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O Sudeste do Pará tornou-se, nas três últimas décadas palco de conflitos acentuados cujo

centro é a posse de terra, e que foram objeto d uma abundante literatura (DA MATTA &
LARAIA, 1978; IANNI, 1978; HÉBETTE, 1985; ESTERCI, 1985; MARTINS, 1986;
MUSUMECI, 1988; EMMI, 1988, entre outros). Ao longo deste tempo o grande
estabelecimento foi se implantando, via empresas agropecuárias, sobre as terras de toda
a área, sejam estas patrimônio tradicional de índios, matas de campos desocupados ou já
beneficiados por posseiros. Rejeitados como se fossem grileiros, índios e camponeses
trilham os caminhos do Judiciário, se organizam comunitariamente e questionam a renda
da terra (BOTELHO, 1981). As atividades econômicas têm se instalado, nas duas última
décadas, com características que merecem ser melhor estudadas e esclarecidas
(HÉBETTE, 1987). A partir da década de 1950, o Estado exerce, através do governo local
ou da União, o papel de estimulador das empresas capitalistas, via distribuição de
latifúndios e incentivos fiscais (MONTEIRO, 1980; VIEIRA, 1981; SILVA, 1982;
ALMEIDA, 1982:101; NASCIMENTO, 1983:274; EMMI, 1987: 119; HÉBETTE,
1989:10-11), em detrimento dos camponeses ocupantes ou trabalhadores de áreas
supostamente inexploradas, como as da Amazônia. O incentivo é condicionado a projetos
de exploração dita racional e intensiva em capital. A racionalidade aqui expressa é aquela
que privilegia o aumento da produção física e da produtividade a curto prazo, sem a
consideração dos efeitos colaterais e de mais longo prazo como o desmatamento
(SOUSA, 1988: 82), o comprometimento da produção interna de alimentos (AGUIAR,
1986:76 e 84; ALVES, 1984: 72), a degradação do solo, a qualidade biológica dos
alimentos produzidos, a poluição dos mananciais e o desrespeito à vida humana. O
camponês tem uma lógica diferente. (GUERRA, 2001, p.19)

A omissão, ausência ou participação discriminante do Estado, favorecendo empresas de


natureza eminentemente capitalista, fazem parte da política de ocupação da Amazônia. A
lógica da produção camponesa, baseada no cultivo de arroz, milho, feijão, mandioca e
também no extrativismo, empregando mão de obra familiar, fragilmente articulada ao
mercado, é fundada no assalariamento e na produção em grande escala. Qualquer que seja
o futuro amazônico, entretanto, a ocupação destas áreas tem sido feita, de ordinário, com
uma marca muito forte de especulação e disputa feroz com os moradores da região
(KOTSHO, 1981; SILVA, 1982:144; ALMEIDA, 1985 e 1991:90; EMMI, 1988:134).
(GUERRA, 2001, p.19)