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ROUSSEAU E O FEDERALISTA: PONTOS DE APROXIMACAO ANDRE SINGER “Quando alguém disser dos negécios do Estado: Que me importa? pode-se estar certo de que o Estado esté perdido”. Rousseau “Uma facgao que tenha éxito pode instituir uma tirania sobre as ruinas da ordem e da lei”. Hamilton Os escritos dos assim chamados autores cldssicos em teoria politi- ca—nio aqueles da Antigtiidade cléssica, mas os que formularam entre os séculos XVI e XIX as grandes idéias modernas — merecem ser visitados sempre que possam nos inspirar na busca de caminhos para os impasses contemporaneos. O meu intuito aqui é 0 de indicar em duas grandes obras do século XVII, O Contrato Social (1762), de Jean-Jacques Rousseau e 0 Federalista (1787), alguns aspectos comuns que podem ser dteis na reflexiio sobre os impasses da democracia contemporfinea. Refiro-me a trés t6picos nos quais Rousseau, Madison e Hamilton concordam: soberania imanemte, republicanismo e federalismo. © problema de fundo que a meu ver precisa ser atacado hoje aparece da seguinte forma em Giddens: “O paradoxo da democracia con- siste em que ela est se disseminando pelo mundo @, no entanto, nas democracias maduras, que o resto do mundo supostamente estaria copiando, ha uma desilusio generalizada com os processos democriiticos” * Uma primeira versdo do presente texto foi apresentada na 1 Jornada Brasil-Argentina de ‘Teoria-Politica, USP, setembro de 2000, 42 LUA NOVA r si — 2000 (Giddens, 2000. 81) Na América Latina, que faz parte do “resto do mundo” na frase de Giddens, a desilusio chegou to rpido que quase nao tivemos chance de comemorar a instalago da democracia. Como resultado, pre- cisamos enfrentar, de um lado, a desilusio dos paises avangados e, de outro, os problemas préprios da consolidagdo democrdtica em paises atrasados. Dificuldades duplicad: Creio que, diante dessa situagao, temos a ganhar na leitura de duas obras fundadoras da democracia, 0 Contrato Social e O Federalista. Por que recuar dois séculos em busca de solugdes para os problemas atuais? Minha hipétese € que a superagiio da crise democritica ter que passar pela combinagdo entre participagdo direta local (e em assuntos gerais onde haja grande consenso), de um lado, ¢ representagiio nas unidades politicas mais amplas ¢ nos temas em que haja divisio, de outro. Quero sugerir que, no pensamento dos mencionados cléssicos, hé um terreno comum no qual se pode fincar os pilares dessa visio. Comecemos pelas diferengas. Como se sabe, 0 genebrino Jean- Jacques Rousseau & um critico da representagiio, enquanto Madison ¢ Hamilton so entusiastas dela, Rousseau é um precursor das eriticas & demo- cracia liberal. Como diz. David Held: “A concepgio de Rousseau do governo republicano representa em muitos aspectos a apoteose da tentativa de ligar, por meio da tradigao republicana, liberdade e participagaio. Mais ainda, a conexio que ele forjou entre 0 principio do governo legitimo e 0 do autogoverno desafiou néo apenas os prinefpios politicos dos regimes do seu tempo — sobre- tudo os do ancien régime —, como também o dos Estados liberal-democri cos que surgiriam mais tarde, Isso porque a sua nogiio de autogoverno € das mais radicais, contestando 0 niicleo de algumas premissas fundamentais da democracia liberal. Principalmente aquela segundo a qual democracia é 0 nome que designa um tipo particular de Estado que s6 pode ser considerado responsivel perante 0s cidaddos de tempos em tempos” (Held, 1996, pag.60). Enguanto Rousseau fundava, avant la lettre, a escola que denuncia a democracia liberal como usurpadora da soberania popular, Madison e Hamilton sio os formuladores modernos de uma teoria demoeritica que visa evitar os abusos do poder da maioria e, por isso, enxerga o governo como ne- cessariamente descolado do povo, Como diz Krouse, para O Federalista “ape- nas um governo nacional soberano de Ambito verdadeiramente continental pode assegurar um governo popular nfo opressivo, Um Leviatd republicano 6 necessério para proteger a vida, a liberdade e a propriedade da tirania das maio- rias locais. A republica ampliada nfo & simplesmente um meio de adaptar 0 governo &s novas realidades politicas, mas um corretivo inerentemente dese- ROUSSEAU E 0 FEDERALISTA 43 {jével para profundos defeitos intrinsecos na politica do pequeno regime popu- lar” (Krouse, 1983, conforme citado em Held, 1996, pp. 93-4). TERRENO COMUM As diferengas entre um e outro, portanto, estZio bem estabelecidas na literatura. Sem negar as importantes distingSes entre as duas correntes, creio que o grau de distancia entre Rousseau e O Federalista é menor do que parece. O Contrato Social e os artigos em defesa da Constituigdo americana tém varios pontos de contato. A comegar pelo fato de que Rousseau e os autores de O Federalista tinham em comum 0 objetivo fundamental: buscam o estabeleci- mento de uma soberania imanente, para usar a expressiio de Hardt e Negri (2000). Ou seja, de uma soberania que nasga do préprio povo ¢ néo que desga sobre ele a partir de alguma autoridade externa. Em segundo lugar, na construgio da soberania imanente, Rousseau, Madison ¢ Hamilton preocupam-se com 0 mesmo problema: 0 do seu seqiiestro, seja pelos representantes do povo, seja pela maioria da assembléia. Os temores de Rousseau ¢ do Federalista saio, ambos, funda- mentados. Os dois dio conta de problemas reais. Da mesma forma, os modos de atacar o seqiiestro da soberania (a participagao ¢ a representagio) sao validos. O problema é saber se é possivel combinar as solugGes apre- sentadas por Rousseau, Madison e Hamilton. Seja qual for a safda que o futuro reserva para essa questtio, penso que o terreno comum oferecido pelos citados autores deve servir de ponto de partida para 0 esforco de reflexdo a respeito. Isto 6, as respostas 2 crise da democracia deverao incorporar a idéia de soberania imanente, de reptiblica e de federagao. A opgio republicana de Rousseau, Madison e Hamilton € 0 resul- tado de uma retomada, dos dois lados do Atlantico, da tradigdo renascen- lista cujo sfmbolo maior é Nicolau Maquiavel. Maquiavel adota a Reptiblica como 0 modelo de um regime de liberdade politica indispen- sdvel 4 construgio do Estado moderno (Singer 2000). Liberdade entendida como auto-governo. Mas, na pratica, os grandes Estados nacionais, como o da Franga, da Espanha e da Inglaterra se erigiram em outras bases, ndo republicanas e sim mondrquicas. As poucas reptiblicas européias, como a Holanda ¢ a Sufga, ou foram convertidas em monarquias ou ficaram isoladas. O sonho republicano, entretanto, nfo desapareceu, Com a vitéria obtida por