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1917 - REVOLUÇÃO RUSSA - 2017

Aldo Casas

Há cem anos, entre fevereiro e outubro de 1917 (segundo o antigo calendário juliano) iniciou-se, no
imenso território abarcado pelo império czarista, um processo revolucionário que abalou o equilíbrio do
mundo e se tornou um fator ativo - ideal e materialmente - da história contemporânea, mais precisamente do
período que Eric Hobsbawm (1995), com perspicácia e ofício de historiador, destacou e chamou “o breve
século XX”.
O aniversário motiva uma torrente de livros, artigos, conferências e congressos que recolhem,
rediscutem e agregam novos títulos à já importante bibliografia referente à Revolução de 1917, o auge e
colapso da URSS e o aparente desaparecimento do comunismo do horizonte político. O mainstream (corrente
dominante) dessa tão abundante produção dá como certa a ideia de que a derrota ou fracasso do antigo
“campo socialista” seria a prova irrefutável de que “não há alternativa” ao capitalismo, fatalismo que de
alguma maneira afeta também grande parte da esquerda. Há aqueles que pensam que as más experiências do
século XX impõem reduzir as aspirações de mudança à antiga reivindicação de “radicalização da
democracia”, omitindo referências de classe. Outros evocam o centenário com relatos que oscilam entre o
nostálgico ou a reivindicação quase supersticiosa de velhos instrumentos políticos hipostasiados e um
punhado de teoremas de incerta vigência. Pareceria que, diante do esgotamento de uma matriz política
centenária e uma crise do capital de dimensões sistêmicas, não se imaginasse (nada) mais do que se ancorar
em velhas certezas e apelar a recursos litúrgicos.
Este ensaio propõe algo diferente: uma comemoração irreverente, ainda que respeitosa, daquela heroica
e admirada revolução, sob cuja influência nos educamos e formamos politicamente. Sem niilismo, sem
pretensão de fazer tábula rasa do passado, entendendo sim que o horizonte irrenunciável do comunismo e da
emancipação humana impõe que a crítica revolucionária seja capaz de criticar a si mesma.

1. A revolução, de fevereiro a outubro...

Em fevereiro de 1917, uma inesperada insurreição popular conduziu à abdicação do czar Nicolau II,
após fracassar a tentativa de esmagar a rebelião com o Exército. A quase inexistente quarta Duma 1 se atreveu
então a desencorajar a entronização de outro Romanov, e improvisou (com antigos funcionários czaristas,
representantes da burguesia liberal, algum esquerdista “moderado” e o príncipe Lvov como Primeiro


Tradução do texto em espanhol por Alexandre Ferraz – membro do “Para um Novo Começo” - Centro político marxista

Aldo Casas: antropólogo, membro do conselho de redação de Herramienta (Revista de Crítica e Debate Marxista), com
militância no socialismo revolucionário desde a década de 1960. Último livro publicado: Karl Marx, Nuestro Compañero. Uma
invitacíon a conocer su vida y sus debates. Edições Herramienta, Buenos Aires, 2017.
1
A Duma era uma ultrarreacionária instituição pseudo-parlamentar eleita por voto qualificado “das quatro” que o Czar reunia ou
dissolvia quando queria.
2

Ministro) um “Governo Provisório”. Este contava com o respaldo dos governos da Entente 2 mas não tinha
legitimidade, programa, nem autoridade. Só os unia a vontade de continuar com a guerra e evitar que o poder
caísse nas ruas ou, pior ainda, na mais alta e direta expressão político-institucional da mobilização popular:
os Sovietes de deputados operários e soldados (com o tempo, também se conformariam Sovietes de
deputados camponeses).
A tensa coexistência entre ambas instituições e poderes se mantinha porque as forças políticas que
dirigiam os Sovietes (Socialistas Populares ou trudoviques, Socialistas Revolucionários o esseristas e social-
democratas mencheviques) apoiavam o Governo Provisório e, quando foi necessário, se incorporaram ao
mesmo com seis ministros. Formou-se assim um governo de coalizão com os Kadetes3 e Kerensky como
figura principal. Mas o colaboracionismo dos dirigentes se chocava com o caráter substancialmente
democrático dos sovietes: ali se expressavam diretamente as vozes e exigências dos soldados que no front se
amotinavam ou desertavam, dos trabalhadores que se manifestavam e ocupavam empresas exigindo medidas
contra a paralisação [da economia] e a fome, e dos camponeses que reivindicavam as propriedades dos
latifundiários.
Aquela emblemática situação de “duplo poder” na realidade não satisfazia a ninguém: Leon Trotsky
chegou a escrever que era muito mais uma “dupla impotência” (1976: 28). Por isso mesmo a exigência de
“Todo o poder aos Sovietes” - que o Partido Operário Socialdemocrata Russo (bolchevique) soube recolher e
propor como tarefa – terminou impondo-se. Os partidários do “bolchevismo”, que eram 5.0004 no começo de
1917, chegaram a ser 250.000 no verão desse mesmo ano, além de fortalecidos qualitativamente com a
incorporação de Leon Trotsky e os socialdemocratas do Comitê Interdistrital5 (Haupt, 2017). Quando a
intentona golpista do general Kornilov (em setembro) foi derrotada pela mobilização revolucionária de
operários e soldados, o prestígio dos bolcheviques cresceu ainda mais. Ganharam a maioria nos Sovietes de
Petrogrado e Moscou e passaram - com fortes discussões internas em torno da oportunidade, o como e o
quando da ação - a organizar a insurreição por meio do Comitê Militar Revolucionário que no 24-25 de
outubro derrubou o governo de Coalizão.

2. Duas revoluções ou um processo revolucionário?

O brevíssimo relato anterior mostra diferenças e continuidades entre a inesperada e “espontânea”


irrupção revolucionária das massas no começo de 1917 (“Revolução de Fevereiro”) e a cuidadosamente
preparada insurreição que nove meses depois instaurou o governo de Operários e camponeses (“Revolução
de Outubro”). Muito tem-se escrito sobre as “duas revoluções”, começando por Lênin e Trotsky. Eles
analisaram o curso das lutas de classes e as confrontações políticas propondo uma orientação que permitisse

2
Os governos das potências aliadas com a Rússia na guerra contra a Alemanha já não confiavam que o czarismo fosse capaz de
manter seus compromisso militares. Respaldaram então o Governo Provisório para que continuasse a guerra.
3
Democratas Constitucionais, partido burguês.
4
A avaliação é de G. Haupt. O número diz pouco, se não se acrescenta que se tratava de quadros forjados pela Revolução de 1905,
a clandestinidade, as escolas de formação em que se convertiam as prisões e deportações e a experiência de dirigir o ascenso da
luta de classes prévio à explosão da Guerra, em 1914. Outros investigadores falam de 15.000 militantes. A discordância em parte
pode se originar em razão de que em muitos organismos de base coexistiam mencheviques e bolcheviques.
5
Em fins de julho e começos de agosto o VI Congresso do POSDR (bolchevique) elegeu um novo Comitê Central do qual Leon
Trotsky já fazia parte.
3

pesar na resolução da crise revolucionária: o partido revolucionário devia dominar a “arte da insurreição”. E
assim se forjou a revolução de outubro.
Depois, seguiu-se falando ao longo de todo um século do “calendário” russo com suas “duas
revoluções”6 e se consolidou o cânone interpretativo que apresenta a cada uma daquelas insurreições como
revoluções diferentes ou tipos distintos de revolução7. Assim se violenta a unidade dialética da revolução
enquanto processo e se relega a um segundo plano a elaboração mais importante e original daqueles
dirigentes: o caráter “ininterrupto” (Lênin) ou “permanente” (Trotsky) da revolução russa, apreciação que
não se referia tanto ao curso dos acontecimentos entre “fevereiro” e “outubro”, mas à dinâmica mais geral
que o processo revolucionário podia assumir.
O projeto que Lênin explicitou em suas Teses de Abril surgiu da análise das relações de força e do afã
de eficácia, mais que de considerações doutrinárias. Atendia internamente à evolução da aliança operário-
camponesa (incluindo as tensões no seio da mesma) para concluir que o protagonismo dos operários e
soldados organizados em sovietes (nos que podia também se concretizar a imprescindível unidade com o
camponeses) tornava possível e necessário rechaçar qualquer governo de coalizão com a burguesia.
Externamente, a crise do capitalismo imperialista que a Grande Guerra punha em evidência, indicava que em
seu “elo mais frágil” (Rússia) a revolução podia ser ponto de partida e base da revolução proletária
internacional (com centro na Europa e mais especificamente na Alemanha), de modo tal que, inclusive na
atrasada a Rússia, estava colocada a luta pelo socialismo. Disso se derivava uma combinação (flexível) de
tarefas: implantar o poder soviético para deter a catástrofe gerada pela guerra e (fazer frente) à decomposição
da autocracia já não com a perspectiva de uma revolução burguesa, mas da revolução socialista (Haupt,
2017; Louca: 2017).
A narrativa que apresenta fevereiro de 1917 como uma “revolução pela metade”, redimida e justificada
a posteriori pela genuína revolução que seria a de outubro8 é um mito que distorce e torna irreconhecível a
realidade da revolução, a relação dinâmica entre a mobilização popular com as variáveis formas e graus de
auto-organização das massas e o papel dos diversos partidos (Adamovsky, 2008). A sublevação que terminou
com séculos de autocracia se caracterizou pela irrupção à vida política das massas populares, incluindo as
suas franjas mais plebeias e marginalizadas, em uma escala jamais vista. Esses milhões de novos “atores”
trouxeram originais coreografias políticas e demandas sociais.
Mulheres (que seguramente nunca haviam lido a Iskra9) se manifestaram nas ruas para exigir pão e o
regresso dos combatentes e lançaram “a faísca que incendiou o prado”. Os soldados, obrigados a disparar
contra a multidão logo decidiram desobedecer as ordens de seus oficiais e em tumultuosas assembleias

6
Segundo a muito conhecida explicação de Lênin, em fevereiro as massas populares que derrubaram o velho regime deixaram o
Governo nas mãos da burguesia devido à falta de preparação do proletariado, em outubro o amadurecimento político dos
trabalhadores e a hegemonia dos bolcheviques nos sovietes de Petrogrado e Moscou, permitiram acabar com o governo burguês e
instaurar o governo dos operários e camponeses ou ditadura do proletariado.
7
Exagero interpretativo que, erigido em método, chegou a buscar (e encontrar) “revoluções de fevereiro” e “revoluções de
outubro” nas mais diversas latitudes e circunstâncias. Assim fizemos nós, os trotskistas, e muito especialmente, a corrente
“morenista” na qual eu mesmo me formei.
8
O mesmo vale para a versão inversa, segundo a qual a revolução de fevereiro haveria sida a “boa”, em oposição à antidemocrática
“revolução de outubro”.
9
Iskra (“A faísca”) era uma revista socialdemocrata que dizia precisamente: “A faísca incendiará o prado”.
4

elegeram e enviaram seus “deputados” ao Soviete10. Recuperavam a experiência de 1905 mas em um nível
qualitativamente superior: esses Sovietes de deputados operários e soldados surgiram com legitimidade
político-social e força material sem precedentes. A revolução também sacudiu e abalou a intelligentsia: uma
maioria reagiu com hostilidade indisfarçada contra a plebe, outra parte respondeu começando uma febril
atividade intelectual artística e política que se aprofundaria depois de outubro. E tão ou mais importante que
o dito antes: o estrondo da eclosão foi tal que seus ecos chegaram até as mais afastadas aldeias da Rússia
profunda e a todo o império.
Aqueles milhões de homens e mulheres anônimos que acabaram com a autocracia, imprimiram à
mobilização o caráter de uma revolução social in acto e de suas fileiras surgiram os mais decididos ativistas
que empurraram, às vezes rudemente, para que os bolcheviques se retirassem da trapaceira Pré-Conferência
Democrática, organizaram o Comitê Militar Revolucionário do Soviete11, derrubaram o desacreditado
governo burguês e assumiram a constituição do poder soviético. Foram as massas, empurradas pelo
descontentamento e o desespero, que forjaram nesses meses de ásperos debates e combates a esperançosa
vontade de mudar o mundo e mudar a vida sem ater-se aos cânones doutrinários dos diversos socialismos em
conflito. Neste trajeto a Revolução Russa ganhou sua verdadeira dimensão. Acredita-se elogiá-la dizendo que
se tratou da “primeira revolução operária triunfante”, quando na realidade isso a diminui porque foi mais que
isso: foi uma revolução radicalmente plebeia e diversa, por que confluíram (chocando e enriquecendo-se
mutuamente) três afluentes: a revolução de um proletariado relativamente reduzido mas concentrado em
algumas cidades e centros produtivos, muito combativo e explosivo; a revolução de um imenso campesinato
no qual se conjugavam o atraso e a miséria extrema com uma antiga tradição de rebeliões agrárias cultivada
pelas doutrinas do populismo e, por último mas não em importância, a revolução das nacionalidades
oprimidas, lançadas a demolir “o cárcere dos povos” que era o império czarista.
A vitoriosa insurreição de outubro foi preparada por este curso da luta de classes, a auto atividade e
autoeducação política das massas no marco do Sovietes, os comitês de fábrica com os choques, alianças e
realinhamentos dos diversos partidos que neles atuavam desde fevereiro e nos meses seguintes. Não se deve
atribuir seu êxito somente à decisão e clarividência do bolchevismo em geral ou de Lênin em particular. O
imenso mérito deles12 foi, em todo caso, aplicar com decisão uma linha política plena de matizes, elaborada
de forma coletiva através de muitas polêmicas que transbordavam o Comitê Central13 e envolviam aos
militantes inseridos nos organismos de massas (Vazeilles, 1971). Conseguiram articular imensas e diferentes
forças em movimento, se atreveram a lançar-se à frente da descomunal experiência, proporcionando-lhe uma
veia internacionalista ao concebê-la como parte do combate pelo fim do colonialismo e pelo socialismo. Não
se equivocava Rosa Luxemburgo, a mais ilustre e crítica defensora da Revolução Russa, quando escrevia do
cárcere (em 1918!) essas linhas clarividentes:

10
Organismo este convocado por um punhado de militantes de esquerda, que de um dia para o outro foi tomado massivamente em
suas próprias mãos pelos operários de Petrogrado e Moscou.
11
Esteve integrado por dezesseis membros: cinco do SR de esquerda, outros tantos anarquistas e o restante, de bolcheviques.
12
Lênin, Trotsky, Kamenev, Zinoviev, Lunacharsky, Bukárin, Stálin, Schliapnikov, Joffe, Rádek... e alguém pouco conhecido
como Iaco Sverdllov que foi, no entanto, o principal artífice da organização do partido (faleceu de tiffus em 1919, pouco depois do
IX Congresso do partido).
13
Cada passo foi motivo de inflamados debates e votações controversas, e em mais de uma ocasião as posições de Lênin ficaram
em minoria, como documentam bem as Atas do CC do POSDR (bolchevique).
5

No momento atual, quando nos esperam lutas decisivas em todo o mundo, a questão do
socialismo foi e segue sendo o problema mais candente da época.
Não se trata de tal ou qual questão tática secundária, mas sim da capacidade de ação do
proletariado, de sua força para atuar, da vontade de tomar o poder, do socialismo como tal.
Nisto, Lênin, Trotsky e seus amigos foram os primeiros, os que assumiram a frente, como
exemplo para o proletariado mundial [...] seu é o imortal mérito de haver encabeçado o
proletariado Internacional na conquista do poder político e colocado na prática do problema
de realização do socialismo, de haverem dado um grande passo adiante na disputa mundial
entre o capital e o trabalho. Na Rússia, se podia somente colocar o problema. Não se podia
resolvê-lo. E neste sentido, o futuro em todas as partes pertence ao “bolchevismo”. (1976:
202)

A tomada do poder em outubro não deveria ser saudada como se tivesse tratado de “O” triunfo da
revolução. Foi nada menos (e nada mais) que um necessário primeiro passo no complexo caminho ao longo
do qual a Revolução deveria tentar desenvolver sua “alma social” e ir para além do capital; e não só na
Rússia, mas internacionalmente.

3. A revolução depois de outubro

Pode-se considerar que um segundo capítulo da Revolução Russa começou quando se reuniu o II
Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados de toda a Rússia, em 25 de outubro de 1917. O
governo de coalizão havia sido derrubado, de fato, pelo Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, e de
nada valeram os furiosos protestos do Partido Socialista Revolucionário e dos Mencheviques, denunciando o
que consideravam “um golpe mortal contra a revolução”. Dos 670 delegados presentes, 300 eram
bolcheviques e a eles se somaram alguns mencheviques internacionalistas e a fração de esquerda dos
socialistas revolucionários: uma nítida maioria respaldava o poder soviético. Alexander Rabinovich,
historiador reconhecido, escreve que:

... a revolução de outubro em Petrogrado não foi tanto uma operação militar, e sim muito
mais um processo paulatino desenvolvido sobre o terreno de uma cultura política
profundamente arraigada na população, assim como de uma ampla insatisfação com os
resultados da revolução de fevereiro combinada com a força da atração irresistível das
promessas dos bolcheviques: paz, pão e terra imediatamente para os camponeses e uma
democracia de base através dos sovietes multipartidários. (citado em Domenech, 2017: 94).

O Congresso dos Sovietes de deputados operários e soldados de toda a Rússia aprovou o “Chamado
aos operários, soldados e camponeses”, redigido por Lênin no calor da situação. O momento foi recordado
nos seguintes termos:
6

“O governo provisório foi deposto. O congresso toma o poder em suas mãos.” O governo
soviético irá propor uma paz imediata, entregará a terra aos camponeses, dará um estatuto
democrático ao exército, estabelecerá um controle da produção, convocará no momento
oportuno a assembleia constituinte, assegurará o direito das nações da Rússia a dispor de si
mesmas. “O Congresso decide que todo o poder, em todas as localidades, é entregue aos
sovietes”. (Trotsky, 1985: 457).

O passo seguinte era a designação do governo que encabeçaria o regime que estava em vias de se
constituir:

... para surpresa de muitos delegados, foi anunciado que as funções do governo central seriam
assumidas por um novo conselho de comissários do povo, cuja lista de composição
inteiramente bolchevique foi lida ao Congresso em 26 de outubro por um porta-voz do
partido bolchevique. A cabeça do novo governo era Lênin e Trotsky era comissário do povo
(ministro) de relações exteriores. (Fitzpatrick, 2015: 87).

A decisão de constituir um governo puramente bolchevique foi e (continuaria sendo) muito


controversa. Poucos dias depois, após uma crise que dividiu os dirigentes bolcheviques e os fez se
enfrentarem publicamente, foi alcançada uma solução de compromisso com a incorporação ao governo de
alguns ministros do recém formado Partido Socialista Revolucionários de Esquerda. Este tímido gesto de
pluralismo deu uma satisfação momentânea a uma forte pressão por baixo em favor da unidade das forças
revolucionárias mas deixava de pé a grande interrogação: que relação deveria se estabelecer entre os sovietes
e o partido bolchevique?
Está claro que esta dúvida não paralisava Lênin. Este começou seu discurso frente aos delegados do
Congresso que havia acabado de elegê-lo com uma frase tão simples como contundente: “agora vamos nos
dedicar a edificar a ordem socialista”. Sem perda de tempo, foram-se promulgando medidas
transcendentais: não mais reivindicações nem declarações de intenção, e sim atos de governo que
começavam a se executar antes inclusive de que os diversos comissariados tivessem terminado de se instalar
em seus respectivas escritórios.
O decreto “Sobre a paz” dispôs que se proporia a todos os governos envolvidos o fim imediato das
hostilidades a começar as negociações com o objetivo de alcançar uma paz justa e democrática. Os
bolcheviques, que haviam se oposto desde o primeiro momento à guerra mundial, insistindo que os
trabalhadores deveriam convertê-la em uma guerra civil contra cada um de seus governos, convocavam agora
a partir do poder, a se mobilizar para pôr fim à guerra e acabar com a pilhagem imperialista e a dominação
colonial.

“O governo operário e camponês criado pela revolução (...) propõe a todos os povos
beligerantes e a seus governos o início imediato das negociações para uma paz justa e
democrática”. A Rússia não estava em condições de colocar nenhum ultimato. Mas Lênin
7

sustentou que a negociação com os governos deveria ser pública e em termos tais que fossem
um chamado à mobilização dos povos da Europa dizendo: “todas as nossas esperanças estão
postas em que nossa revolução desencadeará a revolução europeia. Se os povos sublevados
da Europa não esmagarem o imperialismo nós seremos esmagados, sem lugar a dúvidas.”
(Trotsky, 1985: 471).

Mas as potências da Entente, fortalecidas com a incorporação dos Estados Unidos à contenda, estavam
empenhadas em levar a guerra até o fim, e se negaram a iniciar qualquer tipo de negociação. O governo
soviético viu-se então obrigado a estabelecer negociações em separado com Berlim. Em meados de
dezembro de 1917 foi firmado um armistício e se iniciaram as negociações. Pelo lado da Rússia, Trotsky foi
o encarregado de conduzir as tratativas, nas que se deixaram de lado as formalidades diplomáticas e foi dada
publicidade aos documentos secretos que punham em evidência o modo em que as diversas potências
pretendiam repartir entre si os territórios, pisoteando os direitos mais elementares dos povos. As negociações
foram acompanhadas por uma intensa agitação, chamando a que todos os povos da Europa, e em primeiro
lugar da Alemanha, se mobilizassem com o objetivo de impor a seus governos a tão desejada paz.
Foi de imensa importância o decreto “Sobre a terra”, no qual se dispunha a nacionalização e repartição
de todos os latifúndios, a abolição sem indenização da grande propriedade. Essa decisão teve um impacto
imediato e profundo, porque as massas camponesas tomaram em suas mãos a aplicação do decreto e
passaram a exercer na prática seus direitos, no que se constituiu uma formidável mobilização revolucionária:
durante o inverno 1917-1918, o campesinato se apoderou da terra sem esperar diretivas do governo central
nem das autoridades estabelecidas nas cidades, conduzidos em muitos casos por militantes do Partido
Socialista Revolucionário.
Também foi muito significativo o decreto “Sobre as nacionalidades”, em que se reconhecia o direito à
autodeterminação dos povos que haviam sido subjugados pelo império czarista. Não só porque implicava
que as novas autoridades soviéticas se manifestavam inequivocamente contra o chauvinismo “gran-russo”,
mas porque essa tomada de posição pesou (em favor dos soviéticos) no curso da guerra civil.
Outra série de decretos apontou no sentido de deter a catástrofe econômica, que golpeava com
particular dureza a classe operária. Foi disposto o desconhecimento da dívida externa, a nacionalização da
banca financeira e dos grandes grupos industriais (petróleo, metalurgia, química, etc.) muitos dos quais
pertenciam a capitalistas estrangeiros; foi suprimido o segredo comercial, se deu estímulos à formação de
cooperativas de consumidores a fim de controlar os circuitos de produção e distribuição e se impôs o controle
dos operários sobre as empresas. Não se tratava de implantar o socialismo por decreto, nem da abolição da
propriedade privada dos meios de produção e expropriar a totalidade das empresas, mas de enfrentar o caos
econômico. Foi criado o Conselho Supremo de Economia Nacional (VSNJ) em dezembro, com funções de
coordenação. Essas disposições, entretanto, ficavam atrás da dinâmica real da luta de classes. Os mesmos
capitalistas que abandonavam ou descapitalizavam as empresas, geraram uma dinâmica de nacionalizações
frequentemente impostas a partir das instâncias locais. E os operários armados que vinham sendo
protagonistas da revolução nas grandes cidades, organizados nos Comitês de fábrica, em muitos casos
consideravam essas medidas insuficientes. Talvez por isso, em janeiro de 1918 o governo teve que precisar
8

que “a lei soviética sobre o controle operário é adotada como um primeiro passo em direção à socialização
das indústrias”.
O imenso e imediato respaldo popular com que foram recebidas estas medidas conferiu uma
legitimidade substancial ao reluzente poder soviético. Uma síntese de todas elas foi a “Declaração dos
Direitos do Povo Trabalhador e Explorado”, que foi apresentada pelos bolcheviques à Assembleia
Constituinte quando esta se reuniu em 5 de janeiro de 1918 (os constituintes haviam sido eleitos no início de
novembro). O Partido Socialista Revolucionário, valendo-se de sua maioria na Assembleia Constituinte,
votou por rechaçar a Declaração e desconhecer o poder soviético... A resposta foi ordenar a imediata
dissolução daquela Assembleia que, antes mesmo de se constituir, já havia sido superada pela revolução e
pelas medidas adotadas. A medida foi efetivada por um destacamento da Guarda Vermelha integrado por
militantes bolcheviques e socialistas revolucionários de esquerda conduzidos por um rústico marinheiro
anarquista de kronstadt. Os dirigentes esseristas (do Partido Socialista Revolucionário) não puderam opor
nenhuma resistência, foram completamente incapazes de apelar à sua antiga base eleitoral camponesa,
ocupada como estava em fazer uso daqueles direitos que os constituintes pretendiam.
Mas a situação se deteriorou rapidamente quando a Alemanha decidiu pôr fim às negociações de paz,
por motivos que um comandante do exército alemão na frente oriental expressou brutalmente por escrito:

Não há outro caminho, pois de outra forma, estas bestas (os bolcheviques) aniquilarão os
ucranianos, os finlandeses, os bálticos; logo recrutarão na calada um novo exército
revolucionário e converterão o resto da Europa em uma pocilga... toda a Rússia não é mais
que um montão de vermes, uma miserável massa pululante (citado em Fitzpatrick, 2015: 96)

O exército alemão relançou sua ofensiva em fevereiro de 1918. Frente ao ataque, as tropas russas
debandaram sem opor resistência. E os soviéticos se viram obrigados a firmar em março de 1918 o Tratado
de Brest-Litovsk. O acordo de paz foi redigido em termos terríveis para a Rússia soviética: ficou amputada
de 44% da população e de ¼ da superfície do antigo império, perdeu 1/3 de suas colheitas, 80% das fábricas
de açúcar, 73% da produção de aço, 75% de sua produção de carvão e 9.000 empresas industriais (de um
total de 16.000).
Dentro e fora do partido comunista levantou-se uma grande oposição ao Tratado de Brest-Litovsk:
muitos por considerar que o mesmo comprometeria o futuro da Rússia, outros por que sustentavam que
sairiam fortalecidas as potências centrais (Alemanha e o império Austro-húngaro), afastando-se a
possibilidade de novas revoluções na Europa e especialmente na Alemanha. Uma importante fração do
partido (os “comunistas de esquerda”, entre os quais estava Bukharin) se pronunciou contra, rompeu a
disciplina e começou a editar seu próprio diário. Mais grave e irresponsável foi a decisão do Partido
Socialista Revolucionário de Esquerda: depois de abandonar o governo, lançaram-se a uma aventura
provocadora e golpista, assassinaram o embaixador alemão na Rússia, atentaram contra a vida de vários
dirigentes comunistas, inclusive Lênin, e tentaram um golpe de Estado em Moscou...
9

Para cúmulo dos males, o fim da guerra com a Alemanha estava longe de significar o começo da paz.
Muito pelo contrário, foi precisamente então que começou em grande escala a Guerra Civil. Os Exércitos
Brancos, que começaram a operar em várias frentes, logo receberiam respaldo político, econômico e militar
dos governos da Aliança que, derrotadas as potências centrais (em fins de 1918), se propuseram a evitar a
ameaça da revolução na Europa, ajudando por todos os meios a contrarrevolução na Rússia.
Frente ao perigo mortífero, a maioria dos comunistas de esquerda se reincorporou ao partido. Motivos
similares impulsionaram a muitos bolcheviques, frações dos socialistas revolucionários de esquerda e
inclusive anarquistas a se somar ao combate contra os Brancos, deixando em um segundo plano as
discordâncias com o Partido Comunista e tratando de se manter ativos nos sovietes. Mas o entusiasmo
libertário do primeiro momento já estava quebrado, as discordâncias seguiriam se agravando. Até finais de
1918 a divergência e as críticas à política e aos métodos se multiplicavam e não só entre os agrupamentos
políticos que trabalhosamente conseguiam se manter ativos, mas também entre os trabalhadores sem partido
e os camponeses. Com nitidez precisa, Lênin (1973) proclamava a urgente necessidade de remediar o
desmoronamento da produção e restabelecer a disciplina nos locais de trabalho, acabar de fato com o controle
operário, impor nas fábricas o princípio de “direção única” dos diretores designados pelo governo e
restabelecer a hierarquia (incluindo mínimos privilégios materiais) de supervisores e técnicos. Essa viragem
política se traduzia em imposições administrativas que se chocavam frontalmente com as expectativas
alimentadas pela revolução e vinha acompanhada por pressões, ameaças e ações repressivas: fechamento dos
jornais opositores ou independentes que subsistiam, intimidações, controle político, prisões. A repressão
chegou ao ponto em que qualquer divergente ou opositor poderia ser catalogado como “perigo interno” sobre
o qual poderia cair a Checa (Comissão Extraordinária de Combate à Contrarrevolução, à Especulação e à
Sabotagem), que havia sido constituída em dezembro de 1917 para combater atos de vandalismo e roubo,
mas rapidamente foi convertida em um temido organismo de segurança e repressão política (Baña e
Stefanoni, 2017:94).

4. O comunismo de guerra

Antes que se pudesse consolidar e começar a esboçar o que poderia significar concretamente a
construção do socialismo na Rússia, o governo surgido de outubro viu-se arrastado a um sangrento e
prolongado confronto interno. A situação internacional também se complicava: em abril de 1918 a revolução
na Finlândia foi afogada em sangue, ao se iniciar 1919 fracassou o levante dos espartaquistas na Alemanha, a
República Soviética da Hungria, nascida em março de 1919, foi liquidada em agosto desse mesmo ano. A
revolução em outros países da Europa demorava (em que pese que as expectativas de uma vitória
revolucionária na Alemanha se mantiveram, com altos e baixos, até 1923).
O Estado soviético teve então que concentrar os maiores e melhores esforços em sobreviver e ganhar a
guerra civil. Esse objetivo finalmente foi conseguido mas, enquanto isso, as formas, a concepção e exercício
10

da ditadura do proletariado, a natureza do governo operário e camponês e o próprio Partido Comunista14


mudaram profundamente.
A guerra teve que ser travada contra diversos Exércitos Brancos espalhados em várias frentes, com um
respaldo ativo dos governos capitalistas que impuseram um severo bloqueio ao Estado soviético e também
intervieram no conflito com tropas. A França enviou 12.000 soldados, a Inglaterra 40.000, o Japão 70.000, os
EUA 13.000, a Polônia 12.000, a Grécia 23.000, o Canadá 5.300... segundo Winston Churchill, um dos mais
ferrenhos inimigos da revolução russa, as tropas estrangeiras chegaram a somar 180.000 efetivos.
Travou-se uma luta sangrenta em um imenso território e com avanços e retrocessos variáveis dos
exércitos em guerra nas diversas frentes. Em diversos momentos Petersburgo esteve a ponto de cair e o
território efetivamente controlado pelo governo soviético reduzido a pouco mais que o antigo principado de
Moscou (Trotsky, 2006; Baña e Stefanoni, 2017; Fitzpatrick, 2015; Carrere d’Encausse, 1993; Dulin, 1994).
Para fazer frente à situação, o Estado teve que “inventar” aceleradamente e quase a partir do nada o
Exército Vermelho. Foi criado em janeiro de 1918 sob o comando de León Trotsky, em sua qualidade de
Comissário do Povo de Assuntos Militares e Navais. O primeiro passo foi o recrutamento de voluntários:
dezenas de milhares de operários mais conscientes e comprometidos com a revolução responderam ao
chamado dos sovietes locais e do Partido Comunista, se incorporaram ao exército e partiram para as diversas
frentes. Muitos eram militantes comunistas; muitos mais ingressaram no partido depois de se incorporar ao
exército.
Logo foi necessário restabelecer o serviço militar obrigatório: o exército chegou a contar com mais de 5
milhões de efetivos. Para assegurar a capacidade de combate, foi introduzido o treinamento, a disciplina e os
níveis militares, inicialmente abolidos pela revolução. Uma das decisões mais audazes e controversas foi a
massiva reincorporação de oficiais que haviam servido no exército czarista, introduzindo o inédito princípio
do “duplo comando”: o comando dos antigos oficiais (“especialistas militares”) passou a estar duplicado e
politicamente supervisionado por quadros comunistas (“comissários políticos”). Foram mobilizados todos os
recursos humanos e materiais que fossem necessários para enfrentar a guerra. Trotsky disse que para vencer
havia sido necessário “saquear a Rússia”: no ano de 1920, o exército consumiu 25% da produção de trigo,
50% dos demais cereais, 60% do abastecimento de carnes e pescado e 90% da produção de sapatos e botas
masculinas.
Foge aos objetivos deste texto entrar nos detalhes estratégicos e táticos da guerra. Basta dizer que
apesar de seus êxitos iniciais, os exércitos Brancos foram ficando debilitados, tanto pelos êxitos militares do
Exército Vermelho, como pela muda ou aberta oposição dos camponeses e das nacionalidades não-russas: no
primeiro caso, porque a contrarrevolução queria devolver as propriedades aos antigos latifundiários, no
segundo, porque o objetivo dos Brancos era inequivocamente restabelecer o chauvinismo “gran-russo” em
todo o território do antigo império. Em outubro de 1919 Petrogrado esteve no limite de cair e Trotsky
assumiu pessoalmente a condução da defesa da cidade. Assim que as tropas Brancas foram rechaçadas,
começou seu generalizado retrocesso:

14
O POSDR (bolchevique) passou a se denominar Partido Comunista da Rússia (bolchevique) no março de 1918. Em 1925, já
constituída a URSS, se converteria em PCUS (bolchevique).
11

Em 23 (de outubro de 1920), as tropas brancas do general Iudenicht foram freadas na linha de
Pulkovo e iniciaram uma retirada atabalhoada. No mesmo momento, no Leste, os homens de
Koltchak se rendiam aos milhares (...). No Sul, o solo se movia embaixo dos pés do exército
de Denikine, rechaçado pela população das regiões conquistadas. (Broué, 1988: 268).

Quando a guerra parecia terminar, a Polônia governada por Pildsusky lançou (em abril de 1920) uma
invasão “preventiva” contra a União Soviética, ocupando parte da Ucrânia. Isto impôs ao Exército Vermelho
um esforço suplementar: a “campanha polonesa”. Uma operação militar inicialmente defensiva, no
convertida durante o andamento em contraofensiva. Lênin acreditava que os trabalhadores poloneses
estariam dispostos a se levantar contra o governo bonapartista de Pildsusky e ajudar os Vermelhos a fazerem
realidade o que prometia a letra da Varsoviana (“de um salto em Varsóvia e de outro em Berlim”). Mas os
poloneses preferiram enfrentar o russos, os derrotaram na “batalha de Vístula” e o operativo acabou sendo
um completo fracasso. Após ser firmada a paz com a Polônia, as tropas foram lançadas a acabar com os
últimos restos do exército de Wrangel, e em novembro de 1920 a totalidade da Criméia ficou em mãos do
Exército Vermelho.
A contrarrevolução havia sido derrotada, o Estado e a “pátria soviética” haviam sobrevivido e
receberam os delegados que, provenientes de 37 países se reuniram no II Congresso da Terceira Internacional
entre 17 de julho e 07 de agosto de 1920. Em um ambiente triunfalista, o Manifesto do Segundo Congresso
Mundial (redigido por Trotsky) afirmava:

... o poder soviético estabeleceu-se pela primeira vez no país mais atrasado da Europa,
rodeado por uma legião de inimigos poderosíssimos. Em que pese isso, o poder soviético não
apenas se manteve na luta contra fatores adversos sem precedentes, mas demonstrou na ação
as vastas potencialidades inerentes ao comunismo. O desenvolvimento e a consolidação do
poder soviético na Rússia é o fato histórico mais importante desde a fundação da
Internacional Comunista. (Trotsky, 2017: 165).

O principal biógrafo de Trotsky disse algo acentuadamente diferente: “A guerra civil havia terminado.
O pior estava por começar” (Broué, 1988: 270).
A indubitável vitória militar não implicou um saldo político igualmente positivo. Ao fim das
hostilidades não se seguiu um renovado ascenso revolucionário. Pelo contrário, tornou-se visível o
distanciamento e enfrentamento cada vez maior da elite do PC e do Estado soviético frente às grandes massas
de operários e camponeses. E com isso o impasse da revolução.
As causas disso seguramente são diversas: esgotamento, a partir da devastação material e humana
sofrida. Na Guerra Mundial, a Rússia havia perdido 1,8 milhões de homens, e outro 1 milhão de vidas foram
sacrificadas no curso da Guerra Civil. As baixas civis foram muito maiores: 1,5 milhões durante a Guerra e 8
milhões na Guerra Civil! (devido à fome, ao frio, às epidemias e à grave seca que arrasou o campo em 1921).
Além disso, entre 1 e 2 milhões de russos emigraram... (Dullin, 1944: 20). As cidades se despovoaram e ao
12

terminar a Guerra Civil, o peso do campo era muito maior que antes da revolução. O número de operários se
reduziu a 1 milhão (em 1914 haviam sido 3 milhões). O aparato estatal havia crescido enormemente, mas a
produção industrial, o sistema de transportes, as comunicações e a agricultura estavam em colapso. A penúria
dos bens mais elementares se tornava insuportável, gerando um profundo mal-estar social e político. Mas as
queixas cresciam, também, devido à negligência, a arbitrariedades governamentais, aos pequenos privilégios
atribuídos arbitrariamente e, em geral, à prepotência e insensibilidade com que se aplicavam políticas
decididas “por cima”, sem nenhuma participação popular.
A orientação autogestionária e quase libertária que Lênin havia esboçado nas páginas de O Estado e A
Revolução15, muito presente ao longo do combate político por tornar realidade a demanda de “Todo o poder
aos Sovietes” e que havia começado a se concretizar com as primeiras medidas promulgadas pelo Conselho
de comissários do povo, não duraram muito tempo. Diante da magnitude da crise e das dificuldades, o
governo mudou de rumo: a ênfase foi posta em reforçar a disciplina laboral, em impor a direção única nas
empresas, aumentar a produtividade com a “organização científica do trabalho”. Para tirar a Rússia do atraso,
se pensou novamente no que Lênin denominava “capitalismo de Estado” (“dentro dos limites e do controle
impostos pelo poder soviético”) (Lênin, 1973-a). As campanhas, acompanhadas de técnicas de mobilizações
e enquadradas pelo partido, estavam acompanhadas por um controle crescente e maiores restrições das
liberdades e atividades sociais, culturais e políticas em nível de massas. Todas e cada uma das grandes
decisões de governo eram adotadas pelo Comitê Central, transmitidas através dos sovietes e impostas pelos
quadros e militantes do partido (apesar de que muitos destes carregavam consigo suas próprias críticas contra
“a oligarquia” do partido).
Uma brusca mudança de rumos havia imposto o que passou a se chamar “comunismo de guerra”:
estatização de todas as empresas, supressão do livre comercio, virtual desaparecimento do dinheiro, severa
racionalização do consumo. O Conselho supremo da economia nacional, que pretendia sem muito êxito
dirigir toda a economia, gastou esforços e recursos em um programa de eletrificação de toda a União
Soviética que supostamente faria realidade os princípios do comunismo (ver Lênin, 1973-b). O empenho
“modernizador”, apelando acrítica e ingenuamente a tecnologias e métodos de gestão produtivistas e à
onipresente pressão do Estado, não apenas acabaram com o controle operário e qualquer tentativa de
autogestão. Fechavam toda possibilidade de avançar na difícil mas imprescindível batalha para superar a
alienação e a divisão social-hierárquica do trabalho. Os burgueses haviam sido expropriados, mas os meios
de produção não haviam sido socializados, mas estatizados, o que é muito diferente.
Particularmente equivocada e daninha foi a política para o campo, por que à requisição violenta da
produção agrícola se somou um uma provocativa campanha para organizar “comitês de camponeses pobres”,
“levar a luta de classes à aldeia” e “combater o kulak. A pretensão de reorganizar autoritariamente e a partir
de fora a vida da aldeia e os usos e costumes do regime comunal se chocava frontalmente com a mobilização
do campesinato que entre 1917-1918 havia tomado as propriedades dos latifundiários reforçando quantitativa
e qualitativamente as explorações agrícolas organizadas segundo o regime comunal (o Mir). (Ver Archetti,
2017: 47/79; Domenech, 2017: 120).

15
Lênin se apoia no balanço de Marx fizera da Comuna de Paris para insistir que é preciso destruir o velho Estado para instaurar a
ditadura do proletariado através do que denominou “um Estado-não-Estado” com burocracia mínima e vocação de se autodissolver.
No caso da Rússia, poderiam bem ser os Sovietes, acumulando funções deliberativas e executivas.
13

Afirmar que as medidas e a orientação geral do “comunismo de guerra” podiam acelerar a passagem
para uma sociedade sem classes foi um grave erro. Inclusive no caso em que houvesse sido imprescindível
recorrer a algumas delas porque não houvesse outro remédio, nunca deveriam ser embelezadas nem
justificadas teoricamente. Mas o governo soviético não apenas a aplicou decididamente, senão que,
encerradas as condições excepcionais que haviam levado à imposição dessa linha, demorou um ano e meio
para reconhecer que havia se tratado de “um erro”; só o fez quando explodiu “a crise da revolução” a que nos
referiremos mais adiante.
Com o “comunismo de guerra” se generalizou e agravou uma tendência que na realidade tinha raízes
mais profundas: a militarização da política e a tentação de resolver violentamente as divergências flutuava no
“ar dos velhos tempos” daqueles heroicos e trágicos anos. Os bolcheviques haviam sido perseguidos,
encarcerados e caluniados como “agentes do imperialismo alemão” durante as jornadas de julho de 1917. O
democrático Kerensky não apenas havia tramado em determinado momento com Kornilov, senão que após
ser derrubado, tentou ser reposto pelas baionetas do general Krasnov. A direita do Partido Socialista
Revolucionário proclamou a efêmera República do Volga com o respaldo da Legião Checoslovaca. O Partido
Socialista Revolucionário de Esquerda quis resolver sua diferença com o governo do qual fazia parte aos
tiros e tentando um golpe... E, mais além da Rússia, nesse mesmo ano, o socialdemocrata Gustav Noske
ordenou os assassinatos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
Neste contexto, não resulta estranho que ao terrorismo e à violência selvagem dos Exércitos Brancos se
acreditasse necessário opor não apenas outro Exército, mas também o Terror Vermelho e a Cheka.
Contextualizar não implica, entretanto, justificar em bloco nem elevar a princípio estratégico um recurso
absolutamente excepcional que foi institucionalizado e da pior maneira: invocando os mais nobres objetivos
da revolução, foi dada passagem livre a um órgão repressivo autorizado a encarcerar, torturar, julgar
sumariamente e executar sem controle nem supervisão. Crimes que não podiam deixar de afetar a autoridade
política do governo e do partido e inclusive “anestesiaram” a ética e moral dos comunistas.
A “militarização da política” teve, além disso, um substrato material que não pode ser ignorado nem
minimizado:

...mais de meio milhão de comunistas serviram no Exército Vermelho em um ou outro


momento da guerra civil (e, deste grupo, aproximadamente a metade se uniu ao Exército
Vermelho antes de se filiar ao partido bolchevique (...) levaram o jargão militar à linguagem
da política e fizeram que as botas e a jaqueta militar (...) fossem praticamente um uniforme
para os integrantes do partido entre a década de 1920 e o começo da de 1930. Segundo julgou
um historiador, a experiência da guerra civil “militarizou a cultura política do movimento
bolchevique”, deixando um legado que incluía “a disposição de empregar a coerção, o
governo por meio de decretos, a administração centralizada e a justiça sumária” (Fitzpatrick,
215: 94)

O esboço sobre a Revolução russa escrito por Rosa Luxemburgo (ao que já nos referimos
anteriormente), começava prestando uma calorosa homenagem a Lênin e Trotsky, seguiam algumas críticas
14

que hoje podemos considerar inconsistentes, mas concluía com uma firme crítica à derrapagem autoritária e
injustificado desprezo pela democracia de ambos os líderes. O que Rosa colocava então, e conserva hoje
plena validade, é que a revolução necessita da vigência de liberdades individuais e coletivas para que a práxis
revolucionária das massas possa se desenvolver, pela simples razão de que o debate e a livre discussão da
experiência são imprescindíveis para a autoeducação e definitivamente para o exercício de poder pela classe
trabalhadora. Sem idealizar as formas democráticas escreveu:

... toda instituição democrática tem seu limites e carências (...) só que o remédio descoberto
por Lênin e Trotsky – a liquidação da democracia em geral – é ainda pior que o mal que
pretende curar, por que cega precisamente a única fonte viva capaz de corrigir todas as
insuficiências (...): a vida política ativa, desinibida, enérgica, das mais amplas massas
populares.

Lamentavelmente, sua recriminação foi totalmente rejeitada. O governo bolchevique avançou por um
caminho que distorceu profundamente o conceito, a natureza e a prática do que se dizia defender: a ditadura
do proletariado. Para Marx (e Engels) essa formulação equivalia à concepção fideicomissária, da ditadura
como instituição republicana em condições de guerra civil que, longe de ser uma ditadura soberana, estava
obrigada a prestar contas ante seus mandantes, para o caso, a aliança de operários, soldados e camponeses.
Em lugar disso, os bolcheviques assumiram o monopólio do poder e se atribuíram o direito de exercer a
ditadura (em nome) do proletariado.
Semelhante substitucionismo transformou também o caráter e a função dos sovietes, que havendo sido
inicialmente concebidos como órgãos de poder com funções deliberativas e executivas, terminaram
convertidos em instituições formais, limitadas a endossar as resoluções adotadas pelos diversos níveis
dirigentes do partido. Foi imposto um estilo de governo e de “fazer política” que na realidade exclui a
política enquanto construção coletiva e conflitiva de normas, valores e consensos optando por se impor
administrativamente, de modo vertical e autoritário. Uma vez no poder, os bolcheviques careceram de
verdadeiras políticas de aliança, devido talvez à falsa concepção de que, se à classe social correspondia um
partido, e sendo o PC “o” partido da classe operária, toda e qualquer organização que não aceitasse se
subordinar ao partido passava a ser tratada com desconfiança ou hostilidade aberta, e no extremo, suprimida.
Acompanhando o declínio dos sovietes, se reconstruiu aceleradamente um Estado com imenso aparato
burocrático que, ao terminar a guerra civil contava (sem incluir o exército) com 6 milhões de funcionários.
Os níveis mais altos deste aparato estatal não tardaram em ficar entrelaçados e confundidos com o também
crescente aparato do partido: assim surgiu um novo e poderoso “corpo social”, uma burocracia com
interesses e desejos cada vez maiores. Quando Lênin e Trotsky advertiram o problema, já não tiveram nem
tempo e nem meios para impedi-lo.
15

5. De partido revolucionário a partido de governo

O partido que se lançou à tomada do poder em 1917 era uma organização revolucionária relativamente
pequena, construída e educada politicamente nas condições de severa repressão impostas pela autocracia
czarista e sua temível polícia política, a Okhrana. A excepcional estatura intelectual e política daquele
punhado de dirigentes que, com a revolução, passaram a ser reconhecidos líderes do movimento comunista
internacional, pode ocultar que era uma organização que contava com muito poucos intelectuais e militantes
instruídos. A composição social do partido bolchevique estava caracterizada por uma porcentagem
excepcionalmente elevada de operários, ávidos de conhecimentos, mas com um mínimo de educação formal.
Isso se fez mais notável por que a maioria da intelligentsia havia girado à direita no período prévio à
revolução. Existem múltiplos testemunhos das queixas amargas com que aqueles operários, que a revolução
havia posto em posições esperançosas, reclamavam infrutiferamente da ajuda de intelectuais que lhes davam
as costas (Mandel, 2017).
Esse foi o partido que de um dia para outro passou a ser o partido de governo, enfrentando tarefas e um
acúmulo de problemas que manifestamente o transbordavam. Quando os Comissariados (Ministérios)
quiseram assumir funções, descobriram que o aparato administrativo estava em ruínas ou era-lhes
absolutamente hostil. Os quadros partidários ficaram emaranhados na confusão de atividades que lhes eram
estranhas. E submetidos às pressões que já não eram as de radicalizar a luta, mas sim as que surgiam das
contraditórias urgências e exigências de diversos setores e camadas das massas populares (valha como
exemplo o caso especialmente complexo da conflitiva relação com os ferroviários).
Prova eloquente das dificuldades e incertezas do novo partido de governo, foi a crise que estourou em
novembro, a duas semanas de haver assumido, e se resolveu com a substituição de alguns ministros para
permitir o ingresso dos esseristas de esquerda (membros do Partido Socialista Revolucionário de Esquerda) e
a modificação da representação bolchevique no Conselho Executivo dos sovietes (Kamenev, que havia
enfrentado publicamente resoluções do Comitê Central, foi substituído por Sverdllov).
A “férrea unidade” e “rígida disciplina” do bolchevismo é em grande media uma lenda. Na mais alta
direção, havia dirigentes exilados durante longos anos em diversos países e aproveitando da experiência e
discussões com dirigentes operários e técnicos da socialdemocracia, porém mais que uma equipe acostumada
a trabalhar em conjunto, eram personalidades com capacidades, formas de trabalho e colaboradores imediatos
muito diversos. Existia, além do mais, outro grupo de dirigentes muito distinto, que haviam formado a
“direção interior” ou trabalhado em relação com a mesma, sem muitas preocupações teóricas, com uma
bagagem cultural distinta e rodados no manejo do aparato clandestino.
Por outro lado, os bolcheviques tiveram que atuar com gente proveniente de outras tradições e
formações que traziam contribuições (e pressões) contraditórias. Em uma enumeração muito rápida, cabe
mencionar em primeiro lugar aos chamados “bogdanovistas”, alguns dos quais se incorporaram ao partido
enquanto outros (como o próprio Bogdanov) influenciaram indiretamente através da massiva e multiforme
corrente educativo-cultural-política que foi a Proletkult. Os mencheviques internacionalistas, que sendo
muito críticos do governo tentaram manter sua imprensa e atividade política, enquanto muitos outros se
somaram ao partido ou mantiveram alguma atividade com baixo perfil nos sovietes. Os esseristas de
esquerda foram tornados ilegais após a aventura golpista, mas alguns se reagruparam para lutar contra os
16

Brancos, sem deixar de ser críticos das políticas de governo sobretudo no referido ao campo. Os anarquistas,
que haviam tido um papel importante nos comitês de fábrica e nos sovietes de soldados de 1917,
reapareceram com força na Comuna de Kronstadt, ou o Exército Negro de Makno. Foi influente uma
corrente de acadêmicos e cientistas mais ou menos elitistas que optaram por colaborar com o governo, com
bastante influência nas áreas econômicas e técnicas do governo. Os “neopopulistas” (Chayanov foi o mais
importante), estudiosos do trabalho e da produção no campo russo. Existiu também uma corrente “anti-
intelectual” (influenciada pelas ideias de Makhaisky). Por último, mas não em importância, cabe destacar que
depois de 1917 o partido atraía legiões de carreiristas e oportunistas em busca de prestígio e privilégios
(Utechin, 1958).
O Conselho de Comissários do Povo havia surgido formalmente do II Congresso dos Sovietes, mas
desde o primeiro momento as grandes linhas de governo eram discutidas e votadas pelo Comitê Central do
partido. Paradoxalmente, o partido que pretendia encarnar a ditadura do proletariado entrou em uma espécie
de limbo. Carecia de aparato e finanças próprias, o Secretariado do partido presidia também o Comitê
Executivo dos Sovietes de toda Rússia e a partir daí atendia a todas as questões. Os militantes comunistas
deviam fazer que os sovietes implementassem as políticas definidas pelo Comitê Central, que lhes eram
transmitidas através dos diários Pravda (órgão do partido) e Izvestia (do Soviete) e também mediante
telegramas do secretariado, mas as instâncias intermediárias do partido não funcionavam nem existia quem se
ocupasse especificamente dos comitês regionais e das células. A situação era tão caótica que a fins de 1918
alguns dirigentes importantes chegaram mesmo a colocar que talvez se devesse dissolver o partido e
Sverdllov mesmo lançou uma dramática advertência no VIII Congresso (março de 1919):

O partido está morrendo, está em vias de explodir, de se desagregar em múltiplos interesses


locais e particulares. Se não se estabelece uma hierarquia internacionalista, será o fim do
regime que defendemos (citado por Carrere d’Encausse, 1993: 70).

Para sair de tal situação, formou-se um aparato adjunto ao Comitê Central para se ocupar da
centralização, organização e distribuição de quadros e recursos. Começou com 80 [funcionários]
permanentes, passaram a ser 600 em março de 1921 e um ano depois já ocupava 15.000 funcionários. Até
fins de 1921 o exercício real do poder em todos os níveis havia passado completamente para as mãos do
partido, que havia conseguido superpor sua organização centralizada à rede descentralizada dos sovietes.
A outra face da reorganização foi a crescente discordância dos trabalhadores, à medida em que
percebiam que estavam sendo expropriados do direito de participar e decidir na vida dos sovietes. Essas
queixas se refletiam no incômodo dos militantes comunistas de base, entre os quais também cresceram as
críticas contra a elite do partido e do Estado, contra a “hierarquia dos secretários” ou da “oligarquia”
partidária, que davam ordens e impunham diretrizes por cima das decisões de congressos ou conferências
partidárias e de utilizar cada vez mais arbitrariamente o poder de transferir militantes, recursos e enviados
“com plenos poderes” a todas as partes. Terminada a guerra civil, o descontentamento cresceu
exponencialmente e ameaçava derrotar os comunistas nas eleições para os sovietes locais. Reflexo interno
17

dessa situação foi a formação das tendências “Oposição Operária”, “Centralismo Democrático” e
agrupamentos mais autônomos como o Grupo Operário liderado pelo metalúrgico Miasnikov, que chegou a
discutir pessoalmente com o próprio Lênin (depois foi expulso, preso e teve que se exilar em 1929).
Os dirigentes do partido observaram que, perdida sua base social, a ditadura do proletariado e eles
mesmos, na realidade estavam suspensos no ar. Atribuíram essa situação às dificuldades econômicas, ao
individualismo pequeno-burguês dos camponeses, à diminuição quantitativa, ao cansaço, à desmoralização e
até “ao desclassamento” dos operários. Nem Lênin nem Trotsky foram capazes de advertir a tempo que
estava-se frente ao desenvolvimento de um irrefreável processo de burocratização. Não se tratava
simplesmente de “métodos equivocados” nem da má influência da antiga burocracia que havia se mantido ou
reincorporado nas instituições do Estado soviético, mas da emergência de uma nova e poderosa força social
que, havendo sido eliminados os capitalistas e latifundiários, e manejando as alavancas do poder do estado,
do partido e dos meios de produção estatizados, tornava-se um corpo social privilegiado e potencialmente
explorador. Quando Christian Rakovsky advertiu sobre “Os perigos profissionais do poder” (2002), este
havia já passado às mãos de uma burocracia que, esgrimindo suas origens operárias e camponesas, tratava de
ocultar que constituía na realidade uma força social política e estruturalmente enfrentada com as massas
exploradas do campo e da cidade e dissimulava o abandono de toda perspectiva revolucionária proclamando
“a construção do socialismo em um só país”.

6. A crise da revolução

Finalizada a guerra civil urgia corrigir os erros, restabelecer a democracia soviética a fim de corrigir os
abusos cometidos e reconstruir a imprescindível aliança operário-camponesa, ajustando as medidas e o ritmo
da transição socialista às condições impostas pelo isolamento da revolução na Rússia e ao que permitissem a
livre mobilização e auto-organização de operários e camponeses, sem as quais resulta impossível dar passos
efetivos até o socialismo. Em lugar disso, se mantiveram durante quinze meses as principais orientações
econômico-administrativas do “comunismo de guerra”, se ensaiaram passos ziguezagueantes em direção à
“militarização do trabalho”.
Enquanto isso, as campanhas de mobilização e enquadramento buscavam restringir e desencorajar o
que se percebia como ameaçante revitalização de discussões e ações coletivas que efetivamente desde 1920,
e tendo como pano de fundo as crescentes revoltas camponesas, começaram a se dar nos locais de trabalho.
Essa reativação da ação coletiva culminou em uma onda grevista em várias cidades entre fevereiro e março
de 1921 e em um renovado ativismo de base com o objetivo de intervir nas eleições dos sovietes em abril-
maio de 1921 (ver Piraní, 2008).
A obstinação da direção do Estado e do partido conduziu à “crise geral da Revolução” de 1921, que
teve sua expressão mais espetacular na rebelião dos marinheiros da base de kronstadt (aos que se havia
saudado em 1917 como “a glória e a honra da Revolução”). O soviete dos marinheiros se levantou contra o
governo, proclamou “A Comuna de kronstadt”, declarou-se solidária às greves operárias e protestos
camponeses e exigiu a regeneração do poder soviético com a explosiva consigna de sovietes sem comunistas.
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A Comuna de kronstadt foi afogada em sangue com o pretexto de que se tratava de um motim
contrarrevolucionário organizado pelos Brancos16. Lênin, Trotsky, o nível superior do partido, decidiram o
esmagamento de kronstadt porque esse exemplo constituía uma ameaça letal ao monopólio político do PC.
Essa decisão adotada no marco do X Congresso do partido foi acompanhada inclusive pelos delegados da
“Oposição Operária” e do “Centralismo Democrático”: as razões de partido pesaram mais que a
solidariedade de classe e a integridade do processo revolucionário.
Uma vez sufocada a rebelião, quando o X Congresso se reinstalou, Lênin advertiu que o mais grave e
perigoso não era o ocorrido em Kronstadt, e reconheceu que estava-se na presença do que denominou, com
toda crueza, “a crise geral da revolução”.
Atribuiu essa crise aos erros do “comunismo de guerra”, à generalizada ineficiência do Estado, ao
profundo descontentamento existente entre os trabalhadores e sobretudo no campesinato. Depois agregaria
que outra das causas era que os Comunistas atuavam de um modo “presunçoso”. Para neutralizar essas
ameaças foram lançadas uma bateria de medidas díspares que receberam o nome de Nova Política
Econômica.
Na opinião de Lênin se tratava de um “recuo” transitório, imposto tanto pela necessidade de superar a
catástrofe econômica como pela mudança na situação internacional. Entendia que, não havendo se
aproveitado a aguda crise revolucionária de março de 1920 na Alemanha (e fracassado a tentativa de ajudá-la
com o Exército Vermelho), devia se reformular a política para a Rússia sem contar já com a possibilidade de
novas revoluções na Europa no curto prazo. Ponto de vista avalizado (em junho de 1921) pela internacional
comunista com uma resolução que respaldou a política que “concentra todas as forças do proletariado
dirigido pelo Partido Comunista da Rússia com vistas a resguardar a ditadura do proletariado até o momento
em que o proletariado da Europa Ocidental venha em sua ajuda”.
Para sair do marasmo foram feitas importantes concessões estimulando que o campesinato voltasse a
produzir e comercializar seus excedentes, foram introduzidos mecanismos de mercado e novamente
postulado o recurso ao “capitalismo de Estado” enquadrado pelo “setor socialista” da economia e o poder
soviético. Prevendo que seriam geradas pressões de todo tipo e se agravariam as tensões, o “carreirismo” e os
cliques (grupos com interesses próprios) existentes no partido. Lênin preconizou reforçar ou impor a unidade
(e o controle vertical) do partido com a ajuda de diversas medidas disciplinares e organizativas. Maior
controle sobre os sindicatos, novos organismos para controlar o aparato estatal (que na prática agravaram a
burocratização), “purga” dos oportunistas que haviam ingressado no partido para obter vantagens pessoais.
Mas o mais importante, o mais grave e equivocado, foi que se tentasse reforçar a disciplina restringindo a
democracia interna, ordenando a imediata dissolução da “Oposição Operária” e do “Centralismo
Democrático”, proibindo a formação de tendências e incrementando os poderes já exorbitantes do Comitê
Central.
Mas os enfrentamentos no Comitê Central se agravaram, pois a burocracia sentindo-se fortalecida
começou a atuar com crescente prepotência, com o incentivo e proteção de um Stálin elevado ao cargo de

16
Essa acusação nunca foi provada. Pelo contrário, as investigações mais sérias, inclusive de historiadores que justificam a
repressão, mas por outras razões, concluem que os círculos contra-revolucionários no exterior foram surpreendidos pela rebelião
não tiveram nenhuma influência sobre os acontecimentos de Kronsdatd.
19

Secretário Geral. A situação se agravou a tal ponto que precipitou o que Moshe Lewin estudou e chamou O
último combate de Lênin. A tentativa de retificação havia começado no XI Congresso (março de 1922),
dizendo que o Estado soviético era um automóvel que não marchava para onde o condutor acreditava dirigi-
lo, com uma burocracia hostil ao comunismo. Também disse sugestivamente que “As ideias que tínhamos
sobre o socialismo devem ser repensadas”. Uma e outra vez insistiu que era imprescindível a revisão de
concepções e práticas anteriores. Chamou à luta contra a ineficiência, criticou a “presunção” nos militantes e
cobrou que os Comunistas e o setor “socialista” da economia dessem provas de ser capazes de competir com
êxito com o setor privado, assegurando a provisão de mercadorias na quantidade e qualidade necessárias para
restabelecer a aliança com o campesinato. Insistiu até o fim em buscar uma estratégia econômica que desse
satisfação às necessidades vitais dos camponeses e esses pudessem compreender e aceitar. Buscava
salvaguardar a perspectiva de construção do socialismo a longo prazo, propondo objetivos imediatos realistas
e retomando o enfoque sobre economia de transição que Trotsky havia proposto (sem utilizar o termo
“capitalismo de estado”) a fins de 192117. Em outras palavras: redefinir o conceito de socialismo, mudar a
estratégia no que se referia ao campesinato, atacar a burocratização mudando o tipo de Estado e construindo
a URSS como associação voluntária de Repúblicas soberanas com igualdade de direitos (inclusive o de se
retirar!), corrigir o funcionamento do Partido reestabelecendo o controle coletivo sobre o Burô Político
(Lewin, 2003) ... O combate de Lênin terminou em começos de março de 1923, quando perdeu
definitivamente o uso da fala, não sem antes deixar registrado por escrito que se devia remover Stálin do
cargo de Secretário Geral! (Lênin, 1971: 134).
Desgraçadamente, faleceu e sua reivindicação foi ignorada: nenhum membro do Comitê Central, nem
sequer Trotsky se atreveu a mantê-la, e Stalin consolidou assim sua posição. Trotsky e a Oposição de
Esquerda, não sem matizes, tentaram retomar essa batalha, mas foram derrotados. (Louca, 2017).
Depois, a URSS foi reorientada por Stálin em direção “à construção do socialismo num só país”. Com
a NEP a situação econômica melhorou sensivelmente (até 1924 haviam se recuperado os níveis de produção
anteriores à guerra) e melhorou muito o nível de vida da população, inclusive no campo, uma relativa
prosperidade que colocou ao alcance da população os alimentos e bens de consumo tão ardentemente
esperados. Inclusive no campo, o nível de vida melhorou sensivelmente. Certo é que também cresceram as
diferenciações sociais, se agudizaram as recorrentes tensões entre o campo e a cidade, aumentou a confusão e
desmoralização na heterogênea e despolitizada militância do partido. Mas o mais significativo foi que a NEP
permitiu uma espécie de “pacto social”: melhorias no nível de vida em troca de maior disciplina laboral e
deixar todo o poder político nas mãos do partido. Ganhos em termos de nível de vida, perdas em termos de
consciência coletiva e desenvolvimento político (Piraní, 2008). A NEP terminou facilitando as sucessivas
derrotas da Oposição de Esquerda e convertendo-se em um mero instrumento de orientação “termidoriana”
que desembocou na viragem de 1928. A “coletivização forçada” (no campo) se impôs utilizando uma
violência sistemática, e em grande escala, que preparou o clima político e o aparato repressivo que
imediatamente foi utilizado para impor aos operários a brutal exploração que implicou “a industrialização

17
Em uma conferência apresentada diante da Internacional Comunista, havia dito que, para que as fábricas do Estado chegassem a
ser efetivamente socialistas, deveriam necessariamente passar pela escola da economia de mercado.
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acelerada” (Romero, 1995). Deste modo culminou a degeneração do Estado soviético... Mas esta já não é a
história da Revolução Russa, mas a história de contrarrevolução stalinista.

7. A revolução pode oferecer inspirações, não “lições” a se repetir

O centenário da Revolução Russa é uma ocasião para “revisitá-la” com proveito, com a condição de
não apresentá-la sob a forma simplista e falsa de uma “lição” a repetir.
Foram capazes de superar o marxismo vulgar e possibilista imposto na Segunda Internacional:
advertiram que o Imperialismo e a Guerra Mundial impunham repensar a atualidade da revolução e nela o
papel das massas da Rússia atrasada (“elo frágil”), e acompanharam a caracterização com o empenho
militante de construir, no calor da luta de classes, a massiva vontade coletiva de avançar para o socialismo.
Construíram um partido que soube se apoiar no paciente trabalho prévio dos socialdemocratas nas
condições impostas pela autocracia, mas o realmente distintivo do partido de Lênin foi assumir a revolução
rompendo rotinas teóricas e conservadorismo organizativo, incorporando dezenas de milhares de militantes e
renovando a organização em todos os níveis, convertendo-se em um partido de massas dinâmico, pleno de
contradições e debates, que modificou no calor mesmo dos acontecimentos programa e táticas, e foi capaz de
ganhar a direção das massas e os sovietes por que demonstrou ser também capaz de aprender com elas e suas
experiências.
A tradição organizativa (“centralismo democrático”) que portavam não impediu impulsionar a auto
atividade das massas exploradas e apostar no poder criativo dos sovietes nas cidades e no campo, nos
regimentos de retaguarda e nas trincheiras do front. A “arte” dos bolcheviques consistiu em articular as mais
urgentes aspirações populares com a perspectiva internacionalista do socialismo, sintetizando isso em
consignas e tarefas que minavam os pilares da velha ordem: “Paz, Pão e Terra”, “Todo o poder aos sovietes”
e “Revolução socialista mundial”.
Assumiram que o desenvolvimento da revolução requeria acabar com o poder político da burguesia e
suas formas institucionais, e Lênin esboçou o projeto de um poder revolucionário de novo tipo, inspirado na
Comuna de Paris e ao que imaginou como “um Estado-não-Estado”, com uma burocracia mínima e a
perspectiva de extinguir-se.
Longe estiveram de consegui-lo e uma vez no poder acabaram fazendo quase o oposto, mas isso não
diminui o mérito de o haverem tentado.
Convencidos da necessidade de lutar pela revolução socialista em escala mundial, tentaram reagrupar a
todas as organizações revolucionárias do mundo (o espartaquismo alemão, a anarquista CNT da Espanha, os
sindicalistas revolucionários da França, os socialistas de esquerda de diversos países, os Shop Stewards
Comitees britânicos, os I.W.W. dos Estados Unidos...). Para eles, fazer a revolução era também construir
uma nova Internacional18.

18
Ainda que também aqui logo a seguir tomou-se um rumo diferente: as “21 Condições de admissão à IC” e as normas sobre a
organização dos Partidos Comunistas buscavam impor o modelo do PCUS em todo o mundo.
21

Os bolcheviques no poder cometeram erros grosseiros, inclusive com a liderança excepcional de Lênin
e Trotsky (entre 1917 e 1923). Muitas coisas se fizeram pela metade ou mal, [mas] sua trajetória acidentada
não encerra a força inspiradora da revolução: a enormidade de seus propósitos emancipatórios, o respaldo
mundial que souberam despertar e canalizar em favor do socialismo, o empenho em defender as posições
conquistadas sem renunciar ao comunismo como horizonte da emancipação humana. A 100 anos de
distância, podemos bem reivindicar o que apenas pode se entrever e não chegou a se desenvolver, mas estava
presente na libertária convocatória à derrubada ordem burguesa em todo o mundo. O “ainda-não” da
revolução não é prova de fracasso, mas antecipação do que pode e merece ser.

8. Não queremos (nem existem) modelos

Temos, pois, que aquele Estado “operário” que supostamente marcharia para seu gradual
desaparecimento, avançou rapidamente em sentido contrário até converter-se em um novo Leviatã. A URSS
foi um Estado burocrático que, com a enganosa e antimarxista consigna de “construir o socialismo em um só
país”, esmagou toda tentativa de organização política ou sindical com sinais de autonomia, rebaixou a
planificação a grosseiro instrumento de “modernização” e “desenvolvimento” e, nas antípodas de um
genuíno processo de socialização, pretendeu competir com os Estados capitalistas produzindo as mesmas
coisas, do mesmo modo e com menos eficiência.
A classe capitalista foi expropriada e o capital estatizado, mas se recriaram formas de exploração,
fetichismo e alienação do trabalho, impostas pelo punho de ferro de uma burocracia convertida em
imprevista “personificação do capital”. A Rússia conseguiu se industrializar e se converter em potência
atômica, teve uma vantagem momentânea na “corrida espacial” e chegou a proclamar que “o socialismo
realmente existente” em vias de superar o capitalismo marchava já ao comunismo… A miragem foi breve
(em termos históricos): já nos anos 70 do século passado o regime evidenciava um “estancamento” marcado
por sucessivas e fracassadas tentativas de reforma (fazendo sinais ao capitalismo) que culminaram com a
Perestroika, o desmoronamento-implosão da URSS (iniciado em 1989) e a vertiginosa restauração do
capitalismo.
É hora de que terminemos de processar o luto e possamos falar com clareza daquele socialismo que não
foi, para olhar para adiante e pensar com nossas próprias cabeças o socialismo que pode e merece ser no
século XXI. Não esqueçamos que como já o dissera a revolução cubana nos anos 60, e nos recordava a
começos do Século XXI o comandante Chávez, nenhum dos problemas da Nossa América pode ser
solucionado sob o capitalismo e portanto nossas revoluções deverão ser socialistas ou não passarão de ser
caricaturas de revolução. Mas sabemos também que a eventual derrubada de um governo burguês não
implica que o curso socialista da revolução esteja assegurado ou seja irreversível. A revolução socialista deve
ser concebida como um prolongado processo de confrontações e transformações político-sociais, culturais e
civilizatórias. Trata-se de fazer uma revolução total, isto é, construir a nova sociedade em escala planetária.
Durante a transição socialista nada pode substituir a auto atividade das massas trabalhadoras e o
desenvolvimento de originais e variantes formas de poder popular impulsionando e sustentando a construção
de novas formas de convivência e racionalidade social, e com elas, de um metabolismo econômico social em
equilíbrio com a natureza e mediado pela autogestão social coordenada.
22

Por um lado, as experiências do “socialismo realmente existente” ou “socialismos históricos” e, por


outro, a catástrofe ecológico-ambiental gerada pelo capitalismo, indicam que não podemos seguir pensando a
emancipação humana em termos de porcentagens de propriedade estatal, industrialização a todo custo,
aumento de índices produtivos e esse ou aquele modelo de planificação tecnocrática. Devemos superar a
perniciosa influência das ideologias do “progresso”, a “modernização”, o “crescimento” e o
“desenvolvimentismo” e assumir desde o primeiro momento o desafio de ir para além do capital, opondo ao
sistema orgânico de controle do capital19 novas mediações orientadas à produção de valores de uso e à
modificação da herdada divisão social-hierárquica do trabalho, fonte contínua de alienação e fetichismo
(Meszáros, 1995).
Estes sucessivos passos devem levar à construção de uma ordem social alternativa e autossuficiente,
onde os produtores diretos autodeterminados possam se reapropriar positivamente das funções vitais de
intercâmbio metabólico com a natureza e na sociedade, melhorando-as e transformando-as. A construção do
socialismo só pode se culminar em escala mundial, mas o desenvolvimento da revolução socialista será
necessariamente desigual, não se inicia simultaneamente em todos os países, e em cada um adotará distintos
ritmos e combinações originais de tarefas, ajustadas às condições estruturais, políticas e culturais existentes.
Um século depois da Revolução Russa, a partir desta convulsionada América Latina e as assediadas
trincheiras da revolução bolivariana e chavista na Venezuela, nos corresponde construir teórica e
praticamente uma perspectiva que faça da transição socialista em Nossa América não “decalque e cópia” mas
“criação heroica” como nos indicou logo cedo Mariátegui. Para isso devemos superar a vulgata sociológica e
o esquematismo “obreirista”, compreender as expressões concretas que o antagonismo social assume em
nosso tempo e lugar e compartilhar a sorte, as lutas e os sonhos de classes e grupos subalternos que
enfrentam a multivariada opressão e exploração que o imperialismo e “nossos” capitalismos subordinados
nos impõem. Trata-se de construir uma subjetividade revolucionária tão “enraizada” como universalista e
emancipatória, capaz de sentir, pensar e atuar a partir de nossas particularidades a fim de construir uma
vontade coletiva disposta a ir para além do capital, do produtivismo, do modelo civilizatório que nos têm
imposto. Isso requer uma original combinação de utopia e realismo. Realismo estratégico, pois temos por
diante um enfrentamento de longo prazo para o que não servem o imediatismo nem o possibilismo. Utopia
tática, para fecundar as lutas cotidianas com o princípio esperança tratando de impulsionar “o movimento
real que anula e supera o estado de coisas atual”, segundo escreveu Marx.
Recordando também com Marx que “a coincidência entre a alteração das circunstâncias e a atividade
ou autotransformação humanas só pode ser apreendida e racionalmente entendida como prática
revolucionária”
Os russos o tentaram, como entenderam e puderam, faz um século. Nós deveremos tratar de fazê-lo,
agora, à nossa maneira.

Setembro de 2017

19
Controle imposto pela tríade que conformavam o capital e suas personificações no comando da produção, o trabalho
assalariado subordinado aos imperativos de valorização do valor e crescimento quantitativo, e o Estado como estrutura política de
mando.
23

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