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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE RORAIMA (UERR)

CAMPUS DE ALTO ALEGRE


CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA

ELIANE MAGALHÃES DOS REIS MONTEIRO

AS RELAÇÕES ENTRE AS POVOAÇÕES DO DIRETÓRIO NA CAPITANIA DO


RIO NEGRO (1751 A 1798)

ALTO ALEGRE - RR
2017
ELIANE MAGALHÃES DOS REIS MONTEIRO

AS RELAÇÕES ENTRE AS POVOAÇÕES DO DIRETÓRIO NA CAPITANIA DO


RIO NEGRO (1751 A 1798)

Monografia apresentada ao departamento de História


como pré-requisito para conclusão do curso de
licenciatura em História de Universidade Estadual de
Roraima.

Orientador: Prof°. Dr. André Augusto da Fonseca

ALTO ALEGRE – RR
2017
ELIANE MAGALHÃES DOS REIS MONTEIRO

AS RELAÇÕES ENTRE AS POVOAÇÕES DO DIRETÓRIO NA CAPITANIA DO


RIO NEGRO (1751 A 1798)

Monografia apresentada como requisito para a obtenção do título em Licenciatura


em História pela Universidade Estadual de Roraima-UERR, defendida em 26 de
Junho de 2017 e avaliada pela seguinte banca examinadora.

Banca Examinadora

_________________________________________________

Profº. Drº. André Augusto da Fonseca


Departamento de Ensino – (UERR)
Orientador

_________________________________________________
Profª. Drª. Ananda Machado
Departamento de Ensino – (UFRR)
Membro

_________________________________________________
Profª. Drª. Monalisa Pavonne Oliveira
Departamento de Ensino – (UFRR)
Membro

Conceito____________________________________________________________

Alto Alegre-RR, ____ de________ de 2017


Dedico este trabalho primeiramente a Deus por ter me
proporcionado concluir com êxito esta monografia. Ao meu
marido João Batista Freitas Monteiro (em memória), a meus
pais José Martins dos Reis e Célia Maria Magalhães dos Reis.
AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Deus, pois sem a força divina tenho a certeza de que não
teria conseguido concluir este trabalho com êxito.
A minha família, em especial aos meus pais José Martins dos Reis e Célia
Maria Magalhães dos Reis e a todos meus irmãos que sempre estiveram ao meu
lado carinhosamente me motivando a atingir meus objetivos.
Aos meus filhos Jóshuah e Suely, pelos momentos que não pude estar
presente. Deixo aqui minhas humildes desculpas, mamãe amar muito vocês.
Agradeço a fundamental contribuição dos professores, em especial Amarildo
Batista, Antonio Klinger, Joelma Carvalho, Jessica Carla, José Domingos, Giseli
Deprá, Lucas Avelar, Raimunda Gomes que durante essa minha caminhada muito
me ajudaram na construção do conhecimento e para conclusão desta pesquisa, meu
muito obrigado.
A minha amiga Maria Ferreira Chaves, por se fazer presente diante desse
processo de conhecimento, meu muito obrigado.
A minha turma de história que sempre me incentivou, em especial as
pessoas, Luzia Ferreira Chaves, Mirian Ferreira Chaves e Silvestre Aguiar dos
Santos, amigos com quem sempre pude contar e que se mostraram mais que
amigos uma família. Meu muitíssimo obrigado.
A Joseane Vieira Barbosa, Jocélia Lauriano, Creane da Silva, Vanderleia
Silva e a meu companheiro José Aldino por sua ilimitada precisão sempre nos
momentos mais necessários.
Ao meu orientador Prof°. Dr°.André Augusto da Fonseca, pela contribuição
para meu amadurecimento, por sua paciência, dedicação e pelas riquíssimas
orientações, sabendo conduzir na medida certa os passos deste trabalho, sendo jus
ao merecimento, mas exigente e rígido quando necessário. A você meus sinceros
agradecimentos.
RESUMO

Esta pesquisa trata sobre as Relações entre as Povoações do Diretório na Capitania do Rio Negro
em 1751 a 1798, na região da Amazônia. Procurou-se entender como eram as estratégias adotadas
pelos colonizadores para ocupar e colonizar as extensas áreas amazônicas. Assim sendo analisou as
mudanças que ocorreram durante o período de organização da Capitania do Rio Negro, e os conflitos
existentes entre os povos indígenas nestas vastas áreas amazônicas e os colonos que viviam nesta
região. O trabalho buscou analisar como foram estabelecidas as povoações e como era a vida do
índio nas vilas e povoados como também a exploração que foi implementada pela Coroa Portuguesa.
Para-tanto as povoações existentes na Amazônia foram transformadas em súditos do governo
português que elaborou diversas medidas para os povos indígenas. Desta maneira percebe-se que a
Coroa Portuguesa utilizou de vários artifícios para estabelecer seu poder sobre aqueles que a muito
tempo habitava essa parte do Brasil Colônia. Portanto nesse processo de ocupação e colonização
organizado pelo colonizador no século XVIII, muitos conflitos ocorreram, pois os índios não aceitavam
de bom grado as relações que existiam entre eles e os conquistadores.

Palavras-chave: Capitania do Rio Negro; Amazônia; Povoações; Relações.


Abstract

This research deals with the Relations between the Populations of the Directory in the Captaincy of
the Rio Negro in 1751 to 1798, in the region of the Amazon. It was tried to understand how was the
strategies adopted by colonizers to occupy and colonize the extensive Amazonian areas. Thus it
analyzed the changes that occurred during the period of organization of the Captaincy of the Rio
Negro, and the conflicts existing between the indigenous peoples in these vast Amazonian areas and
the settlers that lived in this region. The work sought to analyze how the settlements were established
and how the Indian life was in the villages and towns as well as the exploration that was implemented
by the Portuguese Crown. In order to do so, the existing settlements in the Amazon were transformed
into subjects of the Portuguese government that elaborated several measures for the indigenous
peoples. In this way it is perceived that the Portuguese Crown used several devices to establish its
power over those who long lived that part of Brazil Colony. Therefore, in this process of occupation
and colonization organized by the colonizer in the eighteenth century, many conflicts occurred
because the Indians did not willingly accept the relations that existed between them and the
conquerors.

Keywords: Black River Captaincy; Amazonian; Populations; Relations.


LISTA DE MAPAS

MAPA 1: Roteiro da viagem de Correição do Ouvidor Francisco X. de Ribeiro


Sampaio (1777) pelas vilas e lugares da Capitania do Rio Negro:
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 10

CAPITULO I O CONTEXTO DO OBJETO PESQUISADO....................................... 13


1.1. O Processo de Ocupação da Amazônia ............................................................ 13
1.2. Etno-História, Política Indígena e Política Indigenista ........................................ 18
1.3. A Coroa, a Igreja, o Índio e o Colonizador .......................................................... 22

CAPITULO II A LEI, E A ESTRUTURA COLONIAL ............................................... 26


2.1. O Regimento Das Missões .................................................................................. 26
2.2. A Política Pombalina e a Organização dos Índios Sob o Diretório ...................... 30
2.4. A Criação de uma Capitania Indígena ................................................................ 35

CAPITULO III AS RELAÇÕES ENTRE AS POVOAÇÕES NA CAPITANIA DO RIO


NEGRO NO PERÍODO ESTUDADO ....................................................................... 40
3.1. Trocas ................................................................................................................ 40
3.2. Alianças - Descimentos ...................................................................................... 46
3.3. Rivalidades e Rebeliões..................................................................................... 50

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 56

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 59
10

INTRODUÇÃO

O presente trabalho propõe investigar as interações sociais, políticas e


econômicas entre as povoações na Capitania do Rio Negro a partir do início das
Reformas Pombalinas (1750) até o final da vigência do Diretório 1 (1798). Essas
interações foram significativamente afetadas pela política de colonização implantada
na Amazônia pelo ministro Sebastião José de Carvalho e Melo2.
No decorrer do trabalho, procurou-se atingir alguns objetivos: como
compreender as formas de relações e vivências entre os diferentes grupos indígenas
da Capitania do Rio Negro e os não-índios, no período que corresponde a segunda
metade do século XVIII; analisar o processo de ocupação da Amazônia, assim
como a atuação da Coroa Portuguesa, da igreja e do colonizador diante do projeto
de aldeamento, além das leis e das estruturas coloniais que veio transformar os
traços residuais da língua e da cultura dos grupos nativos, frente a política
organizada do governo português para Amazônia.
Para tanto o corpo documental que dá base a esse trabalho é
extremamente variado. Assim sendo esta pesquisa utilizou-se das fontes primárias
contendo relatos de viajantes, que percorreram a região no período como: cartas,
correspondências oficiais e legislação, utilizados para evidenciar os povos indígenas,
pois os mesmos é o elemento importante no contexto da ocupação da região
Amazônica. Além de teses e artigos produzidos por professores e doutores, tanto no
campo da História como em geografia que possuem a Amazônia como seu objeto de
estudo.
Entre os relatos de viagem que serão utilizados como fontes nesta pesquisa, o do
Padre João Daniel, autor da obra “O tesouro Descoberto no Máximo rio Amazonas”,
escrito durante sua prisão por ordem do Marquês de Pombal, que ocorreu no Forte
de Almeida entre os anos de 1758 a 1762 e na torre de São Julião, onde cumpriu
quatorze anos, é uma fonte riquíssima de informações sobre a Amazônia no período
colonial. Cronista da Companhia de Jesus viveu por muito tempo no Amazonas, fato

1 O Diretório constitui em uma política global que se aplica ao conjunto da colônia portuguesa na
América, que projetava regular a liberdade concedida aos índios.
2 Ministro da coroa portuguesa, sob o comando do Rei D. José I.
11

esse que o ajudou a sistematizar os elementos estruturais as características


econômicas, culturais, ambientais e jurídicos políticos dos povos nativos da
Amazônia colonial.
Outra rica fonte de época é a do Ouvidor Geral Intendente do Rio Negro
Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1777) que vem descrever os lugares, os
costumes e múltiplas etnias agregadas em cada povoações da Capitania do Rio
Negro, assim como o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, empregado na
expedição filosófica do Estado (1784) por ordem de Sua Majestade; de informar tudo
sobre sua expedição no Amazonas. Dentre outras fontes que serão utilizadas no
decorrer do desenvolvimento do trabalho.
Assim, esta pesquisa procura analisar as relações existentes entre os povos
indígenas na Amazônia a partir da metade do século XVIII. O interesse pela
pesquisa surgiu diante da disciplina História da Amazônia, que retrata bem sobre a
história de vida do indígena no período colonial. Portanto surgiu a necessidade de
fazer uma análise sobre as relações das povoações indígena na Amazônia. Contudo
durante o processo de investigação surgiram aspectos relevantes para melhor
compreensão do contexto em que ocorreram as relações tanto entre os próprios
povos que há muito tempo habitavam estas regiões como também com os
colonizadores. No contexto de ocupação da Amazônia vários aspectos são
importantes para entender como ocorreram as diversas ações dos portugueses com
relação aos povos indígenas desta região.
A pesquisa está dividida em três capítulos, o primeiro analisa o processo de
ocupação da Amazônia desde a chegada dos portugueses e a organização das
entradas para a captura de indígenas nas áreas amazônicas. A investigação faz
também uma análise sobre o processo de exploração do indígena, para melhor
compreender como se estabeleceu as relações existentes no processo de ocupação
da Amazônia. Para tanto, foi preciso contextualizar como ocorreu toda a organização
desta parte do Brasil Colônia pela a Coroa Portuguesa.
O segundo capítulo faz uma analise sobre as leis indigenistas e sua
organização, como o Regimento das Missões que foi criado para regulamentar o
trabalho e a vida das povoações indígenas na Amazônia. Para tanto, foi abordado
os aspectos tanto sociais quanto políticos diante das políticas voltadas para os
povos indígenas e a ocupação desta parte do extremo norte do Brasil Colônia.
Assim o estudo mostra que a história desse povo que muita violência sofreu por
12

conta da ocupação é verificada para que melhor se entenda como se estruturou o


poder do governo português nesta região.
O terceiro capítulo trata diretamente das relações entre as povoações na
Capitania do Rio Negro no Período estudado. Mostrando como o sistema de
alianças fundado na guerra e no comércio entre as povoações indígenas e o
colonizador se desenvolveram frete os jogos políticos implantados por Pombal, que
veio incentivar a prática econômica voltada ao incentivo à lavoura, as manufaturas, o
comércio interno e externo.
13

CAPITULO I O CONTEXTO DO OBJETO PESQUISADO

1.1 O Processo de Ocupação da Amazônia

A partir do século XVI, a Amazônia, região ocupada por diversos grupos


indígenas pertencentes aos grupos Aruak, Karib, Tupi, Jê, Katukina, Pano, Tukana,
Xiriana e Tukuna, passou a ser conhecida pelos europeus. Esse conhecimento está
documentado nos inúmeros relatos dos viajantes espanhóis como, Diego de Lepe
(1500), Alonso Mercadillo e Diego Nunes (1638), Gonzalo Pizarro (1541), Francisco
de Orellana (1541–1542), Pedro de Ursúa (1560-1561) e Lope de Aguirre, do
mesmo ano, do português João Coelho (1502-1503) e Diego Ribeiro (1513). Os
objetivos dessas viagens estavam vinculados à conquista do El Dorado e do País da
Canela (CHAMBOULEYRON, 2006, p. 12).
Segundo Chambouleyron (2006) a primeira navegação completa do Rio
Amazonas desde Andes foi efetuada pelo espanhol Francisco de Orellana. Contudo
foi com a expedição de Pedro Teixeira, entre 1637 e 1639, que o rio Amazonas e
seus afluentes passaram a ser mais conhecidos pelos portugueses (VIEIRA, 2012).
Dentro do processo de expansão, vários atores atuaram reconfigurando o
espaço local e as relações preexistentes, tais como franceses, ingleses, portugueses
e holandeses; espalhando casas fortes, feitorias comerciais e missões na região, em
busca das drogas do sertão3 e de capturar populações indígenas para o trabalho
escravo (CHAMBOULEYRON, 2007, p. 68).
Em 1616, foi fundado o Forte do Presépio, princípio da cidade de Belém,
dando início ao núcleo urbano. E em 1621 é criado o Estado do Maranhão e Grão-
Pará, separado do Brasil, com sede em São Luís e subordinado a Lisboa. Por ser
uma unidade separada, sofria dificuldades de comunicação e de transporte marítimo
com a sede do Governo Geral do Brasil, configurando uma profunda diferença entre

3 As “drogas do sertão” eram produtos nativos do Brasil, que não existiam na Europa, como o cacau,
o cravo, óleo de copaíba, a baunilha, a pimenta, as ervas e etc. Produtos esses que atraíam o
interesse dos Europeus que as consideravam como novas especiarias (FARAGE, 1991).
14

as duas regiões, no âmbito político-econômico. No Maranhão prevaleceu a cultura


do algodão e no Pará o extrativismo. (FARAGE, 1991, p. 23-24).
Bellotto (1982) pontua que a criação do Estado do Maranhão e Pará em 1621,
representava a “tentativa da integração e povoamento efetivo do espaço
amazônico”, proporcionando assim uma efetiva evolução econômica para as
capitanias constituintes, fato esse que se deu através do plantio do “açúcar, algodão
e fumo”, além do crescimento da exploração das drogas do sertão “(urucum, cravo,
copaíba, canela) e pesca”.
Deste modo, Hoornaert (1992, p. 50-52) descreve que embora já houvesse
diversas expedições na Amazônia ao final do século XVI, nenhuma potência
europeia controlou essa região até o início do século XVII. Havia porém, uma grande
disputa pela região que envolvia franceses, ingleses, portugueses e holandeses, que
efetuavam efetivas trocas comerciais e alianças com os povos nativos.
Chambouleyron (2006) realça que os irlandeses também faziam parte desse
comércio que veio alcançar grandes proporções.
Nesse processo de disputas territoriais entre as potências, os portugueses
conseguiram expulsar os invasores e estabelecer a conquista da Amazônia. A Coroa
incentivou a formação de aldeamentos4, este processo foi realizado com ajuda dos
missionários e esses escravizaram indígenas para atender os interesses da politica
portuguesa para com a região e consequentemente a dos lavradores brancos que
vieram compor o espaço Amazônico (HOORNAERT, 1992, p. 49).
Com base na escravidão das populações nativas, Luís Felipe de Alencastro
(2000) ao descrever a história do Brasil no período colonial, relata que tendo em
vista os contrastes entre o comércio de africanos e o apresamento de índios na
América Portuguesa. Os índios eram obtidos por meio de três formas: os resgates,
as guerras justas e os descimentos5. Em contrate na África, eram cativados em

4 “Aldeamento” consiste na fixação de população indígena, sob um conjunto de regras alheias


dirigidas por missionários ou autoridades leigas (FARRAGE, 1991).
5 Os “resgates” nome dado às expedições concedidas por ordem real consistiam na compra de

índios que já estivessem cativos de outros índios, isto é, legalmente somente os indígenas presos
nas guerras intertribais e amarados “à corda” para serem sacrificados ritualmente, podiam ser objeto
de resgate pelos moradores e em retribuição, o índio poderia ser escravizado por um período ou por
toda vida. Desse modo muitas guerras intertribais foram incentivadas para a obtenção de escravos.
Além do mais, o resgate “implica também na compra dos escravos legítimos dos índios” [...] obtidos
pelos índios por meios reputados em particular pela guerra justa; as “guerras justas”, com raízes nos
tempos medievais, tinham como principal objetivo a escravização dos índios que se recusassem à
propagação da fé e atentassem contra os vassalos do rei, justificando-se assim a guerra contra eles.
Já a modalidade de “descimentos” consistia no deslocamento forçado ou voluntário dos índios para
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guerras, nas feiras sertanejas e pelas comunidades nativas envolvidas no comércio


pré-colonial.
Alencastro pontua que o tráfico de africanos desenvolvido internamente
contribuiu para o desenvolvimento do comércio de escravos, principalmente com o
intercâmbio entre os Reinos africanos e os expedicionários portugueses. Pois chefes
africanos, percebendo o excedente econômico fundado no escravismo, voltaram-se
para a captura de escravos para a venda aos comerciantes e traficantes
estrangeiros. Contudo, essa prática não se prestava somente ao comércio de
pessoas como observa Alencastro:

[...] O trato negreiro não se reduz ao comércio de negros. De consequências


decisivas, na formação histórica brasileira, o tráfico extrapola o registro das
operações de compra, transporte e venda de africanos para moldar o
conjunto da economia, da demografia, da sociedade e da política da
América portuguesa (2000, p. 29).

Alencastro (2000, p. 30-33) referencia que o tráfico de africanos constitui um


segmento de rede, surgindo como o vetor produtivo da agricultura das ilhas
atlânticas, apresentando-se como fonte de receita para o tesouro régio e
consolidando a produção ultramarina. Esse fato, ao lado de elementos estruturais
como as fugas em massa, as revoltas e as doenças provocadas por esse novo
“exército” patogênico formado por europeus e africanos, limitou a escravidão
indígena e incentivou o incremento da escravidão negra, que desenvolveu uma
economia focada nas rotas comerciais do tráfico negreiro (2000, p. 37-38).
Maestri (1993, p. 50-53) e Ferreira (2006) discorrem que a substituição do
índio pelo africano ainda é um assunto pouco estudado, mas que são várias as
causas que determinam essa substituição: como a difusão de explicações
preconceituosas, o rápido decréscimo das populações étnicas, o fato dos negros
terem maiores dificuldades de fugir e de se rebelar por se encontrar longe do seu
lugar de origem.
Nessa mesma direção, Farage (1991) e Porro (1992) pontuam que as guerras
justas e as tropas de resgate (que se conjugam e remetem às modalidades
genéricas de escravidão) se tornaram um tipo de comércio bastante rentável para os

as proximidades dos enclaves europeus. Essa prática é tida na legislação régia como a menos
violenta. Contudo, os descimentos acabaram por provocar uma mortalidade mais extensa que os
resgates e os cativeiros (ALENCASTRO, 2000, p. 119-120; FARAGE, 1991, p. 27-29; SAMPAIO,
1850 [1777], p. 208).
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expedicionários, principalmente após a conquista da Amazônia. Haja vista, que os


sistemas de relações interétnicas, vieram favorecer o sistema de alianças, o
escambo de comércio e o contato com outros grupos indígenas, consolidado assim
a principal fonte de captação de escravos pelos europeus.
Dreyfus (1993, p. 22-36) ressalta que os séculos XVII e XVIII foram um
período em que se “instala, funciona e desaparece um sistema complexo de
alianças, fundado na guerra e no comércio entre os diferentes grupos indígenas e de
cada uma das potências europeias”. Sistema de relações que envolvia os jogos
políticos coloniais das regiões do Orinoco, Essequibo, Branco, Negro e Amazonas,
sobretudo na segunda metade do século XVIII.
As flutuações das alianças e a imprecisão dos contornos das redes
comerciais com base na distribuição de utensílios modificaram drasticamente as
milenares redes entre os nativos. As políticas portuguesa e espanhola apoiavam-se
na construção de núcleos missionários e fortificações militares, vilas e povoados que
se serviam da mão de obra dos índios aldeados, enquanto os holandeses,
aproveitando as fragmentações interétnicas das relações indígenas, faziam da troca
de mercadorias como utensílios de ferro, armas e munição sua estratégia de
dominação (DREYFUS, 1993 p. 22-36).
Esses sistemas de alianças e trocas eram muito antigos, e logo os europeus
perceberam as vantagens de se inserirem neles. Como afirma Porro (1992):

Os primeiros cronistas deixaram clara a existência de alianças e rivalidades


tradicionais entre grupos da várzea e entre esses e os da terra-firme [...] são
unânimes quanto à existência de uma rede de caminhos, mais do que
simples trilhas, que saíam das aldeias ribeirinhas para o interior e serviam
ao comércio intertribal [...] Os rios permitiam vencer grandes distâncias com
regularidade; os Manaos do médio rio Negro faziam expedições anuais ao
Solimões passando em canoa do Urubaxi ao Japurá na época das
enchentes [...] Da mesma forma, diversas tribos do rio Branco, do Negro e
do médio e alto Amazonas relacionavam-se, no século XVII, através de
circuitos comerciais em cuja extremidade os holandeses da Guiana
introduziram armas e ferramentas e recebiam escravos capturados para o
trabalho nas plantações (p. 35-36).

Vê-se, portanto que por mais expressivo que fosse o cuidado dos impérios
português e espanhol sobre o espaço territorial amazônico ancorado pelo tratado de
Tordesilhas, assinado em 1494, a facilidade de acesso de outras potências
europeias à região deixou patente quão frágil era o domínio ibérico sobre a
Amazônia. Os europeus dos séculos XVII e XVIII se lançam na região, levando
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assim a inúmeras disputas sobre os recursos naturais, o controle da região e dos


povos indígenas pertencentes a ela (FARAGE, 1991, p. 81).
Com a descoberta das novas terras pelas duas nações marítimas, Portugal e
Espanha, houve a necessidade de se estabelecer uma divisão territorial, onde o
tratado de Tordesilhas (1494) veio a remeter esse limite, que permaneceu válido até
1750. O desinteresse no esforço de ocupá-la e o abandono por parte dos espanhóis
veio dar espaço para que houvesse diversas invasões na região, apesar do direito
garantido pelo tratado de Tordesilhas.
Determinado por uma linha imaginária localizada a 370 léguas a oeste da ilha
de Cabo Verde, o tratado de Tordesilhas assinado em 1494, que se constituiu no
primeiro marco de divisão territorial do espaço amazônico, pelo Império de Portugal
e Espanha, visava delimitar os domínios coloniais pertencentes às Coroas na
América (ROCHA, 2009, p. 18).
Segundo Rocha (2009), de acordo com o meridiano, a Amazônia caberia a
Castela. Contudo com o fim da união ibérica (1580-1640) as autoridades do Estado
Colonial português do Maranhão e Grão-Pará, que já controlavam a foz do rio mar,
reivindicaram a posse do Alto Amazonas, que, em 1639, Pedro Teixeira tinha
conquistado pela e para a Coroa de Portugal.
Assim, ultrapassaram os limites do Tratado de Tordesilhas levando, em
meados do século XVIII à redefinição das fronteiras, cujas medidas foram tomadas e
motivadas por fatores econômicos, geoestratégicos e geopolíticos (ROCHA, 2009, p.
2-3).
E é nesse momento da história que a população nativa do rio Branco, passa
pela ação colonizadora sob a direção laica regida pela nova legislação, o “Diretório
dos Índios” e pela delimitação das fronteiras seladas pelo tratado de Madri (1750).
Pois até 1750 os portugueses no rio Branco só faziam expedições para apresar os
índios (guerras justas e resgates) para usufruir de sua mão de obra, conduzi-los às
povoações do rio Negro e aos postos comerciais (SAMPAIO, 1850 [1777], p. 207).
Conforme afirma Oliveira (2003), o Rio Branco no primeiro momento
despertava o interesse pelo “incalculável número de índios, que supria de escravos
o mercado colonial português”. Contudo ao perceber a presença dos espanhóis e
holandeses, depois de 1750 a Coroa portuguesa estabelece o projeto de ocupação
voltado para fortificação e aldeamentos.
18

A redefinição da fronteira, desencadeada a partir da manutenção dos


domínios adquiridos pelo Tratado de Madrid, (1750) e a chegada ao poder do
Marquês de Pombal (1751), traz um novo curso para Amazônia, modelado por cinco
peças legislativas6 que vem gerar um padrão do domínio lusitano até então jamais
visto na Amazônia (SAMPAIO e SANTOS, 2008 p. 80).
Na seção seguinte, procuraremos compreender a dimensão cultural e
antropológica em que se deu a penetração dos colonizadores europeus na América.

1.2 Etno-História7, Política Indígena e Política Indigenista

A conquista da Amazônia colonial pelas potências europeias trouxe muitas


mudanças à vida das sociedades indígenas da região. Pois a exploração intensiva,
aliada a uma total desconsideração e ignorância da realidade regional, contribuiu
para “a perda socialmente do domínio instrumental e normativo da cultura aborígine,
substituindo-a por elementos de uma ou várias tradições culturais, que se misturam
aos traços residuais da língua e da cultura originais” (MOREIRA NETO, 1992, p. 79).
Porro (1992, p. 19), diferentemente de Moreira Neto (1988) afirma que a
história da população indígena no período pré-colonial veio sofrer uma drástica
transformação, com a política da Coroa portuguesa na consolidação do poder no
que diz respeito ao cultural e social dos grupos nativos.
Dadas essas mudanças, a política indigenista e a política indígena8 se
tornaram, respectivamente, instrumentos para não-índios e índios regularem,
limitarem ou controlarem essas relações sociais. Nesse sentido, Manuela Carneiro
da Cunha ressalta que, durante o primeiro meio século de colonização, a política
6
1. A Carta-régia, de 3 de março de 1755, que criou a Capitania de São José do Rio Negro; 2. o
Alvará de Lei, de 4 de abril de 1755, que “declara os vassalos do Reino da América que se casarem
com índias não ficarão com a infâmia alguma, antes serão preferidos nas terras em que se
estabelecerem, etc.”; 3. a Lei, de 6 de junho de 1755, que “restituiu aos índios do Grão-Pará e
Maranhão a liberdade de suas pessoas, bens e comércio na forma que nela se declara”; 4. a
Instituição da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, de 6 de junho de 1755; 5. o
Alvará com força de Lei, de 7 de junho de 1755, “cassando a jurisdição temporal dos Regulares sobre
os índios do Grão-Pará e Maranhão”.
7 Vem compreender, as representações culturais e as relações de valores que os povos indígenas

fazem acerca de sua história e da temporalidade (CUNHA, 1992).


8 A distinção entre política indígena e política indigenista a destina-se a deixar clara a diferença entre

as políticas de Estado (implementadas pelos não-índios) e as estratégias dos sujeitos indígenas, que
são sujeitos históricos ativos, mesmo nos piores momentos da História da América desde 1492
(CUNHA 1992, p. 14-18).
19

indigenista se estabeleceu por meio de troca, sobretudo de parceria com os


europeus, em reciprocidade de interesses com a política indígena. A partir da
chegada do primeiro governo geral do Brasil Tomé de Souza (1549) essas relações
passaram a se alterar. No Estado do Grão-Pará e Maranhão, os crescentes conflitos
entre brancos e índios conduziram à elaboração do Regimento das Missões (1686),
impregnado com as ideias de Antônio Vieira sobre a proibição do cativeiro indígena
e incentivo da escravidão africana, além da defesa do monopólio jesuítico sobre os
descimentos. Esse documento será analisado mais adiante. O Regimento, como
norma sancionada pela coroa portuguesa, era um instrumento da política
indigenista, mas certamente resultou em parte das pressões indígenas também.
Com a consolidação do Regimento das Missões, as ordens religiosas
defensoras das liberdades e direitos indígenas assumem um caráter empresarial, e
a Companhia de Jesus9 irá prosperar como a mais prestigiosa instituição em
operação na Amazônia (MOREIRA, 1992, p. 86). Usando se desse poder, passa a
interferir na execução da justiça, recusar os índios para os serviços dos brancos, e
mesmo para o serviço real. Esses fatos, associado à política pombalina, à
redefinição da fronteira e a uma sucessão de conflitos levaram ao fim do poder
temporal dos missionários em 1755.
Nesse contexto Moreira Neto (1992, p. 89) aborda que:

Enquanto os índios minguavam e desapareciam por efeito conjunto das


causas já apontadas, as missões floresciam e, entre elas, as dos jesuítas
que assumiam, sem o espírito e o compromisso ético de Vieira, uma
posição de franco engajamento nas atividades materiais de produção e
comércio de bens coloniais.

Vê-se que a história dos povos nativos foi interrompida de forma brusca e
violenta diante do projeto colonial que, valendo-se da guerra, da escravidão, da
ideologia religiosa e das doenças, provocou na Amazônia um etnocídio sem
precedentes. No entanto, várias etnias mantem suas identidades até o tempo
presente, o que sublinha sua capacidade de resistência e adaptação.

9Fundada em 1534 pelo Santo Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus pautava-se, sobretudo para
educar e catequizar o homem e assim a fez durante logos anos, participando de grandiosas conquista
como a do Brasil Colonial os missionários da companhia lograram em defesa dos povos indígenas e
dos cristões novos. A exemplo, desse feito se encontra o padre Antônio Vieira enviado para
catequizar os índios na América Portuguesa, ao lado do padre Manuel da Nobrega e com o apoio
político do Rei D. João IV posicionou-se contra a escravidão e a inquisição. Com base na influencia
que a Companhia de Jesus exercia diante das questões ideológicas e políticas, no contexto da
Reforma Pombalina, em 1758, Marquês de Pombal expulsa a Companhia (MORREIRA, 1992).
20

Coelho (2005), ao dialogar com Manuela Carneiro da Cunha e Moreira Neto,


dentre outros, discute o real papel dos sujeitos históricos que atuaram na
consolidação da política indigenista implantada no Estado do Grão-Pará e
Maranhão. Política essa expressada na legislação do “Diretório dos índios”, que
emergiu de um conjunto de conflitos envolvendo as ordens religiosas, os colonos e a
administração metropolitana, tendo em vista o controle dos povoados e o trabalho
indígena. Dentro dessa política os missionários são vistos pela coroa portuguesa
como empecilhos a implementação de uma reforma na América Portuguesa, e por
isso tratou-se de derrubar o poder temporal dos missionários sobre os índios.
Entretanto, Alencastro (2000), Cunha (1992) e Farage (1991) discorrem que
os nativos foram atores importantes de sua própria história, criando estratégias,
aliando-se com ou combatendo as potências europeias, explorando as rivalidades
entre elas ou negociando seus serviços militares contra indígenas hostis, protegendo
os portos contra ataques de outros povos estrangeiros, mostrando que sem seus
serviços, nenhuma potência colonial europeia teria poder bélico suficiente para
controlar tão distante e ampla região.
A política indígena apresenta-se também na pacificação voluntária de alguns
índios, especificamente das lideranças indígenas que tomaram iniciativas no sentido
de estabelecer povoados coloniais. A realização dos chamados descimentos muitas
vezes dependeu de negociadores indígenas, que atuavam nas “práticas” com
lideranças independentes. O fato é que, com frequência, os índios escolheram os
lugares dos assentamentos populacionais que, após a aliança com os europeus,
haveriam de habitar (ROCHA, 2009; FARAGE, 1991, p. 156). Mais uma vez,
observa-se que as políticas indígenas e políticas indigenistas relacionavam-se
dialeticamente.
Para entender esse jogo político que se desenvolveu no decorrer dos anos
entre políticas indígenas e indigenistas e compreendermos, nos limites destes
estudos, a atuação desse importante grupo histórico, que é o indígena na Amazônia,
é necessário compreender a noção de “poder”. Afinal, esse conceito ajuda a
identificar como uns indivíduos atuam de forma dominadora sobre outros sujeitos.
Michel Foucault (1979) afirma que o poder é algo inevitável, sendo impossível
manter uma relação que não seja marcada por ele, mesmo porque está impregnado
no dia-dia de qualquer integrante de uma sociedade humana. Nesse quadro de
relações de poder entre dominantes e dominados há, portanto, espaço para a
21

negociação, com os indígenas buscando satisfazer suas próprias necessidades


após tomarem consciência de sua importância, começaram a exercer certa
influência na formação da sociedade colonial.
Monteiro (2011, p. 59) discorre que é preciso prestar atenção, pois ao mesmo
tempo em que as ordens coloniais buscavam diluir a diversidade étnica “[...] os
índios buscavam forjar novas identidades [...] procuravam se diferenciar dos
emergentes grupos sociais que eram frutos do mesmo processo colonial, o que
intensificou a rápida expansão do tráfico transatlântico e o [...] aumento de uma
população africana e afrodescendente”.
Dada às políticas indigenistas das autoridades coloniais, as populações
nativas sofreram drásticos genocídios e etnocídios. Nesse sentido, Monteiro (2011,
p. 59) ressalta que o etnocídio ocorria por vários fatores, como a “exploração,
comércio e colonização dos europeus na América e consequentemente pelo avanço
dos soldados d’el Rei, dos soldados de Cristo”, provocando surtos epidêmicos que
afetaram inúmeros grupos indígenas. O autor coloca também que as epidemias
podiam ocorrer antes mesmo do “contato direto com os portadores, europeus,
mestiços ou africanos”. Contudo “a mortalidade provocada por doenças contagiosas
atingiu seu ponto mais alto quando conjugada com outras mudanças importantes
nas relações entre colonizadores índios”.
Contudo, Monteiro informar que ao encontro dessas novas configurações
vários grupos indígenas buscaram resguardar a sua autonomia diante do
“envolvimento em guerras coloniais, em rivalidades intra- européias ou no crescente
tráfico de cativos indígenas”, incorporando-se nas tropas oficiais, intermediando
frente ao comércio dos cativos e aliando-se a outros grupos étnicos (2001, p. 63).
Cunha (1992, p. 13) advoga que não foram somente os microorganismos
responsáveis pelo etnocídio dos indígenas, mas todo um conjunto que envolve as
guerras provocadas pela sede de escravos, de conquistas, de apresamento, a fuga,
a fome, a falta de imunidade devido ao isolamento, à desorganização social e
econômica provocada pelos europeus nas sociedades nativas com a política de
concentração praticada por missionários e pelos órgãos oficiais, visto que a alta
densidade dos aldeamentos favoreceu as epidemias.
22

1.3 A Coroa, a Igreja, o Índio e o Colonizador

As ordens religiosas sempre estiveram presentes na conquista da Amazônia.


Solicitados pelo próprio governo português, “os missionários acompanharam passo
a passo os militares que ganham terras para o sistema” (HOORNAERT, 1992, p. 56-
57). Neste quadro Hoornaert (1992, p. 57), usando do documento datado em 1693
deixa clara a importância que a Igreja tinha para a Coroa:

A conversão dos índios é o maior serviço que se possa dar a Deus. A ação
missionária é indispensável neste Estado e ela deve estender-se por toda
parte. O capitão-ouvidor deve favorecer e ajudar os esforços dos
missionários nestes rios. Se um capitão se encontra onde não há
missionários, ele deve procurá-los e esta ação contará para receber honras
militares durante a sua vida10.

Observa-se que a presença da Igreja Católica tornou importante nesse


momento da expansão territorial, e consequentemente à colonização. Aliada do
Estado contribui para fixar os marcos da penetração portuguesa naquele território e
a interação destes com os índios, que vieram se tornar escravos dos colonizadores,
vítimas de apresamentos, aldeamentos e descimentos (FARAGE, 1991). Dentro do
projeto de aldeamento, o indígena aldeado nos termos da lei, não era escravo,
devendo receber salários e trabalhar por um período determinado tornando assim, a
divisão do trabalho na missão mais uma forma compulsória de utilização da mão de
obra indígena.
Os indígenas assalariados deveriam permanecer junto a seus antigos
senhores, por um período de 6 anos. Contudo, Farage (1991, p. 47) aborda que
aqueles que se recusavam a trabalhar, querendo “viver a sua vontade”, foram
presos em grilões e obrigados ao trabalho nas obras públicas.
Perrone (1992) informa que o pagamento de salário é afirmado desde a “Lei
de 1587, reafirmado no alvará de 1.596, na Lei de 1611, no Regimento do
governador geral do Maranhão e Grão-Pará de 14/4/1655, no Diretório de 1757”.
Relata ainda que, mesmo assegurada por lei, a liberdade de suas pessoas era
constantemente violada assim como seus salários.

10Regulamento para Capitães-Ouvidores dos Rios do Amazonas, 1693, Arquivo Histórico Ultramarino
de Lisboa, Pará, Caixa 2, Avulsos, DOC. DE 28/1/1693 (apud HOORNAERT, 1992, p. 57).
23

As modalidades, de recrutamento de força de trabalho indígena e a presença


cada vez maior dos padres, passaram a interferir na organização social dos grupos
indígenas e na autoridade e hierarquia em meio às populações indígenas conforme
a obediência, o respeito que os mais novos tinham pelos mais velhos, uma vez que
domesticados pela doutrina missionaria nas missões como assim coloca Daniel,
passam assumir os valores dos colonizadores europeus (DANIEL, 2004, p. 269-273,
vol. I; MONTEIRO, 2001, p. 55).
Tapajós (2004, p. 28) autor do prefácio da obra de João Daniel, descreve que
na ótica do domínio os missionários se empenharam para catequizar os indígenas,
com o propósito de civilizarem em povoações, a sujeição religiosa impôs a
“adaptação das concepções de vida e de cultura do europeu aos povos dominados”.
Como constar na afirmação de Daniel (2004, p. 57, vol. II):

Muitas são as indústrias com que os missionários, assim portugueses como


espanhóis, se têm empenhado em tirar os índios dos matos, onde vivem
como feras, para os civilizarem em povoações, onde com incansável zelo, e
contínuo trabalho, os vão pouco a pouco doutrinando, assim nas leis
evangélicas, como nas regras da polícia.

Visto como inferiores e bárbaros por suas práticas culturais e religiosas a


igreja juntamente com o Coroa pregavam que o índio tinha que ser “domesticado”,
adotando a religião “correta,” diferente da que eles praticavam em seu meio cultural
(DANIEL, 2004, p. 65, vol. II).
Para o Estado, os índios tinham que se adequar as regras do novo mundo em
que viviam, deixando de lado a sua cultura, assim seriam inseridos na sociedade a
qual agora pertenciam, sendo então transformados em vassalos. Para tanto decreta
Leis e força-os, ao trabalho através de violência e como desculpa utiliza a ideia de
“proteção”.
A partir dessa visão do índio, o Estado, juntamente com a prática cristã das
diversas ordens religiosas, jesuítas, carmelitas, franciscanos, capuchinos,
mercedários, frente à política de expansão e colonização, agindo com autoritarismo
e ganância, submeteu o índio a uma série de mudanças, no que diz respeito a sua
vida, seu cotidiano e o uso da sua mão de obra instigada, sobretudo para o
desenvolvimento econômico da colônia e da Coroa (VIEIRA, 2012, p. 10).
Como bem coloca Farage (1991, p.26) os indígenas forneciam todos os
serviços voltados para a vida dos colonos [...] “eram os remeiros, os guias, os
24

pescadores, os caçadores, carregadores, as amas-de-leite, as farinheiras”... E diante


de tais formas que se conjugam, a escravidão indígena acaba por gerar conflitos
entre Igreja, Estado e Colonos, fazendo com que ocorressem disputas de interesses
para o controle do comércio e do sistema escravista.
A ação missionária que teve nos jesuítas sua atuação mais marcante no
processo de ocupação dos territórios que hoje representam a Amazônia, desde o
início, teve um caráter misto e ambíguo. Movida pela missão de converter os índios
ao cristianismo e ao ensino de ofícios, foram incapazes de perceber o valor das
culturas desses povos, visto que a disciplina posta por eles chocava evidentemente,
com a cultura nativa (BELLOTTO, 1982, p. 179).
Contudo, pontua-se que as ordens religiosas no oficio de suas práticas cristãs
condenava a escravidão dos indígenas entrando com frequência em conflito com
colonos em prol da liberdade dos índios. Para esse efeito os missionários
frequentemente apelavam ao rei contra os colonos, que durante a maior parte do
período colonial deu total apoio aos padres (FARAGE, 1991; ALENCASTRO, 2000;
HOORNAERT, 1992).
A determinação e a audácia com que os missionários defendiam os indígenas
principalmente a figura do padre Antônio Vieira, veio provocar ainda mais a
resistência e revoltas dos colonos e autoridades. Por oposição a esses conflitos,
muito religiosos passaram a ser perseguidos, presos e expulsos porque
denunciaram a violência e a injustiça praticadas contra os índios.
No entanto, paralelamente a esta empreitada, as mesmas ordens religiosas
que defendiam a liberdades dos índios, elas mesmas pertenciam ao mundo dos
colonos (VIEIRA, 2012, p.12). Donas de inúmeras fazendas e engenhos usavam-se
da mão de obra indígena para construir suas casas, escolas, suas roças, além de
participar ativamente nas negociações de compras e vendas de escravos indígenas.
Farage (1991) destaca a participação dos missionários no comércio de escravos
indígenas, através das tropas de resgate:

[...] quanto a arregimentação da mão-de-obra escrava era feita através de


expedições conhecidas como “tropas de resgate”, cuja instituição legal se
dá nos anos 50 do século XVII: sob influência do Padre Vieira, a lei de 1655
regulamenta a ocorrência dessas expedições, como, vimos designando
missionários para acompanha-las e declarando que os cabos de tais tropas
deveriam ser escolhidos pelo governador e demais autoridades civis e
eclesiásticas da colônia. Aos missionários cabia julgar a legitimidade do
cativeiro, certificando-se por escrito, nos assim chamados “registros” [...]
(FARAGE, 1991, p. 29).
25

Vê-se que as ações dos missionários foram marcadas pela imposição entre
os jogos políticos e econômicos, pois, “ao mesmo tempo em que denunciavam os
excessos dos colonos entrando em conflito com os mesmos, participavam desse
mundo comercial” (GOMES FILHO, 2008 p. 45).
Reis relata que “nem diretores de povoados, religiosos encarregados da
moralização dos costumes, da disciplinarização espiritual, nem os funcionários
menos graduados, os membros das edilidades, escapavam à vertigem do lucro”
(1957, p. 36).
Esse fato fez com que as ordens religiosas, exercendo um papel significativo
nas estruturas do sistema colonial, adquirissem grande poder e importância
financeira, levando assim o Estado português (diante da reorganização
administrativa da Amazônia a partir de 1751) a interferir na condução do trabalho
missionário por ver nas ordens religiosas uma ameaça a sua soberania (BELLOTTO,
1982, p. 178).
Tapajós expõe que “[...] as missões, segundo o pensamento dominante,
constituíam sério entrave ao progresso [...], pois os missionários opunham
resistência à incontida cupidez de colonos, transformados em grandes proprietários,
agora ascendendo socialmente e tentando influir nos destinos políticos do Estado”
(2004, p. 17-18, vol. I).
Esse poder adquirido pelos jesuítas se estendeu até ser interrompido pela
nova legislação o Diretório dos Índios com reformas tanto políticas, econômicas e
sociais, implantadas na América portuguesa, favorecendo assim o fim do sistema
criado pela provisão régia de 1686 (o Regimento das Missões), como veremos na
seção seguinte.
26

CAPITULO II A LEI, E A ESTRUTURA COLONIAL

2.1. O Regimento das Missões

Proveniente da provisão régia sobre a repartição dos índios no Maranhão e a


lei sobre a liberdade do gentio do Maranhão, o Regimento das Missões de 21 de
dezembro de 1686, veio ser o resultado de inúmeras queixas e conflitos entre os
moradores de São Luís e Belém (MATTOS, 2012, p. 112).
Chambouleyron (2011, p. 603) afirma que esses conflitos giravam em torno
da concessão da administração temporal das aldeias de índios livres aos jesuítas,
que ficariam responsáveis igualmente pela repartição dos trabalhadores indígenas
aos moradores (Regimento do Governador do Maranhão -1655). Tal concessão
acabou provocando a revolta das populações das cidades de São Luís e Belém, que
culminou com a expulsão dos jesuítas do Estado do Maranhão, em 1661.
Entre 1680 a 1684, a Coroa publica uma série de leis sobre os índios do
Maranhão que, vinculadas ao monopólio de comércio acordado com a Companhia
de Comércio do Maranhão (1682) deram ensejo a um novo levante, a “revolta de
Beckman”, quando os padres jesuítas foram expulsos mais uma vez. Contudo a forte
influência de Antônio Vieira na Corte estabeleceu a volta da Companhia de Jesus
que volta a liderar a administração das aldeias de índios livres (CHAMBOULEYRON,
2011, p. 604; MATTOS, 2012).
Os colonos em nada se agradavam da administração dos missionários da
Companhia de Comércio do Estado do Maranhão, que ao longo do tempo foi
acusada de fraudar os pesos, modificar os preços, recusar-se a transportar produtos
pouco lucrativos e transgredir a regularidade das frotas estragando muitos gêneros,
além de nunca cumprirem o contingente mínimo de escravos que, no mais das
vezes, era caríssimo para a região (MATTOS, 2012, p. 112).
Assim as disputas pela mão de obra indígena entre Igreja e colonos vieram a
ser responsáveis pela aprovação da lei de 21 de dezembro de 1686 o “Regimento
das Missões” que, detalhado em 24 parágrafos, irá regulamentar a organização do
trabalho indígena formalmente livre até as reformas pombalinas (FARAGE, 1991 p.
32).
27

Ao encontro desse processo, Chambouleyron (2011, p. 603) pontua que:

“[...] além de ordenar a liberdade absoluta dos índios, as novas leis


decidiam sobre a forma como seria usada e repartida a mão de obra
indígena livre, insistindo, igualmente, na importância do envio de escravos
africanos para o Maranhão. Assim, um terço dos índios (aptos ao trabalho)
dos aldeamentos deveria ser distribuído entre os portugueses, outro terço
deveria permanecer nas comunidades indígenas e o restante deveria
auxiliar aos padres jesuítas nos descimentos de mais nativos do sertão”.

Haja vista a repartição da mão de obra indígena, o Regimento das Missões


vem conceder o direito de tutela dos indígenas capturados aos missionários
portugueses, é reforçado o controle dos missionários no âmbito dos aldeamentos,
principalmente o da Companhia de Jesus com atribuições de poder não só espiritual,
mas “político e temporal” das missões (MATTOS, 2012, §1).
Dada a evidente tendência dos colonizadores a desrespeitar as condições de
utilização da mão de obra aldeada, é criado o ofício de Procurador dos Índios nas
duas capitanias (Pará e Maranhão), que deveria ser exercido por um morador, eleito
pelo governador, mais escolhidos pelo Superior da Companhia (MATTOS, 2012, §2-
§3).
Nessa mesma direção, Mendonça (2005, p.127-128, vol. I) pontua que para
defender os índios das contínuas violências e injustiças não só de seculares, mas
dos Regulares, é preciso um “Procurador” que não só tenha inteligência,
desinteresse, independência, mas que seja homem bom cristão, caritativo e
sumamente ativo e desembaraçado para lhes fizer render justiça.
Pode-se citar também que o Regimento proibia a moradia de homens brancos
e mestiços nos aldeamentos. Somente aos missionários era permitido acompanhar
os índios. Pois de forma alguma a pessoa da qualidade que force poderá ir ás
aldeias tirar índios para seu serviço ou para outro algum efeito (MATTOS, 2012, §4-
§5).
Dessa forma, o Regimento das Missões do Estado do Maranhão e Grão-Pará
permitia que os missionários aculturassem e doutrinassem os índios para convertê-
los em cristãos. Para tanto se usavam de alvará e provisões para resgatar e descer
os índios para as aldeias.
Diante de tais atribuições é responsabilidade dos missionários fazer o
descimento de novas aldeias para aumentar a população dos aldeamentos, em
28

função da defesa do Estado, para o serviço régio e dos colonos, mas sob salários,
além de estabelecer intercambio comercial entre os índios e colonos e formar os
indígenas para a vida de trabalho (MATTOS, 2012).
Ainda de acordo com Farage (1991, p. 32), os missionários, se por um lado
tinham muitas vantagens com relação à população indígena, também tinham alguns
deveres para com os aldeamentos. Pois os religiosos tinham o compromisso de “dar
toda ênfase ao aumento da população nas aldeias de repartição, cujos índios eram
necessários tanto para a segurança do Estado e defensa das cidades, como para o
trato e serviço dos moradores” (FARAGE, 1991, p. 32). A população também deveria
fazer entradas para o sertão, pois metade dos indígenas era retirada das localidades
“de repartição, e outra metade seria fornecida pelas aldeias mais afastadas. O
tempo de serviço dos índios aos moradores foi estendido para seis meses no Pará,
e quatro meses no Maranhão” (FARAGE, 1991, p.32).
Com base nos serviços dos índios aos moradores, havia muitas reclamações
quanto à atuação dos religiosos que eram responsáveis pelo Regimento das
Missões:

Que o que eu não achava em todo o Regimento das Missões era que se
privasse S. Maj., nele, de mandar fazer novas fundações da forma e pelo
modo que entendesse que era mais útil ao seu Real Serviço, que era o caso
em que estávamos, e que como Sua Paternidade não duvidava que S. Maj.
nos seus Domínios tinha um poder Real e absoluto, não vinha de nada a
servir o Regimento das Missões, como no caso presente (MENDONÇA,
2005, pp. 260-261, vol. I).

No exposto fica evidente a insatisfação dos moradores desta região sobre a


atuação dos missionários quanto ao trabalho da população indígena que estavam
sobre sua responsabilidade. Ainda de acordo com a mesma fonte era a Coroa
Portuguesa quem deveria mandar em seus domínios e não os religiosos que
estavam a serviço do Regimento.
Para Mendonça (2005), o conflito já estava formado na Amazônia, pois os
relatos confirmam que as relações estavam chegando ao limite como se pode
observar nos relatos abaixo:

Este Padre, ainda quando obedece, é insultando-me, porque na conclusão


explica as cláusulas que eu lhe ponho depois, se S. Maj. assim mo ordena,
ficando no seu conceito, persuadindo-se a que tudo era obra minha, sem
ordem alguma para me atrever a alterar o seu antigo costume; que para
eles era coisa tão nova que lhes não chegava ao pensamento. Eu lhe
perdôo tudo, e como só vou ao que diz respeito ao senhorio de S. Maj., e os
29

Padres aceitarem a condição, dou-lhes liberdade para dizerem o que lhes


parecer (pp. 261-262, vol. I).

Assim nota-se como era a situação nesta parte do Brasil Colônia, pois os
Padres controlavam as povoações. Desta forma os colonos ficavam prejudicados
quanto a mão de obra indígena, que era destinada ao serviço tanto dos moradores
como também do Estado. Com todo esse acontecimento por conta do Regimento
das Missões e o controle dos religiosos os moradores não aceitavam e pediam mais
atuação do governo português na região.
Desse modo, assegurados pelo o Regimento das Missões, os missionários
lograram a autonomia na direção das aldeias e da autoridade para repartir os índios
para o trabalho. E é nesse período que as ordens religiosas, com influência junto a
D. João IV e ao papa, vêm consolidar seu poder político e econômico tornando-se os
empreendimentos empresariais mais bem-sucedidos da colônia (FARAGE, 1991;
CUNHA, 1992).
Contudo, a disputa pela utilização da mão de obra indígena aldeada, entre
colonos e religiosos, suscitou várias queixas à Corte, sobre os salários dos índios e
da falta de nativos para satisfazer as necessidades dos moradores nos serviços das
lavouras e no comércio, como se pode observar:

[...] em todas as ocasiões, o pomo da discórdia sempre foi o controle do


trabalho indígena nos aldeamentos, e as disputas centravam-se tanto na
legislação como nos postos-chaves cobiçados: a direção das aldeias e a
autoridade para repartir os índios para o trabalho fora dos Aldeamentos [...]
(CUNHA, 1992, p.16).

Como se pode observar; a sucessão de leis e atos administrativos que


seguem o Regimento das Missões contribuiu para o monopólio do poder missionário
da ordem religiosa da Companhia de Jesus, que ao longo dos anos começa a perder
o poder dentro da colônia, pois o Estado passa a frear a expansão jesuítica [...] E
ainda, em 1693, a Coroa dividiu o Maranhão e Grão-Pará em províncias
missionárias entre várias ordens religiosas. [...] onde cada uma age conforme seu
interesse (FARAGE 1991, p. 32-33).
Diante das contradições somadas à insatisfação dos moradores contra os
inacianos, a região Amazônica passa por uma reformulação de suas políticas, na
qual o Regimento das Missões passa a ser contestado, dando lugar a uma nova
política desencadeada a partir manutenção dos domínios adquiridos pelos
30

portugueses com o Tratado de Madrid (1750) e em especial, as Reformas


Pombalinas provocadas pela política reformista do ministro Sebastião José de
Carvalho e Melo (futuro Marquês de Pombal), no curso do reinado de D. José (1750-
1777).

2.2. A Política Pombalina e a Organização dos Índios sob o Diretório

As relações entre Coroa e Igreja foram a chave para a expansão e ocupação


da colonização na Amazônia. Contudo, um conjunto de fatores como os constantes
conflitos pela mão de obra indígena, que envolveu missionários, colonos e a própria
Metrópoles, concorreu para que a Coroa portuguesa fomentasse uma nova política
indigenista, a “política pombalina” (COELHO, p. 247).
As ações regidas pela política pombalina vieram constituir uma nova política
econômica e social que viria afetar profundamente a história da Amazônia, a partir
de 1750, impulsionada pelo poderoso Sebastião José de Carvalho e Melo,
representado pelo seu próprio irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado
(Governador do Estado do Grão Pará e Maranhão de 1751 a 1759). Essa imensa
região tornou-se objeto de maior atenção da coroa portuguesa, despertou a
delimitação das fronteiras, já que o tratado de Tordesilhas (1494) acabava de ser
substituído pelo tratado de Madri (1750), que redefiniu as linhas fronteiriças entre o
império Português e Espanhol na América (ROCHA, 2009, p. 18-19).
O reordenamento territorial, com a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750,
entre Portugal e Espanha, a partir do direito à posse da terra através do princípio
Internacional do “uti possidetis” favoreceu o domínio português que havia
ultrapassado os limites da linha de Tordesilhas ao se expandir mais ao Norte de sua
área colonial. A partir de então, sob a influência do contexto que deu sentido ao
Tratado de Madri e a chegada ao poder do Marquês de Pombal (1751), a Amazônia
passa por um novo curso com medidas voltadas para desenvolvê-la e protegê-la das
constantes invasões, podendo o ano de 1755 ser chamado de “ano da virada” no
Estado do Grão-Pará (SANTOS e SAMPAIO 2008, p. 80).
O conjunto das mudanças sociais, econômicas e políticas ligadas ao ministro
Sebastião José de Carvalho e Melo, em todo o Império Português, ficou conhecido
31

como as reformas pombalinas. No Estado do Grão-Pará e Maranhão, tais reformas


visavam integrar as populações indígenas à sociedade colonial como súditos livres e
assim assegurar as novas fronteiras territoriais. Por meio dessa política, Pombal
visava afastar as ameaças por parte de outras potências europeias, buscar
alternativas econômicas que pudessem promover o desenvolvimento da região e
afirmar o poder da Coroa.
As novas leis criadas por Pombal promoveram a secularização da
administração colonial, processo que resultou na abolição do poder temporal dos
missionários sobre os índios e na laicização das missões, transformadas em vilas e
lugares governados preferencialmente por oficiais índios, além de proporcionar
privilégios a casamentos de brancos com índios. Essas leis estimulariam a
circulação de pessoas e o crescimento do comércio. Como coloca Patrícia Sampaio
(2009 p. 27-28):

[...] Na Amazônia Portuguesa, o programa contemplou especificidades


como a penetração mercantilista do Estado nas atividades econômicas
(criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão), o estímulo
á miscigenação visando o aumento demográfico e, por fim, a questão
indigenista, expressa através da lei das Liberdades (1755) e,
posteriormente, do Diretório dos Índios.

Desde o início da conquista europeia na Amazônia, as populações nativas


vivenciaram drásticas transformações socioculturais, incluindo o genocídio e o
etnocídio. A partir de 1750, uma nova fase de mudanças abre espaço para inúmeras
estratégias de sobrevivência, de relações e vivências, ao lado de antigas redes,
interações e tradições. Os povoados deixaram de compor-se somente de índios e
missionários e passaram a estimular a circulação dos não índios. As políticas
indigenistas das autoridades coloniais passaram a corresponder às políticas
indígenas ativas.
Para tanto, Coelho (2005) e Rocha (2009) pontuam que a Coroa Portuguesa
restituiu aos índios do Maranhão e Grão-Pará a liberdade de suas pessoas, bens e
comércio fundamentado no alvará de 6 de junho de 1755, garantindo assim a
transformação dos índios em vassalos do rei. Além disso, reformulava o controle e
acesso à mão de obra dos indígenas.
Diante de tais prerrogativas, Rocha (2009) pontua que “a administração das
vilas caberia aos vereadores, juízes ordinários e oficiais de justiça que
32

preferencialmente, deveriam ser índios”; nas aldeias convertidas em “lugares”, a


função governativa caberia diretamente aos principais (chefes indígenas).
Haja vista a inovação administrativa, Nádia Farage (1991, p. 36) informa que
“Mendonça Furtado direcionou seus primeiros anos de governo, a persuadir os
colonos para que viessem a adquirir escravos africanos, no sentido de fazer cumprir
a disposição régia de libertar os escravos índios”.
Assim, as intervenções modernizadoras do projeto colonial pombalino
fortaleceram o fornecimento de mão de obra escrava africana para aqueles sertões.
Contudo na busca de formar vassalos para o rei, o Diretório dos Índios continuou
com os constantes descimentos de grupos indígenas para assentar nos
aldeamentos (SAMPAIO, 2011, p. 11-12).
Em suma, a caracterização dos índios enquanto vassalos do monarca
português, potencializada pelo Marquês de Pombal, criou uma relação “indissociável
entre hierarquização social e poder político e econômico”, na medida em que
serviam como elo entre os anseios da Coroa e os demais índios, estabelecendo às
demandas da produção agropecuária e do extrativismo, a atividade agrícola ganha
proeminência, apresenta rápida expansão e diversificação, que envolve tanto o
processo de povoamento como o de organização de uma economia complementar
voltada para o mercado das metrópoles (ROCHA, 2009, p. 23).
Conforme afirma Patrícia Sampaio:

Em princípio, os novos vassalos, recém liberados da escravidão, seriam os


responsáveis pela garantia da posse dos territórios disputados com a
Espanha, os habitantes das povoações e, por fim, os trabalhadores
preferenciais (e, no mais das vezes, exclusivos) para atender às demandas
da produção agropecuária e das empresas de coleta de produtos da floresta
“drogas do sertão” que davam vida à economia regional no correr do século
XVIII (2009, p. 28).

As novas instruções sobre o conjunto de leis publicado em 1755 modificou


consideravelmente a política indigenista portuguesa na Amazônia e interrompeu a
supremacia missionária nascida com a publicação do Regimento das Missões do
Maranhão e Grão-Pará, ao ampliar um conjunto de medidas relativas à vida do índio
na região (ROCHA, 2009, p. 36).
Contudo pode-se aqui indagar que o novo modelo de práticas referente à vida
dos indígenas, que saiu do controle missionário, apenas foi moldado para
corresponder ao parâmetro de interesse do colonizador, visto que os nativos não
33

são devolvidos ao seu estatuto anterior e sim transformados em vassalos do


monarca português.
A Reforma Indigenista de Pombal para o Estado do Grão-Pará e Maranhão
trouxe mudanças administrativas e políticas. Constituído de 95 parágrafos, o
Diretório dos Índios, visava, à sua maneira, uma melhoria das condições de vida em
diversos aspectos como a civilização dos índios, a relações de trabalho dos índios
com os moradores, edificação de vilas, povoamento e manutenção dos povoados
por meio dos descimentos e a tutela de um “diretor”, figura central neste novo
procedimento. Para Coelho, permanecem os princípios básicos contidos nas leis de
4 de abril, 6 de junho e 7 de junho de 1755 (COELHO, 2005, p. 170). No entanto,
Fonseca (2016) coloca que Mendonça Furtado veio desvirtuar a lei de 7/6/1755,
primeiramente ao impor o trabalho compulsório e ainda por determinar que as
aldeias fossem administradas pelos principais. Pois, diferentemente das leis
indigenistas de 1755, o Diretório vem impor a figura do diretor ao governo dos
povoados, alegando a “rusticidade e a ignorância” dos indígenas:

Sendo sua Majestade servido pelo Alvará com força de Lei de 7 Junho de
1755 abolir a administração Temporal, que os Regulares exercitavão nos
Índios das Aldeias deste Estado; mandando-as governar pelos respectivos
Principaes, como estes pela lastimosa rusticidade, e ignorância, com que
'até agora forão educados, não tenhão a necessária aptidão, que se requer
para o Governo, sem que haja' quem os possa dirigir, propondo-lhes não só
os meios da civilidade, mas da conveniência [...] haverá em' cada uma das
sobreditas Povoações enquanto os Índios não tiverem capacidade para se
governarem, hum Director, que nomeará o Governador e Capitão General
do Estado , o qual deve ser dotado de bons costumes , zelo, prudência ,
verdade; ciência da língua, e de todos os mais requisitos necessários para
poder dirigir com acerto os referidos Índios debaixo das ordens
(DIRETÓRIO, 1758, §. 1)

Assim, diante da grande estrutura política adotada que regia o trabalho


indígena, a função do Diretório é de inserir o índio da sociedade colonial, não como
cidadãos (ou vassalos) comuns, pois os índios eram tratados como “rústicos”, mas
para transformá-los e deixá-los dependentes dos costumes daquela sociedade à
qual agora pertenciam, procurando assim, anular os elementos culturais distintivos
sobreviventes das numerosas etnias já aldeadas.
Para tanto, o Diretório instituiu diversas medidas para civilizar os índios.
Contestou o Regimento das Missões, a base em que os missionários se apoiavam,
proibiu o uso da língua materna e da Língua Geral e obrigou-lhes a utilizar a língua
34

do Príncipe (1758, §. 6), que diante das cláusulas do “uti possidetis” veio ser uns dos
dispositivos decisivos dos tratados com a Espanha. Dessa forma, vassalos falando
português assegurariam o direito à posse da região.
Outra medida imposta é que “ninguém poderia chamar os índios de “negros”,
pois tal prática dificultava a civilização dos índios, e sim tratá-los como se fossem
Brancos” (1758, §§. 10-11). Além disso, os índios foram obrigados a adotar
sobrenomes portugueses, abandonar seus costumes das casas multifamiliares e
construir suas casas à imitação dos brancos (1758, §. 12).
Cabia ao diretor combater a “ebriedade” (1758, §§. 13-14), estimular a
dedicação dos índios à agricultura e ao comércio, para desenvolver uma
reciprocidade de interesses e utilidades entre eles e os “moradores”.
A lei recomendava ainda que os brancos não poderiam ser preferidos para
cargos honoríficos em detrimento dos índios (Diretório, 1758, §. 80). Os índios
deveriam também pagar os dízimos, “limitadíssimo tributo” através do qual
reconheciam sua obrigação de vassalagem.
Ao encontro desse processo, a prática de casamento entre brancos e índios
foi ativamente incentivada pelo Estado, com o intuito de povoar a larga extensão de
terras e de acabar com a odiosa separação entre uns e outros, contrapondo assim o
que o Regimento das Missões de 1686 havia proibido. Em presença dessa prática,
aquele que se casasse com as índias fosse servido a declarar que não haveria
infâmia nisso e sim alguns privilégios (Diretório, 1758, §. 80).
Como podemos observar, no âmbito do processo de ocupação da Amazônia,
sucessivas decisões régias em relação a liberdade dos povos indígenas do Brasil
colonial passaram a ser tomadas e discutidas pela a Igreja, o Estado, e os Sistemas
Coloniais. Entre as principais leis que veio declarar a liberdade dos índios estão a de
“1609, 1680 e 1755”. Criadas para restaurar o direito de liberdade e igualdade dos
índios propõe que em nenhum caso pudesse cativar os gentis do Brasil (PERRONE,
1992).
Contudo a situação legal dos índios veio mostrar a ineficácia das leis perante
a sua real função. Pois essas leis eram regulamente desrespeitadas ou tinham
“brechas”. Um exemplo são as Guerras justas, prática que era permitida dentro da
legislação do Estado naquele período: “um dos títulos legítimos para escraviza-los
era aprisiona-los em Guerra Justa. Ora, a guerra supunha em presença soberana. A
35

carta de 9 de abril de 1655 declarava que seriam escravos os prisioneiros tomados


em guerra defensiva” (FARAGE, 1991).
A lei 9.4.1655 que regula esse procedimento verificava a legitimidade desses
cativeiros encarregada os missionários e cabos da escolta para obter as verificações
(FARAGE, 1991, p. 28). Nessa ocasião Farage apresenta que a escravidão
clandestina na Amazônia, veio alcançar uma proporção maior que as categorias
legítimas de escravidão, tropas de resgate oficiais e de guerra justa (p. 30).
Fato esse que procurou mudar, diante da liberdade concedida aos índios por
lei em 1755 e reafirmada em 1758 pelo Diretório dos índios, fomentando a melhoria
das condições de vida dessas populações indígenas, sob a estratégia de civilizar o
índio e inseri-lo na sociedade colonial.
Contudo essa nova legislação se mostrou também ineficaz com relação a
liberdade desses índios, pois essa lei veio submeter toda sorte de abuso com os
indígenas. Como argumenta Pestana (2007, p. 5) não abastasse as ambiguidades
legais serem atribuídas aos diretores, à repartição dos “índios não eram justa, é
violenta e descreve os maus tratos dos moradores, a privação da liberdade e as
expedições de caça aos fugitivos por tropas militares”. Assim sendo o projeto não
transcorreu como planejado, uma vez que em 1798 o Diretório dos Índios foi extinto.

2.3 A Criação de uma Capitania Indígena

Criada em 3 de março de 1755, a Capitania do Rio Negro veio a ser uma das
muitas medidas tomadas pelo governador Mendonça Furtado, reorganizando
dezenas de enclaves missionários portugueses na Amazônia (FARAGE, 1991, p.
81).
Com a criação da Capitania do Rio Negro a Coroa “delineou os contornos
primordiais do território e das instituições político-administrativas e jurídicas das
sociedades amazonenses” (SANTOS E SAMPAIO 2008, p. 80). Tais fatos se
remetem a um conjunto bem articulado de fatores como:

A distância em que se encontrava a região em relação aos poderes de


decisões [sic!], instalados em Belém ou em São Luís; a expectativa de uma
invasão holandesa via rio Tacutu/Branco; a política do princípio do uti
36

possidetis, selada no Tratado de Madri; o fato da própria demarcação de


limites dos domínios ibéricos na América do Sul; e, ainda, a suspeição de
manobras perigosas por parte dos missionários contra os interesses da
Coroa portuguesa (SANTOS E SAMPAIO, 2008, p. 81)

Com a implantação da Capitania do Rio Negro (1757), muitos dos problemas


administrativos ou militares que precisavam ser resolvidos na cidade de Belém ou
em São Luís do Maranhão passaram a ter uma instância decisória no interior da
própria Capitania do Rio Negro (ainda que fosse uma capitania subordinada ao
governo do Pará). Essas medidas concretizavam o desejo da Coroa portuguesa de
impor uma nova ordem para que se pudesse garantir a soberania nesta parte da
América, “completamente abandonada” e cobiçada pelas nações europeias
(MENDONÇA, 2005, p. 48, vol. I)11.

Cinco são as peças legislativas determinantes neste processo,


cronologicamente: 1. a Carta-régia, de 3 de março de 1755, que criou a
Capitania de São José do Rio Negro; 2. o Alvará de Lei, de 4 de abril de
1755, que “declara os vassalos do Reino da América que se casarem com
índias não ficarão com a infâmia alguma, antes serão preferidos nas terras
em que se estabelecerem, etc.”; 3. a Lei, de 6 de junho de 1755, que
“restituiu aos índios do Grão-Pará e Maranhão a liberdade de suas pessoas,
bens e comércio na forma que nela se declara”; 4. a Instituição da
Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, de 6 de junho de
1755; 5. o Alvará com força de Lei, de 7 de junho de 1755, “cassando a
jurisdição temporal dos Regulares sobre os índios do Grão-Pará e
Maranhão”(SANTOS, SAMPAIO, 2008, p. 80).

Em meados do século XVIII, a região ocidental da Amazônia passou por uma


estruturação com a implantação de várias leis para melhor controlar a população
que ali vivia. Neste contexto de mudanças na Amazônia “um conjunto bem articulado
de fatores concorreu para que a Coroa portuguêsa se dignasse a legislar em favor
da criação de um aparelho de Estado nos confins da Amazônia” (SANTOS,
SAMPAIO, 2008, p. 80). Corroborando com Santos e Sampaio, Farage (1991, p. 81),
relata que:

[...] Uma forte justificativa para a criação de tal unidade administrativa era o
controle de entrada de holandeses pelo Rio Branco. O povoamento do
Negro, acompanhado da construção de uma fortaleza no rio Branco,

11 As fontes referentes ao Grão-Pará, ao longo de todo o período colonial, particularmente a


correspondência de Mendonça Furtado (MENDONÇA, 2005), de fato reiteram a ideia de abandono e
pobreza desse Estado, endossada pelo organizador dessas cartas (o historiador Marcos Carneiro de
Mendonça) e pela historiografia da década de 1960, por exemplo. No entanto, uma historiografia mais
recente tem questionado esse lugar-comum, procurando demonstrar a grande atenção dispensada
pelo Conselho Ultramarino ao Estado do Grão-Pará ou Maranhão (CHAMBOULEYRON, 2010).
37

garantia a defesa da colônia contra eventuais tentativas de invasão por


aquela rota. Uma unidade administrativa no rio Negro tinha também um
valor conjuntural, para fornecer infraestrutura ao encontro das comissões
espanholas e portuguesas, que afinal terminou por não acontecer
(FARAGE, 1991, p. 81-82).

Assim, a Coroa portuguesa tinha uma forte razão para estabelecer essa
Capitania complementando o poderio do europeu na Amazônia. A colonização do
Rio Negro, e a criação do Forte São Joaquim na região do rio Branco eram mais
uma estratégia do governo Português para manter afastados os invasores
estrangeiros que se aventuravam pelo Rio Branco. Desta maneira era construída
uma estrutura que servia de base para os colonizadores nesta localidade. Portanto,
foi necessário estabelecer “Barcelos como a capital da nova Capitania de S. José do
Rio Negro” (MENDONÇA, 2005, p. 48, vol. I). Compreende-se que muitas mudanças
ocorreram na Amazônia por conta da política de Pombal.
Nesse processo, também teve uma grande importância a mudança da capital
do Estado, de S. Luís do Maranhão para Belém do Pará. Tudo ocorreu por conta da
“abertura do caminho do Mato Grosso pela via fluvial do Amazonas, do Madeira e do
Guaporé; por se ter fundado a Vila Bela e ainda por se ter criado para maior
segurança dessa importante região”, a então Capitania de S. José do Rio Negro
(MENDOÇA, 2005, p. 48, vol. I).
Sobre a criação da Capitania de São José do Rio Negro, Oliveira (2003),
afirma que a instalação da capital em Barcelos era uma união dessa rede de
“expansão político-administrativa, favorecia uma melhor compreensão tanto dos
mistérios da selva e sua cartografia aquática como dos selvagens habitantes da
região, além da presença do Estado português” (OLIVEIRA, 2003, p. 83). Do mesmo
modo, os representantes da Coroa portuguesa realizaram expedições de
identificação dos caminhos fluviais que davam “passagens tanto para a bacia do rio
Branco como para as do rio Essequibo e do rio Orinoco, garantindo o controle da
aproximação dos colonizadores das nações rivais espanhóis e holandeses”
(OLIVEIRA, 2003, p. 83). Depois de se estabelecer uma estrutura política-
administrativa, procurou-se fazer o reconhecimento geográfico da área como
também dos invasores que estavam adentrando essa parte da Amazônia.
Desta forma, um dos objetivos do poderoso ministro do rei D. José, Sebastião
José de Carvalho e Melo, era colonizar a área da “região amazônica no Rio Negro
com expansão até o Rio Branco, contando, para isso com o apoio de seu meio-
38

irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, o governador e capitão-mor do


Estado do Grão-Pará e Maranhão” (OLIVEIRA, 2003, p. 83). Neste contexto de
ocupação no ano de 1757, foi nomeado para governar a nova capitania de São José
do Rio negro o então sobrinho de Mendonça Furtado, o Coronel de Infantaria
Joaquim de Melo e Povoas (OLIVEIRA, 2003, p. 83).
Os relatos de (SAMPAIO, 1850 [1777], p. 4) lançam luz sobre o caráter
indígena da Capitania de São José do Rio Negro na segunda metade do século
XVIII, pois a respeito de Silves ele diz o seguinte:

A vila foi erecta pelo primeiro governador desta capitania o illustrissimo, e


Excellentissimo Joaquim de Melo e Povoas. Tem muitos moradores
brancos. As nações de índios, que pertencem a habitação, são Aneaqui,
Baré, Caraias, Baéuna, Pacuri, Comani. As mulheres desta ultima nação
são formozas, e agradáveis.

Ressalte-se que na citação de Sampaio a expressão “muitos colonos” é


relativa; eram “muitos” se comparados a outras povoações (como as do rio Branco)
em que não havia nenhum branco ou havia bem menos brancos do que em Silves.
Na verdade, o próprio Sampaio dá conta de que essa vila tinha, em 1775, 100
habitantes “livres à exceção de índios aldeados”, 413 índios aldeados e 34 escravos
africanos, totalizando 547 pessoas. Ora, o primeiro grupo incluía principalmente os
brancos, mas também índios não-aldeados, mamelucos, cafuzos e mulatos livres; o
segundo grupo, composto exclusivamente por índios das etnias “Aneaqui, Baré,
Caraias, Baéuna, Pacuri, Comani”. Logo, os “muitos moradores brancos” eram
menos de 18% do total da população da vila. Contudo para essa época que
corresponde o período colonial, eram muitos, assim como na capital.
A capital que tinha, em 1775, 161 habitantes “livres à exceção de índios
aldeados”, 721 índios aldeados e 59 escravos africanos. Esses grupos perfazem 941
almas. Os brancos eram, então, menos de 17% da população da capital, apesar de
concentrar funcionários civis e militares.
Tanto Silves e Barcelos quanto as demais vilas e lugares eram, até 1755,
aldeamentos missionários. A primeira chamava-se Saracá e, a segunda, Mariuá.
Todas essas povoações tinham nomes indígenas até que Mendonça Furtado e Melo
e Póvoas passaram a “erigi-las” em vilas e lugares com nomes portugueses.
De acordo com Patrícia Sampaio (2008, p. 54), essa era uma política do
governo português com caráter estratégico-militar. Desta forma, diante das
39

“disposições do novo Tratado de Limites e a necessidade de assegurar a soberania


portuguesa na região, é impossível descartar a importância do Negro como área
prioritária de abastecimento de mão-de-obra” (SAMPAIO, 2008, p. 54). Assim
percebe-se que essa importância da região para os colonizadores vinha de décadas
passadas, outro fator relevante nesse período era as “características de reprodução
interna da economia regional, estreita (mas não exclusivamente) vinculada à
extração de produtos florestais que compunham a maior parte das exportações
regionais do período” (2008, p. 54). Desse modo as estruturas foram sendo
organizadas para dar mais suporte aos colonizadores que queriam manter seu poder
nestas vastas áreas amazônicas.
Para Fonseca (2016) os indígenas aldeados da capitania do Rio Negro, era
“um número pouco superior ao de apenas uma das freguesias de Belém. A
população de pessoas livres exceto índios aldeados, somada à de escravos
africanos, provavelmente não ultrapassava muito as mil pessoas nesse ano”
(FONSECA, 2016, p. 153). Portanto conforme as pesquisas, a população da região
era apenas de 6 mil pessoas, contando com todos que habitavam a Capitania do
Negro .nos anos de 1762.
Ainda de acordo com o autor a “categoria “pagãos”, que não surge em outros
levantamentos encontrados, é muito significativa por dar uma dimensão da
importância dos descimentos recentes, de contingentes ainda não batizados”. Assim
nota-se que essas pessoas configuravam um número bem expressivo para os
descimentos feitos na época (FONSECA, 2016, p. 153).
O ouvidor e intendente Francisco Xavier Ribeiro Sampaio, ao descrever as
povoações da Capitania do Rio Negro, ressalta que todas são compostas por
diferentes nações indígenas que lá habitam, nessas vilas também se encontra
brancos, contudo são os índios os de maior número.
Nesse contexto Fonseca (2016) aborda em sua dissertação, que “São José
do Rio Negro era a única capitania da América Portuguesa formada basicamente por
povoações de índios inclusive sua capital. É o que atestam todos os censos do
último quartel do século XVIII, utilizados neste trabalho”. Sendo assim fica patente
que a Capitania de São José do Rio Negro é uma Capitania indígena
40

CAPITULO III AS RELAÇÕES ENTRE AS POVOAÇÕES NA CAPITANIA DO RIO

NEGRO NO PERÍODO ESTUDADO

3.1 Trocas

Ao longo dos primeiros séculos de colonização, “os índios foram parceiros


comerciais dos europeus, trocando por foices, machados e facas o pau-brasil para
tintura de tecidos e curiosidades exóticas como papagaio e macacos, em feitorias
costeiras” (CUNHA, 1992, p. 14).
Diante da expansão dos colonizadores, a rede de trocas veio se constituir e
se fortalecer fato esse que favoreceu as relações pacíficas dos contatos iniciais e
conforme as potências europeias penetravam em direção aos sertões, o contato
com os nativos aumentavam e as trocas iam alcançando grandes proporções,
atingindo as regiões do Orinoco, Essequibo, Branco, Negro e Amazonas, abrindo
assim, espaço, a dominações e fixação de colônias (casas-fortes, feitorias
comerciais e missões) por parte dos colonizadores, portugueses, holandeses,
franceses, ingleses, espanhóis e irlandeses, além de alianças com grupos indígenas
(DREYFUS, 1993; CHAMBOULEYRON, 2006).
O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, em viagem ao rio Negro, expõe
que entre todos os grupos indígenas era comum o uso de “arco e flecha,
balhestilhas”, dentre outras armas que tanto utilizavam para caça, pescar como para
guerrear. Contudo, “ao tempo que governava o estado o Sr. Cristovão da Costa
Freire”, o grande número de armas de fogo que se achava entre alguns grupos
indígenas, vinha se mostrando bem elevado e ao encontro dessa ocorrência, o Sr.
Cristovão, ordenou, ao coronel “José da Cunha d’Eça encarregando de subir os
sertões do Amazonas, Negro, Solimões e Madeira” em forma de regimento datado
em “17 de julho de 1716”, que resgatasse essas armas de fogo que se encontrava
principalmente no poder das nações “Manáos, Xapuenas e Matiuenas”. Armas essas
introduzidas pela via de redes comerciais, sobretudo pelos holandeses, que
41

conduzia sua estratégia de dominação, diante das correntes redes de trocas de


mercadorias usando-se das fragmentações interétnicas (1888, p. 05-06).
Ao encontro dessa relação de troca, podemos citar também os caripunas do
Rupunuri, assentado próximo do rio Tacutu: “são os agentes que empregam os
holandeses para negociação de escravos” (FERREIRA, 2006, p. 18). Ferreira
acentua também que frente a esse escambo se encontra os “iaricunas”, que se
usando de suas armas “zaravatanas” e “bracanga” as trocava com os “caripunas”
para adquirir os seus escravos (2006, p. 18).
Percebem-se, no relato do viajante, que os grupos indígenas, foram o
principal agente dos colonizadores diante das redes de escambo, conhecedores da
floresta e tudo que ela produzia os indígenas, desprovido de “ambição” e ao mesmo
tempo “iludido” pela mercadoria do europeu, favoreceu o entrosamento do
colonizador no sistema multidirecional de trocas comercias que o mesmo
percebendo as fragmentações interétnicas, passou a utilizar os serviços dos índios
para colher às drogas dos sertões e para adquirir escravos para trabalhar em suas
plantações. Frente a essas práticas se encontrava a participação ativa de
intermediários índios, ou seja, um principal (grifo meu).
Nessa direção, Sampaio (1850 [1777], p. 208-209) apresenta o pirata
Ajuricaba12 (principal) pertencente ao grupo indígena dos Manoa, em meio às redes
de escambo, assaltava as populações do rio Negro para vender aos holandeses. Da
mesma forma, Antônio Porro descreve que os Manaos do médio rio Negro diante
desse circuito comercial “traziam lâminas de ouro do Içana, urucu, raladores de
mandioca, redes de miriti, cestos e tacapes “que lavram curiosamente”, e os
forneciam aos Aisuari, Ibanoma e Yurimágua” (1992, p. 36). O autor segue
descrevendo que os Cauauri ou Caburicena que viviam entre o Negro, o Japurá e os
Solimões da mesma forma o faziam:

[...] Eles desciam até a várzea do Solimões para adquirir dos Yurimágua
umas contas de caracóis “mais apreciadas por aquelas gentes do que as
contas de vidro”. Com essas contas compravam, em alguma tribo do
interior, escravos que levavam para o norte; atravessavam o rio Negro junto
à foz do Branco, onde entravam os escravos aos Guaranágua ou
Uaranacoacena, que por sua vez os forneciam aos holandeses em troca de
armas e ferramentas (os holandeses subiam o Essequimbo e o Rupununi e
encontravam os Guaranágua nas cabeceiras do rio Branco).

12 O principal Ajuricaba é o mais conhecido exemplo dessa rede comercial (SAMPAIO, 1850 [1777]).
42

Frente a esse sistema de troca comercial, pode-se observar que os


estrangeiros se aproveitavam muitos dos grupos indígenas para fazerem grandes
negócios. Pois não havendo mercados formais em que se apresentassem as
“drogas do sertão” e os “frutos”, vendiam ou trocavam seus produtos por objeto de
pouco valor e esses produtos ao se encontrar na mão dos negociantes europeus as
vendiam por altíssimo preço. Frente a esses negócios encontram-se os “tapuias
mansos” (aldeados) das missões, os quais brancos enganam com alguns “bolórios,
facas, e cousas de pouco custo”, como descreve o cronista João Daniel:

Estando eu em missão, chegaram uns militares, e foram pela povoação a


regatar, ou comprar, alguns viveres: a pouco espaço de tempo os vi voltar
com alguns viveres, e entre eles traziam preso um grande javali, ou porco-
montês, que sustentava por regalo uma índia; admirando o regaste por
saber a grande estimação que fazia dele a dona, lhe perguntei quanto lhes
tinha custado. Uma faca flamenga me responderam; e iam mui contentes da
sua compra; e desta forma são as mais, porque não fazem mais ajuste do
que ai têm uma faca por este javali, e logo o vão conduzindos; e não
querendo a índia aceitar, lha deitam aos pés, e vão andando, e deste modo
fazem a maior parte dos contratos, que ao depois vão vender às cidades a
100 por um (2004, p. 123, vol. II).

Pode-se perceber nos relatos dos cronistas da época, que antes mesmo do
contato, já havia grandes rotas de comércio entre os grupos indígenas, assim como
a escravidão indígena já se fazia presente entre eles. Após a conquista esse sistema
comercial de trocas passa ser aplicado com mais frequência, diante da participação
ativa dos expedicionários, e na medida em que a intermediação exercida por estes
grupos nos circuitos de troca iam se desenvolvendo, os índios iam se inserindo cada
vez mais nesse circuito.
Fonseca (2016) acentua que a putava “era um importante meio das
populações indígenas obterem bens manufaturados europeus, mas constituía uma
relação de troca que não se confundia com a compra e venda”. Como narra
Mendonça em seu testemunho (2005, p. 408-409, vol. I):

Na peregrinação em que andei por estes sertões uma das grandes


despesas que fiz foi em bagatelas que dei a estes Tupuias, que é o costume
entre eles logo que chega pessoa grande à sua aldeia virem-lhe todos fazer
seus presentes, de frutas e farinhas, e como não era razão que eu ficasse
lhos recompensasse na qualidade de fazenda que V. Rª verá do rol incluso
a qual nesta terra custa dinheiro considerável, e em Lisboa poderei fazer
pela quarta parte esta despesa, porque como dei em Cigano, e aquelas são
as povoações em que devo fazer os meus provimentos e nelas devo
receber os presentes da gente da terra, porque se lhe não pode rejeitar sem
escândalo comum daqueles miseráveis, é necessário satisfazer-lhes, e esta
43

é a moeda que eles mais estimam.com aquela fiel vontade que devo.
Guarde Deus a Rmª muitos anos. Pará, 22 de novembro de 1752 [...]

Relação do que se pede na carta acima:


12,, Milheiros de agulhas umas mais grossas que outras, mas nenhuma das
finas.
12,, Milheiros de anzóis estanhados sortidos.
500,, Berimbaus.
6,, Dúzias de pentes de marfim ordinários.
Alguns maços de velório.
6,, Dúzias de pentes tortos de madeira da terra que se tira da cabeça dos
bois.
2 ou 3,, Peças de fitas de largura de dois dedos ordinárias azuis vermelhas,
e verdes.
6,, Dúzias de espelhos ordinários de pau com sua corrediça.
4,, Dúzias de navalhas de barba ordinárias.
1,, Barril de facas flamengas.
1,, Dúzia de peças de panico ordinário.
4,, Dúzias de tesouras pequenas e ordinárias.

Nesse mesmo contexto, o ouvidor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, em


visita de correição pelas povoações capitania do Rio Negro, (1774-1775) descreveu
o mesmo costume em Silves (a povoação mais a leste da capitania, no rio
Amazonas), mesmo depois de décadas de convivência de seus habitantes “Aneaqui,
Baré, Caraias, Baeúna, Pacuri, Comani”, com “muitos moradores brancos”:
:
[...] He costume de todas as Índias presentearem o Ministro nestas
ocasiões com frutas das suas roças, com mandiocas, beijus, que he o pão
feito dela &c., mas o fim destes presentes he adquirir por eles algumas
couzas, vindo a ser assim humas compras violentas; pois que he necessário
dar-lhes fitas, pentes, anzoes, pano de algodão, aguardente, a que todas
são inclinadíssimas, e o que mais he que he necessário dar a cada huma de
persi alguma couza, já para isso costumão vir cinco, e seis, ainda que seja
só hum o prezente: e também se a família he humeroza, divide-se em dous,
ou três ranchos, e cada huma vem por sua vez. Forão muitos os presentes,
que aqui tive, que satisfiz com fitas, e a maior parte com aguardente, que
era o que mais me agradecião (SAMPAIO, 1825, p. 4).

Seguindo viagem pelas vilas e lugares da povoação da Capitania, Sampaio


volta a narrar sobre os presentes, agora na povoação de Avelos na foz do Coari (rio
Solimões) “Tive aqui grande número de presentes de várias frutas, que as índias
com interessada liberalidade me trouxerão” (Sampaio, 1825, p. 24). Descreve ainda
que essa povoação composta por “Sorimão, Júma, Passé, Uayupí, Irijú, Purú,
Catauuixí”, também tinha convivência com “moradores brancos”. Saído da vila de
Avelos, Sampaio seguiu sua viagem que passando pela vila de Ega chega ao lugar
de Nogueira, situada em Tefé, essa vila era povoada pelas nações Jurí, Catauixí,
44

Juma, Passé, Uayupí, Yauaná, Ambuá, Mariarána, Cirú e alguns brancos. Esses
moradores indígenas também tinham o costume de presentear:

As índias desta povoação são menos bisonhas, que costumão ser as de


outras. [...] Em todo hum dia, que neste lugar me dilatei, apenas pude ter
algumas horas para empregar nos objetos do meu officio. Erão continuas as
visitas das índias com presentes. A varanda das cazas, em que rezidi,
parecia huma feira. Estava cheia de paneiro de farinha de mandioca, de
galinhas, frangos, e outras avez domesticas, de frutas principalmente
ananazes, banânas, ambaúbas. Bem se entende, que tudo isto se paga.
Dizião primeiramente que nada querião; porem logo querião tudo, quanto se
podia imaginar, e ao mesmo tempo se satisfazião com o que se lhes dava,
respondendo pela sua lingoa = Eré; que quer dizer, está bom (SAMPAIO,
1825, pp. 35-36).

Com as reformas pombalinas que teve inicio em 1750, pelo ministro


Sebastião José de Carvalho e Melo e com a criação da Companhia do Comércio do
Grão-Pará e Maranhão, em 6 de junho de 1755, essas relações de troca ganharam
uma nova proporção, uma vez que as reformas pombalinas estimulavam uma
economia voltada ao incentivo à lavoura, a manufaturas, o comércio interno e
externo.
Perante a vigência da nova legislação, implantada pela Reforma Pombalina,
caberia à figura do “Diretor” colocar em prática essas reformas examinando as
características da região, da povoação procurando os produtos mais vantajosos para
o comércio, além de ser responsável de arrecadar e entregar ao Provedor da
Fazenda Real, os dízimos cobrados de todos os frutos cultivados e todos os gêneros
adquiridos, sendo um sexto do valor desse tributo para o “Diretor” como forma de
renumeração pelos seus serviços (§§ 33 e 34).
Contudo, para esse feito o Diretório (1758) recomendava:

aos ditos Directores, que por nenhum modo consintão, que os Índios,
comerceiem ao seu pleno arbítrio; porque não podendo negar-se-lhes a
liberdade de venderem, ou com mutarem os fructos, que tiverem cultivado,
àquellas pessoas, e naquelas partes donde lhes possa resultar maior
utilidade; nem devendo prohibirse aos moradores do Estado o comerciar
com os ditos Índios nas suas mesmas Povoaçoens; [...] como subposto da
parte dos Índios o desinteresse, e a ignorância; e da parte dos moradores, o
conhecimento, e ambição; ficando a venda dos gêneros ao arbítrio, e
convenção das partes, faltaria no mesmo commercio a igualdade; não
poderão os Indios até segunda ordem de Sua Magestade fazer negocio
algum sem a assistência dos seus Directores, para que regulando estes
racionavelmente o preço dos fructos, e o valor das fazendas, sejão
recíprocas as utilidades entre huns, e outros comerciantes [...] para
favorecer a liberdade do commercio, permitto, que os Índios possam vender
nas.suas. e em outras quaisquer povoaçoens os generos,.que adquirirem, e
'os fructos, que cultivarem, exceptuando unicamente os que forem
45

necessários para a sustentação de suas casas, e famílias: o que só poderão


fazer achando-se presente os seus Directores na forma acima declarada
(DIRETÓRIO, 1758, § 39-43).

Com a vigência da nova legislação, Pombal deu atenção especial â cobrança


de impostos estabelecendo rígido controle sobre eles. Ao encontro desse processo,
os povos indígenas das povoações e oficial índio passaram a ser inseridos
ativamente nas atividades comerciais, tornando-se a figura principal dessas ações,
passando cada comunidade agora envia sua própria canoa e trabalhar em seu
próprio benefício, participando ativamente da produção de gêneros que veio compor
o mercado de exportação. Sendo o gentio o lavrador e o operário dos
estabelecimentos manufatureiros, sob a vigência de funcionários do Estado.
Para colher os gêneros se faz a expedição das canoas. Essas entradas eram
feitas periodicamente pelos indígenas, que remavam por perigosos rios, até a
vizinhança dos sertões, “donde ali se estabelecia para extrair as drogas e
especiarias”. Para a colheita dos gêneros “o cabo” dividia os índios em pequenas
canoas (PESTANA, 2007, p. 25-26).
Assim sendo, Pestana disserta que:

Extraem-se as drogas à custa do trabalho, das fomes, de perigos de vida,


de ataques dos Muras, que são inimigos de corso, de nenhuma
reconciliação, e neste tempo tem os Índios sofrido muitas violências e mau
trato dos cabos, que sendo de ordinário soldados, e tendo de interesses o
quinto, costumam corresponder com um pau aos Índios que trazem ou
colhem poucos gêneros, por não quererem dissipar suas esperanças e sua
cobiça.

Em presença da economia regional, baseada principalmente na operação da


colheita dos gêneros da floresta, os indígenas de tudo faziam: os transportes de
canoas, a pesca, a coleta de tartarugas no Pesqueiro Real do baixo rio Branco, os
serviços do Forte e o cultivo de roças, e os serviços domésticos nos aldeamentos
para o seu sustento e da guarnição militar (REIS, 1957, p. 35).
Sampaio (1777, p.18) e Ferreira (2006, p. 96) ao descrever as vilas e lugares
da Capitania de São José do Rio Negro, deixou um minucioso levantamento dos
produtos que ali eram cultivados pelos grupos indígenas como o algodão, o tabaco,
a maniva, o milho, o café, o feijão, arroz e de outros muitos produtos, além de
inúmeros gêneros “salsa parrilha, oleo de cupaiva, banha de tartaruga” e dentre
outros gêneros que são abundantes nesses lugares e que anualmente são colhidos
46

pelas embarcações da Capitania do Pará, e rio Negro em que consiste o seu


principal comércio das drogas do sertão.
Ferreira (2006, p. 197) ressalta que a povoação de Nossa senhora da Guia,
que tinha como diretor o soldado Joaquim Tomás de Aquino, fabricava o anil junto
com a sua gente. Além dessa produção, Alexandre Rodrigues descreve as técnicas
pela qual a indústria dos índios consistia nos ralos em que se rala a raiz da maniva:
eles “quebram em lascas miúdas quartzo das cachoeiras, a que chamam pedra de
ralo embutem as lascas em suas tábuas, distribuindo o embutido em forma
dezizezais e a envernizam com o leite da sorva, corado com o tauá”. Por serem bem
estimados os ralos desta povoação, “as capitanias do estado passaram a fazer
encomendas destes, onde seus desertores os vendem a 600 até 640 réis na
povoação, para na cidade se pagarem a razão de 1$000 por cada um”.
Nessa mesma direção encontra-se John Monteiro ao fazer uma analise da
obra do cronista Alexandre Rodrigues Ferreira, traz a em “memória a produção de
cuias que fazem as índias de Monte Alegre e de Santarém”. Onde o autor ressalta
que a produção anual era de 5 a 6000 cuias, e que cada cuia alcançava de 100 a
120 réis. A produção destinava-se aos brancos, assim sendo procuravam
aperfeiçoar. Contudo, Monteiro acentua que as índias reservavam uma parte da
produção para fins próprios, com implicações não apenas materiais como também
simbólicas (2001, p. 73-74).
Percebe-se diante dos anseios comerciais, que os índios passaram a
mobilizar seus conhecimentos para se posicionar diante das grandes mudanças que
viam se constituindo frente à nova roupagem em que se encontrava a Amazônia.
Pois buscaram se apropriar de forma diferenciada da nova legislação e das posições
que lhes eram atribuídas.
Contudo, fica patente, todavia, que a Coroa Portuguesa com base em suas
reformas, passou a ter um cuidado especial para com o comércio. Principalmente
com as “Drogas do sertão” como a banha de “tartarugas, azeite de andiroba, óleo de
cupaiva, salsa parrilha, baunilha, cacáo” e de outros muitos gêneros que na vigência
da nova legislação alcançou grande proporção frente ao comércio externo e interno.

3.2. Alianças - Descimentos


47

Com a penetração e a expansão das expedições europeias nos sertões,


muitas casas fortes, feitorias comerciais e missões passaram a ser espalhar na
região. Em função dessas expedições muitos índios passaram a ser aldeados e
alianças passaram a serem formadas, principalmente com o comércio de escambos
de trocas, alianças essas para caçar escravos, colher as drogas dos sertões, busca
novas estratégias e para combater o poder dos opressores. Pois aproveitando das
relações interétnicas os estrangeiros aliaram-se as grupos indígenas que vieram
constituir o grosso dos contingentes de tropas de guerra contra inimigos tanto
indígenas quanto europeus. Como identifica Perrone-Moisés (1992, p. 121):

Uma das principais funções atribuídas aos índios aldeados é a de lutar nas
guerras movidas pelos portugueses contra índios hostis e estrangeiros.
Além dos índios das aldeias, são também chamadas a lutar nessas guerras
"nações aliadas" cuja aliança deve ser reafirmada nos momentos em que há
necessidade de grandes contingentes de guerreiros, o que nem sempre as
aldeias podiam fornecer (Carta do governador geral do Brasil de 1/10/1654,
por exemplo).

Sabe-se que as potências metropolitanas perceberam desde cedo as


inimizades entre os grupos indígenas como é o caso dos franceses e portugueses
que no século XVI, em guerra aliaram-se respectivamente aos “Tamoios e aos
Tupiniquins”; ou dos holandeses que, no século XVII, aliaram-se a grupos dos
“tapuias” contra os portugueses (CUNHA, 1992, p. 18).
Em meio à expansão e a conquista da América portuguesa inúmeras nações
vieram constituir alianças com os estrangeiros como é o caso do principal Ajuricaba,
de nação Manáo, que com aliança com os holandeses vivia assaltando os povos
indígenas do rio Negro para vender ao mesmo (1850 [1777], p. 209). Perante esse
agente, Ferreira (2006, p. 118) discorre que:

Da aliança que tinha contraído com os holandeses da Guiana, cuja bandeira


arvorara nas popas de suas canoas, era forçado efeito o da negociação dos
índios que cativava. O seu poder e despotismo lhe franqueava o passo por
todo o Rio Negro. Para o atalhar, cometeu o sobredito general a Belchior
Mendes um troço de infantaria, ordenando-lhe que guarnecesse com ele as
povoações invadidas. Também delegou nele os seus poderes o Dr. ouvidor
geral do Estado José Borges Valério, para legalmente devassar das
violências representadas. Com a chegada de Belchior Mendes, informaram-
no os queixosos de que pouco antes tinha o Ajuricabá invadido a aldeia do
Aracari, hoje lugar do Carvoeiro, e nela cativado a muitos índios.
48

Frente ao quadro de alianças, a documentação revela que os grupos


indígenas frequentemente passavam de uma aliança para outra. Essa prática se
dava possivelmente pelas vantagens que esse índio poderia vir a receber lutando ao
lado de seu aliado ou por alguma hostilidade com outros grupos indígenas, que
eram em geral mais circunstanciais do que duráveis. A exemplo está o principal
Ornairaé que, antes aliado dos espanhóis, abandonou-os pela aliança com os
portugueses (FERREIRA, 2006).
Além das vantagens e hostilidades que as alianças poderiam proporcionar, os
povos indígenas, com medo das enfermidades como “sarampo e bexigas” que vinha
arrasando aldeias inteiras, passaram a desertar de sua povoação, como a nação
Purú da vila de Avelos (SAMPAIO, 1850 [1777], p. 24). Essas epidêmicas vieram
dizimar muito mais os povos indígenas do que as guerras juntas, principalmente pelo
fato dos índios ficarem isolados nos aldeamentos.
Alencastro (2000, p. 122) afirmou que desde as entradas do colonizador na
América portuguesa “o método em fixar tribos de índios “mansos”, aliadas, entre os
moradores e os índios inimigos, proporcionou um grande crescimento frente à
política de “descimentos””, que exercido diante da persuasão e pelas pressões das
autoridades civis e religiosas passaram por vezes recrutar aldeias inteiras para
vizinhança dos estabelecimentos europeus. Para essa prática Daniel (2004 p. 57,
vol. I), apresenta que os estrangeiros usavam-se da ideia de proteção e bem estar.
Perrone-Moisés sublinha, que confinante as tropas de descimento a presença
de missionários era obrigatória como estabelece a “Lei de 24/2/1587 e reafirmada na
Lei de 1611” (1992, p. 118). Acentua, ainda, que os métodos recomendados são
invariavelmente a persuasão e a brandura e que em hipótese alguma deveriam ser
forçados a descer. Nesse contexto, diante do conhecimento que possuem da terra e
da língua, os grupos indígenas aldeados e aliados passaram a fazer parte de
descimento de grupos indígenas se tornando assim os elementos principais para
esse feito. Esse ato se fazia sob a liderança de um principal que negociava as
condições da adesão de seu grupo com as autoridades régias ou com os
missionários. Que ao ser “descido” eram convertidos à fé católica e, durante todo o
período colonial, eram considerados livres e não podiam legalmente ser
escravizados.
Frente ao projeto de descimento, muitos principais passaram a executar essa
diligência, aproveitando sua posição para persuadir os grupos que os descia a
49

desertar das vilas e lugares em que se encontravam diante das amarras do


colonizador. Por vezes, os principais fugiam com eles também.

[...] Pelas 9 horas da noite pernoitamos na ponta da ilha da boca do rio


Majari que deságua no Uraricoera pelo norte. É rio estreito, a sua água é
branca; o seu curso é dilatado [prolonga-se o Uraricoera e vai demandar a
Serra de Tipiqui superior a Caiá-Caiá]. O gentio que antigamente o habitava
eram os irimicanas, foram algum dia descidos pelo defunto índio Pedro do
lugar de Airão, o qual desertou com eles. Reduziu-os agora para a
Conceição Nova o cabo-de-esquadra Miguel Arcanjo, mediante as práticas
do principal Ornaimé que o acompanhou na dita diligência. É rio de muitas
cachoeiras. [Nele é que os piralvilhanos, incorporados e induzidos pelos
caripunas que haviam fugido aos barbadinhos espanhóis, sabendo que eles
haviam contraído amizade com os pesalvilhos para os reduzir a eles
caripunas, com eles se incorporaram e os mataram abaixo da 1ª cachoeira]
( FERREIRA, 2006, p. 17).

Ferreira (2006, p. 142) narra, que o senhor José Antônio da Cunha, ao tempo
que dirigiu a povoação de Nossa Senhora do Loreto (1772), ao qual fundou com
parte dos índios desertados de “Santo Antônio do Castanheiro Velho”, contava com
60 índios de machado e de alguns casais dos grupos macu e que para desertarem
para o mato, “bastava que o diretor os mandasse trabalhar”.
Com base nas fugas dos grupos indígenas, pode-se averiguar que eles não
se encontravam satisfeitos com as ordens dos diretores, que usando-se do seu real
poder, direcionavam os indígenas para todos os tipos de serviços na colônia e fora
dela, sendo seu salário ferramentas ou duas varas de pano.
Ferreira expõe que o processo de construção dos aldeamentos, da Capitania
do Rio Negro e dos índios da região do rio Branco (1775-1776), foi igualmente
desencadeado com a política de descimento que teve com participação ativa os
principais, como na povoação de Nossa Senhora do Carmo, que teve como
encarregado o índio Leandro Portilho; a povoação de Santa Bárbara, onde foram
descidos os gentios “Paravianas”, debaixo dos principais Jarimé e Guirianie e outros
(2006, p.21). Observando assim, que mesmo estando diante do ministério
pombalino, essa prática não se tem deixado de acometer, pois:

Em 1781, fez o principal Francisco Xavier o descimento de 40 índios da


nação juri. Eram 14 homens, 15 mulheres e 11 menores entre machos e
fêmeas. Dos 14 homens, já se ausentaram 8. E no de 1783, fez o principal
Silvestre José outro descimento de 16 pessoas que também eram juris; a
saber: 9 homens, 4 mulheres e 3 rapazes. Dos homens, ausentaram-se 3 e
faleceu 1; e das mulheres, ausentou-se 1 e faleceram 2. No mesmo ano,
tornou a subir o principal Francisco Xavier e teve a fortuna de descer 27
índios passés: eram 8 homens, 9 mulheres e 9 menores de um e outro
50

sexo.35 Dos homens, ausentou-se 1 e faleceram 3, das mulheres também


se ausentou 1 e faleceram 2. No ano passado de 1785, subiu o principal
Calisto José e desceu 11 índios e 1 índia uaupés e outra macu. Pouco
depois do mês de março do mesmo ano, desceu o índio Manoel Maurício 2
índias e 1 índio menor. Esta deserção que fazem os índios descidos sucede
e sucederá sempre, enquanto se não trocarem os descimentos das
(FERREIRA, 2006, pp 120-121).

Com o ministério pombalino, novas formas de aliança passaram a surgir, as


alianças matrimoniais. Designada pela a legislação, a lei de casamentos de 4 de
abril de 1755 e estimulada pelo diretório em 1758, passa a se consolidar entre
nativos e brancos solidificando assim uma nova roupagem diante da sociedade
local. Com essa nova aliança, que se valia entre o casamento com filha de um
principal, a Coroa Portuguesa, esperava não apenas espalhar a cultura e o estilo de
vida português, mas contribuir na defesa e no acréscimo das povoações.
Para conseguir tamanha proporção o recomendava aos diretores que se
apliquem um incessante cuidado pelo o matrimonio entre os brancos e os índios
para que por meio desses laços venha extinguir aquela odiosa separação (§. 88)
estimando assim as suas alianças e o seu parentesco ao qual desejavam
cordialmente conservar com eles (DIRETÓRIO, 1758, § 91).
A mestiçagem processada sob os incentivos do próprio Estado gerou uma
nova população, embora assimilando a uma série de elementos culturais que
permitiram a adaptação à vida, os grupos indígenas conseguiram cultivar muita de
sua cultura.

3.3. Rivalidades e Rebeliões

Posto que as guerras são e sempre foram a destruição do mundo [...] e se


isto sucedeu, e sucede nas repúblicas mais bem governadas com a direção
das leis e com a vigência dos magistrados [...] nos índios do Amazonas e
América vivendo a lei da natureza, sem Deus, sem lei sem Rei, conforme a
vontade de cada um. São pois entre eles muito frequentes as guerras,
guerreando umas nações contra as outras; e uns contra outro povos, e
posto que todos sejam guerreiros, contudo algumas nações são mais
inquietas e propensas a Marte, e cada povoação tem outras aliadas
acometerem, mas também para se darem a mão umas a outra, e se
defenderem acometidas. (DANIEL, 2004, p. 317, Vol. I).
51

Por volta do final do século VXI a Amazônia começa a ser conhecida pelos
europeus. Com a conquista desta região, passa-se a desenvolver um sistema de
alianças, fundada na guerra e no comércio entre as diferentes nações indígenas do
sertão e com os estrangeiros advindos da Europa.
Palco de muitas disputas, que começaram antes mesmo de sua conquista, as
potências europeias, percebendo as relações interétnicas entre as nações
indígenas, passa a utilizar esses índios que viviam guerreando até mesmo contra
sua própria matriz cultural, para lutar ao seu lado, como ressaltou acima o padre
João Daniel.
O cronista João Daniel, em sua obra o tesouro descoberto, relata que ao
tempo dos contatos, os motivos das guerras dos povos indígenas eram por
“comerem uns aos outros, ou por indução dos brancos para venderem os que
apanham ou por causa de se apanharem uns a outros as mulher, sendo o último o
motivo mais banal com que acendiam a guerra” (2004, p. 317, Vol. I).
Ferreira (2006, p. 17), em seu diário de viagem, acrescenta que as guerras
entre os indígenas costumavam acontecer também pela usurpação dos frutos, das
caças e dos pescados dos rios e das terras do território alheio. Pois cada “aldêa
julga-se independente uma da outra que confina com ela se atribuindo o direito
inteiro e exclusivo, que a autoriza, pelo titulo de possuidora, a repelir com a força a
usurpação que se lhe faz”.
Haja vista os contatos com os europeus, o índio passa agora a sustentar uma
competitividade perante o circuito comercial com os seus grupos étnicos Pois
inseridos nas redes de trocas comercias passam a assaltar os povos indígenas das
Capitanias para vender no comércio intertribal pelo qual se insere o trânsito de
mercadorias europeias (FERREIRA, 2006).
No entanto, Ferreira (2006) e Daniel (2004) narra que poucas são as nações que se
acometem uma contra a outra, mais o seu modo de acometer é a traição, utilizando-
se de repentinos assaltos fazem quando seus contrários estão descuidados ou
ocupados em festas ou em suas roças. Quando não podem fazer outros danos uns
aos outros, queimam as povoações, que são de palha, pelos rios apanham as
mulheres e meninos que não podem fugir, os matam ou os tomam como seus
escravos. Haja vista a ferocidade dos inimigos, as nações que se encontram ao
contrário, está sempre alerta fortificando suas povoações com fortíssimas cercas de
pau ou tabocais.
52

Segundo João Daniel (2004, p. 319, Vol. I) ao encontro das guerras, o indígena
usava-se de várias estratégias para capturar seus rivais: se escondiam entre as
folhagens, atrás dos trocos das árvores, faziam tocaias ou subiam em árvores para
vigiar os rios. Para avisar uns aos outros de suas alianças que o inimigo se
aproxima, tocavam a rebate um grande tambor feito de tronco de alguma árvore, o
qual escava por dentro com fogo, que chegavam a soar três ou mais léguas.
Diante das narrativas acima apresentadas, o Ouvidor Sampaio, expõe que a
vila de Borba, situada a margem oriental do rio Madeira que é composta por nações
de índios “Ariquêna, Baré, Torá, Orupá”, viviam sendo perseguidas pelos índios
Jumas, que costumavam roubar e matar os que se achavam despercebidos (1850
[1777], p. 10).

Uma das reiterações desse enredo era protagonizada pelos Muras, que
viviam assaltando os gentios do Rio Negro. Assim sendo o ouvidor Sampaio mostra
preocupação com os Muras, grupos independentes e dispersos compostos por
múltiplas etnias agregadas, que não tinham aldeias fixas e realizavam saques em
variadas povoações da capitania do Rio Negro (Silves, Borba, Purú, Maués, Arvelos
e Ega, dentre outras), não deixava estender as culturas, fazendo continhas
incursões sobre as roças, atacando às canoas e aos viajantes e dificultavam a
ligação entre as capitanias do Pará e Mato Grosso (SAMPAIO, 1850 [1777]).

Os cronistas João Daniel (2004); Alexandre Ferreira (2006); Sampaio (1850


[1777]) entre outros, apresentaram que com a conquista dos vastos campos da
região Amazônica, os missionários Jesuítas e de outras ordens adotando o
expediente de reunir grupos culturalmente diversos, tanto aliados como rivais por
meio da política de descimento, passaram a descer tribos inteiras do seu lugar de
origem e assentar em seus aldeamentos conhecidos como (Missões) que ao tempo
de Marquês de Pombal se elevou a vila e povoado. Diante dessa ação, várias etnias
eram confinadas e obrigadas a conviver com culturas e inimigos históricos, em um
mesmo espaço apesar de tal prática estar impedida pela legislação:

A reunião de tribos diferentes nas aldeias está condicionada à vontade dos


índios, e as aldeias devem preferencialmente ser formadas por indivíduos
da mesma nação, de modo que a diversidade dos costumes, e o horror da
convivência com o inimigo não leve os índios a fugirem de suas aldeias,
53

retornando à barbárie (Regimento das Missões de 1686; Carta Regia de


1/2/1701 e Diretório de 1757 e Direção de 1759)13.

Diante das práticas acima apresentadas, o Ouvidor Sampaio, em seu relato


de viagem ao rio Negro descreve a quantidade de etnias que se encontravam
reunidas em cada povoação colonial (como se pode observar no mapa.1). A “vila de
Silves”, localizada no rio Sacará era composta por nações de índios Aneaqui, Baré,
Baeúna, Pacuri e Comani, dedicados ao plantio de tabaco e algodão; “vila de
Serpa”, situada a margem meridional do Amazonas, as nações de índios que
habitam são pela maior parte Sará, Barí, Anicoré, Aponariá, Tururi, Urupá, Jûma,
Juquí, Curuaxiá, Pariquí. Aqui são as tartarugas de extrema grandeza e abundantes;
“vila de Borba”, situada a margem oriental do Madeira, nações de índios que a
compõe, Ariquêna, Baré, Torá, Orupá; “Lugar de Arvello”, situada a margem oriental
do rio Coarí, os índios que compõe, Sorimão, Júma, Passé, Uayupí, Irijú, Purú,
Catauixí; Pelo rio Tefé “a vila de Ega”, situada a margem oriental do rio Tefé, índios
que a habitam são Janumá, Tamuana, Sorimão, Jauaná, Tupivá, Achouarí, Júma,
Manóa, Coretu, Xáma, Papé, Jurí, Uayupí, Cocrúna; “povoação Nogueira”, são
composta por índios Jurí, Catauixí, Júma, Passé, Uayupí, Yauaná, Ambuá,
Mariarána, Cirú conhecido antigamente como Parauarí; “Lugar de Alvares” situado
no pequeno rio Urauá, que pelo sul desemborca no Amazonas, as nações de índios
que o habitam são os Uárú e Marauás; “Povoação de S. Fernando”, alojada a
margem septentrional do Amazonas e próxima a barra do Iça, habitam as nações
Cayuvicénas e Pariána descisdos do Tonatí; “lugar de Castro de Avelans”, os índios
que os habitam são das nações Cambebas do seu fundamento: Pariánas,
Cayuvicenas, Jurís, e Xumánas descidos de Iça; “S. José de Juvarí”, situada na
margem astral do Amazonas, compõe-se unicamente da nação Tecúna, dentre
outras (SAMPAIO, 1850 [1777]).
Mapa 1: Roteiro da viagem de Correição do Ouvidor Francisco X. de Ribeiro
Sampaio (1777) pelas vilas e lugares da Capitania do Rio Negro:

13DIRECTORIO, que se deve observar nas povoações dos índios do Pará, e Maranhão: em quanto
Sua Majestade não mandar ao contrario. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados–Centro de
Documentação e Informação coordenação de Biblioteca. http:// db.camara.gov.br. 1758.
54

Fonte: Sampaio (1850 [1777]).

Compostos por nações indígenas descidas de diversos rios e por alguns


moradores brancos, os aldeamentos missionários foram “regidos em vilas e lugares”
da Capitania do Rio Negro pelo governador do Estado e “pelo primeiro governador
desta capitania ilustríssimo e excelentíssimo Joaquim de Melo e Povoas”. Contudo,
ao adotar o expediente de reunir grupos culturalmente diversos em núcleo de
povoamento com o intuito de facilitar a civilização dos índios assim como à utilização
de seus serviços, a política da Coroa Portuguesa, passou a contribuir direta e
indiretamente para a destruição da autonomia e da funcionalidade das várias
tradições culturais especificas, tanto pela ocasião das expedições como das
doenças (as bexigas) que foram fatais ao Estado:

Em 1776, governando o Ilmo. e Exmo. Sr. João Pereira Caldas, por duas
vezes repetiu o contágio e, ainda que as bexigas de então foram mais
benignas, não deixaram de fazer dano grande, porque, sem contar com os
índios e escravos com os quais a devastação foi tanto mais excedente,
sentiu o seu dano principalmente a mocidade da tropa, sendo vítimas dos
seus estragos dous alferes e oitenta soldados (FERREIRA p. 105).

Ferreira (2006, p. 204-205) ressalta que entre os grupos indígenas, às


hostilidades, se encontrava também entre uma mesma etnia, em que se tinham dois
principais como é o caso de “José João Dari” e “Alexandre de Souza Cabacabari”,
que depois da desavença, cada veio fundar sua própria aldeia. Essas desavenças
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provavelmente se davam para impor a sua autonomia diante dos grupos que ali se
encontravam em sua responsabilidade.
Ferreira (2006, p. 204-205) traz também a questão das moradias dos índios
que são de péssimas qualidades. Narrar que ao passar por sete casas todas se
encontravam mal conservadas, sendo melhorzinha a do índio Luís de Azevedo,
oficial de ferreiro, e duas que pertenciam ao dos únicos moradores brancos, a
melhor é a de Silvestre José Cordovil, a do outro morador Domingos Paes Nogueira.
Nesse povoado não há casa de canoas, nem mais do que uma “igarité” velha e nem
assistência faz na povoação.
A situação em que se encontravam os povos nativos dos sertões
amazonenses levou muitos grupos indígenas a fugir de suas aldeias, assolados
pelas doenças, pela escassez de comida, pelos maltratos e pelos serviços
compulsórios diante da política implantada pelo Coroa Portuguesa, os grupos
indígenas passaram constantemente a desertar de suas povoações, e ir se
embreando nos matos. Ao encontro desse processo, muitos principais vieram há ser
presos ativando ainda mais as revoltas dos grupos indígenas.

Pouco tempo se passou que outra nova prisão dos principais gentios não
desse causa a outra nova deserção. Foi avisado o comandante de que se
preparavam para se ausentarem os principais Pixaú e Aramaná, da
povoação de Conceição. Partiu ele mesmo [a] prendê-los, acompanhado da
competente escolta, e assim o executou, remetendo os em ferros para esta
vila. Escandalizaram-se da prisão os índios moradores da outra povoação
de Santo Antônio e Almas, por onde desceu a escolta que conduzia os
presos, e, receando pouco depois o mesmo, desertaram imitação dos de
São Felipe (FERREIRA, 2006, p. 38).

As revoltas se espalharam de forma rápida pelas povoações das capitanias,


levando assim ao despovoamento das vilas diante da proporção ambígua das
decorrentes fugas dos índios. Assim sendo, o projeto não transcorreu como
planejado, já que o Diretório veio a ser extinto em 1798, tendo dado origem a uma
hierarquia indígena diferenciada dentro dos aldeamentos.
56

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No âmbito do processo de ocupação do Amazônia três fatores foi importante


para a conquista dessa região, os soldados com seus fortes para evitar a penetração
de outras potências europeias, os comerciantes com suas feitorias e os padres com
suas aldeias assegurando a mão de obra indígena. Diante desse quadro inúmeras
redes de trocas se constituíram e vieram fortalecer e favorecer as relações de
contatos e as alianças. Como coloca Dacy Ribeiro (2006, p.309) que:

Com efeito, a ocupação portuguesa do Rio Amazonas se faz, inicialmente,


visando a explorar os franceses, holandeses e ingleses, deserdados no
Tratado de Tordesilhas, que procuravam instalar-se nas vizinhanças de sua
desembocadura. Para isso tiveram que travar lutas e construir fortificações.
Estas começaram a operar na região como feitorias, traficando com os
índios aliados as drogas da mata por bugigangas. Quando se aperceberam
do valor comercial das especiarias assim obtidas, substitutivas das que
Portugal trazia das Índias, um esforço deliberado se empreendeu para
racionalizar e ampliar o negócio.

Nesse contexto, inúmeros conflitos suscitaram em prol dos recursos, naturais


o controle da região e da mão de obra indígena, dando origem a sucessivas
decisões régias, que ao ano de 1750 veio dar início, a um processo de redefinição
das fronteiras e na relação metrópole-colônia, pela Coroa Portuguesa. Nesse
contexto a Amazônia, uma área totalmente marginal, passou a ingressar mais
efetivamente no espaço político-econômico português e a receber a intervenção
direta da metrópole. Para promover essa mudança um conjunto de leis veio ser
publicado em 1755, com a nomeação de Mendonça Furtado para o governo do
Estado colonial, e a mudança da sede do governo de São Luís para Belém.
O conjunto de leis publicado em 1755 terminou uma hegemonia religiosa
nascida com a publicação do Regimento das Missões do Maranhão e Pará, em
1686. Essas leis vieram se tornar a espinha dorsal do Diretório dos Índios que se
estabeleceu com maior força em 1758, promovendo assim os ideários político-
administrativos, das políticas indigenistas como das políticas indígenas (COELHO,
2005).
57

Com o avanço português para os sertões Amazonenses, os povos indígenas


passaram por uma variada mudança, que veio ocasionar grandes impactos na vida
dos povos indígenas, principalmente aos seus costumes. Os elementos que
dimensionaram essa proeza foram os “descimentos”, “resgates”, “guerras justas” e
as variadas formas de cativeiro ilegítimo. Porém, o maior impacto foi às epidemias
provocadas pelos choques epidemiológicos, que diante do contato devastou um
grande número das populações indígenas, sobretudo no século XVII (SAMPAIO,
1850 [1777]). O padre João Daniel afirmava que na epidemia de sarampo de 1749-
1750, haviam morrido 30 mil índios nas missões (DANIEL, 2004, p. 385, vol. I).
Diante desse processo de colonização e aldeamento pode-se averiguar que
o indígena foi um agente ativo diante da política dos conquistadores apropriando-se
não só dos utensílios de ferro, mais também “dos símbolos e dos discursos dos
brancos para buscar um espaço próprio no Novo Mundo que pouco a pouco se
esboçava” (MONTEIRO, 2001, p. 76). Foram agentes de seu próprio destino. Visto
que, por mais que, às vezes “eles tenham escolhido mal, fica salva a dignidade de
terem moldado a própria história” (CUNHA, 1992, p.19).
Ferreira (2006, p.103) apresenta:

Que os índios, depois de livres, ficaram, nesta parte, de pior condição que a
que tinham quando escravos. O senhor na vida do escravo zelava o seu
dinheiro; o diretor na vida do índio não zela interesse algum que seja
privativo mais desta do que daquela vida; se acaba, quem a perde é ele
mesmo, são sua mulher e seus filhos, é Sua Majestade, é o público etc.

Para Gomes Filho (2008, p. 44). A política estabelecida pelo Diretório trazia
muitas mudanças nas políticas com relação às populações indígenas. Criada em
1757 por Mendonça Furtado, essa lei determinava alterações intensas na política
dos aldeamentos nas regiões amazônicas. As várias mudanças foram feitas, pois
“nos aldeamentos o governo temporal seria exercido pelos principais (chefe
indígena) sobre os índios, existindo ainda o diretor (administrador civil) para dirigir o
aldeamento, e um missionário para a parte espiritual”.
Haja vista, essas mudanças, o índio buscou satisfazer suas próprias
necessidades ao exercer certa influência na política nativa e nas relações com os
conquistadores perante o circuito comercial, que se inseriu desde as corretes redes
comercias com os contatos iniciais, passando a mobilizar seus conhecimentos para
se posicionar diante das grandes mudanças que viam se constituindo frente à nova
58

roupagem da nova legislação. Suas guerras se fazem agora frente aos anseios das
rotas comerciais.
De todo modo, a questão que situou a temática da pesquisa foi entender
como se desenvolveram as relações entre os próprios povos indígenas e também
com os colonizadores e como conseguiram resistir às mais variadas formas de
exploração imposta pelo governo português. Para tanto houve a necessidade de
analisar os fatores presentes nesse processo, e assim compreender como esses
povos viviam e o impacto das políticas desenvolvidas para garantir a posse da
Amazônia. Outro ponto importante foi a razão que a Coroa Portuguesa tinha para
tentar controlar o indígena por meio de políticas que foram estabelecidas ao longo
do século XVIII.
Sendo assim, este trabalho aborda um assunto relevante para a história da
Amazônia. No entanto, a mesma mostrou que a muito a analisar e compreender
sobre as relações entre as povoações do Diretório na Capitania do Rio Negro (1751-
1798). Contudo a presente pesquisa não se encontra definitivamente acabada e
pronta, pois ainda há muito mais a se pesquisar e a se descobrir sobre essas
relações intertribais na Amazônia Colonial.
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