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Realismo

A partir da segunda metade do século XIX, as formas como o mundo e a literatura eram até então
concebidos modificou-se progressivamente - de uma visão idealista da vida e da arte,
característica do romantismo, passou-se para uma concepção mais realista e condizente com o
cotidiano. A esta tendência, oposta à perspectiva romântica anterior, chamou-se Realismo, estilo
que defendia a objetividade na descrição da sociedade e a revelação de seus conflitos com
isenção e agudeza. Nascia uma nova escola literária baseada em uma visão mais racional e
prática do homem e do seu universo social. Nesse momento, a intelectualidade rebelou-se
contra a pieguice, o exagero e o nacionalismo ufanista precedentes, defendendo uma postura
mais crítica diante dos acontecimentos contemporâneos.Com o objetivo de oferecermos
subsídios básicos que au-xiliem na análise dos romances de leitura obrigatória na dis-ciplina
Literatura Brasileira II, neste capítulo são examinados o contexto histórico- social e cultural da
época e os principais escritores da escola literária do Realismo (europeu e nacional), com suas
respectivas características e obras de maior destaque. Sem pretender esgotar o assunto, que é
extenso, interessante e, por vezes, provocante, as ideias aqui arroladas enfatizam a necessidade
de se conhecer o passado, em seus aspectos históricos, conjunturais e culturais, a fim de refletir
sobre a sua participação no processo de produção do conhecimento e as subsequentes
manifestações e transformações dos saberes ad-quiridos pela sociedade ao longo dos séculos.
O surgimento do Realismo europeu
Em um sentido restrito, o movimento literário do Realismo é caracterizado pela fiel
representação artística da natureza e da sociedade. Num ponto de vista mais amplo, engloba
toda manifestação estética que esteja baseada na reprodução da realidade, em contraposição à
anterior arte inspirada na artificialidade das estéticas do classicismo e a do romantismo. Essa
composição literária e cultural foi predominante na França da segunda metade do século XIX ,
sendo, aos poucos, estendida a toda a Europa e a outros continentes. Para um melhor
entendimento das suas formas de manifestação por meio dos textos, é importante, inicialmente,
proceder-se a uma breve contextualização das condições históricas, sociais, culturais, políticas e
econômicas do período; a visão circunstanciada da época orientará o sequencial estudo da escola
literária realista.
Contexto histórico e sociocultural
Desde a segunda metade do século XVIII, a economia mundial passou por profundas
modificações com o início, na Inglaterra, da Revolução Industrial. Esse foi um processo longo,
lento e gradual, que muitos especialistas dividem em duas fases: a primeira, que vai de 1780 a
1850, denominada revolução do carvão e do ferro, e a segunda, de 1850 a 1914, a revolução do
aço e da eletricidade. Intimamente relacionado à evolução do sistema capitalista, o
desenvolvimento industrial se estendeu em várias e descontinuadas etapas ao centro- oeste
europeu, aos Estados Unidos e, posteriormente, a outras regiões.
Apesar de sua não simultaneidade, o processo de industrialização gerou forte impacto
expansionista na economia e, em virtude dos mecanismos de acumulação de capital decorrentes,
as novas nações industrializadas adquiriram evidente supremacia sobre outras que ficaram à
margem desse evento; criou-se, assim, um descompasso crescente entre os países
economicamente desenvolvidos e os demais, subdesenvolvidos e de economia dependente.
Como resultado, houve o surgimento paulatino de novas formas de sociedade, de Estado e de
pensamento que influíram, de modo diverso, em diferentes povos e culturas.
As grandes alavancas para o desenvolvimento industrial foram a utilização da força hidráulica e
do vapor, o maquinismo e uma nova divisão do trabalho, esta última responsável pelo
incremento desmesurado da concentração urbana.
Paralelamente a essas transformações econômicas, sociais e tecnológicas, houve a
CONSOLIDAÇÃO DA BURGUESIA, cujos interesses estavam associados às mudanças e cuja base
ideológica era ancorada no liberalismo político e econômico. Contudo, a Revolução Industrial, ao
mesmo tempo em que promoveu a ascensão da classe burguesa, arregimentou os trabalhadores
nos centros industriais em condições precárias de vida.
Assim, se o processo de modernização decorrente das inovações políticas, sociais, econômicas e
culturais trouxe grandes benefícios a um setor específico da sociedade, por outro lado não
melhorou a vida da grande camada carente da população. Em consequência, a sociedade ficou
dividida entre BURGUESES, donos dos meios de produção, e PROLETÁRIOS, que possuíam apenas
sua força de trabalho. Essa acentuação da diferença entre pobres e ricos serviu para aumentar
as tensões político-sociais, já há tempos existentes em alguns países europeus.
O uso de novos instrumentos e técnicas na lavoura ocasionou a ruína dos pequenos proprietários
de terra; paralelamente, o ritmo veloz imposto à produção pelas novas tecnologias resultou no
gradativo desaparecimento do pequeno artesão, cujo trabalho era baseado na habilidade
criativa e no sistema de corporações. Assim, a escassez de trabalho e a progressiva necessidade
de trabalhadores para as novas indústrias resultaram no esvaziamento do meio rural e na
expansão descontrolada dos aglomerados urbanos.
Nestes, uma crescente mão de obra barata, faminta e doente, em busca de alternativas de
sobrevivência, submetia-se a exaustivas e degradantes jornadas de trabalho e subsistiam em
condições deploráveis. Tanto nas minas de carvão quanto nas fábricas, o operário era submetido
a uma disciplina de longas jornadas e à frequente possibilidade de demissão, mercê da flutuação
do mercado de produtos industriais ou de matérias-primas. Esse contexto, no qual o trabalhador
era tratado como mercadoria, sujeitando- se à máquina e à alie -nação, só aguçava os males
sociais existentes. Para o empregador pertencente à burguesia, o novo sis -tema possibilitava um
maior controle sobre os empregados e uma consequente exploração continuada e mais
eficiente, cujo objetivo final era baratear ao máximo os custos da produção.
Desse modo, o contingente assalariado, composto em grande parte por mulheres e crianças de
salário inferior ao dos homens, expunha-se a extensas jornadas de trabalho, muitas vezes
superiores a 14 horas diárias. Por sua vez, o ambiente de trabalho, via de regra, apresentava
condições insalubres ou periculosas, o que facilitava a ocorrência de repetidos acidentes, como
a mutilação ou a morte dos envolvidos. Consequentemente, o desenvolvimento da indústria, da
forma como aconteceu, motivou o nascimento de uma classe operária que se organizava em
associações não apenas de cooperação ou ajuda mútua, mas em incipientes sindicatos. Eles
defendiam a condição social dos trabalhadores e reivindicavam melhores condições de vida, o
que era possível a partir de maiores salários e menores jornadas de trabalho. Na luta contra a
opressão imposta pela burguesia dominante, os sindicatos passaram a organizar greves que,
muitas vezes, enveredavam pelo caminho da violência, como ocorrido em Bristol, Inglaterra, em
1831, cujo movimento terminou em motim.
Na mesma ocasião, os mineradores de carvão ingleses se uniram e, em protesto devido à
redução salarial na renovação anual dos contratos de trabalho, deflagraram a greve de abril de
1831. Seguem-se várias outras ações grevistas, mas em geral fracassam e o movimento sindical
entra numa fase de derrotas e de dificuldades. No decorrer da segunda metade do século XIX, o
sindicalismo inglês passou a ser dirigido por trabalhadores qualificados, expandiu e se organizou
em âmbito nacional. Também em outras regiões da Europa os operários lutavam por melhores
condições e propiciaram o surgimento de correntes políticas que se propunham a defender os
direitos daqueles; dentre elas, a mais importante, por seus desdobramentos futuros, foi o
movimento socialista alemão.
Na França, em 1831 e 1834, aconteceram as insurreições do operariado de Lyon; em 15 de maio
de 1848, trabalhadores franceses, julgando- se enganados por seus representantes, invadiram a
Assembleia em Paris, tentando dissolvê-la em nome do povo. Em 1871, ocorreu a revolta popular
conhecida como Comuna de Paris, considerada a primeira revolução comunista da história, que
instalou no país, de março a maio, um governo revolucionário de tipo socialista. Além das
transformações sociais, o século XIX foi caracterizado pela luta pela emancipação política
empreendida por vários países europeus, cujas pretensões nacionais haviam sido frustradas
pelos acordos do CONGRESSO DE VIENA (1814 a 1815).
A restauração das monarquias por direito divino em quase todo o continente sufocou as
aspirações dos movimentos nacionalistas e liberais que passaram a desafiar o sistema reinante.
Povos de várias nações, notadamente da Alemanha, Bélgica, Itália, Suíça e países bálticos,
tomados por forte sentimento de nacionalidade, passaram a enfrentar o poder absoluto das
dinastias reinantes; como consequência, surgiram as novas nações europeias que, sob a égide
do liberalismo, iriam desenvolver o continente e praticar uma política internacional de caráter
colonialista.
Lado a lado com as profundas mudanças políticas, econômicas e sociais, as transformações se
estenderam para outros campos da atividade humana e o homem, em contraponto ao
pensamento preponderante dos séculos anteriores, começou a duvidar da existência de Deus.
Essa mutação foi representada por uma arte inovadora, revolucionária e imaginativa, por meio
da qual o indivíduo revelou sua intimidade, sonhos e fantasias. Em decorrência, houve o
surgimento de correntes filosóficas e sociológicas baseadas no cientificismo, que iriam difundir
seus postulados por todo o restante do século XIX e influenciariam futuras gerações e sua
história. A concepção, de matriz positivista, propugnava que os saberes de cunho científico eram
definitivos e, portanto, deveriam ser estendidos a todos os domínios do conhecimento, o que
conferia às ciências humanas um caráter materialista e empírico.
As principais doutrinas desenvolvidas no período, de poder de atração perdurante, foram as
seguintes1:

1
Várias foram as correntes ideológicas surgidas ao longo do século XIX , das quais, pela importância que tiveram
no desenvolvimento das modernas sociedades oci-dentais, merecem destaque as listadas, cuja apresentação está
baseada em diver-sas fontes, principalmente nas obras de Salvatore D'Onofrio (1990) e de Cláudio Vicentino e
Gianpaolo Dorigo (2001).
 Socialismo utópico - baseado nas ideias de Robert Owen, Charles Fourier e do Conde de Saint-
Simon sobre reforma social, defende a administração coletiva dos meios de produção como
condição para o igualitarismo. Seu maior teórico foi o filósofo e economista alemão Karl Marx
(1818-1883). Contando com seu colaborador, Friedrich Engels (1820-1895), o pensador escreveu
um livro em que estão esboçadas as proposições e postulados dessa corrente: O manifesto
comunista (1848). Os princípios desse texto seriam redimensionados em O capital - ensaio em
três volumes, editados em 1867, 1885 e 1894, em que Marx enfatiza uma interpretação
socioeconômica da história, os conceitos de luta de classes, de igualdade social e de revolução
socialista. Além disso, eles propunham a luta como sendo o único caminho para a conquista de
virtudes para os operários, dentro da convicção de que o capitalismo seria destruído por si
próprio.
Evolucionismo - em 1859, o cientista inglês Charles Darwin revolucionou a ciência e escandalizou
a Igreja ao lançar as ideias básicas de sua teoria no livro Sobre a origem das espécies 2. O texto,
de grande impacto no meio científico, evidencia o papel da seleção natural no mecanismo da
evolução. Segundo ele, o homem descende do macaco; portanto, não há nenhuma liga-ção entre
o ser humano e a figura de Deus. Assim, o indivíduo passava a ser uma criatura sozinha num
mundo do qual não haveria transcendência para uma outra vida. Destinado a lutar para
sobreviver, ele sofreria a influência do ambiente em que vive e da seleção natural; tal
pressuposto acredita que os seres humanos mais fortes e mais adaptados ao seu meio são
aqueles que subsistem na cadeia alimentar.
Positivismo - segundo Auguste Comte (1789-1857), o único conhecimento válido era o positivo,
que pode ser comprovado praticamente; ou seja, aquele saber real, útil, preciso e orgânico, que
se baseia na experiência e em fatos concretos. Para seu idealizador, todos os fenômenos
humanos podem ser explicados pela ciência, devendo a compreensão ser buscada nas leis
naturais, com base na observação e na comparação. A doutrina positivista, que exerceu
importante influência no desenvolvimento da futura filosofia analítica, tem sua base teórica nos
tópicos seguintes:
1. O conhecimento decorre de dados "positivos" advindos da experiência, devendo o estudioso
limitar-se à análise dos mesmos;
2. As ideias devem se relacionar num campo formal, formado pela lógica pura e pela matemática;
3. A informação transcendental fornecida, por exemplo, pela metafísica, pela Teologia ou pela
especulação não crítica, deve ser rejeitada, uma vez que não é passível de verificação prática.
Determinismo - teoria filosófica oposta à do livre-arbítrio, considera que tudo no universo,
inclusive o comportamento pessoal, está submetido a regras imutáveis decorrentes de causas
anteriores; em consequência, o ser humano estaria limitado em suas opções, sendo privado da
liberdade de escolha e incapaz de influir nos acontecimentos de que participa. Formulada, em

2
On the origin of species by means of natural selection, or the Preservation of favoured races in the
struggle for life (Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou A conservação das raças
favorecidas na luta pela vida).
seu sentido moderno, durante o século XIX, considera que a conduta humana está vinculada a
três fatores: a raça, o contexto histórico e o meio social.
A raça, de caráter genético, refere-se ao conjunto de disposições inatas e hereditárias do
indivíduo;
O Contexto histórico, relativo ao presente que representa o legado de uma herança secular;
O meio social que num determinado processo histórico, o momento presente está condicionado
pelo que o precede e pelo elemento sucessor. De acordo com essa doutrina, qualquer fato
decorre de uma causa; havendo esta, o resultado será invariável, sem ser afetado pelas
contingências existentes. Como nos demais domínios do conhecimento, no campo das artes
plásticas, o Realismo constitui um estilo oposto à visão idealista e à artificialidade do classicismo
e do romantismo; ele defende a arte como a reprodutora fiel e meticulosa da natureza e da
sociedade. Essa nova perspectiva pictórica surgiu com os trabalhos de um grupo de pintores
franceses estabelecidos no interior do país com o propósito de reproduzir a realidade local.
Dentre eles se destaca a figura de Jean-François Millet (1814-1875), cujas telas representam os
trabalhadores rurais, retratados de forma objetiva, sem sentimentalismos ou idealizações
românticas. Entretanto, o primeiro artista a praticar e divulgar a plástica realista foi Gustave
Courbet (1819-1877), que transpôs para a tela aspectos retirados do cotidiano do campesinato
e do operariado francês. Quando a exibição de seus quadros foi vetada pela Exposição Universal,
realizada em Paris em 1855, ele reagiu montando, em barracas, uma exposição paralela de um
conjunto de quarenta e quatro obras, que denominou de Realismo Courbet. Assim, teve início,
oficialmente, a corrente realista das artes plásticas, movimento com grande influência no século
seguinte e com reflexos em movimentos artísticos importantes, como o alemão nova
objetividade e o Realismo socialista, adotado como estética oficial na União Soviética.
Na literatura, a narrativa realista, em contraposição ao idealismo e subjetivismo anteriores, tem
o cotidiano como tema, a caracterização precisa das personagens como meta e a objetividade
descritiva como forma. Antítese das correntes românticas, exaltadoras dos sentimentos e das
virtudes humanas, os textos do Realismo assumem as perspectivas deterministas e positivistas,
defendem posições liberais e antireligiosas e descrevem a sociedade com todas as suas mazelas
e contradições. Num momento de mudanças tecnológicas e de contestações filosóficas, esses
princípios simbolizam a arte literária europeia da segunda metade do século XIX.
1.2 O surgimento do Realismo no Brasil (1881-1893)
A Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, apesar de romper os laços políticos com
Portugal, não superou os vínculos culturais que nos mantinham ligados à Europa. Assim, o país
procurou copiar o modelo político inglês, ao mesmo tempo em que continuava a receber grande
influência francesa e portuguesa no campo literário, inspiração que alcançou as escolas do
romantismo, Realismo, Naturalismo e Parnasianismo. O romantismo, como reação aos modelos
clássicos anteriores, foi um movimento de combate ao absolutismo e de defesa das liberdades
política e econômica, no qual o foco era o triunfo da imaginação sobre a razão, e foi
preponderante durante todo o Primeiro Reinado e o Período Regencial. Entretanto, enquanto a
estética romântica europeia priorizava a heroicidade da Idade Média, os ficcionistas e poetas
brasileiros, em busca de uma temática nacional, recorreram à idealização indígena, movimento
cujo apogeu ocorre entre 1840 e 1870. Porém, com as profundas convulsões políticas e sociais
ocorridas no Segundo Reinado, no qual se destacam as revoltas internas, as intervenções no
Prata e a Guerra do Paraguai, já não havia mais espaço para os excessos do sentimentalismo
romântico; assim, a partir da década de 70, outra perspectiva começa a se desenvolver no Brasil,
influenciada pelas novas correntes literárias europeias. É o Realismo, movimento que teve na
Escola de Direito de Recife seu centro de irradiação e em Tobias Barreto (1839-1889) e Sílvio
Romero (1851-1914) seus principais divulgadores.
Contexto histórico e sociocultural
Durante o Segundo Reinado (1840-1889), apesar dos esforços de modernização representados
pelo universo urbano, pelo desenvolvimento do comércio e pelo início da industrialização, a
disparidade entre o atraso e a modernidade persistia no Brasil. Por outro lado, a efervescência
do quadro político provocada, entre outros fatores, pelos movimentos abolicionista e
republicano, pela Questão Religiosa e pela Abolição – prenúncios da queda do Império – serviria
para acentuar a disparidade, e não para superá-la. A supremacia da oligarquia agrária, segmento
que "governava" a economia e a política no país e que perdurou mesmo após a proibição do
tráfico negreiro (1850), a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885), constituíam
um dos fundamentos da incoerência nacional do período. Do ponto de vista econômico, o Brasil
mantinha uma estrutura baseada no latifúndio e na monocultura da produção de café voltada
para a exportação; na política, senadores e deputados dos partidos Liberal e Conservador
revezavam-se no poder, mas sempre obedecendo aos interesses da classe dominante. Em
contraposição às estagnações econômica e política, aumenta a insatisfação da classe média
urbana e, em janeiro de 1880, ocorreu no Rio de Janeiro a REVOLTA DO VINTÉM, reação popular
contra a taxa que incidia sobre o transporte urbano e que havia sido repassada para o usuário. A
consequência foi a destruição de bondes e uma repressão policial violenta que resultou em
muitos mortos e feridos. O motim, apoiado pelos jornais abolicionistas, teve grande influência
no período, uma vez que possibilitou o aparecimento de novos atores no cenário político; os
debates políticos, antes restritos ao ambiente parlamentar, ganharam as ruas. Entretanto, na
sua luta contra a desgastada monarquia, essa nova voz, sem representatividade política, apoia-
se no Exército e na liderança dos cafeicultores paulistas, não dependentes do trabalho escravo,
substituído pela atuação do imigrante europeu. Em 1889, a Proclamação da República aparenta
ser a solução para os problemas políticos e econômicos do país; no entanto, as perspectivas e
ambições da classe média e das Forças Armadas foram frustradas. Por meio do sistema de
alianças denominado política do café-com-leite, representantes das oligarquias paulistas e
mineiras passaram a controlar o Estado brasileiro e a se alternar no poder. Configurava-se, dessa
for-ma, um país que convivia com ideias modernas importadas da Europa e com a ultrapassada
organização econômica coronelista, latifundiária e conservadora que perdurou durante toda a
República Velha (1889-1930).
Origens do Realismo no Brasil
Similarmente ao romantismo, em que a temática nacional diferia da de outros países, também
no caso do Realismo o movimento brasileiro não seguiu o forte padrão ideológico que
caracterizou o europeu; aqui, de forma mais abrangente, foi considerada realista a tendência
antiromântica surgida em meados do século XIX. No caso da literatura, sua origem pode ser
buscada nas produções de escritores e dramaturgos românticos urbanos e de sertanistas que
escreveram textos entremeados de alguns dos pressupostos ideológicos e estéticos do Realismo.
Mesmo atrelados à questão da identidade nacional, esses romances, a exemplo da poesia social
dos últimos poetas românticos como Castro Alves e Sousândrade, ocupam a posição de
anunciadores da nova estética que se configurava nas letras brasileiras. Ao lado do texto
narrativo, a dramaturgia romântica tem em Juiz de paz na roça (1838), de Martins Pena, uma
sátira em torno dos tipos e situações das províncias afastadas da Corte, um exemplo de
concretização de um dos principais objetivos do Realismo: mostrar as múltiplas facetas da
sociedade da época. Nessa história, que é considerada a primeira comédia de costumes do teatro
nacional, os hábitos das pessoas simples eram revelados e seus problemas vistos através da lente
da ironia. Em suas peças teatrais, o dramaturgo tem como temas predominantes o autoritarismo,
a corrupção, a exploração e a ascensão social; na obra Os dois ou o inglês maquinista (1871), por
exemplo, ridicularizam a hipocrisia, a corrupção e o oportunismo, sempre presentes na vida
social brasileira. Na prosa de caráter urbano, o romance Memórias de um sargento de milícias,
de Manuel Antônio de Almeida, pucado em forma de folhetim em A pacotilha (1852-1853),
suplemento semanal do Correio Mercantil, é uma crônica de costumes populares, que registra a
vida da classe média carioca na época de D. João VI. Para alguns críticos, o conteúdo humorístico,
a troça aos princípios românticos e a descrição dos hábitos familiares permitem definir o texto
como sendo a inauguração do Realismo brasileiro. Contudo, algumas características dessa
estética não estão presentes na obra, como a busca da perfeição formal, a análise psicológica
em profundidade das personagens e a objetividade narrativa. Em sua maior parte, as narrativas
e os dramas românticos. publicados no início do século XIX, procuraram traduzir, mesmo que de
uma forma tímida, o Brasil arcaico, citadino e rural, colocando- o como matéria de ficção. Assim,
começavam a ser conteúdo da prosa as questões sociais que exibiam as contradições, a
complexidade e os problemas da implantação da modernidade no país. Era o prenúncio da
ruptura artística com os ideais do romantismo e a consequente emergência de novos temas a
serem representados. O meio cultural, frente às mudanças que transcorriam, buscava
desenvolver e divulgar uma nova consciência social que espelhasse a progressista maneira de
pensar. As transformações começariam a acontecer, a partir de 1870, com a Escola de Direito de
Recife, liderada por Tobias Barreto e seus seguidores. Sua proposta veria o contexto e os
processos desencadeados como "um bando de ideias novas que esvoaçou sobre nós de todos os
pontos do horizonte 2. Por sua vez, o conto regional brasileiro do final do período romântico
descreve o cotidiano do homem campesino numa linguagem mais simples e mais próxima da
popular, uma forma nunca antes utilizada. Ao contrário das narrativas idealistas anteriores, que
enfatizavam a cor local e o pitoresco de cada região, o texto pós-romântico regionalista tinha
uma função documental sobre os gritantes contrastes existentes entre a vida na cidade e no
campo. Neste último espaço, dentro de uma perspectiva determinista, as personagens eram
apresentadas como sendo produtos do meio em que viviam, das raças a que pertenciam e do
contexto histórico local. Nesse período de transição, dois escritores merecem destaque: Alfredo
d'Escragnolle Taunay, visconde de Taunay (1843-1899), e Franklin Távora (1842-1888). O
primeiro, político, escritor e membro fundador da Academia Brasileira de Letras, situa-se no
romantismo pela sua visão de mundo e, na estética realista, por sua capacidade de observação
e análise dos aspectos integrantes da narrativa. Sua obra mais conhecida, escrita em língua
portuguesa, é o romance Inocência (1872), na qual uma história de amor no interior do Brasil se
une à descrição realista dos costumes, tipos e cenários da vida ser-taneja6. O segundo, defensor
de um regionalismo extremado, buscou os temas e cenários de sua obra no sertão nordestino.
Em O cabeleira (1876), seu mais conhecido romance, escrito em tom de manifesto, apresenta o
regime de latifúndio e a seca como responsáveis pela miséria e migrações locais, condições que
favorecem o cangaço. A materialização dos pressupostos da estética realista se estendeu aos
diferentes campos do conhecimento e promoveu 6 Outra obra famosa do autor é A retirada da
Laguna (1871), em que relata o célebre episódio da Guerra do Paraguai. Esta, contudo, foi escrita
em língua francesa, sendo traduzida para o português por seu filho uma conscientização da
comunidade intelectual que intensificou sua crítica à sociedade brasileira. Ao mesmo tempo,
muitos de seus integrantes, dotados de interesse real e objetivo pelos problemas nacionais,
buscavam ampliar sua participação na vida política nacional como forma de encontrar soluções
para nosso atraso sociocultural. Entretanto, apesar de tantas e profundas mudanças no
pensamento da vanguarda intelectual brasileira, o escritor mais importante do período,
Machado de Assis, zombava das novidades literárias e, em muitas de suas obras, adota a
intertextualidade para, assim, poder utilizar algumas das técnicas narrativas românticas para
ironizar o declínio de valores da sociedade oitocentista.
Características da literatura realista
A historiografia literária denominou de Realismo a doutrina estética baseada na reprodução da
realidade, que, como já apresentamos, teve como precursores os romances de Honoré de Balzac
e Stendhal, mas cujo desenvolvimento efetivo se deu na segunda metade do século XIX. Durante
seu apogeu, predominou no pensamento ficcional uma concepção de mundo singular, narrada
através de uma linguagem coloquial e não artificiosa que tinha como meta a objetividade crítica
na descrição da história das personagens. Para o autor realista, os universos físicos e sociais
deveriam ser analisados em si mesmos, sem a idealização, o sentimentalismo ou o tom
confessional encontrado nas histórias do romantismo.
No entanto, o interesse literário pela realidade não é privilégio da nova manifestação artística;
desde muito que autores pertencentes a outros movimentos já se utilizavam dela para
descreverem episódios históricos e exaltarem os feitos das personagens envolvidas. Seus relatos,
porém, não seguiam os princípios do cientificismo e não se subordinavam à necessidade,
defendida pelos realistas, de conferirem verdade e contemporaneidade ao seu trabalho. Dessa
forma, a obra era revestida de artificialidade e subjetividade, com o intuito de permitir ao
receptor a liberação de suas emoções e fantasias.
Quanto à estética do Realismo, a análise das suas características, bem como do tempo e do
espaço em que a mesma se desenvolveu, permite constatar que esses fatores influenciaram, de
forma marcante, a nova forma de perceber e representar a vida e o universo. O contexto
histórico-social do período era tenso, propiciado pelo aparecimento de indivíduos engajados na
luta contra o capitalismo crescente e em defesa da classe operária, explorada por uma burguesia
insensível e cada vez mais instalada no poder. Diante desses fatos, era difícil para o autor
preocupado com a situação vigente produzir romances de temática leve ou descompromissada
com a realidade diária. Era preciso alertar o leitor sobre o panorama social e sobre a luta
reformista que começava a ser empreendida. Ao lado do contexto econômico e social, no
período também se verifica a ascensão do método científico como instrumento de análise para
o conhecimento do real; é a vitória do pensamento racionalista e crítico sobre o idealismo e a
tradição romântica.
Em consequência, a literatura começa a derivar seus critérios para a construção de uma prosa
ficciona regida pela realidade e pelo rigor cientificista. Influenciados pelas novas teorias
científicas e sociológicas, os escritores passam a adotar uma visão mais materialista do mundo,
usada para descrever fatos concretos de forma precisa, rejeitando, assim, a escrita metafísica e
suprassensível anterior. A verdade psicológica das personagens passa a se ater ao princípio de
causalidade; a criação do ambiente, ao cotidiano; a história, à correta observação da sociedade
em seus pormenores. Para a representação dessa efervescente atmosfera social, o romance se
sobressai aos demais gêneros literários na abordagem dos costumes regionais e urbanos, na
descrição dos costumes da burguesia, na denúncia das péssimas condições de trabalho do
operariado e na análise crítica da coletividade e de seus integrantes. As narrativas desses
acontecimentos e caracteres seriam projetadas no chamado romance de tese, que pretende
defender uma ideia e ser um retrato de época; é a arte engajada, usada como meio de
conscientização do leitor.
No Realismo, o romancista, inspirado no positivismo e no determinismo científico, tem como
projeto a reprodução fiel do mundo real e dos acontecimentos contemporâneos, que permite a
criação de uma história passível de acontecer. Para isso, ele lança mão da observação, da
experiência e da documentação conseguidas por meio de registros, informações, pesquisas e
entrevistas que forneçam um panorama da vida em seus mais diversos fenômenos sociais, com
suas respectivas causas e consequências. Acrescenta-se a essa característica as de objetividade
e imparcialidade, em que o escritor deve manter-se afastado da narrativa e neutro em relação
às ideias e visões das personagens.
Assim, ele adota um ângulo de visão impessoal, desligando- se de referências íntimas e juízos de
valor. Destarte, nos textos predomina o emprego da terceira pessoa – tal técnica transmite ao
receptor a impressão de que os elementos da história não recebem interferências do narrador.
E, como o leitor deve ser capaz de montar uma ideia que seja a mais exa-ta possível do universo
observado, cabe ao autor fornecer ao mesmo descrições carregadas de apelos sensoriais que
permitam configurar a cena apresentada, revelando, dessa forma, um verdadeiro culto aos
sentidos.
Na observação das ações humanas, o movimento estético do Realismo se vale dos preceitos
racionalistas, segundo os quais só a razão pode assegurar o conhecimento verdadeiro, para
proceder à investigação objetiva das personagens como agentes de grupos da sociedade,
resultando na análise psicológica e na tipificação social. Por meio da primeira, chega-se ao
entendimento das motivações pessoais em suas relações com o meio e o momento histórico;
pela caracterização social, seus gestos, falas e conflitos são interpretados como representações
do grupo ao qual pertencem. Impelidos pela necessidade de fornecer verossimilhança ao texto,
os autores realistas escrevem sobre fatos, situações e figuras do dia a dia e, ainda que os
elementos imaginosos constituam a essência da obra, procuram estabelecer nexo e harmonia
aos fatos e atos.
Assim sendo, e premidos pelo imperativo da descrição detalhada do espaço, do tempo e das
personagens, sua narrativa torna-se lenta, sendo a história constantemente interrompida por
informações analíticas e descritivas. Além desses aspectos, a forma de expressão possui outros
elementos, como a clareza, equilíbrio e harmonia na composição; a preocupação com a perfeição
formal e uma linguagem natural e sem requintes linguísticos.
Quanto ao conteúdo, a obra dessa estética é caracterizada pela:
 Representação do amor como um sentimento subordinado a interesses sociais e a
instituição do casamento como um arranjo de conveniência;
 Composição do protagonista como um herói problemático que vive em um mundo em
crise de valores. E, embora ele possa vir a atingir seus objetivos, será mostrado ao leitor
como um indivíduo derrotado;
 Apresentação das características, conflitos e sentimentos internos das personagens por
meio da introspecção psicológica;
 Crítica aos valores e às instituições predominantes na sociedade burguesa. Em suma, a
segunda metade do século XIX é marcada por grandes mudanças sociais advindas das
transformações econômicas e das técnicas resultantes da Revolução Industrial.
Com a industrialização, o trabalho humano artesanal e manufatureiro começa a ser substituído
pela máquina e, cada vez mais, o homem se distancia do produto de seu esforço. O período
também é marcado pela divulgação de novas teorias científicas e pelo surgimento de teorias
filosóficas que defendem o método experimental em oposição ao argumento metafísico. Em
consequência, novas formas de pensamento florescem e repercutem nas estruturas da
sociedade e do estado. Nesse contexto de cientificismo, de desenvolvimento industrial e
econômico, as obras artísticas produzidas representam o cotidiano do homem real, em tudo
semelhante ao do seu público-alvo. Com a produção de textos com temática compreensível pelo
leitor comum, a ficção realista, de forma objetiva, divulga a uma parcela significativa da
população a preocupação sociopolítica de seus autores. Decorreria, daí, a função social dessa
arte literária engajada que era a de conscientização dos problemas existentes, muito embora os
textos não apontassem para suas possíveis soluções. No Brasil, a escola assumiu importância
relevante para a cultura nacional, na qual se destacam a nacionalização definitiva da língua
portuguesa e a sistematização do trabalho do crítico literário, que passa a ser influenciado pelos
métodos rígidos da ciência determinista. Como legados do Realismo transmitidos às artes dos
períodos posteriores, destacam-se a preocupação social, com ênfase na abordagem dos
problemas urbanos contemporâneos, e a visão regional, que permitiu desvendar sutilezas pouco
conhecidas das diversidades étnica e cultural que caracterizam a sociedade brasileira. Essa
herança influenciaria, de forma decisiva e direta, os artistas participantes da SEMANA DE ARTE
MODERNA, em sua luta pela nacionalização de nossos costumes e conhecimentos.

O Romance de Machado de Assis


ModernismoNo ano de 2008, foi grande a movimentação nos ambien-tes literários brasileiros;
muitas foram as atividades programa-das e livros lançados para relembrar os 100 anos da morte
daquele que é reverenciado como sendo o maior expoente da prosa do país – Joaquim Maria
Machado de Assis (1839-1908). Considerado por muitos críticos como o pai da nossa verdadeira
literatura, o conjunto da obra do hedonista atra-vessa as fronteiras das correntes literárias de
seu tempo. Em seus romances, as personagens são concebidas muito além das características
locais; sua construção não segue critérios de representação vinculados à questão da geografia.
Para o autor, o importante é a ALMA NACIONAL; este é um elemento característico e
representativo do íntimo do homem brasileiro de todas as regiões.Cético observador da alma
humana, o escritor carioca, apesar de descrever o contexto espaço-temporal do século XIX, tem
uma percepção da realidade que foge aos critérios cronológicos; sua temática ainda se faz
presente nas ques-tões da nossa sociedade contemporânea. Machado narra os aspectos da
sociedade de seu tempo com maestria, preferin-do, em vez do ataque direto e objetivo, tecer
uma crítica sutil, na qual adota um olhar distante (mas não menos observador) para expor as
mazelas e incongruências de sua época, em que velhos costumes e antigos problemas coexistem
com as mu-danças sociopolíticas do fim do Império e início da República no Brasil.Não obstante
seja responsável por uma obra múltipla, composta por poesias, peças teatrais, crônicas e ensaios,
além dos romances e contos, foi com estes últimos gêneros que o mestre do Cosme Velho" se
afirmou e se consagrou. Assim, neste capítulo serão enfocadas suas realizações como con-tista
e prosador. O estudo se inicia pela síntese das principais características da prosa do escritor em
suas duas etapas de produção ficcional, a de APRENDIZAGEM e a da MATURI-DADE. Em
sequência, o texto focaliza a narrativa romanesca da segunda fase e apresenta uma breve análise
das principais histórias escritas pelo autor no período. O conto machadiano será objeto do
próximo capítulo. 2.1 A prosa machadianaÍcone inconteste da literatura brasileira, Machado de
Assis sou-be como nenhum outro escritor representar a sociedade bur-guesa da segunda metade
do século XIX e dos primeiros anos do XX. Ele analisa os indivíduos e as estruturas de seu tempo
por meio de uma refinada descrição realista, na qual o mo-mento histórico do final do Império e
da transição para a Re-pública afeta o universo moral das personagens; estas são as eleitas para
serem o foco de sua análise. Nas suas narrativas, ele examina o detalhe íntimo e escondido, o
olhar dissimula-do, as intenções secretas e o riso ambivalente, enfim, os traços exteriores que
mostram os labirintos internos.Dotado de uma personalidade sarcástica, crítica e cética, o
romancista inclui em seus textos duas das visões filosóficas predominantes na época acerca do
homem e do mundo: o pessimismo e o niilismo. A primeira, surgida com o pensador alemão
Arthur Schopenhauer (1788-1860), baseia-se na ideia
de que a vida está necessariamente ligada ao sofrimento e à dor. Em consequência, o adepto da
corrente é desiludido com a existência e descrente dos seus semelhantes; para ele, o ódio, o
egoísmo, a incompreensão, o mal e o interesse são as causas das atitudes humanas. Ele se
considera um indivíduo sem alternativas, cuja atitude é de "estar no mundo", o qual ele observa
com uma "visão desencantada".A segunda, ou mais propriamente, o niilismo nietzschiano1, é
uma doutrina filosófica e política cuja essência está na nega-ção do mundo suprassensível e dos
valores morais e estéticos que o constituem; seus seguidores não creem em Deus, na vida após
a morte, no Céu ou no Inferno. Para eles, viver na Terra significa estar num processo passageiro,
à espera do mundo novo, feito à imagem e semelhança do homem. O indivíduo cético não crê
nas mudanças concretas pelas quais passam o ser humano porque acredita que a permanência
é a maior prova do caos universal, já que tudo e todos nascem, mudam e morrem. Essa
concepção niilista da vida é exemplificada no capítulo O delírio, em Memórias póstumas de Brás
Cubas.Estilo machadiano – fase de maturidadeA obra machadiana, repleta de pormenores e de
sutilezas, pos-sui na correção, na sobriedade e na concisão as qualidades distintivas que as
transformaram em verdadeiras obras-primas. Esses traços estilísticos, contudo, apesar de
sintetizarem sua escrita, convivem com uma variedade de processos linguísticos
e narrativos que caracterizam a forma de expressão do escri-tor. De acordo com Ivan Teixeira1,
dentre as peculiaridades formais, conteudísticas e estéticas que distinguem a fase de maturidade
do autor estão: ÂQuebra da estrutura linear e fragmentação da nar-rativa: não há linearidade
nos romances; os capítulos são curtos e fragmentados, com diversos episódios in-cluídos na
trama. ÂDigressões do narrador: a voz narrativa se faz pre-sente por meio de interrupções,
digressões, comentários metaliterários e falas dirigidas ao leitor. ÂAnálise psicológica: as
histórias narram situações em que o mundo interior das personagens é desvendado; a partir das
descobertas sobre os mistérios que cercam o homem e seus relacionamentos, são descritas
mudanças na alma e nas atitudes humanas. ÂAnálise dos valores sociais: o conhecimento
profundo da estrutura social e política vigentes possibilitou que o autor construísse personagens
que simbolizam as ca-racterísticas negativas da classe média contemporânea, tais como a
inércia, a mesquinharia, a mediocridade, a perversidade cotidiana e o egoísmo. ÂHumor: a
temática é tratada em tom de brincadeira, de forma a permitir o distanciamento e uma relativa
neu-tralidade por parte do leitor. Esse recurso se constrói a partir da análise psicológica e social,
os quais levam o narrador a concluir que tudo e todos se arrastam para um grande vazio. ÂIronia:
consiste em dizer o contrário do que se afirma; o procedimento é usado pelo escritor para
destruir postu-lados científicos, filosóficos, religiosos e ideológicos. Por meio desse relativismo
radical, o narrador mostra que essas ideias são ilusórias, sem um sentido verdadeiro, existindo
apenas para enganar a existência humana. ÂIntertextualidade: as narrativas machadianas busca-
ram inspirações não apenas na vida real; elas estão ba-seadas, também, em modelos literários
ou filosóficos de outros tempos ou autores como Esquilo, William Shakes-peare, Rabelais, Miguel
de Cervantes, Jonathan Swift, Henry Fielding, Laurence Sterne, entre outros. ÂCarnavalização:
essa teoria crítica postulada por Mi-khail Bakhtin (1895-1975) é uma representação artísti-ca em
que há uma mistura de diversos elementos e na qual estão presentes vários gêneros e registros
de lin-guagem, além de composições verbais cômicas, como o riso e a paródia, e de apelos
visuais, como o grafite, o desenho, o cartaz etc. Nos textos de Machado de Assis há a convivência
de diferentes vozes, de capítulos mar-cados pelo grafismo e de situações em que acontece a
inversão da ordem natural dos fatos, provocando o deboche e o escárnio.As características
apresentadas, juntamente à forma clara, elegante, equilibrada e correta que distinguem o
processo com-positivo de Machado de Assis, tornam única a sua obra. Os traços estilísticos que
configuram as narrativas machadianas são múltiplos e, por vezes, complexos, exigindo, em
consequência, um leitor atento e sensível à estrutura verbal dos textos.Fases da produção
literária: a narrativa romanescaA crítica literária, via de regra, divide a obra machadiana em dois
momentos característicos e, ao mesmo tempo, comple-mentares: as fases ditas de
aprendizagem e de maturidade. Na primeira, contemporânea da segunda geração românti-ca, o
escritor apresenta elementos do romantismo, entretanto, sem o calor e a emoção dos poetas do
movimento. Nessa etapa estão, entre outros textos, os poemas românticos Crisá-lidas (1864) e
Falenas (1870), além de Americanas (1875), de clima indianista. Representam ainda esse estágio
inicial os romances Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia
(1878); além de ensaios, crônicas e pe -ças de teatro, área em que ele se limitou às comédias
ligeiras, sendo a maior parte de um único ato; entre elas figuram Tu, só tu, puro amor...,
Desencantos, Quase ministro, Lição de bo-tânica, entre outras.Os romances da primeira fase
machadiana apresentam en-redo sentimental do romantismo clássico; são de histórias de
afeição contrariada entre jovens envolvidos com tramas de he-rança e dramas familiares.
Difundida em forma de folhetim, a temática do amor entre indivíduos de classes sociais
diferentes objetivava emocionar, surpreender e moralizar. Mesmo conce-bendo os textos no
estilo romântico convencional, Machado não pecou em pintar um sentimentalismo exagerado,
pois preferiu, na forma e na trama, empregar a moderação. Neles estão presentes o
conformismo com os valores da época, o aspecto psicológico das personagens, que não
apresentam qualquer traço de complexidade, e a linguagem convencional carregada de lugares-
comuns e de frases feitas; são elementos que estarão ausentes na perfeição expressiva da
segunda fase do escritor.Nessas narrativas, já é possível perceber certa preocupa-ção com a
análise psicológica dos seres ficcionais e com o estudo das razões de seu comportamento em
detrimento da descrição do espaço. Além disso, exceto em Ressurreição, as histórias colocam o
casamento como um ideal a ser alcan-çado, enfocam o problema da ascensão social e expõem
os valores das famílias e das instituições. Os temas são tecidos por um narrador onisciente que
procura manter contato com o leitor – são os indicativos da nova fase machadiana e já reve-lam
as indiscutíveis qualidades do grande prosador.Em oposição à inclinação chamada alencariana
de figurar o país de forma pitoresca e ufanista, Machado situou suas his -tórias no espaço urbano,
lugar em que as camadas sociais dis-putam um complexo e, por vezes, ambíguo jogo do poder
em busca da manutenção ou da modificação da situação vigente. A identidade do Brasil
cosmopolita encontrava-se na luta das forças e contradições sociais. Todas essas características
serão aperfeiçoadas nas principais narrativas da etapa seguinte de sua escrita romanesca.
2.2 Os principais romances da segunda fase
Desde os romances da fase de aprendizagem que Machado de Assis demonstra os atributos que
o iriam transformar em ícone da literatura brasileira. Mas é a partir dos textos Memó-rias
póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1900) que desponta a
genialidade que levou Manuel Bandeira, citado na Enciclopédia Barsa, a afirmar que, "nenhum
escritor o sobrepuja na harmonia de todas as quali-dades, que faz dele nosso clássico por
excelência"2. A primeira publicação, que discorre sobre as recordações de um defun-to a
respeito da vida passada, representa um divisor na obra machadiana, pois marca o início do
estágio de maturidade do autor. Nela há o abandono da influência romântica anterior e as
contradições da sociedade da época passam a serem vistas dentro da ótica realista. A troca de
perspectiva pode ser percebida já na nota Ao leitor, postada no início do livro; nela, o narrador-
protagonista, Brás Cubas, declara que se trata "de uma obra difusa, [...] [escrita] com a pena da
galhofa e a tinta da melancolia"3.Em Quincas Borba, é contada a história de um ingênuo ex--
professor primário que, após tornar-se herdeiro improvisado, cai nas mãos de um casal jovem e
ambicioso que lhe explora. Dom Casmurro retorna ao estilo das memórias pretéritas re-
memoradas pela personagem – nessas, ele se crê traído pela mulher e pelo melhor amigo, ambos
já falecidos. Nesses ro-mances que assinalam o novo ciclo do autor, a ingenuidade romântica
cede espaço à paródia, ao humor irônico, ao riso sarcástico, ao escárnio geral dos costumes e ao
questiona-mento das convenções sociais.Tais elementos continuam presentes em Esaú e Jacó
(1904) e em Memorial de Aires (1908), e embasam o maneirismo do escritor, cuja fonte de
inspiração são as ações rotineiras do homem comum. Machado, ao entrar na consciência dos
seres ficcionais, mostra-nos enredos entremeados de temas ligados à dúvida, à indecisão e à
loucura – são figuras recorrentes a inclinação ao adultério, à futilidade, à hipocrisia, à vaidade e
à ambição, que são objeto de uma observação psicológi-ca crítica. Além desses tópicos
conteudísticos, fazem parte da constelação machadiana a irreversibilidade do tempo, subor-
dinada às leis da natureza e à contingência da morte, e a exis -tência do mal em todas as suas
concretizações. Não obstante, os indivíduos que povoam o universo de seus textos não são
classificados como bons ou maus – ao autor importa registrar os impulsos contraditórios
existentes no ser humano.Nos textos escritos em seu estágio de maturidade, o autor assume
papel de dissecador social com o intuito de acabar com o disfarce, deixando o verdadeiro "eu"
das personagens vir à tona. Assim, é desmascarado o jogo das relações da burguesia e revelado
o contraste existente entre a essência, ou a alma in-terior do indivíduo, e a aparência, ou o
comportamento conven-cional representado pelos gestos exteriores exigidos, mas igual-mente
criticados pela opinião pública. A partir dessa análise da conduta íntima e social das personagens,
é possível delinear-se a perspectiva de análise externa e interna dos indivíduos e do mundo que
o escritor quer transmitir. De acordo com Sergius Gonzaga4, essa contraposição permite ao
escritor, por meio das ações de suas personagens, desvendar as atitudes sociais do ser humano.
Vejamos o quadro a seguir:
Quadro 1 — Visão machadiana do ser humano Fonte: GONZAGA, 2007

Aparência Essência
Afeto; entrega; ternura Descaso; desinteresse; indiferença
Altruísmo; bondade; generosidade Avidez; egoísmo; inveja
Autenticidade; legitimidade; sinceridade Disfarce; hipocrisia; simulação

Cordialidade; desprendimento; fraternidade Ambição; cobiça; interesse


Critério; disciplina; organização Anarquia; conflito; confusão
Decência; pudor; virtude Cinismo; corrupção; imoralidade

Racionalidade; racionalismo Impulso; intuição

O quadro mostra a descontinuidade existente entre aqui-lo que é revelado pelas personagens e
aquilo que de fato é percebido ou sentido por elas intimamente. Essa dualidade de viés realista,
sugerida pela obra de Machado de Assis, pode ser percebida nas narrativas de Memórias
Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memo -rial de Aires.
Com o objetivo de permitir uma visão genérica sobre a obra do autor, os romances citados na
sequência estão comentados de forma breve e sucinta. A apresentação, no en-tanto, não exime
o estudante da leitura integral dos mesmos; somente assim ele poderá tirar suas próprias
conclusões sobre o assunto.
Memórias Póstumas de Brás CubasO primeiro grande romance de Machado de Assis marca o
início da nova fase e traduz sua grande vocação de narrar, de contar a essência do homem em
sua precariedade exis -tencial. As personagens do livro apresentam-se divididas con-sigo
mesmas; elas são joguetes de forças desconhecidas e imprevisíveis, tendo seu livre arbítrio
limitado por obstáculos naturais e por suas perplexidades e contradições internas. Os seres
ficcionais são sutil e minuciosamente analisados em seus pormenores por meio da dissecação de
parcelas mínimas de sua intimidade que, reunidas, formam o todo de sua persona-lidade. O
protagonista, Brás Cubas, em seu relato post-mortem, relembra e reconstrói sua existência
anterior como um enorme pesadelo no qual o ser humano procura o prazer dos sentidos e a
ventura do coração. O "defunto-autor" conta seu passado de baixezas e de parasitismo em uma
história na qual o nar-rador está interessado apenas em recordar a vida pretérita, buscando um
sentido para ela. E, ao final de seu relato, realiza um balanço de perdas e ganhos de sua vivência
de homem inútil e entediado, concluindo que terminou com "um pequeno saldo, que é a
derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma
criatura o legado da nossa miséria"5.Na descrição de sua jornada, a voz narrativa se utiliza da
digressão, recurso característico dos textos machadianos da fase madura. Por meio dessa
estratégia, ela não segue line-armente a história; ao contrário, ela para, comenta outros as-
suntos, discute, levanta hipóteses, interpela o leitor, discorre sobre o ato de escrever. Essas
paradas e mudanças repentinas marcam o texto pela descontinuidade e permitem ao narra-dor
dar um tom desabusado ao mesmo. Nesse estilo difuso, o enredo perde a importância. Em seu
lugar surgem episódios desconectados e pontuados por digressões, citações descon-
textualizadas e racionalizações cínicas ou banais, que têm o objetivo de caçoar da tradição
histórico- cultural. O estilo em zigue-zague proporciona uma escrita que associa humor e ironia
ao deboche sobre a vida da sociedade carioca, assim como permite ao narrador refletir sobre a
ambivalência moral das personagens, suas intenções, desejos secretos e atitudes marcadas pela
falta de perspectivas existenciais.Quincas BorbaConsiderado um romance de enredo regular,
ritmo narrativo equilibrado e contínuo, Quincas Borba é a obra machadia-na que mais se
aproxima da tradição realista europeia do sé-culo XIX. Contudo, ao contrário dos textos daquela
corrente, a personagem Pedro Rubião é um ex-professor primário que ascende socialmente não
por um ato escuso, mas sim pelo recebimento da herança do filósofo Quincas Borba, de quem
se tornara discípulo e enfermeiro.Joaquim Borba dos Santos, mais conhecido como Quincas
Borba, é o criador de um espantoso sistema que "retifica o espírito humano, suprime a dor,
assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país." Ele o denomina de "Humanitis-mo,
de Humanitas, princípio das cousas"6. A teoria, divulgada desde o romance anterior, não excluía
nada e estava destina-da a arruinar com os demais sistemas. De acordo com ela, a guerra tem
uma natureza benéfica e é um fator necessário para quebrar com a monotonia universal e
permitir a seleção dos seres mais aptos à sobrevivência. A ideia fundamental da filosofia pode
ser resumida na máxima "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas"7. Esse
axioma é uma ne-gação de tudo o que é considerado verdadeiro pelas crenças existentes e
representa a crítica de Machado de Assis às doutri-nas consagradas do período.Dom
CasmurroUm dos mais conhecidos romances do autor, Dom Casmurro inicia-se focalizando a
solidão da personagem Bento Santiago. Indivíduo calado, que vive quase recluso com um único
criado no subúrbio do Engenho Novo, bairro do Rio de Janeiro, ele se torna conhecido pelo
apelido que dá nome à narrativa. Nesta, após explicar as razões do título escolhido, passa a
reescrever a sua história; estando na maturidade, procura, com as lem-branças, entender o
sentido de fatos passados, ocorridos na juventude e na vida adulta. No registro de suas memórias
con-centra seu objetivo em "atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a
adolescência"8.O reviver dos eventos é contado em primeira pessoa, dan-do, assim, uma
perspectiva pessoal e íntima aos acontecimen-tos. Nesse nível de foco narrativo, a trama é
conduzida em estilo de zigue-zague, com constantes digressões, por vezes irônicas, e mudanças
na perspectiva temporal. Seguindo essa abordagem de divagação, o narrador, com frequência,
sus-pende a descrição da história principal para refletir sobre as- suntos relacionados à arte ou
para discorrer metalinguistica-mente sobre a escrita.Em relação às personagens, elas simbolizam
figuras da so-ciedade carioca do período. Assim, o advogado Bento San-tiago é o homem culto e
autoritário. Capitolina, a Capitu, é a mulher que incorpora a luta contra os tabus e os
preconceitos morais; alegre, inteligente e decidida, provoca no marido sen-timentos dúbios.
Além das figuras principais, destacam-se a mãe do narrador, Dona Glória, como a viúva que
assume os valores do patriarcalismo da época, e José Dias, agregado pedante que representa o
parasita explorador de terceiros.Considerada a obra-prima de Machado de Assis, Dom Casmurro
é um romance complexo e indeterminado, que pos-sibilita diversas interpretações por parte do
leitor. Essa natu-reza da escrita é caracterizada pela dualidade existente entre a aparência e a
essência. E, em alguns momentos, o que é dado como verdadeiro pode ser apenas uma ilusão,
alimenta-da pelas ambiguidades textuais. Sendo uma obra aberta, não existem soluções para os
enigmas apresentados; desse modo, nos elementos do texto não há informações claras e
suficientes que permitam uma conclusão definitiva para o pressuposto de que Capitu teria traído
o marido com Escobar, o melhor amigo daquele.Esaú e JacóO romance, publicado em 1904, é a
penúltima obra de Ma-chado de Assis. Nele, a história dos gêmeos Pedro e Paulo que, desde
antes do nascimento, disputaram a tudo e a todos é contada, na terceira pessoa, pelo
Conselheiro Aires. Eles são dois irmãos idênticos na aparência, mas diferentes na essên-cia, que
mantêm um conflito permanente, o qual, ao longo da vida, é acentuado em diversos planos.
Entre eles, o amoroso, em que ambos se apaixonam pela mesma jovem, Flora Batis-ta, e passam
a competir por sua atenção e seu amor. Outro campo é o político, no qual um é republicano e, o
outro, mo-narquista, e elegem-se deputados por partidos diferentes.Essa é uma obra mítica
sobre uma inimizade sem causa explícita; é um romance em que as personagens simbolizam
verdades filosóficas ou representam fenômenos naturais. O título, relacionado às histórias
ficcionais de Pedro e Paulo, re -mete ao Antigo Testamento da Bíblia 9, em que Rebeca favo -
rece Jacó em detrimento de Esaú, fato que torna seus filhos inimigos ferrenhos. Por sua vez,
Flora, a amada em disputa, simboliza a natureza e Natividade, a mãe, a maternidade e o
renascimento.Dentro dessa visão interpretativa, as disputas entre os filhos de Natividade e
Agostinho materializariam a luta do indivíduo consigo mesmo e, ao mesmo tempo, a eterna
busca humana pela harmonia, estabilidade e perfeição. Durante a narrativa, a mãe de Pedro e
Paulo busca, em vão, a união dos irmãos, mas eles não conseguem cumprir o pacto de paz feito
a ela em seu leito de morte. E, ao final, Aires constata que eles, desde o útero, nunca foram
amigos e, pelo que tudo indica, nunca o serão.Tendo como contexto histórico o período da
Proclamação da República (1889), o texto apresenta fatos políticos impor- tantes da época, como
o Encilhamento e a Abolição da Es-cravatura, enquanto as personagens hesitam, cada um à sua
maneira, perante a mudança de regime político em curso. Nesse cenário de importantes fatos
históricos, percebe- se a preocupação do autor em descrever de que forma o público afeta ou
não a esfera do privado. Não obstante Esaú e Jacó não esteja dentre os textos do autor mais
aclamados pela crí-tica literária, sua estilística marcante e os tipos representados são singulares
e contraditórios, características incontestes da obra machadiana.Memorial de AiresÚltimo
romance do escritor, publicado no mesmo ano da sua morte, é uma história nostálgica,
melancólica e psicológica, porém menos irônica que o conjunto da obra machadiana. Nela, o
Conselheiro Aires, mesmo personagem-narrador de Esaú e Jacó, utilizando- se das observações
e reflexões presen-tes em seu diário íntimo, vai tecendo um relato paralelo à sua própria vida.
As memórias relatam dois anos vividos por um casal de idosos, Aguiar e Dona Carmo, que, assim
como o memorialista, percebem o período da maturidade como sendo de amargura e de solidão.
Sem filhos, eles "adotam" e prati-camente criam Tristão e, com a viagem dele para estudar na
Europa, a jovem e bela viúva Fidélia. Estes, com o tempo, conhecem-se, casam- se e mudam para
Portugal e nunca mais voltam. Para o narrador, "a mocidade tem o direito de viver e amar, e
separar-se alegremente do extinto e do caduco"; para os pais adotivos, resta a tristeza –
"queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos"10. Em
suas observações, Aires registra seus pensamentos a respeito da morte, do indivíduo como
vítima da dor da exis -tência e das eternas forças que lutam contra a realização dos desejos
humanos. O relato das impressões do diplomata apo-sentado compreende o desencanto com a
vida e a aceitação do fim inevitável. Seu diário resulta de anotações detalhadas sobre as atitudes
das personagens, ao mesmo tempo em que realiza digressões sobre as relações entre os vivos e
os mortos e sobre o sentido da existência.Com a morte da esposa Carolina, em 1904, Machado
de Assis cria um romance em que deixa transparecer vestígios au-tobiográficos e no qual
transmite uma visão entristecida da ve-lhice, da solidão e do mundo. De certa forma, a obra
encerra o ciclo da sondagem do comportamento humano e representa um retorno à antiga
compreensão romântica da fase de apren-dizagem; é como uma espécie de testamento do
escritor, que viria a falecer em 29 de setembro de 1908, mesmo ano da publicação do
romance.2.3 Estilo de épocaNo seu conjunto, os romances de Machado de Assis da sua fase de
maturidade apresentam algumas marcas importantes pertencentes à escola realista. Dentre
elas, destacam-se:

 A temática focada na natureza humana, com suas con-tradições, seus infortúnios, seus
vícios e seus defeitos;
 A visão pessimista, amoralista e niilista das relações amo -rosas, do casamento por
interesse e do cotidiano social;
 A narração cáustica de fatos relacionados tanto com a vida quanto com a morte;
 A exposição rigorosa da sociedade burguesa, com des -taque para temas como o
adultério, a hipocrisia e a presunção;
 A descrição fiel e sem idealização das personagens, que são objeto de análise psicológica
profunda, reveladora de seu íntimo e de seus pensamentos;
 A adoção de uma perspectiva determinista para a apre -sentação de personagens, que
têm suas ações definidas por forças que não conseguem controlar;
 A descrição pausada e detalhada dos ambientes e dos seres ficcionais, caracterizada pelas
paradas e pelas re-flexões do narrador;
 A fixação dos fatos romanescos no tempo presente.
Além desses aspectos temáticos, cabe ressaltar que o estilo machadiano utiliza recursos
linguísticos e narrativos próprios de outras correntes ou escolas literárias, tais como a metalin-
guagem, a carnavalização, a intertextualidade, a digressão e o coloquialismo. Por isso, em sua
totalidade, a narrativa de Machado de Assis se apresenta como um realismo diferente do modelo
europeu. Sua escrita ultrapassa o período literário, chegando a ter características até mesmo das
futuras literatu-ras modernista e pós-modernista. Dessa forma, sua inserção no movimento
realista obedece a um critério didático e histo -riográfico. A riqueza da obra produzida pelo
escritor, marcada pela dissecação da vida social, está além de qualquer classi-ficação, a não ser
a de genial e comparável a outros grandes nomes da literatura universal.
O Conto Machadiano
Romancista, poeta, ensaísta, cronista e contista. Machado de Assis foi um escritor completo e
um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa de todos os tempos. O "bruxo do
Cosme Velho" escreveu cerca de duzentos contos, conside -rados verdadeiras obras-primas.
Assim, seja pela quantidade, seja pela qualidade, ainda hoje, passados 100 anos de sua morte,
ele continua a ser considerado a figura máxima do con-to brasileiro dentro dos padrões
tradicionais.Os contos machadianos são narrativas caracterizadas por uma atenta observação do
cotidiano e por uma análise do comportamento e das motivações das personagens. São pro-sas
repletas de pormenores e de sutilezas, apresentadas de for-ma simples, mas cercadas de humor
e sarcasmo. Seus textos estão reunidos em coletâneas e também podem ser divididos conforme
as fases de produção estética do autor: a de apren-dizagem e a da maturidade. Na primeira,
merecem destaque Contos fluminenses (1870) e Histórias da meia-noite (1873); na segunda, as
coleções Papéis avulsos (1882), Histórias sem data (1884), Várias histórias (1896), Páginas
recolhidas (1899) e Relíquias da casa velha (1906).Continuando os estudos sobre a prosa
machadiana, nes -te capítulo será examinada sua produção contista. Entretanto, devido aos
limites de espaço, a análise será breve e concisa. A matéria inicia com a apresentação do gênero
textual, seguida da crítica das características marcantes da obra do autor e conclui com a
pesquisa da presença delas em alguns contos selecionados. Contudo, é importante ressaltar que
a aprecia-ção não exime o aluno da leitura dos textos – ao contrário, é um convite para que por
meio do contato com as histórias possa haver uma compreensão mais aprofundada dos traços
apontados nos diversos estudos existentes sobre o escritor.

3.1 O conto como gênero textual


Para as civilizações antigas, o conto representava uma fábula de cunho fantástico inspirada na
mitologia e propagada de forma oral; na literatura moderna, o gênero se refere a uma narrativa
ficcional, breve e geralmente em prosa. Na opinião de Edgar Allan Poe (1809-1849), poeta e
contista famoso por suas histórias de mistério e horror, esse tipo de texto é de difí-cil concepção,
pois exige do escritor a capacidade de dizer o máximo utilizando o mínimo de recursos.
Diferentemente do romance e da novela, gêneros textuais próximos, o conto é uma narrativa
que deve: ÂSer breve, para conseguir manter a atenção e o interesse do leitor; ÂPossuir apenas
um conflito, que deve ser atraente e motivador; ÂObservar a coerência no desenvolvimento da
história, mantendo a unidade entre enredo, tempo e espaço; e ÂApresentar poucas personagens
observadas por um nar-rador em primeira ou em terceira pessoa. Assim, necessariamente
sintético e com um único foco te-mático, o conto deve concentrar as situações ficcionais, não
permitindo derivações e tramas paralelas; sua finalidade é conduzir o leitor a uma única resposta
emocional. Em conse-quência, o relato deve privilegiar a concisão e a precisão, evi-tando
extrapolações e divagações. Em termos de linguagem, ela deve ser clara e primar pela
objetividade como forma de facilitar o entendimento por parte do leitor. Segundo Massaud
Moisés1, o componente mais importante do conto é o diálogo, que pode ser de quatro tipos:
discurso direto, discurso indi-reto, discurso indireto livre ou monólogo interior. Já os tipos de
contos são cinco: de ação, de personagem, de cenário ou atmosfera, de ideia, ou de efeitos
emocionais. Essa é uma classificação que leva em consideração o enfoque principal da narrativa,
mas que não impede outras divisões ou orde-nações, como, por exemplo, contos alegóricos,
humorísticos, regionais, infantis, fantásticos etc.O estilo machadianoNas narrativas
machadianas, a sociedade da época é repre -sentada como uma coletividade mesquinha,
propensa ao ar-rivismo social e às atitudes interesseiras; seus integrantes são seres humanos
solitários, de vidas vazias, apresentadas, mui-tas vezes, em situações entremeadas de doses de
humor, de ironia e de sátira. Esse conteúdo temático é descrito por meio de recursos estilísticos
como a intertextualidade, a paródia e o metaforismo, expressos numa linguagem sóbria, correta
e cuidadosa.Os escritos de Machado de Assis possuem nuances tanto românticas quanto
realistas, cuja primazia variou ao longo de sua carreira, ou seja, da fase de aprendizagem para a
de ma-turidade. No conjunto, pode- se afirmar que seus contos apre - sentam características da
escola literária do realismo como, por exemplo: ÂTemática focalizada nos problemas da
sociedade con-temporânea; ÂAbordagem racional, crítica e objetiva, que narra com fidelidade
os fatos da trama; ÂAções concentradas na cidade e a representação dos seus habitantes como
pessoas comuns do povo; ÂImpessoalidade do narrador na descrição do íntimo das personagens,
priorizando os aspectos psicológicos; e ÂEnredo conduzido de forma vagarosa, em que predomi-
na a descrição.As narrativas curtas exemplificam os traços singulares da estilística machadiana,
tais como a descrição ambígua das situações cotidianas e dos comportamentos humanos. Ponto
marcante é o diálogo com o leitor, que é levado à inferência e ao completamento do universo
ficcional, não apresentado em sua plenitude pelo narrador. A influência das filosofias niilista e
ceticista é notada na representação de personagens dúbias, que vivem o dilema entre o ser e o
querer ser, enquanto bus-cam o ideal da perfeição; em consequência, suas ações não revelam
nenhuma intenção de bondade, sendo, por vezes, até absurdas. Essas questões convidam o
receptor a tirar suas pró-prias conclusões.Em seus contos, Machado de Assis valoriza o
comporta-mento pessoal e emocional das personagens em presença das situações a que são
submetidas; em detrimento da descrição pura e simples dos acontecimentos, importa ao autor
as rea-ções e as motivações psicológicas dos envolvidos. Uma leitura mais apurada dos seus
textos permite observar que na sátira machadiana estão incluídos, tanto de modo explícito como
implícito, os comoventes dramas inerentes à vida terrena. Em O alienista, por exemplo, o
narrador faz uma interpretação magistral do sofrimento do ser humano frente a um estado de
insanidade e insensatez, em que a salvação somente pode ser alcançada pela loucura ou pela
morte.Membros de uma sociedade marcada pela hipocrisia e pela contradição, as figuras
dramáticas machadianas adotam atitudes ambíguas, em que o comportamento social não repre-
senta os sentimentos pessoais. A desmitificação dessa ruptura que existe entre a percepção
íntima e a exteriorização imposta pela vida em sociedade é o objetivo maior do contista. Seus
narradores dissecam as personagens para desnudar sua psi-que e revelar seus segredos; e veem
à tona todos os impulsos contraditórios e todas as mazelas morais típicas da burguesia carioca à
qual pertencem. Dotado de notável senso crítico, o autor se utiliza da ironia e do sarcasmo para
revelar a futili-dade, a vaidade, a inveja e a ambição de indivíduos que só visam a sua própria
ascensão pessoal e social.A intenção do narrador é dissecar as motivações do com-portamento
pessoal para então criticar suas ações e frustra-ções em presença de uma sociedade perversa e
competitiva. E, ao denunciar as incoerências e a ganância humanas, ele desvenda a própria
natureza do homem. Os seres ficcionais que são registrados pelo viés psicológico são de origem,
ida- de, sexo, profissão e classe social variados e para cada perso -nagem é conferida uma carga
importante de verossimilhança. Esses registros podem ser mais objetivos e explícitos ou mais
fragmentários e ambíguos, porém nos remetem sempre a um escritor que se entregou à paixão
pela análise.Os contos machadianosConsiderado um mestre da prosa brasileira, Machado de
Assis é divulgado, principalmente, a partir de seus romances; estes, apesar de originais e
fascinantes, são textos complexos, nos quais a abordagem ficcional termina sendo mais
importante que o próprio enredo. Em seus contos, entretanto, o autor une com perfeição as
regras da forma e do conteúdo, conseguin-do, assim, prender e conduzir a atenção do leitor. Ao
contrário do romancista, que privilegia a não linearidade narrativa, o contista se sobressai pela
concisão, rapidez, efeitos sugestivos e pela unidade dramática.Mas, apesar de manter
inalteradas essas características no conjunto de seus contos, Machado não se restringe a um
único modo de construção. Pelo contrário, sua produção engloba diferentes alternativas
temáticas e múltiplas peculiaridades téc-nicas. Suas histórias são únicas e abrangentes, sendo
enun-ciadas de forma objetiva, mas irônica; concisa, mas crítica; racional, mas sedutora. A
despeito dessas qualidades marcan-tes e distintivas, que dificultam quaisquer divisões
generalistas, unicamente para fins didáticos, o conto machadiano pode ser compartimentado
em tipos ou categorias básicas, que, obvia-mente, não esgotam o assunto ou invalidam outras
classifica-ções ou denominações:
Conto social: o autor denuncia nestes contos atitudes repulsivas e aspectos sórdidos da
comunidade e de seus integrantes. Machado de Assis produziu poucas ficções de caráter social;
nas que escreveu, questiona a ordem vigente, principalmente o ambiente escravocrata e seu
reflexo na vida de pessoas simples e humildes. Exem-plo: em "Pai contra mãe", narrativa em
terceira pessoa, no qual é representado o tema da escravidão. Além da descrição de costumes e
práticas deploráveis próprias do regime escravista, observa-se nessa história como o choque dos
interesses pessoais age sobre o ser humano, levando- o a atitudes de crueldade. No caso, o
confron-to entre um pai e uma mãe, cada um desejando salvar o respectivo filho. Candinho,
caçador de negros fugidos, precisa de dinheiro para salvar o seu filho da Roda dos Enjeitados;
Arminda, a escrava grávida e fugitiva, quer dar à luz fora do cativeiro. Ao final, arrastada de volta
ao dono, aborta um natimorto; Cândido Neves resgata o seu menino, abençoa a fuga e não dá
importância para o aborto, afinal, "Nem todas as crianças vingam..."2.
Conto psicológico ou de atmosfera: a investigação psi-cológica das personagens, o
desenvolvimento da história e a atmosfera criada ao longo dela por um narrador que somente
sugere muitas das ações, são mais importantes do que a própria trama e seu desfecho. Exemplo:
"Missa do galo", em que, decorrente de gestos sutis e de um diálogo ambíguo, é criada uma
atmosfera de erotismo difuso entre as personagens; esta, entretanto, é quebrada
inesperadamente e nada acontece. Aqui deve ser ressal-tada a estrutura familiar da época,
baseada no patriarca-
lismo, que admite o adultério masculino, mas condena a mulher a uma atitude cordata e
submissa. ÂConto de caracteres: apresenta personagens pertur-badas por angústias obsessivas,
cujas condutas estão condicionadas por ideias fixas e irresistíveis; a narrativa focaliza os
pensamentos e ações próprias de indivíduos que apresentam compulsão para determinados
compor-tamentos. Exemplo: "O espelho" – esboço de uma nova teoria da alma humana, conta
a história de Jacobina, que afirma que "Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que
olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro"3. A personagem se refere aos dois
níveis em que o ser humano opera: o interior cor-respondente à sua essência, e o exterior, à
aparência. Para atender a essa especificidade, a história é contada em dois planos narrativos,
ocupados por Jacobina, um narrador autodiegético e um homodiegético. Ao final, a alma exterior
triunfa sobre a interior, indicando, assim, a perda de identidade por parte da personagem.
ÂConto satírico: relato que é, ao mesmo tempo, con-to e sátira e cujo enredo ridiculariza e critica,
de modo irônico, aspectos gerais ou específicos da comunidade e da vida social. Exemplo: "Teoria
do medalhão – di-álogo": uma história curta em que não existe a figura do narrador;
praticamente sem ação, está centrado no diálogo – daí o subtítulo – mantido por pai e filho, no
dia em que ele atinge a maioridade. O primeiro, pre -ocupado com o futuro de Janjão, põe- se a
orientá-lo para a vida, que é "uma enorme loteria; [e] os prêmios são poucos"4. O pai,
questionado pelo filho sobre qual o melhor ofício deveria seguir para atingir o sucesso, responde,
cinicamente, que "Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão"5 e, para isso, faz-
se necessário não possuir ideias próprias, reproduzindo as que já estão prontas, ser bajulador e
ser sempre visto e notado. O "medalhão" é uma pessoa que ocupa posi-ção importante na
sociedade, mesmo não possuindo o mínimo valor próprio. ÂConto anedótico ou tradicional:
narrativa caracteriza-da por uma reviravolta surpreendente, quase sempre nas cenas finais, onde
o epílogo é inesperado e causador de impacto no leitor. Para que o efeito surpresa se realize, a
conclusão passa a ser o elemento mais importante de todo o enredo. Exemplo: "A cartomante"
- Rita é casada com Vilela, mas é amante de Camilo, amigo do marido. Crédula da cartomancia e
com medo de perder o na-morado, que recebera uma carta anônima denunciando o adultério,
resolve consultar uma especialista da arte divinatória; ela lhe garante que nada devia temer. O
mesmo é dito a Camilo, quando ele também a consul-ta; ao final, todos os fatos profetizados
pela cartoman-te resultam ao contrário e os amantes são mortos pelo marido traído. É o
desfecho surpreendente e imprevisto, com o qual não contava o leitor; é a ironia do contista
contra as superstições populares e as ilusões e frustra-ções decorrentes. ÂConto alegórico:
história cujo núcleo temático se apoia em elementos imaginosos ou fantásticos que represen-
tam, simbolicamente, o comportamento humano. Assim como nas fábulas, tais recursos, apesar
da sua inveros -similhança, são usados para ilustrar e, ironicamente, criticar valores e símbolos
da sociedade. O melhor mo-delo de conto alegórico na obra machadiana está em "O alienista",
apesar do fato de muitos o considerarem uma novela. Mas, entre uma e outra interpretação, a
história – pouco plausível em termos de realidade, tanto que Machado, para dar credibilidade à
mesma perante o leitor, usa do artifício ficcional de iniciá-la reportando --se a "crônicas"
passadas – mais do que alguma espécie de investigação sobre a loucura, é uma caricatura bem-
-humorada da sociedade da época com seus vícios e modismos.Ainda se referindo ao Alienista,
o escritor faz uma crítica contundente da importação indiscriminada das teorias deter-ministas
e positivistas pela intelectualidade da época, ao mes-mo tempo em que questiona os critérios
utilizados para definir quais as diferenças existentes entre a razão e a loucura. Para isso, ele se
utiliza da obsessão científica da personagem cen-tral em pesquisar a insanidade humana, a fim
de alcançar a glória e se tornar a pessoa mais importante da localidade.Publicada em 1882, a
narrativa está estruturada em treze capítulos, nos quais é relatada a história de Simão
Bacamarte, médico de formação europeia, que se instala na vila de Itaguaí com o propósito de
estudar as manifestações da loucura. Ele constrói um hospício, a chamada Casa Verde, onde faz
seus experimentos a respeito da mente humana, classificando os moradores analisados em
diferentes níveis de insanidade.
Para conferir crédito à história, Machado de Assis se re -porta aos relatos existentes sobre os
acontecimentos, e inicia a história informando ao leitor que "As crônicas da vila de Ita-guaí dizem
que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da
terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas"6. O apelo às crônicas locais
se justifica, uma vez que o eixo temático delas é a "realidade" do cotidiano dos habitantes; assim,
fica implícito que o narrador-cronista está contando um fato histó-rico ocorrido há muito tempo,
que deve ser objeto de credibi-lidade. Por sua vez, a narrativa em terceira pessoa possibilita o
afastamento crítico do narrador e aumenta a confiabilidade da descrição.A fim de evitar a
possibilidade de falsificação ou de modifi-cação dos fatos "históricos" pelo apresentador, a trama
é con-tada em duplo plano de narração, um desempenhado pelo narrador-cronista e o outro
pelo onisciente. A função deste é a exposição adicional que visa dar objetividade à exposição dos
fatos. Assim, com a invocação das "crônicas da vila", com o afastamento temporal do enredo e
das personagens e com o uso de dois narradores, cada um com sua visão e com sua
interpretação, Machado de Assis leva o leitor a concluir, pela isenção e pela imparcialidade dos
narradores, um dos funda-mentos da literatura realista.Independentemente de classificações ou
divisões, sempre passíveis de questionamentos, os contos machadianos, avalia-dos em seu
conjunto, revelam uma ironia mordaz às produções filosóficas, científicas e políticas da época,
demonstrando a de-silusão do escritor com o ser humano e com os modismos inte - lectuais em
voga. Nas histórias, a sociedade carioca de então é representada de forma satírica e jocosa; nesse
microcosmo, o narrador observa as minúcias psicológicas das personagens, desnudadas por suas
ações e gestos. É uma forma de expor o íntimo dos atores desse universo; eles são avaros,
enganado-res, aproveitadores, indecisos e adúlteros. O objetivo é transpor para o plano da ficção
um conjunto de seres humanos insensí-veis e corrompidos, mostrando, por meio de uma escrita
pessi-mista e sarcástica, seus defeitos, egoísmos e solidão.Essas personas são os atores principais
ou coadjuvantes de histórias que relatam a sedução amorosa, o adultério e a decorrente
insegurança dos envolvidos. E, através da metáfora propiciada pela criação artística, o conflito
existente entre a aparência e a essência e a fronteira tênue que separa a loucura da razão é
representada com mais intensidade. Essa dicotomia aparece, por exemplo, em "Conto
alexandrino" (1883). Nessa sátira ao cientificismo naturalista da época, os protagonistas são dois
cientistas que, em busca da origem da desonestidade e da degeneração moral do ser humano,
escalpelam animais para beber-lhes o sangue. Tentam provar a tese de que "os deuses puseram
nos bichos da terra, da água e do ar a essên-cia de todos os sentimentos e capacidades humanas.
Os ani-mais são as letras soltas do alfabeto; o homem é a sintaxe"7.Ao analisar a obra de
Machado de Assis, Hélio Consolaro8 se reporta a Eugênio Gomes, que afirma que ele foi um
ponto "muito explorado pelos principais contistas do século XIX . Go-gol, Tolstoi, Tchecov,
Maupassant, todos escreveram narrativas sobre alienados mentais". Nos contos machadianos, a
par da visão irônico- satírica, acentua- se também a psicologia do in- divíduo, objeto de uma
análise apurada que visa desvendar seus segredos, vícios e limitações. A observação da natureza
humana o leva a pesquisar os limites existentes entre loucura e razão; entre essência e aparência;
entre virtude e lascívia; en-tre bem e mal. Por sua extrema habilidade na apresentação e na
análise das personagens, bem como dos hábitos sociocul-turais da sociedade da época, é que o
bruxo do Cosme Velho produziu uma obra que extrapolou as fronteiras do tempo e do espaço
geográfico e o transformou em um dos maiores escri-tores de língua portuguesa de todos os
tempos.
O Naturalismo
Na segunda metade do século XIX, o universo cultural brasileiro foi influenciado pelas inovadoras
ideologias e correntes literárias surgidas na Europa; estas materializadas nas obras de Honoré de
Balzac (1799-1850), Charles Dickens (1812-1870), Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola
(1840-1902). Contrapondo- se ao movimento romântico do período anterior, surgiram novas
tendências estéticas denominadas Realismo, Parnasianismo e Naturalismo. No Realismo, como
visto no Capítulo 1, o autor busca a objetividade e descreve o homem através de uma perspectiva
psicológica, na qual predomina a preocupação de que os seres ficcionais não fujam à verdade
lógica e à realidade; no Parnasianismo, por sua vez, a ênfase é na precisão das palavras utilizadas
na composição poética. Já no Naturalismo, seus adeptos consideram que tanto as personagens
quanto a narrativa não podem fugir das leis da natureza, do atavismo e das condicionantes
sociais. Assim, o indivíduo é descrito de uma maneira científica. Para esses escritores, as ações
humanas estão condicionadas pelo meio social e pelas características físicas e psicológicas
hereditárias, ou seja, o homem é resultado de uma série de instintos naturais que, de acordo
com o meio, a raça e o momento histórico, podem produzir condutas e situações diferenciadas
e específicas. As perspectivas realista e naturalista são paralelas e frequentemente se
confundem, apesar de apresentarem semelhanças e diferenças entre si. A primeira descreve o
homem em interação com seu meio; a segunda o mostra como resultante das forças naturais,
que favorecem certos "desvios sociais". Não obstante essas possíveis divergências, os estilos são
muito parecidos, tanto que alguns estudiosos fazem uma fusão de ambos e sintetizam a estética
literária predominante na segunda metade do século XIX em uma única expressão: movimento
realista-naturalista. Analisar o estilo vigente em prosa na segunda metade do século XIX e
estudar as origens da escrita do Naturalismo, suas obras e autores mais representativos,
europeus e nacionais, constituem o objetivo deste capítulo.
4.1 O surgimento do Naturalismo europeu
O fundador e um dos mais importantes expoentes da estética naturalista foi o escritor francês
Émile Zola1 (1840-1902). Para ele, a criação artística não deve ser imaginativa nem desculpar as
ações humanas, pois estão condicionadas pelo meio ambiente e pela hereditariedade. No texto
"O senso do real", ele afirma que "O mais belo elogio que se podia fazer a um romancista,
outrora, era dizer: 'Ele tem imaginação'. Hoje, esse elogio seria visto quase como uma crítica. É
que todas as condições do romance mudaram. A imaginação já não é a qualidade mestra do
romancista"1. Em sequência, Zola pondera que, nos romances de sua época, essa antiga
característica do autor romântico foi substituída pelo "senso do real", que guia o escritor a "sentir
a natureza e representá-la tal como ela é"2. Assim, o ficcionista deve ser estritamente científico
para poder observar os fenômenos com imparcialidade e deles extrair conclusões
inquestionáveis, pois a arte, despojada de juízo moral, deve visar à representação fiel e não
idealizada da realidade. Zola escreveu um grande número de narrativas nas quais as personagens
e seu meio social têm suas representações acompanhadas de sórdidos detalhes. Em seus textos,
o tema predominante está relacionado com a decadência familiar, decorrente da genética e do
ambiente e influenciada pelo alcoolismo, pelas doenças e pela degeneração moral. Para o autor,
o ser humano não tem liberdade de escolha, pois é um mero joguete da natureza e de um destino
já definido. Dentro dessa ótica, sua narrativa é caracterizada pela extrema crueza com que
descreve, por exemplo, as condições de vida sub-humanas dos trabalhadores das minas de
carvão. Essa abordagem naturalista do indivíduo pode ser conferida no romance que é
considerado a obra-prima do autor, Germinal (1881), no qual ele narra a miséria e a rebelião dos
mineiros de Montsou, espaço ficcional localizado na região francesa de Nord-Pas -de -Calais. No
trecho selecionado, o leitor acompanha o despertar da família Maheu para mais um dia de
trabalho:
Em casa dos Maheu, no número dezesseis do segundo grupo de casas, tudo era
sossego. O único quarto do primeiro andar estava imerso nas trevas, como se elas
quisessem esmagar com seu peso o sono das pessoas que se pressentiam lá,
amontoadas, boca aberta, mortas de cansaço. Apesar do frio mordente do exterior,
o ar pesado desse quarto tinha um calor vivo, esse calor rançoso dos dormitórios,
que, mesmo asseados, cheiram a gado humano. O cuco da sala do térreo deu quatro
horas, mas ninguém se moveu. As respirações fracas continuaram a soprar,
acompanhadas de dois roncos sonoros. Bruscamente, Catherine levantou-se. No seu
cansaço, tinha ela, pela força do hábito, contado as quatro badaladas que
atravessaram o soalho, mas continuara sem o ânimo necessário para acordar de
todo. Depois, com as pernas para fora das cobertas, apalpou, riscou um fósforo e
acendeu a vela. Mas continuou sentada, a cabeça tão pesada que tombava nos
ombros, cedendo ao desejo invencível de voltar ao travesseiro. [...] Entretanto,
Catherine fez um esforço desesperado. Espreguiçava-se, crispava as mãos nos
cabelos ruivos que se emaranhavam na testa e na nuca. Franzina para os seus
quinze anos, não mostrava dos membros senão uns pés azulados, como tatuados
com carvão, que saíam da bainha da camisola estreita, e braços delicados, alvos
como leite, contrastando com a cor pálida do rosto, já estragado pelas contínuas
lavagens com sabão preto. Um último bocejo abriu-lhe a boca um pouco grande,
com dentes magníficos incrustados na palidez clorótica das gengivas, enquanto seus
olhos cinzentos choravam de tanto combater o sono. Era uma expressão dolorosa e
abatida que parecia encher de cansaço toda a sua nudez.
Na leitura do texto, algumas das características da estética naturalista podem ser percebidas,
tais como a localização espacial em ambiente não privilegiado, a minuciosidade narrativa e a
descrição corporal da personagem. O destaque de tais aspectos, dentro de uma perspectiva
pessimista, visa evidenciar a infelicidade e os problemas sociais do indivíduo em decorrência do
meio em que vive. Assim:
i. O uso de adjetivos, substantivos e verbos de conotação negativa para descrever o
quarto onde dorme a família revela sua condição de vida miserável;
ii. A caracterização das personagens sem nenhuma condescendência, nem traços
idealizados ou eufemismos que atenuem a realidade – a carga semântica depreciativa se
presta à sua comparação com animais, pois "cheiram a gado humano";
iii. A descrição detalhada do espaço com o emprego de palavras de acepção restritiva,
tanto de ordem sensorial quanto material, procura revelar uma realidade difícil e repleta
de dificuldades;
A apresentação dos traços físicos da personagem Catherine, em vez de romantizar ou erotizar
sua imagem, objetiva destacar a "expressão dolorosa e abatida que parecia encher de cansaço
toda a sua nudez". Como se observa, o material semântico empregado pelo narrador, ao mesmo
tempo em que descreve a pequenez e a miserabilidade do ambiente, constrói juízos de valor
sobre o cenário e, consequentemente, denuncia os desequilíbrios existentes. Desse modo, por
meio de uma crítica subjetiva, o leitor é induzido a refletir sobre as condições de degradação
vividas pelo ser humano dentro dessa realidade social.
4.2 A literatura naturalista
Os naturalistas, inspirados pela FILOSOFIA POSITIVISTA, consideram o indivíduo como sendo um
produto de seu meio, sujeito às leis da natureza. Para eles, o comportamento humano é
determinado pela herança genética, pelo impulso das paixões e pelo ambiente; logo, ele pode
ser facilmente previsto, uma vez que as reações são instintivas e incontroláveis. Dentro dessa
perspectiva, a vida social do homem é guiada por seus desejos, impulsos, patologias e taras, além
de ser conduzida pelo espaço em que ele vive e pelo papel que a sociedade lhe dá. Dessa forma,
sempre haverá uma explicação lógica e científica para a conduta individual. Em consequência,
nos romances dos adeptos do movimento, as personagens não apresentam nenhuma
preocupação com a moralidade: em sua representação predominam as reações naturais e
espontâneas, exteriorizadas por ações nas quais sobressaem o erotismo, a conduta violenta e
agressiva. Influenciados pelas teses científicas de Charles Darwin e de Hippolyte Taine, os
escritores se valem de tipos mórbidos, doentes ou anormais para descrever a realidade de forma
direta, independente da possível sordidez e repugnância da narrativa resultante. Assim, os
relatos são protagonizados, na sua maioria, por indivíduos devassos ou incestuosos e também
por prostitutas, homossexuais, alcoólatras, criminosos, assassinos e psicopatas. Normalmente,
são habitantes de locais miseráveis que vivem em condições de degeneração e miséria; tais
condições esmagam os indivíduos devido à estreita relação existente entre eles, ou seja, meio
social degradado gera caracteres degradados. Esse é o universo transcrito pelo romance
experimental, no qual o escritor naturalista estuda o homem natural, submetido às leis físico-
químicas e determinado pelas influências do meio e do momento. Não obstante ambas registrem
o momento presente e se dediquem à investigação da sociedade com a consequente denúncia
de suas imperfeições, as estéticas realista e naturalista o fazem de modo diferenciado. Como
resultado, são distintas as relações narrador-leitor. Para facilitar a análise das diferenças e
semelhanças existentes entre as escolas literárias, no quadro seguinte são apresentados os
elementos característicos de cada uma:
Quadro 2 — Características principais das estéticas

Aspecto Realismo Naturalismo


Análise predominante nas psicológica sociológica e política
ações:
Tipo de romance documental científico e experimental
Forma de expressão indireta direta
Papel do narrador ativo
Conclusões do leitor são próprias
Personagens vistos sob a psicológica biológica
ótica
Conflito interno, devido a desajustes externo e coletivo, devido a
psicológicos desajustes biológicos ou
patológicos (taras,
anormalidades etc.)
Espaço burguês e urbano da pobreza urbana ou rural
Apreensão da realidade pela objetiva sensorial
descrição
Fonte: Adaptado de ABDALA JÚNIOR; CAMPEDELLI, 1999; BECKER, 1992; BOSI, 1994; COUTINHO,
1986; D'ONOFRIO, 1990; GONZAGA, 2007.
Apesar das diferenças existentes entre seus enfoques analítico e interpretativo, ambas as
estéticas, influenciadas pelas ideias positivistas e deterministas predominantes na época,
propõem-se à representação do real, em oposição à anterior perspectiva romântica do cotidiano
e ao conceito da "arte pela arte", sem conexão com a realidade social. Além desse aspecto, elas
possuem outros pontos em comum como, por exemplo, a visão anticlerical e antimonárquica, a
tipificação das personagens, o comprometimento com a realidade e a análise crítica da sociedade
vigente.
Escritores naturalistas brasileiros de inspiração diversificada.
Na segunda metade do século XIX, influenciadas pelas mudanças socioeconômicas em curso no
mundo, as artes brasileiras iniciam um movimento de reação antirromântica, no qual as novas
manifestações passam a focalizar a realidade de modo objetivo, científico e realista. A ficção
nacional abandona o subjetivismo idílico e assume uma postura crítica da sociedade, analisada
minuciosamente em suas expressões urbana e regional. É a geração do MATERIALISMO
CIENTÍFICO, divulgada em prosa pelos seguidores do realismo, do Naturalismo e, em verso, do
Parnasianismo. A estética naturalista, com enfoque ainda mais radical do que a realista, assume
que a literatura deve representar de forma crua e denunciadora as incoerências sociais. No Brasil,
a escola teve em Aluízio de Azevedo seu escritor mais representativo – suas obras marcam a
ascensão do homem comum como personagem principal e dos ambientes coletivos como
cenários. Além do autor de O cortiço, integraram o movimento nomes importantes da literatura
nacional, como Manuel de Oliveira, Domingos Olímpio e Adolfo Caminha, cujos principais
romances serão analisados nos itens seguintes.
Aluísio de Azevedo (1857-1913)
Crítico voraz da sociedade brasileira e de seus costumes, o escritor maranhense publicou seu
primeiro romance, Uma lágrima de mulher (1880), aos 23 anos de idade; que, entretanto, segue
a estética romântica e tem um enredo demasiadamente sentimental. No ano seguinte, dentro
de uma nova perspectiva, lança O mulato (1881), livro que ataca o preconceito racial e que é
considerado o marco inicial do Naturalismo no país.
Autor preocupado com as angústias e injustiças provocadas pela realidade cotidiana, sua
temática, reveladora das condições de vida das camadas mais humildes, trata de assuntos
melindrosos e proibidos para a época, tais como o anticlericalismo, as aberrações morais e
biológicas, o racismo, o homossexualismo, o adultério e a opressão dos trabalhadores. Segundo
a crítica especializada, um dos grandes méritos de sua narrativa é a capacidade de colocar em
cena agrupamentos humanos aliados à força dramática das cenas e a descrição explícita dos
impulsos sexuais das personagens.
Em sua produção literária, além do citado O mulato, destacam-se os romances Casa de pensão
(1884) e O cortiço (1890). Este último, mostra um recorte preciso na vida das classes baixas
cariocas no final do século XIX, sendo considerado uma obra-prima no gênero romanesco. O
título remete ao tipo de núcleo habitacional, sem infraestrutura básica, alojan-do centenas de
pessoas, existente no Rio de Janeiro. Neste, as habitações coletivas ocupadas por moradores de
diversas etnias e origens são o ambiente eleito pelo narrador para des -crever a vida de pessoas
pobres sem outras opções, pois "No -venta e cinco casinhas comportou a imensa estalagem. [...]
As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; tudo pago adiantado. [...] E, mal vagava
uma das casinhas, ou um quar-to, um canto onde coubesse um colchão, surgia uma nuvem de
pretendentes a disputá-los".
O lugar é miserável, sujo e promíscuo; a voz narrativa, em detrimento da individualização da
personagem, foca a história na massa humana sofrida e desafortunada, cuja ação é ditada pelo
ambiente e pela falta de perspectivas. Elege, dessa forma, o cortiço como o protagonista que age
sobre a conduta do co -letivo, como pode ser percebido no trecho a seguir de Azevedo:5
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescen-te; uma aglomeração
tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente,
de-baixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-
se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar;
via--se -lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo
o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não
molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debai-xo da água e esfregavam
com força as ventas e as bar-bas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As
portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fe-char de cada instante, um
entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando
as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam- se
ali mesmo, no capinzal dos fun-dos, por detrás da estalagem ou no recanto das
hortas.
Além de ser a personagem principal da narrativa, o espaço em que ela transcorre influencia e
modifica o comportamento não só da coletividade, mas também de seus integrantes,
exemplificado pela trajetória de atuação percorrida por Jerônimo. O contato do português com
o clima dos trópicos, a comida, a bebida, os ritmos brasileiros, bem como os hábitos de vida dos
moradores da estalagem vai, aos poucos, modificando a seriedade de seu caráter e o rigor de
seus costumes lusitanos. Por fim, Jerônimo vê a sua vontade individual ser esmagada pelos
elementos inerentes ao espaço:
Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora,
reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo
de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia- se contemplativo e amoroso.
A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos
e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição;
para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente
e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos
prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando- se, vencido, às imposições do sol e do
calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio
entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.

Com o passar do tempo, Jerônimo torna-se cada vez mais brasileiro. O contato com as outras
personagens, seus hábitos e costumes, influencia profundamente o aldeão português, que muda
seus antigos gostos e sua forma de viver. Ratifica- se, assim, no romance o objetivo do escritor
realista em provar a presença do determinismo científico, como condicionador dos
comportamentos humanos.
Ao longo desse romance, é desenhado um grande painel opressivo representado por um cortiço
promíscuo e insalubre que se incorporou à literatura brasileira como sendo a denúncia crua de
um universo em que pobres e explorados vivem e sobrevivem envolvidos e sufocados pelo meio.
Para eles, sem alternativas e condenados pela fatalidade circundante, só resta uma existência
miserável, em um contexto animalesco, onde tendem a ser um reflexo do cenário de grosseria e
vulgaridade representado.
Adolfo Caminha (1867-1897)
Adolfo Caminha nasceu em Aracati, no Ceará, e com 16 anos foi para o Rio de Janeiro, onde se
incorporou na Marinha do Brasil, alcançando o posto de segundo-tenente. Posteriormente, foi
transferido para Fortaleza e deu baixa da Armada, passando a trabalhar como funcionário
público. Já na vida civil, foi um dos idealizadores do movimento denominado Padaria Espiritual3.
Foi um escritor pouco valorizado na época, devido às tragédias relatadas em seus textos sempre
relacionados a crimes e perversões; seu reconhecimento como um dos principais representantes
do Naturalismo no Brasil foi tardio, só acontecendo no século XX.
Em seu primeiro romance, A normalista (1893), o homem e a sociedade já estão descritos dentro
da visão pessimista e crítica que caracteriza a obra do autor. Na voz do narrador,
os homens [são] propensos aos mal, por mais duma vez ele próprio fora vítima
da ingratidão de indivíduos que se diziam seus amigos e a quem fizera grandes
benefícios; porém, a vida ruidosa e dissoluta das capitais, esse tumultuar
quotidiano de virtudes fingidas e vícios inconfessáveis, esse tropel de paixões
desencontradas, isso que constitui, [...] a maior felicidade do gênero humano,
esse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas, esse cortiço de vespas
que se denomina – sociedade, desconhecia-o.
Não obstante a crueza analítica exposta, é com a obra O bom-crioulo (1895) que o romancista
firma sua reputação na história literária, ao mesmo tempo em que escandaliza a sociedade pela
abordagem corajosa de um tema inaceitável pela opinião pública da época – o homossexualismo
masculino. O romance, baseado em caso verdadeiro ocorrido no Rio de Janeiro, conta a história
de Amaro, "o BOM CRIOULO na gíria de bordo"8. Embarcado numa corveta, este "latagão de
negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre"9 tem seu temperamento modificado

3
Movimento de cunho intelectual fundado no Ceará, em 1892, cujo estatuto estabelece: "1) Fica organizada,
nesta cidade de Fortaleza, capital da 'Terra da Luz', antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes de Letras e
Artes, denominada Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espírito aos sócios em particular, e aos povos, em
geral." (Padaria Espiritual.2009)
pela paixão despertada por Aleixo, "um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por
todos e de quem diziam-se cousas'"10, recém-ingresso no mesmo navio que ele.
A temática está focada na relação homossexual mantida por Amaro e Aleixo e no triângulo
amoroso que se estabele-ce quando Carolina, mulher madura à procura de um jovem amante,
conquista Aleixo. Escrito na terceira pessoa, o enredo é simples, direto e objetivo, permitindo a
descrição factual sem a interferência direta das personagens e sem a emissão de julgamentos
morais por parte do narrador.
O amor físico entre duas pessoas do mesmo sexo, mesmo que de raças diferentes, os atos de
masturbação e as puni-ções disciplinares por chibatadas eram fatos corriqueiros, que faziam
parte do cotidiano dos marinheiros embarcados. Entre -tanto, na época, eram temas
considerados tabu e cuja divul-gação era criticada. O autor, com a experiência de sua vida como
marinheiro, reapresenta os problemas por meio de uma ótica naturalista, na qual os fatos são
encarados sem senti-mentalismo e em que as ações dos protagonistas são instinti-vas e
determinadas pelas circunstâncias. Para o crítico literário Alfredo Bosi11, este é um
romance denso e enxuto que [...] resiste ainda hoje a uma leitura crítica que descarte
os vezos da escola e sai-ba apreciar a construção de um tipo, o mulato Amaro,
coerente na sua passionalidade que o move, pelos me-andros do sadomasoquismo,
à perversão e ao crime.
Raul Pompéia (1863-1895)
Escritor brasileiro atento aos acontecimentos do cotidiano, com seus conflitos e angústias, e
dotado de uma visão crítica da cultura nacional e da vida em sociedade, teve sua obra pautada
por um realismo idealista e introspectivo. Seu primei-ro romance, Uma tragédia no Amazonas
(1880), publicado quando o autor tinha apenas 17 anos de idade, descreve os sentimentos de
amor, ódio, hostilidade e vingança que são inerentes à natureza humana.Entretanto, foi com O
Ateneu (1888), texto produzido em apenas três meses e veiculado, inicialmente, em forma
seriada pelo jornal Gazeta de Notícias, que o autor tornou-se famoso. Este é um livro de
recordações, com o subtítulo de "Crônica de saudades", que descreve, em primeira pessoa, as
experiências sofridas do adolescente Sérgio, narrador-protagonista, no se-vero internato do
Colégio Ateneu.Embora contenha traços autobiográficos, a obra não é um livro de memórias;
nela o romancista mescla reminiscências e ficção com o objetivo de tecer uma crítica virulenta
ao siste-ma educacional e, por extensão, à sociedade contemporânea. Pois, mesmo sendo
jovens, os alunos que vivem no colégio interno reproduzem os mesmos vícios e as poucas
virtudes dos homens na sociedade; é o microcosmo humano e social do período. Segundo a
personagem Rebelo, é

"Uma corja! Não imagina, meu caro Sérgio. Conte como uma desgraça ter de
viver com esta gente". E esbeiçou um lábio sarcástico para os rapazes que
passavam. "Aí vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos!
Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido; uma mentira
em cada dente, um vício em cada polegada de pele. Fiem-se neles. São servis,
traidores, brutais, adulões. Vão juntos. Pensa- se que são amigos... Sócios de
bandalheira! Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção, empestam de longe.
Corja de hipócritas! Imo-rais! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da
véspera.12

Escrito na chamada prosa artística, o romance não se en-quadra precisamente em nenhuma das
escolas literárias. O texto já foi classificado como pertencente à estética naturalis -ta pelo fato
de transmitir a ideia de corrupção desencadeada pelo meio social, pela prevalência do instinto
sobre a razão e pela presença de certo determinismo científico. Mas, ao con-trário dos escritos
dessa corrente, a narrativa é conduzida a partir de lembranças subjetivas em lugar da descrição
objetiva da realidade.Alternativamente, o romance foi rotulado de realista, pela presença da
preocupação moral e consequente crítica social; impressionista, pela densidade de impressões e
recordações de um narrador cheio de emotividade e pelo aprofundamen-to psicológico das
personagens, constituindo- se um universo subjetivo e expressionista, pela antecipação das
imagens gro-tescas, exageradas, caricaturais, próprias desse movimento do início do século XX.
Independentemente da classificação estética que lhe seja dada, a obra é considerada o melhor
romance brasileiro do século XIX, depois dos escritos machadianos da fase de ma-turidade. E, a
exemplo da voz narrativa, "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente?
Puras re-cordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos
fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas".13
Escritores naturalistas de temática regional
Fundamentados nas mesmas concepções científicas e filosófi-cas, tanto o realismo como o
Naturalismo se preocupam com os temas sociais e com a reação do homem ao meio em que
vive. No Brasil, para descrever e denunciar os problemas so-cioeconômicos do país, ambos os
movimentos se valem de temas urbanos e regionais. No caso da estética naturalista de caráter
urbano, a temática está relacionada às vicissitudes das classes menos favorecidas das grandes
cidades; em sua abor-dagem regional, a preocupação se volta para os problemas enfrentados
pelo Nordeste brasileiro, como a seca e o declínio econômico, com as decorrentes migrações.
Dentre os escri-tores que seguiram essa temática merecem destaque Manuel de Oliveira Paiva
e Domingos Olímpio, pela figuração literá-ria bem definida que deram à região do cangaço e da
seca, capaz de influenciar as futuras narrativas modernista sobre o Nordeste brasileiro.

Manuel de Oliveira Paiva (1861-1892)O autor cearense faleceu muito jovem e, em vida, sua única
obra editada foi A afilhada, veiculada pelo jornal O Libertador, em forma de folhetim. Dona
Guidinha do Poço, romance que lhe deu fama nacional, só seria publicado em 1952, ou seja,
sessenta anos após sua morte. Não obstante sua posterior di-vulgação, o texto, um dos
exemplares significativos do Natu-ralismo de temática regional, prenuncia os grandes romances
rurais produzidos pela Geração Modernista de 1930. A histó-ria, drama passional ambientado no
sertão cearense, guarda algumas semelhanças temáticas com o enredo de Madame Bovary –
ambos os textos contam a vida de mulheres insatis-feitas com o casamento e que cometem
adultério. A diferença é que, ao contrário da personagem flaubertiana, Margarida Barros, mais
conhecida como Dona Guidinha, era fazendeira rica e poderosa, dona de muitos bens e muitos
escravos.Apesar de ser um romance que privilegia a análise psico-lógica das personagens em
presença do meio árido que as circunda, a narrativa também descreve o espaço sertanejo e sua
sequidão; nele, elas sobrevivem duramente enquanto re-zam para
Deus Nosso Senhor ensopar a terra com água do céu. [...] [Pois,] O calor subira
despropositadamente. A rou-pa vinha da lavadeira grudada do sabão. A gente
bebia água de todas as cores; era antes uma mistura de não sei que sais ou não
sei de quê. O vento era quente como a rocha nua dos serrotes. A paisagem
tinha um aspecto de pelo de leão, no confuso da galharia despida e empoei-
rada, a perder de vista sobre as ondulações ásperas deum chão negro de
detritos vegetais tostados pela mor-te e pelo ardor da atmosfera. As serras
levantavam- se abruptamente, sem as doces transições dos contrafortes
afofados de verdura.14
Além das minúcias descritivas sobre o sofrimento de seres submetidos às agruras da seca, a voz
narrativa confere maior verossimilhança a essa história de amor e violência por meio da
utilização do linguajar local; este aparece em detalhes na fala característica de vaqueiros e
trabalhadores rurais, como no diálogo seguinte:

O marido, ligando ideias:— Ai, home! Apois querem vê que ele é mesmo,
minha gente! E nem me conheceu!— Pois ele havera de lhe reconhecer assim
como nós estamos? Vai lá, Toinho, pode ser que até ele nos deixe ficá aqui nas
terras dele, inquanto não chove.— Eu, não, mulher. Não vou me apresentá aos
homes assim nesta miséria desgraçada.— Que é isso? E como nos havemos de
arranjá?— Assim nofragado não me apresento a conhecido, só não sabendo
quem é.— Tu não vai mesmo, não, Toinho?— Com meus pés não vou não,
mulher.15
O romance é uma obra com conotações psicológicas e sociológicas, na qual o escritor resgata
elementos da cultura sertaneja e descreve com propriedade as relações concretas existentes
entre o homem e o meio ambiente. Além disso, é uma tragédia marcada por elementos da
realidade como o amor, o adultério, a vingança e a morte. Nela, a personagem principal, Dona
Guidinha, é mostrada de forma contundente e marcante, inteiriça na virtude e no pecado,
contracenando com os "tipos secundários que compõem essa água-forte do latifúndio
nordestino, com seu ritmo vegetativo, seus agrega-dos e retirantes, enfim, seu pequeno, mas
concentrado mundo de interações morais".16
Domingos Olímpio (1850-1906)Jornalista e romancista cearense seguidor da estética natura-
lista, é um dos responsáveis pela transição do sertanismo ro-mântico de Visconde de Taunay
para uma perspectiva realista de caráter regional, em que o drama da caatinga e do homem
nordestino é representado de forma objetiva e marcante. Seu romance Luzia-Homem (1903)
narra a história de uma retirante nordestina de maneiras másculas e enorme força física, da qual
originou seu apelido que serve de título à obra, embora suas atitudes escondessem sentimentos
bem femininos. O romance tem como tema central o sofrimento humano, mas a história das
personagens é, de certa forma, superada pelas agruras do am-biente; nele, os efeitos da grande
seca que assolou o Nordeste entre 1877 e 1879 são mostrados com todo o rigor narrativo. Sem
outras opções de sobrevivência, a população pobre da re -gião atingida pelo fenômeno abandona
o interior e se dirige às cidades em busca de trabalho. E, em consequência,
A população da cidade triplicava com a extraordinária afluência de retirantes.
Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos e abarracamentos do subúrbio,
estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praças se
aboletavam famílias no extremo passo da miséria [...]. Eram pedaços da
multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da
tétrica viagem através do sertão tostado, como terra de maldição ferida pela
ira de Deus; esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos
automáticos dentro de fantásticos trajes, ren-dilhados de trapos sórdidos, de
uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das úlceras, que
lhes carcomiam a pele, até descobrirem os ossos, nas articu-lações
deformadas.17
Esse clima serve de fundo para que o autor, com um esti-lo marcado pela objetividade, possa
contar a história da reti-rante Luzia, mulher bonita e gentil, mas arredia e de atitudes
masculinizadas, que trabalha na construção de uma prisão e é desejada pelo soldado Capriúna,
que a mata ao final da trama. O romance é caracterizado pelo linguajar típico das personagens,
pela ênfase de suas qualidades negativas, pela crueza dos episódios, pela descrição rude e
brutal das cenas e pela subordinação à inexorabilidade do meio. Tais elementos, que
identificam sua estética naturalista regional, permitem sua inclusão entre as obras clássicas do
CICLO DAS SECAS da literatura nordestina.Na fase final do Império, os romances folhetinescos
de cará-ter urbano foram complementados pelas novas obras de cunho regional, que buscavam
sua inspiração nas particularidades lo-cais. Mas, ao contrário dos novelistas românticos, que
viam nas características próprias de cada região elementos merecedores de destaque, os
escritores naturalistas focam-se nos problemas oriundos do meio e nas suas consequências
sobre o indivíduo. Mas, regionalistas ou não, de um modo geral, todos os escrito-res analisados
neste capítulo integram, de forma mais ou menos definida, a mesma estética. Todos eles
utilizam narradores im-pessoais para, através de uma linguagem simples, exposta com
objetividade e sem julgamentos morais, enfocar o ser humano com todos seus vícios e desvios
sociais, que são determinados ou, pelo menos, influenciados pelo meio. Por isso, todos podem
ser considerados naturalistas.

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DE 241 PÁGINAS