bovina, bem como, a


participação da Região Sul perante as demais.
Observa-se, no entanto, com a Tabela 2, que a região Sul se encontra na 3ª
posição, em relação ao total do rebanho bovino brasileiro, sendo que perde apenas
para as regiões Centro-Oeste e Sudeste.

4
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Tabela 2 – Rebanho bovino brasileiro: Efetivo por categoria animal, em 2004.


Categorias Norte Nordeste Sudeste C. Oeste Sul Total
Touros 315.828 373.666 464.395 742.189 275.641 2.171.719
Vacas 7.786.929 9.062.243 12.987.744 20.897.207 8.726.098 59.460.221
Novilha 2-3 1.689.770 1.930.023 2.515.159 4.497.790 1.665.505 12.298.246
Novilha 1-2 2.409.719 2.505.017 4.498.416 6.605.202 3.151.044 19.169.398
Bezerras 2.814.787 2.913.084 5.017.966 7.640.909 3.625.547 22.012.294
Bezerros 2.777.964 2.908.027 5.092.647 7.513.100 3.625.613 21.917.351
Novilho 1-2 2.053.041 2.469.039 3.195.965 5.289.233 2.703.057 15.710.335
Novilho 2-3 1.108.075 1.835.178 1.304.105 2.348.015 1.636.909 8.232.282
Bois 3-4 324.175 882.591 236.157 652.230 669.830 2.764.984
Bois + de 4 76.301 338.289 14.894 56.342 174.011 659.838
Total 21.356.589 25.217.158 35.327.447 56.242.218 26.253.255 164.396.667
Fonte: FNP Consultoria, 2004.

Conforme a Tabela 2, verifica-se que o rebanho efetivo da Região Sul do país


representa 15,97% do total nacional. Evidencia-se, também, que a Região Sul
possui 5.183.807 novilhos com idade entre 1 a mais de 4 anos, onde 2.703.057
(52,14%) dos bovinos concentram-se na categoria novilhos de 1 a 2 anos (sistema
de novilhos precoces), demonstrando que ainda precisa melhorar o seu potencial de
produção para o mercado consumidor.
A produção de animais e a indústria estão passando por um processo de
evolução que se tornou quase uma questão de sobrevivência para a referida cadeia
produtiva.
A relativa estabilidade econômica afeta sensivelmente as estruturas de
produção. Os produtores têm que se preocupar em produzir animais num prazo mais
curto e com custo mais reduzido, pois não é mais possível obter ganhos com as
grandes variações de preços no decorrer do ano. Existem grupos eficientes, que
produzem com baixos custos e são competitivos, e ao mesmo tempo, existem
grupos de produtores que possuem pouca noção acerca dos custos de produção e
eficiência produtiva. Neste último grupo, estão os produtores que podem vir a deixar
a atividade com objetivo comercial.

5
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

A Tabela 3 apresenta a evolução do crescimento do rebanho bovino no período


de 1993 a 2002, comparando a evolução do Rio Grande do Sul com a evolução do
Brasil.

Tabela 3 – Evolução do crescimento do rebanho bovino de corte do estado do Rio


Grande do Sul e do Brasil, no período de 1995-2005.
Período Rio Grande do Sul Brasil Proporção (%)
1995 13.255.216 154.058.176 8,60
1997 12.970.466 153.778.921 8,43
1999 13.347.031 158.494.765 8,42
2001 13.562.616 164.396.667 8,25
2003 13.467.665 166.847.292 8,07
2005 13.788.357 167.677.854 8,22
Fonte: FNP Consultoria (Estimativa), 2005.

Com relação ao Brasil, a Tabela 3 mostra um crescimento de 12.585.637


bovinos representando 8,16% no período de 1993 a 2002. Já no estado do Rio
Grande do Sul, verifica-se que a população bovina, manteve-se estagnada nos
últimos 10 anos, com uma população média de 13.333.875 bovinos.
Este comportamento mostra uma redução na proporcionalidade da
participação do rebanho do Rio Grande do Sul em relação à população bovina
brasileira de 8,77% para 8,07% no período considerado.
Ressalta-se que a carne bovina é importante, tanto no consumo interno, como
também tem grande potencial de exportação, para aqueles países desenvolvidos,
onde, a área ou as condições de produção são restritas; porém, o Brasil não é o
único país que apresenta boas condições para a produção de carne bovina,
existindo outros países, os quais são bons consumidores de carne bovina, como
também, produtores, razão para a importância que se dá à atividade da pecuária de
corte, salientando que esse agronegócio tem um peso significativo na economia.
A pecuária de corte gaúcha ainda é marcada por características bastante
tradicionais, apesar das mudanças, as quais vêm passando nos últimos anos, onde
alguns pecuaristas vêm desenvolvendo atitudes empresariais, tanto em termos de
inovação, quanto nas relações com os agentes frigoríficos.

6
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Há indícios de que o comportamento previamente típico dos criadores venha


cedendo espaço, para a eficiência, como único caminho para a lucratividade dos
estabelecimentos pecuários. Ressalta-se, no entanto, que ainda existem pecuaristas
que atuam pela lógica da venda não programada de animais, para cobrir gastos
correntes ou investimentos não planejados.
Em geral, a pecuária de corte apresenta três segmentos distintos: a cria, a
recria e a engorda. No segmento da cria, o rebanho está voltado à reprodução
animal, onde o bezerro é normalmente afastado da mãe entre os oito e dez meses
de idade. Na recria, o bezerro, já novilho, permanece de um ano a um ano e meio e
é então destinado para a engorda, quando lhe é dado o acabamento para o abate.
A competitividade e até mesmo a sobrevivência da indústria da carne bovina no
mercado está intimamente associada a sua eficiência em gerenciar a produção, o
que se traduz na segurança do cliente, e contribui também, na redução de custos e
perdas. Assim, deve ser dada atenção a todas as etapas da cadeia: matéria-prima
básica, produção, processamento industrial e distribuição. Um descuido ou falta de
atenção em qualquer dessas etapas pode comprometer seriamente o produto final, o
que comprometeria a sobrevivência da empresa. Cabe ressaltar que a distribuição
de carnes é um elo importante no segmento, uma vez que é através dela que se
completa o processo de agregação de valor ao consumidor final.
Destaca-se na Tabela 4 a posição do Rio Grande do Sul, no país, em relação à
sua produção, segundo dados relacionados ao efetivo do rebanho existente em 31
de dezembro de cada ano.

7
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Tabela 4 – Efetivo do rebanho bovino de corte nos estados caracterizados como os


maiores produtores nacionais. (Os dados estão em milhões).
Estados
Período MS MG MT GO RS SP PR
1995 19.942 20.143 14.275 16.554 13.255 12.539 9.871
1997 19.513 20.001 15.683 16.238 12.970 12.122 9.552
1999 20.484 19.854 16.757 16.508 13.347 12.119 9.597
2001 22.021 19.828 17.623 16.509 13.563 11.990 9.616
2003 22.233 19.968 18.420 16.777 13.468 12.015 9.587
2005 22.747 20.107 19.133 16.989 13.868 12.942 9.966
Fonte: FNP Consultoria, 2005.

Observa-se na referida Tabela 4 que o estado gaúcho assume a 5ª posição, ou


seja, apresenta o 5º maior rebanho do Brasil, sendo superado pelos estados do
Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Consta, que até então, o
estado de São Paulo, assume a 6ª posição no efetivo do rebanho brasileiro, mas
mesmo assim, assume uma posição importante como a principal praça formadora de
preços, devido à importância econômico-financeira do referido estado para o país.

Caracterização da exportação de carne bovina gaúcha


O Rio Grande do Sul exporta 3% de sua produção, ou seja, 97% é consumido
internamente, tornando o estado extremamente dependente do consumo interno.
Mesmo com esse baixo percentual de exportação, a cadeia produtiva da carne
bovina gaúcha alcança em torno de R$ 1,6 bilhão, ou seja, 33% do PIB gaúcho,
gerando aproximadamente 60 mil postos de trabalho7.
Ocorre, no entanto, que as indústrias frigoríficas vêm enfrentando alguns
problemas, entre eles: a falta de produto (bois) de acordo com a qualidade exigida
pelo mercado externo, limitando as opções de compra dos frigoríficos, visto que
muitos dos animais ofertados não servem para a indústria que visa a exportação, por
levar em consideração os segmentos de mercado, que demonstram preferência por
novilhos jovens e/ou precoces. Outro problema é a sazonalidade do produto, que

7
De acordo com o presidente da Comissão de Pecuária da FARSUL (Federação da Agricultura do Rio Grande
do Sul).

8
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

ocorre na entressafra, onde esse período é caracterizado pela inconstância no


abastecimento de bovinos, embora esse fator esteja sendo reduzido devido ao
investimento em inovações tecnológicas no campo por alguns produtores.
Ressalta-se, que em nível nacional, atualmente, o estado exporta para Santa
Catarina, e atualmente, em menor proporção para São Paulo8. Já com relação ao
mercado internacional da carne bovina gaúcha, nos mercados da União Européia,
NAFTA, LADI, Ásia, Oriente Médio, CARICOM, África e alguns países Latino
Americanos com o Chile.
Com o problema da febre aftosa superado, os frigoríficos gaúchos passaram a
exportar mais a partir de 2002 superando total de 70 mil toneladas de carne.
Um aspecto que teve a atenção aumentada correlato ao aumento do volume de
exportação nas definições do mercado de carne, se refere à rastreabilidade dos
animais, a qual fornece maior informação sobre o produto adquirido através de um
certificado de origem, colocando-se como um importante desafio a ser enfrentado
pelo setor, no processo de melhoria da estrutura de sua produção.
Esse mecanismo propicia maior credibilidade e segurança à carne e seus
derivados junto aos consumidores. No caso específico da carne bovina, ainda são
poucos os frigoríficos que têm uma preocupação sistematizada com relação
à rastreabilidade, com exceção dos estabelecimentos do subsistema exportador,
muito mais pela exigência do mercado importador, do que pelo requerimento do
mercado interno.
Para atender ao mercado internacional de carnes é preciso adequar-se às
exigências impostas, e entre essas exigências está a rastreabilidade, bem como as
restrições tarifárias, onde se destaca a Cota Hilton9, sendo que, a Cota Hilton
destinada ao Brasil é de um total exportável próximo as cinco mil toneladas,
representando um fator limitante ao país, frente a sua comercialização.
O estado do Rio Grande do Sul tem um frigorífico que apresenta bons índices
de exportação, sendo considerado como o principal exportador do estado, o
frigorífico Mercosul, com sede na cidade de Bagé, sendo que do faturamento deste,
cerca de 65% do volume exportado atualmente, é destinado à União Européia, de

8
Segundo informações junto ao SICADERGS (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do
sul).
9
Refere-se a compra de carne bovina resfriada por parte da União Européia, segundo o frigorífico Mercosul.

9
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

modo que se destaca ainda um outro frigorífico, mas com menor participação na
exportação do estado, o frigorífico Extremo Sul, localizado na cidade de Capão do
Leão.

Caracterização do consumo de carne bovina


A carne bovina é um dos itens mais importantes da dieta alimentar da
população e apresenta um dos maiores potenciais de crescimento, o qual depende,
num primeiro momento, da melhora do poder de compra dos consumidores, como
também, da capacidade da cadeia produtiva se adequar ao aumento do consumo.
O consumo de carne bovina gaúcha é influenciado principalmente pela renda
per capta da população, pelo preço da própria carne e pelos preços de seus
substitutos, especialmente as carnes de frango e de suíno. Além disso, alterações
nas preferências dos consumidores são fortes determinantes das mudanças na
demanda.
Segundo AGUIAR e SILVA (2000), o comportamento do consumidor de carne
bovina, tem privilegiado, variáveis ligadas à situação de compra do produto, ou seja,
observa-se o ambiente onde se dá a comercialização do produto, com destaque
para fatores relacionados à higiene, a qual é considerada como um indicador de
qualidade; outro é o tempo disponível para a compra e se relaciona à busca da
conveniência por parte dos consumidores. Nesse sentido, pontos de venda com boa
apresentação, higiene e com produtos de consumo complementar (sal, carvão,
bebidas) acabam sendo preferidos.
Destaca-se que o consumo per capta de carne bovina no estado do Rio Grande
do Sul é de 47 kg, sendo consideravelmente expressivo, visto que o consumo per
capta de carne bovina no Brasil é de 38/40 kg10.

FORMAÇÃO DE PREÇOS NA CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA

Complexos Agroindustriais – Aspectos gerais


A principal mudança no padrão atual da agricultura brasileira refere-se a um
processo de passagem do chamado “complexo rural” para uma nova dinâmica

10
Segundo informações junto ao SICADERGS e Anuário Brasileiro de Pecuária 2003.

10
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

comandada pelos “complexos agroindustriais” – CAIs. Nesse processo estão


incluídas: a substituição da economia natural por atividades agrícolas interligadas à
indústria de transformação; a intensificação da divisão social do trabalho e das
trocas intersetoriais; a especialização da produção agrícola e a substituição do
mercado externo pelo interno como elemento chave na alocação dos recursos
produtivos no setor agropecuário11.
A agroindústria teve sua origem no desenvolvimento das atividades agrícolas,
pois à medida que a demanda por produtos beneficiados crescia, a atividade de
indústria rural tornava-se independente das suas ligações agrárias, deslocando-se
para as áreas urbanas. Sendo a agroindústria o núcleo do que se denomina
complexo agroindustrial (CAI)12.
O complexo agroindustrial (CAI) é definido por HAUGUENAUER et al apud
FARINA & ZYLBERSZTAJN (1992): Como um conjunto de indústrias que se
articulam, de forma direta ou mediatizada, a partir de relações significativas de
compra e venda de mercadorias, a serem posteriormente reincorporadas e
transformadas no processo de produção.
O processo de transformação da base técnica da produção agropecuária
ocorrido, chamado de “modernização”, culminou na própria industrialização da
agricultura, representando, também mudanças nas relações sociais de produção e
com seus instrumentos de trabalho. Nesse sentido, a modernização da agricultura
requer a existência de um sistema financeiro constituído, a fim de viabilizar e ao
mesmo tempo, interligar os CAIs com o movimento global da acumulação13.
A agricultura se transforma, portanto, num ramo de aplicação do capital, onde o
capital industrial lhe fornece/vende insumos e compra a sua produção. O mercado
de terras passa a ter papel de destaque nesse processo, pois a propriedade da terra
ao permitir ganhos especulativos, tornou-se um ativo alternativo para o grande
capital.
Com a constituição dos complexos agroindustriais a agricultura perde a sua
regulação geral que antes era dada pelo mercado externo/interno; impondo assim,
uma participação cada vez maior do Estado, a fim de formular políticas específicas

11
Segundo SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira. 1996.
12
Idem.
13
Segundo SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira. 1996.

11
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

para cada complexo agroindustrial. Sendo assim, agora a dinâmica da agricultura


está determinada pelo padrão de acumulação industrial, centrado no
desenvolvimento dos complexos agroindustriais e na ação do Estado. No atual
padrão de desenvolvimento agrícola, o processo de modernização passou por três
momentos: constituição dos CAIs, industrialização da agricultura e integração de
capitais intersetoriais14.
A constituição dos CAIs ocorreu na década de 70, pela integração técnica
intersetorial entre as indústrias que produzem para a agricultura propriamente dita
(setor industrial a montante) e as indústrias processadoras (setor a jusante), sendo
que essa integração foi possível a partir da internalização da produção de máquinas
e insumos para a agricultura15.
Em termos de políticas agrícolas, o crédito rural ampliou a demanda de
máquinas e insumos, basicamente em função do processo de modernização;
viabilizou e consolidou a agricultura enquanto mercado em geral para as indústrias a
montante da agricultura. No caso das agroindústrias, as políticas apresentaram
caráter mais específico, a algumas atividades, produtos e regiões16.
O primeiro autor a utilizar o termo “complexo agroindustrial” no Brasil foi Alberto
Passos Guimarães, com a finalidade de mostrar a integração técnico-produtiva entre
os setores, ou seja, de que a agricultura se relaciona cada vez mais com os setores
industriais a montante, setor oligopolizado que impõe preços aos insumos adquiridos
pelos agricultores; e a jusante também oligopolizado, com ligações específicas com
os agricultores, estabelecendo não só preços, mas também o tipo e o padrão dos
produtos, comprimindo dessa forma a renda dos agricultores.
Nos complexos entende-se que, além da existência de fluxos intersetoriais
significativos de compra e venda entre os diversos ramos que os compõe, o conjunto
assim formado tem uma dinâmica própria. Mesmo com o fato das partes se
moverem de forma interdependente, o crescimento de um segmento do complexo
depende do crescimento dos outros, como também, pode induzir o crescimento dos
outros segmentos.

14
Idem.
15
Segundo SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira. 1996.
16
Idem.

12
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Disso se deduz a importância que cada complexo em particular apresenta no


seu segmento, neste caso, o complexo de carnes, envolve segmentos diversos
(desde a produção, processamento, distribuição, bem como, os agentes de apoio ao
complexo agroindustrial, entre eles, destacam-se: as condições macroeconômicas, o
serviço de inspeção sanitária, a legislação ambiental, a infra-estrutura de transporte
e os serviços de P&D), apresentando considerável participação no agronegócio
nacional.
Salienta-se que ao contrário dos complexos industriais, a noção de
agribusiness tem uma origem estática, destinada somente a ampliar o conceito de
agricultura, tendo em vista a sua crescente interligação com o restante da economia,
e principalmente com os serviços financeiros.
Sendo assim, DAVIS & GOLDBERG apud SILVA (1996) definem o
agribusiness como: “A soma de todas as operações envolvidas no processamento e
distribuição dos insumos agropecuários, as operações de produção; e o
armazenamento, processamento e a distribuição dos produtos agrícolas e seus
derivados”.
Ocorre, no entanto que GOLDBERG apud SILVA (1996) ampliou o conceito,
incluindo as agribusiness industries, incorporando à análise as “influências
institucionais”, no sentido de que o destino dos produtos agrícolas era agora a
agroindústria e não mais o consumidor final.
Com relação ao setor agroalimentar, MALASSIS apud SILVA (1996) diz: O
setor agroalimentar, nas sociedades complexas industrializadas, compreende quatro
subsetores: o das empresas que fornecem à agricultura serviços e meios de
produção (crédito, assistência técnica, etc), chamado de “indústrias a montante”; o
agropecuário propriamente dito; o das indústrias agrícolas de transformação,
chamado de “indústrias a jusante”; e o de distribuição de alimentos.
A noção de complexos agroindustriais indica-os como resultado de um
processo histórico específico. Surgem então questões relacionadas aos interesses
de como são mediados e quanto à elaboração de políticas nas sociedades
modernas.
Segundo o modelo neocorporativista, a ação do Estado é causa necessária,
mas não suficiente, pois pressupõem algum grau de organização prévio e autônomo

13
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

dos demais interesses envolvidos17. Neste sentido, para o caso da pecuária, verifica-
se o interesse de instituições e/ou órgãos de classe que coordenam a atividade,
quais sejam: a FARSUL (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul) a qual
atua no sentido de coordenar os interesses relacionados aos produtores; o
SICADERGS (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul),
com interesses junto às indústrias frigoríficas; e o SICOCARNE (Sindicado do
Comércio Varejista de Carnes Frescas do Rio Grande do Sul), pelos distribuidores.
SHMITTER apud SILVA (1996) ressalta que o “capitalismo depende de ‘arenas
de decisão’, onde produtores e consumidores trocam bens e serviços regulados por
vários mecanismos”. Essas “arenas de decisão” se referem à própria instância em
que as negociações ocorrem.
Segundo BERTRAND apud SILVA (1996) “no complexo não coexistem apenas
os agricultores, as firmas, os comerciantes, mas também ‘forças intelectuais’: a
pesquisa, as agências de divulgação de técnicas ou a publicidade e o crédito”;
portanto, pode-se afirmar que abrange todas as instâncias que de certa forma
compreendem ou são capazes de interferir nos interesses do complexo. Ocorre que
nessa concepção, o Estado além de representar o local onde essas forças atuam,
tem uma participação relativamente importante na configuração dos interesses que
se organizam.

Formação de preços
Primeiramente torna-se necessário mostrar que no estado gaúcho, há uma
grande desorganização do setor em função da crescente competitividade de carnes,
da abertura comercial e da constituição do Mercosul.
Neste sentido, pode-se afirmar que quando se considera apenas os frigoríficos
e as grandes redes de supermercados, verifica-se uma estrutura de mercado
oligopsônica. Por outro lado no segmento da produção, este é constituído por
produtores com barganhas semelhantes, no tocante aos preços recebidos, mesmo
porque não se verifica neste segmento a formação de estoques, (visto que seria
totalmente inviável devido aos custos elevados, manter um animal, na propriedade,
passado a sua idade de abate, o qual viria a encarecer a sua produção, e com

17
Segundo SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira. 1996.

14
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

relação ao estoque da carne em si, também fica difícil, por ser um produto perecível)
que poderiam permitir uma formação de preços diferente daquela da concorrência
perfeita.
Assim, a discussão entre formação de preços na cadeia produtiva da carne
bovina, com relação ao valor pago pela indústria para os produtores, gira em torno
das forças de mercado, oferta e demanda, de modo que, se estabelece forte relação
com a renda per capta, o preço da própria carne e o preço de seus substitutos e/ou
alternativos (frango e suíno), bem como pelas alterações nas preferências dos
consumidores.
A partir daí procura-se estabelecer os fatores que afetam essa oferta e
demanda de carne bovina no estado do Rio Grande do Sul. Convém mencionar que
na oferta há relação direta entre preço e quantidade, ou seja, quanto maior o preço,
tanto maior será a quantidade que os produtores pretendem oferecer à venda.
No caso específico do Rio Grande do Sul, verifica-se que os fatores que
exercem grande influência sobre a oferta de carne bovina são: os níveis de preços
correntes do boi gordo; a sanidade do rebanho, a qual afeta significativamente a
oferta, visto que compromete toda uma produção; a concorrência do mercado
centro-oeste, afetando a competitividade do setor, devido falta de oneração fiscal; e
a elevada carga tributária, a qual desestrutura a atividade econômica, pois o
resultado do elevado ônus fiscal é um incentivo a sonegação e ao abigeato,
impedindo uma melhor estruturação do setor.
Já com relação à demanda, constando que a quantidade procurada varia
inversamente com o preço, sendo assim, a demanda de carne bovina é influenciada:
pelas carnes substitutas e/ou alternativas, quais sejam, principalmente a carne de
frango, visto que esta representa grande parcela de participação junto ao mercado
consumidor, que pelo seu baixo custo de produção apresentando preços inferiores
ao se comparar à carne bovina, tendo ainda como alternativa a carne suína, mas
esta com uma parcela bem menor de consumo; pelo preço da própria carne bovina,
visto que há o fator da preferência do consumidor, que altera o consumo conforme o
preço, considerando que o Rio Grande do Sul apresenta um consumo per capta de
aproximadamente 47 kg; como também a demanda é influenciada pela renda
disponível.

15
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Como em geral ocorre uma alteração na quantidade procurada, em resposta a


uma alteração no preço de um produto e/ou mercadoria, tal situação denomina-se
(∆Q / Q)
elasticidade da procura, a qual pode ser expressa: e = , onde, o quociente
(∆P / P)
da alteração na quantidade demandada ( ∆Q ), dividido pela quantidade original (Q),
quando dividido pelo quociente da alteração no preço ( ∆P ), dividido pelo preço
original (P), resulta então na elasticidade da procura18.
Alguns produtos possuem demandas mais ou menos elásticas do que outros,
quando há oscilações de preços. E, em sendo a demanda elástica, nesse sentido o
mercado se mostra sensível ao preço, reduzindo a demanda ao perceber um
aumento monetário. Isso não ocorre, quando a demanda se mostra inelástica, de
modo que acréscimos nos preços, não repercutem em redução da demanda.
Conforme enfatiza KOTLER (2000), a elasticidade da demanda está
diretamente ligada à importância e envolvimento do produto para o mercado
consumidor. Destaca-se, ainda que as alterações no preço podem resultar em
alterações na quantidade procurada que sejam mais do que proporcionais às
modificações no preço. Assim, a elasticidade pode assumir os seguintes valores: e >
1 Î Considerada relativamente elástica, no sentido de que uma dada alteração
percentual no preço leva a quantidade procurada a alterar-se por um percentual
maior; e = 1 Î Considerada elasticidade unitária, de forma que uma dada alteração
percentual no preço leva a quantidade procurada a alterar-se por um percentual
igual; 0 < e < 1 Î Considerada relativamente inelástica, quando uma dada alteração
percentual no preço resultar em uma menor alteração percentual na quantidade
procurada19.
No caso da carne bovina, o fator mais importante, que influencia a sua
elasticidade da procura, ultimamente, é a presença de substitutos e/ou carnes
alternativas (frango, principalmente, como também suíno, mas este, em menor
proporção) de preços mais baixos, possibilitando escolhas, e nesse caso a procura
da carne bovina se torna relativamente elástica.

18
DAVISSON, W.I. Introdução à análise microeconômica, 1974.
19
DAVISSON, W.I. Introdução à análise microeconômica, 1974.

16
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Outro principal determinante da elasticidade da procura é a proporção da renda


gasta com a compra da carne bovina, onde a sua quantidade procurada é sensível
as alterações no seu preço, comprovando a elasticidade de sua procura.
Com relação ao efeito total de variação no preço FERGUSON (1992), diz: O
efeito total de variação no preço pode ser decomposto em dois efeitos: o efeito-
substituição e o efeito-renda. O efeito-substituição é a variação na quantidade
demandada resultante de uma variação no preço relativo, depois de o consumidor
ter sido compensado pela variação em sua renda real. O efeito-renda devido a uma
variação no preço de uma mercadoria é a variação na quantidade demandada
resultante exclusivamente de uma variação na renda real, em que todos os outros
preços e a renda monetária nominal permanecem constantes.
Supõem-se estes efeitos, decorrentes de uma alteração no preço relativo da
carne bovina, primeiramente, como sendo uma conseqüência da substituição de um
bem relativamente mais caro, por um bem relativamente mais barato, o que se
chama de efeito-substituição. E o outro efeito percebido, refere-se, ao aumento da
renda real do consumidor, expresso pelo fato do produto (carne bovina), supondo
estar mais barato e a renda inalterada, ou seja, nesse caso, a renda aumenta
conforme diminui o preço do produto em questão, o que se chama de efeito-renda.
Cabe destacar as influências dos ambientes de mercado nos quais os
segmentos da cadeia produtiva da carne bovina estão inseridos, pois alguns
conceitos econômicos sobre a estrutura de mercado são importantes, visto que as
empresas podem formar seus preços baseando-se na sua relação de poder no
mercado.
Toda empresa se depara com duas decisões importantes: a escolha do volume
a ser produzido e o preço de seu produto. Se não existissem restrições para uma
empresa que maximiza lucros, ela fixaria um preço arbitrariamente alto e produziria
uma quantidade arbitrariamente grande de produto. Mas, nenhuma empresa opera
num ambiente tão sem restrições. Em geral as empresas enfrentam dois tipos de
restrições nas suas ações: primeiro as restrições tecnológicas, resumidas pela
função produção (só existem algumas combinações factíveis de insumos e de
produção); e segundo a restrição de mercado, onde uma empresa pode produzir
qualquer coisa que seja fisicamente factível e pode fixar qualquer preço que

17
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

deseje...mas só poderá vender se as pessoas quiserem comprar. (VARIAN, 2000, p.


401).

A figura 1 demonstra claramente a segmentação da estrutura de mercado a


que a cadeia produtiva da carne bovina se encontra sistematizada.

Figura 1. Formação de preços na cadeia produtiva da carne bovina do Rio Grande


do Sul.
Fonte: Instituto Euvaldo Lodi - IEL, Confederação Nacional da Agricultura - CNA e Sebrae Nacional,
2000.

Dado, no entanto, o segmento da cadeia produtiva da carne bovina, consta que


a parte que envolve a produção de bovinos (pecuaristas de cria, de recria e de
engorda) constituem um mercado de concorrência perfeita.

18
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

O mercado se diz perfeitamente competitivo se: (1) Existe um grande número


de vendedores e compradores do produto e/ou mercadoria, cada um tão pequeno
que não possa afetar o preço ele sozinho; (2) os produtos de todas as empresas no
mercado são homogêneos; (3) existe perfeita mobilidade de recursos; e (4)
consumidores, proprietários de recursos e empresas no mercado tem perfeito
conhecimento dos preços, custos, presentes e futuros. (SALVATORE, 1977).
Sendo assim, em um mercado de concorrência perfeita o preço do produto é
determinado pela intersecção das curvas de demanda e de oferta do mercado para
esse produto. Considera-se então a empresa perfeitamente competitiva como
“tomadora de preços”, podendo vender qualquer quantidade do seu produto ao
preço estabelecido.
Num mercado competitivo, cada empresa só tem de se preocupar com a
quantidade de produto que deseja produzir. Seja qual for a quantidade produzida,
ela só poderá vendê-la a um preço: o preço vigente no mercado. (VARIAN, 2000).
Neste caso, os produtos não possuem diferenciação significativa e impera a lei
da oferta e da procura. Nesta condição, quando aumenta a oferta o preço cai, e
quando aumenta a procura o preço sobe. E é justamente nessa situação que se
encontra grande parte dos agricultores e agropecuaristas.
Se for considerado o fato da quantidade como função dos preços a curva de
demanda demonstrará que se pode vender qualquer quantidade ao preço de
mercado ou abaixo dele. Mas, no caso, de se considerar o preço como função da
quantidade, tem-se que não importa o quanto se vende, pois o preço de mercado
independerá das vendas20.
Nesse sentido, VARIAN (2000) afirma que é importante que se entenda a
diferença entre a ‘curva de demanda do mercado’ que mede a relação entre o preço
de mercado e o total da produção vendida e depende do comportamento do
consumidor; e a ‘curva de demanda com que a empresa se defronta’, a qual mede a
relação entre o preço de mercado e a produção de determinada empresa e depende
não apenas do comportamento do consumidor, mas também do comportamento das
outras empresas.

20
VARIAN, H.R., Microeconomia - Princípios básicos, 2000.

19
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Ainda sob a argumentação de VARIAN (2000), o nível de produção que uma


empresa competitiva escolherá será onde a receita marginal se igualar ao custo
marginal, ou seja, onde a receita extra, recebida por uma unidade adicional
produzida, iguala-se ao custo extra de produzir uma unidade a mais. Se essa
condição não ocorresse, a empresa poderia sempre aumentar seus lucros pela
mudança do nível de produção.
Ocorre, no entanto, que no caso da empresa competitiva a receita marginal é
simplesmente o preço, de forma que a empresa escolherá um nível de produto onde
o custo marginal é igual ao preço de mercado21. Caso o preço seja maior que o
custo marginal, a empresa aumentará os seus lucros ao produzir um pouco a mais,
isso porque, o aumento das receitas resultantes da produção extra, ultrapassa o
aumento dos custos, e caso o preço seja menor que o custo marginal, a redução da
produção elevará os lucros, pois as receitas serão compensadas pela redução dos
custos22.
Outra situação que se configura no segmento da cadeia produtiva da carne
bovina é no que se refere à indústria frigorífica, responsável pelo abate e
processamento e também às grandes redes de supermercados responsáveis pela
comercialização do produto, os quais operam em forma de oligopólio, que se
configura pela presença de poucas empresas no mesmo mercado, oferecendo
produtos similares. Neste caso, a ação de uma empresa sobre a determinação do
seu preço, interfere na estratégia das outras. Geralmente, a empresa líder se vê na
condição de “formadora de preço”, pois devido a sua escala, ela poderá obter
menores custos de produção, levando as demais a seguirem seus preços sob pena
de perderem a competitividade.
Pode-se distinguir a estrutura de mercado de oligopólio da estrutura de
concorrência perfeita da seguinte maneira: (1) Na concorrência perfeita, a indústria é
composta por muitas firmas individuais e não é passível do controle de qualquer
uma delas. (2) Num oligopólio, poucas firmas controlam todo o mercado; tais firmas
constituem a indústria. As ações de qualquer uma delas afetarão as outras, porque o
preço estabelecido por uma firma poderá afetar a procura das outras. (DAVISSON).

21
Idem.
22
Idem.

20
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Na curva de demanda do oligopolista é observada a reação das outras


empresas, ou seja, cada empresa sabe que qualquer alteração de preço será
contrabalançada por todas as outras.
Cabe destacar que a interdependência entre as empresas é a característica
mais importante que distingue o oligopólio das outras estruturas de mercado. Essa
interdependência é devida ao fato de que há poucas empresas e quando uma delas
baixa seu preço, fazendo uma campanha publicitária bem sucedida ou introduzindo
um modelo e/ou uma opção de produto melhor, visto que no oligopólio cada
empresa vende um produto com marca própria e aceita pelo mercado como um
substituto próximo dos produtos das demais empresas que competem no mesmo
mercado, a curva de demanda que os outros oligopolistas se defrontam irá se
deslocar para baixo23.
Salienta-se que na cadeia produtiva da carne bovina, as indústrias frigoríficas
constituem oligopsônios, em relação aos agropecuaristas, ou seja, são poucas as
indústrias que controlam o mercado na compra do produto em questão (boi gordo),
sendo estas formadoras de preço do boi gordo, junto aos agropecuaristas. O mesmo
ocorre com as grandes redes de supermercados ao adquirirem os produtos
acabados para a sua comercialização.
Assim sendo, é nítida a posição que o oligopolista exerce de formador de
preços.

A CADEIA PRODUTIVA DA CARNE BOVINA A PARTIR DO SISTEMA DE


PRODUÇÃO DO NOVILHO PRECOCE

Formas de organização da produção


Na produção de bovinos de corte há o sistema de produção de novilhos
precoces, ou seja, animais de idade jovem (animais abatidos com menos de dois
anos, e com peso de carcaça e cobertura de gordura dentro dos padrões exigidos
pelos frigoríficos), com característica de carcaça e de carne compatíveis às

23
SALVATORE, Microeconomia. 1977.

21
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

exigências impostas pelos principais importadores, assim como anseios da própria


sociedade brasileira no sentido de aquisição de produtos de boa qualidade.
O sistema de produção do novilho precoce apresenta maior produção por área,
com melhor rentabilidade e maior lucro24. No caso dos frigoríficos, a vantagem
encontra-se na possibilidade de se obter um animal com rendimento de carcaça e de
qualidade superior.
Destaca-se, assim, que o sistema de produção do novilho precoce, sob análise
econômica, gera diferenças significativas no comportamento da cadeia produtiva da
carne bovina e na respectiva formação de preços, pois os custos de produção,
sistemas de beneficiamento e nichos de mercado são alterados em função do
condicionante parâmetro designado qualidade superior, visto que, o nível de
tecnologia, a genética, a alimentação e a sanidade utilizadas neste sistema,
apresentam um resultado com diferencial positivo.
A produção do novilho precoce permite um planejamento de uma escala de
abates, resolvendo o problema de capital de giro encontrado na pecuária tradicional,
na qual, normalmente, as vendas ocorrem por safra. O abate planejado, escalonado
e intensificado aumenta a entrada de receitas ao longo do ano e permite receita para
o autofinanciamento das atividades agropecuárias (GOTTSCHALL, 2001).

Alianças mercadológicas
Entende-se por Aliança Mercadologia, uma proposta de parceria entre os
segmentos da cadeia produtiva da carne bovina, visando produzir, industrializar e
disponibilizar para o consumidor final, uma carne de qualidade superior, resultante
do abate de novilhos precoces.
PEROSA (1998) define aliança mercadológica como um compromisso
estabelecido entre os segmentos de produção, abate/processamento e distribuição
de carne bovina, tendo como objetivo ofertar um produto com atributos de qualidade
que a diferencie da carne-commoditie disponível no varejo.
A aliança mercadológica da cadeia da carne bovina tem por objetivo
estabelecer canais estáveis de distribuição de carne de qualidade superior, nesse
sentido, realizando um acordo entre pecuaristas, frigoríficos e supermercados, a fim

24
Estudo realizado pela FNP Consultoria & Comércio (2002).

22
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

de estabelecer relações estáveis entre os diversos elos da cadeia. O produto (carne


bovina) comercializado pelos supermercados credenciados será fornecido por um
grupo de pecuaristas pré-identificados e sendo o animal abatido e feito o
processamento por frigoríficos de primeira linha. Com isso, o consumidor deverá
encontrar um produto com todas as informações de procedência e com regularidade.
Assim, as alianças mercadológicas constituem uma alternativa, a fim de
estabelecer um melhor relacionamento entre produtores e frigoríficos, bem como
distribuidores, possibilitando mais informações sobre a origem do produto adquirido,
garantindo visibilidade a todo o sistema e maior controle sobre as operações.
No caso do Rio Grande do Sul, a aliança mercadológica tem a finalidade de
recuperar a produção pecuária, aumentar o abate inspecionado, reduzir a
capacidade ociosa das empresas e melhorar a qualidade dos produtos oferecidos à
população. Os principais instrumentos são incentivos fiscais, para os agentes que
concordam em adotar as regras do programa, e a capacidade de articulação do
governo, a fim de induzir uma postura mais cooperativa entre os agentes.
As alianças mercadológicas no âmbito dos programas de novilho precoce
trazem alguns benefícios importantes para o segmento da cadeia produtiva, entre
eles25:
Pecuarista:
- Aumento da rentabilidade, com abate precoce;
- Absorção e utilização de técnicas de manejo mais modernas, que podem
propiciar ganhos de produtividade em médio e longo prazos;
- Garantia de venda do boi, para frigoríficos que valorizem o produto dentro
de certas especificações;
- A longo prazo, ganhos em termos de diferenciação do produto e os
produtores que podem abrir novos mercados (via agregação de valor)
interna e externamente ao Brasil.
Frigoríficos:
- Garantia de regularidade de abastecimento, com produtos dentro de uma
especificação superior de qualidade;
- Garantia de venda do produto à distribuição;

25
Apontados por várias literaturas a respeito do assunto, entre eles: RESTLE & VAZ (2002).

23
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

- Diferenciação do frigorífico, que pode, no médio prazo tornar-se um


exportador, dentro das normas internacionais.
Distribuição:
- Garantia de regularidade de abastecimento, com produtos dentro de uma
especificação superior de qualidade;
- Disponibilização ao consumidor final de um produto com garantia de
origem e qualidade, demonstrados através de um selo ou uma marca que
o torna diferenciado.

Estes benefícios aos agentes da cadeia, repercutem em benefícios ao


consumidor que recebe informações sobre os produtos (sua origem, características
organolépticas (cor, sabor, odor) e formas de cozimento mais adequadas), obtendo
garantias em termos de saúde, com relação ao produto adquirido.
O aumento da fiscalização sanitária é uma ação crucial do governo. Ao reduzir
o abate clandestino, o governo contribui para ampliar o mercado das empresas
legalizadas, ajudando a consolidar os esforços de recuperação do setor.
Um fator considerável, no caso gaúcho, é o grau de comprometimento das
redes de supermercados que ao colocarem suas marcas na carne do programa de
produção do novilho precoce, buscam uma estratégia de diferenciação em relação à
concorrência e vinculam-se decisivamente aos rumos do programa. Através dessa
vinculação, visam aumentar a confiança dos consumidores no caráter diferenciado
do produto, bem como obter os efeitos dessa diferenciação. Os resultados são:
crescimento das vendas, com boas perspectivas de continuidade, e pagamento de
preços diferenciados aos pecuaristas, sendo esta uma antiga reivindicação do setor.
Então, as alianças mercadológicas surgem como estratégia comercial entre
todos os segmentos da cadeia produtiva da carne bovina, visando viabilizar os
programas de qualidade total praticando a rastreabilidade, com o objetivo de integrar
o processo produtivo para o máximo controle, maiores ganhos de eficiência e de
rentabilidade.

24
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Pontos críticos na produção de carne pelo sistema do novilho precoce


A produção a partir do novilho precoce envolve custos de produção maiores,
visto que na produção de carne de qualidade superior, representando um produto
diferenciado no mercado, é fundamental um bom esquema alimentar e sanitário de
rebanho, com vacinações e exames periódicos nos animais, visando evitar doenças;
exige também estrutura, recursos e assistência técnica eficiente.
Consta ainda, que a maior parte dos insumos necessários para a atividade
pecuária em geral, vem apresentando alta de preços, enquanto que os preços pagos
pelo boi gordo ao produtor caíram, porém, essa queda dos preços pagos pelo boi
gordo, não foi repassada ao consumidor, sendo que, no varejo, o preço da carne
acumula altas sucessivas26.
Pode-se dizer que a falta de informação dos diversos segmentos do mercado,
dificuldade de acesso à tecnologia propriamente dita e a deficiência de capacitação
da força de trabalho, bem como, falta de estruturação do setor, dentro dos padrões
exigidos na produção de um produto diferenciado, como é o caso da produção do
novilho precoce, são todos pontos críticos que causam dificuldades ao setor de se
tornar competitivo nesse segmento de produção.

Políticas governamentais
No final da década de 70 até meados dos anos 80, as alíquotas do então ICMS
para produtos agropecuários variavam de 4,52% a 17,8%, dependendo do estado. A
partir de 1984, a alíquota de ICMS passou a ser de 17% e única em todo o território
nacional. No entanto, atribui-se a esse aumento de tributação, a ampliação da
economia informal, com reflexos diretos sobre o abate clandestino, e a conseqüente
queda na qualidade da carne oferecida à população27.
Segundo ANJOS (1995), à medida que a alíquota foi elevada, houve aumento
na sonegação e conseqüentemente, uma arrecadação relativamente menor.
Sendo assim, os problemas financeiros enfrentados pela indústria frigorífica
têm sido atribuídos em boa parte à concorrência desleal das empresas que
sonegam, devido às elevadas alíquotas do ICMS.

26
Conforme apurado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia).
27
Segundo informações junto a FEE.

25
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Pecuaristas e frigoríficos, por meio de suas entidades representativas, têm


proposto a redução do imposto e a equalização de sua cobrança pelos estados.
Contudo, nem a União nem os estados concordam com qualquer proposta que
implique renúncia fiscal e perda de arrecadação. As barreiras políticas para a
uniformização ou redução do ICMS são enormes. Destaca-se que o ICMS é uma
importante fonte de receita governamental nos estados onde a pecuária bovina tem
uma grande participação na geração de renda e este seria o maior obstáculo para
sua redução.

DINÂMICA DE FUNCIONAMENTO E FORMAÇÃO DE PREÇOS

Produtor – Abatedouro/Processamento – Distribuidor


Os três elos mais importantes da cadeia de carnes são: a) produtor - composto
pelos agropecuaristas responsáveis pela cria, recria e engorda, os quais se situam
dentro da cadeia produtiva como tomadores de preços; b)
abatedouro/processamento – representados pelos frigoríficos, responsáveis pelo
abate e processamento da carne, atuando como formadores de preços e c)
Distribuidor – tendo como um dos principais representantes as grandes redes de
supermercados, onde a carne devidamente processada será comercializada, sendo
este elo também formador de preços.
A relação entre produtor e frigorífico, como também varejistas (supermercados,
por exemplo), ocorre de diferentes formas: através de intermediários (corretores)
comissionados que fazem aquisições de animais para donos de frigoríficos ou para
varejistas (supermercados e açougues). Esses corretores podem ser do tipo
exclusivo, que trabalha para um frigorífico, e varejista específico e/ou do tipo não
exclusivo, que trabalha para vários frigoríficos, e varejistas indistintamente. Outra
forma de aquisição de bois gordos é a que é feita diretamente pelo frigorífico por
meio de seu agente comercial, no caso, um empregado do próprio frigorífico e que,
portanto, não pode ser caracterizado como um agente, já que não é comissionado,
mas sim, assalariado ou empregado da empresa frigorífica.

26
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Consta que a forma de aquisição de bois gordos, mais freqüente, no Rio


Grande do Sul é a feita diretamente pelo frigorífico através de um agente comercial,
empregado do próprio frigorífico28.
Segundo DE ZEN (1993), os fatores que os pecuaristas mais observam, no
momento de vender os animais, além da tradicional necessidade de “fazer caixa”, ou
seja, de usar as reservas que são os animais no pasto, são, principalmente, as
relações de troca entre boi gordo e boi magro e entre boi gordo e bezerro (quantos
animais o pecuarista consegue repor com a venda de um boi gordo, mostrando mais
a preocupação do pecuarista em manter lucratividade na atividade, no longo prazo,
do que com a necessidade de apenas ter dinheiro para resolver problemas ou
aplicações financeiras no curto prazo); como também, as taxas de juros reais
praticadas no mercado; prazo de pagamento; a cotação dos animais em dólar e
outros.
“Geralmente, as variações no preço do boi gordo e do bezerro acontecem ao
mesmo tempo, na mesma direção e proporção, já que o pecuarista recriador tende a
demandar mais, ou menos, bezerros para reposição, à medida que o preço do boi
gordo sobe mais, ou menos” (INSTITUTO EUVALDO LODI, CONFEDERAÇÃO
NACIONAL DA AGRICULTURA, SEBRAE NACIONAL, 2000).
Ainda conforme estudo desenvolvido pelo INSTITUTO EUVALDO LODI,
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA AGRICULTURA, SEBRAE NACIONAL, (2000),
existem diversos fatores que interagem para a formação de preços na pecuária
bovina. Há fatores estruturais e temporais relativos tanto à oferta quanto à demanda
do produto: os fatores estruturais mais importantes são os relacionados ao caráter
sazonal e cíclico da produção; já os fatores temporais se referem às tendências e
variações irregulares, além dos preços de outras carnes (principalmente de frango)
que também exercem influência.
Assim como na maioria dos processos de produção agropecuários, o setor de
bovinocultura de corte também apresenta períodos de safra e entressafra,
ocasionados por diversos fatores naturais, que influem de forma incisiva na
produção pecuarista.

28
Segundo o SICADERGS (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul).

27
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Em estudos realizados por COUTO (1997), constatou-se que os preços do boi


gordo apresentam nitidamente um período de preços baixos que correspondem à
safra do boi ou a maior oferta de animais gordos para abate. Esse período
descendente de preços vai de novembro a maio. O período de preços altos, que
corresponde à entressafra, ou a menor oferta de bois para abate, compreende os
meses de maio a novembro. O pico de preço alto é o mês de outubro, enquanto que
o pico de preço baixo é em maio.
COUTO (1997) relata também que o “comportamento plurianual”, mostra que
há um período de 6 anos nos quais os preços seguem um período ascendente de 3
anos e um descendente de 3 anos.
Estudos da FNP CONSULTORIA & COMÉRCIO (2002), tentam contestar a
idéia do ciclo pecuário de seis anos. O ciclo pecuário é um fator importante na
determinação dos preços. E também, faz-se constar que a sua duração é de quatro
anos, ou seja, à distância entre os picos de preços é de quatro anos.
Segundo análises da FNP, talvez o ciclo da pecuária brasileira tenha se
reduzido para quatro anos, porque a dinâmica da atividade mudou (a velocidade da
transmissão das informações aumentou muito, e também cresceu a participação de
outras carnes no mercado, afetando a oferta e a demanda de carnes).
Desta forma, a lucratividade da indústria da carne bovina está diretamente
relacionada aos ciclos de produção. Como os preços no varejo são relativamente
estáveis, os lucros da indústria tendem a estar ligados aos preços do boi gordo.
Quando há uma deficiência de oferta de boi gordo, os abatedouros tendem a
aumentar os preços fazendo o contrário nos picos de produção.
Segundo KASSOUF & HOFFMANN (1988), é evidente, a existência de
variações cíclicas nos preços da carne, ao longo da série histórica, com
características repetitivas bem definidas que as tornam previsíveis.
Com relação ao preço do boi gordo terminado, este sofre a influência de
diversos fatores, expostos por TORRES JR. (2003):
a) - Mercado de animais para reposição - Os animais para reposição influem
nos preços do boi gordo, visto que constituem importantes componentes de custo. A
maior ou menor oferta dessa categoria de animais, pesa na decisão do terminador

28
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

(produtor) em vender ou não, pois uma compra mal feita resulta em prejuízo
irreversível.
b) - Consumo interno de carne bovina.
c) - Exportação de carne bovina e derivados.
d) - Expansão da pecuária – Influenciado pelas campanhas de vacinação
contra febre aftosa, as quais, por sua vez, fizeram com que os dados estatísticos se
tornassem mais confiáveis, devido ao controle de registros.
e) - Monitoramento do rebanho ou rastreabilidade, o Sistema Brasileiro de
Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina – SISBOV, foi criado com a
finalidade de identificar e certificar o rebanho, com relação à origem, destino,
sanidade, manejo, alimentação, medicação administrada por animal e qualidade da
carne produzida.
Consta que o SISBOV atinge apenas 2,5% do rebanho gaúcho. Das 13,4
milhões de cabeças de gado existentes no estado, pouco mais de 300 mil fazem
parte da base de dados do programa29.
O Rio Grande do Sul precisa rastrear o seu rebanho para continuar exportando
aos países da União Européia, porém, o estado enfrenta sérios problemas no que se
refere às diferentes estatísticas apresentadas, que indicam graves distorções em
relação ao número de animais abatidos anualmente no estado. "Uma das fontes nos
sugere 3,5 milhões, a outra 2,1 milhões e a terceira quase um milhão de cabeças"30.
Destaca-se que o sistema de rastreabilidade viria a dirimir qualquer dúvida acerca
do número real de bovinos abatidos entre outras informações difusas que existem no
setor.
Atualmente este é um fator a se considerar, pois animais com rastreabilidade
apresentam um valor agregado maior na ocasião da venda, em torno de 5 a 8%,
conforme comunicação pessoal do comércio local.

Preço do boi no Rio Grande do Sul


Ressalta-se que o estado enfrenta dificuldades em razão de uma concorrência
desleal, com o ingresso de carne do Centro-Oeste do país, da falta de estrutura das

29
Informações do coordenador do SISBOV, publicadas no site: www.megaagro.com.br no dia 17/10/2003.
30
Idem.

29
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

indústrias para a exportação, fazendo com que o preço do boi gordo gaúcho seja,
normalmente o menor em relação aos estados considerados como as principais
praças formadoras de preços, quais sejam: São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais,
Mato Grosso do Sul e Goiás.
O estado do Rio Grande do Sul embora enfrente alguns problemas no setor da
pecuária bovina, os preços, ainda que não sejam os melhores, durante a década de
90 até 2006, estão em torno da média do custo esperado pela produção da pecuária
gaúcha, que se baseia primordialmente e/ou tradicionalmente, na produção de
animais a pasto; mas, mesmo assim, precisam melhorar, para que o estado do Rio
Grande do Sul possa atuar com mais competitividade junto aos demais estados.
Os novilhos precoces produzidos no estado recebem uma remuneração de 5%
sobre o preço médio do dia pago pelo frigorífico, por serem um produto diferenciado.
Além disso, animais com padrão britânico, com especificidades de gordura de
cobertura entre 3 e 10 milímetros, até 4 dentes (30 meses), ganham mais 2% de
bonificação; como também os novilhos que apresentem comprovada rastreabilidade
superior a 40 dias, pelo SISBOV (Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação
de Origem Bovina e Bubalina), recebem mais R$ 0,05 (cinco centavos) por quilo de
carcaça fria31.
A carne bovina é uma commodity e a indústria está buscando agregar valor aos
produtos, procurando desenvolver produtos semi-prontos e/ou prontos. O
investimento nessa área está sendo em produtos com maior valor agregado. Outro
aspecto importante é a embalagem dos produtos que difere de acordo com a parcela
alvo do mercado, havendo grande distinção nas embalagens destinadas à
exportação, influenciando na divulgação da marca. Os produtos destinados ao
mercado externo junto à marca própria do frigorífico, estão associados à marca
South Brazilian Beef, que envolve um grupo de indústrias frigoríficas do Rio Grande
do Sul, SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio a Pequena e Micro Empresa) e APEX
(Programa de Apoio a Exportação), em parceria com o SICADERGS (Sindicado da
Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul), visando atender os

31
Dados conseguidos junto ao Frigorífico Mercosul, de Bagé (RS), principal exportador gaúcho.

30
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

seguintes objetivos: divulgação da carne de animais criados nos campos gaúchos,


bem como a busca de novos importadores32.

O verdadeiro indexador do preço do boi


Por volta dos anos 80 surgiu como referência a expressar a arroba do boi, o
dólar, com a finalidade de possibilitar a análise da evolução dos preços reais do boi
de um ano para o outro, visto que, devido à crise de 1979 (crise do petróleo e da
dívida externa) tornou-se impossível a comparação pelos preços nominais, pois
ocorreu uma elevação da inflação33.
Ocorre que a escolha do dólar como indexador deveu-se ao fato do IGP (Índice
Geral de Preços) ser desconhecido e o dólar acompanhar a inflação, ou seja, a
maioria dos pecuaristas desconhecia o IGP e aqueles que conheciam, encontravam
dificuldades para encontrá-lo e memorizá-lo, sendo pouco divulgado na forma de
índice contínuo. Como a política de câmbio adotada pelo governo era baseada em
desvalorizações controladas, acompanhando a inflação, assim, o dólar representava
a inflação e tendo este uma boa divulgação pela imprensa, se estabeleceu como o
indexador de preferência do setor pecuário, a fim de avaliar a evolução, bem como
fazer previsões dos preços do boi gordo no médio e longo prazos.
Assim, a escolha do dólar como indexador deveu-se ao fato de sua praticidade,
durante o período inflacionário, não tendo nenhuma relação com o mercado externo.
Na Tabela 5, faz-se uma comparação entre os preços do boi gordo expressos
em IGP e os preços expressos em dólar a fim de verificar qual apresenta maior
estabilidade ao longo do período.
Verifica-se com a tabela 8 que os preços do boi gordo quando expressos em
pontos de IGP, têm ficado em torno de 40 pontos por arroba, em São Paulo, que é a
principal praça formadora das cotações do país, ou seja, consta que os preços do
boi variaram mais quando cotados em dólar do que em IGP. Em dólar, o pico de
baixa foi em 1992 (US$ 18,1/@), enquanto o pico de alta ocorreu em 1995 (US$
26,2/@), com uma variação de 44,8%. Já o IGP, o pico de baixa ocorreu em 1996
(34,3 IGP/@), enquanto o pico de alta ocorreu em 1994 (43,9 IGP/@), com uma
variação de 28%.
32
Informações do frigorífico Mercosul, de Bagé.
33
Segundo ANUALPEC, 2002.

31
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

Tabela 5 – Preços históricos do boi gordo.


Ano IGP/@ US$/@
1992 38,5 18,1
1993 40,6 20,9
1994 43,9 26,0
1995 39,9 26,2
1996 34,3 22,8
1997 37,0 24,4
1999 40,7 18,6
2001 41,5 18,3
Fonte: FNP Consultoria, 2002.

Ressalta-se, também, que o preço pago ao produtor pecuarista é estabelecido


pelos frigoríficos de conformidade com os preços parametrizados pela praça de São
Paulo, que são em média, 5% maiores34.

Aspectos mercadológicos da carne bovina


O mercado da pecuária de corte bovina subdivide-se em vários mercados ao
longo do canal de comercialização em que, nos seus diferentes níveis, (produtor,
atacado e varejo) ocorre à cotação de preços dos diversos tipos de “produtos”
comercializados.
Assim sendo, há o mercado de bezerros, o mercado de garrotes, o mercado do
boi magro, o mercado do boi gordo, o mercado de carcaças de boi, o mercado
atacadista de carnes (dianteiro, traseiro, ponta de agulha etc) e o mercado varejista
de carnes (alcatra, filé mignon, picanha, etc) – carne de primeira e de segunda.
Um aspecto mercadológico considerado fundamental para o bom desempenho
da comercialização de animais, afetando todas as relações dentro da cadeia
produtiva com o mercado, é o preço obtido pelos animais no momento da venda.
Por se tratar de um produto agropecuário, sua produção é afetada por diversos
fatores: clima, raça, tecnologia, natureza perecível, localização das propriedades,

34
Segundo ANUALPEC, 2002.

32
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

entre outros fatores. Em conseqüência disso, a oferta de animais torna-se um tanto


quanto incontrolável, causando um mercado de preços oscilantes, no entanto,
mesmo que os preços se mostrem oscilantes, estes apresentam, de certa forma, um
comportamento previsível, em sendo assim, quanto mais se conhecer esse
comportamento dos preços, mais fácil fica de se prever e antecipar ações mais
concisas, a fim de minimizar as incertezas e os riscos aos quais a atividade está
exposta, pelo caráter oscilante dos preços.
O processo de aquisição de carnes pelas redes de supermercados não é uma
tarefa fácil, em geral esta compra é baseada em cotação e licitação de preços, com
ressalvas de exigências impostas pelo controle de qualidade, bem como nos fluxos
de saída dos produtos35.
A grande variedade em possibilidades de fluxos de comercialização de animais,
carnes, e subprodutos (couro, ossos, chifres etc), torna o cálculo das margens de
comercialização, as quais medem o valor apropriado pelos intermediários no
processo de comercialização, um tanto quanto limitado.
Quanto à forma de se apresentar à margem de comercialização, SANTANA
(2001) diz: “A margem pode se apresentar como absoluta a qual é o valor monetário
recebido pelo intermediário (preço de venda menos preço de compra da matéria-
prima), como também, relativa, ou seja, é o mesmo valor dividido pelo preço no
varejo, mostrando a participação percentual do intermediário no preço pago pelo
consumidor”.
As margens de comercialização incluem os custos de comercialização,
referentes ao transporte, armazenamento, processamento, promoção etc; bem
como, o lucro obtido pelo intermediário.

ENTRAVES ECONÔMICOS NO SETOR A JUSANTE

Composição do agronegócio no Rio Grande do Sul


É importante ressaltar que ao analisar a cadeia produtiva da carne bovina,
depara-se com o que se chama de agronegócio, ou seja, este envolve além da
própria atividade agropecuária, as demais atividades que estão encadeadas com a
35
Informações junto ao SICOCARNE (Sindicato do Comércio Varejista de Carnes Frescas do Rio Grande do
Sul).

33
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

mesma, nos setores a montante e a jusante. No setor a montante, estão as


atividades econômicas responsáveis pelo fornecimento dos insumos, máquinas e
implementos para a produção, sendo que o setor a jusante, compreende os setores
agroindustriais, ou seja, as atividades de processamento/transformação e
distribuição da produção agropecuária.
Pela Tabela 6 observa-se que na composição do agronegócio, no estado do
Rio Grande do Sul, o setor a jusante representa uma parcela expressiva com 58,5%,
onde a agroindústria participa com 40,8% dessa parcela. Ressaltando que a
agropecuária também tem uma participação considerável de 33%.
Destaca-se assim, que o agronegócio no estado do Rio Grande do Sul,
representa aproximadamente 30% do PIB total, indicando que o agronegócio tem
uma importância significativa para a economia do estado.

Tabela 6 – Composição do agronegócio do Rio Grande do Sul e Brasil – 2004.


Componentes do Agronegócio RS (%) Brasil (%)
Montante: 8,6 5,6
Insumos 6,8 4,9
Máquinas e implementos 1,8 0,7
Agropecuária: 33,0 39,9
Jusante: 58,5 54,5
Agroindústria 40,8 37,0
Distribuição e serviços 17,6 17,5
Total 100,0 100,0
Participação do Agronegócio no PIB total 29,5 19,8
Fonte: FEE, IBGE, 2004.

Entraves econômicos na cadeia produtiva da carne bovina


No agronegócio o setor a jusante tem uma parcela expressiva de participação.
Assim, convém destacar alguns dos mais significativos entraves econômicos, pelos
quais o setor passa. Uma questão importante que se traduz em um grande entrave
econômico para a atividade é o problema da concorrência do Brasil Central,
principalmente dos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, de modo que a

34
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

carne produzida nos dois estados é vendida no Rio Grande do Sul sem recolhimento
de ICMS devido a incentivos fiscais. Os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do
Sul respondem por 20% da oferta de carne no Rio Grande do Sul36.
Salienta-se, também, que a carga tributária do Rio Grande do Sul é a mais
elevada do país, responsável pela perda de até 18% da competitividade com outros
estados37.
Outra questão se refere ao relacionamento entre pecuarista e frigorífico, o qual
é considerado como um dos principais entraves para o desenvolvimento da cadeia,
ou seja, o grau de confiança entre eles é importante para haja um melhor
desenvolvimento da produção em termos de estruturação e adequação dos seus
produtos. Um exemplo disso fica por conta dos ganhos do pecuarista. O maior
ganho dele não é o pagamento de um acréscimo no preço do Novilho Precoce sobre
o preço do mercado, mas sim um ganho determinado pelo maior giro de animais,
conseguido entre outras coisas, pela maior confiança na relação entre pecuarista e
frigorífico.
Ressalta-se ainda, como entrave econômico, o comportamento de compra dos
indivíduos, sendo influenciado por variáveis demográficas-culturais, variáveis
psicológicas e pela situação de compra. Em termos de variáveis psicológicas, pode-
se observar que existe uma tendência a consumir produtos com baixo teor de
colesterol e sem excessos de gordura. Nesse aspecto, a carne vermelha possui uma
propaganda negativa, o que não ocorre com as carnes brancas.
Outro fator também bastante relevante nessa questão de entraves econômicos
na cadeia produtiva da carne bovina é a concorrência de outras carnes,
principalmente a de frango, devido a apresentar preços mais baixos, benefícios
nutricionais, ser prática e saudável, sendo este fator inteiramente ligado ao problema
atualmente enfrentado por toda a população, que é o baixo poder aquisitivo.
Quanto ao mercado externo, este vem apresentando crescentes exigências,
quanto aos aspectos de qualidade ambiental e sanidade animal, nesse sentido, o
estado do Rio Grande do Sul possui apenas um frigorífico apto a maiores
exportações.

36
Com base em nota publicada no Jornal Correio do Povo em 28/09/2003.
37
Segundo o SICADERGS (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul).

35
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estado é dependente do consumo interno, visto que exporta apenas 3% da
sua produção, unindo-se a isso o fato dos problemas financeiros que a população
vem enfrentando, ou seja, um baixo poder aquisitivo, ocasionando com freqüência,
uma oferta maior que a procura, na cadeia produtiva da carne bovina.
A cadeia da carne bovina do Rio Grande do Sul, apesar de encontrar-se em
fase de transformação, pode ser caracterizada como desorganizada, apresentando
falta de coordenação e também não possui estratégias bem definidas. Isso pode ser
observado quanto a dados sobre a atividade em si, os quais são muitas vezes
difusos, quando não são escassos.
O relacionamento entre os setores da produção e a indústria frigorífica deverá
ser aprimorado. O produtor necessita de orientação técnica a respeito do que, e
como produzir, para melhor cumprir os padrões exigidos, os quais elevam a
competitividade da cadeia, de modo que, os frigoríficos devem desenvolver uma
política de aproximação com a produção, firmando parcerias e premiando qualidade.
No que se refere ao sistema de produção, observa-se que há a necessidade de
se fazer alguns investimentos, especialmente em tecnologia, pois sem a introdução
de tecnologias fica difícil vencer os desafios que são colocados pela globalização.
Assim é necessário intensificar os sistemas de produção. Nesse sentido, o novilho
precoce é uma alternativa que tem se mostrado capaz de uma estratégia importante
na redução do ciclo da produção da pecuária, pois visa o abate de animais jovens,
sendo um importante indutor de incorporação de outras tecnologias contribuindo
para o aumento da competitividade do setor e possibilitando aumento do giro de
capital, com incrementos de produção e produtividade, de forma que, esse sistema
de produção baseado no novilho precoce, tem sido estudado por diferentes autores
e os resultados têm evidenciado que além dos benefícios biológicos, existem ganhos
econômicos importantes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR, D.R.D., SILVA, A.L. Consumo de carne bovina no Brasil. In: Estudo sobre
a eficiência econômica e competitividade da cadeia agroindustrial da pecuária
de corte no Brasil. Brasília, IEL, CNA, SEBRAE, 2000.

36
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

ANJOS, N.M. Programa de produção de carne qualificada de bovídeos no


Estado de São Paulo. In: ENCONTRO NACIONAL SOBRE NOVILHO PRECOCE.
Anais. Campinas: CATI, 1995, p. 1-12.
ANUALPEC 2002. Anuário da Pecuária Brasileira. FNP Consultoria & Comércio.
São Paulo: Ed. Oesp Gráfica S.A., 2002.
ANUALPEC 2004. Anuário da Pecuária Brasileira. FNP Consultoria & Comércio.
Novas previsões para o ciclo pecuário. São Paulo: Ed. Oesp Gráfica S.A., 2004.
ANUALPEC 2005. Anuário da Pecuária Brasileira. FNP Consultoria & Comércio.
São Paulo: Ed. Oesp Gráfica S.A., 2005.
BERTRAND apud SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira.
Campinas: Ed. UNICAMP, IE. 1996, p. 103.
COUTO, M.T. Previsão de preços para a pecuária de corte. Preços agrícolas,
Piracicaba, v.124, fev. 1997, p. 24-27.
DAVIS, J.H. & GOLDBERG, R.A. apud SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da
agricultura brasileira. Campinas: Ed. UNICAMP, IE. 1996, p. 65.
DAVISSON, W.I. Introdução à análise microeconômica. São Paulo, Atlas, 1974,
223p.
DE ZEN, S. Frigoríficos com problema? Preços agrícolas, Piracicaba, n.107, set.
1995, p. 6-7.
DIAS, A.R. & QUADROS, G.A.S. de. Exportação de carne bovina. Porto Alegre,
2002.
EMATER/RS. Análise da pecuária de corte no Estado do Rio Grande do Sul.
www.emater.tche.br - <capturado em 21/10/2003>.
FARSUL – Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul. Diversas informações.
FERGUSON, C.E. Microeconomia. Rio de Janeiro: 16ª ed., Forense Universitária
Ltda, 1992, 610p.
Fortalecimento dos setores agroindustriais. BEEF POINT. www.beefpoint.com.br
- <capturado em 16/10/2003>.
FEE – Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul. Dados
agropecuários. Diversas datas.
GOLDBERG, R.A. apud SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura
brasileira. Campinas: Ed. UNICAMP, IE. 1996, p. 65-66.
GOTTSCHALL, C. Produção de novilhos precoces: nutrição, manejo e custos
de produção. – Guaíba : Agropecuária, 2001, p. 184.
HAUGUENAUER et al. apud FARINA, E.M.M.Q. & ZYLBERSZTAJN, D.
Organização das cadeias agroindustriais de alimentos. Estudos temáticos
006/92. Pensa, 1992, P. 5.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censos agropecuários.
Diversos anos.

37
“Palestra apresentada na 1ª Jornada Técnica em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e
Cadeira Produtiva: Tecnologia, Gestão e Mercado, 28 e 29 de setembro de 2006”

INSTITUTO EUVALDO LODI - IEL, CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA


AGRICULTURA - CNA E SEBRAE NACIONAL. Estudo sobre a eficiência
econômica e competitividade da cadeia agroindústrial da pecuária de corte no
Brasil. Brasília, DF: IEL, 2000. 416p.
JORNAL DO COMÉRCIO/RS. Preço do boi. Nota publicada em 06/10/2003.
JORNAL CORREIO DO POVO. Rio Grande do Sul eleva tarifa para carnes de
fora do Estado. Nota publicada em 28/09/2003.
KASSOUF, A.L. & HOFFMANN, R. Previsão de preços de boi gordo no Estado
de São Paulo. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v.26, n.2, abr/jun
1988, p. 181-194.
KOTLER, P. Administração de marketing. São Paulo: 10ª ed., Prentice Hall, 2000.
MALASSIS, L. apud SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira.
Campinas: Ed. UNICAMP, IE. 1996, p. 67.
PEROSA, J.M.Y. Coordenação de competitividade na cadeia da carne bovina. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, 1998.
Brasília. Anais... Brasília: Suprema, n.36, 1998, p. 429-440.
RESTLE, J., VAZ, F.N. Tendências de mercado e entraves tecnológicos para a
cadeia produtiva da carne bovina. In: MELLO, N.A., ASSMANN, T.S. et al. (Eds.). I
Encontro de integração lavoura-pecuária no sul do Brasil. Pato Branco: CEFET-
PR, 2002, p.167-188.
SALVATORE, D. Microeconomia. São Paulo, McGraw-Hill do Brasil, 1977.
SANTANA, A.C. Considerações teóricas e metodológicas sobre margens de
comercialização. Belém, UNAMA; FCAP. 2001, 35p.
SICADERGS – Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul.
Informações diversas.
SHMITTER, P. apud SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira.
Campinas: Ed. UNICAMP, IE. 1996, p.100.
SILVA, J.G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira. Campinas: Ed.
UNICAMP, IE. 1996.
TORRES Jr. A. Formação e composição do preço da carne bovina. In: PATIÑO,
H.O., MEDEIROS, F.S. (Eds.) 1º Simpósio da carne bovina: Da produção ao
mercado consumidor. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2003, p.209-226.
VARIAN, H.R. Microeconomia: princípios básicos. Tradução da 5ª edição
americana – Rio de Janeiro: Campus, 2000.

38