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A forma lógica.

Neste ponto do meu trabalho vou centrar-me nas regras básicas da


lógica proposicional e tentarei mostrar como é que a validade de alguns
argumentos dependem do uso que se faz dos operadores verofuncionais.
O que fazemos na formalização dos argumentos é apurar as condições
de verdade das proposições envolvidas num determinado argumento. Assim,
com auxílio dos operadores verofuncionais, testamos a verdade de cada uma
das proposições e, recorrendo às tabelas de verdade no cálculo proposicional,
podemos observar se a regra da validade ocorre, que a verdade das premissas
garanta a verdade da conclusão. Só o treino com os operadores verofuncionais
nos permite detectar intuitivamente a falsidade de uma premissa. Seguro estou,
neste ponto do meu trabalho, que um argumento pode ser composto por
premissas e conclusão falsas e, ainda assim, garantir a validade. Igualmente
seguro estou que, apesar dessa circunstância, a verdade das premissas
garante a verdade da conclusão. E, em primeiro lugar, é este tipo de
argumentos que pretendo apurar.

Em resumo, apresento uma tabela de verdade completa:

pΛq pVq pVq p→q p↔q

p q (exclusiva) (inclusiva)
V V V F V V V

V F F V V F F

F V F V V V F

F F F F F V V

A partir dos valores apresentados na tabela vamos poder determinar a


validade dos argumentos proposicionais clássicos. É conveniente salientar que
os valores da tabela não são em resultado da arbitrariedade racional, mas
antes da correspondência possível entre a coerência racional e lógica das
frases e os factos do mundo. A lógica não é um mero conjunto de símbolos que
nos permite brincar aos argumentos. Senão, vamos observar as condições de
verdade, a título de exemplo, da conjunção. Se estamos a juntar elementos
numa proposição, por exemplo, «Sócrates era grego e engenheiro», o valor de
verdade da proposição só ocorre quando, de facto, ambas as partes da
proposição são verdadeiras. Do mesmo modo, se pensarmos, «o Luís é do
Porto ou do Benfica» , mesmo que não saibamos o valor de verdade da
proposição, uma coisa temos como certo, a proposição só será falsa no caso
em que o Luís nem é do Porto, nem é do Benfica. Mas a disjunção ainda
oferece outra possibilidade. Se dissermos, «ou o Luís é do Porto, ou do
Benfica», usamos o «ou» com um significado diferente e estamos a admitir que
não pode acontecer que ambos os disjuntos sejam verdadeiros. Daí que
chamemos a esta disjunção de exclusiva, uma vez que uma das partes exclui a
verdade da outra que a compõe.
Não incluí na minha tabela o operador de negação. Ao passo que os
outros operadores são chamados de binários uma vez que se aplicam a duas
proposições ligadas, a negação (¬) é unária, aplicando-se somente a uma
proposição. Assim, se p é V, q será F e vice-versa.

Tabela de verdade da negação:

P Não P
V F
F V

O caso da condicional merece especial atenção porque suscita ainda um


debate em aberto. Não pretendo aqui explorar o debate, mas tão só chamar a
atenção para o problema. Na lógica, uma condicional só é considerada
literalmente falsa quando se parte de uma antecedente verdadeira para chegar
a uma conclusão falsa. Todos os outros casos são considerados verdadeiros.

4.1.Inspectores de circunstâncias

Conhecida a tabela de verdade, reunimos as informações necessárias para


operar com inspectores de circunstâncias. Chamam-se inspectores de
circunstâncias uma vez que nos permitem observar em que circunstâncias a
verdade das proposições ocorre, sendo que o pretendido é que os argumentos
tenham premissas verdadeiras e sejam válidos.
Vejamos alguns exemplos:[3]

Argumento:

O João é solteiro
O João não é solteiro
Logo, Icabod é rico

À partida este argumento é inválido uma vez que intuitivamente nos parece que
a conclusão não se segue das premissas, mas vejamos o que acontece
quando operamos com os inspectores de circunstâncias:

Dicionário:

P – O João é solteiro
Q – Icabod é rico

Formalização:
p ,¬p I= q

Inspector de circunstâncias:
p q p, ¬p I= q

VV V F V
VF V F F
FV F V V
FF F V F

O que nos diz o inspector de circunstâncias?


Primeiro diz que não há linhas nas quais as premissas sejam ambas
verdadeiras e a conclusão falsa, logo, o argumento é válido, uma vez que esta
é a única situação em que o argumento seria inválido. As circunstâncias são
mundos possíveis onde a verdade das proposições pode ocorrer. A inspecção
de circunstâncias deste argumento indica-nos que não existe um mundo
possível onde as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Usei este
argumento pois ele é bom para nos mostrar a surpresa do argumento, uma vez
que a conclusão parece nada ter a ver com as premissas, mas o teste da
validade lógica mostra-nos que existe uma relação de validade entre premissas
e conclusão, independentemente do conteúdo de verdade. A vantagem em
formalizarmos os argumentos, recorrendo a um dicionário, é precisamente esta
e é surpreendente ver o que se esconde por detrás da linguagem quando a ela
recorremos para expressar pensamentos.

Vamos a outro exemplo:

Argumento:

A vida tem de fazer sentido e faz porque Deus lhe confere esse sentido.
De outro modo que sentido faria a vida se não existisse Deus criador?
Sem ele nada disto faria algum sentido para nós.

Forma canónica:
Se Deus existe, a vida faz sentido.
A vida faz sentido.
Logo, Deus existe.

Dicionário:

p – Deus existe.
q – A vida faz sentido.

Formalização:

p→q
q
Logo, p.

Inspector de circunstâncias:

p q p → q, q I= p

VV V V V
VF F F V
FV V V F
FF V F F

Este argumento parece bom, mas a inspecção de circunstâncias provou


ser um mau argumento. Ele é inválido. O que se passa aqui é a falácia da
afirmação do consequente. Se afirmássemos, na segunda premissa, o
antecedente, o argumento seria válido, uma vez que a inspecção de
circunstâncias nos permitiria ver que não ocorre nenhuma circunstância em
que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Isto é o que há de
fascinante na lógica. Se na segunda premissa, em vez de afirmarmos «a vida
faz sentido», afirmássemos, «Deus existe», estaríamos perante um argumento
formalmente válido que se chama Modus Ponens. Mas este argumento possui
ainda outra particularidade. Apesar de formalmente válido, um «Bright[4]»
jamais o aceitaria. Quer dizer que o argumento é válido, sólido, mas não é
cogente uma vez que não convence um «bright» e está fora do estado
cognitivo de muitos sujeitos.
Uma outra verdade lógica que deixo em referência é a chamada negação do
consequente ou Modus Tollens, p → q, ¬q I= ¬p.
5. Em conclusão

Existem muitos outros aspectos que um professor de filosofia do ensino


secundário deve ter em conta na sua prática lectiva. Neste pequeno trabalho
pretendi dar-me conta dos aspectos básicos que podem erguer todo o edifício
da argumentação. Não me referi neste trabalho aos aspectos relacionados com
a argumentação informal, nem com as falácias do discurso argumentativo na
lógica informal. Seria motivo para outro trabalho de iguais dimensões. Com
efeito, até para a lógica informal, a lógica dedutiva é a base segura, uma vez
que o aluno só está em condições de compreender a lógica informal, depois de
ter compreendido as noções básicas da lógica formal. Gostaria de chamar a
atenção para um aspecto que me parece fundamental e que, ao longo do meu
trabalho, pretendi nunca abandonar. A lógica é a ferramenta para um
pensamento consequente. Não é em si um fim para o ensino da filosofia, mas
um meio para que o estudante compreenda o alcance da argumentação.
Sendo assim, não faz qualquer sentido ensinar a lógica e abandoná-la ao longo
das unidades que abordam a filosofia moral, da religião, da ciência ou da arte.
Esta base é precisamente a ferramenta que permite operar ao longo de todo o
programa de filosofia, quer do 10º ano, quer do 11º. Claro que, para conseguir
esse efeito, devemos reunir duas condições que me parecem necessárias,
ainda que não suficientes:

1ª Ter um bom manual com textos argumentativos.


2º Introduzir as noções básicas da lógica logo no início do 10º ano.

Feito este trabalho preliminar, creio que os estudantes estão em


condições de passar à discussão dos problemas que se colocam na filosofia,
nas suas mais variadas áreas. Não posso esquecer ainda uma outra condição
que me parece de grande importância. Pelo menos numa fase inicial, é melhor
que o professor recorra a exemplos correctos, mas intuitivamente simples. Usar
os exemplos que vêm nos melhores manuais não é um defeito, mas uma
virtude, pois é com a prática desses que, com o tempo, o professor começa a
sentir o prazer de ver o esqueleto da argumentação e, aí sim, inventar os seus
próprios exemplos.
Ficha 4 – Lógica proposicional: Revisões. Lição
7/8

1. O que estuda a Lógica?


A lógica estuda as condições de validade
dos raciocínios ou argumentos. Estuda as
regras universais de validade de
inferências formais e informais.

2. O que é uma variável proposicional e um


operador verofuncional?
Uma variável proposicional é uma letra
ou símbolo que é usada na Lógica
proposicional e representa uma
proposição qualquer. Por exemplo a letra
"P" pode substituir uma proposição
qualquer.
Um operador verofuncional é uma
expressão que liga duas proposições
simples e forma uma outra proposição
composta. O operador verofuncional
permite saber em que condições uma
proposição composta é verdadeira ou
falsa.. Dê exemplos.Caso ou fico solteira.
"Ou" é um operador verofuncional.

3. O que é uma tabela de verdade?


Uma tabela de verdade é um dispositivo gráfico que
permite exibir as condições de verdade de uma forma
proposicional dada.

4. a) Considere a conjunção” A Escola é boa e


a vida também” Se a Escola não for boa, a
conjunção é verdadeira ou falsa?
FALSA, PORQUE PARA UMA CONJUNÇÃO
SER VERDADEIRA TÊM QUE SER AMBAS
AS PROPOSIÇÕES CONJUNTAS
VERDADEIRAS.

B) Considere a condicional “Se estudar passo


de ano” Se considerarmos que o antecedente
é verdadeiro e o consequente falso a
condicional é verdadeira ou falsa?
FALSA, PORQUE UMA PROPOSIÇÃO
CONDICIONAL SÓ È FALSA QUANDO O
ANTECEDENTE É VERDADEIRO E O
CONSEQUENTE FALSO:

5. Identifique e depois formalize as seguintes


proposições:
a) “Se Platão era filósofo então não era
ignorante.” _CONDICIONAL. Forma
lógica:(P→~Q )
B) “Sempre que poupo água, sinto-me
bem” CONDICIONAL. (P→Q) )
c) “Não existem tigres em
Portugal” NEGAÇÃO. ~P
d) “Ou Deus existe ou a vida não faz
sentido” DISJUNÇÃO EXCLUSIVA. (PV~Q)
e) “O Homem é um animal racional e não é
um deus” CONJUNÇÃO. (PΛ~Q)
f) “Nem o João nem a Maria vão ao concerto
do Justin Bieber” CONJUNÇÃO. (~PΛ~Q)
g) "Só estudo Filosofia se e só se me derem
um blusão de cabedal” BICONDICIONAL.
(P⇄ Q)

6. Identifique as inferências ou argumentos


seguintes e teste a sua validade através de
um Inspetor de circunstância/tabela de
verdade.

1. Se chover então P Q P→ P ∴Q
molho-me. Q
V V V
Chove V V
Logo, molho-me F V F
MODUS PONENS V F
INFERÊNCIA V F V
VÁLIDA F V
Afirmação do V F F
antecedente F F
2. É falso que copiei P Q ~(PV ∴~PΛ
Q) ~Q
ou menti no teste.
Logo, não copiei e F F
não menti. V V
INFERÊNCIA F F
VÁLIDA - V F
APLICAÇÃO DAS F F
LEIS DE MORGAN F V
Na tabela de V V
verdade os valores F F
de verdade das
premissas

3. Se for ao concerto P Q P→ Q ∴P
entãofico sem Q
dinheiro.(conseque V V V
nte) V V
F F V
Fiquei sem dinheiro
V F
(Afirma-se o
V V F
consequente na 2ª
F V
premissa)
F V F F
Logo, fui ao concerto F
INFERÊNCIA
INVÁLIDA -
AFIRMAÇÃO DO
CONSEQUENTE

P Q PV ~P ∴Q
Q
4.No sábado ou fico a V F V
dormir ou estudo a V V
manha inteira. V F F
Não fiquei a dormir V F
V V V
Logo, estudei a F V
manhã inteira.
F V V
Silogismo
F F
disjuntivo Válido
5. Se perder o jogo P Q P→ ~Q ∴~
fico triste Q P
V F F
Não fiquei triste
V V
Logo, não perdi o F V F
jogo V F
INFERÊNCIA V F V
VÁLIDA - MODUS F V
TOLLENS
(Negação do
consequente)

V V V
F F
6. Se Aristóteles P Q P→ ~P ∴~
era grego então era Q Q
lógico V F F
Aristóteles não era V V
grego
F F V
V F
(Na segunda V V F
premissa nego o F V
antecedente ) V V V
Logo, não era lógico. F F
INFERÊNCIA
INVÁLIDA,
NEGAÇÂO DO
ANTECEDENTE