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Sã o Pau lo , l " R ep úbli ca . C a pi t a l d os bar õ e s do ca f é ,

t e rra d e d i ver s o s p r es i d e nt e s e de mi lhar es d e

o p e rá r ios . U m a c id a de q u e c r escia a o lh os v is t os ,

re ce b end o a n ualmente m ilha re s d e imigrant es, e m su a maioria it a lia nos . B e rç o d o a n a r qu i smo , das primei r a s

fá b ri cas e d o mo t nmer u o op e r á r i o , é d es ta Sã o Pa u l o q u e

S i l v ia Mor e i r a fa l a, d e um a c i dad e d e p o d e r e de

ISB N : 85-11-02125 , 6

m u i to fu t u r o .

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~hãoPaulo na rri111eira· República

~fílví41 Moreir~

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Brava Gente! -

Os italian o s em S ã o P a u lo (18 70 - 1 9 2 0) -

u / e i k a A/ vim

Z

Ev o luçã o P ol íti ca do Brasil -

Caio Prado Jr .

História E co nôm ic a d o Brasi l - Caio P r ado Jr.

1930 - O S i lênci o dos Vencidos

- Edgar de Decca

Nem Pátria Nem Patrão - V i da o p er á r ia e cu ltu ra an a rq u is t a - F r ancisco Fo o t H a rdm a n

Part ido Republicano Paul i s t a (1889 - 1926) - José Enio

Casa / ecchi

Os Radicais da República - S u e / y R . R. d e Qu e iroz

A Revo l ução de 30 -

Boris Fausto

Os Subve r s iv os da R ep úbli ca - M ar ia d e L o urdes Janotti

Trabaiho, Lar, e Botequim - Cotidiano dos . t r abalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque - Sid n ey Cha/houb

C

o l eção Tudo é História

A Co l u ria ' Pr e st es - ; - José A . D r ummo nd

C ons tit uintes e Constituições B rasilei r as - Francisco /g/ ési as

O C o r one l ismo - Ma r ia de Lourdes Janot t i

O Estado N ov o -

Ant o n io Pedra To t a

A I ndust r ia l i z aç ã o B r a s il e i r a - Fr anc i sco / g /é sia s

M ovimento

Grev i s t a n o Brasi l -

M á r cia de Pau/a Leit e

• P a r tido Republicano Fede r al - José Sebastião Wi t ter

.• Revolu ç ão de 30 : a dominação oculta -

~ ~~

íta/o Tronca

S ilvia More ira

DE D AL US - Ac e r vo - FFLCH-HI

99 5

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v . 125

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Sao P a ul o n a P r ime i ra Re pub l ica :

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SÃ O P A ULO NA PR IM E I RA REPÚB L ICA

As elites e a questão social

SBD - FFLCH-USP

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CNConica c.!J a(rate

editora brasiliense

1988

Copyright © Silvia Levi-More í ra

Capa :

Sílvia Massaro

Revisão :

Maria de Lourdes Appas José Waldir Santos Moraes

ISBN: 85-11-02125-6

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Ibrasiliense I

editora brasiliense S . a rua da consolação, 2697

01416 - são paulo - sp.

f.one (011) 280-1222 , telex: 11 33271 OBlMBR

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ÍNDICE

ntrodu ç ão

I

 

7

In dustrialização, o perários e gr e ve s

9

A

classe operária e o anarquismo

16

A situação política, os industriais

e a questão

 

socia l

25

 

A

oposição : outras propostas.

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

37

Conclusão

 

'

58

Indicações para leitura.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

61

I

~

!

1i

(

" A ' Quest ão Social' é de t odo s os lu -

gares , e de t odo s os tempos , e só dei -

x a r á de

rantir principalmente aos qu e v i vem do pão de cada dia as condições so c iais

existir, q u ando a justiça ga-

d e i g u a ldade da d e."

no exercício da liber-

An t ônio de Sampaio Dória, A Questão Social , 1 922 , p . 6 .

Ao

C a r lo s e ao F lávi o

INTRODUÇÃO

A possibilidade d e um pacto social , tão discu- tida n este s di as de " N ov a R e pública", não é uma te - mática r ece nt e no Brasil . Demonstra - o a seqüência de conflitos d e classe ocorridos no período que vai da Proclamação d a República à Re v olu ç ão de 30. A " questão social" - corno então denomin ava - se a confro n tação entr e as class e s trabalhadoras e as clas- s es prop ri et árias - s e rá aqui anali s ada durant e um

período onde se c o nsolidaram o mercado de trabalho livr e e o p ro je to d e d o min a ção da bu r gues i a pauli s t a:

o perí o do da chamada

Seria pretensioso tentar discutir com profundi - dade e det a l h e q u e s tão tã o c o mpl e xa n um li vro d e ap r ox i madam e n te 50 pá g i n as . O q ue s e que r, n o en - tant o, é f oc a l i z a r c omo di v e r g ia a q ue s t ã o so c ial en tre g rupos domin a dos e gr u pos dominantes . E pr incipalmente como, entre estes últimos , o co n fl i to

s oc ia l não er a tratad o d e f o rma homogênea. Com

"Velha República" .

8

Silvia Levi- Morei r a

li efe i to , as propostas para solucionar os prob l emas so- ciai s revelam ó t icas heterogêneas no int e r i or da pró- pria classe dominante. Isso leva ao questionament o da idéia que se tem sobre esses setores na Primeira República enquanto uma força unificada, com p acta , d e d ominação. Ê para este f a to q u e c h a m am o s a

atenção. A _p reocup açã o

diu-se para a l ém do círculo de indivíduos di r eta- mente envolvidos nos conflitos . Assim , apenas a tí- t u lo de exemplo, é possível identificar pr o postas por parte da Igreja com relação ao probl e ma. Desde o início do século XX , nos Congressos Católicos, já se falava em Cooperativismo como estr a t ég ia para " equacionar " os conflitos sociais. A p re ocupação com a c lasse operária fica patente em Cartas Pasto- r a is a p a rtir de 19 00. Ê preciso esc l ar e ce r , p or ém , que posi ç õe s espe - cíf ica s não s e rã o aqui discutidas , como as da Igreja , e que tam b ém não se procurará a b a r car to d as as pers - p e ctiv a s exis ten te s no pe r íodo. O que interessa é a pontar p a ra a di f e r en c i açã o de propostas que ocor - reu em Sã o Pau l o n a P rimei r a R epública e que, even - tua l men t e, s e r i am incorporadas pe l a R e públi ca do

11 após-30 . Por fim, serão abordados prin ci pa lme nte os con f lit os urb a nos , j á que n ã o há informações sufi - c ien t e s rel ativas à q u estão n a área - r ur a l.

,

c o m a q ues t ão

soc i al ex p a n-

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INDUSTRIALIZAÇÃO, OPERÁRIOS E GREVES

Em 1872 , o Estado de São Paulo tinha 837000 habitantes . Em 1900, eram 2283000. Na capital do E s ta do , em 1 8 72 , ha v ia 2 3000 habi tant es. Em 19 20 ess e número p a ssava para 580000. Se conside r ar m os o número de indú s tr i as , o crescimento não é menos assustador. O Brasil tinha 626 estabelecimentos in -

c ~ ll ? - J?J l t i Ç l ~ ~ _ O e

du s tr ia i s em 1 8H9 ;e rn T 9U7 ~ ã o

13 33 6 en l 19 ' 2 u . Qual

o signific a do de s ses d a dos ?

OesdeóCõilltiÇõ ºª - R , e . p - Ú . Wkaai n . d ústr . ia

s é - em constante p . ! 0 s es § ~ _ d e ~ ! gn j ião, a l terando de s sa formaaconfi gu ração urbana e social das prin- ci pais cid a d es brasileiras. A base desse cresciment o encont rava-s e no próprio dese nY . Ql vimento _ d A eco- n0 1fii ã c ãJe e i r a . / ' ÃT r í dústria desenvol v eu-se inicial- merrte em co ns o n â nc i a com os intere s ses da ca fe i cul- t ura / A polí t i ca f i scal, ai n da que vol t ad a p a r a o ca fé , a c a b a va indir et amente por benefi c i a r as a ti v idade s

enc. QQtrava -

1:/1

10

Si l v ia Levi- Moreira

industriais. Os capitais aplicados na indústria pro-

vin h am basicamente de três fo nt es: do com ér cio im- portador, dos cafeicultores e dos imigrantes /

N ão interessa aqui discutir as relações c o mple-

m e ntares e! ou con t raditórias

na Pri m e i ra R epúb lica. Est a q ues tão já f oi o bje t o de

ent re café e indústria

mui to s e st u d o s . & " ab e ,

mo

entant o ,

sal ie n tar

que o

c

re s cimento do p ar que in d u st ri a l

se v e r if i co u a i nd a

na virad a d o s é c u lo, atin , .gindo São Paulo a primazia

ness e pr o cesso em 1920 ' A liderança pauli s ta nã o se

 

I

ex

p lica pel os " don s ina to s" d e s eus ca pi t a li st a s,

ma s

I.ill

pe

l a implantação de uma economia d e m e rca do lu -

I"

"I

crativo (Warren Dean, A Industrialização

de São

Pau l o, S ã o Paulo, DIFEL, 1971). Ê impor t ant e

lem-

II brar ta mbé m q ue, contrar ia men t e ao qu e s e pe nsava

nã o s e d ese nvolveu

a té b em p ou co t e mpo, a indústri a

III

a partir de um sistema artesanal .

estabelecimento

unidades fabris , configurando um modo de produção tipi camente capita l ista ( S érgio S i l va, E xpan s ão Ca-

Desde o começo, o se fez com grandes

das indústrias

f e eir a e Origen s d a I n dústri a Al f a - Ome g a , 19 7 6)

no B r asi l, São Paulo , ~ ()~.

1 ik d

O parqu e man u f atu r eiro paulist a cresceu ma is

ac entu adamen te

s ej a, durante o s b o n s anos do caf é. A

r a Mundial desafi o u a co n t i nu i dade ' He sse d~e ~0 1 -

durante

os an o s d e 1 9 0 7 e 191 3 , ou

Primeira Gu e r-

~ eóm a red uç â o õ a impmtrt . Ç - ª !Ld ~ h en ; s - de

. cl I pl f al - p a ss ó u - se a u~ ruti1iza ç ão

da - r naq ni-

n ~~e : o ora e x istent e s nâ S --" : â bricas, o que

~ a r -I: e n = D êãí i = ã --

mais de-

za ç ã o d e S ã o P a ulo nã o s e t e ria p r ocessado

er-g - untar ~ se -: a-i - H - d u s t riali-

_ --- ' -' _

L .

São Paulo na Primeira República

11

pr

uerra" (op. cit., p. 114).

e ssa se não t i v esse havi ão nos interessa

no momento

discutir

se a

G

r ande

Guerra foi o u não

benéfica à indústria.

À

época do conflito mundial, São Paulo era uma cidade

definida e dema r cada pelo signo da industrialização.

consti -

~ configuração

dos bairros õenun c i a V ã - r '

r uição

d e g r u p o s sociais diferenciados. N o Brasil , os

54164 operários em 1889 passavam para 149018 em

des -

de 1 / 3

(1156472) do s imigrante s q u e entraram

entre 1890 e 1929, eram italianos.

refletia em São Paulo:

e r a m italianos .

Ferrero, a característica mais importante da cidade

de São Paulo era a italianità

Pe tr o n e , " I mig raç ão " ,

zação Brasil e ir a, t omo I I I , 2? vol . , Sociedade e Insti-

t ui ç õ es (1889 - 1 9 3 0 ), 105) . A mão-de - obra

Ger a l da Civil i -

T. S.

1907 e para 275514 em 1920. Grande

se operariado

era de estrangeiros.

parte

Mais

no Brasil ,

Esta situação se

1/3 dos 694489 imigrantes

Não é à-toa que , segundo Gina L .

(apud Maria

in História

São Paulo, DIFEL ,

197 7, p .

ocu p a d a na indústria paulista

acompanhava esse q ua d ro .

trangeiros. E isto desde 1 8 9 3 ~

Mais d e 50% e ram e s -

A pe sar de o s i t a l i anos terem prepondera d o en t re

os imigrantes,

entrada no país de ou t r o s g rup os , e n t re eles os e s p a-

nhóis e p o r t u g ue s e s ,

v iços p o r tu á rio s . D \ origem ~t:an~ do

r

par a o entendimen t o

São paul q ) Mas , em nenhum momento , acreditamos ser este um fator por si só ex plicativo d e por q u ê a

na cidade de

no s se r -

é prec is o lembra r também a gran d e

s em ~ ,

fortemente

presen t e s

p

r olet a -

um dado importante

de sua atuação

iado constitu i,

12

S i l v ia Levi- Moreira

Mão - de-obra ocupada na indústria (1893 )

C idad e de São Pau l o

Ma nuf at u r ei ro s Artistas Transportes

T

otal

Naci on a i s Es t rangeiros

A

B

Total

77

4

2893

366

7

1481 ,

8760

1024

1

1998

8527

1

0525

4253

20180

2

4 4 3 3

Perce nt a g em

B/A

79%

6%

1 %

8

8

8

2, 5 %

Fo n te : R ec e n s eamento de 1893, ci t ad o po r P . S. Pi nheir o, "O Pr ol e ta- ri a do I ndus t ri a l n a Pri m eira Re p ública", in H i stória Geral da Civ i liz ação Br asileira, cit . , p. 139.

'111

,1/1 I!

I!

,I I

111

IIII!

classe operária se organizou de U !!l

manw :~ o

d iscutido esta ques ao como um dos fundamentos da

vigência de certas co r rentes ideo l ógicas no Brasi l, pr i ncip a lmente o anarquismo.

do par-

õe ~ ~~tr- ã : Trã6ãfhõ - ~ recen t e ~ r têm re -

ª_

_determinada

O que se nota é q ue d e sde a implantação

que industrial pauli sta presencia-se a ' luta da classe

operária reiv i ndicando melhores c ondi ç ões de t ra- balho, melhores salários e a regulamentação dos d i- re i tos indiv i dua is, soc i a i s e civis.

ao p er ío d o d e 1917

T e m -s e dad o m u ita ate nçã o

a

1 920 , qu ~

a crise e ~ m k . ª - _ (~r and Q

a c en-

tu ~ ão

e ã üiiíei il :õ no

9!S fo

d& - v i :d a j -1e - v oua

un

ia intensi 11cãÇã o d o movim ~ n tQ _ op . €1 > á , Fi0 ; - c0mg r e -

ve s e c lõcltrr d e - fl0 - ! ' >M " S " : " " ' N õ ' ê r rt antobem, antes de 1917

I I já ocor r em greves, lutas contra o regime disciplin a r nas fábricas e por melhores condições de vida e de

lli

São Paulo na Primeira R e pública

trabalho; reivindicações que atestam uma movimen- tação heterogênea, porém pujante, da classe operária para criar um espaço político próprio. A diminuição da ocorrência de movimentos pa- redistas em determinados anos da Primeira Repú-

blica pod e s e r tomada como indício de declínio do

Trata-s e

anos d e 1912 e 1 9 13 revelaram intensa mobilização, enquanto nos três anos seguintes decresceu o número de greves. No entanto, a Guerra Mundial exerceu a função d e e s tim u l a r a arregimentação operária e o debate em torno da questão do militarismo. Em 1917, com a grande greve, tornava - se patente a vita-

m

ovimento oper á r io.

d e uma i l usão.

O s

l idade do movimento trabalhista . A exist ê ncia de greves -

mento de luta mais utilizado pela classe operária -

mostra que o confl i to de classes

cl a mação d a Repúbl i ca j I sto

movimeh tos grevistas, apesa r de os ar t igos 205 e 20 6 do Código Penal (promulgado em 11 . 10.1890) proibi-los pur a e simplesmente (Paul a B e i guelman, O s Com-

de S ã o Paulo, Sã o P aulo, S í m bo l o , 1977Y.

A inda que esparsas qu a n d o d a i m p lan taç ã o d o novo

regim e , as greves se intensificaram na virada do sé-

culo

sem dúvida o instru-

oco r ria des d e a P r o -

é , desde 1 889 oco rre m

panhe i ro s

~ ntre 1 9 Q . L . e .-. 19 . l . i . f or a m r eg istr ad ~l

.•gr eves

na C -ª . llU ã ! _ J ? a .E! istae 38 e m c idades menore ~. No Es-

~ _ ~ ~ . n . tt : . e _ J21 5 e 1 92 ~ _ ca k . ula- s e e m

tado . 1 k . S ~ . 2

11 6 3J l Úme.r . Q - Qe - gr e ~( - Azi - s - SilUã Q , Si ndicqto e E s -

d e

t a d o: su a s r e l ações n a for ma ç ã o do p ro l e t a riad o

S ão P au l o, S ão P aulo,

Ãt ic a , 1 98 1 , pp . 1 0 5 e 139 ) .

13

14

Silvia L e vi- Moreira

Estado d e São Paulo -

Ocorrência de Greves

 

A n os

Cap i ta l

Interior

Total

 

no Estado

1888 - 19

00

1 2

1 2

24

19

0 1 - 1 9

14

81

38

119

19

15-1929

7;'

4

1

1 16

1930 -1 940

S9

3

1

90

Quadr o .e labo rado com d a dos extraídos das Ta- b e las 1 a 12 de Az is S i mão (op . cit . , pp. 131 - 142) .

V á ri os t ra b al h os d e sc r ev e m , a n o a a n o , ca d a

.

!

III!

i 1111.

greve ocorrida nesse p e rí o do. Nosso obj e t i vo é des -

tacar que a i mplantaçã o da indústria ocorr e u junto à crescente movimentação da classe operária. Onde houvesse indústria, havia patrões e operários e a q u estão socia l - enquanto conflito entre Traba - l ho e C a pital - est a v a c o l ocada. Na ve rd a de , os

o p erários or g anizaram- s e

m esmo d os pr ó pri o s ind u s tr iais . Apenas para e x e m -

mais intens am en t e , e a n te s

I plificar, j á em 1890- 1 891 um parti d o oper ári o te r ia s e

i form a do no Di s trito Federal e em Fortale z a . E, em 1 89 6, o C e ntr o S oc i a lista d e Sant o s cria v a o Par t i d o O per á r i o Soc i al i sta . O s ind u stria i s , p or sua vez, te n- taram organ i z ar ass o c ia ções p atro nai s apenas e m 19 0 7, em r esposta à greve gera l ocor r i d a em São Pau- lo . Associa ç ões que não tiveram continuida d e na-

li!

111:

II11

quele momento .

A movim e ntação da clas s e operária, no entanto,

São Paulo na Primeira República

15

não passou despercebida . pelos diferentes segmentos da sociedade. Mesmo por aqueles que não tinham

u m envolvimento direto nos conflitos , l Em bora tenha adquirido uma outra dimensão política a partir dos

então não mais podia ser igno- social esteve presente desde os

primórdios da Primeira República, tendo recebido t r a t a me n to d if ere n c iado ao l on go das quatro dé - cadas . A dif e r e n c iação das propostas que cada gru-

anos 20 - quando rada -, a questão

po, em momentos determinados, apresentava para solucionar esta questão éo que se verá a seguit; )

Vi sta do B rás (Gli italiani nel Brasile, 1 822 a 1922, 1924) .

(BMMA).

0

--- - i )

A CLASSE OPER Á RIA E O ANARQUISMO

São Paulo na Primeira República

calismo e o

aJ1 & co - comunismo tiveram maior influ-

movimento 0 2 erário. Há. ã i í e f ença! S enire as

idéias básicas são anarquismo é

contra o Estado e contra a luta política a nível par-

lame n tar e partidário.

dos homens. E os p ar t i do s e o p a rl a men t o -ligados ao E s tad o - c onst ituem-se em ó r gãos nos quais o poder é delega d o e represe ntado por outros indiví-

chefes de partido),

o que impede a

duos (deputados ,

i n tervenção d i reta do povo. Assim, para os anarquis-

~ o

diversas correntes, mas algumas

comuns a todos os anarquismos. L Q

O Es t ado é um poder acima

17

J

:r-

tas o fundamental é a ação direta entre os indivíduos em lu ta, não se aceitando qualquer intermediação

e n tre os in t e ressados. T e or i ca mente ,

há instância. do poder burguês que possa mediar o conf l ito erüi~~ '- rit r ão e operário. O obje t i vo úl t imo dos an a rquis t as er a a der r o-

c a da da sociedade capitalista dividida em c l a s s e s e a

impl a nt açã o d a soci e d a d e a n ár qu ica (isto é, sem go-

ve rno). O campo legítimo para o en fren tam e nto d as

diferentes classes era o econômico

po rtanto , n ã o

e -

como foi visto

-

não o pol íti co, t id o c o mo o rei no d e ação das clas-

s

es dominantes. A l uta contra a domina ç ão bur g u es a

a o nível das próprias re-

lações de produção. Conseqüentemente , s egundo os

a narquistas, o enfrentamento das classe s só o co rreria

no campo econômico , instância por excelê ncia de unifi c a ç ão dos trabalhadores. Ao recusarem qualquer participação na s insti- tuições formalmente burguesas, os anarquista s invia -

estava

vincu l ada, p o rtanto,

-- bilizaram a possibilidade de estabelecer a lian ça s in-

18

Silvia Levi-Moreira

t erclassistas (seja com as classes méd i as ou a própr ia b ur g uesia in du s t r ial , po r e x emplo) , que visass em

modi y car a co rr elação de fo rç as na s ociedade c ap i t a- lista . J j Não se pre t ende aqui e x por e s miu çadamente o pensamento anarquista. Estando ap o ntadas as suas linhas básicas, torna-se importante ver p. QL . 9 ! 1e o anarquismo, e nã ~ õ socialismo , f o i pre d Õ m inante no

A histor i ogr ã f i a t em - dado d i fe-

r e nt es razõe s p ara ex plica r a fo r ç a do a n a rquis m o e m

~t: São Paulo , e n t r e a s q uais salienta-se a origem i m i -

classe o Jl . e. rár ia . - B sse - tip . o : : ã e - an . á li se r e m

in s USIvel ev a d o ã c on c lusõe ~ q ue r e lacionam . a "f r a -

do I !! . 2 . Y.i ! n ~ nto' Õ p ê r ár i o às su as . o r ig ens es-

tra nge I ra s, b em co m o às SY M po s içõ e s ideo lógicas de

i " gI f orar o p ape l d _ oEs t ad Q

anarquista - ó l planta exótica" - teria impedido

uma ação política coletiva da classe trabalhadora. Recente men te , no en t anto , algumas pesquisa s têm salienta d o a efervescência do movimento ope- rário através da recuperação minuciosa das dife- ren t es lut a s n o pe r íodo em questão. L u ta s que di z e m

re sp ~ c ondi ~ . Q~~ enor,

l ~ r ~ e dos

por - moradia , pelos transportes , con t ra

etc, E isso antes das grandes greves do período de

1 9 1 7 a 1920 . Silvia L . Magnani , ao estudar o movi-

mento a narqu i sta , parte ' da análise do I Congresso Brasileiro (1906) , enfatizando não se tratar de um ac o ntecimen t o is o lado e sim de um acontecimento

qu e ocor r eu e m fase de ascensão do mov i mento ope-

!p - ~ á r i o .

da

~

z a ,j

D ess a f o rma , a propo sta

da mu -

- 1 -ii Ü gf a ntes . , , - 1 u tasc ontr a a di ~ pl i n a, lutas

a , caresti a,

S ão P aulo na Primeira República

rário . A _ a J! t ~ re lat iv iz a o fato r imigraç ão co m o um

~ n~ õs a a ~ tg ~ ncia - d~ r rarqt t is : nrO l f ô ~I l . Antes, a tt~deo to - gn r a n arqui ' s t ã " ê r ii " " " Sao

P ~ ~ pe . eadie ê es - hi s têriees - de . •p ê r í o -

l í 6 er f á ri o spela extensão " d o - s < l ire ! 1 Q

i ndividuais, so c ia i s - e ~ ci v is - . ae s ' - 0perárius ~ fõ i õ ete r mi- r l ã õ a pelas co if ê li ' Ç ' Õe - s - só ei 0 -: p 0 lí t i € as - a - qu ~ éSfã vam

Br~ -

~ s

19

s ubmetidas as classes t rabalhadoras na s pr imeiras déc ada do B ra sil Rep u b lic a no (S i l via L . Ma g na n i, O M o vim e nto Anarq Z i ta e m S ã o Paulo, São Pau l o, ' B r as i li ense, 1982). Par a se c omp : ee nd er as razões que levaram à difusão do anarquismo é preciso ver que o Estado Repub l icano , amparado pela C on stitui ç ão , impediu o envolvi ment o po lí tico ind e pendente de grupos des- consten t es c om as classes dirigentes . O texto consti- tucional, ao negar o voto aos anal fa betos e imigran- tes , excluía a grande maioria da cl as se t r abalhadora do processo político-eleitor a l . Pode-se dizer que o Es- t ado d a Prime ira R e púb l ica , or g anizado sob influên - c ia d o liberali s mo , acabava atu a ndo em s i n ergism o c o m a s tese s anarquistas . Isto é , t r atava-s e da não pa r ti c ipação da classe operária n o s mec anismo s polí- tico-ins tit u ci o na is existentes na Prime i ra Repúb l ica . As r e iv indica çõ es da c l a ss e o p erária foram s e m pr e a presentadas diret a men t e aos empre sá ri os, c abendo a o E s tado o p a pel interventor de repressã o dos con- fro n to s que ocorri a m entr e pat r õ es e tr ab al h a dores . A exclusão da classe t r aba l h adora d a e sfera po- l í tico-partidári a ajud a a entende r po r que o anar - qui smo , e não o socia l ism o, p re d om i n ou d u r a nte ess e

l ir

20

Silvia L e vi-Moreira

period ' 2 . J Segundo Silvia L . Magnani, " a organizaçã o

e s tatal republicana, ao impedir a participação polí- tica dos setores não oligárquicos (e não elaborando canais institucionais capazes de absorver as deman - das da classe trabalhadora) contribuiu decisivamente

pa ra o d esenvolvim e nto d o anarqu i sm o n o int e ri o r do

nascente mo v imento o pe r ário; e i m pedi u o desenvol-

v

ime n to d o so c ia lismo, cujas proposiçõ e s pr e ssupu -

n

h am uma participação na política burguesa (ou, ao

m e n os , pres s upunham a luta em prol da partici-

p a ç ão p o lítica autônoma do pr o letariado). A clas s e

trabalhadora (ou seus setores de vanguarda) , ao acei- tar a direção anarqu i sta em seu movimento reivindi- catório , buscava forma s de participação político- social extra-institucionais" (op. cit., p. 5 0). Ao não aceitarem a ingerência do Estado nas questões tr a balhistas , e muito menos a luta através

dos canais represen ta tivos e x istentes, os libertários só poderiam defender o enfren t amento direto entre in-

d i ví d u o s. Dess a f o rma, estava l o nge do pe n s amento anarquista reivindicar leis trabalhistas. Toda a pro - post a de reg ular o mercado de trabalho, via legi s -

. tra b al h ista foi se config u ran do e xa t am ente a p artir

d esse pe r íodo. As primei r as tentativas de legislação social ur - bana datam do início da República, isto é, desde 1889. Em janeiro de 1891 , um decreto regulav a o trabalho do menor, mas ficou apenas no papel. O mesmo ocorreu com as leis sobre acident e s de tra- balho. São vários os projetos e leis sociais d o iní c io da

lação, foi sempre rejeitad a

.Apesar disso, a leg i slação

São Paulo na Primeira República

2.1

A Pl e be 11. 8 . 1917 . (Rep r od u zido em No sso Século , 19 10 -

193 0 . A n os d e C r is e e Criação, vol . 2, S ã o P a ul o, A br i l Cultura l , 1981 . )

-r

22

Silvia Lev i-Moreira

República que nunca chegaram a vigoraWNão se pretende aqui abordar as leis existentes n e s s e perío- do. O que se quer é discut ir o papel da legi s lação , no que se refere à história do movimento operário e sin- dical, fortemente influenciado pelas idéias anar-

quistas.

O r eco nhe cimen to < d os s indi c at o s u rbanos e m

19 07 (a s i ndicalização rural data de 1903) altera radi-

., .

,

calmente o caráter da luta pregada pelos anarquistas através do enfrentamento direto entre os indivíduos. : ,' 0 s indicato (ente coletivo), ao ser aceit o como inter- . locutor nas negociações com os industriais (entes in- dividuais), modificou tanto a prática operária anar-

qu ist a q uanto a prá t i c a li b e r a l d os em pre s ári os . A

luta não mais se travava entre dois indivíduos, do- tados da mesma "liberdade" e "igualdade " . Esta si- t ua çã o p ossibilit o u qu e ou tro s inte r locutores f o ssem r e q u isitados, isto é : o Estado f oi ch am ado p ara den - tro do processo em que s e d avam a s qu est õ e s traba- lhistas. Este fenômeno ocorreu particularmente após a s greves de ( Í 9 U ) quan do se am pliou a l eg islação

sobre o merc~ o de trabalho. No entanto, a interpo - sição do E s tado j á era perceptív el desd e 1 911 , quan- do foi criado o Dep ar tamento Estadual do Trabalho em São Paulo. Se em \ 1 918, com a criação n a Câmara dos De putados da "Comi s são de Legisla ção Social",

a questão social adquiria f o ros d e ju ri s pr ud ê n c ia,

em J , 9 W ela é incorporada definitivame n t e à Consti-

tuição , que consagrava o poder do C on g resso Na - cional de legislar sobre o trabalho. A ssim, antes mesmo de ) 930, competia ao Estado l e gi s lar sobre a

São Paulo na Primeira República

23

questão social. Procurava-se, dessa forma, oficia-

lizar a questão social sob uma perspectiva de n ão identificá-Ia apenas como um caso de polícia. Por outro lado, é preciso ter em mente que a le- i gisla ç ã o t r abalhista corporificou ta n to a v i t ór i a quanto a derrota das lutas operárias. f E v erdade que ", I ! -

o s anarquis tas n ão re i vin dicavam leis trabalhistas,

mas a luta dos sindicatos para controlar o me r cado de trabalho , bem como a aceitação (pelos i ndustriais) dos sindicatos como os únicos interlocutores entre

operários e patrões, acabou atrelando os trabalha- dores, cada vez mais, à esfera do Estado. P ar a os industriais, aceitar que o mercado d e tr ab a l h o f osse controlado pelos sindicatos implicava que também

e s tes fossem, por sua vez , controlad o s . Isto l e v o u a

u m processo de burocratização do moviment o o pe - rá r io, através do q u al os tr abalha d o re s foram per- den d o o po d er de decisão p a r a a s mãos dos e specia-

l istas em questões do trabalho . Assim, a luta dos tra-

balhadores para controlar o mercado de trabalho acabou se transformando no calcanhar-de-aqui l es do movime n to operário , na medida em que fora m c on- trolados os próprios trabalhadore , § , J É o que Kazumi

Munak a t a assinala como o "paradoxo " da luta ope-

r ária: "para conquistar o contr ole pelos trabalha- dores das condições de trabalho, os trabalhadores acabam end os sando uma forma de organização que

os controla" (A Legislação Trabalhista no Brasil, São

Paulo, Brasiliense, 1984, 2!' -ed., p. 55) .

." -

Nos an o s imediatamente anteriores a 1930 os . j . 1 - anarquistas vão perdendo grande parte de sua força ,

r:

I,)

24

S

'/ · '

1 VW . eVI -

L

'M

' ~1

ore ir a

com outras correntes ganhando espaço dentro do mo v im e n t o operário. Este espaço é basicament e preenchido pelos comunistas, congregados no Par - t id o Com u nista d o Brasil (PCB ) fundado em 1922 , Procurando aparar as divergências existentes no mo- v imento operári o , com a criaç ã o de um b lo co un i fi - cado dos trabalhadore s, o PC B va i desenvo l ver uma l inha d e atu a ç ã o be m distinta dos anarquis t a s. A principal tes e d o PCB era a necessidade de centra- lizaçã o si n di c al, cuja a u sência se refl e tia na fr a que z a do mov i men t o ope rário, P or volta d e @27) o s com u- ni stas começam a controlar o movim e nto op e rário, retirando aos anarquistas sua primazia. Organizados em partido , os trabalhadores passariam a enfrentar nã o só os industriais, agora or g aniza d os em associa- ções d e class e (o CIESP é criado em 1928), mas um Estado que aos poucos vai rediscutir a " questão so- cial" co l ocando-a sob o prisma da intervenção racio- nal e autoritária . De s sa forma, as propostas liberal e anarqu i sta perdem te r reno par a uma s ol u ç ão i ns ti- tucionalizada da questão social . Caberá ao Estado do após - 30 implementar uma política de incorpo - ração da classe trabalhadora numa ordem corporati - v i sta . ' Mas este é um proce s so que não mais pertence à Primeira República, já então chamada de "Velha ".

A SITUAÇÃO POLÍTICA, OS INDUSTRIAIS E A QUESTÃO SOCIAL

~!1~ !

Durant e a Primeira República a política parti-

dária em São Paulo estava sob o firme controle do Partido Republicano Paulista (PRP). Partido único

---. dado o P art i d o D emocrá ti co (P D) - , o PRP se mpre elegeu, não sem atritos, de vereadores a presidentes do Estado . E , a pesar das diversas cisões ocor r idas , sua hegemonia perdurou durante toda a Primeira Repúb l i c a. A os d i retó ri os l oc ai s c abi a o p a p e l de re- ferendum na escolha dos candidatos feita pe l a C o- missão Diretora do PRP. Escolhido pela Convenção, estava praticamente eleito o candidato. Dessa forma, PRP e situacionismo caminharam sempre juntos até o surgimento do Partido Democrático. Com pouca necessidade de justificar a sua ação, uma vez que controlava praticamente sozinho a má-

das classes dominantes até 1926

.quando: foi fun-

! t i

7

~

26

. Silvia Levi-Moreira

quina do Estado, o PRP n ão chegou a elaborar um

projeto claro de poder. Nesse sentido, a sua práti c a

política ficou conhec i da -

pelos adversários oriundos do mesmo campo político

- , c om o sem "funda m e nto", s em " i d ea l" , "c onti - nuísta" .

resumia -

sendo sempre critica d a

A política, aos olhos dos perrepistas,

se numa troca de favores e de cargos, efetivada atra- vés da corrupção, da violência ou das fraudes eleito- rais. Essa s colocações poderiam levar à conc l usão d e

que o PRP , guiado pelo clientelismo, constituiu-se num p artido cuja l i nha de a tu ação não conheceu de -

s a fios int e r n o s desde a f und a çã o, em 18 70,

gimento do PD em 1926 . M a s, ao c ontrári o , o p ar -

tido sempre c o n v i ve u c o m v oze s di sc ord a nte s,

m e çar pe l a s c r í ticas à po lítica m onop a r t idári a.

(entre elas as de

essa

várias cisões no seio da agremiação

a co - As

a té o s u r -

1891, 1901, 1915, além da de 1926) refletem

discordância, Isso continua válido mesmo quando se

te-

nham , no mais das vezes, retomado

T u do e m a cordo co m u m a visão, pr epo n de r ante

é mais

importan te de s ta c a r n e ste cap ítu lo a li nh a q u e p r e va - leceu na práti c a política do PRP durante o período em questão , principalmente com relação aos con- flitos sociais.

época, de política conciliatória :

aponta pa ra o fato de que as v ozes divergentes

ao partido.

à

No entanto,

A visão que os situacio n istas tinham dos movi -

me n tos trab a lhistas pode ser captada através da frase

famosa de Washington

presidência do Estado em 1920: " A agitação operária

Lu í s, quando candidato

à

~

t

.J

 

,

São Paulo na Primeira Re p ública

 

27

é

uma questão que interessa m ais à orde m públ ica d o

q

u e à ordem socia l" (apud J osé Enio C a salecchi , " As

pl at a forma s políticas dos ; can d i da t o s à pr e sidê ncia do Estado de S ã o Paulo na P r ime i ra Rep ú blic a ",

i n

Boletim de Economia e Hist ó ria, ano I, n ? 1, Arar a -

 

quara, mar . 1 978 , p. 9 0 ). Detenhamo-nos u m pouco mais na sua fala. Diz ia o c a ndidato:

 

"Ho m e n s vindos de outros c l imas, h a bi tuado s po r

outr as l e is, materializados por so f rim e ntos po r nós desconhecidos , exacerbado s p o r males q u e a qui nã o

m

ed

agitam-se e agitam em momento prop í -

cio, como sej a o d a carestia de vida, intercorrente-

e nte produzida pela g uer r a europ éia O problema a r eso l ve r aqui, n ã o direi que seja diametralmente opost o , m a s é incon tes t avelmente

m

diferen t e d o e u r opeu " .

 

Para Wash i ngton

Luís, se na Europa

havia su-

 

per p op u lação

e falta d e terras, no Brasil h avia fa l ta

d

e braços e abu nd ância

de terras para serem culti-

v

adas.

E

ain d a :

"Aqui, leis liberais ab o lir am de d i re ito a s castas e os priv i lég i os que a bem examinar de fato nu n c a . e x is- tiram aqui ; a q u i , não se formam classes , o homem expe rim ent a a s p r ofis s ões e escolhe as que mai s lhe

 

convé m

o lavra do r de hoje é o colon o d e o n tem,

co r no o capitali s ta de agora é o oper á r i o de ain da agor a. A t odos qu e c hegam, nacionais ou es tra ngei- ro s , t ra ba lhad o r es agrícolas, i ndustriais e comer-

 

J

28

. Sil vi a Levi - Moreira

dantes , podemos dizer sem rubores: somos todos n ovo s em país n ovo . Trabalhai e eco n omizai" .

São Pq . 1JI() na Primeira República

governantes . Em nome do "progresso" de - São Paul o, impunha-se reprimir os indivíduos que provocassem a

W a shin g ton Luís chega a afirmar que as aspi- rações operá r ias (tais como a jornada de 8 horas de

desordem, j á que a anarquia não era atributo da po - pulação paulista. Aqueles que a promoviam eram elementos estranhos, influenciados por ideologias

tra b al h o, re gu lame ntação do trabalho feminino e do

estr ang eiras, porquanto e xóticas. '

m

e nu r, dos ac i dente s do trab a l ho ) e ram uma r e ali -

Dentro d es s a ótica de "manutenção da or de m",

da

de e m S ã o Pa u l o. Isto apesar das constantes de-

o E stado deveria i n t e rvir e nergi c amente para evitar

n cias nos j ornais da época não só quanto à falta de

qualquer interrupção no desenvolvimento das ativi-

r e g u lam e nta ç õ e s mas também quanto ao d e srespeito

dades produtiva s . Como s e verá adiante, os gover-

às j á e x iste n tes. R e conh e ce g r ev e s - como conseqüência

a o c or rên c ia di á r ia de do alto custo de vida -

na n t es r e alme nte não ' h es itaram em utilizar a força para conter os movimentos de trabalhadores.

propõe ao "Estado o dever de regulá - Ias nas suas causas , nos seus efeitos" .

e

Ao longo de toda a Primeira República não fal- taram medidas enérgicas contra o movimento ope-

A

longa re fe r ê ncia ao pensamen t o de Wash -

ington Luís s e rve para ilustrar como deveriam ser so-

" U m a b oa pol íc i a é co ndi ção d e u m bom governo ' .

rário, amparadas inclusive pela l egislação. Essa ação repressiva, denunciada na imprensa da época, tra -

l ucionados os conflitos sociais na ótica dos go v er-

duzia-se na dep r eda çã o

e fech am en t o de associ a ções

nantes: com a intervenção do Estado atra v és l l C s eu aparato policial . Campos Sales já afirmava em J 8 9 6:

Cabe à polícia a tarefa de " manter a ordem, garan t ir

operárias, prisão, in v a s ão de domicílios, espanca- mentos e deportação de líde r es grevistas. U ma arm a importante contra a or g anização operária foi a expulsão de estrange i ros. As leis de ex -

cada onda grevista reforçavam-se os instrumentos de

a

segurança individual , salvaguardar a propne . l a ue ,

pulsão e x istiam desde o início da R epública (com o

defender a moral pública e reprimir os vícios

". Em

Código Penal de 1890 contra vadios e capoeiras es-

1908 ~ Albuquerque L i n s ta mb é m co nfia v a à pol í c ia o

papel v igilante sobre os " maus elementos " que dia- riamente se infiltravam no meio da "população esta- belecida e laboriosa". E ainda: "Quando se trata do bem público e do interesse geral, impera unia lei suprema, existe um ideal comum : Pelo engrandeci- mento de São Paulo".

t ra n ge i ros) . N a Pr im eira Re pública fi c aram mai s c o- n l iecidas as l eis Adolfo Go r do , de 19 0 7 e 1921 . A

coerção , visando impedir desaf i os à política dos gru- pos dominantes e, nesta estratégia , inseriam-se as leis de expulsão. Pela lei de 1907 vedava-se a expul- são de estrangeiro que fosse casado com brasileira,

 

uma lógica imanente no discurso político dos

ou viúvo, o que ti v esse filho brasileiro ou, no mínimo, I

 

~

~

 

30

Sil v ia L evi- Mo r eira

São Paulo na Primeira República

31

 

dois anos de residência no Brasil (cinco anos na lei de 1921). No entan to , as autoridades não re s p e itavam, muitas vezes, tais aspectos da legislação . O mesmo oc o rria com o habeas e orpus, freqüen-

 

rosa dis ciplina ao mesmo tempo qu e r ecebiam di- versos benefícios. Por volta de 1917, quando era então presidente do Centro Industrial do Brasil, Jor- ge Street propôs, alegando falta de b r aços, S6 horas semanais como jornada de trabalho e o traba l ho i n-

temente ignorado. Por outro lado , um simples rela- tóri o p o li c ial, b a se ado em acusações de t est e munh as ,

as ta v a p a r a in c rimi n ar o acusado . D e ssa for ma con- f i rmava-se o q ue dizia Washington Luís: ' "A qu est ão social interessa antes à ordem pública " , isto é, a questão social e ra antes um caso de policia.

b

~

fan t il a partir dos 11 anos . Embora admitisse uma

eg i s l a ção d e ampa ro à mulher grávida, insistia em que fossem curtas as licenças e se ensinasse o opera- riado a controlar a natalidade. Apontando o sistema escolar def i ciente , Jorge

l

 

Aliados à p o lícia, principalmente

no s m o m e nt o s

Street sustentava que a fábrica constituía-se na me-

 

subseqüentes às greves, estavam os i ndustriais. As

 

lhor escola para as crianças brasileiras (ma i s " pre -

pesquis as demonstram que a r egra de ( c onduta do s industriais era a de coer ç ão , e m bora ' h ouvesse e x-

!I

oces" que as européi a s), dado que as a m p a ra v a do abandono e ví c io das ruas . Segundo o industrial , o

c

I

ceções, como Matarazzo e Jorge Street, ( q ue impri -

M

tr

abalho dos meno r es de 1 2 a 1S anos c o rrespo n d ia,

miam às suas relações com a classe trabalhado ra . c e r ta

n

a verdade , a um dese j o d o s p r óprios pa i s :

I

d

os e de pat erna li sm o . Resp o nde n d o c om /ock- outs,

 

expul s ando os agit a d or es o u envian do à p olíci a lis tas

I

,

"

O s o pe rár ios da fábri c a empenham-se, fortemente,

 
 

~\

.

negra s dos o p e r ári os d esp e di dos - p o st u ra assumida por O. Pupo Nogueira, secretário-geral do Centro

d os Industr i a i s d e F iação e Tec e la gem de S ão Pau l o,

na d éca d a de 20 - , as classes pa t ronais compor- taram - se, via de re gra,de forma r e pr e ssi va e in t ran - sigente frente aos conflitos trabalhistas. É importante examinar um pouco mais detalha- damente as po s iç õe s toma d as por al gu n s i n d u s t r iais. Vamos c o meçar com o c a so d e Jorge Street. Diri- gindo fábricas têxteis no Rio de Janeir o e e m S ão Paulo, Jorge S t reet construiu na uni da d e pa ulista uma vila o perár i a padrã o . Conheci d a p o r " Vila Ma - ria Zélia", nela os operários obedeciam a uma rigo-

~ para obterem estas colocações para seus filhos e pa - rentes, e sempre que eu lhes falo em diminuir - lhes as horas de trabalho, eles, invariave l mente, me respon- dem que não só essas crianças os ajud a m no g an h a- pão quotidiano, como também julgam melhor para eles trabalha r em na f á brica do que ficare m em cas a,

ao abandono, e sem fiscalização. Ser á p o ss í v e l q ue todos estes pais, irmã os e parentes sejam tão desna- . turados que proced a m deste modo só por ganância e para ganhar com o trabalho dos seus pequenos ,

c o mo já há quem tenha dito? Pensar assi m seria

li

ria dos quais os sentimentos naturais de afeição são

t;

li,'

:,:

gràve injúria feita a ess es operários, na grande maio-

perfeitamente normais e vivos" ("Código do Traba-

~\

32

Silvia L e v i-Mor e i r a

\

lho", in D oc umentos Pa r lame n tares.

cial, apud Pa u lo Sérgio Pinheiro e M i chael M . HaH,

Le g i slação So-

A Classe Operária no Brasil, São Pau lo, Brasili ense, 1981, p. 18 0 ).

Mant e ndo uma atitude ao mesm o tempo ben e-

volente e p atern a li sta,

sív e l às r e ivindicações op e rária s , Jorge Street não deixou de endossar medidas au s t e ras cont r a o movi - mento operário . Em 1935, durante a rev o lt a militar, a Vila Ma r ia Zélia foi utilizada como presídio (cí . Paulo S . Pinheiro e Mi c hael M. Hall, op . cit. ) . Ê preciso lembrar ainda que durante boa parte da Primeira República os industriais estabeleceram acordos e mantiveram-se ligados ao partid o s itu ac io- nista paulista, o PRP. Desta forma, é possível a fir- mar que a repressão ao movimento oper ário e m S ão Paulo apoiava- se n um tr i pé : governantes - p olí c i a-

indus t ri a is .

sen-

m uit a s vezes de pa t rão

Por out r o la do, os empre s ár i os ta mb ém tivera m

o opera ri a d o . No aos operários d a

de

1920, rev e la - se magnificamente a óti c a de certos in-

dustriais sobre c omo s olucionar os conflitos s o ciais através de medidas conciliatórias. Um orador, dife- renciando a situação européia da ' brasileira, reco- nhecia os "movimentos parcelados das classes traba- lhadoras", mas não os considerava como representa- t\VOS da classe operária. Alertava os trabalhadore s l para as "idéi as de além-mar" e propunha o estrei t a-

iniciativas de coopt a r politicamente

R i o d e Jan e iro, numa con ferênc ia

firma Pereira Carneiro

e C i a. , no 1? de M aio

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) " ' j r S ão Paulo na Primeira República

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Silvia Lev i -Moreir,'

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s ' ão Pau lo na Prime i ra . República

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mento das relaçõ e s entr e trabalhadores e cap italistas, atrav é s do c ooperativismo e da na c ionalização das

entidades operárias, com o auxílio da escola e da E

Igrej a. O texto é e xemplar . Ao descreve r operá r ios e patrões como int eg rantes de uma g rande família co- mandada p e lo "grande ' pai " (o Sr. Conde Pereir a Carneiro) , o tex to ajuda a e l u c i dar a po s i ção de de- terminados indust riais quanto à int e rferência d o E s - tado nas relações trabalhistas:

preservar relações de caráter priva do , baseadas no princípi o lib eral de de f esa da propriedade e da liber- dade . Vale citar aqui a explicação de Kazumi Muna -

kata sobre o pe n s amento de Locke:

"Todo ind ivíd uo tem a propriedade do s eu corpo, de su a s ca pa cidades e , por i sso mes mo , tod o s os ho -

m en s , 'consi d er ados individualmente, são iguai s

e n t re si ' , s ão t o d os 'proprietários'. E como cada um

tem p l enos di re i tos sobre a sua pro pr i e dad e, ele po d e usá-Ia co mo b em entender, de acor d o com a sua livre vontade : o i n d ivíduo é , poi s, dotado de ' v on t ade' e de ' li b er d a d e' . O indivídu o é livre , por exemplo , para e mpreg ar o seu co r po no traba l ho, cujos fru to s tor n a m-se s ua p r opried a de , pri vada, s ó de l e " (op .

J' (II: •.~'I

~ • .~ ;

.

~

U

'

"Para o Sr. Conde Pereira Carneiro não é mister a ,

legislaç ã o do trabalh o p o rque e le , desde muito , vem co r responden d o v o luntariamente a todos os princ í-Í pios da solidari e dade social e cristã, est a belecendo ]

esta alianç a efetiva c om os seus operários e dando- I

l

d

10 S. Pin h e i ro e Mich ae l M . Ha ll , o p . cu., p . 1 92 )' i ~ ; l ~;'~~'J~r.1 I .f .

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repetidamente o testemunho do respeito p elos I

c it. , p. 11).

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i rei to~ e p ~ la s ga r ~ ntias que lhes s ão de~ idas " ( Pau - ; - ~Jr

Estan d o ap o ntada , ainda qu e r a pidam e nte , a

po s içã o d os g ov e rna nt es e i n du s tr iais P ~lUlistasfrent e

ao s co nfl ito s socia i s, ver - se-á agora c omo esta ques -

Durante a

Primeira R ep ú blic a a q u es tão social é debatid a no Legislativo or a c omo "falta de legislação soci a l " , ora

c o mo " i n jus t i ça s ocial " , o u a té c o m o "caso de p o -

Ass i m, dent ro da uma óti c a liber al , o s c o nflito.

de trabal ho d ev e ria m s er r e solv id o s dir e tam e nt e en -

tr e e mp reg a d os e e m pr egadore s . Ni st o estavam de ;

acordo , até ce r to ponto , anar qu is t as e indu st riais . A I não interferênci a do Es t ado n a s re l ações de t r ab a l h o er a uma prem is s a endossad a por indust r ia i s e l í de r e s oper á rios. Os in dustr i ais admiti a m a intromissão do

E

do se ' tratava da altera ç ão das regras do "mercado livre", isto é , quando da ocorrência de anarquia , in- troduzida pelas greves. Nesses casos o Estado deveria . ag i r atra v és de sua f o rça p olicial . Tratava - se então de i

s tado numa s ociedade baseada no cont r ato , quan-

f , '; . ~ tão f o i debatida no âmbito do Le g isla t ivo.

~ ~l ,

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I

1I

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l íci a" (P a ulo Alves , " A ' questã o Soc i a l' n o d iscu r so parlame nt a r na Pri mei ra Repúb l ica" ' , i n História, 1:9 1 -97 , 1982).

na p r imeira década deste sécul o , discutia-se na Câmara dos Deputados est r atégias para solu - cionar os confl i tos de trabalho através de leis sociais e

t rabalhistas que visassem a conc i liação . A lei Tosta (janeiro de 1907), que consagra legalmente as asso-

I1

l • ~

,

j

-

35

,

.••••

'

36

Silvia LeVi-Mor e ird : J

ciações profissionais e de sindicatos profissionai s e d e si ndi c atos patronais e de operários, foi apresentada à

Câmara Federal em 1 905. A p esa r de in st i t ui r a a u to -

n o mia sindical - s e m int e r fe r ê ncia lei Tosta visava um tipo de sindicato

a pr e g oa do pelo I Congresso Operário Brasileiro re a -

lizado em

t r atava- se de or gan iza r o sindicato co m bativo , de re-

do Est a d o _ , diferent e d o

a

1906 , no Rio de Janeiro. Para este último ,

,.'!

"1'''' -

;1

.

'

I

sistên c ia ; para Ignácio Tosta , o sindicato monia e da conciliação .

da h ar-

,

Em 1917, no cal o r

da s greves paulistas,

o depu-

tado Nicanor Nascimento, numa perspectiv a t am -

A OPOS I ÇÃ O: OUTRA S PROPOSTAS

bém de conciliação, propunh a a el a bor ação trabalhistas e sociais. Mas não desc a rtava a

- conflitos sociai s (C f . Pau l o A l ves, art . cit . ). Desta

licial -

de leis aç ã o po -

"alta função do Estad o "

na r es o lu ção dos

con -

f lit os entre Estad o e c l asse operária, desenvolvia pro - '

p os t a s q ue c ontempl ava m qu anto a co n ci li atória.

f o rma o Parlamento ,

enqu a nto mediador dos

tanto

a via repressiva

Essa p erspect iva de solução d o problema socia l qu e a p a r ece no Le gi s l a t ivo - co n c i lia t ória e integra - cionista - também estava presente entre as própr i as

c l asse s dominan t e s pa uli s t as . Diferentes soluções

não-coercitivas

blica , p rincip a l m en te

d e ssas pr o posta s s er ão a nal isa d as a seg ui r .

surgiram a o longo da Primeira Repú-

a pa r tir dos anos 1 0 . A lg umas

~L

f

1

(

p a r a s o luci o n ar

sob uma p er s p ectiva não violenta começaram a g a -

a

partir dos anos 10. Mas foi principalmente a pós as

greves de 1917 que essas propostas tornaram-se mais concretas. Conferências, artigos e livros fo r am publi-

c

sociais e confrontando as diferentes alte rn ati v as exis- tentes à ép oca. A s n ovas agre m i aç õe s po lít i cas SUf -

gidas a partir da metade da década de 10 incorpo -

rara m a d i s cu ssã o , suger indo novo s caminhos pa r a equa c ionar , ou minimizar , os conf l i to s so c iais. Gran-

A

s pr o post as

a questão

s o cia l

nhar força entre setores

dos grupos dominantes

a do s, a nal i sando

m ais

de t id a men te os pr o bl emas

J. de parte dessas propostas foi difundida por indiv í- duos, ou grupos , da classe dom i nante que po u c a re - presentatividade tinham no poder, mas que procu- ravam ampliar seu espaço de atuação política.

~ ( ,!

Para a análise dessas propostas vale examinar quatro posicionamentos típicos: dois são político-

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I

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r

38

Silvia Levi - Mor e ira

partidários ( d a Liga Na c ionalist a de São Paul o e do P artido Dem o crático) e d o i s vêm de homens público s (R ui B ar bosa e S a mp a io D ó ria) . Comecemo s com

es tes últ i mos.

Rui Barbosa

Rui B arbosa (1849 - 19 23 ) , a b olicionista n a Mo-

n a r qu i a e senado r n a Repúbl ica , manifesta-se s o bre

a ques t ão social a p en a s em 1 919 , numa conferên c i a

realizada no Rio de Janeiro (20.3.1919) quando c an- didato à Presidên c ia da Repúb l ica. Posi c ionando - se como um "demo c rata social " e seg u indo as i dé i as do cardeal Mercier , Rui Barb o sa defend i a a "felicid a de da c las s e obreira, não nas ruí - nas d as outras c l asses , mas na repa r ação dos agr a vos q ue ela, até a g ora , tem curtido" ( "A Ques tã o S o ci a l

e Po l ítica no Brasil ", in Escritos e D is c ur s os S e l etos,

Rio de Jan e i r o, Cia . Aguilar Edit . , 19 6 6, p. 431) . Em 1 919, p ar a Ru i B arbosa a q u estã o socia l e ra o mais importante dos problemas a resolve r . Mas não . era, s egund o ele , o so c i al ism o qu e sol ucionaria os c on - f l itos sociais, apesar de este conter, como e m todas as t eo r i a s , tanto um f u ndo v e r d a deiro qu a nto errôneo . Em seu texto , Rui Barbo s a chamava a atenção para diversos aspe c tos que mereciam um exame cui- dadoso: as más condições habitacionais dos operá- rios; abusos do trabalho noturno, de menores e mu- lhe r es (principalmente gestantes); turnos excessiva- mente longos ; as más condições de higiene a que es-

Sã o Paulo na Primeira República

39

tavam submetidos os operários; a ineficiente e incom- pleta lei de aciden t es de trabalho e d o seguro ao ope - r á r io . Rui Barbosa propunha uma sé r ie de medida s v isando a harmonização das duas classes: operár i a e empresari a l . Ao esbarrar na inconstitu c i ona lidade d a intro - missão d o Est a d o nas relaçõe s entre Capital e Tra- balho, e de uma legislação que regulasse os direitos trabalhistas , Rui Barbosa defe n deu a Re vi são Con s - titucional . Dialogando com p o lít ic o s rio -g r a ndenses, ele afirmava que, se o Estado não tinha c o m petênc ia p ara in t ervir na questão socia l, e ra então preciso a l - terar a Constituição pa r a que se d e sse a e la e s sa com - petência. S e a lei era inadequada, ela deve r ia ser al- terada . A revisão constituc i o n al , seg u ndo Rui Bar- bosa, era o único caminho para a " c on c iliação na - cio n al", co nt rariand o os que diziam ser esta revisão um " pro gr a ma d e des a g r eg ação". P a ra o r e visio- nista, op e rários e patrões dependiam uns dos outros e for ma vam um cor po c oes o e indissolúvel . Tinham am bos i n teresse n a re vi s ã o e n a força d a lei nas r e- lações e ntr e C apital e Trabalho. Ele alertava para o fat o de que os "o perá r io s n ão melh o rariam se , em v ez de obedecer aos capitalistas , obedecessem aos funci onários do Estado socia l iz a do " . D e sta fo rma , "n em todos os males do sistema econô m ico es t a v am c om os detento r es do capital " . Rui Barbosa esclarecia ainda:

"

ções e subversões , nãoé porque as almeje , busque ou

quando me preocupo com a i minência de como-

40

Sil v i a L e v i-Moreir a

estime (cansado estou de implorar q ue a s evit emos),

as div i so, e quero

convencer os que as promovem de que nos devemos

unir todos contra os seus tremendos cit . , p . 453) .

p e rigos" (art .

mas porque as temo, as pressinto,

P or co n s t atar a ' g r av id a de

dos problem a s t r ab a -

lhi s tas e preocupado com a "implantação da de- sordem" , Rui Barbosa propunha a revisão constitu- cional e defendia a interferência estatal para resolver

a questão social .

Antônio de Sampaio Dória

Antônio de Sampaio Dória é outro exemplo de

que

apres e n t ou

da questão social . Formado pela Fac u l dade d e Di-

rei to em 1908, e l e foi bastante

c ac i o n a l , c h ega nd o

Pública do Estado de São Paulo em 19 20 , so b a pre -

s id ência d e Washi n g t o n L u ís . Foi ta mbém memb ro atuante do Conselho Deliberativo da Li g a N aciona-

a segu i r). A pó s

Um d os

l i s t a d e São Pa ul o ( q u e discu tiremos

h o m em p ú bl i c o, l igado aos g rupos dominantes,

p ro p o s ta a l t e r n a ti va

par a o tratamen to

at u an te

na área e du -

a ser d ir et or g er al da Inst r uçã o

193 0 , s u a pr ese n ça n ã o f oi m e n o s marcante.

p r incip a i s a u tor e s do Có d i go E leito r al elaborado em

em

1 D ó ri a fo i ministro

932, Sam p a i o

da Justiça

1 945 , t e ndo a ind a

se c a ndid a tado a senador em 1 94 7,

pela Uni ão Dem oc r át ic a Nacional (UDN).

N o que diz resp e i t o dire ta mente

à nossa di s cu s -

São Pau l o na P r imeira República

41

são, Sampaio Dória publicou, em 1922, um texto bastante amplo (388 páginas) intitulado A Qu e stã o Social (São Paulo, Off. Graph. Monteiro Mob. & C . ) .

Nele, Sampaio Dória aborda exaustivamente as dife- rentes perspectivas existentes à época p a r a resolver os conflitos trabalhistas (inclusive as propostas co- mun istas e catól i cas) , d e mon s t ran d o gra n de conhec i- mento do assunto. Baseando-se nas idéias de Charles Gide, chegava a uma única conclusão: a questão social seria resolvida pelo Cooperativism o, que le- varia ao surgimento do produtor independente . Após

mas re-

rechaçar as teorias marxistas e anarquistas,

conhecendo que a questão social existia, ele pro- punha qu e o E stad o tomasse med i das que favore- cessem o produtorindependente. Vale apen a citá - Ias:

"

I ?)

o acio n ato o breiro ;*

2?) os ba n cos

agríco l a; 3? ) as coope ra t i vas de p ro du ção e consumo;

4 ? ) a ed u caç ã o m ate r na l , pri má ri a e p rofissional".

popul ares

de créd it o in d u str i a l

o Estado

princípios:

de veri a a gi r m edia n te

os seguin tes

e

" I ?)

F i xa ç ã o d o salá r io mín im o e m númer o d e h o -

ras, m e no r que o di a médio de tra b a lh o,

de

(*) Pa rti c ip ação

dos operários com o ac i o ni s t as das e m p r es a s

in c lu s i ve, e m s u a ad m ini s t ra ção .

e ,

H ((l

I; ~ I

42

"'"

Silvia Lev i -Mo r eira

modo que não haja miséria no lar do operário dil i gente e econômico . 2? ) Limite máximo do dia de trabalho pela capaci- dade de resistência individual, a critério do tra-

balhador. 3 ?) P r oi b ição do trabalho aos meno r es , e limitação d os adolescentes, para lhes assegurar o d es en- v o l v im ento físi co , e a ed u c a ção . 4?) Re p ouso hebdomadário de 24 horas mínimas, ab r angendo , sempre que possível , o domingo . S?) Preparação técnica, que, aumentando a renda d o trabalho, dê ao o p erário a consciência e o poder de se bastar a si próprio.

às

6?) Proibição de empresas que não atendam

condições higiênicas nos prédios e nos instru -

mentos. 7?) Ig u aldade de pagamento, sem distinção de

8?)

sexo o u idade, ao s m esmos t r abalh os. Inter d i ç ão d o trab a lh o na s of i c i n a s às m u l he -

res u m m ê s a n t e s e um mê s depo i s do par t o , se m qu e per c am os seus sa l ár i os.

I 9? ) S u pressão d o trabalho not u rno , q u e não f or ab so l u t am e n t e ne c essário, e , no i nevi t áve l , ve - da r o e m prego d a s m ulh e res e das cri a nç as.

1 O?) R esp o n s a b ili d ad e d o ca pi ta l pel os aci dentes d o tra b alho , median t e seg u ro o u c aução obr i g a - tóri o s . Ll P) Interfe rê nc i a diret a d o Estado no cu s t o de vid a ,

b L

como:

a) comb a te aos t rusts

b) as medidas qu e ap r o x imem p r odutores e consumidores , s uprim i ndo intermediários inúteis ;

c) o a mp a ro legal aos i nquilinos contra a ga -

;

S ão Paulo na P r imeira Repú b l i ca

12?)

nância dos senhorios;

d) favores à constr u ção de casas higiênicas

e) a distribuição dos impostos

f) animação ao trabalho agrário, com atrair braços para a lavoura, distribuindo semen- tes adaptadas, expurgadas e selecionadas, organizando postos d e experimentação,

;

a bri ndo es tr a das

;

;

g) em suma , tudo o que melhore as condições

gerais da vida , sempre que as ini c iativas e as posses individuais sejam deficientes . O poder público d e ve socializar , com ou s e m privilégio, os serviços que, a cargo de particu- lares , não ofereçam segurança necessária, como correios, ou serviços que, confiados a particulares, não tenham a extensão e eficiên - cia requeridas pelo progresso nacional, como a ed uc ação pú b li c a" (Antônio de Sampaio Dó- ri a , o p. cit., pp . 3 7 0 - 3 72 ).

Com o a te oria do laisser -f a i re , l aisser-passer ti-

nh a o s seus de f ensore s , Samp a io Dória p r e co n iza v a a

i n te r v e n ç ão do Es t ado p ara a m parar

te a o ca p i t a l qu e o explorava.

u st ifica v a a ind i fe rença do Est a do qua n d o s e t ra tava

Cita ndo R ui

B a r bosa, a f i rmava q ue dif ic i l me nte se p ode r ia a cei-

t ar a neu t r a lid a de: " N ã o há i mparci a lida de

c rime e a Justiç a " . Sa mpaio D ór i a admit i a a orga niza ção ope r ária,

via si nd ic atos ,

b alh a d o r a, e m bo ra de f endesse o v o to c om o a m e l hor

d

o t r ab a lh o fren -

Segundo Dóri a, na d a

j

e garan ti r

a jus tiça en t re os homens.

e n tre o

e a grev e como direito d a c l a sse tra -

43

~

 

1f((f

44

Si l via Levi-Mo r e ira

São Paul o na Prim e ira Repúblic a

~.

 
 

arma reivindicatória.

Mas, a sua solução "ampla

e

Li

ga Nacionalista de São Paulo

d

u rado ur a" res i dia na formação de p rodutores inde-

pendentes com a eliminação dos assalariados

e dos

 

patrões . N ã o propugnava

pela extinção da grande

A Liga Nacionalista

de São Paulo (LNSP) foi

i

ndústria,

do grande

comércio ou da propriedade

uma entidade que surgiu vinculada às escolas supe-

agríco la . O qu e im portava era a maximização da

rior e s n o fi n a l de 191 6 , na capita l paul i sta,

fruto da

produ ção

d e riquez as,

co m "o m en o r dispê nd io

d e

campanha d e Ol a vo Bilac em p ro l d o "reerg uime nto

forças" .

 

do caráter nacional".

 

P

or

o u tro lado, reconhecia que o capitalista era

Af i rmando s e r uma associação extrapartidária,

 

avaro e g a n a n cioso, p r e tendendo obter a máxima

a

L N SP t i n ha co m o ob jet ivos principais

lutar p e lo

 

I

ren da , pa gando o mín im o, m as argüía qu e

as greves

voto s ecreto e obr i g a tór i o ,

pel a efe t iva aplicaçã o da

 

se resumiam na solicitação de salár i o e na dimi-

l

e i da o b r ig atori e dad e

do s erviço militar e pela di-

 

li Itl

nuição das horas de trabalho. Além do mais, se- gundo ele , o Capital existente era fruto de trabalho

fusão da instrução e desenvolvimento da educação em todo o país .

 

I

passado, e produzido antes do operário contempo -

Quem eram os int e grantes da LNSP? Na presi-

 

râneo. Portanto , a expropriação

do capital consis-

dência atuou, durante todos os anos de existência da

tiri a num roubo. Co m a p a rt ic ip aç ão dos ind iví duos

entidade , Frederico Vergueiro St eid e l, profe ss o r ca-

nos lucros , gr ande

p ar t e

d o s males seri a co r ta d a

tedrático de Direito Comercial da esc o l a do L ar go de

p

e la raiz.

S

ão Francisco. A v ice - pre s id ê nci a

es t eve n as mão s

 

Na base de suas preocupações estava a per s pec -

dos profess o r e s A. F. de Paula Souza, da Escola Po-

 

t

i v a de implan t ar

o sis t em a de produ ç ão aut ô n o mo ,

li

t écnica , e Ar na ldo Vieir a de C a r va lho , da Fac ul-

at r av és do Cooper a ti v i s mo . Pro post a qu e foi e nc am -

da

de de Medic ina. Os o utr o s integra nt es,

tanto d a

pad a diferentement e p o r outros grupos políti c o s, não só à é p oca de S am p a i o Dória, mas t a m b ém no após-

Diretoria quanto do Conselho Deliber ati v o , er a m -

gados, engenheir os, médi c o s, jornalistas

majoritariame n te

advo-

profiss i onais

liberais

3

0 . Co n c lu i ndo ,

p ara Sampaio Dór i a a qu estão so -

e profe s -

cial seria em parte res o l vi da desde que s e desse t odo

s

ores. Entre os jornalist a s ,

c on vém des tac a r

a pre-

estímulo e incen t ivo à formação de Cooperativas e ao

s

en ç a , no C o nselho Deliberati vo,

de J úlio de Mes-

surgimento do produt o r a utônomo .

q

uita Filho , Amadeu Ama r al, M ário P i nt o S e r v a ,

 

N

estor Rangel Pestan a, José Bento Mon teir o L oba t o

,

e

Plínio Barreto.

"

,

)

Vários dos integrantes da LNS P t i v eram parti-

e

~

 

_

45

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I

46

S il via Lev i -More i ra

cipação política n ão só enquanto a entidade existiu, mas t a mbém após o seu fechamento, seja atravé s d o Pa r tido Democrático (e, posteriorment e , da UDN), ou em movimentos como o de 1932. L e mbre-se, por exempl o, o nome de Antônio de Sampaio Dória ou de Armando de Sa l les O l iveira, interventor no Estado de São P aulo em 1933 ~

de Jo r ge Street no

Conselho Deliberativo da Liga tem d e ser explicada .

Qual o inte r esse de um representante do setor indus-

d e

profissionais

necessidade de se reformular politicamente a nação

liberais? Era em função da crença na

Por outro lado, a pr e sença

o tria l em asso ci ar-se a uma entidade p re dominan t e

como ga r antia d a continui d a d e hegem ô n i ca do E s - tado de São Pau l o - e dentro dele, de determinados -

grupos sociais

ge Street com a LNSP. Trata v a-se da const r u ç ão

um p rojeto político consubstanciado essencialmente

na efetiv a ç ã o do voto secreto e obrigatório . As si m q ue a LNSP i niciou s uas atividades,

luta contra o analfabetismo e a propaganda para dis-

sem in a r a i nst r ução c o n s tituíram os p ontos p r i n ci-

de

que se explicam os vínculos de Jor -

a

p a is de su a atuação . Segundo a Liga, a nação

t a v a d ois grandes p erig o s : os imigrantes

lhos) , muitos deles analfabetos que se sentiam liga- dos a países estrangeiros, e aqueles brasileiros em-

polgados por sentimentos que não

mento nacional".

Liga criou escolas noturnas destinadas exclusiva-

mente aos trabalhadores. As "Escolas Naciona-

listas", localizadas em bairros de população ope-

enfren-

(e seus f i-

eram o "senti-

que a

Foi visando essa situação

=:»

 

S

ão Paulo na P r imeira República

,

47

~

rária , funcionavam

à s 20h30 , e nelas só podiam ser matriculados os indi- víduos que não pudessem efetivamente freqüenta r

aulas durante o dia.

de 2~S às 6~S feiras das 19hOO

em torno da

riedade e s e gredo do voto que a LNSP centralizou

t

te estaria asseg u rada quand o se pusesse fim às frau- des e violências que caracterizavam as eleições. Jul- gava - se necessária uma reformulação institucional

para que se efetivasse um re gi me com bases liberais. Nesse sentido, a proposta do voto secreto implicava diretamente um rernanej a mento dos grupos no po - der, ident i ficados com a máq uina do Partido Repu - blicano Paulista (PRP~ .

É,

no entanto ,

luta pela obrigat o -

d emocra c ia somen -

o d a a s u a a tu a ção . A pr á t i ca d a

~

U m pro g rama de reformulação política, calc ado

na s denún c i as a os costumes eleito ra i s c orro m pi d os, con s tituí a - se numa das poucas altern a t i v as ab e rtas

às facções d i ssid e ntes d o grupo de t e n t or do poder polític o .

em torno do voto sec r eto e o briga-

A propo s ta

t

discurso dos in t egrantes da Liga sobre a "que s tão socia l ". Torna - se perce ptí v el qu e o discurso da asso- ciação vai sendo elaborado na medida em qu e se for- talece o movimento operário. Percebe-se assim a construção desse discurso em função do próprio cres-

q uando se analisa o

ór i o só po de ser c omp r eend i d a

c imento da s lutas populares .

A visão que os membros da Liga tinham sobre a

questão social não era homogênea. Para alguns, par-

t e da solução residia na ampliação do ensino técnico-

"

ftT

48

Silvi a Lev i -Morei r o

I I

pro fi ssio n a l . P ara Roberto Moreira, a qu estão social

continuava

como Jorge Stre e t, que ele via como exemp l o a ser

p

ba l ho p r e j udi c ava o próprio operário na medida em

qu e diminuiria a p r odu çã o e a umentaria

Segun do e le , o B rasi l não conh e cia a que stão social .

p r incipalmente de 1919 a q u estão s o cial

não seria ma is ignorada pela LNSP. As lutas popu -

a existir

pela ausência

de industriais

e o pe r á r ios.

segu i do nas rel ações entre patrões

a r a Má r io Pin to Serva, a luta pelas 8 horas de tra-

A pa r tir

a ca restia .

:If

a ser vistas como um a a m eaça à p ró -

I pria existê nc ia da associação. O dis c ur s o nacionalista da Liga ocultava a dinâ -

lares passa r am

1IIIl

I mica real das relações sociais . Os conflitos de ver i am ser solucionados em nome da nação. As classes so- cia i s d ev eriam se harmonizar no "homem brasi -

e r am ca - sem li -

l e ir o". A s mobilizaç õe s d os tr a b a lhadores

r ac t e ri z adas como um fe n ô m e no importado ,

gação com a rea l idade brasileira.

end e d o manifesto qu e a Liga d i ri g iu ao " oper a ri a d o

n

o u t ubr o de 1 9 19:

É o q u e se depre-

ac ional " durante

a g r eve d os serviços público s em

J.

"A greve qu e, há dias , esta cidade a s s i ste tira - nos da

n ossa a b s t e nç ão, p or qu e ev ident e men te,

r e ncia , por vá r ios asp ectos,

r a m e acabar a m , sem s airm o s nós do nosso s ilêncio .

das outras qu e come ça -

e l a se dife -

Es ta começo u s e m se con h ece r e m

qu e i xas

quando ela acab a rá , j á s o bram razões para se poder

acreditar que os seus fi n s são políticos

a utor e s s ão e s t r a n ge ir os.

os intuit os o u as

do s op e r á ri os, e , a inda qu e se ignore c o mo e

e que os se us

A nossa abstenção ,

p o r -

São Paulo na Primeira República

tanto, se conti nu asse não se justificaria. Para nós é po n to de doutrina

política no B rasi l,

mente aos brasileiros. A Liga constituiu - se a volta da

sag r ada i déia d e Pátria, em defesa do sentimento na -

cional, para dar

tíve l de o e nfra q uecer, e para promover e estim ul ar

t ud o qu a n t o possa revigor á - Ia. Ao s o p e rários estra nge iros di remos que o B r a -

sil é nosso. Pe l as n ossas leis e pe l as nossas n ecess i-

d ades d e pa í s novo, de e s cassa população, e, mais q ue

pelas nossas l e i s e necessidades, pelo nosso tempe- ra m e nt o e p elo s no sso s co stu mes atrae n tes e aco lhe -

intangível q u e,

é matéria

reservada exc l usiva-

combate a tudo quanto seja sucep-

dores, o s no sso s por to s e as nossas fronteiras

se fe c haram ao de sembarqu e e a entrada de a lgu é m .

nunca

49

"1"1

ago r a cu id am o s n os sos l e gi s la d ores de opo r t u n i s- simas restrições a esta liberdade ilimitada.

Mas, a todos se destina a nossa palavra ,

mem e nt e lhes a sseveramos qu e t udo fa rem o s , por no ssa es p o nt â nea delibera ç ão e as o rden s dos pode-

e fir-

res nacio n a i s, p a r a que no B ra sil , e m S ã o P a ulo ou

e

m qualquer outro Estado da União, as questões po -

lític a s e a qu estã o social s e di s cut a m

e se resolvam ,

sem a m e n o r o f e nsa às pre r ro g ativ as

d e que n os s en-

tim os r evesti d os po r serm os brasi l e ir os.

tud o, à P á tria " (O E s t ad o d e S. P a ulo , 2 7 .10.1919 - g r ifos n ossos) .

Antes de

pela Liga frent e a o s con-

flitos sociai s fica c lara com o tex t o

zido . Estabelecia- s e que as questõe s polít icas, disso-

ciadas das questões econômi c as,

encaminh a d a s a tra v és de movimento s grevistas . No

n ã o poderiam ser

A posiç ã o a ssumida

acim a r eprodu-

-

j

tr

\

I

I'

IIII

11,·

'11:

'1\

50

Silvia Levi-Moreira

,fi

campo da luta política,

v o to, "úni c a arma ord e ira" atravé s da qua l se daria o

somente o

a Liga admitia

solucionamento do problema operário. Pode - se afirmar qu e a LNSP procurava sempre

di l uir o conflito s ocial a pe lando

" i nteresses na c i o nais".

L i g a evitava q u alquer id e ntificação com uma deter-

m i na d a corre nte i deol ógic a, n a tent a t iva

consenso de todos os setores

atuação. Mas esse consenso nem sempre foi obtido. As cla s ses dominantes e as classes dominadas não en-

caravam da mesma maneira a questão nacional . Eis I W como se colocava o jornal O Combate por ocasião da greve de 1917:

para os chamados

da

A retór i ca nacionalista

de o b t er o

da s o ciedade para a sua

"Da mesma forma que o sr . Altino Arantes pode se fazer jes u í ta à h o r a que quis er , o sr. Leuenroth tem o

i rei to d e comb ater t o das as crenças re l i gios as e de

pr e g a r o at eísm o. C o mo a L iga N acionalis t a q ue r s a l - I I

d

var a Pátria com o voto, o sr. Sanchez pode clamar

 

c

ontr a o s ufrá gi o un i ve r sal . N e m por i sso Augu sto

1:\ ~

Com pte foi pa r a a c a dei a " ( O Comb ate , 21 . 9 . 1 9 1 7).

.1'

U m a análise mais acurada da i n t ensa c ampan ha

da Liga pelo vo t o secr e to revela q u e esta es t ava dire-

I,J.

S ão Paulo n a Primeira Repúb l ica

anarquismo: O não reconhecimento da luta política

formal . Os anarquistas rejeitavam qualquer forma de ação a nível parlamentar, terreno de luta política privilegiado pela LNSP. Era exatamente a instância

que a Liga reconhecia como único

campo legí t imo para o enfr e ntamento das diferentes co rrentes de op iniã o .

suas espe-

jurídico-política

. N o voto sec r eto a Li g a depositava

51

,1

ranças de conter, de certa forma, a insatisfação so- cial urbana, agravada com a elevação do custo de vida. A L ig a prete nd ia, com o voto secreto, prevenir qualquer alteração drástica da estrutura social . Não

há dúvida que era a mobilização autônoma das clas- ses operárias o q ue a te r r o r izav a os grupos d o mi- nantes. Para a Liga, a solução da questão social pas- sava principalmente pelo problema da representati-

v i da de do p o der .

A L NSP empe n hou - se em reform u lar a lei elei-

toral . E isso com dois o b je t ivos: ter alternativas para

o ascenso do movimento operário e romper o mono - pó l io po l ít i co -p art id ário do PRP, visto pe l a L i ga como um f a t or de i nstabi l idade social . No entanto , a associaçã o ev ito" pr o nunci a m entos di retos con tra o

PRP , preferindo f i car na condenação

nismo loc a l e das "o li garq u i a s" . Com efeito, a LNSP

do mando -

tamente v olt a da p a r a a desmobiliza çã o

do mov i -

~

n

ão s i ste m a tiz o u uma o p osição ao P RP .

 

m

ento o p erário at r av és do alist a ment o eleitoral . Con -

.

O

p r ograma da L NS P er a, so b r etu do, u ma pro -

forme foi v isto, a p a rtir

de 1917 presenciou - se

um

po s t a di f er e nt e de a ção po lític a, e ndere ça d a

às e l ites

incremento nas ativid a des c ontestatórias no p a ís, in -

fluenciadas em grande medida pelas idéias a nar-

quista s . Le m bramos

aqui um pr i ncípio

básico do

I ij

p a u li stas, reve n do a p r ópr i a est r atégia de a l i anças

e n tr e os g rupos sociai s p a ra o pre se rvaç ão do siste m a

r

e p u b l ica no .

E ssa pr o p o s ta e ra i d ea liz ada

p ara São

~

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52

Silv ia Lev i - Moreira

P a ulo e para o B rasil, sendo vista como única via

p a r a qu e os i n t e grante s

ticamente. Fosse isso contra o PRP,

nat i va às pro p ostas anarquistas do movim e nto ope -

rá ri o.

. A LN SP f oi fec h a d a em 192 4 ac u s a da de e n vol-

v imen to na r e vo l ta njil i tar o corrid a

embora su a atitude tenh a sido de neutralidade

r an te t o do o confl ito.

rea b erta. D iversos de seus mem b r o s aca b ariam

int e grar o Partido Democrático, fund ad o e m 1926.

da Li g a s e i mp usess em poli-

fosse como alter-

em São P a ul o,

du-

não m a i s seria

por

A ass oc iaçã o

Partido Democrático

(PD),

criad o em 24.2. 1 9 26, t i nh a como objetivo fu nd a -

mental a representatividade

mocracia. Lidera do pelo Cons e lheiro Antônio Prado ,

o PD or g anizou-se a partir de três grupos p o l ít i cos:

1?) da Faculdade de Direito com Waldemar Ferreira

o Partido Democrático

de São Paulo

do voto e a luta pela de-

e

Francisco Morato; 2?) de Marrey Jr.; 3?) do jornal

O

Es tado d e S. P aulo com Júlio de Mesquita. Muitos

dos integrante s do par tido tinham participado

d a

L

i ga N acio nalista de São Pa u lo, abor da d a

n o i te m

anterior. Na parte final do manifesto-programa

(22.3.

li,' I

11

~l

1926) do PD eram explicitados os pontos básicos do

partido:

"I?) Defender os princípios liberais consagrados na

Sã o Paulo na Primeira República

53

'\f

Constituição, tornando uma realidade o go- verno do povo e opondo-se a qualquer revisão constitucional que implique restrição às garan- tias e liberdades individuais.

I 2?) Pugnar pela reforma da lei eleitoral no sentido de garantir a verdade do voto, reclamando, para isso, o voto secreto e medidas assegurado-

 

ras do a lista m e n to, d o escr ut í n io do reconhecimento .

da apuração e

3?)

Vindicar para a lavoura, para

o comércio

e

4?)

para a indústria a influência a que tem direito, por sua importância na direção dos negócios. Suscitar e defender todas as medidas que inte- ressam à questão social .

S?) Pugnar pela independência econômica da ma- gistratura na c ional e pelo estabele c imento de uma organização judiciária em que a nomea- ção dos juízes e a composição dos tribunais in-

depend a m completamente

de ou t r o q ua lqu er

pod er p ú blico . 6? ) Pu g n a r p e l a independên c ia

e co n ômica d o ma -

gistério público e pe l a criação de um organismo integ r a l d e instrução , abr a nge n do o ens in o p ri-

már i o, se cund ár io , profiss i onal e s u perior"

( Mari a L í gi a P r a do, A De m ocracia Ilustrada. O Partido Demo c rático de São Paulo, 1926 -

1934, São Paulo, Ã tica, 1986, pp. 10 - 11).

o PD p a rti c ipou

do pleito federal d e f ev ere i ro

para

d e 192 7, tendo eleit o a lguns de seu s c an did atos

a C â mar a

dos D e put a dos .

Tanto

n a s elei çõ es d e

~

1927 quan t o nas de 1928 , o PD n ã o con s egu i u e leger

n e n hum can did ato

a o Senado Feder al.

Em 19 2 8, o

4JJ

'I

54

Silvia Levi - Moreira

PD re ce be u o ap oio do Bloco Operário e Campo n ês (BOC), gr u po par l amentar do Partido Comunista . C o m o c re sc i men t o d o P ar tido Demo c rático, o PRP , a tra v és de fraudes e da violência , começou a pressio- n a r o n ov o p arti d o numa tentativa de impedir que este conseg u i s se novas v i tórias. Essa pressão, de cer- ta forma , levaria o PD . a descrer da possibilidade de t o mar o poder pelas v i a s legais. Organizado a nível

nac i o nal j á em

co m o s o posi c i on istas gaúchos, o PD ac a baria apoiando os candidatos da Al i ança Liberal bem

c omo a Rev oluç ã o d e 1 9 3 0 . A lut a pe la hegem o n i a e

s e t embro de 1927, a travé s da al i ança

pr

edo mínio de São Paulo na F ederaçã o l ev ar i a o P D

a

romper sua a liança com Get ú lio V a r g as e a proxi -

m

a r-s e novam e n t e dos pe r r e p i stas, dese m bocando no

movimento de Fre n t e Únic a em 1 93 2 . A histó r i a do PD não termin a ria aí . No entanto, este quadro já nos permite discutir a relação PD e questão social . Em 1932 um Diretório Distrital do PD, no bair- ro pauli s t an o d o Bele nzi nh o, so b i n f l uên cia d as idéias do BOC, redigiu u m documento em que eram propostas diversas medidas com relação à questão operária. Entre elas: 8 horas de trabalho; proibição do trabalho a menores de 16 a n o s ; licença de 60 dias pré-parto e 60 dias pó s -parto; salário mínimo; em caso de doença o operário receberia o mesmo salário mínimo ; férias anuais; s emana inglesa obrigatória; pagamento por quinzena obrigatório; seguro de vida obrigatório; assistência à velh i ce e acidentes para qualquer classe de trabalhadores (d. M. L . Prado , op . cit . , pp. 164-165).

S ão P aul o na Prim e ira Repú b l i ca

5 5

Cartaz de propaganda pelo alistamento eleitoral _ Liga Nacionalista de São Paulo (/HGSP).

56

Silvia Levi-Moreira

A questão que se coloca é: Afinal, a qu e vinha o Pa r ti d o? O que teria levado os dissiden tes do PRP a organizar-se em um partido em 1926? No dizer de Mar i a Lígia Prado, o "PD s u rgiu com um pro j eto específico para fazer frente ao movim e nto social q u e avançava 'perigosament e ' ", bem dif er en te do p r oj e to i mplanta d o pe l o g ove rno , a p o iad o pe lo P RP. Se -

gu n d o a a u t or a,

"

0 PD como

part i do po l ít i co fo i o p r i m eiro a pro-

I ~

por u m p ro j eto alter n at i vo de d o minação soc i al . E l e

respondia às questões de seu tempo em que a temá- tica da 'questão social' e da 'revoluçã o 'a t ing i u forte- mente certos grupos da c l asse do minante. Sua res- posta criticava o simplismo da dominação até então vigente contida na proposição ques t ã o soc i al! ques- tão de polícia e, ao mesmo tempo, se co l ocava como a ltern a tiva a s a íd a s mai s radicais como a do BOC . A lém disso , a luta ideol ó gica que j á se travava com o s oci a lismo levant a va c omo b a ndeira a possibilidade c on cr e ta da harmonia soc i a l e do co ng raç am ento, o do surgimento , a tr avés do cooperativismo, do produ- to r liv r e e independen t e " (op . cit., p . 165).

N as pr o post as d o P D é possível identificar a in- fl u ê n c i a d as idéias d e Rui B a r bos a, de Sampa i o D ó- ria , da Liga Nacionalista de São Paulo. Pela primeira vez , essas idéias faziam parte de um programa par- tidário, incorpor a ndo uma visão "democrática" da relação entre Trabalho e Capital . Dessa forma , o PD 1,1"

São Paulo na Primeira República

do PRP, O PD contrapunha

o "estado de Direito"

57

(M; L . Prado, op. cit., p. 170). Dentro da lei e da ordem, a "questão social" seria solucionada. Além de ajudar a solapar as bases do PRP o PD, a partir da década de 20, a ju dou a difundir a ban- deira da democracia, com a luta pelo voto secreto e pela participação eleitoral da população. Isto não in- va lid a, n o e n t a n t o , a c a r ac teri zação do PD com o u m partido que enge n drou um projeto alternativo de do- minação social . Segundo Maria Lígia Prado, "o pro- jeto político-social pensado pelo PD constituiu-se na fórmula mais adequada encontrada pela classe domi- nante para apagar e neutralizar os antagonismos so - ciais e as oposições de classe" (op. cit . , p. 176).

corporificou organizatoriamente as várias alterna- tiv a s propostas pela oposição. Ao "estado policial "

_

I

 

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( 11 1 ,

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CONCLUSÃO

N a pri mei ra receu abordagens

grupos p o lí t i cos que dela se ocuparam,

va r iadas , - conforme

R e pública a questão social me -

os diferentes e as soluções

propostas est avam lon ge de conv e r g ir. I st o mes m o entre os grupos d o minantes. Desde a década de 20 a solução dos problemas n acionais aparece vincu l ada à questão so c ial . Es ta v ai a s sumin d o u m a dime nsã o ampla na disc u ssão p o l ít i ca e n os programas parti- dários, num processo que c on d uz à definição de dife- r entes p r o jetos p ara a socied a de b ras i lei r a . O embate entre eles, aberto na Primeira República, permanece at é os dias de ho j e.

Hoje discute-se a v i abilidade de um Pacto So - cial . Mas, como a História mostra , tem sido difícil o estabelecimento de pa c tos que acomodem os inte-

I resses dos diferentes segmentos da sociedade brasi- leira . Na verdade, o choque entre esses interesses constitui o própr i o campo da H i stória. A possibili-

'1

,~

São Paulo na P r imeira Repúbli c a

59

~

dade de uma solução, p o rtanto, talvez não passe por

u m a vi sã o uni f ica d ora das di fer ente s per s pect i vas.

A questão social, em e rg e nte na Primeira Re-

pública , perman e c e um probl e ma dos dias atuais. Os r e formistas d as primeiras décadas do século di v i- s a v am u ma saí d a e mba s ada n o ideár i o lib e ral- de mo -

c r á tico . E l es es p eravam q u e e s s a saída l h e s per mi- tis s e , porum lado, qu e brar o m o nopólio do pod e r, em mãos do "ob s ole t o" e "desgastado" PRP, e, por outro, conter os anarqui s tas e comunistas que pre - g avam a al te ração drástica da ordem republicana.

A solução liberal-democrática atendia aos inte-

.1

li!

resses daqueles gr u pos de oposição que, fortes eco - nômica e socialmente , não contavam com correspon- den t e representação , ou influência, no poder. As re- formas sociais - i n s t rução e educação, legislação t raba l h i sta , as s istência ao s o p e rári os - er a m pro - postas n o s e ntido de inte g r a r os t r a ba lhadores a o pro jeto po lít ico d e sses gr up o s .

Quanto às reformas pol í ticas, centradas no voto s ec r eto e ob ri g at ó rio, ser vi ri am p a ra esvaziar as pr o - p ost as anarqui st as e, ao mes m o temp o , g ar a ntir pa r a os g rupos di ssiden tes um m ai or número d e voto s por o c asião das e l eições. E, p r inc i pa l me nt e, o voto se - c r et o a lt e raria o quadro monopartidário paulista, pondo f im ao domín i o exerci do p e lo PRP . Tanto as refo rm as políti c as q u an t o a s so cia is foram p r opostas sob a perspectiv a de admini s t ra r a "questão soci a l " . N ã o poden d o ser resol v ida, el a d ever i a se r admi ni s- t r ada.

A sol u ção d emocr áti ca co n f orm e a pres entada

ii

J

" J

-li II

60

S i lv i a Levi- Mo r eira

pe l a oposição liberal er a , na verdade, uma alt e rn a -

con t rapor - se à f o rç a dos dois

grupos que ameaça v am a c on t inuidade d a h eg e- mon ia paulista na Fe d e ra ç ão . Um deles era o modo

c o mo o PRP con tr olava o poder, e o outro os movi- mento s d e tr a b a lhadores qu e p r e s s i on avam po r u m espaço polít i co próp r io

t i v a " orde ira" pa r a

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INDICAÇOES PARA LEITURA

A q ues tão s oc ial é u m tema q u e tem sido discutido em di ve r sas o bras sobre a P r i meira República. P oucos s ã o, n o e nt a nt o, os traba l hos que a to m am c o m o obj e to espe - cíf i co de análise , ape sa r de ela pe r mear todas as relaç õ es existent e s na s o c iedade da Pr i meira República , E l a está pres e nt e no interior dos vários trabalhos que têm sido pu- blic a d os so b r e esse período. Posto isso , gosta r íamos de in- d i c ar aq ui (item 1) e stu do s mai s ger a is, mas importantes pa r a si tuar a questão social, alguns dos quais não fo r am ci tados ao longo do texto. No item 2 , estão arroladas al- guma s das poucas colet â neas de documen t os existentes; de fácil acesso ao público, q ue aj udam a ilu s trar a temâ- tica d i scutida n e s t e livro .

1) Edgard Carone, A República Velha . 1. Instituições e

Classes Sociais (1889/1930),

1970.

São P a ulo, DIFEL ,

II Joseph L . Love, A Locomo t iva : São Paulo na fede r ação

brasileira 1889 - 1937 , Rio de Janeiro, Paz e Terra,

1982.

~

J

62

Silvia Levi- Moreira

Boris Fausto (dir.), Histór ia G e ral da Civili z a çã o Bra-

sileira. O Brasil Republ i cano,

tomo III, 1? e 2?

vols., S ão P a ulo, DIFEL , 1 975 e 1977. Bor i s Fau s to , Trabalho Urbano e Conflito Social ( 1 890- 1920) , São Paulo , DIFEL , 1 977 .

~

,

L

uis W. Vianna, Li be ralism o e Sindica t o no Brasil, Ri o de Janeir o , P az e Terra, 1978.

A z is S i mão, Sindicato e Estado : suas relaç õ es na for-

mação do prol e tariado Ãtica, 1981 .

d

e Sã o Paul o,

São Paulo ,

Sheldom

L . Maram , Anarqu i s ta s , I mi g rantes e o M o vi-

mento Operário B rasi l eir o,

neiro, Paz e T er ra , 1979.

189

0 - 1920,

Rio de J a-

J o hn W. Foster Dull es, A n arqu i stas

e Comunistas no

Brasil, R io d e Janeiro , N o v a F r on te ir a, 1 9 77 .

2) Paul o S. Pi n heiro e M i chael M. Ha l l,

A C l asse Operá-

r i a n o Br as i l, D ocumentos (1 889 a 193 0), v o l . 1, Ed . Al f a-Omega , 1979 .

Idem, A C l ass e Operária no Brasi l. Documentos (1889 - 1930) , vol , 11, São Pa u lo , Brasiliense, 1981 .

E

dgard

Ca r one, A P rimei ra R e pú b lica

(188 9 - 193 0),

Texto e C o ntexto,

Sã o Pau l o, DIFEL, 1 9 7 3.

\.

Idem , Movimento Operário no Brasil (18 7 7 - 1944), São Paulo, DIFEL , 1984.

Va mir e h Chacon, Históri a dos partidos brasileiros: dis-

I

Brasília , E d.

Un ive rsid ade d e Brasí li a, 2!l ed., 198 5 .

Col e ç ã o Fac - s im i lar d o jorna l

190 8 - 191 5 ,

Sã o Pau l o, Impre nsa O f i c i a l do Estado S.A . ,

I M ESP, 1985.

c

urso e prá xi s dos seus prog r amas,

A V oz d o Traba l hador . da C o nfederação

O perá r i a B rasileira,

l i!

I

Sobre a Autora

Silvia Levi - More i ra é bac h a r el e licencia d a em His -

tória p ela Facu l dade

man as d a USP . Defendeu dissertação de Mest r ado (1982) no D e p artamen t o de História dessa instituição . At u al - mente prepa ra tese de D o u to rame n to so b re "As o posi çõ e s

de Filosofia, Letr as e Ciências Hu-

liberais paulistas na Primeira Re p ública " . Fo i professor a no ensino secundário e superior e tem publicado artigos em rev istas especia liz a da s .

I

'