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Sob o signo de Capricórnio

(só um pedaço de muitos)

Uma das coisas que você mais comenta sobre mim, seja como característica marcante
ou como alvo de piadas regidas por Gêmeos, é sobre a extensão da minha memória em
comparação com a sua. Eu sempre lembro, sabe. Às vezes eu finjo que não, mas eu tô
sempre lembrado das coisas. Não só de momentos, mas de detalhes específicos. De
trejeitos, de traços de personalidade, de formas de encarar o mundo e das
sensibilidades de quem tá muito próximo de mim.
Dentro do que chamei uma vez de “temperamento artístico” pra você, é muito comum
que as pessoas se denominem como sensíveis, empáticas, principalmente quando as
situações exigem que elas se auto-afirmem e se lambuzem de sinceridade cruel e
honestidade perversa, que investiguem as próprias ideias com o intuito de desmembrar
as narrativas prontas e complexificarem as próprias existências. Eu acredito que a arma
última do artista em seu processo sacerdotal de criação seja o de expremer os limites
do próprio ser, chegar nos limiares das infinitas verdades que o compõem enquanto ser
que existe no tempo. A verdade absoluta é inalcançável, disso já sabemos. Tudo que
existe é um movimento no tempo. Um caminhar entre vários recortes, entre traços
legítimos de memórias que se conectam com as lágrimas do momento, sentimentos
passados que são também presentes, assim como não. Uma fé no mistério absoluto na
vida que abre uma porta pro desconhecido. O movimento que te faz caminhar até ela,
fatalmente inexplicável. Dentro desse inexplicável, as ligas e conexões entre todas as
partes. O poder de acessá-las e o poder de enxergá-las em sua condição inexplicável
de deformidades harmônicas.
Quando coloco em perspectiva que existem dois fatos nesse pequeno conto-baseado-
em-fatos-reais que estou criando aqui, acho que participo diretamente desse processo
de composição e de-composição das partes que fazem parte do conjunto indissociável
que nós nos tornamos, o que eu e você representamos pro mundo, um pro outro, cada
um pra si, pro nosso conjunto de novo. Eu me lembro e te faço lembrar. Eu me lembro
o que você esquece pelo movimento natural-forjado-intuitivo de se esquecer. Eu me
lembro, você se esquece. Eu lembro por nós dois. Eu te lembro quem você é, eu te
lembro da sua esperteza natural em fazer as piadas mais sarcásticamente bem
preparadas do mundo. Esperteza que se extende a tantas outras áreas da sua vida. A
essa capacidade praticamente divinatória de olhar e entender. De passar alguns
minutos assistindo um flme esperado por quase dois dias inteiros do John Woo e
constatar que estamos diante de uma obra “capenga” pra caramba. De entender a
própria natureza em partes tão claramente separadas, tão dissociadas e tão
harmonicamente estonteantes. Em lidar com a bruma-dantes diva de twitter e letterboxd,
em ser mãe, filha, amiga, namorada, amante.
E quando eu vi-vejo o que você é, quem você é, porque eu admiro tanto todas essas
qualidades e peças escultóricas, esses pequenos milagres de traços de humanidade
que existem em você com tanta intensidade, eu me lembro de quem eu sou. O processo
de criar arte, de pensar nas grandes questões da vida, de criar narrativas e de
contemplar a vida com os olhos de um músico é o meu processo de amar você todos
os dias, que aceita, se adapta, coloca seus pedaços dentro de mim e se renova. Que
tem uma Bruna dentro de mim, que colocou um Gustavo dentro de você. Duas peças
que se encaixaram tão perfeitamente que sempre pareceram estar lá. E por ter esse
pedaço de mim dentro de você, esse pedaço que fala “então” no começo de cada frase
e que usa o charminho mais sedutor da face da terra pra conseguir biscoitinhos na boca
na hora que bem entender, eu pareço estar aprendendo cada dia mais a sensação de
esquecer. No seu movimento de existir, no seu caminhar, nas suas pulsões individuais
e nas suas necessidades espirituais tão nobres, na necessidade de sobrevivência, na
necessidade da continua esperança na caminhada contínua em direção a uma vida
melhor, mais pulsante, mais esperançosa, eu também aprendi a esquecer, como você.
Mas tudo que eu sou capaz de fazer é armazenar esses dados na minha memória,
esses recortes sobre o significado do esquecimento, da retirada das roupas pesadas,
das âncoras que nos firmam no chão e que apesar de fazerem parte tão inerentemente
das nossas existências, das nossas construções de identidade mesmo, precisam ser...
esquecidas. Tudo pela esperança de um amanhã melhor e de um dia mais quente de
verão.
Eu percebi que só poderia explicar isso num tom de quem se explica por uma sentença
dita anteriormente, de quem precisa adicionar mais um nível de profundidade e
compreensão das coisas pra ter esperanças de que isso seja em algum nível próximo a
um retrato. De quem possa tratar desses fragmentos da nossa relação (que na minha
mente brilham no conjunto mais luminoso do mundo) com o cuidado e atenção que eles
merecem. Quando eu digo que eu aprendi a me esquecer, eu acho que quero tratar aqui
de uma relação de troca das partes, de pedaços encaixados, de uma parte de cada um
de nós que se adapta ao outro. Eu não aprendi a me esquecer, eu continuo (e vou
continuar) me lembrando, mas eu aprendi porque uma pessoa precisa se esquecer. Eu
aprendi porque a pessoa que eu mais amo no mundo precisa se esquecer. Porque ela
gosta de se esquecer. Porque ela só preserva as partes que sua mente vai preservar.
Porque ela precisa fabricar boas memórias. E às vezes ela (você) sabe, mas não se
lembra, porque se esqueceu. Se esqueceu do que deve ser feito, se esqueceu do astro
sob a qual nasceu, se esqueceu momentâneamente, por toda a dor e agressividade que
só a perversidade infantil da vida são capazes de produzir, que esses fragmentos são
pedaços. Que o que é dito numa noite, num ano ou na parte de uma vida NUNCA será
capaz de guardar a verdade inteira. E eu, na condição de servo incondicional, sigo em
frente. Segui no dia em que você não pensava ser capaz de me amar. Continuei te
amando. Te lembrando. Te mostrando o lado bom das memórias, construindo novas
memórias, resignificando memórias. Um moldador de histórias, o seu moldador de
histórias. O seu construtor pessoal de narrativas. E nesse papel de de ajudar a catar os
pedaços do seu coração, de colocá-los juntos, de servir como um cobertor quente e um
cafuné na cabeça no fim do dia que só o desejo mais profundo do seu coração pode
produzir, eu surgi (surjo) pra você pra te dizer que todos os fragmentos contam suas
próprias histórias, mas toda a verdade só existe no nosso andar constante. Na sua mão
segurando a minha, nos nossos passos a diante. Nas nossas existências entrelaçadas
como uma, andando pra frente, seguindo em frente, pra frente. Às vezes olhando pra
trás. Te amando, pra sempre.

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