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Poder Judiciário do Estado de Sergipe

Rosário do Catete

Nº Processo 201174200581 - Número Único: 0000600-11.2011.8.25.0019


Autor: MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE SERGIPE
Réu: JOSE LAERCIO PASSOS JUNIOR

Movimento: Julgamento >> Com Resolução do Mérito >> Procedência

Trata-se de Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Estadual contra
JOSÉ LAÉRCIO PASSOS JÚNIOR, por atos em tese ímprobos concernentes na contratação
ilegal do Sr. Ricardo de Paula Breyer sem aprovação em concurso público para a função.

Os presentes autos originaram-se em razão das apurações ocorridas no processo


de nº: 510/2008, da 14ª Zona Eleitoral de Sergipe, objetivando apurar a eventual prática de
atos de improbidade pelo então ex-prefeito do Município de Rosário do Catete, José Laércio
Passos Júnior. Após o recebimento da documentação atinente, por meio do Ofício de nº: 14/11,
deu-se início ao Procedimento de nº: 26.11.01.0051; bem como posterior propositura da
presente ação pelo órgão ministerial.

Com a inicial, foram juntados documentos correlatos às págs. 14/220.

O processo foi devidamente distribuído em 18/10/2011; o Requerido e o Município


se manifestaram às págs. 237/244 e 231/233, respetivamente. Já Ministério Público se
manifestou às págs. 298/2988.

O requerido apresentou defesa às fls. 258/294.

Em 10/12/2015 foi realizada Audiência de Instrução para a oitiva das testemunhas


arroladas, conforme Termo de Audiência de págs. 329/230.

Foi expedida carta precatória para a comarca de Presidente Prudente/SP no intuito


de ouvir Ricardo de Paula Breyer, a qual foi devolvida com o atingimento do seu objeto,
conforme Termo de Audiência de p. 391.

Alegações Finais apresentadas pelo Ministério Público às fls. 440/448 e pelo


requerido às fls. 452/464.

Em síntese, é o relatório.

Inexistindo preliminares pendentes de análise, passo ao exame do mérito:

Pretende o Ministério Público, através desta Ação, que seja o Réu condenado nas
penas previstas no artigo 12, inciso III, da Lei nº 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa)
pela prática do tipo previsto no artigo 11 da referida Lei por ofensa aos Princípios da
Administração.
Sabe-se que o Poder Público, por imposição da Constituição Federal, está
submetido ao dever de realizar concurso público a fim de contratar funcionários que realizem
todas as funções necessárias ao seu funcionamento.

Excepcionalmente, as contratações podem deixar de exigir a realização de concurso


público, porém tais situações estão previstas em “numerus clausus” pelo constituinte, estando
entre as hipóteses contempladas as contratações temporárias, desde que realizadas por prazo
determinado e justificada a carência e a excepcionalidade da situação de interesse público, nos
termos do artigo 37, IX, da Constituição Federal.

No caso dos autos, a requerida buscou justificar o ato praticado ao argumento de


que não ocorreu lesão ao erário, uma vez que o contratado realizou as tarefas para as quais
foram recebeu remuneração, ainda que irregularmente.

As provas de que o Sr. Ricardo percebeu remuneração da Prefeitura de Rosário do


Catete repousam nos documentos fornecidos pela Município às fls. 234/235, nos depoimentos
prestados pelas testemunhas e pela confissão do próprio réu.

O Sr. Ricardo de Paula Breyer confessou jamais haver prestado qualquer serviço
junto à Prefeitura em questão e sim que trabalhou para a campanha do então prefeito, réu
neste processo, e, por conta disso, foi contratado para um “suposto cargo de confiança”.

Acrescentou ainda que o José Laércio pediu seus documentos e fez um contrato
para que recebesse pela prefeitura. Assim, assinou o contrato e foi lotado na Secretaria de
Comunicação de Município.

A testemunha Maria Sônia Souza Santos revelou que conheceu Ricardo de Paula
por ter esse trabalhado na campanha como locutor e que nunca o encontrou em nenhum órgão
da Prefeitura.

Já a então secretária de obras à época, Camila Medrado Gomes da Cruz, pouco


acrescentou de detalhes no serviço elaborado pelo Sr. Ricardo. Não lembrava se faziam o
controle de frequência, não soube informar como eram feitas as documentações dos atos, nem
o nomes das demais pessoas que trabalhavam com ela e o Ricardo.

Ou seja, um depoimento pouco confiável, na qual a Secretária de Obras não lembra


de detalhes básicos e cotidianos em seu labor à época.

Além disso, também não se vê nos autos os decretos que declaram situação de
emergência que justificasse a contratação do Sr. Ricardo como servidor temporário, como
requer o réu.

Inexistindo fato emergencial supostamente motivador das contratações, tampouco


da efetiva prestação de serviço por parte do Sr. Ricardo à municipalidade, fica patente que a
contratação indevida e que recebeu da Prefeitura de Rosário do Catete valores sem jamais ter
prestado qualquer serviço.

Tal fato, confirmado não só por documentos, como especialmente a confissão dos
fatos pelo Sr. Ricardo de Paula em Juízo, deve ou deveria ser do conhecimento do então
Prefeito Municipal, afinal é o ordenador das despesas e zelador do cumprimento da Lei de
Responsabilidade Fiscal.
Se, no caso concreto, o Prefeito não conferiu como deveria as folhas de pagamento,
agiu com verdadeiro dolo eventual porquanto não lhe importava se havia alguma contratação
indevida inclusa na folha de pagamentos, demonstrando não se preocupar com o resultado de
sua conduta.

Inclusive porque contratar sem concurso público é fato configurador de improbidade,


ilícito civil tipificados no artigo 11º, V, da Lei nº 8.429/92, adiante colocados:

Art. 1º - Os atos de improbidade praticados por qualquer agente público, servidor ou


não, contra a Administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos Poderes da União,
dos Estado, do Distrito Federal, dos Municípios, de Territórios, de empresa incorporada ao
patrimônio público ou de entidade para cuja criação ou custeio ou erário haja concorrido ou
concorra com mais de 50% do patrimônio ou da receita anual, serão punidos na forma desta
lei.(...)

Art. 11º Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios
da Administração Pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade,
imparcialidade, legalidade e lealdade as instituições, e notadamente:

(...) V – Frustrar a licitude de concurso público;

Confrontando as normas legais descritas com os fatos acima comprovados, tem-se


como conclusão inegável que a conduta do réu no exercício do cargo de Prefeito Municipal faz
enquadrá-la como tendo praticado a improbidade administrativa apontada nas citadas normas,
porquanto realizou contratação indevida.

Por óbvio, é inerente ao exercício dos cargos públicos, especialmente àqueles que
se propõem a comandar a administração pública como gestor do dinheiro público, observância
à moralidade, probidade, impessoalidade e transparência, tudo em respeito à comunidade que
os elegeu.

Ademais, o fato de não ter o Sr. Ricardo exercido efetiva prestação de serviços à
municipalidade, configurou dano patrimonial ao Município de Rosário do Catete.

A inobservância das regras de legalidade e moralidade dos atos por parte do gestor
da coisa pública, independentemente do valor nominal do patrimônio agredido ou dilapidado,
faz gerar prejuízo incalculável, por criar e reforçar a presunção de que qualquer cidadão
poderá, também, apropriar-se da coisa comum, porque contribuinte e inspirado no modelo
apresentado por um ocupante do cargo executivo mais alto do Município. Por tal motivo
desejou o legislador da lei n.º 8.429/92 alcançar o ato do gestor do bem público,
independentemente da existência de prejuízo causados ao erário, dada a visão moralizadora
dessa, como deixou claro no seu artigo 21, I, da referida Lei.

Diante de tais fundamentos fáticos e legais e das evidências trazidas aos autos
pelos documentos acostados e provas testemunhais, observada a gradação da ilicitude
praticada, ainda a sua repercussão no patrimônio Público imaterial, haja vista a violação de
seus princípios norteadores, para prejuízo moral da comunidade; observado também, o caráter
doutrinador, testemunhal e moralizador que deve ser alcançado por decisões deste jaez,
JULGO PROCEDENTES OS PEDIDOS CONTIDOS NA AÇÃO e declaro, na forma do pedido,
indevidas as contratações e que os réus praticaram os atos de improbidade administrativa
definidos como tal no artigo 11º, V, da Lei 8.429/92, e condeno JOSÉ LAERCIO PASSOS
JUNIOR nas sanções previstas no art. 12, III da referida Lei a: 1) tersuspensos os seus direitos
políticos pelo prazo de 03 (três) anos; 2) perda da função pública que exerçam atualmente; 3)
proibição de, por 03 (três) anos, de contratar com o Poder Público ou de receber benefícios ou
incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por meio de pessoa jurídica
da qual sejam sócios; 4) condenação do réu Laércio Passos ao pagamento de multa civil no
valor equivalente a 3 vezes o valor de sua última remuneração como prefeito do Município de
Rosário do Catete; e 5) condenação do réu à devolução aos cofres públicos dos valores
percebidos indevidamente pelo Sr. Ricardo de Paula corrigidos pelo IPCA desde a data de seu
pagamento.

Condeno ainda o réu ao pagamento das custas processuais. Não efetuado o


pagamento nesse prazo, oficie-se à Procuradoria do Estado para execução.

Transitada em julgado, arquivem-se os autos.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Documento assinado eletronicamente por CLAUDIA DO ESPIRITO SANTO, Juiz(a)


de Rosário do Catete, em 01/05/2018, às 10:01, conforme art. 1º, III, "b", da Lei
11.419/2006.

A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico


www.tjse.jus.br/portal/servicos/judiciais/autenticacao-de-documentos, mediante
preenchimento do número de consulta pública 2018001024939-08.