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TOMANDO

DECISÕES SEGUNDO A VONTADE DE DEUS


por Heber Carlos de Campos Júnior

Copyright © 2013 Heber Carlos de Campos Júnior


Publicado em português por Editora Fiel
Copyright © 2013 Editora Fiel
Primeira Edição em Português: 2013

A versão bíblica utilizada nesta obra é a Almeida Revista e Atualizada (ARA - SBB)

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária
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BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.


Presidente: James Richard Denham III
Editor: Tiago J. Santos Filho
Revisão: Elaine Regina O. Santos
Diagramação: Layout Produção Gráfica
Capa: Rubner Durais
Ebook: Yuri Freire

ISBN: 978-85-8132-267-4

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Campos Júnior, Heber Carlos de

Tomando decisões segundo a vontade de Deus / Heber Carlos de


Campos Jr. -- São José dos Campos, SP : Editora Fiel, 2015.
2Mb ; ePUB

Bibliografia.
ISBN 978-85-8132-267-4

1. Deus - Existência 2. Deus - Vontade 3. Vida cristã


I. Título.

13-10002 CDD-231.4

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CEP 12230-971
São José dos Campos-SP
PABX.: (12) 3919-9999
www.editorafiel.com.br
Índice

Prefácio
A Confusão Evangélica

PARTE I - DISSIPANDO A NEBLINA


Quantas vontades existem?
Qual é a vontade do Senhor?
Aplicando as distinções teológicas

PARTE II - TRILHANDO O CAMINHO DA SABEDORIA


Orientação em áreas cinzas
Perigos ao discenir a vontade de Deus
Buscando a direção do Senhor
Aplicando a grandes áreas de decisões
Apêndice - Escolhas de fé: A Vida de Moisés
Prefácio

A minha decisão em apresentar esse livro para publicação está intimamente


ligada aos ensinamentos que irei apresentar em seu corpo. Quando eu fiz
estudos sobre esse tema pela primeira vez (no acampamento de jovens da 6ª
Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, no início de 2009), o meu querido
amigo, o pastor Charles Melo de Oliveira, me perguntou se eu pensava em
publicar meu material. Eu disse que não, mesmo ele tentando me demover
dessa decisão. Eu julgava que era um assunto já tão explorado em livros que não
haveria a necessidade de publicar outro. Eu achava que tal assunto estava bem
claro para a maioria dos pastores. Talvez os jovens é que precisassem entender
como isso se aplicava à vida deles. Por isso passei os últimos 4 anos falando
algumas vezes sobre esse assunto, principalmente para jovens, sempre
mantendo em mente que esse não era material para publicação. Por que, então,
decidi por algo diferente agora? Alguém poderia dizer: ‘porque você entendeu
que era vontade de Deus’. Bem, sim e não. Deixe-me explicar.
Deus me despertou para estudar e compilar esse assunto em forma de
estudos quando ouvi as palestras de Kevin DeYoung nos Estados Unidos, que
deram origem ao seu livro Faça Alguma Coisa (Editora Mundo Cristão, 2012).
Muito do que DeYoung falou ecoou com o que eu já aprendera anteriormente,
principalmente estudando teologia sistemática com o meu pai. Porém, DeYoung
trouxe em novos tons aplicações que julguei seriam muito úteis na vida dos
jovens. Isto é, ele fez a boa e antiga teologia ganhar nova cor para mim.
A cada oportunidade em que eu falava sobre esse assunto, percebia quão útil
ele era para as pessoas. Muitos se aproximaram com o desejo de serem
aconselhados nesse assunto da vontade de Deus. Passei a ouvir as conversas de
membros de igreja (e até de pastores) sobre esse tema com outra sensibilidade,
e percebi como a expressão “vontade de Deus” era usada de forma descuidada. E
até aqueles que já tinham bom fundamento teológico sobre esse assunto se
alegraram com a exposição que eu fazia e confirmavam quão comum é a
confusão sobre esse conceito.
Foram esses fatores que me levaram a concluir que seria agradável a Deus, se
eu publicasse esse pequeno livro. Não que seja errado ou contra a vontade de
Deus não publicá-lo (o livro vai explicar melhor o que quero dizer). Porém, eu
percebi como seria útil para o povo de Deus, e eu sei que é vontade do Senhor
que eu sirva aos meus irmãos com os dons que eu recebi. É edificante olhar para
as verdades eternas com uma nova perspectiva e ser encantado por elas
novamente. Por isso resolvi apresentá-lo para publicação.
A minha oração é que esse livro chegue nas mãos de quem não ouviu meus
estudos sobre o assunto e esclareça algo ainda muito confuso no meio
evangélico brasileiro. Que o nosso Deus se agrade com a forma como esse
trabalho visa glorificá-lo como nosso Guia e Protetor, ao servir meus irmãos no
entendimento desse mesmo Guia e Protetor. Que Deus seja engrandecido à
medida em que o entendemos melhor. Que você seja fortalecido em saber que
Deus não lhe deixa sem direção para tomar suas decisões.

Heber Carlos de Campos Júnior


I
A Confusão Evangélica

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou
para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que
justificou, a esses também glorificou.”
Romanos 8.28-30

Desejo de saber a vontade de Deus para as suas vidas

Crescemos numa cultura evangélica ouvindo o seguinte chavão: “Deus tem


um plano maravilhoso para a sua vida”. Essa é a nossa fórmula de conforto para
quem acabou de experimentar alguma decepção na vida. A princípio, essa frase
visa afirmar o cuidado de Deus para com os seus filhos. Acreditamos que Deus
tem todos os nossos dias traçados (Sl 139.16) e que ele tem coisas boas
reservadas para nós em cada área de nossa vida. No entanto, o efeito colateral
do chavão é incitar o cristão a discernir qual é esse plano específico para a sua
vida. ‘Como assim?’ você pergunta.
Quando alguém sofre uma grande decepção – um divórcio, um término de
um namoro, um filho se rebelando e lhe envergonhando, a humilhação do
desemprego, a traição de um amigo –, não é fácil enxergar o bom plano de Deus.
A pessoa está muito machucada, fragilizada, e suplica por provas da bondade de
Deus. ‘Se Deus tem um plano maravilhoso para mim,’ ela pensa, ‘eu não estou
entendendo nada.’ Ela quer ver a bondade de Deus novamente, provar do
cuidado de Deus para com ela. Ela quer acreditar na bondade de Deus, mas
prefere ver para crer. A consequência de quem quer ver para crer é buscar
conhecer o que outrora estava velado (o tal plano). Como a Bíblia não detalha
aspectos individuais da vida de cada cristão, ele se vê impelido a buscar essa
vontade de Deus por outros meios. O pressuposto dessa opinião não é somente
o de que Deus tem um plano individual para cada um, mas de que é possível
conhecer esse plano, descobrir esse mapa espiritual de nossas decisões.
De fato, Deus tem um plano maravilhoso para os seus filhos (Rm 8.28). Ele
quer nos fazer segundo a imagem do seu Filho (v. 29) e, para isso, ele conduzirá
o processo do início ao fim (v. 30). Há duas características confortadoras nesse
plano revelado: ele é redentivo e é seguro. Redentivo porque Deus nos faz
enxergar o livramento de todos os sofrimentos desse mundo (v. 18-25) e de
nossas fraquezas presentes (v. 26), e também de nos proteger de perigos
passados e presentes (v. 31-34), além de futuros (v. 35-39). Todavia, esse plano
maravilhoso não tem satisfeito muitos evangélicos. Infelizmente, crentes têm
perdido o encanto por esse plano (revelado) e buscado o outro lado do plano
(escondido).
Cristãos nem sempre se sentem experimentando a maravilha desse plano. O
que há de errado? Será que não temos aproveitado o melhor de Deus para as
nossas vidas? Será que seria diferente se eu soubesse esse plano? Alguns
evangélicos têm a impressão de que Deus tem um plano melhor para eles; o
problema é que eles não estão descobrindo como desvendar tal plano, não
encontraram a chave espiritual para destravar tais bênçãos. Essa é a razão de
estarem tão frustrados na vida. Não culpam Deus por não abençoá-los, mas
culpam a si mesmos por não acharem o caminho, o plano “A” para as suas vidas.
A ausência de satisfação na vida tem despertado o interesse de cristãos em
saber qual o plano individual de Deus para as suas vidas. Em cada decisão
importante, almejam saber o que Deus “quer” para suas vidas. Anseiam por
“descobrir” a vontade de Deus. Alguns se desesperam por não estarem certos da
mesma. Temem não experimentarem a alegria de “estar no centro da vontade
de Deus”. Eis a razão de muitos evangélicos procurarem cursos especiais e
seguirem líderes que, de forma quase gnóstica, propõem lhes conceder fórmulas
especiais para conhecerem a vontade divina.
Há algo muito nobre nesse desejo que não pode ser negligenciado. A
preocupação em conhecer a vontade de Deus pode, na maioria das vezes, ser
genuína e não só interesseira. Isto é, própria de quem ama ao Senhor, quem
quer agradar o Senhor. Sendo assim, esse tema só faz sentido para o crente. Há
um aspecto em que é santo desejar conhecer a vontade de Deus. Tal desejo pode
despertar mais oração e leitura bíblica e, por isso, muitos o consideram piedoso.
Por outro lado, desenvolve uma espiritualidade perigosa que sempre espera
“receber a confirmação do Senhor”. Isso soa piedoso, mas promove a ansiedade
(quando eu não recebo a confirmação) e o subjetivismo (quando Deus parece
sempre falar comigo).
A verdade é que há muitas confusões quanto ao que de fato pode ser
chamado de vontade de Deus. Há algumas perguntas que teriam respostas
comuns entre crentes, mas que não ajudam na busca pela vontade de Deus para
suas vidas. Por exemplo, você sempre cumpre a vontade de Deus? A maioria dos
crentes diria ‘eu tento, mas nem sempre consigo’. Você sabe a vontade de Deus
para a sua vida? Sempre? Ouviríamos outra negativa. Em que área você acha
que os crentes têm mais dificuldade em saber a vontade de Deus? Pense na vida
familiar: Devo ou não namorar aquela pessoa? Devo ou não casar? Devemos
pensar em ter mais um filho? Será que é hora de comprar um imóvel? Mude o
foco para a vida profissional: Por qual curso de faculdade eu devo optar? Qual
dos empregos eu devo escolher? Será que atualmente estou no ramo certo de
trabalho? Tento ou não uma pós-graduação? Por último, pense na vida
eclesiástica: Devo entrar para esta igreja, ou para aquela? Em qual ministério da
igreja Deus espera que eu me envolva? Deus quer que eu seja um missionário?
Essas são perguntas que ilustram quão difícil é, para alguns evangélicos,
saber a vontade de Deus para as suas vidas. Querem direção da parte de Deus
para as questões práticas da vida, mas parecem não encontrá-la. Embutido
nesse desejo está o anseio por receber confirmação do Senhor para a maioria de
suas decisões. “Receber a confirmação do Senhor” soa piedoso. Se, por um lado,
é lamentável que muitos crentes tomem grandes decisões em suas vidas sem
consultar ao Senhor em oração, por outro lado é triste que outros crentes vivam
aflitos enquanto não recebem alguma “confirmação” especial do Senhor.
A confusão de teólogos

A confusão no cenário evangélico se dá, principalmente, pelo ensino


equivocado de muitos mestres que se aventuram a falar de coisas mais baseados
em experiência do que em exegese sadia. Há muitos livros que disseminam essa
visão popular da vontade escondida de Deus a ser buscada pelo crente.
O teólogo carismático J. Rodman Williams, em sua teologia sistemática,
ilustra essa perspectiva. Ele confunde os diferentes usos da expressão “vontade
de Deus” nas Escrituras. Ao afirmar que vida cristã é fazer a vontade de Deus,
ele cita vários textos que falam da obediência à sua vontade (Mt 6.10; Ef 6.6;
Hb 13.20-21; 1 Jo 2.17), depois apresenta textos que dizem que tudo que
acontece no mundo é pela vontade de Deus (Ap 4.11; Gl 1.4; Ef 1.5, 11; Hb
10.10), para concluir sem qualquer distinção: “Fazer a vontade de Deus,
portanto, é estar em acordo com a vontade de Deus.”1 Ele está tomando os
textos que falam de obedecer a mandamentos e aplicando a descobrir os planos
de Deus. São duas ideias distintas que não devem ser confundidas.
Conforme Williams, descobrir a ‘vontade de Deus’ não é uma tarefa fácil nem
mesmo para cristãos sérios. Até o próprio Jesus tinha de buscar a vontade de
Deus. Ele escreve: “Não há simplesmente qualquer garantia de que por
estarmos crescendo em santidade ou porque somos carismaticamente dotados,
que estamos vivendo conforme a vontade de Deus. Na verdade, se a vontade do
Pai não era sempre fácil para Jesus – o Santo e Carismático – quanto mais para
nós!”2
Por não ser tarefa fácil, perguntar qual é a vontade de Deus para a minha
vida deve ser uma constante, em qualquer situação, independente da
importância. Em casa, na escola, no trabalho, devo perguntar em todo
momento: ‘Senhor, é isso o que tu queres para mim?’3
De forma um pouco mais cautelosa que Rodman Williams, os autores do
livro popular Experiências com Deus4 expressam a confiança de que ainda hoje
Deus fala com o seu povo “pelo Espírito Santo, através da Bíblia, da oração, das
circunstâncias e da igreja” para revelar os seus propósitos.5 Se você quer estar
unido a Deus, você “precisa saber o que Deus está para fazer”.6 Para tais
autores, a vontade de Deus é como um mistério que precisa ser desvendado.
Eles creem que Deus dá “direções específicas”, mas não fica claro como
podemos distinguir a voz de Deus de outras ‘vozes’. Em outras palavras, eles
entendem que não é correto tentar “avaliar as direções usando sua mente dada
por Deus”, pois Deus diz palavras claras sobre o que fazer em cada situação.
Conforme esta avaliação, uma mente transformada pela Palavra de Deus não é
suficiente para distinguirmos o caminho. É preciso ouvir a voz de Deus. Porém,
se alguém perguntar ‘como saber se algo é de Deus ou de Satanás?’, eles se
contradizem ao sugerirem um exercício da mente: “Sugiro que conheça os
caminhos de Deus tão profundamente que, se algo não se comparar aos
caminhos de Deus, você abandona aquilo.”7
William W. Orr também afirma que Deus tem um plano mestre, mas nós
temos de entender onde nos encaixamos nele, individualmente. Por isso, é vital
conhecer “o propósito específico de Deus para mim”,8 assim como gigantes do
passado que primeiramente descobriram e, depois, cumpriram a vontade de
Deus. Ter um plano é um privilégio apenas dos seus filhos.9 Porém, alguns não
experimentam sua primeira vontade (a diretiva) e acabam por experimentar a
sua segunda vontade (a permissiva) a qual não traz felicidade.10 Veja como esse
autor cria confusão na mente de crentes que não descobrem a primeira vontade
e acabam por experimentar apenas a segunda.
Orr acredita que a Bíblia tem certas regras gerais para certas áreas da vida
cristã, mas sua ênfase é maior quanto às áreas em que a Bíblia não é clara. Ele
diz que Deus quer revelar essa vontade secreta, mas nós temos que querê-la
muito. “Deus simplesmente não revelará a Sua vontade até que o seu coração
esteja pronto a recebê-lo em anseio de 24 quilates... Escrutine o relacionamento
de sua vida com a vontade escondida de Deus.”11
Todos esses autores estão tornando a vontade divina muito difícil de ser
compreendida, quando deveria ser fácil sabermos os desejos do nosso Pai. Filho
que tem bom relacionamento com seu pai terreno sabe o que o pai gosta de
fazer, quais suas preferências, o que lhe deixa satisfeito. Muito mais com o
nosso Deus. Se nosso relacionamento com o Pai é saudável, isto é, se nós
conhecemos o nosso Deus conforme ele mesmo se revela, devemos saber o que
lhe agrada. E o que lhe agrada está registrado em sua santa Palavra.
Por outro lado, há autores que apresentam a direção sobrenatural de Deus
como sendo tão comum e facilmente perceptível que um cristão que não sente
tal direção é capaz de se achar descrente. Wesley L. Duewel expõe o que muitos
entendem por direção: ser subjetivamente guiado pelo Espírito Santo em todas
as circunstâncias da vida. Esse é o meu resumo do que Duewel entende por ‘ser
guiado diariamente’, embora ele mesmo nunca defina o que seja isso. Por um
lado, ele discorda de teólogos que afirmam que em muitas situações “podemos
agradar a Deus, não importa qual seja a nossa decisão”; por outro lado, ele
reprime o extremo de quem espera “orientação especial em tudo” como se cada
impressão ou pensamento que vem à mente fosse a voz de Deus. Então, o que
seria orientação para Duewel? Ele nos dá uma dica quando encoraja: “viva na
expectativa de que Deus pode, a qualquer tempo, ter para você algum toque
novo e especial ou uma sugestão amável.”12 Frequentemente, em seu livro,
Duewel fala de como, logo após um período de oração, alguém foi colocado no
caminho dele para que ele pudesse testemunhar.13 Ao falar das impressões, ele
cita com aprovação as palavras de E. Stanley Jones de que a voz interior (o
Espírito Santo) nunca havia falhado, embora Satanás também coloque
impressões íntimas em nossa mente.14
Duewel ensina como distinguir a voz do Senhor e os seus sentimentos e
impressões de forma que você “sente o Seu susurro mais leve, o relancear dos
Seus olhos, o toque de Sua mão” de forma natural e regular.15 De acordo com o
autor, Deus fala a qualquer tempo: “durante o seu período silencioso, enquanto
está ocupado cumprindo suas obrigações, quando participa do culto da igreja,
enquanto ora ou fala com amigos, ou mesmo quando acorda.”16 Duewel dá
sugestões de que peçamos a Deus para colocar, em nosso coração, alguém por
quem orar, mostrar alguém que precisa que o sirvamos, guiar a uma promoção
para não gastarmos dinheiro à toa, e assim com qualquer atividade rotineira
que tenhamos, como reabastecer o tanque de combustível do carro no dia
anterior à subida de preço.17 Toda essa expectativa por direção tem de ser
natural (não esperar voz audível ou visão) e voltada mais para as necessidades
do próximo do que para as nossas.
Embora Duewel esteja propondo alguns parâmetros bíblicos para ouvir a
Deus (focar na Bíblia e oração como meios,18 priorizar a necessidade do
próximo), o problema está na expectativa de que todas as nossas atividades
sejam realizadas por direção imediata de Deus, antes que por obediência a
mandamentos e discernimento de situações. Devemos orar pelas pessoas e
servi-las mesmo quando não sentimos o ‘toque de Deus’, devemos discernir
como gastar o nosso dinheiro mesmo quando não somos guiados a promoções,
devemos testemunhar de Cristo mesmo quando não temos portas se abrindo
para a pregação. Fazer a vontade de Deus está mais relacionado a obedecer e
discernir do que a ser sensível, como enfatiza o autor. Duewel transmite uma
direção de ‘deixar fluir’ que não contempla como, às vezes, é penoso ser
obediente à vontade de Deus. Ele também não estimula maturidade quando
orienta seus leitores a sempre ouvirem uma palavra direta de Deus, em vez de
ponderarem sobre as ordens já dadas por Deus. Por último, Duewel frustra o
crente que não é dado a tanto sentimentalismo, pois sua direção é muito focada
em impressões e oportunidades.
Independente da ênfase dada pelo autor, se é difícil ou fácil descobrir a
vontade de Deus, ambos preservam o mistério ao colocar a vontade de Deus em
um campo muito subjetivo de direção. Essa visão não só é equivocada, mas é
danosa para a nossa vida. Há implicações negativas desse conceito de
buscarmos uma vontade escondida.

As implicações negativas dessa busca

As implicações afetam a forma como entendemos a Deus e o que ele espera


que façamos. Veja como um entendimento equivocado do assunto, por se tratar
de um atributo de Deus, redunda em uma visão distorcida de Deus. A visão
confusa que evangélicos têm acerca de descobrir a vontade de Deus passa a
noção de que Deus brinca de esconde-esconde com a sua vontade. A verdade,
porém, é que ele não falha como alguns pais, os quais repreendem seus filhos
baseados em ordens que não ficaram claras e, assim, levam seus filhos à ira.
Deus não esconde o que ele quer de nós. Não podemos culpá-lo disso. Deus não
brinca de esconder de nós a sua vontade. Ele se apresenta em toda a Escritura
como um Deus revelador. Sua vontade precisa ser algo muito mais claro do que
estamos acostumados a pensar.
Falamos de ‘descobrir’ a vontade de Deus, como se ele a estivesse
escondendo. Porém, a Bíblia ordena que nós a compreendamos (“Procurai
compreender qual a vontade do Senhor”; Ef 5.17). Parte-se do princípio de que
ela pode ser conhecida. Não devemos ir atrás do que Deus não intentou revelar,
mas devemos conhecer bem o que nos revelou. Desde o primeiro capítulo de
Gênesis, até o ápice da revelação em Jesus Cristo (Hb 1.1-2), nosso Senhor é um
Deus que fala. E quando falo que Cristo é o ápice da revelação, me refiro ao fato
de ele afirmar que ele nos deu a conhecer tudo quanto ouviu de seu Pai (Jo
15.15). Essa é uma frase impactante! Cristo não nos poupou de nada que
precisávamos saber. Pelo contrário, ele fez questão de enviar-nos o Espírito para
reforçar e completar essa revelação, que atingiu seu clímax em Jesus (Jo 16.12-
14). Tal reforço e complemento ocorrem no ministério dos apóstolos, que nos
proporcionaram o fundamento da vida cristã (Ef 2.20). Não há nada além das
Escrituras que precisemos conhecer para uma vida agradável a Deus.
Portanto, não podemos jamais culpar o Deus revelador de esconder coisas
importantes de nós. Ele mesmo promete ao seu povo: “instruir-te ei e te
ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei
conselho.” (Sl 32.8).
Além de um conceito distorcido de Deus, a confusão evangélica acerca do
assunto tem gerado uma expectativa errada do que seja a vida cristã.
Primeiramente, fazer a vontade de Deus passa a ser algo totalmente incerto, e
por intermédio de tentativa e erro vamos montando o complicadíssimo quebra-
cabeça do plano de Deus para a nossa vida. Esse delongado processo gera
ansiedade na busca, como já mencionamos, e isso é pecaminoso.
Em segundo lugar, um senso de juízo aumenta o peso da responsabilidade
nas decisões. Alguns cristãos sofrem a partir da premissa de que ‘a vontade de
Deus para a minha vida’ implique em apenas uma das opções, como se a outra
fosse errada, desagradasse a Deus. Em questões onde não há escolha
moralmente certa ou errada – como, por exemplo, escolher morar em uma
cidade ou em outra –, não devemos imaginar que uma das escolhas seja
inaceitável a Deus. Esse tipo de raciocínio pode piorar, se julgarmos que a
escolha errada trará juízo da parte de Deus, se enterdemos uma situação em que
tudo dá errado, porque não procuramos o caminho de Deus. Escolhas
imprudentes podem trazer consequências ruins, mas quando não há quebra de
preceito, não há razão para julgar que haja juízo da parte de Deus. Se Deus nos
responsabilizasse por não cumprir uma vontade escondida de nós, inacessível a
nós, Deus seria mau.
Em terceiro lugar, o desejo por saber uma vontade não revelada nas
Escrituras é buscar o que James Petty chama de “conhecimento tóxico”.19
Conhecimento futuro do que nos acontecerá, caso trilhemos esse ou aquele
caminho, é vedado de nós para o nosso bem. Seria danoso ter esse grau de
conhecimento, pois Jesus nos diz que somos programados para lidar apenas
com as preocupações de cada dia (Mt 6.34). Assim como a árvore do
conhecimento do bem e do mal era um limite benéfico para o que Adão poderia
conhecer, Deus edifica limites para o nosso conhecimento que nos são
benéficos.
O perigo desse assunto não jaz, apenas, nas implicações para a vida cristã.
Ele abre portas para meios ‘espirituais’ perigosos, utilizados por inúmeros
evangélicos carismáticos em nosso país.

Os meios usados nessa busca (profecias, sonhos e outros caminhos


espirituais)

O grau com que se enfatiza o uso desses meios entre carismáticos varia. Por
um lado, há teólogos como Wayne Grudem, que abrem brecha para seu conceito
de profecia revelatória dentro de um entendimento ortodoxo da vontade de
Deus. Ele diz que Deus “não nos revela normalmente esses decretos (exceto em
profecias sobre o futuro), e, portanto, constituem realmente a vontade ‘secreta’
de Deus.”20 Grudem está dizendo que não deve ser nossa expectativa rotineira
que Deus nos revele o futuro, embora possa ocasionalmente fazê-lo. Por outro
lado, há escritores mais radicais como Herman H. Riffel, que diz que Deus fala
em várias línguas, dentre elas (e mui frequentemente), em sonhos e visões.21 O
segredo está em cada pessoa aprender, por si mesma, a reconhecer a voz de
Deus.22 A sugestão do autor é idêntica ao que o mundo expressa em músicas e
filmes: ‘ouça o seu coração’.
Riffel ainda sugere que aprendamos a reconhecer a voz de Deus, obedecendo
ao que “achamos que Deus está nos dizendo para nós”. Se estamos incertos de
que é a voz de Deus, podemos pedir confirmação. Riffel então apoia sua
alegação com as histórias de Gideão (Jz 6 e 7) e Acaz (Is 7.11-12).23
Muitos evangélicos de igrejas tradicionais rejeitam tais métodos carismáticos
sem perceber o perigo dos métodos adotados por eles mesmos. Não é incomum
cristãos, e mesmo pastores, julgarem que conhecemos o que Deus ‘quer’ para
nós por intermédio de uma combinação de circunstâncias, ímpetos espirituais,
vozes interiores e uma paz de mente.24 Em outras palavras, se as condições são
desfavoráveis, é sinal de que Deus não me quer fazendo aquilo; se algo interior
me impulsionou a fazer algo, deve ser Deus; se minha consciência está
tranquila, é porque é vontade de Deus que eu tome esse caminho.
Para um evangélico mais tradicional, tais métodos nunca podem fugir dos
mandamentos de Deus e de uma vida de oração. Isto é, eles nunca legitimariam
alguém dizer que se sentiu impulsionado por Deus a fazer algo pecaminoso, ou
permanecer em um estado imoral, só porque a consciência está tranquila.
Todavia, ser guiado por Deus nas decisões que estão dentro de um padrão
correto de vida não acontece pelos meios ordinários (leitura da Palavra e vida de
oração), mas por intermédio de meios ‘extraordinários’.25 James Petty afirma
que tal atitude ainda é uma forma de direcionamento imediato (contrapondo o
direcionamento mediado pela iluminação de nossas mentes pela Palavra), que
não requer interpretação, pois vem de forma aparentemente clara.26 Essa
comunicação direta é o que muitos querem, isto é, que Deus me diga claramente
o que fazer.
Qual é o problema desses meios de descobrir a vontade de Deus? Por que não
são confiáveis? Diferente do que as pessoas estão acostumadas a pensar, a
busca desses meios ‘sobrenaturais’ não é uma atitude “espiritual”. Pelo
contrário, quem procura essas coisas passa a viver por vista e não por fé. Muitos
esperam um trailer antecipado do filme de suas vidas, uma amostra suficiente
para lhes tranquilizar de que Deus está lhes guiando. Gostariam de abrir sua
caixa de entrada de emails e encontrar algum recado de Deus. Todavia, Deus
nunca prometeu esse tipo de comunicação como estilo de vida, nem mesmo
para quem o Senhor apareceu. Abrão, por exemplo, foi ordenado que fosse para
uma terra que Deus lhe mostraria. O capítulo da fé, Hebreus 11, afirma que o
patriarca partiu “sem saber para onde ia” (Hb 11.8). Deus não lhe deu
conhecimento antecipado, nem da jornada nem do destino final.
Há também o desejo de sermos poupados de sofrimento. Quando tomamos
uma decisão, arcamos com suas consequências. Como ninguém gosta de
tropeçar em suas decisões, ‘descobrir a vontade de Deus’ se torna fundamental.
No fundo, queremos ser livres das consequências negativas. Embora nem
sempre articulemos assim, queremos a orientação divina na escolha da
universidade, do emprego ou do ministério a ser seguido porque não queremos
olhar para trás com lamento e curiosidade, “e se eu tivesse optado por outro
caminho?” Acontece que Deus não promete poupar-nos de tropeços. Muitas são
as aflições do justo (Sl 34.19).
Em meio a tanta confusão precisamos buscar um caminho melhor. Nosso
ensino não pode ser o de revelar a vontade de Deus para situações específicas
na vida de alguém, mas de ensinar o crente a entender como persistir na
vontade de Deus de forma frutífera.

1. J. Rodman. Williams, Renewal Theology vol. 2: Salvation, the Holy Spirit, and Christian Living (Grand
Rapids: Zondervan, 1990), p. 411-412.
2. Williams, Renewal Theology vol. 2, p. 413.
3. Williams, Renewal Theology vol. 2, p. 414. Para descobrir a vontade de Deus, Williams oferece cinco
diretivas: sermos buscadores, orar muito, constantemente ouvir a Palavra, buscar a ajuda de outros
cristãos, e ter uma constante renovação da mente (p. 414-417).
4. Henry T. Blackaby, e Claude V. King. Experiências com Deus: como viver plenamente a aventura de
conhecer e fazer a vontade de Deus (São Paulo: Bom Pastor, s.d.).
5. Blackaby e King, Experiências com Deus, p. 161.
6. Blackaby e King, Experiências com Deus, p. 182.
7. Blackaby e King, Experiências com Deus, p. 174-177.
8. William W. Orr, How to Know the Will of God for your life (Wheaton, IL: Van Kampen Press, s.d.), p. 12.
9. Orr, How to Know the Will of God for your life, p. 6.
10. Orr, How to Know the Will of God for your life, p. 24.
11. Orr, How to Know the Will of God for your life, p. 16.
12. Wesley L. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente (São Paulo: Candeia, 1988), p. 31-34.
13. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 29, 42, 46-48.
14. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 125-129.
15. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 95.
16. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 97.
17. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 97-100.
18. Veja Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 121-124.
19. James C. Petty, Step By Step: Divine Guidance for Ordinary Christians (Phillipsburg: P&R, 1999), p. 70-
76.
20. Wayne Grudem, Teologia Sistemática (São Paulo: Vida Nova, 2010 – 2ª ed), p. 156.
21. Herman H. Riffel, Voice of God: The Significance of Dreams, Visions, Revelations (Wheaton: Tyndale,
1978), p. 73-75.
22. Riffel, Voice of God, p. 127.
23. Riffel, Voice of God, p. 129-131.
24. Petty, Step By Step, p. 30.
25. Wesley Duewel não percebe isso, quando afirma que Deus não promete falar-nos pelos meios especiais
comuns no Antigo Testamento (visão, sonho, ou voz audível), mas sim “de um modo mais natural, mais
normal.” Com isso, Duewel não descarta a Palavra e a oração, mas a direção propriamente dita está mais
relacionada a impressões. Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 16-17.
26. Petty, Step By Step, p. 34.
II
Quantas vontades existem?

“vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os
dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do
Senhor.”
Efésios 5.15-17

Diante de tanta confusão no meio evangélico, é justo perguntar ‘qual é a


vontade do Senhor?’ Se até teólogos e livros sobre o assunto parecem nos
confundir mais do que ajudar, precisamos descobrir um norte seguro, um
caminho que seja bíblico. Mas o que seria um caminho bíblico?
É aí que precisamos do auxílio de teólogos do passado, que já se debruçaram
delongadamente sobre esse assunto. Evangélicos em geral costumam ser
bastante ignorantes sobre a história da teologia, e isso nos faz mais vulneráveis
a desvios teológicos. Esse conceito de vontade de Deus, apresentado no capítulo
1, tem sido visto por alguns como a visão “tradicional”. Todavia, um rápido
panorama da história da teologia nos mostrará que eles tinham um
entendimento muito diferente e mais rebuscado do que esses teólogos
modernos. Por isso, precisamos aprender a ler as Escrituras com o auxílio de
estudiosos do passado.
A primeira coisa que se destaca, por meio desse panorama histórico, é que
nem sempre a Bíblia apresenta a palavra “vontade” no mesmo sentido. Assim
como outras palavras bíblicas, como a palavra “mundo”, pode significar tanto
aquilo que é objeto do amor de Deus (João 3.16) como aquilo que é alvo do
desprazer de Deus (1 Jo 2.15-17), assim também as Escrituras apresentam
sentidos diferentes para o conceito de ‘vontade de Deus’.
Pelo menos desde a Idade Média, os teólogos cristãos compreenderam que a
vontade de Deus não poderia ser descrita com uma simples definição, mas com
uma série de distinções.27 Tais distinções podem ser percebidas a partir de uma
análise dos termos bíblicos chave para essa discussão. Veremos, primeiramente,
como a Bíblia apresenta sentidos diferentes para as mesmas palavras, para
depois resumirmos como teólogos da história categorizaram essas diferenças.
Esse é um capítulo mais denso, que irá requerer de você um pouco mais de
atenção, porém julgo que será recompensador. A razão de estudarmos teologia
bíblica e sistemática aqui neste capítulo é porque entende-se que o estudo
teológico é extremamente saudável, se feito devidamente. Não é possível
compreendermos a vontade de Deus se não conhecermos a Deus, e teologia
nada mais é do que conhecimento de Deus.

Termos bíblicos

A variedade de termos bíblicos relacionados ao assunto é uma janela para


entendermos a diversidade de conceitos embutidos nessas palavras. No Antigo
Testamento, o Livro de Salmos usa a palavra ratson28, frequentemente, para se
referir à “vontade” de Deus (Sl 40.8; 51.18; 103.21; 143.10), aquilo que traz
“prazer” a Deus (Pv 11.1, 20; 12.22; 15.8). O termo hepets (Is 46.10) também é
traduzido em outros lugares por “prazer” (1 Sm 15.22) ou “interesse” (Jó 22.3).
Por outro lado, o termo aramaico tseba (Dn 4.35) e o hebraico etsa (Sl 33.11;
73.24; 107.11; Pv 19.21; Is 25.1; 46.10-11; Jr 50.45; Mq 4.12) dão a ideia de
“conselho, propósito, plano”. Há verbos importantes para esse assunto, como
naha (“guiar”, “dirigir”), muito presente no livro de Salmos (cf. Sl 5.8; 23.3;
31.3; 61.2; 73.24; 78.14, 72; 139.10, 24; 143.10). Já o Salmo 25, que fala muito
de direção, usa um verbo menos comum com esse sentido de guiar: darak (v. 5,
9; cf. Is 42.16; 48.17).
O estudo de palavras, contudo, não nos garante compreender o sentido
teológico com o qual ela é usada. Etsa, por exemplo, no Salmo 107.11 é
sinônimo de “palavra de Deus, mandamentos” (veja o paralelo no verso),
enquanto em Isaías 46.10 ela é sinônimo de ‘decretos’. Hepets também pode ser
apresentada como aquilo que traz “prazer” a Deus (1 Sm 15.22) ou como
sinônimo de ‘determinações’ (Is 46.10).
No Novo Testamento, a palavra grega thelema é comumente traduzida por
“vontade” (Mt 6.10; 7.21; 12.50; 18.14; 26.42; Lc 22.42; Jo 5.30; Rm 1.10; 12.2;
15.32; Gl 1.4; Ef 1.5, 9, 11; 5.17; 6.6; Cl 1.9; 1 Ts 4.13; 5.18; Hb 13.21; 1 Pe
2.15; 3.17; 1 Jo 5.14; Ap 4.11) e o verbo thelo fala desse “querer” de Deus (Rm
9.18; 1 Co 4.19; 15.38; Cl 1.27; Tg 4.15; 1 Pe 3.17). Aqui também os sentidos
são variados, às vezes pendendo para regras de vida, outras vezes, para os
planos soberanos de Deus. Já o termo boule (Lc 7.30; At 2.23; 4.28; 20.27; Ef
1.11) é, consistentemente, traduzido por “desígnio, propósito, conselho”,
facilitando assim o sentido de boulema (Rm 9.19).
O Novo Testamento não tem muitas promessas de direção da parte de
Deus.29 O verbo hodegeo aparece poucas vezes, em relação ao ato de Deus nos
conduzir (“guiar”; Jo 16.13; Ap 7.17). Existe a constatação de que os cristãos
são “guiados” pelo Espírito (ago; Rm 8.14; Gl 5.18) e de que Deus nos “conduz”
(ago) ao arrependimento (Rm 2.4). O verbo kateuthyno, que aparece apenas três
vezes no NT, se refere duas vezes à direção divina em caminhos de santidade
(Lc 1.79; 2 Ts 3.5) e uma vez Paulo se refere de, forma mais genérica, a Deus
dirigir o caminho (1 Ts 3.11), provavelmente esperando que a providência
divina os levasse até os tessalonicenses. Porém, tais ideias não são tão
abundantes como o conceito de guiar no livro de Salmos, conforme mencionado
acima. Além disso, enquanto as afirmações de Salmos costumam apresentar
direção para aquilo que é correto, o NT não especifica que tipo de direção, mas
por ser comum a todo crente, ficamos inclinados a concluir que se trata da
mesma direção do AT (não específica, necessariamente, mas pautada pela
Palavra).
James Petty se recusa aceitar a proposta de que Deus não nos guia
especificamente. Ele apresenta as histórias do AT (Gn 12.1; 24; Ex 13.21-22), a
literatura poética e profética (Sl 5.8; 27.11; 31.3; 48.14; 139.9-10; Is 49.9-10;
58.11) e as uni aos textos que demonstram direção após o Pentecostes (Rm
8.14; Gl 5.16).30 Entretanto, em vários momentos do livro, Petty apresenta o
caminho da sabedoria como a forma de Deus nos guiar. Esse caminho, sim, é
mais evidente na tratativa bíblica do direcionamento.
Há ainda palavras como eudokia (“agrado”, “boa vontade”; Mt 11.26; Lc 2.14;
Ef 1.5, 9; Fp 2.13; 2 Ts 1.11) que pode se referir aos propósitos soberanos de
Deus, mas não somente isso, e euarestos (“agradável”; Rm 12.1-2; Ef 5.10; Cl
3.20; Hb 13.21) que está mais relacionado àquilo que traz honra e prazer a
Deus.
Toda essa diversidade terminológica mostra duas coisas. Primeiramente, que
um mero estudo de palavras nas línguas originais não resolve o problema de
entender o que significa a “vontade de Deus”. Segundo, que precisamos
sistematizar as ocorrências da palavra “vontade”, e os diferentes termos
sinônimos, a fim de tirarmos algumas conclusões teológicas importantes. A
história da igreja dá testemunho de tal sistematização. Aprendamos com os
teólogos do passado.

Uma vontade, várias distinções

Toda essa diversidade semântica para os diferentes termos bíblicos


apresentados acima foi categorizada em aspectos diferentes da vontade.
Amandus Polanus (1561-1610), o grande teólogo reformado que trabalhou na
Basiléia, dizia que a vontade de Deus, na realidade é uma, mas que com vistas à
instrução recebeu várias bifurcações. Uma delas afirma que a vontade de Deus
pode ser “revelada” ou “oculta”; a revelada pode ser “antecedente” ou
“consequente” à resposta humana; a consequente pode ser “legal” ou
“evangélica” (i.e. a base de como nossas ações são julgadas). Essa, que é apenas
uma das bifurcações, é vista por Richard Muller como exemplo de doutrina
detalhada, não especulativa.31 Deixe-me simplificar. É extramente prático saber
que há coisas que Deus nos revela e há outras que ele não o faz (revelada e
oculta), que a sua revelação contém o que ele espera de nós e o que faz conosco
em virtude de nossos atos (antecedente e consequente), e de que nossos atos
serão julgados conforme estamos sob a lei ou sob a graça (legal e evangélica).
Vamos ilustrar tais distinções com uma história bíblica bem conhecida, a do
profeta Jonas. Revelada e oculta: Deus revelara aos profetas a lei do Senhor e,
por isso, não seria difícil para Jonas reconhecer o pecado de Nínive, mas Deus
ocultou do mesmo o seu propósito de trazer grande redenção àquela cidade.
Assim também, Deus nos revela a sua Palavra, mas oculta de nós quem ele irá
salvar. Antecedente ou consequente: Deus mostrou ao profeta a tarefa de anunciar
o juízo de Deus àquela nação ímpia e depois lhe mostrou as consequências de
rejeitar seu chamado. Semelhantemente, Deus nos mostra os mandamentos a
serem cumpridos e nos ensina que o não cumprimento dos mesmos acarreta em
disciplina. Legal e evangélica: Deus tratou evangelicamente a Nínive pecadora,
nos dias de Jonas, porém a mesma cidade foi tratada segundo a dureza da lei,
nos dias do profeta Naum. Da mesma forma, pessoas remidas são tratadas
graciosamente por Deus por estarem em Cristo, muito embora tenham
cometido pecados semelhantes aos pecados dos que ainda estão sob a
condenação.
As distinções feitas no decorrer da história da teologia não são sinônimo de
que Deus tenha vontades contrárias. As distinções são feitas com base nos
diferentes objetos da vontade, mas a vontade é uma só. João Calvino (1509-
1564) percebe que, às vezes, parece-nos que Deus quer coisas contrárias (ex: Mt
23.27), pois ele, deseja que sejamos submissos a ele mas ele não nos conduz a
tal submissão. Calvino afirma que, embora nos pareça que a vontade de Deus
seja múltipla, ela é “uma só e indivisa”. Sua sabedoria o conduz a querer,
naquele momento, o que parece ser contrário à sua vontade.32 Essa aparente
contradição, de Deus querer algo que ele não resolve fazê-lo, pode ser explicada
pela distinção “Vontade de Prazer e Vontade de Propósito”.33
Comentando Mateus 6.10, Calvino escreve: “Embora a vontade de Deus,
vista em si mesma, é uma e simples, ela nos é apresentada nas Escrituras de
duas formas. É dito que a vontade de Deus é feita quando ele executa o
conselho secreto de sua providência... Mas aqui nós somos ordenados a orar
para que, em outro sentido, a sua vontade seja feita, isto é, que todas as
criaturas possam obedecê-lo”.34 Calvino percebe que, embora as Escrituras
falem da vontade de Deus como sendo um soberano plano cumprido, há
momentos que a vontade de Deus é sinônima dos mandamentos divinos, que
nem sempre são cumpridos. Aparentemente duas vontades, uma cumprida e
outra não.35
Teólogos reformados, que trabalharam após Calvino, exploraram ainda mais
as diferentes facetas da mesma vontade. Eles entendiam que às vezes, a
vontade de Deus combinava com a vontade humana, como quando o desejo
rebelde de um filho que quer a morte do seu pai combina com o que Deus
determina (ex: Absalão, veja 2 Sm 12.11-12). Outras vezes, a vontade de Deus
não combina com a vontade humana, como quando um filho piedoso roga para
que seu pai não morra, mas Deus não o atende.36 O segundo exemplo ilustra
como nem sempre o que é nobre, honroso, e agrada a Deus, está nos planos de
Deus. Em outras palavras, nem sempre o que Deus quer (uma atitude piedosa) é
o que Deus quer (planos e propósitos divinos).
Um exemplo usado repetidas vezes pelos teólogos reformados do século 17 é
o de Abraão. Em Gênesis 22, Deus pediu que imolasse o seu filho Isaque, mas
não permitiu que o menino fosse imolado. Ele ordenou que Abraão provasse sua
obediência oferecendo o seu filho, mas Deus planejou que tal sacrifício não
fosse consumado. Embora esses dois atos da vontade divina sejam diferentes
(“A minha vontade é que Abraão ofereça o seu filho” e “A minha vontade é que o
menino não morra”), eles não são contrários, pois ambos são verdadeiros.
Sendo assim, Francis Turretin (1623-1687) afirma que “Deus, sem contradição,
quis que Isaque fosse oferecido e que não fosse oferecido.”37
Semelhantemente, o fato de Deus manifestar o seu prazer em salvar todo
homem por intermédio da fé não está em contradição com o decreto de não
salvar a humanidade toda. São vontades diferentes, por assim dizer. Turretin
explica: “A primeira indica o que é agradável a Deus, o que ele determinou
impor ao homem para a obtenção da salvação, mas a segunda, o que Deus
mesmo decretou fazer. Mas essas duas não entram em contradição: querer
chamar à fé e à salvação, contudo negar-se a dar essa fé e salvação; querer (i.e.,
ordenar que o homem creia) e negar (i.e., decretar não conceder-lhe fé para que
possa crer).”38
Quem deseja é um só e ele não pode querer coisas contrárias. Sua vontade
difere com respeito ao objeto (preceitos, decretos, etc.), mas Deus não
estabelece preceitos contraditórios (‘não matarás’ e ‘matarás’) ou faz planos que
se excluam (salvar e não salvar a mesma pessoa). As distinções servem apenas
para esclarecer como o objeto daquilo que Deus ‘quer’, isto é, da sua vontade,
pode ser diferente.
A ortodoxia reformada, período de solidificação da teologia reformada após
a Reforma Protestante, passou a esclarecer a vontade de Deus com distinções
precisas. Muller resume as distinções em pares de palavras, algumas das quais
vêm desde a era medieval.39 A “vontade do beneplácito” (voluntas beneplaciti)
aponta para o bem que Deus realiza soberanamente, enquanto a “vontade de
sinal” (voluntas signi) sinaliza o que Deus quer do homem. A “vontade absoluta”
(voluntas absoluta) determina o que deve acontecer sem qualquer condição,
enquanto a “vontade condicional” (voluntas conditionata) estabelece, por
exemplo, a fé como condição para a salvação. A “vontade eficiente” (voluntas
efficiens sive effectiva) diz respeito ao que Deus realiza diretamente ou através de
causas secundárias enquanto a “vontade permissiva” (voluntas permittens sive
permissiva) se refere ao mal que Deus não impede que aconteça sem, porém,
retirar o concursus divino exigido para a existência das coisas.40 Algumas dessas
distinções se sobrepõem, são tidas por maneiras diferentes de explicar as
mesmas coisas.

O valor das distinções teológicas

Se você continua lendo até aqui é porque você é muito perseverante, mesmo
quando a teologia parece mais atrapalhar do que ajudar. Todavia, tais distinções
nos parecem muito difíceis porque nunca fomos treinados a pensar dessa
forma. Ao menos uma utilidade elas têm, quando nos dão o seguinte alerta: se
nós não aprendermos a distinguir o que queremos dizer por “vontade de Deus”,
produziremos muita confusão.
Deixe-me ilustrar com um exemplo comum da política. Cristãos sempre
perguntam após uma eleição: “será que a eleição de tal pessoa foi da vontade de
Deus?” Tal pergunta pode ser entendida de formas diferentes. Será que estava
nos planos de Deus que tal pessoa fosse eleita? Nesse caso, a resposta é sim.
Será que a eleição de tal pessoa estava em conformidade com os interesses de
Deus para o nosso país? Nesse caso, a resposta pode ser não. O fato de que
estava nos planos de Deus que um determinado líder fosse escolhido não
significa que ele foi eleito de, forma consciente e sábia, pelo povo. Há muitos
elementos relacionados à soberania de Deus e à responsabilidade humana,
quando estudamos a vontade de Deus.
A distinção de termos nos ajuda a sermos mais precisos em nossas
afirmações. Há muitos termos modernos que se mostram ignorantes ao que a
tradição cristã afirmou. Cristãos frequentemente se referem à “vontade
permissiva” de Deus de maneira diferente do que disseram os teólogos
reformados dos séculos 16 e 17. O crente de hoje entende que quando, coisas
más acontecem, Deus as permite. Com isso ele imagina que Deus não é pró-
ativo, isto é, não participa ativamente delas, não tem nada a ver com elas, não
intervém, mas simplesmente as permite.41 É verdade que a Bíblia usa o verbo
“permitir” (epitrepo) em relação aos decretos de Deus (1 Co 16.7; Hb 6.3).
Acontece que Deus frequentemente se mostra o feitor, o causador mor de males
que nos sobrevêm e Ele não tem dificuldade de assumir a autoria (Hc 1.5-6; Is
10.5-17; 1 Rs 22.19-23). Para isso, é preciso entender a doutrina do concursus
divino.42 É certo que Deus não está por detrás do mal, da mesma maneira que
ele o está por detrás do bem. Contudo, Deus apresenta seus decretos de
destruição e de salvação como sendo a sua vontade. Deus não só permite que
haja destruição, mas ele destrói o soberbo. Portanto, em nossos dias, o termo
‘vontade permissiva’ pode mais atrapalhar do que ajudar.
Outro termo moderno estranho à tradição cristã e às Escrituras é a “vontade
invididual” de Deus. Crentes frequentemente querem saber “a vontade de Deus
para a minha vida.” Um casal pode questionar se Deus prefere que eles adotem
uma criança ou tentem ter filhos naturais. Um profissional pode questionar se
Deus quer que ele abra a sua empresa ou seja um empregado. Tais
questionamentos são justos, quando analisamos qual opção expressa melhor
nossa obediência aos mandamentos explicitados na Palavra. Porém, não
precisamos achar que Deus prefere uma das escolhas para mim que pode ser
diferente do que ele prefere para outra pessoa.
Não há nada de errado em pensar que Deus tenha planos para cada um de
nós, individualmente. O salmista escreve: “Os teus olhos me viram a substância
ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles
escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). No
entanto, não existe algo que Deus espera que nós façamos em obediência a ele
que não seja válido para outro cristão. Em outras palavras, o que ele requer de
mim ele requer de todo ser humano. Um missionário não precisa ficar
preocupado se está obedecendo a vontade de Deus ao ir para a África e não para
o Oriente Médio. Sua preocupação tem que estar na obediência à Grande
Comissão (Mt 28.18-20).
Gary Friesen está correto em combater esse conceito de “vontade
individual”, embora algumas de suas frases pareçam dar a entender que Deus
não tenha um plano para cada vida, individualmente. No entanto, Friesen
distingue entre cada um de nós termos uma parte individual no plano soberano
de Deus, o que ele aceita, e haver uma vontade individual que Deus quer que
você saiba.43 Ele possui uma vontade soberana que controla cada aspecto de
nossas vidas, mas Deus não tem preferência por uma escolha individual que
devamos tomar. Isto é, em escolhas que não ferem a vontade moral, há uma
variedade de opções potencialmente agradáveis a Deus. Os que apostam em
descobrir a escolha ideal de Deus, ou se frustram em contínua busca por tal
conhecimento, ou se tornam enganados ao pensar que Deus lhes deu
direcionamento especial. Em suma, Friesen quer que ajamos responsavelmente,
usando a capacidade dada por Deus para o exercício do bom juízo.
M. Blaine Smith concorda com vários aspectos do livro de Friesen, mas julga
que não precisamos abandonar a ideia de que Deus tenha uma vontade
individual para as nossas escolhas. Abandonar esse conceito, conforme Blaine
Smith, mina a confiança para se dar um passo de fé e elimina o sentido, o
propósito em nossas escolhas; a individualidade fica esquecida.44 Textos como
Mateus 26.42 e João 4.34 tratam de um direcionamento pessoal para Jesus, de
questões específicas e singulares de sua missão. Ele deduz que uma vontade
para questões pessoais e não apenas morais – tanto o não moral quanto o moral
– também exista para nós. Blaine Smith ainda toma textos como Romanos
12.1-2, que são seguidos da discussão de dons (v. 3-8), e 1 Coríntios 12.4-7,
para falar da individualidade no corpo de Cristo, da singularidade que cada
cristão tem e precisa descobrir a fim de provar a vontade de Deus. Reconhecer
nossa individualidade é importante para compreendermos a vontade de Deus
para nós.45 Por último, Smith julga que Friesen argumenta contra a sua tese de
que não há vontade individual, quando ele descreve como tomarmos decisões
de forma responsável, usando a direção da sabedoria para encontrar a “melhor”
opção. Se há uma “melhor” opção em uma decisão, Smith argumenta que
precisa haver uma escolha ideal para Deus em nossas decisões.46
As avaliações de M. Blaine Smith são interessantes, mas demonstram como
infelizmente, o conceito de descobrir a “vontade de Deus para a minha vida
individualmente” ainda está muito enraizado. Primeiramente, vale destacar que
a vontade preceptiva não anula nossa individualidade. Descobrimos quais os
nossos dons e como servir a Deus, porque Deus nos ordena a tal; essa é a sua
vontade preceptiva, como veremos no próximo capítulo. É claro que somos
diferentes partes de um corpo, mas a vontade de Deus é única para todos nós,
que sirvamos uns aos outros cada um conforme o dom que recebeu (1 Pe 4.11).
Em segundo lugar, quanto à “melhor” opção, entendemos que a sabedoria
permite pesarmos os prós e os contras de cada situação e escolhermos o que nos
parece mais sensato (veremos isso no capítulo 7). Porém, alguns optam pelo
mais seguro, outros pelo mais ousado, na hora de abrir um negócio. Não há
razões para deduzirmos que um agrada a Deus e outro não. Se a pessoa que é
mais ousada é convencida pela mais conservadora a, finalmente, escolher um
caminho menos arriscado, ela não vai contra a vontade de Deus para a vida
dela. A definição de Blaine Smith mais confunde do que ajuda. Por último, os
textos referentes à missão de Jesus eram conhecidos do Salvador. Ele sabia os
detalhes de sua missão. Não podemos traçar o paralelo com especificidades de
nossa missão que não conhecemos, que não nos foram reveladas. Sabemos o
traçado geral de nossa missão como discípulos de Cristo, mas os detalhes são
descobertos à medida que tomamos decisões sabia e responsavelmente. James
Petty afirma que o que é frequentemente chamado de ‘vontade individual de
Deus’ deve ser visto simplesmente como a aplicação dos mandamentos e do
caráter de Deus às especificidades da nossa vida.47
Outra distinção teológica estranha à história da teologia vem de Peter
Masters, pastor da igreja que fora pastoreada por Charles Spurgeon. Ele
estabelece que devemos buscar a direção de Deus de forma específica para as
grandes decisões da vida.48 Ele está reagindo àqueles que jocosamente
exageram, ao falar em pedir orientação de Deus para saber qual marca de pasta
de dente se deve escolher. Porém, Masters se equivoca ao separar grandes
decisões de pequenas decisões, como se Deus só precisasse ser consultado nas
coisas mais importantes. A Escritura nos conclama a fazer até atividades tão
simples quanto o comer e o beber para a glória de Deus (1 Co 10.31). Acontece
que, para Masters, direção não está relacionada à aplicação dos princípios
bíblicos a todas as áreas da vida, mas à atuação especial de Deus que
complementa as diretrizes bíblicas.
Esse longo apanhado de distinções equivocadas comprova que até os bons
livros sobre vontade de Deus da atualidade avaliam o assunto sem muito
conhecimento da história da doutrina. Eles costumam questionar se existe uma
terceira vontade, por afirmarem haver apenas duas.49 Na verdade, só existe
uma vontade em Deus, mas que pode ser entendida de forma diversificada
através de várias distinções. Isso comprova que, com raras exceções, evangélicos
não têm aprendido a ler as Escrituras em diálogo com a história da teologia.
Por isso, é importante aprendermos das distinções teológicas sobre a
vontade de Deus que se solidificaram na tradição cristã. Nós estudaremos duas
distinções muito úteis para entender como o cristão deve tomar decisões
embasado no que agrada a Deus: vontade preceptiva versus vontade decretiva, e
vontade secreta versus vontade revelada.50
27. Richard Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics: The Rise and Development of Reformed Orthodoxy,
ca. 1520 to ca. 1725, vol. 3: The Divine Essence and Attributes (Grand Rapids: Baker Academic, 2003), p.
432-433.
28. As palavras nas línguas originais (hebraico, aramaico e grego) estão sendo transliteradas sem os sinais
técnicos, para facilitar a leitura dos que não são treinados em tais idiomas.
29. O fato de não haver muitas promessas de direção abre a porta para que muitos intérpretes tomem
textos descritivos, tais como Atos 8.26-40, para suprir a ausência de textos prescritivos.
30. Petty, Step By Step, p. 42-48.
31. Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics vol. 3, p. 444.
32. João Calvino, As Institutas, edição clássica (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), I.xviii.3; III.xxiv.17.
33. Cf. Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e os Seus Atributos (São Paulo: Cultura Cristã, 2002, 2ª ed.),
p. 383-386. Neste livro, eu não tratarei dessa distinção. O teólogo reformado Leonardus Rijssenius (1630-
1716), seguindo a linha de interpretação da época, define essa vontade de Jesus como sendo preceptiva,
pois se refere ao que o homem é chamado a fazer. Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics vol. 3, p.
468; cf. Francis Turretin, Compêndio de Teologia Apologética vol. 1, trad. Valter Graciano Martins (São
Paulo: Cultura Cristã, 2011), p. 298 (III.xv.2).
34. João Calvino, Harmony of the Evangelists, Mt 6:10. In: www.ccel.org. Cf. Calvino, As Institutas,
III.xx.43.
35. James Petty diz que no Novo Céu e Nova Terra, teremos uma convergência dessas duas vontades, onde
o que, de fato acontece (providência) é exatamente o que Deus deseja (seus mandamentos). Petty, Step By
Step, p. 81.
36. Heepe, Heinrich. Reformed Dogmatics, trad. G. T. Thomson (London: The Wakeman Trust, s.d.), p. 87.
37. Turretin, Compêndio de Teologia Apologética vol. 1, p. 301-302 (III.xv.18); cf. Wilhelmus à. Brakel, The
Christian’s Reasonable Service vol. 1 (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 1992), p. 114; Heppe,
Reformed Dogmatics, p. 86; Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics vol. 3, p. 461.
38. Turretin, Compêndio de Teologia Apologética vol. 1, p. 302 (III.xv.19).
39. Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics vol. 3, p. 456-473.
40. Em relação à vontade chamada de “permissiva”, Turretin diz que “embora essa volição possa ser
positiva quanto ao princípio (porquanto ele quer não impedir), é propriamente chamada de negativa
quanto ao fim (o qual é um não-impedir).” Turretin, Compêndio de Teologia Apologética vol. 1, p. 299
(III.xv.6), tradução corrigida por mim.
41. Veja Duewel, Deixe Deus Guiá-lo Diariamente, p. 57-60.
42. Veja Heber Carlos de Campos Júnior, Triunfo da Fé (São José dos Campos: Editora Fiel, 2012), cap. 3.
43. Veja Garry Friesen, com Robin Maxson, Como Descobrir e Fazer a Vontade de Deus: Uma alternativa
bíblica em face das opiniões tradicionais (São Paulo: Editora Vida, 1990), cap. 5. Peter Masters lê a tese de
Friesen equivocadamente, como se este negasse que Deus tenha um plano específico para a vida de cada
um de seus filhos. Peter Masters, Steps for Guidance (London: The Wakeman Trust, 1995), cap. 1.
44. M. Blaine Smith, Knowing God’s Will (Wheaton, IL: InterVarsity Press, 1991), p. 230-231.
45. Smith, Knowing God’s Will, p. 232-236.
46. Smith, Knowing God’s Will, p. 237-238.
47. Petty, Step By Step, p. 101.
48. Masters, Steps for Guidance, p. 14.
49. Tanto o livro de Gary Friesen quanto o de James Petty expressam haver apenas ‘duas vontades’. Outro
bom livro que segue linha semelhante é de Kevin DeYoung, Faça Alguma Coisa (São Paulo: Mundo Cristão,
2012).
50. De acordo com Heinrich Heppe, essas duas distinções são as que melhor correspondem ao ensino
bíblico. Heppe, Reformed Dogmatics, p. 88.
III
Qual é a vontade do Senhor?

“seja feita tua vontade, assim na terra como nos céus”


Mt 6.10

Já que vimos a importância de distinguir o que a Bíblia quer dizer quando se


refere à vontade de Deus, vamos nos deter a duas distinções muito úteis para o
entendimento desse assunto. A primeira distinção é mais comum tanto em
livros de teologia sistemática, como em bons livros focados em discutir a
vontade de Deus. Porém, a segunda distinção é complementar para que
tenhamos uma compreensão mais holística sobre qual preocupação o crente
deve ter e qual ele não deve ter em relação à vontade divina. O entendimento
delas também nos proporcionará maior precisão na hora de discutirmos a
vontade de Deus.

Vontade Preceptiva versus Vontade Decretiva

A palavra “preceptiva” vem de preceito, ordem, norma. A vontade preceptiva


diz respeito à regra de vida para as criaturas morais. Diz respeito às leis e os
preceitos prescritos por Deus nas Escrituras, para nortear nossas vidas. Um
exemplo de vontade preceptiva seriam os dez mandamentos, registrados tanto
em Êxodo 20, como em Deuteronômio 5. Comumente expressamos essa
vontade quando dizemos: ‘Deus não quer que tenhamos outros deuses além
dele’, ‘Deus quer que eu ame o próximo como a mim mesmo’, ‘Deus quer ser
cultuado em espírito e em verdade’. Esses exemplos testificam de que é vontade
de Deus que nos conformemos à sua lei.
Há vários textos na Escritura que se referem à “vontade” de Deus com esse
aspecto preceptivo. Vejamos alguns exemplos vindos de diferentes autores
sacros.

Salmo 40.8 – “agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei.”

Como o livro de Salmos usa muito paralelismo, não é difícil detectar que aqui
Davi está falando a mesma ideia com vocabulário diferente. Se “agrada-me” é
sinônimo de “dentro do meu coração”, não é difícil deduzir que “vontade” é
sinônimo de “tua lei”.

João 9.31 – “Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a
Deus e pratica a sua vontade, a este atende.”

O cego de nascença recém-curado por Jesus deu uma lição preciosa aos
fariseus, supostos conhecedores da lei. Ele disse que Deus não atende
“pecadores”, isto é, aquele que vive escravo do pecado, mas atende aquele que
“teme a Deus e pratica a sua vontade”. O ex-cego expressou o ensino principal
de Eclesiastes: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os
seus mandamentos” (Ec 12.13). Guardar os mandamentos é sinônimo de
praticar a sua vontade.

1 Tessalonicenses 5.18 – “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus
para convosco.”

Paulo está ensinando que gratidão não é só uma questão de ser educado,
polido, mas é mandamento divino que sejamos gratos em todo tempo. Por isso,
o salmista conclama sua alma a cantar ao Senhor em todo o tempo e bendizê-lo
por todos os seus benefícios (Sl 34; 103). Afinal, gratidão é preceito divino.

1 Pedro 4.1-2 – “Ora, tendo Cristo sofrido na carne, armai-vos também vós do mesmo
pensamento; pois aquele que sofreu na carne deixou o pecado, para que, no tempo que vos resta
na carne, já não vivais de acordo com as paixões dos homens, mas segundo a vontade de Deus.”

Pedro está contrapondo a vontade de Deus às paixões dos homens. Ele está
dizendo que nossa norma de vida não deve ser os desejos dos homens, mas os
desejos de Deus. Afinal, o próprio Jesus estabeleceu esse exemplo quando, em
meio ao sofrimento, ele continuava a fazer da vontade do Pai a sua comida e a
sua bebida.
Há vários outros textos que utilizam a palavra “vontade” com o sentido de
preceito para as nossas vidas (Sl 143.8, 10; Mt 7.21; Rm 2.17-18; 12.2; Ef 6.5-6;
Cl 1.9-12; 4.12; 1 Ts 4.3; Hb 13.20-21; 1 Pe 2.15; 1 Jo 2.17), mas creio que esses
já são suficientes para ilustrar esse significado.
É importante que façamos algumas considerações sobre a vontade
preceptiva. Primeiramente, cumprir esta vontade não é uma questão de opção. Por
exemplo, casar com um descrente (1 Co 7.39) ou mudar de emprego por
insubmissão ao patrão (Cl 3.22-25) estão claramente contra a vontade
preceptiva do Senhor. A Palavra de Deus não fornece meras dicas ou sugestões
para a vida, mas regras que não podemos desprezar. Isto não significa que
precisamos olhar para a vontade de Deus apenas como uma obrigação, pois
cumprir essa vontade também tem que ser o nosso deleite (Rm 12.2).
Em segundo lugar, nem tudo o que é revelado é preceito, mas todo o preceito é
revelado. Em outras palavras, a Bíblia não tem só preceitos, pois os desígnios de
Deus são previamente declarados (Ex: profecias no AT sobre a primeira vinda de
Cristo ou o que o NT diz acerca da sua segunda vinda). Porém, a Bíblia não
revela só a história traçada por Deus, mas como Deus quer que participemos
dessa história. O cristianismo não é como as religiões de mistério que
escondiam certas verdades dos principiantes, reservando tal conhecimento aos
“iniciados”. Deus não esconde a sua vontade de nós. Tudo que precisamos para
uma vida agradável a ele foi revelado. Essa vontade não se adivinha, mas se
conhece por intermédio da Palavra e se pratica.
Em terceiro lugar, os preceitos do Senhor, devem ser o principal alvo de nosso
conhecimento (Ef 5.17), pois a vontade de Deus é a nossa santificação (1 Ts 4.3).
Portanto, devemos encher nossas mentes e corações dos mandamentos do
Senhor a fim de que eles brotem em tempos de decisão. Nosso conhecimento
das Escrituras entra em ação quando estamos numa encruzilhada e precisamos
de um norte. Quando Jesus foi tentado, respondeu com a Palavra que brotou de
seu coração (Mt 4). Quando Jonas foi engolido pelo peixe, orou em
conformidade com o livro de Salmos (Jn 2); isto é, em tempos de aflição,
trechos da Palavra lhe vieram à mente. Por isso, precisamos meditar
constantemente nos mandamentos de Deus (Sl 1.1-3; Pv 6.20-22).51
Por último, por causa da nossa desobediência, do pecado que em nós ainda
habita, esta vontade nem sempre é cumprida. O fato de Deus querer a nossa
santificação não significa que ele determina e realiza a santificação em todos os
homens. Aí entra a vontade decretiva.
A vontade decretiva se refere aos decretos pelos quais Deus realiza a sua
história, o plano que ele tem traçado para este mundo. Tudo que Deus ordenou,
pré-estabeleceu para acontecer na história, faz parte da sua vontade decretiva.
Por exemplo, a nossa salvação é testemunhada em toda a Escritura como um
plano traçado desde a eternidade e que certamente acontecerá. Não só o
derramamento de sangue do Cordeiro foi planejado desde “antes da fundação
do mundo” (1 Pe 1.19-20), ele não só nos predestinou, mas nossa glorificação
futura é tão certa que Paulo se refere ao ato no passado (Rm 8.30), tamanha a
sua certeza de que Deus termina o que começa (Fp 1.6).
Também há muitos textos em que a palavra “vontade” é usada em referência
aos decretos de Deus. Vejamos alguns exemplos também de partes diferentes da
Escritura, para demonstrar como essas distinções permeiam todo o livro
sagrado.

Isaías 46.9-11 – “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há
outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de
acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho
permanecerá de pé, farei toda a minha vontade... Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este
propósito, também o executarei.”

Isaías retrata o Poderoso Deus cumprindo toda a sua vontade, sem que
qualquer um de seus planos seja frustrado (Jó 42.1). O mesmo Isaías, três
capítulos antes, registra a soberania da vontade divina: “agindo eu, quem
impedirá?” (Is 43.13).

Mateus 26.42 – “Tornado a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de
mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.”

Diferente do que muitos pensam, esse texto não diz respeito à vontade
preceptiva. Em lugar nenhum das Escrituras é ordenado ao homem morrer na
cruz expiatoriamente, isto é, em lugar de outros. Jesus está se referindo ao
decreto de seu Pai, ao que fora acordado no Pacto da Redenção.52 Jesus está se
submetendo ao decreto divino para a nossa redenção, ainda que o sofrimento
fosse excruciante (Jo 12.27-28a).

Romanos 1.9-10 – “Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é
minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós em todas as minhas orações,
suplicando que, nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos.”

Paulo está usando o vocábulo “vontade” num sentido muito familiar a nós.
Paulo está dizendo: ‘Eu pretendo visitar vocês, se Deus quiser’. Nós,
frequentemente, fazemos promessas de ir a tal lugar “se for da vontade de
Deus”. Com isso, estamos nos referindo aos planos soberanos de Deus que nós
não conhecemos, e por isso, não podemos ter certeza de que certas coisas darão
certo. O coração do homem pode fazer planos, mas a certeza só vem se for da
boca do Senhor (Pv 16.1).

1 Pedro 3.17 – “porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é
bom do que praticando o mal.”

Pedro está encorajando aos cristãos que sofriam a não abrirem mão de uma
vida íntegra. Acontece que integridade, por vezes, levanta oposição. Os crentes
não deveriam fugir da integridade a qualquer custo. Ainda que estivesse nos
planos de Deus que os cristãos sofressem por fazer o bem, era melhor assim do
que serem punidos por fazer o que é mal. Pedro está ensinando os cristãos a se
submeterem aos decretos divinos, ainda que isso envolva sofrimento.
Há outras passagens bíblicas que se referem a essa vontade decretiva (Dn
4.35; Rm 9.19; 1 Co 4.19; Ef. 1.5, 11; Ap 4.11). Cabe, agora, fazermos algumas
observações sobre a vontade decretiva, em contraposição à vontade preceptiva.
Em primeiro lugar, diferentemente da vontade preceptiva, a decretiva sempre
é cumprida. O controle que Deus tem da história independe de nosso desejo de
submeter-nos a ele. Tanto ímpios quanto justos cumprem esta vontade. Até
quando fazem o mal, cumprem os seus decretos (At 4.27-28). Pelo fato dessa
vontade estar relacionada aos infalíveis decretos de Deus, ela sempre é
cumprida. Não há quem possa deter ou impedir o Senhor. Se a vontade
preceptiva se refere às coisas como elas deveriam ser, a vontade decretiva se
refere às coisas como elas, de fato, são.
Em segundo lugar, essa vontade geralmente é secreta. Enquanto os preceitos
são todos revelados, apenas uma pequena fração dos decretos nos é revelada.
Deus revelou certos decretos no AT que já se cumpriram e revelou outros no NT,
acerca da vinda de Jesus, que estão por se cumprir, mas a maior parte dos
decretos está escondida de nós. Como bem disse o teólogo holandês Wilhelmus
à Brakel (1635-1711), essa “vontade pode, frequentemente, ser percebida
somente em retrospecto”.53 Isto é, só quando ela acontece é que sabemos que
um determinado acontecimento estava nos planos de Deus. Quando essa
vontade é revelada, é para que reconheçamos a soberania do Senhor no
momento em que o evento ocorrer (ex: profecias escatológicas na Bíblia).
Em terceiro lugar, semelhantemente à vontade preceptiva, essa vontade nos
fala muito acerca do nosso Guia. Enquanto os preceitos do Senhor revelam o seu
caráter, seus decretos revelam seu poder, sua justiça, sua onisciência, e seu
cuidado para conosco. “Deus administra nossa vida nos mínimos detalhes. Ele
não planeja apenas um ou outro evento mais importante. Glória a Deus, pois
ele conhece o menor dos pardais e o cabelo mais grisalho. Nenhum dos dois cai
sem que nosso Pai celestial o queira [cf. Mt 10.29-30].”54 Os atributos de Deus e
os caminhos da sua providência são a parte da história bíblica que podemos
aplicar às nossas decisões. Sinclair Ferguson escreve: “É o conhecimento de
Deus e dos Seus caminhos que, finalmente, nos dá estabilidade na prática da
Sua vontade.”55 Ferguson está dizendo que o pouco que conhecemos da vontade
decretiva dá-nos segurança de que o caminho da vontade preceptiva é um
caminho seguro.
A distinção que acabamos de explicar, entre vontade preceptiva e vontade
decretiva, ajuda-nos a responder, de forma mais cuidadosa, às perguntas feitas
no início do capítulo 1. Você sempre cumpre a vontade de Deus? A preceptiva não,
a decretiva sim. Você sabe a vontade de Deus para a sua vida? Sempre? Deveria
conhecer a vontade preceptiva toda, mas falho em não conhecer seus diferentes
mandamentos. Em que área você acha que os crentes têm mais dificuldade em saber
a vontade de Deus? Talvez alguém dissesse: ‘em áreas que Deus não revelou em
sua Palavra’. É verdade que somos limitados em saber os decretos de Deus
específicos para a nossa vida. Porém, a expectativa errada está em achar que
Deus quer nos revelar tais detalhes. Isso nos leva à próxima distinção.

Vontade Secreta versus Vontade Revelada

A maioria dos livros teológicos contemporâneos falam da vontade preceptiva


e da vontade decretiva (ponderam sobre a direção como uma possível terceira
vontade), mas há outra distinção que não é comum nos livros modernos sobre a
vontade de Deus, mas que ajuda bastante a reforçar o ponto que estamos
trabalhando: vontade secreta versus vontade revelada. Essa distinção comum aos
teólogos do passado é semelhante à distinção anterior, mas não é idêntica.
A vontade secreta diz respeito aos decretos de Deus, mas, como já vimos,
Deus revelou alguns de seus decretos. O importante é destacar que a vontade
secreta não compete a nós conhecermos. Tudo que Deus queria que nós
soubéssemos (os preceitos de vida) ele nos revelou em sua Palavra. Desejar
conhecer o que está além da Bíblia é dizer que ela não é suficiente para guiar
nossas vidas.
Pouco antes de o povo entrar na terra prometida, ao concluir sua revisão de
toda a lei de Deus revelada a Israel, Moisés escreveu: “As coisas encobertas
pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a
nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.”
(Deuteronômio 29.29). Moisés proíbe o povo de, curiosamente, perscrutar os
desígnios secretos de Deus e dizer qualquer coisa acerca deles. Por outro lado,
temos que conhecer e fazer conhecido aquilo que foi revelado para a nossa
conduta (preceitos).
Tiago falou sobre coisas que nós sabemos que estão escondidas de nós, mas
nem sempre atentamos a isso. “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã,
iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos
lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas,
como neblina que aparece e logo se dissipa.” (Tiago 4.14). Tiago está se
referindo aos decretos de Deus, sobre as nossas vidas, que nos são
desconhecidos. Logo após ele escrever “vós não sabeis o que sucederá amanhã”,
ele não diz ‘mas procurem saber’. Não! Nós sabemos que é desconhecido e é
para ficar desconhecido.
Essa vontade é insondável (Rm 11.33-34). Há coisas que Deus não nos
permite conhecer (At 1.7; Mc 13.32). A Bíblia proíbe procurarmos saber o
amanhã através de meios pagãos (cartomantes, adivinhos, astrologia, etc.), mas
também não promete dar-nos conhecimento do mesmo através de meios
“cristãos” (sonhos, falar ao nosso coração, etc.). Não devemos buscar o que
Deus não intentou revelar. Fazê-lo é agir como os descrentes, inquietos por
conhecer o amanhã (ex: horóscopo). A lógica de muitos crentes é defeituosa.
Eles pensam assim: ‘Se Deus tem um plano, ele quer que eu descubra.’ Veja
como Bruce Waltke e Jerry MacGregor respondem a essa expectativa: “O
simples fato de Deus ter um plano não significa que ele, obrigatoriamente,
tenha intenção de compartilhar esse plano com você; de fato, a mensagem do
livro de Jó, em parte, é que Deus, em sua soberania, pode permitir que coisas
terríveis lhe aconteçam e talvez, você nunca saiba o motivo.”56
Meu pai conta que um presbítero da igreja em que ele cresceu, homem muito
piedoso e amado pela igreja, adoeceu de câncer na garganta e, assim,
entristeceu a muitos. Um dia, ele sonhou que Deus havia pincelado a sua
garganta, curando-o. Ele testemunhou seu sonho na igreja de forma vibrante e
a igreja se regozijou muitíssimo com ele. Um mês depois ele faleceu, de câncer.
Essa história me ensinou que, às vezes, desejamos que certas coisas sejam os
planos de Deus para nossas vidas, quando, na verdade, não o são. Podemos ser
enganados por nós mesmos a pensar que sabemos as portas que o Senhor irá
nos abrir quando, de fato, ele nunca intentou revelar-nos. Mas por que ele não
nos mostra os seus planos para as nossas vidas? Ele não quer que vivamos por
vista, mas por fé.
A vontade revelada, por outro lado, é para que nós a conheçamos bem. As
suas diretrizes de vida não são escondidas de nós. Deus espera que o
obedeçamos, mas ele regula como deve ser o nosso caminhar. A maravilha está
em saber que a vontade revelada abrange não só a lei, mas também o evangelho.
Isto é, Deus não revela só o que ele quer de nós (preceito), mas também o que
ele quer para nós (promessa).
Paulo deixa muito claro que o que Deus quer de nós está explícito. Ele ordena
aos Efésios: “procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Ef 5.17). Se
devemos procurar compreender, é porque essa vontade pode e deve ser
conhecida. Aos Tessalonicenses, ele diz qual é esta vontade com todas as letras:
“Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da
prostituição” (1 Ts 4.3).
A vontade revelada cabe a você conhecer. Procure conhecer o que Deus
“quer” (preceito) para a sua vida. Conheça bem as Escrituras, para que você
saiba aplicá-la para todas as áreas da sua vida. Esta “vontade”, Deus exige que
eu conheça. Conhecer esta vontade evitará perguntas tolas, do tipo: ‘Será que
isso é pecado?’. Quem faz perguntas dessa natureza (Será que é vontade de
Deus que eu proceda corretamente no namoro? Ou que eu me divorcie? Será
que é vontade de Deus que eu ame aquele meu inimigo? Será que Deus vai me
perdoar se eu me juntar com o meu namorado?) demonstra desconhecimento
da vontade revelada de Deus.
Kevin DeYoung faz uma aplicação que demonstra como temos invertido a
ordem das coisas: “Somos obcecados pelas coisas sobre as quais Deus não se
manifestou e talvez nunca se manifeste. Ao mesmo tempo, gastamos pouco
tempo em todas as coisas que Deus já nos revelou na Bíblia.”57 Não podemos
sucumbir a esse desequilíbrio de se preocupar mais com o que Deus não
intentou revelar do que com o que ele já revelou.58

51. John Frame me parece confundir um pouco, quando afirma que se há uma decisão mais sábia do que a
outra, então é correto dizer que a escolha sábia é a vontade preceptiva de Deus. Para Frame, a vontade
preceptiva de Deus inclui não somente as palavras da própria Escritura, mas as boas consequências
necessárias da mesma. John Frame, The Doctrine of God (Phillipsburg: P&R, 2002), p. 540-541. Julgo que o
erro está em achar que nossa decisão é um preceito. Na verdade, a Escritura preceitua que busquemos
sabedoria, mas escolher entre uma fruta mais ácida ou menos ácida pode trazer algum mal estar, porém
não deve ser classificada como quebra de preceito. A Confissão de Fé de Westminster (I.vi) fala de princípios
bíblicos dos quais sacamos a direção divina para áreas não explicitadas nas Escrituras, mas a Confissão não
iguala preceito explicitamente revelado com dedução subjetivamente deduzida.
52. Para um resumo deste pacto inter-trinitário realizado na eternidade, cf. Heber Carlos de Campos, As
Duas Naturezas do Redentor (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), p. 51-98.
53. Brakel, The Christian’s Reasonable Service vol. 1, p. 113.
54. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 22.
55. Ferguson, Sinclair. Descobrindo a Vontade de Deus (São Paulo: PES, 1997), p. 9.
56. Bruce Waltke, e Jerry MacGregor. Conhecendo a Vontade de Deus para as decisões da vida (São Paulo:
Cultura Cristã, 2001), p. 22.
57. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 49.
58. “Se nossa meta é penetrar nos aspectos ocultos de Sua vontade, então embarcamos numa tarefa de
tolos. Estamos tentando o impossível e indo atrás do intocável. Tal meta não é somente um ato de tolice,
mas também um ato de presunção. Há um sentido muito real em que a vontade secreta do conselho
secreto de Deus não é da nossa conta, e está fora dos limites de nossas investigações especulativas... Aos
cristãos é permitido, num sentido, tentar discernir a vontade de Deus, por meio da iluminação pelo
Espírito Santo, e por confirmação pelas circunstâncias de que estamos fazendo a coisa certa. Contudo,
como vamos descobrir, a procura pela direção providencial deve sempre estar subordinada a nosso estudo
da vontade revelada de Deus.” R. C. SPROUL, Discípulos Hoje (São Paulo: Cultura Cristã, 1998), p. 161.
IV
Aplicando as distinções teológicas

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas
transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus.”
Rm 12.1-2

Há um preconceito moderno muito comum contra teologia, mais


especificamente, contra teologia sistemática. Em algumas igrejas, os membros
são ‘doutrinados’ (que ironia!) a pensar que teologia faz mal, pois a letra mata
(mal uso de 2 Co 3.6). Já em contextos teológicos, o preconceito comum é de
que teologia sistemática é uma área especulativa da teologia.
Antes desse preconceito moderno, porém, a teologia reformada procurava
ser prática e aplicável à vida dos crentes. O grande puritano William Ames
(1576-1633), em seu famoso manual de teologia, definiu a teologia como “a
doutrina ou o ensino de viver para Deus”.59 Gisbertus Voetius (1589-1676),
considerado por alguns o maior teólogo holandês do século 17, era conhecido
por aliar conhecimento e piedade.60 O Catecismo de Heidelberg (1563), uma
das mais significativas exposições da fé reformada do século 16, é um atestado
de quão pastoral pode ser toda a teologia. Portanto, desde os primórdios da fé
reformada, houve um interesse em destacar a praticidade da teologia
sistemática.
O propósito desse capítulo é começar a mostrar a praticidade da teologia. A
próxima parte do livro irá ainda além no aspecto prático, mas este capítulo visa
demonstrar como devemos responder à vontade preceptiva e a vontade
decretiva, contidas na vontade revelada.

“Procurai compreender qual a vontade do Senhor”

O texto de Efésios 5.17 traz uma ordenança. A Escritura ordena que


conheçamos a vontade de Deus para nós. Não pode haver indiferença. Esse é o
caminho para sermos sábios e remirmos o tempo. O que essa ordenança quer
dizer?
O contexto da passagem nos exorta a andarmos “não como néscios e sim
como sábios” (v. 15). O próximo contraste faz paralelo com este: “não vos
torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (v.
17). Se ‘não andar como néscio’ é sinônimo de ‘não se tornar insensato’, então a
segunda parte de cada contraste também podem ser vistas como sinônimas.
Como Calvino bem observa, “Paulo define sabedoria como entender qual é a
vontade do Senhor”.61 Isto significa que ‘sabedoria’ nas, Escrituras, tem um
caráter eminentemente moral.
Paulo queria que os Efésios conhecessem preceitos a fim de cumpri-los (Ef
6.6), não decretos reservados à soberania de Deus (Ef 1.5, 11). A ênfase está em
conhecer a vontade preceptiva. A própria Epístola aos Efésios é dividida de tal
forma que a vontade decretiva concernente à nossa salvação (capítulos 1 a 3)
seja a base cognitiva para que andemos em conformidade com essa salvação
(capítulos 4 a 6). Em outras palavras, Paulo descortina um pouco da vontade
decretiva de Deus, a fim de encorajar os efésios a obedecerem a vontade
preceptiva. Essa é a preocupação do apóstolo.
Os evangélicos contemporâneos têm errado por desejarem um vislumbre do
seu futuro pessoal. Parecemos mais interessados no nosso horóscopo do que em
nossa obediência. “Deus tem um plano específico para nossa vida, mas não é
isso que ele espera que adivinhemos antes de tomar uma decisão. Não estou
dizendo que Deus não nos ajuda a tomar decisões... É bom confiar na vontade
decretiva de Deus. Seguir sua vontade preceptiva é obedecer-lhe. Mas esperar
por sua vontade diretiva é apelar à confusão”.62 O que Kevin DeYoung está
dizendo é que não devemos nos preocupar com uma terceira vontade misteriosa
de Deus para a nossa vida. Eu prefiro explicar que o nosso problema não é
desejar conhecer uma terceira vontade, mas perscrutar os planos ou decretos de
Deus, que fazem parte de sua vontade secreta.
Ao invés de curiosidade ímpia acerca dos decretos de Deus para nossa vida,
devemos nos aplicar à prática da piedade. Temos que nos preocupar em termos
um coração mais parecido com o do Senhor, para que os nossos pensamentos,
desejos e emoções sejam parecidos com os dele (At 13.22; 1 Co 2.16; 2 Co 10.5;
Fp 2.5-11). Quando nossos desejos são os dele, nós agradamos ao Senhor e ele,
naturalmente, satisfaz os nossos desejos (Sl 37.4; Pv 16.3) que são iguais aos
dele. Em lugar de descobrirmos a vontade divina para, então, nos entregarmos
a Deus, a Escritura nos ordena a nos oferecermos a Deus para, então,
experimentarmos como a vontade de Deus é boa e agradável (Rm 12.1-2).
Não é verdade que Deus só se agrada do caminho espinhoso. Às vezes, temos
medo de escolher o caminho mais confortável por achar não provir de Deus.
Não é, necessariamente, assim. Certa vez, um pastor parente meu expressou
sua dúvida entre dois campos ministeriais e estava mais propenso para aquele
que era mais árduo. Expressei a ele que nem sempre o mais difícil é o que agrada
a Deus. Deus tem prazer em satisfazer os desejos daqueles que o amam.
Por outro lado, muitos dos nossos desejos não são atendidos porque não
combinam com a vontade preceptiva de Deus (Jo 15.7; Tg 4.3). Nesses
momentos, o caminho sacrificial da cruz, onde dizemos ‘não’ para o nosso ‘eu’, é
o caminho mais agradável a Deus (Mt 16.24-25). O objetivo da vida cristã é
fazer nossa vontade mais e mais conformada à dele, isto é, nossos planos em
conformidade com os preceitos dele.

Submissão à vontade soberana de Deus

Quando estamos buscando conhecer algo que Deus não promete nos revelar
antecipadamente (os decretos de Deus sobre a nossa vida, especificamente),
queremos ter um grau de controle sobre o destino de nossa caminhada.
Queremos conhecimento antecipado para não errarmos, termos uma vida livre
de tropeços e contratempos. Esse desejo por conhecer os planos de Deus é
resultado de nossa ansiedade. Tal sentimento é pecaminoso, pois almeja ter
controle sobre aquilo que Deus não nos dá o privilégio de controlar.
Em um sermão baseado em Filipenses 4:6, entitulado “Contra a preocupação
ansiosa”, o puritano David Clarkson (1622-1686) falou da submissão de nossa
vontade à vontade divina, referindo-se aos planos soberanos de Deus. Ele
pergunta:
“Por que somos tão preocupados e prontos a evitar as aflições e sofrimentos,
ou tão cuidadosos em escapar deles quando nos sobrevêm, senão porque
desejamos viver tranquila, agradável, e prosperamente? Essa é a nossa vontade,
e ela está tão fixada nisso que não consegue ceder a uma condição humilde e
aflita, embora seja a vontade de Deus fazê-lo conosco... Ó, que orgulho
horroroso se faz presente aqui, que rebelião contra a soberana vontade do
Altíssimo! Como ousamos antecipar a Deus em nossas preocupações, e nos
incomodar com pensamentos de realizar a nossa vontade, ainda que a vontade
de Deus seja contrária! Ó, humilhem-se para tal! Importunem o Senhor para
lhes dar corações de carne, onde uma submissão à vontade divina será mais
palatável e mais facilmente cumprida... Se você conseguir se submeter à sua
vontade em todas as coisas, você não terá preocupações com nada.”63
O que Clarkson está constatando é que a vontade decretiva de Deus inclui
aflições para o seu povo (1 Pe 3.17; 4.19) e não devemos nos revoltar em relação
a isso.
Quando Paulo expressa a certeza de que o plano de Deus para a vida dos seus
filhos é infalivelmente bom (Rm 8.28-30; Fp 1.6), ele está afirmando que todos
nós trilhamos o plano A de Deus para as nossas vidas. Ainda que as coisas
aparentem estar erradas, que o cristão não esteja experimentando o melhor de
Deus para a sua vida (essa era a ótica de Asafe, no início do Salmo 73), a
Escritura afirma que “todos nós... somos transformados, de glória em glória, na
sua própria imagem” (2 Co 3.18). E tal controle soberano de Deus sobre nossas
vidas não pode desanimar-nos de buscar uma vida de oração e boas obras. A
Escritura apresenta exatamente o contrário. É porque Deus pode todas as
coisas, que eu sei que minhas preces e meu trabalho não são vãos.
Outro puritano, John Flavel (1628-1691) aplica a doutrina da providência à
preocupação em descobrir a vontade de Deus. Ele começa afirmando a
importância de distinguir a vontade entre secreta e revelada, sendo que a
primeira é a regra das ações divinas e a segunda das ações humanas.64 No
passado, Deus revelou caminhos a homens como Samuel e Davi de forma
especial e peculiar, mas não devemos esperar o mesmo em nossos dias.65 É
verdade que Deus pode nos dar dicas de sua vontade pela sua providência, mas
a providência não é uma regra segura para descobrir a vontade de Deus. Afinal
de contas, há certos caminhos que levam ao sucesso, mas que são ímpios.66 Por
isso, a providência deve ser vista sempre em subserviência à Palavra de Deus e
aos ditames de nossa consciência. Às vezes, Deus demonstra a sua fidelidade
em atender nossas orações, mas, por vezes, períodos de aflição apontam para a
necessidade de nos humilharmos perante o Senhor e buscarmos força nele. A
sabedoria divina ensina-nos a distinguir as estações e compreender qual a nossa
postura em cada uma delas.67
Quando a providência é considerada humildemente, ela nos faz sábios. O
salmo 90 diz que aquele que reconhece a limitação de seus dias adquire coração
sábio (Sl 90.12). Aquele que observa o constante cuidado de Deus em
providenciar sustento ao seu povo (Sl 37.25), não vive ansioso por coisas que
preocupam ímpios (Mt 6.31-32). Em ambos os casos, na observação da
transitoriedade da vida e do sustento de nosso Pastor, não adquirimos
respostas de Deus para nossas decisões, mas tornamo-nos mais sábios para
tomá-las.
A próxima parte do livro visa apresentar esse caminho de sabedoria para a
tomada de decisões. Caminhemos por ele, passo a passo.

59. William Ames, The Marrow of Theology, trad. John Dykstra Eusden (Grand Rapids: Baker, 1997), p. 77.
60. Cf. Joel R. Beeke, “Gisbertus Voetius: Toward a Reformed Marriage of Knowledge and Piety”. In: Carl R.
Trueman, e R. S. Clark, Protestant Scholasticism: Essays in Reassessment (Carlisle: Paternoster, 1999), p.
227-243.
61. Calvino, Efésios, in loc.
62. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 27, 28-29.
63. David Clarkson, The Practical Works of David Clarkson vol. 2 (Edinburgh: The Banner of Truth Trust,
1988), 169-170.
64. John Flavel, The Mystery of Providence (Edinburgh: Banner of Truth, 1963), p. 185. Flavel aprofunda as
distinções, ao dizer que a vontade revelada pode ser manifesta a nós tanto em sua Palavra, quanto em suas
obras. A primeira é a sua vontade de mandamentos, e a segunda é vontade efetiva (quanto ao bem) ou
permissiva (quanto ao mal). Há variação também quanto à clareza das coisas reveladas e ao entendimento
das pessoas a quem é revelado.
65. “Mas agora todos estamos amarrados à permanente e ordinária regra da palavra escrita e não devemos
esperar quaisquer revelações extraordinárias de Deus. A forma como nós agora podemos conhecer a
vontade de Deus em relação à nós, em casos difíceis, é buscando e estudando as Escrituras, e onde não
encontramos alguma regra particular ou caso particular para guiar-nos nisso, então devemos aplicar regras
gerais e governar nossas vidas de acordo com a analogia e proporção que elas sustentam uma à outra.”
Flavel, The Mystery of Providence, p. 186.
66. “Nenhum sorriso ou sucesso da providência poderia nos encorajar a prosseguir nisso [em
contraposição a uma regra escriturística]; por outro lado, nenhum franzir ou desencorajamento da
providência deveria nos desanimar no caminho de nosso dever”. Flavel, The Mystery of Providence, p. 187.
67. Flavel, The Mystery of Providence, p. 189-190.
V
Orientação em áreas cinzas

“Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes
impropera; e ser-lhe-á concedida. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é
semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento.”
Tiago 1.5-6

A maioria dos crentes quer saber a vontade de Deus em áreas em que não há
certo ou errado, nem branco nem preto, moralmente falando. Porém, buscam a
vontade de Deus para tais decisões (profissionais, afetivas, ministeriais,
familiares) como se houvesse um caminho certo e um caminho errado. Já vimos
como essa preocupação não é sadia.
Agora, partiremos para a forma como a teologia nos ensina a tirar das
Escrituras diretrizes para as áreas nas quais ela não explicita o que fazer. Na
verdade, como a maioria de nossas decisões se refere a atitudes sobre as quais a
Bíblia não tem resposta clara, precisamos saber como agir. Não é verdade que
temos liberdade para fazermos o que quisermos, como se nossas escolhas não
expressassem o que é santo ou o que é pecaminoso. Contudo, precisamos saber
como é que a Escritura nos é útil para tais decisões.

As Escrituras e assuntos adiáfora

A palavra “adiáfora” significa ‘aquilo que nem é obrigatório, nem é proibido’,


‘aquilo que é moralmente indiferente’. Esse termo tem sido usado no meio
teológico, para se referir a casos em que não há certo ou errado, em si mesmos.
Estudar nesta ou naquela faculdade, morar nesta ou naquela cidade, comprar
esta ou aquela casa são opções que podem estar atreladas a motivações
pecaminosas ou não.
Todavia, em si mesmas, elas são consideradas moralmente neutras.
Portanto, não devemos nos martirizar por não sabermos qual faculdade, ou
qual emprego, dentre as opções que temos, é o centro da vontade de Deus para
as nossas vidas. Não há nada biblicamente proibitivo quanto a estudar em uma
faculdade particular ao invés de pública, ou de ser engenheiro ao invés de
pastor. Entretanto, a maioria dos crentes se aflige no desejo de ter alguma luz
de Deus para tais decisões. Por um lado, não espere por orientação “especial” da
parte do Senhor em áreas que ele já revelou a sua vontade. Isso seria
menosprezar as Escrituras. Por outro lado, não pense que ele lhe dará as
coordenadas para cada decisão específica de sua vida. As Escrituras são a norma
para que tomemos decisões a partir de princípios bíblicos.
A Confissão de Fé de Westminster (1646) é um documento reformado que
traduz essa preocupação com as seguintes palavras:

“Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a
salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e
claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas
revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária
a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na
palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum
às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela
prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.” (I.6)

De acordo com esse parágrafo, as questões adiáforas precisam ser avaliadas
“pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da
Palavra”. Isto é, a partir das diretrizes gerais da Escritura, os cristãos tomam
decisões pesando as circunstâncias e conforme a sabedoria do alto.
Como fazer isso? Como podemos utilizar os princípios gerais da Escritura
para decisões aparentemente indiferentes? Quero extrair um exemplo baseado
nas perguntas que Sinclair Ferguson68 suscita a partir de textos como 1 Co 6.9-
20 e 10.23-11.1. Esse meu exemplo levará em consideração as várias realidades
da vida no exterior, que eu presenciei enquanto morava nos Estados Unidos da
América. Vale lembrar que, no capítulo 6, Paulo está tratando de sexualidade
claramente imoral, enquanto no contexto do capítulo 10, Paulo estava tratando
do problema de poder ou não comer carnes sacrificadas a ídolos. Isto é, era
comum obter carnes em mercados que já haviam sido utilizadas em sacrifícios
pagãos. A pergunta que dividia partidos entre os coríntios era: pode ou não
pode? É pecado ou não comer essa carne? Vamos aplicar essa situação à vida
nos Estados Unidos.
A primeira pergunta que podemos levantar dessas passagens deve ser é lícito?
(1 Co 6.12; 10.23). Paulo proibira aos coríntios a participação em festivais
religiosos pagãos, onde o crente se faria participante da idolatria (1 Co 10.14-
22). Qualquer decisão precisa, primeiramente, passar pelo crivo da moralidade.
Se algo é ilícito, imoral, então não pode ser uma opção viável para cristãos.
Lembro-me de ouvir cristãos empolgados por trabalhar nos Estados Unidos da
América, que se iludiam (ou apenas se faziam de ingênuos) com o fato de terem
recebido visto por dez anos. Acontece que o visto era válido apenas para
múltiplas viagens curtas no prazo de dez anos, não para permanência contínua.
Portanto, era ilícito permanecer no país com o fim de levantar recursos
financeiros, por mais nobre que fosse a causa (ex: ajudar a família).
A segunda pergunta dever ser é benéfico para mim? Isto é, mesmo sendo lícito,
convém? Edifica? (1 Co 6.12; 10.23). Há certas coisas que não são erradas, mas
que não nos edificam. Lembro-me de um amigo pastor que fazia o seu mestrado
nos Estados Unidos, e se destacava a tal ponto, que seus professores e eu
também o encorajávamos a prosseguir os seus estudos, indo para o doutorado.
Sua resposta me impactou profundamente. Ele decidiu voltar ao Brasil logo
após o término do mestrado porque sentia muita falta de pastorear uma igreja
local. Meu amigo entendera que aquilo que edifica tem prioridade sobre a
oportunidade ‘imperdível’.
A terceira pergunta dever ser é escravizante? (1 Co 6.12b). Qualquer coisa
lícita que venha a nos escravizar (trabalho, estudo, família) toma o lugar de
Deus. Era muito comum presenciar brasileiros que apostaram as suas vidas no
sonho americano, e acabaram tornando-se escravos do trabalho. Tinham
jornadas muito mais longas do que qualquer emprego no Brasil e não tinham
tempo para uma vida tranquila. O lícito se tornara escravizante.
A quarta pergunta extraída das passagens deve ser é útil para outras pessoas?
(1 Co 10.24, 28-29, 32-33). Paulo estava explicando que não pecava aquele que
comia carne sacrificada a ídolo, mas cuja consciência não o acusava (1 Co 10.25-
26). Se, porém, estivesse diante de pessoas para as quais comer seria causa de
tropeço, então não deveria fazê-lo. Presenciei muitos alunos internacionais
deixando esposas e filhos para trás, com o propósito de obterem um grau de
uma escola americana conceituada. Tal atitude não poderia ser considerada
meramente “cultural”, como se fosse neutra. Afinal, o apóstolo proíbe o
delongado afastamento de marido e mulher (1 Co 7.5). Portanto, a decisão de
estudar nos Estados Unidos da América só seria correta, se fosse abençoadora
para as pessoas ao nosso redor.
A quinta e última pergunta seria glorifica ao Senhor? (1 Co 10.31). Essa
pergunta, aparentemente genérica, ensina-nos a colocar as nossas motivações
no devido lugar. Será que tomamos tal decisão porque honra ao Senhor?
Lembro-me com muita alegria de conhecer pessoas que estavam buscando o seu
grau no exterior, com a disposição de serem enviados para outra nação quando
terminassem; queriam ser missionários na área da educação teológica. Isto é,
não buscavam prestígio, mas ferramentas de serviço. E queriam estar onde
fossem úteis.
Tais perguntas são apenas ilustrações de como aplicamos a Palavra a
assuntos indiferentes. John Frame69 proporciona outro exemplo ao falar da
escolha entre morar em uma cidade ou outra. Quando temos a ansiedade por
descobrir o plano específico de Deus para nós, geralmente formulamos a
pergunta assim: “Senhor, em que cidade devo morar?” A ideia de ‘dever’
transmite a noção de que só há uma escolha que agrada a Deus. Mesmo que
haja uma escolha que seja mais santa, Deus não promete nos mostrar qual seja.
Ele quer que ponderemos em cima de sua Palavra. Frame sugere as seguintes
considerações:

Onde eu posso utilizar melhor os meus dons?


Qual local oferece maiores tentações, as quais devo evitar?
Que lugar oferece melhores oportunidades para crescimento cristão (uma
igreja saudável70)?

Observe que Frame chama a atenção para três áreas importantes da vida
cristã: serviço (1 Pe 4.11), mortificação (Cl 3.5), e crescimento (2 Pe 3.18). Ele
demonstra como a escolha de uma região para morar pode influenciar nossa
vida cristã como um todo. Por isso, devemos priorizar tais questionamentos
sobre outras preocupações: se a casa agradou a esposa (motivação: ausência de
conflito), se a escola para as crianças é de qualidade (motivação:
competitividade), se a moradia é próxima do trabalho, se eu não vou pegar
muito trânsito (motivação: conforto e qualidade de vida), etc. Não que esses
últimos questionamentos não sejam válidos. Porém, infelizmente a maioria dos
crentes só pondera sobre eles e nunca sobre as primeiras perguntas
apresentadas.

Liberdade de consciência

James Petty usa uma ilustração interessante para tratar dos assuntos
indiferentes. Ele apresenta três círculos concêntricos que demonstram os
diferentes graus de clareza nas Escrituras, com relação às nossas decisões.71 O
primeiro círculo, o mais central deles, contém as proibições explicitadas nas
Escrituras (não matar, não adulterar, não adorar ídolos, etc.). Estas são muito
claras e, portanto, qualquer decisão que tivermos que tomar, que envolva um
preceito como esse, não é tão difícil de discernir qual a vontade de Deus. Esses
não são assuntos adiáforos.
O segundo círculo diz respeito aos mandamentos positivos que envolvem
escolhas sobre como obedecê-los. “Por exemplo, quando eu chego em casa do
trabalho, eu preciso escolher se gasto algum tempo conversando com minha
esposa (“Maridos, amai as vossas esposas”) ou atender um telefonema urgente
de um aconselhado (“Apascentai o meu rebanho”). Eu não consigo fazer ambos
de uma vez. Se eu tentar, eu criarei, problemas em ambas as frentes.”72 Escolher
quanto tempo eu devo gastar com os meus filhos e quanto tempo eu me
envolvo no trabalho da igreja também se insere nesse segundo círculo. Ambas
as situações apresentam escolhas que expressam amor ao próximo, mas decidir
o que fazer envolve discernimento e priorização.
Os exemplos acima lidam com uma área com a qual quase todos os crentes se
afligem: a administração do tempo. São frequentes as reclamações, até entre
cristãos, de que falta tempo para fazer tudo que queremos fazer. Se alguém ama
ler, quer ler mais livros do que consegue fazê-lo. Se alguém gosta de música,
quer aprender mais instrumentos do que consegue praticar. Temos a impressão
de que nunca dá tempo de fazer o que planejamos. E quando você expressa a
sua frustração por não conseguir fazer tudo o que quer, alguém sempre brinca:
“o que você faz da meia noite às seis da manhã?”
Ao pensar assim, demonstramos que nossa expectativa para nós mesmos
está dissonante com o tempo que Deus nos disponibilizou.73 Nosso senso do
que devemos fazer é diferente do de Deus. Carecemos de maior discernimento
para decidirmos o que é possível fazer e o que não é. Essa é a sabedoria exigida
nas decisões relacionadas ao segundo círculo.
O terceiro círculo ilustrado por James Petty, que circunda os outros dois,
adentra a esfera da liberdade cristã. Esses são os assuntos indiferentes, nos
quais não há preferência de Deus quanto ao que escolhemos. Há decisões,
dentro dessa esfera, que ninguém discute se é vontade de Deus ou não (que par
de meias eu escolho usar, ou que tipo de cozinha internacional eu escolho para o
jantar). Porém, há outras práticas, dentro dessa terceira esfera, que sempre
foram motivo de controvérsia entre cristãos: consumir bebida alcoólica, dançar,
ouvir certas músicas, ocupar cargo político, etc. Uns sempre impuseram regras
para não praticá-las, outros tentaram defender sua legitimidade.
Em questões como essas, a Confissão de Fé de Westminster tinha uma
preocupação muito grande em salvaguardar a liberdade de consciência, para
assuntos que a Escritura não proibisse explicitamente:

“Só Deus é senhor da consciência, e ele deixou livre das doutrinas e mandamentos humanos que
em qualquer coisa, sejam contrários à sua palavra... Assim crer em tais doutrinas ou obedecer a
tais mandamentos como coisa de consciência é trair a verdadeira liberdade de consciência”
(XX.2).

De acordo com G. I. Williamson, esse trecho da confissão nos ensina que
Deus é o Senhor da consciência e sua Palavra é a regra, de que regras humanas
não devem prender a consciência, e que é pecaminoso sujeitar-se a tal
escravidão.74 O que isso nos ensina é que os escandalizados por tal prática não
podem tornar pecaminoso o que a Bíblia não coloca no primeiro círculo. Por
outro lado, quem não se escandaliza não pode praticar algo sem a preocupação
com o bem estar do escandalizado.
Há, portanto, duas lições no âmbito da liberdade de consciência que
precisamos refletir. A primeira é que não podemos ferir a liberdade alheia,
impondo regras que são reflexo de nossos padrões e costumes, antes que
princípios morais eternos. A segunda lição, muito bem destacada por Petty,75 é
que mesmo em áreas indiferentes, as motivações nunca são indiferentes.
Podemos pecar ao fazer algo indiferente, simplesmente porque nossa motivação
não é santa (escandalizar o próximo).
Percebe-se, assim, que precisamos ser cuidadosos com nossas decisões até
nessas áreas acinzentadas.

Começando a encontrar o caminho

A primeira parte do livro nos apresentou o dever de crescer no conhecimento


da vontade preceptiva e na submissão à vontade decretiva. Esse é o espírito da
oração paulina pelos colossenses: “não cessamos de orar por vós e de pedir que
transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e
entendimento espiritual; a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu
inteiro agrado...” (Cl 1.9-10). Conhecer plenamente a vontade de Deus implica
em ter uma vida moralmente digna do nome que carregamos; vontade de Deus
está relacionada à santidade. Quanto às áreas específicas da vida, alvo da maior
preocupação entre os evangélicos, Deus não nos revela os seus planos para a
nossa vida particular, porém não nos deixa sem norte.
Meu propósito até aqui não foi negar que Deus nos dirige em nossas
decisões. Deus tem prazer em nos instruir e aconselhar, quanto ao caminho a
ser seguido (Sl 32.8). Simplesmente questionei que esperar respostas prontas e
ditadas por Deus seja uma expectativa sadia. Ao invés disso, a linguagem bíblica
é de pedirmos ao Senhor por “sabedoria” (Tg 1.5). Precisamos de sabedoria para
saber se dar dinheiro a um pedinte na rua é sinônimo de acudir o necessitado
(Ef 4.28), para saber quando ficar calada é sinônimo de submissão da mulher ao
seu marido (1 Pe 3.1-2), como agir para que pais não levem seus filhos à ira (Ef
6.4), como servir ao senhor como ao Senhor (Cl 3.23), sem fazer do trabalho um
deus, quando responder ao insensato e quando não responder (Pv 26.4-5).
Enfim, sabedoria é necessária para que saibamos discernir o que agrada ao
Senhor, pois cristianismo não é um conjunto de regras moralistas. ‘Amar o
próximo como a si mesmo’ não é um mandamento que você consegue ticar ao
final do dia como se o tivesse cumprido plenamente.76 Amor é algo em que se
cresce em conhecimento e discernimento para sermos agradáveis a Deus (Fp
1.9-10).
Há muitas situações em que percebemos a necessidade de sabedoria. O que é
prioridade comprarmos na atual situação de nossa vida? Quanto posso gastar
em um imóvel ou carro sem demonstrar ganância? Que tipo de educação devo
dar ao meu filho? Como equilibrar o tempo com a esposa e filhos e as demandas
do trabalho? O que devo dizer, especificamente, a uma pessoa que busca meu
conselho em meio a muito sofrimento? Em todas essas situações procuramos
quais preceitos bíblicos são plausíveis e como aplicá-los àquela ocasião.
Sabedoria é a habilidade de aplicar os preceitos do Senhor às circunstâncias
da vida. O sábio é aquele que sabe tomar um mandamento bíblico e
particularizá-lo, isto é, mostrar a sua relevância para determinada situação
específica. “No Novo Testamento, Deus nunca nos chama para ‘buscar sua
vontade’, mas sim para buscar seu reino e fazer sua vontade. Temos de apagar do
nosso vocabulário a expressão não-bíblica e enganadora ‘descobrir a vontade de
Deus’. Em vez de falar sobre ‘buscar a vontade de Deus’, devemos falar em
seguir a direção de Deus.”77 Esse corretivo de Waltke e MacGregor é muito
pertinente diante da constante confusão de expressões.
O que o Novo Testamento nos ensina é que Deus nos dirige por intermédio
da sabedoria que vem dele. Sabedoria deve ser um pedido de oração constante,
não somente um clamor por socorro na hora tensa da decisão. Se até o homem
perfeito, que era Jesus, precisava crescer em sabedoria (Lc 2.40, 52), muito
mais nós precisamos crescer em sabedoria. James Petty destaca que:

“sabedoria é mais miraculosa e sobrenatural do que qualquer profecia ou revelação diretamente
inspirada. Nesta obra maravilhosa, Deus, progressivamente, transforma o pecador para pensar
como ele, com as prioridades, sensibilidades, propósitos, e o amor de Deus. Esse é o maior
milagre já realizado pelo nosso Senhor, embora não seja valorizado como tal por uma igreja
faminta por mais sinais e maravilhas tangíveis.”78

Nos próximos capítulos, vamos procurar compreender como é que Deus nos
concede sua sabedoria pelo Espírito Santo, como Deus nos transforma para
ficarmos mais parecidos com ele, inclusive para a hora da decisão. Após termos
construído o fundamento teológico desta questão, está na hora de erigirmos as
paredes práticas da sabedoria. Isto é, vamos investigar um pouco do que o Novo
Testamento nos diz acerca dos meios pelos quais essa sabedoria chega a nós.

68. Adaptadas do capítulo 5 de Sinclair Ferguson, Descobrindo a Vontade de Deus (São Paulo: PES, 1997).
69. Frame, The Doctrine of God, p. 540.
70. Lembro-me de uma família da igreja norte-americana que frequentei voltar da Flórida para Michigan
(extremos do país), deixando um bom emprego, principalmente por causa da igreja que julgavam não ter
encontrado equivalente.
71. Petty, Step By Step, p. 103-105.
72. Petty, Step By Step, p. 104.
73. Petty, Step By Step, p. 112.
74. G. I. Williamson, The Westminster Confession of Faith for Study Classes (Philadelphia: P&R, 1964), p.
149-150.
75. Petty, Step By Step, p. 129.
76.Petty, Step By Step, p. 138.
77. Waltke e MacGregor, Conhecendo a Vontade de Deus, p. 146.
78. Petty, Step By Step, p. 149.
VI
Perigos ao discenir a
vontade de Deus

“O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto...”


(Pv 12.15a)
“O insensato despreza a instrução de seu pai...”
(Pv 15.5a)
“Não é bom proceder sem refletir, e peca quem é precipitado.”
(Pv 19.2)

No último capítulo terminamos falando que não procuramos saber a vontade


encoberta do Senhor em áreas específicas da nossa vida, mas buscamos a
direção do Senhor. E nesta hora é que precisamos de sabedoria, descrita pelas
Escrituras como sendo preciosa, valiosa (Jó 28.12-28; Pv 3.13-18).
Ao falarmos de sabedoria, não estamos falando daqueles ditados que se
encontram em livrinhos vendidos em lojas de conveniências de postos ou
paradas de ônibus nas estradas. Nem estamos nos referindo, necessariamente,
à senhora de cabelo branco que já passou por muitas experiências de vida. A
sabedoria que vem de Deus não está, necessariamente, conectada à vivência de
uma pessoa, mas sim aos seus valores. O salmista escreveu: “Compreendo mais
do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos. Sou mais
prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos.” (Sl 119.99-100).
Existe sabedoria que é “terrena, animal, e demoníaca”. Porém, queremos
conhecer a sabedoria que “vem do alto” (cf. Tg 3.13-18).
O que é essa sabedoria que vem de Deus? Como descrevê-la? Tiago lista as
seguintes características: “primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente,
tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento.” (Tg
3.17). Tiago estava listando virtudes necessárias no relacionamento com o
próximo. Entretanto, creio ser necessário olhar para os livros de sabedoria na
Bíblia, principalmente Provérbios, para entendermos um pouco mais o que é
sabedoria.
Temer o Senhor é descrito tanto como o início do caminho de sabedoria
como seu resumo (Pv 1.7; 9.10; Ec 12.9-13). Ouvir a palavra do Senhor através
dos pais (Pv 1.8; 2.1; 3.1; 4.1-5, 10-11, 20; 5.1; 6.2; 7.1) também é sinal de
sabedoria. Isto significa que sabedoria não se busca sozinho, mas
comunitariamente. Quem busca sabedoria já se mostra sábio (Pv 4.7). A
sabedoria, nos livros de sabedoria, sempre tem um caráter moral. Não se trata
de simples conselhos ou ditados curiosos que ouvimos de nossas avós. É mais
do que isso. Sabedoria é retidão (Pv 2.6-7). Deus guia os retos (Sl 25.9, 12-14).
O Livro de Provérbios está repleto de aplicações da sabedoria para as relações
amorosas, relações com o trabalho, com o dinheiro, com a família, com as
tentações, com as fases da vida, etc. Isso significa que sabedoria não é mera
santidade eclesiástica, isto é, portar-se alinhado com os costumes do gueto
evangélico, mas é Escritura internalizada e aplicada a todas as situações da vida.
Essa breve descrição da sabedoria de Deus serve como preâmbulo para
constatar que há falta de sabedoria na atitude de cristãos contemporâneos
preocupados com a vontade de Deus para as suas vidas. Em geral, crentes não
têm buscado sabedoria. Mestres não têm ensinado muito sobre sabedoria,
ainda que a biblioteca chamada Bíblia tenha uma seção inteira de literatura
sapiencial (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos). Não
ouvimos muitos sermões ou estudos sobre o assunto. Não é um tópico no qual
se encontram títulos nas livrarias evangélicas. E se houver algum livro, é certo
que não é muito vendido. Livros sobre ‘poder’ vendem bem, mas sobre
‘sabedoria’ não.
Essa triste constatação comprova que a tentativa da maioria dos cristãos de
entender a vontade de Deus tem tomado caminhos errados, perigosos. Este
capítulo visa alertá-lo para tais caminhos tortuosos. Tratarei do perigo de nosso
contexto, de pressupostos, de métodos perigosos de se “ouvir” a vontade de
Deus e, por último, das consequências nefastas de tais métodos.

Contexto perigoso

Kevin DeYoung detectou duas características da sociedade contemporânea


que atrapalham os cristãos a compreenderem a vontade de Deus. Em primeiro
lugar, nossa geração tem demorado a se tornar adulta, tanto na maturidade quanto
nos estágios da vida. Antigamente, a maioria chegava aos 30 tendo passado pelas
principais etapas de transição para a vida adulta: sair de casa, conclusão dos
estudos, conquista da independência financeira, casamento e filhos. Hoje, a
maioria dos trintões ainda estão na “adultolescência”, hesitando em tomar
decisões. Por isso, DeYoung intitula o seu livro “Faça alguma coisa”. De acordo
com ele,79 uma das razões para essa indecisão é essa tal maturidade que nunca
chega. Os cristãos disfarçam a instabilidade com roupagem espiritual quando
dizem estar ‘buscando a vontade de Deus’, uma boa desculpa para
permanecerem indecisos. Alguns sofrem de timidez, ou de falta de iniciativa, e
acabam espiritualizando suas dificuldades em decidir.
A sociedade brasileira tem presenciado esse retardar do período de
imaturidade. Muitos homens feitos continuam a morar com os pais, quando
namoram acabam demorando vários anos para casar, e quando casam se julgam
despreparados para filhos. Na área profissional não é muito diferente. Uma
sociedade que privilegia os concursados tem despertado o interesse de muitos
jovens adultos a passarem anos de suas vidas de indefinição, em busca da
malfadada segurança do concurso público. Tal indefinição é mascarada pela
busca incessante por educação continuada, ou pós-graduação. Fazer uma
especialização, um mestrado e até um doutorado tem sido, para alguns, uma
forma de retardar a decisão de que rumo tomar.
Uma segunda razão levantada por DeYoung, que explica parcialmente tanta
hesitação em nossas dias, é a quantidade de opções que vêm como sinônimo de
liberdade, mas acabam escravizando. James Petty observa como até a revolução
industrial, escritores cristãos sempre abordaram como, ser guiado a Deus, ao
invés de ser guiado por Deus. Afinal, muitas das dúvidas que nós temos não
eram típicas de sua época. Casamentos eram mormente arranjados por família,
oportunidades de trabalho eram relacionadas ao emprego do pai ou (em poucas
ocasiões) relacionado ao custeio dos estudos pela nobreza. Todavia, quase
ninguém sonhava em subir na sociedade. A não ser que ponderasse acerca da
vida monástica, o típico adulto não tinha tantos dilemas na hora de escolher o
seu caminho.80 Veja como Kevin DeYoung descreve essa situação:

“Cem anos atrás, as pessoas nasciam e viviam, com raras exceções, no mesmo lugar. Elas faziam o
mesmo que a mãe ou o pai haviam feito. O mais provável, no caso dos homens, é que fossem
trabalhar no campo, enquanto as mulheres criavam os filhos (além de ajudar na fazenda)... Cem
anos atrás, os jovens se casavam com alguém de sua cidade, uma pessoa do pequeno contingente
de solteiros disponíveis fora do seu círculo familiar... Hoje é possível ir à escola em qualquer
lugar, especializar-se em uma centena de áreas, morar em praticamente qualquer parte, conhecer
pessoalmente milhares de pessoas solteiras e muitos milhões a mais pela internet. Temos uma
porção de lojas à nossa escolha, dezenas de restaurantes, centenas de carreiras e milhões de
alternativas à nossa disposição.”81

Tantas oportunidades, para alguns jovens, tornam-se asfixiantes: qual o
equilíbrio entre dedicar-se à carreira e reservar um tempo para a família? Devo
procurar mais estabilidade ou viajar um pouco para o exterior? Invisto na
minha carreira na empresa (o que eu já tenho, mas menos rentável) ou estudo
para prestar um concurso público (que eu ainda não conquistei, mas mais
rentável)?
Esses dois fenômenos de nossos dias foram levantados não como desculpa
para a indecisão de muitos cristãos, quanto a um caminho agradável a Deus.
Eles apenas servem para mostrar porque as ideias e os caminhos perigosos
apresentados a seguir têm encontrado guarida.

Pressuposto perigoso

É nesse contexto de indecisão que voltamos ao pressuposto com o qual


começamos o livro: “Deus tem um propósito para a sua vida”. Em si mesma,
essa frase é verdadeira. Afinal, Deus fez todas as coisas para determinados fins,
“até o perverso para o dia da calamidade” (Pv 16.4; veja Rm 9.19-24; 11.36). O
problema está no pressuposto por detrás do chavão mencionado acima. Crentes
o utilizam como sinal de coisas boas por vir. Quando alguém perde um
emprego, ou anseia encontrar uma esposa, ou almeja a cura de uma
enfermidade, frequentemente são aconselhados com frases do tipo “Deus tem
algo melhor para você” ou “Onde Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela”.
Muitos cristãos encorajam uns aos outros, dizendo que Deus lhe ama e tem um
plano maravilhoso para a sua vida; com isso, querem dizer que tudo há de dar
certo. É triste constatar que esse pressuposto não está presente apenas
naqueles que são alimentados com teologia da prosperidade.
Porém, a Bíblia não nos promete um emprego melhor que o anterior. Se fosse
assim, seria até bom perder o emprego várias vezes e subir de degrau a cada
mudança. Imagine quanto estaria ganhando ao final da carreria.
Deus também não promete cônjuge para todos os seus filhos. Lembro-me de
como, em minha juventude, eu anelava encontrar uma esposa. Durante todos
os anos de meu treinamento para o ministério pastoral não namorei ninguém,
mas lamentava não estar em um relacionamento e temia me tornar um pastor
solteiro, sujeito a muitas críticas. Foi nessa época que eu encontrei conforto no
seguinte verso: “A casa e os bens vêm como herança dos pais; mas do Senhor, a
esposa prudente” (Pv 19.14). Fiquei radiante com a expectativa de que Deus já
havia separado uma esposa prudente. Tal alegria durou pouco, até o dia em que
compartilhei o verso com o meu pai e recebi uma ducha de água fria: “Filho,
você sabe que esse verso não é uma promessa”. Eu sabia, mas não tinha
enxergado. Eu estava no seminário e sabia que Provérbios era uma compilação
de observações sobre a vida, retratando como as coisas geralmente acontecem,
mas não era composto de fórmulas matemáticas sobre como se obter algo (ex:
nem toda criança bem educada é sempre alegria para os seus pais). Sucumbi à
dura realidade de que Deus não promete aos seus filhos que todos irão se casar.
Assim como Deus não promete cura de todas as nossas enfermidades. O
propósito que o Senhor tem para as nossas vidas é redentor (Rm 8.28-30),
como já foi mencionado, não o livramento imediato de aflições. Paulo entendeu
isso, quando Deus lhe negou retirar o espinho na carne, pois queria aperfeiçoar
o Seu poder na fraqueza do apóstolo (2 Co 12.7-10).
Temos uma expectativa pagã de que a vida tem que ser perfeita, de que
devemos ter plena satisfação em tudo que fazemos (trabalho, casamento, etc.).
“Quando nos casamos, esperamos por uma vida sexual fantástica, um
relacionamento familiar maravilhoso, momentos de lazer recheados de
aventuras, experiências culturais e realização pessoal no trabalho.”82
Imaginamos nossa vida com a perfeição de um filme. Queremos conhecer a
vontade de Deus, pois queremos que Ele nos livre de todos os perigos. Ter a
expectativa de céu na terra é minimizar a esperança na vida futura, tão
enfatizada nas Escrituras. É bom que você quebre com essa expectativa pagã e
saiba que, por hora, Deus está mais interessado no seu caráter do que no seu
conforto.
O pressuposto perigoso é o que move crentes a buscarem uma “vontade
individual” de Deus para a sua vida, especificamente. Estar no centro da
vontade de Deus é descobrir esse plano até então secreto. Assim, acham que
diante de uma escolha (esta ou aquela faculdade), só uma das opções agrada ao
Senhor; isso gera indecisão e angústia. Na verdade, Deus não está preocupado
com a faculdade que você vai cursar. Com isto, não quero dizer que Deus não se
importa, mas que diante de escolhas permissíveis, o que importa é sua vida com
Deus. Deus está mais interessado na sua santidade do que no seu sucesso.

Métodos perigosos

Diante da ideia exposta acima, alguns métodos perigosos têm ganhado


aceitação entre cristãos que procuram discernir a vontade de Deus. Não estou
me referindo a métodos pentecostais que já foram abordados no primeiro
capítulo. Refiro-me a quatro métodos que se tornaram comuns para evangélicos
de igrejas conservadoras que não toleram sonhos, visões e novas revelações.
Veja por que eles são perigosos.

1. Portas abertas
Refiro-me às ocasiões ou oportunidades levantadas pela providência de
Deus, que são interpretadas por nós como sendo Deus confirmando algo para
fazermos. Dennis Downing ilustra bem essa perspectiva: “Se você quer seguir
algum caminho, namorar ou casar com uma determinada pessoa, ou alcançar
algum objetivo, se isto for a vontade de Deus, as portas vão abrir. Se não for,
você pode forçá-las, mas pode depois vir a se arrepender, devido ao que
encontrar do outro lado daquelas portas. Esteja sempre atento para a vontade
de Deus e para as portas abrindo ou fechando, de acordo com Sua vontade.”83
Peter Masters faz uma defesa desse método de direção com mais
embasamento bíblico. Enquanto extrai passos para a direção a partir do salmo
25, ele menciona, como um dos passos, “o indeferimento de Deus”. Se após
orarmos, buscarmos auxílio em sua Palavra, e pesarmos os prós e contras de
uma decisão, “e ainda chegarmos à conclusão errada, então Ele,
frequentemente, irá apontar o curso correto por intermédio de uma
intervenção direta.”84 Podemos pensar que um determinado emprego é ideal
para nós, mas a vaga é preenchida por outra pessoa. Ou podemos julgar que
uma determinada casa é apropriada para nós, mas o dono do imóvel acaba não
fechando negócio conosco. Baseado nos versos 8 e 12 do salmo 25, Masters
afirma que Deus abre e fecha portas, como forma de indeferir alguma decisão
nossa, com as circunstâncias.85 Todavia, não devemos pensar pietística e
presunçosamente que Deus intervenha diretamente em todas as questões
menores de nossa vida, mas devemos esperar essa direção nas grandes questões
da vida.86
Peter Masters está correto em ressaltar a providência de Deus moldando
nossas decisões, mas seu ensinamento contém algumas asseverações perigosas.
Primeiro, ele entende que após orarmos sinceramente, submetermo-nos ao
ensino da Palavra e enfim, ponderarmos sobre os efeitos de nossa decisão,
ainda assim nós podemos tomar a decisão “errada”. Acontece que não há nada
de moralmente errado no emprego ou na casa que vislumbrávamos. Não
devemos ter a noção de que uma de duas escolhas lícitas seja “errada”. Não é
preciso carregar o peso de ter que acertar alguma coisa, em uma área que o
Senhor nos deu liberdade para agirmos. Você não tem que acertar a faculdade
que Deus quer para você, ou acertar, no primeiro namoro de sua vida, a
namorada que será a sua esposa, nem acertar qual esporte você deva praticar
para manter a forma física. Deus te dá liberdade (dentro dos limites bíblicos) de
fazer escolhas sábias, não certas. A questão não é entre certo e errado.
Em segundo lugar, Masters não oferece diretrizes para avaliarmos as
circunstâncias, a fim de averiguar se Deus que está indeferindo ou não. Quando
apresenta as circunstâncias indeferindo uma decisão bíblica, Masters acaba
colocando a circunstâncias acima dos princípios da Palavra (em inglês, ele usa o
termo “overruling”). A providência provê oportunidades para traçarmos certos
rumos de nossa vida. As oportunidades podem ser moralmente corretas ou não.
Você pode ter uma oportunidade de bolsa para estudar no exterior, sem
qualquer problema legal ou moral. Porém, se algum familiar muito próximo fica
doente e exige que você fique no Brasil, isso não significa que Deus não quer
que você estude no exterior. Simplesmente, significa que agora não é o tempo
certo. Paulo, frequentemente, falava de Deus abrindo uma porta para pregar o
evangelho (1 Co 16.9; 2 Co 2.12; Cl 4.3), mas, certa vez, Deus não abriu a porta
para ele pregar na Ásia e o encaminhou à Macedônia (At 16.6-10). Isso não
significa que pregar que o evangelho na Ásia seja errado, ou que Deus não
queira que o evangelho fosse levado até lá. O ponto é que nós não podemos
achar que uma porta fechada seja sinônimo de que Deus não quer alguma coisa
de nós.
Providência abre e fecha portas, conforme a vontade decretiva de Deus,
aquela que em grande parte é escondida de nós. Ela altera nossos planos, mas
não nos comunica nada acerca do que é certo ou errado, do que devemos ou não
devemos fazer. Não é sábio deduzir que uma moça não se deve casar só porque
sofreu um acidente na semana do seu casamento, ou que uma igreja não deva
ter um veículo para assistir aos necessitados só porque o último foi roubado. A
providência de Deus não nos é explicada.87 Não podemos transformá-la em
revelação. Jesus ensina que um desastre sobre algumas pessoas não é evidência
de que as vítimas estavam em mais pecados do que os demais (Lc 13.1-5). Não
nos é permitido interpretar os intentos escondidos de Deus.
As oportunidades (portas abertas ou fechadas) precisam ser vistas como
testes do nosso caráter. Quando Jonas fugiu da missão divina, preferindo ir a
Jope para pegar um navio para Társis, as portas lhe foram abertas e ele subiu
no navio. “Providência oportuna, não?”, cutuca O. Palmer Robertson. Em
seguida, ele observa que essa, provavelmente, não era a época para navegar pelo
mar Mediterrâneo, além de embarcações para Társis serem raras. Em outras
palavras, as circunstâncias normalmente não seriam propícias. “Contudo, Jonas
mal havia chegado ao cais de Jope quando encontrou um navio pronto para
sair.” Então, Robertson conclui de forma prudente: “Cuidado ao interpretar as
circunstâncias providenciais de modo a contradizer as ordens explícitas do
Senhor.”88
Oportunidades para fazer o que você sabe ser correto não é problema (Ex:
uma bolsa para estudar no exterior), mas não considere portas abertas como
sinais certos da vontade de Deus. Uma carreira bem sucedida não é sinal de que
um casal deve postergar ter filhos. Uma ótima promoção, que te afaste da
família por muito tempo, não é evidência de que Deus está te dando uma
oportunidade imperdível.
Semelhantemente, portas fechadas não devem encorajar a inércia. Tanto o
fácil não significa que é agradável ao Senhor, como o difícil não é,
necessariamente, Deus proibindo (Ex: Dt 13.1-3; At 16.6-10). Deus pode
produzir perseverança com isso. Uma porta fechada pode ser tanto resposta
negativa do Senhor à sua oração, quanto um teste de sua fidelidade e firmeza.
Às vezes, Deus quer que passemos por problemas mesmo que obedeçamos a ele.
O apóstolo Paulo sabia que Deus tinha obstáculos reservados para ele, mesmo
obedecendo à orientação do Senhor (At 20.22-23). Ele poderia julgar um
desperdício passar anos preso em Jerusalém, o que de fato aconteceu, quando
poderia estar todo o tempo evangelizando a Europa. Mas Deus não nos diz o
porquê das frustrações e perdas como parte da vida dirigida. Assim sendo, não
se precipite em julgar errada a decisão que leva a problemas. Semelhantemente,
não julgue uma decisão correta só porque a vida está tranquila.
John Frame afirma que Deus pode nos guiar pelos seus decretos: “Pelos seus
decretos ele abre portas e as fecha, dando-nos algumas oportunidades e
privando-nos de outras, mas tais circunstâncias de nossas vidas não nos dizem, em
si mesmas, como devemos nos comportar.”89 Por isso, logo em seguida, ele
acrescenta a importância da Palavra e da sabedoria dela deduzida.

2. Testes
Não é incomum ouvir relatos de pessoas que tentaram manipular a
providência, ao sugerir que Deus fizesse alguma coisa para confirmar uma
decisão. Recentemente, ouvi uma história engraçada de um homem hoje
maduro, mas que no início da vida cristã estava com dificuldades de entender se
era vontade de Deus que ele se casasse com sua namorada. Certo dia, andando
na beira do rio, ele viu um pedaço de madeira que saía da água e ele pediu a
Deus que confirmasse o seu casamento, permitindo-lhe acertar uma pedra
naquele pedaço de madeira. Ele pegou três pequenas pedras e confiou no teste
que ele propôs ao Senhor. Na primeira tentativa, ele falhou. Na segunda, ele
também falhou. Então, antes de lançar a última pedra, ele desceu um pouco a
íngreme margem do rio para ficar o mais próximo possível do pedaço de
madeira e fez o último lançamento. Acertou. Quando indagado se ele não tinha
forçado a vontade de Deus, ele respondeu que, se Deus não quisesse aquele
casamento, teria feito ele despencar ribanceira abaixo.
Embora tal história desperte risos em alguns, há quem diga que existe base
bíblica para esse tipo de postura. Alguns autores tomam a história de Gideão
como sendo prescritiva, como sendo perfeitamente legítimo repetir o seu teste.
Conhecemos a história do novelo de lã que, a pedido de Gideão, primeiro ficou
molhado pelo orvalho enquanto ao redor a terra estava seca, e depois ficou
seco, quando a terra em redor ficou molhada de orvalho, (Jz 6.36-40). Contudo,
o pedido de Gideão por um sinal da parte do Senhor procedeu de medo e
incredulidade, pois Deus já fizera um sinal a ele (Jz 6.16-24).
Cuidado com exemplos do Livro de Juízes! Basta lembrar da tolice do voto de
Jefté (Jz 11.30-40). “Diante de um livro cujo tema é ‘cada um fazia o que lhe
parecia certo’ (Jz 21.25), é melhor pensar duas vezes antes de imitar as práticas
e as atitudes que encontramos em seus capítulos. O pedido de Gideão está, mais
provavelmente, para a covardia e a descrença do que para uma decisão sábia e
em conformidade com a fé.”90
Não só em Juízes, mas em toda Escritura, o padrão é que sinais eram dados
em tempo de incredulidade. Eles não eram sinônimos de que o povo estava
crente em Deus, mas duvidando a, tal ponto, que Deus interveio
miraculosamente (foi assim com Moisés, com Elias, com Acaz, etc.).
Outro texto, que parece favorecer a ideia de pedir um sinal a Deus, é a
história em que o servo de Abraão sai à procura de uma esposa para Isaque (Gn
24.12-27). No verso 14, o servo de Abraão ora ao Senhor assim: “dá-me, pois,
que a moça a quem eu disser: inclina o cântaro para que eu beba; e ela me
responder: Bebe, e darei ainda de beber aos teus camelos, seja a que designaste
para o teu servo Isaque; e nisso verei que usaste de bondade para com o meu
senhor.” Na sequência do texto, ele faz o “teste” e Rebeca faz exatamente como
ele havia orado. Funcionou, não funcionou? Porém, a reação do servo foi
prudente: “O homem a observava, em silêncio, atentamente, para saber se teria
o Senhor levado a bom termo a sua jornada ou não” (v. 20). Ele não julga a
confirmação da oração como um sinal certo, pois procurava outra coisa. Ele
sonda para saber se ela é da família de Abraão, conforme havia recebido
instruções (Gn 24.2-4). Quando ela confirma ser da família de Abraão, o servo
louva ao Senhor e diz: “o Senhor me guiou à casa dos parentes de meu senhor”
(v. 27). O que ele estava procurando? Ele não buscava um “sinal”. Embora a
providência o tenha dirigido, ele estava à procura de certas virtudes,
características: prestatividade e parentesco. Em outras palavras, ele procurava
uma moça que fosse serva e que fosse da mesma família.
Ainda hoje, recomendo a jovens que procurem virtudes, antes que sinais.
Que busquem um cônjuge pronto a servir e que seja da família da fé, como fez o
servo de Abraão. Não faça testes com Deus, pois isto não está prescrito nas
Escrituras como norma de vida para os cristãos de todas as épocas.91 Além
disso, testes estão sujeitos a interpretações condizentes com nossos desejos,
temores e características. O moço tímido, que confia em sinais, interpreta o
telefone ocupado como sinal para não sair com determinada moça. Já o
persistente, que realmente quer sair com aquela garota, liga quantas vezes
necessário, até ela atender; se ela atender, é vontade de Deus. O mesmo teste,
sujeito a interpretações subjetivas, não é confiável. É um método perigoso.

3. Versículos bíblicos aleatórios


Abrir a Bíblia aleatoriamente e assumir que os primeiros versículos lidos
sejam a palavra do Senhor, naquele momento, parece atitude de cristão que
frequenta igreja onde a Bíblia não é estudada. Porém, até evangélicos de igrejas
tradicionais se lembram da prática, agora ultrapassada, de usar a “caixinha de
promessas” – promessas individuais, recortadas da Escritura, para a meditação
diária. Hoje em dia, é mais comum recebermos e-mails ou mensagens de texto
no celular com algum versículo inspirativo. Em todos os casos, passados ou
presentes, vemos a prática da “bibliomancia”, isto é, usar a Bíblia como um
método de adivinhação.92 Mas a Bíblia não é uma loteria onde textos podem ser
retirados de seu contexto.
A Bíblia também não deve ser usada no rigor da letra, sem atentar para os
princípios morais que se aplicam a diversas situações. Há cristãos que se
interessam em saber onde é que a Bíblia fala de tatuagem ou de piercing, antes
de decidir se vão colocar ou não. Não há qualquer problema em procurar o que a
Bíblia diz sobre um determinado assunto, mas o espírito de muitos crentes é de
achar textos-prova para ver se pode ou não pode fazer algo. Quando se tem esse
espírito legalista, de querer enxergar algo explicitado na Escritura, você não irá
achar recomendações bíblicas para uma série de práticas modernas.
A Bíblia deve ser nossa constante bússola, não tanto como livro de consulta
para o momento da decisão, mas muito mais como o livro de nossa frequente
meditação, cujos princípios brotam no momento da decisão. Em Jonas 2, temos
o exemplo do profeta citando as Escrituras (vários trechos de Salmos) quando
sob tremenda aflição. Há também o exemplo de Jesus, que cita textos bíblicos
em resposta às tentações de Satanás (Mt 4.1-11) e de Neemias, que durante a
conversa com o rei persa se lembra de suplicar a Deus num instante (Ne 2.4-5).
Há momentos em que cristãos maduros levantam textos inesperados e os
conectam à nossa situação presente de forma impressionante. Conselheiros que
realmente conhecem a Bíblia fazem isso. O puritano John Flavel aconselha os
crentes a temerem ao Senhor certos de que Deus não esconde a sua mente de
tais almas (Sl 25.14; Pv 2.7; Jo 15.13-15; 16.13-14). Quanto mais estudamos a
Palavra e menos os interesses do mundo, mais a Palavra tem uma utilidade
diretiva quanto aos deveres a serem realizados e os perigos a serem evitados.93

4. Impressões
Esse último método, juntamente com o primeiro, me parece o mais comum
de todos. Frequentemente, crentes se veem dirigidos por Deus, internamente,
através de sentimentos. Pode ser um frio na barriga, “uma pulga atrás da
orelha”, como diz o ditado, o coração aquecido, a voz interior, uma compulsão
íntima, dentre tantas outras impressões que comunicam a ideia de que Deus
está confirmando algo a ser feito. As frases usadas são: “Deus está me falando”;
“eu senti no coração”; “eu orei e Deus confirmou no meu coração”. Tal intuição é
interpretada como “a voz do Espírito Santo”.94 Questioná-la seria questionar a
Deus. Dennis Downing ilustra essa perspectiva de direção sobrenatural quando
escreve: “O Cristão tem o Espírito Santo como guia. Precisamos pedir a ajuda
dEle. Ele provavelmente, não falará em meu ouvido. Mas ele tocará em meu
coração e operará em minha mente para me ajudar a conhecer a vontade de
Deus.”95 Peter Masters entende que, mesmo depois de seguir os passos da
oração, da análise bíblica, da ponderação prudente, da retirada de motivações
erradas, é preciso estar atento para sentir ou a segurança que Deus traz ao
coração ou a retirada da paz. Embora ele reconheça que esse passo seja muito
suscetível de manipulação, ele compreende ser importante sentir o alerta de
Deus em nosso coração.96
Parece haver um consenso em dizer que se não há paz, não se deve fazer algo.
A paz interior é interpretada como a ferramenta divina para a tomada de
decisões (é assim que interpretam Cl 3.15). Não é ruim considerar o papel de
nossa consciência em decisões morais, porém é perigoso que confiemos
cegamente nela, nas vezes em que temos paz para tomar certas atitudes. A falta
de paz pode ser medo pecaminoso que precisa ser vencido. Por exemplo, quando
alguém resolve não confrontar um irmão no erro (contrariando Mt 18.15-17)
porque não sente paz para fazê-lo. A presença de paz também pode ser sinal de
uma consciência cauterizada para certos pecados. Jonas é um exemplo bíblico
de quem estava com uma consciência tão embrutecida que ele até dormiu
durante enorme tempestade, mesmo após deliberada desobediência a Deus (Jn
1.4-5). Refletindo sobre a paz que Jonas tinha em seu coração, Palmer
Robertson alerta:

“Tome cuidado para não exagerar a importância dos sentimentos. Acabe alegrou-se quando
reivindicou, pela primeira vez, a propriedade de Nabote, até se encontrar com Elias. Saul sentiu-
se muito bem quando ofereceu sacrifícios antes da batalha, até se encontrar com Samuel.
Herodes sentiu-se muito contente ao tomar a esposa de seu irmão, até encontrar João Batista.
Não pense que sentimentos inconstantes determinam se você está ou não fazendo a vontade de
Deus.”97

Não devemos ter total confiança em nossos sentimentos subjetivos. Deus
pode dar convicção de um chamado ministerial, por exemplo, mas confiar na
subjetividade somente é perigoso. Tive vários colegas de seminário que tinham
lindas experiências de “chamados”, mas que mais tarde descobriram que não se
encaixavam no pastorado. Até quem visa responder o que constitui um
chamado, é vago em sua resposta, por falta de embasamento bíblico.98 Confiar
em impressões como vindas do Senhor é correr o risco de ouvir outras vozes,
que não a do Senhor. Eu tive o privilégio de entender que o pastorado era o meu
lugar não só porque me julguei direcionado (prefiro essa palavra do que
‘chamado’ – típica de quem ouviu uma convocação direta do Senhor) por Deus,
mas porque meus dons ministeriais confirmaram tal direcionamento.
Sentimentos podem até servir para você reavaliar uma situação, mas não
devem ser interpretados como a própria direção de Deus. Pergunte a si mesmo
se você está com medo porque a situação é nova, ou porque você já foi
machucado em situação semelhante antes. Sentimentos podem e devem fazer-
nos parar e pensar, mas não podem ser interpretados como método de
direcionamento divino.
Observe que eu chamei esses quatro métodos de “perigosos”, não de
“pecaminosos” ou “errados”. O perigo deles está não só no possível resultado
equivocado em ter usado o método para tomar uma decisão, mas no mal que ele
causa à sua vida espiritual.
Alguém pode alegar que Deus já o guiou de uma dessas formas descritas
acima e funcionou. Não estou afirmando que Deus não use tais métodos nunca,
mas se Ele o faz é porque tem misericórdia dos fracos, não porque somos
espirituais. Agora termino o capítulo com os males que esses métodos nos
causam.

Consequências perigosas

Vimos como os quatro métodos listados acima são perigosos porque não
combinam com a interpretação bíblica. E tudo aquilo que não segue a
orientação bíblica é danoso para a nossa vida cristã.
Em primeiro lugar, esses métodos são perigosos porque expressam preguiça
espiritual. Veja que observação pertinente de Bruce Waltke:

“Não exige nenhum esforço, pouca disciplina e quase nada de crescimento de caráter. Deus tem
um método diferente para nos guiar... A adivinhação pode ter uma aparência piedosa, mas na
verdade deve ser encarada como uma atitude profana, porque consiste em um atalho para a obra
de aperfeiçoamento do nosso caráter, efetuada pelo Espírito Santo. A adivinhação supõe que você
pode conhecer a vontade divina sem ter o coração de Deus e o seu Espírito. Entretanto, não se
pode discernir a mente de Deus sem um desenvolvimento do caráter... Em vez de pedir que nos
‘revele sua vontade’, pedimos que desenvolva seu caráter sábio em nossa vida.”99

O que essa citação nos ensina é que devemos desejar crescimento. Não
almeje receber palavra direta como crianças recebem ordens específicas de seus
pais. Pais se frustram, quando precisam dar ordens específicas a filhos mais
velhos. Para crianças pequenas temos que dizer que não pode riscar a mesa, só o
papel. Professor nenhum gosta de ter que dar esse tipo de ordem para jovens
adultos. Ditar-nos a escolha pela qual devemos decidir seria preservar nossa
infantilidade.
Em segundo lugar, a busca pela tal vontade de Deus estimula a ansiedade, algo
condenado por nosso Salvador (Mt 6.25-34). “Nosso fascínio pela vontade de
Deus quase sempre disfarça nossa falta de confiança em sua providência e em
suas promessas”, afirma Kevin DeYoung. “Não nos basta sua palavra de que ele
estará conosco; queremos que ele nos mostre o fim desde o começo e prove que
podemos confiar nele.”100 O espírito de ansiedade por detrás do desejo de saber
a vontade decretiva não é lícito, como já trabalhamos na primeira parte.
Em terceiro lugar, a utilização dos métodos descritos acima livra-nos da
responsabilidade por nossas decisões. Quando um pastor concorre a uma eleição
pastoral, e vence, mas depois desiste de assumir o cargo porque conseguiu a
outra igreja que ele tanto desejava, frequentemente, ele se desculpa dizendo
que Deus confirmou em seu coração. Ele diz algo do tipo: “Se dependesse de
mim, eu ficaria. Mas orei e ficou muito claro para mim que é da vontade do
Senhor que eu vá.” Outro exemplo comum é quando as pessoas dizem que se
um político está eleito é porque foi da vontade de Deus. Tal atitude quietista se
esquece de que os decretos de Deus não nos isentam de nossa responsabilidade
de votar bem. Se votarmos mal, seremos culpados por isso e sofreremos as
consequências de tal relaxo.
Em quarto e último lugar, a abordagem criticada acima nos escraviza no
subjetivismo. Quando tomamos alguns dos acontecimentos em Atos – sonhos,
visões (16.6-10; 18.9), direções internas do Espírito (8.29; 20.22-23) e profecias
– como normativos, tornamo-nos apegados à direção subjetiva. Isso é fechar os
olhos para o fato de que muitas decisões dos apóstolos eram resultado de
cuidadosa reflexão (At 15.28-29; 20.16; 1 Co 16.3-9).
Toda essa seção de crítica às práticas de evangélicos relacionadas à vontade
de Deus é necessária. Muitas vezes, é preciso ser destrutivo em nosso ensino,
antes de ensinar a verdade de Deus. O que se segue é a parte construtiva do
elemento prático da vontade de Deus. O que a Bíblia nos traz tem a ver com
crescimento gradual e constante. Não há atalhos para o caminho da sabedoria.
Até o próprio Jesus teve que crescer gradativamente em sabedoria (Lc 2.40, 52).
Ainda que as propostas que se seguem não sejam novas e revolucionárias para
você, é minha oração que você volte a se encantar com as mesmas verdades
bíblicas já ouvidas antes.
79. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 17.
80. Petty, Step By Step, p. 19.
81. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 37, 38.
82. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 35.
83. Dennis Downing, “Buscando a Vontade de Deus”, em http://www.iluminalma.com.br/vec/0602/17-
vontade.html
84. Masters, Steps for Guidance, p. 49.
85. Masters, Steps for Guidance, p. 50.
86. Masters, Steps for Guidance, p. 132-133.
87. Petty, Step By Step, p. 171.
88. O. Palmer Robertson, Jonas: um estudo sobre compaixão, a do Senhor e a sua (São Paulo: Cultura Cristã,
2011), p. 17.
89. Frame, The Doctrine of God, p. 541.
90. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 89.
91. Existe a prática de lançar sortes no Antigo Testamento (Dt 33.8; Pv 16.33) e no Novo Testamento (Lc
1.9; At 1.15-26), mas não depois de Pentecostes. Vivemos hoje guiados pelo Espírito que nos conduz à
toda verdade, não miraculosamente, mas relembrando o que Jesus ensinou (Jo 16.13-14), isto é, o que
está registrado nos evangelhos.
92. Kevin DeYoung narra um acontecimento com o compositor de hinos John Newton (1725-1807) em
que aprendeu a não usar a Bíblia aleatoriamente. A história desse compositor do século XVIII mostra que
esse problema é antigo. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 90-91.
93. Flavel, The Mystery of Providence, p. 188.
94. Textos que apresentam uma direção sobrenatural do Espírito (At 8.29; 10.19-20; 13.2; 21.4, 11-14) são
tomados como prescritivos por aqueles que têm uma teologia mais carismática. Todavia, até os que não
têm tal teologia hesitam em questionar um chamado para o ministério, pois assumem tal chamado
subjetivo como autoritativo. A direção do Espírito conforme as epístolas (Rm 8.14; Gl 5.18), textos que
prescrevem a conduta cristã de todas as épocas, diz respeito a decisões morais, decisões em relação ao que
é pecaminoso e o que é santo. Veja Friesen e Maxson, Como Descobrir e Fazer a Vontade de Deus, p. 125-127.
Deixar de prosseguir ao ministério pastoral em si não é pecaminoso, mas deixar de servir ao Senhor o é.
Optar pelo emprego que paga melhor não é em si mesmo pecaminoso, mas deixar de usar o dinheiro com
mordomia o é.
95. Dennis Downing, “Buscando a Vontade de Deus”, em http://www.iluminalma.com.br/vec/0602/17-
vontade.html
96. Masters, Steps for Guidance, p. 51-53.
97. Robertson, Jonas, p. 19-20.
98. Cf. Orr, How to Know the Will of God for your life, p. 19.
99. Waltke e MacGregor, Conhecendo a Vontade de Deus, p. 52, 60, 91.
100. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 51.
VII
Buscando a
direção do Senhor

“Porque o meu povo é gente falta de conselhos, e neles não há entendimento. Tomara fossem eles
sábios! Então, entenderiam isto e atentariam para o seu fim.”
Dt 32.28-29
“Faze-me, Senhor, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas. Guia-me na tua verdade e
ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia.”
Sl 25.4-5

Erramos ao pensar que direção é, essencialmente, inspiração íntima do


Espírito Santo sem a participação da Palavra escrita. Falamos do “sentir paz no
coração” como fator decisivo para essas, escolhas, e esquecemo-nos que nossas
“vozes” interiores nem sempre são expressão de uma escolha santa. Em
contrapartida, estamos expondo o caminho bíblico da sabedoria. Se pedimos ao
Senhor por sabedoria (Tg 1.5), devemos saber por que meios essa sabedoria
vem.
Essa não é uma tarefa fácil. Até bons livros têm seus escorregões. Waltke e
MacGregor apresentam um tipo de direção que, a meu ver, tem sérios
equívocos. Primeiro, eles incluem aspectos da providência divina e da
intervenção sobrenatural de Deus como passos da direção divina que, na
verdade, não dirigem nada. Tais aspectos da vontade decretiva de Deus nos
contam sobre Deus e nos abrem ou fecham portas, mas não são passos da
direção divina de Deus. Segundo, os autores estabelecem uma ordem que não
pode ser trocada. Eles dizem, por exemplo, que primeiro temos que,
obrigatoriamente, ouvir nossos desejos para depois ouvirmos os conselhos de
irmãos, e que refletir se faz sentido é a última parte do processo de direção.
Porém, além de tal ordem não poder ser provada biblicamente, faz mais sentido
nós entendermos a direção como um conjunto de diretrizes, não como passos
sequenciais. Tratam-se de ideias complementares, não uma ordem estabelecida
na Escritura.
Mas, nossa busca por caminhos de sabedoria também tem sinalizações
saudáveis. Vários autores se assemelham, em elementos gerais, acerca da busca
por sabedoria, sem deixar de ter suas particularidades. Blaine Smith diz que
precisamos considerar nossos desejos, habilidades, circunstâncias e conselhos
de outros.101 Baseado em Provérbios 2.1-3, Kevin DeYoung fala que a sabedoria
consiste em guardar os mandamentos (v. 1; leitura da Bíblia), dar ouvidos à
sabedoria (v. 2; ouvir bons conselhos) e clamar por entendimento (v. 3; orar a
Deus).102 James Petty fala de sete elementos sobre a tomada de decisão:
consagração, informação, súplica, consulta, meditação, decisão, e
expectativa.103 Em tom semelhante aos anteriores, quero propor orientações
para compreender a direção do Senhor, baseados nos ensinamentos de J. I.
Packer.104 Como já mencionei no final do capítulo anterior, não são propostas
revolucionárias. Todavia, eu as vejo como verdadeiras e, por isso, produz bom
fruto em nossa vida cristã. Julgo que os caminhos descritos a seguir são os
meios pelos quais a Bíblia diz que a sabedoria nos vem.

O caminho da reflexão

Vivemos em um período que tem perdido o valor da meditação bíblica.


Falamos de leitura diária da Bíblia, mas não de meditação constante na Bíblia.
Não temos por hábito trazer princípios para as nossas conversas regulares,
porque não pensamos sobre a aplicabilidade deles para o nosso dia a dia. O
justo do Antigo Testamento nem sempre tinha acesso constante à leitura do
texto bíblico, mas era seu dever meditar na lei do Senhor, de dia e de noite (Js
1.8; Sl 1.2). Em contrapartida, hoje temos acesso fácil às Escrituras no celular,
no tablet, ou em qualquer outro recurso tecnológico, mas falta-nos a prática de
meditar no texto sagrado. Tanto é que o conceito de meditação, para nós,
relembra a prática de religiões orientais, que ao invés de encher a mente do que
é puro e amável (Fp 4.8), procura esvaziar a mente.
Por conta desse contexto, parece estranho para alguns e desinteressante para
outros, que um dos textos mais conhecidos na Bíblia, que menciona a vontade
de Deus, trata do nosso “culto racional” e a renovação da nossa “mente” (Rm
12.1-2). Decidir, em conformidade com a palavra de Deus, tem tudo a ver com
exercícios da mente, com a ideia de ruminar em cima do texto sagrado,
ponderar sobre as situações com base em princípios bíblicos.
Por isso, sugiro que o primeiro caminho que devemos trilhar na busca por
sabedoria é o caminho da reflexão. É a falsa piedade, um supernaturalismo
prejudicial, que exige impressões interiores sem qualquer base racional. Tal
piedade sentimentalista não dá ouvidos à recomendação bíblica para refletir (Fp
4.8; Cl 3.2). Temos exemplos do rei Davi, sujeitando-se ao juízo racional da
comunidade de Israel (“Se bem vos parece”, 1 Cr 13.2), os apóstolos, se unindo
aos presbíteros para gerarem um parecer sobre problemas da igreja primitiva
(At 15.22), e até um pagão profere palavras sábias sobre ponderar para se
chegar à vontade de Deus (Ed 7.18). O apóstolo Paulo também faz planos e
pondera sobre as consequências de suas decisões sobre o trabalho missionário
(At 20.16; 1 Co 16.3-9). Portanto, parece frequente na Bíblia que servos de
Deus pararam para refletir, a fim de fazer a vontade de Deus.
Não caia na armadilha de achar que a direção divina virá, costumeiramente,
por meios extraordinários. Após o Pentecostes, a grande maioria das decisões
envolviam um processo racional de pesar os fatores lógicos. Veja o que diz
Sinclair Ferguson:

“Direção – saber a vontade de Deus para as nossas vidas – é muito mais uma questão de pensar do
que de sentir. Não devemos ser ‘insensatos’ (literalmente, ‘sem mente’, ‘sem razão’), exorta-nos
Paulo, mas sim entender qual é a vontade de Deus (Efésios 5.17)... Saber a vontade de Deus é
questão de julgamento. É por isso que não se trata de uma prática não espiritual, quando
enfrentamos modos alternativos de procedimento, registrar os prós e os contras da situação, isto
é, pôr as razões, possibilidades, problemas de uma decisão em contraste com a outra. Quando
começamos a avaliar estes fatores contra o pano de fundo de um conhecimento geral da vontade
do Senhor nas Escrituras, muitas vezes vemos nossas mentes serem levadas numa direção
particular.”105

O que Ferguson está afirmando é que nossas ponderações sobre as
vantagens e os desafios de cada opção, com base nos princípios gerais da
Escritura, nos inclina para decisões sábias. Deus nos fez seres pensantes e
deveríamos, por exemplo, pesar as consequências de nossas alternativas a longo
prazo, pesando os prós e os contras (Pv 19.2). É dito que George Mueller
registrou em seu diário tais decisões, baseadas em um balanço das vantagens e
desafios de cada opção.106
Lembro-me do testemunho do um irmão, nos Estados Unidos, sobre o
aconselhamento que ele teve com um pastor amigo meu. O irmão era casado
com uma mulher que tinha um filho do primeiro casamento, e juntos tiveram
cinco outros filhos. Após delongado período de desemprego, no qual ele sentia o
peso de não prover para sua numerosa família, lhe foi oferecida uma
oportunidade excelente de emprego em outro estado americano. A única coisa
que incomodava o casal era que, por conta do divórcio da mulher, o filho do
primeiro casamento não poderia deixar o estado em que eles moravam (nos
Estados Unidos há vários aspectos em que cada estado possui uma autonomia
não cerceada pela federação). Eles corriam o risco de perder a guarda do
menino. O que fazer? Ficar sem emprego, a fim de preservar um filho do outro
casamento no convívio deles, ou partir para o outro estado, a fim de sustentar
seus muitos filhos? O meu amigo pastor fez algo aparentemente simples: ele
conduziu o pai de família a escrever quais as vantagens e as desvantagens de
ficar e uma lista semelhante em relação a partir para o outro estado. O
testemunho daquele irmão foi que a indecisão se dissipou de forma
impressionante. Ele nunca experimentara uma ponderação tão esclarecedora, a
fim de compreender qual decisão tomar (o final da história vem mais adiante).
Ter a visão do que se espera lá na frente é sinal de sabedoria (Dt 32.29). Tal
sabedoria é resultado de maturidade e experiência espiritual. Por experiência
não me refiro ao idoso, necessariamente. É possível ser sábio ainda jovem
quando se tem a Palavra no coração, quando ela é fruto de nossa meditação (Sl
119.99-100).
Também podemos decidir conforme nossos dons e talentos. Quando os
apóstolos se viram assoberbados de funções na igreja primitiva, eles
conduziram o povo de Deus a escolher líderes que socorreriam aos necessitados,
a fim de que eles ficassem com a oração e a Palavra (At 6.2-4). Eles não fizeram
isso porque tinham interesses egoístas, mas entenderam onde seriam mais
úteis. Por isso, o parecer deles foi bem recebido pela igreja (v. 5). Quando
alguém diminui sua carga de trabalho para focar naquilo que faz de melhor, esse
alguém está tomando uma decisão sábia. Isso é agradável a Deus.
Aprenda a meditar nas Escrituras. A prática desse princípio gerará
sensibilidade para aplicar princípios da Escritura a uma determinada situação.

O caminho do aconselhamento

Sabedoria não é alcançada só por nossa própria investigação da Bíblia e


aplicação de seus princípios. Ela também chega até nós por intermédio da
orientação vinda de outros. Por isso, aprenda a aceitar conselhos. O livro de
Provérbios nos ensina que sábio é aquele que sabe ouvir, que valoriza a correção
e a admoestação.
Essa diretriz nos lembra da importância da igreja. A Escritura descreve
vários personagens marcantes em pares, pois foram sustento um ao outro
(Moisés e Josué, Davi e Jônatas, Elias e Eliseu, Jesus e os três apóstolos mais
chegados – Pedro, Tiago e João). O Novo Testamento está repleto de
mandamentos de reciprocidade, isto é, que contêm expressões como “uns aos
outros” ou “mutuamente” (Rm 12.10, 15, 16; Gl 5.13; 6.2; Ef 4.2; 5.21; Cl 3.13,
16; 1 Ts 5.11; Hb 10.24, dentre tantos outros). Deus resolveu nos conceder
sabedoria por intermédio da sua igreja, por mais complicada e cheia de
problemas que ela seja. Mesmo que estejamos aprendendo boa teologia e
participemos de uma igreja com pessoas de pouco estudo bíblico-teológico, não
podemos ter a soberba de achar que nossa igreja não possui pessoas sábias para
nos aconselhar. Todos estamos sujeitos a essa tentação, mas jovens estão
especialmente mais inclinados a ela, quando se convencem de que o que
aprenderam pela internet os faz mais sábios que os mais experientes.
O sábio não só conhece as Escrituras e a boa teologia, mas também é aberto
para conselhos (Dt 32.28). É imaturo e convencido o que dispensa conselhos
numa hora de decisões importantes. O livro de Provérbios está repleto de
conselhos para se buscar conselhos (Pv 1.5; 11.14; 12.15; 13.10; 15.22; 19.20;
20.18). Outros nos ajudam a desanuviar certas situações, quando estamos
confusos. Conselhos também podem demonstrar a tolice de nossa opção.
É claro que devemos saber a quem procurar. Provérbios afirma: “Quem anda
com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau”
(Pv 13.20). A Bíblia registra histórias de quem não soube a quem ouvir. Roboão
ouviu os seus jovens e tolos amigos em lugar dos sábios anciãos (1 Rs 12).
Pilatos ouviu a massa, quando libertou a Barrabás e ordenou a crucificação de
Cristo (a voz do povo nem sempre é a voz de Deus). Esses não foram sábios.
Escolher a quem ouvir já é sinal de sabedoria. Devemos aprender a buscar
pessoas maduras na fé, para serem nossos orientadores em momentos de
escolhas. Há sempre alguém que conheça a Bíblia, a natureza humana e nossas
próprias habilidades e limitações mais do que nós mesmos. Mesmo que não
possamos aceitar seu conselho, algum proveito tiraremos se pesarmos com
cuidado o que disserem (1 Ts 5.21).
Tais conselheiros podem ser os que exercem liderança na igreja (pastor,
presbítero, diácono, evangelista, obreiro, etc.). A Bíblia apresenta os líderes
como guias e devemos nos submeter ao conselho deles (1 Ts 5.12-13; Hb 13.7,
17). Todavia, outros além dos pastores podem ser nossos conselheiros. Pessoas
com o dom da exortação (Rm 12.8; Ef 4.11; At 4.36) são instrumentos do
Senhor para auxiliarem os líderes no pastoreio do rebanho.
Além disso, ao buscarmos o conselho de um irmão, estamos buscando
benção não só para nós, mas inclusive para aqueles que nos servem.
Aconselhamento é sadio para ambas as partes. Deus, frequentemente, abençoa
conselheiros lhes dando pessoas para os aconselhar.

O caminho da suspeita
Essa terceira orientação ressalta a importância de mantermos à vista o
engano que procede de nosso coração pecaminoso (Jr 17.9). Se, no caminho da
reflexão, calculamos os efeitos externos de uma decisão, no caminho da
suspeita nós olhamos para as motivações internas que nos impulsionam a
escolher uma coisa e não outra. Waltke e MacGregor parecem ingênuos, ao
instruírem seus leitores para a ideia de que se estiverem bem com Deus, eles
podem confiar em seus desejos.107 Por causa do pecado em nós, esse
direcionamento é perigoso. Por isso, aprenda a suspeitar de si mesmo. Até os
crentes ainda possuem emoções com base egoísta, escapista, auto-
engrandecedora, as quais não devem ser tomadas como direção. “Não sejas
sábio aos teus próprios olhos”, diz a sabedoria bíblica (Pv 3.7). “Aquele, pois,
que pensa estar em pé veja que não caia.” (1 Co 10.12).
A teologia reformada, em livros de aconselhamento bíblico, tem sido
bastante despertada a explorar o tema da idolatria do coração.108 Autores têm
sido sábios em apontar que a Escritura explora muitíssimo o pecado da
idolatria, pois não se trata apenas de um problema de Israel no Antigo
Testamento, ou dos católicos romanos hoje. Idolatria é um problema sempre
presente no coração do pecador (Ez 14.4-7). Ídolos do coração não são somente
as práticas sabidamente errôneas (ganância, lascívia, poder), mas até coisas
boas que se tornam más, porque são desejadas desordenadamente. Foi com essa
sensibilidade que James Petty comentou:

“O caminho da sabedoria é um estilo de vida de arrependimento de servir a deuses funcionais
como segurança, proteção, controle de situações, prazer, poder, tranquilidade, evitar dor, e
aprovação. Deus irá, sistematicamente, expor quaisquer rivais como esses em nossos corações
que nos afastam de amá-lo e adorá-lo. Devemos estar preparados para isso e até buscar tal
duplicidade em nossos corações.”109

Portanto, em qualquer tomada de decisão, precisamos passar por um raio-x
espiritual, a fim de termos nossos corações perscrutados. Quando Israel pediu
um rei, não fez uma coisa errada, em si mesma, mas que se apresentou de
forma pecaminosa, por causa da motivação: ser como as outras nações.
Precisamos nos perguntar por que “sentimos” que uma determinada atitude é
certa, e nos obrigar a dar as razões disso (caminho da reflexão) – e seremos
sábios se expusermos o caso diante de mais alguém, em cujo julgamento
confiamos, para dar seu veredicto sobre nossas razões (caminho do
aconselhamento).
A oração também há de nos ajudar. O livro dos Salmos contém constantes
súplicas por direção, (Sl 5.8; 25.5; 31.3). Paulo ora por direção em favor das
igrejas (Fp 1.9-10; Cl 1.9-10). Nossa oração precisa levar em consideração que
uma das maiores barreiras para decisões sábias e condizentes com o caráter e os
preceitos de Deus são nossas próprias motivações. Como nosso coração é
insondável para nós, precisamos que aquele que vê o coração (1 Sm 16.7) o
esquadrinhe (Jr 17.10).
O Salmo 139 traz um belo exemplo de quem não se esqueceu do caminho da
suspeita, em busca da direção divina. Davi começa o salmo afirmando que Deus
o sonda e o conhece no seu íntimo, a ponto de despertar espanto no salmista (v.
1-6). Deus não se aparta do seu servo, pois está presente em todo lugar (v. 7-
12). Davi também fica encantado com a engenharia genética do Criador, a
forma como ele foi formado (v. 13-18). Então surge a parte “negra” do salmo
que a maioria de nós não lembra. Davi tem expectativas de juízo para com os
inimigos de Deus (v. 19-20) e, quando se pergunta qual é sua postura em
relação aos inimigos, Davi afirma que os odeia com “ódio consumado” (v. 21-
22). Orar imprecatoriamente não é pecaminoso, mas a intensidade da oração de
Davi, naquele momento, o levou a terminar aquela canção com uma súplica:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus
pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho
eterno.” (v. 23-24). Davi sabe que até nas atividades eclesiásticas, até no
momento dos cânticos ou da oração, nosso coração pode ter motivações
impuras.

O caminho da espera

O último caminho é, talvez, o mais incomum de se encontrar em livros sobre


a vontade de Deus. Porém, é muito bíblico considerarmos a riqueza do que
significa esperar no Senhor (Sl 27.14; 37.7; 40.1; 42.5, 11; 62.1, 5). O Senhor é
bom para os que esperam nele (Lm 3.25-26).
Sinclair Ferguson diz que esperar é aprender a confiar no Guia. Quanto
melhor o conhecemos, mais entendemos sua direção. Deus não está interessado
apenas em que conheçamos a Sua vontade, intelectualmente. “Ele está muito
mais interessado em nossas vidas do que imaginamos. Sua vontade há de ser
operada em nós, não somente revelada a nós. Seu objetivo é a nossa
santificação”.110 Fazer-nos esperar, depender dele, é parte da aula. Deus não
tem tanta pressa quanto nós temos, e não é seu costume dar mais
esclarecimentos sobre o futuro do que precisamos para agir no presente, ou nos
guiar em mais de um passo de cada vez.
Vocês se lembram do pai de família norte-americano, que estava na dúvida
entre partir para o emprego em outro estado ou ficar desempregado onde
estava? Bem, sua decisão foi a de ficar e não correr o risco de perder o que havia
de mais importante, o filho do primeiro casamento de sua esposa que ele
tratava como seu próprio filho. Ele resolveu esperar. Ele não ficou sem tomar
decisão. O que ele decidiu foi esperar um pouco mais para definir um emprego.
Foi uma decisão ousada para quem não tinha nada em vista. Mas esperar em
Deus é confiar no Guia.
Não tome uma decisão que não provenha de fé, pois isso é pecaminoso (Rm
14.23). Quando em dúvida, não faça nada, continue esperando em Deus.
Quando houver necessidade de ação a luz virá.111

101. Smith, Knowing God’s Will, p. 176.


102. DeYoung, Faça Alguma Coisa, p. 99.
103. Petty, Step By Step, p. 189-261.
104. J. I. Packer, O Conhecimento de Deus (São Paulo: Mundo Cristão, 1996), p. 215-222.
105. Ferguson, Descobrindo a vontade de Deus, p. 33-34.
106. Orr, How to Know the Will of God for your life, p. 27.
107. Waltke e MacGregor, Conhecendo a Vontade de Deus, cap. 5.
108. Cf. David Powlison, Ídolos do Coração e Feira das Vaidades (Brasília: Refúgio, 1996).
109. Petty, Step By Step, p. 179.
110. Ferguson, Descobrindo a Vontade de Deus, p. 120.
111. Esse último princípio traz equilíbrio à ênfase de DeYoung de que você tem que agir. Afinal, o título do
seu livro é “Faça Alguma Coisa”.
VIII
Aplicando a grandes áreas de
decisões

“De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra. De
todo o coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos. Guardo no coração as tuas
palavras, para não pecar contra ti.”
Sl 119.9-11

Durante todo esse livro, defendi a tese de que não procuramos saber a
vontade encoberta do Senhor, mas buscamos a sua direção, para as situações
específicas de nossa vida. Para tal direção precisamos de sabedoria.
Quero terminar nossa caminhada juntos em busca de sabedoria, aplicando
os quatro princípios descritos no capítulo anterior. Resolvi aplicá-los a duas
importantes decisões na vida (profissão e casamento), mas eles são aplicáveis a
qualquer decisão, grande ou pequena. A razão de focar em profissão e
casamento é porque quase todo mundo passa por essas duas grandes decisões.
E quem já passou pelo casamento e não prevê mudança de emprego,
provavelmente convive com filhos ou outros que estão passando por essa fase.
Essas duas decisões são alvo da preocupação de vários cristãos. Por isso, estudá-
las servirá para exemplificar o que significa tomar uma decisão sábia, agradável
a Deus.
A forma como eu trabalharei com cada uma das duas decisões será idêntica.
Primeiramente, eu levantarei alguns pressupostos errados que nutrimos acerca
dessa área. A necessidade de falar dos pressupostos errados primeiro é a mesma
razão de eu ter escrito o capítulo seis deste livro, antes que o sete. Antes de
construir uma decisão sábia, é necessário erradicarmos os conceitos não
bíblicos de pensar sobre essas áreas. Em segundo lugar, após demolir edifícios
condenados, espero edificar sabiamente, ao levantar como cada um dos quatro
caminhos (reflexão, aconselhamento, suspeita, e espera) se aplica àquela
decisão.

Profissão

Pressupostos errados
Erroneamente, fomos ensinados a achar que há apenas uma profissão na
qual nós podemos nos encaixar. Testes vocacionais podem até listar algumas
possibilidades de profissões, mas o jovem só se lembra daquela primeira, em
que há mais chances de ele dar certo. A escolha por um curso universitário no
final da adolescência costuma ser dramática, pois é vista como a única atividade
profissional que o adolescente terá para o resto de sua vida. Toda a nossa
cultura profissional parece forçar-nos a crer que só há uma decisão certa.
Não percebemos as inconsistências desse posicionamento. Por um lado,
tendemos a criticar quem muda de faculdade três vezes, na tentativa de achar o
melhor encaixe, mas elogiamos quem começou vendendo bala, depois foi
ajudante de pedreiro, garçom, entregador de pizza, e hoje tem sua micro
empresa. Dizemos que este último batalhou e subiu na vida. Observe como
estamos preocupados só com o resultado final: sucesso profissional e
financeiro. Ninguém olha para trás e fala ao dono de micro empresa que ele
estava na profissão errada, quando era ajudante de pedreiro ou entregador de
pizza. Porém, o jovem que muda de faculdade é taxado como quem não sabe o
que quer da vida.
O que é que está acontecendo neste exemplo acima? Estamos sendo
lembrados que o espírito de trabalhador é mais importante do que a profissão
que ele exerce. Quem aos nossos olhos subiu na vida, provavelmente, foi
esforçado e trabalhador em cada profissão diferente que ele exerceu. Não há
nada de errado em mudarmos de profissão na vida. O jovem universitário, por
outro lado, tem que ser mais encorajado a trabalhar do que em achar o trabalho
ideal. Isso nos leva ao segundo pressuposto equivocado.
Trabalho não tem que ser necessariamente prazeroso. Não há nada incomum
em achar o trabalho árduo (Gn 3.17-19) – por isso se chama ‘trabalho’. Fomos
ludibriados pelos jogadores de futebol e artistas de televisão a pensar que é
possível ganhar milhões e fazer o que você gosta, se você for atrás do seu sonho.
Esse sonho, que alimenta ganância e prazer, é a raiz de muitas decepções
profissionais. É normal ficarmos cansados e frustrados com os desafios da
nossa profissão. Esse é o efeito da maldição proferida lá no Jardim do Éden.
Nossa satisfação não deve estar no prazer da profissão em si, mas no próprio
trabalhar. Não devemos procurar um trabalho que traga um propósito à nossa
vida, mas encontrar um propósito em qualquer trabalho. Todos assumimos
nossa profissão como nossa identidade (‘eu sou dentista’, ‘eu sou auxiliar
administrativo’, ‘eu sou mecânico’, ‘eu sou dona de casa’), quando na verdade
nossa identidade é sermos imagem e semelhança de Deus. Como imagem de
Deus, é condizente com nossa identidade nós desenvolvermos as
potencialidades da criação e sermos trabalhadores, como nosso Deus o foi (Gn
1.26-28; 2.15). Portanto, o nosso trabalho, qualquer que seja, é agradável a
Deus. A Reforma Protestante resgatou um senso de nobreza no trabalho (que
ela chamou de vocação) que se aplica a todas as profissões, contanto que não
sejam moralmente degradantes. Antes que pregador, Jesus era carpinteiro. Isso
está conectado com o último pressuposto errôneo que preciso destacar.
Não há razão para pensar que há um chamado interno para ser pastor,
diferente de outras profissões. Gary Friesen questiona o chamado íntimo e
místico que muitos dizem ter tido para os inclinar a cursar teologia e se tornar
pastor.112 A Escritura não apresenta base para tal chamado sobrenatural.
Friesen diz que o Novo Testamento fala de “desejo” ou “aspiração” ao ofício de
ministro.113 A pergunta deve ser: ‘por que você deseja ser separado para o
ministério pastoral?’ Essa pergunta suscita a oportunidade para trilharmos os
quatro caminhos de sabedoria, em aplicação à orientação profissional.

Reflexão
É saudável aprendermos a pesar os vários fatores envolvidos em uma escolha
profissional antes do que agir por impulso, ainda que pareça ser um impulso
espiritual. Analise as suas aptidões, gostos e oportunidades no mercado. Isso
pode parecer óbvio, mas nem sempre é. Tive que aconselhar um jovem a desistir
da ideia de deixar seu emprego, só porque não mais lhe oferecia grandes
desafios. Não que ter desafios seja errado, mas diante do seu desejo pelo novo e
desafiador ele se esquecera de que tinha habilidades especiais para fazer o que
ele fazia. Em outras palavras, ele era bom naquilo que fazia, até que gostava do
seu emprego e não tinha outras oportunidades concretas em vista. Por que
mudar?
Oportunidades também são um fator a ser considerado. Às vezes, achamos
que não é o que mais gostamos, mas há espaço para servir em uma área
deficitária. A saúde desse raciocínio é entender que trabalho tem mais a ver com
ser útil do que com ser realizado. Na verdade, nossa realização deve se dar, em
grande parte, ao sermos úteis para com outros.
Pesar as consequências de uma escolha também é um fator importante.
Quando surgir uma oportunidade de emprego, veja se há alguma imoralidade
no mesmo. Não me refiro apenas ao que é reconhecidamente imoral, mas
também ao tipo de escravidão exigida de muitas empresas. Veja ainda se o
emprego lhe afasta de sua família, ou de uma boa igreja. Já vimos, no capítulo
cinco, que é fundamental perguntarmos se nossa decisão é útil para as pessoas
ao nosso redor.
Pensar uma decisão profissional não é uma atitude secular, não espiritual,
como podem pensar alguns. Na verdade, crentes e descrentes devem pensar
acerca de sua escolha profissional. A diferença cristã está em sustentar valores e
pressupostos bíblicos que o norteiam na decisão, o que redunda em fazer a
vontade de Deus.

Aconselhamento
Ouça o que os outros têm a dizer sobre as mesmas coisas: aptidões, gostos e
oportunidades. A razão de ouvirmos outros na área profissional é porque nos
trazem à tona fatores que não havíamos considerado antes. O especialista da
área pode apontar caminhos a serem desbravados em seu campo de trabalho, o
colega de trabalho pode testificar de suas aptidões ou dificuldades, e sua família
pode ajudar você a enxergar características pessoais que influenciem no seu
desempenho profissional. As fontes são diferentes, mas todas podem ser úteis
se forem sábias.
É grande o número de homens que deseja ir para o ministério pastoral, mas
não atenta para a avaliação externa que os outros fazem dele mesmo. Às vezes,
são pessoas que não têm o crédito de sua igreja para o ensino e a liderança, mas
não arredam pé da ideia, porque se sentem chamados. Todavia, quando Paulo
instruiu a Timóteo a esse respeito (1 Tm 3.1-7), ele disse que aquele que
“almeja” o episcopado (se sente chamado), deve demonstrar uma série de
qualidades. Isto é, os irmãos precisam reconhecer isso nele. Até os que são de
fora da igreja são, em parte, trazidos como juízes desse desejo (v. 7). Note como
é importante testarmos nossos desejos com a orientação de outros.

Suspeita
A análise de terceiros mencionada acima pode ajudar você a analisar as suas
motivações. Mas você também tem que se perguntar o porquê de uma decisão.
Será que você quer ser autônomo porque não consegue se submeter aos seus
superiores? Será que você acha que tem que ser chefe porque sempre se julga ter
a melhor saída para cada situação na empresa? Será que o desejo de mudar de
emprego é movido apenas pela adrenalina do novo? Ore e peça ao Senhor que
perscrute o seu coração e ouça as pessoas sábias, questionando suas
motivações.
Um exemplo de motivação que merece suspeita é nosso anseio por realização
pessoal. Não estou dizendo que precisamos odiar nosso trabalho para fazermos
a vontade de Deus. Nada disso. Estou colocando a motivação de buscar um
emprego que traga realização pessoal como digno de avaliação. A maioria
esmagadora dos brasileiros não se julga realizado profissionalmente. Não se
ouve por aí “eu adoro fazer trabalho burocrático”, “eu amo analisar e carimbar a
mesma papelada todo dia”, “tenho prazer em carregar lixo todas as manhãs”.
No entanto, esses trabalhos são necessários.
Espera
Por último, é importante ressaltar que ter paciência é uma grande virtude, na
hora de fazer escolhas. Se não há clareza quanto à decisão, espere até quando
puder. Se os anos têm passado, e nenhuma grande oportunidade apareceu,
espere. Não que Deus vá abrir uma fantástica oportunidade de emprego para
todo aquele que espera. Não. A razão de esperar é porque esperar já é a aula.
Deus nos ensina muito, quando esperamos. A primeira lição é vencermos a
ansiedade. Depois, há muitas outras maneiras de aprender a confiar no Guia.

Casamento

Pressupostos errados
Lembro-me da história cômica de um jovem cristão que foi pedir autorização
ao pai da moça para poder namorá-la. Como o jovem estava muito nervoso e
sabia da fama do pai de ser duro para com pretendentes da filha, ele resolveu
impressionar o futuro sogro no seu discurso. “O meu interesse pela sua filha
tem fundamento bíblico. Salomão escreveu: ‘O que acha uma esposa acha o bem
e alcançou a benevolência do Senhor.’ (Pv 18.22).” O pai da moça, muito sagaz,
respondeu na mesma moeda: “Mas a Bíblia também diz na pena do apóstolo
Paulo: ‘quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor.’ (1 Co
7.38).” O jovem se viu numa sinuca de bico e resolveu responder de bate pronto:
“Mas Salomão entendia mais de casamento, do que Paulo”.
Essa anedota traz graça ao conceito de que ficar solteiro é ruim. Fomos
erroneamente treinados a estimular todos ao nosso redor a buscarem o
casamento e a fazermos chacota daqueles que não “encontram” alguém. Ou são
feios ou escolhem demais. Nossa miopia não consegue ver as virtudes de um
solteiro. Não louvamos aqueles que, mesmo sonhando com o casamento, não se
entregaram a descrentes, preferindo ficar sós. Não conseguimos enxergar a
vantagem e a honra do que o apóstolo Paulo falou acerca de solteiros servirem
desimpedidamente ao Senhor (1 Co 7.32-35). Ficar solteiro pode ser uma
escolha muito sábia.
Por outro lado, estar solteiro pode ser motivado por um pressuposto errado.
Assumimos equivocadamente que, para casar, temos de encontrar aquela única
pessoa no mundo que se encaixa conosco. Alguns autores chamam de ‘o mito da
pessoa certa’. Veja o comentário de R. C. Sproul:

“Pode parecer chocante, mas estou convencido de que, se os preceitos bíblicos são aplicados
consistentemente, praticamente quaisquer duas pessoas no mundo podem construir um
casamento feliz e honrar a vontade de Deus no relacionamento. Isso pode não ser o que
preferimos, mas pode ser alcançado se estivermos dispostos a trabalhar nosso relacionamento
conjugal.”114

Esse é um conceito pagão (‘alma gêmea’) que desconsidera importantes
fatores. Primeiro, Deus não espera que você encontre a tampa da sua panela.
Ele quer que você se amolde à tampa que vier. Ele não lhe revela
antecipadamente o futuro cônjuge, mas quer que você encontre quem está apto
para ser seu futuro cônjuge. Segundo, um viúvo pode ter um segundo
casamento feliz. Não precisa nutrir a ideia de que só havia uma pessoa com
quem ele poderia se casar. Se de fato, só há uma pessoa no mundo com quem
podemos nos casar, então somos insuportáveis. No entanto, Deus, nos ensina a
suportar uns aos outros (Cl 3.13).
Precisamos atentar para o que a Escritura diz ser agradável a Deus na
procura por um cônjuge.

Reflexão
Há um artigo de David Powlison e John Yenchko que aponta vários aspectos
sábios para decidir-se sobre casamento.115 Primeiramente, certifique-se de
elementos morais. Comece perguntando se seu namorado(a) dá evidências de
uma fé cristã genuína116 (Ml 2.11; 1 Co 7.39; 2 Co 6.14-16)? Se for um
divorciado, foi um divórcio por razões lícitas. Saiba as qualidades principais
(não seja detalhado) do seu futuro cônjuge e avalie o(a) candidato(a).
Veja se vocês têm o mesmo, alvo de vida (não compatibilidade, como se diz
por aí), o mesmo entendimento do que seja casamento. Isto é, vocês estão
dispostos a “deixar” (cortar os laços com os pais, com os amigos, com o trabalho
e consigo mesmo117) e “se unirem” (concordância quanto a ministérios,
aspectos teológicos básicos, papel do homem e da mulher) como prescreve a
fórmula de casamento (Gn 2.24; Mt 19.5-6; Ef 5.31)? Considere também a
viabilidade econômica, mas não se delongue a casar por este motivo. Suas
expectativas podem estar erradas.

Aconselhamento
Pergunte a crentes maduros acerca da pessoa a quem namoramos (valorize a
opinião dos seus pais). Precisamos ouvir as pessoas que nos conhecem bem, que
sabem o que faz um casamento funcionar, e que veem o casamento de um
ponto de vista cristão. Para testemunhas, deveríamos escolher pessoas que são
nossos conselheiros e exemplos de casamento.
Uma palavra aos que aconselham. Pais e amigos não podem projetar seus
sonhos e frustrações para com aquele que busca conselho. Nossas orientações
precisam ser pautadas pela Bíblia Sagrada.

Suspeita
Averigue as motivações que levam você ao casamento: satisfazer-se? achou
um par perfeito? Nossos anseios precisam imitar o relacionamento de Cristo e
da igreja. Assim como Cristo em relação à igreja, os homens devem estar
dispostos a morrer pela esposa. Assim como a igreja em relação a Cristo, as
mulheres devem estar dispostas a viver pelo marido. Nossa auto análise
espiritual é necessária para afugentarmos motivações egocêntricas.
Ore para que Deus lhe dê as virtudes para ser uma benção para a outra
pessoa, antes de se preocupar com aquela lista de qualidades da pessoa ideal.
“Como você costuma orar com relação ao casamento: ‘Senhor, dá-me um
marido/esposa para que eu seja feliz’ ou ‘Senhor, ajuda-me a estar mais
preparado (a) para o casamento’?”118

Espera
Não case com o primeiro que vier, pelo medo de ser titia. Decidir “se casar
contra a vontade de Cristo, é sinal de que o romance, o desejo intenso de
alcançar realização como cônjuge ou o medo de nunca se casar, tomaram conta
de sua vida. Isso é idolatria.”119
Por outro lado, não se paralise pelo medo de tomar a ‘grande decisão de se
casar’. Não se deixe retardar a mesma. Não deveria ser normal ser um adulto,
estar empregado, e não se julgar preparado para casar.
Esperar não é inércia, mas confiança na ação ou resolução de se casar. O
crente que se casa, ainda que não tenha muito mais do que o estritamente
necessário, se casa esperando no Senhor.

Conclusão
Encerramos esse capítulo, e o argumento do livro como um todo,
relembrando que os exemplos acima apenas reforçam que fazer a vontade de
Deus não deveria ser um assunto difícil de entender. Não precisamos nutrir
aquele conceito místico de que Deus nos fala ao coração o que devemos fazer em
cada situação. É verdade que nossos sentimentos podem nos ajudar a decidir
tranquilamente. É muito bom quando temos certeza de que estamos tomando
uma decisão segundo a vontade de Deus. Podemos e devemos estar convictos de
que estamos sendo moralmente corretos em nossa decisão. Mas, quando a
decisão não envolver o que é ilícito, nossa certeza tem que ser de estarmos
agindo sabiamente, não de que recebemos algum recado de Deus sobre a sua
vontade secreta. A expectativa de que Deus irá nos passar o trailer do resto de
nossas vidas não é ensinada nas Escrituras.
E, quando dificuldades surgirem decorrentes de nossa decisão, não devemos
ter o senso de culpa de que não conseguimos ouvir o Senhor e, por isso,
estamos passando por aflições. Somos afligidos até quando agimos santa e
sabiamente. Não deixemos que o medo de sofrer e o anseio de só acertar
alimente uma ansiedade em querer descobrir o que Deus não intentou revelar.
Devemos sempre decidir em conformidade com a sabedoria bíblica e confiar em
nosso Guia. Ore convictamente com o salmista: “Porque tu és a minha rocha e a
minha fortaleza; por causa do teu nome, tu me conduzirás e me guiarás.” (Sl
31.3). Esse Deus grandioso que é a nossa rocha, “ele será nosso guia até à
morte.” (Sl 48.14).
112. Friesen e Maxson, Como Descobrir e Fazer a Vontade de Deus, p. 225-226.
113. Friesen e Maxson, Como Descobrir e Fazer a Vontade de Deus, p. 231.
114. Sproul, Discípulos Hoje, p. 204.
115. David A. Powlison, e John Yenchko, Devemos nos Casar? In: Aconselhamento Bíblico vol. 1 (Atibaia:
Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999), p. 118-127.
116. Powlison e Yenchko chamam a atenção para o fato de que ser crente é um estilo de vida em que você
depende de Jesus mais do que de seu cônjuge. Quem enxerga no casamento um marco essencial de sua
identidade não consegue se imaginar não casado. O problema é que a questão essencial da identidade é
algo que só Jesus pode fazer. “Com certeza, você quer receber as bênçãos de um bom casamento. Mas, será
que o seu desejo de edificar a própria vida em Jesus e depois compartilhar essas bênçãos com seu cônjuge
é ainda maior?” Powlison e Yenchko, Devemos nos casar?, p. 119. O ato de abandonar as mulheres pagãs
no período pós-exílico (Ed 10) foi uma atitude drástica, que demonstrou que o Senhor é mais importante
que o casamento (cf. Ne 13.23-27).
117. “Não estamos entendendo um romper no sentido absoluto. O que você precisa, basicamente, é
reorganizar as suas prioridades, valores e compromissos em função da nova posição de casado ou casada.”
Powlison e Yenchko, Devemos nos casar?, p.123.
118. Powlison e Yenchko, Devemos nos casar?, p. 120.
119. Powlison e Yenchko, Devemos nos casar?, p. 119.
IX
Escolhas de fé:
A Vida de Moisés

[Esse sermão foi pregado há quase uma década para um público majoritariamente jovem universitário.
A razão de eu incluí-lo nesta obra é porque ele ilustra as decisões realmente importantes de nossa vida,
aquelas que envolvem uma escolha moral. Essas decisões, muitas vezes, são feitas sem respaldo e
recompensa imediatos, mas calcados na fé que temos no Deus da soberana vontade.]

“Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses, porque viram
que a criança era formosa; também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei. Pela fé,
Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser
maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto
considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque
contemplava o galardão. Pela fé, ele abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera
do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível. Pela fé, celebrou a Páscoa e
o derramamento do sangue, para que o exterminador não tocasse nos primogênitos dos
israelitas. Pela fé, atravessaram o mar Vermelho como por terra seca; tentando-o os egípcios,
foram tragados de todo.”
Hb 11.23-29

INTRODUÇÃO

A vida é feita de decisões. Desde escolhas mais simples sobre o que vestir, o
que comer, até escolhas mais sérias como o rumo profissional da vida, ter mais
filhos ou não, optar por uma intervenção cirúrgica ou lutar contra a doença com
um tratamento, todas elas compõem o enredo de nossa vida.
Anos depois de um problema sério de saúde que eu tive em minha
adolescência, eu ouvi o relato de meu pai sobre o dilema da decisão. Eu estava
com osteomielite (infecção óssea) e precisei tirar boa parte de um dos ossos do
meu braço esquerdo. O médico deu ao meu pai duas opções de reparo: fazer
nova cirurgia para um transplante ósseo ou esperar que o crescimento natural
de um adolescente preenchesse a lacuna. O risco da primeira opção eram os
típicos perigos de uma cirurgia, mas oferecia segurança mais rapidamente. O
risco da segunda era ter dano permanente, caso ocorresse uma fratura nos
cinco anos seguintes. Meu pai orou ao Senhor para saber como agir. Ele
finalmente optou pela cirurgia, mas só depois de investigar para ver se ele não
estava duvidando do cuidado de Deus.
Um aspecto da maturidade cristã é a habilidade de tomar decisões corretas.
Exemplos: quando Satanás lhe tenta, ou você diz “sim” ou você diz “não”;
quando surge uma oportunidade de testemunhar, ou você comunica a verdade
de Jesus Cristo ou não; quando você tem algum tempo de sobra no qual você
poderia ler a Bíblia e orar, ou você faz ou não; quando você acorda domingo de
manhã, ou você vem para a Escola Dominical e tem comunhão com os irmãos
ou você fica em casa assistindo televisão. As decisões que tomamos refletem a
nossa maturidade ou não.
Deus nos exorta, em sua Palavra, a tomarmos decisões espirituais (Dt 30.15-
20; Js 24.15; 1 Rs 18.21). Em Hebreus 11, vemos o exemplo de homens que
tomaram decisões certas. Abel escolheu um sacrifício mais excelente, em
oposição ao sacrifício do seu irmão Caim. Enoque escolheu andar com Deus, em
oposição ao mundo repleto de iniquidade. Noé escolheu trabalhar para Deus e
esperar nele, em oposição ao resto do mundo que afogou no dilúvio. Abraão
escolheu deixar a sua terra e depois escolheu sacrificar seu filho, ambos em
obediência a Deus. Isaque, Jacó e José escolheram confiar na promessa de
Deus, ao invés do desespero e frustração dos que estão à beira da morte.
As suas decisões na vida cristã demonstram se você tem sido atingido pelos
dardos inflamados do maligno (e a sua vida está em fogo) ou se você tem se
protegido com o escudo da fé (Ef 6.16). Moisés usava o escudo da fé. “O autor
de Hebreus dedica a Moisés cinco seções, que começam com a fórmula pela fé
(vs. 23, 24, 27, 28, 29). O primeiro desses exemplos se relaciona aos pais de
Moisés; o último, ao povo de Israel.”120 Para a surpresa dos judeus leitores da
Epístola aos Hebreus — que enxergavam Moisés associado a leis, obras, regras,
legalismo — Moisés era um homem de fé.
Diante do exemplo de Moisés, eu gostaria de apresentar a fé como
norteadora das decisões, rejeitando certas coisas e aceitando outras. A fé se
manifesta pelas escolhas sábias e fiéis a Deus, o que inclui rejeitar o caminho do
mundo e assumir a identidade cristã.

O QUE A FÉ REJEITA

1. O prestígio do mundo (v. 24)


Moisés teve dois parâmetros de educação. Primeiramente, ele foi educado
pela sua mãe durante parte da sua infância (Ex 2.9-10). Não sabemos quantos
anos foram, mas o suficiente para crescer com o amor pelo seu povo, aprender a
lei de Deus, crer na aliança feita com os patriarcas, e descansar na esperança
messiânica. Seus pais, provavelmente, transmitiram algo de especial que Deus
havia lhes dito, pois Moisés sabia que ele seria instrumento divino para
libertação do povo (At 7.25; ele se viu como instrumento da promessa em Gn
15.13-14). Além de uma educação cristã, Moisés também recebeu uma
instrução nos conhecimentos e ciências egípcias (At 7.22) no tempo em que
passou na casa de Faraó. Eu tenho certeza que Deus usou esta educação nas
ciências egípcias para que Moisés se tornasse o líder e escritor bíblico que foi,
assim como Saulo de Tarso recebeu a educação refinada para se tornar o culto
apóstolo Paulo. Então, resumindo, Moisés foi educado nas duas culturas:
hebraica e egípcia.
Quando atingiu os 40 anos de idade (At 7.23-24), teve de tomar a decisão
entre ser egípcio ou ser hebreu. A ênfase do escritor aos hebreus de destacar
que Moisés era “já homem feito” (v. 24; Ex 2.11) garante-nos que tal decisão
não foi fruto de imaturidade, indecisão ou entusiasmo do momento. Ele sabia o
que estava fazendo. Moisés rejeitou as honras de ser parte da família real, quem
sabe tendo direito de governar o Egito, pois diz que ele “recusou ser chamado
filho da filha de Faraó”. Esta decisão foi feita “pela fé”. Moisés não buscava o
prestígio do mundo, mas a vontade de Deus. Preferiu ser líder de escravos do
que grande no Egito, porque tinha fé no Deus verdadeiro.
Isto faz alguém ser considerado grande aos olhos de Deus. O mundo avalia
grandeza pela família da qual você vem, pelo seu dinheiro, pela sua educação, ou
pela sua posição. Jesus considerou João Batista grande (Mt 11.11) por outras
razões, pois ele não era de família importante (filho de um simples sacerdote),
nem tinha dinheiro (sua alimentação e roupa demonstram a vida simples que
levava), muito menos educação ou posição. De acordo com Lucas 1.15-16, João
Batista foi considerado grande pelas seguintes características: obediente, cheio
do Espírito, e instrumento de muitas conversões. Note que o prestígio vindo de
Deus é muito diferente do prestígio do mundo. Será que as suas decisões
mostram grandeza e prestígio diante de Deus?
Crianças e jovens crentes também recebem dois parâmetros de educação.
Eles recebem uma educação cristã na Escola Dominical e uma instrução secular
nas escolas, sendo que em, certas ocasiões, elas estão diametralmente opostas.
Exemplos: criacionismo versus evolucionismo; antropologia bíblica, que fala de
pecado original, versus antropologia humanista, que fala do homem como
tábula rasa moldada pela sociedade. Quando crianças educadas na igreja se
tornam jovens, têm que decidir se seguirão o Deus de seus pais ou não. Qual
tem sido a sua decisão, jovem? Você prefere o prestígio do mundo ou a honra de
ser grande diante de Deus? Você teria a coragem de ser ousado na vida
acadêmica expondo a sua cosmovisão cristã, mesmo a custo do prestígio do
mundo?

2. Os prazeres do mundo (v. 25-26)


Como Moisés tinha ciência da missão de libertador do povo de Israel (At
7.25), ficar no palácio usufruindo os requintes egípcios seria pecado; seria
esquecer da sua identidade hebraica. No palácio de faraó ele tinha todas as
comidas deliciosas que quisesse, todas as mulheres que quisesse, toda a
autoridade que quisesse, todos os prazeres da carne satisfeitos. No entanto, ele
preferiu ser maltratado, junto com o povo de Deus, do que ter prazeres junto
com o mundo. Esta decisão foi tomada pela fé, pois Moisés creu que sofrer por
Deus aqui resultaria em lucro no futuro. A fé sabe que os prazeres do pecado
são “transitórios” (Jó 20.5; Sl 73.12-19; Lc 12.19-20) enquanto a herança de
Deus é eterna (2 Co 4.16-18). Pela fé, Moisés preferiu as riquezas de Cristo, ao
invés dos tesouros do então poderosíssimo Egito. O escritor de Hebreus não
fala das riquezas recebidas aqui, mas de riquezas vistas pela fé: “contemplava o
galardão”. Para receber tais riquezas, ele teve que passar pelo desprezo que
Cristo passou; mesmo antes da vinda de Cristo, sempre houve oposição a Deus
e aos seus libertadores.
O pecado é prazeroso, mas só por um momento. Davi teve prazeres com
Bate-Seba que lhes custaram muitos dissabores. É por isso que o pecado não
compensa. É verdade que o mundo nunca entenderá porque você largou os
prazeres da vida (bebidas, festas, promiscuidades, etc.) para ir à igreja todo
domingo, cantar músicas estranhas e dar parte do seu dinheiro como dízimo na
igreja. O mundo não entende a mudança (1 Pe 4.1-4). E se você confrontar o seu
estilo de vida, o mundo se virará contra você (2 Tm 3.12).
Rejeitar os prazeres do mundo, implica em trazer perseguições. Você tem
despertado a oposição do mundo através de sua vida piedosa? Se você, pela fé,
optar pelas riquezas de Cristo, saiba que momentos difíceis lhe esperam (Sl
69.9b; Jo 15.18-21; Gl 6.17b; Cl 1.24; 1 Pe 4.14a). O escritor aos Hebreus
encoraja os seus leitores a sofrerem o desprezo que Cristo sofreu (Hb 13.13), a
sairem do sistema, assim como Cristo foi excluído do arraial.

3. A pressão do mundo (v. 27)


Este versículo não se refere à fuga de Moisés do Egito depois de haver
matado o egípcio, pois essa fuga foi motivada pelo medo (Ex 2.14-15). O
escritor aos hebreus se refere à saída do Egito juntamente com o povo, quarenta
anos mais tarde (At 7.30). Nesta hora, Moisés não temeu a raiva de Faraó (Ex
10.28-29).
Medo é uma das pressões mais difíceis de suportar. Em certas ocasiões, os
heróis da fé cederam ao medo. Por medo, Abraão disse uma mentira sobre Sara.
Isaque fez o mesmo com Rebeca. Por medo de Esaú, Jacó fugiu para a casa de
Labão. Por medo do povo, Aarão fez o bezerro de ouro. Por medo, Pedro negou a
Jesus. Pela fé, Moisés se apoiou naquele que é invisível, para não ceder à
pressão (Ex 5). A expressão “permaneceu firme como quem vê aquele que é
invisível” faz referência à visão da sarça ardente (Ex 3.2-6) e também ilustra o
que cabe a cada um de nós fazer: olhar para o Autor e Consumador da fé (Hb
12.2).121
Deixamos de falar de Cristo pelo medo de perder amizades, pelo medo de
não saber o que dizer quando alguém nos perguntar algo difícil. Deixamos de ir
ao culto ou ao trabalho da igreja porque temos de ir à festa no serviço; essa
decisão é tomada porque tememos perder o emprego. Quando uma moça cristã
interessada em se casar não encontra um partido interessante na igreja, e
resolve namorar um moço não crente, ela age baseada no medo; medo de ficar
solteira, medo de ser considerada “titia” ou uma pessoa que escolhe muito.
Se você age de alguma dessas formas, é sinal de que a fé deu lugar ao medo.
Viver pela fé não é achar que as coisas vão dar certo na evangelização (que você
falará o plano da salvação de forma perfeita e o seu amigo virá a Cristo), no
emprego (que o seu chefe entenderá a sua opção religiosa e não mandará você
embora) ou no namoro (que Deus logo trará um namorado cristão para você).
Viver pela fé é permanecer fiel a Deus, mesmo sem saber o que Deus tem
preparado para você. Veja o exemplo dos três amigos de Daniel diante da
fornalha (Dn 3.15-18), que julgaram ser melhor ir para o fogo por Deus, do que
ficar de fora do fogo contra Deus.

O QUE A FÉ ACEITA

1. O plano de Deus (v. 23)


Moisés era uma criança formosa aos olhos de Deus (At 7.20). Seus pais não o
esconderam porque a criança era bonitinha, mas porque Deus planejava usar
aquela criança como libertador do povo. De alguma forma, Deus deve ter
revelado aos pais de Moisés, Anrão e Joquebede, o que intentava realizar
através do menino, e eles creram. Pela fé no plano de Deus, os pais resolveram
assumir riscos para salvá-lo. Não é fácil deixar o seu filho de três meses num
cesto para encontrar o seu destino nas águas do rio Nilo. Imagine a dor no
coração dos pais por ter que deixá-lo ir. Todavia, eles assim o fizeram movidos
pela fé no plano divino. E Deus tanto honrou a fé deles, que lhes trouxe o
menino de volta, para educá-lo nos princípios da fé israelita.
Deus nos revelou um plano triunfante que ele tem para nós (Rm 8.28-39).
Devemos descansar no mesmo. Isto é, devemos fazer a vontade de Deus (os
seus mandamentos), certos de que esse caminho nos conduzirá por um plano
bom.

2. A provisão de Deus (v. 28)


Quando Deus deu a ordem em relação ao cordeiro pascal (Ex 12), Moisés
aceitou sem incrementar nada. Não se via qualquer vantagem em aspergir
sangue nos umbrais para se ver livre da vingança divina. Você pode imaginar
que, se Moisés não tivesse falado do sangue nos umbrais das portas com
convicção, alguns do povo poderiam ter tentado fugir da décima praga (morte
dos primogênitos); afinal de contas, Deus já havia mostrado o seu poder nas
nove pragas anteriores. Entretanto, Moisés falou ao povo apenas aquilo que
Deus lhe ordenou, e o povo seguiu a sua orientação (Ex 12.28). Moisés creu na
provisão divina e Deus poupou milhares de primogênitos israelitas.
O sangue de Cristo é a provisão divina. O evangelho da cruz é suficiente para
a vida do crente. Crer na suficiência do sacrifício de Cristo é aceitar que a
pregação da cruz basta para nos alimentar; não é necessário que a pregação seja
divertida para que o jovem seja edificado. Crer na suficiência do sacrifício de
Cristo é confiar que você está protegido do maligno, sem a necessidade de
exorcismos ou quebras de maldição.

3. A promessa de Deus (v. 29)


Neste verso, vemos a fé do povo de Israel, a qual foi motivada pela fé do líder
Moisés (Ex 14.13-14). O Mar Vermelho se abriu como se fossem dois altos
muros de água. Então, Moisés pede ao povo para atravessar. Eu imagino que os
céticos dentre o povo disseram: “O quê? Quem disse que a água vai permanecer
assim?” Acontece que Deus prometera levar o povo a uma terra prometida e não
os deixaria morrer afogados no mar. Porém, deve ter batido algum medo,
enquanto cruzaram em terra seca ao lado de milhões e milhões de litros de
água, sobrenaturalmente segurados. A aproximação do exército egípcio foi um
estímulo para que cruzassem; ainda assim, a Escritura afirma que eles o fizeram
em fé. Esta foi a diferença para o exército egípcio. Eles não se enveredaram por
entre as paredes de água confiados no poder e na promessa de Deus, mas
baseados na experiência (haviam acabado de ver os hebreus cruzarem o mar
sãos e salvos). Por isso, padeceram.
Viver pela fé é crer na promessa de Cristo de que ele vai nos proteger, diante
dos perigos de nossa caminhada, até chegarmos à terra prometida. Isto não
significa que cada promessa encontrada no Antigo Testamento seja aplicável a
nós hoje. Porém, podemos descansar na verdade de que todas as coisas
cooperam para o nosso bem (Rm 8.28).

CONCLUSÃO

Quanto maior o apego a Jesus Cristo, maior é a dedicação para as coisas de


Deus e menor é a atração às coisas do mundo. Assim como Moisés, você
também deve se comprometer a seguir o caminho de Deus, rejeitando os
prazeres do mundo, ainda que sejam divertidos, para que no final você
experimente as delícias de Deus no Novo Céu e na Nova Terra. Suas decisões
advêm de ponderada reflexão sobre as coisas lá do alto (Cl 3.1-2)?
Avalie a sua maturidade espiritual pelas escolhas que você tem feito. Lembre-
se de que a fé rejeita o prestígio, os prazeres e a pressão do mundo. Por outro
lado, a fé aceita os planos, a provisão e a promessa de Deus. Sua vida está
repleta de escolhas de fé?

120. Simon Kistemaker, Hebreus (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003), p. 470.
121. João Calvino escreve: “Desse fato concluímos que, primeiro, a verdadeira natureza da fé consiste em
ter Deus sempre diante dos olhos; segundo, que a fé vê coisas mais elevadas e ocultas em Deus do que os
nossos sentidos podem perceber; e terceiro, que nos é suficiente apenas uma visão de Deus para que
nossas debilidades sejam corrigidas, e assim nos tornemos mais fortes que as rochas contra todas as
investidas de Satanás”. Hebreus (São Paulo: Edições Paracletos, 1997), p. 335.


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