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A SEMIÓTICA
NO SÉCULO XX
WINFRIEID NGTR

A SEMIÔJICA
NO SÉêULoXX
Catalogaçâo na Fonte do Departamento Nacional do Livra
Noth, Wnfiied

A semi6tica no século XX/ Winfiied Noth. -Sâo Paulo:


ANNABLUME, 1996.-(ColeçâoE;5)

Biljicgafla
1. Comunicaçâo 2. Lingüistica 3. Semi6tica-Século 201.
Tltulo Il. Série.

93-1041 CID410

ASEMIÔîlcANOSÉCULOXX

Winfried Noth

ISBN:85-85596-60-0

Projeta Grafico: Aida Cassiano

Revisao:DidaBessana
Editoraçâo Eletronica:Giuliano deBarros

CONSEU-IOEDITORJAL
Eduardo Peiiuela Canizal
WilUBolle
NarvalBaltellojûnior
Carlos Gardin
Lucrécia D'Aléssio Ferrara
P!înio de ArrudaSampaio
Maria Odila Lelte da Silva Dias
lvanBystrina
Salma T. Muchail
Ubiratan D'Ambrôslo
Gilberto Mendonça Teles
Maria de LourdesSekeff

1.a ediçâo: maio de 1996


� ediçâo: agosto de 1999

@WinfriedNëth

ANNABLUME edltora • comunicaçao


Rua Padre Carvalho, 275-Pinheiros
05427-100 . Sâo Paulo . SP . Brasil
Tel. e Fax (11) 212-6764
http:\\www.annablume.com.br
Pourelle
SUMARIO

INTRODUÇÂCY 11

1. 'SAUSSURE E O PROJETO,' "SEMIOLÔGICO


;tt
,':-«-
1
13

o trabalho deSaùssùrè eos �tud��ussureirids 13


Oproj�tose�idl6gltodèS�û�urf '' r. '. 17
Afèotiasi�nik de Sâussùr& . . . 13
1 f
A tradiçâo diàdica: entrè môfiadâè etfades
semi6ticas �
Estrutura e$istemâ·na si ncroriia e diaêr:6nic1 $
Saussureeo désenvolvimento dasemi6tiëâ 42

11. MJEt.MSLliVE A ESTRATIFl©AÇÂQ 00 MUNDO


SEMIÔTICO 47

.A contrtbuiçâode Hjelmslev,�raa.semiépca �
Li nguagerrr, sistemaisemi6fitOOlsemi6tica e
semiolo;Jia 52
0 modela sfgnico deHjelms lev fi
Digressão: Linguagem ecódigos não-verbais m
Semiótica conotativa e estética glossemática i5

Ili. DO ESTRUTURALISMO SEMIÓTICO À SEMIÓTICA


FUNCIONALISTA: A ESCOLA DE PRAGA E
ROMANJAKOBSON 83

Função eabordagens funcionalistas dos sistemas


semióticos 85
Ofuncionalismo semiótica de Praga esuas fontes
no Formalismo Russo '&
A Escola de Praga g)
Semiótica e estética funcionalista de Jakobson ffi

IV. IDÉIAS SEMIÓTICAS NO ESTRUTURALISMO


GERAL 109

Estruturalismo, pós, neo e superestruturalismo 111


Aantropologia estrutural de Lévi-Strauss 112
A psicanálise estruturalista de Lacan 115
A história semiótica do conhecimento em Foucault 119
Idéias semióticas de Derrida 127

V. ROLAND BARTHES: DA SEMIOLOGIA À


SEMIOCLASTIA 131

Conotação emetalinguagem 134


Mitologia e ideologia: da mitoclastia à semioclastia 136
Pesquisa em sistemas semióticos 138
Sistemas de objetos como sistemas secundários 113
A relação entre lingüística e semiótica 140
Barthes sobre as limitações da semiótica
estruturalista 141
VI. GREIMAS 80 B'ROJÊTO om UMA SEMIÓTICA
NARRATIVA DO DISCURSO 143

Oprojeto semiótico de Greimas~. 146


Omodelo gerativo da análise do discurso 147
Significação eouniverso semântico 100
Elementos da sintaxe narrativa 157
Estruturas modais easpeotuais ·" 100

VII. O CAMPO SEMIÓTICO DE ÜMBERTO ECO' 163

Teoria eprática semiétiqa 165


A crítica de Eco ao estruturalismo'%,· 168
Adefinição da semiótica segundo Eco 169
Códigos ecultúra 170
Os limiares do campo semiótico 175

VIII. CHARLESMORRIS E O PROJETO BEHAVIORISTA


DA SEMIÓTICA COMO CIÊNCIA UNIFICADA 179

Levantamento dos trabalhos semióticos de Morris 182


Asemiótica esuas três dimensões 183
Osigno eatipólogia de signos 191
Atipologia semiótica do discurso de Morris 1g;

IX. SEMIOSE NACOSMO E NA BIOGÊNESE:


OPOSIÇÃO NAS RAÍZES DA EVOLUÇÃO E DA
VIDA 199

As raízes da semiótica: da diferença àoposição 3)1


Mônadas, díades, tríades eaemergência dos
opostos 200
Aubiqüidade universal eacosmogênese dos
opostos 213
Oposições digitais no limiar biossemiótico 216
As raízes da oposição graduada no espaço
biossemiótico 221
Exame: da biossemiose à psicossemiose 224

X. ECOSSEMIÓTICA 227

Ecologia eecossemiótica 229


Modelos históricos da relação homem-meio
ambiente 232
Semiótica teórica da relação signo-meio ambiente 23.5
Biossemiótica da relação organismo-meio ambiente Z37
Linguagem e meio ambiente 213

BIBLIOGRAFIA 243
Introdução

A Semiótica do Século XX é a continuação do meu Pa-


norama da SfJmiótica de Platão a Peirce (NôTH 1995), onde
esbocei a história da semiótica desde seus primórdios gregos
até as teorias de Peirce. Agora, entro no século XX, onde as
idéias desse grande semioticista têm se desenvolvido como
um dos paradigmas semióticos mais importantes. Sem Peirce,
um panorama da semiótica no século XX ficaria, portanto, ne-
cessariamente incompleto.
Este segundo Panorama necessita, assim, ser comple-
mentado pelo esboço da semiótica peirceana, que se encontra
na primeira publicação. Mesmo assim, aexclusão de Peirce
deste volume tem sua justificativa: de um lado, muitas de suas
obras foram escritas no século XX, mas de outro, os paradig-
mas não-peirceanos da semiótica do século XX podem ser es-
tudados relativamente independente da semiótica de Peirce.
Tal independência teórica vale, inclusive, para a obra de
Charles Morris, cujas idéias são, às vezes, consideradas como
continuação da obra peirceana, mas que, de fato, pouca in-
fluência tiveram de Peirce.
O paradigma predominante da semiótica não-peircea-
na do século XX é o paradigma estruturalista. No apogeu does-
12 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

truturalismo neste século, na obra de Roland Barthes por exem-


plo, os termos semiótica ou semiologia e estruturalismo tor-
naram-se quase sinônimos. Até no pós-estruturalismo semió-
tica, os traços do estruturalismo são facilmente reconhecíveis.
Para proporcionarmos uma visão panorâmica deste
desenvolvimento é, portanto, preciso estudar a obra de
Ferdinand de Saussure, o fundador da semiótica estruturalista.
SAUSSURE
E .O PROJETO
SEMIOLÓGICO
Sabe-se que Ferdi11an·d·de Saussure (~857.;19~ 3) é o
fundador da lingüística moderna. Além de ocupar i11disclltiveF-
ménte1esse posto,ios·Prfücípios:básicos;da suateeria lingüísti-
êà iríflOelíêiaramprofúndamente cl.dêsérívolVihiénto doêsttQtt.l-
ralisino semiótico e filosófico.· A impórtância do fraoalfro de
Sàussure na história da semiótica;. ;hà· enHrhto, :m~réoêu
avaliações díspares e variadas.:A essêrícia'daêóhtribí:Jiçã0,dé
Saussure para a semiótica é o seu ·projeto dellinâ te0tiâ geral.dê
sistemàsde sigríO's, que ele;denominou,semi0/ogia; Uitfelemen'..
to básico dassã teória é ó modelo sígnico de Saussüre1/0t:1frds
princípios importahles da tradição semiótica saussutea:nasãõo
seu.dogma daaroitrariedade do signo lingüfstiêôe 0s set1s
concéitós,tlé estmtura é sisterriade lingaafjerri:· Deve-se eflfütizar,
põrérrí, que as êontribuições de Saussure para a lingüística não
pedem ser delineadas em tóda a sua extensão· num context0 que
trata da semiótiêa dê umà forma ampla e geral.
16 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

O trabalho de Saussure e os
estudos saussureanos

Saussure dividiu com seu antípoda e contemporâneo


Charles Sanders Peirce, cujo trabalho lhe permaneceu desco-
nhecido (cf. Sebeok, 1979:183-6), a sina de ter-se tornado
conhecido em todo o mundo apenas postumamente. Ao contrário
de Peirce, contudo, Saussure teve uma carreira acadêmica bem-
sucedida. Após estudo em Leipzig (1876-80) e uma cátedra na
Sorbonne (1881-1891), ele lecionou indo-europeu e lingüística
geral na Universidade de Genebra (1891-1912), tendo descoberto
uma lei importante de mudança fonética nos seus estudos de
indo-europeu .1
Saussure desenvolveu suas idéias sobre a teoria geral da
linguagem e dos sistemas sígnicos relativamente tarde, em três
cursos dados entre 1907 e 1911. Somente seis alunos se ma-
tricularam no primeiro desses cursos; no segundo, esse número
subiu para 11 e, no terceiro, 12. Já que vários dos manuscritos
dessas aulas foram destruídos pelo próprio autor, o Curso de
Lingüfstica Gera/de Saussure foi publicado em 1916 por Charles
Bally, Albert Sechehaye e Albert Riedlinger a partir de anotações
de sete dos seus estudantes. Esta edição (1916a) foi complemen-
tada por Túllio de Mauro em 1972, originando uma nova edição
standard (1916c). A tradução brasileira surgiu em 1969 (Saussure,
1916d). A pesquisa crítica do texto de Godel (1957) e a edição
crítica monumental de Engler (Saussure, 1916b), que apresenta
uma sinopse de todas as notas acessíveis de Saussure e seus
estudantes, contribuíram para a reconstrução do sistema original
de pensamento de Saussure. Só recentemente as notas de mais
um estudante de Saussure foram descobertas, resultando na

1. Sobre a biografia de Saussure, ver Sebeok, ed. (1966; 87-110),


Mounin (1968b), Goelei (1957), de Mauro(1972, emSauS&Jre 1916c),
Koemer(1973:20-37)eCuller(1976).
SAUSSlJRE [:;()/PRQJt:ro S"EMIOL0GICO 17

edição, em Tóquio, de um hovo livro intitulado "Oferceiro curso"


(Saussure, t993}.2,

O projeto Sffmiológico de'Saussure

Inicialmente, a semiologia era somente oprojeto de uma


futura ciêncià dós siste·mas sígnJcos. Saussur:e, notentanto,
indicou seu lugar dentro do sistema geral,dasciênciás: Sobre a
equivalência terminológic~téhfresemio/ogia e:semiótica desde
os anos 70; ver Nõtti t1995:25~6), 3

A definição e o·conceitode semiologià

O termo sémio/ogiéíoi àpatentemehte,órmhado pelo


próprio Saussure para designar à ciência geral dos·signôs "ainda
nã.o existente" (cf. Engl~r, 1980). Um tern,.o .alterna~ivo. sugerido
em outfn'.c~nt~xto, tof, signQ/ogik ~191~c:§3342: 6). ~ s;mi~logia
não devé se~ confundid~ corni;semânti~a, o ~studa,do
s1gnific,~do na fíngqà. Sallssure ~eu ,o séguint$ esboço d~ seu
projet~ de uma fuf~ra se~lologia: ' .. ' •, .; '
2. A maioria dâ~ introâi;ões européias à lingüística faz boas
exposições das contribuições de Sa1.1ssure à teoria lingüística.
Koemer {1972a; b) publicou uma bibli~rafia sobre otrabalho de
S~ll~ure e~u estudo. Derosst(t~.5),MRunin (1968b), Koerher
{1973), Calvet{1975}, Culler {1976}, Sçheerer (19~), Wunderli
(1981a) eHoldcroft (1991} são estudos monográficos. Estudos com
interesse particular na c9ntriq1.1Jç.ão de Sc3,4ssure ao
desenvolvimento da semióti~ são os' de C,odel {1975}, Eng ler
.{1975b;.1980),,CuHer(1976:90-117}, Vigene~(1979}, Krªmpen
·{1981b), Pe~1(1981)e Wu~derli(1981ã; 11:'.49). '
3. Se, apesar da clarifiec3,ção terminológica aí indicada, otermo
semlôlógiaeôntinuárSéhcfo usado·nêste capífulo sobre Saussure,
ésó pôrqUe, no côrítéxtotlé Saüssure, ·otermo semíalbgiafidá
mais autêntico,. 8(:]miología; nesse cohtexfo, significa, portanto,
semiótica à la Saussute.
18 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Pode-se, então, conceber uma ciência que es-


tude a vida dos signos no seio da vida social;
ela constituiria uma parte da Psicologia social
e, por conseguinte, da Psicologia geral. Chamá-
la-emos de Semiologia (do grego semeion,
"signo"). Ela nos ensinará em que consistem os
signos, que leis os regem. Como tal ciência não
existe ainda, não se pode dizer o que será; ela
tem direito, porém, à existência; seu lugar está
determinado de antemão. A Lingüística não é
senão uma parte dessa ciência geral; as leis que
a Semiologia descobrir serão aplicáveis à
lingüística e esta se achará vinculada a um
domínio bem definido no conjunto dos fatos
humanos (Saussure, 1916d:24).

Há, nesta passagem, duas idéias fundamentais sobre o


papel da semiologia no quadro das ciências humanas. A primeira
idéia é que semiologia, assim como lingüística, são ramos da
Psicologia geral, da seguinte maneira (cf. Holdcroft, 1991 :6):

Psicologia individual

Lingüística Escritura Outros sistemas de signos culturais

A segunda idéia é a visão da relação entre a lingüística


e a semiologia. Conforme essa visão, as ciências da linguagem
fazem, de um lado, parte da semiologia, e as leis gerais da ciên-
cia dos signos são aplicáveis à lingüística.
SAUSSUR,E I; P J;'RO~ET<D. SEMlQLÓGICO 19

Mas SaLJssJ,lr:e apar:eotemente1d.esç.onh~oi.a.a;tr:adiç1ã9


dos estudos sígnicos desde Platão até Peirce. Para ele, a semio-
logia ~indanão existia.e hece~shâva,primHiramenUi, ser ela:
borâ<J.a. Nô PfOC~SSO ~é·su~ élàborà~oj Saussurepreviu um ~apel
a
importante pata lingüística, a qual·ele c?nsideràv~ umaciên;éia
já bastante desenvolvida. A e1a·bóração ela nova cfêhéià é:la
semiologia geral deveria aproveitarQ ~çqgrnsse>,QQS,OQhJwoJmentª's
na área de um dos seus ramos, a lingüística. A rei.ação entre a
-:: t-! '
',t ,,- _-,--_ ' . ' - ,- ''?'- - .:" ,:/
se~ioldgTàe a lingüístiGaseria, portanto, dupl~:'primeirb, ~s '.eis
da' semiologla·geral s.ãó~pliéàveis. ~ ciênciad,p'ssignb~11ingüísti-
cos; ség.u.nd?, .ªs 18,is"dalingüíMica são um guiaheu~.ísUéo'na
elaboração da ciência dos signos em geral. Temos aqJi'urn càso
especiaÍ de um êírculô h~rfner'iêÚticÓ q'ue Sé poâe esboçar rlã
séguirítê fófrria:

teis da s·emiolôgia
Carrfu' ,··~

heurístico: uso .ii"qj:b


dasleisdas redutivo:
estruturas '~dãs
fingüísticas leisgerâisdoo
cxínoguiapàraa sigll)rm
elatxfrJ;ã)da esb.Jcmda
lBTttga ·~
LingQística

Foi precisqmente es.t0; c~minho que ~ semiótior e~t(\Jtu'."


ralista dos an.os qQ seguiu na França ena lt~lia..?orém, ant~$ d~
entrar em mais por,m~nqres sobre e~te çaminho (ver p. 23), 905,.
t.ariade continuar com o e.sbgço geral do pm,gr~ma semiplQgiço
qe SaLJgsure.
20 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Oprograma saussureano da pesquisa semiológica


Saussure fez, freqüentemente, comentário.s sobre "o
conjunto dos fatos semiológicos" (1916d:24) a ser estudado no
quadro da semiótica, sem, contudo, fazer uma análise detalhada
da maioria desses sistemas sígnicos.

Exemplos de sistemas semio/ógicos


No Curso de Lingüística Geral, Saussure se refere a sis-
temas sígnicos além da língua no seguinte contexto: "A língua é
um sistema de signos que exprimem idéias, e é comparável, por
isso, à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos simbó-
licos, às formas de polidez, aos sinais militares etc., etc. Ela é
apenas o principal desses sistemas" (1916d:24). Outros sistemas
de signos mencionados por Saussure, em outras passagens, como
tópicos de pesquisa semiológica são o Braille, o código de ban-
deiras marítimo, sinais militares de corneta, códigos cifrados e
os mitos germânicos (cf. Wunderli, 1981a:20-1).

A contribuição de Saussure para a semiótica literária


Somente no campo da literatura é que Saussure
empreendeu estudos mais extensos de sistemas sígnicos que
não a língua. Em seu estudo mitológico (cf. Avalie, 1973a; 1973b),
a lenda germânica Nibelungen é descrita como um "sistema de
símbolos" e "parte da semiologia", onde "estes símbolos estão
inconscientemente sujeitos às mesmas variações e leis que
qualquer outra série de símbolos, p. ex., os símbolos que são
palavras da língua" (Starobinski, 1971 :5). Além desse estudo
mitológico, Saussure ficou famoso por úm segundo estudo na
semiótica da literatura, que trata de anagramas na poesia latina
(cf. Starobinski, 1971; Culler, 1976:106-14). Ambos os estudos
foram descobertos somente nos anos 70.4

4. Sobre a influência de Saussure nas teorias estruturalistas e pós-


estruturalistas da llteratura, ver especialmente Tallis (1988).
SAUSSURE E O PR0JET0 SEMIOLÓGICO 211

Semiologiacomoantr0possemiótica,

·Apesar· do esboçq saussureano para .a ,pesquisa


semiológica'5er incompleto, seus exemplos:mostram que seu
conceito se refêrea uma semiótica da cultura,ou talvezao cani[:)o
da antropossemiótica.•'7enômenosbio, zo.ossemi.óticos õu até
signos naturais no sentido da semiótica universal.de Peirce não
têm lugar no programé:l semiológico de Saussure, pois um dos
princípios fuódamentc1is de sua . semi.ologia é o princípio .da
arbittar:iedade e convencionalidade dos signos'. A importância.
desse princípio para.a pesquisa seniiológica é enfatizada na
seguinte passagem:· ·

Quando a Semiologia estiver organizada, dever


rá averiguar se os modos de expressão que se
baseiam em signosdnte,ramente naturais:-I;e,mo · ,
a pantomima - lhe pertencem de direito. Supondo
que: a 'Semiologia os, acolha, seu prineipâl
objetivo· não deixará de ser o conjtmto qe
sistemas baseados na arbitrariedade do signo.
Com efeitoJ.todo meio qe expressão aeeito nµma
socie.dade repf)usa em princfpio,num·hábito
coletivo ou, o q,L/e vem. a .dama me.sma,,.na
cqnvenção, [ ... ;]: Pode-:se1' pois, dip.er .que .os
signos inte}ramente arl}itrárii0s realizamroelbor
que,os outros o idealdo procedim,ento semioló-
gico (S&us.sure,: 1916di82).

A semiologia e a lingüística no sistema das ci~noi~s

,Em vário$ pontos das sµas conferênciªsrSaussure mos-


trou um gra.nde interesse na classificação das ciências, Qeotro
da,semioJogia, um papel domina,nteé atribuídoàliogüJstica.
22 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

A semiologia como um ramo da sociologia eda psicologia

A semiologia de Saussure já era mencionada em 1901


na classificação das ciências por seu contemporâneo Adrien
Naville (cf. Saussure, 1916c:352; Engler, 1980:4-5). Naville
classificou a semiologia como uma parte essencial da sociologia
e definiu esta última e, portanto, também a semiologia e a
lingüística, como ciências das leis. Mais tarde, Saussure atri-
buiu a semiologia à psicologia social, sugerindo que é tarefa do
psicólogo determinar o local exato da semiologia em relação às
outras ciências (ver p. 19). Em vários outros pontos, contudo,
Saussure se referiu à semiologia como a ciência das instituições
sociais, a disciplina relativa ao estudo das instituições judiciárias
(1916d:45, 49, 51).

A lingüística como opatron général da semiótica

Saussure atribuiu um papel especial à lingüística dentro


da semiologia. Já que

.. .os signos inteiramente arbitrários realizam


melhor que os outros o ideal do procedimento
semiológico; eis porque a lfngua, o mais com-
pleto e mais difundido sistema de expressão, é
também o mais característico de todos; nesse
sentido, a Lingüística pode erigir-se em padrão
de toda Semiologia, se bem que a língua não seja
senão um sistema particular (Saussure,
1916d:82).

Esta famosa tese da lingüística como patron général da


semiótica foi freqüentemente mal interpretada. Escolas se-
mióticas influentes afirmaram que a língua é um sistema sígnico
dominante em relação a outros sistemas semióticos. Disso (e
SAUSS,lJRJ:: EJ),PROJl;TO SEMlOLÓGICO 23

por outras razões), Barthes até concluiLJ .ql)e él semi9l9gia dl;)yerja


ser considerada um ramo da lingüística. Contudo, esta não era a
ar~umentaçãq de $aussure, Numél oLJtra pçi§SélQem, Saussure
(19j6c:48) .at~ élrgumentouque o lugarespeciçildª lir:igüísti~9
cleritro da serniologiª:é s9mente uma questão de .pç3s4alic;félc:ie1 já
,qpe él línguaJsomer:ite umentre vári9s sisJemas semi0Jógic9s.
Opélpel espJ~cic1l·daJingQística <:ientrq ci.a; semiqloQiél n~9
é, çont4do;·~l)rélmente urn çc1sq de eventu1:1lidélci.e, Qe élcorci9 e.0(11
e·ª
o GUJ$O expos.içâQ cie Naville sopre.ç3.semi9logia de §aussl)re
(Engler, 1980;4); existem trê.S 9rgumer:itos .que Célracteri?:éllll a
língua em relação a outros sistemas slgnicos. O primeiro
argumento é prático ou empírico: a língua é o mais imgortéln\e ele
todos os sistemas sígnicos. O segundo argumento derivá da
~istóric1cias ,Qiência§{ed.a 9erniéJtioa): a,liri.gOístic.a ;é a mais
av.anç,élga,.9e. tpda.s a.s ciênciéls ~erptológjc 9s.. O terceiro
argymentp é:·de:car:.~ter heur;fstico: "f\!éldí:l(llais,ac;l,eqm;lda q1,1e a
líAgUél PJfü3.: fazer-nos: corrrnreender a natLJrezc1 d.o prpp.Lema
serniológiçío~ (191 Qd:24)~

Um dos principais interesses de Saussure estava na


tentativa de definir os traços distintivos da língua em relação a
outros sistemas sígnioos. Assim, .$aussure;ch.egot1, .bem antes
da discussãosemiéJticél 5obr:eQstrç1çosçlistintiyqs Qéldíngua, a
uma listélde carc1cterísticas semjóticasda.líng4a, q4eWunderli
resumewmo segue (4981,a:33); 1) o mais 91to grau cie arbitrarie-
dade; 2) ín$tituição sgci?I: dependênçiél d.e JQdM cqmunidade
ª
social que,,usa lír:iguaj3) imptª.l?.i{i<,fade.,.indeP,~ncj~n~ia de atos
individuai.s de vontacie ou delegisl~~Q s~i?lr 4) ner:,hqma unidade
pré-detecminad~~ falt9 de qualqu~r delirnitaç~o é.! p,:ioçí na forma
de expressãp lingüísUc,a; ?) produtjvid~dei possibilidades
semânticas infinit9s com um ir:iy~ntário de sjgn~~limJtado; e 6)
manifestação acú~tíc.a.
24 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Odogma da arbitrariedade

O dogma saussureano da arbitrariedade do signo


lingüístico tem originado um número considerável de comentá-
rios exegéticos. Saussure, porém, não reclamava originalidade
para a descoberta desse princípio, que ele chamava "o primeiro
princípio" ·do signo lingüístico. Ao contrário, enfatizava que "o
princípio da arbitrariedade do signo não é contestado por ninguém;
às vezes, porém, é mais fácil descobrir uma verdade do que
assinalar o lugar que lhe cabe" (Saussure, 1916 d:82).

Precursores

De fato, o termo arbitrariedade já tinha sido usado por


John Locke, que escreveu: "... as palavras significam por
imposição perfeitamente arbitrária" (1690:111, 2.8). A fonte
imediata da tese saussureana foi Whitney que, ao analisar este
princípio no contexto da ontogênese e da filogênese das línguas,
escreveu: "Um laço interno e necessário entre palavra e idéia é
absolutamente não-existente para os que aprendem a língua"
(1875:18). Whitney também distinguiu arbitrariedade e conven-
cionalidade:

Cada palavra transmitida a nós em cada língua


humana é um signo arbitrário e convencional:
arbitrário, porque qualquer das milhares de
outras palavras correntes entre os homens, ou
das dezenas de palavras que poderiam ter sido
fabricadas, poderiam igualmente ter sido apren-
didas e usadas para o mesmo fim; convencional,
porque a razão do uso desta palavra em vez de
uma outra está somente no fato de que esta pa-
lavra já está sendo usada na comunidade à qual
o falante pertence (Whitney, 1875:19).
SAUSSURE E O PROtlETO SEMIOLÓGICO 25

Atese saussureana

Saus·sure define o séú "primeiro princípio1\da ,natureza


do signo lingüístico na seguinte passagemi

Q,laço que une o significante ao significáâa é:


arbitrârio·oui ent~o, visto :que,entendemos por
signo Metal fesultan·te da asseciqção de umsig-:
. hifióiinUJ êom :um.significada, 'p:o~emos dizer
mais simplesmentei o signo liqgüístico éar:bi-
·:trário'.
Assimra idéia de "mar"' 11ão,está ligada porre/a.;
ção,algumainterierà:seqQência de.sons m-a--F:: ,,
·,. que lhe seivedesighifi~ilnte; pqderia·ser repre-:,
sentada,igualmehte l)e111,po6oúJrcJ,seqliêhl:ia,,,
n~o·impiiJr;ta quaJrcomGJpto,va;,Jetnas..as·dife-:-
renças entre as línguas.~a;prQpria,existência de;
línguas diferentes: o significado da.palavra fran-
cesa boeuf(:b~i") tetn pQPsighifiéante,b~õe:t de:
um lado da fronteira franco-germânica, e o-k.:.s
(Qchs), do outro (S.aussure, 1'9,t6di8l-2)': ,:

Anatur~za,daarbitraciedadei ·

Odebate exegético sobre,o primeirç princípio deSa.uss1:1re


tem as suas raízes no termo·arbitrário; que.está semanttcame.nte
associado à idéia da livri3~escolha. Porém, SaU$sure (d9:16d:83)
assinalou que "8: palavra arbitrário{. ..]não dewe dar, à idéia de
que,o significado·depende da livre escolha c:te,quemifalatt. Sua
própria explicação do princípio da arbitrariedade_,re!e'l'á'.a,faltade
motivação do signo. Contra a suposição errônea de que a
arbitrariedade tem a ver com a livre escolha do indivíduo, Saussure
postulou um princípio suplementar que denomina imutabilidade
do signo.
26 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Osigno não-motivado e opaco

Atese de Saussure (1916d:83) é a de que "o significante


[lingüístico] é imotivado, isto é, arbitrário em relação ao
significado, com o qual não tem nenhum laço natural na
realidade". Em contraposição a signos que têm uma "relação
racional com a coisa significada", a língua não mantém tal relação
entre significante e significado: "não existe motivo algum para
preferir soeura sisterou irmã" (Saussure, 1916d:87). Essa falta
de motivação descreve, portanto, a dimensão semântica do signo
lingüístico, isto é, a relação do significado ou da referência. Para
caracterizar o signo como arbitrário e imotivado, é preciso adotar
a perspectiva do emissor. Do ponto de vista do receptor, palavras
arbitrárias são também caracterizadas como opacas. A lingüística
contemporânea cognitiva, aliás, enfatiza muito mais do que
Saussure as forças da motivação do signo lingüístico por efeitos
como os onomatopaicos e similares. 5

Convencionalidade eimutabilidade do signo

Aarbitrariedade, conforme Saussure, também está na ba-


se da convencionalidade do signo lingüístico: "Por sua vez, a
arbitrariedade do signo nos faz compreender melhor porque o fato
social pode, por si só, criar um sistema lingüístico. A coletividade
é necessária para estabelecer os valores cuja única razão de ser
está no uso do consenso geral: o indivíduo, por si só, é incapaz de
fixar um que seja'' (Saussure, 1916d:132).
Essa idéia da força unificante da convencionalidade
pertence ao princípio que Saussure denominava imutabilidade do
signo lingüístico:

5. Tal assunto foi tratado, em parte, em Nõth (1995).


SAUS$.UR(; E Q PRQ.JETQ SEMLOLÓGICO 2J

Osignificante aparecewma escolhidolivretnen-


te, em compensação, com relação à comunida-
de lingüística. que o emprega., nã0 ~ livre: é im-
ppsto, Nuncc1 se;consMlta a mass;i .soei?! nemJi
signific;:1nte esçolhidQ pela !íngqappçler;ia ser.
substituído por;óqtr:.c}. [, ..] IJm jndlvídµQ não :so..
mente seri;:1incflf:1a.i,isf1quisesse, de modiffcar
em qualquer ponto a escolha feita. fSaussure,
1916d16~). ;.

0:princípiQ clª imutabilidade é, pprtantQ, awntrapartid.a


pragmátic:a. ap:princípio sernântiC:(;)'.d.aarbitrarie.dade1· É, porém,
um·princ:(Ri(;) estritarnent~ ela Qfd~rn ela sinc:ronia lingi:Hstic:a.
Saussure sabia bem q1:1e;gsjgng:UmgüJstic:9;m\:Jda C:(:)(Jl.aevplUção
da língua. Ele descreveu tal fenômeno histórico universal
lingüístico como o princípio da mutabilidade lingülstica,·

.Arbitr-ariedade absolµta erelaijva

Q princípi1Jda arbJtrarieda<te, c:onforme.Saussure" ~ vá-


lido, em primeiro lugar, para formas simples na língua,. palªvras
simples ou morfemas, tais como boi, cavalo, casa, rua, janela,
de, para etc. Nessa área da linguagem, sq as palªv:r:ãs:9nprna-
topaicas são uma exceção ao princípio da arbitrariedade, exceção
que Saussure considerava cqmQ maliginal, A s1:1~Hiefinição trata,
portanto, de uma .arbitrariedade lingüística a.t>.soll.1ta.
·No.sistema das palavras c:ornplf:!xasJ~estruturas sintáti-
c:as,porém, já não há arbitrªriedªcle absolµtaitorqueM regras, que
motivam.as GPmbinações, ,como1no,ssegµintes:ex~rpplosrirmão/
irmã; meu/seu, <:fezoitoldezenover easJi/eqsa$.etc:.. Apa(tiri ~esse
nível da descrição lingüística, em que já não há arbitrariedade
a.bsoluta, Saµssure.f?I.~ de arqitrªrle(faq~relaUv,ª, oµ seja, de uma
combinação de ~Jerr;ientos:a,rbi:trários básicos.~om elementos
motivados pelas regras do sistema da,:língua~
28 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

A teoria sígnica de Saussure

Saussure (1916d:79-85; 133-6) elaborou seu modelo


sígnico somente com a finalidade de analisar a "natureza do signo
lingüístico". Na tradição semiológica, seguindo Saussure, este
modelo lingüístico do signo também foi transferido aos signos
não-lingüísticos. Tal transferência parece ser compatível com o
programa semiológico.
Aspectos fundamentais da teoria saussureana do signo
são sua estrutura bilateral, sua concepção mentalista, a exclusão
da referência e a concepção estrutural da significação. Outro
aspecto básico é a arbitrariedade do signo lingüístico. Com essas
características, a teoria sígnica de Saussure é oposta tanto a
modelos sígnicos unilaterais como triádicos. 6

Omodelo bilateral

O modelo sígnico bilateral de Saussure compreende três


termos, o signo e seus constituintes, significante e significado.
O traço distintivo da sua bilateralidad~ é a exclusão do objeto de
referência.

As duas faces do signo

De acordo com uma comparação feita por Saussure, o


signo lingüístico pode ser comparado às duas faces de uma fo-
lha de papel: "O pensamento é o anverso e o som o verso; não
se pode cortar um sem cortar, ao mesmo tempo, o outro"
(1916d:131). Esta comparação do signo bilateral levou à desig-
nação do signo saussureano como bilateral ou diádico. Neste

6. Sobre apesquisa da teoria saussureana do signo ver Derossi (1965),


Koemer (1972b; 1973), Avalie (1973b), Vigener (1979), Jãger &
Stetter, eds. (1986).
SAUSSURE E ti> RROJE:r© SEMIOL©GICO 29

sentido, Saussure definiu o signo.ljngüístico como "uma ent.idade


psíquica de' duas faces que. consiste de, um r:oheeito e uma
1
'

imagem aeústiea (ibid.:80). A Figura 1 representa estas duas


faces dentro de uma elipse quê representa:o signo como um todo.
Uma exemplificação dqmodelo mostra a palavra latina arborcomo
uma seqüência de sons referindo-se ao conceito "árvore". As
flechas indicam,a "associãção,psíquica" entre:aimagem acústica
e o.conceito. Suas .~ireç0essé referen;1 aos procêss9s de pr0dução
e;recépção da fala dentro do circuito,da fa]a'8aussureano:1/.


Fig~ra 1. modal.o ~a~ssurean9 do signo lingüístico.
1
V~n,% à·~\ ~tiêMa,, .o.mo~elo ?ºsi~b~ lin~üí.stico.saussLJ.reano.
~' à àlr~,t~;;~i e~pljficiação.de. ~aJ~s.uré (19.16?.;BP-1). Ô' ~J~~
1
e~}tq é ilustrado ~ela lmag~m~.de Úmà "~rvorê ~ imatfêni
11
: actís-
tÍ~a, pel~ ?dl~~ia)~tinr. arb~f. J ¼ • • • • • •

Signo; $ignifiaante esignifioad0 i 1

·MaiStard~, Sàus,s~re ipt~odul1upc1rc1 a~ ~u~s fâtés b?~~:


1

ti!~intes ~os1g.nç º;·novos ter~os.~ignifié'(p


0

araó
c~Ôn~djto) e
signifianf (parn/ a image~ ;cúsJicaf(1916d:l31\ A
1 0
triduçâo
portugµes~ é signiffcado slgnjfieante. A·raz~o:p;ràesta;inoyação
~

terminolõgica foi ciu,e esté~ "dois te~r1os "têm a ~anfagé~.d~


assinalara oposiÇão"q~e às s~para, entre si, qüe; ª°: tótaf
qmir
de q~~ fazem parteil (i~i~.). Assim, três."noções est~q;énvtilvidàs
no mod~lo sígniqo· diá~icode saus~ure: o si~·no [sigfi~J. design,a
o todó qiJ~ t~m o sigl)lfiéado e o si.ijnificantr cbril~ sÜaã d~as
~ ,
1
partes·{v~r Figuri~).1 º> •

7. Sobre oUso dé Sâussúrede sigríificaçãoccirnb um quartoterrflo na


sua teoria semiolégica verWunderli (1981b).
30 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Figura2
Os três termos do modelo sígnico diádico de Saussure

SIGNIFICADO
SIGNO
SIGNIFICANTE

Apesar de sua objeção à identificação coloquial do termo


signo com o significante, o próprio Saussure empregou o termo
signo, ocasionalmente, ao referir-se ao significante (cf. Wells,
1947:5-6). A mesma inconsistência ocorre nos textos de Peirce,
onde representamem, o equivalente peirceano do significante, e
signo não são sempre distintos.

A concepção mentalista

Tanto o significado como o significante são entidades


mentais e independentes de qualquer objeto externo na teoria
saussureana do signo. A concepção mentalista do significante já
está clara no termo e na definição saussureanos de imagem
acústica: "Esta não é o som material, coisa puramente física,
mas a impressão (empreinte) psíquica desse som, a represen-
tação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos"
(Saussure, 1916d:80). No entanto, esta visão psicológica das
duas faces do signo não é concebida como um fatq da psicologia
do indivíduo, pois o estudo do "mecanismo do signo no indivíduo
[... ] não atinge o signo, que é social por natureza" (ibid.:25). Já
que a semiologia, de acordo com Saussure (ibid.), estuda os
signos como instituições sociais, o significado e o significante
não são individuais, mas conceitos e imagens acústicas coletivas.
O modelo de signo mentalista é oposto às teorias sígnicas
empiricistas e materialistas. Um antípoda típico de Saussure
nesse respeito é Morris. Na sua teoria, o veículo do signo é um
evento físico e o denotato é (pelo menos potencialmente) um
objeto estimulante, existente fisicamente. A semiologia saussu-
SAUS&URE ,E O PR~JETQ pl;fvfü)LQGICO

reana men.talista e.~oltaqa ao,sJ~tema $itambém ipcompcitf}'el


cqrn. te.orias ~~rni9tiças que d,esJ::re\lem a semiose. G,QOW µrn
processo cognitivo de interação entre o inqivldµo e 9 muf:lgQ; lltn
processo no qual o signo tem o papel de mediador entre o
pensamento e a realid?de. (cf, MeJ1~ & frarrn.entien ed~. 1~8~;
Nõth, 1995:125-43).

Q cç1r~ter <:iiá~i.cgdo ,si.g110.f9i:"9nfatizado,p9[Sp;U.$~lJt8


na ~ya çejeiç~o<expl.íçit9 tjg opjeto de referência cgm9 Yl!l, ,eJ~~
rrienJo (ãrn §,1;1a ~erniol9gi.9,·P,Qi.~,:·o §ignoJi,r1gQísti~o vr;w nã~fl-!Õ1a
col~a:c\. µn,~ PaA~w.ra,.ITTªS,LJ!Q.;CQJjlpf?itoa yrna imagem açyptJ®"
(19:16cti~9tPara Saµ~sure 1ina~ij existe (estr:utq.ralmente)1al~rn
do significado e do significante. Sua teoria sígnica opera.,inteina,;,
mente no sistema semiótica. Já que somente o sistema semio-
lógico dá estrutura ao mqnqo'"q,9,E},r~~ Q1;1Jçaf9rm~k~eriaamol:f9,
o objeto de referência é excluído da consideração semiótica.
~rna:,da~ objegões)~Y;antagª~.J}Qí:lt~a,a e~çlusão do
gl)jetofde referêqcJa.~ qMe:o arg4fl1en!9};fe'~ª~ssurn,~afm~tyrpfa
ar~itrárI~ufp$ sjg~ds,rJm,uer n~~e~~ariarn~füe; a reíer~!'.l,cjêlJi
ca,racte~!s!ica§ 9e,0,pjetosn9,;m4nqgi iMel.bfg (~W4i1Q) at~tqlscqte
ª
qu,e, c:1 ~s~~ r.~sp~ite>~, arg1,1m,en\ªçijo>q~ S,a~§§~fEtrnYPâ:Q,~r~
um mqqelosígnjcp,triádico·i Éverc:tf:ld~qll~ .sau~s~re ~firmQu QH~
ªNpitr.{lri~9a~e é.!Jmç} rnlaçã,o.entre,o §ignifL~nt~,e 9 ~i9JilÍÍICcÍPQ,
e não o objeto (19:16d:83). Mas, q1,1ansto e,l~:argyrn~ntê qy.f'q
signifi~ado d9 p,alavra franoesa;goeuf (Q,C>i}tem por §ig.nificante
lf·õ-fd~ um la,q() da fronteira frpnco:-germãn{ca, ei q~,:;$~(Qohs) do
ou.tro: (ibicl.:82), estes. significantes francê~ e al~mãq filªQ ijopem
t<3r um~. o m~smo,significagof poi.so ~igniJiçaçiosay~§Ufij8Jilº
tem a §U~ ~xi§t~nç,ia semiótica sq no.quadro d~ µm stísist~rna
lin9üí,stic9. O que duas palavras de Hpguas <;lifer~nte§ PQd'ªrn t~r
em 09mum t~m de ser, e.11fim, al~rnm opjejo coglilitivp ,qLI~ .§~
localiza al$m de u,m§isten,a §~mi<>ticq,partiçular, ppi§ há;,no
32 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

quadro de dois sistemas semióticos, dois significados diferentes


envolvidos, já que estes são determinados por seus valores em
dois signos arbitrários.

Asignificação como estrutura semântica

Conceito e significado são termos que levam à dimensão


semântica da semiótica. Aparentemente, estes conceitos corres,.
pondem aproximadamente aos termos semióticos mais gerais,
significado e conteúdo. Qual é o "significado de significado" na
semiologia de Saussure? Além da sua interpretação mentalista
do significado e sua exclusão do objeto de referência da esfera
da semântica, a principal contribuição de Saussure a esta questão
se encontra na sua visão do Significado como forma ou valor
diferencial.

Significado: não forma1 mas substância

Paralelamente à sua rejeição de um "mundo objetivo",


Saussure também rejeitou a noção de que "idéias completamente
feitas [são] preexistentes às palavras" (1916d:79). Para
Saussure, nada existe fora do sistema semiológico de signifi-
cantes e significados. O pensamento, considerado antes da lín-
11
gua, não passa de uma massa amorfa e indistinta. [... ] Tomado
em si, o pensamento é como uma nebulosa onde nada está ne-
cessariamente delimitado" (ibid.: 130).
Estes argumentos são parte da tese de Saussure
(ibid.:131) de que a semiologia é a ciência das formas, não das
substâncias, uma teoria que foi, mais tarde, elaborada por
Hjelmslev. A forma, nesse contexto, significa estrutura. Ela não
se refere ao significante, como a dicotomia popular forma-
conteúdo pode sugerir. A forma pode existir somente como
estrutura de um sistema. Fora do sistema semiológico, as idéias
pertencem a uma substância amorfa pré-semiótica. No sistema
SAUSSUR'i; E0 PROJETff SEMl0L©GICO 33

sígnico, tanto significanteséom0,sig11ificados são, por:tarato, forma


e não substância.

Significados conio valores'âiferenciafs·

De acor:do:'com a ,visão,estrc1turalista dasemântica .de


Saussu11e, o significaâo é o valor ·dé um conceito de@tro do
sistema semiológico conio~um·"todo. 1Estes valoréssemânti~os
1

formam uma 'rede de relações .estruturais, nás' quais não'os


conceitos semânticos em si, mas somente as diferenças ou
oposições entre eles são relevantes,sen,iotic'ànwnte.Apesard.ê
ter sido Hjelmslev quem elabornu sisUúr1ãticamente esta idéia
da semântica estrutural, SaUS§UF~=~st~b~leoef.1 as ôiretrizes dessa
visão estruturalista dª l{.ri91:1ªiéqrn ai;g~merfü,s·como~este:

A língua{éJurn ·Sistema, em quModosos termos.


são $olidátios·e ovalofldeumresu}ta.tão:sof:~,·
mente da,presençâ simúlt~neaiâe e:utrQs.;fi:.],
Seu .conteúdo só'é verâadei&mente determinaêja ·
:pelo concursrnJo que existe fg11.a.dela. ·Fazendp
·Parte de um sistema; esfá;;re'l~stlâa não só de
tJrhá significação como também, e sobretudo, de·
urn valor'(Saussure, ·1;916d: 133,.4).
Uma exemplifioaç?ó da teoria semântica ,dowalb~ dªda
por Saussure· é .à signifioacio'1da1 palavra francesa, mo.uton
comparaciaà iraglesa sheep (ifüd,); O valor do"termodngl~$·é, di,.
ferentedo·fran.oês porque o inglês opõe: os dois signosltnifüJsti-
cos sheep e rnuttoo para designar.o cameire, uniavez'nó,pra,d0
ou AO estábulo, outravézcomo carmeserviciaàroesa,;emqy,ár:itp
o francês não.possui esta dife.rença de valor semânticJl eitem s.0
o signo mouton para designar as duas idéias. Portanto, o lugar
diferente cie sheep no sistema da língua inglesa é responsável
pela diferença de. significado .em comparação ao francês.
34 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

A tradição diádica: entre mônadas e tríades


semióticas

Em oposição a Peirce, cuja filosofia é imbuída de idéias


triádicas, a maioria dos conceitos básicos de Saussure é baseada
em díades. Ele rejeitou modelos sígnicos monádicos e estabeleceu
a tradição diádica (com Hjelmslev como seu mais importante
seguidor). Para entender os precedentes dessa semiologia
estritamente diádica na história da semiótica, ver Nõth (1995).

Conceitos monádicos do signo

Modelos sígnicos bilaterais são opostos tanto a mode-


los sígnicos monádicos (ou unilaterais) quanto a modelos triá-
dicos. Conceitos unilaterais do signo não possuem muita im-
portância teórica para a semiótica, mas ocorrem na linguagem
coloquial quando o signo é identificado com o significante ou
veículo do signo (cf. Helbig, 1974:38). Saussure criticou este
uso coloquial do termo signo: "No uso corrente, esse termo
designa geralmente a imagem acústica apenas, por exemplo, uma
palavra (arboretc.). Esquece-se que, se chamamos arborsigno,
é somente porque expílme o conceito "árvore" (1916d: 81). 8 Mas
modelos sígnicos monádicos também ocorrem em certas teorias
semânticas que consideram o significado e o objeto de referência
como fatos extralingüísticos aos quais o veículo do signo é
meramente relacionado (cf. Wiegand, 1970). Foi uma dessas
abordagens da significação que Saussure criticou como ingênua
quando argumentou que os elementos da língua não deveriam
ser considerados como uma nomenclatura, uma lista de termos,
cada um correspondendo a um objeto (1916a:97). Uma passagem
em que Saussure desenvolve esta crítica é a seguinte:

8. Sobre suas próprias inconsistências neste ponto ver p. 32.


P~rn ,certa$ Pe$SQ~s,. ài/(ngua,; r~J:1.uzid?·ào,;§.eu
princípio e~sen0,iç1/;, 'é l!J?1JNJ.QrtJ~(l~l?.1!tra,isyé!lé
dizer, uma lista·de·terinos que correspondem a
· outrªs,ta_ntas,eqis,ª$J Ji?or~xemplo:

.,. ~;· ~::~,/._:,.:.:,; •AR~~FI••,


,"'"" _.,.~·

1 1
. :, .8•
': J, · '- "} .t~L-
,E,9~9S,

TaJ qoncepção é ~riticáver em n~rpe,rosos _


aspecto$: Supôê iilél'â$ êômplefámente feitas,
pr~exist~vttts /i$JJp/fJVCª~ t .]; ~lq .nijo ~b; diz . ' \
s~a_palavra é de natweza vocal ou.pstquica,
po1s:arbor·pode ·$er,considerada lób1 outro
, aspeCto;ipc)(jfirv; ªla;f~Z;§l.!gQF(fl,lfJ, o, vU1cu_lg;gu,e
une um nome a um~ coisa constitµl llfJJé3i<Jp,e,t~"+' ':_,
ção muito simples, o q1Je ªstá bt;m longe da
••• ! . vcrdªge·(Sªy~~l:lre ; 191:,6d_~19).
1
,, t f
4 '

i'Q pre;ltótjpQ;~~ ~ign9~g~~ sé p~e§ti;lr;na: Yrna j0terprª't~-


ção monádica neste s·entido sã,o;- ;pQd;a.ntPi.1 os: nome~,,dJ.or
exemplo, de pessoas ou de lugares. As pessoas e os lugares
existem independentemente dqs111ól)l~§. Qs sjgngs;:n~e.s 9.a.:.
sos, só parecem ligados aos opj~iós. que designam como.se fos-
sem rptuJo§. ~ e§se n:iodelq clE~fSi~flO !Ql!E! ·Sauss.ur~:considerava
inadeqyªdowmprno.qe.lo .d.~ signo linguísti.c~: , ,, , 1

.11\ b.as.e QºJír,g1Ja não ~ C~[JStitU/~acpOJ? tJ~r,:,e5.. ,;, ,· ·. -


t purn ªCflS.Q ·q,ua(JdfJJJm §,ignQdf_ngJi[$tic.o,i · i,
çorrespo,trctea:um objeft:}pf#rç<;ptqªI, t[)I cQrn,o
J.Jrn cavalpt,q fogo, ~sQI, ~n~o a:vrna:idéiª,çon:,o
, ete pôs.,Quafq1,1er,q~e sejgp~ importâneic1,9J~ste) : ·, ;
1
36 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

caso, não há razão para considerá-lo como típi-


co da língua (Saussure, 1916c: 148).

O modelo nomenclaturista do signo, conforme Saussu-


re, também é errôneo na sua base ontológica, porque considera
o objeto como primário e o signo como secundário. É errônea a
suposição de que:

... primeiro vem o objeto, depois o signo; há (o


que rejeitamos) uma base externa ao signo, po-
dendo a língua ser representada como a seguir:

* ............................... a}
Objetos
{ * ............................... b

• ............................... e
nomes

enquanto a representação correta é: a-------b-------c.


(Saussure, 1916c:148).

Em resumo, o valor do signo lingüístico, conforme Saus-


sure, não está ligado aos objetos que designa, mas é constituído
apenas dentro da rede das relações com os outros signos com
os quais forma um sistema.

As tradições diádica e triádica

Vários semioticistas consideram o modelo sígnico diádico


de Saussure, com a sua exclusão do objeto de referência, uma
das características mais distintivas da semiologia saussureana.
Enquanto vários seguiram esta tradição diádica, alguns ar-
gumentaram que o modelo triádico proposto por Peirce é superior
na solução de problemas semióticos (cf. Kõller, 1977:25-33).
O modelo diádico tem certos precursores na história da
semiótica (cf. Koerner, 1973:312-24 e Nõth, 1995). Na dialética
SAUSSURE E () PROJETOSEMIOLÓGICO 37

dos Estóicos, ele 'aparece corno a· diéótbmia séir1~ihón ~


semainómenon (cf. Brekle, 1985:51). Com referência a esta tra-
dição, JáRobson (c:f.1965:345) introduziu átrádição latina desses
termos, signanse sighatum; cómdo equivalente aôs significanfé
é stgnificââo de saussure' (co'rn signüm como ó termo süper&r-
denádo para·o,signo como um todo).Côntudo, éreàlrnénte
controverso se está tradição égenuinârnénfodiádiéa ôu'Sê1Sl~fé'
sómente parte dê i.im rriddélo essencialm'enfe·triàdico quê ihclí:Ji
o objeto de referência como uma terceira datégoria\ e·nqUântd
Jakobson considerou o conceito do signo diádicot'um modelo n1a!s
que bimilenar~ (ibid.), Coseriu (1970) e Lieb (1981a) enfâtiz'àn,
certos aspectos triádicos desta mesma tradição. Foucault
(1 1966a:63-4) âisçute.r}mõdelo sígnicff·de Port·Royàl como·um
prêcUrsor datrâdiçâo diádica,·citan<lo ad~firlição cfosign'ó:p·e
Arnauld: 1!0 signo êÔmpreende'duis ideias; umâ :tla "êâisâ'q~é
representa, ·oütra dâ . coisa ·répresênfa~a". No :.erÍtãnfil>Rey
(1973:119) argumenta que comooojetóde referência, quêNf
rnêncion·ado em óUtrbpontd ria l.:ógiéâde'Paft,Roya/, Limá terceira
dirnensãotarnoérn está subentenbida"Mssa teoria dô· signo'.
a
Contu'do, questão sobre se urn tiiQdeló 1sfgri1có temúrn 1car~n!r
diádico bu tnádi6ô had pôde s'ér ,resolvi dá ·c1Yrh 1 ôâse é'ffl'
cómpâraçãotermin(füjgica, êómd alguiíS"êstúdds'.sugérerrt:'Ê
irrelevarite'sé Saussáre ou óutros feóribós dtf signô úsàni i'.mi
térniótal como ôbjêto'ÔlJ éhdsêení algu'm'a passagem de·Sua
discussao. A questão ése este'terrrlôténí LlmlúgàrSistêmãfico
na teoria semiótica. Para o sistema'serniológiéô âe Sâussuré,
este certamente não é o cásó.
38 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Estrutura e sistema na sincronia e diacronia

Uma outra importante contribuição de Saussure para a


história da semiótica é sua análise dos fenômenos sígnicos qua
estrutura e sistema do ponto de vista da sincronia e da diacronia.
Saussure estuda esses conceitos só em relação ao sistema
lingüístico, mas são precisamente tais conceitos que foram
muitas vezes aplicados ao estudo de sistemas não-verbais na
era do estruturalismo semiótica.

Sistema

O interesse primeiro de Saussure residia no estudo da


língua como um sistema ou um código e um fenômeno social.
Ele chamou este sistema lingüístico de língua (/a langue) e o
opôs à fala (/a parole). A fala é o uso individual do sistema sígnico
social em atos de fala e textos.
O conceito saussureano de língua é um conceito está-
tico. A fim de isolar as estruturas lingüísticas da sua evolução
histórica, Saussure introduziu a dicotomia da sincronia e diacro-
nia. A análise sincrônica estuda o sistema sígnico num dado ponto
no tempo, sem considerar sua história. A análise diacrônica estuda
a evolução de um sistema sígnico no seu desenvolvimento
histórico. Já que os lingüistas antes de Saussure se preocuparam
primariamente com a história das línguas, as sugestões de
Saussure sobre o estudo da língua numa perspectiva sincrônica
significaram um novo paradigma na história da lingüística.
A introdução do termo sistema no discurso teórico da
lingüística moderna é, em grande parte, devida a Saussure. En-
quanto no século XIX, Wilhelm von Humboldt, por exemplo, pre-
feria o termo biológico organismo para referir-se à língua (cf.
Gipper, 1978:62), a preferência saussureana para o termo siste-
ma é característica de um novo paradigma mais relacionado com
a lógica do que com a biologia.
SAUSSURE E O PROJETO SEMÍGLÓGICO 39

Embora otermo estrutura tenhàsido ?dotado corríqtérmo-


éhave do estrutur~ilismo,saussurequa~~ nunca usoúó terrno
sistema pàra descrever ~'que ele chátnâ de "m~caliishlbS11 da
lín~ua: 9 Em suateoria: a Hn.gu? é, ~m sistem.a cujos el~~entos
sã6.os signos·e cujà estruturá donsiste ~urniredede oposiçôlfs;
á,f~renças é valores. Ôóis tlpô~ ~é rêláçõésidestaêârn-se denfrb
de~se :sfsteffia: a~ reliiçõés siiitag"tnática~; e a~rrer~ç8~s
paraqigrnâtiêas, ~úe saus·sure ainda denbmináva relaçõ);s
associativas, Jakob.son, mais tarde,chamou estas daas}e1içôtis
básicâs de os dois eixos da /ingáagém.
1
As rel~ções qu~ car8cterizama ihgua ~a sua um~·ariaac:.
de são as relaçõês sintàgmáticàs: Acombinação ll'néarê a or-
dem ââ seqüên'cià:das paíavra(umá ·apõs" a oÔfra, pótex~fnplÔ,
em.

A ·,·tuã 'é fnêntirõsa


2 ~l ~> á i i~1i~!' 4i .

a seqüêncja 1Jn~~r.é:ae~tn,1,tura$intagrnátiG9 .d.a IJng!Ja, Ase-


qüência,~ ten,Qpral, unilineç1r:e1irreversíy9I. Ê:ª·dim~nsâo da
"cadeia.fç1la,c!t llgqual te1T;1P$,de reço[lhecer q1:1.~t1JdQ é:,s,ucessivo
e nada sirnultâneo.
~nquantp .o. proQe.ss,o. de faJ.ar sq,;permjt,~ .suçessão e
quase nunqç1 .simultan,ei,d.a.de,da~ estruttJra§, .o PFOGS§§O mental
da produç~o e,qa compreensãq da 1m9n$ç1gernfa.la<:l,aé:çheio de
alternativas a cada ponto. Taisalternativas, ng processo da
escolha das palavras, constituem a dime~são.p8,radigmá~\ca da
língua. Um paradigma neste sentido é ó grupo de palavras que
pode substituir um segmento dado na cadeia falada, por exemplo,
em

9. Observe-se que esta metáfora tecnológica do iníéio do século XX


associa alíngua a uma máquina!
40 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

A BRUXA É FEIA
ESS~ LUA~ É ~ LINDA
NENHUMA MENINA PARECE ~ MENTIROSA

cada uma das colunas verticais constitui um paradigma. Os dois


eixos da língua são, portanto, também chamados de horizontal e
vertical, ou eixo de combinação e eixo de substituição. Saussure
(1916d:95) também fala do eixo das simultaneidades e do eixo
das sucessões.
Quanto à totalidade das estruturas do sistema, Saussure
fala de um sistema fechado e cerrado ("systéme serrá"). A língua
é um sistema fechado, "caracterizado pela precisão dos valores,
pela multiplicidade dos tipos de valores e pela imensa multiplicida-
de de termos ou entidades do sistema, além da rigorosa dependên-
cia recíproca" (Godel, 1957:71 ). A visão holística da língua como
um sistema fica clara na caracterização saussureana do signo lin-
güístico no quadro do sistema lingüístico:

É uma grande ilusão considerar um termo sim-


plesmente como a união de certo som com um
certo conceito. Defini-lo assim seria isolá-lo do
sistema do qual faz parte; seria acreditar que é
possível começar pelos termos e construir o
sistema fazendo a soma deles, quando, pelo
contrário, cumpre partir da totalidade solidária
para obter, por análise, os elementos que encerra
(Saussure, 1916d:132).

As estruturas do sistema

As relações estruturais mais fundamentais num sistema


semiológico são as da diferença e da oposição (cf. Nõth, 1994).
Segundo a teoria saussureana do valor, os elementos de um siste-
ma semiótica só existem pelas suas diferenças com outros
signos:
SAUSSURE E O PROJETO SEMJOLÓGICO 41

Todas.f1S palavras qµe exprimem id(Jias vizinhas


e·se limitam reciprocamente: sinônimos, como
recear, temer'; termedo, só t~m valer prówiopelfl
oposição;. se1ecear não exisJisse; tQqo o s.eu
conteúdo iria para os seus concorrentes[... ]
Assim, o valQrde.qualquer,termo qµe sejà·est~
determinadopç,raquilo que o rç,qeia.; nem füJquer
da. palavra que ~jgoifiça ·150/" se pQq~. lixar
imeqiatamente o:vfllQl':sem leva.r em çopféf o qije.
existe ao seu redor; hálfnguas em que é impos;,.
sfvel tjiz~r "senlar-.se aQ sQ/11. [, ••JO valor <J.e um
p/µralportugife~ @francês n~o CQfiffJS/JOn<!e ag
de, um,pll.lrabs~,:rscr;to,:l11esmoque f1 signiflqa.,:
ção $eja Qmai§"1§SVfJ?es Mênticç1:.~ que.9 :sân,s:
critqp()ssuNr'1~\núme.ros qm(ugé:lr(je. dois (po~
ex., meus olhos, minhas orelhasime1,15.braç95,
minhas pernas etc., teriam de ser expressos no
modo dual); seria inexato atribuir o mesmo valor
aqJ~lfltflf,em sâns{Jr;itM.(i.m:pQftUBIJªS b. ~ISe.y,
valor, pois, depende do qu.e está fdra e em redor
de/e(Saussare, 19t6d:1,~fi).

Se o vªlordEtum signo ~determir:,a.d~/ p~r~qui!9.<l!:IEl 0


1

rodeia e pelos signos com os quais estáern oposição, isto significa


que o valor do signo não veim d9q,wilQ:g~e o ~igno.é em 1sim~$1JlO,
mas do outro, ou seja, daquilo que o signo não é. De uma certa
.maneira, portanto, "na Jínguª .tudo é negªUvo" (Saussure,
1916d:139). As razqes destª.negr1tivigªde s~o:

Em fpdos esses cases, pois; su1;pre.endem9s,


em lugar: df# ici~i{3S dMas (je. f1nte!!7ão, ya/()res
que emanf1{!1.do sistema; Quandose.,diz qµe gs
Vé3/0ff#S cprre.spon{ie.m a conceitqs" 5ÜIJªntencle.-
se que são puramente diferenciais, de.finfd.os nã9
42 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

positivamente por seu conteúdo, mas negativa-


mente por suas relações para com outros termos
do sistema. Sua característica mais exata é ser
o que os outros não são (Saussure, 1916d:136).

Em resumo, Saussure (1916d:139) chega até à conclu-


são de "que na língua só existem diferenças. E mais ainda: uma
diferença supõe em geral termos positivos entre os quais ela se
estabelece; mas na língua há apenas diferenças sem termos
positivos".
Essas idéias do valor diferencial e oposicional do signo
chegaram a ser centrais para o estruturalismo deste século. Um
estruturalista como Grei mas (1966: 19) até vê neste princípio a
base dos processos cognitivos, quando escreve: "Percebemos
diferenças e, graças a esta percepção, o mundo 'ganha forma'
frente a nós e para nós".

Saussure e o desenvolvimento da semiótica

A obra de Saussure estabeleceu um novo paradigma na


história da lingüística e da semiótica, mas alguns de seus
princípios têm hoje de ser vistos sob uma perspectiva crítica.

Visão crítica de alguns princípios saussureanos

Da crítica dirigida à obra de Saussure ao final do século


XX, podemos salientar apenas quatro temas.
O primeiro tema é o do estruturalismo estático, que não
conseguiu lançar uma ponte entre a sincronia e a diacronia, a
imutabilidade e a mutabilidade nos sistemas semióticos. Foi
Roman Jakobson quem desenvolveu esta crítica para postular a
substituição do estruturalismo estático de Saussure por um
estruturalismo dinâmico.
43

O segunqoJema ~st~.relaciQnaqoJ insL1ficiê11çiaçlo rnp:-


d,el9 c:li~Qjco çlo signo lingü ísticçt Estª ins,4fiçiên~iê nãq é só a,pª-
r.ente no estude> dª ~rea çla iconicidadEl lingüís,tioa, gy!=)~ dizer,
dªs v~rtªs..1Jwne\~é1s nas qµais o.signo lingüístico. é 1.1m fç9ne,
µma, imitçição dJJ muncto que repxesenta (cf.Nõth 1 1e9s:~8),,.nié3S
ta.mbém na 13rea da indexicçi,lidad.e lingüística, .na área c:lo. e.studo
lingüís.tic9 da, dêixis, da man.eira .pela qu 91a~ palavras são
re!élcionadé3S ~ situaç~9 d9 npss,o rneiQ. ªmqierite. VE!mQs,: por
e;e,:nplo, no casp Q,a d~ixl$ tEl,:np9ral (cc;>171 Pé3ta~rps tais como
hoje, ~manhã, ontem), çla d~i~is.p(tssoal (eLfr vocêr e/~).ou çla
<l~ixis .local {aqLJir lá), qµe todas eJ,s,as formas exigem µrric1,ne,.
çess~ria e indis,pem,~vEll referêr1cia ao mundo que nos .rogeiai
Oterceiro tema é oda preferência saussuream1 l)elél !íng.ua
falada e a sua negligência para com a língua escrita, na qual não
conseguiu descobrir nenhum?J!µtonomia semiótica. Foi principal-
mente Qeqida ,q4emelabQroµ;esta c~íti,c9·,
O quarto tema refere-se ao dogma s,ausst1rec3n0 ttax1at4i-
reza arbitrária e puramente diferencial do signo, que culminou
com sua tes.e da nebulosa "massa amorfa e indistinta" fora do
sistema sígnico. Opensamento, conforme Sausst1re (1 R16d:131)
.é "caótico por natureza e é forçado a precisar-se ao se decom-
por". Trata-se, sob~etudp, de estr:uturas semióticas 9and~ ori'-
. gem ,às idéias ape·nas pelas oposições e dif~renças que
proporcionam.
Em vez de idéias, a semiótica moderna diria cognições
e, do ponfode vista ailir'lgüístlca cognifiva', essas teses
sausst1reanas são insustenfavéis "na s'i.1â radicáÍid~âê. A
lingüístiéa mais recentéretomou a prôcura dedetêrmi'nantes nãô-
arbitrários, cognitivos; neurofisiológicós;: tiniver~ais dü evôlutivos
na explicação das é~trUturâs sémibticâs da língt1a.
Um exemplo desfa área de peáquisa.,sãó ÇS'r~s,ul.t~tlos
do estddo·dovocabulárió das cores em várias;língwís. Conforme
Sàussuré, às diferenças 'entre às pálavrá~ pélas'qtíih,áría.s
Íínguas se rêfereh1às êõres deJeriam s~t pufam~nfe arf>itnfrias.
44 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

O relativismo cultural e lingüístico dos anos de 1940 e 1950,


culminando nas teses de Benjamim Lee Whorf, teria suportado
estas teses. Hoje, sabemos desde uma série de estudos iniciados
por Berlin e Kay (1969; cf. Mills, 1984) que o fundamento dessas
diferenças não é arbitrário, mas determinado por leis universais
da cognição humana. Numa investigação de 98 línguas,
descobriram que há um grupo de 11 termos de cores básicas ao
qual todas essas línguas se referem no seu vocabulário. Além
disso, há, no crescimento histórico do vocabulário das línguas e
no processo de aprendizagem das línguas pelas crianças, uma
seqüência básica na qual este vocabulário se desenvolve. Nessa
seqüência, Berlin & Kay descobriram as sete etapas representadas
na Figura 3:

Figura 3
Etapas do desenvolvimento do vocabulário das ?ores conforme
Berlin & Kay (1969).

Ili IV V VI VII

roxo
branco/
7-..... vermelho
preto _J r
< verde __. amarelo '---~
amarelo -.. verde
~ azul --+ marron ~
[ cor-de-rosa
alaranjooo
cinza

A língua dos Ndembu (do Congo), por exemplo, é uma lín-


gua que só chegou a desenvolver as distinções cromáticas até a
etapa li e possui, 'portanto, só três cores: preto, branco e ver-
melho. O Mandarim, por outro lado, possui um vocabulário de
cores mais desenvolvido, que chega até à etapa V, incluindo o
azul, mas desconhecendo as cores marrom, roxo ou alaranjado. A
mesma seqüência reaparece na aprendizagem das línguas por
crianças. Por exemplo, o número dos erros na designação destas
cores por crianças aumenta em cada uma das sete etapas. Um
SAUSS!,IR!: !: O ~ROJETQ $~MIQLQGICO 45.

apoio extralingüístico, qµe.çonfürna tal seqQência, vem dª


neurofisiologia, no que se refere à visão das cores (ver Mills,
1~84), Q que pmy.9que a t~se.sauss.ur~ªoa.da ªrbitrarjedade do
vqcªbulário ,é ~qlsjficada ao rne(IQS;nesta área.

Saussure eode~e11volvjmento. da ser:nióti.ca

A contribuição de Saussyr~ Pª!ª Q des~nvQlvimento


e.spec;ífJc9.ga S:e!JliqtieqJne.reçeu umª pyaJi?Ç~? y~riada .

.Nos pª(se~:!ª\inos, ~ªu?s~re fQi,. por um.lor;1gp!tf?:mp.9,


~9nsioexc1do p ~e?-I f!Jr;t{taçtor,da semiótica ÍP·. ex., Prietq, 1~p~:
9~.): PiJicilmepte·alg~rnestu~o semiótico nf)sses país~s dei~?
,. ' ". ' ~ ' '•,
ªº
d.e pª9ç1r :tri.b.ut9 prpjl:}to semiológiço de Sªussure.:(p,}:tx.,
",' ,, ' ,, ,' " ,' . ! ' ·-,, ' ' ', i , ' " ,, ' ,

ijuyssens, 1943:5.-;6),

\.t1ounir:i (1968b:.33), entretanto, dá u.ma avaliaç~p restri-


tiv~ dQ lugar.de paussuçe na hfstóriada semi(ltica: Ei,e argqmen-
ta que a preocupação de Saüssure com a sernioJogia ~ra.r1;0-
tivada principalmente por seu interesse na classificação dás ciên-
cias (ver Godel, 1975:3). Na sua opinião, o Curso de Saussure é
importante para a lingüística, mas o projetosemiológico é somente
um esboço grosseiro do qual nem conseqüências teóricas nem
metodológicas podem ser tiradas. Portanto, Mounin avalia
Saussure não como o fundador, mas somente como um iniciador
ou um precursor da semiótica. A contribuição de Saussure para
o progresso da semiótica é também estimada como modesta por
Jakobson (1975:12). Sebeok (1976:153) até considera a alta
avaliação da importância de Saussure para a história da semiótica
como "uma ciara distorção de urn verdadeiro equilíbrio histórico".
46 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

A importância heurística de Saussure

De fato, a contribuição de Saussure para uma teoria geral


dos signos foi somente de caráter menor. Ele não disse muito
sobre signos não-lingüísticos e não se preocupou com questões
tais como a tipologia geral dos signos. No entanto, sua influência
histórica na semiótica foi considerável em dois aspectos, na
heurística e na sistemática da semiótica.
Em relação à heurística, a idéia de Saussure da lingüística
como patron générale da semiologia tem sido muito influente na
tradição estruturalista-semiológica. Com esta diretriz, sistemas
de signos não-lingüísticos têm sido analisados de acordo com
princípios derivados da lingüística. O modelo da língua serviu
como um instrumento heurístico na análise de outros sistemas
de signos. Em relação à sistemática semiótica, Saussure chamou
a atenção dos pesquisadores para a necessidade de se estudar
signos dentro de sistemas. Suas idéias a este respeito tiveram
uma influência decisiva no desenvolvimento da teoria semiótica
dos códigos. As idéias da estrutura e sistematicidade semiótica
têm pouco precedente na tradição mais filosófica da semiótica
representada por Peirce. Portanto, é provavelmente justificável
designar tanto Peirce quanto Saussure como pioneiros da
semiótica moderna.
11

HJELMSLEV
E A ESTRATIFICAÇÃO
DO MUNDO SEMlÓTICO
Lpuis 1:ije.l01sli3v (189~:.,1~69) f0i o.fung,aqQ[ de u.mª·ª's-
qola rndJcªI p;e,, lingQístJcª' estrµtur~li~tc,1, cqnbecida çqm.9 9.J.0,$-
s~m~tipª qu· a t;sc:q~8~de qqRe~~.ç1g1.1e,: Alit:i,Qµag~m; np ty~fip
glossemática, compreende tanto "linguagens lir19üJ§\tcf!f q~~n,t0
"linguagens não-lingüísticas", e este campo de pesquisa assim
estendido f(tz 9.ª gl9s,semátjca; umª)OlRQ~biJÜ;e. e.sc.o:!ª·:dJ~
semiótica. O modelo sígnico e lingüístico de Hjelmslev e seus
.~qt1qeitQS ge .e§trntµfa,,.texto e, SiSt~mati'{e.r,çl.mi~fluência
tq9osjçle,r~ve,l,e,m.d~sen~ol'-!imentpsp9~te,rtore,~,dª ~erpiqtipçi 1).~t.~1.
~u~ te,oria d.a çonotação é. iR fµndJ3merto de. u·l'.11,ª1, teoric,1
9los.sem~tLca da literaturª ~ ga e,~tética-1°

'l

A contribuição de Hjelmslev para a se111iótica

Apesar de ol:>'jeções feitas em relação ao formalismo


estrutural de Hjemslev, 0 fundador âa Eséóla de Gopenhague foi
récorinecido": iieste mêió ténípó, como ·um clá'ssico da semiótica
1

(ver Kratnpeh'êt at eds: 1981).·.

1O.. Sobre? biografia9cadêmic:a de Hjelm!>lev ~er Fischer-J0rgensen


(1965).
50 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Sumário da obra de Hjelmslev

Os fundamentos do trabalho de Hjelmslev encontram-se


na lingüística estrutural e na semiologia de Saussure. No contexto
do estruturalismo lingüístico, a glossemática, por seu formalismo,
distingue-se do funcionalismo que caracteriza a Escola de Praga.
Outro traço distintivo da glossemática é sua teoria da homologia
estrutural entre os planos lingüísticos de expressão e de conteúdo,
que A. Martinet considerou incompatível com sua teoria da dupla
articulação. 11 O estudo semiótica mais influente de Hjelmslev é
a sua obra Omkring sprogteoriens grundlaeggelse de 1942,
traduzido por Francis J. Whitfield como Prolegomena to a theory
oflanguage (1953; rev. 1961). Uma tradução portuguesa data de
1961 e tem o título Prolegômenos a uma teoria da linguagem (São
Paulo: Perspectiva).1 2

A influência de Hjelmslev nos estudos semióticos

O lugar de Hjelmslev na história da semiótica foi, durante


muito tempo, posto em discussão. Por um lado, houve críticas
em relação ao seu formalismo abstrato e à sua "extravagância
terminológica" (Haas, 1956:11 O). Mounin (1970c:99}, entre outros,
sente falta de uma relevância empírica na teoria de Hjelmslev e
critica sua "axiomática um tanto quanto ingênua, baseada numa

11. Ver também Chrtstensen (1967), Helbig (1974:60-72), Lepschy


(1975) e Metz (1977a:11-30) sobre outras diferenças entre a
glossemática e outras escolas de lingüística.
12. Sobre outros desenvolvimentos do seu estruturalismo semiótica,
em particular sobre suas idéias sobre semântica estrutural, ver
Hjelmslev (1959; 1973; 1975). Uldall, que colaborou intimamente
com Hjelmslev no desenvoMmento da Escola de Copenhague,
escreveu um Outline of G/ossematics (1967). Estudos críticos e
sumártos da pesquisa lingüística esemiótica de Hjelmslev são
Siertsema (1954), Haas (1956), Cosertu (1962: 156-88), Fischer
HJELM$LEV EA É$TRATIFIOJ'.\ÇÃO... 51

lógica não menos ingênua"; Por, outro lado, Guseriu. (1962: 156)
compara o lugar de Hjelmslev na füsfôriàda lingüística àquele de
Wilhelm von Humboldt, enquanto, de acordo com Trabant
(1981a:90), "o aspecto realmente original de seu trabalho está
no desenvolvimento de uma teoria,serniótica, ma"is dp quE3 ·ae
uma teoria lingüística. Pois ele é nàtJã mehOsZC:fu&o originador
daquele desideratum saussureano, a saber, uma ciência geral
dos signos (sémio1ogie) baseada na lingüística ,imanente e
estruturar. Hjelmslev teve grande infü.1êhciasobre ®reimàs e suá
Escola de 'Paris, mas ·também a teoria semiótictvde 6c·o é
baseada em princípios hjelmslevianos centrais. Em um rneno'r
grau, os Elementos deSemiologiáâe Barthes e a sémlQtiéa do
filme de Metz (1971 ;19t'ia) sãôfundarnentados r:ia sen,iótica'<:Jé·
rljelmslev: Q.elementofüíteoriá de Hjelmslev,(:JU"e:se.tornoumais
popular na semiótica aplicada é süa teoria da conotação. Jansen
(1978) elaborou uma teoria hjelmsleviana do teatro. 13 Uma
avaliação da obra deJ'ljelmslevqaefazjui:àinfluênoia'.âó liligijlstâ
dinamarquês na semiótica moderna, sem omitir seus limites, é
dada por.Umberto·Eoo: ·

©·único autpP qµê poderia tersido bem;.sucedido,


nàproposição de uma ·estrutura geralteórica1f)ara· ,i'
a 1eoria semiótica fóicftljelmslev, ·mas;$ua te01iia ·L ·
é muito abstrata, seus exemplos sobre outros
sistemas semióticos muito limitadôs e·um tanto
parentéticos e seu jargão glossemático impene-
trável; Hjeltnslev,: comfr um sêmioticista;. ,tem

·-J~ensen (1966), ~p~nq-Hanssen (~~étMqunin (1~?Õc{


B~ &Hàrrâs.(1974), Àelblg(1974: 60-72), GütlérrezLópei
']1915:95-1~}:M$1rrl~fg(19TT?44-6.Õ),T?ábafü'(198f~)!f
·Johan~n (1986ae bruma'ieitllfa coritra~a·eíiitê o1rabal~ô
de HjelmsleVe asemi6t1ca pêirceanãé ci tópico aeüm é'studó
dé Parfet(1983~2&87).:
1~. S0bre asemióti~ dáliteraturá ~er p. 85-90.'
1
52 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

sido altamente influente nas últimas duas


décadas (Eco, 1977a:41 ).

Linguagem, sistema semiótico,


semiótica e semiologia

A glossemática é uma teoria formal e abstrata que estu-


da os fatores imanentes dos sistemas semióticos sem considerar
uma dimensão pragmática da semiose. Abstraída de estruturas
da substância material da linguagem, a glossemática se esforça
por atingir um grau de generalidade descritiva que torna esta teoria
da linguagem aplicável ao estudo dos sistemas sígnicos em geral.
Sua abordagem é puramente formalista e determinada por
princípios de empirismo dedutivo.

Linguagem, semiótica e sistemas semióticos

O ponto de partida heurístico para a semiótica de Hjelm-


slev (1943:102, 107) é a linguagem, que, na sua definição, é não
somente a linguagem "natural", mas "linguagem em um sentido
bem mais amplo", incluindo "qualquer estrutura análoga à lin-
guagem", a linguagem sendo definida como um sistema sígnico.

Linguagem esemiótica

Hjelmslev introduziu o termo semiótica para a linguagem


no seu sentido mais amplo. Na sua definição, uma linguagem é
uma semiótica e uma "semiótica é uma hierarquia, cujos
componentes todos admitem uma análise adicional em classes
definidas por relação mútua" (Hjelmslev, 1943: 106). Portanto, uma
linguagem natural, nesta terminologia, é uma semiótica, mas, já
que "estruturas análogas à linguagem" pertencem à classe da
linguagem no sentido amplo, a distinção entre linguagem e uma
HJEI.MSLSV 6AESTRAT1'71GAÇÃO••. 58

semiótica e, portanto, a distinção entre.liÍilgüístioa e semiótica,


tende a dissolver~se Ra glossemátioade ~jelmslev (cf,,Mounin,
197Oc:9ê). ôs tradutorés·alemães do Rrolegorilena de Hjelmslev
até tradu:2iram sem.iótica':de forma geral como ·linguagem
(Sprache); jcistificandó está termiríblogiacom referência ao texto
do original âitíamârquês".
N0.entantoj Hjelmslev1atribuiu um lugar~special à lingua"."
gem verba.I em lelação a outros sistemas semióticos: ,"Na prá-
tica, a liríguagerrf é uma s~miçtiea.na qual todas as•outras se-
mi óticas podem ser traduzidas - todas as outras linguagens e
todas as outras estruturas semióticas concebíveis" (Hjelmslev,
1943:109). Citando S. Kierkegaard; lrljelrnsleyr(4bid.) aoriesceli1t0u:
"Numa língua, e somente numa lín.gua, nós podemos 'trabalhara
inexpressável.até ele.ser:expresff<.i~'.
Hjelmslev deferadé UJ11a;defü:1içã0 inst.rumer:itálrda lin~1;1a,,.
gem humana. A comü~icaçãC:l verbalé·.uml meioipará outros fins
etpon causa diss01 a linguâgem,,i r:io;.processo dff·usó., téíldê.,a
obliterar"."se: "Alinguagem quer ser ignorâéa:•é seu .destrno.rfa;,
tural ser um meio e não;um fim, e•é apenàsrartificialmente q!:l&~
pesquisa pode ser dirigida para o próprio meio do conheeiJi1êfltó~
(H jelmslev,..194fü5).
Por:ém, o inter.esse analítico deHjelmsley,não'é,dirigido
Munção,da linguagem neste processa,comunicativ01J,\pesªrdo
seU,destino finalista, 00 cbrítexto,dar.ealidade;no @©ssosrnêio
ambiente, alíngua,,para,Hjelmslêv, tem uma·e~tr:útllra,autôíiôma.
A,pesquisaglossei'náticàé; portanto, ·dedióada às estruturas
imanentes·da língua, às constantes.quepermaneoemválidas·ern
cadaato de uso dalínguà.1Essateoriá

.•. tem de proéutar uma constância qt!Je não es-


lt;ja enraizada numa "realidaqe extra~/iilgüísti,,.
11

ca _; a, coiJstânciia qt:ie faça,com·que qualquer


.·língua seja linguagem, qualquer que seja ç1 Jín;;,
54 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

gua, e que faça com que uma determinada lín-


gua permaneça idêntica a si própria através das
suas mais diversas manifestações; uma cons-
tancia que, uma vez encontrada e descrita, se
deixe projetar na "realidade" fora da língua, qual-
quer que seja a sua natureza (física, fisiológica,
psicológica, lógica, ontológica), de tal maneira
que esta realidade se ordene em torno do centro
de referência que a linguagem é (Hjelmslev,
1943:8).

Sistema, processo e estrutura

O projeto glossemático aspira a uma análise dos siste-


mas semióticos rigorosamente empiricista e dedutiva. O ponto
de partida desta análise é o processo lingüístico na fala. O pro-
cesso é a dimensão sintagmática do sistema que se realiza na
fala. Otexto é o resultado desse processo da fala e, ao mesmo
tempo, o ponto de partida da investigação semiótica. Otexto é a
totalidade na qual se manifestam as estruturas do sistema. As
estruturas do sistema são deduzidas do texto, com o alvo -
tipicamente estruturalista -de determinar classes de estruturas
com as dependências entre os elementos e de segmentar o texto
até os componentes mínimos do sistema. O processo analítico
consiste em "reagrupar esses elementos em classes de acordo
com suas possibilidades combinatórias" e, a partir desta
classificação prévia, "estabelecer um cálculo geral exaustivo das
combinações possíveis" (Hjelmslev, 1943:16). O projeto culmina,
portanto, na meta ambiciosa de elaborar "uma álgebra imanente
da linguagem" (ibid.:80).
A base estruturalista desse projeto também aparece quan-
do Hjelmslev identifica linguagem com estrutura: a linguagem "é
uma mera estrutura" (Hjelmslev, 1948:33; 1957:100). Referindo-
se a Carnap (1928:15}, Hjelmslev define uma estrutura como "um
HJEl:1\/1S!.EVEA ESTRATIFICAÇÃO... §5

fato puramente formal e relacional". De acordo coínos, seus


princípios 'de pesquisa científica, "qualquer.próposiçãó êientífica
sempre tem dé,serumaproposição sobre relações.sem que isto
impliqüe·q1:1alquêr conhecim~nto, ou·descrição dós reJata"
(Hjelmslev·, 1948f'32). Na; língua, esses relata são os sons
articuladas,, às letras ou ·.palavras eMo a substância d~sses
elementõs. Apenas as relações entre eles· são objeto do estudo
sefoiótic.o:

Esquema euso

Em sobreposição parciatcortrcis suas dicotomias de sis-


tema e processo, e visando melhor elaborar a dicotomia saus-
sureana de língua e fala, Hjelmslewprõpôs:wm·a:tricotomia arnã~
lítica da análise dos sistemas semióticos, distinguindo três planos:
êstjúema,·nói:ma e uso'..
O usohjelmsle'1iano çorresponde à fala: saussureana. É
a maAifêstação do sistema em atos lingüísticos individuais ou
s0ciaiS; ·A}ínguasa~ssl!ireanacórréspond~, em parte,.ao esque-
maeç,êrrí parte,àn(f)trfladeHjelmslev. Em vez deiesql:Iema,,a
glossemática':também usa o termo sistema; ·osistema,(ou es;.
qUema) da língwa é riã·~ Sá. a:sorna das' estruturas de todas as
fürmas<realizadasi numa lfogua, mas~iambém a classe de todas
as estruturasVirtuàis;ql:J&as·leisdo sistema podemgerar. A nor-
ma; porém:, inclui sóaquelas estruturas,qoe são de fato usadas
e realizáveis na fala.
A diferença entre sistema e norma pode serilllstr:ada em
vários níveis da análise. Consideremos o plano da estmturaifo"
néUca da língua pbrtuguesc1: seu si~temafonológico.inélui todos
os fot:remas que ocorr:em nas pàlavtas·dê se.u vQcabulárióí1po:.
rém,;o'sisfema excluia1:ticulações tais comoo[q] ou [d}clo in,. 1

glês (em thr.ee.;ou them)':ou o [re], (0], M d,0 alemão,:que sã0


fon·emas:naquelas línguas, mas não osão,na línguaépol1l:lguesa.
O sistemafonológico do português inolui também.regras para
56 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

combinação dos fonemas. Conforme essas regras, muitas se-


qüências do padrão consoante-vogal-consoante-vogal são per-
mitidas, tais como em lama, mala, gato ou vaso. De acordo com
esse padrão, o sistema também gera palavras foneticamente pos-
síveis, mas que não são utilizadas, não aparecendo, portanto,
no repertório de nenhum dicionário, tais como as formas *foma,
*mi/a, *sato ou *savo. Tais palavras virtuais pertencem ao sistema
(ou esquema) fonético da língua portuguesa, conforme Hjelmslev,
mas não à norma. A norma é, pois, a escolha que uma
comunidade lingüística faz do seu sistema lingüístico. No uso
(na fala) desta língua, variações individuais podem ocorrer, mas
estas não são previstas pela norma.

Semiologia e metassemiótica

Hjelmslev (1943:108) posicionou seu projeto semiótica


de fundar a semlologia como a "lingüística num sentido mais am-
plo" em uma "base imanente", na tradição do projeto saussureano
de uma semiologia geral. O objetivo de seu novo projeto era
"estabelecer um ponto de vista comum a um grande número de
disciplinas, do estudo da literatura, arte, música e história geral
até a lógica e a matemática, de forma que, a partir deste ponto
de vista comum, estas ciências se concentrem à volta de um
grupo de problemas definidos lingüisticamente" (ibid.).
Hjelmslev definiu a semiologia como uma metalinguagem
dos sistemas semióticos, "como uma metassemiótica que tem
uma semiótica não-científica como seu objeto de investigação
semiótica" (ibid.:120).
Semióticà e semiologia são, portanto, distintas pelos seus
níveis hierárquicos. O mais alto nível é a metassemiótica ou a
semiologia, que é uma semiótica científica, desde que ela siga
os princípios do empiricismo dedutivo de uma descrição exaustiva.
A metassemiótica tem uma ou várias semióticas como um ou
vários dos seus planos. Essa semiótica, sendo um objeto de
HJEl-M$LEV ijAESTRA!l'lfl~AQÃO... .57

iavestigaçã(:)i é,uma, semiótica-.o.bjet0, aindc3 não .científica.~


.estrutura de todas as semióticas é hierárquic.a;,.consiste. de
elementos e. classes e supõe dependências entre etes.
Neste seAfüfo, a lingOísJicaé .u01a semiqlogia,cµjo objeto
(uma semiótica) é.uma,lJngva.naturaL Além <:!alir:igQística, há
também outrç1s.semiologias cujos objetos dee.studosão qutrQ.s
.fenômeoos sígnlcosJ 05:prim;ípi~§ comuns.f e.ssas1se01Jolpgifü?,
de acordoicom Hjelmsle"v;·formamiocªmpo J!a metassemLalogif¾,
!'u.ma semiótica meta(científica) c.ujó.s,objetos semjóticos sã,0,as
semiologias" (Hjelmste:v,: 1;943:tW~;

O, r:nºdelo.~ígnlco. de Hjelr:nsle~

A teoria sígnica de Hjelmslev é mªis µm .clVª!'lQ.1.;tnQ.1.tpO-


delosígnico biJateral,de $al:ls.suJe.e na1distinção,sa1:rssureana
entre formª e s11..bstânqlª. Q esbe>çQ,ido modelo:.defljelmslev:se
encontra n0 çap ítl:llo 13 d.(;)S .s.e.lls ProJegômenos) 4

·~sboço çlo rnod~lo diádi~ ~stratifiêaôo · ·

Significante (~imªger:nac.(lstioa~) e significi:lQP rconçe,i-


Jo") ..sã.o as,dµas faces .Qo mod.elo.·sígnico de SaussLJre, !ijelmsle.,v
·rebatizou,.os·co.mo.expressão·econte(ldq.e denominbu estas dw.as
,faces de planos.dosignp .. Ja.ntoJtptano de expressão c(:)mo:o
plano de conteúdo são adicionalmente estratjfiqados em f<i>rma e
substância semiótica. Isto produz quatro estratos do signo: forma
de conteúdo, forma de expressão, substância de conteúdo e
substância de expressão.
Em concordância com a tese de Saussure de que a se-
miótica é a ciência das formas (ou estruturas) e não das subs-
tâncias, Hjelmslev (1943:58) restringiu o uso do termo signo aos

14. Uma exposição mais elaborada está em Hjelmslev (1954).


58 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

dois estratos forma de expressão e forma de conteúdo (ver Figura


H 1). No entanto, ao contrário de Saussure, Hjelmslevconsiderou
os dois estratos de substância como não sendo amorfos, mas
formados semioticamente, isto é, estruturados pelo sistemas de
formas sígnicas. Para a esfera pré-semiótica do mundo não
estruturado semioticamente, Hjelmslev introduziu o conceito
dinamarquês mening, traduzido como purportem inglês e sense
em francês. A tradução brasileira de Coelho Neto emprega o
termo sentido. Este termo causa dificuldades terminológicas (cf.
Metz, 1971 :2), e a distinção entre substância e purport não é
sempre consistente (cf. Fischer-J0rgensen, 1966:7). Um
equivalente terminológico que livra o conceito da sua associação
imprópria a um conceito semântico é matéria (cf. Eco, 1984:44-
5). O próprio Hjelmslev especificou "matéria ou sentido" como
equivalente a purport(1954:50).
Somente a esfera desta matéria corresponde mais ou
menos à "substância amorfa" de Saussure. Mas, enquanto Saus-
sure discutiu esta esfera pré-semiótica somente em relação ao
plano de conteúdo da linguagem, Hjelmslev também postulou uma
esfera não estruturada de matéria de expressão (ver p...). Com
este paralelismo entre a estratificação da expressão e do conteúdo
e em outros sentidos, os dois planos são formalmente homólogos,
exceto pelas diferenças nas estruturas próprias de expressão e
conteúdo que derivam do princípio da arbitrariedade. A Figura H
1 mostra um modelo representando a estratificação do signo
bilateral de Hjelmslev.
59'

' -----~--.,'de.~~-~.~~.
FiguraH1 ..
· . :.,,- ··· mátéria1 tohteúdó ·· , ·-
/ ' / . .(SEr,1:n1pt!GaJnef}te pm~g~) :. . '"'-·~.

,: 1/. (i.g~r~i~g~~~1gyS!füi~). .).\ .


'( -~·· ~..~';!}-·.·~·~ · - - - -~
formá de ccmféúdo
.... 1·,A,:L; ,~ :','Ú", ',,:·,

fôrtna"d~*xpressãd,.·
''LI"'
sub&tãncia de eXJ)re.ssãp
i
.. /. .. ,
sem16t1camen1e formada .. /,,.,,,
',· · m~fédfo~'êx'tes~Q ,.. ··;,;;,
'
_.
. .__.;-- ..-· ~ ..; .
.. , . '1-., (~~ll)~qt,1ç~1J1~.o.t.fJ~rrwa:~b
........
~) :1 -,.._ -.".·._-.:~- :. ~~··. ___ -,:7r'_ ~-~, :_ . _:/ -. .:···J~, :.-"- . r_::
. ô 111odeló estratifiegdo djádjco 8Ó sigriô de H~ms.l~v. [~] simbô!~." \\' .
.um~ réla1çâó delfite~dêífen~éridJ: é, fÓrii1à llfGõhfüúd6eafõtfüâ! de
1
':
' ; expressãosâoaí1ascbnsra~êsqóêdêpe11dem•ürnírdaótitra·êómo() ·
· verso e;o·anverso,dà metárorcl~i.íss1:1reanai1[~] siinboliiaa:relaçâo. 1 1

·. · ,4~~ioa~o1~~!11f!-n~W9.n~9(g,~~)~tjY~é,a,~"~ ·:
,~~09,u_ge~o;.~,Y!lJfu.p~~n~9;~~~~rl)~.
,9u,~$~$,4~nciª·~~;w~~~9qu:?efxp~~'. .:. / 1

' ·" * /

,f,\'~nHQ~ çliogtpmia\fiÍosrqfigclen1f8c, S1J bstánc,j~ ~fgrnJffe1 1 1

aJ)a/ece\~llJ. ir9nierÇ,1~:v~ri~çq~$· n9 ~ym il~tiça ~, nq Hn9PMii?., 1

rna~ q ci~tfnjçã<? cifHj1~rns!e{ q~.~ ifi'~tin9u,e r~l\~{i~,,éq~~-,ur:n


J~çc::~iro term? 1 tel1) siq,q,~ ?J,~is infl(JeQ,t~ pe t,qpft~~ .
Preiimf1a{~~obre s~k~~~,qa, ~~~ e;~9f~rif1 ·' .,
9$ t~rm,8~
~~PstáryciaJ f;Off(J~ e, "!,ªtéria s,~q ,C9Q~~Jfos
centrais na história
-: .. , ''; ,;'
da
1~ f,~:; ,r
filosofia'.'
é• ;
Eles toraní usados
',r;• ...
para traduziras
,i,/' ;M,'";•j
t,'.. ·~', • ~ '/ ~ • f

~ncejJO$ de QY~[a fs1,1bst;~QÇia'). eigós ('forroa', 'f id~ia,de f.1?\ão)


1

fJ hjle ('r;n~tér)cf) ;d~ Plptão' ~ Arist9!eles.Traglciq"n~IÍ'pé[ltE;3,


~.~b~tân~ià foi qefinjdac?mo a es~ênda:·d.~ uqia c9js~· 9~e
60 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

permanece a mesma, enquanto sua aparência, a forma, muda. De


acordo com Aristóteles, a substância consiste tanto de matéria
como de forma, mas possui uma existência independente da coisa
e da sua matéria. Neste-sentido, a substância é essencialmente
incognoscível. A matéria é a substância básica, o material cru do
qual os objetos do mundo são compostos. De acordo com Aristóte-
les, a matéria, em contraste com a substância, é aquela que pos-
sui forma. Todo objeto concreto é composto de forma e matéria.
Sem forma, a matéria seria "amorfa". Forma é o feitio da matéria
de um objeto perceptível.
Na história dos estudos lingüísticos e semióticos, adi-
cotomia forma e matéria tem sido confundida de diversas manei-
ras com a dicotomia expressão e conteúdo (cf. Fischer-J0rgen-
sen, 1966:1-2) e, além disso, substância é freqüentemente usa-
da no sentido de matéria. Em uma das tradições, os sons da
língua foram considerados como sendo matéria que recebeu sua
forma na articulação lingülstica. Em outra tradição, a estrutura
sintática foi considerada como forma lingüística e oposta ao seu
conteúdo como sua matéria. Posteriormente, a manifestação
fonética de uma língua foi chamada sua forma em oposição à
sua significação (ou conteúdo).
Na lingüística moderna, o termo forma é usado em opo-
sição a vários outros conceitos: 1) Em oposição ao significado,
forma ainda é usada no sentido de estrutura fonética ou grama-
tical; 2) Na morfologia, forma é a variante flexional de uma pala-
vra; 3) Na lingüística sistêmica, forma é a organização da "subs-
tância" fonética ou escrita da língua em estruturas lexicais ou
gramaticais (cf. Joia & Stenton, 1980); 4) Num sentido mais ge-
ral, formal é oposto a informal, no sentido de 'intuitivo' ou 'pré-
científico'; e 5) Uma outra dicotomia é aquela entre forma e função.
A principal diferença entre estas definições e a da semió-
tica glossemática é que Hjelmslev atribuiu substância e forma tan-
to ao significado (conteúdo) quanto à expressão fonética ou gra-
femática do signo verbal, e que substância é distinta tanto de ma-
HJELM§~~EA l;STRATlfüÇ~ÇÃO... 61

t~ria quant() de forma, Çomo Fischer.,. J~rnensen (,1966:~~ assim:1:-


la,, essa duplí3 distioção entrn tqrma e111ªtéria, tantq no, som .qua,nto
na significação; já fqi oqservada por Wil~elm v.on H.ym~0ldt,.;~p
su.a opini~o, "a rnªtéria d.a lingWJ:lgem consistia,pa,rQiçJlrn.ente,de
sons, p~upjaln,ente em pens9mentos r;ijg f,qrma,dos, sendo quMs
s9ns sãe tounados pela/forma do spm' eC;lS p,ensa,men,tos.pela
'for;rna.da,sjçl~ias' ou :forrna,interior' da, lingua,gem".(iPld;)

Matéria de conteúdo e de exp"~são.

Np plano de conteúdo da, lingyagem, ,npt~rfa de;cenlf!JÍ.Pº


.~ ag uela 11mi:issp de pens.amento,a,mqi;ta" :(Hj$1Jnsl,ev,J~.4a.:·gi)
dlUeMorma~J.a,gif,ere.o!ernenteJ:>.elíàSt<HferentJ}S l(ngua,s~ lJm dos
e){emplos é, mªis 14Jna,,NÍ??;1 Q "cgntlnl!Q a,m9!1q~ .d9;,espJ~Qtrg,ge
0 0 j 1, -;; 0
," '

QQres edos termqs·pa,ra, cores nas ,dif~r,ent1és lín.g4~s.JJ~stª


matéria semioticamente amorfa, '.'Qada l[ngya, ~0Jop~p~e1.1s lim.lt~r
(ibid.:52). No entanto, quando Hjelmslev caracteriza a, esfera da
matéria como sendo "não formada" ou "inp~e§Sfv,~l,ao1cgnJu.e,~i-
mento" (ibid.:76), e.lese refere somente a umaêsferaarnorfa;do
pont9 c;le vista çJe yn,a, de.sori@ªg ~.emtgti~Qf• tvlps,,esta, falta de
estrutyra semiótica nãoJrnped~·~eliJ:it~9çlªge e~!rnJ~rªs n~~-
semi()ti§as. ~ssirn,."a descriçijp·9.i:mat~ria. [.;;] p,oçle.,es~~DPt?l,-
:Jnente ser entendida, cqrn0 pertenc,er:1d9 parcialmente à, esferª,da
.f(siqq e parojal mente àquela da a,ntrppqlogia (s<:>cial):' (iPi<J/7/l-
8). Posteriormente, Hjelmslev at~ po$tJJlqw que/'ª mat$r;ia, çl,~\le
ser formada cientificamente, pelo menos a um grau que permita
distingui'-la de outr.as mçltérias" (1 ~5~:5,0).
V9lta,nd9 ap flO$SO exE3mpJo, ter,íamos dfHliier, no sen-
tido de Hjeli:nsle\l, que 0. rnunçlctcq]oriqp é amprfp do,ponto de
vista da~ 1íngua,s ÇJlle;dão e~tnJJ!-ffR$ diferer;ites 9 este mundo,
mas ess.a mesma esfera da matéria ge çpr:iteúQQ ~ 1:3struturada
por uma out~a çiência, a física .ou c1.óptica) que·impõe a este
mundo µmpadrão nijorl!ngüJstlço, ou seja, q espeçtrq qas cores.
Já vimos que a ordem das. cores neste espectro. é diferente da
62 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

ordem das cores na evolução lingüística. O progresso da


abordagem hjelmsleviana para a área da substância amorfa foi;
portanto, reconhecer que há aí um lugar de encontro interdisci-
plinar entre ciências que estudam o mesmo objeto. O que
Hjelmslev ainda não descobriu foi que as estruturas entre várias
abordagens científicas não são sempre diferentes, como a da
física e a da semiótica, no nosso exemplo, mas podem também
ser homólogas, como as abordagens cognitiva, neurofisiológica
e semiótica das cores (ver p. 49).
No plano de expressão, a matéria de expressão é o
potencial fonético da articulação vocal humana, que é usado
diferentemente para formar os sistemas fonológicos das línguas
naturais do mundo. A matéria de expressão também pode ser o
potencial de comunicação gráfica usado para formar sistemas
de escrita ou o potencial de comunicação gestual do qual
linguagens gestuais fazem uso.

Substância formada

A substância semiótica é o resultado de uma estrutura-


ção semiótica específica da matéria pela forma. "Assim como a
mesma areia pode ser colocada em diferentes moldes, a matéria
é modelada em substância formada" (Hjelmslev, 1943: 52-3}. Mais
especificamente, Hjelmslev descreveu a formação da substância
a partir da matéria como segue:

Devido à forma de conteúdo e à forma de


expressão, e somente devido a elas, a substân-
cia de conteúdo e a substância de expressão
existem respectivamente, e a substância de
expressão, que aparece pelo fato de que a forma
é projetada na matéria, atira, como uma rede
aberta, suas sombras na superfície não dividida
(ibid.:57).
HJEl"MSJ,,W~AESTRATIFICAÇÃO... 63

,Nesta metáfora, a "superfície não dividida" é a matéria,


à'"redé aberta" é a forma, e a"sombra" é a substância (cfi. Metz;
19n:ê26);
Mas se a substância sempre depeMe da forma
(rljelnislev, 1943:50),,, por que a distinção entr~res dóis estratos
é necessária? Hjelmslev·respondeu qlle 'lasubstânêia'não é uma
pressuposição necessária para'a forma lingüísticp',;mas que a
forma li11g0ística · é· uma pressuposição .necessária' para ,a
substâ'ncia" (1943:1.06).Aform~pudré;portànto: uma estrutura
abstrata, enquantoja substância forma·<:Ja éummem'~reflexo da
forma purà projetado sobre â,substâMiâ~ (Hjelmslév,11951: 108}.
Assim, a sUbstâncià{e, comela;~am12téria)é umfunctivóVaíiável
e,r:rão,.necessário da,semio~e, em1cfUâr:ità afornía,é ôflmétw9
constante e necessário (Ver~~igtJralH 1),,l:sta·vis~odaprimazià
dá fQrma sobre:â,substância'teverte'a'visãetradicional aristoté!ioa
dàprimaziàdamàtéria '(e âasubstâhcia) sobre aiprmá;,mas
esta reversão se·deve aiSúas diferentes perspectivas. Avi$ãe
traditicmal da forma como secundária à matéria ou suti'stâr:miáé
base'ada ·em uma, perspectiva semipgehétiea:i' a 'Cogni'çãétqa
substância· e matériado muhdo'sãmontógenetieamênteanterióres
à cognição das estruturas semiqttcas; ~ yi~?9,d~ Hj~lm~tey~df
primazia da forma sobre a substância parte de'um ponto d~'vista
sincr:ônico da1cogniçã0 do mundo. De acord0 oomesta visão, a
nossa estruturação semiótica o.u cultural,do mundo determir:1~''ª
nossa cognição das suas substâncias.

Formapura

Mjelmslevdefiniu.os dois'estrat.osdaformacomosis-
temas de relações puras: "As entidades daforma lihgüístiea•~o
de.natureza 'algébriea'-e não possuem uma designação nat1:1ral;
elas podem, portanto, ser designadas arbitrariamente de várias
maneiras" (1943:105). I;esse.sisi~mc1de relaçõasfçirrnal;.abstfato
que, de acordo com Hjeli'nslev, deveria ser o objeto da pesquisa
64 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

semiótica: "As unidades lingüísticas reais não são sons ou


caracteres escritos ou significados [i. e., substâncias]; as
unidades lingüísticas reais são os correlatos que esses sons,
caracteres e significados representam" (1948:27).
Entretanto, a dependência da substância formada da
forma pura não implica sempre uma homologia estrita do tipo 1 a
1 entre os dois planos. Diferenças podem surgir, pois, no sistema
axiomático da forma pura "todas as possibilidades devem ser
previstas, incluindo aquelas que são virtuais no mundo da
experiência ou que permanecem sem uma manifestação 'natural'
ou 'real'" (Hjelmslev, 1943:106). Esta diferença entre forma pura
e substância real corresponde à distinção que Hjelmslev
(1937:158) e Coseriu (1962) fazem entre sistema ou esquema (-
forma) de um lado, e norma e uso (- substância) de outro (ver p.
61). Uma lacuna lexical, como a falta de um lexema português
para designar um peixe fêmea (em contraste a "cão fêmea" -
cadela), é um exemplo de uma categoria de forma sem uma
substância. Outras diferenças possíveis entre substância e forma
derivam do postulado de Hjelmslev de que "uma e a mesma forma
pode se manifestar em diferentes substâncias" (1957: 107).

Forma e substância de conteúdo


Aforma de conteúdo "é independente da, ese encontra em
relação arbitrária com a matéria, transformando-a em uma subs-
tância de conteúdo" (1943:52). A comparação de campos lexicais
em diferentes línguas prova a arbitrariedade da forma de conteúdo
conforme Hjelmslev (1943:53). Muitas línguas, incluindo o
português, dividem o espectro luminoso não-colorido em três
áreas, branco, cinza e preto. Porém, algumas outras línguas pos-
suem somente uma divisão dupla (sem o cinza); outras, ainda, pos-
suem mais itens lexicais, distinguindo diversos valores de cinza. 15

15. Sobre descobertas mais recentes de uma certa não-arbitrariedade


no vocabulário das cores, ver p. 49.
HJELMSLEVEA ESTRATIFIGAÇÃO... 65

Na morfologia; a maioria dasJínguas posslJi somente


uma dupla distinção de número entre singular ê plmal, mas
algumas línguas impõem uma forma de conteúdo diferente sobre
a matéria de conteúdo de "pluraliâade", produzindo até;tr,êsoutras
categorias de substância de conteúdo chamadas o dual, triai ou
quad(a/para designar grupos de dóis,· três ou quatro entidades
(Hjelinslev, ·~ 94'3:58}: A partir desses·e dê outros exemplos da
1

relatividadeJirifg'ülstica; Hjelmsl'ev co110luiu (:Júe'é·,impQ.ssívêl


descrever a linguagem com l:>ase na·s4bstância:

A descrição da substância depende cJà desc;f.


ção daforma,lingüístlcà50 velhlJ:$Onho:dé 11;fm
sistema.fonétióo.uni.V;ersal1e de um,sistema,de.
1

·conte.údo universal ifsistema de conceitos). (ião


pode/ pott.anters~r;reâlitaiJe (19431Y,q..r7}.

Comessaalu.sã0,<l-djelmsJevselreferia,.comrazão, ao
fracassodos·inúmeros projetos d~.uma liriguagemui;iiversal desde
o séculoXV:I, mas; 'ao mesmo tempol caiu, vítima·da mesma
absolutização dó ctógma daarbitrariedade,.assim como Saussure.

Forma esubstância de expressão

No plano de expressão· de uma Iíng ua falada, 0 sistema


fonológico.éa sua substância de expressão;·ü.sistema dMela,.
çõesabst~atas subjacel'lte·é sua forma de..expressão; Emdfn..
guas com uma ortografia relativamente autênotna em relaçª0 à
pronúl'lcia, cdmrno il'lglês e o francês,alínguaêscrita·difere da
falada tanto na substância como !'la forma,de'expressão. Emou,.
troscasos, uma.ffamesmáforma derexpressãopode sernani.;.
festar em diversasfor:mas de c011teúdo(Hjélm5lev; 1954:49-50).
Por exemplo, a língua falada e sua transcrição fonética' 1 a 1 são
duas substâncias manifestando;µmaforma. Outrosexemplds dê
diversas substâncias manifestando utna form.asão transliteràçqes
66 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

de uma língua escrita alfabeticamente em um alfabeto Morse, a


um alfabeto gestual ou a um alfabeto de bandeiras.

Função sígnica, signo esímbolo

A definição de Hjelmslev do signo como forma pura e


seu conceito de função sígnica são baseados numa revolução
do dogma semiótica tradicional de que o signo é algo que está no
lugar de outra coisa, a/iquid pro aliquo.

A função sígnica e referencial


Hjelmslev rejeitou a definição comum do signo como uma
expressão que se refere a um conteúdo externo a ele mesmo
(1943:47..8). Seguindo Saussure, ele definiu o signo como uma
entidade gerada pela conexão indissolúvel entre uma expressão
e um conteúdo:
Uma expressão é expressão somente pelo fato
de que ela é expressão de um conteúdo, e um
conteúdo é somente conteúdo pelo fato de ser
conteúdo de uma expressão (Hjelmslev,
1943:48-9).

Hjelmslev chamou esta interdependência entre a forma


de expressão e a forma de conteúdo 9e uma relação de
solidariedade. A forma de expressão e a forma de conteúdo
também são definidas como os functivos de uma função sígnica
(Hjelmslev, 1943:47-8, 57).
A função semiótica tradicional de referência foi rein-
terpretada por Hjelmslev como uma relação entre forma de con-
teúdo e-substância de conteúdo: "O fato de que um signo é um
signo de algo significa que a forma de conteúdo de um signo
pode incluir este algo como substância de conteúdo" (1943:57).
Portanto, a referência extralingüística é projetada na esfera do
significado. Este princípio se tornou um dogma dos neo-
HJELMS~EVEAESTRATIFIÇÂQÁÇ)... 67

hjelmslêViarios, comoGreiínas é Eéo. Porém, Hjelmslevfoi;mais


além na' revolução do<cohceifü de signo; Bas'eando';se na sua,
assunção de um· paralelismo estrito entre os;plários de expressão
e de conteúdo (ver p. 76), ele'chegou ~lêónéh.Isão de 'que tambêm
há umâ referência da forma de expressão na swl:lstância de
expressão:

© signo ·é, então; por mais:paradoxa/' que·possa


patecet1 urtrsigrío para urria substância dii con,.
teúdo .e ,um signo pata urna substância· de ex-"
pressão. É neste sentido quê o signopodê ser
dito um signo de algo.[. .. ] O signo é uma en-
tidade com duas faces;Mmutnãp'etspectiva; ~
maneira de Janus, indo em duas direções, e, com
efeitoi,em dois sentidos: "para fora" erri. direção
à substâríGia d<:texpressão e;''para dentro" em
direção à substânoiadeoonteúdo{Hjelmslev,
1943:58).

Signo e figuras

::Signos não são os constituintes finais de sistei;nps, lin,.


güísticós."Existem cénstituintes menores; míriimosem ambos
os plàh0s,do signo. Hjelmslev definiu estes elementos semip.;
ticos, qwe ainda não são signos mas·somente parte de.signos,
como:figuras (1943:46). Num outro lwgâr (1973:144, 175, 234),
Hjelmslev chamou estes elementos de componentes sfgn~cos.
Os componentes sígnicos do plàno de expressão (as
figuras de expressão) da língua são seus fonemas, mas Hjélmslev
preferiu o termo cenema(do gr. kénos"vazio", i. e., não contendo
significação) (1937:157). eom esta inovação terminolégiça,
Hjelmslev queria expressar a idéia de uma entidade de forma
pwra, enquanto o termo fonema têm a desvantagem de ser
associado a uma entidade de substância·fonéticél: Assim,
68 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

cenemas podem também se manifestar em substâncias escritas


ou gestuais. O estudo dos cenemas é chamado cenemática.
No plano de conteúdo, os componentes semânticos dos
signos ou figuras de conteúdo são chamados pleremas (do gr.
p/éres "cheio", i. e., contendo significação). A semântica
estrutural adotou mais tarde o termo sema (ver p. 169) ou
componente semântico. Um exemplo da decomposição sígnica
de Hjelmslev em dois planos é sua análise da forma inglesa [am]
(Hjelmslev, 1957: 111; 1973: 145). Ela consiste em duas figuras
de expressão, a e m, e cinco figuras de conteúdo, a saber, "be",
"indicativo", "tempo presente", "primeira pessoa" e "singular".

Homologia versus diferença dos planos

Hjelmslev enfatizou tanto as homologias quanto as


diferenças entre os dois planos da linguagem. As homologias
consistem nos paralelismos formais entre as entidades que
constituem os planos. Ambos os planos possuem os estratos de
forma, substância e matéria, ambos possuem figuras, e há outros
paralelismos formais. Hjelmslev concluiu: "Os dois planos da
linguagem possuem uma estrutura categorial completamente
análoga" (1943: 101 ). Por outro lado, as estruturas dos dois planos
de um signo lingüístico são necessariamente diferentes. As duas
figuras de expressão do signo am, por exemplo, não são de
maneira alguma homólogas às cinco figuras de conteúdo deste
signo. Portanto, os dois planos de um signo lingüístico "não podem
ser mostrados como possuindo a mesma estrutura, com uma
relação um a um entre os functivos de um plano e os do outro"
(ibid.:112).

Signo versus símbolo

Nem todas as entidades que são chamadas signos, no


uso corrente, possuem dois planos estruturalmente independen-
HJELMSLEV EAESTRATIFICAÇÃO... 69

teso Muitos signos não-lingüísticos não podem ser decompostos


em elerrfentos mínimos de éonteudo M expressão. E:xemplôs
disso são O semáforo, as' peças: de xadrez OU 0S r\(fmefüs
arbitráriós de um registro (Hjélmslev, 1948:34). Nestes casos,
há uma relàção um a um entre as fotmas:(::fe:êonfeúeo e de
expressão (Hjelmslev, 1943:113}. O"vernielhó" clo sinal detrãnsitó
corresponde a"pare", o "verde" a "siga" e b·"árnârelo" a "aten'çªo".
Não há outra" a'rtiéulâção em segmentos dê expressão ou contéudô
menôrés. Tâisfenômenôs sígnicos nãOsâó,,portantb, biplanares,
mas monoplanares; émbora pôssuâm tanto cônféúdo (:]Uarífo
expressão. Hjélmslev (194·3:114)os definiu domo "entidades não;.
semiôticasinterpfetâveis": Na sua térmiriôlàgia, estas entidades
moMplanáres com úmà isómoMiá,dê éxprêssaó"-contMâõ 'sâ'o
definidas éômo'símbdlós; ·efaq~âí:llb'otermo:,s/gn0, na glósseP
máliêà ,''é' restrito a enticláâês1sêrniôtiêâs 'Biplanâre·s, decompos-
tas duplamente.

Digressão: Ungbagerfí·;é códigos não-verbâis 1

os exemplos <:1Uê~Hjélmslev deu para sistema~ semf:õtP.


cds não-verbais são po1:1co désêí:lvblviMs; Á: ideia "dê êS!údar
códigos não-verbais em àhalôgià rigorosa ac:)'sistema'lingü'íst1G0
foi perseguida mais sistematicamenté, depois de Hjelmslev, por
semioticistas tais como Buyssens (1943),'Priefo (1966; 1968),
Eco (1968; 1976) ou Mounin (1970a}.

feoria da articulação dos oodig0s

Á teoria da articulação dos, códigos elaborada nesta


tradição tem alguns elementos não glossemáticos, principalmente
na teoria dá duplaartibulàção da linguagem deÁndré 1Martinet
(1960) e dos códigos semióticos. Aexpréssão duplaartiou/a'çã0
se refere à idéia de (:]Ue, na língua, há uma divisao·nrtida entfe
70 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

dois níveis de elementos que se distinguem por sua função


semiótica. No nível da primeira articulação, há palavras ou
monemas, unidades, portanto, que têm significado; no nível da
segunda articulação, a linguagem tem elementos mínimos não-
significantes, os fonemas ou grafemas. Os dois níveis parecem
semelhantes aos dois planos da expressão e do conteúdo de
Hjelmslev, mas não o são. No modelo da dupla articulação, o
nível da segunda articulação contém apenas os elementos
mínimos da língua, os fonemas; além deles, inicia-se o nível da
segunda articulação. No modelo de Hjelmslev, os dois planos
são inteiramente paralelos: o plano da expressão não é restrito
ao nível dos elementos minimais, mas estende-se sobre todos
os demais elementos da língua, na medida em que estes são
considerados do ponto de vista da expressão e não do conteúdo.
Com essa diferença, a teoria dos códigos aceita de Hjelm-
slev a distinção entre as figuras e os signos, mas distingue,
entretanto, um terceiro nível na hierarquia do sistema sígnico
chamado sema. Um sema é essencialmente uma proposição (o
dicente peirceano), uma combinação de um argumento com um
predicado. Dessa forma estendida, a hierarquia dos elementos
no sistemasemiótico fica assim composta: figura, signo, sema
e texto (ou mensagem). Analisemos, com tais instrumentos
semióticos, as estruturas de alguns códigos.

Códigos sem articulação

Comecemos com códigos que constituem aquilo que


Hjelmslev denominava símbolos, códigos tais como as peças de
um jogo de xadrez, onde cada elemento do sistema é signo e
sema ao.mesmo tempo e os signos não são segmentáveis em
figuras.
O protótipo de um tal código seria, por exemplo, uma
nomenclatura, tal como Saussure a discutiu: cada objeto seria a
expressão sígnica de só um conteúdo. A estrutura desses có-
HJELMSLEV EA ESTRATIFICAÇÃO... 71

digas e pouco econômica:porque precisamos de tantos signos


quanto semas e tantos ,elementos de expressão quanto de,
conteúdor Um exemplo de tal códigmé a '\língua dás flol'.es", no
modo como'se encoAtram codifica'das em tratados 0e:i.culturà
popular. Num tratado alemão (Billig &Ust, 19.7'4), por exempl01'
encontramos uma lista de 500 flores, cada uma com um sentido
diferente,$emqualquer estruturam?m nq;plano da,expressãõ
dasJlores~ nem no plano do conteúdo; o sema atribuído .à J:osa
vermelhsií porexemplo, .é "a vitória é sua" ê .0 sema atribuído~à:
alface é ':dê-me sua opjmião".
Eco (1973:10) e Martinet (1982:170}apresehtam oçógigo
do semáforo como exemplos de um código sem articulação. As
unidades de expressão "luz vermelha", "luz amar~li;i" e "lu;z v~rde"
estão associadas às seguintes unidades de conteúdo: .. ~àre"~
"prepare-se" e "avance". Não há distinção entre.sarnas, signos
ou figuras. Porém, se a combinqção '.'l,4zv~fm~lha" com "l~z
amarela" é considerada parte do sistema com a significação
"prepare-se para passar", ô código jâ'têm um 'sêmà segm~~tável
em dois Signos, ta~to nq ~lano ga e;p~~S~ãq qu,ª'nto no plano QO
conteúdo: Outra extensãÓ dest~ código é' ·a luz àmare!a
intermitente, com o sigr:iifiõado "àtênçã<:>":1âqüi, :cfcóâigo contém ·
um signo (e sema, ao mesmo tempo) não segmentável no plano
de conteúdo, mas segmentável no plano de expressão. Os seus
elementos.são não:significantes e; porta9to, figuras ("luz amarela
breve",'ipausabreve", "luz. 1.").

Oódigossem prim~ira, mas comsegunda artiCtJ/ação

Com as últimas extensões dos códigos sem articulação,


chegamos já aos: códigos .sem primeira, mas cotn,uma segL.Jodà
articulação. Qualquer sistema em ordem arbitrária é um tal código.
Uma biblioteca, por exemplo, com25{423 livros; dos,quais cada
um tenha um número de 1 a 25"4231 .seria um código das.se tip.o.
No plano de.expressão, cada número çomplexo.é,um signo, eias
72 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

cifras de Oa 9 são as suas figuras. No plano de conteúdo, não há


estrutura nenhuma. Observe-se, porém, que sistemas deste
gênero são menos comuns do que parece. Já quando os tais
números são distribuídos pelos livros, na ordem cronológica da
compra, temos uma estrutura de conteúdo que seria a cronologia.
Um exemplo mais extenso de um código com segunda articulação
não-numérico é o código do pavilhão marítimo internacional. Este
consiste em combinações de três tipos de bandeiras sem
significado, uma em forma de um círculo, outra um triângulo e a
terceira, um quadrado. Entre as mensagens produzíveis com
· esses elementos, temos:

O D V Sim.
Ü '/ '/Não.

Q '/ Você está em perigo.

'/ Q Escassez de comida. Estamos com fome.

O D Fogo ou vazamento. Precisamos de ajuda imediata.


D Q '/ Há telegrama ou notícias para mim?

Vê-se que os signos (e, ao mesmo tempo, semas) são


segmentáveis em três figuras de expressão, enquanto no plano
do conteúdo tal segmentação seria impossível. Os semas não
são semanticamente segmentáveis em signos ou figuras de
conteúdo.

Códigos com primeira, mas sem segunda articulação

Nesse tipo de código, as mensagens (semas) podem ser


segmentadas em signos, portanto, elementos significantes
menores, sem que haja figuras. O exemplo de Prieto é o código
HJElMSL~EA l;STRATIF!OAQiO ... 73

dos sinais de trânsito. Por exemplo, o sinal que proíbe o trânsito


aos motoristas d.e motocicletas, consistinpo numaA~laca redonda,
branca no centro, vermelha na margem e.corn 4m desenho preto
de um motociclista no centro. Tais elementos são signos tanto
ao:nível.dç1 expressão quanto ao nível do conteúdo. Os signos
se c9rnbi11am ,em um sema que significa aJnter.diç.ão p.ara os
motooicltstas, ma.s nijo há elementos ao nível ·das figuras q4e.
s.ejam segmentos·distintivosda mensagem,e que não possuam
significado: ,

Cóçlig0$ com dupla adiculação

Gódigoscom dup!c!articulação, além dalíngua,,e~lslem


sobxetudo na catal9gação ou em;registros sistemáticos. !Jm pri-·
meiroexemplo·seria o catálogo de umadoja de,roy(las no.ql.laLàs
peças de:'lestuário são, codificadas em três grupos de números:
o pri,meiro p,ara .otipo,de. roypa,.o se]undo para:o tamanho e o
terceiro,paraa cor,(terfamos, p.ocexeroplo; um código do tipo28/
40/07para camisa '!281', de tamanho !'401' e ele cor.azul ''OT'), Q
número inteiro é u,m·sema com três sjgnos, o.q!:le significa,ijUffa
mensagem temumnJ'lel de primeira articula~ão.Se<l28" 1:tum
entre .86 tjpos ·p0ssíveis· de roupas·,.se "40:Josse um entre52
tamanhos possíveis·e '.'OT' fosse uma entre 12. cores possí~eis,
esses signos provariam que h.á uma segunda articylação ..G.ada
um dos três grupos de números é segmentável erTJ figurasde
e}'.{pressão, as cifras de Oa 9, que não apresentam rnlaçãooom
o conteúdp do signo. Afigura ''.8" no grupo."28" está tanto sem
relação com o conteúdo de "camisa': quanto a letra '.'c" na palaV,ra
"camisa".

Cara~terísticas serniétioas da lirigµagemi

Voltemos à teoria propriamente dita de Hjelmslev:e.


completemos a desct:tção da diferença,entre os có<:ligos.verbais
74 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

e não-verbais, nos quais o critério da dupla articulação é só um


entre vários. Hjelmslev (1943:109-14; 1948) distingue, no total,
cinco critérios entre os quais já discutimos alguns e que resumimos
a seguir:
O primeiro critério é a existência de dois planos. Só é lin-
guagem o que tem um plano de expressão e um plano de conteú-
do, cada plano estratificado em forma, substância e matéria.
O segundo critério de uma linguagem é a existência dos
dois eixos de processo (ou texto) e de sistema subjacente ao
texto.
O terceiro critério caracterizador da linguagem especifi-
ca as relações entre os elementos do plano da expressão e do
conteúdo. Conforme Hjelmslev, essas relações são ou de
denotação ou de comutação. Nas relações sígnicas de denota-
ção há uma relação um a um entre os elementos da expressão e
do conteúdo. No nosso exemplo do catálogo sistemático,
encontramos tais relações. Cada grupo de números estava ligado
a um novo significado. Numa língua natural, o vocabulário básico
de formas simples manifesta este tipo de relação entre elementos
de expressão e de conteúdo. Enquanto a relação de denotação
estabelece relações entre elementos de dois planos diferentes,
quer dizer, de plano da expressão e do conteúdo, a relação de
comutação relaciona dois elementos do mesmo plano que podem
substituir um ao outro (Hjelmslev, 1943:73). Consideremos o signo
da língua inglesa am ="sou". No plano da expressão, este signo
contém duas figuras, os fonemas [m] e [m]. Cada um pode ser
comutado por outros elementos do plano da expressão. Por
exemplo, a comutação de [m] por [t] dá um novo signo, at; a
comutação de [re] por [I] dá o prefixo im que ocorre em palavras
tais como immature ou immense. O princípio da comutação no
plano do conteúdo produz resultados diferentes. As figuras de
am, neste plano, são cinco: 1) "be"; 2) "indicativo"; 3) "tempo
presente"; 4) "primeira pessoa"; e 5) "singular". Comutando, por
exemplo, "tempo presente" por "tempo passado", sem mudar as
HJELMSLEV EAESTRATlflCAÇÃO:.. 75

outras figuras, obtemos o signo was. A comutaçã'o de "bef por


"andar" dá o signo walk.
O quárto crit~rio caracterizadorda linguagem é que há
certas relações de dependência ehtre os'elementos do sisfema e
dotextot Hjelrnslev (1943:24) distingue três tipos de dependêriciar ·
interdependências, determinações.e constelações. '/ntetdepen-
dência é a relação de dependência mútua entre dois elementos,
quando um elemento pressupõe o outro e vice-versa. Por exemplo,
vogais e consoa·ntes são interdependentes'no sistema da
linguagem. Não há língua sem vogais, nem língua sem consoan-
tes. Determinação é arelação de dependência unilateral; tal como
na regência gramatical, na.qual a pessoa·grarnaticál'deferrriinaa;
for:ma do verbo. Constelação é uinmrelação de dependência'
relativamente livre,entre dois elementoscompatíveis,mas não".
necessariamentegustar:>ostqg, numa,daâa cornbinaçãm
Oiquintocritéri0 hjelmsléYiar:rôdê:urna liAguagern·é ó
critério de,não~confi:>rmidade,entre;os planos do cor;iteúdo:.e da
expressijo{Hjelmslev; 1948:112)"'.<:lcritérioé telaciênadpao,ql:Jeg,
mais tar:de, foi diseutido .eomo,.o princípio damiatividade·
lingüística: Não-coritormidade signifiea: que, os·.elememtos,C:Je
expressão não têm de ficar sempre conectados édrn os,mesm0s
1

elementos de conteúdo, como é o caso do sistema de semáforo.


Em vez de uma relação um.a um entre os elem.entos d0s dois
planos, as línguas manifestam urna.pluralidade de relações e
combinações possíveis que dão ,origem a uma il.imitada
possibilidade para a expressão de novos signos e rnensagens na
glossemáticà.

A definição semiótica da dicotornia .conotação.. der;10ta- ,


ção é fundamental ern Hjelmslev, cuja teoria da cqnotação se
tomoa a ,base ·de uma escola semiótica de estétiea e teoria
literária.
76 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Denotação, conotação e metassignos

O modelo sígnico glossemático (Figura H 1) é o modelo


de um signo denotativo (1943:114). Hjelmslev concebeu outros
dois tipos de signo mais complexos do que esse modelo básico:
o conotativo e o metassígnico, mais geralmente, os modelos de
uma semiótica conotativa e de uma metassemiótica.

Estrutura da semiótica conotativa e da metassemiótica

Essencialmente, o termo conotador, de acordo com


Hjelmslev (1943:116), se refere a uma unidade semiótica de estilo.
Conotadores pertencem a sistemas semióticos chamados
semiótica conotativa. Exemplos são as diversas subcategorias
de estilo, incluindo "tom, vernáculo, língua nacional, língua regional
e fisionomia". A característica comum a estes fenômenos é que
seu valor estilístico é uma adição .semântica a uma forma
semiótica primária. Portanto, estilo (a conotação) é interpretado
como uma semiótica cujo plano de expressão consiste de
elementos denotativos da língua e cujo plano de conteúdo consiste
dos valores estilísticos:

Portanto, parece apropriado considerar os cono-


tadores como conteúdo para o qual as semióticas
denotativas são expressão, e designar este
conteúdo e esta expressão como uma semiótica,
a saber, uma semiótica conotativa (ibid.: 119).

O conceito de metalinguagem ou metassemiótica de


Hjelmslev corresponde à definição lógica do termo como uma
linguagem sobre uma linguagem (primária) (ibid.:119-@). Na ló-
gica, esta linguagem primária é denominada linguagem objeto.
Na semiótica de Hjelmslev, ela é uma linguagem denotativa. Toda
gramática é uma metalinguagem, pois ela descreve uma
HJELMSLEVEAESTRATIFI0AÇÃO... 77

linguagem natural (objeto). Já que.a metalinguagemforma novos


termos·e nova terminologiá sobre umalingUagerp objeto,,sua
adi&ão específica a esta.primeira'linguàgem'objeto consiste Aum
novqi1pla,0ode expressão. Q pl;mo de conteúd0,associado a este
(terminol0gicamente)novo·plano de expressão é precisamenteg
vocabulário da:linguagem objeto. Termos metalin·güísUcos são
elementos de uma "expl'essão" .e designam1:ôs signos de uma
linguagem objeto (denotativa).
Na;diferençáentre:.semiótica·eo.notativa,e métassémió".
tica,·ijjelmslevdescobriu.oseguintftparalelismo estrutura.I:wma
semiótica .conotativa é uma "sen:iiõtica cujo .p.lan o,de expressã,<t;
1

é uma semiótica", e uma metasse1piótica;é 1aquela ''cujo plano;cle.


conteúdo é uma semiótica1'.: ( 1943: 11 ~l em outras. palavras,'sigra0s
conoti:ifüvos e metassemióticos sã,o sig1ws1que contêm .um Sigf:r<;>
semanticamente·mais :Primitivo.:tant<l'J:m:1pla1:10 de·exprêS$âó
quanto no de con;teúdo .. !De aêQrdo oôrp;iSS0i' l:ltr:Ja, semiétiqa,·
denot9tiva é "Uma semiótica1daquabnenlàum dos.plaAosé;,u11lª ·
semiótica!' (ibid.),.Barthes répreser:itou estas. três:.estruturas
semióticasinaforma de diagramas. mpstrados nas ~ig.uras B,1 :e ·
B 2{verp,H-.Y~8).

A te.or:ia da conotação de bfit,Jmsl(Jv

() diagrama populár de·Bârrttles (verp:i1'47) do sign0·co..


noti:itivo é restrito inteiramente'ao,esquema básico. de Mjelmsl~v
dosigr:10 coAotativo como umrsigno "cujo placio de exptessã01é
umasemiótica"; HjelmsleV:, no entanto, própôsoesboçffde uma
teoria di:i conotação m1:1itó mais elaborada, derivada .do prinóípio
glossemático.da diferenciação entre quatro estratos tanto do signo
denotativo quanto do conotativo (1943:116-25).
Assim, a extensão.conotativa dmsigno.denotativo pode
ser: 1) de forma denotativa; 2) de substância denotativa; e 3) de
forma.esubstãnciadenotativa (ibid.:11'6; vertambém p. 89). Na
expre~são dinamarq1:1esa "Jeg elske dig",.o dinamarq0ês, por
78 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

exemplo, é uma forma e uma substância denotativa e estas cons-


tituem uma expressão conotativa cujo conteúdo é o conotador
"dinamarquês" (ibid.: 118). O processo de descoberta dos
conotadores é a tradução. A tradução do texto dinamarquês ao
inglês("/ /ove youj muda seu conotador, mas não seu conteúdo
denotacional. O conotador"dinamarquês" é, portanto, uma forma
de conteúdo conotativa, já que ele é estruturalmente oposto a e
forma um paradigma semiótica com outros conotadores como
"francês", "alemão" ou "inglês". Como uma ciência de forma pura,
a semiótica glossemática está restrita à análise neste nível de
forma de conteúdo, que se restringe a especificar essa conotação
como sendo parte de um paradigma de nacionalidades diferentes.
O estudo das substâncias de conteúdo conotativas ou até da
matéria de conteúdo não é seu objetivo. Hjelmslev mencionou
que tal matéria de conteúdo conotativo poderia consistir "das
presentes noções de caráter social ou sacro que o uso comum
liga a conceitos como língua nacional [ ...] etc." (ibid.:119).
Conteúdos conotativos podem, além disso, ser restritos
a um dos dois planos do signo denotativo. Neste caso, Hjelm-
slev fala de sinais: "Um sinal pode sempre ser referido claramente
a um plano definido do semiótica" (ibíd.:118). Um conteúdo
conotativo associado ("solidário") somente ao plano de expressão,
portanto formando um sinal na forma de expressão, pode ser
exemplificado pelas características pára-lingüísticas, tal como
a qualidade pessoal da voz de um falante, por exemplo, aquelas
pelas quais a 'voz feminina' é distinta da 'voz masculina' ou 'da
voz de uma criança'. Oconteúdo conotativo deste sinal é baseado
na substância de expressão denotativa. Somente esta substância
muda com a qualidade vocal, não a forma de expressão.

Conotação como um princípio estético

Johansen (1949), Stender-Petersen (1949:1958), Soren-


sen (1958), Jansen (1968) e Trabant (1970) (ver também Busse
HJELMSLEV EA ESTRAIIF:iôAÇÃO.,. 79

1971 e lhwe 1912a) desenvolveram a teoria dá conotação de·


HjelmsléV em· uma estética glossemática da literatura: ô
denominador comum dessas abordagens é a assunção de que
um texto, se considerado como umaobrá âé arte, é'. üm plano dê
expressão estético conotando um conteúdo estético. Existem
diversás interpretações q·uantõ à natureza dos elémenfos dos
plaliós éstétiêos de expressão e' de cõhteúdõ.

Conotàdotes éstéticôs simples

Joh9nsen di$tingue e:ntrt3 cqno.t1:1dores esté{ic9s $Jmp/es


e complexos na literatura (1949:292-93, 301). Con9\9dores ' ", s

estéticos simples são signos cuja expressão consiste de somente


uni dos quatrõéstratos do'signo:denotativoi (Nalermiholbgia de
Hjellilslev, estes seriam sinais; ver p. 88,) Daí. resultam osquatrõ
tipqs possívei.s de cqnotadores simples.:

1) Conotadoré~r·simples baseados na substâhciade


e)$pre~$ã(:). Os c,c:~not?.ÀQ(es d~~te plano do signo são as estru-
turas qa rirm~ e qe yalpÍi~t eiprt3ssivos dos sons ver9ais.

·2) C01iotadbrés simples" derivad0s da forma de ex-


pressão denotativa, Êstes,conótádoréssã'o os efeitos do ritmo,
pois "são expressos por relações entre os elementos da ex-
pressão denotativa", Esta distinçã0 entre conotadores da subs-
tância e daforrría dé expressão lembrá a distinção dé; Peirce entre
imagens (ícones Baseados em substância~ e diagramas (ícones
baseados éni relâçõés estruturais, portanto, eni forma).

~) Co11otadores simples bªseado~ 11ª form 9 de coQteú.do


denotativa.- $ão li.CellÇ.~S p.o~ticas na semântjca QU na sinta~e·da
líng\Ja (figuras pqªticas etc.), já que·e1as são independente$·d~.
estrutura métriçr;1 do ven,o.

4) Conotadores simples baseados na substância de con~


teúdo denotativa. Estes conotadores são obtidos do estudo das
80 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

"idiossincrasias materiais e intelectuais do autor, de suas pre-


ferências por certos temas", e seu efeito especial sobre o leitor.

Conotações estéticas complexas

Em contraste com conotadores estéticos simples,


conotadores estéticos complexos, de acordo com Johansen
(1949: 292, 298, 302), têm o signo denotativo com todos os seus
estratos como base de sua expressão. Além disso, este signo
conotativo é estruturado em quatro estratos:

1) A substância de expressão conotativa é formada pelo


signo denotativo.

2) A forma de expressão conotativa é sua estrutura


estético-verbal específica.

3) A forma de conteúdo conotativa consiste das relações


entre os elementos do conteúdo conotativo.

4) A substância de conteúdo conotativa é a "estrutura


psíquica autônoma" da "experiência estética" (ibid.:298-99). Ela
é manifestada em reações espontâneas, emocionais ou em
reações refletidas, na forma de interpretações.

Com esta teoria das conotações complexas, Johansen


estende a estética glossemática até uma teoria da recepção li-
terária. Como o signo glossemático de Hjelmslev, o signo esté-
tico complexo de Johansen é um signo no qual "a forma é o ele-
mento constante e a substância o elemento variável" (ibid.:302).
Isto é assim porque a experiência estética varia individualmente,
enquanto "a rede invariável é o complexo de signos como
estrutura formal". Esta teoria da interpretação como substância
de conteúdo literária é retomada na semiótica da literatura de
Trabant (1970), mas este interpreta a natureza da forma de
conteúdo literária de uma nova maneira. Na sua visão, a forma
HJELMSLEV EA ESTRATIFICAÇÃO... 81

de conteúdo estética é uma forma vazia "já que o texto [literário]


não expõe sua significação. A significação literária existe
somente em cada criação real desta significação por intérpretes
individuais. As unidades preenchidas com significação pelas
interpretações, contudo, existem como unidades vazias,
independentes da interpretação" (ibid.:274).
111

DO ESTRUTURALISMO SEMIÓTICO
À SEMIÓTICA FUNCIONALISTA:
A ESCOLA DE PRAGA
E ROMAN JAKOBSON
Função: e. ,abo.rdagens ifuncionali.stas .
dos 1sis.temas semiótico.s,

Função é um termo-chave das ciências humanas. ,!i)e


modo geral, ele aparece relacionado a conceitos tais como rela-
ção, objetivo ou finalidade. Otermo,po.de sereqcontr.ãdotam-
bém tanto nas. ciêm:ias biológicasje sociais quàato'fla matemá-
tica e na lingüística. Fançãoé muitas vezesopostá,à;estrutura
ou à forma, assim como funciona/ismo é freqüentemente oposto
ao formalisroo;,filas.:essa aJternativa,é artificial e não:exclusiva:
em ,verdade, nãp há 'e.stnuh:iras sem fonçãoJmum. sistema
semiótica, nem há funções,sermestruturasi(ver: ~och; 1988~:40),
No ãmbifo:dos ,estuâosisemióticos,+ a plur;alidactedas.
definições de função pode·senredUzida, s~mprejuízo,. a du.as ·.
abor.dagens qµe gosJaria de caraeterizàr com as seguintes
expressõest,fuaçãoest~utut:al e funçã0pragmática.
O olhan.éstrutur.al .das funções semiptiéas te-m suas raí-
zes no conceito lógico-matemático. Nele, uma função é
essepçialme~te yma relaçijg entre elem~ntos 9.u valores variá-
veis. Para ~)~Ír;tisl~v (194~:4 7~~}. pqr ~xemplo, afµnção sígnica
é a. relação entr;e.ppi~ f~Activos 1 µm ,n<;> plaqo da:expressão e
outro po plano do conteycio, dg sistema semiótiço.
A tradição funeionalista da semiótica tem ,sua fundamen-
86 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

tação teórica no estruturalismo da Escola de Praga que, por sua


vez, tem algumas de suas raízes no Formalismo Russo. No
desenvolvimento desta semiótica funcionalista, a obra de Roman
Jakobson desempenhou um papel unificador.
A semiótica funcionalista se definiu parcialmente em
oposição à tradição estruturalista do paradigma semiótica de
Saussure e Hjelmslev, paradigma este por ela criticado devido à
sua abordagem estática dos sistemas semióticos. 16
O sentido relacional também está na base de conceitos
como função gramatical ou função textual. Elementos que de-
sempenham tal função são vistos nas suas relações com outros
elementos ou com a totalidade da frase ou do texto. Nas de-
finições deste tipo, função e estrutura chegam a ser sinônimos.
Benveniste (1966:20-1) até define a estrutura em termos de
funções:

Aquilo que dá à forma o caráter de uma estrutura


é o fato de que as partes constituintes cumprem
uma função.

Enquanto a abordagem estrutural de função relaciona um


elemento semiótica ao texto ou sistema do qual faz parte, a
abordagem pragmática relaciona o elemento semiótica ao
contexto comunicativo, à relação do emitente do signo com o
seu meio ambiente, principalmente ao receptor.
Ê nesse sentido que a lingüística funcionalista vê a sua
abordagem ~m oposição ao formalismo dos estruturalistas.
Martinet (1979:142), por exemplo, escreve; "Um funcionalista lin-

16. A abordagem funcionalista nem sempre é reconhecida pelos


historiadores da semiótica como geradora do paradigma semiótico
do século XX. Sándor Hervey (1982) só fala de uma semiótica
funcionalista ao se referir aos estudos semióticos de Buyssens,
Martinet, Prieto, Mounin e à sua própria teoria dos índices.
DO ESTRUTURAl:,ISMO .SÊMIÓTIC0 À SEMIÓTICA... 87

güista é alguém"qúe quer determinar como os· loeuto.res· conse.: ,


gueni atingir osseus·fü1s eomu'nTcativos pm meio.de uma lim
guagem/estando,disposto a:classlficar e'hierarquizâr os fatos
desta maneira; mesmo à custa, de'entidades formâis". 0s re;;
sultados das duas abordagens do tema das funções serfüótieâs
são bastante diferentes. Examinemos, no entanto, ambas as
abordagens e sua relevância para as,várias córrentes,seniiótieas
do século XX, começando eom alguns 8$pectos funcionaUstªs
na·Escola de Praga.

O funcionalismo semiótica ele Praga


e suas· fontes ,no f ónnâlismo:, Russo

A Escola de Praqê foi fundada em t926 sob omómex:.lê ··


Gere/e tinguistique;rcJeJ~nag1.1~~~~tre~I~usmemor.qs prineipais
estãtrV. Máthe·si1:1s ~1882~1946),,B:4n~Yráti~t(t89fü-19'l8,), Jªni
Mukatovslcy; (189r1i-í19?5). e,·.de l920:a'19,39,rlR0man dciij0bs0n,
(ver p. 1O~). Foi ateoria estrutura lista dàilingúagerirdfülâkobsôn·
que teve. a infllálêt:ieia maisi·diréta~ rro desenv.o.lvinientordo1,
estnJturalismoJrânêês.;1{
As'contribuiç0es da Es.cola de.Hragacà lin.güística POt(
dem serencontradas.no,campó da fonologiae,dalingüístieatex.,
tuaL A descoberta,dos traçàs distintivos como "átomos 0a lín..
gua" e os princípios f1.mcionais da ànálise fonológica cot:ittibu{ram
significativamente par:a áJpesquisa:.estr:gtural em:sistemas
sígnicos. Apesar do seu. nonie., C~ro/e Linguistique,: a fscola"'de .·
Praganãoserestringiu,aosestudosdingüísticos.Sobrêtudo,os.
trabalhos de Jakobson e Mukarovsl<y constituíram contribuições

17: ·SobretrabalhosdàEscoladéPtaga,ver1Garviaiecq1964), Vachek


(196q); Vaqhek, ed.(1964),Szemerényi (1911), Helbig (1974),
Lepschy t1975), Ballert &Ohlin,,eds. (1978), Toledo, org.(1978)
~ Luelsdorff (1994).
88 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

importantes para uma teoria semiótica da estética, da literatura,


da poesia e da estilística (ver Chloupek & Nekvapil, eds. 1993).
As raízes da semiótica estética praguense encontram-se no
Formalismo Russo, ao qual Roman Jakobson pertenceu até sua
emigração a Praga, em 1920.

Elementos funcionalistas no Formalismo Russo

O Formalismo Russo teve dois importantes centros


acadêmicos: a Sociedade de Petrogrado para o Estudo da
Linguagem Poética (Opoyaz), de 1916 a 1930, e o Círculo
Lingüístico de Moscou de 1915 a 1921. Entre outros formalistas
influentes se encontram os teóricos literários Boris Êjxenbaum,
Viktor Sklovskij, Jurij Tynjanov, o lingüista Roman Jakobson e o
folclorista Petr Bogatyrev. 1ª
O objetivo dos formalistas era desenvolver uma abor-
dagem científica da literatura e da arte. Os oponentes do for-
malismo acusaram a escola de estar somente interessada na
forma (no sentido hjelmsleviano de estrutura) e negligenciar a
dimensão do conteúdo, mas, de fato, a abordagem dos Forma-
listas Russos era menos dirigida à descoberta de uma estrutura
pura do que ao estudo das funções da arte e da literatura no
contexto comunicativo. Entre os temas principais, estavam as
qualidades diferenciais da poesia e da arte em comparação com
a linguagem "prática" e com artefatos cotidianos.
A arte e a poesia eram estudadas como sistemas
autônomos que atraem a atenção para si mesmos e não podem
ser reduzidos ao seu conteúdo. Uma técnica específica designa-

18. Sobre levantamentos, ver Ehrlich (1955), Jameson (1972),


Eimermacher(1975), Fokkema &Kunne-lbsch (1977). Antologias
são Todorov,ed. (1965), Striedter, ed. (1969), Matejka&Pomorska,
eds.(1971),Toledo,org.(1971),Stempel,ed.(1972),Bann&Bowlt,
eds. (1973), Matejka (1978) e Schnaiderman, org. (1979).
ºº EsrRUlURA~1sMo seM1MJ~º A~.1=M1ôr1cA... ag

da pa·ra tornar uni texto uma olira deiarte foi châmàdalde recurs0:
De acordo com Sklovskij (1916), os recursos dàartê possüem
uma fünção cê Atrai de ''câúsàr:estranhamento" ·( ostranenie),
prodüzitidb ümá renovação tla pernepção dohtra o paho dMurtdb
dê pfocesso de autdmatízação, ·pelo qual nós: nos aêostliniâniõs·
a ações Erpercêpçõés,cotitliartas.
A bpósição;entre aútdmatização eestranhaniénto dês'-.
cr,evé dois môêlós déVer· omu·ndb seniiótido. A Visão auU5mati""
zàdá dos textos ê·dOs oojetos seniiótioos é determir:iãdã por:Ur:n ·
háoitôquenos impédedevér eâê sentir óssigttósi'Afünção,e"
os ·sighos1 são meràniéntê: instrumentais. Nó proôessoi· dê
estranham'ento ôêorre unia deforma'ção dos·sigrfüsqueinioiàum
novo máâá' dê ,ver·ãSthensàg(ms.1Na ri6vavisã0·dã mensãgêlllf
os:sigflds,já nãosãé instrumerit(fs,mas{é110menbs{éonsiâéradéís 1
por·sr mêsniós: O'~õt1ôeltó' de âUfoniatiíaçãb fói,. posteribrrhéAfê/
também empreggdo por Tynjâhov (1921) 'ha sua têôria da
evolução literária. Ele descreveu g literatura como um sistema
cujos recursos tendem a se automatizar, qúerdizer, perdem seu
efeito artístico como tempo. Gomo uma úôtisê~ã~héh:f;fü5~õs;
recursos inovativos são introduzidos no siste.ma para garantir
sua literaNéâaãe: Tais artifícids se 0põem;aos anteriore·s, que
eles substitúern: Assim/a literatufã se desenvolvEf oômo,urn
sistema dinâmico, integrando inôv~rções é'ãband0r:iaridb as
estruturas já automatizadas.
Essas consideraçQE3S pragrrJátióás MUncióh'ais dá arte
mostram que os formalist9s e~tenderam sua análise além do nível
fôrrnalista das estruturas imanentes à obra. Nas suas con.,
tribuições ao éstudó ·da· narratividade, os fürrhalistas s·e
preocuparamaté.corn estruturas de conteúdo. Um dos cónoeitos
mais influer:ités .neste can,po é a distinção' de Sklovskij,éntre
história (fà/Ju/à) e trama (syuihet). História é à sucessão de
eventos pré-diterária e, portar:ito, a matéria cruado artisfat TFarria
é a trànsforn,pção literária da narrativa naseqüênoiá determinada
pelas escolhas do narrador; Assim, o enredo é â:n,aheira pela
90 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

qual a narrativa é "tornada estranha". Ele é a transformação das


ações e eventos em literatura.
A abordagem mais elaborada do estudo das estruturas
narrativas na época dos formalistas russos é, com certeza, a
Morfologia do Conto de Vladimir Propp (1928; trad. port. Lisboa:
Vega, s.d.). A obra de Propp, o qual, normalmente, não é
considerado um formalista (cf. Meletinsky & Segai, 1971: 89),
representa uma abordagem tanto funcionalista quanto estrutura-
lista da semiótica do texto. O seu estruturalismo se manifesta
no seu método de restringir o estudo do conto russo a um corpus
fechado de cem narrativas e de determinar nelas as estruturas
invariantes e variantes, além de descrever as regras da sua ordem
sintagmática numa gramática rígida. O funcionalismo é aparente
na sua definição das funções narrativas, que são elementos
invariantes da narrativa determinados em relação a sua importância
para o desenvolvimento do texto.

A Escola de Praga

Seguimos, antes de continuar com a semiótica literária


e estética nesta tradição, com os fundamentos funcionalistas na
lingüística da Escola de Praga.

Funcionalismo lingüístico

Em oposição aos estruturalistas "puros", Saussure e


Hjelmslev, a Escola de Praga se recusou a considerar a linguagem
como um sistema sincrônico isolado de forma pura. Sua
abordagem da estrutura na linguagem se baseou em termos-
chave, como função e comunicação. Em oposição a outros
estruturalistas, os lingüistas da Escola de Praga especificaram
sua própria abordagem como estruturalismo funcionalista (cf.
Vachek, ed. 1964:469, Ducrot & Todorov, 1972:24).
DO ESTRUTURAL,ISMQ SEMIÓTICO À. SEMIÓTICA... 91

Entre as inovações prpgramátiqas cios ling.Ojstél~ dél.


Es.Gola .de Praga, .Gonstçltamqs s1.1a tentativa c!e sµperar ª
oppsiçã;ó entre est~tiea e dinâmica nél HngQístiqél si11qrônicélJ~
diaçrôniqa. Alinguagemié descrita cpmoum siste111ç1 funçignéll,
que serve:élQ qbjeti~q c!çi Gpmunioaçã0c Pqr este moti~o. osiste"'
mª lir:igüístiGo não'.pod~ perrnaiwcer est~tico, mas d~ve.manter
um ,equilíbrio dlnâmico. A abordélgern qjriâmiça d9:li,1;1gUélg~mJQj
tarngéro esJe11didª ao estl.ldRda ~tntaxe; e·dª.Jextosi ,¾Jeqria
pragueqse qa pfJf$peptivafuociqnal t:l(~çionql estuçla adistr:i!;>Ui<.;}ã:o,.
de. elementos de;uma,jnforrní:l~ãq dada (tfJJ1Ja) fünov.a (rema), r:io
dinam[$1Jl9. d.a textuªlic!ade, Ac!lstrit>1:1ição e P,rogress~o din~níiQf!
destes elemerJJos. ern,textos :são· de~çrit~1.s çorno di11 9mi~mp.
comunicativo.

A visão funcionalista dos elementos da língua

Com suapesqujsq..nq,çEirnRo daJpnpl9gic,1, Jrubetz;koy.


se tqrnou.o descoijridqr qa ~str1:1tyraatôíl1iça da liqg1.JageJn.:Ser
guindo asllferençiaç~9 ~aussureanaeo.tre lfrJgWlela/a,Jr1:Jbetz;~
koy intrqduz;iu .a dis!jnçã,q entre fonplogi? efonétlcª .t1939:7),;A,
fonética é o~estud.Q dos sons materiais e. sua articulaçã,o na,fala,
inçJepengentemente de suas prpprieçJadessistêmiGas. Afonologja
est4daps sons da líng.1.1a.corno elernent9sJ1Jnoionais ero µm,
sistema de forma e GQnteMP. (/af!gl)e}.
De um ponto.,de vi~tª fon~tiçp, urn número .quase ,i!itnl-
tado de diferenças fqnétiGas poqe ser descoberto:na anªlise dg~
sons realmente falªgos {f>ostenprrnente também Ghamad.os. f9nes);
A fonologia reduz estas diferenças àqµelas que têrn Uíí! pª(:)el
funGiom~I no.~istema, às chamadas oposições f,qoológiGas ..,Q
Gritério de funciona.lidacje é o efe)to da~ piferenç9s fônicas;na
significação. Este efeito é testado.p.ela ~ubstit4iç~oi.de,sons no
seu contexto .(teste e::0m4tacional): Cli;isses de sons, cuja
comut9ção:(substituição mútua).ern palavras Gauêadiferença;,
desjgnifjGação, são chamaqas fonemas. Em inglês, o~ sons t~I
92 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

e /0/ são dois fonemas porque sua comutação, no par mínimo


sin e thin; causa uma diferença de significado. A diferença fonética
entre as tricativas surdas /s/ e /0/ está no seu ponto de
articulação, que é dental em /0/ e alveolar em /s/. No entanto,
não é a diferença fônica em si que diferencia estes dois sons
como fonemas. A mesma diferença fonética pode não causar uma
diferença de significação em português ou alemão. Não há um
único par de palavras no qual a substituição de /0/ por /s/ (que
ocorre com falantes que sibilam) altere a significação de uma
palavra. Assim, em alemão e em português, estes dois fones
não são distinguidos como dois fonemas. Apesar da sua diferença
fonética, eles não se encontram em oposição fonológica.

Oprincípio de pertinência: da análise ética à êmica

O processo funcionalista de descoberta do fonema de


Trubetzkoy ilustra o princípio de pertinência (também relevância).
A pertinência se refere aos traços distintivos de estruturas num
sistema. Este princípio requer a distinção de diferentes níveis
de análise. A pertinência sistêmica no nível dos fonemas pode
somente ser decidida com referência a um nível mais alto de
estrutura lingüística no qual o fonema tem uma função. O nível
em que o fonema desempenha sua função é o dos morfemas,
onde aparecem os significados, pois somente a diferença
semântica, na comutação, pode provar a relevância sistêmica
(pertinência) da diferença fonética (no nível mais baixo). A
diferença fonemática entre /s/ e /0/ só aparece no contexto de
morfemas como sín e thín, em que a substituição de um pelo
outro muda o significado. A função estrutural é, portanto, o vínculo
entre uma unidade de nível mais baixo e uma unidade de um
nível mais alto (Buyssens, 1967:8).
A fim de caracterizar a mudança de perspectiva da aná-
lise fonética à fonológica, Pike (1967) posteriormente introduziu
os termos ético e êmico. Uma abordagem ética (como na fonética)
DO ESTRUTURAL:ISM.0 Sl:MIÓTICC> À'SEMIÔTICA... 93

é não-estrutural e estuda os fenômenoS'na sua estrutura. de'


superfície: Gmieó é derivado de fonêmieo e, emtiltirna análise,
de sistij:rfüao; Urna abordagem êmica dos fenômenos sernióticos
consiàera elementos dos'sistemas sígnicos com respeito a sua
função notaódigo. Nestàtrâdição, pesquisadores em várias :áreas •
de estudo serniótico têm tentado determiF1at as unidades'êrnica.s
dos.códigos' n·ão-verbaiS;· com·otna arquitetura, .ondeforãrn
denominados ahorema, no estudo dalínguagestuaf.~dherernas
ou kinemas) e nos estudos das narrativas (mitemasou narremas);

Traços distintivos e oposições binárias

tlrn 1outro'pásso na atomização da lin'gtlagem foi a teàú-


ção dôsfonemasa1;i;ímsistema defütçosdistihtivos de opó'si,.
ções binárias. embora ós fonemas sejarn elementos füí nimdSê ria.
seqüência de sons da fala, eles podem aindá ,seJ'tiivididâ's,êm
seus traços distintivos de articulação. O número desses traçós
é menor que o número defonernas, Ja.kobsofflàfifmóüqlíe,um~
lista de traços distintivós limitada é válida para todas.as línguas.
Estes traços universalmente válidos são os oharnâcilos uf:liversais
fonológioos.
· !Dentro do sistema.,binário de traçtfs distiFYtivos, cada fo-
nema é oaraoterizadó:estruturalrnenfe por àqUeles:traços que1êlé
possui(+) e aqueles que ele não possui(-). Assim, o fonema/si
é oaraoterizado nãó somente positivarnente péla,presénçc1 de
traços, oomo,+alveolar; :1-oontinuante e +frioativo, mas também
negativamente ·p·ela. ·ausên'oia de tra(i)O.S; oomo
-vooá.lioo, -sopom, -~asai. Fonemas .são c:J.i~tinguictos por; pelo
menq~ •.um traço Qisttntivo. /0/ e ló/ sãQ,distinguidgs pelo únioo
tra,ço. (t/.,..,)sonoroi /0/ e is( pelp~ tra,çgs (+/-)dental e
(+/-)alveolar,, Assin\·~ão são mais os fonemas que aparecem
oomo.á.tomos irredut(veis dc1 língua, mas os trEIÇPS distintivos,
cuja oombinação forma os fonemas,.
O próprio Jakobson estendeu os princípios da análise de
94 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

traços distintivos à morfologia. Seu binarismo analítico (mas tam-


bém a sua teoria da metáfora e da metonímia) teve grande in-
fluência sobre estruturalistas como Lévi-Strauss e Lacan. A uni-
versalidade destes princípios, contudo, foi questionada tanto na
fonologia quanto na semiótica. Eco (1977:46) sugere que o
binarismo de Jakobson foi muito influente talvez "porque os se-
mioticistas freqüentemente impuseram redes binárias sobre fe-
nômenos muitos resistentes a elas".

Estética funcionalista de Praga

Na Escola de Praga, eruditos como B. Havránek, R.


Jakobson, J. Veltrusky, F. Vodicka e, como figura central, Jan
Mukarovsky (cf. Winner, 1979, Chvatík, 1984) desenvolveram
uma teoria estruturalista da estética e da literatura com elementos
especificamente semióticos. 19

Alguns princípios da estética praguense

Comecemos com um resumo da estética estruturalista


de Praga:
1. Os estruturalistas de Praga desenvolvem um conceito
dinâmico de estrutura. Mukarovsky (1977:79) escreve:

A noção básica do pensamento estruturalista é


aquela da interação de forças, concordando e
se opondo umas às outras e restabelecendo um

19. Sobre edições, textosecoletâneasverGarvin, ed. (1964), Wellek


(1969), Osolsobe (1973), Matejka &Trtunil<, eds. (1976), Fokkema
&Kunne-lbsch (1977), Mukarovsky (1977); 1978, Matejka, ed.
(1978), Tobin,ed. (1988) eChloupek&Nekvapileds. (1993). Uma
traduçãoespanholaé:J. MukaYovsky.(1977). Esaitosdeestética
ysemiótica dei arte, trad. A. A. Visova e L. Llove. Barcelona: G.
Gilei.
DO ESTRUTURALISMO ,SEMIÓTICO .À SEMIÓTICA... 95

equilíbrie perturbado por uma síntese.constan ..


temente repetida.

2.. Os estruturalistas de Praga enfatizam uma aborda-


gem funcional da cultura (p. ex., Bogatyrev, 1937) e·da estética.
A função estética se origina nurri processo,dialético de atualização,
(aktualizace) ou desautematização cémtra opano de fundcrde"
normas e automatização. A importância do contexto social na
percepção da arte é enfatizada.
3. Os estruturalistasde Pragaesteridem oescopo de
sua análise da expressão lingüística à estrutura;de.cónteúdo e
da análise da éxpressãoverbál à expressão.não:;verbâl e das
mídias visuais.
4/ .Qom,o trabalho de Mukarovsky dê 1934; SQbte "A arte
como um fato serniótico 11 (em Mu~arovsky, '1977:82-9), o
estruturalismo dê Praga adquire. uma dimensão explicitamente
semiótica. Otrabalho de arte é definido como um signo com função
tanto comunicativa quanto autônoma.

AsfunÇPes semióticas de.Mukãróvsky ·

A base da.estética;estrutural de Múkarbvsky é a sl,Ja


teoria das funçõessemióticas. Uma função, conforme Mukarovslcy
(1941:40) ~é omodo da auto;,-realização de·um sujeitrnfrente âoi
mundo externo". A interação do.sujeito com o seu· meio ambiente
pode ser ou direta ou indireta, quer dizer, "por meio de uma outra
realidade". Mukarovsky também cqama os modós diretos de
interação com o meio ambiente de funções imediatas ê distingue
entre elas as funções práticas eteqricas·(ibid.):

Nas funções práticas, o objeto está no primeiro


plano, porque a auto.,realização do.sujeito é
dirigida ~ reorganização· do objeto, isto é, à
realidade. Na função teórica, do outro Jade; o
96 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

sujeito está no primeiro plano porque o seu alvo


geral e último é a projeção de uma realidade para
a consciência do sujeito.

Em oposição a essas duas funções imediatas, os modos


mediados da "auto-realização" do sujeito são chamados de
funções semióticas (Mukarovsky, 1942:41 ):

Essas funções se dividem espontaneamente


para nós se aplicamos a elas a dualidade da
orientação conforme o sujeito e o objeto. A
função na qual o objeto está no primeiro plano é
a função simbólica. Neste caso, a atuação é
dirigida à eficiência da relação entre a coisa
simbolizada e o signo simbólico[. ..] A função
semiótica, que põe o sujeito no primeiro plano,
é a função estética.

O que significa essa teoria da função estética, que põe


o sujeito no primeiro plano? Por "focalização do sujeito",
Mukarovsky (1942:42) não entende um signo expressivo que ex-
prime as emoções de um indivíduo. Na sua definição, o sujeito
"não é um indivíduo, mas o homem em geral". Por causa disso,
Mukarovsky (ibid.) pode combinar a sua teoria da subjetividade
estética com a sua teoria da autonomia do signo estético:

Um signo estético[. .. ] não é um instrumento


[ ... ]. Não tem nenhum efeito específico para a
realidade como o signo simbólico, mas reflete
em si mesmo a realidade na sua totalidade.

A reflexão da realidade - portanto a reflexão de uma cons-


ci ên ci a coletiva e, deste ponto de vista, a função estética - é
dirigida ao ser humano em geral e não a um sujeito individual.
DO ESTRUTUBAL1$MQ $6MlóTfGQ A SEMIÓTICA... 97

A função estética ele Mukarovsky

Ateoriasemiótica dàfunçãoestética de Mukafovsky é


desenvolvida em mais pormenores nos seus trabalhos "Arte como
fato semiótico", de 1934, e "A função estética", de 1936.
Mukárovsky (1934:85) colocou a fUnçã0 estética ouau-
tôh<:>má em contrastecom à função comunieatiya, Ambas as fun-
ções·podem estarpresehtes hutna obra,de arte, pof; exe·mplo,
numá pintura realista, que·taníbém nos comLlnica:algosobre o.
mundo que descreve. Más;só a função autôrlôma constituraes.;.
pecifieidade da aite:·"Asignificação de uma obra de arte como
obra.de arte em.Si não é baseada 'ém,comunicáção11 (MukarovsKy,
19661237}.:Enqllahtd o Signo comunicativo tem uma fünçãd refe.;
renciál, o signoautônbni0. 1'nã0 se teférea uma C3xistência'distinta,
mas ao contexto totaPdos fenômenos sociais do meio amoiêntê".
Em vez de falarâefalta dereferência nosignóestéUco,
Mukarõvsky caracteriza a autonomia estética pélo tra·ço,de
ficcionalidade:

.;gimpossível pestulàt aáutenticidade docamen.;;; i;


tária do tema de uma obra de arte quando nós
avaliamos essa obra como um produto de arte
(1934:88).

Com esta definição, a estética de Mukarovsky s'e mos-


tra como uma versão bastante moderada tia teoria daautonomia
estética. Teorias mais radicais, como.aquela de Jakobson, foram
mais IOi1ge, definindo o signo estéticocomó umsign0 autotêlico
e auto-referencial.
No espectro de sua teoria êlas funções, Mukar"ovsky
(1966:240) caracteriza a orientação estética de forma pragmáti-
ca. Essa orientação do receptor do signo transforma o, objeto da
percepção em
98 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

... um signo, não sujeito a qualquer fim externo,


mas auto-suficiente e evocando no receptor uma
certa atitude frente a qualquer realidade.

A característica básica da função estética é, portanto, a


de "isolar o objeto" e "direcionar o foco máximo de atenção para
um objeto dado" (Mukarovsky, 1936:21). Nesta definição apa-
rece claramente a herança do Formalismo Russo com os seus
princípios de singularização e desautomatização. Com referência
às artes visuais, Mukarovsky (1966:230-1) enfatizou que a
diferença entre objetos naturais e um objeto de artevé es-
sencialmente "baseada no modo pelo qual o percipiente se apro-
xima do objeto. Como as qualidades estéticas não são localizadas
no objeto, mas no processo de sua recepção, o percipiente pode
até adotar uma visão estética do mundo natural e assim descobrir
características da arte na natureza. Na prática da arte do século
XX, a land artdos anos 60 foi uma demonstração deste princípio
de transformação da natureza em arte.

Semiótica e estética funcionalista de Jakobson

Um capítulo sobre o funcionalismo semiótica e a esté-


tica na tradição da Escola de Praga seria incompleto sem uma
introdução à teoria das funções da linguagem e da poesia de Ro-
man Jakobson. Reduzir a obra de Jakobson apenas a esse tema
num panorama da semiótica no século XX seria, porém, gros-
seiramente simplificador. Comecemos, portanto, com uma visão
geral das contribuições de Jakobson à semiótica deste século.

Visão geral da semiótica de Roman Jakobson

Roman Jakobson (1896-1982) foi um dos lingüistas mais


influentes deste século. Embora poucos dos seus trabalhos tratem
DO ESTRUTURALISMO SEMlóTICO À ,sEMtôTICA... 99

explicitamente de temas sernióticos, Jakobson é considerado hoje


como um dos ''clássicos dá semiótica" (Krampert et ai., eds; 1981).

Sumário da obra de Jakobson

Urria bibliografia de uns mil títulos (Ver Jakobso'n, 1971;


Koch, 1981 :232) testemunha a extrema produtividade do gênio
de Jakobso·n. A ediçãô ern oito volürnes,de seus principais
trabalhos (Jakõbsóri, 1966-1988) é somente,uma coleção de
Obras se/êCióflâdâs. 2º•·'
A doutrina de Jakobs·on influençit5u2profu11damente
diversas tendências na evolução do estruturalismo e da lingüística
do' século XX: Kôoh (1981C;225-6) distiligt:Je quatro períodos no
desenvolvimento da·Sua pes'~úi$ã~:
·r. No seu fYeríê'rdcffotrma/ístEi1tJe. 1:914 a ~ 920~ :Jakcl>b"'
son foi tanto o fundador do Círculo tingüístico de Mosc01.1quâi\lto
umniembro do influente grClpô p0~tlôó 1©p0yazt; ••
2: No seu .períeâo 'êstftffüfâlista, ;,:t:Jtf 1920: a: 190:g1
Jakobson foi uma figura 'â~rnináfitê daEs.dõlÊrdê Praga"(
· :3 .. No seü período semíótiCô,< dê 1939 á 1949,Jakohf~~ri
esteve associado ão Círculo Lingüístico tlê Copêrihagllé(IBr~nfdãl;
Hjelmslev) e foi ativo fundador do:Círculo L.ingüísíiGei de;:Nova
Iorque.
4. o período interdisciplinar de Jákobsõ~ c0tnêçõü,em
1949 com seú ensino em Harvard .(mais tardêttatnbétri nó Mít
Cambridge, MA.). Teoria dá iliforrnaçãée dlt1coníu'tliêàQão,
matemática (ver Holenstein, 1975), nêurolingüísticâ, biõlégiá,e

20. Os principais \f"abal~os de interess~ S$:!IT,1j9tico p1Jbji~çl95. em


bi
outr'O~ luga,res incluem Jakobson,(197&1; 1975;19!t19~5).
Estudos sobre Jakobson esua erudição eswo .em Holenstein
(1975), Waugh (1976),Armstrong &sbhoonevelt,'êds. (1977), Ec:ó
(1977a}, Krampen (1981), Schnene,ed. (1981), Sangster(19.8i),
Halle efàL·(1~$): ~ôctí (1986a}e Pómorskàetâ/., eds. (1987) e
BradftrtÍ t1994);
100 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

até física (Jakobson, 1982) foram, entre outros, os campos aos


quais Jakobson estendeu seus interesses.

Jakobson semioticista

De acordo com Eco (1977a:43), o lingüista Jakobson

... esteve marcado semioticamente desde seu


início: ele não conseguia se concentrar nas leis
da linguagem sem considerar sua experiência
comportamental como um todo.

O substrato semiótica do trabalho de Jakobson aparece


em seus temas de pesquisa, na sua visão da lingüística como
parte da semiótica e nos princípios básicos de seu estruturalismo
dinâmico.
Os campos centrais da pesquisa de Jakobson foram a
poesia e a lingüística, especialmente a fonologia, a morfologia, a
dialetologia e a afasiologia. Porém, desde o início, o interesse de
Jakobson foi além da linguagem e das artes verbais, cobrindo os
campos semióticos mais amplos da cultura e da estética.
Jakobson contribuiu para a semiótica aplicada com trabalhos
sobre música, pintura, filme, teatro e folclore, e para questões
fundamentais da semiótica, como os conceitos de signo (Waugh,
1976:38-53), sistema, código, estrutura, função, comunicação e
a história da semiótica. Além disso, ele foi um dos primeiros
estudiosos a descobrir a relevância da semiótica de Peirce para
a lingüística (Jakobson, 1965; 1980:31-8). Em particular, pela
sua influência em Lévi-Strauss, os princípios semióticos de
Jakobson se tornaram altamente influentes para o desenvolvi-
mento do estruturalismo. 21

21. Sobre a influência de Jakobson na semiótica textual, ver também


Culler(1975:55-74)eHawkes (1977:76-87).
DO ESTRUJl:JRAL.ISMO SEMIÓTIÇ© À SEMIÓTICA... ·101

Jakobson determinou o âm,bito da semióti.ca e.m relação


à lingüística cómo segue:

O objeto de:estudoda semiótica é a'comunjc:a-


ção·de qua(qyermensagem, enquanto o campo
da lingüíst(ca está confinad0àcomvnipação de
mensagens verbais. Assim, destas duas ciên-
cias do homem,: a·últi(11a possJ:Ji:um·âmbit0 mais
estreito.:Porém, poroutro fade, q11Wq1.1encomu-
nic;açã0·humana demensagens,1nªO:-V:t:Jrbais pres-
supõe um circuito cfe mensagens. verJ:Jais, sem
uma·implicaçªo inversét~Jªkc:>bson, 1973a:32).

Baseando-se na relação com a língua falada, Jakobson


distinguiu Jf~s:Jipps e:le.:sistemas sígni,ÇQs (t 973a:2~-.31 )~J,)
substitutos da língua, incluindo a escrita, as linguagens de tambor
e de assobio e o código Morse:(que,é umcasP des.ubstituição de
segt,1ndaordem, sec.unqár,ia à escrjté3);2) sistemas transf9rmac.t0s
da l{ngua, q1:Ae,5ijg Ungli!ager:is científiºas formaliiadas.; e,3)
sistemasicJiomcflrfico:s, como gestos .OLI a música, Ql!e samf:mte
;5e referenJà linguagem indiretamente.
Apesar da,universalid.ade,.da sua pesquisa, Jakobsim mijo
.propôs uma visão::panserniótica, das.ci&n~ias. Q ll:!gflf d.aJin-
gílística e da semtótica, de acQrdo oom.Jakobson, está;dentro
de·1;1ma moldura.mais ampla d.as estudos:de cornuniçaçã,0. 0

Tcês·ciênçiª's integraçla-s abrangem umas às


.outras e al:)resentam três gra11scle gener9lidade
que crescem gradualmente: 1) o estudo em
comunicação de mensagens yerbais :r: lin-
güística; 2) o estuclo flm comuniçaçãQ de
ql;faisquer mensélgªns ==:sªmiótica (comunicação
de mcnsélgens verbais impficadas);.e ~Jo estudo
em comunicação= a antropologia.socialjun-
102 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

tamente com a economia (comunicação de


mensagens implicadas) (Jakobson, 1973a:36).

Seguindo Lévi-Strauss, Jakobson distinguiu três níveis


de comunicação social: troca de 1) mensagens; de 2) bens; e de
3) mulheres (mais geralmente, de parceiros):

Portanto, a lingüística (juntamente com as


outras disciplinas semióticas), a economia e
finalmente estudos sobre parentesco e matrimô-
nio estudam o mesmo tipo de problemas em di-
ferentes níveis de estratégia e realmente per-
tencem ao mesmo campo (Jakobson, 1973a:33).

Alguns princípios jakobsonianos de pesquisa semiótica

Em suas próprias palavras, a pesquisa de Jakobson foi


uma tentativa de vida de "superar o empiricismo sem visão, de
um lado, e o dogmatismo especulativo abstrato de outro"
(Jakobson et ai., 1984:8). Nisto e em muitos outros aspectos,
Jakobson foi um espírito de síntese (Koch, 1986a:130-9). Ele se
opôs à natureza antinômica das dicotomias estruturalistas, como
tangue versus parole, variantes versus invariantes, código versus
mensagem ou competência versus desempenho, que tentou su-
perar com princípios de um estruturalismo dinâmico (Jakobson et
a/., 1984:10). Muitos dos princípios metodológicos desenvolvidos
por Jakobson no campo dos estudos da linguagem provaram ser
bons modelos para a pesquisa de outros sistemas semióticos (p.
ex., Eco, 1977a; Krampen, 1981 ). Alguns dos mais influentes são:
1. pertinência (ver p. 102);
2. binarismo e análise de traço distintivo (ver p. 103);
3. os eixos de seleção e combinação nos sistemas
semióticos, que correspondem aos eixos saussureanos de
paradigma e sintagma (ver p. 43-4);
DO ESTRUTURALISMO SEMIÓTIOOÀ.SEMIÓTICA... 103:

4. a·dicotomia metáfora.:.metonímia'e sua fundamenta-


ção na oposição entre similaridade e contfgüidadê. Oo0sidere-
mos o exemplo da metáfora shákespeáreana ''olh9ido cé.u" para
designar "sol.". Qonforme Jakobson,, é asirnilaridade eritre os
conceitos de "olhoJI e "sol", p. ex., no brilho e na forma r:edonda,
que motiva essa metáfora. Nas metonímias, temos uma 'conexão
habitual espacial, temporé}I ou.causal éhtfedois conceitos', como
se dá, por\exemplo,ém "corôa" comomet0nímia de."rei";
5. adicotomia código-mensagem, .que,é uma reformu-
lação semiótica da dicotomia lingüística de língua efala;
6. A teoria das funções semióticàs (ver p. ,101'); e
7. A teoria das formas marcadas: de acordo com este
prinéípio,cos dois pólos de uma oposição semióticffcorisistem
de uma for:mamarcada ~.:uma não marcada. A form.a não marca~
da é a geneticamente mais nova, a mais natural e normalmente
a mais freqüente. Otermo marcadà possui um traço morfológico
adicional e mais específico, como o'pluràlr versus o singular, o
fell)inino versus o masculino, a yoz atiya versus a pass,!v~, ou o
pa~sa:99 vet~l)s Q presente. · · ··

As funções jakobsonianas da comunicação verbal

Jakobson desenvolveu Um ni0delo das funções da


linguagem de grande influência na ~~miótica aplicada. Na base
dessa teoria está o seu modelo dos ~ejs fator~s que constituem
os processos de comunicação. A Cc!da um desses fatores
corresponde u,ma função. O ~sboço @~ Ja~ot>son apr~sentou
de?se moq~lo é o se9µinte:

OEMISSOR
i;'; f" >
envia< uma.MENSAGEM
:t"",
> ' > - ~'
ao RÊCEP-
, A :; A ~> , \

TOR. Para seroperativa, a mensagem cequer


,, ¾ • i?t'

um CONTEXTO referidq ("referente", nurrJ/1 oytra


terminologia um pouco ambígua).
104 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Este contexto deve ser acessível ao emissor


verbal e/ou. capaz de ser verbalizado. O outro
fator requerido é o CÓDIGO, completamente, ou
pelo menos parcialmente, comum ao emissor e
ao receptor (ou, em outras palavras, ao co-
dificador e ao decodificador da mensagem).
Finalmente, um CONTA TO é requerido, ou seja,
um canal físico e uma conexão psicológica entre
emissor e receptor, capaz de fazer com que
ambos entrem e permaneçam em comunicação
(Jakobson, 1962:353).

O diagrama, no qual Jakobson representa os seis fato-


res e as correspondentes funções da linguagem, é o seguinte:

CONTEXTO
(função referencial)

EMISSOR. .................. Ml;N$.~m~M. ................. RECEPTOR


(função emotiva) {função poética) {função conativa
ou apelativa)

CONTATO
(função fática)

CÓDIGO
(função metalingüística)

As funções da linguagem correspondentes a cada um


desses elementos básicos da comunicação são determinadas de
acordo com a "orientação comunicativa", foco predominante no
fator respectivo da situação comunicativa. Toda mensagem pode
ter várias funções, mas uma função é sempre predominante ou
primária, enquanto as outras desempenham uma função
secundária.
DO ESTRUTURALISMO SEMIÚTIC.O 'À SEMIÓTICA... 10.5

Uma mensagem orientada para O·referente óuicontexto


tem predominantemente uma função referertcial. Sua informação
põe em foco o aspecto cognitivo dalinguagern.·Afuhção ex~
pressiva ou emotiva focaliza a atitude do próprio falante em re-
lação ao eonteúdo da mensagem. Interjeições e :falas.enfáticas
são exemplos do yso·dalinguagem com função:~motiyarAfunçã0
ao nativa ou apelativa está orientada .para o. r.eceptor"Saa
expressão gramatical. mais.pura está no vocativo erto imperativo:
Afunção tática descreve mensagensJque· sprvem.primariamente
para estaoeleceri prolóngar oll interromper ã comunicação\ para
verificar se o oanalfuríciona("alô"; "como vai?'\nvoú indo, e.
você?"), .paraiatrair';a atenção do interl0cutór ou .00nfirtnar sua
atenção.. contínua,("você·.está me duvJndo?~). A funçã'c:1
meta lingüística é exemplificada pela linguagem que se refereià
linguagem e à comunicação. Metalinguagem, como se sabe; é·
linguagem que se refere à própria linguag~m. 0. nosso dis6l:irso
sobreás.funçõesidalinguàgem, por~xemplo1 é essencialmente,
metalingüístico. Na vida. cotidiana, perguntas ~orno "O que você
quer dizer?" ou IINâoé.ntendf são exémpl'os dê situações verba,is
nas quais a meta'lin9uagàm ée~igida: . . . ... ,

Afunção poéticá

Continuando a busca dº~


.Fm~austas .. ~Üssos pela
literariedade, Jakobson introduziu o conceito de poeticalidade,
que era~ para ele, um sinônimo de função poética. Esses dois
termos, segundo Jakobs9n, devemsercl~ramente Elistinguidos
do conceito de poesia. :Enquanto ~ste é

... instável e ligado a períodos específicos, a poe-


ticidade é um elemento suigeneris [...] usual;;
mente o componente de uma estrutura com-
plexa, embora umcomponente 1qu·e necessa-:
riamente transforma os ç,utros elementos[... ]
106 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Onde quer que a poetica/idade, a função poética,


seja dominante numa obra literária, nós falamos
depoesia(Jakobson, 1933a:123-4).

Sob esse ponto de vista, a poeticidade é um fenômeno


semiótica geral que pode ocorrer em vários graus como uma
função de qualquer texto. Poesia, por seu lado, pressupõe
poeticidade, mas, em adição, a avaliação de um texto como poesia
depende das convenções literárias de uma dada época. Assim
sendo, Jakobson (1960:357) concluiu: "O estudo lingüístico da
poesia não pode se limitar à função poética".
Para Jakobson, em concordância com a teoria da
literatura e autonomia estética, a mensagem é autotélica, ou seja,
não tem nenhuma função além de si mesma. Mas, ao mesmo
tempo, Jakobson repudiou a crítica de esteticismo que se levantou
contra sua posição. O poético, segundo ele, tem certas afinidades
com a metalinguagem. Segundo Jakobson, a poeticalidade

... se manifesta como uma palavra e não apenas


como mero substituto para o objeto nomeado ou
como irrupção de sentimento[... ] As palavras
poéticas e suas combinações [ ... ] não são
índices indiferentes da realidade, mas atingem
sua própria importância e valor independente
(Jakobson, 1933a:124}.

Jakobson afirmou que a orientação da mensagem para


si mesma, a mensagem pela mensagem, constitui a função
poética. Na arte verbal, a função poética não é exclusiva, mas
apenas sua função determinante e dominante, enquanto em todas
as outras atividades verbais, ela age como um constituinte
subsidiário e acessório (Jakobson, 1960:356).
A função poética é, ao mesmo tempo, similar e oposta à
função metalingüística. Isso aparece à luz do princípio
jakobsoniano da equivalência poética:
DO ESTRUTURALISMO SEMIÓTICO À SEMIÓTICA... 107

A metalinguagem também faz uso seqüencial de


unidades equivalentes quando combina expres-
sões sinonímicas numa sentença equacional:
A=A ("solteiro é um homem não-casado"). Con-
tudo, poesia e metalinguagem estão em oposição
diametral, pois enquanto na metalinguagem a
seqüência é usada para construir uma equação,
na poesia, a equação é usada para construir uma
seqüência (Jakobson, 1960:358).

É isso que se pode ver nestas linhas de Caetano Veloso:

O tido, o dito, o dado


o consumido, o consumado
ato do amor morto
motor da saudade.

Não obstante as diferenças, Jakobson reconheceu uma


similaridade 11em íslica fa11dame11lal eIItie o poético e o me-
talingüístico, pois o insight da estrutura autônoma do signo
poético resulta num insight metalingüístico do signo em geral,
demonstrando que o signo não se funde com o objeto referenciado:
há sempre uma identidade incompleta entre signo e objeto. Com
isso, Jakobson levantou a questão mais fundamental da relação
entre poesia e teoria semiótica e, mais geralmente, entre poesia
e ciência.
A teoria da autonomia poética recebeu críticas por ser
esteticista e negligenciar a dimensão social do poético. Jakobson
contra-argumentou, referindo-se à sua distinção entre poesia e
poeticalidade e, mais geralmente, entre arte e estética. É a poesia
que muda com a realidade social e não a função poética. O que
Jakobson e os Formalistas enfatizaram não foi o separatismo da
arte, mas sim a autonomia da função estética (ver Jàkobson,
1933a:123).
IV
IDÉIAS SEMIÓTICAS
NO ESTRUTURALISMO GERAL
Estruturalismo,. pós,. ne.o e. superestruturàliso,o'

A idéia saussureana de usar o modelo lingüístico como


padrão geral no estudo das ciências humanas foi central para
o estruturalismo aos:;anos. ~Oi .gu:ando .a lh1güh,tjea foi,toma{;ia
como paradigma para a antropologici, a matemática, a biologia,
a psicologia (ver Pia,geJ, 1968)j (:)ara as ciências.sociais,.J1istória,
filosofia e critica· lite.rária {Dosse, ,1991,::19.92}.
No seu dese.r:1volvimento, uma parte desse,e:struturalip-
mo. ficoµ independe['lte da..semióticapr,opriamente dita; enquanto
outra parte desembocou direta1J1ente;no paradigma estruturalista
da semiótica representado porR. Barthesi A. Grei1J1as 0u,.lJ. lz<?ô:
Antes de estudar este último paradigma, o,presente capítulo será J

dedicado àquele estmturalismo não pro(:lriameotesemióUco, que


se desenvolveu em várias.áreas das humanidades,Mesmo sem.
ter recebido o rótulo de semiótica, esse estruturalismo:possui,
entretanto, uma base semiótica, que se.eviaencia na preocu(:la~o
com a idéia do signo, da estrutura e do sistemasígnico.
Diante disso, este capítulo colocará em discussão algu-
mas das igéias seroióticas que aparecen, na antropologia estru.;.
turalde l.,évi-Strauss, mt psican,álise <:le Jacques L.acan, na his-
tória das idéias. de.M,ichel fouGault e na filosofia .pe Jacques
Derrida.
112 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Pode parecer ousado incluir, no contexto do estrutura-


lismo, pensadores como Lacan, Foucault e, sobretudo, Derrida,
hoje mais conhecido como pós-estruturalista. De fato, não muito
tempo após ter tomado o lugar do existencialismo como uma moda
intelectual dominante na França, o estruturalismo já era declarado
como morto (Benoist, 1970:50), para, pouco depois, novos
paradigmas serem introduzidos sob a designação de pós-
estruturalismo (Harari, ed. 1979; Schiwy, 1985). No entanto,
alguns dos estruturalistas mais proeminentes (e, entre eles,
Derrida) já estão hoje sendo discutidos como neo-estrutura/istas
(Frank, 1984) ou até superestruturalistas (Harland, 1987). A base
estruturalista e semiótica que permanece no pensamento
chamado pós-estruturalista é o que será examinado a seguir.

A antropologia estrutural de Lévi-Strauss

O antropólogo francês Lévi-Strauss (nascido em 1908,


na Bélgica) foi aclamado como o "pai do estruturalismo" (p. ex.,
Kurzweil, 1980). Esta avaliação pode ser correta com respeito
ao chamado movimento estruturalista na França e na Europa nos
anos 60. 22 Porém, deve ser lembrado que Lévi-Strauss derivou
os princípios de seu estruturalismo da lingüística estrutural,
particularmente dos ensinos de Jakobson. A partir desta
perspectiva, Lévi-Strauss não é somente um "pai", mas também
"um filho" do estruturalismo. A seguir, os métodos de análise de
Lévi-Strauss serão exemplificados somente na sua abordagem
da análise de parentesco e na sua abordagem estruturalista do
estudo dos mitos. 23

22. Ver Auzias(1967), Corvez(1969), Schiwy(1969a), Leach (1970),


Macksey &Donato,eds.(1970), Gardner(1973), Clarke(1981).
23. Sobre um estudo amplo do estruturalismo de Lévi-Strauss, ver
Rossi, ed. (1974).
IDÉIAS SEMIÔTICAS NO l;SJRIJTÜRt\LlºMO GáRAL 113

Afonologiàcomó um paradigma das ciências d0 homem·

Por intermédio de Jakobson, Lévi.;Sfraussdescobriua


fonokigiaestruturale se convenoéu·de,qwê alingfüstieaestrutural
deveria ser o patton général das{oiências humanas. Ele
argumentou: "Alirigüística estruturarterá ·eertarnente o· rnesrno ·
pa(Yel. rê nova dor com respeito às ciências soci~Hs qtie â físieâ
nuélear; pàt exemplo; tem para.as ciências físicas~ (Llêvi'-Sttausst
1958:,33), DeTruoetzkoy, l!:évhStraass: dê.riv01:1'osiquatr0
princípio·s de análise a·seguir (ibid.): 1) a·rnudança'do estudo das
fenômenos conscier:ites para ó estuclo da sua infrai.estruturâ
inconsciente;2)a mudança dostetrnos p'araarelaçijp:entre eles~,
3) o estudo do sistema como um topo; e 4) a descoberta.dÊfléis
gerais do sistema. Lévi~Strauss éiifatizou.o:catáter iM'v'atlvo da
aborâagernestruturali$ta nas 'éiêÃcia·s húrnanas: ''0êérro da
antropblogiá tradiciohal, oorno,aquele':d;i lihgfüstida fradicidhâl,··~
era de éonsiderar os termos e'não' as te lações entre; os terrnosi,
(ibid.:46). Uvi-Strauss·aplica .O's, prinojpi0s},an·a1íticos dâ 1

lingüístiéa estrutLlràlistà1a.iriúrneros fenômenos a~ntt:0pdl0gicds:,.


totemis'mo/ritos, costumes, ~egras matritnoh'iais é padrões de
parentesco. Um terna presente em seus'êstudeséa a~alegiat:.
estrutural· entre linguagem· e dultura. Tais af;ialogias sã·â
descobertas por Lévi.,Straúss· na música; na arte, n'o mitr:;rtio;
ritual, na r,eligião e até na cozinhá de·diferentes soeiédad~
(ibid.:83-7). Nesta última, por exemplo, ele descobriu umsisterna
de oposições semânticas (como cru/cozido, doce/amargo etc.)
e derivou dessas estruturas diferenciais :elementos culiri'áríds
mínimos, para os quais ele sugeriu o termo gustema.

Estruturas de parentesco

A análisede Lévi-Strauss âa estrutura de parentesco, é


um exemplo das analogias que ele descobriu entre linguagem e,
cultura: '.'€orno os fonemas, os termos de parentesco são'
114 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

elementos de significação: como os fonemas! eles adquirem


significação somente se estão integrados em sistemas.
1 1
'Sistemas de parentesco como 'sistemas fonêmicos são
, 1

11
construídos pela mente no nível do pensamento inconsciente
(Lévi-Strauss, 1958:34). Sistemas de parentesco expressam
regras de casamentos proibidos (p.ex., o tabu do incesto) el em
certas culturas! prescrevem certas categorias de parentes que
devem ser casados. Em sociedades primitivas! estas regras
formam um sistema de troca, no qual mulheres são trocadas por
homens. Assim Lévi-Strauss interpretou o parentesco como um
1

sistema de comunicação uma linguagem, na qual as mulheres


1

são as mensagens trocadas entre clãs, linhagens ou famílias


(ibid.:61 ).
Nestes sistemas Lévi-Strauss (1958:46) isolou unidades
1

mínimas de parentesco como as estruturas e/ementares de uma


sociedade. Estas estruturas contudo não são dadas bio-
1 1

logicamente, mas representam um simbolismo cultural."O que


confere ao parentesco seu caráter sócio-cultural não é o que ele
retém da natureza, mas a maneira essencial pela qual ele diverge
da natureza. Um sistema de parentesco[ ... ] existe somente na
consciência humana; ele é um sistema arbitrário de representa-
ções11 (ibid.:50). Assim um padrão de parentesco não é somente
1

um sistema de comunicação com estruturas binárias (como pai!


filho, irmão/irmã etc.) mas é também como a linguagem! ca-
1 1

racterizado pelo traço da arbitrariedade.

O mito como sistema sígnico

Para Lévi-Strauss (1958:206-31), mitos são mensagens


produzidas por um código que tem estruturas parecidas com as
da língua natural. Métodos do estruturalismo lingüístico! tais como
segmentação, classificação e a busca de operações binárias são,
portanto, os seus instrumentos de análise. No seu estudo do
mito de Édipo, Lévi-Strauss começou com a segmentação do texto
IDÉIAS SEMlé>llCAS N0 !=$T;Rl)JlJRAL,1$MO GERAL

em ur:iida,des bâ,sica,s:· Estas são.frases que resurnelTl o te,ctg e


têm, a estrutura de seqüêpcias de s4jeitos.e Pfedjpad9s'.-~Jt.
estrut4ra de. Ufll mitç,, :'feixes" <;letais. relações proppsicionais. e
as va,ria,nteitdeles estabelecem as qoostituiptes básicas~qa.
análise do mito, que Lévi-Strauss (19fi8:21, 1) chamou de. :miten:1a".
No mito, a funçãodestes,mitema,s.~.semelha,nte ~.dos fon~ma,s..
na língua,: os,mitema,s se constituen, na, Qa,ge <;la,s s.uas v.aris:111tes,
sem~nticas 9ºíllº osfonema,sse constit.ue.m na bas!;:l das,s4as
variantes fonética,s.:'
Numa notação em linha.se colurlas, que L.~Vi,,Strauss
(1958:213) assemelhou a uma partitura de orquestra, os mitemas
são arranjados em ordem sinta,9m~ttca1· çprresp9nder:.1te:As
seqüências temporais e classes paradigmáticas conforme os
elementps recorrentes,. qepois <;le certas operações;<;!~ tra,nsfor-
ma,ção, MMi,,~trauss (19&81228),c~eggu a yma:estrutwa,. :ai,n~9a:
mais fundamentí\)l que cons.iste de qqatro mitema,,s em dois pa,r~s
de opo.sJção entre yalores. positivos e negativos. Um mit91 qgn-: .·.
forme .e,ste modelo; repres.e11tc1 ares.oJuçãç, de um conflito. .E311Jr.a.
um v.alpr negativo e um valor positi',(p. ~ssa re,soJ4ção é m9idJpgsi1.
por .um herói, que comete 9atp 11egc1tivo cie gestrU,ir,o ,ag~nte,.
vilão. ~ss.a,.dupla negativ,idaderesulta,.por~m. na i.9:versãQL90t
negativo 110 evento positivo. da vitória;" Desta ,flla,neira,ª. "~
pensamento mítico.sempre. progrid.e qa consci~nci.a cias OPP~.içõ~
para a.resolução delas. A fir1a,1idacie do.mito é ade fornecer i:m ,
moqelo lógico capaz de superar a contradiç?o" (kévi-Stra4ss 1
1958:224-,9);

A psicanálise estruturalista de Lacan

Na psicanálise, o movirnênto estruturalista é represen-


tado pelos trabalhos de Jacques Lacan (1901-1981). 24 Neste

24. Veçlaçan(1949; 195M966; 1973).Sobretra~l.hosgeràisver


Ehrmann, ed. (1966:94-137), Corve? (1969:113-48),
116 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

campo, o estruturalismo também se manifesta na aplicação de


conceitos e modelos derivados da lingüística. Como o pensamento
de Saussure, o pensamento de Lacan, durante um certo tempo,
foi dominado pelas oposições binárias. A partir de Saussure e
Jakobson, Lacan derivou dicotomias como significante-significa-
do, /angue-parole e metáfora-metonímia, como ferramentas estru-
turais para sua releitura de Freud. Além disso, o estruturalismo
de Lacan é aparente na sua aderência à teoria saussureana da
qualidade diferencial do signo e da determinação semiótica do
signo pelas estruturas do sistema.

Oinconsciente como uma linguagem

De acordo com a teoria psicanalítica de Freud, o homem


usa a linguagem em dois níveis: simultaneamente à mensagem
do seu eu consciente, o sujeito transmite a mensagem conflitante
do seu inconsciente. Para Lacan, esta mensagem do inconsciente
freudiano é "o discurso do outro" (1956:27). Não somente as
mensagens da consciência, mas também as do inconsciente,
possuem uma estrutura lingüística: "O que a experiência
psicanalítica descobre no inconsciente é toda a estrutura da
linguagem" (Lacan, 1966:147; 234). Para Lacan, a linguagem do
inconsciente é um sistema de signos diádicos no qual o sintoma
psicanalítico funciona como um significante que aponta para o
processo do pensamento inconsciente (ver Bãr, 1975:38).
Reinterpretando o modelo sígnico de Saussure (ver p. 31), Lacan
argumentou que a fórmula

S(ignificante)
s(ignificado)

Bãr(1974; 1975), Coward & Ellis(1977:93-121), Bowie(1979),


Kurzweil (1980:135-64), Silverman (1983:149-93), Thom (1981),
MacCannell(1986a).
IDÊIASSEMIÓTICÀS NO ESTRUTURALISMO GERAL 117

in0ica dois fatos: 1) uma 0ominância 00 signifiGante ~obre ô


significa00; e 2) uma barreira primor0ial ·entre as duaSfaGes 00
signo.~in0iGada pela· linha s~parara00 os 0ois níveis).c(LaGan,
1966:149);
Para Lacan, esta barreira in0iGaum at:>ismoentre as 0uas
faGes do signo que prbíbe qualquer "aGesso de uma,à outra!'·:
(Lacan, 1966:152). É uma ilusãó ç1cr:e0itarn0;signifioatífe'êQlnó
uma representação do signifiGa00~ (iJois ''nennumà si~nifieaç.ãc;t
po0e ser sústenta0a,senão po1< r(,f~nêriela.a outra significação''
(ibid.: 150). Já que estas referêricias· intrassistê·micas se·
0esenvolvem na fala, LaGan GonGluiu que "é na Ga0eia 00
significante que a signifiGação 'insiste', mas·qúé'her:ihurrfüe.sews~·
elementos 'Gonsiste' na signifiGação 0a qual ele é Gapaz no
mom·ento" (ibid. :~ 53). De"acOr00Gom Lácan; a dominância 00
sig'nificante,sobre 01signifiea0dtambém' interpreta adeorias de·.:
Freu0'sobr:e a:fuhçãô 00s signos em sonhos: tRreud nos:mostt:a, ·
0e toda maneira possível que,o valor da imagem oomo,sigmifieaMte,0;
nã·o tem na0a a ver com sua significação~; As."imageAs~artlfici~ísl'
00s sonhos "0evem ser tomadaS1somente,por s~u vál'fi>fOOhio"'
significantes, quer 0izer, na me0ida em que elas nos permitem
expressar o 'provérbio' apresenta00 tJelo reous 06sonho"
(ibid.:159). ·Assim, o,signifü::a00 dgs.sonhoS•está na (!)rópria cadeia
significante e não,além 0esses significantes~

Comunicação

Além 0a sua 0uali0a0e entre o euconsciente eo outro


inconsciente, o sujeito, Ele acordo,oomLacan, é dividido em outra
dimensão: nesta dimensão; o:eu é.ppo&to a seu próprio alter ego,
que é a imagem qwe o sujeito tem 0o'eu. Esta imagem é, em
última instância, derivada 00 chamado estágio do espelho, no
qual a criança descobre, pela primeira vez, sua própria imagem
externa e aprende a diferenciar entre,a pessoa .como sujeito e
como objeto. O sujeito, assim dividido duplamente, experiencia
118 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

a linguagem e a comunicação de uma maneira bem subjetiva.


Lacan descreveu a comunicação como um processo "no qual o
emissor recebe sua própria mensagem do receptor numa forma
inversa. [... ] Pois a função da linguagem não é a de informar
mas de evocar. O que eu procuro na palavra é.a resposta do
outro. Oque me constitui como sujeito é a minha pergunta" (Lacan,
1956:62-3). Com esta interpretação do papel autônomo do sujeito
na comunicação, Lacan propôs uma teoria psicanalítica da
comunicação que antecipou os modelos posteriormente
desenvolvidos na teoria de sistemas autopoiéticos.

A prisão da linguagem

A idéia do sujeito sendo determinado pela estrutura da


linguagem leva a uma imagem da linguagem como uma prisão da
qual não há como escapar (cf. Jameson, 1972). Já que "a lin-
guagem e sua estrutura existem previamente ao momento no qual
cada sujeito, em um certo ponto do seu desenvolvimento mental,
entra nela", Lacan concluiu que

O sujeito falante também, se pode aparecer


como escravo da linguagem, ele o é ainda mais
de um discurso, no momento universal em que
seu lugar já está inscrito desde o nascimento,
mesmo se somente em virtude de seu nome.
Referência à experiência da comunidade ou à
substância desse discurso não resolve nada.
Pois esta experiência assume sua dimensão
essencial na tradição que este discurso estabe-
lece. Esta tradição[... ] funda as estruturas e/e-
mentares da cultura (Lacan, 1966:248).

O homem, sendo, assim, escravo da linguagem, não é o


senhor de seu próprio pensamento. Em vez de penso, Jogo existo
IDÊIASSEMIÓTICAS NO ESliRUTURÁIJSMO GERAL 119!;

de1Desoartes, a divisa de, Laca oé ça; pense. Ezle, ·quer dizer; 01


outro,;pensa e,, já que este outro passai a estruttiraidâ prisão·da:'
lin~uagem, tacan substituiu; 0 cogito de 'Descartes< por um
"mistério de duas faces"i "o que alguém diria éi eu nãtlestou 1
"

onde;quer;que. eu s~jaio !Jrinquedo do meuipensamenfof.penso •


sobre o,que sou onde,não penso empensar"·(Lacan, 1966:166).:

A história sêmiótiêai'do contieci.mento em


Foucault

l:intre ós mais impõitant~s'fiJósofos .discutidos no con..,,


texto•do estruturalismo 25 esfãõ'omarxista·Althusser, o·pqs.:es!â
traturalista, neo:-:es'truturalista (Hrank, '1984•) ou superestrutl!lrª;;.
lista (Harland; 1987:)·Derrida, rnh'istoriador Michlel Foucault<e~•no
campo da hermenêutica, l"aul Ricoeut•(fsproeok, 1968; Kmzweil~
198():87-112). E:stes1filésofos;1às'vezes, objetaram serchamadas
de estruturalistas, mas suas te:0tiàs pos~uem1:1ma .funqafüenta.:
ção comum inconfundivelmente estruturalista.

Oestruturalismo deFoucault

No seu livro As palavras e. as coisas (J966a), Michel


Foucault (1926'" 1984) apreseritoü uma história estruturálista das
idéias, uma Arqueologia <1oconhecimento(1969)nª Europa da
Renascença ao estruturalismo moderno. 26
O estruturalismo de Foucault não, se. manifesta na
aplicação direta dos formalismos lingüísticos que têm como
objetivo abusca,éle estr1.1turas diferenciaistop·osições, unidades
êmicas ou outras estruturas em sistemas históricos de idéias.
No entanto, Foucault, como outros estruturalistas filosóficos,
25. VerWahl (1968b), Óorvez(1969), Schiwy {1969a), sturrock, ed.
(1979), Kurtweil (19áó). ,
26. Sobre trabalhos geraisver Hby, ed.' (1986).
120 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

colocou o signo no centro da sua pesquisa e enfatizou o desapa-


recimento do sujeito num sistema semiótica anônimo, desde a
idade do Racionalismo. Com esta idéia do sujeito retido na prisão
de um sistema semioticamente fechado, Foucault conservou o
que Piaget chamou de "todos os aspectos negativos do estrutu-
ralismo estático - a desvalorização da história e da gênese, o
desprezo por considerações funcionais; e, já que o homem está
por desaparecer, a expulsão de Foucault do sujeito é mais radical
que qualquer outra até agora" (Piaget, 1968: 134-5).
De acordo com Foucault (1966b: 15), "nós pensamos den-
tro de um sistema de pensamento anônimo e coator, que é aquele
de uma época e de uma linguagem". Estas coações, na nossa
linguagem e no nosso pensamento, tornam o humanismo
impossível, pois o humanismo, com seus conceitos de moralidade
e valor, quer introduzir significações em um sistema de
pensamento de fora, enquanto, de acordo com os estruturalistas,
a significação é sempre gerada no próprio sistema. Como
resumido por Silverman (1983:129),

Foucau/t insiste que o homem, como nós oco-


nhecemos, é produto de certos discursos deter-
minados historicamente e que, ao desafiar tais
discursos, nós podemos "dissolvê-lo". Foucault
não sugere que nós eliminaremos, assim, a
categoria do humano, mas que desconstruiremos
as concepções, por meio das quais nós entende.,
mos esta categoria até agora.

A interpretação semiótica da história européia das idéias

As palavras e as coisas, de Foucault, é também uma


história semiótica das idéias em três diferentes períodos da
história européia: a Renascença, o Iluminismo e os séculos XIX
e XX até o estruturalismo moderno.
IDÉIAS SEMIÓTIGASNOESTRUTURAf:.íSMO GERAL 121

Como o título em fraflcês, Les'rnôts et les·ohôses, indi-


ca; ó tema trata da relaçã0entré ós signós é séus1 dbjetós!,Os
signos são sistemas de representação ein,três áreas: halin;.
guagem, as palavras representando a realidadé}ha economia, o
dinheiro representando valores; e na história natural, os sistemas
de classificação,da faunáê da flora~ O oojetivô 'de F"ôUêault éra,
determinar "as bases em que o conhecimento ,e a têóriâ',se
tornaram possíveis[ ...] e nas bases de quais a priorihistóricos
as'idéias puderam apârééér" (1966a:xxi-ii). Blé·,denominou as
cotiâições que déterminámtar ~ossiôilidââe de campos epistemo-
lóg1êos ou epistérnes (ibid:) eafirmou: "!Em qualquer ôulturá; a
qualquer momento~ há,sempre sbmente uma epistemêqOédêfiríé
as condições· âa péssibilidãdé de todo tr cónhécimento'' (Foucal:llt,
1966à:168);
Nbs três períôdés estudados émAs palavras e aseóisaª,
Foucault descobriu tais êpistemés,ein homologias semióticàsqUê
apàrecêtn nos campos' ditlingúâgem, da nàt1:1rêza' e·sa economia.

Omodelo icônico da representação na Renascença

Na Rerfasêeh~á, a relàçãó entre os três sistemas semió~


ticos ea pálavta pbréles designada éa de similaridade:··

Buscar uma,sighificaçãd ê iluminar a semelhan-


ça. [...1Nãohá diferênçâéntreás'rnarcas visí-
veis que Deus estampóu·ná stlpetfície. da terra,
de forma ·qué nós possamos ,,conhecer seus
segredos internos. [: ..Jôobnhêéirn~nto;'assírn,
consistia em telaêionarumâ foffrla dálinguágem
com outra [ ... ], em fazer, tudo falar [:.;]. A,
funç~bprópria ab aenhecirnentdnão,éa;dever
ou demonstrar; ê a de interpretar (Poucault;
19668}29, 33, 40).
122 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Omodelo do signo com base nessa visão do mundo era


o modelo triádico dos estóicos, que garantia a ancoragem do signo
no mundo visível e. invisível, do qual o signo constitui a cópia ou
representação icônica.

A perda da iconicidade da re-presentação na idade


do Racionalismo

A crença no caráter copiador do signo se perdeu a partir


da era clássica. Enquanto, até a Renascença, se atribuía aos
signos uma relação de semelhança mais ou menos evidente com
seu objeto de referência, a lei da representação passou a ser o
princípio da arbitrariedade do signo: "No limiar da era clássica, o
signo deixa de ser uma figura do mundo, deixando de estar ligado
àquilo que ele marca pelas linhas sólidas e secretas da
semelhança ou afinidade" (Foucault, 1966a: 72).
Qual era, na era de Descartes e de Port Royal, o novo
modelo das relações dos signos, se estes deixaram de estar no
mundo dos objetos?
Conforme o novo paradigma epistemológico do período
clássico (ver ibid.:53-6), as semelhanças passaram a estar su-
jeitas ao exame racional de uma prova pela comparação. A nova
ordem era estabelecida sem referência a uma entidade exterior.
A palavra não era mais um signo da verdade, o seu papel era o
de traduzir aquela verdade, se ela pudesse. Dos Estóicos à
Renascença, os signos, de acordo com Foucault, foram triádicos
(incluindo a referência ao mundo exterior como seu terceiro
correlato} (ibid.:42). Na idade de Port Royal, os signos tornaram-
se diádicos (ver Nôth, 1995:43). Sem ter conecção com a
"realidade" exterior, o signo se torna uma conecção "entre a idéia
de uma coisa e a idéia de outra" (Foucault, 1966a:63}. Foucault
(1966a:78; 1967) lembrou a definição de signo de Port Royal, de
acordo com a qual o signo não representa uma coisa, mas a idéia
de uma coisa, representando assim a ligação de duas idéias,
IDÉIAS SEMIÓTICA~NP~STRUTURALJ$MOGERAL 123

uma da coisa querepresenta, outra da coisa representada. Aqui


se encontra' o núcleo daqui lo que Foücault consideróu.q ·modelo
1

representativo clâssico, c@nforme.o modelo clássiào âa


represénta~ãó; ·

As sínteses, através das quais a fala formaJra·,;:


ses apartitdepalavras de classes.diversas (quer
dize'r,:reptesentátjões.de tipóstdiferentes de
. :atii/idadesou apetcepçõéSfmentais"elousensí-
veis), essas s'ínteses são repres·entações
mentais das sínteseipredeâenteSJ atráliés das
1

quais a mentif·une as imagens lexicais de im~


pressões elementares ot!J idéias êompredicados:
sobre julgámentos:,a sintaxe lingüística seria,
•entã&, o reflexo das formas Jógitas de.julgamen;;;,
tos ·c0mo elas.sãoprópriasà:mente (Frahl<,
4983:156).

Com o deslocamento dasrélações sígnicas~do' mt:íhdâ


das coisas a um mundo dos signos das coisas.,ou seja, das re,.
presentações, no sentido·de Poucault, o sistema dos'signos se
torna, então, a moldura de relação dos signos. Aqui se encontra
a origem da idéiádaaútoreflexividaâe dos signos (GU3chêêf~r
et ai., 1992:849), uma idéia que, contudo, com Descartes e Port
Royal, ainda não está ligada à queixapós-moderna da óirculari,.
dade da representação, comocom·Lyotard, que hoje fâlá:da
impossibilidade da representação num mundo. que se apresenta
somente pôr frases, pois o sistema de signos ainda possui, M
era clássica, um·firme fundamento na razão da lógica, Assim;
pará Foucault (1966a:7 4-5), após a mudança de paradigma da
Renascença para a era clássica, "uma rede desighos coloca;.se
no lugar do conhecimento[... ] Através de signos, as c0isas
tornam.:.se distintas, elas se conservam na sl!la ideAtiQade, ·se
desfazem e se ligam. A razão ocidental entra na era; do
124 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

julgamento". Ao mesmo tempo, o sistema racional da represen-


tação lingüística se torna representativo para todas as outras
ordens científicas e.culturais, como a da pintura, do sistema
econômico do dinheiro e das riquezas ou das ciências naturais.
A ordem da razão lingüística determina, assim, a ordem das
coisas em geral.
Como conseqüência do novo paradigma clássico, a im-
portância dos signos na filosofia desta era aumentou: "Antes,
eles eram meios de se conhecer as chaves para o conhecimen-
to; agora, os signos são co-extensivos à representação, isto é,
ao pensamento como um todo" {Foucault, 1966a:65). Assim,
surge uma divisão entre o signo e seu objeto. Já que as palavras
não permitem mais acesso direto às coisas, tudo que sobra é a
representação, o discurso e a crítica (ibid.:79-80). "A linguagem
era uma forma de conhecimento e conhecimento era automatica-
mente discurso. Assim, a linguagem possuía uma situação
fundamental em relação a todo o conhecimento: era somente por
meio da linguagem que as coisas do mundo podiam ser
conhecidas" (ibid.:295-6). A partir de então, a gramática geral
adquire importância primordial para a filosofia (ibid.:83). Ela
fornece o modelo universal de toda reflexão científica.

A perda da representação a partir do século XIX

No limiar do empirismo e do historicismo do século XIX,


este modelo clássico de representação é, de acordo com Foucault,
novamente abandonado numa nova ruptura. A ordem das coisas
não é mais fundamentada na razão e suas representações, mas
nas ·regularidades históricas, que são inerentes ao sistema das
coisas. No lugar da visão classificatória do mundo, característica
da era.de Descartes, surge, então, a pesquisa da evolução e da
historicidade das coisas. O historicismo e o empirismo descobrem
que a linguagem tem uma história e leis próprias. A linguagem é
então rebaixada ao status de um objeto: "Conhecer a linguagem
IDÊIASSElv110TIQAS NO ESTRUTURALISMO GERAL 125

hão é mais chégar tão perto do conhecimento quanto possível; é


meramente aplicar bsJmétodos de ·entendimento em geral a·um
domínio particulârda óbjetividade11 (Foucault, 1966a:296).

Os primeiros filólogos' kl procuraram na


profundidade histârica das línguas. a possi-
bilidãde do discurso.e:da.gramática: Assim;
mesmo arepresentãção.deixou de tet valor para
[...Jaspalàvras, como seu lugar qe otígem ê /o.:
calização primitiva da suá verdade[; .. ]: A
•· representação que se faz das coisas [ ... } é a
aparência de uma ordem que agora pert(3nce às
coisas• mªsmas e süa ,fei interior {Foucault,
'1966a;324}:

O· novo pàráfügma dá historicidade significa; pana


Foucault, o.fim da teoria da representação clássica; porqije,cómo
Frank (1983:167 ,.,8) ot>servà "aepisteme clássica;se baseia na
1

condição de que uma dissolução totahdosignifiant :oêorre1 i;ro


1

,signifié: nada no signo resiste à idéia que se 1represenfü.por meio


dele, sobretudo qüândo a on;lem das idéia·s .é pensa<:la, nÉisua
verdade, como,atetTlp·oral: algQ é verdadeiro, de acordo com•o
pensamento•clássico/simplesmente porque não podê se,l':visto
de outra forma '[ ..•.]:Esta premissa deixa de vigorar, quando o
tempo [...] intervém na· síntese da representação~; De..acordo
com este novo paradigma, os pontos,de referência àos sjghôs
hão se encontram mais no próprio sistema dos signôs, mas "no
exterior da representação, alémeasua apàrição\imediata\, num
tipo de mundo,anterior, mais prpfwndo é denso quê ele.mesmo"
(Foucault, 1966a:252). Como resaltado, "es cmiteúclos empfricos
foram separados da representação~ quando eles, revélaramo
princípio dasua exist&noia emsi mesmos~, (ibi<:f:328).
Com esta nova visão dgs coisgs, indépeneentemente da
razão do discurso, a era do empirismo e do historicismo continua,
126 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

mesmo se em pequena escala, a visão pré-classicista das


palavras e das coisas, pois "no começo do século XIX, elas
reencontraram sua antiga potência enigmática. Isto, contudo, não
aconteceu com a finalidade de reintegrar o arco do mundo que
ele abrigava na Renascença, ou com a finalidade de se misturar
com as coisas num sistema sígnico circular. Mais tarde e até
hoje, a linguagem existe dissociada da representação de forma
não mais diferente do que dispersa" (Foucault, 1966a:315).
Foucault (1966a:315-6} considerou a ''fragmentação da linguagem"
na poesia de Mallarmé e o "desaparecimento do discurso" ligado
a isso como paradigmático para esta nova dissociação entre
linguagem e representação. Ela leva, assim, a uma nova auto-
reflexividade da linguagem, pois: "A uma pergunta de Nietzsche:
quem fala? Mallarmé responde[ ... ], quando ele diz que aquilo
que fala [...]éa própria palavra - não o significado da palavra,
mas seu ser enigmático e precário[ ...]. Mallarmé não deixa de
se apagar com sua própria linguagem; ele quer somente ainda
aparecer como executor na cerimônia pura do livro, no qual o
discurso se compõe de si mesmo" (ibid.).
Com a emergência da filologia, biologia e economia
política no século XIX, as coisas, portanto, não obedecem mais
às leis do discurso e à gramática geral, mas àquelas da sua própria
evolução histórica. Este é o fim da predominância epistêmica do
discurso, e o homem começa a se emancipar em uma nova
relação entre as palavras e as coisas. Foucault cita Humboldt:
"A linguagem é humana: ela deve sua origem e progressão à nossa
completa liberdade", e conclui: "A linguagem não está mais ligada
ao conhecimento das coisas, mas à liberdade dos homens"
(Foucault, 1966a:291 ). Esta origem da liberdade é para Foucault
a origem das ciências humanas. Mas, "já que o homem se
constituiu num momento em que a linguagem estava condenada
à dispersão", Foucault pergunta, "será que o homem não ficará
disperso quando a linguagem reganhar sua unidade?[...] Como a
arqueologia do nosso pensamento mostra facilmente, o homem
IDÉIAS SEMIÔTIGAS NO ESTRUTURALISMO GERAL 127

é uma invenção recente.·E uma invenção que talvez esteja se


aproximando de seu fim" (ibid.:386-7).

Idéias semióticas de Derrida

Jacques Derrida(nascido em 1930) examinou o estrutura-


lismo com base.em uma filosofia influenciada por Nietzsche e
Husserl.27 S1;Japosição é programatic.amente pós-estruturalista
(Harari, ed., 1979). Não a análise·estmtural, mas a desconstrução
é seu método e .objetivb ·Q.é pesquisar um método que,
entrementes foi .adotado por uma teoria crítica da ·literatura
1,

altamenle influente. 28 No entanto; a discussão da filosofia de


Derrida no con~exto do estruturalismo não é inapropriada. A raiz
ou, no mínimo, o ponto:de partida da sua filosofia te){tUal é o
estruturalismo, é a ·teoria do signo de Saussure. É .esta
fundament9ção estruturalista que induziu alguns filósofos a
discutir Derrida como um neo-,estruturalista (Frank;1984},01faté
1

superestruturalista (Harland, 1987).

Estrutura ediferênça

Alee>ria da desconstrução rejeita a idéia objetivista de


uma estrutura. in~rente ao texto e também a assunção de
universais textuais ou códigos de interpretação. Para Derrida,
esta "ausência dosignificapo transcendental ,estende o domínio
e o jogo da significação infinitamente" (;196k280); Significações
são geradas num processo dinâmico que envolve tanto .différence
(diferença} e aquilo que Derrida chama de différance (diferência).
Différenêe é o princípio saussureano da estrutura, de·acordo com

27. Ver Derriâà (1967a; b; e), Wahl (1968b); Jamesori {1972), Norris
(1982), Englert(1987), Kamuf, êd. (1991),;~vdodi êd: (1992).
28. VerGuller(1982),N0rris{1982), Ulmer(1985),Tallis(1988).
128 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

o qual um signo adquire significação somente pela sua diferença


em relação a outros signos do sistema. Para Derrida, este
princípio estrutural pressupõe que cada signo contenha em si
um traço de todos aqueles outros elementos com os quais ele se
encontra em um contraste sintagmático ou em uma oposição
paradigmática (Derrida, 1968: 142). Este traço implica uma
dimensão temporal. Signos não são somente marcados por uma
presença ou ausência estática. As ausências marcadas pelo traço,
a referência ao outro, implicam um processo dinâmico: o efeito
de diferenças é de atraso, adiamento ou de retardo de uma idéia,
para o qual Derrida cunhou o termo différance (com o sufixo -
ance se referindo ao ato de "adiamento"). O efeito passivo da
différence e o processo ativo da différance causados pelos traços
inscritos nos signos resultam num movimento gerativo que faz
da interpretação um processo semântico de regressão infinita
(uma idéia inspirada pela teoria de Peirce do regresso infinito na
semiose, ver Derrida, 1967a:59-60). É por isso que o texto, a
rede desses traços, não pode possuir nenhuma significação
definitiva. Sua interpretação torna-se um processo incontrolável.

A desconstrução do signo representativo por Derrida

Em conflito com Husserl (1900), Derrida (1967b:54) cri-


ticou "o status da representação no sentido geral de imaginação,
mas também no sentido da re-presentação como repetição ou
reprodução da apresentação, como presentificação que ocupa o
lugar de uma 'outra imaginação'". De acordo com a filosofia crítica
da presença de Derrida, a representação não pode ser uma
presentificação no sentido de uma repetição de algo presente
anteriormente. Ela "não é a modificação de um acontecimento de
uma apresentação original" (Derrida, 1967b: 50). Por um lado, o
representado mesmo é um signo, "pois a re-presentação deve
representar uma apresentação entendida como imaginação"
(ibid. :58; Scheerer et ai., 1992:851). Por outro lado, cada repetição
IDÉIASSEMIÓTICAS NO ESTRUTURALISMO GERAL 129

ou iterabilidadedo signo já significa a modificação deste signo


em um processo, no qual não pode existir nem uma primeira nem
uma última vez (Forget, 1992: 113). Portanto, a diferenciação
"entre a simples presença e a repetição, sempre já começada,
deve ser apagada". Derrida opõs à idéia da presença fenomeno-
lógica como último ponto de referência da representação o seu
conceito da différance e isso significa o adiamento infinito da
presença e a diferença inanulável dentro do signo que, dividido
em si mesmo, leva consigo vestígios de outros signos.
V
ROLAND BARTHES:
DA SEMIOLOGIA À SEMIOCLASTIA
O desehvolviniento ·da semiótica a partir de râítes
estruturalistas âté â suá fase pós,-estruturalista fiéá partiêúlâr::.
mente evidente nos trabâlhos de Rolánd Barthes'(1915:.1 gao).
Nos anbs 60, Bârthes foi tánto uni estrúturalista dominante como
úm dos primeiros p·ropâgàdorés ao programa ·semiológicedê
Saussllré. Nesta tradição, ele cônfribuiµ' para à semiótica do mito,
da literatura, da narrativa e dos textos oíbliêôs; assim éomo,pafâ
a semiótica da comunicação visual, com estudos sobre
arquitetura, imagem, ·pintura, cinema e propaganda, tendo
cóntribUídôaté mesmo pará a semiótiGa'da medicina. NÔ entanto,
estrúturalisnio e semióticaforam somente ·duas fases na obra·êJe
Barthes (Barthes, 1975a; 1984; 1985a; b; Culler, 1983). A,pesqciisa
semiótica mais sistemática de !3arthei:; no quadro do paradigma
J~$triJturalista, pesquisa esta qu.e.atingiu sell clímax com seu
Sistema da moda (1967),foi seguiga por trabalhos nos quais ele
abandonou princípios do estruturalismo para se converter em um
pós-estrutu ralista. 2s

29. Sobre estudos recentes dos trabalhos de Barthes,. na s.emiótica,


verCuller(1975;1983);coward&Ellis(1977);s,tu~ed.(1979),
Kurzweil (1980), Strickland (1981), HerVey (1982), Lavefs'(1982),
Füssel (1983), Silvefman (1983), LombardÔ(1989), Móriarty
(1991), Brown (1993) Calvét(1994) eRylaríé:e(1994),
134 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Conotação e metalinguagem

Oconceito de conotação, em particular a teoria de Hjelm-


slev da conotação (ver p. 85), é a chave para as primeiras aná-
lises semióticas de Barthes abordando a cultura de massas (Baker,
1985) e a literatura. As idéias de Barthes sobre conotações
basearam-se numa versão bastante simplificada do modelo
sígnico glossemático. Negligenciando as dimensões da forma e
da substância (ver p. 67), Barthes (1957; 1964a; 1967b) definiu
um signo como um sistema consistindo de E, uma expressão,
em relação (R) a C, um conteúdo: E R C. Tal sistema sígnico
primário pode se tornar um elemento de um sistema sígnico mais
amplo. Se a extensão é de conteúdo, o signo primário (E1 R1 C1)
se torna a expressão de um sistema sígnico secundário: E2 (= E1
R1 C1) R2 C2 (Barthes, 1964a: 89). Neste caso, o signo primário
é de semiótica denotativa, enquanto o signo secundário é de
semiótica conotativa. Barthes representou estas relações em seu
modelo de um sistema escalonado.

Figura 8 1
O modelo da conotação de Barthes como a extensão se-
mântica de um signo denotativo (cf. Barthes, 1957:115; 1964a:90;
1967b:28)

sigroserurdário: 2) conteúdo
sigropimário:

Um exemplo dado por Barthes (1957:116) de um tal siste-


ma semiótica é a foto da capa da revista francesa Paris-Match pu-
blicada nos anos 50. A foto(= expressão 1) mostra ("denota") um
africano num uniforme francês saudando a bandeira francesa(=
conteúdo 1). Além deste signo denotativo (E1 R1 C1), aparece o
conteúdo implícito (C2) de que "a França é um grande império
colonial com cidadãos africanos leais ao seu exército etc." Este
ROLAND f3AR'.ft-1!;'$; DA$~MIOLOGIA... 1es

conteúdo (C 2) é oéonté'údo dê um novo signo (Gáriotalivoj. sua


expressão (E2) étodoosignodenotativo E1 R1 C1.
A extensão de um sistema sígriico de primeiro nível pode
também ocorrer éom a aâiçãó de'umá nova expressão: Este é o
êàso de signos metâlingüístioos (ver Figura B 2), nos quais o
sistema primário é aquéléde umà lingOágem-objeto, e o sistema
secundáriocohsisté hàmétalingúagém. Terminologias: ciehtÍfiéas
são exemplos datais métalingllagêns. Por exemplo}a âeélaráção
"'casá' é um'sübstantivo" contém (j sign·oimetalihgüístiêo(E 2)
"sllbstalitivo"; Seu conteúdo'.(C2),é:outró signo éóriipleto nõ nível
dá liríguágem-ol:5JétõlE 1=as'létras c-a-s ..â', C1=o c·onteúd0
'êásal As Figuras B 1 ê'B 2\mõstr,ám'as:similàridades estrufüràis
entre'êoliotàçãó e metálintfllãgerri.;Am~as ~ão sistemas sígrticos
sedulidãriõs,~mas, enqUàr1lô à cõnat~ção toma 'o signo ptifüãrio
êottfü ·sua expressão, a 'metalinguagem o toma étimo s'eu
eóhtêúdo. (Dé'fató, Bârthesém seu Mitolegias [1957j air:i'.<11âfalha
em reconl'lééer esta 1distiriçãb njélfnsleviah'â e idenfifüta a
Coríõtâção'côm aníêtálilig1fâgêrrl( cL Moünin, 1970à$~93.)

Pigura:B2
O módêló de Bârthes1'di1 metalinuuagem (Batttrês,
1964à:90)

sigDseruicÍário: METALINGUAGEM cànteMàí'


sigroprimálio: LINGUAGEM-OBJETO
136 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Mitologia e ideologia: da mitoclastia à


semioclastia

Na sua crítica cultural e literária, Barthes empregou o


conceito de semiótica conotativa para revelar as mais diversas
significações ocultas em textos. No seu estudo Mitologias
(1957:131), ele definiu tais sistemas de significações secundárias
como mitos. Posteriormente, Barthes descreveu esta esfera das
conotações como uma ideologia. Os meios de comunicação de
massa criam mitologias e ideologias como sistemas conotativos
secundários ao tentar dar a suas mensagens uma fundamentação
na natureza, considerada como um sistema denotativo primário.
No nível denotativo, elas expressam significações primárias,
"naturais". No nível conotativo, elas escondem significações
secundárias, ideológicas. Ao se referir a um nível de conteúdo
denotativo que não pode ser questionado (como no seu exemplo
do soldado francês africano), "o mito não nega as coisas;[ ... ]
ele as purifica, as torna inocentes, ele dá a elas uma justificação
natural e eterna" (ibíd.:143).
Na sua fase de crítica social, Barthes argumentou que o
mito nas mídias serve para "naturalizar" as mensagens da classe
burguesa, usando estrategicamente mensagens factuais, no
nível denotativo, como veículos de mensagens ideológicas no
nível conotativo. Mitos, nesta visão, privam o objeto da sua história
e evitam questionamentos sobre as condições presentes ao
disfarçarem afirmações particulares como se fossem verdades
universais. "Sob o efeito da inversão mítica, as fundamentações
bem contingentes de uma declaração se tornam [...]a norma, a
opinião geral, em suma, a doxa" (Barthes, 1977:165). Portanto,
"o mito é sempre uma linguagem roubada" (Barthes, 1957:131).
A idéia de que a distinção entre um nível primário e outro
secundário da significação seja útil na análise semiótica da cul-
tura é também central na semiótica de J. Lotman. Para ele, "a
arte e a cultura em geral são consideradas como sistemas de
modelagem secundários.Estes, sisteítiàs\sãó secundários' erifre~
lação ao sistema primário da linguagem, pois, de.acordo com
l!:otmári, "como toifos os sistémàssémióticos,, [eles] são cons-
fruídos á·partir do moâelo dá linguagem" (,1970:9)~
Barthês, porém; àbaríclóhOU mai&tarde·a sua téóriá de
umá famãda de'deriótaçãó primaria, ideólógiéàmérité inóceAtê
êm oposição.à camada'da é0Hotà~ãO.;Hitil,/Z, Barthes·rec:Jefir"iiu
aâenotaçã'ó·coníõ o resulfaâfffinal de fim'.proces'sõ Gôriotatwo:
o efeito âe un{fe'chàmentó'semiótico: "A denotação nãd f a
primeira significação', mas aparentcrsê-lo~'sob está ilüsãót ela
não é'nada mais que á últimadas conotàções{áquela qtié pâr:éêé
·tâhtó estaoelecér c6mo;feóhar a leitura), iião· é senão o mito
supériorâtravés âótjüal o textõáparentarefürnâr à haMêzá.dá
linguagem" (1970b:9). Nesta nova teoria,.surgeum paralelo
interessante com,ateorià peirêéana·ao intérptetante:final, um
significado qi.Íe aparece édmô resultado de um acórdõ infêrpfetá'~
tiva dos intérpretes âo signo:
Barthes, porém, vê, na sua nova interpretá'çâo.~ás
relações e'fltré ós sig'Aõs deriotatiVos 1e conotativos, uma
pôssibilidàâe de abordagem dé nma nova semiologia:

A nova semíólógia- ou ânova mito1ógHf-.;já não


podê,já não setáêapazdé separartãofacilmente
ô signifiéâ'nte ·do sigflificádo, ó ideológico do
fraseológico. [.;;] Uma dóxa,fnitológica fói
ctiada: [ ..Jà desrriitifiáação converteu.ã§e no
discutsómesmo, em ftasés já feitas.f .i] Já não
sãó os mitos (!/UMêm que ser desmacatados
[.. ;], :é ô signo mesmo q·ue preaisa,ser.if1tialado.
[ ...] Primeitárnehté;,ó alvo foi a:desttuiçãó do
significado (idêológiáo); depois foi aquele da
destruição do signo: '"mit0clastia" é suaedidâ por
"semio'clastia" (Barthes, 1977: 166-7).
138 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Pesquisa em sistemas semióticos

Depois dos seus estudos críticos da cultura cotidiana


em Mitologias (1957), Barthes propôs um programa para a
pesquisa sistemática de elementos semióticos não-lingüísticos
em Elementos de semiologia (1964a). Automóveis, arquitetura,
mobília, comida e vestuário são alguns dos objetos para os quais
ele sugeriu métodos de análise semiótica. Em Osistema da moda
(1967b), Barthes fez a tentativa mais detalhada e, ao mesmo
tempo, exemplar de um estudo de sistemas sígnicos além da
linguagem e da literatura. O objeto deste estudo é a moda na
França de acordo com duas revistas de 1958-1959. As principais
características de sua abordagem estrutural-semiótica podem ser
resumidas como segue:
1. De acordo com princípios do estruturalismo lingüísti-
co, Barthes escolheu um corpus de análise fechado, a saber, as
revistas de moda de uma estação, a fim de submetê-las a uma
análise sincrônica.
2. Métodos da lingüística estrutural, como a análise dis-
tribucional e os testes de comutação (ver p. 101 ), foram aplicados
aos dados do corpus a fim de determinar os traços pertinentes ou
distintivos do sistema da moda. Com estes procedimentos,
Barthes estabeleceu classes de elementos paradigmáticos, encon-
trou regras de compatibilidades e incompatibilidades sintagmáticas
desses elementos e determinou as unidades mínimas do sistema
da moda, que ele denominou vestemas (Barthes, 1967b:76). Após
um inventário de possíveis categorias de ves'tuário, chamadas de
gêneros, e uma tipologia de possíveis oposições no sistema de
vestemas, Barthes chegou a uma ampla taxonomia de possíveis
elementos de vestuário. A limitação dessa análise a um corpus de
dados fechado se apresenta tanto como uma virtude analítica
(devido à verificabilidadedos resultados) quanto como uma des-
vantagem empírica (já que os dados que não se encontram no
corpus podem ser pertinentes (ver Culler, 1975:32-40).
3. ,Em analógiá à dicot0rniá de Sãussure erltrê langue e
parole, Bartl'lês distingUlú éritte ó'códigb vestuário, ó sistema de
elementos1e régras"'da'rnôda; é súaatualizàção individual em
peças de roupa.() êoâigérvêstuátiodetermina o qmrestàna moda
numa dádá;estâção. Este é ó;nTvel âEf"âenotàçãô do sistema da
moda. Alérrrde dizer e:i que·está na rnoda, revistas de moda dão
toda uma "rnifülogia" de c0mentários sobre 0s efeitos sociais,
possíveisocasiôesde'usó ou,estilós pess0ais·relaeionados a
esses elemêritos:da móda:,Estes são sistenràs de" éóhótação da
moda qué,Barthês defini@ como urn ·sistema retórico.,
Já que a única mensagem denotativa da moda é se uma
peçá de véstliâriõ estã ou não na móda; ô sistemarda moda cria
ümparãdtixo básico erltte a mensagem, sirnplesMvestúár:icH:1
âquelá focóâigbitetóriêôêlaboradó: â módá é "um sistema
1

semântico cüjó úniêó õD]etivo é 'abalar d significado daqui ló que


é'lá elatiorà tão'lúxuridsàrrfênUH.;.] Sém conteúdo, ela t.. *fáz
o insignificante significar" (Barthes, 1967b:269; 288).

Sistemas êle objetos côrnó sisterhas secundários

Apesar da moda ser um sisterná de"objetos visffâiS~ o


estudo de Barthes se preocupou apenas indiretamente com tais
objetos ou suas representações fotográficas. Em vez de um
sistema de objetos/b bôtpús:aê âRãlisé de:Bàrthesiõonsistia
somente da "moda escrita", isto é, os comentários sobre as
fotógrafiàs de'thoda. Barthés"a@1rríehtouque roupas ern revistas
de rnoda podern significar além de urn certo nível rudimentar
sómente porque suas definições dirigem aateri§ãÔ dos leifür~s a
cértós traçós' dó véslüário. Apenas o cornéntár:io gerá sigflifita-
çôés, ao "extrair significantes11 dos objetos e "nomear seus'sig-
nificados" (Batthes, 1967b:xi; 1964a!1 O). Esta,considéràeão,levóu
Barthes a negar·à autônorniá semiótica de'sisternas rtãór
lingüísticos:
140 A SEMIÓTICA NO SÊ.CULO 2(X

Objetos, imagens, comportamento podem sig-


nificar, e, claro está, o fazem abundantemente,
mas nunca de uma maneira autônoma; qualquer
sistema semiológico está perpassado de lingua-
gem. A substância visual, por exemplo, confirma
suas significações ao fazer-se repetir por uma
mensagem lingüística[...], de modo que ao me-
nos uma parte da mensagem icônica está numa
relação estrutural de redundância ou revezamen-
to com o sistema da língua (Barthes, 1964a:1 O).

Aqueles que favorecem a possibilidade de uma semióti-


ca autônoma de objetos não-lingüísticos acusaram Barthes de
logocentrismo, a falácia de que mensagens possuem estrutura
semiótica somente pela mediação da linguagem (Hervey,
1982: 132). Entretanto, para os fenômenos estudados por Barthes,
a questão é certamente:
1) como uma significação imediata e "rudimentar" de
objetos pode existir; e
2) se o sistema dessas significações imediatas está de
acordo com aquelas significações fornecidas pelo sistema
("retórico") de comentários.

A relação entre lingüística e semiótica

Como uma conseqüência de sua tese da dependência


de fenômenos não-semióticos da linguagem, Barthes (1964a: 11)
concluiu que "a lingüística não é uma parte da ciência geral dos
signos, mesmo uma parte privilegiada, é a semiologia que é parte
da lingüística". Esta tese é a antítese mais radical à teoria de
Saussure da lingüística como um ramo da semiótica. Se esta
posição logocêntrica ainda parece compreensível com base em
textos icônicos acompanhados de linguagem, ela conduz a um
ROLANRªARTt(E:§:PN$E:rv110~0GIA... ~141

paradoxo, quâhdo a:tese de Baf;thes da semiótica'cotno o estudo


de sistemas· translingüísticbs (isto é textuãis), é levada em
consideração. S'e a translingüística é uma extensão necessária
da lingüística, como é que ela pode ser um ramó da lingüística,
à qual ela deve fornecer uma extensão? 30

Barthes sobre as limitações da semiótica


estrutural ista

Após seu trabalho sobre O sistema da moda, Barthes


abandonou o projeto estruturalista de pesquisa de sistemas
semióticos. Em 1971, ele concluiu com referência à sua pes-
quisa anterior: "Eu passei por um sonho (eufórico) de científi-
cidade" (Barthes, 1971a:97). No entanto, os estudos semióticos
de Barthes não somente continuaram a ter grande influência nos
estudos de semiótica textual posteriores, como ele também obteve
um cargo de professor em "Semiologia Literária" no College de
France, em 1976. Na sua aula inaugural, Barthes expôs um
esboço do seu novo conceito de semiótica (citado em Sontag,
ed. 1982:467-78). Distinguindo entre "semiologia [ ...] como a
ciência positiva dos signos" e "minha semiologia" (ibid.:471),
Barthes descreveu a língua como um sistema opressivo, a
literatura como uma revolta contra a língua e a semiótica como
uma atividade criativa:

A semiologia [ ... ] não se baseia na


"semiophysis", uma naturalidade inerte do signo,
e ela também não é uma "semioclastria", uma
destruição do signo. Muito mais,[...) ela é uma
semiotropia: voltada para o signo, esta semio-

30. Sobre outros argumentos contra esta doutrina barthesiana, ver


tambémPrieto(1975a:133-5).
142 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

/agia é cativada pelo signo e o recebe, trata-o e,


se necessário, imita-o como uma lente imaginá-
ri a. O semiólogo é, resumindo, um artista
(ibid.:474-5).
VI
GREIMAS E O PROJETO
DE UMA SEMIÓTICA
NARRATIVA DO DISCURSO
Um dos semioticistaf que pértna11eceu mais fiél. ao's
princípios da análise estrutural é Aigirdas JUiian Greimas (191':i'.-
1992). Com suaSemântica estrütútal (1966), ele intrõêluzi u·uma
semiótiõa áltàmetité infhlétite'.e produtiva, que sêtorn0u o Ml~léo
de úma escola semiótióâf a liscola de f>aris: 31;Apesarde,91fam~nté
elaborada nasdivéfsasfases"âê;sUa'0bra, Greimas contiht[àva
chamando sua teoria de "um projeto s~fniótico". 32 A inflaêt:fêia
dãs idéiãs de Greimas é nofãvel etti varias ãr,eas .do campo
sêmiótico: indO'dã semiótica do,espaço eda arquitetura à pintura,
teologia, direito e ciências sociais até à ciêrii';ia âa documenta~
ção. 33 o 0ojétivo êéntfal da ~esquisa deste programa semiõticó1
1

contudo, é o estudo dó discurso com ba§e n·a: idéia de,que uma


estrüfüranarrativâ se rilãrfüesfa ert11 qllalquertipo de texto:

31 l Ccx:juet etal. (1982),iParret&Rúprecht, eds;(1985),Arrivé& Ccx:juet,


eds. (1987), Perron &Collins,cecls. (1989).
32. Cf. Greimás (1970; 1976a:b; 1983}, Coquef (1985) eGreimas &
Coquet (19791291).
33. ci.Parret& Ruprecht, ecls. (1985), Perron &Collins, eds (1989),
Greimas{1976b), Lagrarígé'(1973).
146 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

O projeto semiótico de Greimas

Somente um esboço grosseiro do projeto semiótica de


Grei mas pode ser dado aqui. Um acesso a suas idéias básicas
requer o estudo de uma terminologia algumas vezes idiossin-
crática, elaborada até em dois dicionários próprios (Grei mas &
Courtés 1979; 1986).34
O estruturalismo lingüístico de Hjelmslev, a antropologia
estrutural de Lévi-Strauss, a teoria formalista do conto de Propp e
a teoria das situações dramáticas de Etienne Souriau são as
fontes da semiótica de Greimas. Seu ponto de partida é a tentativa
de aplicar métodos de pesquisa da lingüístíca estrutural à análise
de textos, que Greimas define como discurso. A lingüística
greimasiana tem as suas raízes no conceito saussureano de
estrutura como diferença, nos princípios de oposições binárias e
da pertinência e no modelo sígnico glossemático de Hjelmslev,
além de ter influências da sintaxe de dependência de Lucien
Tesniêre (cf. Greimas, 1974a:58).
Para a Escola de Paris, a Sémantique structuralede Grei-
mas (1966) foi a primeira elaboração de uma semiótica lingüística
(Coquet et ai., 1982: 15). Baseado na lexicologia estrutural, o obje-
tivo desse estudo é a análise semântica de estruturas textuais. A
Semântica estrutural é, assim, mais do que uma semântica lin-
,güística como aquela de Pottier ou Katz & Fodor. Tendo um obje-
tivo além da semântica da palavra, ela é uma semântica do texto.
Depois da sua Semântica estrutural, Grei mas continuou

34. Bons resumos do desenvolvimento deste projeto são dados por


Coquet et ai. (1982), Schleifer (1987) e Perron (1989). Para
introduções, estudos e aplicações da semiótica textual de
Greimas ver Culler (1975:75-95), Gumbrecht (1975), Stierle
(1975:186-219), Courtés(1976), Nef(1977), Kritzman (1978), Groupe
d'Entrevernes (1979), Hénault (1979; 1983), Hafner (1982),
Stockinger (1983) eParret &Ruprecht, eds. (1985), Budniakiewcz
(1992)ePerron (1992).
GREIMASE 0 PROJETO DE UMA SEMIÓTICA... 1~7

o seu projeto semiótica, sobretudo; numa série de ensaios


publicados em livros sobios títulos /Ju sens (1970), Semiotique
etscieHtes socia/es:(1.976b), Du sens1/ (1983), noiseu estudo
exemplar de semiótica discursiva Maupassarít: La semiotique du
texte (1976a), nos. dois dicionários da semiótica .greimasiarfa
escr:itos com J. Courtés (1979; 1986) e.nos seus últimos e·studos
sobre a itnperfeição(Greimas, 1987)e ~·Semiótica das paixões
(Greimas,&Fontanille, 1991);
Contrário à definiçã0comumde ciênciadossignos1Grei-:
mas se opõe a um conceito;:de semiótica corno urna teoria dé
sigr;ms. Na sua definição, a se1J1ióticadeveria ser úma "teoria da
significação",que "somente se.torna operacional quando situa
sua a.náliseemníveistantoacima como abaixo dosigr:io'! (Grei".
mas & Courtés, 1979:339, 177). Duas linhas de pesquisa são
indicadas.nesta definição1 No·'1nível inferior";·analogamentei~
decomposição do fonema nos seus traços distintivos, a ~ato.:c
mização" .éstrütural dos signos {mais precisamente das:'$ig~
nificações") iem seus .componentes sémânticos, charna~.~$;.de
semas,·produzelemêntos analític9s que ainda;nãos.ão siml~S.
No "nível superior", a descoberta de unidades textuajs:proderz
entidades semânticas, ique,são mais que~signos.

O modelo gerativo da aAálise do discurso·

A continuação do desênvolvimento·da sua semânticà es-


trutural levou .Grei mas a um Mvà m0del6 semiótica da consti-
tuição do texto, que ele definiu como trajetória. gerativa. ~5
.O modelo:gerativo dé semiótica textual tem como objetivo
explica.r a geração de discursos· de qualquer sistema semiótica.·

: 35. Gréimas&'Cóurtés{1979:132-4).Soórediscüssõêséapliéaçees,
vêrtambém Colirtés (1976), Gteirnâs &Nêf(1971}; Stõckinger
(1983}, Patte01984), Schleifer{1987}1
148 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Greimas distinguiu três "áreas gerais autônomas" de análise


semiótica textual: estruturas sêmio-narrativas, estruturas
discursivas e estruturas textuais (Greimas & Courtés, 1979:157-
60). Na definição de Greimas e Courtés, as estruturas textuais
são estruturas da substância de expressão, no sentido de
Hjelmslev. No texto falado, elas aparecem na linearidade fonética;
no texto escrito, no espaço visual da escritura (cf. Courtés,
1976:39-43). A trajetória gerativa estuda o discurso no plano do
conteúdo, com as estruturas sêmio-narrativas e as estruturas
discursivas. As estruturas textuais, portanto, não fazem parte
dessa trajetória, pois a trajetória gerativa descreve a produção
discursiva como um processo que se desenvolve em vários níveis
de profundidade, cada um contendo uma subcomponente sintática
e uma semântica. O processo gerativo começa num nível
profundo com estruturas elementares e se estende a estruturas
mais complexas em níveis mais elevados. Toda a trajetória
descreve estruturas "que governam a organização do discurso
anterior à sua manifestação numa língua natural dada (ou em um
sistema semiótica não-lingüístico)" (Greimas & Courtés,
1979:107).
As estruturas sêmio-narrativas descrevem uma compe-
tência semiótica de combinar estruturas semânticas e sintáticas
à base de uma gramática fundamental do discurso, comparável
à língua de Saussure ou à competência na sintaxe de Chomsky,
mas ambas ampliadas pelas dimensões da semântica e do texto
(cf. Grei mas & Courtés, 1979:103).
No nível profundo (cf. ibid.:330, 380), aparecem a se-
mântica e a sintaxe fundamentais. Na sua elaboração desta se-
mântica fundamental, Greimas foi influenciado pelo modelo da
estrutura binária de mito de Lévi-Strauss. A semântica funda-
mental contém categorias elementares que se articulam em
oposrções semânticas e constituem relações lógicas elementa-
res analisadas em forma de quadrados semióticos (ver p. 173).
Neste nível profundo aparece o tema global, a significação
GREIMASJi ORROJETQ IDE UMA SEMIÓTICA... 149

simbólica, dé uma narrativa, por exemplo, o tema;da vida,em


relação à morte, à faltade vida ("não~vida') .0u da,mortef nfü':>7
morte").
A sintaxe fundamental· .é insp.jrada pelo ;modelo das
seqüências narrativas:e consiste .de..cbnstelações áctanciajs
básicas e aindaabstratasda narrativa(verp.17'7).
No nível superficial, a sintaxe narFatlva analisa a estrw-
tura de·sintagmas narrativos,elementârn~ (chamados de. pro~
gramas narrativos). As categorias profundas aparecem agora,em
categotiasantropomórfioas~comoaç~es de sujeitos humanos
(Greimas & Courtés, 1979:4, 242, 331, 381'):
As unidades da análise neste nível são proposições nar-
rativas sobre as ações (o "fazer"~ de·actantes. Elas têm a forma
de E(Ah .qqerdizer, descrevem fuhções(F) de actantes (A). A
trama da narrativa se desenvolve na seqüênéia' d.e tais pro-
posições. Os actantes principais são. o.sujeito e o. objeto, do qual
el~ bu ela:é sepáfádo (hurna;rél~~ãc:f de;âisjun~ão) ou com o gual
ele ou ela é unido (nunia relaçãó":<.fü"conjunçãô~ .. Disjunção,
transformação e,éonju~ção de actantés sãbi pbdanto,as fóíitês
básicas,de qualquer desenvolvimehtónarrativo.
A semântica na,:rativa do nív~I superficial ê o dorrffnib
da atualização de valores semânticos selecionados da estrutura
profunda e conferidos áos actantes da narrativa superfigial.
Greimas &;Coürtés.(1979:414) distinguem êntre vatores q'~1~-
critivos. e modais. Valores descritivos ou são .valores .essenciais
ou acidentais. Valores modais se referem a categorias como
"desejo", "obrigação" ou "conhecimento". Com base nestas
categorias, Greimas desenvolveu umagramática:das,modàlida9es
(ver p. 180).
·As estruturas da dimensão discursiva do.texto têm a fun-
ção de "trazer as.estruturas s1:Jperficiais ao discurso" (Greimas &
Gourtés, 197.9: 160). A sintaxe discursiva tem o efeito de,próduzit
um ,grupo organizado de atores e uma estrutura .temporal e
espacial (ibid.:107, 330). Assim, ela é o processo de localizar
150 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

atores narrativos no tempo e no espaço. A semântica discursiva


(ibid.:379, 394) é um campo ainda relativamente pouco estudado.
Seus componentes de tematização e figurativização descrevem
as concatenações isotópicas de temas abstratos que podem ser
ligadas a figuras concretas. Este nível de análise é mencionado
só para proporcionar uma visão de conjunto do modelo, mas sem
poder entrar em mais pormenores. Só a dimensão semiótica e
narrativa do modelo pode ser introduzida brevemente no que se
segue.
O modelo da trajetória gerativa, em resumo, tem as
seguintes dimensões:

Figura G.1
O modelo da trajetória gerativa de Greimas (Greimas &
Courtés, 1979: 160)

Componente sintático Componente semântico


Nível !Sintaxe Semântica
Estruturas profundo 1fundamental fundamental
semi óticas Nível !Sintaxe Semântica
e narrativas superficial Inarrativa de narrativa
1superfície
Estruturas
Sintaxe discursiva Semântica discursiva
discursivas

Significação e o universo semântico

Para Grei mas, significação é o conceito-chave da se-


miótica. A totalidade de significações forma o universo semân-
tico. Terminologicamente, Greimas opõe significação a sentido
(sense), ao definir este último como "aquilo que é anterior à
GREIMAS 1tQPR04~TQ'[!)~JJMA$~rytlQTICA.. 151'

produçã0 semiôtiéa", 'enquanto signifiéação é sentido articulado


(Greimas(& Oourfés, 1979;352). Gréimâs élaooroÍ:ISeu:modél0
da estrutura élémêntâr da significação e daanâlisé sêmiéa'em
seu Sêrnântiéa estrutural (1966y. 66 No Selli modelõtlã. trajeíórià
gerativa do texto, as estruturas de significação elementares são
localizadas no nível das:estruturâs prófündás.

A estrutura êlemêntar êtasignificação

Q pôntó dê 'partidá da teoria .semâhtiéa ·de Greimàs


0

(1966: 19) é sua definição' de estrutura, na quàl'se eJá prioridade


às réláções ém véz dos elemétifüs, já quê Sôriienté as diferenças
(que são relâçõesyentré êlemêhtos constituem uma estrutUi:à:.
As relações elementares do mundo seníâhtrc6. <:le Grêiimas sãõ
réláções de oposição: o mundo se estrutura pará nós na forma
de âifêrençás Efop·osições ·(vetp. 46): Si'gnifü:ações, portãr'ltó,
nãó éxistem,oôtno' elementos aútônomos mas sõrtiertte por rê la-
ções oposifivas.Assim, à órigem dá significação é definida como
uma réláção ·elementar constituída pela diferenWentre:doister.:
mos semânticos. Pórexe'mplo; á âiferéhçá entrEfós itens lexioois
"fillíó" e "filha" é devida á uma opósiçãó semântiéáque pôde sert
descrita pelos traços "maséulincl e "femihiné''. Masr pàrâ Grei mas,'
esta estrutura semântiéa'Diháriajá pbssm um aspecto duplo (cf.
Greimãs & Courtés, 1979f362): àdiférença ehtre"mâ§elllino" e
"feminino", que é Limá relação âé' disjunção; pressupõe õ
reconhecimento de alguma "semelhança" semântica,;neste caso,
a chamada categoria sêhliêà ae "sexó~, que é cfünumtanto a
"mãso0lirió" como'a "feminino". Esta categoria com"um constitui
uma rêláçãó de conjunção: Tal éónstelàgãó sémântiêà dúplà é
definTaá como uma éstrutüta elernentar de sigriificâçãb. Seu

36. Sobre introduções e discussões vêHSróss8(1971), Dierke~ &


Kiesel (1973), Ôuller (1975:75-95), Codrtés (1976), Nêf; ed:{1976),
Schleifer:(1983;1987).
152 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

modelo é um eixo semântico linear com dois elementos em seus


extremos. O eixo representa o traço semântico comum (a ca-
tegoria sêmica). Nos pontos extremos estão os termos diferen-
ciais ("masculino", "feminino"). Estes são definidos como semas.

Análise sêmica: sema, semema e lexema

Sarnas e eixos semânticos são entidades abstratas da


substância de conteúdo no sentido de Hjelmslev (Greimas, 1966:
27). Como Hjelmslev mostrou, um eixo semântico, como aquele
designando um espectro de cores, pode ter diferentes "articula-
ções", quer dizer, formar diferentes campos lexicais em diferentes
línguas. A articulação sêmica específica numa dada língua se
torna sua forma de conteúdo.
Na semântica lexical, os sarnas de Greimas possuem
um status e uma função similar àquelas dos componentes se-
mânticos em outros modelos de semântica estrutural. O sema é
a unidade mínima da semântica, cuja função é a de diferenciar
significações. No universo semântico, os sarnas formam hie-
rarquias de sistemas sêmicos (Greimas, 1966:33). Quaisquer dois
sarnas agrupados sob uma categoria sêmica comum constituem
um elemento de uma hierarquia sêmica.
Sarnas são concebidos como entidades de estrutura abs-
trata, profunda, de descrição metalingüística. O universo dos
sarnas representa a totalidade de categorias conceituais da mente
humana. Neste nível, que Greimas chama o nível da imanência,
as unidades de significação ainda são independentes da forma
que elas tomam em qualquer língua particular. A combinação real
de sarnas em significações, como eles aparecem em lexemas,
ocorre no nível da manifestação. Porém, lexemas, as unidades
da estrutura superficial do léxico, não são unidades da semântica
em si. Somente suas significações pertencem ao nível semântico
da manifestação. Estas significações, combinações de semas,
são definidas como sememas. Já que lexemas podem ser
GREI MAS EQ PRG,f~OOE IJMASEMIÓTICA... 153

polissêniicós, um léxenia poc:Jê;possuirdiversos sememãs.Pót


exemplo, diferenfes semenias dó lexemã"mangá" sãó "parte do
vesttíário", "fruta" etc.
Em uni semêmâ, Greimas distingue âois tipos dé semâs,'
semas nucleares, que caracterizam um semema ha suá êspêôi-
ficidade e constituem um mínimo permanente, independentemente
de contexto sêmico, e semas contextuais, também chamaoós
de classemas, que os sememas possuem em comum com outros
eleméhtós)âét1ni' sintagma (Gtelfnàs, 1966: 46=60).A'delimitação
das semas nuotearés dos clàssemas-; eontudo/ apresenta
problemas metodológicos cóhsidéráveis. ©s problemas' em rela-
ção à têntativa:deêstaõêleéêrdoistipos básicos âêêlenientos
sérftânticdsmír:í1nios,sãê'semêlfüir:ífüs')àsdifiooldâdes,quê'Kãtz
& Foâorenêtmtrarci'rhôõrilsua proposta dê distinção ent'ré mar-
éa'dores e diferehaíadorêsseni'ânticos (cf; B0m1ger, 1;965).,f!r'l-
q't:fánto serftenias são sempre cómpostos,por sêmas nt.1oleãres1e
1

c0nte~üais, tàmoém há semerrias ql:iê só possuem sémàs,c0r1..:,


textuâise nênhum1senia'.f1úale'ár,'ptêx.,'êonjünçõés e·prevér5iê:5s,
relativos. Tâis conibinações'de semas~ são definidas como
metàssemêmas (Greinias/196fü122r

O nívelsêmânticb é onívél;semi0lôgioo

A;diferenciação entre sêmãs nucleares' e semás contex-


tuais estárelaoibfláda a dõis outrosfüveis de análisen<:l'uniVérso
significativo' (Grelnias, 1966,:63-68,, &teimas & Courfüs,
1979:338). $emas que constituem o núêlêõ dos sêmerrras
encontram-se no clíamãfü:f nTvel semiólógiéo (ou figurativo). Ê:les,
sê referem a unia éSferá,de percepção universal., extra-lingi!ilstica
("o mundo sensível") e constituem o nível mais profundo de
análi.se. Os sistemas d~sem.emas contextu&js formam o nível
semântico (ou não-figurativo.também abstrato) do universo
significativo. Em oposição aos semas nucleares ao nível
semiológico, semas contextuais sé referem a categorias da mente
154 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

humana. Greimas também se refere à dicotomia semiológico


versus semântico em termos das categorias exteroceptividade
(referente às propriedades do mundo exterior) e interoceptividade
(referente aos dados que não possuem correspondência
perceptual) (1966:120).

Oquadrado semiótico

As oposições que constituem eixos semânticos podem


representar dois tipos diferentes de relação lógica. O primeiro
tipo, contradição, é a relação que existe entre dois termos da
categoria binária asserção/negação (cf. Greimas & Courtés,
1979:67). Esta relação é descrita como a oposição entre a
presença e a ausência de um sema. Desta forma, um sema s1,
"vida", é oposto a seu não-s1 contraditório (s1), "não-vida" (no
qual o sema "vida" está ausente). O segundo tipo é o da
contrariedade (cf. lbid.). Dois semas de um eixo semântico são
contrários se um deles implica o contrário do outro. O contrário
de s1, "vida", é s2, "morte". Os dois semas pressupõem um ao
outro. A constelação semântica de três termos nos dois eixos,
s1 -s1 e s1 -s2, pode agora ser expandida pelo contrário de s2, que
é s2 ("não-morte"). O resultadp é uma constelação de quatro
termos, na qual um novo tipo de relação, implicação ou
complementaridade surge entre os termos s1 es2 ou s2 es1. ("Vida"
implica "não-morte". "Morte" implica "não-vida".) Esta constelação
é visualizada como um quadrado semiótica (Figura G 2). 37 Esta
maneira diagramática de representar as quatro relações é uma
versão modificada de uma formalização conhecida da lógica
aristotélica e medieval. 38 O caráter de estrutura profunda deste

37. VerGreimas(1970:160),Greimas&Courtés(1979:31)eonúmero
especial intitulado Le carré semiotique do Bulfetin du groupe de
recherches sémio-linguistiques 17 (1981 ).
38. Ver Reichenbach (1947:95); Libéria (1976) e Hendricks (1989).
GREIMAS !:;~PROJETO PÉ UMA·SEMIÓTICA... 155

quadrado seíni'áticó,é,eviâente pelõfatode'queseus quatro


valores semânticos não possuem' semptê' úm equivalente lexical
c0rrespondentenãestruturasupetficial, Não há, por exemplii>',
itens lexiéàis que expressem as idéias dê "não-m0rte~ ou "nãb"
vicW,

'Fig1.1raG2
0 quadrado semiótiõódêSreimas

Asserção Negação
(VIDA) (MÓRTl:\)
Si Si

J ·f
=~
:3 .:g . :

;iar
i
í
;<,Jti
~=E:
~:

"$2 :52
N.ao:-p~S~rçjo NãÔ:liE;lgpçãQ
(NÂÓ-MóRTE) ;(NÃpJ.1lôN

ls0t0pia

Greimas (1966) tomou o termo isotopia emprestado (Gr.


iso "o mesmo", topos "lugar") da física núélearJ Na semântica
estrutural, isotopia descrevê a coérênciae homogimeiâa<fede
textos. 39 0 concêitofoi aceito amplamente como um f)ririeípio de
constituiçãó de textos na semiótfoa textual (cf: Eeo 1'984:489-
201 ).

S9. VerRam(1972b; 1981},Amvé(1973), Klinkenberg"(1973), Kerbrat-


Orêcchioni (1976), Greimas &Góürtés (19'19:197-9}.
156 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Greimas definiu isotopia como "o princípio que permite a


concatenação semântica de declarações" (197 4a:60; cf.
1970:188). Em sua primeira abordagem, Greimas desenvolveu a
teoria da coerência textual com base em seu conceito de semas
contextuais: a "iteratividade" (recorrência) de semas contextuais,
que ligam os elementos semânticos do discurso (sememas),
garante sua homogeneidade e coerência textual (1966:69-101 ).
Greimas (cf. 1974a:60) relacionou este princípio à teoria de Katz
& Fodor da desambigüidade semântica. Num texto, um substantivo
polissêmico como manga ("parte do vestuário" e "fruta") deixa de
ser ambíguo através de um sema contextual como "camisa". A
condição mínima da isotopia discursiva é, portanto, um sintagma
de dois semas contextuais. Greimas & Courtés também
interpretaram o quadrado semiótico em termos da isotopia
discursiva (1979:197).
Na sua extensão sintagmática, uma isotopia é consti-
tuída por todos aqueles segmentos textuais que estão relaciona-
dos por um sema contextual. Já que textos normalmente não
são unilineares ou unívocos, Greimas descreveu a superposição
de isotopias em diversos estratos isotópicos (1966: 109-15). Quan-
do o discurso possui somente uma interpretação, sua estrutura
semântica é uma isotopia simples. A simultaneidade de duas lei-
turas, como em ambigüidades e metáforas, é chamada bi-isotopia.
A superposição de vários níveis semânticos num texto é chamada
pluri ou poli-isotopia (cf. Arrivé, 1973).
A partir do primeiro modelo de concatenação sêmica con-
textual, a teoria da isotopia foi expandida progressivamente para
englobar recorrências em outros níveis textuais. Além da isotopia
semântica, Greimas & Courtés (1979:198) distinguiram isotopias
gramaticais, actanciais, parciais e globais. (O último dos dois
tem um importante papel nas condensações ou expansões
discursivas, como em resumos). Numa outra expansão (cf. ibid.
e Rastier, 1972b:84), a tipologia de isotopias é estendida por
isotopias semiológicas (ver p. 171) a fim de englobar iteratividades
157

em termos de conhecimento de munâo "exteroceptivo". Estas·


são aihda'suodivididas emisbtopiàs temáticás e figurativas (ôf:
Figura G 1). Uma outra expansão do conceito dé,isotopia foi ainda·
proposta por Rastier (1972b,, que estendeu sua tipo!Qgiá tlé
isõtopias do nível âõ córíteúdo para ô da expressão e/ assim,
deMreveu recorrências morfológicas é fonéticas (e. g: rihià é
assonância) éõmõ cásós deisõtopia.·Uma tipologia de isotópiãs
diferéhte é proposta por Eco (1984).

Elementos da sintaxe narrati.vã

As oposições da semântica fundamental na forma. ifos


quadrados semióticos são ainda atemporais e têm que ser
dese[w9lvlda$.na s~qOência siQt~gTátic~ dg,çisRurso.:, Jam~~rn
no nível sintático prof~ndo, na 'sintaxe fundaméntal, Grefmas
postula uma estruturaJ~~~mppralantes da temporalização dela
nas proposições de programas narrativos. A estrutura do nível
sintátiço prqfundo t~mJ~ forma go rnodeto.ªçta.nciat~ ~m.R~r9'
Grei mas tenha derivado idéias básicas desta sintaxe da teoria
das funções narrativas do conto de Propp, a sintaxe narrativa
não é, de maneira nenhtfma, resttitâ a textos narrativos·. Mesmo
textosfüosóficos, polítióõs oú científicos e até qualqt.ler frase
dá sinta:xe·cotidiahàtêm uma estrutura narrativa, cõnfõrmé
entendeu Grei mas. As unidades âesta sintaxe são chamáâas
actantes oucategõrias aétâhciáis;
Q modelo básiéo'dáestr'úturáactancial é oseguinte:urn
sujeito narrativó, profütipicamente o herói do contó, des·ejáe
procura um objeto, que pode ser uma.pessoa, por êxemplol uma
princesa. Q sujeito e o objeto fazem ainda parte de êwa,s req·es·
semânticas mais des·envolvidas: õ·sLJjeitorde um lado, é assis.;
tido por um coadjuvante, mas; do mitro ladõ, tem de lutar contra·
um opositor, o vilão do conto. Anibbs possuem o poder de ajudar
ou prejudicar o herói. Q objeto se encontra entre üiTiâestiriádbr
158 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

que dá o objeto (por exemplo, ao herói) e um destinatário que o


recebe (p.ex. das mãos do herói). O destinador da princesa do
nosso conto seria, assim, o pai; o destinatário seria o futuro
marido dela, que pode ser o herói. O destinador e o destinatário
possuem um "saber" situacional e representam um eixo de co-
municação. Entre o destinador e o destinatário, Greimas vê uma
relação de implicação, entre o sujeito e o objeto, uma relação de
projeção e entre adjuvante e opositor, uma relação de contradição.
O modelo completo é, portanto:

Figura G 3
O modelo actancial e as modalidades actanciais (Greimas,
1966:207)

Destinador (saber) > Objeto (saber) > Destinatário

r (desejo)

Adjuvante (poder) > Sujeito ,.. {poder) Opositor

As categorias actanciais desta sintaxe profunda podem se


manifestar em atores na superfície da narrativa. É, portanto,
necessário distinguir entre os actantes da sintaxe fundamental e os
atores que representam estes actantes na superfície. Já mencio-
namos um exemplo desta distinção. O herói do nosso conto exem-
plar - que é um ator- representa duas categorias actanciais: o
sujeito e o destinatário que, no fim do conto, recebe a mão da
princesa. Várias combinações de funções actanciais são,
portanto, possíveis, na superfície. Numa novela trivial de amor,
por exemplo, o amante pode representar tanto o sujeito quanto o
destinatário e a namorada tanto o objeto quanto o destinador. Na
busca do cálice sagrado de Parsifal, por outro lado, esses quatro
papéis ficam bem distintos. Parsifal é o sujeito, o cálice sagrado é
GREI MA$ EQ PRQll;fC> OE UMAS~MIÓTICA... 159

o objeto, Deus'é o destinador ê ó'hómem érti,getal (a humanidade)


é õ destinatârÍo.
Cortió é qué·éssás dategoriàs dérivadàS dõ modelo dó
conto de fadas ·podemprêtendêr ufnà generaliza.ção universal qwe
permita süá apliéaçãb a qualquer textoou âtãa qUalquerJrase?
Parcravaliaf·essas possibilidaâes de generalização é impôrtãnlê
cónsidêrâr asípossioilidàê:Jê·s dé reduzir as s.eis éatégorias
actànéiais até ao nuéleo dá constelação sújeito--0bjêto: Aí parece
evidente que qualquer ftãse·com um vefbó transitivo:podtfser
reduzida a uma estrutura áctancial dê sujeito-objeto. ·Em; por
exemplo, ·:carlos lança. a l:Jola"; Carlos é, ao mesmo tempo, sUjElito
e aestihaêlorr do objeto "bola" .. Cõm à extensão adverbial aa mesma
frase em 't:arlôs lança a bdla'pàráo gôl1'; já apareêe mais,uma
categoria actancial, ádo destinatário ("gol").
É1éviâenté queern têxto·s jurídidosôu ideõlógiêôSJtâm'"
bem 'sé podem vérifi-0aPéafügoifas de üma tãlgeíiér:àlidãdelr:O
1

sujeitode urtHéxto filõ'sõficd séria certa.merítéb filós0fõ; Os sétis


adjuvantes são os filósofos que ele ou ela cita com aprôva~ãô,
ós opôsiforessãóos·autores qúe·êle ou êlMejeita.,:o 00jeto seria
provavélrríénté o éófihecirríéhfü.dâ verdade, o destinadõrd.elasêria
outrá vez o filósofo autor e ó' déstinàtáriõ seríamos iióSPõs
feitores:
o mesrriê padrã6é"aplicável a uma propâgandà dê pasta
der:ital,qúemósttáo sücéssó que, um,êonsumiâõrdo pto·autcitém
cdm as mulheres dépols ·de compfá..lo ê usá-ló. O sàjeifoié o
consumidor. O objeto dd seu desejo éuma'hifâ.mõraâa. o prõduto,
a pasta dental, é o adjuvante que âáão nosso herôi da propaganda
o poder necessário. O opositor, que ele vence nesse drama, é o
mau hálito que, até o momento da descoberta da pasta dental, o
impediu de procurar seu alvo. b âéstinatái"iôserià" rnaisiC1ttià ,Vez,
o nosso herói e o destinador seria provavelmente desconhecido,
podendó sér, talvez, ãte a companhia da própriãpásla dental.
Afinál, foi ela· que, ao méno's; enviôú a fi~uta da íiarnôi"ada
imaginária pbr meio da publicidade pàrá à casá do nosso herói.
160 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Na continuação dos seus estudos das categorias actan-


ciais, Greimas (1970:191; Courtés, 1976:68; Coquet et ai.,
1982:54) procurou reduzir o modelo actancial a categorias ainda
mais fundamentais e chegou à conclusão de que as duas relações
lógicas e fundamentais de conjunção e disjunção constituem a
base de qualquer processo narrativo. Disjunção entre os actantes
e os valores associados a eles gera separação e luta. Conjunção
gera reconciliação e união. A sintaxe mais elaborada, na base da
qual a narrativa se desenvolve, contém, no início, tipicamente
um sintagma disjuntivo, que se manifesta na separação do herói
do seu ambiente tradicional por meio da partida. Em sintagmas
contrat11ais, ele estabelece ou rompe contratos ou promessas.
Em sintagmas performáticos, o herói cumpre deveres (ou não),
luta ou vence. Uma estrutura contratual, por exemplo, tem a sua
semântica fundamental na oposição entre um mandamento e a
sua aceitação, que estabelecem um contrato cuja oposição está
na quebra do contrato; essa quebra resulta de um sintagma de
proibição e violação.
A manifestação das categorias binárias de conjunção e
disjunção em sintagmas narrativos é, portanto, um exemplo do
processo transformativo pelo qual estruturas fundamentais se
manifestam na síntese superficial da narrativa. Outros exemplos
da manifestação dessas mesmas categorias são os processos
de atribuição ou privação de valores que o sujeito associa com o
objeto desejado. Atribuição, para Greimas, é também a
manifestação da categoria básica da asserção, como privação
manifesta as categorias básicas pela negação.

Estruturas modais e aspectuais

A semiótica narrativa de Grei mas não se limita a uma


mera análise descritiva de estruturas actanciais com base em
uma lógica binária de ações. A partir de Du sens (1970), Greimas
GRElfvlAS I; ORROJETO;!)I; lJMASEMIÔTICA.. 161

corne.ça a cprnplem~ntar a sua sintaxe da,s:açp~s.por,urnagra-


m~tica modal .e a$p.ectual qu.e permit~ uma e~ens.ãp d9 semiótica
da$ açõe!inarrativas pç1ra uma semiótiQa ci.as emqçõ~& epJ:1i2(:ges
dos açtantes;
Al~m cia$. ITIQ.claJidadl:)s actcmçiais (clq "fa~er"), Gr:e,imas
também distingue modalidades descritivas (q91'.s,erf)1Assim,,as
ações dos actantes já não são meros produtos de um "fazer",
mas também o resultado de um "querer" ou "desejar", um "dever",
um "saber" ou um "poder". Essas modalidades das açõesj~ carac-
terizam as relações entre os actantes na estrutura profunda do
modelo actancial. O eixo sujeito-objeto, por exemplo, é ligado
pela modalidade teleológica do "querer". Oeixo adjuvante-opositor
representa a modalidade do poder e o eixo destinador-destinatário
representa a modalidade etrológica do "saber". A gramática modal
de Greimas é uma gramática de valorização das ações, uma axio-
logia narrativa em vários níveis do universo narrativo. As rnoda-
lidades do "querer" e do "dever" pertencem ao nível virtual dos
valores, as modalidades do "poder'' e do "saber" pertencem ao
nível da atualidade, e as modalidades do "fazer" e do "ser" perten-
cem ao nível da realização. No nível da realização, as relações
são conjuntivas, no nível da virtualidade, elas são disjuntivas.
A aspectualização do discurso é uma outra dimensão di-
nâmica da trajetória gerativa. Greimas e Courtés (1979:21, 79)
distinguem entre aspectualização actorial, espacial e temporal
como três modos de perspectivação do sujeito, do espaço e do
tempo narrativo. A aspectividade temporal é bem conhecida na
gramática verbal, que distingue entre aspectos verbais durativos,
perfectivos, imperfectivos, terminativos ou incoativos. A aspec-
tualização actorial descreve o modo de distanciação do enunciador
narrativo do sujeito narrativo. Trata-se, portanto, das relações
entre o herói e o narrador. Nas perspectivas que o observador
narrativo tem das ações do herói, portanto na relação entre nar-
rativa e trama, Grei mas também vê aspectualizações durativas
(em representações da continuidade do evento), incoativas
162 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

(focalizando o começo do processo) ou terminativas (focalizando


o fim de um processo). As aspectualizações, em suma,
descrevem continuidades, descontinuidades, estabilidades e
instabilidades na representação narrativa dos eventos. São estas
categorias da aspectualidade que Greimas aplica sobretudo nos
seus estudos das paixões.
VII
O CAMPO SEMIÓTICO
DE UMBERTO ECO
Vmberto .Eco (11asci.dq ,em J~.3~) contripviy de fqrma
sigr1ificaJiva em v~riªs ªr:ec1s dª seroiótt~ teór[ca e aplicada;i~ste
capítulo, entretanto, pode apenas i@trod,u.zir.algunsctps,t~mªs
principªis desta pesquisa, cqnç.entr,,mgp..s~ no dese@~Ql~imento
dª obra ge Eco. nq,per9urso çJo estruturalismQ Ei semiótJc.1rtextual;
na sua definição de semióti.ca oomo u.mª teoria cli:i qultura, na
"teqria d9s cócligqs" .e na suavis~o do campo·semióti,co; 40

Te,oria &,rprá.tica, s~n-aiófü:a

Os estudos de Eco vão da fiJosofia medieval à cultura:


popular, incluindo o Carnaval no Rio,JE:cp.et at 19Jl4), estando
a semiótica no ceotro destes eJ3ttJdos diversificados:. A obrç1 qe
Eco oqmeçou çom est1,1dos de filosqfia1e est.~tica medieval. Em
19q4, saiu SLJa tese sobre a, estética de l;omás de. »,q11in.o,
seguida, em 1959, pelo seu estudo sopre arte e,belezc! na Idade
Média(Eqo, l954; 1,959). Da arte megjeval,Eqo passQU'~ estétjca.
da literatura, músiça,e arte dí:l vanguarda.com .Opera élpe,ta (E,co,
1~62). A obra aberta. é. o protótipo da arte .e da literatura mQderna; ·

40. Monografias sobre a semiótica e a ob.ra geral de


Uml:>erto ~co são Laur,etis (1981) e Gritti. (199j).
166 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

que permitem uma pluralidade de interpretações ou, no caso da


arte aleatória, até uma pluralidade de formas materiais na sua
textualidade. Uma suma da estética de Eco é também o livro La
definiziane del/'arte (Milano, 1978).
A cultura popular, os mitos da literatura trivial, de James
Bond ao Superman, as ideologias das mídias ou o kitsch da cultura
do cotidiano são temas de numerosos artigos de Eco colecionados
em livros, tais como Apocalittici e integrati: Communicazione di
massa e teoria dei/a cultura di massa (Milano, 1964), // costume
di casa (1973), Traveis in Hyperreality (New York, 1990),
Apocalypse Postponed (1994). Os "apocalípticos", nestes estudos,
são aqueles que deploram a degeneração da cultura nas mídias
de massa de hoje, enquanto os "integrados" são os fãs e
partidários dessa mesma cultura.
A teoria semiótica geral de Eco se desenvolveu a partir
da sua Estrutura ausente (Eco, 1968). Nesta obra, a semiótica
de Eco estava ainda sob a influência das teorias da informação,
da comunicação, da cibernética e da semiologia estruturalista.
Uma teoria geral do signo de Eco seguiu em li segno (Eco, 1973).
Outros temas principais da semiótica geral, discutidos,
sobretudo, em Semiotics and the philosophy of language e Suggli
specchi e altri saggi (Eco, 1984; 1985), são a iconicidade, a
semiótica da metáfora e do símbolo, a tipologia de signos e a
teoria dos códigos. Um tema de interesse semiótica mais recente
é a história da idéia de uma língua perfeita e universal (Eco, 1995).
A semiótica da literatura é mais uma área principal da
obra de Eco, que ele desenvolveu, sobretudo, em Lector in tabu-
la (1979a), The role of the reader(1979b), The limits of inter-
pretation (1990) e lnterpretation and overinterpretation (1992). A
obra literária, conforme Eco, não é uma obra aberta a qualquer
interpretação, como o título do seu próprio estudo de 1962 e a
prática de certos críticos desconstrutivistas da pós-modernidade
parecem sugerir. A sua semiótica literária exige um equilíbrio entre
os dois extremos de uma teoria literária que quer admitir uma
OCAMPO SEMIÓTICO IDE UMBERTO ECO 16?

infinidade de interpreta~ões para· qualquettextó, de um lado, é


uma hermenêutica normativa, que só quer admitir interpretações
conforme as intenções;do autor, do outntiO caminho interpretativo
do leitor através de uma obra literária, . conforme Eco, é implícito
na obra mesma,;qu~ propee, na sua estrutura, u·m léitor:tnodêld,
que segue.e explóraumpotenciàl interpretativo da obra justificado
1

pelas evidências. que. o texto contém. No. seu caminho


interpretativo, 0 leitofmodelo segue vários princípios da semiótica
0

peirceana: a sua interpretação é. baseada em abduções e


inferências com base nos signos' do'texto e progride, num
processo de semiose ilimitada (mas não descontrolada); conforme
o'ideal de uma "progressão perfeitiva" para resultados determi,.
nados' conforme háoitos comuns e· acordos interpretativos daic0~
munidade literária. :Neste processo, o leitor ideal não·.é nem um
leitor perfeito nem um leitor aberto à plurialidade.dffleihirás
possíveis (eadtnissíveis)i, que são justificáveis pela,estrutura
textu,M~
Eco se tornou o semioticista mais conhecido do· mundé
por cau~a de seus romances best-sel/er, Q ,nome da rosâ (1980),
//pendo/o dbFoucault (1988) e:'/.:'ls@la dei giorno·pfirila (199~),
De· certa forma, estes. rbmances são trabalhos. criativos dé
semiótica aplicada(.ct'Müllen, 1987, Kroeber,'ed.11981). Q,pró,.
prio Ecffconfirmou esta·atribuiçãó'quandoifez o séguinté cô~
mentáFio sobre seus trabalhos: !'(Dada coisa qtJe,eu fiz' s~ resume
à mesma coisa: um esforçoo~stinãdo de entender os mecanismos
através.dos quais nós,dámos'5ignificàção,aotnundo à nossª volta"·
(citado em Sullivân,·1986:46).

41. Para a: semiótica literária de eco,· v·enejêrà (1991t


Garcia-Berrio (19921· ê WenzÇ1994).
168 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

A crítica de Eco ao estruturalismo

O desenvolvimento do estruturalismo à semiótica na Itália


(cf. Segre, 1979a) foi influenciado significativamente pela obra
de Eco. Em 1968, ele publicou um trabalho, cujo título, La struttura
assente, anuncia um ataque aos fundamentos do estruturalismo.
A tradução portuguesa deste estudo saiu com o título A estrutura
ausente. A tradução francesa, La structure absente (1972), já
tinha um subtítulo que colocava o estudo no quadro da semiótica:
lntroduction à la recherche sémiotique. Otítulo da tradução alemã
revisada em 1972 é somente Introdução à semiótica (Einführung
in die Semiotik). Esta troca de títulos indica um programa de
pesquisa que desenvolveu uma Theory of semiotics (a versão
revisada, em 1976, dos títulos anteriores de Eco) a partir de uma
crítica ao estruturalismo.
O estudo é uma síntese de várias abordagens da análise
de textos, da comunicação visual, e da significação em geral.
Além de tais Instrumentos do estruturalismo como os métodos
da semântica e da sintaxe estrutural e da teoria dos signos de
Hjelmslev, Eco combina métodos da teoria da comunicação e da
informação, da antropologia cultural e da teoria sígnica de Peirce
na sua teoria da semiótica. O clímax deste estudo é uma crítica
filosófica do estnituralismo. Eco ataca estruturalistas, como Lévi-
Strauss, pela sua tentativa de descobrir estruturas e por atribuir
a elas o status de uma realidade objetiva. Um tal "estruturalismo
ontológico", de acordo com Eco (1968:322), "só pode resultar em
uma auto-destruição ontológica da estrutura". Pois, se houvesse
uma estrutura definitiva, ela não poderia ser definida. Não haveria
nenhuma metalinguagem que alcançasse tal definição, nenhuma
oposição que constituísse a própria estrutura. Por estas razões,
Eco defende um estruturàlismo metodológico que aceita modelos
estruturais somente como procedimentos operacionais e quer
abandonar estes em favor de novos modelos quando novas evi-
dências exigirem novas explicações.
OCAMPO SEMIÓTICO DEPMBERTO ECO 169

A definiçijo da semióti.ca segun~o .Eco

(;co {1,976:a) definiu a s.emiótica çorno um prq9rama de


Resquis,a que "estudatodo$ 0$:processoscultqra;is çomo ffQ·
Cf:Jssos de corrunicação". A çultura, de. ?Cc;>rdo corp 6cç (ibid. :26~
7), "podª ser. corni>letamente e'.studa.da sob uma perspecti~a
se,miótica", mas as .entidacles çulturais podem também ser
c9nsiderad.asde pontos de vistas não-semi.9tjcps. Por exemplo,
um c~Hº pod,e ~er1:1íl) sign.o igdiçan90 statu$ $OCiaJ, m9~, nurri
nível físico,oy rneç~nico, eJe.nijo.p.oss~iJµqç~o corr14nicatiX?A~
a semiótiça pão s~ preopúpa com,este$ píveis. A r,ejeiç~o:de
~CQ dp reaB$rnO ,ontolóQico. reapa,rece na ,sua teoria do ~igno e
s.eu referepte"com base n~3:guç1Jele.d~ a seg~ipte.clefin1iÇ,~o.<;Jp
semiótica:

e.
A Sttf11ic5tlCij)>.e pr~RRURq ÇO!]J, (udp quJ~pod~
ser tpmaçi°: cgmo signp. Vrp $igo.o. á tu{J.o ªHuilg
que pqt;íf! ~er torrÍ~do ~Q/110 supstitu/ncfp!fÍgnifi-,
cativamente outra coi$q. Esta ouJrf! ç9is.a não
precisa necessariamente existir ou estar real-
mente em algum lugar no momento em que um
signo o representa. Assim, a se{fl[ç,Jiça é, em
princípio, a disciplina que estuda tudo que pode
ser usadq com p qbjetivo .de rnf;Jntír: (Epo,
1976:7).

AResar das suas resery~s contra o e~truturatiS!llQ,, e,sta


CQncl4$~Cté cleriVcicla, Bffi ~ltima an.álj$B, tarT1Q~rT1 ele µrn argtu-
menJo estrutwa!ista: $B algo.não pode $Bí us?do para se mentiJ,
ele. não poss4i. oposição sem~ntiça, çonseqü(mtemente í, el~ nã9
possui estrutura, e, portanto, significação. Sem uma possíyel
mentira, não há uma possível verdade.
Com os três critérios do cultural, do comunicativo e do
mentiroso, Eco descreveu os limites da semiótica de uma ma-
170 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

neira bastante restritiva. Conforme o critério cultural, uma se-


miótica natural, que estuda os signos na natureza, não deveria
existir. Conforme os critérios do potencial mentiroso, a semióti-
ca só devia tratar de mensagens intencionais, pois a essência
da mentira é ser intencional. Finalmente, o critério do comuni-
cativo, na definição de Eco, pressupõe uma mensagem codificada
em um código convencionado entre os participantes de uma dada
cultura. Escusa-se dizer que o campo semiótica, no final do século
XX, tem sido estendido a várias das áreas que Eco desejou excluir
em sua teoria: há uma semiótica biológica e evolutiva, que estuda
as mensagens ainda não-intencionais, há uma semiótica do
inconsciente além do verdadeiro e do mentiroso, e há uma
semiótica natural que não só estuda o comunicativo, as
mensagens entre emissores e receptores, mas também os signos
meramente significativos na natureza, que não provêm de um
destinador biológico de uma mensagem. Embora Eco, em teoria,
tenha continuado fiel aos seus critérios restritivos da semiótica,
o esboço que fornece da totalidade do campo semiótica apresenta-
se bem mais extenso (ver p. 199-201).

Códigos e cultura

Uma chave para entender o campo semiótica de Eco é a


sua teoria dos códigos. A semiótica à Eco é o estudo de códigos
e um código tem sua base numa convenção cultural: semiótica
é, portanto, o estudo sígnico da cultura. Não há diferença entre
a semiótica e uma semiótica da cultura, pois os fenômenos
estudados por Eco (da arquitetura, da arte, da poesia, da literatura
trivial, da língua e até da publicidade) são todos fenômenos
culturais.
Gohvêhçõés esistemas sígnieos

O critêrió âé um códig0 é à sua cánvenõi0náliâãde. A


primeira'defini9ão dõ códigtfqLlê Êéo (1968:XVII) nós fôrnéêéU
segue aindâ'éstrieitamertte o'módelo,da teóriada,informa~ãó, a
qual chama dê código "qualquer sistema de-s1rnoolos qlié, ~ôr
consenso prévió entre 0 destinador e o destinatátib/éUsàdõ'P'àra·
11
represéntar e transmitir qualql.lêr ihfõrmãçã:0 :::Mãis espefü:floa-
rnente, Eée'tlefihií:J oéódigo êótno um· sistema tJe;urtidadês sig-
liificarttes, êôrn cfegras de cõrnoiMçãê etrânsfórmaçã0c; Ern,
suma, untcódigó é·"um sistétnã dé regras dâdás per Uma cultura"
(Eéô,"1968:130~, 134).
Eéõforneceu LJrn'Pahé.t;àlÍiâ'ÔO eãrnpó sérhiótico qúé~
córitém eódigosâe,vá'~i'Os gfaus âê cérnpleXidáâé é'êorivêÃGiô:.
rialidádé (Eco,'1968: 392,41é;·i9r6:9.. 14). Osfênômêfibs sígni-
cós, qú@ele subsume soo b:tertn't:f êóà'igo, sã·cftão'tliversosqme'
ã base definitóriã:'cornum pàrêcé difíéil de ·ser::rêeonhêêida~'flfF
tre ôs bódiges defafo sê·,emcontram a Zóossêrniótiêai, a,&õmu-,
nicação tátil, a paralingüística, à setniótiõàrnédicâ, 'a,~inésiifã~
amúsicâ,a língua, â1cómünicãção visual, Inclúsl>Jéarquitetura e
pintura, sisternas'dê dbjetós', Marràtividãde e outrôs"famosida
s·emiótica do texto; códigos'cúlturáis fil:im seRtidà'mâis:rnsti:itõ,
tais comõ sistemas,de etiquetas, religiões pl'imitivas,, estética,
cõmuhicação de rnassá'e retóric;:ã. Uentre todà éssa diversidade
de feflôrnéhos --'que estão lóhgé âaqUilõ qüe ateoria da informação
entende porc0digos""", Ec0 (1973:171) airidá distinguil:rós códigos
vagos, códigos fracos (que mudam rapidamente), códigos
incompletos (com poucos elementos de expressão associados a
grandes complexos de conteúdo), códigos pfelitninãtes ("a serem
substituídos em pouco tempo") e até códigos contràditórios.
Segundo tal classificação, ocódigo da motla, por êxemplo, seria
um código impreciso, fraco, incornpletoe prelimirian
Na semióti.câ; o termo código éfreqüentementeusado
corno sinônimo de sistema síghico. Eco (1973;85-6), 'Pbtérn( fâz
172 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

uma distinção entre os dois termos: para ele, cada código con-
tém dois sistemas de estruturas paradigmáticas em correlação,
um sistema do plano de expressão e um sistema do plano do
conteúdo. O código do semáforo, por exemplo, consiste de um
sistema de elementos visuais no plano da expressão com as
unidades "vermelho", "verde", "amarelo" e "amarelo+ vermelho".
Este sistema é correlato a um sistema de elementos da forma de
conteúdo que quer dizer "pare", "avance", "prepare-se para parar"
e "prepare-se para avançar". Um código, nesta definição, é uma
regra que liga elementos de um sistema do plano da expressão
com um sistema de elementos do plano do conteúdo. Como essa
distinção terminológica entre código e sistema sígnico não é
adotada em geral na terminologia semiótica, Eco, mais tarde,
introduziu os termos equivalentes código (próprio) e s-código ("ou
código como sistema") (Eco, 1976:37-8; 1984: 169). Na descrição
da língua, o chamado código fonológico é um exemplo de ums-
código, porque este código só correlaciona elementos no plano
da expressão (fonemas e elementos distintivos) sem ligação a
elementos do plano do conteúdo.
Eco (1976:122) propõe um estudo da língua como ums-
código com base em uma abordagem dinâmica e adota o modelo
enciclopédico do universo semântico elaborado no quadro dos
estudos da inteligência artificial por Ross Quillian. Com a plu-
ralidade das ramificações e conexões semânticas que este mo-
delo permite, Eco não só quer representar o uso do código como
um processo de semiose ilimitada, mas também os processos
criativos da modificação do próprio código.

A teoria da codificação

Na sua teoria da codificação cultural, Eco introduziu uma


dimensão diacrônica nos estudos semióticos: "A mobilidade do
espaço semântico faz com que os códigos mudem tran-
sitoriamente e processualmente" (Eco, 1976: 129). A interpretação
OCAMPOSEMIÓTICO DEUMBEP{TIO ECO 173

de mensagens, portanto, sempre exige o que ele.éham·ou de extra-


codificação, um prooesso de oontestação e de:rnodifioação
hipotétioa de oódigos existentes. Eoo disting1;1iu dois modos de
extra-oodifiéação na interpretação de textos, ql:le ele Ghamou de
super-codificação e dé sub':codifiaação,(fr.Go,. 191611;33-6, 155).
Super-codificação ·Elo proGesso interpretativo de modifiGar um
Gódigo estabelecido propondo uma novp regra queídetermina a
apliGação,menos çomum•dé uma regra.ptévià: Coriyenções
estilísticas e ideológicas s~ó exemplos de tais,regras.de super-
GodifiGação. Conforme Eco, asuper:.,codifiGaçã9 produi.:efeito em
duas direções:

Pode ser que, num código dado, que atribui


; conteúdo a certosf3/emeritos mínimos de/expres::.
· são, a super~codifieação atribua sigr1ificad0s a
yrandes segmentos,destaexpressão. As regras .
retóricas ou ico[Jológicas são deste gênero:Ma.s
tamllérr.Lpodé ,ser.que, na base·~de. certas ·
unidades codifiçadasi àsupér:"codificação,a/i1a1-
lise estas unidades em entidaJfes mais analíticas;
· Por exemplo, quaqdd uma regra paralingü[stícia ·
estipula que vá tios modos de prqnur1ciar uma ,
palavra córrespondem Rvários graus de signifit
eados ~Eco; 1~76: 134}.

Sub"'.'.Godificação, GonformEH::éo, é 4maespécie de côcti:.,


fiGação crua, imprecisa é, hipotética, '1um movimer:lt9 de textos
2

desconheGidos para,Mdigos". A descoberta de significaçãoíno


proGessoda aprendizagem de uma língua ou cultura.estrangeira
é um exemplo:•

Portanto, sub-codificação pode ser definida co-


mo a operação pela qual, na falta de.regras se"'.'.
· guras, certas partes maeroscópicas de.icertes:
174 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

textos são provisoriamente aceitos como unida-


des pertinentes de um código em formação,
mesmo se as regras combinatórias que deter-
minam os elementos constituintes mais básicos
junto com as unidades correspondentes do con-
teúdo fiquem desconhecidas. [. .. ] Supra-codifi-
cação procede, portanto, de códigos existentes
para sub-códigos mais analíticos, enquanto sub-
codificação procede de códigos não-existentes
para códigos potenciais (Eco, 1976: 135-6).

Ateoria da produção dos signos

A escolha de signos do código com o fim de produzir


uma mensagem é o primeiro processo na produção de signos.
Na sua teoria da produção de signos, Eco continua a examinar o
papel do código na escolha e na combinação dos signos. Quando
os signos da mensagem são previsíveis pelo código, Eco (1976:83)
fala de um caso de ratio facilis. A produção dos signos
convencionais de uma língua são um tal caso de ratio facilis.
(Faci/is não é, portanto, um conceito genético ou evolutivo: não
significa que estes signos sejam fáceis de aprender.) No caso
da ratio faci/is, a escolha do signo não é determinada por um
código, mas pela natureza do objeto do signo. Trata-se, portanto,
de signos icônicos e indexicais. Conforme a teoria da iconicidade
de Eco, porém, os signos desta categoria nunca estão completa-
mente desprovidos de convencionalidade, de maneira que há
somente aproximação ao caso da ratio dificilis.
Numa tipologia elaborada dos modos de produção dos
signos, Eco ainda distingue cinco modos de produção do signo:
1) Trabalho físico: esforço necessário para a produção
do signo;
2) Recognição do fenômeno como a expressão do con-
teúdo de um signo (no caso de marcas, sintomas ou indícios);
OOAMF?O SÉflÂIÓTICO D.E UMBERTO ECO 175

3) Ostensão: umobjetoôu uma áção é indicado a ser o


exemplar de,uma classe de objetos ou a'ções;
4) Réplicas são os exemplares de um tipo:de sighode um
c0digo, pertencendo, p0rtanto, aó oasé!> da ratio facilis; 6\/
5) Invenções: signos inventados imprevisív~is pelo
oódigo.:São'o modo mais típioo de produção por ratiodifficifis.

Os limiares:do camposemiótico

Eco delimitou o campo·sernióticô por um lirhiarinferior e


um limiar superior além dos qúais os tópioos de pesquisa per-
tencem a.outras ciências que não a semiótica (Eco; 1968: 1-5;
1976:16~28)iDo pontodevista de·Umasemióticactlltúral à Eco,
só a comunicação· baseada· emtcódigos e convenções merece
ser estuda'da. :Assim, ó limiar inferiordasemiótica é '\aquilo que
separa os signos das}coisas e, os ·signos artifici·ais de signos
naturais~ (Eco; 1968:)WII). EstímulosJisiOlógicél's,:os)'códigos"
neurológieos egenéticos encóhtrarrt:..se.abaixo <:leste limiar porque
tais fenôm13no·s 11ãó se'; báseiami1em;c011ve11çé;>·ss sociais. Mas
este limiar também não.. é' um limiteimüito !estreito para Eco.
Zoossemiótica, a semiótica daêomunioação animal; é incluída
no campo semiótica de Eco, na medida efn qüe ã corifonicação
animal demonstre "que até no nível animal há padrões de
significação:que podem até,um oerto·pontosercdnsiderados
oomó culturais ffsOciais~ (Eco, 1968:9).
0:limiar superiorde Eco.estáina âistinção entre ó ponto
de vista semiótioo do mundo e várias outras perspectivas r:,ão-
semióticas dos fenômenos. ·O c::orpo humano; nos seus aspectos
biológioos, as rhulhere·s e· os h0me11s· como elementos de
intetcâmbirn antropológico 110 sentidó,,de Lévi-Strauss,:.as
ferramentas 0u os•objetbs de,mercadoria não têm UhléI.funQãó
semiótica primária conforme Ec0. Vistos do ponto de vista da
biologia, antropologia/mecânica e da economia; estes objetos
176 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

não pertencem ao estudo semiótica e ficam, portanto, além do


limiar superior da semiótica. Os mesmos objetos, porém, podem
ser estudados sob várias perspectivas especificamente semióticas
("sub specie semioticae", Eco, 1976:27) e, neste caso, entendidos
como signos.
Embora os fenômenos da semiose natural encontrem-se
abaixo do limiar inferior da semiótica, Eco (1976: 1O, 17) nem por
isso incluiu a interpretação de sintomas médicos no domínio da
semiótica. A sua justificativa para esta interpretação é que tais
sistemas são codificados pela tradução médica. Aí, a transfor-
mação de fenômenos não-semióticos ocorre da seguinte maneira:

Oprimeiro médico que descobriu uma espécie


de relação entre uma disposição de manchas
vermelhas na face do paciente e uma dada doen-
ça, tal como o sarampo, fez uma inferência não-
semiótica; mas, na medida em que esta relação
se tornou convencional e tem sido registrada
como tal em tratados médicos, uma convenção
semiótica se estabeleceu. Há um signo sempre
que um grupo humano decide usar e reconhecer
alguma coisa como veículo de uma outra coisa
(Eco, 1976:17).

Embora Eco, ao incluir a sintomatologia médica no cam-


po semiótica, pareça admitir a justificativa de uma semiótica
natural, a sua interpretação demonstra que, de fato, ele rejeitou
a idéia de uma semiose natural. A sua argumentação é contra a
tradição semiótica desde os Estóicos até Peirce, na qual os
processos de inferência, tanto no mundo natural quanto no mundo
lógico, têm sido considerados como processos sígnicos. O que
Eco reconheceu na sintomatologia médica não é a interpretação
de um processo natural, mas a transformação cultural deste
mesmo processo por meio de uma codificação pela tradição
OCAMPO SEMIÓTICO DE UMBERTO ECO 177

médica. Só o código da doutrina médica, conforme Eco, garante


a semiotização de um processo que, de outra forma, não poderia
ser reconhecido como semiótica. Com a intervenção de um
código, um elemento de convencionalidade penetra a semiótica
médica, no entender de Eco, pois os modelos de interpretação
de doenças têm mudado com a tradição científica e com as
culturas que interpretam as doenças.
Assim, Eco pode até sustentar a tese de que a interpre-
tação científica do mundo pelos físicos ou químicos é semió-
tica, na medida em que se constitui uma interpretação cultural.
Para Eco, há evidência deste aspecto cultural nas mudanças dos
modelos de explicação científica do mundo. Nos tempos arcaicos,
por exemplo, um relâmpago era considerado um gesto de um ser
sobre-humano; hoje, a meteorologia não vê no mesmo fenômeno
nada mais do que um fenômeno de descargas elétricas. Esses
dois modos de explicação do mundo natural são exemplos dos
dois modos de codificá-lo (cf. Scholes, 1982:143). O código mítico
tem sido substituído por um código científico. A codificação, nos
dois casos, é que representa o aspecto semiótica na interprétação
do mundo.
VIII .
CHARLES MORRIS
E O PROJETO BEHAVIORISTA
DA.SEMIÓTICA COMO
CIÊNCIA UNIFICADA
A sêtfüàfica 'de Charles Morris situá..:se foràdâs cêrréntês
estrfitufãlistas da semiótica ôô séêuloXX:,Oron'ôlc5gicámenlê; a
su'a 'fêôrfâ dós signos ..L elabóradá nó àmbiérité' hehâviõ'rista
ameriéà'ná'dO'siánbs 3Ô e' 40'- preêedê á semiótiéa européia il~~âe
Hjelhrsfev· ê;âe1fâto; os:elerifüntos bêliavior:ístàs dà'suà 0bira
pérterlcém mais âo pâssâdo1do que··acilutúfê d8s't01iót1êfü
1

Porém, por outro' lâdo;'á ~emiótica •dê· Mórris fá'rnbémlt~ní


êlementbsquê se pfoJelah11tió fdfüró dásêmióticâ; na'me't'liâ'â
enfqutf~lê1féztimasemiótioâ nfais· gtfralJêfn osvírúfülosidâ
tradição lingüística, localizando o estudo dos sigr10§t1u11Yql:lãâro
interdisciplinar e universal das ciências.
Charles William Morris {1901-1979) é um "clássico da
semiótica" (Posner, 1981 ), cuja influência no desenvolvimento
da história da semiótica foi decisiva nos anos 30 e 40. Com.suas
raíz~s na semiótica'a.e Peirce, nol5eh·aviori,smó social e na teoria
in~eraçiÔn~Í .si~bóUca de Gf;0f9e M.eaq{cfJ>osner, 1981, H:
Norrnand
t' .:/e'
19~2), "<n<;>J~cagméltisrno americano (çf. Morris, 1970,
j, ' , i ' ,, ' ~'' ~ ,' i '" ' ' : "

.Eschb:ach, 1W?}, no en,p/ricisrno e no p,o~itivisrno lógico, Morris


çlesenvolveu µn;iateoriageral dos signos. com a qpéll ele pretendeu
contribuir para o projeto de,un:Ht"ciência unificada" (cf. Morris,
1938).Enquafltóa fundamentação behaviorista de"sua teoria dos
signos se tornou 'foco 'de críticas na era da semiótica pós-
behaviorista (cf:'Mõllnif:r, 1970a:5o/.:76, Kutsct:iera, 1971 :80-8), a
182 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

ampla definição de Morris do âmbito da semiótica e sua subdivisão


tripla das suas abordagens permaneceram entre os fundamentos
da semiótica. Sua teoria e sua tipologia pragmática do discurso
continuam a exercer uma certa influência na semiótica aplicada.

Levantamento dos trabalhos semióticos de Morris

Morris mostrou um contínuo interesse na teoria dos


signos após sua dissertação sobre Simbolismo e realidade (1925).
Sua contribuição mais importante para a semiótica tem sido
divulgada sob o título Writings on the general theory of signs
(1971 ). O núcleo destes trabalhos estão nos seus Fundamentos
da teoria do signo (1938) e Signos, linguagem e comportamento
(1946). Morris discutiu a reação a este último trabalho no artigo
"Signos sobre signos sobre. signos" (1948) e publicou uma nova
summa de sua semiótica sob o título Signification and significance
(1964; somente o cap. 1 está incluído em Morris, 1971 ). Sua
estética semiótica é formulada em Esthetics and the theory of
signs (Morris, 1939) e em Aesthetics, signs and icons (Morris &
Hamilton, 1965).42

42. Sobre bibliografias dos trabalhos de Morris eda crítica à sua obra
ver, Eschbach (1975b) e Fiordo (1977: 191-5). Alguns resumos
das introduções à semiótica de Morris podem ser encontrados
nostextosdeSpang-Hanssen (1954), em Mounin (1970a:57-76),
Apel (1973), Eschbach (1975a), Rossi-Landi (1975b), Bentele &
Bysbina(1978), Posner(1981), Hervey(1982), Dutz(1983}, Petrilli
(1988) eNorrnand (1992). Monografias sobre aobra·semiótica de
Morris constam das obras de Rossi-Landi (1953), Fiordo (1977),
acoleção de estudos de Eschbach, ed. (1981} eas dissertações
de Müller(1970} e Eakins (1972) Dutz(1979}apresentou um
CHARLES MORRI$ .E OPijQJETQ BEHAVIORISTA... 183

A semiótica e suas três dimensões

A"ciênc:ia dos signos", como Morris (1938: 1-2fdefiniu a


semiótica, possui Uin carti(:ioarnplo, indo da linguãgem'à
comunicação animal . Os fatores participantes dós'prôces'Sos
sígnicos determinam ã estrtltí:lra tridimensional dos,estud{:)s
sernióticos.

Oescopo da semiótica

O escopo da semiótica, de aôofdo com Mbrris/élâhto


mais amplo quanto mais estreito que a ciência dos signos
esboçada pôr Peirce.

Peirce eMóniS

Ambos os fµrtdâdores da semiótica definiram a teoriâ:dJJS


signos como o estudo de qu'ãlqüér tipo de si~no, inôlUinôo:a
lingtfagérh é quaisquer ol:itros signos (cf. Morris, f946!19). Porém,
enquanto Peirêe concebeu à semiótica básicamente 'êoniõ urna
ciência do líõtnem,Morris (1946:83i 366) estendeu o êscõpcHla
teoria geral dos signos de forma a incluir o prôcessamento de
signos por animais ou, de forma mais geral, por organismos.
Entretanto, enquanto semelhantes no eséópô amplo dbs oojetos
de pesquisa, a ciência dos. signos concebida por Morris pode ser
caráêtérizada por um ~retrocesso fundamental· dâ tradição
peirceana" {éf. Hervey, 1982:38); Hnquanto·Peirceconcebeú uma'
filosofia semiótica baseada ·em categorias universais de
pe-réepção e na assunção dê que '!todo pensamento é um signo"
(Peircé, C.P. 2.253); Morris queria âesénvolver urna ciência dc5s

glossário da terminologia de Morris. Bentley (1947), Dutz (1983),


Rochoerg-Halton &McMurtréy (1983) eNormand (~992)fizeram
exposiçõescríticàs da óbradeMóriis.
184 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

signos "com uma base biológica e especificamente dentro da


estrutura da ciência do comportamento" (Morris, 1946:80).43
Apesar de suas diferenças de abordagem, Morris
concordava com Peirce na assunção de que "algo é um signo
somente porque ele é interpretado como um signo de algo por
algum intérprete[ ... ]. A semiótica, portanto, não se preocupa
com o estudo de um tipo particular de objeto, mas com os objetos
ordinários na medida em que (e somente na medida em que) eles
participam da semiose" (Morris, 1938:4).

Oescopo interdisciplinar da semiótica

A ciência dos signos, de acordo com Morris, possui o


seguinte escopo: "A semiótica tem como objetivo uma teoria geral
dos signos em todas as suas formas e manifestações, tanto em
animais quanto em homens, tanto normal como patológica, tanto
lingüística como não-lingüística, tanto pessoal como social. A
semiótica é, portanto, um empreendimento interdisciplinar"
(Morris, 1964:1 ). Como investigadores interessados neste
empreendimento Morris enumerou "lingüistas, lógicos, filósofos,
psicólogos, biólogos, antropólogos, psicopatologistas, estetas e
sociólogos" (Morris, 1938:1 ).

A ciência e o instrumento da ciência

Como a teoria dos signos, a semiótica, de acordo com


Morris, possui uma relação dupla com todas as outras ciências:
"Ela é tanto uma ciência entre outras ciências como um
instrumento das ciências". Como ciência individual, a semiótica
estuda "coisas ou as propriedades das coisas na sua função de
servir como signos" (Morris, 1938:2). Mas, "já que toda ciência

43. Sobre outras diferenças entre Peirce eMorris, ver Dewey (1946) e
Rochberg-Halton&McMurrey(1983).
CHARLES MPRRISE QPROJETO BEHf\VIORISTA... 185

utiliza signos e expressa seus resultados em termo deles, a


metàciência (a ciêrí'cia da ciência) deve usar a semiótica como
um organon". Morris estava convencido de que "desâà que ela
fornece os fundamentos para qualquer ciência de signos especial",
a semiótica é "um passo nàunificação da ciência" (ibid.).

Asemiose eas dimensões da sêrniótica

Morris derivou sua,teoria das três dimensões da semiótica


de seu modelo de semiose; Semiose, o termo cunhado por Peirce,
foi definida por Morris (1946:366) como "um processo sígnico,
quer dizer, um processo no qual algo é um signo para algum
organismo". A semiose, de acordo com Morris, envolve, trê,s
fatores principais: "aquilo qu'e atua como um signo, aquiloq. ÁYre
o signo se refere e aquele efeitoefüalgum intérprete emyirt~<;le
do qual a coisa em questão,éuin signo para aquele ir\t~rrfret~:
ç~tes tr~s componentes na semiose podem ser éharrí'ácl~s
respe,ctjyamente de veículo do signo, designa tum e interpretante"
(Morris, 1938:3).

As três dimensões da semiose

A partir destes três correlatos da relação triádica de


semiose, Mortisderivou três relações diádicas,;qUffele con-
siderou serem a base das três dimensões da semiose e da
semiótica. De acordo com isso, a sintática estuda arelâçã·o
entre nm dado veículo do,signo e outros veículos do signo, a
semântica estuda as relações entre veículos do signo e seüs
designata, e a1pragmática estuda a relaçãoer:itreos veículos
do signo e seus intérpretes (Mórris, 1938:6-7). Além tlissb,
Morris distinguiu outras' duas subdivisões ,dos estudos
semióticos: semiótica pura, que elabora "a metalinguagem em
termos da qual todas as situações sígnicas seriam discutidas"
e a semiótica descritiva, que aplica esta linguagem ao estudo
186 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

das instâncias da semiose (ibid.:9). 44 O modelo das três dimen-


sões básicas da semiose de acordo com Morris é mostrado na
Figura M 1.

Figura M 1
Os três correlatos da semiose e as três dimensões da semiótica
de acordo com Morris (1939:417).

Design atum
Denotatum

SEMÂNTICA
Outros Veículo
veículos cb
do signo signo
SINTATICA
PRAGMÁTICA Interpretante
ntérprete

A história das três dimensões

Posner (1985b:75) discutiu dois precursores históricos


da subdivisão triádica da semiótica de Morris. Um é o trivium
medieval das três artes da linguagem: gramática, dialética (lógi-
ca) e retórica. Ooutro é a reinterpretação peirceana deste trivium.
Peirce distinguiu "três ramos" da ciência semiótica "em con-
seqüência do fato de cada representamen estar ligado a três
coisas, o fundamento, o objeto e o interpretante" (Peirce, C.P.
2.229). O primeiro ramo é chamado gramática pura. "Ele tem como

44. Sobre acorrelação entre estes cinco ramos da semiótica ver Lieb
(1971).
CHARLES MQRRI~ §O PROJETO BEHAVIORISTA.. 187

objetivo a~veriguar o:qtle deve ser verdadeiro nê representameh


úsàdb portédàintêligênciacientífiõa,que possa contefqüalquer
tipo ôé,significação:" O segw:fdo ramo é chamadf:Nógiâaprópria:
"lilê é a,êiêticia do que é quase hecessariarnenteverdadeiro nos
fepresentamina de qüalqüer inteligência científica ·a fim cJe
considerar bôfn, i. e:i verdadeiro, qualquer tJbjelo". ~Hetoéiro
ramóé uetótiãaputa:::suatarefã é averiguar as leis p'êlas,quais1
em fõdainteligência ciêntífiêa, um signo gera 0Utrcre1 esp'e'oial-
mênte, um pensamento proâuzt>Utro" i(:iõidi).
O páràlelô com as três dimensões de.Mdrris é visível: a
"gramática~ pura" é a"precu rsora da sintática, a!1lógicta próp rial!;
dã 'semântica e a "tetõricà. lSurá" ,da' pra{lfrnátioai§

Sintática, semântica e pragmática

Será que as três dimensões da semiótica de Morris dão


uma subdivisão analítica, e~austiva, da sémi@tica? Isto só é
pósSívél'sé ôs concêitos'"de sintâtic'à, semântica e pragmáticª
sãó âêfihidos:mais atnplàthente·doqüê o Mrfnál'na:Sémióti~! 1
Na liist<3ria:âã semiótica após Morris, asitrês~im\eriSpé$
foram lôgc:HébâtitaâaS de sintaxe (ao in'Jês de 'snt.tâfüõâk's~,-
fnânticâ ê'Pràgmâticà,(p. ex,:; Reich'enbaóh',, 1'94,*7:1'51 {}ãtrràp
1954:?9t EEsta terrnitiologi~f; contudo, ocasi0nbu a irnpressãtr~e
1

que as três dimensões eram insuficientes para' subdi:vidi~tbdo,o


campo <:lê pesquisa semiótiéo.
F?articwlarrnente na'lingüística, há ramos de estado que
parecem ser,exclüídos das três dime'nSões'de Morris. Assim, há
lingüistas que orítiéaram 'Btriéot0rnia de Morris por !:3sta não'fór.:.
necerurna estrutura pifra as àlsci~linas da fonologia e da gr.a,.
femáticà, entre outras razões (cf. Althaus & '1enne; 1971 :3,.4;
1

'45. Sobre outros àspectos da súóâivlsão da semlôticãde Pêirée, sob


a perspectivâ das três dimensões âe Mbrris; ver' Delédalle
(1979:71'9) e Rooiberg-Haltori &MéMurtrey (1983:147.:.52);
188 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Trabant, 1976a:42, Lyons, 1977:114-9). Uma outra questão é se


o esquema de Morris fornece uma estrutura para descrever os
dois tipos básicos de relações na linguagem: enquanto as relações
sintagmáticas podem ser claramente incluídas na dimensão que
Morris fornece da sintática, o lugar da dimensão paradigmática é
questionável no seu esquema. De qualquer modo, a pretensão
de exaustividade analítica da sua tricotomia somente pode ser
mantida se a sintática for definida mais amplamente que a sintaxe
na lingüística, na qual ela é somente o estudo das regras de
combinação de palavras em frases. É uma mera questão
terminológica se o ramo da semiótica redefinido deve ser
chamado sintática, como proposto por Morris, ou sintaxe, como
denominado por seus seguidores.

A sintática

Em contraste com a lingüística e a sintaxe lógica, Morris


generalizou sua sintática a fim de cobrir mais que somente signos
lingüísticos: "Há problemas sintáticos nos campos dos signos
perceptuais, estéticos, do uso prático dos signos e da lingüística
geral" (1938:16}. Posner (1985b) deu uma interpretação da
dimensão da sintática de Morris que amplia seu escopo de modo
a preencher as lacunas levantadas pelos lingüistas. Ele assinalou
que Morris, na verdade, usou três definições diferentes de
sintática: 1) sintática como a "consideração de signos e
combinações sígnicas na medida em que eles são sujeitos a regras
sintáticas" (Morris, 1938:14); 2) sintática como o estudo da "forma
na qual os signos de diversas classes são combinados para formar
signos compostos" (Morris, 1946:367); e 3) sintática como o estudo
das "relações formais dos signos entre si" (Morris, 1938:6).
Posner interpretou o âmbito da sintática de acordo com
a última definição - 3 - como incluindo tanto relações sintagmá-
ticas como paradigmáticas na língua (1985b: 1982). Além disso,
ele reivindicou que a sintática estuda os "aspectos formais da
CHARLES MORR1ª .EO PROJEl"OB~HAVIORISTA... 189

linguagem" no sentido das relações hjelmslevianas de'forma, i.


e., c:Je estrutura semiótica em geral (ibid;!79). Neste'sentido, a
sintática compreende a maior parte dos ramos da lingüístic~a\
incluindo a sintaxe, a morfdlogia e;até a fonologia. Se este escQpo
expandido da sintática é compatível com a definição de Morris
ou não, é importante reconhecer que relações parMi9mátiGaM:1ó
texto e no sistema são relações de possível substituição em
o·posição á relações sintagmátióas; qUe ·s'ão relações de
corríbinaçõe_s possív'eis de" signos: Se a'siíítâtica:é estendida1a
fim dec'ompreender o estuôodas relações paradigmáticas, a
Sintática é definida num sentidô,bém mais amplo qúe somMte o
de estudo das cóníbiriações de signos.

Aseínântica

Nâ definiçã0 ii:rieial de:Mor,ris~ "a semântica trab!rtla


relàçãodil>1signo comseUdésignãtum~,que1:dizer, "aquilo aqée
o signo; ~e refere?? (Morris; 1938;21 ,3). Nesta .definiç'ão, ·a
semântica cobre somente o aspecto da referência,'riãõ à, db 1

signifieado. Rostetiõrmenteí contudo; Morris,dé\;Mi111f!á.âefinição


m·aisampla dâsernânUea. Ela é!'aqwele ratn'odasemi~tioà''<flle
estuda a significação dos,signos" (Mortis; HJ46!366),

Apragmática

Morris definiu 1'a óiência da relação dos signos eomoos


seus intérpretes" como "aquele ramo da semiótica que estuda a
origem, os usos e os efeitos dos signos" (Morris, 1938:30;
1946:365). Ele propôs um escopo de estudos pragmáticos muito
mais amplo que o da pragmática em estudos lingüísticos correntes
(Morrisí 1938:30), ~nquc1n,\9 o lingQista Le.ech ~1 ~ª3: x), por
exemplo, a define como "o estudo de como declc1rações possuem
significações em situações", Morris imaginou um estudo que "trata
dos aspectos bióticos da semiose, L e:, de todos os fenômenos
190 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

psicológicos, biológicos e sociológicos que ocorrem no


funcionamento dos signosn (Morris, 1938:30). A pragmática
somente recentemente se tornou um ramo importante da
lingüística e da filosofia da linguagem.46

Excurso sobre a sigmática

No âmbito da semiótica marxista, Klaus (1963; 1964)


propôs uma extensão do esboço da semiótica tridimensional de
Morris pela introdução de uma quarta dimensão chamada
sigmática. Klaus descreve a sigmática como uma dimensão
paralela à semântica (Klaus, 1963:60). Nesta definição, a
semântica é o estudo do signo e de sua dimensão conceituai
(isto é, o significado), enquanto a sigmática é o estudo da
dimensão referencial dos signos. Baseado na sua teoria cognitiva
marxista das cópias do mundo na mente, Klaus define esta
dimensão sigmática como o estudo das relações diádicas R (S,
O) entre signos (S) e seus "objetos de realidade" (O) (Klaus,
1964:14).47
Enquanto muitos semioticistas reconheceram a teoria da
referência como um ramo constitutivo da semântica, a maioria
rejeitou a possibilidade de se isolar o estudo de díades de tipo R
(S, O) da tríade semiótica que inclui a dimensão do significado
como um terceiro correlato da semiose. Assim, mesmo o
semioticista marxista Resnikow (1964:98) não aceitava a sigmá-
tica como uma dimensão semiótica separada da semântica.

46. Sobre a pragmática no campo da semiótica, ver também Parret


(1983).
47. Sobre os fundamentos desta teoria semiótica, na filosofia marxista,
verBentele &Bystrina(1978:70-9).
CHARLES MORRIS EÔ PROJETO'aEHAVIORISTA.. 191

O signo e a: tipologià de signos

· Ao longo de seus traoálhos entre f938 é 19M; Morris


revisou, Ói.J diferenciôü vários dê Seus.éórfüeitos oásic0S (ê[ [)útz,
1979 e Hérvey, 4982), ma·s sua aoofdagem behaviorista
permârieceli um· denominâêlór· Cómum nas süas variadas defini-
ções dé cenceitôs ljásiéós 'da semiótica.
Sigrfos, na definição déMórris\ s'ão éonSfitúídos'êm
Sifuações dé Usôde signos êrivolvéndo os três cornponehfé~fdà
sêmiose: Morris· interpretou tais pfoêessós .em· termos da
mediâçâb semiótica é do Mhaviorismo.

Mediàção semiótica

Nama definição preliminar, Morris descreveu a;semiose


como um prõééssó dé niediâção semlófiea: '18m sigÃo é o.sMb'êni
relaçãb aàlguitróbjetivo se êl~1é'prodúziâo p'or úmfütérprêteoêmó
uhlméib de atingir este ôbjetiVo\ u'msigriô ql.i~ éüfili~áâ'é.)'é;
1

pórtânto, um 'Objeto-meio" (Môrris, f946:368f Os trêsfümtls'ilà


1

semiose; o vêíct.iloáoslgno(S), o:iJesignâtiitrl(D}eo>fntêrpfêtãnte


(1) constituem as'êguiríté rêlaçãó mMiâdórà: "S ·é um sigr,ô ÔEW
paràl na rríedidaernque l levà Dem considéráção emvirfudé da
presença de S" (Morris, 1938:4). VeículÔs'de'signos sãd, assim,
mediadores, e "a semiose é, de acordo com isso, uma tomada de
reconhecimento mediada" (ibid.).

A definiçãobehaviôrista do sighó -

Mortis queria superar as deficiências da tradição semió-


tica meritalista etinha como objetivo desenvolver "uma!ciênéia
empírica dos signos'' quê abandona '\termos cuja cdnfiabilidade
não pode sertéstada pela observação" (Morris, 1946:105-6). Seu
iêleàl científico· érá o behàviorismo e uma ciência d~ oase
biológica: Nesta estrutUra, o signo é "aproximadamente: álgóque
192 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

dirige o comportamento com respeito a algo que não é, no


momento, um estímulo" (ibid.:366). Um protótipo de semiose é
observável na resposta continuada de um cão treinado para
procurar comida em um certo lugar ao escutar uma campainha
(ibid.:83-4). Os primeiros behavioristas, como Pavlov, des-
creveram o som da campainha como signo e o chamavam de
estímulo substituto que evoca a mesma resposta (a saber, a
salivação) como o estímulo original (comida). Morris se recusou
a definir o signo em geral como um estímulo substituto (ibid.).
Ele sabia que signos não evocam necessariamente uma resposta
direta no sentido de "uma ação de um músculo ou uma glândula"
(ibid.:365) e que signos não são meros substitutos de seus
designata. O estímulo na semiose é muito mais um estímulo
preparatório, um estímulo que influencia reações a outros
estímulos em outras situações, e a resposta não é um evento
singular, mas uma classe de eventos similares empiricamente
observáveis chamada uma família de comportamento. O signo
é, então, definido como segue: "Se A é um estímulo preparatório
que, na ausência de objetos-estímulos iniciando seqüências de
respostas de uma certa família de comportamento, causa em
certo organismo uma disposição para responder por meio de uma
seqüência de respostas dessa família de comportamento, então
A é um signo" (ibid.:366).

Significação edenotação

A dimensão semântica do signo também é definida em


termos behavioristas. Morris reinterpretou o interpretante peir-
ceano como "a disposição em um intérprete de responder por
causa do signo" (Morris, 1946:93). Como um correlato semânti-
co do veículo do signo, Morris distinguiu entre significatum e
denotatum (ibid.). Estes termos correspondem rigorosamente à
dicotomia significado-referência na versão adotada pela semân-
tica lógica, a saber, a distinção entre intensão ("a propriedade
CHARLES MORRISJ;.OPRJ)JETO B~HAVIORISTA... 193

designada por um pregiqaqct) e extensão ("a1 classe de indivíd~ôs


possuindo esta qualidade"; cf. Carnap 1954:40). Morris, contudo,
reinterpretou ambas as categorias em termos beh~vioristas:

Qualquer coisa que permitir a c.onc/usão de


S(lqüêncü~s de respQst{ls às quais o intérprete
está exposto devido.a umsignQ será chamaâa o
c:ienotalum dQ signo, Um .signo denota um
der,Qtatum. Aquefasa~ondições tais que qµ§llqyer
eoisa.qye as execyte é;.um.denotatum será·
ehamada o signifioatum do. signo, Um signo
signifiea um significatum.(Morris, 1946:93-,4).

Retornando aoexemplo,po cã0 de Ravlo.v;Monris inter-


pretou o som da campainha.GQmo o ~igno, o ção. e.orno o·iAtérprete,
a, dis1-wsição de pr.oow.ar comida num certo lo.cal como o
interpret;mte, "a comida no· tocai procurado que. permitta
cpncJgsã,o çJaseqQêocJa de r.,esgosta~:(como o denotatµm e',"a
eon<Jiçã,o ee ser,urn.Qbjeto.oomestíveJnl:im.c;iado locar como o
signifiçatum (iQfd.:94). Em s.ews p.r:hneiros4rnbalhos,Morristen,.
tou.d.ar,uma e)(p.osiçã,0 p,uramente r;eferenciat da significaç~Q.
n,egli.genoiando o:aspe,Çto dQ signifiça.Çio. h!este momento, ele
distinguiu entre o denatatum(ummembro recllmente,existente
de uma classe de objetos de referência) e o designatum (a classe
de objetos ,referenciais ':- oode uma classe pode. ter llários
membros, um ou nenhum) (Morris, 1938:5).

Atipologia dos,signos

Morrisdesenvolveu uma tipologia elaborada de signos,


alguns baseados em critérios pragmáticos, outros em critérios
semânticos. Somente alguns exemplos característicos da'süa
tipologia podem'ser dados a seguir.
194 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Alguns tipos de signos determinados pragmaticamente

Já que signos, de acordo com Morris (1946:96-6), são


formados pela designação de veículos sígnicos similares a
famílias sígnicas (ver p. 219), então signos pertencem
normalmente à classe de signos p/uri-situacionais. Estes signos
significam em muitas situações, como signos uni-situacionais
possuem significação somente em uma situação. Em outra
categoria pragmática, o critério é o usuário do signo: "Quando
um signo possui a mesma significação para um número de
intérpretes, ele é um signo interpessoal; quando isto não ocorre,
ele é um signo pessoa!' (ibid.). De acordo com o grau de quanto
um usuário pode ter a certeza de encontrar uma denotação em
conexão com um veículo de signo, Morris distinguiu entre signos
confiáveis e não confiáveis (ibid.:98).
Uma subclasse dos signos interpessoais é chamada con-
signas (Morris, 1946:111). Um consigno "possui a mesma sig-
nificação para o organismo que o produz que a significação que
ele tem para os organismos estimulados por ele". Estes critérios
pragmáticos são a base para a definição de Morris da linguagem
ou, como ele a chama, sistemas linsígnicos: "Uma linguagem é
um grupo de consignas pluri-situacionais restritos nas maneiras
em que eles podem ser combinados" (ibid.:113).

Alguns tipos de signos determinados semanticamente

Várias das categorias tipológicas de Morris (1946: 359-


68) são baseadas em critérios semânticos, por exemplo:
- Signo vago: "seu significatum não permite determinar
se algo é ou não um denotatum; do contrário ele é preciso".
- Signo não ambíguo: "ele somente possui um signifi-
catum; do contrário ele é ambíguo".
- Signo singular: "um signo cuja significação permite
somente um denotatum; do contrário ele é gerar.
CHARLES MÔRRIS EJj:pRQJETOJ:U:HAVIORISTA.. 195

- Signos sinônimos "pertencem a fam Ilias' de sighõs


diferentes e, contudo, têm a mesma significação".

!cone, índice e símbolo

, Morris (1938:24) deu a seguinte,reinterpretação da


fâmôsà tricotomia peirceána: !'Uhrsigno indekicál 'designa aquilo
á qüê\éle:dirige',süa' àténçâo" :o írrdicé é óposte a Uínsignó"qUé
"carâéterizã aq't:lilo qué,elêpódeâéfü:>tár. Tar slgnõ pode:fazér
isso ad exibir em si as pmpriedades:qúilüm~cfüjêto déVê pâssí.lir
para ser denotaâo por ele e; néste caso, b signo êaraoterizádór
é um íconé; se isto nãôoêófre, o sighô1caractetizador podê ser
denominado símbolo" (ibid.). No invés da câtegdria'de índio~.
Mbfrisintrõduziü posteriormente o tipo sígnicó do identificador.

Sinais versus símbolos

Morris também discutill â distinção entre sinais e sírrtfüd~


los, que..::.. às vetes sob â designação designo vérsus símbblô1--,
muitõssemiotiéistasGõnsideraram à mais bâsiêa na,fêóriáâ'os
signos. Ná sua definição, í•un, síinoo/o é Um' signo produziâõ por
se1} intérprete que atua como um su0stituto pará algüm õ1.1tto
sighd do qual ele é sinônimo-" Todos os signos que ilãô são sím-
bolos são sinais. [... ]Uma pessoa pôde interprntâr seu tfulsô
como um signo da sua condiçãô:êàrdíaéa [.••] tais sigtiõs são
simplesmente sinais; suas palavras :resultantes..::. quando subs-
titutos de tais sinais .:.; seriam, contudo; símbolos" (Morris,
1946:100-1).

A tipologia,semiótica do discarso de Mónis

Baseado numa teoria de modos' de significaçãffe numa


teoria de uso sígnicó, Morris desenvolveu uma tipologia âó
196 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

discurso que teve alguma influência na semiótica textual aplicada


(Morris, 1946:140, 203; cf. Klaus, 1964, Fiordo, 1977).

Modos de significação

De acordo com a natureza do ambiente em que um


organismo opera, Morris (1946:142) distinguiu três importantes
modos de significação pragmassemânticos. Osom da campainha
do cão, por exemplo, "designa comida num certo local, avalia
isto positivamente em relação à fome e prescreve a resposta de
atuação de uma determinada maneira". Este caso de semiose
ilustra os modos designativo, apreciativo e prescritivo de
significação. Todos os três modos podem estar envolvidos em
diferentes graus em qualquer ato de semiose, mas declarações
são predominantemente designativas, avaliações predominante-
mente avaliativas e imperativos predominantemente prescritivos.
Dois outros modos de significação menos importantes
distinguidos por Morris são o modo identificativo-que designa
alocações em espaço e tempo - e o modo formativo, designando
formadores. Formadores são signos lingüísticos.que possuem
somente função contextual, como conjunções, quantificadores,
outras palavras funcionais e sinais de pontuação. Todos estes
modos são definidos em categorias behavioristas. Formadores,
por exemplo, são "signos que dispõem seus intérpretes a
modificar, em determinadas formas, as disposições de resposta
ocasionadas por outros signos nas combinações sígnicas nas
quais o formador aparece" (Morris, 1946:362).

As dimensões do uso sígnico

Enquanto os modos de significação caracterizam o signo


predominantemente na sua dimensão semântica, as dimensões
do uso sígnico se concentram nos aspectos pragmáticos da
semiose, na "questão sobre o objetivo para o qual um organismo
CHARLES MQRRISEO PROJETO BEHA\/IORISTA...
produz os signos que ele ou outros organismos interpretam"
(Morris, 1946:172). Quatro usos sígnicos primários são
distinguidos, o que mqstra um certo P.ª'ralefü~mo. aos modos
principais de significação. Dependendo dos objetivos comporta-
ment~is do organismo, há; 1) ~ uso informativo, .quandg o.si9no
é útilizado para informar,sobre· algo; 2)o uso avâliativo, qúao90
ele tem êomo ?bjetivo ajudar nâ seleção préferep~i 9íde objet?s;
3) ouso inéitivo, quando el~estimula seqüênéias,de respost~~;
.e 4) o y5,ç si$têJniçQ, quândo ele organiza o comÂorfame·~to pró.~
duzid0porsignos emufn todo detêrmih~do (rvJãrris, f946:174-5).
Quandp q objetivo de~ses mod9s de u~o é alcançado, o us,ojn-:
formativo foi convincente, o uso avaliativo foi efetivo, o uso inci-
tivo foi persuasivo e o uso sistêmico foi correto (cf. ibid.:176).

A tipologia do discurso

Morris estava convencido de que os mais importantes


tipos de discurso do cotidiano podem ser distinguidos por duas
dimensões de critérios: o modo característico de significação e
o modo primário de uso sígnico (1946:203-5). Em todo tipo·de
discurso, há um modo de significação e um uso primário
dominantes. O discurso fictício, por exemplo, é predominante-
mente designativo na forma como ele significa os eventos de
uma história. Ele minimiza avaliações e prescrições. O objetivo
comunicativo da ficção é, segundo Morris, avaliativo, já que ele
tem como objetivo induzir o leitor a avaliar os eventos apre-
sentados na história. Ele não nos informa ou diz como atuar. Ao
todo, Morris forneceu 16 exemplos de tipo de discurso distingui-
dos pelos critérios de uso e significação (Figura M 2).
198 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Figura M2
A tipologia do discurso de Morris (1946:205)

i ..... · : > . ..·... ; '• ...


lnfor:rn,attvll ,A~a1í1!i;o lrtêlttv~, , Slstêmlçe> ·.
Mo .....· ............ ·. , .··... .. . .
Designativo Científico Fictício Legal Cosmológico
Apreciativo Mítico Poético Moral Crítico
Prescritivo Tenológico Político Religioso Propagandístico

Formativo Lógico- Retórico Gramatical Metafísico


matemático
IX
SEMIOSE NA COSMO
E NA BIOGÊNESE:
OPOSIÇÃO NAS RAÍZES DA
EVOLUÇÃO E DA VIDA
Nas últimas décadas do século XX, os horizontes de uma
semiótica textual e'cuttural expân{liram~se pgra uma;semiótipa
do mundo natural, abrangendo o estudo do comportamento sígr:iico
·dos animais (zoossemiótlcakdos. processos microbiológicos
(biosse'miótica), genétic0s.eevolatiVas .. Algmis:dos aspectos
clesses novos horizontes serão tratados neste e no próximo
capítulo. No capítulo.que se segue,o tema volta-se para as
éstruhiras elementares, diferença e oposição, ,na'bio,e
cosmogênese. O próximo capítulo terá comotema a ecossemió-
tica, ou seja, o estudo dos processos sígnicos nas relaçõf}s entre
o organismo e o meio ambiente:

As raízes da semióticaz da diferença à oposição

A universalidade da oposição na semiose tem sido uma


crença esseneial das·principais doutrinas da semiótica. A
·oposição, além disso, parece s~r constitutiva nãb apenas:da
:semiose, mas também da estrutura do micro e do macrocmsmo
pré-semi ótico, Os principais autores dà ,semióticartêm ar-
gumentado principalmente a partir cle um panto devista sincr0-
t:1ico quando investigam a oposição.como um pré-requisito da
estrutura e do sistemana'semiose; O presemtetrabalho estende
202 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

este argumento do domínio sincrônico até a origem e a evolução


da semiose.
Oposição tem sido um conceito fundamental na semióti-
ca estruturalista. O termo está intimamente relacionado à noção
de diferença. Freqüentemente, ambos os conceitos não são
claramente diferenciados ou mesmo usados como sinônimos, mas
comumente, diferença é o conceito mais geral que compreende
oposição como uma subcategoria mais específica. O conceito
de diferença foi estabelecido como um termo básico da semiótica
por Saussure, enquanto a distinção entre diferença e oposição
tem sua base semiótica nos escritos de Jakobson.

Diferença paradigmática, outridade esignos

De acordo com Saussure (1916), diferença é a fonte da


estrutura semiótica. O valor de qualquer elemento semiótica pode
somente ser discernido com referência a todas as outras es-
truturas do sistema das quais o dado elemento difere. Esta idéia
é expressa no princípio da diferenciação de Saussure. Este
expressa que "na língua, como em qualquer sistema semiológico,
o que quer que distinga um signo de outros o constitui" (Saussure,
1916:121). De acordo com este princípio, os elementos semióticos
podem somente ser definidos negativamente. Nada na semiose
existe positivamente sem referência à outridade. Esta é a essência
da afirmação de Saussure (1916:12) de que "na língua há apenas
diferenças sem termos positivos" e que "tudo na língua é
negativo".
O princípio da diferenciação funciona tanto para o plano
da expressão quanto para o plano do conteúdo de um sistema
semiótica. No que toca o plano da expressão fonética da língua,
Saussure (1916:_118) argumenta: "O que importa na palavra não
é somente o som, mas as diferenças tônicas que tornam possível
distinguir esta palavra de todas as outras, pois diferenças
carregam significação". Com respeito ao plano do conteúdo,
SEMI0SE NA COSMO ENABI0GÊNESE,OP0S!ÇÃ0... wa

Saussure (1916: 117) dá estadefinição. de ~ignificado êm termos


de diferença: "Conceito~.são puramentediferençiai~;e,definidos
não por seu,conteúdo positivo, mas r:1egati¼amenté,por suas
relações com os outros termos do sistema:Súa .característica
mais preciosa consiste em ser o. que os outrtos nãoisão".
Assim, um dado fonema adquire· seu ~alar semi ótico por
sua diferença, em relação atodos os outrosfonemas do, sistema,
e um conceito obtém seu significadosomênte a·partirdadiferença
entre este e todos os outros conceitos. Diferença, nesta
interpretação, é assim arna telação diádic,a entre um dãdo termo
e,todos os outros elementos do m~smo"plgno semiótica. ·ijm
outras palavras, a diferença.saussureana'é l!ma,re(ãçto
paradigmática entre um elemenfosemióti.co e o:s m.itros meín,;.
bros doparadigmàao quatesta pérténce,Sf;lüssure (1 ~Uf>J111'§~
expressa esta idéia.de,.diferençaci.om0,.~ma,,outttdãde1pcJradig-
mática .ao dizer !'queumsegmento,,qa,líng1:1anuij~.a'podêf:i~:m
última in~tância·, estanbaseadô efn quálquêf doisfüqu~ não §~ja
1 1

sua não GoinGidência·con10 restante1, A íilãt1,1reza,1~giga desta


relação diádica da outridade éaquela de.uma oposiçãq oontrraC:.fitéria
(p versus não~P),

A diferençasintagmática como·umafonted~ cognição

Paralelamente à tese saussureanada diferença como a


fonte da semiose, a ciência,cognitiva e ateoria{da informa~ão
desenvolveram atearia que.a diferença.é afonte.da cogAiçãoe
da informação. O principal proponente desta·teoria, ,Gregory
Bateson (1979:29; 98-9), seguido mais recentemente por:.Merrell
(1992;207}1afirmou:"

A percep~e opera somente por diferen~. Toda


recep~o de infor:maçãoé nec~ssariamente a·rJi'"'.
cepção do novo a partir da diferença, e toda per:.
cepção da diferença está limitada por um limiar.
204 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Diferenças que se apresentam muito fraca ou


vagarosamente não são perceptíveis. Não são
alimentopara a percepção. ... Precisamente por-
que a mente pode somente receber o novo a
partir da diferença, há necessariamente um li-
miar de gradiente abaixo do qual não se pode
perceber... A informação consiste de diferenças
que fazem a diferença.

De acordo com esta definição, as diferenças perceptuais


aparecem como figuras cognitivas da outridade contra um fundo
de igualdades não percebidas. Diferenças pressupõem uma
mudança contra este fundo de igualdade estática. A mera
igualdade sem diferença não é percebida. Porém, o mesmo ocorre
com a mera diferença sem igualdade, que é percebida como caos.
Nesta definição, a diferença é também uma relação diádica, mas
não do tipo paradigmático. Os termos desta díade, igualdade
versus outridade, constituem a relação sintagmática entre um
fundamento (ground) e uma figura.
No contexto da semiótica, Greimas (1966:19) definiu di-
ferença como a raiz cognitiva da semiose ao escrever em sua
Semântica estrutural: "Quando percebemos diferenças, o mundo
'toma forma' diante de nós e para nós". Enquanto, de acordo com
Bateson, a diferença é a raiz da informação, Grei mas e Courtés
(1979:79) definiram-na como "a primeira condição para o
aparecimento do significado". Nesta interpretação, a diferença é
também uma estrutura diádica cujos termos são a outridade e a
igualdade (Greimas e Courtés 1979:79): "Uma diferença pode
somente ser reconhecida em oposição a um fundo embasador de
semelhança. Assim, é postulando-se que a diferença e a
semelhança são relações[ ...] que podem ser colocadas juntas e
formuladas em uma categoria específica, alteridade!identidade,
que podemos construir a estrutura elementar da significação".
SEMIOSE NA COSMO 1= NA.810G~NESE:·OPOSIÇÃO... 205

à oposição oomoumaestrútura diádica

O conceito de oposição éf às vezes; definido no sehtiçto


saussureano de diferença eomo outridade paraâigmâtiea (ver:p.
231). Na tradição da fonologia daEscoladé Pràga,· por exemplo,
um dado fonema está em '!oposição" a todos os outros fonemas
que:criam umadiferença,âe sigraificàdo nd mestnó contexto
fbnológiM. Pdr êxempl0', ofonema'/t/ está em oposiQão :fifi, I
,d/, lvl?lm'l,JII, /pie /U fio contexto:de/'-iah wmaNez.que estes
fonemas diferenciatn os signifiõados de ·tia~' fiá/dia,· Via; miaf lia,
pia e riai,Jakobson (1962:301 ..a, 421 );no;entanfü,. rejeitou éste
uso dõ terrM oposição é'chamaf tais rerações.dê t'mé'rês
difer:enças~. Ao contrário do cOhGéito'gêtal dé,.diferen·ça1ql.iê
relaciona um dado termo a uma,classe,aberta dé' outt0s termõs,
1

o conceito mais específico de .êfpôsiçãq,rna inférp·r'etáçãõ,de


Jakobson, relaciona um dado termo somente aum único outro
termo. Nesta interpretação, oposição é sinõitfimq'dé opos;~o
binária (cf. Holenstein, 1979:121-37; Waugh, 1976:65).
Os,termos na õpósição binária, de aoorrdo có'm Jcikõb-
son (1962:637); estão mais intimamente relaGioríâdos que díâdes
de termos que formam uma·mera "dualidade contingehter. Glomo
a idéia de '!brancura" evocando a,de "êscui:idade" e: a1idéia,oe
"beleza" evocando a de '!feiúra~, "apresehça:de um term0';na
oposição binária necessariamente implrca e atrài o outro termo
oposlo":(JakobSon í 1962:637:). Portanto; :"o.fonema ·por si: mesmo
não é um· termo da oposição: Ji'or exemplo,:o fonema /b/r:ião
evoca unívoca, reversível e necessariamente um determinado
oposto" (Jakobson, 1962:421). Não são os fonemas', ,mas
somente seus traços distintiv0s, tais cómo "+/-su(do"ou 'H/-nàsal"
que são ter.mos de oposiçã<:> de acorâd com esta.definição.
O padrão mais/menosdaestruturaoposicional, n0en-
tanto, não somente representa díades de alternativas mutuamente
exclusivas. Jakobsoh (1962:273),admite dois tipos de opoSiçêes:
oposição entre termos contraditórios e oposição.entre termos
206 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

contrários. Dicotomia do tipo sim/não ou ou/ou representam


oposições contraditórias, enquanto os extremos polares de um
continuum em gradação, tais como entre "branco" e "preto"
representam oposição contrária. Mais a frente (cf. 247), nos
referiremos a estes dois tipos de oposição como oposição digital
versus oposição graduada (ver também Nõth, 1996).
No sentido de uma estrutura diádica, o termo oposição
tornou-se, neste meio tempo, geralmente aceito no campo da
semântica estrutural. Assim, Lyons (1977:270), ao estender a
classificação tradicional dividida em contrários e contraditórios,
distinguiu quatro tipos de "opostos" semânticos: antônimo (feliz/
triste), complementaridade (macho/fêmea), conversibilidade (pais/
criança) e oposição direcional (acima/abaixo). Lyons diferenciou
as oposições com contrastes binários de significados de outras
relações semânticas que ele chama de contrastes não binários.

Opostos como elementos de sistemas semióticos

A "implicação necessária e recíproca", que Jakobson pos-


tulou para os dois termos que formam uma oposição, somente
pode acontecer pela mediação de um terceiro termo, um tertium,
que especifica o tipo de relação pela qual os termos da díade
estão mais intimamente associados do que termos de uma mera
dualidade contingente. Esta relação é de igualdade ou "equivalên-
cia na diferença" (Jakobson, 1971 :262). Aluz deste terceiro termo
que especifica a igualdade na diferença, a díade oposicional torna-
se uma relação triádica. Vamos designar, daqui em diante, os
três termos envolvidos em uma oposição como primum e
secundum, no que diz respeito à díade, e tertium, com referência
ao termo de equivalência. A questão se o tertium realmente torna-
se terceiro, como o termo lógico tertium comparationis sugere,
ou se é talvez um primum, do qual derivou-se por um principium
(um "primeiro") divisionis (cf. Jakobson, 1962:634), teremos de
investigar a seguir.
SEMIOSE NA CO~MCfENAijlOGÊNESE: OPOSIÇÃO... 207

A integraçãodas díades oposicionais em tríades semfô-


ticas é o processo que leva dos elementos aos sistemas sea;
niióticos. As oposições são,tassim, os tijolos,dos ~istemas' se ..
riliótiéos (cf. lvanbv, 1973; 1983). No camWdà semântica, por
exemplo, Greimas (1966) divisou o modelo de um,11.miverso se,.
mântico 11 cujas· estruturas elementares são os opostos binários
(ptirfla é secundá) integrados,por meiôde seu tertia na hierarquia
de um sistema semântico: Afigura 1 representa um segmento
deste universo', o sistema. sêmico. da "espaciàlidadé"; Ní:1
interpretação de Greimas, as díades de estruturas elementares
de significação são caracterizadas por r~lãções de disjançã0 1
que especificam as diferenças entre os semas, e de conjunção,
que especificam seu tertium daigualdade,semântica.

Figura.1
O Universo semântico de Grei mas (1966:33) da "espacialidade11 ;
exemplificando a integração da prima e da sécunda na tertia @ma
hierarquia semântica.

Espacialici~de
! ·1
Dimensionâliâadé NãO-:âimensionalidaéfe·
1
. 1 . 1 • r
Horizr:mtalidad.e. Verticalidáde ·kêa. Võlufné
(altdlbàixo) (vasto/X) (denso'
1
1 ·· 1
difu~)
l?erspeçtivid~de tateralidade
(cornf?rido<çurto) .~argciegrefto)

Enquantoasemióticá natradição'.de Jakobson considei-


ra as oposições esúà integração nà tertiacomo afontedos~sis,.
temas semióticos, a integração dàstdíadeS'nas tríades consti-
t111i,.se como uma raiz maisfundamental·da,semiose.naJilosofià
semiótica de C. S. Peirce. A semiose, de acordo com Peirce (<S;P.
208 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

6.321), é um processo de mediação, "pelo qual um primeiro e um


segundo são colocados em relação" por meio de um terceiro. A
mera diferença definida por outridade não poderia ser apropriada
para a semiose. Uma vez que "outro é meramente um sinônimo
de ... segundo" (C.P. 6.213), a diferença pode somente relacionar
um primeiro a um segundo. "Um signo", diferentemente, "é da
ordem de um Terceiro" (Peirce, 1977:31). Uma díade sem a
mediação de um terceiro é somente um "fato individual" pré-
semiótico, "já que ... não há generalidade neste" (C.P. 1.328).

Anti-simetria na oposição

Em vez de sua equivalência vis-à-vis com seu tertium,


as díades oposicionais dos sistemas semióticos são tipicamen-
te não-simétricas, ou seja, não têm igual valor dentro do siste-
ma. A diferença entre os termos diádicos é também uma dife-
rença de valor. Este tipo de não igualdade diádica contra um fun-
do de igualdade corresponde ao padrão geométrico de anti-si-
metria, isto é, uma simetria de constituintes que são iguais em
um aspecto, mas diferentes em outro (cf. lvanov, 1974; Nõth,
1994b). Na fonologia, semântica e gramática, a anti-simetria tem
sido investigada como a oposição entre o termo marcado e não-
marcado das oposições (cf. Waugh, 1976: 89-102). Comparado
ao pólo não marcado, o membro marcado de uma oposição tem
um valor adicional. É estruturalmente mais complexo, fornece
mais informação específica, ocupa uma posição subseqüente na
ordem serial, é aprendido mais tardiamente pelas crianças e
perdido mais cedo pelos afásicos. Esta anti-simetria entre o
dominante e o subordinado, o focalizado e o não-focalizado, ou
entre o positivo e o negativo está tão profundamente enraizada
na evolução da cultura que Derrida (1977:236) chegou mesmo a
atribuir uma dimensão metafísica à idéia de prioridade do não-
marcado ao dar os seguintes dois indicadores que testemunham
a favor deste argumento:
SEMIOSE NÀCOSMOENABIOGÊNESÊ: OPOSIÇÃO... 209

1. Ahieraiqtiia axiéJlógica, as distinções êlicéJ;..


ontológicas que não estabelecem meramente o-
péJsiçõés-1/alores·agrtipados êfn torno de um li-
mite iâea/ e lnenêontrável, fnas âlêrri dis'sóslJ,- .
bordihárri estes Valores a cada ouffô (nbtfnâll
anotmâl, standardJparásite; prêehéhidolvago;
siltiblnãoisêrio, literal!nãó'-/iteràl, erri têsufnd:
'pósiti11ôlnegtitivo"e 'ideàl/iião~ideà/)/ê·histô ... ,'há
um pdtbs metafísico... 2: Aefnprf]sa dê fétornár
. ltesrfâtêgicarrierité'!, idéâlfnéiité, a umá origem
·ou á' úmá''fptioridáêle"'·que sê áctéditi:r'simples;
intaâtà,!riótmal/puta, modelar; idêntica a1stmês'-·;
mà;·à fitrHJe, êntâô, fiénsaiênHerfnos de cieri'"
váçãó~ êbmpllcaçãô, deterioração, ,iJeicJentfetC:,
Fodôs osinétatí~i~bs, dê Platãoádlóusseàl!J,·
dê Dfiséattês à Hússeti//Jrócederam de'Sta fôte-
fnâ; dóricêliehdô dbe,Wantés 8iHnàl, o pdsitiM
antes dó riêgâtívà/ óputb antes déJ irriptlrô, cfsiml
pies an"tés dá cómpléxb, ó êssê11eialâhtés do·.
· ácidéntM, o:Jmitaâo antes ââ'ifnitação etâ. ·Eêstê
· nãiJ ê apenafom gesto rrietâfísido efi(fê'c:futfbs.
Esta é a exigência metafísica, qlieJem sido'a'
mâiiconstánte, a rriàis profunda e à maís''Pb-
tenté ..

'Môn'adas, díà'des, tríades ,e a emergência dos


opostos

Háôposições primárias na evolução dâ s'emiose, como


sugere sua uoiqüidade universal, ou são elas seéundárias, fendo
emergido das môn'âdas estruturais etti um ptocessó de õi-
furcação?
210 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Díades a partir de mônadas e tríades a partir de díades

A ordem da emergência de opostos diádicos em relação


com as mônadas e tríades que estes implicam é um tópico central
da semiótica cultural evolucionária de Koch. Logicamente, as
oposições ou são primárias ou secundárias no desenvolvimento
semiogenético do primum, secundum e tertium. No caso de serem
secundárias, a origem da tríade é uma díade, no caso de serem
primárias é uma mônada (cf. Koch, 1984:284; 1993a:6). No caso
do monadismo inicial, o tertium semiótica é a mônada primordial
a partir da qual a díade oposicional emerge em um processo de
diferenciação, bifurcação ou bissociação. No caso do diadismo
inicial, a díade oposicional vem primeiro, e o tertium comum é
descoberto mais tarde em um processo de integração, consocia-
ção ou generalização (cf. Koch, 1983:375-80). De acordo com
Koch (1984:284, 299; 1993a:6), o diadismo inicial segue o curso
normal da biogênese, enquanto o monadismo inicial segue o curso
da epistemogênese, incluindo as considerações mitológicas da
gênese. A ordem biológica da díade de um macho e uma fêmea
gerando um tertium de sua ascendência é revertida na mitogênese,
na qual um criador monádico gera uma díade formada por um
homem e uma mulher.
A simples dupla distinção entre díades que surgem a
partir de mônadas e díades que engendram tríades requer espe-
cificações adicionais em virtude de uma consideração mais ade-
quada da semiogênese. No que diz respeito ao caminho da díade
à tríade, a consideração da dimensão temporal leva a uma
distinção entre díades que se originam simultaneamente e díades
que se desenvolvem sucessivamente (cf. Koch, 1986a: 169;
1987:4, 23). Um exemplo de uma díade simultânea que dá origem
a uma tríade é a biogênese bissexual. O desenvolvimento
sucessivo de díades na forma de um primum que precede o
desenvolvimento de um secundum está claro na lei de Jakobson
do desenvolvimento ontogenético de oposições binárias, de acordo
SEMIOSE NA COSMO ENA BIOGÊNESE OPOSIÇÃO... 211

com a qual umprimumnão marcado,vem antesdosecundum


marcado (ver p.237).
kespecifiêação·do caminho evolucionário da mônada à
díadé requer adistinção,entredíades polarizadas enão.-pôla:,,.
rizadas. As primeiras são também chamad.as deidualidades e~as
últimas de polaridades (ct Bochner, ·1973:350). Nas dualidad~s,
a ênfase é colocada no aspecto da igualdade diádica. A simetria
ou paralelismo earaoterizam a relação'entre os\.elementos de uma
dualidade. Ná biogMese, a mitose e a replicação de ,DNA
exemplificam agênese:dedualidadesna hledjda que a reprodução·
é um éaSó'de igualdade'dual (ver,p. 250). AsiOpbsições defini~fa1s
como arfü,simetrias. (veíp. 23?'} são polaridades, .mas podem
originar-se de dualidades. De acordo comKoch (1983; 1'986a:111,
11 ?; 1993b: 171.;5), dualidade e polaridade são características de
duas.fases'slibseqüentes na evoluçãodacaltura, Na.primeira:.
fa'se';cjl:Jé élé chama de fJr:osforia (prosphory)/emcoFJttamôs,
dUa:lidãdese:estasdualidades tornarn-séí então;. polârizââas:êr:n
oposições em.uma fase subseqüente; que ele chama de diafôria
(diaphery)'.
Para resumir, distinguimos os· seguintes qlJatro caniinhós
na semiogêrtese tias o[iosições:. 1) da mônada (espontanêâm'éílte)
às díades, opósiciohais; 2) das~ mônadasr via dWàlidãdês
(simétriéas),1às díades polarizadas; 3) das díadés·simoltãnéâs à
tertia completando à tríade; e4) das díacles suçessivasdet1m
primume secandum a um tertium.

Semiogênêsé como· meciiaçã0 entre opostos

A idéia de mediação entre díades oposioionais tem maio-


res implicações semiogenéticas: Peirce; noicontexto de sua
filosofia semiótica da evolução, definiu o·processo de mediar entre
um primeiro e um ·secundo como o verdadeir0 princípio da
evolução. No entanto, em sua consideração, a ordem da
primeiridade, seoundldade e,terceiridade não corresponde à
212 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

seqüência temporal da gênese real: "A origem das coisas ... con-
tém a idéia de Primeiro, o fim das coisas a de Segundo, o pro-
cesso de mediar entre os dois a de Terceiro ... Mente é Primeiro,
Matéria é Segundo, Evolução é Terceiro" (C.P. 6.32). Se a
terceiridade da mediação vem entre o começo e o fim em que a
origem é negada, a seqüência temporal da evolução é pri-
meiridade, terceiridade, secundidade. No entanto, esta ordem
temporal dos eventos não é a ordem cognitiva no processo de
semiose. Do ponto de vista cognitivo, a díade da primeiridade
(mente, a fonte da cognição) e secundidade (matéria, o objeto da
cognição) precede a terceiridade, que é o processo dinâmico
(evolucionário) da cognição e da semiose como mediação entre
primeiridade e secundidade.
De uma maneira diferente, o processo de mediação en-
tre opostos é um princípio de evolução de acordo com a semió-
tica cultural evolucionária de Koch (1984: 136-48, 420; 1986a:2,
117; 1986b:49; 1986c:147). De acordo com esta teoria, a evolução
da cultura ocorre pela integração das polaridades em uma nova
tertia. Koch descreveu tal integração cultural de polaridades como
a terceira fase de uma evolução que começa com uma primeira
fase de dualidades simples e é seguida por uma segunda fase de
polaridades (prosforia e diaforia, ver p. 241 ). A transição da
oposição diádica à mediação triádica causa "uma mudança da
estrutura para o processo" (Koch, 1983:375). A lei evolucionária
que está na base deste processo é: "No começo era a díade que
imediatamente engendrou a tríade" (Koch, 1984:283). Há três
tipos de mediação cultural distinguidas por Koch (1983: 139-47;
1993a; b). Um tertium mediationis é o integrador das díades
oposicionais no domínio da metafísica. Por exemplo, "Cristo"
media entre o "humano" ou "mortal" e o "divino" ou "imortal" e a
metáfora de Pascal do homem sendo "um junco pensante" media
entre as idéias de "fraqueza natural" e "força". A mediação no
domínio da "metalinguagem concreta" ocorre por meio da tertia
comparationis. Alguns veículos de tal mediação são as metáforas
SEMIOSE NACOSMO ENABIOGÊNE:SE: OPOSIÇÃO...
da linguagem cotidiana. O terceiro tipo de mediação ocorre no
campo da "estética concreta"; que compreende fenôtnenos"co-.
mo a recorrência métrica e outras c0r:respondências repetitivas
na arte e na natureza. Este é chamado de tertium attractionis e
descreve o efeito semântico especial associado a um terceiro
elemento que continua, e, ao mesmõ tempo, quebra o padrão de
uma recorrência binária. Alguns exemplos deste efeito são ô Vên1,
vidt vici (Vim, vi, venci) de Césarou ftthorse, a horse, my kingdom
f<fi/1 horse (Um cavalo, urrfd~~ãlo, meu reino por utn tâVálô) dê
Ricardo Ili.
Mais recentemente, o proce~so de integração triádica
d~;polaridades foi investigadq1go,e Wilkins. (1987)_ ~.Spinks..
(199t:77-8) em vários domínio~,d1:1,semiose. Spinks destacou
que a integração triádica das po!9rid1:3des parece ser iner:ef:\te ª·
estrutura do "cérebro triunoD, que consiste da díade dos hemis-
férios direito e esquerdo com o·sistema límbico, o cérebroc.'1rep.:.
tílico: como um tertium (sobre ,este argumento, ver Koch
1983:421). No domínio da cultura, Spinks deu o exemplo da in-
tegração'pSicológicana mediaçãq deserita por G:.G, Jung entre
e
o cor:isciijnte o· incon·sciente' na,forma de uma ."conjunção' de
opostosn. Ilustrou,: assitni a integração divinatórta através da
produção de significação.de polaridades,semântieas db16)hing
chinês e interpreta a figura ambivalente do trapâceâdor comôio
protótipo da integração mítica entre as polaridades essenciais
da 'lida· húmãna. Spinks discutiu, ainda uma variedade de
processos triádicos da semiótica teórica e. da integração
epistemológica.

A ubiqüidade:.univeisal e a cosmogênese
dos opostos

Asoposições são onipresentes em todos os estágios da


evolução, desde a origem dd,cosmos até;o desenvolvimento dos
sistemas filosóficos. Koch (1984:·285; 1,993a:7), ao distir:iguir sete
214 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

estágios desta evolução, deu os seguintes exemplos de díades


oposicionais típicas de cada nível evolucionário:

1) cosmogênese pósitron elétron


gravitação - expansão
2) biogênese vida- mate
fêmea- macho
3) psicogênese sistema límbico córtex
k:I altruísmo
4) sociogênese amizade inimizade
egoísmo altruísmo
5) semiogênese projeção introjeção
signifié- signifiant
6) ·glotogênese arbitrário motivado
texto sentença
7) epistemogênese concretismo abstracionismo
gênese me1agênese

A presente investigação da evolução dos opostos fica


restrita ao nível mais baixo da escala evolucionária. Comece-
mos com algumas poucas reflexões sobre os opostos na
cosmogênese pré-semiótica antes de atravessarmos o limiar se-
miótica do domínio da biogênese.
No que diz respeito ao nosso tópico, o traço mais
marcante de nosso universo físico é a sua divisão totalmente
diádica em partículas e antipartículas, matéria e antimatéria. De
acordo com a consideração de partícula física feita por Gardner
(1979:189),

... sabe-se agora que toda partícula elementar


tem uma antipartícula correspondente. As duas
partículas são semelhantes em todos os aspec-
tos, exceto no fato de serem opostas na sinali-
zação de qualquer quantidade (representada por
um número quântico positivo ou negativo) que é
donservada. Se uihà partícula estiver cârregaâa,
sua antipartícula tem uma carga igual, porém
oposta. Se tiver um momento magnético, sua
antipartícula tem um momento magnético de
sinâ/iépostb.

A órigérh do universo, dã forma comotém siàotraçada


pelas chámaàâs Grãndes Teorias ,unificadótas, tohieçocr há 15
oilhõeSde arios~ Durante a pfifnéira fa'sê soore a qual tetnos ai;,
gLirti côríhedimentó, de 1043 a:1o-32 :sêguhdós antesdoBig Bang,
e
havia"Llma cómpleta simetria entre a matéria a,antimatétia:
Pártfüulas eantipartículas existiam em quahtidaâes precisamente
igüai!fe eram êómpletamente igl:.iais·ém·vàlor e em efêitoMísic0s
têéípfocôs' (ct: Main:zêr; 1988:5~fr.:6)i·A,origetn âõ c'bsml5:S
õo'mêçbu com à quet:>ra eêsta simefriainiciâl. As a:nursimetrias e
as2asslmétrfâs pertürbârarr{'a uniformidaâ~ original doUÀiVefso,e:.
comêçârà'm aériar as: estruturas· físicas tJe nosso universdafüãl.
No domíiiiô dtls partículas elementares, üm dos'têsultãdosdestai
evblut1ãô 1é ·uh,·a oposição áhti"-simétriba· dá' niàtêria:·é. àa.
ahtimátériá (Bcfühherr1973: 3504). Por exétnpld, o elétron ê•süa:
áhtipártícula, ó pôsitron, démonstràm talanti,,-sirhêtriá. !Blês,§'ãa
estruturalmente simétricos exceto pelo fato do pôsitrofil,séttnl:litõ
menoséstável que o elétron (idem; 1973:351). Comrúm aumento
ná êdmpléxiâáâê, a estrufüra êfa: natureza física tdrriâ-séiõa-da
vêzmais assimétrica:
Coni relaçã0 aõ papel da,õpesição na costndgêhese,.po~
demos, então, colicluir,que a drigem da"matériaestár;iãs díadés
simétricas. A quebra da simetria destas díades significou uma
criação de diferenças, uma vez que os elementos hãõ-ài-
ferenciados de igual valor tornaram-se diferenciados em valor
(c[ Freund, 1991 :vii). Apartir desta diferenciação, a's· oposições
aliti'-simetricas emergiram ·áêôtn1:>anhada:s por estruturas
assimétricasrhais,corhpléxasl lista seqüência das dualidades
simétricas até a:s polaridades anti-simétricas exemplifica as
216 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

primeiras duas "fases fundamentais da estrutura" de Koch


(1986a:117).

Oposições digitais no limiar biossemiótico

Com a biossemiótica, atravessamos o limiar semiótica


do universo físico pré-semiótica até o domínio da semiose. A
biossemiótica é um campo bastante abrangente para ser
adequadamente examinado (cf. Sebeok & Umiker-Sebeok, eds.
1992) mesmo do restrito ponto de vista da semiogênese dos
opostos. Os opostos biológicos que primeiramente apresentam-
se à mente como sendo relevantes para a semiose são as
oposições binárias vida/morte, macho/fêmea, pais/prole ou a
oposição anti-simétrica direita/esquerda das mãos e da função
cerebral (cf. lvanov, 1983; Springer & Deutsch, eds. 1985; Spinks,
1991 :56-8). No entanto, focalizaremos oposições em alguns dos
níveis mais baixos da evolução biológica da semiosedestacados
por Sebeok (1991 :83-96): o código genético, a endossemiose no
sistema imunológico, os códigos metabólicos e neurais, a
semiose bacterial, a fitossemiose, a micossemiose e a
zoossemiose.
No limiar mais baixo da semiose, a oposição já aparece
nas duas formas principais distinguidas anteriormente: a oposição
digital e graduada. Os opostos digitais aparecem nos níveis mais
baixos da semiose, enquanto os opostos graduados são
característicos das formas mais altas da biossemiose.

Asemios8i]enética

Na bioquímica da vida, a oposição começa a aparecer


na forma dos opostos digitais que existem entre as quatro bases
das duas cadeias de nucleotídeos em uma molécula de DNA:
adenina (A), timina {T), guanina (G) e citosina (C) (cf. Margulis,
SEMIOSE NACOSMOl:NÁBIOGÊNÉSE:OPOSIÇÃO... 217

1982: 10-1 ; KÕppers, 1990: 13:.5). Estas quatro basesfórmam dois


pares complementares que são quase idênticos na fórtna e nas
propriedades químicas, mas diferem de tal maneira que A versus
T e G versus C formam ópôsfos éomplenientares. A auto-
réprócfüçãode moléêulàs'êJe DNAédmêça com a sêpâráçãôdas
duas cadeias de nucleôtídeos cómplétnerítares. Então, em um
pfoc'esso que envolve â produção de utna"cópia Mgativáfl âe
informação hereditária é seu súbseqüente reverso em um fórmâ
positiva; ÓS nüêlêofídeôS êJo meió â'tnbiente Cônectam-se {fseús
compleméhtos em~ada' cadela símpTês pátafor~ar dúâsnovas
cadeias duplas idênticas à origiriá'L Éstê processó de ligàçâo de
bases mólecdlarés cõmsuas ~óri{ràp;ánés ôómplémentares éum
próéessô "dê §emiósê, útna vêz quê pressupõe um procêssti'de
recohhecilT1êntó dÔ pa'r-:basé. Prodi (1988a:1 %'5) descreveu 'êsté
aspecto êJa origem "dá sémlôseno fécorinêcitnehtddos optistôs
compléméntares· da segülnté forma:

'()processo p'áta seenconttarêaclà umé, pi:ir"'ê


iantó, urnaiêiturã otl iriterptetação âa realidadê
deseinperiliâd~ pofA e B:de acordo com seus
rnódulos'éonstflúcionais: Assim, par'aA1 êB, ler
a realidade"consistê'em tever e ·rêjéitaf os
óbjetos irtelévantefe' escolheraque/es sigriifi-
cantes. Ern sua exploração, que termina no·con':.
tato com B, A faz um julgamento' sobte a rea/..
idade, uma ·vez que é movido â mudar somente
quando encontra sua realidade significante
complementar. Esta é a interpretação êteA do
meio ambiente: sua mudança está sendo
·acarreifadà por B. Assini, a presença ilo' rnate:..
ria/ i:le B é detectada por A desta maneira: este
evoca urna mudança por meio de complérnenta-
ridade. Devemos dizer que A "lê" â realidade e
"cónheêe" B. Bsomente pode serconheéidó atra-
218 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

vés de sua estrutura, o que faz com que A rejeite


as presenças irrelevantes.

Enquanto a semiose molecular no reconhecimento de


complementaridade pressupõe a existência de opostos, o
processo de replicação de DNA também exemplifica o processo
de origem dos opostos. Na medida em que as moléculas de DNA
replicam-se para formar novas moléculas idênticas à original,
este processo caracteriza a criação de díades simétricas a partir
de mônadas (ver p. 239). A evolução, no entanto, não pode confiar
na mera reprodução da igualdade. Como Margulis (1982: 11)
ressaltou, "Se a copiagem fosse sempre fiel, as células da
progênie seriam sempre duplicações exatas das células de seus
descendentes. Caso, então, as condições ambientais s,e
alterassem de tal forma que os descendentes não conseguissem
mais reproduzir a si mesmos, o sistema vivo de replicação
pereceria". Portanto, a evolução deve tornar possível a variedade
e a mudança. Esta ocorre na forma de mutação ou de combinação
inovadora do material genético de machos e fêmeas na
reprodução sexual. Estes processos de inovação reprodutiva
resultam na criação de opostos na relação entre os genes da
progênie e seus descendentes. Assim, a mutação, que surge a
partir de uma substituição errada ou uma destruição de uma das
bases do DNA (cf. Margulis, 1982:13), envolve a criação de
diferenças na igualdade, resultando em uma oposição antisimétrica
entre os genes dos progenitores e da progênie.

Semiose imunológica

A "interpretação dos opostos complementares" continua


a ser o prin,cípio predominante da semiose no sistema imuno-
lógico dos animais (cf. Prodi, 1988b). Os emissores das men-
sagens imunológicas ("signotopes", de acordo com Bona 1988)
no soro de um animal são os antígenos, isto é, moléculas de
SEMIOSE NAQO$MO ENA BIOGÊNESE: OPOSIÇÃO... 219

substâncias externas, tais como bactéria·ou vírus. Osreceptmés


destas mensagens são os leucócitos, que estão equipados com
uníámultiplicidade dereceptores para este fim, e as moléculas
dffartticorpos,produzidas pelos lihfócitos-eB:Devido à grande
complexidade das mertsagens imunológicas, Jeme (1985:4'46)
comparou o repertório de signos do sistema imunológico a um
"léxico de.sentenças que·é 1càpa:z,~erespohder a t]ua:lquer
sentença expressa pela rhi.Jltiplieidade deahtígenós que o.sistema
imunológico encof1tra": Como ressalta Jerne {'1985:447-8), os
antígenos e anticorpos evidenciámaoposição complementarde
1:1ma imágem e seu reflé'Xo especular:·

A respQ~ta. itT1unológica a um.a. septença é:lp[e-:


sentada, PQfU~fl molécula de proteína invasorá
é §implesment(; selecionar, entre seu,~,;,orme re-
pertório de anticorposprMQrtT1acJos,, tilTla ima-
gem espf!pU/é:l[ apropri~da dq pç1rte de,~ta sen-:
fença aptigênica.,.J~ssimJqS sent~n~as.que
repre§entarp antiCO[PO.f po~syem [m~ffens es-
peculares parciais de uma sentençà antígênicà..
: ' ' "', ' ,, ' ' '' - ' ; ¾ ' '~ ' ' - > - ;; ' - - " - -,

Estes anticorpos não são ecos do antígenqJn-


vasor, mqsjá estayatTI disponíveis ao animal em
seu r~pertórío <ie pélulas B antes qo antígeno
ter cf)egado.

· Depois de reconhecer o antígeno, a célula B começa a


interpretá:.:I0 e este processo envolve uma distinção<binâria'êntre
o s·er e o não-ser; isto é, aub-antígenos produzidos pelo próprio
,corpo e antígenos estrangeiros. A resposta da célula Baoahtígéno
que depende destá avaliação interpretativa é uma decisão dó tipo
sim/não (cf. Gelada, 1988:74). A resposta a um antígeno
estrangeiro é a produção de antimoléculas complementares (Prodi,
1988b:56), isto é, anticorpos que destroem os invasores. A
resposta aos auto-antígenos é "não-reação", o que impede o
perigo da auto-agressão.
220 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Asemiose neurológica

A oposição digital continua a ser o princípio básico da


semiose neurológica. A comunicação neste nível se constitui na
transmissão de sinais na forma de impulsos eletroquímicos entre
os neurônios. A natureza binária deste processo torna-se clara
em duas polaridades: a oposição entre a ativação neural versus
intimação e a oposição entre os sinais excitadores e inibidores.
Pribram (1971 :20) referiu-se àoposição anterior quando
caracteriza o neurônio como "um transmissor do tipo 'tudo-ou-
nada"'. Note-se que o passo da inatividade à atividade neural
envolve a transform:wão de um input bioelétrico gradual em um
padrão binário de semiose. Ao receber o input excitador, o neurônio
primeiro permanece inativo até que um certo nível de descarga
(de -50 minivolts) é atingido. Somente então ele libera seu
potencial de ação (cf. Trehub, 1991: 19-21 ). Abaixo do nível de
descarga, o input bioelétrico não é ainda um sinal. Ele não tem
"significado" para o neurônio. Enquanto o processo bioelétrico de
estimulação é gradual, o processo semiótica é digital, fazendo
distinção somente entre o não-sinal abaixo e o sinal acima do
limiar de ativação.
A segunda oposição digital básica na neurossemiose é
aquela entre as mensagens excitadoras e as mensagens inibi-
doras. A transmissão destes sinais ocorre via dois tipos de neu-
rotransmissores que se tornaram especializados em realizar esta
tarefa: as sinapses excitadoras e as inibidoras. A oposição
semântica entre um sinal que excita e um que inibe uma célula-
alvo é paralela à oposição entre uma direção positiva e uma
negativa do impulso bioelétrico {cf. Trehub, 1991 :20-1 ).
SEMIOSE Nt\ (:;QSMO E:NP(131bGÊNl:ªE: OPOSIÇÃO... 221

As raízes da· oposição' graduada·no,espaço


. biôssertiiótieo

Na evolução âa op0sição semiótica; os opost0s (ltádúa-


.aos (verp. 234) começam a apareceníloníveJ.clafito,e cla zéms-
semiose:A emergênçia destetipo ãe opO$içã,oestá essencial-
mente lig9;da ~ semiose e~paçial; em parUçutarà reã1:1çãp $e-
mi.ótica âa pJuriãim.~p~ipnaliãc1ãe1espaçj91,,9díaâesoppsicipq.ais.
Semiose da oposição no espaço
Ç)e,acorclo;.cpm chd.efiniçãp RE:Jreean,a oe. semiose c9mo
uma ação s:lirigiâc1 a ~n:i opje,1ivoJuma,r:neWora espacialJ), a
Qrientaçãcrr19 esp,açp é urpa,.eyjâ~JlCia~Úfici~n,\e,;da SS(FliQ~~t·p
,9bjetivobiol99iço que umprg~riisrn.o perse9pe, QM9nqo exeJCMijª
c.apacidaqe âe qrientc1çM e:spijçiaL é a1,1mentar se1,1 conJatg qpm
OS·e.stJ.rn.ulQS pJol~QÍCOS:V8ílt9JOSOS 8.âJf:'1ÍOUÍf seu.çonJatp çqm
as fontes âe pe,rigp.
J}o cqntr~rio da endossen:iiose, que bpsicame,nt~ fàij~er
.decispe.$ ~tntre ºPJ?.sJps ãi9itais, .a .~emio~e e,spªcial re111,1er
deqisõe~prtentaciRílflÍS ae, um tipo multiâ.ireciogah~.No.entantp(o
,~paço semióiicol.pif~rentemente. do esp.açp geomét~iqo... ~&o é
isp\rópiqo np sentt9oçle que toaas as qire,9ões,§~~·i94J:!Js,em
valor orienta,cionaL D.e maneir~ qpo~tçt, a..se,ITl)p~e;~~p~~ial
âetermina valores preferenciais a âireçôes básicas, tai~.a~ftjJ~ a
vertical e a horizontal, âe acorâo com os âeterminantes biológicos
ou cognitivos; e e~tarnoldura semié>Jica imposta aq ~sp~Ç(jl é
altamente oposicional. Além âisso, sempre que os signoiforem
parte ae um paraâigma oposipional, c9mo4>,~ opoªtos verbais
aqima Vf;(SU$ abaixo, esJes poâem ser graduaâ~s (como emma/s
acima/abaixo) e permi!ir o swgimentp âe ~m twt(um JocaL(t:;qmo
em nem. ao(m~, ner;n abaixo}: E~tas ,caractE3rhfüças da qrier:1f~çªo
~spaçial. pareoern ser a. rªiz cognitiva;âa graclação nf;i líng!:!as(çf.
Çapítl.Jlo 9)~ ·
A oposiçãhespacial nafitosserrliose
6iplogicamente, a maneira mais eficiente Qe,orientação
no espaço,~. evidentemente; pela mobiliâade livre·; mas a
222 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

capacidade de orientação espacial existe mesmo em organismos


e plantas séssis. As plantas se movem por meio do processo de
crescimento conhecido como tropismo. Os movimentos
orientacionais de organismos que se movem livremente, por outro
lado, chamam-se taxias(Kühn, 1919:2-4). O desenvolvimento da
taxia é um limiar decisivo na evolução biogenética desde as mais
primitivas até as mais desenvolvidas formas de vida. Bonner
(1980:56-75) chegou a descrever a mobilidade como uma "primeira
origem da evolução cultural".
Vamos começar com o tropismo, a fitossemiótica do es-
paço. Há dois tipos principais de tropismos: o fototropismo e o
geotropismo (Kühn, 1919:2-4). Ambas as formas de orientação
espacial operam de acordo com um princípio de oposição
direcional terminologicamente expressa em uma dicotomia po-
sitiva versus uma dicotomia negativa: fototropismo positivo é o
crescimento em direção à luz; fototropismo negativo é o
crescimento na direção oposta da fonte de luz. Geotropismo
positivo versus negativo é a oposição de crescimento em direção
versus crescimento por afastamento da atração gravitacional da
Terra. Ambas as formas de orientação espacial são graduadas
de acordo com a força do estímulo e possibilitam o surgimento
de um tertium de estase que ocorre, por exemplo, quando os
estímulos de orientação vêm de direções opostas (cf. Kühn,
1919:3).

Aoposição espacial na taxia zoossemiótica

Devido à sua capacidade para locomoção, os animais


têm um potencial orientacional que é, obviamente, mais
pluridimensional que o das plantas. No entanto, a orientação
espacial dos animais é ainda mais altamente oposicional.
Analogamente ao fototropismo na fitossemiose, por exemplo, há,
na zoossemiose, uma orientação oposicional em direção à luz
versus uma de afastamento chamada de fototaxia positiva versus
fototaxia negativa.
A oposição zoossemiótica direcional mais geral é aquela
entre as taxias tópicas e fóbicas (cf. Schõne, 1983:64). A taxia
22§

tópiea é pôsifivàfnénfe dirigida párâ Ufn estímulo, enquanto a


fobôtaxia é ã têaçãó negativá dé*evitâ'çãó ão êstímülo. cam
relação à evolu9ão da oposiçã~ ori,entaci~nal, é inter~ssante notar
que â tàxiâ fót>ióà ~é, biolo'gita'tnente ",m'aisl, diferenciada e
oriehtacionalmefüé"mais âirêta. Os modos âé tÕp'ótãxiâTn'êlUem
i:r telêotâxià (movimêíitó d1réfo efn direção á'b estítnUlóf,e
mériotáxiã,(óriéntãçãáa'ngillar êliftiélação aó êstímülo). Ao
cónt~árfô ~estas (ornJ~s;pêsitívàmêFité direcionâdàs âé o'ri'ént~~
a
çãó, fobotâxia; â:mài~ primfüvâfdríilá deorientà'çã0 hegátivá
nó espàçd;1e'inêspêcíficã e0h1 relação @êlireçãô de ·afastamento
de éstííilúlê'.>." oparaméció, pô'têxetnplo, soméntê obtém stlôessb
riá evitâçâo de uinaA:zohâ dê,fiêrigó ~ôr uni processo'repetiâêHle
fentativã e erro (óf. Kütín, l919:§).

Adposição,ne éspáço'sêmió~l;iímico •

· Vâm~scônéluirnossâ ·explqraçãó dos opostõs~nãs mais


baixás sz66ssémiosés' conl"ümâ b'reve',âis'etJssãó 'de âlgúns
padrões semiôquími6ós de 'epôsiçãônã sêmiÓSÊH>lfâtiyà. ,L'fmãfs
primiliva õposiçãtrtiesté Í'íível"de sêtniosfê aqíl1éla'é'ntre 0s
estírriul'éfs atfáêntés versus os rêpeléfües! Nàfclàssifi'éa'~ã0
semioquímica dassuostâílciás võlãteis, á õpõsíçâ0Jcãir0môriiô
(kaironome) versus alomônio (a//omone) corresponde a esta
oposição (Nordlund, 1981 :22). Um sistema de oposições
espaciais tarrfüém éíhe'rgêtdà ~riálisê füâis. difêténciâdá~cdo~
padrões de resposta aos semioquímicos. Consideremos as três
oposições direcionais implicâdás ná'tipologiàdos semioquímicos
esfabelecidos por Nordluriâ 019'8h22) noebntexto da semlose
dos insetos:

1) estimulantepatalisa11te versus locomotor. o primeiro


agente químico "faz com qúe utn orgánismô se agregue em·,cón-
tato córri elél'; oúltimo,Í'[próvóca]'á dispersão de umarégiãó~;
2) estimulante atraente versus repelerité: o primeiro '!faz
com que um organismo prodaza movimentos Orientados em
direção a sua fôntê1'; bultimo; '1prbê:H.Jz rriovim'éhtos driefltados
de afastamento de sua fonte"; e
224 ASEMIÓTICA NO SÉCULO XX

3) estimulante de alimentação versus de detenção: o pri-


meiro induz a alimentação no organismo e o segundo a inibe.

Por fim, estas oposições semioquímicas, que correspon-


dem diretamente ao movimento oposicional no espaço, estão
intimamente relacionadas à oposição biológica entre os estímulos
vantajosos e desvantajosos (comida versus não comida,
acasalamento versus não acasalamento etc.). Nos níveis mais
altos da semiose química, na "linguagem" olfativa dos mamíferos,
um novo aspecto espacial da comunicação semioquímica emerge
da relação cheiro/marcação de território, em que os odores são
usados como mensagens para o reconhecimento de indivíduos,
grupos, territórios ou fontes especiais de ameaça. Ao contrário
das oposições semioquímicas devidas a estímulos quimicamente
opostos (kairomônios versus alomônios}, a marcação por odores
produz mensagens nas quais um estímulo simultaneamente
transmite mensagens opostas a grupos diferentes de receptores:
o mesmo odor é um sinal de segurança ao indivíduo que está
dentro dos limites de seu território, mas indica perigo para o invasor
(cf. Ewer, 1968:105). O odor produz uma mensagem espacial
ambivalente que significa atração para os membros do próprio
grupo e repulsão para os animais estrangeiros.

Exame: da biossemiose à psicossemiose

A oposição biológica defesa territorial versus fuga é


funcionalmente sustentada pela oposição psicológica entre raiva
e medo. Assim, o "imperativo territorial" (Ardrey, 1967) que
estabelece forças oposicionais invisíveis de atração e repulsão
no espaço animal conduz-nos ao limiar que leva da biossemiose
à psicossemiose. Apesar de, neste trabalho, o tópico da oposição
na semiogênese não poder ser perseguido muito além deste limiar,
concluímos com uns poucos comentários sobre a oposição
psicossemiótica que se restringe a alguns dos aspectos discutidos
em outros contextos já abordados neste trabalho.
SEMIOSE NAC0SMO ENABldGÊNESE:OPOSIÇÃO... 225

A nafürezá;oposicional; ou "bipoláridáêlé,,, das eníoç·ões


tem sido freqüentéménte destacada (cf. Russell;· 19'79; füífh
1992); O conceifotriesmode emoção tem sifasraízesna oposi-
ção éspacial/jà1que sua êtir'nologià englobáos:coílêeifos de "mo-
ver" e '!partir" (Lat êmovefe). Dúalismós é pêláridadés; tais.·co-
·rno amor vêrsusôdio, libidoVersusdesfruição ôu prinbípró dà
prazer versus prindpié>êla realidade são também os fuhdarnen-
tós âa psicânâlise de Freud· (Giorhpi, 19"82:23, 119-21} A.s
cârâdêfístiéas· essénciais déstcI~ p·oláridádes psicossemiõtiêãs
sãô suá gradàção (ver p.234: 253); sua ânti..;simetria (vér p. 237)
e a emergência de uma terceira instância entre os:opostôs{vêr
p: 241, EfCiómpi,198:t:120). Oomôjá i'.füsérvâmos arites,seús
precursores p"odefn' sef efi'éontradosAosprocêssos oióssemi0ticôs
qáe;envolvem lerças:àposfâs de iguáTvalór(ver 1:l:254, 256) que
são particularmente notaâas n~Horma; de G6mp0rfamêtilo
ámbivaÍehté e·conflituosó ríà zôô§sl,rríiose;
: A. grââaçã·o êrrídirêções 0postas é'a0cârácterística;q1:1e
à'sêmiosê;êmoêionál: côrnpártiltialcom a semi os eespaciàl: ~· hã-
tü reía do voéâbt.ílãrió altame11fo antonírtiicà,dàs\émoçõés (ôf.
·Nõth 1992~ reflete·este cl:iraêterística da psioossefnios·e. ·E§ta
nafurezà espâêialda,linguagem ernoôional,talvez sê]a: 1:>ârté'ê:la
base mais geral da linguagem na percepçãó lfo éspâgo
correntemente enfatizada na lingüística cognitiva (cf. Capítulo
9). O psicólogo Julian Jaynes (1977:59) atribuiu uma relevância
evolucionária a esta tendência da mente humana quando dizia
que a espacialização mental é "o primeiro e mais primitivo asp~"1tb
da consciência". Uma hipótese mais específica sobre a filogenia
da oposição avaliativa na semiose espacial foi proposta (:)Or 81;1rke 0

(1952:262), que localiza a raiz da positividade e da negatividade


na oposição entre o fato do animal pegar o que quiser e seu
afastamento daquilo que não quer.
Uma evidência menos especulativa sobre o aspecto es-
pacial da gênese dos opostos psíquicos vem da psicologia in-
fantil, em que a crescente consciência da separação espacial da
criança entre o "eu" e o "não~eu" maternal e meig ambiental foi
'rêcónhecida coméfa raiz onfogenéticâ dó si-mesmo em oposição
226 ASEMIÓTICANO SÉCULO XX

ao outro, ou, ainda mais especificamente, como a raiz psicológica


da oposição entre "sim" e "não" (Spitz, 1957).
A suposição de que a psicogênese do eu está essencial-
mente ligada a uma e;xperiência da oposição espacial é também
parte da teoria psicanalítica lacaniana da gênese da consciência
do eu em relação ao Outro inconsciente durante a fase do espelho
do desenvolvimento infantil (cf. Nõth, 199:303). Pela descoberta
da oposição entre o eu em sua confrontação espacial com sua
própria imagem ("especular") externa, a criança, de acordo com
Lacan, começa a diferenciar entre a pessoa como um sujeito
individual e um objeto de interação social.
As origens espaciais da oposição não foram descober-
tas somente nas raízes do desenvolvimento emocional da crian-
ça, mas também naquelas que se referem ao cognitivo. Sobre
esta extensão de nosso tópico do limite da psicossemiose para
o campo lingüístico da semântica lexical, Lyons (1977:282) propôs
a seguinte hipótese: "pode ser que nosso entendimento, não
apenas da oposição direcional, mas da oposição em geral, esteja
baseado em algum tipo de extensão analógica de distinções que
primeiro aprendemos a aplicar no que se refere à nossa própria
orientação e à localização ou locomoção de outros objetos no
mundo externo" .48

48. Oautor agradece Gerson Tenório dos Santos, que traduziu este
capítulo do texto inglês de Nõth (1994a).
X

ECOSSEMIÓTICA
Ecologia e ecossemiótica

·fü:ossemiótica não é uma semiótica à Umberto E.co, màs,


muito mais, uma semiótica à Tom Séoeôk. Enquanto Bco
estàbelecEHmí limiar semióticcrque se encontra acimiMo:mwmfo
:nàtuh1I, Sêbeôk tem umà visão pansemiófioardo1munciotque
também permite consid.erar Mnundo ecológico sob per:speêtiva·s
semióticas.
Aecoldgia é,segundo ErnstHaeckel (186fü286},:quein-
trodUziu o conceito, a ''oiênêià:das relações mútuas entf:e:o,ôt-
·ganismoe ô mundo exterior que o roàeia". Mais modér:nànienlê,
ela· é dêfihida ·hoje como "a ciência dás· r:elações entr:e os
otganismose 0 mei0ambientef (Vogel eAngermann/ 1990:3; 22§).
1

Neste caso, trata-se, M chamada auto~eêo/0gia, de organismôs


isolados·.' na demecblogia,· de populações biolégicas, e,~na
sihecologia; de comunidades simbióticas• nas suas relações com
o meio ambiente (cf. ibid.). ComOmeiô ambiente (Urt1welt)1 algl!lns
ecologistas definem "a soma de todas as coíldiçõês e,fnfluências
exterrias(bióticas e.abióticas) que afetam a vida,eo·desem1ôlvi-
mento dos organismos'! (Platt,, 1980:265). Outros 1ecoIo·gistas
ampliam o conceito:, ao• falarem hão somente de um ''meio
ambiente externo~; mas também de "um meio ambiente interno"
aos organismos (Geist, 1978:18). Deste conceito arnpliààode
230 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

meio ambiente, também parte uma semiótica que examina os


processos sígnicos também no interior dos organismos (ver p.
273). Sobre a história e a semântica do conceito de meio ambiente
ver também Hermanns (1991).
Originalmente um ramo da biologia, a ecologia, numa é-
poca de crises ecológicas mundiais, conhecidamente desenvol-
veu uma grande força de irradiação interdisciplinar. Assim, exis-
tem, neste meio tempo, uma filosofia ecológica (Sachsse, 1984;
Schõnherr, 1985), uma ecologia antropológica (cf. Eisenbart, ed.
1979; Hutterer et ai., eds. 1985), uma ecologia da mente (Bateson,
1972), uma história natural filosófica do pensamento ecológico
{Trepl, 1987; Mayer-Tasch, ed. 1991), uma eco-etologia (Krebs
e Davies, eds. 1978), uma historiografia (Herrmann, ed. 1986) e
sociologia ecológica (Gãrtner e Leisewitz, eds. 1984), uma
estética ecológica (Sturm, ed. 1979; Schõnherr, 1985:133-45;
Bõhme, 1992; Krampen, 1993), uma ecopsicologia (Mogel, 1984)
ou uma psicologia do meio ambiente (Mehrabi?n, 1976), uma teoria
cognitiva ecológica (Gibson, 1979) e uma ecolingüística (ver p.
276). Embora o conceito ecossemiótica ainda não tenha sido
ouvido expressis verbis no concerto destas interdisciplinas, com
exceção de primeiras ressonâncias (Enninger e Wandt, 1984; Haila
1986; Koch, 1992; Krampen, 1993; Lang, 1993), existem diversas
linhas de pesquisa na semiótica que podem ser consideradas, no
sentido de Haeckel, como uma contribuição à investigação das
relações entre organismos e seus meio ambientes e, desta for-
ma, como ecológicas. O objetivo deste capítulo é a discussão
de algumas destas linhas e a tentativa de esboçar os primeiros
contornos de uma ecossemiótica.
Ecossemiótica é, de acordo com estas premissas, o
estudo das relações semióticas mútuas entre os organismos e
seu meiQ;~mbiente. Esta definição pressupõe primeiramente que,
não somente um homo semioticus, mas, de maneira mais geral,
um organismus semioticus, seja o centro das atenções de uma
semiótica com potencial de explicação na área da ecologia. Com
ECOSSÉMIÔTtOA 231

esta definição, nó entanto, cciloca'm-setamoém quéstõês éomd:


1) são as relações entre organismos e meio ambiente serrípféde,
natureza semiótica?; 2) será que elas têm sempre somente um
àspeéto sem'ióticô?; 3) ou sera que se devê distitigúir entre as
relações ambientais sêmiótiêase não..:semiôticás?; é 4) seráqlle;
nêstê'êas·ó, a semiótica pode,dêserevef'sórrfenté ás,relaçõés
mÜTu~'s. entre organismos, ÓU existêrrí ·também ãspédtos
sêmióticds nâsTntetaçõês ~füfé o meio áhioi~nte biótiM é10
abiotiéo?l)ê qualquêf'.mânâífâ,:à eodssêmiêtlea éllmá;sehiiótiôâ
qUe hâo sê limita sorrfente' ao estudo de sigÂos artificiais é
àrbitráriós, :más que1êstuda tamoém'e'prlncipalménté s1g'nõs
naturais rià felàçãó orgànisnío..:méiê arríoientê~ pôrtarífü, ürríâ
0

semiótiêá que parte de úm""limiàr semiótico~ inféfüir entre ô


serhiólicd e ô rião~semiótico:
Primeirdspassos p·arâ uma êcôssêmiótidâ de ifüófâo
éôm 1estas condições "delineiárrí.!sê hâs seguintes âfêâs1, ria
história da semiótica, nâ=semiótiea teórica, nabidssemiótiêà(ha
semiofiea êultufal evólutiva (éf Koch, 1986; 1992), füteSt'étioa
sêmi'ótiéa (cf. Stllrm, ed. 1'979; Krãmpen, 1979;' 199.3), na
semiótica da linguagem e na semiótica' aplicada.,Nem todas êstas
âreás'podêm ser·diséutidas'à sêgtiir.Principalmefite 0 câmp6da
semiótica' àplicada'oom sua teoria extremamente interessânte
dó lixo ede seu removimento não podêser aprofllhdãdo. G:Ylêifor
pode se referir ao capítulo "Ri.Jobisfrtnéory~errí Culler (1988);:ah
volume sobre serfüóticà dó lixo atômico dê P0snerz(199O), assim
como áohúrríero'têfhático "Rêfiglífihg Debris" do AmeriãaiJ Jourilal
ofSêmiotics (no prelo). Alguns aspeetosda rélaçãóhómem:.meio
ambiente são'farnbém discutidos nas publioágões âô centre de
pesquisa Man and Nafure dá tlniversidade de Ôêens'e.
232 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

Modelos históricos da relação homem-meio


ambiente

A idéia da onipresença do semiótica nas relações ho-


mem-meio ambiente até um pansemiotismo que procura expli-
car todos os fenômenos ambientais como tendo qualidade sígni-
ca é amplamente difundida na história da cultura e da religião.
Neste caso, podem-se distinguir três modelos principais de uma
relação homem-meio ambiente semioticamente interpretada: 1)
o modelo pansemiótico stricto sensu; 2) o modelo mágico; e 3) o
modelo mitológico (cf. Nõth, 1990:382, 188,374). O modelo in-
terpretativo pansemiótico do meio ambiente considera a totali-
dade da natureza como sígnica e vê nela uma mensagem a ser
decifrada pelo homem, cujo emissor é Deus ou uma outra força
sobrenatural. De acordo com o modelo mágico, os fenômenos
ambientais naturais também são uma mensagem, mas seu emissor
e manipulador, o mágico, é uma pessoa, enquanto o meio
ambiente natural físico ou biológico continua a ser seu receptor,
pelo menos considerando-se superficialmente. Finalmente,
modelos mitológicos da relação homem-meio ambiente são
transmitidos em forma de mensagens aos homens, as quais de-
terminam, na forma de textos narrativos, o lugar do homem em
relação a seu meio ambiente de forma deôntica como um dever
atuar, um ter de atuar e um poder atuar.
Na tradição judaico-cristã, encontramos o modelo am-
biental pansemiótico primeiramente no Velho Testamento. As-
sim, a natureza aparece nos salmos como uma mensagem de
Deus ou destinada a Ele, por exemplo: "Narram os céus a glória
de Deus" (SI. 19.2), ''Trovejou o senhor da majestade" (SI. 29.3)
ou "Montes e colinas todas, árvores frutíferas e todos os ce-
dros, feras e gados de toda espécie, répteis e aves aladas ...
louvam o Senhor" (S1.148.9-13).
Na teologia da Idade Média, a visão pansemiótica do meio
ambiente é integrada na doutrina do sensus espiritualis. De acordo
ECÓSSEMIÓTICA 233

'cóm 10más de Aquino (1224-1274)', este "sentido espiritual"


consiste no fato dé qúe'"coisas (res)significàm oútras,coisasr
(Summa Theol. 1, 9. f, art 1O). Os significados das cóisas nó h'ossb
mêioàmbientê natural érâril códifiéados em livfos'. A chave ültimà
para'à interpretação do meié}aníbiente, o livro dos:liVfosrera
éorrfplementada pof livros'rfiâis espeé:ialiiadàs: Assim',' pôr
exemplo; bestiários davam informação sobre os significàdós dos
âhimaisé lapidáriós informavam sóbre os significados dâsipêdras:
Enqúànfô, por ürií lado, livrôscedificâvam'ós significados dotriíêió
0

ambientá, poroutrtfâ e:iuàlidâdé 'sígniêa ââ préprià'naturefa era


descrita pela htêtãfórâ do meío,amlflénte éõmoüní' livro (êf.
Gurtius,' 1948!3~8-S;Bühler, '1981)'. dá qlfê/ então, ôméiõ
âriít!>iente;assimcbmo aBíbliá/lilihàde,Ser iMtérprétádó como
alg'6fülô, rilãô,é'âé admir:arqtlé,, pa*ra,a1 ihtêrprêtaçãodó ·meTo
amõieríte: era't1sàdo Ó mesmo éódigo:fl'êritlênêutiêó qué nà
exegese bíblica. Assim, o séntiôo espi'ritual dos feliôrfiéhbs
ambientais difêrenciavá-se~'dàhiesmàforma que õ:daíBfblia, em
am''sentidó ,ffopôlógiéê,'"um:sehtldo alégMco 1e·l:lm" sentido
an'àgégico'(cf. Nott{1990:335). tJm exemplo simples ~ara,este
fato sãe óssighificados espirituais e:ibê cabem, dêiacôrâô ôôm
este modelo, â lima ~rocha" (cf.; Dl.1hb'ar, 196'1: 19):'No,sêntiâó
'fropôlógico; ela significá ~aquiló que cada alma deve sér para o
,próximo"; no sentido àlegôrieo, élà se '.fefére a ''Cristo" e, no
àhagógico, ao "fundamento dó réino celeste".
AVisão·pansemióficadomeio ambiente alcariçôüum
apõgeuna doutrina,renasêentistâ dás assinaturas (cf. Bõhme,
1986; Nate; 1993), por exemplo, com 'Paracelsus (1493-1541 ).
Aqui enêontrã-se um sistemàelaboraâo de códigos pará dde-
oiffâmento de :signos: tíâturais, ·no' qual 'ríãó somente !Deus' é
âtri0uía0'c0moeníissor, mas também três dutros ãssinad0r.és
Wgnatores) (ct Paraoélsus, 1591 :101), a saber,, 0 hômem, um
princípio intríhsêcó de desenvolvimehto, chamâdo~aráhêlis, e
as estréias ou planetas (ástrá). Os signos r:1aturâis, as chama-
das assinaturas, 'ql'.le osassiríàdores deixam r:10. meio ambiêrite
234 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

do homem na forma de vestígios indexicais, encontram-se no


rosto humano (codificados pela fisionomia}, nas linhas tanto
do corpo humano como também das plantas e minerais (quiro-
mancia), assim como na terra, no fogo, na água e nas estrelas
(geomancia, piromancia, hidromancia e astrologia). Os signos
do meio ambiente assim assinado encontram-se, além disso,
de acordo com a doutrina das assinaturas, em uma relação
sígnica essencialmente icônica entre si, pois, entre os fe-
nômenos do mundo, há ainda também semelhanças, analogias,
afinidades e correspondências ocultas (sobre este tema ver
especialmente Foucault, 1966:40-5). Também estas corres-
pondências eram interpretadas como assinaturas. Assim, por
exemplo, a forma de uma semente de acónito, uma pequena
esfera escura numa casca branca, valia como signo para o efei-
to curativo que a planta possui para o olho humano com forma
semelhante à dele (cf. idem:58).
Têm estes modelos semióticos da relação homem-meio
ambiente da Idade Média e da Renascença um interesse maior
do que só para a história da semiótica? Certamente, eles não
eram modelos de pensamento ecológico no sentido atual, mas
eles têm um ponto em comum com a atual filosofia da ecologia;
eles se baseiam em uma visão holística do mundo, que acentua
a unidade entre homem e meio ambiente. Em oposição a isto,
encontra-se a visão de mundo dualista, que se delineia com o
Racionalismo desde Descartes. Esta é uma visão de mundo que
leva a uma separação entre mente e natureza, que considera a
mente superior à natureza e, finalmente, reconhece somente o
homem como medida de todas as coisas, ao qual o meio ambiente
deve servir. Esta visão antropocêntrica da relação homem-meio
ambiente também pode, contudo, se reportar a uma autoridade
judaico-cristã, pois o mandamento do Velho Testamento "Prolificai
e multiplicai-vos, e povoai a terra; submetei-a e dominai sobre
os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais
que se movem sobre a terra" (Gên. 1.28) fornece, se entendido
EQÔSSEMl()TICA 235

êrróneam'ente, o modelo níitólógido âe i.n'n:pensamento ambiental


ãntiéêólogico {df. fah16émjBbüissac, 1989:509~tà):

Semiótica teóricá da relaçãó signo~ínefo, aml:>iente

Nem toda sémióticápbde"fêcõillíéêêt Fiâ haturezã da Fé-


lação orgànismo-meio arríoiehte ãspect0s sêtiiiôtrc0s: Sem riê;.
rifíumá pérspeêtiva'ecossêmióticã"é, por, exemplo, :a, ahtropós::.
sêmi'õtiêâ de F. de Sàussu'rê (1857;.1913}; s8gundo:áqUàl /no
meió ambiente cognitivo âõ:Y1e1mEfmd'riâda é distintõ anteS'dô
aparecimento da língua~ émésmã bpérisáméAtó nUmari0 sém á
estrutura dalinguàgerri é;"êaóticó"<é, quandô'muitóíseássemel~a
à'"úrha' nebülosaóndé naâá estãnêcessáriamérileâêlimitâélõ"
1

{Satíssure, 1916:130). Umfal prôg'rama semiótica linguoêêntrico


tem necessa'riàmente tle õfüsdâra visã'õ s0br'e determihântês
ecológicas do~ prôcéssós síg~icós como elas detérminavam';,ao
lóng6daéváluçãõ'biológica, à relàçãó'homem-:meiõ ãmtiiefité
{cf~ Nõth/eâ. rn9.ll-).
Uma sêhiióticàtéór1éádóm"ãmplas impliêaçôeifecól~g1~
êâs é, por outfo lado, ade CharlesS. F>éimé'(1'839~491:4)/Suã
'interpretã'çãó da teláção h0mem-meio·àmbiénte páreêefre~Üer:i;.
temente ser pansemióticâ; por exérríplo,·quando diz:;"'Vmdôõ
universo é pênetraâtJipór signos, se,não se" êbmpõe /atê,som~nte
de,signos" (C.P: S.448, PN.):'Na área âààreláções 'eAttê t>s objetos
~ organismos no meio ámtiiente· humano, Peirêe distingue, no
entanto, aqUélas de nãti.Jrêzâ metameilte1diádica e 0utrásde
nàtürezá ttiiádica,e·somente '85' relações triãdicàs podem ser de
tipo sêtnióticó. Melaçãô de um indivíduo com 0s·objetos délséu
meio amfüente é~simple·smente de forma dic1t@a\ pót.exefüplo,
quánâô ele os e~cõnfra domo Uma realidade imutávêh eruzã-se
com eTes 'pôr àdaso ou até quando os ceilheõe' na forma·de
imposição óu ''viblênoià orua'lt Tais,réla~õés' diââieas Peirce,( o.P.
1;.358)'carãoteriià cómo "duras e conêtetas'l e dizqtíé "elas hôs
236 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

são impostas diariamente" e "representam a principal lição da


vida". A relação organismo-meio ambiente se torna semiótica
somente quando relações diádicas se transformam em triádicas.
Na interação semiótica, o indivíduo não mais experi-
menta os objetos de seu meio ambiente na sua imediaticidade,
mas os interpreta em relação a algo terceiro, um "significado"
que remete a algo além do ambiente imediato, um fim, um obje-
tivo, uma regularidade (cf. também Nõth, ed. 1994:3-4). Tais
relações triádicas de semiose caracterizam processos cogniti-
vos (cf. Nõth, 1994b), todos os atos teleológicos e, em geral,
toda a atividade de uma mente (mind). Semiose, neste sentido,
não é de forma alguma limitada a processos em organismos
superiores. Todo organismo biológico simples já interpreta seu
meio ambiente de forma semiótica quando escolhe objetos ener-
géticos ou materiais de seu meio ambiente como apropriados
ao objetivo da própria sobrevivência ou quando os evita por
serem impróprios a tal objetivo. Tais interações triádicas entre
organismos e meio ambiente representam o limiar entre a
natureza não-semiótica e a semiótica. Peirce postula já nesse
limiar semiótica a presença da mente (mind) na natureza dos
organismos quando escreve: "The microscopist looks to see
whether the motions of a little creature show any purpose. lf
so, there is mind there" (C.P. 1.269).
Antes que estas idéias ecossemióticas fundamentais de
Peirce pudessem ser aprofundadas teórica e empiricamente prin-
cipalmente na biossemiótica (ver abaixo), surgem, na história da
semiótica, novas tentativas de ampliação da semiótica ao meio
ambiente dos utilizadores de signos na obra de Charles Morris
(1901-1979). A teoria do signo de Morris amplia o horizonte da
análise semiótica do homem a processos de produção e
reprodução sígnica em "organismos vivos" de forma mais geral,
e acentua, além disso, a necessidade de examinar também, além
da sintaxe e semântica do signo, na pragmática, "origem, uso e
efeito" dos signos no meio ambiente semiótica (cf. Morris,
ÉCOS~l::MIÓTJCA 23?

·1971 :366-7, 302); Sôltpérspeétivas écossemiéticas; édiscutível


'se 1a âmpliaçfüf semiótica âe Mortis foi capa~ de superar
perspéctivasántrdpó é logicocêntríca·sríáteoriá dó:signo (etW.
A. Koch, 1986:40-1; 1,992:177-8). Em vista âá oonsiâê.rávél
·féstrrçãõ âa prágmátiéa semiótica ao éxamtfâas relações entre
pfódtitOres é··réce~forés sígniêos, Kbên·:(Jbid;) exige tirria
'ampliação das dimêns0ês dá pes~üisa ~'érfüófica: sintaxe,
semâríticai e pragmática ,por :un,ã quarta nova· dirriérisãd dá
sêfnióticâ à sedurídada~sób á dtmômiriaçãõ'âe ecoêtiêa, qüe
·esfüdaria·as cóndições:ecológic~ Haigêflêse0atuaí, ontogenetica
efilogenética do uso do signona nãturêtáe ná cultura:

B·ióssemiótica dá relãção· otgan'ism'o-tneio


á.ml>iénte

A natureza sêmiótióa ·da,têlaçãõ orgariismô':LméTo


ambiéfifeia pàrtit dàpéi:speetivffââ õi0logiâtetfü;ica~t0H:fstuâada
primeiramente e de tormà'mais tuhdàmentada por Jak:00,Noh
Uexküll (1864-1944) em sua doutrinado rriéiô arriõiêfüe (Umwelt)
't:tda signifiéáção (cf. UéxR'üll,' 1928;.1940).
Mêio=ambienteê\·segurido tJexkull,f1'940:1S8,iB34),·o
munclô percebido peloôrgahismo em seu.tni.Jnâé iríterióffürâvés
de seus, órgãos perceptivos e inflúericiado opêraékmâlmér:ite por
seus ótgãôs efetuantes. De' âcórdo oom isso, meio. ãnifülér:ité 'se
cómpõe·do mundb pérceptivo·e dMnLiríâoefetuanté de tim ar-
, ganismo. Devido às âiferériças espMíficas de espéeie· eÍ'lfre os
0rgáhismos1 suas diferentes r'lécéssidades e perspeoti\lãs ,indi-
viduais de mundo, existem tantos meiô ambie·ntés oomó,0r:ga-
nismos, pois o'iildivíduô oüa dada espécie sópode perôéb~r.
denfre· as éstrúfuràs dó' "mundo objetivo", aquilo,q'ué podé ser
percebido em função da estrúturâ biológica dos receptàres e·da
posição do organismo que percebe. Uexküll (1980?33§) antécipa,
neste sentidoi uma posição âo,éónstrutivismo radical (cf. Nõth,
238 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

1990:179), quando ele escreve: "Qualquer que seja o sujeito que


queiramos escolher no sistema dos animais, sempre encontramos
em torno deste um outro meio ambiente construído que, em todos
os pontos, porta traços do sujeito em si".
A natureza semiótica da relação organismo-meio ambien-
te se torna clara principalmente no modelo do círculo funcional
de Uexküll (1928:8). De acordo com este, o sujeito equipado com
órgãos perceptivos e atuantes é um "receptor de significação"
em relação a um meio ambiente cujos objetos são definidos como
"portadores de significação". Os significados e signos do meio
ambiente não são, neste caso, transmitidos unidirecionalmente
(ou até causalmente) de fora para dentro, mas, entre o meio
ambiente e o mundo interior, existe uma relação de complemen-
taridade: o portador de significação funciona como contra-
estrutura ("estrutura de encaixe") do receptor de significação (cf.
Uexküll, 1928:8). Meio ambiente e mundo interior formam um
círculo hermenêutico ecológico, pois o mundo interior já contém
- como diríamos hoje - um modelo cognitivo do meio ambiente
subjetivo e é, não somente "percebido" pelo indivíduo, mas
também "construído" por ele.
A teoria do meio ambiente de Uexküll conta, neste meio
tempo, pela mediação de Sebeok (1979), Th. von Uexküll (p. ex.,
1981) e o estudo programático de Anderson et ai. (1984) como
um dos "clássicos" da semiótica e não precisa, por isso, ser
discutida mais pormenorizadamente. Mesmo o conceito "meio
ambiente" (Umwel~ na definição de Uexküll entrou, neste meio
tempo, para a terminologia de língua inglesa como a palavra de
empréstimo Umwelt. A área geral fortemente expandida da
biossemiótica (cf. Schult, 1989; Sebeok & Umiker-Sebeok, eds.
1992), incluindo a zoossemiótica (cf. Nõth, 1990:147-67 assim
como ZfS 15 [1993]) ou até a fitossemiótica (Krampen, 1992)
estuda, neste ínterim, aspectos semióticos da relação organismo-
meio ambiente nos campos micro e macrobiótico. Neste caso, a
biossemiótica chega ao reconhecimento de que a díade mundo
E00SSEMIÓTl8A 239

interior e mei.o aml:>ieote não pode somenté)se referir,ao interior


local em oposiçãô:ao exterior dos. organismos, rm:is que, .além QQ
meiôambierate exterior, há\ameém um·meio .ambiente interior a
ser estudado semioticamente (ver p. 263). Na.,endossemiótica
ftindada porSebeok (cf., p.,ex,, 1991), apesqyisa desta,semióttca
do meio ambiente interno começa no,nível molecular corn a. ctes.,.
crição.das relações do reconhecjmento eda complementaridasle
éstrütural entre os,genes e:aq,ueles gerre.s ,e antígerios,qt.te,os
ro.deiam •. Aqui se·1:mcontra.a raiZ'serniótiba da.Quilo qye,:ern,níveis
superiores da evolução biológiça;.constitui tanto,a oposiçã,o cornP
a complementaridacte entre o.interno e o exter;no;,o próprio e o
outro (cUamb~m Capítulo·9):

J4tngt1agem: e· meip ambiente

Quando nós, a segllir; ,passJ1tmQs da ,bJQ.ssemiótiQs ~


lingüística, teremos de deixar, no nosso panôramad~,~JO~r
semiótica, amplas áreas da semióticaida·m1ltura fora da
,discyssãp, No entanto, o tema.linguagem,~rmei.ttambietite:.ri:~o
tem relevâ.nciaespecial:somEmte na, atual,ctiscµs,&ãosqbr;e a:~rise
ecológica. (31eJa.mbém. se estabel.eceu, nos últimos,tempofü so.b
ai designação ecoli,ngüística, como um,.r:amo. e.xpan<'M,0{,çia
lingütstiea aplicada. Certamente, Jdéias m.ujto tjiferente~gp qt:1e
deve s.er conskl.erad.o corno omeio ambi,ente da liJ19Y?l9ém se
escondem sob esta çiesignação. lzlas incluem 0meio amt>iente
cç,mg uma mera.rnet~fwçi para,.Qualquer situaçªo ling~(stica, a
nossa fala e vocabulário sobJe ·O m1;tnclo ~lJ tambijm o:rneio
ambignte .como deter;minante, t,iqlógi,ca dasubstâi;tGia 01 da forma
. d~ articulaçª91ingO(stic;ai (!) qµe há em comum e11tre estas
difere11.te$ idéiBs de l!ma liogüjstica eçológica ,é a tentativa dª,
pela abrangênc;ia deyá~io$ fatores, no camRQ dq Ul?01qa linguagem,
.uJ.trapassar as limitações qe uma lingüística muito limitcu!a, ao
sistema, Numa aborqagempluralista, principalmente Fill (19l37;
240 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

1993) e Trampe (1990) tentam fundamentar uma ecolingüística


ampla dentro desta moldura estendida da análise lingüística.
Haugen (1972:325), um dos primeiros "ecolingüistas", en-
tende como o meio ambiente da linguagem nada mais do que as
línguas de outros falantes: "The true environment of a language
is the society that uses it as one of its codes". Ecolingüística é,
de acordo com isto, uma variante da sociolingüística que se
ocupa dos contatos e conflitos lingüísticos. Enniger e Wand (1984)
gostariam de ampliar esta abordagem primária intra e interlingüís-
tica a uma ecologia do signo mais geral pela inclusão de fenômenos
não-verbais no horizonte de análise dos lingüistas. A direção desta
ampliação leva da sociolingüística pela paralingüística à comu-
nicação não-verbal complementadora e acompanhadora da fala
(cf. Nõth, 1990:387-420), mas, ao final, esta abordagem ecológica
do signo permanece linguocêntrica. Ela converge com uma teoria
da comunicação que se denomina "ecológica" (Barnlund, 1981) e
estuda a moldura comunicativa mais ampla da interação lin-
güística.
Um mero postulado é ainda a ecolingüística de Hagêge
(1985:328). Numa formulação que lembra as palavras proféticas
de Saussure sobre a futura semiologia, ele escreve: "Uma futura
ecolingüístiéa deveria examinar como os pontos de referência
'naturais', integrados em cada cultura, são integrados na
linguagem: pontos cardeais, particularidades geográficas, mo-
radias humanas, elementos do cosmo". Ecolingüística seria, de
acordo com essa idéia, a lingüística e semiótica do espaço em
sua relatividade ou universalidade antropológica já existentes sob
outras designações (p. ex., dêixis).
Ballmer (1982:12) também postula uma "lingüística
ecológica" no contexto da biolingüística. Aqui os fatores
anatômicos, fisiológicos e evolucionários, como eles deixaram
seus vestígios no sistema lingüístico e no processo da fala,
encontram atenção como meio ambiente da linguagem. A nova
teoria lingüística natural (natural linguistics) (cf. Dressler et ai.,
f;ÇQ$J~EMIÓTIÇJ\ 241

eds. 1987), êomo um ramo da écolingüística,· deveria ser consi-


derada comb cóntiríUação dessa tradi~ãi Temas <::entrais de uma
lingüístic::à:ecologloâ, tibmo natureza:if linguagem, linguagem e
meio amoiehtê oüVisão:lifigüíStica:de mundo, incluetnf t:ió entanto,
questõesqüenãopreêlsâmserdéscobertaspela ecolingüística,
mas que já fazerffparte,de uma longa tradição da filosofia da
linguagem (of.,p: ex., Coseriu; 1982}.
Aquela'Vátiante:da ecolingüístiôâ que se endontra em
ligação mãisimeâiataoom a discussãoecológioaatual:é a crítica
ecológicâ',âã"líRgua: Ela censura, pfü um ládo, o abuso manipulador
da linguagem cerno "poluição lihg'üíStica,~ (assim Bolinger,
1980:182}e; por outro ladé>'(éxâminà·ôfiticamenté eufemismos,
taous lihg'üístiGôs e outras figütas estilísticás:qúe' contribuem
para o(pseudo) domínio ou até o agravamento lingüístico da crise
do meio ambiente (p. ex., Fill, 1987; 1993; Trampa, 1990; Bock
e Zafirov, 1992). A crise ecológica se manifesta, assim, por um
lado, metaforicamente dentro:.da linguagem (Bolinger); por outro
lado, ela é um ponto de referência de uma linguagem que com
freqüência é instrumentalizada de forma prejudicial ao hl.éib
ambiente (Fill, Trampa). A ecolingüística que se move neste
quadro concentra sua crítica lingüística freqüentemente em
aspectos da semântica da palavra, p. ex., na crítica de palavras
"antiecológicas" como crescimento industrial ou automóvel
ambiental. No entanto, tem também de se esforçar por uma ética
do discurso mais geral que ultrapassa a "ética da terminologia" já
conjurada por Peirce. Do ponto de vista semiótica, Pape (1983:9)
fundamenta isso como se segue:

Por este motivo, se pode levar a pensar que os


éoocei,tç,~ /;J~adoppJJ {JfJnª9mqnto sokt:ff proP/e;.
m[As eçq(ógícos são çun/;lqdps por influências
problemátiças e obspuras do.:meio a1J1biente
ídeo/ógíeo.Atese da naturezaJundameTJtalmente
antropoinorfa dos nossos sistemas sígníaos e a
242 A SEMIÓTICA NO SÉCULO XX

responsabilidade disso resultante para nossa


produção de signos tematiza, em contrapartida,
a situação de uma ecologia mental. Pois nossa
responsabilidade para com o mundo se estende;
então, não somente aos atos físicos efetivos,
.mas também à nossa atuação com signos e, prin-
cipalmente, com linguagem. Quem poderia negar
hoje que nosso meio ambiente semiótico está
poluído tanto conceituai e ideologicamente como
visual e acusticamente e que as fronteiras entre
a carga e a sobrecarga com exigências interpre-
tativas e conteúdos informativos se aproximam
de maneira cada vez mais densa e freqüente?4 9

49. O autor agradece a Ana Cecilia Koblitz Hübscher que


traduziu este capítulo de um manuscrito alemão e
tâmbém participou da preparação dos outros capítulos
deste livro. Luiz Carlos lasbek e Guido lpsen merecem
também um agradecimento pela ajuda técnica.
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