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Fichamento – Simanke – ‘Os dilemas da psiquiatria’, in Metapsicologia lacaniana.

História recente ou campo preliminar da organização da medicina enquanto disciplina


científica: medicina classificatória - herdeira do método da história natural

conformação do olhar clínico (método de observação) - por oposição a medicina dos


sistemas: busca-se na superfície do orgão afetado os sinais visíveis (eleitos como
qualidades essenciais pela abstração do médico) das entidades mórbidas.

a contradição de um método de observação aplicado a um objeto (que embora seja


portador de uma essencialidade - 'entificado' - resta invisível na sua unidade;

O surgimento da medicina clínica (como meio de superação da contradição inerente à


medicina classificatória) - o olhar do médico desloca-se para o próprio paciente, agora
eleito como objeto (concreto/positivo) próprio do saber médico; Foucault assina-la
(segundo Simanke) que nesse momento o homem torna-se propriamente objeto de um
saber;

persiste o problema da não 'coincidência' entre o paciente e a doença a ser observada, de


modo que a medicina termina por novamente seu objeto primeiro (a doença);

O postulado anatomo-patológico de Bichat (Tratado das membranas [1802]) - aqui


identificam-se doença e alteração real dos tecidos (que por sua transparência, observa
Simanke em sua leitura de Foucault, 'o tecido ou a membrana tem a natureza de uma
superfície), objeto ideal para a observação médica; em contraste com a opacidade dos
orgãos, no qual se ocultavam as propriedades 'essenciais' da doença, cuja 'ontologia' foi
traçada pelo procedimento classificatório.

procedimento retroativo de Bichat - a dissecção de cadáveres permite a localização das


alterações tessiduais, 'in locu', provocadas pela enfermidade, cujos efeitos eram
observados no vivo - disso decorre uma 'desqualificação do método de observação clínica
- 'tomar notas à cabeceira dos doentes' (seria interessante acrescentar conforme a
observação, pertinentemente colocada por Simanke, de que aqui podemos localizar o
primeiro traço de distanciamento entre a tradição propriamente clínica [vale lembrar que
o vocábulo grego 'kliné', se refere à atitude do médico que se curva sobre o leito do doente
para ouvi-lo e tomar notas do mal que o acomete] que se mostrara insuficiente para
estabelecer a identidade entre a doença e seu substrato 'real'; e um método cuja orientação
prescinde, em princípio, do 'relato do paciente'. Sua fala, cujo teor 'potencialmente'
subjetivo é encarado como motivo de engano, é preterida em proveito da objetividade
silenciosa do cadáver. Assim, a medicina poderia atribuir-se um objeto idealmente
circunscrito a seu olhar instrumental.
Simanke (2002) acrescenta numa nota [introduzir nota, cf. Simanke (2002) ref. completa,
pp. 23-24] que nos parece importante, que a revolução proporcionada por Bichat, foi
capaz de integrar à nova medicina que instaurava os valores obtidos da tradição anterior,
pautada pelo método de observação. Dessa maneira, a ciência médica segue sendo uma
ciência da observação. Com Claude Bernard, surge a possibilidade de se instaurar uma
observação induzida, 'experimental'. No espaço controlado do laboratório, cria-se as
condições ideais para um 'observação mais acurada'. Não é supérfluo lembrar que, tal
como mencionamos no início deste capítulo, o espaço neutro e controlado do laboratório,
se introduz como alternativa valiosa na produção da 'verdade' da doença como prova.
Nesse, Bernard vem rematar a estratégida de Bichat, ao permitir que se reproduza no
ambiente ajustado do laboratório aquilo que no vivo se apresenta espontaneamente.
[Pensar sobre acrescentar a observação de que, tanto Bernard quanto Bichat se inserem
numa tradição que propõe limites quantitativos entre o 'normal' e o 'patológico' - o que é
objeto de análise de Canguilhem]

A doença segue guardando o estatuto de um 'processo', tal como figurava na medicina


clínica. Todavia, se no âmbito da observação do paciente, o processo mórbido conservava
um caráter ideal, cuja unidade dependia da abstração clínica, o postulado de Bichat
permite assimiliar, num estrato observável, a alteração patológica à propria doença.

Passa-se do construto 'orgão' a unidade real dos tecidos dotados de


'transparência'(Simanke, p. 23).

Não obstante o problema que as enfermidades que cursavam sem lesões teciduais
manifestas acarretavam, como teoria das febres que instala toda uma discussão sobre o
que viria a ser a manifestação essencial da doença e o local onde se instala a causa do
mal, sua 'sede' [acrescentar nota: Foucault dedica um capítulo inteiro ao tema das febres.
Cf. 'A crise das febres', in Ref. completa.], o paradigma fundado por Bichat saiu
triunfante, de modo que apenas recentemente as ciências médicas puderam adotar delas
um certo distanciamento crítico.

o campo psiquiátrico

a partir do modelo anátomo-patológico, impõe o modelo explicativo - para todas as


especialidades médicas - o mais restrito organicismo (p. 24).

A relação estabelecida entre a doença e a lesão por ela provocada é a de uma verdadeira
'identidade', e não apenas a de uma causa e o efeito dela decorrente ["a lesão é a doença,
é tudo o que pode haver de real e verdadeiramente objetivo na doença" (p. 25)].

Os sintomas são apenas seus efeitos [carregados que são, das expressões subjetivas do
paciente, tanto quanto da interpretação do médico que as recolhe]. A análise patológica
deve, pois, tratar esta possibilidade de engano.
Tal organicismo, embora venha a sofrer algumas restrições, permanecerá como ideal da
prática médica - o que impõe à psiquiatria as maiores dificuldades, posto que teve de
encontrar meios para se adequar ao postulado que a precede enquanto prática médica de
orientação científica. Eis aí, observa Simanke (200), o motivo de que, por tanto tempo, a
psiquiatria figurou como uma medicina das 'aparências'.

****

a concepção de processo

Mas, antes de avançar para o que concerne propriamente à psiquiatria, é preciso


considerar que a concepção de doença como 'processo', derivada do método de Bichat,
aperfeiçoando a tradição clínica, permite que se escape a ‘entificação’ da doença que se
depreende da medicina classificatória. Se a doença já não se destaca do corpo, resta
esclarecer o que discerne um processo 'patológico' de um processo 'normal' - demarcando
assim, um limite entre patologia e fisiologia.

o próprio Bichat intui a idéia - posteriormente desenvolvida por Broussais, Comte e


Bernard - de uma variação de 'intensidade' entre os fenômenos patológicos e as
ocorrências normais do organismo.

[a discussão sobre a concepção quantitativa das relações entre o normal e o patológico de


Canguilhem]

É uma necessidade clínica que impulsiona essa discussão, na medida em que o saber
médico está subordinado a uma prática (o 'otimismo médico' que resulta da crença de que
se possa encontrar uma medida eficaz no tratamento da enfermidade, cf. Canguilhem).

As representações ontológicas da doença respondem a essa exigência, seja na sua forma


positiva - o corpo é invadido por um pasita, o caso das infecções -, seja na sua forma
negativa - há carência de algum componente essencial, o caso das perturbações do
equilíbrio orgânico, como as avitaminoses, anemias, etc: "o que entrou pode ser expulso,
o que saiu pode ser reposto" (p. 26). Esta acepção "não espera nada de bom da natureza
por ela mesma" (Canguilhem citado por Simanke, p. 26).

Uma representação oposta a anterior, é aquela denominada por Simanke de 'dinamica',


cujo exemplo é a medicina hipocrática, na qual a doença é resultado de um desequilíbrio,
e a cura o reestabelecimento do mesmo. Aqui, o organismo total é concebido como
integrado ao meio em que se encontra, e a tendência 'natural' ao equilíbrio que daí decorre
não cessa de incidir sobre o corpo enfermo, sendo a doença encarada como produto de
reações que visam igualmente o estado de homeostase anterior. "Os fenômenos
patológicos já são, em si mesmos, tentativas de cura" (p. 27) [tal concepção parece ser
típica de qualquer método dinâmico; ao ver o delírio como tentativa de cura, como meio
de reestabelecer o vínculo perdido com a realidade, Freud caminha nessa direção;
Concepção, a qual, conforme sabemos, Lacan é profundamente solidário).

Ambas as concepções de doença, têm a doença como uma "situação polêmica" (seja frente
a ação de um agente invasor, a carência a se reestabelecer ou um conflito do organismo
consigo mesmo) (p. 27).

Da mesma forma ambas concebem as relações entre o normal e o patológico como


demarcadas por uma diferença 'qualitativa', dois estatos distintos.

Ora, se a concepção dinamica da doença é capaz de tolerar o fato de que se possa passar
de um a outro estado - do patológico ao normal - mediante um processo intrínseco a ação
do próprio organismo; a distinção qualitativa que deriva da concepção da doença como
situação polêmica impõe um desafio à concepção 'ontológica', uma vez que se espera do
médico a reversão de um a outro estado. Isto se configura como problema na medida em
que o próprio preceito do empirismo reside no pricípio segundo o qual o conhecimento
da natureza não pode opor-se às suas leis.

Ora, se toda ciência empírica da natureza compreende como princípio que uma mudança
de estado qualitativa obedece a variação de princípios quantitativos, como por exemplo
no caso das mudanças de estado físico da matéria (uma variação da energia cinética), o
médico se encontraria, nesse caso, diante de um dilema que o conduz aos próprios
fundamentos da ciência empírica.

É nesse sentido que uma concepção quantitativa permite encontrar uma solução para o
problema. O esvaziamento da diferença qualitativa entre os estados normal e patológico,
resulta em que seja possível, mediante o conhecimento das variações fisiológicas,
depreender os meios para se atingir a cura pela regulação das variantes [a contribuição de
Broussais, que seria elevada a categoria de princípio por Comte - é interessante notar que
o título reservado a sua obra por Broussais, deixa subentender sua pretensão de alcance:
"De l'irritation et de la folie" (nota, p. 28).

O estabelecimento deste princípío permite a criação de uma concepção de doença que


pode ser traduzida ao modo de uma curva de Gauss, sendo a média o estado que se entende
como 'sadio'. Assim, se escapa ao dilema estabelecido pelos sistemas que concebiam um
limite qualitativo entre o 'normal' e o 'patológico' - uma tal concepção se presta, o que
não é de estranhar, a uma fácil assimilação do entre os termos 'normal' e 'norma'; o que
por oposição, implicará no par patológico-anormal. Canguilhem se dedica a corrigir tal
distorção, lembrando que o par de oposição do dito 'estado patológico' seria melhor
definido como 'estado de saúde' ou de 'bem-estar' orgânico. Um tal estado não se presta
tão facildade a uma normatização quantitativa, na medida em que implica uma 'norma'
individual, ou 'atividade normativa' do organismo (p. 29).
Disso decorre o fato de que, ainda que nos mantenhamos no nível da medicina dita
'orgânica', não é coerente a exclusão dos fatores individuais para a definição do que venha
a ser o estado de 'saúde' ou de doença, "sem os quais não faz sequer sentido falar-se em
uma medicina" - [Vale notar, conforme aponta Simanke (2002), que "a proposta lacaniana
de 'reintrodução do sujeito' na prática psiquiátrica - mais do que isso: a defesa do papel
ativo que este sujeito desempenha na construção de um meio circundante vital e social, a
partir do qual se determinam as estruturas de personalidade mórbida ou normal - está
ligada, sim, a um projeto de preservação da psiquiatria como especialidade autônoma,
mas, numa perspectiva mais ampla, diz respeito também à própria medicina como um
todo" (p. 29)]

Todavia, se a concepção quantitativa permite a manutenção do organicismo como modelo


explicativo médico, ela mesma, se levada ao extremo, coloca em cheque a autonomia da
medicina no interior das ciências, haja vista que resulta num esvaziamento ontológico da
doença, reduzindo-a à contingência de processos fisiológicos - o que Comte anuncia como
sendo a entrada na medicina no campo da ciência, a saber, sua subordinação à biologia,
implica, na raiz desse movimento, sua dissolução enquanto campo 'autônomo' no corpus
das 'ciências da vida' - tal ameaça implica num retorno às concepções ontológicas da
doença que, mesmo nas concepções contemporâneas da doença, diz Simanke citando
Canguilhem, ainda persitem oscilando junto às concepções quantitativas.

A nosografia e a semiologia figuram como setores privilegiados onde se supõe uma


entificação da doença, pela definição de 'estruturas mórbidas', que podem assumir um
caráter dinâmico, quanto mais se aproximem de uma apreensão global do enfermo.

Vale notar que a investigação médica, propriamente dita, - aquela que visa os mecanismos
biológicos que interessam à patologia - adequa-se perfeitamente a uma concepção
quantitativa. Assim se instala, segundo nota Simanke (2002), uma dissociação
'epistemológica' entre a clínica (prática médica) e a pesquisa (laboratorial), haja visto que
a prática clínica adequa-se melhor a uma concepção qualitativa e dinâmica da doença,
uma vez que seu objeto segue sendo o sujeito doente e a evolução de sua enfermidade.
Desse modo, o médico pode operar com um saber oriundo de outro lugar, por outro
método, visando a cura, se contradizer a natureza empírica de sua prática.

A investigação, observa Simanke, será então considerada qualificativamente médica, na


medida em que se dirige à patologia, atribuindo-se como objeto uma 'entidade', a doença.
Já não se coloca a questão da 'natureza', pois tem como fim a produção de um saber não
necessariamente vinculado à intervenção. Ou seja, quanto mais se aproxima da biologia,
menos problemático parece ao médico o esvaziamento ontológico da doença. Ao passo
que, a medida em que se dirige a patologia - onde supõe uma entificação da doença -
menos lhe diz respeito o problema da 'intervenção'. Assim se divide o que se nomeia como
medicina em: uma clínica (prática, arte, ofício) e as ditas 'ciências médicas' (portadoras
de um saber autônomo não necessariamente vinculado à prática clínica).
Simanke observa (pp. 30-31) que tanto Freud, quanto Lacan, se oporiam a uma tal divisão,
conduzindo ambos, técnica e teoria ao estatuto de termos solidários [Vale notar inclusive,
que Lacan chega ao extremo de estabelecer a identidade entre ambos, pelo que a eleição
da paranóia como seu primeiro objeto de reflexão se justifica no projeto lacaniano como
um todo. A tese da paranóia como fenômeno de conhecimento que, posteriormente, se
traduz mediante a tese epistemológica do conhecimento como fenômeno paranóico,
caminha nesse sentido ].

As alternativas para a psiquiatria

o objeto problemático da psiquiatria, objeto que "desborda sobre o domínio indefinido do


mental" (p. 32), demarca um limite tenso para a subsistência do saber psiquiátrico como
especialidade médica autônoma.

ao contrário da medicina dita orgânica que encontra, no princípio quantitativo de distinção


entre o normal e o patológico, uma alternativa que lhe permite dissolver as barreiras com
o campo da fisiologia, intengrando aí seu objeto, a distinção qualitativa da qual se valerá
a psiquiatria implica no risco de que se objeto seja pulverizado no âmbito abstrato de uma
psicologia geral.

Cf. Canguilhem (citado por Simanke, p. 32), numa passagem em que comenta (citando
Renan) o fato de que a psicologia valendo do princípío quantiativo pôde definir o campo
privilegiado de sua investigação, na medida em que os processos que interessam a essa
disciplina, como o sonho, a loucura, o delírio, o sonambulismo, a alucinação, são
fenômenos que, no estano normal, estão mais ou menos apagados, ou subsistem numa
forma tênue, ao passo que nas crises, os mesmos aparecem aumentados,
quantitativamente exacerbados e, portanto, aptos ao manejo e à observação de forma mais
sensível. [ed. fr. p. 15-16];

Dessa forma, a psiquiatria, num primeiro momento, encontrará na obediência de um


modelo organicista a garantia necessária a seu pertencimento ao campo dos saberes
propriamente médicos, o que impõe a ela, dada a natureza de seu objeto - 'mental' -
dilemas que encontram sua medida ideal numa espécie de dualismo cartesiano.

a consequência direta desta adesãos será a adoção de um princípio mecanicista para


explciar a genese dos disturbios mentais, o que acarreta um retorno inevitável aos
modelos ontológicos de representação da doença [Como se deixa ler no título de um artigo
de Henry Ey: "Le développement mecaniciste de la psychiatrie à l'abri du dualisme
cartésien", citando por Simanke, p. 33]

para a psiquiatria, a delimitação de seu objeto, implica necessariamente numa discussão


sobre sua natureza, dicussão de que a medicina orgânica pudera prescindir ao estabelecer
claramente seu campo de pesquisa e de prática como domínios propriamente médicos,
articulados a princípíos independentes entre si; essa conjuntura, que, ao olhos de
Simanke, podem ser lidas como um tipo de 'impregnação' cartesiana da psiquiatria,
introduz as vias para uma perspectiva reducionista do fenômeno mental; perspectiva que
será alvo das críticas de Lacan. [Cf. Ogilvie, citado por Simanke: "Lacan: la formation du
concept de sujet" - Simanke, ao citar Ogilvie, lembra que qualquer perspectiva dualista
em psiquiatria implica necessariamente numa exclusão da representação, o que nos leva
a compreender porque Lacan, na via de uma filosofia monista, que é a de Spinoza, extrai
da ética spinozista a epígrafe de sua tese em medicina]

o 'cartesianismo' constiui, portanto, ao mesmo tempo uma solução e um impasse para a


psiquiatria. É uma solução na medida em que devolve a seu objeto, o 'mental', uma
consistência ontológica. Um impasse, na medida em que a disignação 'mental' não se
presta ao modo de investigação científica. O 'mental', por oposição à 'extensão', resvala
no domínio do incondicionado: nele, "tudo é simultâneo, atual, cada ato do espírito o
implica como um todo", o que talvez justifique, como nota Henry Ey citado por Simanke,
numa espécie de parentesco com as abordagens fenomenológicas (p. 34) - [é preciso
acrescentar, conforme em nota anexada por Simanke na pag. 34, que Henry Ey situa as
especulações cartesianas na origem do movimento fenomenológico, onde o pensamento
aparece como em si e para si. Lébrun, destaca numa nota aposta à tradução das
'Meditações', que a sexta meditação, onde se deixa ler a união de fato entre a alma e o
corpo [a alma não seria apenas "como um piloto em seu navio"] para além de sua
separação de direito, sugere que A Fenomenologia da Percepção pode ser encarada como
um longo comentário desta passagem, na qual o filósofo (Merleau-Ponty) critica a
assimilação apressada do 'cartesianismo' à Filosofia de Descartes. Tal contexto, onde se
coloca a questão de um Descartes menos cartesiano do que parece à primeira vista, torna
menos estranha a aproximação proposta por Lacan entre o sujeito cartesiano e o
inconsciente].

Ora, dificilmente haveria domínio do pensamento algo que se prestasse prontamente ao


regime das causas, de forma que qualquer teoria estritamente psicogenética - onde a causa
se situa como interna ao psíquico - deverá ser recusada em proveito da manutenção da
especificidade do patológico. Isto porque ao tratar do domínio da causalidade psíquica,
perde-se a propriedade que torna possível uma abordagem positiva do patológico. Os
'desvios' da alma, podem ser encarados como 'pecados', variações mórbidas da 'vontade',
mas não propriamente 'doenças mentais' (p. 34).

O estabelecimento, portanto, de uma ciência psicológica - que seria o correlato essencial


(fisiologia/medicina) de uma psiquiatria que se pretende científica - oscila entre um
materialismo radical - onde vige o caráter 'epifenomênico' do mental ("os fenômenos do
espírito são meras 'aparências' p. 35) - e um paralelismo psicofísico, no qual a relação de
causa e efeito entre o orgânico e o psíquico é "escamoteada pela proposição de uma
psicologia que mimetiza o mecanicismo e o atomismo da concepção cartesiana dos
organismos" (p. 35).
É o surgimentos dessas psicologias (de teor sensualista e associacionista) que faculta à
psiquiatria um retorno ao reducionismo materialista. O emparelhamento mecanicista
entre organismo e psiquismo - malgrado a interdição que se instaura entre as duas
dimensões - torna possível explicações - do mesmo teor - para os fenomenos da patologia
mental (o que Simanke chama de 'teorias iatromecanicas da loucura': cf. Isaías Pessoti, 'A
loucura e as épocas', pp. 131-133 [p. 35]).

É a inviabilidade de uma ciência empírica dos fatos mentais que conduz a psiquiatria a
um organicismo que reune as qualidades do mecanicismo, do atomismo e,
consequentemente, do reducionismo - No dizer de Ey, citado por Simanke (p. 35), tais
qualidades se distribuem em medicina psiquiátrica entre: teorias semiológicas atomistas
(os disturbios psíquicos são correlacionados com lesões orgânicas localizáveis); uma
etiologia mecânica (a causa, situada no nível de uma lesão positivável no nível do
organismo, tem por efeitos as alterações patológicas observáveis) e uma nosografia das
entidades clínicas (tal como se concebeu na medicina de inspiração orgânica). Como nota
Simanke, ao aderir ao sistema organicista, a psiquiatria não faz senão somar aos impasses
que lhe são próprios em sua tentativa de se estabelecer no domínio das ciências, aqueles
derivados do própria orientação organicista (pp. 35-36).

Lacan, em sua tese, revista TODOS os pressupostos epistemológicos incorporados à


psiquiatria por sua filiação ao organicismo então vigente: ao atomismo semiológico ele
opõe a doença como totalidade [cuja filiação está por tratar], o que resulta numa inversão
que privilegia os 'fenomenos secundários', reativos ou interpretativos, em detrimento da
lesão primária, de natureza orgânica [é o que se depreende da noção de 'fenômeno
elementar' - expresso nas relações entre alucinação e delírio]; a etiologia mecânica - que
o próprio Henry Ey, no artigo citado, classifica como 'paráfrases' patogênicas das lesões
organicas subjacentes - opõe uma crítica ao 'realismo dos objetos clínicos' -
'hiperobjetivismo' - resultante de visada reducionista dos fenomenos da personalidade
[Simanke destaca, à título de nota da página 37, que a crítica lacaniana ao
'hiperobjetivismo' do reducionismo materialista, pode ser lida em termos de formação
embrionária daquilo que, posteriormente, aparecia em seu ensino sob a forma de
'conhecimento paranóico', ou seja, uma 'materialização da metáfora', um apego
desmedido às formações imaginárias que constituem para sujeito o campo de suas
relações objetais; além do que, poderíamos ainda, supor, o que seria a inspiração inicial
para o que Simanke chama de 'metaforização da teoria', tom peculiar do estilo teórico de
Lacan. Aqui, nota-se veementemente que a 'psicose' se situa como paradigma clínico para
as teorizações lacanianas, à medida em que denuncia à estrutura que subjaz a própria
organização da linguagem; estrutura merafórica, cuja carência, na psicose, caracteriza no
início do ensino de Lacan, o discurso psicótico.] - trata-se assim de propor uma teoria
capaz de representar de maneira adequada o que, no nível clínico, se produz como
'causalidade metafórica', a valer-se da formalização do conceito de metáfora formalizado
na teoria lacaniana do significante. Desse modo, observa Simanke, deixa-se divisar o teor
anti-reducionista e anti-objetivista que inspira a crítica lacaniana à psiquiatria de seu
tempo, o que, inclusive, em sua teorização 'posterior' constitui o 'cerne' de sua
argumentação. Como observa ainda Simanke, a 'coisificação' dos objetos clínicos, no
interior da orientação reducionista em psiquiatria, é perfeitamente solidária a
representação 'ontológica' da doença que passa então a dominar a 'nosografia psiquiátrica'.

O nó, portanto, que une a medicina e uma concepção dualista derivada do 'cartesianismo'
no domínio da psiquiatria – dualismo inerente a seu objeto: a 'doença mental' – torna
possível a produção de uma "doutrina das entidades clínicas", cujo argumento central
Simanke (2002) resume nestes termos: "a medicina lida com doenças; ora, uma doença
não pode, por definição, ser do espírito; portanto, só pode ser do corpo" (p. 38). Desso
modo, a 'doença mental' não é senão uma enfermidade orgânica que resulta em
manifestações no nível subjetivo (o 'epifenomenismo' que se deixa ler, em nossos dias,
através da teorias informáticas aplicadas às neurosciências, onde: cabe a psiquiatria
ocupar-se das alterações de 'software' que decorrem 'diretamente' de um mal
funcionamento localizável no 'hardware' onde se instalam seus mecanismos gerais).
Dessa forma, a psiquiatria pôde preservar os princípíos de uma prática que se dita
'científica', na medida em que preserva, no campo da patologia que lhe interessa, uma
orientação calçada nos termos da patologia orgânica (mecanicismo, atomismo,
ontologização).

O grande modelo das afecções mentais, segundo os princípios de uma psiquitria


científica, será aquele proposto por Bayle, de uma 'paralisia geral progressiva', [assim
como Foucault nomeia a 'histeria' de Charcot de 'santidade epistemológica', por permitir
ao grande alienista garantir a prova da verdade de sua descrição; poderíamos arriscar um
epíteto para a 'Doença de Bayle' que, mutatis mutandis, funcionou perfeitamente como
'testemunho epistemológico' do correlato anátomo-clínico da 'doença mental']. Tal
'achado' daria o tom que permtiria derivar do modelo da paralisia geral progressiva o rol
de afecções que caracterizou a nosografia psiquiátrica clássica.

Mas é precisamente neste 'momento luminoso' da psiquiatria científica que caracterizou


a descoberta de Bayle, que veremos surgir, como sugere Simanke (p. 38), no campo das
chamadas 'psicoses', um 'ponto de resistência' à ontologização generalizada - as doenças
são tomadas como realidades autônomas com correlato localizável no nível da realidade
física do corpo - do quadros da nosografia psiquiátrica [Simanke acrescenta, à forma de
nota na págia 38, como o proprio Henry Ey, no artigo supramencionado, reconhece que
a noção de psicose é, por si só, contraditória à noção de 'entidade', cf. p. 63 do artigo de
Ey];

Dessa maneira, é notável que Lacan dedique a primeira seção do capítulo inicial de sua
tese em psiquiatria - 'Formação histórica do grupo das psicoses paranóicas' - a uma revisão
das distinções clássicas entre o grupo das então chamadas 'demencias' e o grupo das
'psicoses', colocando a ênfase de sua fina análise no segundo. Tampouco é ocasional,
adverte Simanke (p. 38), a 'eleição' que o jovem psiquiatra Lacan faz da 'psicose
paranóica', afecção mais expressiva do grupo das 'psicoses'. A 'folie raisonnante' -
denominação, por si só, intrigante, se oferta como paradigma de um campo psiquiátrico
diametralmente oposto aquele que se erige em torno da paralisia geral progressiva de
Bayle.

[Simanke (2002) faz uma observação 'interessante', em uma nota das páginas 39-40, ao
discutir as relações que Lacan estabelece com dois nomes de relevo na psiquiatria de sua
época: Jaspers e Clérambault. A doutrina de Clérambault, cuja orientação é lida
frequentemente nos termos de um estrito organicismo, será alvo de interesse de Lacan já
em sua tese de medicina. Todavia, o que se destaca quanto a leitura lacaniana de
Clérambault, se dá num momento posterior, quando retoma a noção de 'automatisme
mentale', vinculando-a a noção de 'automatisme de répétition', cuja origem remonta a
uma leitura do 'Wiederholungszwang' (compulsão a repetição) freudiano, sob as lentes de
uma combinatória do significante (em termos estruturalistas). Tal apropriação reflete,
dentre outras coisas, uma notável capacidade de reordenação conceitual, ao extrair da
noção cujo valor paradigmático se encontra do organicismo de seu 'mestre' em psiquiatria,
o 'elemento' que lhe interessa destacar em sua visada de inspiração estruturalista. Se num
primeiro momento, Lacan critica o organodinamismo de Clérambault valendo-se da
psicopatologia fenomenológica de Jaspers, ao realizar, sob a influência do organon
estruturalista, a crítica do primado do sentido, a reflexão lacaniana afasta-se das doutrinas
de Jaspers, reabilitando o automatismo mental de Clérambault no seio de sua estruturação
do 'fenômeno psicótico’. ]

O psiquiatra e sua doença

Como já foi dito, se o objeto da psiquiatria é a 'doença mental', o qualificativo mental


oferece o risco de sua dissociação do campo das disciplinas propriamente médicas, cujo
modelo basilar segue sendo a medicina orgânica. Daí a simplificação lógica de que, se
não é admissível ao campo restrito da medicina um objeto puramente mental, há que se
apontar, no fundo deste objeto, sua natureza orgânica.

Contudo, aqui se abre um novo problema, a saber, o de distinguir, na categoria de 'doença'


que interessa à psiquiatria enquanto 'problema médico', a doença mental do quadro da
vasta patologia geral em que a antecede. [Simanke observa, p. 39, que o problema da
psiquiatria parece oscilar entre uma recusa em ser incorporada ao campo do saber médico,
e uma absorção simplista daquela neste.]

É precisamente em torno deste novo dilema que se verifica o surgimento de duas vias
privilegiadas de sua resolução: a organogênese - herdeira da explicação do fenômeno
mental patológico enquanto manifestação 'epifenômenica' - e a psicogênese - que se torna
o sistema de referência principal das teorias compreensivas e fenomenológicas. Assim
definem-se dois extremos: uma incorporação imedianta da psiquiatria ao campo das
ciências médicas, na verte organogenética [que implica, em alguma medida, o abandono
de seu domínio específico, o do mental], e sua 'dossolução' numa espécie de psicologia
geral, a psicogênese [o que implicaria, por sua vez, a perda de sua inserção imediata no
campo próprio a medicina].
Tal problema é incontornável, haja vista a especificidade de seu objeto que reúne
fenômenos que se exportam a ambos os campos. A derivação dessa classificação
'genérica' que distingue as teorias organogenéticas e psicogenéticas, se dá, observa
Simanke, na forma de uma constante e interminável 'reedição' do dilema fundamental que
as atravessa. O autor recupera de Henry Ey [Cf. La position de la psychiatrie dans le cadre
des sciences médicales], a denominação dada pelo célebre psiquiatra ao problema
fundamental da psiquiatria: "dilema psiquiatricida".

Há, vale notar, uma dependência necessária da psiquiatria em relação à psicologia, pois,
ainda que aquela se valha da mais estreitra orientação organicista, resta-lhe ainda a tarefa
de descrever os 'epifenomenos' que se apresentam enquanto 'dados clínicos' da patologia
mental, os quais são indispensáveis para o estabelecimento do diagnóstico e para a eleição
do método terapêutico. Dessa forma, instaura-se, como observa Simanke (p. 41) uma
relação inextirpável entre psicologia e psiquiatria [tanto quanto aquele se verifica entre a
medicina orgânica e a fisiologia]. Somados ao problemas que importam à psiquiatria de
orientação organicista - no que tange ao problemático correlato anatomo-clinico dos
trantornos mentais - estão os dilemas próprios à disciplina psicológica, da qual depende
para o exercício de sua prática clínica [Tal como Foucault demarca primorosamente em
'doença mental e psicologia' quando diz que a psicologia, nunca pôde oferecer à
psiquiatria o mesma justificativa que a fisiologia pudera dar a medicina orgânica; vale
lembrar, como nota Simanke, que essa 'sobrecarga' que se acrescenta aos dilemas da
psiquiatria dada a sua relação com a primeira, não fez senão intensificar o peso e a
relevância das teorias restritas do organicismo.

Não será difícil entao supor que, se uma psicologia geral dos epifenômenos já constitui,
por si mesma, um dilema a acrescentar à conta da psiquiatria, a psicologia que deriva da
chamada escola 'psicogenética' acarreta um 'superfaturamento' do problema [Vale notar,
como observa Simanke, que os esforços de Lacan não passaram ao largo desse problema,
posto que, em sua tese, o obstinado psiquiatra Lacan, procura traçar as linhas gerais de
uma 'ciência da personalidade', ao elencar as vantagens de uma psicogênese, um tal
ciência deveria oferecer o solo concreto e seguro à psiquiatria enquanto disciplina
médica.]

Contudo, a hipótese psicogenética atinge o cerne do conceito de 'doença', demarcado


como objeto da ciência médica. Suas bases causais não poderiam repousar apenas sobre
metáforas de cunho psicológico, o que terminaria por solapar a 'especificidade' ontológica
de seu objeto [a 'doença'] (Observa Simanke (p. 42), que um tal problema é o que motiva,
mais tarde, Lacan a assumir uma crítica ferina à medicalização da prática psicanalítica.
Ao redefinir as 'entidades clínicas' enquanto 'estruturas subjetivas', esvazia-se a própria
entidade de seu teor 'patológico'. Se a psicanálise, com Lacan, não visa propriamente uma
finalidade terapêutica, mas antes, um reposicionamento ético, é na medida em que a
clínica psicanalítica opera em torno da noção de 'estrutura', e não da de 'patologia').
Por outro lado, uma abordagem exclusivamente psicogenética põe a perder a própria
noção de explicação, situando em seu lugar a via que se abre para uma compreensão dos
fenômenos psíquicos segundo a experiência particular de um sujeito. Adere-se então a
uma vertente compreensiva, na medida em que se desloca toda possbilidade de explicação
para um plano causal o qual não é acessível à compreensão [É nestes termos que veremos
como a clássica distinção jaspersiana entre 'explicar' e 'compreender' irá transportar, sob
a forma de um consentimento pouco esclarecido, qualquer possiblidade de explicação do
'processo' psicótico para o plano de uma causalidade orgânica destituída de sentido,
verdadeira demissão do pensamento];

Assim se conserva o 'abismo dualista' cujo caráter insolúvel interpôs-se a firmação de


uma psiquiatria científica; sendo a causa explicável a partir de um reducionismo
materialista, que a restringe a realidade física do corpo, e o 'desenvolvimento' - a segunda
das categorias máter de Jaspers - o objeto de uma psicologia compreensiva [Simanke
(2002) remarca ainda que em algumas abordagens fenomenológicas de cunho
espiritualista latente, vêm à tona uma noção de 'causa' propriamente psíquica].

Persiste então o dilema dualista, cuja alternativa, à nível da tentativa de fundamentação


psicológica dos fenômenos mórbidos, varia entre um associacionismo - que não é senão
uma paráfrase do organicismo - e uma psicologia espiritualista, herdeira de uma certa
fenomenologia transportada à clínica. É nesse sentido, completa Simanke (p. 42), que
Lacan deverá proceder, em sua iniciativa de revitalizar a psiquiatria, a "uma crítica
epistemológica da psicologia" [Simanke acrescenta que, se Lacan virá propor
explicitamente uma 'terceira via' para a resolução do problema dualista (presente no
esforço de estabelecer uma 'verdadeira causalidade psíquica', em torno de noções como a
de 'formação reacional', cujo fim é a formação de um 'determinismo concreto e científico),
indica um certo grau de consciência da situação que se estende em torno dele].

Por outro lado, uma abordagem exclusivamente psicogenética põe a perder a própria
noção de explicação, situando em seu lugar a via que se abre para uma compreensão dos
fenômenos psíquicos segundo a experiência particular de um sujeito. Adere-se então a
uma vertente compreensiva, na medida em que se desloca toda possibilidade de
explicação para um plano causal o qual não é acessível à compreensão [É nestes termos
que veremos como a clássica distinção jaspersiana entre 'explicar' e 'compreender' irá
transportar, sob a forma de um consentimento pouco esclarecido, qualquer possiblidade
de explicação do 'processo' psicótico para o plano de uma causalidade orgânica destituída
de sentido, verdadeira demissão do pensamento];

Assim se conserva o 'abismo dualista' cujo caráter insolúvel interpôs-se a firmação de


uma psiquiatria científica; sendo a causa explicável a partir de um reducionismo
materialista, que a restringe a realidade física do corpo, e o 'desenvolvimento' - a segunda
das categorias máter de Jaspers - o objeto de uma psicologia compreensiva [Simanke
(2002) remarca ainda que em algumas abordagens fenomenológicas de cunho
espiritualista latente, vêm à tona uma noção de 'causa' propriamente psíquica].
Persiste então o dilema dualista, cuja alternativa, à nível da tentativa de fundamentação
psicólogica dos fenômenos mórbidos, varia entre um associacionismo - que não é senão
uma paráfrase do organicismo - e uma psicologia espiritualista, herdeira de uma certa
fenomenologia transportada à clínica. É nesse sentido, completa Simanke (p. 42), que
Lacan deverá proceder, em sua iniciativa de revitalizar a psiquiatria, a "uma crítica
epistemológica da psicologia" [Simanke acrescenta que, se Lacan virá propor
expliciamente uma 'terceira via' para a resolução do problema dualista (presente no
esforço de estabelcer uma 'verdadeira causalidade psíquica', em torno de noções como a
de 'formação reacional', cujo fim é a formução de um 'determinismo concreto e científico),
indica um certo grau de consciência da situação que se estende em torno dele].

É importante notar que as teorias psicogenéticas ganham validade à partir de sua aplicação
ao terreno restrito das psicoses, afecções cujo correlato anatomo-patológico não é
diretamente positivável - até nossos dias, diga-se de passagem ,vê-se uma profusão
heterogênea de hipóteses sistêmicas em termos de circuitos de neurotransmissores, de
regulação cortical da funções psíquicas globais, até o extremo de teorias que visam
localizar disposições genéticas latentes para o desenvolvimento do quadro
esquizofrênico. Contudo, como observa Simanke (p. 43), a maior parte dos teóricos não
avançou senão com extrema prudência na delimitação da complementareidade entre
fatores orgânicos e determinantes psíquicos na constituição dos quadros psicóticos. Isso
se explica, sobremaneira, se considerarmos que os chamados 'sintomas negativos'
(aqueles relacionados ao embotamento do humor, aos estados confusionais, aos efeitos
de comprometimento cognitivo, etc.) se prestavam à explicações em termos de lesão ou
comprometimento orgânico, com maior veracidade que os chamados 'sintomas positivos'
(as alucinações e o delírio) - que, no entanto, eram essenciais ao diagnóstico diferencial
das psicoses e permaneceram como eventos contingentes de fundo inexplicado.

Simanke (p. 43) destaca, que é precisamente o caráter parcial ou incompleto da explicação
que uma orientação rigorosamente organicista comporta que levará adiante a pesquisa
pelos determinantes psicológicos dos fenômenos mentais patológicos, o que implica em
'revigorar' gradativamente a problemática noção de 'doença mental'. [Simanke observa
ainda que as rupturas - se as há - que a tese lacaniana instaura no interior do domínio
propriamente psiquiátrico, implicam numa reorintenção de sua diretrizes que se alinha
harmoniosamente com esse processo de evolução e baliza do problema do objeto proprio
a esse campo. - Nota (p. 43-44): Lacan, no momento que redigiu sua tese em psiquiatria,
não havia ainda atentado (completamente) para o fato de que uma defesa irrestrita da
'psicogênese' implicaria em radicar o problema da psicose fora do domínio psiquiátrico
enquanto campo médico. É num momento posterior que ele resolverá tais problemas a
partir de uma articulação propriamente psicanalítica. Henry Ey, ao contrário, está certo
do risco de uma 'psicogênese' ao traçar seu 'dilema psiquiatricida': "Ora, renunciando a
ser médico, ele se torna vingador das ofensas, diretor de consciência, psico-higienista,
orientador profissional, psicotécnico, quando não se engaja em especulações filosóficas,
em busca do absoluto, fazendo malabarismos com as palavras, brincando com bolhas de
sabão e colocando etiquetas nas quais ele mal crê, pois 'seu reino não é deste mundo'. Ora,
enfim, ele se desvia de tantas dificuldades e mistérios para se refugiar em um diletantismo
delicado e desabusado" (Cf. La position de la psychiatrie [...], p. 73).].

Ora, é de notar, como acrescenta Baud (2003), que demandar a biologia uma explicação
para a etiologia da esquizofrenia, ou seja, de dar-lhe um sentido fisiopatológico, apenas
pode configurar uma medida razoável se o quadro nosológico adotado é, a priori,
compatível com este tipo de pesquisa - etiopatogênica - bem como, se tal quadro se alinha
bem aos métodos e conceitos operacionais deste campo. De modo que, qualquer que seja
a entidade clínica em psiquiatria, implica-se na pesquisa de suas bases fisiológicas que a
entidade a ser explicada esteja minimamente assentada como categoria claramente
delimitada e tenha, consequentemente, uma definição precisa. Imperativo epistemológico
no campo da etiopatogenia, que encontra, diante do problema da psicose - e,
especificadamente, a esquizofrenia - o risco ingente de uma circularidade lógica: "si la
defition de la schizophrénie est fondée sur la clinique et la psychopathologie, rien
n'assure que cette pertinence classificatrice rencontre celle de ses hypothétiques
fondements biologiques, qui pourraient demeurer inaccessibles" (Baud, 2003, p. 2). Por
outro lado, se partirmos por adotar uma difinição segundo os princípios imperativos de
uma pesquisa fisiopatológica - como seria o caso do esforço, em nossos dias, de
empreender uma nosologia de bases genéticas - é a própria função organizadora da clínica
- enquanto domínio que se delimita como prática junto a entidade que é a doença - que é
posta em questão. É nesse sentido que o Baud (2003) localiza, ao longo da história
conceitual da esquizofrenia, uma "crise permanente" (p. 3). De modo que, o avanço
contemporâneo das pesquisas neurobiológicas sobre a esquizofrenia, e na medida em que
os modelos teóricos delas decorrentes se tornam cada vez mais precisos e,
consecutivamente, mais limitados a seu domínio de aplicação, implica que a entidade
nosológica que a psiquiatria delimitou em torno do termo 'esquizofrenia' seja renunciada
em proveito de um domínio restrito de investigação, onde o caráter sintético da disciplina
nosológica se vê substituído por 'micro-teorias' restritas à modelos de pesquisa
standardizados, como é o caso da conhecida hipótese dopaminérgica [Cf. Patrick Baud,
2003, 'Contribution a l'histoire du concept de schizophrenie' [Thèse]].

Uma abordagem dos problemas relativos a psicose, colhidos no seio de uma psiquiatria
em busca do estalecimento de seu objeto deve, necessariamente, passar pela noção de
'esquizofrenia', cuja formulação, em alguma medida, se confunde com a próprio
surgimento do quadro das 'psicoses'. [Simanke acrescenta ainda, p. 44, que é dentro dos
quadros da esquizofrenia que se definirá, posteriormente, as delimitações da chamada
'psicose paranóica'.] - Simanke adota aqui como referência principal o artigo de Minkoski,
'Minkowski E. La genèse de la notion de schizophrénie et ses caractères essentiels.
L'Évolution Psychiatrique, 1925; 1:193–236.'; não pudemos recuperar o artigo referido,
mas cf. Linda Goyet, 'Lacan lecteur de Minkowski: l'approche structurale';

A ampliação e sistematização da então chamada 'dementia praecox' por Kraepelin, e


esboçada por Morel quando este se refere a uma demência de início precoce, enquanto
entidade nosográfica, implicou na reunião de diversas afecções anteriormente descritas,
como a hebefrenia, a catatonia e a demência paranoide, de modo que, tais afecções
tenderiam todas a uma fase terminal de definição inespecífica.
[Simanke cita Bercherie sobre o equívoco em se atribuir a Morel a delimitação da
'dementia precox' enquanto entidade nosográfica: "Convém assinalarmos, a esse respeito,
que a atribuição a Morel da primeira individualização da demência precoce de Kraepelin,
por parte dos alienistas franceses do século XX, baseou-se apenas numa homonímia (e
num sólido chauvinismo): Morel falou numa demência de aparecimento precoce, que
espreitaria os hereditários e os histéricos, e não numa entidade mórbida que, diga-se de
passagem, não figurou em sua nosologia" (Os fundamentos da clínica, p. 117)].

o que permite a Krapelin distinguir a categoria de dementia praecox das demais afecções
que cursavam com o surgimento de um estado degenerativo terminal foi precisamente o
fato de que, nas primeira, a lersão ou comprometimento orgânico correlato (como na
paralisia geral onde se localiza um processo de aracnoidite crônica subsistente) não se
manifesta com suficiente evidência. O prognóstico obtido em quadros clínicos distintos
de degeneração demencial (as verdadeiras demências) é, ademais, menos favorável do
que aquele observado em casos de dementia praecox. De modo que restava por determinar
um mecanismo que desse conta do fundo degenerativo terminal das afecções agrupadas,
tanto quanto daquilo que distinguia a dementia praecox: seu início precoce, sua evolução
insidiosa [Lacan discorda veementemente da descrição de Kraepelin no que diz respeito
ao caráter insidioso da enfermidade, haja visto que o delírio, segundo o entendimento
lacaniano, comporta sempre fases, 'febres', rupturas mais ou menos demarcáveis no curso
da doença; cf. p. 27] e a fatalidade de seu estado terminal.

Ora, segundo observa Simanke (2002), se a observação de Kraepelin inside justamente


sobre o caráter precoce da irrupção, e no desenvolvimento, em alguma medida, acelerado
do quadro, vê-se que aqui começam a se delinear argumentos em que supõe uma
determinação psicológica no desenvolvimento da dementia praecox. Ademais, as demais
afecções reunidas no grupo das demencias, tem por característico um inicio tardio e um
desenvolvimento lento e progressivo, o que se justifica pela deterioração gradativa do
sistema nervoso. Não é de causar supresa, acrescenta Simanke (2002) que são as
exigências da clínica que conduzem a necessidade de se pensar uma psicogênese em jogo
na dementia praecox, haja visto que os dados que se recolhem do quadro são fenômenos
clínicos de natureza psicológica.

Kraepelin é então levado a 'ensaiar', demarca Simanke (p. 46), em sua descrição clínica,
o "quadro psíquico geral desta enfermidade", onde se destacam dois grandes grupos de
distúrbios: a deterioração afetiva e a perda da capacidade de síntese (unidade), ambos
remetendo aos processos propriamente ideativos e suas articulações, o que faz com que
surja como pano de fundo a noção de 'unidade da personalidade', na qual os processos
descritos possam ganhar 'sentido' [o que se assemelha, não casualmente, como demarca
Simanke, com o projeto lacaniano da tese, haja vista que o que está em jogo aqui é um
tendência nascente no que diz respeito a compreensão da categoria das psicoses].

A síntese de Krapelin passa a exigir assim um sólida teoria da personalidade bem como
de seus fatores psíquicos determinantes, ainda por esboçar.

Simanke remarca como Minkowski, no artigo citado, dá valor a um detalhe presente no


aparecimento da tendência psicogênica presente nas formulações psiquiátricas: ainda que
se dispusse de um plano de descrições que levasse em conta os fatores psicológicos
determinantes na descrição de Kraepelin, atribuindo-se a tais fatos um papel de relevância
primeira na etiologia da doença, tal plano psicológico deveria ser submetido à 'prova da
clínica', uma vez que a psiquiatria enquanto campo médico, volta-se necessariamente a
um 'objetivo' prático, onde estão em jogo o prognóstico e o plano terapêutico.

É preciso notar, contudo, que a a noção de patologia, domínio cuja especificidade foi
requerida pela 'ciência médica', é, sob o risco de perder tal especificidade, alheia a uma
descrição rigorosamente psicológica, da qual, ao mesmo, qualquer explicação médica que
se pretenda 'completa' no campo das psicoses não pode prescindir. Nisto reside, destaca
Simanke (2002), o incômodo maior instaurado pela 'psicose', enquanto "matriz de todas
as entidades psiquiátricas que não se reduzem a moléstias simplesmente degenerativas"
(p. 47) [Simanke, acrescenta pertinentemente, que Lacan, ao tomar partido do
psicogeneticismo, encontra-se nesse contexto, embora tenha a intenção de propor uma
'terceira via', numa espécie de 'beco-sem-saída', do qual só poderá sair a partir de um
investimento psicanalítico do problema, que lhe permitirá então tomar o problema das
psicoses, sem que tenha de operar teoricamente com o conceito de 'doença'].

De todo modo, a consideração dos fatores psicológicos determinantes em jogo na psicose,


observa Simanke (2002) evocará a consideração dos 'processos reacionais' -
manifestações 'positivas' da psicose - cujo lugar de destaque se dá pela noção de 'conteúdo
da psicose' [conteúdo do delírio] presente nas elaborações bleuerianas da esquizofrenia
[Acrescente-se que Lacan identifica a 'totalidade' da psicose numa estrutura reacional
desse tipo, sem deixar de considerar que a noção de conteúdo, em Bleuler, remeta a noção
de 'complexo', onde se superpõe as teses freudianas e as da escola de Zurique. O que deixa
notar, por conseguinte, que a modesta contribuição da psicanálise ao tema chega ao jovem
Lacan a partir de sua herança psiquiátrica. De todo modo, precisa Simanke, que a
absorção por parte de Lacan destas teses comporta outras nuances. Se a noção de
complexo foi por ele empregada no caso Aimée para justificar o caráter patogênico das
relações da papciente, Lacan intenta pelo emprego deste conceito abarcar a estrutura das
relações efetivamente vividas pela paciente, o que posteirormente será melhor
desenvolvido em suas elavorações sobre os 'complexos familiares'. O apelo explícito que
faz a psicanálise se dará propriamente em torno da noção de 'superego', empregada para
dar conta do 'conteúdo do delírio' em sua temática persecutoria e punitiva.]
As contribuições de Binet e Simon (Ver o artigo citado de Minkowski) - a psicose deverá
ser tomada enquanto totatidade, e os fenomenos clínicos deve ser referidos à estrutura
total da personalidade [caberá a Lacan articular estas duas premissas, fazendo a psicose
depender, em alguma medida, do desenvolvimento da personalidade como um todo]

Ao lugar central que a noção de personalidade adquire em psiquiatria a partir das


contribuições de Binet e Simon, faz destacar-se uma vertente 'intelectualista' na
abordagem dos distúrbios psicóticos, o que permite driblar parcialmente os encalços de
uma filiação à psicologia associacionista, marcada pelo reducionismo paralelista dos
fenômenos. Uma tal vertente deverá, por sua vez, partir da estrutura global da
personalidade em direção aos fenomenos elementares que se isolam no quadro da
enfermidade.

Uma determinação da parte pelo todo, como nota Simanke (p. 49), se situa na contramão
da causalidade organicista. Mas a noção de reação, com que se pôde lograr o avanço das
hipóteses psicogenéticas, em termos de reação global ao elemento patológico primário,
não prescinde de uma fundamentação calçada na etiologia orgânica do quadro, cuja
fenomenologia passaria a ser lida em termos de reação psíquica a um dano orgnânico
primário. Nesse sentido, se o organodinamismo de Henry Ey, previa a possibilidade de
assumir um pressuposto organicista sem recair no reducionismo mecanicista, o que, em
alguma medida, contorna a indisposição inerente à ideia de uma psicogênese no campo
propriamente dito da medicina, tal proposição, que será alvo de duras críticas de Lacan
em 'Propos sur la causalité psychique', não altera essencialmente o pressuposto latente da
organogênese.

Chaslin - loucuras discordantes: loucura paranóide delirante e loucura verbal, priorizada


por Lacan ao lado das 'folies raisonnantes' de Sérieux e Capgras.

O conceito de 'esquizofrenia' de Bleuler - termina por assentar as bases das elaborações


posteriores de Lacan, embora o jovem psiquiatra tenha de recorrer a fenomenologia para
contornar a ausência de um caráter constitucional nas teoriações bleulerianas.

Em bleuler se articulam, em igual medida de importância, os aspectos psico-clínicos -


necessários à composição de um explicação psicológica que vise atender às exigências
terapêuticas - e o aspecto 'psicanalítico', que se compõe com o empréstimo de algumas
elaborações de Freud, visando dar conta do 'conteúdo do delírio'.

O 'tour de force' de Bleuler consiste em mostrar que, na esquizofrenia, o que se apresenta


comprometida é a propria concatenação das faculdades psíquicas elementares, sua
'Spaltung', cujo teor patológico - aqui conservado como processo doentio - pode ser
referido à causas orgânicas. Num só golpe se explica a dissociação das cadeias
associativas de idéias (disturbios do pensamento) e a consequente perturbação afetiva que
delas decorre, posto que o rompimento das primeiras impediria que o afetividade pudesse
se mobilizar através delas. Assim os distúrbios do afeto se vinculam, observa Simanke
(2002) ao universo dos conceitos [idéia a qual Lacan será simpático mesmo em suas
formulações tardias].

Aqui, torna-se passível de explicação o fenomeno da 'ambivalência' [ambivalência


afetiva?], pelo que, numa acepção lógica, é passível afirmar e negas simultaneamente um
atributo a um objeto, se acrescenta acepção afetiva que o conceito possuía em Freud
(Quanto a isso acrescenta Roland Dalbiez citado por Simanke [nota. p. 50/51]: "enquanto
que um intelectualismo estático, tal como o originário do cartesianismo, se vê obrigado a
negar a priori a existência de estados psíquicos ambivalentes, uma psicologia dinâmica é
obrigada a reconhecê-los. Com a noção de ambivalência começa já a psicanálise a
penetrar na clínica" [p. 245]).

[É importante observar, vide nota. 36, p. 51, que Freud, empenhado em propor uma
concepção psicológica e histórica das afecções psiquicas, visando uma terapêutica
psicológica causal, instaura com a noção de 'conflito', a indissociabilidade entre os
aspectos intelectual e afetivo dos fenômenos mórbidos. O que rompe com as concepções
clássicas da psiquiatria orgânica nas quais o distúrbio pode possuir primariamente um
caráter ideativo, sendo os aspectos afetivos secundários ou decorrentes daquele. Este
ponto será objeto de preocupação de Lacan, haja visto que o privilégio dado por ele ao
caráter intelectual nas 'psicoses', vai na direção de uma hipótese similar àquela da
psiquiatria orgânica.]

Os conceitos bleuerianos (spaltung, autismo do pensamento e ambivalência) aplicados


em sua abordagem da esquizofrenia, os quais não podem prescindir de uma explicação
psicológica, permitem ultrapassar o plano meramente descritivo das investigações de
Kraepelin e implicam numa extensão ainda maior que aquela promovida por este último
na delimitação da 'dementia praecox'.

As elaborações de Bleuler apoiadas em noções psicológicas alcançam o domínio do


normal, renovando progressivamente as concepções quantitativas sobre o normal e o
patológico [esta vessas ao estabelecimento de um conceito geral de doença], o que se
exprime em termos de escala que vai desde a rigidez esquizofrênica à ambivalência
cotidiana. Esta noção desenboca numa apreensão da quase totalidade da personalidade,
sendo a distinção entre personalidade mórbida e personalidade normal dependente de uma
considerações de fatores de ordem antropológica [o que se deixa notar na tese lacaniana,
na forma de uma 'identidade' virtual entre estrutura mórbida e personalidade, numa
mescla de tendências das escolas francesas e alemã, assim como de referências fora do
domínio da psiquiatria].

Mas é a análise propriamente dita do 'conteúdo' da psicose que irá desembocar numa tese
de cunho psicogênico. Assim como conceito de 'spaltung' é aplicado para explicar o
déficit associativo de idéias na esquizofrenia [e ao mesmo tempo justifica a existência de
uma lesão orgânica], o conteúdo 'positivo' do quadro [delírio] exige a noção freudo-
junguiana de 'complexo' que engloba tanto o caráter deficitário quanto as consequências
reativas no nível psicológico [Cf. Minkowski, p. 229].

[Vale realçar que o emprego da noção de 'complexo' em psiquiatria é realizado de forma


vaga e genérica, ao contrário do lugar central que ocupa nas teorias freudianas da vida
psiquica como um todo. Antes de tomar contato direto com o texto freudiano, Lacan
recebe da tradição psiquiátrica da qual é herdeiro, o mesmo emprego impreciso do termo,
ainda que, algum tempo depois da tese ele atribua aos complexos um papel determinante
na formação dos sintomas e na constituição da personalidade]

Eis o ponto central do emprego da noção de complexo no discurso psiquiátrico: "o


complexo é desprovido aí de qualquer alcance etiológico, prerrogativa do fato orgânico
primário" (p. 53). Ele comparece na doutrina de Bleuler apenas para dar conta do caráter
positivo do conteúdo psicológico do sintoma psicótico [complementando a explicação do
traço clínico mais distinto destes enfermos: o 'autismo']. Dessa maneira a noção de
complexto permite uma definição 'estrutural' da enfermidade, sem com isso retirar a
importância determinante reservada aos sintomas negativos [déficit] que a caracteriza.

Fazendo jus a necessidade de considerar a totalidade da personalidade [psíquica], tal


ponto de vista 'estrutural', contudo, não se centra senão no sistema atual de relações
significativas. O complexo se insere na ordem do vivido, designando um conjunto de
reações vitais do organismo em dadas condições. O que determina o conjunto destas
relações não é, como se poderia crer numa acepção 'mais' lacaniana e tardia de estrutura,
a lógica interna a estas relações, mas a resposta dada a nível global do organismo, que
reage a um meio 'mais ou menos favorável'.

[Simank remarca que é precisamente a limitação da reação pela diminuição da capacidade


global do organismo que permite a Canguilhem distinguir saude e doença a partir de uma
atividade 'normativa' do organismo individual. Embora não seja vetado ao psiquiatra,
pesquisar a história do sujeito por detrás do delírio, a explicação causal segue apoiando-
se sobre um lesão ou alteração orgânica.]

Quanto a precedência de direito do dado orgânico, Simanke cita Minkowski ['Recherches


sur le rôle des complexes dans les manifestations morbides des aliénes']: "para empregar
uma metáfora, os complexos preenchem o vazio cavado pela desordem inicial, mas são
incapazes, por si sós, de cavá-lo" (p. 55).

Para que avance mais adiante numa hipótese psicogenética, Lacan deverá,
posteriormente, propor uma teoria da gênese social da personalidade, já esboçada em sua
tese. Todavia aí, o lugar dos fatores orgânicos resta ambíguo: a dependência social do
sujeito permanece restria aos determinantes dos fenômenos da personalidade. Somente
depois, com as formulações em torno do estádio do espelho e dos complexos familiares,
tal concepção ganhará, segundo lê Simanke, um caráter "ontogenético": "o indivíduo
humano se constitui essencialmente como um ser social, esse tecido de relações
interiorizado nos momentos cruciais de sua história, passsando a forma sua própria
substância. Isso porque ele carece, originariamente, de uma determinação biológica
eficaz" (p. 55). [Lacan apoia-se sobretudo sobre as teorias do embriologista Louis Bolk
sobre a prematuração essencial do homem, em contraste com o mundo animal: Cf.
Ogilvie, 'La formation du concept du sujet, p. 110: "o ser humano como um ser inacabado;
isso que, em outras espécies, pertence ao estágio transitório do feto estabilizou-se no
homem, de tal maneira que a hominização aparece como uma fetalização; na linha de
Darwin, ele mostra, portanto, que a estrutura social, na medida em que ela encontra esta
'neotenia' pela permanência da família, faz parte das condições naturais de existência e de
reprodução do ser humano"].

O 'vazio' orgânico, a que se refere Minkowski, será tomado como dado originário, de
modo que os 'complexos' que vêm preenchê-lo coincidem, como observa Simanke (2002),
com o próprio nascimento do sujeito humano, cuja constituição, como observará Lacan
mais tarde, se dá pela linguagem. A opção lacaniana pela 'compreensão', na Tese,
coincidem então com suas pretensões materialistas, na medida em que "é a propria
realidade biológica do homem que priva o orgânico de sua eficácia explicativa" (p. 56).

Nenhuma lesão poderá, doravante, se sobrepôr a este 'vazio' originário, ao menos de modo
a assumir sobredeterminação sobre qualquer processo, seja ele patológico ou normal.

Vale ressaltar que, para Simanke, esta reflexão 'errática' que vai da clínica à metafísica,
passando pela discussão epistemológica, encontrará, como ponto de origem, questões
relativas a clínica psiquiátrica da paranóia, enquanto afecção especialmente refratária às
teses organicistas. A Tese lacaniana conduzirá a conceitualização da paranóia como
'fenômeno de conhecimento', o que permite a Lacan aproximar - e quase identificar -
reflexão clínica e epistemológica.

Constituição, reação e interpretação

Tripa função estrutural na explicação da paranóia em suas relações com a personalidade


(Simanke, p. 73 + nota p. cit): 1. Desenvolvimento; 2. Concepção de si mesmo; 3. Tensão
nas relações sociais - Nota. p. 73: "estes componentes da personalidade correspondem
aos pontos de vista 'individual', 'estrutural' e 'social', respectivamente, que Lacan vai
propor, ao final, como integrantes de uma explicação integral e concreta da psicose".

Ao firmar a tese sobre as relações entre psicose e personalidade, Lacan visa, em primeiro
lugar, refutar a noção de que a primeira apenas 'herdaria' os traços mórbidos da segunda,
os quais, no fenomeno especificadamente patológico se apresentariam de um modo
'exacerbado'. Uma tal concepção, contrária, por princípio, a uma conceituação da doença
como 'entidade clínica' (de valor ontológico), tende a tomar os fenômenos patológicos
como manifestação 'hipertrofiada' de aspectos mórbidos já presentes num caráter
intrinsecamente 'mórbido' (vê-se o teor eminentemente moral de tal concepção), recaindo,
portanto, nos termos de uma relação quantitativa entre o normal e o patológico. Tal
concepçao é incompatível com a noção 'estrutural' da patologia: "se a estrutura mórbida
não é mais, a rigor, um distúrbio da personalidade, mas toda uma personalidade distinta
das consideradas normais, esta diferença só pode ser pensada como qualitativa, mesmo
porque, por aí, vai-se a passos largos em direção a uma relativização dos conceitos de
'norma' e 'realidade', à qual se atribui geralmente uma função normativa, que deixam de
ser o ponto fixo a partir do qual se demarca normalidade e patologia" (p. 73).

Cf. p. 59 [Ed. fr.] da tese de Lacan: "Eis aqui uma gênese que nos remete ao núcleo das
funções da personalidade: conflitos vitais, elaboração íntima destes conflitos, reações
sociais";

É importante notar, adeverte Simanke (2002, p. 72) como em sua tese, Lacan, irá localizar
marginalmente nas concepções de Kraepelin sobre a paranóia uma alusão à situação
social como fator determinante da conformação do quadro mórbido. Ponto de interesse
que soma a uma virtude da descrição Kraepeleriana que é a de deslocar a análise dos
conteúdos do delírio - que aos olhos de Lacan, não é mais que uma espécie de 'truísmo',
haja vista que tais conteúdos somente poderiam vir da experiência interna do enfermo -
para o estrito ponto de vista 'clínico' do fenômeno.

A psicogenia da paranóia em Krapelin > a escola francesa: Claude, aparentemente, é


responsável pela definição da 'psicose paranóica', cuja descrição, como aponta Simanke,
tem a vantagem de esquivar-se do resíduos organicistas que recaem sobre a 'dementia
praecox' kraepeleriana.

'Delírio de interpretação', protóripo da 'folie raisonnante' introduzida por Serieux e


Capgras, autores em quem Lacan se inspira diretamente: com Serieux e Capgras a
paranóia não se define unicamente pela 'forma do delírio' [sistematizado, impenetrável,
irreversível]: mas como elemento [o delírio] portador de uma 'função cognitiva':
"interpretar a realidade circundante do enfermo -, o que representa um passo decisivo no
caminho que leva a caracterizaçaõ da paranóia como 'fenômeno do conhecimento'" (p.
72).

Serieux e Capgras se recusam a distinguir, 'formalmente', a interpretação 'mórbida' da


'normal'; uma análise estritamente psicogenética impõe um limite que é o da hipótese
constitucional [constituição paranóica] em que se apóia: uma tal hipótese oscila entre dois
aspectos: o de substituir uma 'organogênese' por uma tendência constitucional
determinada, a manifestar-se em dadas circunstâncias de históricas e psicológicas; e a de
resvalar numa descrição categórica dos traços que se atualizam no fenomeno patológico.
Ou seja, num têm-se o risco de encontrar uma determinação última da doença numa
predisposição organica ou numa personalidade prévia que se justificaria naquela
determinação [personalidade predisponente apenas, que não coincide com a própria
'psicose']; noutro têm o risco, somado ao primeiro, de um mero descritivismo que impede
a conformação de uma etiologia 'específica' [psíquica] em termos de 'causalidade' forte
(Cf. causas fortes e fracas em psiquiatria).
Visando a superação de ambos os riscos Lacan irá se dirigir aos chamados 'fatores
reacionais': que, por sua vez, comportam também um problema - sob a influencia de
Serieux e Capgras, constituição e reação são aspectos 'paralelos': o primeiro incidindo
propriamente sobre a interpretação delirante como 'fenômeno intelectual'; e segundo
incidinfo sobre os aspectos propriamente afetivos [reação passional].

Lacan resolve o problema subsumindo o primeiro ao segundo aspecto, a interpretação é


então vista como uma forma específica de reação [de teor intelectualista], o que explica
a própria interpretação sem que se adjunte aqui, as questão sobre o caráter consitutucional
(Simanke, p. 76). [a noção de 'reação passional' é intimamente ligada as considerações de
Clérambault acerca do 'automatismo mental', descrito por Lacan como um 'embrião
lógico', do qual se deduzem todas as alterações idéicas e volitivas. Simanke nota, nisso,
uma justificativa para o fato de que Lacan reincorpora o conceito de automatismo mental
em sua teoria, haja vista sua afinidade com o 'logicismo estruturalista' [Cf. em Guyonnet
[Thèse]: Clérambault e l'automatisme mental];

Toda essa disussão resulta, como remarca Simanke (2002) na conclusão de que a chamada
'constituição paranóica' é insuficiente para explicar a psicose, não obstante corresponda a
uma entidade clínica, cujas manifestação requerem ainda ser elucidadas. É nesse sentido
que Lacan opera outro 'tour de route', ao voltar-se para as concepções oridundas da escola
alemã, na qual o acento da questão é posto sobre os chamados 'fatores reacionais'.

Lacan se dirige, então, à Kretschmer, pois, ao que lhe parece, interessa a teoria
kretschmeriana explicar, embora seu conceito de 'caráter' tenha um teor claramente
organicista, as manifestações do delírio em termos 'psicogênicos, ou seja, vigora aqui uma
preocupação com a 'causa', não estando circunscrita a análise à evolução e caracterização
sintomática do quadro (p. 77).

Os elementos do delírio em Kretschmer: o caráter ([caráter sensitivo: delírio de relação]


estrutura psicológica de bases biológicas), o acontecimento vivido e o meio social (fatores
históricos e psicossociais). - o tipo de caráter em Kretschmer é definido como: "reações
psíquicas globais aos acontecimentos vividos" (p. 78).

Nesta definição Lacan encontra o reflexo de sua concepção: os 'tipos' kretschmerianos se


constituem como reações aos fatos do meio 'biossocial', ou seja, não pré-existem como
tipos determinados por um 'fator natural não temátizável'.

Persiste o problema da base orgânica da função etiológica primordial da doença, observa


Simanke (2002): "o orgânico vai, no entanto, convertendo-se cada vez mais na peça que
sobra após a minuciosa montagem do quebra-cabeça da psicose" (p. 78).

Como observa Simanke (2002), se Lacan não abandona, neste momento [o da tese] o
fundamento orgânico da psicose e da personalidade - embora remoto - é porque ainda não
dispõe de um argumento biológico capaz de ultrapassá-lo; o que se tornará possível a
partir da incorporação de formulações ‘hesitantemente’ psicanalíticas que seguem a tese.
[Ao contrário da orientação fenomenológica e compreensiva de Jaspers que, pela
instauração da categoria de 'processo', decreta 'ad principium', a causalidade orgânica
indeterminada da psicose como categoria não tematizável e destituída de sentido, espécie
de édito ao qual subjaz uma 'demissão do pensamento'];

Como observa Simanke (2002, p. 78): "essa estrutura em que consiste o caráter dito
'sensitivo' "compreende-se por si mesma" (Kretschmer), com o que se faz ligação direta
com as 'relações de compreensão' (Jaspers), impedindo que se possa considerá-lo como
uma mera disposiçao constitucional, mas sim "uma personalidade em toda a sua
complexidade" (Lacan, apud Simanke, [tese, ed. fr]: p. 85).

Assim o 'acontecimento' que se demarca na etiologia das psicoses é tomado como uma
'Erlebnis' (experiência, termo de conotação fenomenológica), original e determinante, ao
mesmo tempo em que aponta para a insuficiência do sujeito. Aqui Simanke, demarca, a
referência a 'vivência da falta', concebida como determinante na etiologia das psicoses
[desde as concepções estritamente organicistas] e que ganhará no seminário dedicado por
Lacan a temática das psicoses, sua maior importância. Em nota da página 79, Simanke
destaca ainda que é nestes termos que Lacan falará da falta de um 'significante primordial'
na constituição simbólica do sujeito. Ele o faz, ajunta Simanke, tomando em consideração
um artigo de Hernard sobre o 'universo mórbido da falta'. Contudo, é preciso acrescentar
que, no seminário sobre as psicoses, a falta já dispõe de um alcance aumentado e se refere
a constituição total do sujeito.

O esforço de Lacan será então o de retirar a noção de 'falta' do domínio estrito da lesão
orgânica ["à uma falta orgânica nunca corresponde, de modo estável, uma falta no
psíquico" (p. 79)], para transportá-la ao plano determinante das 'psicoses' e do próprio
'sujeito'.

Lacan concede um lugar de relevância as considerações de Kretschmer em sua tese, na


medida em que os fatores biológicos em jogo na formação restrita do caráter [cuja ação
sobre a causa das psicoses é apenas indireta], podem ser facilmente relativizados em seu
caráter constitucional, sendo a psicose entendida em termos de uma 'psicogênese' [Cf.
Lacan, tese, p. 98 [ed. fr.]: "Demos amplo lugar a esta descrição (a de Kretschmer), porque
ela nos parece uma das expressões elaboradas do ponto de vista que expomos neste
capítulo, ou seja: a paranóia considerada como 'reação de uma personalidade e como
momento de seu desenvolvimento'"]. Acrescenta Simanke (p. 80): "pode-se dizer que
nosso autor [Lacan], encontra aí um lugar inofensivo para alocar os determinantes
orgânicos, de maneira que, para todos os efeitos práticos, torne-se possível prosseguir no
intento de formular uma causalidade específica para os fenômenos subjetivos da
personalidade" [Cf. Tese de Lacan: "não existe paranóia, mas apenas paranóicos",
fórmula citada por Lacan e creditada a Bleuler; assinala-se, observa Simanke nesta nota
à página 80, a notável habilidade de Lacan em fazer dos enunciados de seus interlocutores
'metáfora' confirmatória de sua próprias teses.].

O que se destaca, para Simanke, neste percurso exaustivo de Lacan pelos autores alemães
e franceses é seu intento patente de 'esvaziar' a noção de constituição do caráter paranóico,
para o que concorre a própria ambiguidade presente na atuação de tais fatores
constitucionais na eclosão da psicose. Desse modo, os fatores orgânicos constitutivos são
transpostos à categoria de 'hipóteses', sendo o 'material concreto' das análises revisitadas
por Lacan, o estudo das evoluções de caso, ou seja, sua soberana 'abordagem clínica'.

Nesse sentido, Lacan retorna [conforme cita Simanke transcrevendo a tese] as "analises
francesas do automatismo psicológico na gênese das psicoses paranóicas" (tese, ef. p.
126). Vale salientar, ainda com Simanke, que a noção de 'automatismo' atribuída a
Clérambault é a 'pedra de toque' do organicismo francês, de modo que a crítica dirigida a
este movimento implica em recusar - para Simanke, de um modo um tanto quanto 'a priori'
- a determinação orgânica dos automatismos, para considerá-los sob o ponto de vista
clínico como 'fenômenos intelectuais', ["descolados de sua base orgânica" (p. 80-81).].

A estratégia de Lacan, que visa dar uma determinação positiva aos fenomenos sem recair
num objetivismo orgânico, é partir da "ambiguidade fundamental do termo automático"
(T. p. 128), para pensar o automatismo - que reune uma imensa variedade de fatos clínicos
observáveis - como fenômeno concebível segundo o caráter 'reativo' [daí a importância
para Lacan dos fatores reacionais] da personalidade total, operação que seria capaz de dar
'sentido' àquele: "ele [Lacan] pretende inaugurar uma abordagem do automatismo -
característica irrecusável das psicoses, desde um ponto de vista descritivo - que escape ao
elementarismo crônico das leituras organicistas: a ascenção ao primeiro plano da
referência à personalidade implica uma explicação da parte pelo todo, e não o contrário,
esperando Lacan poder purgar, assim, as análises não-reducionistas que passa a revisar
dos resquícios atomísticos que possam ainda conter; essas análises, que se atém em geral
aos fatos clínicos, poderão fornecer, então, mais um argumento contra a hipótese
constitucional" (p. 81).

É a consideração da descontinuidade entre delírio e personalidade [anterior à psicose],


que permite Lacan localizar em termos da formação de um segundo sistema, não
assimilável ao primeiro, a personalidade dita delirante [cf. T. p. 131]. O automatismo
sever então para designar um 'determinismo psicológico' que se liga a estrutura
'específica' do quadro clínico da paranóia. Nada mais adequado a uma concepção
psicogênica específica da psicose, o que permite ainda, ao desvincular a paranóia do
quadro constitucional da personalidade pré-morbida [cujo teor propriamente 'constitutivo'
fora esvaziado], desviar-se de uma concepção deficitária da psicose [concepção resultante
de uma 'continuação' entre os fatores constitutivos e aqueles apresentados clinicamente
na doença]: "a concepção da psicose como o desenvolvimento de uma personalidade é,
assim, essencial para que Lacan possa cumprir seu desígnio de não mais encarar a
sintomatologia paranóica como 'fenómenos de déficit'" (p. 81-82).
Recusa das concepções genéticas de Janet que apela excessivamente a fatores de ordem
energética e acarretam uma concepção organicista do psiquismo e uma, consequente,
"causalidade biológica" para os distúrbios mentais (cf. T. p. 135).

É válido notar que Lacan nutre uma espécie de 'ogeriza' às concepções energéticas
[mesmo aquela de Freud no Projeto], por nelas indentificar uma espécie de 'tendência
biologizante'; isto se traduz posteriormente, lembra Simanke (p. 82), no esforço lacaniano
de ler a 'Besetzungen' como métafora em termos de lógica significante [na tese Lacan
aborda o conceito de 'libido' enquanto operador teórico, remarca Simanke].

Se Lacan (Simanke, 2002, p. 82) recorre às elaborações de Minkowski sobre a "estrutura


das propriedades da consciência mórbida" (cf. T. p. 138), isso se dá na medida em que a
distância por ele tomada a abordagem compreensivo-fenomenológica - que empregariam
um método puramente filosófico - se justifica pela incompatibilidade de saída entre a
abordagem compreensiva e a noção mesma de 'patologia' [haja vista que o método
fenomenológico toma apenas 'ocasionalmente' o fenomeno psicopatológico como objeto
de estudo]. O recorrido do emprego que faz Minkowski das concepções fenomenológicas,
permite adaptar, em alguma medida, o método compreensivo à prática psiquiátrica -
embora Lacan divirja daquele no que diz respeito ao papel atribuído aos fatores orgânicos:
"é justamente sua intransigência quanto à psicogênese que vai conduzir a pesquisa
lacaniana para fora da psiquiatria" (p. 83).

Mas é em Jaspers que lacan encontra outro operador essencial da psiquiatria


fenomenológica: a noção de 'processo psíquico' [que para Simanke parece ser, na tese,
mais essencial que as chamadas 'relações de compreensão']. Para Simanke, Lacan vê na
noção de processo psíquico, a possibilidade de tomar as relações de compreensão
enquanto operadores objetivos da análise, e não apenas como ferramentas de apreensão
fenomenológica. Isso se justifica pelo fato de que o processo implica na ruptura do
desenvolvimento vital do indivíduo, este último expresso em termos de relações
compreensíveis.

Mas aqui, para Simanke, a noção de processo de Jaspers assumi outra característica
essencial: trata-se de uma ruptura completamente distinta daquela causada por uma lesão
orgânica, que implica sempre numa desagregação do todo [Cf. a noção de 'processo' em
Jaspers e a retomada que dele faz Lacan em sua tese]. Segundo Simanke, o processo
psíquico implicando numa ruptura distinta daquela causada pelo processo orgânico é o
que permite a Lacan "equacionar o problema da continuidade ou descontinuidade entre
personalidade pré-mórbida e a psicose" (p. 84). Isto porque o processo psíquico,
instaurado na eclosão da psicose, explicaria o surgimento de uma nova personalidade e
preservaria, ao mesmo tempo, a significação patológica desse fato, "ao introduzir uma
nova realidade psíqucia que é apenas parcialmente compreensível em termos
fenomenológicos" (p. 83). Além do que, "essa nova realidade [que o processo instaura]
está intimamente vinculada a um evento vivido, que pode ser considerado determinante
e inscrito numa relação causal com a modificação ocorrida" [aqui Simanke lê na
apropriação lacaniana da noção 'processo psíquico' uma propriedade particular: a 'nova
realidade' que o processo instaura "está intimamente vinculada a um evento vivido"
(idem). Cabe verificar em que medida isso se dá em Jaspers, posto que partimos da
'hipótese' de que o processo é justamente algo que não se deixa compreender e que,
portanto, não poderia estar vinculado a estrutura do vivido [em termos de
desenvolvimento], sendo assim ligado a uma causalidade orgânica destituída de sentido.
A leitura que Simanke faz do uso lacaniano dessa categoria é diametralmente oposta: o
processo, justamente por se distinguir da ruptura causada por uma lesão orgânica, é o que
teria permitido a Lacan se valer dele em sua tese. Cabe perguntar em que medida Lacan
relê ou redireciona, como lhe é característico, o conceito jaspersiano de 'processo'].
Prossegue Simanke, dizendo que a nova realidade realidade introduzida pelo processo
psiquico, pôde ser lida por Lacan como intimamente vinculada ao evento vivido,
determinante e inscrito numa relação 'causal' com a alteração psicótica [surgimento de
uma personalidade delirante]. Desse modo, para Simanke leitor de Lacan, por sua vez,
leior de Jaspers, "o conceito de processo complementa o de reação que, sozinha, sempre
pode ser recortada do todo, considerada isoladamente e, portanto, tornada redutível ao
evento desencadeante em sua determinação material" (p. 83). E continua: "o processo, ao
contrário, parte dessa crise localizada e se desdobra numa série de reações encadeadas
que, na verdade, constituem um novo desenvolvimento, conduzindo à formação da
personalidade mórbida" (idem). Assim, o conceito de processo recuperado por Lacan em
Jaspers, na leitura de Simanke: "introduz uma descontinuidade apta, ao mesmo tempo, a
afastar a hipótese constitucional e a justificar o caráter patológico atribuído à nova
situação, sem apelar, no entanto, a um dado orgânico [ou seja, o processo não apelaria a
um dado orgânico, concepção radicalmente oposta àquela que consta em nossa hipótese],
que só poderia produzir um estado desagregativo, o único que uma visada reducionista
seria capaz de explicar" (pp. 83-84).

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