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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


DISCIPLINA: HISTORIOGRAFIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
TURMA 2017.2 – MESTRADO
DOCENTE: CARLOS ZACARIAS FIGUEIRÔA DE SENA JÚNIOR

DISCENTE: THASIO FERNANDES SOBRAL

RESENHA CRÍTICA

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

Angela Davis é uma filósofa, professora aposentada da Universidade de Califórnia (EUA),


dirigente do Partido Comunista e integrante da extinta organização Panteras Negras. A autora, que
já foi perseguida pelo governo norte-americano por sua atuação política durante anos de 1970, nos
atinge com suas certeiras impressões em uma reflexão dialética que não poderia nos soar mais atual.
Provavelmente, a maior preocupação de Davis na obra Mulheres, raça e classe seja remontar
a encruzilhada histórica sobre a atuação política de diferentes grupos sociais na história norte-
americana com um exímio enfoque racial. O livro, que em muitos momentos nos leva a um
incômodo ao retratar a maneira odiosa e desumana cuja as negras e os negros norte-americanos
sofreram ao longo do tempo, remonta desde o regime escravista, e se esmera em ir além. A obra nos
exibe o pertinente entrelaço entre a agência de mulheres e homens brancos e negros, apresentando
uma reflexão de suas atuações através de um necessário recorte de classe. Davis expõe o pragmático
desses sujeitos na luta por seus direitos revelando as proximidades e contradições da atuação destes
e entre estes grupos, e exibe o quanto o agir político está muitas vezes conectado às construções
raciais, de gênero e de classe.
O capítulo um do livro expõe o quanto os estudos elaborados ao longo do século XX foram
responsáveis por elaborar esteriótipos sobre a mulher negra. Davis acredita que poucos foram
aqueles que deram devida atenção a condição da mulher de cor ao longo da história e alicerçaram
através de um viés racista a visão que a sociedade tem a respeito dessas. Este olhar foi a condição
legitimadora da escravidão de seus corpos e exploração da força de trabalho.
Os capítulos dois, três, quatro exibe o modo como mulheres e homens negros e mulheres
brancas agiram de maneira articulada para o avanço do movimento abolicionista e a construção
incipiente do movimento pelos direitos das mulheres, que se desenvolveria na luta pelo sufrágio
feminino. Davis mantém um cuidado ao expor a atuação de homens negros em defesa de mulheres
brancas e vice-versa, exibindo de maneira relacional como diferentes atores políticos em distintos
grupos sociais agiram de forma conjunta na pavimentação de suas pautas específicas.
Entretanto, a autora exibe uma preocupação, a nosso ver bastante lúcida, em expor as
contradições existentes entre as demandas destes grupos. Neste sentido, Davis revela o quanto o
movimento de mulheres brancas negou à população negra seu apoio político a medida que a pauta
desta população avançava, prática que ao longo das décadas foi se redesenhando de diferentes
formas. A autora denuncia o racismo do movimento destas mulheres brancas de classe média sobre
as pautas de mulheres e homens negros.
As discussões destes capítulos anteriores, soma-se as do capítulo sete, e revela como foi se
desenvolvendo a articulação de grupos políticos e a influência das condições de classe, gênero e
raça no avanço de determinadas questões. Davis ainda ressalta a influência dos interesses político-
econômicos, apropriados pelos partidos políticos da época, que buscavam capitalizar as pautas de
grupos específicos para perpetuação e instauração não somente da supremacia branca e masculina,
mas também do aprofundamento da luta de classes.
No capítulo cinco, a autora expõe como o processo de emancipação incidiu sobre as
mulheres negras. Ao remontar a trajetória dessas desde o regime escravista, Davis revela que muitas
mulheres sofriam condições análogas às existentes na escravidão mesmo após a emancipação,
mantendo-se em atuações profissionais muito próximas àquelas executadas no período anterior,
relevando como o racismo continuava afetando a vida da população negra, e sobrecarregava ainda
mais o corpo das mulheres de cor durante boa parte do século XX.
O capítulo seis, nos revela a forma como o acesso à educação para população negra foi um
direito difícil de ser conquistado, e o quanto muitas pessoas negras encontraram mulheres brancas
aliadas a luta pela educação. O capítulo tenta provavelmente remover do imaginário social que a
ascensão da população negra não existe por uma falta de vontade individual de estudar. Davis nos
relembra, que para além da exploração da mão de obra, os negros e negras foram impedidos através
de violência física, simbólica e institucional o seu direito à educação.
Preocupada em expor a atuação das mulheres negras na política, nos capítulos oito e nove a
autora revela o papel dessas na formação de organizações políticas em defesas da população de cor
nos Estados Unidos. Importante ressaltar os contrastes que Davis revela ao incluir o fator de classe
no que se refere a atuação de mulheres negras vindas de famílias mais abastadas, em contraste com
suas “irmãs” da classe trabalhadora. Nesses dois capítulos, fica explícita a forma como a condição
de classe mantém elevada influência na forma como estas mulheres estabeleceram a prioridade das
pautas.
Aprofundando a transversalidade e revelando os desencontros entre as pautas destas
diferentes mulheres – brancas ou negras, de famílias abastadas e da classe trabalhadora – a autora
propõe no capítulo dez revisitar a atuação de mulheres comunistas na luta de direitos trabalhistas
durante o fim do século XIX e início do século XX. É importante ressaltar o quanto as organizações
comunistas, aparentemente se mantinham mais sensíveis as demandas das mulheres e da população
de cor nos Estados Unidos. Entretanto, Davis não deixa de apresentar suas contradições, revelando
situações envoltas pelo racismo típico do período histórico.
De maneira relacional, o capítulo onze expõe a construção do mito do estuprador negro. Ao
buscar desmitificar a ideia de que todo homem negro poderia ser um potencial estuprador de uma
mulher branca. Davis revela como esta ideia foi utilizada como uma forma de legitimar os inúmeros
linchamentos sofridos por homens negros. Ao apontar a banalização dos corpos desses, a autora
busca refletir como o mito também se reverbera nos corpos das mulheres negras. A construção do
suposto “animalesco” desejo sexual do negro, se refletia de forma análoga ao corpo da mulher negra,
que sofreram ao longo da história a violação de seus corpos, principalmente por homens brancos. A
análise de gênero incorporada à categoria racial, revela como a sociedade se “empenhava” em
proteger o corpo de mulheres brancas, mas não fazia o mesmo com o corpo de mulheres negras,
revelando a grande hipocrisia da sociedade branca norte-americana no combate desses supostos
estupros.
O capítulo doze e treze aprofunda as questões de classe, ao expor os constantes
desencontros dos movimentos de mulheres. A inaptidão dos movimentos de mulheres compostos
principalmente por mulheres brancas de classe média, sempre foi um grande impeditivo para
verdadeira atuação conjunta das mulheres. O capítulo doze, especificamente, mostra o quanto
mulheres não-brancas, e mais especificamente as mulheres negras e pobres, foram
institucionalmente impedidas de terem controle reprodutivo quando o governo dos Estados Unidos
adotou políticas eugenistas e higienistas ao infertilizar muitas destas mulheres. Enquanto as brancas
lutavam pelo controle de natalidade, mulheres de outros grupos étnicos eram expostas a situações
abusivas e impedidas de ter o direito de serem mães. Esta reflexão revela a necessidade de um olhar
transversal nas construções das demandas políticas, e como muitas vezes as contradições
condicionadas pela classe servem como uma forma de afastar a unidade de grupos sociais, em suas
diferentes demandas.
O capítulo treze amplia estas discussões, elucidando como o fator de classe se torna um
condicionante imperativo ao falar sobre a divisão de trabalho doméstico. Davis revela como a
condição da “dona de casa” é uma concepção maturada durante o desenvolvimento da sociedade
industrial. E portanto, nos leva a refletir que é de interesse do sistema capitalista a manutenção da
responsabilidade da mulher sobre tarefas domésticas para impedir que estas reivindiquem a
profissionalização destas atividades, impossibilitando parte de sua verdadeira libertação. Dessa
forma, cultivando sua alienação ao fortalecer a exploração de sua mão de obra ao não remunerar
tais atividades.
Angela Davis nos faz refletir sobre o nosso momento vigente. Em tempos de alta
subjetividade e lutas socais cada vez mais segmentadas no século atual, a autora nos faz revisitar
lugares que não podem ser esquecidos no enfrentamento por uma mudança social material.
Remontando a necessidade de reflexão sobre a interseccionalidade entre as categorias “classe”,
“raça” e “gênero”, Davis nos leva a reobservar os locais atuais ao refazer a trajetória do movimento
negro, e de mulheres desde o final do século XIX até a segunda metade do século XX. Por isso,
acreditamos que esta edição – originalmente publicada em 1981 – não poderia ter vindo em um
momento mais oportuno.
No aprofundamento das lutas por “representatividade”, as gerações mais jovens parecem ter
esquecido, ou aparentemente lhes faltam acesso aos instrumentos necessários de reflexão sobre o
cerne dos problemas sociais que elas enfrentam. Não que devamos esquecer das especificidades de
diferentes grupos ou simplificar suas pautas de tal maneira a invalidar suas demandas. Não se trata
disto. Contudo, se faz cada vez mais necessário perceber de modo mais aprofundado a dialética que
envolve estas temáticas mais “subjetivas”, e o quanto estas parecem ser muito mais interconectadas
do que um primeiro olhar pode nos oferecer. É justamente isto que Angela Davis nos entrega nesta
obra magistral.

Thasio Fernandes Sobral