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ESCOLA SUPERIOR DA MAGISTRATURA DO ESTADO DE ALAGOAS

A FAZENDA PÚBLICA EM JUÍZO


Helestron Silva da Costa
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A FAZENDA PÚBLICA EM JUÍZO


1ª Parte

Helestron Silva da Costa

1. Conceito:
No Direito Processual a Fazenda Pública é expressão que significa o poder público
como parte no processo.

2. Capacidade Postulatória:
Art. 75 do CPC: Procuradorias
Art. 75, III, do CPC: os Municípios podem ser representados por seu prefeito ou
procurador. Nos municípos que tiverem procuradoria, a citação é feito na pessoa do procurador,
nos que não tiverem constituído este órgão a citação se dá na pessoa do prefeito que outorga
poderes ao advogado por meio de procuração.
Exceções: Juizados Especiais Estaduais em causas de até 20 salários mínimos e
Juizados Federais independentemente do valor da causa.
Casas Legislativas: Apesar de não deter personalidade jurídica própria, a
representação judicial dos órgãos legislativos é feita por sua própria procuradoria ou por
advogados constituídos. Em regra, as procuradorias legislativas são responsáveis pelas consultas
jurídicas relacionados aos temas votados na casa. Todavia, estes órgãos podem presentar o Poder
Legislativo em casos em que este demandar em face do Poder Executivo ou de qualquer outro
órgão em defesa de sua independência.
O STF decidiu que a procuradoria legislativa pode atuar na defesa de lei impugnada
por ADI, não sendo tal prerrogativa exclusiva da procuradoria do Estado. In verbis:
Não é inconstitucional norma da Constituição do Estado que atribui ao procurador da Assembleia
Legislativa ou, alternativamente, ao procurador-geral do Estado, a incumbência de defender a constitucionalidade de
ato normativo estadual questionado em controle abstrato de constitucionalidade na esfera de competência do Tribunal
de Justiça. Previsão que não afronta a Constituição Federal, já que ausente o dever de simetria para com o modelo
federal, que impõe apenas a pluralidade de legitimados para a propositura da ação (art. 125, § 2º, CF/88). Ausência de
ofensa ao art. 132 da Carta Política, que fixa a exclusividade de representação do ente federado pela Procuradoria-
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Geral do Estado, uma vez que nos feitos de controle abstrato de constitucionalidade nem sequer há partes processuais
propriamente ditas, inexistindo litígio na acepção técnica do termo.
Art. 75, § 4o, do CPC: Os Estados e o Distrito Federal poderão ajustar compromisso
recíproco para prática de ato processual por seus procuradores em favor de outro ente federado,
mediante convênio firmado pelas respectivas procuradorias.

3. Prazos Diferenciados
Art. 183. A União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e suas respectivas
autarquias e fundações de direito público gozarão de prazo em dobro para todas as suas
manifestações processuais, cuja contagem terá início a partir da intimação pessoal.
A Fazenda Pública gozará de prazo em dobro mesmo nos casos em que atue como
interveniente. Todavia, não possui tal prerrogativa quando o prazo for fixado pelo juiz, pois, ao
fixa-lo o magistrado já leva em consideração a situação excepcional do ente público.
O parágrafo 2º do art. 183 do CPC consigna, porém uma exceção a esta prerrogativa,
na medida que prescreve que a não aplicação do benefício da contagem em dobro quando a lei
estabelecer, de forma expressa, prazo próprio para o ente público.
Não se conta em dobro, também, o prazo:
a) para contestar a ação popular (art. 7º, IV, da Lei nº 4.717/1965 - 20 dias);
b) para impugnar o cumprimento de sentença (art. 535 do CPC- 30 dias);
A desobediência aos prazos importa em preclusão.
Prazos Próprios: fixados para as partes e Ministério Público, de sua desobediência
decorre a preclusão.
Prazos Impróprios: fixados em lei como parâmetro a ser seguido por Juízes e
Serventuários da Justiça, mas sua inobservância não gera preclusão.
Art. 225. A parte poderá renunciar ao prazo estabelecido exclusivamente em seu
favor, desde que o faça de maneira expressa.
Os prazos podem ser dilatados pelo juiz com vista a conferir maior efetividade à tutela
do direito. Art. 139, VI, do CPC, in verbis:
Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe:
VI - dilatar os prazos processuais e alterar a ordem de produção dos meios de prova, adequando-os
às necessidades do conflito de modo a conferir maior efetividade à tutela do direito;
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Além disso, os prazos podem ser dilatados também pelas partes, segundo interpretação
do art. 190 do CPC dada pelo Enunciado 19 do Fórum Permanente de Processualistas Civis.
Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes
plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar
sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo.
No casos em que a lei for omissa o juiz fixará o prazo de acordo com a complexidade
do ato (art. 218, §1º, do CPC).
A fixação de prazo pelo juiz encerra contéudo de decisão interlocutória, impugnável
por apelação nos termos do art. 1.009, §1º, do CPC, in verbis: § 1o As questões resolvidas na fase
de conhecimento, se a decisão a seu respeito não comportar agravo de instrumento, não são
cobertas pela preclusão e devem ser suscitadas em preliminar de apelação, eventualmente
interposta contra a decisão final, ou nas contrarrazões. Não cabe agravo de instrumento por falta
de previsão no art. 1.015 do CPC.
Nos termos do art. 218, § 3o do CPC, inexistindo preceito legal ou prazo determinado
pelo juiz, será de 5 (cinco) dias o prazo para a prática de ato processual a cargo da parte.
Apenas os prazos processuais devem ser contados em dias úteis na forma do art. 219
do CPC.
O prazo para impetração de mandado de segurança não é processual, exceto aquele
impetrado em face de decisão judicial.

4. Intimação Pessoal
A Fazenda Pública goza da prerrogativa de intimação pessoal em qualquer processo,
inclusive naqueles que tramitem nos Juizados Especiais, fazendo-se por cara, remessa ou meio
eletrônico.
O endereço eletrônico não é destinado à realização de intimações. Estas são feitas em
portal próprio, no dia em que o intimando efetivar a consulta eletrônica ao teor da intimação, ou
quando decorrido o prazo de dez dias corridos, contados da data de seu envio (Lei nº
11.419/2006, art. 5º, §§ 1º a 3º).
A intimação pessoal não dispensa a publicação da decisão no Diário da Justiça
eletrônico, que há de ser feita em atenção ao princípio da publicidade.
A retirada dos autos ou da secretaria pela Advocacia Pública implica intimação de
qualquer ecisão contida no processo, ainda que pendente de publicação (CPC, art. 272, § 6º).
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5. Prescrição e Decadência
Prescrição: perda da pretensão (Violada a pretensão, surge a ação material. Não
exercida a pretensão ou a ação no prazo previsto em lei, opera-se a prescrição.)
Com a prescrição perde-se a eficácia da pretensão e consequentemente da ação
material.
Decadência: perda de um direito potestativo. Pode ser legal ou convencional.

5.1. Prazos:
Antes do Código Civil de 2002, todos os prazos extintivos, seja de prescrição, seja de
decadência, eram denominados, pela legislação de regência, prazos de prescrição.
As dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e
qualquer direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja qual for a
natureza, prescrevem em 5 (cinco) anos, contados da data do ato ou fato do que se originarem.
Esta regra não se aplica às empresas públicas e sociedades de economia mista, pois
possuem natureza jurídica de direito privado.
Prestações de trato sucessivo - Súmula nº 85 do STJ: Nas relações de trato
sucessivo em que a Fazenda Pública figure como devedora, quando não tiver sido negado o
próprio direito reclamado, prescrição atinge apenas as prestações vencidas antes do quinquênio
anterior à propositura da ação. (Nos casos em que a Administração negar o direito pleiteado, não
se aplica este enunciado, iniciando-se, a partir da publicação do ato, o prazo decadencial para
impugnação da decisão administrativa)
É pacífica a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que lei que
suprime vantagem ou gratificação possui efeitos concretos, sendo a suspensão do pagamento da
rubrica nos meses subsequentes mero reflexo do ato originário, situação que não caracteriza
relação de trato sucessivo. Portanto, a ação que questione a constitucionalidade da lei deve ser
proposta no prazo de cinco anos, contados da publicação do ato impugnado, sob pena de sofrer os
efeitos da decadência.
Interrupção da prescrição:
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A prescrição é interrompida pelo despacho que ordenar a citação, mas tal interrupção
retroage à data da propositura da demanda (CPC, art. 312), desde que o autor adote as
providências necessárias para a citação no prazo de 10 (dez) dias (CPC, art. 240, §§ 1º e 2º).
Se o processo vier a ser anulado ou extinto sem resolução do mérito, essa
circunstância não desfaz a interrupção da prescrição. Ordenada a citação, interrompe-se o prazo
prescricional, ainda que o processo venha a ser anulado ou extinto sem resolução do mérito.
Com a entrada em vigor do CC/2002 a interrupção da prescrição somente se opera
uma vez, igualando os particulares à Fazenda Pública, que já sofria com regra similar por força do
art. 8º do Decreto 20.910/1932.
Obstada a prescrição, recomeça a correr, pela metade do prazo, da data do ato que a
interrompeu ou do último ato ou termo do respectivo processo. Todavia, no total do período,
somando-se o tempo de antes com o posterior ao momento interruptivo, não deve haver menos de
5 (cinco) anos1.
O prazo decadencial não pode ser objeto de interrupção, suspensão ou renúncia.
O STJ mudou seu entendimento no sentido de que a pretensão de reparação civil em
face da Fazenda Pública prescreve em três anos. Em recurso especial repetitivo restou definido
que, por encerrar norma especial, o art. 10 do Decreto 20.910/1932 prevalece sobre o art. 206, §3º,
V, do CC/2002.
A jurisprudência do STJ se firmou no sentido de serem imprescritíveis as ações de
indenização decorrentes de perseguição, tortura e prisão, por motivos políticos, durante o
regime militar.

5.2. Reconhecimento de Ofício da Prescrição e da Decadência:


O parágrafo único do art. 487 do CPC impõe que o juiz deve consultar as partes antes
de pronunciar a prescrição, ressalvada a hipótese de improcedência liminar (CPC, art. 332, § 1º).
Esta exigência advém da hipótese de ter havido alguma causa interruptiva ou suspensiva
desconhecida pelo juízo.

1
Súmula 383 do STF: A prescrição em favor da Fazenda Pública recomeça a correr, por dois anos e meio, a partir
do ato interruptivo, mas não fica reduzida aquém de cinco anos, embora o titular do direito a interrompa durante a
primeira metade do prazo.
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Apenas a decadência legal é reconhecível de ofício pelo juiz. A convencional por sua
vez pode ser alegada em qualquer momento pelo interessado (art. 211 do Código Civil).
6. Revelia
Se não apresentar contestação, a Fazenda Pública será revel; todavia, os efeitos
materiais da revelia não lhe alcançam, em razão da indisponibilidade do bem público. Neste
sentido, mesmo sendo a Fazenda Pública revel, deve o autor afastar, com provas e argumentos, a
presunção de legitimidade do ato público impugnado.
Por sua vez, os efeitos processuais da revelia atingem a Fazenda Pública com o
mesmo regramento dado aos particulares. Este efeito se manifesta na dispensa de intimação do réu
para os atos do processo (CPC, art. 346), somente se produz se o réu, além de não contestar, não
comparecer nos autos, devendo cessar assim que houver manifestação do revel, a qualquer tempo.

7. Desistência da Ação
O art. 3º da Lei 9.469, de 10 de julho de 1997, autoriza a Fazenda Pública a concordar
com a desistência, desde que o autor renuncie expressamente ao direito sobre que se funda a ação.
Em razão de tal dispositivo, a Fazenda Pública, na condição de ré, somente deve concordar com a
desistência caso o autor a transmude em renúncia ao direito sobre o qual se funda a ação (CPC,
art. 487, III, a). O STJ avalizou esta exigência.
Caso haja alguma preliminar invocada na contestação da Fazenda Pública, impõe-se
desconsiderar a exigência contida no art. 3º da Lei 9.469/1997. É que, tendo a ré suscitado
preliminar, demonstrou que pretende obter uma sentença sem resolução do mérito. Não há razão, a
partir daí, para discordar da desistência da ação ou para condicionar sua aceitação a uma renúncia
ao direito material, pois praticou um ato incompatível, caracterizando a existência de uma
preclusão lógica.

8. Improcedência Liminar do Pedido


Art. 332. Nas causas que dispensem a fase instrutória, o juiz, independentemente da
citação do réu, julgará liminarmente improcedente o pedido que contrariar:
I - enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de
Justiça;
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II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de
Justiça em julgamento de recursos repetitivos;
III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de
assunção de competência;
IV - enunciado de súmula de tribunal de justiça sobre direito local.
§ 1o O juiz também poderá julgar liminarmente improcedente o pedido se verificar,
desde logo, a ocorrência de decadência ou de prescrição.
Nos casos relacionados no art. 332, o juiz pode deixar de aplicar o precedente quando
houver uma distinção do caso posto com os precedentes consolidados. Trata-se de distinguish que
justifica o afastamento do precedente com base no art. 489, §1º, VI, do CPC.
Em face de sentença que rejeita liminarmente o pedido, cabe apelação, que deve ser
fundamentada na existência de distinção. Neste caso, pode o juiz retratar-se da decisão de
improcedência. As superações de precedentes devem ser suscitadas no próprio tribunal que o
consolidou.
Se a improcedência liminar se referir a apenas um ou alguns dos pedidos, nos termos
do art, 203, §2º, do CPC, o juiz profere uma decisão interlocutória com julgamento parcial do
mérito, impugnável por agravo de instrumento.
Nos tribunais a improcedência liminar do pedido se opera por decisão monocrática do
relator, desafiável por agravo interno (art. 1.021 do CPC).

9. Despesas do Processo

9.1. Custas
Servem ao custeio da prestação da atividade jurisdicional, recolhidas por meio do
Funjuris, que o setor responsável pela arrecadação e gestão dos recursos.
Natureza jurídica de tributo, da espécie taxa. Por tal razão, a Fazenda Pública é isenta
do seu recolhimento. Nesta isenção inclui-se o preparo recursal e o depósito preliminar de 5% em
ações rescisórias.
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O art. 91 do CPC refere-se a despesas, estabelecendo que elas somente serão pagas
pela Fazenda Pública ao final, se vencida. Já se viu, contudo, que o termo despesa abrange as
custas, os emolumentos e as despesas em sentido estrito2.
9.2. Emolumentos
Remuneração paga pelos serviços prestados pelas serventias extrajudiciais.
Também tem natureza jurídica de tributo, da espécie taxa.
Observe-se que a regra que isenta as Fazendas Públicas do pagamento de custas e
emolumentos advém de norma federal. Portanto, a rigor a Fazenda Federal pagaria tais taxas
quando litigassem na Justiça Estadual. Ocorre que, no Estado de Alagoas, a Resolução nº 16/2009
isenta todas as fazendas do pagamento de custas e taxa judiciária.
A isenção aqui tratada não abrange os Conselhos de Fiscalização Profissional.
9.3. Despesas em sentido estrito: honorários periciais, despesas de transporte
Destinadas a remunerar terceiros acionados para atuar no processo judicial, geralmente
com vistas a auxiliar na produção de uma prova na fase de instrução, ou para fazer algum serviço
em diligência processual, como por exemplo o transporte de bens penhorados em garantia da
execução.
A Fazenda Pública não é isenta do pagamento de tais despesas visto que não possuem
natureza tributária. Trata-se contra-prestação por um serviço prestado. Nada impede, entretanto,
que sejam realizados por entidade pública, conforme dispõe o art. 91 do CPC:
§ 1º As perícias requeridas pela Fazenda Pública, pelo Ministério Público ou pela
Defensoria Pública poderão ser realizadas por entidade pública ou, havendo previsão
orçamentária, ter os valores adiantados por aquele que requerer a prova.
§ 2º Não havendo previsão orçamentária no exercício financeiro para adiantamento
dos honorários periciais, eles serão pagos no exercício seguinte ou ao final, pelo vencido, caso o
processo se encerre antes do adiantamento a ser feito pelo ente público.

10. Honorários Advocatícios

2
Carneiro da Cunha, Leonardo. A Fazenda Pública em Juízo. 15ª Edição. 2018. (pág. 129)
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Os honorários advocatícios possuem natureza alimentar e direito subjetivo dos
advogados, sendo vedada, por força do art. 85, §14, do CPC, sua compensação nos casos de
sucumbência parcial.
Aos advogados públicos é garantido o direito sobre os honorários pagos pelos
sucumbentes em ações vencidas pela Fazenda Pública (art. 85, §19, do CPC), nos termos definidos
em lei específica. No âmbito da AGU, a regulação foi dada pela Lei nº 13.327/2016.
Art. 85, § 7º do CPC: Não serão devidos honorários no cumprimento de sentença
contra a Fazenda Pública que enseje expedição de precatório, desde que não tenha sido
impugnada. Portanto, se a Fazenda não impugnar o cumprimento de sentença não serão devidos
honorários nesta fase processual, apenas aqueles já constantes do título executivo por força da
sentença de mérito proferida na fase de conhecimento.
Pelo princípio da causalidade, é devido o pagamento de honorários advocatícios pela
Fazenda Pública nas execuções de título executivo extrajudicial, ainda que não embargadas. Em
outras palavras, o §7º, do art, 85, do CPC, não se aplica às execuções de títulos extrajudiciais.

11. Multas

A Fazenda Pública não é isenta das multas por litigância de má-fé, assim como deve
pagar astreintes no caso de descumprimento das ordens judiciais que determinam uma obrigação
de fazer. Todavia, as multas por litigância de má-fé devem se submeter à sistemática dos
precatórios.
O precatório é procedimento que alcança toda e qualquer execução pecuniária
intentada contra a Fazenda Pública, independentemente da natureza do crédito ou de quem figure
como exequente. Portanto, em tese, a multa somente poderia ser exigida da Fazenda Pública após
o trânsito em julgado da decisão que a fixar, mediante a adoção do processo de execução, seguido
da expedição de precatório. No entanto, sob o escol do Supremo Tribunal Federal e do Superior
Tribunal de Justiça, tem-se visto inúmeros bloqueios judiciais nas contas dos Entes Federativos
com o escopo de satisfazer obrigações de fazer em demandas que tutelam o direito à saúde.
Vários autores, por outro lado, sustentam a adoção de meios alternativos, não para
substituir o sistema de precatórios, mas para assegurar a eficácia prática de meios executivos. Daí
sugerirem que a referida multa seja imposta contra o agente público responsável pelo
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cumprimento da medida. Ocorre que, na prática, tais medidas não vem surtindo a efetividade
esperada.

12. Denunciação da lide

A denunciação da lide é uma forma de intervenção de terceiros que, uma vez


instaurada, gera uma ação regressiva, cumulada com a ação principal no mesmo processo: de um
lado, a demanda havida entre autor e réu; de outro lado, a demanda existente entre denunciante e
denunciado.
Nos termos do art. 129 do CPC, se o denunciante dor vencido na ação principal, o juiz
passará ao julgamento da denunciação da lide. Mas, se o denunciante for vencedor, a ação de
denunciação não terá seu pedido examinado, sem prejuízo da condenação do denunciante ao
pagamento das verbas de sucumbência em favor do denunciado.
Nos termos ao art. 125: É admissível a denunciação da lide, promovida por qualquer
das partes:
I - ao alienante imediato, no processo relativo à coisa cujo domínio foi transferido ao
denunciante, a fim de que possa exercer os direitos que da evicção lhe resultam;
II - àquele que estiver obrigado, por lei ou pelo contrato, a indenizar, em ação
regressiva, o prejuízo de quem for vencido no processo.
Observe-se que a ausência de denunciação da lide gera apenas a preclusão do direito
da parte promovê-la, sendo possível, ainda, a propositura de ação autônoma de regresso.
É cabível a denunciação da lide pela Fazenda Pública apenas nos casos em que, da
denunciação, não advir novos elementos e necessidade de instrução que seria dispensável caso ela
não ocorresse. Em outras palavras, sendo objetiva a responsabilidade da Fazenda Pública, não
caberia a denunciação da lide, pois o direito de regresso estaria fundado em responsabilidade
subjetiva, havendo, em tal hipótese, agregação de elemento novo à causa de pedir, causando a
necessidade de uma instrução não exigida inicialmente. Não são raros, todavia, os casos em que a
responsabilidade da Fazenda Pública pode ser subjetiva, sendo necessária a comprovação de culpa
pela parte demandante: é o que ocorre nas hipóteses de omissão da Administração.53 Com efeito,
segundo entendimento firmado no âmbito da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, “(...)
Tratando-se de ato omissivo do Poder Público, a responsabilidade civil por esse ato é subjetiva.
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Imprescindível, portanto, a demonstração de dolo ou culpa, esta numa de suas três modalidades –
negligência, imperícia ou imprudência”.

13. Tutela Provisória em face da Fazenda Pública

Em regra a tutela de urgência, cautelar ou satisfativa, é cabível em face da Fazenda


Pública, observadas algumas restrições legais.
Em resumo, não é cabível provimento de urgência em face da Fazenda Pública nas
seguintes hipóteses:
1) quando tiver por finalidade a reclassificação ou equiparação de servidores públicos,
ou a concessão de aumento ou extensão de vantagens (Lei 12.016/2009, art. 7º, § 2º). Nesse
caso,além de vedada a antecipação da tutela, a sentença final somente poderá ser executada após o
trânsito em julgado (Lei 12.016/2009, art. 14, § 3º), exatamente porque o recurso de apelação e o
reexame necessário têm efeito suspensivo (Lei 8.437/1992, art. 3º);
2) quando objetivar a reclassificação ou equiparação de servidores públicos, bem
assim a concessão de aumento ou extensão de vantagens (Lei 12.016/2009, art. 7º, § 2º);
3) toda vez que providência semelhante não puder ser concedida em ações de
mandado de segurança, em virtude de vedação legal (Lei 8.437/1992, art. 1º; Lei 12.016/2009, art.
7º, §5º;
4) quando impugnado, na primeira instância, ato de autoridade sujeita, na via do
mandado de segurança, à competência originária do tribunal (Lei 8.437/1992, art. 1º, § 1º);
5) quando a medida esgotar, no todo ou em parte, o objeto da ação (Lei 8.437/1992,
art. 1º, § 3º;
6) para compensação de créditos tributários ou previdenciários (Lei 8.437/1992, art.
1º, § 5º; Lei 12.016/2009, art. 7º, § 2º);
7) para entrega de mercadorias e bens provenientes do exterior (Lei 12.106/2009, art.
7º, § 2º);
8) para saque ou movimentação da conta vinculada do trabalhador no FGTS (Lei
8.036/1990, art. 29-B).
Efeito secundário de obrigação de fazer: Se a tutela antecipada não é concedida para
impor pagamento de vantagem, mas tal pagamento será realizado como consequência da medida
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antecipatória, a hipótese não se encaixa na proibição do art. 1º da Lei 9.494/1997, não havendo
ofensa à decisão proferida na ADC 4. Assim, por exemplo, é possível a tutela antecipada para
impor a nomeação e a posse de candidato aprovado em concurso público ou a promoção de
militar.
É possível também a concessão de tutela de urgência que importe em pagamento de
valor, desde que amparada em entendimento consolidado do STF.

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