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Iniciativa 3D&T Alpha – A Biblioteca de Babel

Published 01/12/2009 RPG Leave a Comment


Tags:3d&t, jorge luís borges, literatura

Ficou decidido que o tema da vez na Iniciativa 3D&T


Alpha seria livros. A seguir apresento, então, a grandiosa
Biblioteca de Babel, inspirada no famoso conto do argentino
Jorge Luís Borges.

A Biblioteca de Babel
A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer
hexágono, cuja circunferência é inacessível.
– Jorge Luís Borges, A Biblioteca de Babel

O universo, que muitos chamam de Biblioteca, é composto por


um número indefinido – alguns dizem mesmo infinito – de
galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no
centro, cercados por varandas baixas. Cada uma delas é
preenchida por vinte estantes, em cinco longas prateleiras em
cada lado, cobrindo todas as paredes menos duas – nestas,
uma passagem leva a um saguão estreito, que eventualmente
termina na entrada da galeria seguinte. Em cada saguão, à
esquerda e à direita, há ainda dois pequenos sanitários, um
onde é possível dormir em pé, e outro para fazer as
necessidades físicas; além disso, neles também se encontram
as grandes escadas em espiral que descem e sobem em
direção ao infinito, levando aos outros andares da Biblioteca,
todos preenchidos pelas mesmas galerias hexagonais. O
número de andares, como o de galerias, é indefinido: muitas
lendas e histórias existem sobre o seu fim abrupto, onde uma
escadaria ou saguão terminaria em uma parede lisa; outros
apenas acreditam que a Biblioteca é infinita, ocupando sem
sobras todo o mundo existente.

Cada hexágono é iluminado por duas pequenas frutas


esféricas, chamadas lâmpadas. Na sua luz insuficiente e
incessante, é possível examinar os livros que preenchem as
prateleiras: cada uma das cinco prateleiras que ocupa cada
parede de cada hexágono é preenchida por trinta e dois livros
de formato uniforme, cada um deles com quatrocentas e dez
páginas, e cada página com quarenta linhas. Essas linhas, por
sua vez, são ocupadas por um alfabeto de vinte e cinco
símbolos ortográficos, incluindo o espaço e os sinais de
pontuação. Cada livro os dispõe de forma diferente, formando
obras diferentes – não existe, em toda a Biblioteca, dois livros
iguais; cada um é único na sua combinação, ainda que por
vezes possam diferir apenas em uma ou duas letras perdidas
em meio às suas centenas de páginas. Ao mesmo tempo, todo
livro que for possível de ser escrito, em qualquer língua que
possa ser articulada a partir do alfabeto da Biblioteca, pode
ser encontrado em alguma das suas galerias hexagonais.
Entre idiomas exóticos e há muito desaparecidos, existem
mesmo aqueles que não possuem qualquer significado, sendo
apenas um amontoado aleatório de letras e símbolos – um dos
livros, por exemplo, é composto apenas pelas letras M C V,
repetidas nesta ordem do início ao fim do volume; outro, por
um grande labirinto de de letras desconexas até a penúltima
página, quando subitamente dizem Ó tempo tuas pirâmides.
A Biblioteca também é habitada por uma população própria de
bibliotecários, que vivem e se organizam em meio aos livros.
Em média, há um homem ou mulher para cada três
hexágonos, muito embora o suicídio e as enfermidades
pulmonares tendam a diminuir essa proporção. Ninguém, no
entanto, conhece a origem da Biblioteca ou quem escreveu
todos os livros que nela se encontram, ainda que existam
aqueles, conhecidos como inquisidores, que precorrem dia e
noite as galerias em busca da resposta a esta pergunta.
Diversos outros grupos e seitas também são comuns entre
eles, seja para adorar o conteúdo enigmático de algum livro
misterioso, seja para cumprir outros objetivos diversos, desde
encontrar o mítico catálogo geral da Biblioteca, que possui a
localização e descrição de todos os livros que nela existem,
até destruir todos os livros cujo conteúdo seja ininteligível,
deixando intactos apenas aqueles que possuam algum
significado.
Aventuras na Biblioteca
Muitas razões podem levar um grupo de personagens a
procurar a Biblioteca. Ela contém todos os livros possíveis de
serem escritos – logo, certamente conterá aquele cujo
conhecimento eles precisem para salvar o reino, derrotar o
vilão ou apenas ganhar mais poder. De previsões do futuro a
grimórios de magia, tudo pode ser encontrado em alguma das
galerias hexagonais que a formam. Assim, tomando de
alguma forma conhecimento da sua existência – seja por
histórias de bardos, lendas entre bibliotecários comuns, ou
informações encontradas em outros livros -, será
perfeitamente natural que queiram ir atrás dela.
O primeiro grande desafio, então, será o de chegar até lá.
Como é de se imaginar dadas as suas proporções, a Biblioteca
não pode ser encontrada fisicamente em qualquer mundo –
ela própria é todo o mundo onde está localizada,
compreendendo um plano de existência à parte, uma espécie
de plano elemental dos livros. Uma aventura inteira poderia
envolver apenas a busca pelo feitiço de transporte planar que
os levará até lá, ou pelo portal mágico secreto no fim da
Masmorra da Morte (ou outra equivalente) que os transporte
para o hall de entrada.

Uma vez que tenham entrado, será a hora de ir atrás do livro


que contém o conhecimento que procuram. Outra tarefa
complicada: na infinidade de livros que compõem as galerias,
encontrar um único exemplar específico é praticamente
impossível! Não só a ordem geral de catálogo não pode ser
facilmente deduzida – até porque, em séculos de existência,
muitos volumes foram trocados de lugar -, como a grande
maioria dos livros será completamente ininteligível aos
personagens. Assim, qualquer tipo de pesquisa na Biblioteca
possui uma dificuldade acima de Difícil: requer pelo menos um
dia inteiro e um teste de H-6 para personagens que possuírem
uma perícia adequada (como Investigação, ou uma
especialização conveniente de Ciências), e H-10 para aqueles
que não a possuírem.

Uma pesquisa cuidadosa, no entanto, que gaste seus dias ou


semanas atrás do livro desejado, possui melhores chances de
ser bem sucedida. Uma aventura na Biblioteca, assim, na
maior parte das vezes se desenvolverá com os personagens
atrás de pistas que facilitem a busca pelo volume que
procuram, interrogando os bibliotecários, tentando decifrar
padrões de organização, buscando nas prateleiras os
catálogos que revelam o conteúdo de uma determinada área,
etc. O sucesso nestas missões secundárias, que podem
depender de roleplay e outras habilidades dos personagens,
renderá bônus diversos no teste final, tornando possível
encontrar o livro desejado.

E não pense, é claro, que as investigações serão monótonas!


Muitos perigos podem espreitar os personagens entre as
galerias da Biblioteca: seitas secretas, influenciadas por um
livro misterioso, podem tentar impedir o seu sucesso; volumes
abertos sem cuidado podem invocar criaturas demoníacas,
que os atacarão assim que se materializarem; e até mesmo,
quem sabe, o livro que procuram pode estar escondido em
uma galeria proibida, onde um grande dragão-traça montou o
seu covil.

Alternativamente, além de um novo elemento em jogos já em


andamento, a Biblioteca de Babel também pode ser a própria
ambientação de uma história inteira, como um cenário de
campanha individual. Os personagens, nesse caso, seriam
bibliotecários nativos dela, buscando desvendar os seus
segredos escondidos, e se envolvendo as intrigas e conflitos
entre as diversas seitas que a ocupam.