Você está na página 1de 5

Síntese sobre Wittgenstein e Popper: A racionalidade científica e a fé

É irreversível o caminho para o ateísmo ou tem a fé em Deus ainda futuro, quem sabe novo
futuro? Esta indagação norteia as investigações deste capítulo.
Vontade e sentimento, fantasia e emoção não podem ser reduzidos à pura razão científica. O
ideal da ciência moderna é: método adequado, clareza e exatidão. Isso para muitos, significa
simplesmente matematização dos problemas. A matematização, a quantificação e a
formalização são insuficientes para abranger fenômenos qualitativos específicos da existência
humana como a arte, a música, a religião, o amor, a fé, etc.
Se a ciência for fiel a seu ideal metódico, abster-se-á de pronunciar juízos sobre o que extrapola
o horizonte de sua experiência. Com isso reconhecerá seus próprios limites, pois não tem
respostas a todos os problemas existenciais do homem. Certamente a razão científica não
substitui a fé em Deus, nem a religião. A filosofia se faz com uma racionalidade crítica
(Descartes e Kant), mas deve combater o racionalismo ideológico caracterizado por
dogmatismo racionalista.
Nesta filosofia racionalista a problemática de Deus ou religião não ocorrem porque são objeto
que não interessa. Desconfia-se de que o discurso sobre Deus e religião não tenha sentido ou
seja absurdo, ao menos do ponto de vista lógico.

Ludwig Wittgenstein: o empírico e o místico


Parte da ideia de que a linguagem tem limites impostos por sua estrutura interna, limites que
manifestam os limites do próprio pensamento.
Na obra Tractatus lógico-philosophicus (1921) unem-se o racionalismo cartesiano e o
empirismo inglês. Esta obra é a busca de uma linguagem que consiga responder ao seguinte
postulado: “O que se pode dizer em geral se pode dizer claramente; e o que não se pode falar,
se deve calar” (prefácio).
Na frase os nomes representam os objetos e sua conexão proporciona o conteúdo. A existência
de um conteúdo é chamada de fato e ao conjunto de fatos chama-se mundo. Em outras palavras,
a estrutura da frase e da realidade de correspondem.
As proposições sobre o inefável carecem de sentido. Através dessa filosofia do Tractatus
influenciou o Círculo de Viena e todo o neopositivismo a respeito de seguinte questão: É
possível formular tais sentenças de modo intersubjetivamente válido? A tarefa da filosofia,
segundo o Tractatus, é o esclarecimento lógico das proposições científicas.
“finalidade da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos. A filosofia não é
teoria, mas atividade. Uma obra filosófica consiste essencialmente em comentários.
A filosofia não redunda em proposições filosóficas, mas em tornar claras as
proposições” (4.112).
Neste ponto pouco altera sua posição nas Investigações filosóficas (1951). Diz:
“Não queremos refinar ou completar de modo inaudito os sistemas de regras para o
emprego de nossas palavras. Pois a clareza, à qual aspiramos, é na verdade uma
clareza completa. Mas isto significa que os problemas filosóficos devem desaparecer
completamente (...). Resolvem-se problemas, não um problema. Não há método da
filosofia, mas sim, métodos, como que diferentes terapias” (n. 133).

A partir da posição do Tractatus é consequente não dizer nada de Deus e da religião, pois os
fatos são o único objeto da ciência e, pela mediação da ciência, também o único objeto da
filosofia. Os fatos são mensuráveis, determináveis. Claro, determinações são limites. O infinito
não é mensurável. Portanto, a ciência, consequentemente, a filosofia, trata do infinito, dos fatos.
Wittgenstein afirma que todas as proposições que ultrapassam a ciência carecem de sentido.

E o que não se pode falar?

A consequência do Tractatus é que não só certas proposições filosóficas, mas todas as


afirmações com conteúdo metafísico ou religioso, enquanto se referem a algo não mundano,
são absurdas. Da religião apenas se pode falar como factum, mas “Deus não se revela no
mundo” (96.432). Conforme Tractatus há proposições com sentido no campo intramundano:
“Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo” (5.6), Portanto,
Wittgenstein não cala acerca de Deus e do místico, sendo inconsequente, de certa forma, com
os princípios estabelecidos.

Porque Wittgenstein fala do indizível?

Para a vida humana ele é muito importante: “Sentimos que, ainda que todas as possíveis
questões científicas fosse dada resposta, nossos problemas vitais não teriam sido tocados. Sem
duvida, não cabe mais pergunta alguma, e esta é precisamente a resposta” (6.52).

“observa-se a solução dos problemas da vida no desaparecimento desses problemas. (Esta não
é a razão por que os homens, para os quais o sentido da vida se tornou claro depois de longo
duvidar, não podem mais dizer em que consiste esse sentido?)” (6.521).

Há algo fora da linguagem e fora do mundo?

Wittgenstein responde: sim. É o místico. Se a linguagem descritiva, se aquilo que se pode dizer
se identifica com a totalidade das proposições de ciência natural, resta perguntar: o que acontece
com as proposições da metafísica, da ética, da estética e da religião? Segundo ele carecem de
sentido, porque tentem ultrapassar o limite da linguagem e, portanto, do mundo. Admite que
haja coisas importantes que não se podem dizer, mas apenas mostrar, como é o místico.
Wittgenstein nega a realidade da fé e da religião? Não. Nega-lhes o sentido factual.
Inegavelmente a distinção entre dizer e mostrar caracteriza a filosofia de Wittgenstein. Parece
que, no Tractatus, o mais importante é aquilo que não foi dito.

Se Deus é, por definição, exterior ao mundo, é, ao mesmo tempo, interior porque o mundo dele
depende. Aparece aqui o velho problema da transcendência e da imanência de Deus. Claro,
Deus não pode ser, segundo o Tractatus, uma conclusão lógica da ciência. Na realidade tira uma
conclusão metafísica, embora negue a possibilidade da metafísica no plano do discurso lógico.
Com isso, o místico é apenas outro nome para a metafísica. Ele nega a possibilidade de constatar
o metafísico, no sentido tradicional. Isso segundo ele significa que a experiência do místico é
indizível na linguagem lógica postulada. A filosofia, de certa maneira condena-a ao silêncio,
reduz toda a filosofia a ser crítica da linguagem e “esclarecimento lógico do pensamento”. O
místico sendo o imediato é o limite do interrogar. Para ele, os temas místicos (o mundo como
globalidade, a vida e a morte, a felicidade) não são objeto de investigação filosófica. Comparada
com a ciência, a filosofia é sem sentido, Carece de objeto próprio.

O racionalismo crítico de Karl Popper

A investigação do dado empírico absorveu cada vez mais as ciências e abandonou a


investigação metafísica como tentativa estéril e ilusória. Restou então, para a filosofia, a tarefa
de clarificação e análise lógica do discurso sobre o mundo.

Desde sua Lógica da pesquisa científica (1935), em seu racionalismo crítico dedica-se ao estudo
do progresso ou da evolução do conhecimento científico.

Popper nega justamente, a necessidade de se partir dos “enunciados protocolares” sobre fatos
para depois generalizá-los através da indução. Segundo ele, não existe indução alguma., as
teorias jamais se podem verificar empiricamente.

O método crítico

Popper desenvolveu sua lógica da investigação empírico-científica como teoria da construção


de teorias. Para definir um sistema teórico ou empírico estabelece como critério não sua
verificabilidade, mas sua falseabilidade, o que significa que, desde logo, não se pode qualificar
um sistema como definitivamente positivo pela via empírica.

Pretende delimitar a ciência empírica não só em relação à metafísica, mas também em relação
à matemática e à lógica. Segundo ele, o racionalismo positivista destrói não só a metafísica.
Mas todo o conhecimento empírico. Por quê? Porque a maioria das proposições empíricas
também não é verificável.

A posição de Karl Popper em relação ao positivismo lógico pode ser caracterizada da seguinte
maneira:

a) É absurdo buscar uma ciência universal com linguagem universal;


b) A filosofia não pode ser reduzida à mera “análise lógica” ou mera “análise da
linguagem”;
c) A linguagem não pode ser reduzida a símbolos matemáticos;
d) Não existe um único método como seja o matemático-científico;
e) Conceitos não claros são inevitáveis no início da construção de uma teoria;
f) Há problemas genuinamente filosóficos que não se podem esclarecer com os meios da
ciência empírica: “Somos buscadores da verdade, mas não somos seus possuidores”
(Conhecimento objetivo, p. 53).

Teoria científica da religião

Popper reconhece que muitos objetivos e ideais da cultura ocidental se devem ao cristianismo,
como PE a liberdade e a igualdade. “Admitimos certamente que nós não sabemos, mas
conjecturamos. Esse nosso conjecturar orienta-se por uma fé acientífica, metafísica, de que
existem algumas leis e normas que podemos desvelar e descobrir”. “Fica, pois, claro que de
modo algum o enfoque racionalista pode fundar-se sobre argumentos ou experiências, e que um
racionalismo universal é insuficiente e insustentável”. A posição de Popper, na questão do
conhecimento, situa-se entre o ceticismo e o positivismo racionalista. Contra o otimismo dos
positivistas diz que não temos conhecimento seguro, que nosso conhecimento é um adivinhar
crítico, uma rede de hipóteses e conjecturas. Em princípio, também em Popper, de maneira
análoga ao Tractatus de Wittgenstein, conhecimento é concebido como determinação do
determinado e, portanto, limitado e fáctico.

Crítica à crítica da racionalidade científica

O critério empirista de significação então pode ser formulado nos seguintes termos: a
verificabilidade de um enunciado é a condição necessária para que seja considerado como
dotado de sentido. Neste contexto, proposições sobre a existência ou não existência de Deus
carecem de sentido porque não existe possibilidade lógica de sua verificação. Deus é, então,
um pseudoproblema filosófico.

Popper deu sua contribuição neste sentido, mostrando que nosso saber não começa com
certezas últimas, e sim com conjecturas, modelos e hipóteses com os quais interpreta a própria
percepção sensível. Cabe destacar que alguns pensadores, como Karl Popper, não compartilham
a ideia de que a filosofia deva limitar-se à análise lógica. Semelhante filosofia meramente
analítica, segundo Popper, torna-se tão pouco informativa acerca de Deus como acerca do
mundo. A filosofia analítica exerce apenas o papel de prolegômeno a uma filosofia da religião.
Esquece, todavia, que a linguagem é uma função da existência humana. Todo o discurso é
discurso de alguém numa situação determinada e concreta. Se quiser fazer análise da linguagem
religiosa é preciso pô-la em estreita relação e correlação com a análise da existência humana
nela expressa. Neste ponto emerge a filosofia da existência.

Você também pode gostar