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Bate-papo Ideias Espaço

André Luiz Mansur - Jornalista e escritor, passou por jornais como a Tribuna da Imprensa,
Jornal do Brasil e O Globo, onde publicou mais de cem críticas literárias. Tem nove livros
publicados, a maioria sobre a história da cidade do Rio de Janeiro, como “O Velho Oeste
Carioca”, “Fragmentos do Rio Antigo” e “Marechal Hermes – a história de um bairro”.
Atualmente é colunista do “O Dia” e vive em Campo Grande.

Carlos Eduardo de Souza - é professor da Secretaria Municipal de Educação. Formado em


Geografia pelo Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos. Autor do Livro "A Evolução
Econômica e Populacional de Campo Grande, Século XX". Músico amador, também colabora
com artigos para o Jornal Portal Zona Oeste, mantém o blog
http://memoriascampogrande.blogspot.com e é um numismático (colecionador de notas e
moedas).

Campo Grande é o bairro mais populoso do Rio de Janeiro e deixou sua paisagem tipicamente
rural para trás. A urbanização chegou, e com ela o comércio, as indústrias, os engarrafamentos
e os empreendimentos. Há dez anos, Campo Grande já era o bairro da região que registrava
mais investimentos, fechando o ano de 2007 como quinto colocado no ranking de lançamentos
de novas unidades na cidade.

Com razoável infraestrutura e muitos terrenos, Campo Grande, nos dias atuais, é considerado
a menina dos olhos do mercado imobiliário do Rio. Lembrando que o bairro possui um título
honorário de cidade, fazendo com que alguns, inclusive, comparem o bairro a uma verdadeira
cidade do interior paulista, ou seja, próspero, com economia forte, vida própria e pessoas com
renda elevada.

Boa parte de alguns desses empreendimentos no bairro, os condomínios, possui grandes


áreas de lazer e estruturas típicas (ou perto disso) dos condomínios da Barra da Tijuca e da
Zona Sul, com o objetivo de atender as necessidades de uma classe emergente, ou média alta
do bairro e adjacências, exigente de imóveis desse tipo.

Além desses investimentos, há também em número considerável, os edifícios comerciais,


mudando a paisagem do bairro, principalmente em áreas próximas ao chamado centro de
Campo Grande.

Entre os séculos XVII e XIX, assim como em todo o Brasil, Campo Grande foi "palco" das
lavouras de banana, do milho, da mandioca, do mamão, além de verduras e legumes, sendo
vitais para o sustento da população. Nesse grande período, os bairros de Campo Grande e
Guaratiba possuíam um grande número de casas de farinha. A batata-inglesa também era
cultivada no bairro. Já o arroz e o feijão não era uma cultura presente, porém cultivados no
bairro de Santa Cruz.

Esses três bairros, Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba eram chamados de “Triângulo
Carioca” e tem sua história atrelada a uma figura muito conhecida na Zona Oeste: Júlio Cesário
de Mello.
Curiosidade que Campo Grande, por volta dos anos de 1981 e 1982 é considerada um dos
locais que deram início ao movimento Punk Rock no Rio de Janeiro. O movimento Punk Rock
chega ao Brasil praticamente entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, influenciado
por bandas inglesas consideradas gêneses do estilo, como The Clash, Sex Pistols, entre
outras, surgidas na metade dos anos 1970. Localizada no bairro de Campo Grande, Zona
Oeste do Rio, a tradicional Pista de Skate de Campo Grande teve uma importantíssima
participação no tal movimento, já que a praça reunia alguns "meninos" ligados ao estilo musical
e ao esporte radical citado.

Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, é conhecido por ter sido um grande
produtor de laranjas, principalmente entre as décadas de 1920 e 1940. O período áureo do
bairro é representado em forma de uma escultura, localizada no Centro de Campo Grande,
próximo ao Hospital Rocha Faria. Nesse período, Campo Grande era um dos maiores
produtores de laranjas do estado do Rio de Janeiro, exportando principalmente para a
Inglaterra. Porém, devido a alguns fatores, como pragas e prejuízos com exportações, devido
ao fato dos países compradores da laranja estarem envolvidos na 2° Guerra Mundial, o "ciclo"
dos laranjais entrou em declínio até desaparecer de vez. A então Zona Rural também possuiu
criação de aves. Na verdade houve um curto ciclo da avicultura em Campo Grande, o qual
acabou não vingando pelos seguintes motivos: a alimentação dos aviários vinha de São Paulo,
encarecendo a produção, além da queda da produção nos meses quentes. Assim, essa
atividade começou a declinar na década de 1960, logo depois da queda dos laranjais. Alguns
criadores buscaram fabricar a alimentação das aves, adquirindo misturadores, produzindo
farelo grosso, fubá e milho moído. Assim, passou a ser comum o arrendamento das instalações
e da mão-de-obra de granjas por parte dos abatedouros, com estes pagando aos proprietários
sobre o produto final, garantindo os frangos necessários para sua manutenção.

Localizado próximo à estação de trem de Campo Grande, o Calçadão de Campo Grande, na


Rua Coronel Agostinho, com o passar do tempo transformou-se num ponto de referência para
o bairro, já que se trata do centro comercial da região. Com aproximadamente 500 metros de
extensão, o Calçadão foi inaugurado em 1976, devido ao crescente número de firmas
comerciais que haviam se instalado na Rua Coronel Agostinho (um negociante que foi muito
respeitado e que nesta rua residiu por muitos anos), sendo um projeto do paisagista Burle
Marx.

Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, destaca-se pela sua grande extensão,
por sua influência na região e por ser o mais populoso do município. Porém, no mês de junho
de 2018, o bairro completa um jubileu de ouro de um fato muito importante e curioso: o título de
bairro-cidade. Segundo a Lei n° 1627, de 14 de junho de 1968, sendo um projeto do deputado
Frederico Trotta, sob a gestão do então governador da Guanabara, Negrão de Lima, dizia-se
no Art. 1° - “É reconhecida como “Cidade” a localidade de Campo Grande, passando a
denominar-se Cidade de Campo Grande”. Assim, há 50 anos, o bairro de Campo Grande, ou
a localidade, era reconhecido como “Cidade honorária”.

Devido a isso e a outros fatos, surgiram alguns movimentos em prol da emancipação, com, a
princípio, o propósito de combater os problemas e realizar uma melhor administração. Mas,
mesmo possuindo um título de bairro-cidade, ou de cidade honorária, Campo Grande continua
sendo oficialmente um bairro, com uma estrutura de uma cidade, é verdade, influenciando
bairros próximos e atraindo população desses e até de municípios, principalmente por ser,
entre outros atributos, um polo comercial da região.
Afinal, Campo Grande pode ser considerado um sub centro regional, com um suporte que
supera muitas cidades, já que não é qualquer bairro que possui três shoppings e uma
população de aproximadamente 350 mil habitantes.

Localizada numa pequena elevação, no centro econômico e comercial do bairro de Campo


Grande, a Igreja de Nossa Senhora do Desterro possui uma história que acaba se confundindo
com a origem do bairro. A construção da Capela original se deu em 1673, em terras que
atualmente localiza-se o bairro de Bangu. Segundo alguns pesquisadores, também nesse ano,
foi criada a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande. Ainda em terras que
hoje é o bairro de Bangu, a capela é palco de uma tragédia, no ano de 1716, com
assassinatos, incluindo a de um padre. Mais tarde, a igreja "mudou-se" para uma área onde
atualmente encontra-se o bairro de Campo Grande.

Em 1757 é concedido o Alvará, que é o título da criação de uma freguesia. Por isso, para
alguns historiadores, só a partir dessa data é que realmente foi criada a Freguesia de Nossa
Senhora do Desterro de Campo Grande. Já em solos campograndenses, em 1882, a igreja
passa por outro momento terrível: o templo sofre um incêndio, praticamente destruindo a
Paróquia. Porém, com a atitude e os esforços do Padre Belisário dos Santos, de fazendeiros e
de autoridades, a Igreja foi reconstruída.

O outro ponto importante é o clube 10 de Maio. Citado na música "Meu bairro", de Adelino
Moreira, o Clube 10 de Maio, ou Sociedade Musical 10 de Maio, surgiu na década de 1940,
tendo como um de seus fundadores Francisco Caldeira de Alvarenga, um comerciante que
mantinha uma banda musical na Rua Coronel Agostinho, atual Calçadão de Campo Grande,
que inclusive era onde ficava sua residência.

Na década já citada, Francisco reuniu-se com outras pessoas e decidiram comprar um terreno
para ser sede da banda. Assim foi criada a Sociedade Musical 10 de Maio. Moradores lembram
com nostalgia as atrações do clube, como os bailes, festas e, inclusive, desfile de miss.
Atualmente, o clube já não possui as atrações de outros tempos.

"Comendador é aquele que recebe uma condecoração honorífica de ordem militar, política ou
eclesiástica, sendo agraciado com um benefício. Assim, o título é oferecido às pessoas que se
destacam por ajudar a engrandecer a sociedade, seja por trabalhos ou influências sociais,
econômicas e políticas."

O bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, entre outras figuras ilustres da região, foi
testemunha da presença de um grande comendador: o Comendador Sofia. Nascido em
Portugal, Serafim Moreira da Silva ficou conhecido como Comendador Serafim Sofia.
Comendador porque recebeu esse título do Papa, por ter prestado serviços à igreja; Sofia, por
ser devoto de Santa Sofia, devoção esta relacionada à uma promessa que teria feito por
escapar de um naufrágio, segundo fontes. Contribuição dele para o bairro durante a década de
1940.

Localizado próximo ao calçadão de Campo Grande, centro comercial do bairro, entre a Rua
Augusto Vasconcelos e a Avenida Cesário de Melo, o Hospital Rocha Faria foi inaugurado em
1940, sob a gestão do então prefeito Henrique Dodsworth.
O nome do hoje hospital municipalizado é uma homenagem a Benjamin Antônio da Rocha
Faria Junior, nascido em 1853, e vindo a falecer em 1936. Graduado em medicina, o Dr. Rocha
faria começou clinicando em subúrbios. Ao longo de sua carreira, obteve o cargo de professor
adjunto de higiene e história da medicina; mais tarde, nomeado inspetor-geral de higiene
pública; foi também presidente do Conselho Municipal de higiene e Assistência Pública;
membro titular da Academia Nacional de Medicina, entre outros méritos, cargos e títulos.

É notório a mudança da estrutura econômica, socioespacial e populacional do bairro,


considerado o mais populoso do município do Rio de Janeiro, ainda no século XIX, por
exemplo, com a chegada de trens e bondes, ligando o bairro a outras áreas, aumentando
assim o fluxo populacional. Já no século XX, há a consolidação do comércio (inauguração do
calçadão, na Rua Coronel Agostinho, e do Mercado São Braz), a chegada das indústrias, da
especulação imobiliária, entre outras. Isso também ocorre em outros bairros da Zona Oeste,
que já foi a Zona Rural do Rio, ou Sertão Carioca.

Com isso, é claro, não fugindo à regra da urbanização, surgiram também os chamados
problemas urbanos, como a poluição, a violência, a questão populacional, já que houve uma
opção por parte do governo do Rio, principalmente a partir da década de 1960, em orientar o
crescimento populacional rumo à Zona Oeste, porém sem serviços na mesma proporção, e os
engarrafamentos, constantes em alguns pontos e horários específicos do bairro.

A Zona Oeste da cidade também possui um carnaval expressivo, com suas conhecidas escolas
de samba, blocos de rua, entre outros.

No bairro de Campo Grande não é diferente. A região, desde o século passado, é marcada por
um movimento carnavalesco intenso, com blocos de rua, festas em determinados sub-bairros
(Magali, Vila Nova, entre outros), e todo um clima típico que envolve os dias de folia na cidade
maravilhosa.

Na questão Escola de Samba, o bairro já teve a Império de Campo Grande, que desfilou na
década de 1970. Atualmente, o bairro possui algumas chamadas Escolas de Samba, como a
Delírio da Zona Oeste e a Império da Zona Oeste. Porém, a maior representante do bairro é a
Sereno de Campo Grande.

Fundada em 12 de fevereiro de 1996, a escola de samba, ou Grêmio Recreativo Escola de


Samba Sereno de Campo Grande, representa o bairro da Zona Oeste do Rio no carnaval
carioca. Sediada no sub-bairro de Vila São João, a agremiação, de cores azul e branco, tendo
uma coruja como símbolo, surgiu por iniciativa de frequentadores do extinto Bar e Restaurante
do Pepe, na Avenida Cesário de Melo. Inconformados com o fato de Campo Grande, o bairro
mais populoso do Rio, não ter um representante de força no carnaval carioca, enquanto outros
bairros da Zona Oeste, como Bangu, Santa Cruz e Padre Miguel possuírem, houve a iniciativa
da criação de uma escola de samba no bairro, já que este já possuíra diversos blocos
carnavalescos, como Filhos da Pauta, Sinfonia dos Tamancos e Xavante do Tingui.

Em 2007, a Sereno de Campo Grande desfilou pela primeira vez na Marquês de Sapucaí,
sendo um dos marcos mais importantes de sua história

A Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, que um dia já foi a Zona Rural, orgulha-se por
possuir um título nacional no futebol: a Taça de Prata de 1982, equivalente à atual Série B do
futebol brasileiro. O título foi conquistado pelo Campo Grande Atlético Clube, até hoje muito
lembrado e comemorado pelos torcedores e moradores do bairro.

O título do campusca, como é conhecido na região, foi tema, inclusive, de uma reportagem
exibida no programa Globo Esporte, em 6 de novembro de 2015. A conquista da Taça de Prata
é muito importante não só para o Campo Grande, mas para toda a Zona Oeste, pois é o único
título brasileiro conquistado por um clube da região, já que o Bangu, outro clube tradicional da
antiga Zona Rural, e de certa forma rival do galo alvinegro, bateu na trave em 1985, quando foi
vice-campeão brasileiro da Série A, perdendo a final para o Coritiba no Maracanã. Ítalo
Delcima que já recebeu show da Legião Urbana.

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