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Volume
. 1
CAPA A capa apresenta pequena parcela do
Estado do Amazonas, destacando-se a con-
fluência do rio Branco no Negro.
Trata-se de uma Imagem multiespec-
tral obtida através do satélite landsat, que
orbita a 915 km da terra, proporcionando a
cada 18 dias uma nova cena da mesma
área em quatro canais distíntos.
A combinação de três canais a~:~ul apre-
sentada (4, 5 e 7), resulta no efeito infra-
vermelho falsa cor, tão a gosto dos ana-
listas, reunindo uma soma de informações
de interesse geral. Em meio a densa vege-
tação da hiléia amazônica, que nesta com-
binação figura em vermelho, notamos uma
diferença de coloração na hidrografia. Em
azul-elaro, vemos o rio Branco e em tona-
lidade bem mais escura o Negro e demais
afluentes. A diferença deve-se ao tipo de
sedimentação que as águas destes rios
carream. Podemos notar também às mar-
gens de alguns, que o vermelho é acin-
zentado, o que evidencia uma vegetação
menos densa, em terras baixas sujeitas à
inundação. As manchas brancas são nuvens.
Para estudos especificas, outras combi·
nações podem ser realizadas para obter o
destaque de temas a pesquisar.
(Imagem fornecida pelo Centro EROS
do IBGE).
FUNDAÇÃO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE
DIRETORIA TÉCNICA

Superintendência de Estudos Geográficos _e Sócio-Econômicos


Departamento de Geografia

GEOGl~l4t~ll4
DO Sl~l4Sll
l~e~lâo
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llotte
Volume 1

Diretoria de Divulgação
Centro Editorial
Centro de Serviços Gr6fic:os

Rio de Janeiro
1977
IBGE
BIBL!~"TECA
Reg. CENTRAl
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Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatlstica. Diretoria Técnica.


Geografia do Brasil. Rio de Janeiro, SERGRAF - IBGE, 1977.

5 v. 11., mapas (alg. color.) 18,5 em

Conteúdo. - v. 1 . RegiAo Norte. - v. 2. Região Nordeste. -


v.3. RegiAo Sudeste.- v.4. Região Centro-Oeste. - v.5. Região Sul.

1. Brasil - Geografia. I. Titulo.

BT
Central o eco 918.1
I 12
PLANEJAMENTO E COORDENAÇAO

Marlfla Valioso Galvlo

COORDENAÇlO TEMATICA
Alfredo José Porto Oomlngues
Elza Coelho de Souza Keller
Llndalvo Bezerra dos Santos
Lúcio de Castro Soares
Maria Magdalena Vieira Pinto
Pedro Plnchas Gelger

COORDENAÇlO DAS ILUSTRAÇOES


Ângelo Dias Maciel
Francisco Barboza Leite
Llndalva Nogueira Heberle
Najem Ramos
Rodolpho Pinto Barbosa

COLABORADORES

Ayrton Teixeira Almada


Célia Ologo Alves da Costa
Oora Rodrigues Hess
Elza Freire Rodrigues
lrene Braga Mlguez Garrido Filha
José Roberto Peixoto
Maria Coelho de Segadas Vianna
Maria Mônica Caetano O'Neill
Marieta Mandarlno Barcellos
Marília Carneiro Natal
Teima Sueli Araglo Castro Senra
VAnia lgnez Sendlm

EDITORAÇlO
Carlos Goldenberg
PREFÁCIO

A Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística lança


uma nova edição da Geografia do Brasil, a nível elas cinco Macror-
regiões, um volume para cada região. Este lançamento encontra sob
novos moldes não s6 a Instituição como a pesquisa geográfica a ela
afetq., ambas compqndo um sistema essencialmente diferente do an-
terior à época em que a primeira edição foi lançada. Ao mesmo tempo
que reflete as novas realidades do Brasil na década de 70 permite
demonstrar o estágio atual da Geografia brasileira, seguindo as ~en­
dências mais recentes em igualdade com os centros adiantados da
pesquisa geográfica.
Assim como o conjunto de volumes permanece fiel aos seus pri-
meiros objetivos - divulgar o conhecimento do território brasileiro,
suas diferenciações regionais e seus problemas, para uma variada
gama de leitores - nele também está sempre presente o novo obje-
tivo da Instituição que é a produção da informação geográfica atua-
lizada para a tomada de decisões tanto a nível de Govemo como
do setor privado.
Dentro desta tônica, embora os volumes sejam regionais, cada
capítulo representa uma análise voltada de forma direta ou indireta
para os objetivos acima indicados abordando os principais aspectos
da organização do espaço brasileiro, orientação que é seguida desde
o quadro natural, com seu corolário de recursos naturais conhecidos,
até à população, aos sistemas de cidades, à energia, à atividade agrá-
ria e industrial e aos transportes, dando uma visão completa do
quadro nacional.
Este aspecto de detalhamento da informação regional é parti-
cularmente importante no momento em que uma das preocupações
dos diferentes Planos Nacionais de Desenvolvimento é a diminuição
dos desequilíbrios regionais. Esta importdncia se acentua porque
coloca a informação numa persr)ectiva global, representada pela soma
de informações contidas nos cinco volumes, sem perder de vista as
peculiaridades regionais.
A extensão de cada capítulo, bem como o número de ilustrações
(cartográficas, tabelas, gráficos e fotografias) refletem a maior com-
plexidade da obra, em relação à anterior.
Esta série de volumes procura atingir ampla jaixa de público-
leitor, planejadores regionais, professores - que dela retiram o que
de mais atualizado e sofisticado se pode realizar - estudantes, que
nela encontra!"- as informações e referências que sua f01'1ntWáo pro-
fissional venha a exigir, e todos aqueles que se interessam pelo amplo
espectro dos problemas da estrutura s6cio-econ6mica do País.
ISAAC KERsTENETZKY
Presidente

VII
Depois de longo tempo em situação de
área à espera de oportunidade para um
arranco no sentido do progresso -
malgrado algumas tentativas sem êxi-
to levadas a efeito com tal objetivo -
reabre-se, para a Amazônia, promissora
expectativa sob o impulso de medidas
oficiais e do engajamento da iniciativa
particular.

A Região ainda se ressente do descom-


passo considerável entre a grande
dimensão do espaço físico e a dimi-
nuta população da área. Disso ressalta
a magnitude da obra humana em reali-
zação nesse domínio da Natureza, on-
de tudo é grande - a terra, a água e a
floresta.
Mas, além do descompasso intra-ama-
zônico, um distanciamento físico e
sócio-econômico existe entre a Ama-
zônia e as demais áreas do País.
Conbibui poderosamente pa.ra tanto,
sua posição extremada no sentenbião
brasileiro, distante das áreas mais di-
nâmicas. Outrossim, ratificando esse
APRESENtAÇÃO afastamento, e até mesl]lo acentuan-
do-o, influíram a falta de acesso mais
MARrUA VELLOSO GALVAO
franco e melhor do que o proporcio-
nado precariamente pela navegação
fluvial e marítima e a inexistência, até
recentemente, de um sistema de comu-
nicações eficiente. PQr outro lado, a
circulação regional, adstrita à área em
apreço, aprisionava a Amazônia em si
própria, enquanto, a seu turno, a eco-
nomia de estilo colonial, voltada para
a exportação de matérias-primas arran-
cadas do seio da floresta e da fauna,
vinculava a Região, por força do co-
mércio, aos mercados estrangeiros,
mantendo-a fora de contato maior com
o restante do País.
Outrossim, o desconhecimento da rea-
lidade amazônica impediu, por longo
tempo, o correto equacionamento de
sua problemática, da avaliação de seus
recursos e do adequado dimensiona-
mento dos esforços e implementos
econômico-financeiros, tecnológicos e
humanos a serem mobilizados para a
árdua e prolongada missão de devas-
sar, ocupar e desenvolver o largo es-
paço. Este, se acrescido das parcelas

IX
de Estados vizinhos para constituir a visto o estabelecimento de moderna
Amazônia Legal. amplia sobremodo sua conexão rodoviária entre Brasília e
dimensão física, que se avizinha dos Belém, a reorganização e retomada da
cinco milhões de quilômetros quadra- penetração terrestre, por rodoviação,
dos, o que significa ser de caráter na dUeção de Porto Velho, já oonsu-
amazônico a maior parte do território mada, e de Santarém, numa figuração
b~euo. · de abordagem da Região pela sua
margem sul e, em período mais recente,
Não é de hoje que o fascínio da área a implantação da base do sistema
amazônica tem atraído a atenção e a amaz6nioo constituído por um anel
• investigação de especialistas no campo rodoviário composto pela Transamazô.
das ciências e das letras, nem é recente nica, pela Perimetral Norte e pelo
o interesse que desperta no campo in- Rio Amazonas, resultando num sistema
ternacional, notadamente agora, quan- integrado rodofluvial. Pelo setor oci-
do se toma mais aguda a crise mundial dental a penetração rodoviária já se
do ecúmeno face ~ explosão demográ- alongou de Porto Velho a Manaus e
fica, com todo seu séquito de cons~­ será ultrapassada em busca da fron-
qüênéias graves, dentre as quais o teira com a Venezuela.
deflcit da produção de alimento, a .
diminuição de água disponível para a Outros setores ativados no sentido do
sobrevivência humana, a preservação desenvolvimento regional abrangem a
da natureza e do equilíbrio eoológico, melhoria e implantação de modernos
e o perigo da poluição. meios de oomunicação que já integram
internamente a Região e a conectam ,
Daí o consenso do alto significado do eficazmente com outras áreas do País;
espaço amazônico brasileiro e da a criação da Zona Franca de Manaus
magna responsabilidade gue toca aos oom a finalidade de gerar, no âmago
governantes e ao povo de nosso País da Amazônia, um centro industrial,
no sentido da sua integração, mercê comercial e agropecuário; a ação so-
de processos de desenvolvimento que cioeconômica e tecnológica da ICOMI
o oompatibilizem, mais ooesamente, no Amapá; as ações prospectoras da
oom o todo nacional. PETROBRÁS e do Projeto RADAM; a
criação do órgão federal de desenvolvi-
A natureza na Amazônia, oonquanto mento regional - SUDAM - e a
ainda permaneça oomo o principal ooncessão de favores fiscais como atra-
fator característioo do famoso espaço, tivo para a iniciativa privada no setor
tem sofrido paulatina agressão pelo do desenvolvimento econômioo.
homem no seu empenho pela sobrevi-
vência e continuado esforço de apro- Em oonjunto, tudo isso vem resultando
fundar e dtlatar suas instalações, numa numa modificação no mundo amazô-
constante adaptação ~ condições me- nioo, de forma ainda débil mas visivel-
sológicas e persi~tente esforço na im- mente crescente, implicando, psioologi-
plantação de uma técnica racional, camente, numa salutar reversão de
capaz de atenuar e até alterar oontin- perspectivas. Semelhante mudança de
gências do meio natural e, ao mesmo atitude - quer no campo empresarial
tempo, alargar e tomar mais consistente quer no campo do assalariado - e
o processo econômioo de acionamento modificações nas condições tanto na
do potencial de recursos da importan- Região quanto no âmbito extra-regio-
tíssima Região. nal, constituem uma base de suma
importância, e imprescindível mesmo,
Tal esforço foi maior na década de 60 para o desejável e necessário ajusta-
e prossegue de forma crescente, esti- mento da Amazônia ao conjunto do
mulado por uma série de medidas País.
adequadas de iniciativa governamen-
tal. as quais buscam dotar a Região da A fim de alcançar-se tal objetivo torna-
indispensável infra-estrutura para seu se indispensável maior e continuada
desenvolvimento e integração. Haja aplicação de recursos e esforços para

X
O·aprofundamento, dilatação e atuali- tigação científica e o sensível progresso
zação do conhecimento das bases fisí- no conhecimento das bases estruturais
cas e humanas amazônicas, muito da vasta bacia sedimentar e dos fe-
embora seja esta área, senão a mais nômenos tectônicos que a afetaram,
perquirida pelo menos bastante in- devem-se às pesquisas orientadas para
vestigada do País. ~ que a extensão o carvão e para o petróleo, desenvolvi-
do espaço da Amazônia exige um das pelo antigo Departamento Nacio-
dimensionamento proporcional para nal de Produção Mmeral, pelo Cons~
seu estudo e domínio. lho Nacional do Petróleo e pelll
PETROBRÁS. Em resultado dessas
Assim, a despe~to da abundante biblio- pesquisas, esta parcela maior do espaço
grafia existente sobre a Região, toma-se amazônico foge à figuração tradicional
oportuna uma obra como a que ora se e superada, de monótona superfície de
oferece aos estudiosos da geografia um só estágio altimétrico, revelando-se
nacional que se consubstancia nesse composta de vários níveis e de perfil
volume primeiro, dedicado à Região ondulado, ao mesmo tempo que a bacia
Norte, dando início à nova edição da amazônica não aparece mais como uma
coletânea Geografia do Brasil, sob a entidade de uma peça única, mas,
iniciativa e responsabilidade da Fun- antes, constituída de diversas bacias,
dação Instituto Brasileiro de Geogra- o que resulta numa diferenciação
fia e Estatística e elaborada pelo seu intra-regional capaz d~ transparecer na
Departamento de Geografia. padronagem de fatos da superfície,
merecendo, pois, estudos especiais a
Por outro lado, a oportunidade cresce serem empreendidos. A seu turno, a
de expressão quando, a par do objetivo recente construção da Rodovia Tran-
didático, se põe termo ao hiato esta- samazônica ensejou conhecimentos
belecido desde o esgotamento da edi- mais preciosos da topografia, solos,
ção anterior e se atende ao reclamo estrutura e recursos minerais da área,
que de numerosos recantos do País se como autêntica revelação de fatos
fez ouvir no sentido de sua reapresen~ novos
tação, a qual surge sob nova feitura,
obedecendo ao que de mais atual se Outra face nova revelada da Amazônia
pode oferecer no que toca à Região prend~se ao seu manto vegetal, onde
Amazônica. a mata hileiana se apresenta de modo
não uniforme e a folhagem não é per-
~ compreensível que, em se tratando manente em sua maior porção, pois o
de uma área onde a natureza ainda se caráter semideclduo é bastante genera-
faz presente em termos grandiosos e lizado na terra-firme, dilatando-se até
marcantes, se tenha dado especial aten- às encostas setentrionais do Planalto
ção aos capítulos relativos ao mode- Central brasileiro. E, ao abordar-se a
lado e estrutura, à rede hidrográfica, ao questão do solo sob a mata, ressalta
quadro climático e à cobertura vegetal, o oposto à sua decantada opulência,
·I sem prejuízo daqueles outros dedica- reduzindo-se seu conceito ao de solo
dos à infra-estrutura, à população e à fértil apenas enquanto sob o manto
economia. florestal, e frágil, lixiviado e empo-
brecido quando exposto à erosão el~
No primeiro, alargou-se o ângulo de mentar.
visada, de modo a abranger com maior
amplitude toda a área, além de ofer~ De igual modo, o clima da Amazônia
cer, em termos adequados, uma visão não revela aquela pressuposta e decan-
geral do modelado amazônico em mol- tada unidade de característica e de
des modernos e atuais. Estuda-se o comportamento, com que se estereo-
relevo, com a estrutura que o suporta, tipava a Região. Assim, as áreas mais
à luz dos processos responsáveis pela úmidas são restritas em relação às
sua evolução com as implicações na menos úmidas, prevalecendo estas na
formação dos solos e da drenagem. maior parte da grande bacia e acen-
Cumpre apontar que uma larga inves- tuando-se na direção de suas bordas

XI
junto ao Planalto Central e ao Maci90 vegação fluvia~ na de cabotagem e de
das Guianas, o que resulta numa tipo- longo curso - vem aos poucos se ar-
logia climática nova, calcada em novos ticulando com as novas vias tenestres
conceitos sobre a realidade da área em implantadas e em implantação, en-
estudo. quanto o transporte aéreô continua no
seu papel de apoio e de contacto entre
A monumental e inbincada rede hidro- pontos distantes, atendendo sobre-
gráfica é abordada de forma atua- tudo ao transporte de passageiros e
lizada e tão completa quanto possf- ao servi90 postal. Desta forma esboça-
veL num estudo, centrado no eixo do se um entrosamento entre os vários
grande rio, que analisa todas suas modos de transporte, de forma a cons-
manifestações e impactos sobre a vida tituir-se num sistema viário devida-
regional, inclusive como via natural mente dimensionado e organizado para
de circulação a integrar-se no vasto atender às necessidades de desenvol-
sistema viário, em organização na área vimento e progresso da Região.
amazônica, onde a parcela das aqua-
vias representa 2/5 da rede hidroviária Foi dito que na Amazônia o homem é
nacional, ou seja, cerca de 20 mil qui- pequeno e grande é a sua missão. Com
lômetros, fato que empresta à Região efeito, contando uma população cor-
Norte forte destaque no setor. Ao lado respondente a quase 4i do total nacio-
da antiga aspiração de interligação de naL dentro de uma área representativa
bacias fluviais são ventiladas as impor- de 42% do espaço brasileJJ"O, e uma
tantes questões da pesca como fonte densidade demográfica de 1 bab/km2,
de alimento para a população da área, a Amazônia se caracteriza pelo sub-
e da geração de energia a partir do povoamento e subdesenvolvimento,
potencial hidráulico, avaliado há pou- ambos em diferentes estágios, dentro
cos anos ( 1973) em 21 mW, represen- do vasto espaço territorial, como decor-
tando, à época, l.U do total presumido rência do processo histórico de ocupa-
para o Pafs. ção espacial, dos sistemas econômicos
implantados, e, também, pelo impacto
Um dos entraves, ou freios, antepostos de dois fatores amplamente influentes
ao desenvolvimento da Região Amazô- na formação da Região, quais sejam a
nica, sem aludir às grandes dimensões distância face aos centros de decisão
do espa90 físico e ao diminuto contiu- de âmbito nacional e a fraca integra-
gente populacional, tem sido a carên- ção do sistema econômico amazônico
cia de energia e de transporte. A esse ao sistema do País como um todo.
problema, é dedicada especial atenção Contudo, o esfor90 do Governo Central
nos capítulos atinentes ao assunto. No a serviço da tese integradora já se re-
que toca à energia chama-se a aten- flete na área em apreciação; outros-
ção para o caráter incipiente dos sim, a implantação, na década passada,
setores de produção de energia e para de importantes eixos de circulação ter-
as limitações regionais que se opõem restre foi da mais alta relevtncia para o
ao fortalecimento do quadro energé- fortalecimento do intercâmbio da Ama-
ticos, mas, em compensação, assinala os zônia com o Pais e, ao mesmo tempo,
primeiros passos num sentido de para a aceleração do processo de mu-
progresso na utilização de outras fon- dança do estilo e da estrutura das
tes, e a facilidade que o caráter, ainda relações internas e externas da Região
não evoluído, da produção de energia Norte.
enseja para uma reorganização do sis-
tema energético global da Região, O processo integrador da Amazônia é
apontando promissoras perspectivas dos mais ricos em fatos e perpecti-
para o setor e, conseqüentemente, para vas dentro da polftica nacional ge-
o desenvolvimento econômico regional. raL com o objetivo de equilíbrio e
relacionamento entre as áreas. Não se
Por sua vez, a circulação de pessoas e pode negar a influência da economia
de bens - até há pouco calcada na na- paulista neste processo através do ne-

XII
xo estabelecido, a partir dos anos 40, quadro agrário mediante aumento da
entre a expansão industrial de São lavoura e da pecuária, com tendência
Paulo e a economia amazônica, revi- crescente a urna expressão maior na
gorada esta com o advento e desenvol- economia da Amazônia. Deve-se, con-
vimento da juta e com a implantação tudo, assinalar que outro setor extra-
de projetos agropecuários à sombra das tivista - o mineral - vem crescendo
facil:dades fiscais oferecidas pelo Go- de significado, mercê da ação direta
verno Federal, dentro da sua diretriz de origem estatal. Trata-se, pois, a
desenvolvimentista, da atenuação das Amazônia, de uma área onde, a des-
diferenças regionais e da menor discre- peito da permanência de antigos mo-
pância na distribuição da renda. delos de atividades econômicas, ao
lado de estruturas industriais ainda
Ainda assim, a economia da Região frágeis, opera-se significativa mudança
Norte continua baseada no extrativismo estrutural tanto na vida de relação
vegetaL este com sinais de declínio, quanto no setor da economia e do
enquanto se verificam modificações no desenvolvimento.

XIII
SUMÁRIO

RELEVO

INTRODUÇÃO

I. O CONHECIMENTO DA AMAZôNIA !I

2. ESTRUTURA GEOLóGICA 9
2. 1 A Bacia Amazônica 10
2.2 A Bacia do Acre ou a Região Ocidental 12
2.!1 A Bacia de Marajó 12

!1 . OS GRANDES QUADROS GEOMORFOLóGJCOS 14


!I .1 A Planície Amazônica 15
3.1 . 1 A Planície de Inundação 15
!I .1.2 As Terras Firmes 17
!1.2 Os Escudos Cristalinos 21
!1.!1 O Litoral Amazônico 2!1

•. PROCESSOS MORFOGEN:tTJCOS E PROBLEMAS GEOMORFOLóGICOS


DO MODELADO AMAZôNICO 25
4. I A Meteorização 26
4 .2 Papel do Escoamento 27
4 . !I Alguns Problemas Morfológicos da Amazônia 29
4. !I . 1 Adaptação da Rede de Drenagem às Direções Estruturais do
Embasamento Cristalino 29
4.5.2 Oscilação do Nível do Mar e Tectônica Quaternária na Elabo~ção
dos Níveis de Várzea e de Terras Firmes 30
4. !I. 3 Condições Paleoclimáticas Responsáveis pela Elaboração das
Superfícies Aplainadas da Amazônia 31

CONCLUSOES 53

NOTAS DE REFERtNCIAS !15

BIBLIOGRAFIA 36
36

CLIMA
INTRODUÇÃO 59

1. PRI~CIPAIS SISTEMAS DE CIRCULAÇÃO ATMOSF~RICA 39


2. PRINCIPAIS ASPECTOS TtRMICOS 42
S. PRINCIPAIS ASPECTOS PLUVIOM:tTRICOS 46
!I . 1 Desvios Pluviométricos Anuais em Relação às Normais 50
4. PRINCIPAIS DIFERENCIAÇôES CLIMÁTICAS 53
CONCLUSOES 54
NOTAS DE REFERtNCIAS 56
BIBLIOGRAFIA 58

XV
VEGETAÇÃO

INTRODUÇÃO 59
l. FLORESTA PERENIFóLIA HIGRóFILA HILEIANA AMAZONICA (HlliiA) 6!1

1 .1 Distribuiçao 64
1. 2 Co~posição Florística 66

2. FLORESTA PERENIFóLIA PALUDOSA RIBEIRINHA PERIODICAMENTE


INUNDADA 71

2.1 Distribuiçao 72
2. 2 Composição Flor{stica 75
!1. FLORESTA PERENIFóLIA RIBEIRINHA PERMANENTEMENTE INUNDADA 74

4. FLORESTA SUBCADUClFóLIA AMAZONICA 75

5. CERRADO 80

6. CAMPOS 81

6.1 Os Campos Mistos ou Alagáveis 82


6.2 Os Campos de Várzea 85
6.5 Os C•mpos Finnes 85
7. COMPLEXOS DE RORAIMA, CACHIMBO E XINGU 84

..
8. VEGETAÇÃO LITORA.NEA 87

CONCLUSOES 88

NOTAS DE REFER2NCIAS 90

BIBLIOGRAFIA 91

HIDROGRAFIA

1. A BACIA AMAZONICA NO QUADRO GEOTECTONICO E HIDROGRAFICO


DO CONTINENTE SUL-AMERICANO 95

2. O TECTONISMO E O EUSTATISMO NA DRENAGEM REGIONAL 97

5. A EXPRESSÃO CONTINENTAL DA BACIA AMAZONICA 106

4. OS CONDICIONAMENTOS DO CLIMA. REGIMES. AS CHEIAS DO AMAZONAS 108

5 . . O RIO AMAZONAS. EXTENSÃO E DESCARGA. TRANSPORTE DE


SEDIMENTOS E CONSTRUÇÃO FLUVIAL 117

6. CARACTERISTICAS MORFOHIDROLóGICAS. A DRENAGEM NA VÁRZEA E


NA TERRA FIRME AMAZONICAS. FORMAÇOES LACUSTRES 1"30

7. O DELTA·ESTUARIO DO AMAZONAS 145

8. AS MARts NO LITORAL AMAZONICO 151

9. CONCLUSÃO: A HIDROGRAFIA NA ORGANIZAÇÃO E VALORIZAÇÃO


REGIONAL 155

NOTAS DE REFER2NCIAS 158

BIBLIOGRAFIA 164

XVI
POPULAÇÃO

INTRODUÇÃO 167

1. EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO 170


1. 1 Evolução da Populaçio Total 170
1.2 Evolução da Populaçlo Urbana e Rural 175

2. CARACTERtSTICAS DEMOCR.AFICAS DA POPULAÇÃO 178


2.1 Composição por Sexo 179
2 .2 Estrutura Etliria 181
2 . 5 Populaç:lo Ativa e Estrutura Profissional 185

5. MOBILIDADE DA POPULAÇÃO 195


!1.1 Migraç6es Intra-Regionais 194
5. 2 Migrações Inter-Regionais 199
5.2.1 Emigração 199
8.2.2 Tipos de Fluxos Emigratórios 205
5.2.5 Imigraçao 206
5.2.4 Tipos de Fluxos Imigratórios 211
5. 5 As Migrações Recentes e suas Variações Espaciais 214
5. 5 . I Distribuiçio Espacial dos Migrantes 218

4. REPARTIÇÃO ESPACIAL DA DINÂMICA DA POPULAÇÃO RURAL 228


4 . 1 AmazOnia Oriental 255
4 .2 AmazOnia Ocidental 256

5. PADROES DA URBANIZAÇÃO E O CRESCIMENTO DAS CIDADES 242

5.1 Tend~ncias da Concentração Urbana 244


5.2 Crescimento Urbano das Cidades 246

6. CONCLUSÃO: PERSPECTIVAS E PROBLEMAS DEMOGRÁFICOS DA REGIÃO 259

NOTAS DE REFERtNCIAS 268

BIBLIOGRAFIA 271

TRANSPORTES

INTRODUÇÃO 275

1. REPARTIÇÃO ESPACIAL E COMPLEMENTAR DAS VIAS E CANAIS 274


1. 1 Hidrovias 276
1.1 .1 Jntra·Regionais 276
1. 1.2 Inter-Regionais Cabotagem e Longo Curso 286
1.2 Canais Rodoviários, Ferroviários e Aerovias 292
1.2.1 Canais Rodoviãrios 292
1.2.2 Canais Ferrovilirios 296
1.2. 5 Aerovias 296

xvn
2. FLUXOS DE CARGA E DE PASSAGEIROS 298

2 .I Fluxos de Mercadorias 299


2.1.1 Exportaç!o de Produtos Regionais 300
2 .1 . 1. 1 Exportação Imra-Regional 300
2 .I. I .2 Exportaçlio Inter-Regional SOl
2.2 Exportação do Minério de Manganês 305
2 .li _ Distribuiç~o Intra-Regional e Importaçlio Inter-Regional !106
2.3.1 Distribuição de Bens !106
2.3.2 A Importa~o por Cabotagem e Longo Curso !108
2.4 Fluxos de Passageiros !112
2.4 .I Fluxos Intra-Regionais !112
2.4.2 Fluxos Inter-Regionais !116

CONCLUSOES !117

NOTAS DE REFERtNCIAS 319

BIBLIOGRAFIA !120

ENERGIA

INTRODUÇÃO !12!1
1. FONTES ENERGtTICAS !124
1.1 Combustíveis Líquidos: Petróleo e seus Derivados !124
1.2 Combustíveis Sólidos !128

2. SISTEMA ELtTRICO !I!lO

2.1 Redes Locais de Transmissão de Energia Elétrica !135


!1. A SUBSTITUIÇÃO E A ALTERNÃNCIA DE FONTES NO SISTEMA
ENERGtTICO GLOBAL

NOTAS DE REFERtNClAS !140

BIBLIOGRAFIA 540

ATIVIDADE AGRÁRIA

INTRODUÇÃO 541

1. A AGRICULTURA NA REGIÃO NORTE 341

2. CARACTERfSTICAS SOCIAIS DA ORGANIZAÇÃO AGRÁRIA !142

2 .I Estrutura Fundiária 543


2.2 O Regime de Exploração da Terra 344

3. CARACTERfSTICAS FUNCIONAIS E ECONOMICAS DAS ATIVIDADES


AGRARIAS 347
(\ 3 . 1 Comb~naçlio de Culturas 348
( _ 5.2 Culturas Alimentares !!50
"'(!., 3 As Culturas Industriais !!52
5.4 A Pecuária !!58
!1.5 O Extrativismo Vegetal !165

XVIII
4. PROJETOS E PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO AGRtCOLA DA
REGIÃO NORTE -A AÇÃO GOVERNAMENTAL 577

5. A ORGt\NIZAÇÃO AGR.ARIA 580

6. TIPOS DE ORGANIZAÇÃO AGRARIA 586

CONCLUSOES !190

NOTAS DE REFERt.NCIAS !191

BIBLIOGRAFIA !192

INDÚSTRIA
INTRODUÇÃO 595

1. A INDúSTRIA DA AMAZONIA NO CONTEXTO BRASILEIRO - EVOLUÇÃO !195

1. 1 Posiçlio da Indústria na Renda Regional e Nacional 595


1.2 Evoluçao do Pessoal Ocupado na Indústria 397
1.!1 Composiçlio do Setor Industrial 398

2. FATORES E PROBLEMAS DA IMPLANTAÇÃO INDUSTRIAL 399

2.1 As Fases Históricas !199


2.2 A Indústria Dentro da Economia Extrativa Florestal 400
2. 5 A Industrialização dos Produtos Agrícolas 404
2 .4 Planos e Organismos para o Desenvolvimento da Amazônia e o Suno
Industrial Decorrente dos Incentivos Fiscais 404

3. A DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA ATIVIDADE INDUSTRIAL DE


TRANSFORMAÇÃO E DA MINERAÇÃO 406

5. 1 Centros de Atividade Industrial de Transformaçlio 406


5. I .1 Manau.t 407
3.1.2 Belm 408
3. I . 5 Outros Centros 409

5.2 Centros de Mineraçlio 410


5.2.1 Amapá 411
!1. 2. 2 Rondônia 411
5. 3 Áreas de Garimpos 412

4. RESERVAS 412

4.1 Serra dos Carajás 413


4.2 Distrito Ferrífero de Jatapu 415
4.5 Capanema e Monte Alegre 415
4.4 Nova Olinda 415
4. 5 Serra de Oriximiná 415

CONCLUSOES 415

NOTAS DE REFEUNCIAS 421

BIBLIOGRAFIA

XIX
SISTEMA URBANO
SISTEMA URBANO

INTRODUÇÃO

I. OS FATORES LOCACIONAIS NA ORIGEM DAS CIDADES DA


REGIÃO NORTE

2. COMPORTAMENTO DOS NúCLEOS URBANOS ·UO

5. CARACTERtSTICAS ESTRUTURAIS DAS CIDADES 457


5.1 Tamanho Funcional 457
5 .2 Infra·Estrutura Social e Econômica 445
5.5 Acessibilidade à Metrópole Regional 448
!1 .4 Grau de Tradicionalismo ou de Modernização das Indústrias 448
!1.5 Esboço de Tipologia Urbana 450 ...
4. AS CIDADES E SUAS REGIOES DE INFLUtNCI:\ 452

4. 1 A Organizaç!io Urbana da Rcgi~o


4 . 2 Centros Macro· Regional, .í<.egional .! Sub· Regionais
452
454 ..
NOTAS DE REFERtNCIAS

XX
INTRODUÇÃO

Em linhas gerais, o relevo da


Região Norte é comandado pela es-
trutura geológica na qual dois aspec-
tos fundamentais são realçados: um
domínio de bacias sedimentares, con-
tido entre estruturas de escudos cris-
talinos.
A bacia. sedimentar do Amazonas
apresenta-se superficialmente como
uma grande planície de topografia
aparentemente homogênea, recoberta
de florestas e fracamente povoada.
Nela, a suavidade das formas mascara,
no entanto, estruturas geológicas e tec-
tônicas complexas.
Esta imensa área sedimentar se esten·
de de leste para o oeste, de Marajó às
fronteiras brasileiras dos Estados do
Amazonas e do Acre, com a Colômbia,
Peru e Bolívia, ocupando uma área de
mais de 2. 000.000 km2• Estreitando-se
no leste, e alargando-se para o inte-
RELEVO rior, a bacia sedimentar limita-se pela
zona pré-andina Amazônica e, mais
AMI!LIA ALBA NOGUEIRA MOREIRA
para oeste, pelos dobramentos da zona
subandina que antecedem os grandes
relevos andinos.
Alongada de leste para noroeste, a
área sedimentar é limitada, ao norte,
pelo escudo das Guianas e, ao sul, pelo
escudo brasileiro, estes relevos planál-
ticos modelados em rochas do Pré-
Cambriano.
A bacia sedimentar e os escudos peri-
féricos são banhados pela rede de dre-
nagem amazônica, constituída pelo rio
Amazonas e seus formadores, entre os
quais podem ser mencionados:
a) pela margem direita, o Madeira, o
Purus e Juruá, que têm suas nascentes
fora do Território Brasileiro, e o Ta-
pajós e o Xingu, oriundos do Planalto
Brasileiro.
b) pela margem esquerda, o Japurá,
o Negro e o Trombetas, procedentes
dos Andes bolivianos e do Planalto das
Guianas.

1
Correndo nos planaltos, sobre rochas De dimensões mais amplas, porém de
do escudo cristalino Argueano e Algon· altitudes mais reduzidas, o bloco cris-
quiano ou sobre os sedimentos que os talino do sul se dispõe de sudoeste para
recobrem, esses rios convergem para a o nordeste através das serras de Pacaás
bacia sedimentar, onde desenvolvem Novos e dos Parecis, estas com cober-
grande extensão de seus cursos sobre tura sedimentar no Território de Ron-
sedimentos Cenozóicos. Entre esses rios dônia, Apiacás e Cachimbo, no Mato
estão o }apurá, o Juruá, o Puros e o Grosso, e Seringa e Carajás, no Pará.
Madeira, que encontram o Amazonas
no trecho em que a bacia sedimentar é Os escudos cristalinos são modelados
mais ampla. Já os rios Negro, Trombe- em rochas do embasamento gnáissico
tas, Tapajós e Xingu, que drenam para (do Pré-Cambriano Indiviso) e rochas
o médio e baixo curso do rio Amazo- do Cambro-Ordoviciano e apresentam-
nas, através d'uma bacia sedimentar se, em certos trechos, capeados por se-
menos ampla, tem apenas seus baixos dimentos Paleozóicos e Mesozóicos.
cursos sobre os sedimentos recentes.
Recobertos por formações florestais e
Além destes rios, outros numerosos Campos Cerrados, os domínios crista-
afluentes e subafluentes poderiam ser linos são ainda pouco conhecidos, em
mencionados na composição do maior particular o trecho do escudo brasi-
conjunto fluvial do mundo - a bacia leiro.
do rio Amazonas.
A grande bacia de sedimentação do
Topograficamente, a Planície Amazô.. Amazonas passou por uma complexa
Dica e os escudos periféricos podem evolução geotectônica. Nela, as séries
apre6entar-se nivelados, cortados por sedimentares Paleozóicas foram depo-
uma mesma superfície de erosão, sitadas sob o mar durante as transgres-
porém, geomorfologicarnente, a pla- sões marinhas provenientes de sul-
nície comporta-se como área de subsi- sudeste, no Paleozóico Inferior e
dência, na qual os processos de sedi- Médio. Oriundas do noroeste e, por-
mentação Holocênica são predominan- tanto, do geossinclinal subandino são
tes. Já as áreas de escudos são carac- as transgressões do Paleozóico Supe-
terizadas por tendências tectônicas po- rior não continuadas no Mesozóico. A
sitivas e, no conjunto, os processos da partir de então, a bacia de sedimen-
erosão tornam-se dominantes. tação do Amazonas passou a evoluir
sob condições continentais, exceção
Assim, a bacia de sedimentação forma feita ao trecho de Marajó, que sub-
a extensa planície amazônica, cujas al- mergiu a profundidades superiores a
titudes não vão além de 100 metros, 4.000 metros durante o Terciário.
ao passo que os trechos de escudos se
erguem como planaltos ou vão se com- A evolução da bacia sedimentar com-
portar como maciços montanhosos preendeu fases de submersão, de emer-
como nas serras de Imeri-Tapirapecó, são, intrusões de rochas eruptivas,
onde é encontrado o pico da Neblina, falhamentos e fraturamentos. No Pós-
ponto culminante do Brasil, com a Cretácio a grande vaga de sedimen-
altitude de 3.014 metros. Entre esses tação continental e lacustre favoreceu a
blocos elevados estão aqueles que deposição dos sedimentos elásticos da
formam a fronteira com a Venezuela, formação Barreiras, sendo, de então,
como as serras de Parirna e Pacaraima, a abertura da drenagem para o Oceano
com o monte Roraima, na altitude de Atlântico.
2.875 metros. O conjunto cristalino es-
tendido de oeste para leste forma A partir do Quaternário, vêm sendo
também as serras de Acaraí e Tu- estruturadas as várzeas amazônicas,
mucumaque, dispostas de modo alon- mais amplas no médio curso, em parti-
gado no norte do Pará e, no seu cular a jusante de Manaus. Estreitan-
extremo leste, penetra no Território do do-se em óbidos, as várzeas se alargam
Amapá, onde se aproxima do mar. novamente no baixo curso dos rios

2
Amazonas e Tocantins, e na ilha de paleocJimáticas na explicação dos
Marajó, à semelhança de um enorme aplainamentos e sedimentações corre-
delta. lativas. No relativo à foimação Barrei-
ras, ficou patenteada a diversidade dos
A partir da segunda metade do século processos responsáveis pela vasta sedi-
passado, as rochas da bacia sedimen- mentação.
tar passaram a constituir tema de pes-
quisa para instituições e pesquisadores O relevo da Região Norte engloba um
isolados, interessados no conhecimento vasto e mal conhecido campo de pro-
da geologia regional e dos recursos blemas geomorfológicos, no . qual
minerais. Assim, parte inicial deste alguns de seus aspectos poderão ser
estudo foi dedicada a uma breve re- melhor conhecidos, como os estudos
trospectiva das pesquisas geológicas e que vêm sendo feitos pela Companhia
geomorfológicas realizadas na Região. de Pesquisa de Recursos Minerais
Iniciados na planície, esses estudos fi. ( CPRM) no sul do rio Amazonas. Re-
caram restritos à área ribeirinha e à cobrindo uma área de 1.500.000 km2,
geologia de superfície e deles resul- as fotografias "imageadas" pelo radar
taram os elementos essenciais para a (Projeto Radam), poderão contribuir
explicação da Planície Amazônica como para o conhecimento de aspectos do
um grande sinclinal, de evolução modelado ainda totalmente desconhe-
homogênea. cidos, e para a reformulação de velhas
premissas relativas à homogeneidade
No início do século atual novas pers- das condições e recursos naturais exis-
pectivas foram abertas ao conheci- tentes no imenso espaço amazônico.
mento do subsolo amazônico através
das sondagens realizadas para a pes-
quisa do carvão mineral e, posterior-
mente, a partir de 1940, com as sonda· 1 - O CONHECIMENTO DA
gens profundas e estudos geofísicos do AMAZÔNIA
Conselho Nacional do Petróleo e da
PETROBRÁS. As idéias relativas à ho- O esboço estrutural da Amazônia é
mogeneidade do sinclinal amazônico, conhecido desde o século passado,
vigent~s no início do século,· foram como o resultado de viagens de reco-
abandonadas pela identificação das nhecimento, de expedições científicas
complexas unidades geotectônicas a e dos trabalhos de pesquisadores iso-
saber: a bacia do Amazonas, a bacia lados, atraídos pelo misterioso da
do Acre, e a bacia de Marajó. Região que ainda hoje continua a desa·
fiar os estudiosos e as instituições vol-
No que respeita aos estudos geomorfo- tadas para seus problemas. De maneira
lógicos, apenas grandes unidades geral, as cartas sobre a Amazônia apre-
podem ser identificadas: os planaltos, sentam grandes claros e extensas gene-
correspondentes aos trechos de es- ralizações devido ao caráter localizado
cudos, e a planície com os aspectos das pesquisas, muitas das quais ainda
relativos às várzeas e às terras firmes. em nível de reconhecimento. A vasti-
dão a ser explorada, de cerca de ~
Nestes citados quadros, conhecidos e do Território Brasileiro, e a presença
descritos de maneira localizada, foram de floresta constituem entrave ao co-
destacados alguns dos processos nhecimento da Região, na quaL os estu-
atuantes na elaboração do modelado e dos realizados limitam-se às bordas ri-
alguns problemas geomorfológicos. beirinhas, portanto de modo localizado,
Entre estes, foram sumariamente des- ou ao longo das rodovias que vão
critos os problemas de adaptação da sendo abertas na floresta nos dias pre·
drenagem às condições estruturais, o sentes.
das características das várzeas em re· O interesse científico pela região data
!ação aos processos da sedimentação da segunda metade do século XIX,
Holocênica, e os de certas condições quando, ao lado das narrativas e des·

s
crições de viagens, iniciam-se as pes· Maicuru, o rio Trombetas e a ilha de
quisas relativas à geologia e à paleon- Marajó, onde foram realizadas pesqui-
tologia. sas e coletados fósseis.
Duas fases são reconhecidas nos es- Baseado em experiência própria e no
tudos relativos à Região: uma fase pio- grande trabalho de Hartt, já então
neira até o fim do século XIX, e uma falecido, Derby esquematizou a evo-
mod~rna, do início do século aos dias lução geológica da Amazônia, quando,
atuais. 1 em 1877, publicou nos arquivos do
Museu Nacional, o trabalho sobre
A primeira fase, do fim do século XIX, "Contribuição para a Geologia da Re-
é caracterizada por estudos relativos à gião do Baixo Amazonas". 2 O mar
geologia de superfície, estratigrafia e Siluriano, situado entre as duas ilhas
paleontologia, realizados também de arqueanas do escudo das Guianas e
modo localizado. Entre seus pesquisa- do escudo Brasileiro seria, segundo
dores podem ser enumerados João aquele autor, o ponto de partida para
Martins da Silva Coutinho, que estudou a evolução da bacia, na qual o caráter
os fósseis Paleozóicos do Tapajós, e marinho da sedimentação Siluriana,
W. Cliandless, com estudos relativos Devoniana e Carbonífera continuou até
aos fósseis Carboníferos do Parauari o Mesozóico, quando o canal existente
nos anos de 1865-1866. entre as duas ilhas foi se estreitando
No mesmo período foram realizadas cada vez mais.
expedições científicas à Amazônia, ca- No Pós-Cretáceo o levantamento da
bendo importância àquela chefiada por cordilheira andina no oeste teria fe-
L. Agassiz, a qual contou com a co- chado o golfão, onde teve início a de-
laboração do citado Silva Coutinho e posição do Terciário, então considera-
de C. F. Hartt que, mais tarde, ma do como de origem marinha. Entre-
participar. da expedição de Morg~n, tanto, o mar amazônico teria buscado
cujo objetivo era estudar o Paleoz61co saída para o leste, estabelecendo-se a
do Tapajós e o Devoniano e o Cretáceo drenagem atual para o Atlântico.
do Ererê. Os resultados da expedição
de Agassiz foram duvidosos e contro- As séries terciárias foram estudadas
vertidos, como a teoria glaciária para por Derby como formadas por grés
explicar a elaboração da calha amazô- e argilas de cores vivas e variadas,
nica, porém os trabalhos de ~artt pouco coerentes quando não consoli-
foram sendo progressivamente ennque- dadas, contendo óxidos de ferro.
cidos quando este estudioso foi nome- Quando não desnudadas essas forma-
ado para dirigir a Comissão Geológica ções aparecem recobertas pela floresta
do Império, de 1875 a 1877. que, uma vez devastad~, deixa apare-
As séries Paleozóicas continuaram a cer solos arenosos e estereis. As obser-
constituir foco de interesse das pes· vações realizadas nas várzeas mostram-
quisas estratigráficas, sendo as mesmas nas formadas por argilas amarelas e
descobertas no lado norte da calha pretas, impregnadas de matéria orgâ-
amazônica, em 1876. nica.

Em 1870 Derby já havia participado Embora as idéias de Derby e Hartt


de uma expedição dirigida por tenham sido contestadas em detalhes,
Hartt. Mais tarde os dois exploraram seus traços gerais se mantiveram até
o rio Tocantins até a cachoeira quase os dias atuais. Desse modo, ao
Guariba, e o rio Tapajós até a cacho- findar o século, tinha-se elaborado a
eira de Ap\l.Ílll e as regiões de Santa· teoria do esboço estrutural amazônico,
rém do rio Ererê e da serra de Para- modificado à medida que surgiram
'
naquara. Mais tarde Derby retornou novas teorias para explicação dos
ao Amazonas, onde estudou o Ererê, o grandes conjuntos regionais existentes.

4
Além das numerosas pesquisas sobre o tudadas por C. Maury ( 1924, 1929)
Paleozóico, as camadas Terciárias tam- e com as descrições geológicas e estu-
bém constituíram objeto de estudos dos paleontológicos realizados então
com os nomes de C. White e P. no século anterior, podem-se estabele-
Gervaís, no litoral, no baixo e no alto cer as características da evolução da
Amazonas. Os fósseis da formação Pe- bacia de sedimentação amazônica.
bas foram identificados no rio Solimões
e no rio Javari, bem como os depósitos Pesquisas paleontológicas em tomo de
vegetais dos Fios Trombetas e Curuá. fósseis Paleozóicos e Cenozóicos conti-
nuaram a ter curso de 1936 a 1938, com
Na fase denominada de moderna os nomes de P. Erichsen de Oliveira,
(Camargo Mendes, cit.) situam-se os M. C. Oliveira Roxo, C. Maury, E. W.
estudos estratigráficos levados a efeito Barry e Miranda Ribeiro. Então, no
pelo Serviço Geológico e Mineralógico . plano institucional, as pesquisas sobre
do Brasil a partir de 1900. Seguem a Amazô.nia eram levadas a cabo pelo
as pesquisas do Serviço de Fomento
Serviço do Fomento da Produção Mi-
da Produção Mineral, do Conselho Na-
cional do Petróleo e da PETROBRAS neral. Mais tarde, com a criação do
que abrem paulatinamente novas pers- Conselho Nacional do Petróleo ( CNP),
pectivas ao conhecimento da Amazô- novo grande passo foi dado no conhe-
nia. cimento da Amazônia. Paralelamente
aos estudos do CNP, estudos paleonto-
Além das pesquisas efetuadas por ins- lógicos foram feitos por S. Petri ( 1952,
tituições, numerosos estudos de pesqui- 1954) e S. Amaral (1955) que pes-
sadores ísolados ou vinculados àquelas quisaram testemunhos das sondagens
mesmas instituições permitiram melho- do CNP. Também o Departamento de
res conhecimentos tanto no domínio da Geologia e Paleontologia da Universi·
estratigrafia como da paleontologia, dade de São Paulo, em colaboração
tectônica e geomorfologia. com o CNP, desenvolveu estudos na
Amazônia a partir de 1948, tendo rea-
No tocante à estratigrafia-paleontolo-
lizado a coleta e identificação de
gia, merecem realce as pesquisas de-
senvolvidas no início do século pelo fósseis, com J. C. Mendes (1956, 1957),
Serviço Geológico e pelo Serviço do Petri (1956, 19-J/) e S. Amaral ( 1954).
Fomento da Produção Mineral, relati-
vas ao carvão, que muito representa- A Divisão de Geologia e Mineralogia
ram para o conhecimento da estrati- do DNPM também realizou estudos
grafia amazônica, muito embora as sobre fósseis Paleozóicos com W. Kegel
sondagens realizadas no médio Amazo- ( 1951) e W. Sommer ( 1953) .
nas não se tenham aprofundado a maís
de 700 metros. Relativamente às estruturas tectônicas
.da bacia sedimentar, grande foi a con-
Entre os numerosos estudiosos da geo- tribuição do Conselho Nacional do
logia regional devem ser mencionados, Petróleo durante o período de 1944 a
entre outros, os nomes de F. Katzer, 1953, fase em que foram realizadas
do Museu do Pará, que escreveu em perfurações profundas para a pesqui-
1903 sobre a Geologia do Baixo Ama- sa do petróleo.
zonas; Gonzaga de Campos ( 1913), O.
Albuquerque ( 1918, 1919), A. Ignácio Embora a estrutura anticlinal de
de Oliveira ( 1921, 1924, 1926, 1928), Monte Alegre tenha sido identificada
P. F. Carvalho ( 1921 ), M. C. Oliveira desde os trabalhos de Derby ( 1877),
Roxo ( 1924) Pedro de Moura e A. A. bem como posteriormente identifica-
Bastos ( 1929) e, ainda, Moura ( 1932). dos os mergulhos regionais do Carbo-
nífero, somente os estudos do CNP
As coleções de fósseis do Paleozóico revelaram as estruturas tectônicas exis-
e do Cenozóico foram descritas e es- tentes. A fossa de Marajó foi desco-

5
berta a partir das pesquisas realizadas -terra firme. Em 1949 P. Gourou, rea-
pelo Conselho Nacional do Petróleo, lizando estudos na região de Gurupá,
bem como as estruturas anticlinais de na foz do Amazonas, e na área de Ma-
Nova Olioda e os dobramentos N-S do naus, no médio-curso, pôde sistematizar
Juruá relacionados à tectônica andina. suscitando entre os numerosos proble-
mas morfológicos da Amazônia e dos
Os estudos geofísicos do CNP deixam vales submersos e o da formação das
ver que a profundidade maior da Ba- lateritas.
cia não coincide com o eixo do rio
Amazonas, mas se desloca para o sul Entre 1951-1959 aparecem oo; numero-
do mesmo. Revelam também que a Ba- sos trabalhos de A. T. Guerra sobre
cia não possui estrutura nem evolução as lateritas amazônicas do Rio Branco
homogênea, mas variadas, o que per- e Amapá.
mitiu J. Camargo Mendes ( 1967) sub- Contribuição à geomorfologia amazô-
dividi-la em três grandes unidades nica é também dada pelos estudos de
geotectônicas, a saber: a região cen- D. Heinsdijk ( 1957, 1958, 1960) pu-
tral, a região oriental e a região oci- blicados pela FAO, como resultado de
dental. 3 pesquisas levadas a cabo no Xingu-
Tapajós, Tocantins, Guamá-Capim, Ta-
A partir de então considerou-se a rede
pajós e Madeira; H. Sioli ( 1964),
de drenagem adaptada às direções tec- com estudos relativos aos solos e vege-
tônicas dominantes de SW-NE e de tação amazônicos chegando a esque-
NW-SE, direções essas que se apro- matizar as relações entre várzeas e
ximam da tectônica marajoara. 4 terras firmes. Também sob os auspícios
No tocante à geomorfologia, as pesqui- da F AO·SPVEA, existe o trabalho de
sas são menos numerosas que as de es- L. S. Vargas ( 1958), e sobre os níveis
tratigrafia e as observações relativas do baixo e médio Amazonas o trabalho
ao modelado estão geralmente incluí- de M. R. Mousinho Meis.
das em estudos de outras especialida- Destacados devem ser os trabalhos de
des, como nos de geologia-tectônica, Sternberg ( 1954) sobre os vales
solos, hidrografia e vegetação. Além tectônicos na Amazônia; ( 1960) a tese
destas, pesquisas geomorfológicas pro- sobre o paraná do Careiro, com a
priamente ditas têm sido realizadas, datação do material da várzea atra-
tendo por objetivo as mensurações de vés do método do carbono 14; (1964)
níveis de terraços e de terras firmes, em com mensurações feitas no leito do rio
pontos isolados da calha amazônica e - Amazon River Investigations. De
relacionados a movimentos glácio·eus- Ab'Saber ( 1957) As flutuações cli-
táticos. A identificação de áreas pedi- máticas do Quaternário no Brasil;
planadas nos terrenos cristalinos do ( 1966) sobre as superfícies aplainadas
alto rio Branco tem sido foco de inte- e terraços da Amazônia e ( 1967)
resse, resultando em estudos localiza- Problemas Geomcrfológicos da Ama-
dos e sistematizações válidas até hoje. zc'lnia Brasileira. Este último, bem
Com respeito à geomorfologia, além como o trabalho de J. Camargo Men-
da obra de Derby, não podem deixar des ( 1967) sobre a Evolução Geol6-
de ser mencionados os trabalhos de gica da Amaz6n1a, são ricos de elemen-
Katzer ( 1903) na identificação de ní- tos interessantes sobre os problemas
veis de terraços fluviais ao norte de estruturais e morfoclimáticos da região.
óbidos; Marbut e Manifold ( 1925) A realização ( 1966) do Simpósio sobre
que identificaram os níveis de Marajó, a Biota Amazônica, em cujas atas
Parintins e Codajás; Pedro de Moura estão publicados os dois últimos traba-
(1943) que, como ge6logo do CNP, lhos e numerosos outros de grande
estabeleceu magnífica descrição e in- interesse como o de O. Barbosa sobre
terpretação dos níveis de várzea e da tectônica na Bacia Amazônica; J. M.

6
Mabesoone sobre Sedimentos correla- sideração suas feições estruturais e es-
tivos do clima trOpical; H. Grabert tratigráficas. O mesmo autór, no re-
sobre Desaguamento natural do sis- lativo aos aspectos geológicos, consi-
tema fluvial do rio Madeira, F. M. C. dera a Amazônia brasileira dividida
Freitas, Levantamentos hidrográficos geograficamente nas regiões: a fossa
efetuados pela Marinha do Brasil na 'superior, a média e a inferior, nos Es-
Amazónia e I. C. Falesi, O estado atual tados do Pará e Amazonas; a área do
de conhecimentos sobre os solos da alto Amazonas do Brasil ocidental, nos
Amazónia brasileira constituíram, entre Estados do Acre e do Amazonas.
outros, elementos indispensáveis à ela-
boração do presente capítulo. Também Camargo Mendes subdividiu
a Bacia Amazônica em outras tantas
2 - ESTRUTURA GEOLÓGICA unidades geotectônicas, a saber: a ba-
cia do Acre, a Bacia do Amazonas e a
Muito embora os elementos básicos de bacia do Maraj6. Octávio Barbosa con-
um esboço estrutural para a Amazônia sidera a Bacia Amazônica, por sua vez,
tenham sido estabelecidos desde o fim como composta pelas sub-bacias do
do século passado com os trabalhos dos alto c do médio Amazonas, separadas
estudiosos da Região, as idéias a res- pelo arco do Purus.
peito da mesma têm evoluído progres-
Sivamente com as numerosas perfura- No presente trabalho procurou-se
ções realizadas pela PETROBRÁS. A grupar os conjuntos existentes dentro
idéia do geossinclinal que teria sofrido de tres grandes unidades, como já o
subsidência no Cambriano e no Carbo- tinha feito o citado Camargo Mendes
nífero Inferior foi sendo modificada à em seus trabalhos, a saber: a Bacia do
medida que os estudos revelavam que Amazonas, englobando as sub-bacias do
os sedimentos existentes não ~e encon- alto e médio Amazonas, nas quais as
traram dobrados segundo a menciona- espessas séries Paleozóicas estão pre·
da estrutura, mas sim falhados em sentes; a bacia do Acre e a bacia de
idades diversas. 11 Segundo este mesmo Marajó. ( Fig. 1)
autor, a bacia sedimentar do Amazo-
nas forma uma extensa fossa interes-
cudal cratônica como um extenso e 2.1 -A Bacia Amazônica
complexo graben que separa os es-
cudos Brasileiro e das Guianas. Vai do oeste do Estado do Amazonas
ao rio Xingu e na área sudeste da ilha
Nos escudos foram comprovados sis-
temas de falhas de N e S complicadas de Marajó comunica-se com a bacia do
por outros sistemas de direção SW-NE, Parnaiba. Compreende as bacias do
as quais foram reativadas durante o alto e do médio Amazonas que se en-
Mesozóico e o Terciário. Em Marajó contram separadas pelo arco do Pu-
os falhamentos escalonados possuem rus. 6 (Fig. 2)
direção de SSW-NNE.
Alongadas de oeste para leste, de
A evolução das bacias de sedimentação modo aproximadamente simétrico nas
não se processou de modo semelhante duas margens do rio Amazonas, estão
para o conjunto da calha amazônica, dispostas as formações Paleozóicas, in-
mas, de modo diverso, de uma para terpostas entre as formações Cenozói-
outra parte.
cas da calha aluvial e os escudos peri-
O referido autor considera que a Ba- féricos.
cia do Amazonas pode ser subdividida
em duas unidades morfogeológicas: a O Paleozóico da margem norte se
fossa amazônica e a zona subandina aproxima do rio na área de Monte
do alto Amazonas, se tomadas em con- Alegre e ao sul afasta-se do leito

7
Região Norte
GEOLOGIA

,,

BA CIA
DE
MAR AJO

e \?. ~s\CEIRO

CONVENÇÕES

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fluvial, indicando que a bacia de se-
dimentação tem seu eixo deslocado
para o sul em relação ao rio. A espes-
sura do manto sedimentar varia nesta
área de 2.000 a 4.000 metros.
O Siluriano representa depósitos de
100 a 200 metros de espessura, repou-
<t sando em discordância com o crista·
z lino ou sobre as formações Eopaleozói-
<O
N
cas, sendo constituído por arenitos e
<t folhelhos contendo fósseis.
:E
<t No norte do rio Amazonas o Siluriano
<t
o vai do rio Jari ao rio Urubu, como
(/) uma estreita faixa. Identificado desde
IJJ 11)
o século passado no rio Trombetas, o
a:: <t
z
<t o Siluriano recebeu a denominação de
1- N
z w < série Trombetas. ( Fig. 3).
~
IJJ z <t
:E As rochas Devonianas têm maior es-
g
o ...,o pessura que as silurianas, possuindo
~~ ~
o
N cerca de 800 metros de arenitos, falhe-
(/) ~ o 0 lhos e calcários contendo fósseis.
<t <t li..
w
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Distribui-se, como o Siluriano, na área
<t
co ~ "' ao norte de Manaus, seguindo pelo rio
o Trombetas, passando por Monte Ale-
(/) ~
ct:E gre, de onde continua até o território
ox
o
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'IJJ C1.
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11)
:::>
a:
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0~08 do Amapá, aparecendo em Erepecuru,
Curuá e Maicuru. Ao sul ocorre pró-
ximo a Itaituba no rio Tapajós. Desco-
<t o o
o berto desde o século passado, o De·
a::
I~
1- o. o voniano constitui, hoje, centro de in-
<t w u
a:
a:: <t teresse das pesquisas do petróleo.
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()
O Carbonífero dispõe-se paralela-
1-
'<t mente ao Devoniano, situado entre
:E este e· o Cenozóico, possuindo espes-
IJJ
::> sura de 1.300 a 1.500 metros nas sonda-
o
(/)
gens de Nova Olinda. t formado por
IJJ calcários, folhelhos, siltitos, arenitos e
IJJ
evaporitos (halita e anidrita).
l-
a:: As formações Carboníferas, do mesmo
o modo que as Devonianas, foram objeto
()
de pesquisas desde o século passado,
tendo em vista a procura do carvão.
o Foi denominado de série Itaituba pois
ocorre na cidade deste nome, no Ta-
pajós.
A ocorrência de evaporitos no Carbo·
nífero tem sido interpretada por Ca-
margo Mendes, cit. como depósitos
~ químicos precipitados em bacias fe-
2 -t- ....I I I I I I

10

\
SECÇÃO TRANSVERSAL HIPOTÉTICA
DA BACIA DO AMAZONAS

Cen- CENOZÓICO
K CRETÁCEO C.F.JOSUÉ CAMARGO MENDES
c CARBONÍFERO EVOL . GEOLÓGICA DA BACIA
o DEVONIANO AMAZÔNICA-1966
s SILURIANO

chadas, sob condições secas, cuja ex- metros nas sondagens de Nov~ Olinda,
ploração econômica vem sendo difi- e um conglomerado basal que ocorre
cultada pelas profundidades em que se no início da seqüência.
encontram as referidas formações. A série Barreiras possui importância
O Carbonífero representa a última in- geomorfológica e desenvolve-se em
vasão marinha sofrida pela bacia do vasta área, tanto ao norte quanto ao
médio Amazonas. A partir de então a sul da calha amazônica, form,mdo as
região teria evoluído sob condições áreas interfluviais e aparecendo nos
continentais. barrancos que limitam os níveis de al-
titudes que vão de alguns a mais de
O Cretáceo aparece localizado em uma centena de metros.
Monte Alegre, em Alter do Chão, no O Quaternário forma, em relação ao
Tapajós e em Nova Olinda, possuindo Terciário, exígua faixa ao longo do rio
espessura variável de 167 a 582 metros Amazonas, penetrando também pelo
na sondagem de Nova Olinda. Esta baixo curso dos afluentes. O Pleisto-
formação é constituída por siltitos, ar- ceno é mais restrito em área do que o
gilitos e arenitos, identificados desde o Holoceno, sendo constituído por argi-
século passado nas serras de Monte las, sil:tes, areias e seixos que vão dar
Alegre. ( Fig. 4). origem aos terraços e tesos; o Holo-
ceno, composto de argilas, siltes e ma-
Outros sedimentos Mesozóicos foram téria orgânica, ocupa a vasta planície
encontrados nas sondagens de Nova
Olinda, entre os quais os da for- de inundação ou a várzea.
mação Sucunduri, que foram falhados
e, desse modo, puderam ser conserva-
dos. 7 2.2 - A Bacia do Acre ou a
Região Ocidental
O Cenozóico compreendt\ os depósitos
Terciários e Quaternários. O Terciário Ainda mal conhecida, a bacia do Acre
é o mais extenso, sendo representado não apresenta as mesmas sucessões se-
pela série Barreiras, constando de ar- dimentares da Bacia Amazônica pro-
gilitos, siltitos, arenitos e conglomera- priamente dita. Cerca de 90% dos seus
dos dispostos em discordância, ora sedimentos são de idade Terciária, de
sobre o cristalino ora sobre o Paleo- origem marinha e flúvio-lacustre, tendo
zóico, possuindo espessura de 170 a 500 sido estudados sob denominações di-

11
versas, como as formações Pebas, Ma- seu interior, os depósitos quaternários
naus, Puca e Rio Branco. Delas, a atingem espessuras de 250 metros;
mais conhecida é a formação Pebas, Loczy, cit.
depositada sob condições flúvio-ma-
rinhas, contendo fósseis. O Terciário De acordo com estudos recentemente
repousa sobre o Cretáceo ainda mal realizados pela PETROBRÁS ..... .
conhecido, de arenitos claros, com lei- (DEXPRO) na área da plataforma
tos de conglomerados, folhelhos e cal- continental da foz do rio Amazonas e
cários dobrados e falhados. Sob as da ilha de Marajó, a estrutura tectôni-
rochas Terciárias e do Cretáceo estão ca regional é caracterizada por "uma
os sedimentos Carboníferos. cadeia de grabens com falhas margi-
nais escalonadas" 8• Seus sedimentos do
Cretáceo ao recente são dispostos em
2.3 - A Bacia de Marai6 discordãncia sobre o Pré-Cambriano ou
sobre as rochas das bacias sedimenta-
~ formada pelas teuas baixas de Ma-
res paleozóicas do Amazonas e do Ma-
rajó, separadas da bacia do Amazonas ranhão. Os referidos sedimentos são
pelo horst de Gurupá e da bacia do
divididos em 3 unidades básicas:·
Maranhão pelo arco do Tocantins.
a) uma formação elástica basal cre-
A bacia de Marajó tomou-se conheci- tácica e arenitos grosseiros;
da pelos estudos do Conselho Nacio-
nal do Petróleo, cujas sondagens atra- b) uma formação paleocênica-miocê-
vessaram espessuras de 4.000 metros nica constituída por sedimentos elás-
de sedimentos, sem contudo atingir o ticos (formação Marajó) e por uma
embasamento cristalino. Em outra unidade rica em carbonatos (formação
sondagem realizada em Cururu, na ilha Amapá};
de Marajó, os sedimentos ocupavam
pacote espesso de 3. 858 metros, antes c) as formações pós-miocênicas se-
ae ser afcançado o cristalino. A se- riam representadas por sedimentos
qüência sedimentar da sondagem de elásticos, Schaller, Vasconcelos, cit.
Cururu foi descrita por S. Petri pelos autores acima.
( 1954). Sobre o cristalino foram en-
A origem da bacia de Marajó e da
contrados sedimentos cretáceos, for-
mados por folhelhos, arenitos e silti- plataforma da foz do Amazonas esta-
tos com restos vegetais e com espessura riam relacionadas aos falhamentos re-
maior de 2.000 metros. O Cretáceo apa- sultantes da rotação diferencial dos
rece penetrado por veios de diabásio. escudos das GuiaDas e Brasüeiro em
função da deriva continental sul-ame-
Sobre o Cretáceo dispõe-se o Mioceno ricana, intensificada do Cretáceo ao
espesso de 1.500 metros, constituindo a Mioceno e atenuada a partir do Pa-
formação Pirabas, cujos calcários fossi- leoceno. Na deposição do delta do
líferos foram recobertos pela série Bar- Amazonas foram constatadas pelos re-
reiras. Esta é composta de argilas se- feridos autores, "estruturas formadas
dimentárias, caolínicas e pesadas, sem por escorregamentos de massas sedi-
estratificação visível, possuindo espes- mentares, onde poderão ocorrer boas
sura de 100 metros. Retrabalhadas condições para a acumulação de petró-
pela erosão, estas argilas foram dar leo." e
origem ao Pleistoceno.
Um conjunto de bacias sedimentares
Falhamentos de idade P6s-Miocênica, separadas por soleiras cristalinas com-
com falhas escalonadas de direção põe a grande Bacia Amazônica brasi-
NNW-SSE e SW-NE teriam cortado e leira.
aprofundado o Mioceno, Camargo
Mendes, cit. Para o mesmo autor, a ori- Na evolução do conjunto têm que ser
gem da bacia é cretácia, com os falha- considerados os problemas de subsi-
mentos reativados no Cenozóico. No dência que afetaram trechos do escudo

12
Fig. 4 - Superfíci~. suavemente ondulada, desenvolvida sobre terrenos devonianos ~ região
de Monte Alegre, na qual se destaca o relevo da serra do Ererê, de idade cretác!Ca.

cristalino a partir do Eopaleozóico, fa- O mesmo teria sucedido no Devoniano


vorecendo a acumulação de milhares Médio-Inferior, bastante desenvolvido
de metros de sedimentos. As rochas no médio Amazonas e pouco desenvo-
Eopaleozóicás do grupo Uatumã, cons- vido no alto Amazonas.
tituídas por sedimentos elásticos, pilo-
elásticos e vulcanitos, indicam, de O Devoniano Inferior, com a forma-
acordo com Octávio Barbosa, fenôme- ção Maicuru, repousa em discordância
nos vulcânicos responsáveis pela sub- sobre o cristalino e seus depósitos in-
sidência que afetou o cristalino, dando dicam condições de mar raso; no De-
origem à bacia. voniano Médio a formação Curuá é
As rochas da formação Uatumã for- petrolífera, resultante de depósitos
mam, segundo Loczy, "um sedimento neríticos, ao passo que o Devoniano
basal típico, depositado provavel- Superior corresponde à formação
mente na primeira regressão marinha Ererê. No Carbonífero a formação
sobre as rochas metamórficas Pré-Cam- Monte Alegre é de depósitos basais,
briana." 10 representando transgressão; o Carbo-
nífero Médio é dado pela formação
Sobre as bacias formadas encontram- ltaituba, constituída por calcários e
se sedimentos Paleozóicos, distribuídos folhelhos, depósitos de mares rasos e
de modo descontínuo, conforme doeu· profundos e no Carbonífero Superior
mentam as omissões de algumas séries da formação Nova Olinda, de sal ani-
sedimentares acumuladas. Octávio Bar- drito, folhelho, arenito e calcário. 11
bosa indica que o Siluriano Inférior do
grupo Trombetas se encontra na bacia O Permiano está ausente ou não
do médio Amazonas, porém não no alto é conhecido e, entre o Carbonífero Su-
Amazonas, o que faz supor, então, a perior e os sedimentos Cretáceos, colo-
presença do arco do Purus como ele- cam-se os derrames basálticos que
mento de separação das duas bacias. foram dar origem a diques e sills. O

13
Cretáceo da formação Sucunduri é areias de Abunã, estratificadas e in-
terrestre e, a partir de então, as bacias clinadas para o oeste. 18 O levantamen-
do médio Amazonas e do Acre passa- to da cordilheira no oeste, favorecendo
ram a evoluir sob condições continen- uma maior pluviosidade, teria facul·
tais. Constitui exceção a fossa de Ma- tado a erosão regressiva do Madeira
rajó, onde sobre o Cretáceo vieram se na área onde está localizada a estrada
depositar os sedimentos marinhos da de ferro Madeira-Marnoré. Através de
formação Pirabas, de idade Miocênica rápidos e cachoeiras, nos arenitos Me-
sozóicos e nas formações Pré-Cambria-
e Pliocênica.
nas, foi o rio Madeira encontrar a dre-
Os grandes arqueamentos que afeta- nagem atlântica através do Amazonas.
ram os escudos cristalinos e suas co- O solevarnento dos Andes contribuiu,
berturas sedimentares no Pós-Cretáceo, portanto, de modo determinante para
são mencionados ao lado de condições o retomo da drenagem para o Oceano
paleoclimáticas secas, como alguns dos Atlântico e para a deposição correlativa
fatores que fizeram desencadear in- de areias, sl.ltitos, argilitos e conglome-
tensa vaga de erosão, da qual resultou rados da bacia do Acre, com caracterfs-
a sedimentação da formação Barreiras. ticas diversas daquelas encontradas nas
Esta formação recobre grande parte da bacias do médio Amazonas.
Planície Amazônica com características
de depósitos continentais.
No Terciário Superior a rede de dre- 3- OS GRANDES QUADROS
nagem amazônica foi estruturada, bus-
cando saída para o Atlântico. GEOMORFOLÓGICOS
O solevamento da cadeia andina no Os grandes quadros geomorfológicos
oeste, e o desenvolvimento de condi- da Amazônia estão calcados nas macro-
ções de umidade maiores do que estruturas das bacias sedimentares e
aquelas em que se depositaram a for- dos escudos cristalinos, constituindo o
mação Barreiras, no médio Amazonas, domínio litorâneo uma outra unidade
contribuíram para a definitiva abertu- menor, à parte.
ra da drenagem amazônica em direção
do oceano. Estudada por Katzer Embora desenvolvidos sobre comple-
( 1903), a abertura da drenagem para xas unidades estruturais, o estado atual
dos conhecimentos sobre a geomorfo-
o Atlântico foi mais tarde retomada
logia regional não faculta um maior
por outros estudiosos como Loczy desdobramento dos grandes conjuntos
que considera que, não apenas no Ter- em unidades menores. Na realidade,
ciário Superior, a drenagem amazôni- na Planície Amazônica, apenas podem
ca reverteu para o Atlântico, pois "a ser distinguidos os aspectos ligados à
antiga barreira que fechara a saída várzea e à terra firme.
para o Atlântico não existiu durante
muito tempo no T~rciário." 12 No entanto, no caso do escudo das
Guianas, os estudos são mais numero-
Retomando ao problema, Grabert con- sos, permitindo uma subdivisão do
siderou a linha divisória entre a trecho que vai de Roraima ao Amapá,
drenagem de oeste e a do Atlântico conforme propôs Guerra. 14
como situada sobre arenitos Mesozói-
cos das serras dos Parecis e Pacaás Relativamente ao litoral, toma-se possí-
Novos, entre os rios Madeira e Guapo- vel a sua subdivisão em três unidades
ré. Anteriormente à abertura da dre- ou partes: o litoral amapaense, o
nagem para o Atlântico o levantamen- golfão amazônico ou marajoara e o
to dos Andes teria facultado a for- litoral do leste paraense, conforme tam-
mação do lago de água doce entre a bém já o fizera antes o mesmo autor
cordilheira e os divisores Mesozóicos para o estudo do relevo da Região
que, erodidos, teriam dado origem às Norte.

14
mento em relação à fraca declividade
3.1 - A Planície Amazônica da planície e ao volume de água es-
coada. ;
Ocupa uma área de cerca de 2 milhões
de quilômetros quadrados, correspon· Resultando do trabalho da sedimen-
dente a 40$ da superfície da Região tação Holocênica, as várzeas são for·
Norte. madas por materiais de textura pe-
sada, argila e siltes depositados por
Contida entre o escudo das Guianas e colmatagem nos lagos e terrenos perio-
o escudo Brasileiro, a extensa área se- dicamente inundados. Pode apresen-
dimentar de planície é caracterizada tar, entretanto, características mais are-
por relevos que não ultrapassam de 200 nosas nos diques marginais, pestanas
metros, dispostos a partir da várzea ou points bars, constituídos e recons-
como baixos níveis ou como um baixo truídos a cada cheia.
platô que se eleva suavemente para o
norte e para o sul, em direção dos es- Topograficamente a planície aluvial
cudos cristalinos periféricos. Acompa- reflete aspectos'de sua evolução: a vár-
nhando a calha fluvial de leste para zea baixa, planície inundada durante
o oeste, as topografias são ainda mais parte do ano e de aluvionamento re-
suaves. Assim em Tabatinga, no cente, com vegetação ora campestre
extremo oeste amazônico, a mais de ora florestal; os diques marginais que,
3.000 km do litoral, o rio Amazonas distribuídos pela planície de inunda-
corre em altitudes de apenas 65 ção e construídos paralelos ao curso
metros. 111 d'água em função dos transbordamen-
tos, marcam as posições do leito, e cuja
Dentro da homogeneidade da planície maior altura junto ao rio indica a di-
são encontrados aspectos e problemas minuição de competência por ocasião
geomorfológicos variados, entre os do transbordamento; a várzea alta que
quais são mais conhecidos e estudados aparece como estágio mais antigo, e
os relativos às várzeas. também colonizada por formações ve-
getais de porte arbóreo.
Os terraços ou tesos estão limitados a
3 .1. 1 · A Planicie de Inundação uma estreita faixa de terrenos situa-
dos a 1 ou 2 metros acima das águas
A planície de inundação forma faixa altas. Seriam os tesos de idade
de largura variável ao longo do baixo subatual, formados por materiais argi-
e médio curso do rio Amazonas e losos, confoqne foram identificados em
baixo curso dos seus afluentes, pos- Faro e Parintins. Esses terraços Rolo-
suindo 16 quilômetros de largura em cênicos colocar-se-iam em idade mais
Itacoatiara, 50 em Parintins, 33 em recente que os terraços Pleistocênicos,
óbidos e 24 em Pacaraí e Santarém. 16 situados possivelmente no flandriano. 18
Em certos trechos a várzea pode estar (Fig. 5).
ausente e o rio se encaixa em terra
fjnne. Nos terrenos Holocênicos correspon-
dentes às várzeas baixas e altas desen-
A área da planície de inundação é volvem-se solos glei húmico e glei
calculada em 64.400 quilômetros qua- pouco húmico, turfas e lateritas hidro-
drados ou 1,5% da Amazônia. 17 mórficas.
Modelada pela atual drenagem dos Aspectos interessantes existem rela-
rios, a planície de inundação do Ama- cionados à forma do leito aluvial na
zonas está encravada nos níveis mais planície, entre os quais poderiam ser
elevados da terra finne e possui os mencionados aqueles relativos à pró-
mais variados aspectos incluídos no pria forma do leito e à dinâmica does-
leito maior dos rios de planície: canais, coamento em relação às condições de
furos, paranás, meandros, lagos e ilhas fracas declividades e à própria carga
indicam as condições difíceis do escoa- aluvial.

15
Diversos tipos de várzeas são assina- acrescentar siltes, areias e cascalhos,
lados no trecho do baixo-médio curso que vão dar origem aos terraços e di-
do rio Amazonas: as várzeas de rios, ques, e as argilas que vão entulhar
nas áreas ribeirinhas inundadas a cada lagos e igarapés.
cheia; as várzeas de chuvas correspon-
deriam às bo.i.xadas afastadas do rio, Entre os processos que contribuem
nas quais as variações do lençol freá- para aumentar a carga aluvial estão os
tico estariam relacionadas às chuvas; as desbarrancamentos ou terras caídas, e
várzeas de marés localizadas no baixo a erosão das margens côncavas dos
curso do rio Amazonas e em Marajó, leitos meândricos. Os meandros, como
onde a renovação das águas se faz em fenômenos característicos da mobili-
função das oscilações das marés. 19 dade dos rios, constituem formas de
(Fig. 6). equilíbrio entre a carga e competên-
cia dos cursos d'água. Divagantes, dão
No leito de inundação, a drenagem se conta da facilidade com que o rio
processa de modo desordenado no pe- elabora sua planfcie de leito maior,
ríodo de cheias e mais ordenada sendo notáveis nos rios Madeira,
e definida na vazante. Pelo espraia- Purus, Javari e Juruá. De acordo com
mento das águas durante as cheias Monteiro ( 1962) no Juruá o sacado do
diminui a capacidade de transporte e Carauari é mencionado por estar em
opera-se a sedimentação que constrói vias de ser abandonado, o que conde-
e modifica o leito de inundação du- nará a cidade e seu porto, que estão
rante cada nova cheia. Como resulta- localizados junto ao mesmo.
do da deposição, formam-se bancos
fluviais (rasos), colmatam-se lagos e Se, de um lado, os terrenos Terciários
depressões e soldam-se diques margi- e Quaternários vão contribuir para ali-
nais, cf. Soares. Para o processo, con- mentar a carga aluvial, o mesmo não
tribui a enorme carga de detritos sóli- acontece com as rochas cristalinas,
dos e dissolvidos, transportados nos metamórficas e sedimentos do Paleo-
Jeitos. Entre esses materiais, podem-se zóico. Atravessando os afloramentos ro-

Fig. 5 - Várzeas Holocênicas com vegetação de igapó, aproveitadas para o cuJtivo da juta.

-16
DIVERSIDADES DE ASPECTOS DE ALGUMAS VÁRZEAS AMAZÔNICAS

[~,":'(.!iJ
QUATERNÁRIO ~E~;.lRIO lítlllm
EMBASAMENTO CRISTALINO
HOLOCENO: aluvião e vasos PUOCENO:oranitos1orollitos,conolo oronitos,onaisses e oronodloritos
PLEISTOCENO:orgilos,sfftes,orenitos meroclos e plintho1te
econglomerados ferruoinosos SUPERFÍCIES APLANADAS
TERRAS FIRMES
SUPERFfCIES APLANADAS E BLOCOS MONTANHOSOS
PLANÍCIES DE INUNDAÇÃO
T~RRAÇOS FLUVIAIS E BAIXOS E ESCALONADAS
FIG 6
NiVEIS DE TERRAS FIRMES

17
cbosos, os rios formam cachoeiras ou Eopaleozóico favoreceram o desenvol-
travessões que parecem resistir longa- vimento de praias e cordões arenosos
mente, indicando o menor poder da depositados na várzea encaixada no
meteorização em condições de clima baixo planalto.
tropical quente e úmido e a fraca ca-
pacidade de erosão da carga aluvial Os rios negros ou de águas pretas
pobre em sedimentos grosseiros. são aqueles cuja coloração das águas
vai do marrom ao café, em função da
Um interessante problema geomorfo- elevada proporção de matéria org~­
lógico ligado à rede de drenagem atual nica que contêm. Suas margens colo-
é o das características das várzeas em nizadas com a mata de igapó, caaiga-
relação aos processos de sedimentação pó na denominação incligena, aparecem
Holocênica, incluindo o material trans- como elemento de fornecimento de
portado pelos rios e a competência do matéria orgânica ao curso d'água, que
curso d'água. O tema foi primeiramen- pode, em certos . trechos, apresentar-se
te abordado por Sioli em 1957, quando como rio de águas claras e em outros
o mesmo subdividiu os rios amazônicos como rio de águas pretas. O rio
de acordo com os materiais transpor- Negro, apesar de ter suas nascentes no
tados em três conjuntos: os rios de escudo Guianense, apresenta na tra·
águas brancas, os rios de águas claras vessia dos terrenos Terciários, a mon-
e os rios de águas negras. tante da confluência com o rio Branco,
vasta área de várzea inundável com
Os rios brancos, de águas turvas, cor igapós, capazes de imprimir coloração
de barro, como o Madeira, o Trombe- escura ao rio, mesmo após a confluên-
tas, o Purus e o Branco, possuem vár- oia com o Branco.
zeas mais amplas, em função de diva-
garem alargando seus leitos maiores
pelo solapamento lateral dos meandros 3.1.2 • As Terras Firmes
nos terrenos da formação Barreiras.
Carga aluvial considerável vai ser for- Constituem os terrenos não inundados
necida aos cursos d'água que, por di- pelas cheias do rio Amazonas e for·
níinuição da competência, passam a mados pelos sedimenWs de idade Ter-
sedimentar. O caráter anastomosado da ciária que recobrem a maior extensão
drenagem desses rios constitui fenô- da grande planície amazônica.
meno indicativo da proporção de sedi-
mentos grosseiros encontrados na As terras firmes estão dispostas a par-
carga aluvial. tir da várzea como uma sucessão de
baixos níveis que se elevam em dire-
O fenômeno adquire expressão regio- ção dos escudos periféricos, com os
nal, pois esses rios são aqueles que quais podem se apresentar nivelados.
concentram maiores densidades de Recobrindo vasta área e apresentando
ocupação humana em suas v.árzeas.
topografias extremamente monótonas,
Os rios de águas claras são aqueles as terras firmes são, no entanto, mode-
cujas águas possuem maior transpa- ladas em sedimentos que traduzem as
rência que a dos anteriores. pois trans- diversidades de condiçOes paleogeo-
portam menores proporções de sedi- gráficas reinantes a partir do Terciário
mentos argilosos e maiores proporções na Amazônia. Estas condições incluem
de areias. Entre eles estão colocados o deformações tectônicas, variações do
Tapajós, o Xingue o lri.ri, que têm nível do mar, condições paleoclimáti-
grande extensão de seus cursos no es- cas secas, estas responsáveis pelos ex-·
.cudo Brasileiro, em terrenos do Paleo- tensos aplainamentos, e climas úmidos
zóico e nas terras firmes Terciárias em que favoreceram a estruturação da
seus baixos cursos. Sedimentos are- rede de drenagem e a fomiação da vár-
nosos que lhes são fornecidos pela me- zea aluvial, além das erosões e redepo-
teorização das rochas do escudo e d? sições dos sedimentos Terciários.

18
I A

CORTES TRANSVERSAIS ESQUEMATICOS NA AMAZONIA


A NW-SE, DA BACIA DQALTO AMAZONAS AO ESCUDO BRASILEIRO
B N-s,NA BACIA DO MEDIO AMAZONAS

N
NW s
A B

250-400 m
250-400m
+
I 50-200m
m + 150-200m

T
+

UNIDADES GEOMORFOLÓGICAS FORMAÇÕES GEOLÓGICAS


I - · SUPERFÍCIE CRETÁCEA T -TERCIÁRIO
JI -SUPERFÍCIE DO TERCIÁRIO INFERIOR K -CRETÁCEO
m -SUPERFÍCIE PLIO-PLEISTOCÊNICA C -CARBONÍFERO
.:rsz:- TERRAÇOSPLEISTOCÊNICOS D -DEVON IANO
S -SILURIANO FIG. 7
FONTE ·. W.G. SOMBROEK- AMAZON SOILS
Assim, na origem dos extensos sedi- O nível mais elevado da formação
mentos Terciários da Amazônia, aspec- Barreiras é mencionado a 300 metros,
tos da evolução das diversas bacias correspondendo a um nível soergui-
sedimentares têm que ser tomados em do juntamente com o escudo crista-
consideração. lino.

Na bacia do Acre, ou na parte ociden- De um modo geral, os níveis indica-


tal da Amazônia, as formações Terciá- dos estão relacionados às áreas inter·
rias recobrem cerca de 90% do territó- fluviais e àquelas periféricas aos es-
rio, com características de depósitos cudos cristalinos.
de ambientes diversos, continentais,
salobros, marinhos e de facies estua- Junto aos rios, as formações Terciá-
rino, cit. por Camargo Mendes. A rias vão constituir níveis de terras fir-
mais conhecida dessas formações é mes de altitudes situadas entre 30 e
a chamada formação Pebas, de idade 40 metros, podendo ir até 80-100 me-
Pliocênica, contendo fósseis. Os rios tros nas áreas interfluviais. ( Fig. 8).
que correm sobre esses sedimentÇ>s en-
talham·se diretamente nas terras fir- Assim, no terraço de Santarém, as
mes. As várzeas Holocênicas são loca- terras firmes estão a 30 metros; a 35-
lizadas, e o Terciário aflora nos barran- 40 metros na área de Manaus; no baixo
cos fluviais. No rio Solimões os sedi- rio Negro ocupa o interflúvio entre
mentos terciários são assinalados a 30 este rio e o Solimões; a 50 metros
metros de altitude e na área próxima em Tomé-Açu, Vargas, 1958, 80 a
de Porto Velho, a 40 metros, podendo 100 metros em úbidos e nos campos
elevar-se até cerca de 200 na área in- de Macapá, Guerra, 1954; entre os rios
terfluvial entre o alto Juruá e o alto Nhamundá e Trombetas na altitude de
Purus. 60 metros.

No médio Amazonas os sedimentos As terras firmes modeladas na forma-


Terciários constituem a formação Bar- ção Barreiras formam também níveis
reiras, de origem continental, conten- de fracas altitudes, porém situados aci-
do arenitos, siltitos e conglomerados ma dos níveis de cheias do rio Amazo-
que se dispõem ora sobre o Paleo- nas, a 6-8 metros em Marajó e Gurupá;
zóico ora sobre o cristalino. Esses se- a 15-20 metros nas terras altas de Ma-
dimentos são espessos de 170 metros a rajó.
500 metros nas sondagens de Nova
Olinda. Em superfície, foi assinalado Submetidos a condições quentes e
por Camargo Mendes na serra da úmidas, os horizontes superficiais das
Piroca, a 120 metros de altitude, em rochas que constituem as terras fir-
Alter do Chão, nas margens do mes são lavados, dando origem a um
Tapajós. ( Fig. 7). horizonte de adensamento subsuperfi·
cial, de estrutura argilosa e textura pe-
Diversos níveis são modelados na for- sada. De colorações avermelhadas e
mação Barreiras do médio Amazonas, mosqueadas, esses horizontes adensa-
os mais elevados nas altitudes de 100- dos vão formar o plinthaite amazônico
200 metros. A 80 quilômetros de San- que ocorre sob as topografias suaves
tarém a formação está a 180 metros de das terras firmes. Em função do ma-
altitude; em Belterra está a 175 metros terial de origem e dos processos de
e no oeste de Tucuruí, a 160 metros, formação, o plinthaite pode conter va-
ap. Sombroek, cit. Em Parintins, Hu- riados tipos de concreções. Em certos
maitá e Belterra a formação Barreiras casos, o adensamento pode dar ori-
constitui uma antiga superfície de 110 gem a crostas ferruginosRs ou crostas
metros; a 60 quilômetros de Macapá lateríticas que, uma vez formadas, pro-
aparece formando o nfvel de 110 me- tegem e mantém os relevos aplaina-
tros; na estrada Manaus-Itacoatiara, a dos, apesar do elevado poder da me-
120 metros, tomando o nome de "cha- teorização em condições equatoriais
pada". quentes e úmidas.
Fig. 8 - Os níveis de ter-
ras firmes Plio-Pleistocênicas
constituem elemento decisi-
vo para a instalação do ho-
mem ao longo das ·vias
fluviais na Amazônia. Na
margem esquerda do Ama-
zonas a cidade de Itariranga
localiza-se sobre níve exten·
so e regular, modelado nos
sedimentos da fonnação Bar-
reiras. A retilinidade do bar-
ranco é notBvel, indicando o
recuo paralelo da enoosta,
cujo ropo é "mantido pela
presença de lateritas. Na
base da escarpa do nível su-
perior desenvolve-se um no-
vo terraço mais recente, in-
dicando oscilações do nível
de base.

Ocorrendo nos diversos níveis, o plin-- acrescentam os problemas de subsi-


thaite. e as lateritas evidenciam ori- dência da várzea amazônica durante o
gens variadas: ora são encontradas Quaternário.
in loco ora como formações coluviais
ou aluviais, indicando as fases erosi-
vas que afetaram os níveis Terciários e 3.2 - Os Escudos Cristalinos
facuftaram o desenvolvimento de
outros mais recentes. Os escudos cristalinos periféricos à
Assim, abaixo dos níveis de terras planície encontram-se extremamente
firmes dispõem-se os terraços Pleistocê- pediplanados e nivelados com os ter-
nicos ou tesos da Amazônia oriental, renos sedimentares. Desse modo, o
nas altitudes de 10-15 metros e 5-7 me· contato entre as formações sedimenta-
tros, Guerra, 1954, 6-8 metros, Gourou, res e cristalinas se faz sem desconti-
1949 e 8 metros, Vargas, 1958. Seriam nuidade topográfica, sendo apenas as-
esses terraços as terras firmes de idade sinalado nas cachoeiras e travessões
Pleistocênica-Holocênica, de grande encontrados nos leitos dos afluentes do
importância para a vida regiona1, pois médio Amazonas, como nos rios Trom-
nefes se localiza a maior parte da po- betas, Maicuru e Paru, Tapajós e
pulação ribeirinha. Xingu. Nivelados com os sedimentos
da planície, os blocos cristalinos se
Interpretados como depósitos correla- elevam progressivamente, atingindo al-
tivos da tectônica de arqueamento dos titudes superiores a 200 metros nos
escudos cristalinos no Pós-Cretáceo, os
sedimentos Terciários da Amazônia pediplanos dominados pelos maciços
foram, no caso da formação Barreiras, encontrados no extremo norte do es-
relacionados a condições paleoclimáti- cudo Guianense. Ao sul, o escudo
cas secas ou de ambientes de vegeta- Brasileiro é praticamente desconhecido
ção aberta, dos quais resultaram os t·n. seu trecho amazônico.
extensos aplainamentos e o desenvolvi-
mento de lateritas. · Os domínios cristalinos enquadram as
grandes bacias de sedimentação d~
Os baixos níveis de terras firmes, re- Amazônia brasileira e neles predomi-
sultantes da erosão dos níveis mais nam rochas do Pré.-Cambriano, incluin-
elevados, podem ser explicados pelas do gnaisses, granitos, p6rfiros, granio-
oscilações do nível do mar, a que se dioritos, querat6firos e p6rfiros.

21
O Pré-Cambriano mencionado deve tes unidades geomorfológicas: - o pe-
ter formado um eogeossincllnal de di- diplano do alto rio Negro, a região
reção de SSW-NNE, "preenchido por montanhosa de Parima-Pacaraima, o
sedimentos . elásticos e considerável pediplano do alto rio Branco, a região
quantidade de material vulcâruco". 20 montanhosa da serra da Lua à de Tu-
O conjunto deveria ter permanecido mucumaque e o pediplano do Amapá,
emerso durante o Cambriano, para cf. Guerra, cit.
subemergir no Eopaleozóico quando
teve início a formação das bacias do As áreas rebaixadas desses relevos têm
médio Amazonas. O diastrofismo Taco- sido consideradas como pediplanos in-
niano em sua última fase seria o res- termontanos, modelados em condições
ponsável pela submersão, segundo o de semi-aridez e retocados por condi-
mesmo autor. ções de umidade, cf. Ab'Saber e Bar-
bosa, cit.
O escudo Guianense limita-se com os
sedimentos da bacia amazônica na área Recobrindo as formações Pré-Cam-
correspondente às corredeiras e traves- brianas das áreas aplainadas do pedi-
sões encontrados nos leitos dos aflu- plano do alto rio Branco, Andrade
entes da margem esquerda, com carac- Ramos identificou duas formações
terísticas de um faU-line. 21 O trecho recentes do Quaternário: a mais anti-
situado mais ao norte forma o Planalto ga, correspondendo a lavas oriundas
das Guianas constituído por dois blo- de um vulcanismo basáltico, e a mais
cos elevados ou conjuntos de relevos recente, formada por areias argilosas,
planálticos e de serras, separados pela · argilas arenosas, calcários, depósitos
depressão do rio Branco-Essequibo. O lacustres, espessos de 20 a 30 metros,
primeiro corresponde às denominadas dispostos sobre as rochas Pré-Cambria-
·serras ocidentais" onde são encontra- nas.
dos os relevos mais elevados da Região,
nas serras de lmeri-Tapirapecó (pico Nestas áreas aplainadas, vestígios de
da Neblina com 3.014 metros), as ser- pedimentações têm sido encontrados
ras de .Parima, Pacaraima (monte Ro- pelos estudiosos da região.
raima com 2. 875 metros).
Entre as "serras orientais" colocam-se
A área mais conhecida e estudada do as de Acari e Tumucumaque situadas
Planalto das Guianas é a mais seten-
trional, correspondente ao Território de no extremo norte do Pará. No Amapá
Roraima, onde grandes intrusões de o escudo cristalino possui altitudes mo-
rochas efusivas ácidas ocorrem no ex- destas, apresentando características
tremo norte do território, ao lado de de um pediplano. Na parte central do
formações do Eopaleozóico e do Me- território erguem-se os relevos mais
-sozóico Indiviso. Constitui essa área vigorosos de serras e cristas orienta-
a província mineralógica do Roraima, das segundo as direções estruturais do
onde a garimpagem do ouro e do dia- escudo, cf. Botelho. Na serra do
mante é feita na serra do Tepequém e Navio as altitudes máximas são de
nos rios Tacutu, Mau e Uraricoera, cf. 350 metros, sendo suas rochas o gra-
Frois Abreu, 1965. nito, o gnaisse, os xistos e os anfíbólios.
O minério de manganês constitui hori-
A depressão que separa as "serras oci- zontes nos quartzo-biotita-granada-xis-
dentais" das "serras orientais" tem sido tos, podendo, também, ser encontrado
atribuída como de origem tectônica, sob a forma de depósitos oriundos do
constituindo uma fossa pouco profun- intemperismo, como a canga do miné-
da, enquadrada por blocos falhados na rio: A este respeito, convém lembrar
área de Tacutu-Mau. 22 que as rochas da área da serra do
Navio encontram-se profundamente de-
No conjunto do escudo cristalino das compostas em função das condições de
Guianas foram distinguidas as seguin- umidade reinantes, aliadas às elevadas
temperaturas e à cobertura florestal. suindo cobertura de arenitos Mesozói-
No processo, os componentes solúveis cos, introduzem-se no território de
das rochas são rapidamente alterados, Rondônia como uma penetração dos
permanecendo como elementos mais chapadões do Centro-Oeste na planície
estáveis os óxidos de ferro, de alumí- amazônica.
nio, e de manganês. Estes tanto podem
ser transportados em solução quanto
precipitados em forma coloidal 24 3.3 - O Litoral Amaz&nico
Além da racional exploração do miné- Relacionado aos relevos continentais
rio de manganês da serra do Navio, de baixos platôs e planícies aluviais,
desenvolvem-se atividades de garimpo
o litoral da Região Norte, embora do-
neste trecho do escudo cristalino, como
minado por ações marinhas, guarda as
as da cassiterita, do ouro e dos dia-
características do modelado que se de-
mantes nos leitos fluviais.
senvolve para o interior do continente.
Menos conhecido que o escudo Guia- Assim, a faixa costeira que se estende
nense é a parte setentrional do escudo do rio Oiapoque ao leste paranaense
Brasileiro que se poderia denominar de é formada por terrenos extremamente
escudo sul-amazônico. Nele predomi- esbatidos, de fracas altitudes, modela-
nam as rochas do complexo cristali- dos em sedimentos Holocênicos. Nestas
no, sendo também encontradas gran- topografias suaves, apenas se destacam
des áreas de rochas do Cambro-Ordo- da paisagem os remanescentes de nf-
viciano e de rochas do Peleozóico e veis aplainados que se elevam como
do Mesozóico Indiviso. O escudo sul- uma continuação das terras firmes Pli-
amazônico estende-se do Território de ocênicas e Pleistocênicas pelo litoral.
Rondônia ao Pará com a orientação
de SW-NE, direção esta que corres- De maneira geral, o conjunto litorâ-
ponderia àquela da primitiva fossa neo apresenta-se mais elevado no leste
amazônica que se alongava do rio paraense, onde os nfveis modelados na
Beni, no território boliviano, ao oceano formação Barreiras vão formar falésias
Atlântico, como um rift oolley. e os vales fluviais afogados, rias. No
leste do Amapá, contrariamente, a
Estudado na área do rio Tocantins faixa de terrenos Quaternários é ampla
pelo já citado Andrade Ramos, o es- e a penetração do mar faculta o de-
cudo Brasileiro é descrito do ponto senvolvimento de extensas vasas e
de vista geológico como constituído manguesais, lagunas e cordões litorâ-
por gnaisses, granitos e migmatitos re- neos.
cobertos por sedimentos Paleozóicos e
Cenozóicos. Entre os dois aspectos mencionados
encontra-se o golfão amazônico ou
Nas topografias aplainadas em rochas
golfão marajoara, que ocupa grande
do escudo sobressaem os quartzitos
como relevos mais elevados. trecho da baixada costeira e inclui as
mais importantes feições morfológicas
O conjunto modelado em rochas cris- do litoral da Região: a ilha de Marajó,
talinas inclina-se para a planície ama- com o conjunto das ilhas Caviana e
zônica e eleva-se em direção do sul, Mexiana e as embocaduras dos rios
onde vai formar nas áreas interfluviais Amazonas e Tocantins. Nesta Região,
as chapadas e chapadões que vão ca- interessantes aspectos geomorfológicos
racterizar os modelados da Região têm sido assinalados por Guerra, Mo-
Centro-Oeste. Os relevos mais enérgi- rais Rego, Botelho et alii, além das
cos correspondem à serra do Cachim- pesquisas estratigráficas e geológicas
bo, no sudoeste paraense, e à serra do realizadas na área de Marajó, tendo em
Norte, no noroeste de Mato Grosso. As vista a ocorrência de petróleo não con-
serras dos Parecis e Pacaás Novos, pos- firmada até o presente.
De acordo com os estudos geomorfo- Esta grande extensão litorânea sugere
lógicos realizados e como já o tinha problemas geomorfológicos variados.
feito, antes, Guerra, foi o litoral da A wna primeira vista, a região do
Região Norte dividido nos seguintes golfão amazônico assemelha-se a um
trechos: o litoral amapaense, o gol- enorme delta ou um delta-estuário ou
fão amazônico ou marajoara e o leste uma foz sui generis. No entanto, es-
paraense. tudos levados a efeito mostram não ser
O litoral amapaense é constituído por a atual região da boca do Amazonas
baixadas inundáveis que, penetradas e do rio Pará um delta, mas formada
pelas marés, favorecem a formação de de estuários, fato evidenciado pela
amplos manguesais. A faixa de terre- presença, nas ilhas, de formações Qua-
nos Quaternários alarga-se considera- ternárias erodidas que formam as
velmente, vindo entrar diretamente em terras firmes, cf. Moraes Rego, cit.
contato com as formações cristalinas Retomando a questão, Guerra con-
relacionadas ao escudo amapaense. siderou a foz do Amazonas como um
Dois aspectos foram destacados nessas delta-estuário, baseado no fato de que
formações quaternárias, de acordo é pequena a contribuição do rio
com Botelho: wna área direta- Amazonas na alimentação do rio Pará,
mente influenciada pelas ações ma- e, portanto, na formação da baía de
rinhas, distribuída ao longo do litoral, Marajó, onde vem desaguar o estuário
com manguesais e pântanos, onde se do rio Tocantins.
desenvolvem solos orglnicos e húmicos
associados aos solos salinos; outra área O rio Amazonas encontra o Oceano
mais interiorizada, formando baixadas Atlântico através do canal do Norte,
periodicamente inundadas, com fe- onde se formaram inúmeras ilhas, entre
nômenos de hidromorfismo e desenvol- as quais as de Caviana, Mexiana, Ja-
vimento de solos húmicos. naucu, além do arquipélago do Juro-
pari, da ilha da Serraria e da ilha
No trecho litorâneo situado nas lati- Grande de Gurupá. Esse trecho ama-
tudes maiores de 30N, as direções es- zônico, contido entre as terras firmes e
truturais das rochas do escudo cris- várzeas do Território do Amapá e o
talino e os processos de sedimentação contorno nordeste da ilha de Maraj6,
litorânea aparecem como elementos tem sido caracterizado como de erosão
que determinam a orientação dos rios predominante, sobretudo na área ama-
para o NE ( Oiapoque) e para o paense, próxima de Macapá, onde o rio
NE-N como o Caciporé e Uaça. Amazonas possui várzea relativamente
pouco desenvolvida, entalhando-se nos
No sul do Amapá o litoral Quaterná- sedimentos do baixo platô Terciário.
rio amplia-se, projetando-se para o
leste através do desenvolvimento da Ao sul, o canal que separa a ilha de
planície do rio Araguari, em tomo da Marajó do continente forma o rio Pará
qual aparecem a extensa várzea alu- que se abre no estreito de Breves,
vial Holocênica e os terrenos de baixa- antes de atingir a baía de Marajó.
das periodicamente inundados com la- Nesta área os processos geomorfoló-
gos. Nesta várzea, como na do Ama- gicos são dominados por uma ativa se-
zonas, os níveis mais elevados, a salvo dimentação que vem colmatando os
.das cheias, abrigam populações e aglo- furos e dificultando as ligações entre as
merados urbanos. águas do Amazonas e as da baía de
Marajó. Desaguando nesta baía, o rio
O golfão amaz6nico ou marajoara Tocantins tem sua foz completamente
constitui a zona da foz do Amazonas, independente da do Amazonas.
com as ilhas de Marajó, Caviana e
Mexiana, os numerosos canais e ilhas A ilha de Marajó é de topografia
que formam a "região dos Furos" de extremamente plana, da qual se des-
Breves, e a baía de Maraj6, onde desá- tacam os pequenos níveis de altitudes
gua o rio Tocantins. entre 20 e 4 metros a saber: 20 me-
tros; 15-16 metros; 10-12 metros e 4 solos areno--argilosos de coloração
metros, cf. Guerra, cit. clara ou avermelhada sobre horizontes
argilosos mosqueados que tanto no
À primeira vista, os mencionados níveis litoral paraense quanto em Marajó e
assemelham-se a terraços, porém, a uma no restante da Amazônia podem
análise mais cuidadosa, verifica-se se- conter horizontes concrecionários ou
rem formados por argilas mosqueadas crostas ferruginosas. Em Salinópolis, o
intercaladas por depósitos de lateritas mencionado autor constatou o nível de
ou de cangas, contendo pequenos sei- 28 metros, formando barrancos escar-
xos. pados ou falésias de 5 meb-os com
submersão das crostas de canga.
Correlacionadas às formações de ori-
gem continental. modeladas sob hidro- Este trecho do litoral paraense possui
morfismo, as formações de canga hoje nítida tendência à submersão, confir-
se encontram nos diversos níveis men- mada pelas rias e plataformas de· can-
cionados, ou enterradas a pequenas gas submersas.
profund:dades, ou ainda submersas ao
longo do litoral, sugerindo os proble- Guardando as mesmas características
mas de subsidência recente deste li- dos modelados de terras firmes encon-
toral. trados no interior da Região Amazôni-
ca. o litoral da Região Norte reflete as
No Pleistoceno, a canga deveria variações do nível do mar e dos conti-
ocupar uma posição altimétrica mais nentes ocorridas no Quaternário, entre
elevada do que aquela em que se en- as quais a de uma generalizada sub-
contra hoje. Por regressão marinha mersão ou afogamento recente de ter-
ter-se-iam erodido e formado os pe- renos modelados sob condições con-
quenos níveis que foram posterior- tinentais.
mente afogados pela transgressão Flan-
driana. A rede de drenagem teria, no
Pleistoceno, facultado a formação e de-
senvolvimento do delta fóssil do rio 4 - PROCESSOS
Amazonas que tinha então, no rio Pará, MORFOGENÉTICOS E
o seu canal sul.
PROBLEMAS
A respeito dos problemas de subsi- GEOMORFOLÓGICOS
dência Quaternária do golfão amazô-
nico, poderia ser lembrado aqui que as DO MODELADO
estruturas subsuperficiais da área de AMAZÔNICO
Marajó foram, no Mioceno, submetidas
a tensões, resultando no aprofunda- Os processos morfogenéticos atuantes
mento da fossa de Marajó e na deposi- no modelado amazônico ainda são pra-
ção da formação correlativa de Pirabas, ticamente desconhecidos, exceção
formada por sedimentos marinhos. Re- feita a uma ou outra observação loca-
cobertas pelos sedimentos continen- lizada ao longo das vias fluviais.
tais da formação Barreiras, essa região
teria, após a deposição desses sedi- As primeiras observações sobre as
mentos. sofrido subsidência recente, relações existentes entre as cargas
responsável pela configuração atual da transportadas pelos rios e as caracte-
paisagem. rísticas das várzeas aluviais foram
feitas por Sioli, após o que nada mais
O litoral do leste paraense é indivi- foi publicado sobre o tema.
dualizado pela forma recortada, decor-
rente do afogamento de vales costei- Faltando à Região estudos sobre a me-
ros e de falésias características, mode- teorização em condições equatoriais
ladas nas rochas da formação Barrei- quentes e úmidas, bem como sobre
ras. Esta formação aparece em diver- o desenvolvimento dos solos e da ve-
sos níveis, os mais elevados de 100 getação, muito pouco pode ser dito
metros, sobre os quais são encontrados sobre os processos morfogenéticos

25
atuantes na Amazônia. Outrossim, o Nos campos as diferenciações não
caráter té6rico do presente estudo, devem ser menores e, em todos os
fundamentado na bibliografia e não casos, a presença e permanência da
em trabalho de campo, dificulta água no solo e no subsolo constituem
até mesmo a hierarquização dos pro- fatores determinantes da meteorização,
cessos morfogenéticos e dos mecanis- da formação dos solos e da cobertura
mos responsáveis pelos m~mos. En- vegetal.
tretanto, estudos levados a efeito em
regiões equatoriais quentes e úmidas, Sob a floresta a meteorização encon-
onde podem ser encontradas iguais ou tra condições altamente favoráveis
aproximadas condições geográficas, para o desenvolvimento de espessos
nos levam a tentar conceituar e apli- mantos alterados pela penetração da
car certas noções de processo à Ama- água e lavagem dos horizontes profun-
zônia Brasileira. Assim, a partir das dos, onde a conservação dos afloramen-
condições climáticas reinantes, refleti- tos de rocha sã toma-se dificultada.
das na própria cobertura vegetal, pro- Alteração química generalizada faz
curamos dar destaque ao papel da do modelado da planície amazônica
água na meteorização química e em um vasto domínio de formações siltico-
certos mecanismos do escoamento. argilosas dispostas em extensas super·
fícies esbatidas.
A vegetação amazônica, indiscrimi.na-
damente chamada de Hiléia, é repre-
sentada por toda uma variedade de as- 4.1 - A Meteorizasão
pectos que vão desde a grande flores-
ta equatorial aos campos. Sendo a A meteorização química prepondera
água e os solos fatores de diferencia- largamente sobre a meteorização física
ção dos diversos aspectos das florestas nas topografias suaves, recobertas pela
e dos campos existentes, constituem os vegetação do meio equatorial quente e
mesmos pontos de partida para a iden· úmido.
tificação dos processos morfogenéticos Hidratação, dissolução e lavagem rei-
atuantes, que vão desde aqueles equa- nam nas áreas permanentemente úmi-
toriais dominados pela permanência das. Dentro de uma hierarquia de sen·
da água aos tipicamente tropicais, de sibilidade maior ou menor dos mine-
altemlncia de um período úmido e um rais das rochas, alteram-se primeira·
período seco no decorrer do ano. Em mente as bases, o K, Ca, Mg, Na, que
linhas gerais, devem ser sensíveis as são postos em solução, ao passo que o
diferenças existentes entre um mode- Fe alterado é posto em suspensão co-
lado que evolui em terras firmes de loidal, sendo carregado pelas águas, ou
matas, de um modelado de várzea, permanece, localmente, colorindo os
ambos florestais, porém de caracterís- minerais próximos. Horizontes averme-
ticas diversas e variadas em função lhados, onde o ferro é mais abundante,
da maior ou menor permanência da e claros na ausência deste, aparecem
umidade. Heterogêneas, as florestas de nos latossolos, onde também podem
terras firmes ora são dotadas de árvo- ocorrer fenômenos de podzolização e
res de grande porte e sub-bosque manchas de mosqueado ou plinthaite
aberto, como ao norte do médio e alto em rochas ácidas. Penetrando a água
nos mantos que vão · sendo alterados,
Amazonas, ora por árvores de meno- opera-se o empobrecimento de uns
res portes e mais secas, no nordeste elementos por lavagem e expmta~-ãu. e
amazônico e no Amapá, ou ainda o enriquecimento de outros por rede·
matas de sub-bosque fechado e cipoais posição.
nas superfícies mais baixas e terraços Argilas mosqueadlls e tendência ao
Pleistocênicos, devendo, cada caso, encrostamento são fenômenos freqüen-
traduzir processos morfogenéticos de tes, com formas variadas em relação
intensidades variadas, ap. Sombroeck, ao dessecamento e desidratação opera·
cil dos na estação seca, quando existente.
A meteori21ação é parte da pedogênese, relacionadas ao embebimento conti-
na qual ganha ênfase a latolização, fe· nuado das argilas dos mantos de de-
nômeno homogêneo mas de variada composição.
gama de aspectos em função das con-
dições climáticas, topográficas, petro- ~ ainda a água que preside a mono-
gráficas e, naturalmente, da presença gênese das várzeas, onde elementos
da água. subjacentes vão sendo alterados e ele-
mentos alóctones vão sendo incorpora·
As lateritas tropicais são conhecidas dos à superfície pela sedimentação.
desde o século passado, tendo sido o
termo utilizado para designar as cros-
tas existentes nos solos tropicais e o 4.2 - Papel do Escoamento
próprio processo de elaboração dos
mesmos solos, tendo-se considerado as O escoamento apresenta grande im·
crostas como parte do próprio solo. A portância na morfogênese das regiões
laterização passou a representar o Ptó- equatoriais e tropicais pela remoção,
prio solo tropical, como uma esquema- transporte e deposição dos mantos
tização e generalização errônea. alterados.
Mais tarde surgiram os termos latosso- Soh a floresta, o escoamento difuso é
lo e latolização, para denominar o solo geralmente indicado como pouco mar-
e o conjunto de processos responsáveis cado, apresentando características ape-
pela formação dos solos tropicais, nos nas peliculares, podendo ser definido
quais as crostas surgem como resul-
tantes da i1uviação e da oscilação dos como um estágio intermediário entre
lençóis freáticos, não sendo, portanto, o escoamento difuso e a inflitração. 24
uma tendência geral e irreversível O citado autor menciona experimentos
desses solos. Da transposição e exagero realizados na África em floresta equa-
na conceituação das crostas, passou-se torial desenvolvida sobre sedimentos
a considerar os solos tropicais como fa· arenosos Terciários, nos quais foram
talmente condenados ao encrosta- levados em conta detalhes da micro-
mento. topografia da floresta, de modo a per-
mitir acompanhar o escoamento su-
A meteorização química e a latoli- perficial difuso. A água atuaria mais
zação devem predominar na Região na limpeza do material fino de húmus
amazônica, podendo apresentar no e de col6ides. Contornando os obstá-
vasto domínio toda uma gama de as- culos a água favoreceria a formação de
pectos ligados às variações das condi- sulcos e canais de pequenas dimensões,
ções ecológicas. As topografias das su- bem como a deposição de pequenos
perfícies escalonadas a partir da várzea cones de detritos. A progressiva reti-
devem favorecer a alteração química
profunda e os processos da latolização. rada dos elementos finos contribuiria,
A atuação vertical da água conduzirá no caso, para por em destaque os ele-
ao espessamento dos mantos alterados, mentos grosseiros e blocos existentes
superficialmente lavados e enriqueci- no solo.
dos • em argilas em profundidade.
A própria floresta serviria como ele-
A evolução geomorfológica dessas mento de entrave ao escoamento, difi-
superfícies aplainadas deverá, possi- cultando sua organização e facUitan·
velmente, processar-se de modo lento do. a infiltração e a evapotranspiração.
em função da fragilidade do escoamen- Sua maior intensidade deveria corres-
to superficial sob floresta. Já as topo· ponder à saturação dos solos durante
grafias colinosas e encostas, facultando certa parte da estação chuvosa.
o escóamento e menos a infiltração, de-
verão apresentar topos erodidos e a Relativamente ao escoamento concen·
evolução do modelado guiada por .CO· trado nos rios da Região Amazônica, é
luvionamento e movimentos de massas conhecido como dos maiores do mun·
do, para o qual contribuem os eleva- longo dó leito, como os diques margi-
dos totais caídos na grande bacia nais e deltas. Nas áreas de confluên-
fluvial. cia o fenômeno se faz sentir também
através dos baixos cursos afluentes
Apesar do escoamento superficial que, por imposição da dinâmica das
apresentar-se inibido pelos mantos de águas, vão se espraiar e sedimentar,
alteração e pelas formações flores- conforme ocorre na confluência dos
tais, os totais caídos e as topografias rios Madeira-Amazonas ou dos rios
esbatidas ao longo do rio Amazonas Branco-Negro. ( Fig. 9).
favorecem as concentrações das gran- Se a floresta de terra firme regula o
des descargas conhecidas. O rio atua escoamento superficial, o mesmo
na planície, na modelagem da ampla ocorre com as matas de várzea, onde,
várzea de inundação e no transporte freando o escoamento concentrado,
da carga de sedimentos predominan- promovem mais ampla sedimentação
temente finos, solúveis ou argilo-sílti- ao longo da planície de inundação e
cos, bem como dos sedimentos grossei- anastomose das artérias fluviais.
ros subtraídos das margens, entre as
quais o rio vai calibrando o seu leito. Na várzea do rio Amazonas opera-se,
São os sedimentos transportados que paralelamente à sedimentação, a al-
vão contribuir para a acumulação que teração quimica do leito talhado em
~e opera tanto por diminuição da com-
rochas e de características permanen-
petência quanto por decantação em temente úmidas no correr do ano.
lagos e braços de águas tranqililas. As formas de leitos móveis não são as
únicas existentes na Amazônia, apesar
O rio Amazonas desenvolve sua planí- do rio Amazonas e a maior parte de
cie de inundação encaixado em um seus afluentes terem seus leitos desen-
leito construído sobre as rochas móveis volvidos sobre formações recentes, do
do Terciário e do Quaternário. Para a Cenozóico. Os rios podem ter seus
formação da carga aluvial concorrem leitos encaixados ou apertados entre os
os afluentes vindos dos escudos das barrancos das formações Terciárias ou
Guianas e Brasileiro e o produto da sobre afloramentos rochosos, podendo
erosão das margens e dos baixos níveis apresentar-se encachoeirados sobre as
talhados em mantos de alteração pouco formações Paleozóicas e do Pré-Cam-
consistentes e recobertos pela floresta. briano.
Esses materiais de origem e granulo-
metria diferentes vão dar formas de Sobre os leitos rochosos encontram-se
acumulação emersas e imersas ao aspectos diversos daqueles dos leitos

Fig. 9 - Vista aérea da confluência dos rios Tapaj6s e Amazonas. Correndo sobre terrenos
Terciários da formação Barreiras, o rio Tapaj6s, ao confluir com o Amazonas, que tem
várzeas Quaternárias, favorece a formação de vasta área de sedimentos onde podem ser
observadas restingas, diques marginais, depressões e lagos.
móveis. Neles os rios correm desenvol- entre os quais sobressaem aqueles da
vendo rápidos e cachoeiras, geral- própria elaboração do modelado e da
mente a.florantes nas águas baixas. Nos organização da rede de drenagem no
leitos rochosos podem surgir formas Cenozóico.
particulares de polimento da rocha
emergente, por meio de sedimentos Vastas superfícies de erosão e aplaina-
arenosos finos que, impelidos por mo- mento e extenso manto sedimentar cor-
vimentos turbilhonares, vão dar ori- relativo desenvolvem-se através de
gem às marmitas torrenciais e às cane- toda a Região, porém com caracterís-
luras desses leitos rochosos. ticas diversas de uma para outra área
Ao longo dos leitos flu,viais encontram- do conjunto. Em meio aos aplaina-
se, pois, aspectos ligados à erosão dife- mentos generalizados erguem-se os
rencial atuante nas regiões equatoriais maciços e blocos montanhosos, em que
quentes e úmidas: os leitos móveis ta- os processos atuantes diferem dos que
lhados em aluviões, e os leitos rocho- afetam as depressões e várzeas de
sos nos quais o poder da decompo- inundação ou as topografias esbatidas
sição química é pequeno e o desgaste ou onduladas das terras firmes.
do leito vai se operar lentamente por
processos mecânicos. Se, de um lado, a Tentando compreender a evolução das
ausência de abrasivos nos leitos rocho- paisagens e o jogo das forças antagô-
sos dificulta o entalhe das cachoeiras, nicas da erosão-sedimentação, geomor-
nos leitos móveis a alteração química fólogos e geólogos têm lançado mão de
vai fornecer ponderável proporção de variadas explicações, baseadas nas
sedimentos, capazes de promover a conceituações da erosão normal de
extensa sedimentação atual. Davis, na evolução das estruturas
Sendo os processos morfogenéticos tectônicas e nas oscilações do nível do
amazônicos mal conhecidos, numerosas mar em função dos movimentos glácio-
dúvidas e problemas permanecem no eustáticos e, mais recentemente, pela
espírito de quem se propõe a realizar pesquisa dos processos morfogenéticos
uma breve sintese sobre a morfologia atuantes sob o clima equatorial, bem
regional Como evoluem os relevos como pelos vestígios de paleoclimas e
dentro dos diferentes domínios exis- processos dominantes no passado.
tentes sob mata e quais as implicações
das devastações efetuadas pelo homem A geologia e a tectônica aparecem
na aceleração dos processos atuantes? como principais responsáveis pelas
Como se comportam certos aspectos macropaisagens das baciàs e dos escu-
da sedimentação correlativa em con- dos, bem como pela estruturação da
dições atuais e quais os reflexos dos rede de drenagem, convergente dos
processos subatuais no modelado ama- escudos e sedimentos solevados, onde
zônico? se encontram as linhas divisórias para
as áreas deprimidas das bacias sedi-
Acrescentam-se a estas questões os mentares, concentradoras da dre-
problemas ligados à estruturação da nagem.
rede de drenagem, das oscilações do
nível do mar e da tectônica moderna,
sobre os quais serão dedicadas algu- 4.3. 1 - Adaptaçlo da Rede de
mas linhas do presente esboço. Drenagem las Direções
Estruturais do
4.3 - Alguns Problemas Embasamento Cristalino
Morfol6gicoa da Nos escudos cristalinos e nos sedimen-
Amaz&nia tos, os rios adaptaram-se às direções
estruturais. Predominam no conjunto
A Amazônia aparece como um vasto aquelas de SW-NE e as direções per-
campo de problemas geomorfológicos, pendiculares de NW-SE, que corres-
pondem às direções estruturais do pró- 4.3.2 - Oscilação do Nivel do
prio embasamento cristalino. Mar e Tectônica
Quatern6ria na
Os rios Puros, Madeira e Tapajós
Elaboração dos Níveis
apresentam nítidas adaptações de seus
baixos e médios cursos às direções de V6rzea e de Terras
SW-NE. Correndo ora sobre o escudo Firmes
cristalino ora sobre sedimentos do Pa-
O rio Amazonas encontrou o Atlântico
leozóico e do Cenozóico, essas direções e desenvolveu sua várzea encaixan-
orientam a drenagem tanto sobre o do-se nos sedimentos da formação Bar-
cristalino quanto sobre os sedimentos. reiras, a partir do Pleistoceno-Holo-
Considerando que as linhas estruturais ceno.
de SW-NE estão relacionadas aos
falhamentos antigos do Pré-Cambriano 1!: aceito que, durante os períodos gla-
e que as mesmas orientações guiam a ciários do Pleistoceno, o mar esteve em
drenagem nos sedimentos recentes, nível mais baixo que o atual, passan-
pode-se pensar em reativação das di- do o rio Amazonas a se encaixar e
reções antigas, no Mesozóico e no Ter- operar erosão regressiva nas terras fir-
ciário. mes da formação Barreiras. Resultou
disso a dissecação dos níveis de terra-
Na margem norte do Amazonas as ços do Pleistoceno, os quais parecem
orientações dominantes da drenagem ter-se originado no retrabalho das ter-
são as NW-SE. conforme foi observa- ras firmes.
do para os rios Negro, Uatumã, Nba-
Com a subida do nível do mar nos
mundá e Trombetas, portanto per-
interglaciários e invasão pelo mar dos
pendiculares às direções gerais de
baixos cursos d'água, novos processos
SW-NE.
de sedimentação têm seqüência com
Das sucessivas adaptações da rede de o afogamento dos terrenos deprimidos.
drenagem às direções estruturais, re- Aliam-se aos movimentos glácio-eustá-
sultou a padronagem ortogonal obser- ticos os problemas de subsidência e so-
vada nas cartas e fotografias aéreas da levamentos tectônicos recentes desen-
Amazônia, conforme estudado e des- volvidos na várzea e terras firmes, le-
crito na área dos rios Uatumã, Urubu, vando a intersecções dos níveis e difi.
Preto, Negro e Solimões, cf. Stern- cultando o seu estudo.
berg, cit. O fenômeno foi estudado
em área de terra firme, porém o autor As oscilações do nível do mar e os
não excluiu, entretanto, a possibilidade problemas de subsidência recente da
de sua existência na própria várzea. O várzea refletem-se nas variedades dos
paralelismo dos rios de terra firme apa- níveis de terraços encontrados, bem
rece também nos lagos e dilatações da como no afogamento do médio-baixo
drenagem observável nas fotografias Amazonas, onde foram identificados
aéreas, mesmo sob cobertura florestal rias e vales afogados. Novos afoga-
densa. mentos da rede de drenagem deram
origem a interessantes vales submersos,
A reativação das direções estruturais de encostas íngremes, escarpadas e
existentes no cristalino seria fator de altas margens formando barrancos,
explicação dos padrões de drenagem conforme pode ser observado ao longo
com direções rígidas, juntas e coto- do curso do Amazonas. Alguns dos
velos, encontrados tanto para os vales submersos, isolados pela sedi-
grandes cursos d'água quanto para os mentação da várzea, vão constituir
numerosos pequenos rios e lagos ama- lagos de terra firme, diferentes dos la-
zônicos. gos de várzea por se apresentarem, em

so
certos casos, adaptados aos padrões 4.3.3 • Condi~ões
ortogonais da drenagem. Já os lagos Paleoclimáticas
de várzea possuem aspectos meân- Responsáveis pela
dricos, recurvados, alongados e isola- Elabora~ão das
dos pelos diques marginais. Na região Superffcies Aplainadas
de Manaus as rias e vales submersos
da Amazônia
são encontrados no baixo curso dos
rios Coari, Tefé, Anamã e Urubu. Condições paleoclimáticas secas e
A origem dos lagos de terra finne e úmidas, em suas alternâncias, têm sido
rias poderia ser buscada não apenas invocadas para explicar os vastos
tlas variações do nivel do mar, decor- aplainamentos da Amazônia e as séries
rentes dos movimentos glácio-eustáti- sedimentares correlativas.
cos, mas, também, em problemas de Interessando vivamente os geomorfó-
subsidência e exondação localizados. O logos brasileiros, as osciJações climá-
achatamento do curso médio do rio ticas ocorridas no Plio-Quatemário
Amazonas, cujo perfil poderia ter sido vem sendo identificadas no sul-sudeste
menos esbatido no Pleistoceno e a con- do País desde 1956, mediante análise
sequente deformação dos niveis perifé- de materiais detrlticos de encosta e de
ricos, constituem problemas ainda fundos de vale. Uma série de trabalhos
pouco conhecidos, dificultando a inter- sobre o tema, entre os quais sobres-
pretação dos sucessivos escalonamen- saem os nomes de Tricart ( 1958),
tos dos niveis de várzea - terra firme. Ab'Saber ( 1958), Dresch ( 1964), Bi-
garella et alii ( 1964), Bigarella, Mou-
As evidentes osciJações do nivel do sinho e Silva ( 1965), mostra que con-
mar foram pesquisadas por Guerra dições secas e úmidas em suas reto-
madas sucessivas teriam contribuído de
em 1958 e identificada no litoral atra- modo determiante para a elaboração
vés das falésias e dos afloramentos de das paisagens brasileiras.
crostas e argilas mosqueadas na ilha
de Marajó. Essas corresponderiam a Alternâncias paleoclimáticas secas e
plataformas de crostas laterlticas, hoje úmidas também teriam reinado na
submersas. Amazônia, conforme indicam os tra-
balhos de Barbosa ( 1958) e Guerra
Oscilações do nível do mar e proble- ( 1965) no Alto Rio Branco.
mas de tectônica recente contribuem Muito embora a origem da formação
para a explicação dos su~sivos níveis Barreiras ainda constitua problema
dispostos a partir da várzea-terra para os seus estudiosos, tanto no lito-
finne, através da calha amazônica. As ral oriental do Brasil quanto na Ama-
próprias observações altimétricas fei- zônia, é inegável que foi a mesma de-
tas em relação ao nível das águas dos positada sob condições diversas dentro
rios, ora em cheia ora em vazante, do grande conjunto amazônico, con-
bem como seu caráter localizado e dis- forme indicam suas características nas
diversas partes da bacia. Argilosas, síl-
perso na vasta área, dificultam o esta- ticas, arenosas e conglomeráticas, por-
belecimento de correlações (a não ser tanto de textura e espessuras variadas,
localmente Y das medidas estabele- foram essas formações sucessivamente
cidas. meteorizadas, erodidas e edafisadas,
facultando o desenvolvimento de latos-
Na gênese e preservação dos níveis de solos e de solos podzolizados tanto
várzeas e terras firmes ganham impor- sobre as superfícies de Barreiras como
tância os problemas da sedimentação sobre as várzeas e terraços Pleistocê-
correlativa e, portanto, dos processos nicos, enquanto que nas depressões
morfogenéticos atuantes no presente e formavam-se os solos glei búmicos e
no passado. latossolos hidromórficos. Na evolução

Sl
dos latossolos amazônicos dois aspec- terísticas predominantes subatuais. Em
tos podem ser salientados: o dos solos certos casos, estas formações subatuais
de horizonte B latossólico e dos solos são erodidas e redepositadas, passando
de horizonte B textual. Os primeiros a constituir outros encrostamentos
possuem forte proporção de caolinita atuais ou 'não. No caso de serem
na fração argilosa e quando mal dre- atuais, as crostas indicam condições
nados permitem, de acordo com as os- úmidas alternadas com fases secas no
cilações do lençol freático, a formação correr do ano. Sob a floresta perma-
de um horizonte A, de lix:iviação dos nentemente úmida, a mobilidade dos
sesqui6xidos e partículas minerais, e óxidos de ferro e alumina deve ser
um horizonte B, de plinthaite argiloso grande, sendo os mesmos rapidamente
pouco permeável. São os plinthaites transportados. Em certos casos per-
de características variadas, destacan- manecem no perfil do solo, de modo
do-se aquele de aspecto macio, de ar- individualizado, fixando-se nas argilas
gila mosqueada, e o plinthaite com- que adquirem coloração vermelho-
pacto, constituído por cascalhos e amarela ou simplesmente amarela.
blocos rochosos. Existindo nos solos proporção variável
Observado em 1925 por Marbut, o de argilas caoHnicas e estas possuindo
mosqueado do plinthaite foi relaciona- capacidade maior ,de fixação dos
do às oscilações do lençol freático, com óxidos, os latossolos vermelho-amare-
a segregação e oxidação do ferro, de los vão oferecer características diversas
modo localizado. Mais tarde a origem quanto à cor e à plasticidade. Os la-
do mosqueado foi explicada pela solu- tossolos amarelos da zona Bragantina,
bilização parcial do íon ferro, sendo o no Estado do Pará podem apresen-
mosqueado considerado como um está- tar concentração de argilas em hori-
gio entre ferro estável e ferro dissolvi- zontes inferiores sem que haja, con-
do e transportado, cf. 'Mohr & Van tudo, uma zona de acumulação nitida,
Baren, 1954. ap. Falesi, Vieira, Santos, Oliveira, em
1967.
A lavagem da água carregada de
húmus dos horizontes superficiais, dis- Formado in loco, o plinthaite tem sido
solvendo e transportando o ferro e a erodido e transportado de um lugar
alumina para os horizontes inferiores, para outro, quer coluvialmente quer
irá concentrá-los ao nível do lençol como aluvião, e distribuído através de
freático. Nas áreas de boas condições vastas áreas planas com aspectos va-
de drenagem o ferro' adquire cor '!er- riados.
melha e, nas áreas de má drenagem, o
ferro hidratado daria cor acinzentada. Na região de Guamá-Imperatriz, no
Das oscilações do lençol freático e da Pará, Sombroek encontrou variados
alteração química do ferro resulta o tipos de concreções em materiais de
mosqueado do plinthaite. O desenvol- plínthaite contendo ferro, alumina,
vimento e espessura dos horizontes de manganês e titânio. Os blocos quart-
plinthaite seriam conseqüentes da lava- zfticos de tamanhos diversos, até
gem, oxidação, hidratação e solubiliza- 0,50 m apresentavam caracteres angu-
ção do ferro, bem como da amplitude lares e subangulares e estavam conti-
de variação dos lençóis freáticos. dos em matriz de grã fina, de cor ver·
melho claro ao vermelho escuro, indo
Resultando do enriquecimento das for- até o preto. De modo geral, o plin,.
mações em sílica e alumina, o plinthai- thaite está sob material arenoso e fino.
te enrijecido vai dar origem às crostas
que são formadas localmente nos nlveis Em certas áreas da Amazônia o plín,.
mais elevados, ou possuem caracterís- thaite encontra-se enterrado, não evo-
ticas alógenas nos níveis inferiores. luindo presentemente, mas com carac-
terísticas fósseis, uma vez que não é
O processo de formação do plinthaíte mais alcançado pelos lençóis freáticos
ocorre por toda a Amazônia com carac· atuais.
Esse pUnthaite fóssil pode estar ora A existência do plinthaite é generali-
conservado ora erodido, indo dar ori- zada no modelado amazônico, desde
gem a outros plinthaites aluviais e co- Maraj6 ao Acre. Desenvolvidas no
luviais. Apresenta-se, pois, com carac- Plio-Quartenário, tanto a formação do
terísticas pr6prias em relação à área plinthaite quanto a das crostas laterí-
de ocorrência e posição específicas, ticas constituem elementos de reforço
porém dominante nas superfícies aplai- para explicação dos grandes aplaina-
nadas. mentos elaborados sob condições cli-
máticas de alternâncias de uma estação
A origem do plinthaite f6ssil, segundo seca com uma estação chuvosa e, por-
o mesmo autor, tem sido recuada ao tanto, de intermitência da drenagem.
Terciário Superior, quando dominou Retocados por posteriores condições
em vastas áreas um tipo de drenagem úmidas generalizadas e retomadas lo-
imperfeita. Desenvolveu-se também calizadas de condições secas, os aplai-
no Pleistoceno ou mesmo nos tempos namentos teriam resistido ou apenas
atuais. Atual ou subatual, o proceSSI se transformado em níveis de colinas
de formação do plinthaite foi identifi- modeladas sob a floresta equatorial
cãdo também nos campos de Paciari- úmida. Em todos os casos, porém, os
Humaitá, no Estado do Amazonas, e encrostamentos e adensamentos super-
em Rondônia, na área entre o rio Ma- ficiais e subsuperficiais teriam contri-
deira e o rio ltuxi. (E. H. Braun e buído para a manutenção das topogra-
R. A. Ramos, 1965). Segundo os ci- fias aplainadas e dos níveis de colinas,
o
tados autores, processo do mosquea- de topos geralmente regulares.
mento se opera em solos de formações
campestres, em argilas de Barreiras, Erodidos e redepositados, adensamen-
de sedimentação arenosa plúvio- tos de plinthaite e crostas contribuem,
fluvial, argiloso-lacustrina e relevo ta- mesmo sob as condições de umidade
bular. Af, também, foi o processo re- permanente, para a conservação dos
lacionado à alteração química e às traços gerais de um modelado desen-
oscilações do lençol freático em seus volvido sob condições subatuais, vege-
aspectos atuais e subatuais. tação mais aberta do que a floresta
amazônica, presumivelmente de Cam-
A sucessão foi linearmente descrita pos e Cerrados.
nas áreas de transição da floresta para
os campos, dentro da seguinte varia- Quando formados nos dias presentes,
~ão:
plinthaites e crostas indicam más ou
incompletas condições de drenagem,
a) nos igarapés, de drenagem atual, com oscilação dos lençois freáticos. Um
os solos latoss6licos são profundos, grande desenvolvimento das crostas
porosos, sem mosqueado; implica, porém, em condições secas
acentuadas, conforme as descreve
b) na borda do tabuleiro, nos solos Daveau ( 1962) para os relevos afri-
de transição entre os de campos e os canos, onde os encrostamentos máxi-
de floresta; mos correspondem às áreas de Savanas.
c) nos cerrados e campos, de solos
latoss6licos e hidrom6rficos, com carac-
terísticas extremamente argilosas e im- CONCLUSÕES
permeáveis, intensamente mosqueadas;
Da geologia e da tectônica foram re-
d) nas lagoas sobre o tabuleiro, de tirados os elementos necessários ao
solos hidrom6rficos, argilosos, de cor esboço geotectônico apresentado, com
acinzentada e com ausência de mos- as sucessivas bacias de sedimentação
queamento. formadas entre escudos cristalinos,

ss
com os problemas de suas evoluções. paleoclimáticos, em que ganham ên-
O caráter heterogêneo do grande con- fase as alternâncias de fases secas e
junto sedimentar foi, portanto, eviden- fases úmidas ocorridas no Cenoz6ico e
ciado. suas relações com as variações do nível
Os grandes domínios morfológicos da do mar, capazes de elaborar as vastas
várzea, terras firmes e escudos crista- superfícies aplainadas e depositar ex-
linos, já consagrados e generalizados, tensa sedimentação correlativa. A falta
foram abordados por Guerra, 25 pois de pesquisas geomorfológicas sobre o
faltam elementos que permitam des- tema tem levado os geomorfólogos a
cer ao detalhe. Impossível se toma, buscar certos dados essenciais em ou-
no estado atual de conhecimentos da tras disciplinas, como a Sedimentolo-
geomorfologia amazônica, estabelecer gia, a Pedologia, a Petrografia-Estra-
correlações e diferenciações mais pro- tigrafia e a Tectônica.
fundas e consistentes entre tipos de
várzeas e de terras finnes. Os próprios 11: patente a necessidade de estudos
estudos dos níveis das várzeas e terras relativos aos processos morfoclimáticos
firmes constam de observações espa· equatoriais quentes e úmidos, bem
çadas e de difíceis sistematizações. como de suas transições para os do-
mínios tropicais amazônicos, marcados
No tocante à pesquisa dos processos
por um período seco mais ou menos
morfogenéticos em seus aspectos atuais
extenso. As pesquisas sobre os pro-
e subatuais há muito pouco a dizer no
cessos morfogenéticos, morfoclimáticos
vasto domínio, onde quase tudo está
por ser feito. l!: verdade que há cons- e paleoclimáticos poderão contribuir
tatações de problemas de laterização, para aquilatar o papel da erosão e da
latolização e estudos mínuciosos para sedimentação correlativa, bem como
os quais foram adotadas técnicas sub- para avaliar de modo exato o proble-
sidiárias, como as datações dos depó- ma da erosão e do empobrecimento
sitos aluviais mediante métodos de ra- dos solos, fenômeno este ainda mal
dioatividade, e das rochas do escudo, conhecido e controvertido.
por processo físico-químicos da geo-
cronologia. Realizadas de modo isola- Analisando-se, de modo sucinto, o es-
do, estas pesquisas possuem grande tado atual de conhecimentos geomor-
validade para a geomorfologia amazô.. fológicos sobre a Amazônia, podemos
nica, porém de seus IJ)étodos, bem afinnar que, exceção feita aos traba-
como daqueles da sedimentologia e da lhos de consagrados geomorfólogos, a
fotointerpretação, muito pouco têm pesquisa da disciplina apenas vem
feito uso os geomorfólogos. sendo realizada de modo subsidiário
Grandes lacunas, grandes vazios ( con- aos estudos da Pedologia, da Sedimen-
fonne indicam as cartas geográficas de tologia, Geologia, Vegetação, Paleonto-
1:1.000.000) continuam a existir, muito logia e Estratigrafia, ou pennanece na
embora sistematizações venham sendo compilação de dados já publicados, re-
feitas em bases de generalizações de petidos seguidamente, e pecando por
dados isolados. falta de originalidade.
Procurou-se no passado interpretar o Quanto ao mapeamento geomorfoló-
modelado a partir das concejtuações gico como instrumento indispensável à
da erosão nonnal e do ciclo de erosão, pesquisa, quase nada tem sido feito,
bem como pelas oscilações do nível do mesmo ao longo das vias fluviais, onde
mar por movimentos glácio-eustáticos.
se concentram populações e cultivos
No presente procura-se explicar o mo- integrados a certas fonnas do mode-
delado amazôuico através de processos lado.
A esse respeito, poderia aqui ser lem· cimento da regrao Amazônica, reali-
brado que o Projeto Radam incluiu zado mediante técnicas modernas e
em suas pesquisas o mapeamento geo. adequadas à vastidão do espaço a
morfológico da vasta área sul·amazõ. ser pesquisado constitui fato auspi-
nica que envolve aspectos das várzeas, cioso não apenas para a pesquisa geo-
das terras firmes, dos escudos e dos gráfica, mas para todos os que têm a
chapadões de transição para o Meio- responsabilidade de ocupar e valorizar
Norte e para o Centro-Oeste. O conh~ racionalmente a imensa Região vazia.

NOTAS DE REFER~NCIAS

1 Cf. Camargo Mendes; v. ref. 2J da Bibliografia.


2 Cf. Derby; v. ref. H da Bibliografia.

a Cf. Camargo Mendes; v. ref. 26 da Bibliografia.

' Cf. Stemberg; v. ref. JB da Bibliografia.


6 Cf. Loczy; v. ref.22 da Bibliografia.
8 Cf. Barbosa; v. ref. J da Bibliografia.
7 Cf. Camargo Mendes, op . cit. p. 26.
8 Cf. Rezende 8c Fernandes; v. ref. JO da Bibliografia.
o Rezende 8c Fernandes; op. cit. p. 221.
10 Loay, op. cit.
11 Idem
12 Ibidem; p. 64.
UI Cf. Crabert; v. ref. 1J da Bibliografia.
H Cf. Guerra; v. ref. 21 da Bibliografia.
16 Cf. Guerra; op. cit. p. 17.
te Cf. Gourou; v. ref. 17 da Bibliografia.
1T Cf. Camargo; cit. por Soares; v. ref. JJ da Bibliografia.
18 Cf. Sombroek; v. ref. J7 da Bibliografia.
111 Cf. Sombroek; op. cit.
20 Cf. Loczy; op. cit. p. M.
21 Cf. Guerra; op. cit. p. 48
22 Cf. Beigbeder; v. ref. 7 da Bibliografia.
28 Cf. Scapelli; v. ref. J2 da Bibliografia.
2t Cf. Rougerie; v. ref. Jl da Bibliografia.
2ll Cf. Guerra; op. cit.

35
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38
INTRODUÇÃO
A área por nós estudada, sob a de-
nominação de Região Norte, compre-
ende quase toda a Região Amazônica,
a maior extensão de floresta quente e
úmida do Globo, que ocupa quase a
metade do Territ6rio Brasileiro.
Este vasto territ6rio, juntamente com
a Região Centro-Oeste, possui a mais
deficiente rede de estações meteorol6-
gicas do Brasil. Neste fato residem as
mais sérias dificuldades deste estudo.
Com efeito, nesta enorme área, cujo
desbravamento data do século XVII,
mas cuja ocupação ainda hoje é muito
escassa, a distribuição das estações me-
teorol6gicas é determinada pelo povoa-
mento. Daí resulta uma rede com
acúmulo de estações meteorol6gicas
em certas áreas (nas margens do rio
Amazonas e de alguns de seus prin-
cipais afluentes) e escassez ou mesmo
ausência absoluta em outras, como o
leitor poderá observar através dos ma-
CLIMA pas que ilustram este estudo.
EDMON NIMER Entretanto, pela simplicidade de sua
topografia, quase toda ela constituída
por uma planura pr6xima ao nível do
mar, e pelo estudo do seu mecanismo
atmosférico, através de numerosos tra-
balhos publicados por diversos auto-
res, e através de análises de cartas si·
n6ticas do tempo diário, elaboradas
pelo Departamento de Meteorologia,
do Ministério da Agricultura, foi-nos
possível contornar alguns dos proble-
mas gerados por aquelas deficiências
e obter um retrato do quadro climá-
tico da Região Norte.

1 - PRINCIPAIS SISTEMAS DA
CIRCULAÇÃO
ATMOSFÉRICA .
O conhecimento das influências dos
fatores estáticos ou geográficos que
atuam sobre o clima da Região Nor-
te do Brasil, por mais completo que
seja não basta para a .compreensão de

S9
seu clima. Este não pode ser compre- guiares no Verão (dezembro a março),
endido e analisado sem o concurso do quando há um decréscimo geral de
mecanismo atmosférico, seu fator ge- pressão, motivado peJo forte aqueci-
nétiro por excelência, objeto de estu- mento do interior do continente. Na
do da Meteorologia Sinótko. Até mes- Amazônia tais correntes de perturba-
mo a influência dos fatores estáticos, ção atmosférica são comuns durante
tais como relevo, latitude, continen- todo o ano ao sul do equador, porém
talidade ou maritimidade, é exercida bem mais constantes no Verão.
em interação com os sistemas regionais
de circulação atmosférica. Sua origem parece estar ligada ao mo-
vimento ondulatório que se verifica na
Por isso iniciaremos este estudo com frente polar ao contacto com o ar
uma suscinta análise dos principais quente da zona tropical. A partir des-
sistemas de circulação atmo$/bica que, sas ondulações formam-se, ao norte da
por sua atuação direta. exercem um frente polar, uma ou mais IT sobre o
importante papel na variação de com- continente. Ap6s formadas, elas se
posições climáticas na Amazônia, no deslocam com extrema mobilidade até
tempo e no espaço. 60 lc:m/hora, embora elas possam, por
vezes, permanecer semi-estacionadas.
Através do setor oriental da Região À medida que a frente polar caminha
Norte sopram, periodicamente, ven- para o Equador, as IT se deslocam
tos de E a NE do anticiclone subtro- para E, ou mais comumente para SE,
pical semi{WJ do AIMntico Sul e do anunciando com nuvens ~ e ge-
anticiclone subtroplcol semifi%o dos ralmente chuvas tipicamente tropicais,
Açores. Em virtude de possuírem uma a chegada da FP com antecedência de
subsidência superior e conseqüente in- 24 horas, a qual, no entanto, pode não
versão de temperaturas, tais ventos são
acompanhados de tempo estável. chegar principalmente às latitudes
mais baixas.
No setor ocidental predomina a massa
de ar equatorial ( m Ec), formada pela Tais chuvas se verificam, geralmente,
convecção tennodint2mica do.t ventos no fim da tarde ou infcio da noite,
de NE do anticiclone do.t Açore• e da quando, pelo forte aquecimento diur-
convergência intertropic4l (ClT) . no, intensificam-se a radiação telúri-
ca e, conseqüentemente, as correntes
Esta massa de ar, pela sua forte umi- convectivas. Ao contrário das chuvas
dade especifica e ausência de subsi- das frentes polares (que costumam ser
dência superior, está, freqüentemente, frontais) provocadas pela ação direta
sujeita a instabtlidades causadoras de intermitentes durante todo dia (às ve-
chuvas abundantes. zes dois e raramente 3 dias), as chu-
vas de IT duram poucos minutos, rara-
No interior desta massa de ar as chu- mente ultrapassando 1 hora, sob céu
vas são provocadas por deprusões di- quase ou completamente en09berto
nAmicas denominadas linhas de insta- por pe$ados e grossos cumulus-nimbos.
bilidades tropicais (IT) induzidas em
O mais importante local de origem
pequenàs dorsais. No seio de uma lt,..
destas correntes perturbadas, na Ama-
Ma de IT o ar em convergência acar-
zônia, é o setor ocidental, onde ap6s
reta, geralmente, chuvas e trovoadas,
por vezes granizo, e ventos moderados formadas elas se deslocam comumen-
a fortes com rajadas que atingem 60 te para E ou SE, até o centro da
a 90 lc:m/hora. Região. Outro local também muito im-
portante situa-se sobre o ParA, daí se
Tais fenômenos são comuns em todo deslocando comumente até o Mara·
o Brasil tropical, principalmente no seu nhão, porém raramente até o sertão do
interior, no períooo que se estende de Nordeste.
meados da Primavera a meados do Ou- Outro sistema de circulação muito im-
tono, porém são mais freqüentes e re- portante vem do norte, e é represen-
tado pela invasão da ClT, zona de dades o anticiclone polar invade o
convergência dos ventos do anticiclo- continente sul-americano, seguindo,
ne dos Açores e do anticiclone do duas trajetórias diferentes: uma a oeste
Atldntico Sul. Tais correntes, respon- dos Andes, outra a leste dessa cordi-
sáveis por aguaceiros, têm sua posi- lheira, após transpô-la ao sul do Chile.
ção média sobre o Hemisfério Norte, Com orientação NW-SE sua frente, ou
porém no Inverno, Outono e Verão, es- descontinuidade frontal, invade a Re-
pecialmente no Outono, elas descem
freqüentemente para o Hemisfério Sul. gião Norte com ventos do quadrante
Embora elas atinjam o extremo sul da sul, provocando chuvas frontais acom-
Região, a grande intensidade de sua panhadas de sensível queda de tem-
freqüência é limitada ao setor norte peratura. Tais frentes atingem o Acre,
da Região, sendo tanto maior a nor- Rondônia e sul do Amazonas, no In-
deste, sobre o Amapá e norte do Pa- vemo.
rá. A exemplo das chuvas de IT as
chuvas da ClT são de notável concen- Nesta estação os anticiclones mais po-
tração no tempo e no espaço, porém derosos conseguem, embora muito ra-
estas são, geralmente, mais intensas e ramente, empurrar sua superfície fron-
pesadas do que aquelas. tal para além do equador geográfico,
na altura do Estado do Amazonas, pro-
Finalmente, o sistema de correntes vocando as chamadas ondas de frio ou
perturbadas de sul é representado pela friagens. Fora do Inverno, mas prin-
invasão do anticiclone polar com sua cipalmente no Verão, o anticiclone po-
descontinuidade frontal, denominada lar dificilmente consegue empurrar sua
frente polar. A fonte desses anticiclo- frente além do Acre e Rondônia, em
nes é a região polar de superfície ge- virtude do aprofundamento da baixa
lada, constituída pelo Continente An- t~rmodinâmica do Choco, nesta época.
tártico e pela banquisa fixa. De sua Deste mecanismo decorre, portanto, 4
base anticiclônica divergem ventos sistemas de circulação atmosférica:
que se dirigem para a zona depressio-
nária subantártica, originando, nessa a) Sistema de ventos de NE a E dos
zona ocupada pelo pack e por ou- anticiclones subtropicais do Atlântico
tros gelos flutuantes, as 11UJSSas de ar sul e dos Açores -tempo estáveL
polar. Desta zona partem os anticiclo-
nes polares que periodicamente inva- b) Sistema de ventos de W da mEc ou
dem o continente sul-americano com linhas de IT - tempo instável.
vento de W a SW nas altas latitudes,
mas adquirindo, freqüentemente, a c) Sistema de ventos de N da ClT -
direção S a SE em se aproximando do tempo instável.
trópico sobre o Território Brasileiro.
d) Sistema de ventos de S do antici-
De sua origem e trajetória ( SW-NE) clone ou frente polar - tempo ins-
até chegar a Região Norte derivam tável.
suas propriedades. Em sua origem
estes anticiclones possuem subsidf..ncia Os 8 últimos constituem correntes
e forte inversão de temperatura e o perturbadas, sendo, portanto, respon-
ar é muito seco, frio e estável. Porém sáveis por instabilidades e chuvas.
em sua trajetória ele absorve calor e (Fig. 1).
umidade colhidos da superfície do
mar, aumentados à medida que cami- Chamamos atenção para a sobreposi-
nha para o equador. De sorte que, já ção dos sistemas perturbados no setor
nas latitudes médias, a inversão desa- ocidental da Região, ao norte do qual
parece e o ar polar marítimo toma-se no Outono e Inverno se combina.m as
instável. Com esta estrutura e proprie- chuvas de N e W. 1
SISTEMAS DE CIRCULAÇÃO ATMOSFÉRICA
PERTURBADA - REGIÃO NORTE

Fig.l -----+ SISTEMA DE CIRCULAÇÃO PERTURBADA DE W (mEc)


---l.,..,. SISTEMA DE CIRCULAÇÃO PERTURBADA DE N (C IT)
---l. . . SISTEMA DE CIRCULAÇÃO PERTURBADA DE S (F P)
O 100 200 300 400 500 Krn
OI•Ed/0 • J.A.C. I t I I I I

2 - PRINCIPAIS ASPECTOS Esses importantes índices térmicos


anuais resultam do fato de que du-
TÉRMICOS rante todo ano as temperaturas se
mantêm mais ou menos elevadas, des-
Sendo caracterizada por uma vasta tacando-se neste particular os me~es
planura situada próxima ao nível do de setembro-outubro e novembro-de-
mar e cortada de um extremo a outro zembro, períodos nos quais as médias
pelo paralelo do eqUDdor, a Região mensais se elevam entre 26 a 28°C na
Norte possui clima QUENTE.
maior parte do seu Território.
Conforme pode ser observado na figura
2, apenas restritas áreas do sudoeste Entretanto, em virtude da forte umi-
da Região (pela maior participação de dade relativa que caracteriza esta Re-
massa polar) e áreas serranas da fron- gião (em tomo de 80% durante todo
teira setentrional e da chapada dos ano ) e da intensa nebulosidade (co-
Parecis em Rondônia (pela altitude bertura do céu em tomo de 5/8), estes
bem acima da planura regional) pos- meses não registram máximas diárias
suem temperatura média anual infe- excessivas. Somente na área compre-
rior a 240C. Neste aspecto o que bem
caracteriza esta Região são temperatu- endida entre a zona do médio Amazo-
ras que variam de 24 a 260C, embora nas e o sudeste do Pará foram registra-
uma larga faixa ao longo do médio das temperaturas máximas de 4QOC:
e baixo curso do rio Amazonas ultra- estas ocorrendo nos meses de setem-
passe este último índice. bro e outubro 2 , como mostra a figura 3.
6 • 4.

AUTOR : AOALBERTO SERRA


( ATLAS CLIMATOLO'GICO l

.
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o• o•

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t. . •o•
•o• \..

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7C1' 65°

... ...

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FIG 3
42

TEMPERATURA MÁXIMA ABSOLUTA DO ANO t•C)


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38 100 100 .100 400 500 'Cfll
C0t.A8011A00R($ MT"U1t 4 f' FilHO
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48
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TEMPERATURA loU,NIMA ABSO..UTA DO ANO ("C)


AUTCHI lOMOH Hlllllflt
C0t.480itAOCI'I'lS . AATttiJJII A..~ fii.HO
JAM IHIN OA ~

1fl' 5.. 46"

Enquanto setembro e outubro são os do fenômeno da "friagem", caracteri-


meses mais quentes, junho - julho - zado por forte umidade especifica e
agosto se constituem no período mais relativa, acompanhada de chuvas fron-
ameno, embora nenhum destes meses tais e sucedidas por tempo bom e ex-
apresente temperatura média inferior traordinária queda de temperatura
a 220C. Contudo, isto não significa que atinge a mínimas como aquelas
que não ocorra frio na Amazônia. Não citadas.
obstante as temperaturas médias su-
periores a 22°C, esses meses costu- Estudando as "friagens", Serra e
mam registrar mínimas diárias inferio- Ratisbona ( 1945) escreveram: Com
res a 12°C na zona meridional da Re- a entrada do grande anticiclone polar,
gião, do Acre ao sul do Pará, por oca- de movimento lento, devido a reduzi-
sião da invasão de anticiclone polar
da energia de que é dotado nas baixas
de trajetória continental, muito co-
latitudes, a pressão sobe, atingindo va-
mum no Inverno. Nestas zonas os ter-
mômetros já desceram a OOC na cha- lores elevadíssimos para a Região, e
pada dos Parecis, conforme se pode perturbando a marcha normal da ma-
observar na figura 4. ré diurna. A temperatura caí e, sob o
vento fresco que passa a soprar de
Convém observar que durante o Inver- sul, o céu atinge 10 partes de nuvens
no toda zona me.ridional da Região stratu.s e stratucumulus ou mesmo de
Norte, especialmente o setor sudoeste altustratus, caso seja muito elevada a
(Rondônia, Acre e parte do Amazo- invasão fria. Sob a lenta velocidade
nas) é freqüentemente invadido por da frente, o sistema de nuvens persis-
tais anticiclones de origem polar, ap6s te sem se desmanchar, provocando
transpor a cordilheira dos Andes, ao chuvas frontais. A chuva frontal ter-
sul do Chile. Alguns são excepcional- mina, logo substituída por leve chu-
mente poderosos e provocam o chama- visco ou nevoeiro. Com céu ainda en-
70• ..
~. 60° 56•
·~·
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•o• FIG.5

MEDIA DAS MÍNIMAS DE JULHO (°C)


AUTOR . AOALBER TO ,SERRA
( ATLAS CLI MATOLOGICO )
\, ~

coberto pela presença da frente, re- reira "é mais freqüentemente atingida
sulta a fraca amplitude térmica diur- (pelas friagens) em maio, junho e ju-
na, com máxima baixa e mínima ainda lho, época em que o Sol está no ou-
elevada. A umidade relativa permane- tro hemisfério (setentrional) e é mais
ce em tomo de 97%, podendo, aliás, ser fácil a queda da temperatura à noite.
menor. Só daí a um ou dois dias, quan- To~am-se raros os anos de 3, 4 ou 5
do o anticiclone avançou muito para friagens e o valor médio é de 2,4% ao
o norte ou nordeste, diminui sua tur- ano", p. 179, ref. 4, da Bibliografia.
bulência anterior, seguindo-se a lim- Por isso, os declínios extremos de tem-
peza do céu que produz finalmente, peratura são muito raros, uma vez que
pela intensa radiação da noite, as bai- as médias das mínimas diárias nesses
xíssimas mínimas da "friagem". Elas meses são muito superiores àqueles
não se mantêm, contudo, não só pela valores absolutos, conforme demons-
destruição do anticiclone polar como tra a figura 5, relativa às médias das
ainda porque a massa de retorno à sua mínimas de julho.
retaguarda e a fraca nebulosidade per-
mit~m o aquecimento solar que acaba Neste mês, o mais representativo do
com o fenômeno. Este dura, em mé- Inverno para a maior parte da Região,
dia, quatro dias. as médias mínimas variam, na zona
meridional, de 18 a 140C, embora ~eja
Embora a passagem de frentes frias de J.20C, aproximadamente, no sudeste
seja muito comum no Inverno, o fenô- de Rondônia, sobre a chapada dos Pa-
meno da "friagem" não é muito fre- recis. Fora dessa zona a média das
qüente. A este respeito os referidos mínimas de julho varia de 18 a 230C,
pesquisadores fizeram um estudo uti- crescendo para o norte da Região.
lizando informações de 30 anos con-
secutivos da estação meteorológica de Se põr um lado a variação anual da
Sena Madureira, situada no Estado temperatura não é muito importante,
do Acre na latitude de 90S, chegando o mesmo não acontece com as varia-
às seguintes conclusões: Sena Madu- ções diurnas. Este fato é, aliás, uma
das características particulares dos cli- um modo geral, mais ativos quanto
mas das regiões de baixas latitudes. mais próximo o lugar esteja das mar-
Decorre daf a constatação de Riehl ~ns ao rio Amazonas. Decorre daí o
( 1954): "Na faixa equatorial é o ciclo fato de que a média da amplitude tér-
de temperatura diurna que governa os mica diurna, durante o ano, em Be-
hábitos da vida através do ano", p. lém (9,8°C) e em Manaus (8,7°C) é
105, ref. 3 da Bibliografia bem inferior a que se verifica em Sena
Madureira, Estado do Acre ( 13°5 )3 •
De fato, nas latitudes equatoriais, so-
bre o mar, embora a variação diurna De qualquer forma, a oscilação tér-
da temperatura permaneça, em qual- mica entre os dias e as noites na Re-
quer estação do ano, em tomo de l°C, gião Norte do Brasil é de amplitude
sobre o continente ela excede, de mui- bem maior do que a oscilação esta-
to,. a amplitude ·estacionai. cionai, principalmente quando verifi-
camos a amplitude que é registrada
Tomando por base a média das máxi- nos dias que sucedem as chuvas fron-
mas e das mínimas diárias verificamos tais de Inverno, quando o ar mais seco
que a média da amplitude térmica permite forte insolação diurna e inten-
diurna na Região Norte do Brasil, du- sa radiação noturna. Este fenômeno,
rante o ano, varia muito, entre 8 e aliás, concorre para a maior média da
140C. amplitude térmica diurna de Sena Ma-
dureira, local que, como vimos, está
Além da direção predominante do ven- mais sujeito à invasão de anticiclone
to e de sua velocidade, os fatores lo- polar, por estar situado a sudoeste da
cais que governam o cur.so diurno da Região Norte. ·
temperatura são a topografia, a alti·
tude, a natureza do solo e a nebulosi-
dade. Quanto mais seco e calmo forem
os ventos predominantes; quanto mais 3- PRINCIPAIS ASPECTOS
plana for a topografia; quanto mais
baixa for a altitude do lugar; quanto PLUVIOMÉTRICOS
mais raso e J>:edregoso for o solo; quan-
to menos <.:oberto e desprotegido por Se em relação à temperatura, a Região
vegetação arbórea e quanto mais dis- Norte apresenta, como vimos, uma
tante estiver o lugar aa influência de certa homogeneidade espacial e esta-
vastas superfícies lí~á~' tanto maior cionai, ou seja, pouca variedade tér-
será a amplitude · ·a. No caso da mica ao longo de seu território e uma
Região Norte a topografia e a altitude variação estacionai pouco significativa,
baixa favorecem o aumento da ampli- o mesmo não acontece em relação à
tUde diurna, entretanto a natureza do pluviosidade.
solo, profundo e coberto pela vegeta-
ção pujante da selva, e a notável rede Em virtude dos sistemas de circula-
de rios largos, além da forte nebulo- ção perturbada que descrevemos, a Re-
sidade durante todo o ano agem em gião Norte constitui-se no domínio cli-
sentido contrário. :E: bem verdade que mático mais pluvioso do Brasil, ou seja
na Amazônia predominam calmarias, o de maior total pluviométrico anual,
porém. o ar está diariamente muito conforme se pode observar na figura 6,
carregado de umidade. Por esses mo- relativa ao mapa de isoietas anuais.
tivos a amplitude térmica diurna na Este aspecto é mais importante no li-
Amazônia é um pouco inferior às re- toral do Amapá, na foz do rio Amazo-
gistradas em outras regiões da zona nas e no setor ocidental da Região,
equatorial, como por exemplo no ser- cuja pluviometria· excede a 3.000 mm.
tão semi-árido do Nordeste do Brasil,
abaixo das latitudes de 10 a 12.0 Sul. Entre ambos, um "corredor" menos
chuvoso, de orientação NW-SE, de Ro-
Tais fatores frenadores da amplitude raima a leste do Pará, passando pela
térmica diurna na Amazônia são, de zona do médio Amazonas, apresenta
70"

5.

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1500 A 1750
\ 1755 A 2000
2250

AUTORES
EOMON NIMER
ARTHUR A.P FILHO
ISOIETAS ANUAIS 2000 A 2250
2250 A 2500
JANINE M. OA CRUZ FIG. 6 MAIS OE 2500
? 5? 1 ~ 1 ~ 1 ~ Km
70. 65. 55°
250
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OE2!!0A 300
AMPLITUDE PLUVIOMÉTRICA DE300A 3!50
DE300A 400
ANUAL{mt m) DE400A 4:10

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DE~A l500
AUTOR EOMON NIMER
FIG. 7 OE 500 EMDIANTE
O
I
50
I I
1!50
I I
250
I I
350
I
km

55"
um total com cerca de 1.500 a 1 700 mínimo no Inverno. Este regime resul-
mm. As áreas mais pluviosas são jus- ta do seguinte: durante o Verão, en-
tamente aquelas onde com mais fre- quanto diminui a incidência de chu-
qüência se dá a sobreposição das chu- vas de oeste ao norte daqueles para-
vas de W da mEc e de N da ClT. O lelos, ao sul dos mesmos ela aumen-
citado "corredor" menos chuvoso cor- ta. Ao contrário, no Inverno, a mEc
responde à área onde são menos fre- estando deslocada para NW, sobre a
qüentes as chuvas desses dois sistemas Colômbia, sua circulação de W propi-
de circulação. cia chuvas freqüentes apenas a oeste
do Estado do Amazonas, especialmente
Entretanto, essas precipitações não se a noroeste. Sendo assim, o Verão fica
repartem igualmente durante o ano. na dependência quase exclusiva das
As médias da amplitude pluviométrica chuvas do sistema de circulação
anual (diferença entre a pluviometria Norte que, como vimos, possui forte
do mês mais chuvoso e do mês menos declíneo para o sul e das chuvas do
chuvoso) é das maiores do Brasil, sen- sistema de circulação S das frentes po-
do mais notáveis no sul entre os E5ta- lares, cujas invasões, além de serem
dos do Amazonas e Pará ( 300 a 400 pouco numerosas, acarretam chuvas
mm) e no litoral do Amapá e foz do geralmente pouco copiosas.
rio Amazonas ( 500 a 600 mm) . Estes
últimos índices são os maiores do Bra- O Território de Roraima e o extremo
sil ( Fig. 7). Apenas o setor noroeste setentrional do Estado do Amazonas
do Estado do Amazonas possui ampli- constitui um caso a parte. Estando esta
tude insignificante ( 200 mm) . Trata-
área localizada no Hemisfério Norte
se de área onde a circulação de oeste seu regime de chuvas é justamente o
se mantém mais constante durante todo inverso do que se verifica na zona me-
o ano.
ridional da Região Norte ao sul daque-
Embora o período chuvoso na Região les referidos paralelos. O máximo plu-
Norte seja representado pelos meses viométrico se dá no Inverno e o mí-
nimo no Verão. Entretanto, como se
do Verão-Outono, ao norte dos parale- trata de áreas do Hemisfério Norte,
los de 2 a 5° Lat. Sul o máximo plu- essas estações correspondem ao Verão
viométrico, geralmente, se dá no Ou- e ao Inverno boreais, respectivamente.
tono e o mínimo na Primavera. Este A figura 8, relativa às épocas do tri-
regime pluViométrico decorre do se- mestre mais chuvoso, fornece maiores
guinte: no Outono, além da incidência detalhes a este respeito.
de chuvas de oeste de IT da mEc ser
um pouco maior que no Verão, estas Deste ritmo estacionai da precipitação
chuvas se combinam com as chuvas de resulta que apenas uma porção rela-
norte da ClT, que no Outono, possuin- tivamente pequena do território da
do uma posição média mais meridio- Região Norte do Brasil não possui se-
nal, atingem mais freqüentemente as quer 1 mês seco. Trata-se do setor cen-
áreas setentrionais da Região Norte. tro-ocidental da Região e do pequeno
Ao contrário, na Primavera as corren- núcleo em tomo de Belém, capital do
tes perturbadas de N (ClT) acham-se Pará.
muito deslocadas sobre o Hemisfério
Norte e raramente descem ao Hemisfé- A inexistência de seca no setor centro-
rio Sul, ficando a Região Norte na de- ocidental é uma decorrência de chu-
pendência quase que exclusiva das vas abundantes do sistema de W du-
chuvas de oeste de IT que nesta época rante o Verão, Outono e Primavera, e
do ano começam a rarear ao norte da associação destas com as chuvas do
daqueles paralelos. sistema de circulação N no Outono e
Inverno, ao norte, e dos sistemas de W
Ao sul dos referidos paralelos o má- e S no Inverno, ao sul. A inexistência
ximo pluviométrico se dá no Verão e o de seca em Belém, encrustada numa
ÉPOCAS DA PRECPITA(:Ao MAxiMA EM
3 MESES CONSECUTIVOS
, p r • - FtG8

área onde o período seco dura de um sistema de W, durante o inverno bo-


a dois meses, decorre, certamente, de real, e da constância dos alísios de NE
influências locais, cujas causas estão do anticiclone dos Açores, durante a
ainda por serem pesquisadas. Primavera boreal, época em que a CIT
está mais freqüentemente ao sul de
Em tomo destas áreas, sem seca, exis- Roraima (Outono austral). A. ~ste res-
te uma estreita faixa que, embora não peito lembramos que em virtude da
apresentando um mês seco sequer, seu depressão equatorial ( CIT) estar si-
minimo pluviométrico estacionai é tão tuada, em media, mais perto de 5° Lat.
sensível a ponto de detenninar uma norte do que do equador geográfico,
estação subseca. • e de possuir no continente americano
uma orientação NE-SW, apenas o Ter-
Excluindo estas áreas, todo o restante ritório de Roraima está mais sujeito
do território regional possui, normal- à influência direta dos sistemas de cir-
mente, um período caracteristicamente culação tropical do Hemisfério Norte
seco de pelo menos um mês. Dentro do que dos sistemas do Hemisfério Sul.
deste território existe uma área bas- Ainda sobre o leste de Roraima, cha-
tante extensa cuja seca se prolonga por mamos atenção, por estar esta área
três meses. Trata-se do já citado "cor- compreendida na depressão topográfica
redor" central, menos chuvoso, que se da bacia dos altos cursos dos rios
estende de Roraima ao sul do Pará, Branco, Essequibo e Corantyne, para a
onde há uma rarefação de chuvas dos dissecação adiabática do ar que certa-
sistemas de W e de N, motivada por mente deve concorrer para o prolon-
certa constância de uma dorsal de a1ta. gamento de 4 a 5 meses secos af exis-
Através do Estado de Mato Grosso tentes.
este "corredor" se liga a Rondônia e
sudeste do Acre, onde também ocor- Outra área de 3 meses secos é repre-
rem 3 meses secos, por se tratar da sentada pela foz do rio Amazonas,
periferia meridional da Amazônia.
onde, na primavera austral, estando a
Neste "corredor", o leste de Roraima CIT freqüentemente muito ao norte
possui 4 a 5 meses secos, decorrentes no Hemisfério Boreal, as chuvas do sis-
sobretudo da rarefação de chuvas do tema de N são raras e as do sistema de

50
DESVIO PLUVIOMtTRICO MÉDIO ANJAL
EM RELACÀO À NORMAL (•t.)
'.

W são pouco freqüentes. Esta área se dinâmica costuma apresentar compor-


estende pelo Maranhão, já fora da Re- tamentos bem distintos, quando com-
gião Norte. A distribuição e extensão parada de um ano para outro. Disto
das diferentes áreas com a duração e resulta que os totais pluviométricos
época de seus períodos secos, está re- em cada ano estão sujeitos a valores
presentada na figura 11. bem distintos, podendo se afastar gran-
demente dos valores nomu:zis.
Esclarecemos, contudo, que o período
ou estação seca na Amazônia não se Na Região Norte do Brasil a média
caracteriza por secas muito intensas. dos desvios pluviométricos anuais, po-
Pelo contrário, durante tais secas ocor- sitivos ou negativos, em relação às nor-
rem normalmente dias de chuva, _al- mais é, em sua maior parte, superior a
gumas até relativamente intensas, po- 15%. Em outras palavras, os valores
rém sua insuficiência ecológica é o pluviométricos de um ano para outro
bastante para caracterizar a existência variam em média de 15% a mais ou a
de um curto período ou estação seca. menos do total médio representado
Isto é tanto mais verdadeiro nas áreas pela normal, conforme pode ser veri·
de 1 a 2 meses secos. Porém a área de ficado na figura 9.
4 a 5 meses secos do leste de Roraima
possui, normalmente, uma seca muito Entretanto, por se tratar de desvios
forte. médios, sua importância reside apenas
no fato deles indicarem a tendência
das variações: as áreas de maiores
3.1 - Desvios Pluviométricos desvios médios são aquelas mais sujei-
tas, em determinado ano, a maiores
Anuais em Relação às desvios efetivos, e estes costumam ser
Normais5 bem superiores aos indicados pelos des-
vios médios. Em determinados anos,
O mecanismo atmosférico nas reg10es certos locais ou áreas da Região Norte
tropicais se caracteriza, sobretudo, por recebem urna quantidade de chuvas
sua notável irregularidade, isto é, sua de cerca do dobro da normal.

51
.
DESVIOS PLUVIOMETRICOS EFETIVOS

1918 1919

{c) ( D)

1914 1938

OlvEd/0- ..I.A.C. Fig.IO

I ., , I DESVIOS POSITIVOS I DESVIOS NEGATIVOS


I - I
FONTE : ATLAS PLUVIOMETRICO DA DIVISAO DE AGUAS- D N P M

Outra característica dos desvios plu- vários anos, enquanto o setor norte
viométricos, nessa Região, é a sua ex- apresentou desvios positivos, o setor
trema complexidade; entre 1914 a sul registrou desvios negativos, ou vi-
1938 não se registrou um ano sequer ce-versa. As figuras 10A e B, relativas
em que a totalidade.do território apre- aos anos de 1918 e 1919, são exemplos
sentasse os meSm~s desvios: positivos deste fato. Os limites do contacto en·
ou negativos. Em cada ano extensas tre o setor de desvios opostos passa
áreas registraram desvios positivos, ao geralmente na faixa de menores des-
lado de outras áreas com desvios ne- vios médios da figurà 9.
gativos, muitas vezes bastante afasta-
dos do índice zero. Esse caráter oposto no comportamento
dos desvios num mesmo ano se deve,
Entretanto, apesar desta complexida- como vimos, à existência-de três siste-
de, é possível reconhecer uma certa mas de circulação perturbada semi-in-
freqüência de opasição de desvios en- dependentes. Disto resulta que em de-
tre o setor norte e sul da Região: em terminados anos, enquanto o sistema

52
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DIFERENOACCES QJMÁT1CAS
riG 11

de circulação N faz precij>itar chuvas 4 - PRINCIPAIS


abundantes, isto não signüica, necessa-
riamente, uma simetria com os outros DIFERENCIAÇÕES
sistemas de circulação perturbada. Os CLIMÁTICAS6
desvios ao norte da Região estão prin-
cipalmente na dependência do siste- Levando-se em conta o regime de tem-
ma de norte, enquanto que ao sul de- peratura, toda Região Norte possui
pende do sistema de W e S. Os anos Clima Quente, uma vez que todos os
em que toda Região ( excessão a res- meses se mantêm com temperatura
tritas áreas) apresenta desvios negati- média superior a 22<>C. ~ bem verdade
vos ou positivos decórre da reciproci- que as áreas meridionais dessa Região,
dade entre esses sistemas. Estes raros especialmente o sudoeste, costumam
anos estão representados nas figuras registrar bruscos e fortes declínios de
lOC e D, relativos aos anos de 1914 e temperatura no inverno, após a inva-
1938, respectivamente. são de poderoso anticiclone polar. Po-
rém, em virtude das constantes tem-
Disto resulta que a duração dos perío- peraturas elevadas, estas situações, tão
dos secos na Região Norte está sujeita raras, não chegam a afetar de modo
a importantes flutuações da maré plu- significante as médias mensais ao pon·
viométrica anual. Nos anos de fortes to de determinar um novo domínio cli-
desvios positivos pode desaparecer o mático.
período seco, pelo menos nas áreas
cuja no1'11UJl não excede a 3 meses se- Entretanto, levando-se em conta o re-
cos, enquanto que nos anos de fortes gime de umidade ou, mais especifica-
desvios negativos toda Região está su- mente, a exist~ncia ou inexist~ncia de
jeita à seca, inclusive aquelas áreas seca e o regime ~ duração dos perío-
onde a nomu.Jl indica que a seca é dos secos, verificamos que este domí-
inexistente. Nestes anos, as áreas de 3 nio de clima qãente possui áreas bem
meses secos, em média, devem ter seu diferenciadas que determinam quatro
período seco bem mais prolongado. subdomínios climáticos: a) superúmido
( Figs. lOA,B,C,D). sem seca (área ocidental da Amazônia
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e Belém, capital do Pará); b) superú· ção atmosférica que lhes dão origem,
mido com subseca (periferia dessas verificamos que o clima superúmido
áreas); úmido com 1 a 2 meses secos (sem seca ou com subseca) é carac·
(maior parte do nordeste do Pará e teristicamente equatorial, passando a
do Amapá); c) úmido com 3 meses se· tropical nas áreas de clima úmido
cos (amplo corredor que se estende (com 1 a 2 meses ou 8 meses secos)
de Roraima ao sul do Pará, além de e de clima semi-úmido (com 4 a 5 me·
Rondônia e leste do Acre) e d) semi- ses secos ) . Verificamos ainda que
úmido com 4 a 5 meses secos (leste tanto no clima equatorial como no
de Roraima) . tropical os paralelos de 2 a 5° Sul di-
Considerando a marcha estacional de videm a Região Norte em duas zonas:
precipitação e os sistemas de circula- ao sul o máximo pluviométrico se dá

DOMlNIO CLIMÁTICO Subdomínios Variedades Climáticas Tipo


Climáticos

Sem seca
Superúmido Equatorial
Com subseca
QUENTE
De 1 a 2 meses secos
Omido
De 3 meses secos Tropical
Semi-úmido De 4 a 5 meses secos Tropical

54
no Verão e o mínimo no Inverno ( re- cas hídricas verificamos que a Amazô-
gime característico do Brasil Cenrral); nia possui numerosos fáCies cuja dis-
enquanto que ao norte o máximo se tinção varia desde a inexistência de
verifica no Outono e o mínimo na Pri- mês seco até a existência de 5 meses
mavera (regime característico da zona secos. Entretanto, a delimitação geo-
equatorial sul-americana). ( Figs. 11 e gráfica dessas variedades climáticas
12). fica muito prejudicada pela rarefação
de postos de observação meteorológi-
Considerando em conjunto os regimes ca nesta Região. Uma das áreas mais
térmicos e pluviométrico, ou seja: a prejudicadas pela quase inexistência
média compensada do mês mais frio; de postos meteorológicos refere-se ao
a existência ou não de seca; a dura- citado "corredor" menos úmido, es-
ção dos períodos secos; a marcha esta- tendido de Roraima ao sul do Pará,
cionai da precipitação e os sistemas de passando pela chamada zona do mé-
circulação atmosférica, · chegamos ao dio Amazonas. Neste "corredor" reco-
quadro climático ( Pg 54) da Região nhecemos a existência de diversos lo-
Norte. 7 cais de clima sensivelmente menos
úmido com 4 a 5 meses normalmente
secos. Outros locais ou áreas semi-úmi-
CONCLUSÕES das seriam, por certo, delimitadas, não
fora a ausência de postos. ( Fig. 13).
1.0 - A Região Norte enquadrada na 3.0 - Enrretanto, não resta dúvida que
Amazônia é, juntamente com a Re- a Região Norte do Brasil, embora não
gião Sul, a de maior homogeneidade e abarcando toda a Amazônia, constitui-
unidade climática do Brasil. -se na mais extensa Região de clima
quente superúmido, ou úmido, do
2.0 - Sua homogeneidade e unidade mundo.
são tanto mais evidente em se tratan-
do da distribuição da temperatura, po- 4.0 - Por diversos motivos, o clima da
rém tratando-se de suas característi- Amazônia tem permanecido como um

...

IDENTIFICACAO DOS POSTOS


F'IG 13 METEOROLóGICOS
t o:> . . .. . . ..
... ...

55
dos menos conhecidos. Isto tem gerado metros descem brusca e sensivelmen-
uma série de conceitos parcialmente te, atingindo, não muito raramente, nas
incorretos e até mesmo falsos de suas situações de friagens, 18 a 14°C nas
propriedades climáticas . entre 14 a 100C no Acre, em Rondônia
e no norte de Mato Grosso. Nestas
Por exemplo, em pretender encontrar áreas o termômetro já desceu a 4°C
uma analogia entre o clima da Amazô- nas superfícies baixas e a OOC nas su-
nia e o clima guineense do critério perfícies elevadas da chapada dos Pa-
classificatório de E. de Martonne, ao recis. Estes fatos nos permitem dizer
qual este autor denominou de cli- que o clima da Amazônia é quente du-
ma do tipo equatorial (de acordo com rante quase todo ano, porém, no Inver·
conceitos tradicionais), reside parte no, há uma sensível diminuição da
dos motivos que têm levado à disper- temperatura em largas extensões de
são de imperfeições conceituais sobre seu território durante poucos dias.
o clima da Amazônia: enquanto na
Guiné (bacia do Congo) o ritmo esta- A respeito ainda do clima da Amazô-
cionai da precipitação se caracteriza nia muito já se discutiu e tem-se ain-
pela existência de dois máximos equi- da discutido, através de livros, revis-
nociais bem definidos, na Amazônia, tas e jornais, a respeito de sua possí-
somente as latitudes muito próximas vel "impropriedade" à civilização. Ale-
do equador possuem duplo máximo, gam alguns que a Amazônia, por ser
porém o máximo secundário, além de região úmida e quente, tem um clima
ser de muito pouca significâ.ncia, não "insalubre", opondo-se, por isso, ao es-
ocorre no equinócio; enquanto na Gui- tabelecimento de uma civilização pro-
né não há, a bem dizer, uma estação gressista. Entretanto, os índices de
seca, em quase toda a Amazônia há crescimento e desenvolvimento da
um apreciável declínio de chuvas na Amazônia, principalmente neste úl-
Primavera austral, nas latitudes próxi- timos 10 anos, quer no setor demo-
mas ao equador e, no Inverno, nas la- gráfico (pelo crescimento vegeta-
titudes mais afastadas desse paralelo. tivo e fluxo migratório, pela alfabeti·
· Deste declínio resulta que quase toda zação e elevação do poder aquisitivo
a Amazônia possui, pelo menos, um de sua população) quer no setor eco-
mês seco e em largas extensões de seu rnlmico (pelo crescimento do número
território existe, em média, 3 meses se- de proprietários rurais, aumento da
cos, além do registro normal de 4 a 5 produção agropecuária e multiplica-
meses secos em Jloraima. ção de empresas industriais), quer no
setor urbano (com dois grandes cen-
Outro importante conceito amplamen- tros urbanos, Manaus e Belém, em ace-
te divulgado é de que o clima da Ama- lerado crescimento, transformando
zônia é constantemente quente, sem Belém numa metrópole regional), de-
que suas temperaturas apresentem im- monstram que a "insalubridade" do
portantes variações durante o ano. O clima da Amazônia não representa ne-
estudo da sucessão dos tipos de tem- nhuma impropriedade ao desenvolvi-
po, no entanto, indica nitidamente que mento sócio-econômico desta Região,
este fato só é verdadeiro se se referir especialmente quando o Governo cria
à planície ao longo do rio Amazonas, uma firme e duradoura política de
porém não é menos verdade que du- apoio e incentivos, visando à integra·
rante o inverno, em vasta área do su- ção desta vasta Região geográfica no
doeste da Amazônia, são freqüentes processo de desenvolvimento nacional,
as penetrações de frentes frias de ori- agora definitivamente implantado com
gem polar, ocasião em que os termô- a Rodovia Transamazônica. 8

56
NOTA S DE REFER~NCIA S

1 As linhas ou "setas" que aparecem neste esquema representam as áreas onde a freqüência
daquelas correntes Perturbadas são significativas. A maior densidade das linhas exprime maior
freqüência no fenômeno.

Esquematizamos estes sistemas circulatórios baseados em observações diretas re.alizadas em car·


tas sinóticas elaboradas pelo Deprtamento Nacional de Meteorologia, do Ministério da· Agri·
cull!lra e na leitura sobre diversos trabalhos realizados por Adalberto Serra, dentre os
quaiS destacamos as obras 5 e 6 indicadas na Bibliografia. Para maiores detalhes a respeito da~
massas de ar, fonte de origem, transformação de estrutura e propriedades da frente polar,
ao longo de sua trajetória até alcançar as baixas latitudes, bem como de outros sistemas de
circulação perturbada, v. ref. 2 da mesma Bibliografia, bem como o artigo de nossa autoria:
Climatologia da Região Sudeste, Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, LBGE -
Instituto Brasíleiro de Geografia, J1 (4): !-30; outj dez. 1972.

2 Os valores térmicos deste estudo são relativos às normais até 1942.

8 Cumpre dizer que, em virtude da variação entre a temperatura do dia e da noite na


zona de latitudes baixas ser muito sensível àqueles fatores acima citados, é natural espeur
que este fenômeno se comporte de modo muito diferente no interior da Amazônia. Riehl
(1954) diz que uma tão extrema variedade, mesmo dentro de pequenas distâncias, "ilustra
o lugar importante que o clima local ocupa na meteorologia tropical", op. cit., p. 104 .

• Para a determinaçllo de seca adotamos a fórmula P < 2T de Gaussen e Bagnouls (1953).


Estes autores, com base em trabalhos de ecologia vegetal, consideram seco aquele mês
em que o total das precipitações em millmetro (P) é igual ou ·inferior ao dobro da tem-
peratura média em graus celsius (T). Nas áreas que nllo possuem período seco aplicamos
a fórmula P < 3T, de Walter e Lieth (1960), determinante de estação subseca.

G t através dos desvios que medimos a irregularidade dos totais pluviométricos por meio
de uma série de anos, ou seja quantificamos a variabilidade do regime de chuva. Neste estudo
tomamos por base os índices pluviométricos médios, isto é, normais. Se ao fim de determi·
nado ano as precipitações acumuladas atingiram um índice superior ao índice médio, o desvio
foi Positivo; se ele, ao contrário, esteve abaixo do tndice médio, ou seja, da normDI, o desvio
foi negativo. No mapa, (Fig. 9) estlio traçádos as isaritmas de desvio médio em relação à
normal, e por se tratar de média de um longo período de anos consecutivos, seus desvios
possuem a conotação simultânea de positivos e negativos.

e Antes de passarmos às diferentes categorias de climas da Região Norte, torna-se indis·


pensável alguns esclarecimentos. Não adotamos para esse fim nenhum critério classificatório
tradicional. Este comportamento permite ao climatologista selecionar os aspectos cliJnáticos
mais importantes, estabelecendo limites índices expres.,ivos em determinada região. Deste
modo, o climatologista não apenas foge dos enquadramentos preestabelecidos pelos critérios
tradicionais como ainda pode utilizar parcialmente diversos critérios de diferentes autores,
naquilo que lhe parece signiíicativo. Por exemplo, no critério classificatório aplicado nesta
pesquisa usamos do critério de Kõppen a média de 18°C para o mês mais frio como limite
entre os climas quentes (mais lSOC) e subquentes (menos ISOC) , embora o referido autor,
como sabemos, utilizasse essa isoterma mensal como limite entre os climas "tropical" e
"temperaM". Da mesma forma, utilizamos o critério de Gaussen e Bagnouls (1953) no
que diz respeito à determinação de mê.> seco, bem como das isotermas mensais de 15° e 1()0{;
do mb mais frio como limite entre os climas subquentes (18° a l5°C), mesotérmico brando
(15 a lOOC) e mesotérmico mldio (10 a O<>C), embora com denominações diferentes daquelas
utilizadas por esses autores.

Os outros aspectos aqui abordados foram estabelecidos de acordo com aspectos e índices
considerados expressivos na climatologia da Região Norte. Assim é que a consideração de
climas superúmidos, úmidos, semi-úmidos, semi-dridos e desérticos, com suas diversas varie·
dades: suPerúmido (sem seca ou com subseca) , úmido (com I a 2 ou 3 meses secos), semi-
tlmioo (com 4 a 5 meses secos), semi-drido brando (com 6 meses se«lS), mediano (com 7 a
8 meses secos), forte (com 9 a 10 meses secos) , muito forte ou subdesértico (com 11 meses
secos) , e desértico (com 12 meses secos), está baseada na relação existente entre esta seqüên·
cia e a· vegetação natural. No Brasil (com exceção de algumas áreas da Região Sul), a ausência
de seca está sempre relacionada às áreas florestais; a existência de 1 a 2 meses secos é quase
sempre acompanhada de ·florestas, e as áreas de 3 meses se1:os estão relacionadas às áreas
de transiçllo onde, na maioria das vezes, aparecem Florestas Semidedduas, enquanto que as
áreas de 4 a 5 meses secos se relacionam quase sempre com o Cerrado. Enquanto isso, as áreas

57
com 6 ou mais meses secos estão relacionadas à Caatinga predominantemente arbórea ou de
transiç5o, as de 7 a 8 meses à Caatinga predominantemente arbustiva e a de mais de 9 meses,
à Caatinga herbácea, sendo tanto mais rala nas áreas de 11 meses secos.

A adoção deste critério permite ainda introduzir na climatologia tradicional de determinada


regi:lo conhecimentos relativos à Climatologia dindmica (climatologia moderna) sempre que
for possível. Este último comportamento também norteou este estudo. Dele deriva o conceito
de climas tropicais, temperados, etc.

7 No mapa que, referente à figura 7, estão idéntificados os postos meteorológicos utilizados no


mapa sobre Diferenciações climdticas, Fig. 11. O número que aparece ao lado refere-se à
altitude em que está situado cada posto.

8 Este estudo realizado no Setor de Climatologia da Divisão de Pesquisas Sistemáticas do


DEGEO contou j;Om a colaboração dos estagiários Ana Maria de P. M. B'andão e Arthur
4.'. Pinheiro Filho.

BIBLIOGRAFIA

I. GAUSSEN, H. & BAGNOULS, F. Saison Seche et lndice Xerothermique. Toulouse


(Faculté d~ Sciences), I95S, 47 p. il.

2. NIMER, Edmond. Climatologia da Regi:lo Sul do Brasil. Introdução à Climatologia


Dinâmica. Subsídios à Geografia Regional do Brasil. Revista Brasileira de Geografia,
Rio de Janeiro, gg (4): S-65, out.jdez., 1971.

5. RlEHL, Herbert. Tropical Meteorology. N~w York, McGraw Hill, 1954, S22 p. il.

4. SERRA, Adalberto & RATISBONA, Leandro, As ondas de frio da Bacia Amazônica.


Boletim Geogrdfico, Rio de Janeiro, S (~6): 172-207, maio, 1945, il.
5. - - . Chuvas de Primavera no Brasil. Chuvas de J'erilo no Brasil. Chuvas de Outono
no Brasil. Chuvas de Inverno no Brasil. Rio de Janeiro, M. Agricultura - Seniço de
Meteorologia, 1960, 244 p. il.
6. - -. O prindpio da Simetria. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, 24 (!):
877-439, jul.fset. 1962, il.
7. WALTER, H. 8c: LIETH, H. Klimadiagram. In: Weltatlas, Jena, Veb. Gustav. Fischer
Verlaf, 1960, 80 p. il.

58
INTRODUÇÃO

A Região Norte é o domínio da Flores-


ta Latifoliada Perene. Floresta denomi-
nada por Humboldt de "Hiléia", cujos
limites ultrapassam o Território Brasi-
leiro e avançam pela Guiana Francesa,
Suriname, Guiana, Venezuela, Colôm-
bia, Peru, Equador e Bolívia. Esta
imensa área florestal é atravessada
quase no sentido dos paralelos pelo
amplo vale do Amazonas, eixo da maior
bacia fluvial do mundo.
~ atribuída ao clima quente e úmido
da Região a presença da floresta densa
e sempre verde. Esta característica
climática não produz, entretanto,• a ho·
mogeneidade que à primeira vista é
sugerida. Variações locais de clima e,
sobretudo, mudanças topográficas e de
solo, são responsáveis pelo desenvolvi-
mento de tipos diferentes de floresta
e até mesmo de tipos de vegetação não
florestal que, em manchas de tama-
nho variado, se espalham pela Região. 1
VEGETAÇÃO Recobrindo cerca de 90% da área são
EDGAR KUHLMANN encontrados os seguintes tipos flores-
tai.s:
a) Floresta Perenifólia Higrófila Hi-
leiana Amazônica (que corresponde à
mata de terra firme);
b) Floresta Perenifólia Paludosa Ri-
beirinha Periodicamente Inundada
(mata de várzea);
c) Floresta Perenifólia Paludosa Ri-
beirinha Permanentemente Inundada
(mata de igapó);
d) Floresta Subcaducifólia Amazô-
nica.

Os tipos não florestais são representa-


dos por:
e) Cerrado;

f) Campos;

g) Complexos de Roraima, Cachim-


bo e Xingu;
h) Vegetação Litor!nea.

59
Esta grande variedade de tipos de ve- -fn~~;:mento do solo, pelo processo de
getação, dentro de uma área climática se · entação. Já nas várzeas de igapó,
relativamente homogênea, não tem si- como bem acentua Sioli ( 1951), as
do satisfatoriamente explicada até ho- águas quase destituídas de sedimentos
je. A própria flora amazônica é com- têm uma ação erosiva, determinando
partimentada dentro de cada tipo de um contínuo rebaixamento do solo e,
vegetação. Ducke e Black ( 1954 ), ao conseqüentemente, aprofundando cada
estudarem a distribuição do gênero vez mais a área alagada X'
Hevea, mostram a nítida separação
existente entre as áreas de ocorrência Segundo Ducke e Black (1954), os
de Hevea brasiliensis e Hevea bentha- solos são responsáveis pela presen-
miana, a primeira ocorrendo na mar- ça de pequenas manchas de vegetação
gem direita do Amazonas, enquanto a extraflorestal dentro da Hiléia, enquan-
outra tem sua área geográfica limitada to as áreas maiores de vegetação não
à margem esquerda. Em poucos luga· florestal resultam da ação combinada
res as áreas das duas espécies se su- de solo e clima. Afirmam estes auto-
perpõem. A própria Hevea brasiliensis, res que nestas últimas o Verão é mais
que é a espécie produtora do melhor quente e seco que nas terras vizinhas
e do mais farto látex, varia sua qua- da mata. A observação quanto à atua-
lidade de acordo com a localização no ção do clima foi posteriormente con-
estuário ou nos altos cursos. firmada por Marília Calvão (1967),
que em seu mapa das Regiões Bio-
O caboclo da Amazônia, segundo
climáticas do Brasil inclui as áreas do
Raymundo Moraes ( 1960), descreve o
solo pelos vegetais que nele medram. leste da ilha de Marajó, o nordeste
A ele devemos uma classificação dos de Roraima, e regiões de Obidos e
tipos de flor:esta, segundo se encontra Alto Madeira no clima termoxeroqui-
em terra firme, em várzea ou igapó. mênico atenuado, característico das
"Mas os vegetais, pela gama e pelo áreas de Cerrado.
porte, ~las folhas e pelos troncos, A crença de que a vegetação não flo-
através de indivíduos e de espécies, restal da Amazônia se origina pela
indicam e precisam a ondulação e a ação do fogo é contestada. "Certos au-
estrutura da gleba, que vai das bai-
tores atribuem a origem desses espaços
xadas aos firmes, dos firmes aos plaMs, abertos à ação do fogo; isto, no entan-
dos platôs aos cimos se"aDQs - indi-
to, não é verdadeiro. Campos e campi-
cam e precisam também o gênero das
nas naturais, muitas vezes separados
águas, desdobradas em alagadiços nos
igapós, em lençóis nas lagoas, em cau- por centenas de quilôme.tros de mata,
possuem flora e fauna radicalmente di-
dais nos cursos dos rios, em caminhos
versas das dà mata virgem vizinha ou
nos igarapés", cf. Morares, v. ref. 51
secundária, e têm em comum muitas
na Bibliografia.
espécies nunca observadas em outros
Ao atribuir-se aos tipos de solos a lugares da Região", ap. Ducke e Balck
maioria das variações ou gradações da (1954), Hueck (1972) et al.
vegetação amazônica, evidencia-se a Ab'Saber ( 1966) situa a Hiléia Ama-
notável influência da topografia. ~ zônica no domínio dos tabuleiros c
esta que, em realidade, vai determinar baixos platôs equatoriais florestados,r
a natureza físico-química dos solos
nos 1-lrmes e nas várzeas. Nos 1-lrmes a que se opõe ao domínio dos chapadões
'" ,. recobertos de Cerrados e ao domínio
presença da água é condicionada pelas das pediplanos interplanálticos ceves-
chuvas e. r:la _umidade atmosférica, tidos por Caatingas (Nordeste do
onde a lwVlaçao se processa com B .1)
· ou menor m
mator · tenst'dad e, d e acord o rast ·
com a maior ou menor permeabilidade '[Separando estes domínios existem fai-
do solo. Nas várzeas de sedimentação xas de transição proporcionadas por
a água telúrica é constante e contribui estruturas topográficas variadas, con-
nos rios de águas amarelas para o en- tinuação dos "mares de morros" fio- •

60
restados, dos chapadões centrais reco- Outra característica destas áreas de
bertos por Cerrados e penetrados por vegetação extra-hileiana é o seu com-
florestas galerias e das áreas das de- pleto isolamento das áreas típicas do
pressões intermontanas pediplanadas Cerrado no Centro-Oeste brasileiro e
ocupadas pela Caatinga. Este autor dos "li anos" da Venezuela ( chapar-
considera que a área nuclear do do- rales).
mínio morfoclimático amazônico é ca-
racterizado por uma área contínua de Hueck ( 1972) assim coloca o pro-
terras baixas sedimentares, tais como blema: "Muito menos podemos acei-
tabuleiros, colinas e planícies, tempe- tar o fogo como responsável pelo de-
raturas médias elevadas, pequena am- senvolvimento dos Cerrados no interior
plitude média anual, alta nebulosida- da Hiléia. Parece ser impossível que
de e precipitações abundantes e relati- sob as condições atuais as sementes de
vamente bem distribuídos. Exclui da árvores do Cerrado possam ter atraves-
área nuclear amazônica tipos de ve- sado centenas de milhas através das
getação até então considerados do do- densas matas pluviais do Amazonas,
mínio amazônico, como a vegetação da para poder se fixar em lugar da mata
pluvial, em pequenas áreas desmata-
serra do Cachimbo e outras áreas si- das pelo homem. Assim, as ilhas de
tuadas nas grandes faixas de transi- Cerrado na Hiléia não podem ser con-
ção. sideradas como os primeiros avanços
Algumas considerações devem ser fei- de uma vegetação em dispersão, mas
tas a propósito da ocorrência de vege- sim como os restos de uma cobertura
tação extrafloresta] dentro da área vegetal com distribuição mais ampla
core da floresta pluvial amazônica
no passado, que não está adaptada
stricto sensu. Estas verdadeiras "ilhas" para as condições climatológicas e eco-
lógicas atuais e que está sendo sufo·
de vegetação extraflorestal ou mesmo cada pela pujante mata pluvial amazô-
florestal, mas fisionômica e floristica- nica.
mente diferente da floresta pluvial
típica, podem estar ou não relaciona- ~Muitas das espécies mais importantes
das com a vegetação de áreas extra- do Cerrado são caracterizadas por seu
amazônicas. aspecto muito semelhante, apesar de
pertencerem a famílias muito diferen-
Entre os primeiros situam-se os cam- tes entre si. Têm a mesma altura de
pos firmes, tão ligados floristicamente tronco, copa de mesma aparência, cas-
aos Cerrados do Centro-Oeste brasilei- .ca de mesma espessura, e as mesmas
ro. A existência destas "ilhas" dentro formas de galhos retorcidos. Disto de-
da grande massa florestal amazônica corre o aspecto típico do Cerrado, que
constitui verdadeiro enigma para os nos permite distinguir imediatamente
fitogeógrafos .
a maioria das espécies do Cerrado das
Posta de lado por ser pouco convincen- espécies da Caatinga. Este f~:tto leva a
te e carente de provas a origem exclu- crer que o aspecto típico do Cerrado
siva destas áreas pela ação continuada é o resultado de um longo período de
de queimadas, parece que a teoria adaptação a condições ecológicas que
mais satisfatória é a que atribui a sua por muito tempo pouco ou nada se
origem à pobreza dos solos. modificaram. )(
Arens ( 1959) refuta as idéias que Considerando todos estes dados, não
atribuem à ação do fogo a origem dos podemos deixar de chegar à conclusão
Cerrados típicos, explicando-a pela po- de que os Cerrados são uma formação
breza dos solos em sais minerais. Po- vegetal natural. Explicar seu desen-
de-se admitir, desta forma, que tam- volvimento é mais um trabalho de fi-
bém as manchas de Cerrado e outros togeografia histórica que de fitogeo-
tipos não hileianos, "ilhados" na Re- grafia ecológica ou fisiológica. A úni-
gião Norte, correspondem também à ca explicação satisfatória que encon-
ocorrência de solos pobres. tramos é que parecem ser rélitos de

61
wna formação vegetal outrora mais Em conclusão:
extensamente distribuída, que tinha,
ou ainda tem, seu centro de dispersão a) a vegetação extra-hileiana teve uma
no Brasil Central. Podemos imaginar área bem maior do que a atual;
que esta vegetação pode atingir mui-
b) ela teve origem e expansão em épo-
to além do seu centro de distribuição
ca de clima mais seco;
em condições climatológicas distintas
das atuais, e podemos igualmente acre- c) ela era bastante diversificada,
ditar que depois de uma nova mudança abrangendo Campos Limpos, Cerrados
climatológica, para a qual existem ou- e tipos xeromórficos.
tras provas, as ocorrências marginais
de Cerrados tenham sido eliminadas d) ela se mantém em locais em que
pela vegetação vizinha, permanecendo as condições de topografia e solo se
então como ilhas dentro dos novos ti- aproximam daquelas do Planalto Bra-
pos de vegetação, enquanto o centro sileiro (chapadas com solos profun-
do Cerrado (Minas Gerais, Goiás e Ma- dos, arenosos, pobres em elementos
to Grosso) permaneceu inalterado", cf. minerais).
Hueck, ref. 44 da Bibliografia. e) os campos de várzea, campinara-
nas ou outro qualquer tipo de vegeta-
Esta opinião do autor coincide em
ção de terras baixas alcançadas pelas
grande parte com a de Ab'Saber.
enchentes anuais ou pelas marés não
Tudo indica que o quadro primitivo têm qualquer relação com as áreas rê-
da vegetação relacionado a um clima líquias.
mais seco abrangeria uma área muito Embora a flora e a vegetação da Ama-
mais extensa que a atual. Esta área, zônia já tenham sido estudadas de lon-
que abrangia quase toda a América do ga data por naturalistas de diferentes
Sul tropical e subtropical e o Caribe, ramos, notadamente botânicos, zoólo-
seria ocupada não somente por vege- gos e geólogos, poucas pesquisas foram
tação relacionada ao Cerrado como por realizadas diretamente por geógrafos.
outros tipos xeromórficos, dado a gran- Vários mapas da delimitação da flo-
de variedade de formas topográficas e resta amazônica foram publicados, sen-
conseqüentemente de habitats. Desta do eminentemente florlsticos, até fins
forma haveria continuidade entre a do século passado. Em 1907 Herman
área core do Cerrado situada no pla- Von Ihering publica o primeiro mapa
nalto, as terras baixas da Amazônia e de vegetação do Brasil, levando em
as demais áreas situadas no Planalto consideração a fitofisionomia.
das Guianas e vale do Orinoco. Com
o surgimento de um clima mais úmi- Lindalvo Bezerra dos Santos, em 1942,
do, as florestas que ocupavam apenas dá início à fase de estudos sobre vege-
o fundo dos vales foram, pouco a pou· tação realizados pelo então Conselho
co, ocupando áreas mais amplas em Nacional de Geografia. Em 1953, Lú-
detrimento das formações não flores- cio de Castro Soares empreende, com
tais. Estas foram sendo "ilhadas" em outros geógrafos do antigo Conselho
locais em que as condições de solo Nacional de Geografia, um trabalho
não permitiam o avanço da floresta. pioneiro em seu gênero no Brasil, esta-
No Sul do Brasil há evidências de um belecendo os prováveis limites da Flo-
crescimento da Floresta de Araucária resta Amazônica para fins de sua valo-
sobre as áreas de campo, cf. Hueck, rização econômica. Ele apresenta farta
ref. 44 da Bibliografia. Sem dúvida o documentação bibliográfica e cartográ-
problema da existência de "ilhas" de fica sobre flora e vegetação da Região
vegetação reliquia de um período mais Norte e áreas vizinhas. O mesmo autor,
seco está ainda no douúnio das espe- em 1953, relaciona os diversos natura-
culações, embora perfeitamente acei- listas que contribuíram até hoje para o
táveis. conhecimento botânico e fitogeográ-
fico da Amazônia e apresenta uma ma variedade de espécies e a dificul-
seqüência de mapas que mostram a dade de se aplicar métodos de traba-
evolução dos limites da floresta. lho que são apropriados para as co-
munidades menos complexas das re-
giões frias e temperadas. .€ por isto
, difícil se estabelecer os limites, pelo
1 -FLORESTA PERENIFOLIA menos aproximados, da floresta de ter-
HIGRÓFILA HILEIANA ra firme, podendo ser, na opinião de
Andrade Lima ( 1966), caracterizada
AMAZÔNICA (HILÉIA) pela presença da castanheira ( Bertho-
letia excelsa) e do caucho ( Castilloa
Muitas descrições que se fizeram da Ulei). Segundo Huber ( 1909), "a ma-
Floresta Amazônica traem o pouco co- ta de terra firme, quando intata, é
nhecimento que tiveram seus autores sempre mais compacta, de um verde
das suas verdadeiras características. escuro geralmente mais uniforme e os
Muitos a viram apenas nas margens dos seus elementos, extrema'tllente mais va-
rios, a bordo de alguma embarcação. riados, são confundidos em um conjun-
Entretanto, alguns percorreram-lhe o to orgânico bem harmonizado", ap.
interior e puderam desfazer as idéias Huber, ref. 43 da Bibliografia.
falsas ou errôneas, os tabus e os enga-
nos até então existentes sobre ela. Assim a descreve Le Cointe ( 1962),
"árvores de todos os tamanhos ele-
(Fig. 1). vam-se retiHneas, sem emitir ramos la-
Embora muitos botânicos tenham con- terais, a não ser a uma grande altura,
procurando antes de mais nada colo-
tribuído para um conhecimento bas- car sua fronde entre as de seus VlZl-
tante amplo de sua flora, a mata de nhos, a fim de receber também sua
terra firme tem sido pouco estudada parcela de ar e de luz. A seus pés,
sob o ponto de vista ecológico c fitos- poucas plantas herbáceas ou rasteiras
sociológico. Dificilmente poderia ter crescem do solo e, por entre os inú-
sido de outra forma. Somam-se às na- meros ramos que se elevam vertical-
turais dificuldades de acesso, a extre- mente e os gigantescos troncos larga-

Fif'. 1 - Tão logo a mata


pnmitiva seja cortada, a
maior incidência de lu2; em
sua borda contribui para o
desenvolvimento de plantas •
pioneiras e para a maior
prollleração de cipós.

68
mente espaçados, não é difícil abrir As subdivisões em floras locais são pro-
passagem; um facão de mato, de lâ- porcionadas em parte pelos totais de
mina curta, largo e pouco espesso, é chuva e de sua distribuição através do
suficiente para cortar as lianas impor- ano. A maior parte da Região recebe
tunas", ap. Le Cointe, ref. 46 da Bi· mais de 2.300mm por ano; algumas
bliografia. partes, como o baixo Amazonas, entre
Solo e chuva, segundo Ducke e o Trombetas e o Xingu e certos tre-
Black, são os principais responsáveis chos do Tapajós e médio Xingu, so-
pela divisão da Hiléia em pequenas flo- mente de l. 500 a 2. OOOmm.
ras locais, embora esta diversidade flo-
rística não se traduza sempre em mu- Os períodos de floração e frutificação
dança do tipo de vegetação. variam nas diferentes partes da Hiléia
conforme a distribuição da chuva du-
Na "terra firme" o solo de mata é em rante o ano. Em qualquer parte da
maior parte arenoso ou de argila plás- Região os frutos maduros são muito
tica, ambos ácidos e pobres, surgindo, mais abundantes na estação chuvosa
entretanto, áreas em que ocorre solo
(inverno) do que no "verão" seco ou
humo-silicoso profundo e fértil (terra
preta) bem como o "barro vermelho" mais ou menos chuvoso.
- um solo pardo-avermelhado, tam-
}>ém fértil. Neste último, que como a
"terra roxa", pareGe ser originário de 1.1 - Distribui~ão
rochas básicas, a flora é bem diferente
da que é encontrada em solos vizinhos De modo geral sua distribuição é limi-
mais pobres. Suas espécies arbóreas se tada pela presença do baixo platô ama-
caracterizam por possuir madeira mais zônico, ocorrendo no Estado do Pará,
mole do que as dos solos pobres. Estas excetuada a porção oriental da ilha de
manchas de solos vermelhos são encon- Marajó, ocupada por campos e man·
tradas nas proximidades de óbidos, gues e interrompida por algumas áreas
ao longo do baixo Trombetas, nas pro- campestres da margem do rio Amazo.
ximidades de Alenquer e Monte Ale- nas; nas porções norte e sul do Esta-
gre e ainda ao redor de Altamira no do, ocupados pela Floresta Subcaduci-
médio Xingu. fólia no Território do Amapá, excetua·
Embora sejam elevadas as temperatu- da a faixa litorânea campestre e de
ras e as taxas pluviométricas em quase mangues, cujos limites coincidem apro·
toda a Região Amazônica (climas axé- ximadamente com o meridiano de
ricos ), podem ser observadas algumas SOOW, porção noroeste do Território,
variações do índice xerotérmico, segun- domínio da Floresta Subcaducifólia; no
do a classificação adotada por Mari- Estado do Amazonas, excetuadas nu-
lia Galvão ( cit. p . 4) . Nos locais merosas manchas de campos que se es-
em que estes índices indicam menos palham por extensa área, situadas prin-
umidade deve ser considerada também cipalmente nos interflúvios Madeira-
a sua coincidência com o tipo de solo Puros e Madeira-Tapajós; e em quase
com pequena capacidade de retenção todo o Estado do Acre; no Território
de água. Dado a escassez de dades de Rondônia, excetuada a chapada dos
meteorológicos na Região Amazônica, Parecis, recoberta, em grande parte, por
há dúvidas se tais variações podem Campos Limpos e Cerrados e no Terri-
ser responsáveis pela diversidade de tório de Roraima na sua extremidade
aspectos florísticos e fisionômicos em sul.
outras áreas.
Estruturalmente pouca diferença exis-
A temperatura de toda a Região é per- te entre a Floresta Perenifólia Higrófila
manentemente alta, exceto o extremo Amazônica e a Floresta Perenifólia Pa-
sudoeste, onde em junho e julho ven- ludosa Ribeirinha, Periodicamente
tos fortes e relativamente frios sopram, inundada, que estudaremos adiante. A
por vezes, sem afetar a vegetação. diferença é sobretudo de natureza fio-

64
floresta de "terra firme", destacando- A maior riqueza em número de espé-
se o maior porte das árvores, troncos cies é encontrada nos estratos superio-
mais grossos, esgalhados, maior núme- res e o menor no estrato herbáceo, fa-
ro de cipós, maior número de espécies to comum à maior parte dos tipos flo-
que perdem as folhas nos meses mais restais latifoliados ao mundo, pois a
secos. Estas diferenças estruturais en· intensidade luminosa torna-se quase
tre "floresta de vár.zea" e de "terra nula do nível do solo até os 2 metros
firme" são mais acentuadas na parte de altura. Apesar disto o sub-bosque,
central e na oriental da Amazônia. Na compreendendo ervas, subarbustos e
parte ocidental várzea e terra firme. arbustos é denso e intrincado. Embora
wmo expressões topográficas se con- possuindo um menor número d~ espé-
fundem e, em conseqüência, também cies, os estratos intermediários apre-
a vegetação não apresenta muitas mu- . sentam variadas espécies, entre as
danças. quais predominam arbustos de folhas
largas e longas, como zingiberáceas,
Embora seja difícil determinar com musáceas, etc. A fraca iluminação dos
precisão o número de estratos, isto é, estratos inferiores é também responsá-
os diferentes níveis ou camadas predo- vel pela presença de um número con·
minantes de abóbodas foliares ou co- siderável de espécies escandentes, isto
pas, dentro deste tipo florestal, dado é, de cipós e de lianas que vão flo-
a grande variedade de espécies e, con- rescer e frutificar sobre as copas mais
seqüentemente, a grande variedade de elevadas, dando, desta forma, maior
exigências quanto à luz e outros fato- continuidade e densidade ao docel
res físicos, podem ser reconhecidos os
seguintes: herbáceo, subarbustivo, ar- foliar.
bustivo e arbóreo. ( Fig. 2). Os estratos arbóreos, com árvores
O estrato arbóreo é extremamente va- emergentes de maior porte, são consti-
riável, sendo considerados deste estra- tuídos de uma grande variedade de
to indivíduos de 6 a mais de 60 metros espécies. Poucas vezes os indivíduos de
de altu.ra. Há, portanto, dependendo uma mesma espécie se associam em
da área, vários estratos arbóreos. . grupamentos homogêneos, sendo esta

Fig. 2 - Mata de "terra


firme", destacando-se a va-
riedade de espkies e os
troncos retos, altos e fi.oos,
es~alhados apenas no topo,
refletindo a grande eompe-
tiçio pela luz em regiões
planas.

65
uma característica de toda a floresta cedrorana ( Cedrelinga catanaeformis),
equatorial e um dos empecilhos ao seu tracuá ( Phillodendron mynnecophi-
melhor aproveitamento econômico. lum).
Embora formado de árvores muito al- A leste da Amazônia, ou mais precisa-
tas, o estrato mais elevado está longe mente no Estado do Pará, incluindo
de atingir as dimensões das árvores praticamente todo o baixo Amazonas,
das florestas temperadas e mesmo da as espécies mais representativas são:
lndia e da África tropicais. A altura cedro-branco ( Cedrela huberi ), arapo-
média das árvores .situa-se entre 30 e ri ( Pogonophora schumburgkiana),
40 metros. Algumas árvores, excepcio- acapu ( Vouacapoua americana) , ba-
nalmente, ultrapassam esta altura, des- curi ( Platonia insigni.s ) , quaruba ( Vo-
tacando-se as espécies Dinizia excelsa, chysia max!ma), quaruba-azul (Qua-
árvore da família das leguminosas, que lea dinizi ), salsa ( Calliandra surina-
chega a atingir 60 metros de altura e mensis), salsaparrilha ( Smilax papy-
Ceárelinga catenaeformis, outra legu- racea), pau-rosa ( Aniba rosaedora),
minosa, com cerca de 50 metros de pente-de-macaco ( Apeiba rnacropeta-
altura. la), maçaranduba ( M imusops huberi),
inajá (Maximiliano regia), jacarandá-
branco ( Swartzia psilonema ), cupu-
açu (Theobroma grandiflorum), pau-
1.2 - Composição Florística pombo ( Tapirira guyanensis), tacará
Dado a enorme extensão da área, qual- ( Sterculia prueiens ou S. pilosa), et.
quer tentativa de estudo florístico será cat. ~ um tanto controvertida a dis-
incompleta. Mesmo porque, em algu- tribuição da seringueira ( Hevea brasi-
mas áreas, notadamente as do alto liensis e H. benthamiana). Para
Amazonas, muitas espécies de terra
firme são comuns a outros tipos.
(Fig. 3).
Miguel de Bulhões cataloga as seguin.
tes espécies comuns a toda a área de
terra firme: angelim ( Dinizia excel·
sa), ucbi-pucu ( Saccoglotis uchi ), mu-
rici-da-mata ( Byrsonima crispa), mum-
baca (Astrocoryum mumbaca}, su-
maúma (Ceiba pentandra), timbó-
venenoso ( Derris floribunda), acariu-
ba ( Minquartia guianensis), pajurá-da-
mata (Parinarium montanum) , baca-
ba-açu ( Oecocarpus bacaba), pau-de-
jangada ( Apeiba tibourbou), periqui-
teira ( Cochlosperma orínocense ), cau-
cho ( Castilloa Ulei), quina ( Ogcodeia
amara e O. oenosa), sapupira-da-mata
( Bowdichia nítida), tamboril ( Entero-
lobíum maximum), escada-de-jaboti
(Bauhinia sp.), timbó-da-mata (Der-
ris guyanensis), guaraná ( Paullinia
cupana ), batatão-amarelo ( Operculi-
na pterodos ), cebola-brava ( Clusia
insignis ), castanha-do-pará ( Berthcl-
letia excelsa), angelim-pedra (H yme-
nolobium petraeum), caju-açu (Ana-
cardium giganteum), pequiá ( Caryo- Fig. 3 - A castanheira BertboUetia excel-
sa) ~ uma das maiores árvores da Ooresta de
car villosum), tarumá-da-mata (Vitex tena firme. O exemplar da foto tem cerca
tríflora ), tento ( Ormosia paraensis), de 38 metros de altura.

66
Duclce e Blaclc ( 1954) as seringuei- Podem ser observadas ainda certas sin-
ras acima pertencem à terra finne, gularidades na distribuição: a Hevea
exceto nas várzeas do alto-Amazonas, brasiliensis é limitada à margem direi-
onde as condições de várzea e terra ta do Amazonas, enquanto que a H.
firme se confundem. Para estes a úni- benthamiana é encontrada na margem
ca seringueira espontânea nas vár- esquerda, sendo óbidos seu limite a
zeas do baixo e médio Amazonas é a leste. A bala ta verdadeira ( Mimusops
H evea spruceana. Para Le Cointe bidentata) é encontrada nos altos cur-
( 1945) a seringueira verdadeira (H. sos dos afluentes da margem esquerda
brasiliensis) é característica das vár- do Amazonas, até os limites do Estado
zeas. Esta confusão se deve ao fato de do Amazonas; o cumaru ( Coumarouna
ser a várzea subdividida por muitos odorata) até a foz do rio Negro; baba-
em várzea alta e várzea baixa. A vár- çu ( Orbignya oleifera), ao sul do rio
zea alta pode ser confundida com a Amazonas; pau-amarelo ou pau-cetim
terra-firme. Colocando-se de lado a (Enxylophora paraensis), do Tocan-
questão da ocorrência espontânea ou tins ao Atl~ntico; pau-mulato ( Capi-
não da seringueira verdadeira na vár- rona huberiana e C. decortirans ), no
zea baixa, é fato conhecido que a se- Pará e rio Madeira; pau-roxo (Pelto-
ringueira encontrada nesta área é a gyne lecointei), no rio Tapajós.
branca, de látex menos abundante, en- Na região do alto Amazonas a floresta
quanto que a da várzea alta é a se- de terra firme se confunde com a flo-
ringueira preta, de látex copioso. resta de várzea, apresentando uma fi-
(Fig. 4). sionomia idêntica. Também sua com-
posição florística é diferente das de-
mais áreas amazônicas. São espécies
características desta área: caiaué
( Elaeis melanicocca); paxiuba-barri-
guda ( lriartea ventricosa); pacova-so-
roroca ( Ravenala guyanensis); casta-
nha-de-porco ( Caryodendron amazo-
nicum); cacau ( Theobroma cacao);
ucuquirana ( Ecclinusa balata); sorvn.
pequena ( Couma utilis); sorva-gran-
de ( Couma macrocarpa), jarina ( Phy-
telephas microcarpa); verônica (Dal-
bergia subcymosa); manico (Recordo-
xylon stenopetalum); paracaxi ( Pen-
tacletthra macroloba); mucunã ( Dio-
clea vigata); marimari ( Cassia spru-
ceana); jataí-açu (Hymenaca courba-
ril); cupuaí (Theobroma sudcanum);
cedro-vermelho ( Cedrela odorata); su-
maúma ( Ceiba sumahuma); uacu
(Monopterix uacu); duraque (Aguia-
ria excelsa); ocuque (Pouteria ucu-
qtti); macucu ( Aldina heterophylla);
iebaro (Eperua purpurea), et. cat.
Em um dos trabalhos mais completos
sobre a vegetação da América do Sul,
Hueck ( 1972) compartimenta a ve-
getação da Amazônia em algumas re-
Fig. 4 - A castanheira, a seringueira e o giões, não seguindo rigorosamente um
pau-ferro, remanescentes da floresta primi-
tiva, foram poupados à beira da estrada. critério florístico ou fisionômico, mas
Logo ap6s a derrubada, surgem plantas in- utilizando-se de variados elementos,
vasons, como as embaúbas e as palmeiras. realçando mais, todavia, as caracterís-
ticas florlsticas. Dentro desta classifi- b) Matas do Nordeste do Amazonas -
cação a floresta hileiana propriamente incluem grandes trechos do Território
dita é a mais destacada . do Amapá e Estado do Pará até o rio
Trombetas a oeste e, partindo da mar-
As regiões da mata de terra firme em gem esquerda do rio Amazonas, até a
território brasileiro são as seguintes: serra de Tumucumaque. Suas espécies
a) Delta do rio Amazonas mais características são: Swartzia du-
ckei, Ormosia cuneata, Tachigalia
p) Matas do Nordeste do Amazonas grandeflora, Gynometra wngifolia (le-
guminosas); V ochysia mapuerae, Bon-
c) Região do Tocantins e do Gurupi netia dinizii, Lacunaria Sampaioi,
Laphostoma dinizii, Otenardisia spe-
d) Região do Médio e Baixo Xingu e ciosa e Zamia lecoíntii.
do Tapajós
A área de Obidos apresenta uma flo-
e) Região dos rios Madeira e Purus resta mais pobre, bastante uniforme e
f) Hiléia Ocidental aberta, fato que se deve a um menor
índice pluviométrico. A serra do Na-
g) Noroeste da Hiléia (Região do Rio vio, em particular, segundo Miran-
Negro) da Bastos (1960), e Rodrigues (1963),
apresenta as seguintes espécies, que
h) Região do Acre. atingem altura média de 25 me-
a) Delta do rio Amazonas - os solos tros: Goupia glabra, Aniba burchellii,
em geral são ácidos e pobres em subs- Roucheira punctata, Garapa guianen-
tâncias nutritivas e constituídos de ar- sis, Perebea laurifolia, Micropholis gui-
gilas ou mesmo areia pura. São encon- anensis, Pouteria laterifolia e Licania
trados trechos de pequena extensão canescens.
com terra preta e de regular fertilida- Algumas espécies, como a ucuúba ver-
de, assim como argilas v~rmelho-casta­ melha ( lryanthera sagotiana) e qua-
nhas. ruba ( Qualea rosea) atingem freqüen-
temente até 60 metros de altura.
As espécies características são: Parkia
paraensis, Parkia reticulata, Dimor- c) Região do Tocantins e do Gurupi
phandra glabrifolia, Hymenacea palus- - abrange a área que vai da foz do
tri.s, Ormosia coutinhoi e Vatairea pa- Tocantins, à confluência com o Ara-
raensis (leguminosas); Erisma fuscum guaia e até o rio Gurupi.
e Vochysia guianensis ( voquisiáceas); Aí os limites da hiléia propriamente
Manilkara paraensis e Manilkara sí- dita com a Floresta Subcaducif61ia são
queiraei, Pradonia praealta, Pradonia bastante imprecisos e irregulares e suas
pedicellata e Pradonia huberi ( sapotá- espécies características são: a casta-
ceas); Ladenbergia paraensis ( rubiá- nheira ( Bertholetia excelsa). que tem
cea); Virola melinonii e Virola crebi- em Marabá seu principal centro de ex-
nervia ( miristicácea), et. cat. plotação; aguano ( Swietenia sp.), á
seringueira-verdadeira (Hevea brasi-
Há grande uniformidade florística em liensis), Genostigma tocantinum, Bom-
toda a região entre a Guiana Francesa bax tocantinum, Bauhinia bombaciflo-
e o Maranhão, o que, segundo Ducke ra, Discolobium tocantinum, Strychnos
e Black ( 1954), é atribuído à faci- melinoniana e Strychnos solimoesana,
lidade com que as sementes das árvo- andiroba (Garapa guianensis ), cedro
res são transportadas por via fluvial. ( Gedrela odorata), cedrorana ( Gedre-
linga catenaeformis ), frei já ( Gordia
Nas proximidades de Belém, bem como goeldiana), macacaúba-da-terra-firme
ao longo da antiga Estrada de Ferro ( Platymiscium duckei). sucupira
Belém-Bragança, houve profunda des- (Bowdichia nítida}, quaruba (Vochy-
truição da floresta; em conseqüência sia maxima), quaruba-rosa (Qualea
as madeiras de maior valor econômico rosea), angelim-pedra (Hymenolo-
desapareceram . bium excelsum).

68
d) Região db Médio e Baixo Xingu Ainda se destacam pelo colorido das
e Tapaf6s - os técnicos da F AO desig- flores, pela altura ou pelo valor econô-
nam a floresta de dryland forests, mico as seguintes espécies: Physooa-
possivelmente como tradução da "ma- lymma scaberrimum ( lytrácea), Mar-
ta de terra firme" ou ainda "matas de- tiusia e lata (leguminosa), Swietenia
cíduas de Verão", o que é certo para macrophylla ( aguano), Garapa guía-
a sua porção sul, dominada pela Flo- nensis ( andiroba), H ymenolobium sp.
resta Subcaducifólia. ( angelim), M yroxylon peruiferum
(bálsamo), Dalbergia spruceana (ja-
O solo da área é bastante arenoso e os carandá), Peltogyne densiflora (pau-
rios são de águas claras. roxo), Swartzia laevicarpa ( saboena·
A composição florística é praticamente ra), Cariniana micrantha (tauari) e
a mesma da região anterior, sendo as CalycophyUum spruceanum. Em toda
espécies de maior valor comercial: aca- a área é abundante a seringueira (He-
pu ( Vouacapoua americana) e a su- vea brasiliensis) .
cupira ( Bowdichia nitida) .
f) Hiléia Ocidental - abrange a região
e) Região dbs rios Madeira e Puros - bastante plana, do rio Juruá para oes-
inclui a bacia do Madeira, (exceto o te, ultrapassando as fronteiras do Bra-
Mamoré e o Guaporé) e o interflúvio sil e atingindo as encostas dos Andes.
entre o Madeira e o baixo e médio Tanto o clima tropical úmido como a
Purus. vegetação são bastante uniformes em
Apesar de situar-se bem no interior da toda a área.
Amazônia, a facilidade de penetração A vegetação arbórea é rica em legumi-
através dos seus rios francamente na- nosas, miristicáceas, bombacáceas, so-
vegáveis tomou-a bastante conhecida lanáceas, rubiáceas, compostas, laurá-
tanto do ponto de vista florístico ceas e voquisiáceas. Restringe-se qua-
como do aproveitamento comercial de se exclusivamente a esta área o gêne·
suas essências. ro Theobroma. A espécie que em con-
São espécies características: Euterpe dições naturais alcança limites mais
oleracea, Dinizia excelsa, Manilkàra orientais é o Theobroma cacao, indo
huberi, H ymenolobium excelsum, Cor- até o Tapajós médio. O númer@ de pal-
dia goeldiana, Theobroma microcar- meiras é quase tão grande como o da
pum, Iriartea ventricosa, Macrolobium região do Delta.
brevense, Macrolobium huberianum,
Matisia paraensis, Sclerolobium ~oel­ Em compensação são ausentes a casta-
dianum, Talauma amazonica ( unica nha-do-pará, que só alcança o rio Ju-
ma~oliácea da bacia amazônica), Po- taí e a maior árvore da Hiléia ( Dizi-
lygala scleroxylon (poligalácea de nia excelsa) que só alcança os rios
maior porte do mundo); e Huberoden- Negro e Madeira.
dron ingens uma gigantesca bomba-
cácea. Há um grande número de epífitas e de
representantes das famílias musácea,
Há um grande número de gêneros zingiberácea e marantácea, todas adap-
monotípicos, destacando-se: Goniodis- tadas à área de grandeumidade.
cus elaeospermus ( celastrácea ), Para-
chimaffhis breviloba, Dialypetalan· g) Noroeste da Hiléia (Região tÚJ
thus fuscescens ( dialipetalantácea), rio Negro) - inclui quase toda a ba-
cuja família também é monotípica, cia do rio Negro (exceto as áreas de
Curupita tefeensis ( lecitidácea) . Savana, Estepes e matas subcaducifó-
lias do Território de Roraima), limi-
A família Leguminosae é das mais nu- tando-se a leste com o Trombetas e a
merosas, representada principalmente oeste com o médio e baixo Japurá.
por Eperua oleifera, Pa[ovea brasilien-
sis, Elizabetha paraensis, Elizabetha A flora desta área se relaciona com a
bicolor, Elizabetha duríssima e Cou- da bacia do Orinoco, através do Casi-
marouna speciosa. quiare.

69
A região é bastante plana no seu con- Outras espécies de valor econômico
junto e apresenta um dos mais altos são: aguano ( Swietenia macrophylla),
índices pluviométricos, com precipita- bálsamo (Myroxylon balsamum), ce-
ções que variam de 3.000 a 4.000mm. dro ( Cedrela sp.), cumaru-de-cheiro
Do ponto de vista florístico ressalta a ( Torresea acreana ), marfim-vegetal
grande riqueza em eseécies. Entre ( Phytelephas microcarpa) .
estas predominam as da família das le-
guminosas, cuja subfamília Caesalpi- Como enclave na Hiléia aparece a "Ca-
noideae tem na região um dos seus atinga" amazonense que é uma forma-
dois grandes centros de dispersão. En- ção vegetal encontrada na bacia média
tre os gêneros característicos encon- superior do rio Negro, incluindo os
tram·se Dinwrphandra, Peltogyne, rios Curicuriari, Uaupés e Loana e
Eperua, Heterostomon e Elizabetlia. ~ também em São Paulo de Olivença,
também alto o índice de endemismo de no rio Solimões, e possivelmente nos
alguns de seus gêneros, tais como Di- rios Içá e Japurá, segundo Fróes, cit.
corynia, Aldina, Macrolobium e Swart-
:r;ia. por Hueck ( 1972) .

Também são famílias bem representa- As ilhas ou enclaves da mata mais ra-
das as voquisiáceas, euforbiáceas e gu- la, com árvores mais baixas e com ca-
t{feras, as rapatáceas, miristicáceas, li- racterísticas que fazem lembrar as do
náceas, rutáceas, malpiguiáceas, trigo- Nordeste brasileiro semi-árido, contras-
niáceas, anacardiáceas, tiliáceas, eleo- tam grandemente com a pujante flo-
·carpáceas, bombacáceas e lecitidáceas. resta hileiana propriamente dita.
~ também muito rica em espécies a
família sapotácea, sobressaindo-se a es- Devemos a Spruce ( 1908) as pri-
pécie Pouteria ucuqm, uma das maio- meiras observações sobre as "Caatin-
res árvores da Amazônia, com frutos gas" da Amazônia. Posteriormente
comestíveis. Entre as numerosas pal- Ducke e Black ( 1953), Ferri ( 1960),
meiras destaca-se, pelo seu valor eco- Takeuchi ( 1960-62), Sioli ( 1960), Ro-
nômico, a piaçava ( Leopoldinia pias- drigues ( 1961), Fróes e Hueck ( 1970),
saba). estudaram-na sob o ponto de vista eco-
lógico e florístico. Devemos, principal-
Entre as inúmeras madeiras de valor mente a Ferri e Sioli, estudos em que
econômico destacam-se: andiroba ( Ga- são examinadas as relações solo-água-
rapa guianensis), cedro ( Cedrela ode- planta. Esta pseudocaatinga é própria
rata), pau-roxo (Peltogyne sp.), tauari das terras altas com solo de sílica e hú-
( Cariniana micrantha), maçaranduba mus preto muito ácido, submetido a
( Mimusops huberi) e espécies de Ca- chuvas abundantes durante o ano intei-
lycophyllum, Eperua e Caryocar. ro. Em alguns trechos ela consiste de
O látex obtido da seringueira da re- árvores baixas e arbustos, com árvores
gião (Hevea benthamiana) é de qua- altas intercaladas; em outros ela é for-
lidade bem inferior ao látex da Hevea mada por arbustos e árvores baixas e
brasiliensis. altura quase uniforme. A quase totali-
dade das plantas lenhosas tem folha-
A exploração da madeira é feita com gem persistente e em grande parte es-
relativa intensidade, por ser fácil o clerófila. São reconhecíveis quatro DÍ·
transporte e a área estar próxima das veis ou estratos: um mais baixo, o her-
serrarias de Manaus. bcloeo, bastante variável, constituído
h) Região do Acre - ligeiramente on- de plantas de pequeno porte; um estra-
to arbustivo-lier'báceo, até 7 metros;
dulada e com índices de precipitação um estrato arbóreo de até 15 metros
entre 2.000 e 3.000mm, compreende as ( pseudocaatinga baixa) e outro de até
terras banhadas pelos formadores do 25 metros ( pseudocaatinga alta) .
Juruá e do Purus. A região é floristi·
camente pouco conhecida, tendo havi- Nas regiões muito abertas, recobertas
do, entretanto, uma intensa exploração por espécies arbustivas, que não ultra-
da seringueira (Hevea brasiliensis) . passam 4m, são chamadas campinas. A

70
vegetação rasteira sobre a areia branca 2 - FLORESTA PERENIFÓLIA
se reduz a musgos e alguns líquens.
Embora esta formação seja conhecida PALUDOSA RIBEIRINHA
com o nome de Caatinga do rio Negro, PERIODICAMENTE
não possui nenhuma afinidade florís- INUNDADA
tica com a Caatinga do Nordeste do
Brasil. Sua afinidade é puramente fi- Este tipo de vegetação difere da Flo-
sionômica. resta Perenifólla Higrófila Amazônica
ou da terra firme, por apresentar um
Ducke e Black consideram que a va- número menor de espécies e pela me-
riedade de espécies destas Caatingas nor altura de suas árvores nos estratos
excede a de qualquer outra formação mais elevados. Não havendo excessiva
em qualquer parte da Hiléia. Embora diminuição de água no solo em qual-
quase todas as ârvores de maior porte quer parte do ano ela se mantém sem-
da Caatinga sejam encontradas tam- pre verde. Entre março e junho o solo
bém nas florestas pluviais vizinhas, ela é enriquecido pelos sedimentos depo-
não possui muitas afinidades estrutu- sitados pelas águas durante as cheias
rais com outros tipos de matas vizi- nas partes mais baixas da margem.
nhas. Embora seus solos sejam mais ricos do
que os da floresta de terra firme, em
A afinidade entre a Caatinga do rio Ne- virtude desta sedimentação, o e:tcesso
gro e a de São Paulo de Olivença é d'água em determinados períodos pa-
tanto fisionômica como florística, sen· rece ser um elemento desfavorável.
do as espécies mais comuns às duas Raramente as árvores do estrato mais
áreas as seguintes: I ryanthera oblova- elevado ultrapassam os 25 metros de
ta, Hevea pauciflora var., coriacea, Lis- altura. 11: diffcil, entretanto, estabele-
socarpa benthami e Ladenbergia ama- cer-se com precisão os limites entre este
zonensis. tipo e o da mata de terra firme. À me-
Entre as espécies mais típicas da pseu- dida que se distancia da margem o solo
docaatinga são encontradas: alCima de vai ficando mais seco e, em conseqüên-
cia. há mudança do porte das ârvores,
1 metros - cumuri ( Cunuria crassi- que são mais altas, observam-se sensí-
pes), acauã (Eperua leucantha), ja- veis mudanças na composição florísti-
purarana (Peltogyne caatingae ), iéba- ca e aumento no número de espécies.
ro (Eperua purpurea), macucu (Aldi- As árvores da floresta da várzea pos-
na discolor), pau-amarelo ( Lissocar- suem troncos retos com esgalhamento
pa Benthami), pau-doce ( Pradosia apenas na parte superior, com diâme-
inophylla-) e seringa (Hevea rigidifo- tros que raramente ultrapassam 60
lia) . Entre as espécies com menos de centímetros. Embora a floresta possua
1 metros de altura se destacam: mira- nos estratos inferiores menos espécies
miri ou apuí ( Clusia spathulaefolia ou que a floresta de terra firme, é, por
C. colunaris), pau-de-tucano ( Swart- vezes, quase impenetrável, com uma
zia conferia), iuapixuna ou cicantá enorme profusão de galhos espinhen-
(Protium reticulatum), envira (Du- tos que se entrelaçam. São mais co-
g~ sp.), marapari ( Campsoneura muns as consociações de rabo-de-ca-
debílis), espinheiro ( Bactris cuspida- maleão (Mimosa sagotiana, M. rufes-
ta), biriba-de-jaboti ( Sphaeradenia cens ou M. myriaáema), leguminosa
amazonica), pacacaa ou jasmin (Ta- arbustiva, escandente e portadora de
bernaemontana sp. ) , lourinho ( Oura- acúleos.
tea sp.), pau-mulato (Eugenia egen- Embora sendo encontrada em quase
sis), buiuio ( Psychotria sp.), samam- todos os rios da Bacia Amazônica, as
baia ( Selaginella amazonica); turi matas de várzea são muito bem carac-
( Erythroxylum sp.), cipó-de-jacu ( Psa- terizadas a partir da foz do rio Ma-
misia guyanensis ), pau-de-cotia ( Coue- deira até a região do Delta. A área de
pia racemosa) e outras. inundação, isto é, o leito maior do rio

71
Fig. 5 - Aspecto da mata de várzea ao longo do rio Pará. A maior incidência de luz na
periferia favorece o desenvolvimento de espécies heli'ófilas, podendo ser observada a
proliferação de palmeiras.

atinge em alguns lugares até 100 km cus, bem como Spondías mombin, Le-
de largura e no seu todo atingem de cointea amazonica, Virola surinamen·
1 a 2~ da área total da Hiléia. sis, Sapium sp., Garapa guianensis,
Cordia tetrandra e Cassia grandis.
As várzeas encobertas pela floresta pa-
ludosa, ou simplesmente floresta de Nas porções mais altas dos diques mar-
várzea, são produto dos rios de "água ginais, menos expostas às águas altas,
branca" que, na verdade, são rios de elementos da mata de terra firme se
água barrenta amarelada, rica em ma- misturam com elementos da mata da
téria inorgânica em suspensão. ( Fig. 5) várzea. Huber, cit. por Hueck ( 1972,
enumera as seguintes espécies encon-
tradas nos diques do Purus: Cedrela
2.1 - Distribuição sp., Dypteryx odorata, H ymenaea
sp., Couratari sp., Hura creptans, An-
Muitos indivíduos da mesma espécie dira inermis, Apuleia molaris e gran-
são encontrados em toda a várzea des- de número de palmeiras entre as quais
de a desembocadura até os limites com o ouricuri ( Attalea excelsa), jauari
o Peru, sendo atribuído este fato, se- ( Astrocaryum tauari) e o murumuru
gundo Hueck, à intensa e constante ( Astrocaryum murumuru) .
influência das inundações. Entre estas
espécies, comuns a toda a várzea, des- Nem sempre a floresta de várzea tem
tacam-se a sumaúma ( Ceiba pentan- origem junto ao rio, na margem pro-
dra), que é também comum na várzea priamente dita. Ela aparece quando
dos rios da bacia do Orinoco, a muira- bem próximo à margem se erguem di-
tinga ( Olmediophaena 17UlXima), a ques que isolam parcial ou totalmente
munguba (Bombax munguba), o pau- as partes interiores planas e baixas da
mulato ( Calycophyllum spruceanum), margem propriamente dita. Estes di-
Couroupita subssessilis, Pithecolobium ques localmente conhecidos como "res-
niopoides, Piptadenia pteroclada, Pla- tingas" são formados por sedimentos
tymiscium paraense, Pterocarpus ancy- fluviais que se depositam ao encontrar
lOcalyx, várias espécies do gênero Fi- um obstáculo, por ocasião das cheias

72
anuais. Estas várzeas interiores são ini- maior parte do tempo e sua composi-
cialmente constituídas por campos ção florística é bem diferente da flo-
(campos-de-várzea) que evoluem aos resta típica de várzea.
poucos para floresta baixa de várzea
e desta para a floresta alta de várzea, Nas aluviões mais recentes, mal des-
pela diminuição da umidade do solo. cobertas pela água, mesmo nas vazan-
As partes mais elevadas das "restin- tes, agrupam-se as aningas ( Montri-
gas' são recobertas por vegetação ca- chardia arborescens), aráceas de tron-
racterística da terra-firme. co cônico e coroada por largas folhas.
Nas áreas que sofrem a influência .das
O corte de um rio de águas brancas, marés são abundantes várias palmei-
segundo Sioli ( 1951), esclarece o pro- ras, das quais muitas gozam de rel~:
cesso de formação das pestanas e dos tiva importância econômica. São mais
campos e lagos de várzea. conhecidas: o jupati ( Raphia t>inife-
ra), o miriti ( Mauritia flexuosa), o
açaí ( Euterpe oleracea), produtor de
2 .2 - Composição Florística excelente bebida e palmito, ubuçu
( Manicaria saccifera), a bacaba ( Oe-
t;; bastante homogênea em quase toda nocarpus distichus), o patauá ( Oeno-
a Amazônia. Apesar desta aparente carpus pataua ), o inajá ( Maximiliana
homogeneidade, podem ser reconheci- regia), o ouricuri ( Attalea excelsa), a
dos dois subtipos de matas de várzea, paxiúba ( lriartea exorrhiza), o muru-
caracterizadas por sua composição flo- muru ( Astrocarium murumuru), o ma-
rística: as matas de estuário e as que
cajá (Pyrenoglyphis macafa), o ubim
acompanham o curso do Amazonas e
( Geonoma sp.). Entre outras árvores
de seus afluentes. As matas de estuá-
características das "ilhas" destacam-se:
rio resultam da ação de represamento
ucuúba (Viro/a surinamensis), andi-
das marés, que ocasionam uma forte
roba (Garapa guianensis), sucuúba
deposição de sedimentos ricos em ma-
(Plumeria sucuuba), taperibá (Spon-
téria orgânica. Esta parte, segundo Le
dias lutea ), castanha-de-macaco ( Cou-
Cointe (1945), é recoberta por uma
roupita guianensis ), jutaí-açu (H yme-
vegetação mais exuberante e é entre-
naea courbaril),. o tachi ( Tachigalia
cortada por numerosos "furos". ( Fig. 6)
sp. ), cupiúba ( Goupia glabra ), mapa-
A vegetação das "ilhas", sujeita à ação rajuba ( Mimusops paraensis ), amapá
das marés, pode ser considerada inter- (Hancornia amapa), mamorana (Pa-
mediária entre as matas de igapó e as chira aquatica), paracuúba (Mora pa-
de várzea, pois passa inundada a raensis) e muitas outras.

Terra firme com FIG. 6


moto oito
moto de golerio

--~-

d•pôailo~
aedim~"toru
terciário• do terro firme
nlvel doe
ÓQUOI bOhtGS
•o lo
t edímentor
r e CI'III do
várzea
Corte tfrico de um rio de águot bro nco~t com for moçõo de vóruo,
••li UI! doSioli (I(. Hueck- 1972 )

73
Nas margens do Amazonas e na maior taxi ( Tachigalia myrmecophila), Scle-
parte de seus afluentes e paranás a rolobium tinctorium, ucuúba-branca
mata de várzea é constituída predo- (Virola surinamensis ), pau-mulato
minantemente de: embaúbas, entre as ( Callycophillum spruceanum), pracu-
quais se distinguem a embaúba bran- úba (Mora paraensis), seringueira
ca (Cecropia paraensis), a embaúba (Hevea brasiliensis e H. guianensis),
verde ( Cecropia robusta), sendo que aturiá ( Machaerium lunatum), açaí
a primeira é espécie mirmecófila, isto (Euterpe oleracea), timboúva (Ente-
é, hospeda em seu tronco oco ninhos rolobium sp.,), Cassia sp.
da formiça de fogo (gênero Azteca).
As embaubas se enfileiram nas partes Para o observador colocado no rio ou
mais baixas e recentemente sedimenta- no lago, antecede a fachada da mata
das da várzea; munguba ( Bombax de várzea um conjunto de plantas que
munguba), açacu-rana ( Erythrina obedecem a uma ordem evolutiva na
glauca ), tachi ( Triplaris surinamen- formação da floresta: o murumuré
sís), genipa-rana (Custavia augusta) ( Eichhornia azurea), espécie natante;
ucuúba branca (Virola surinamensís ), a canarana ( Panicum spectabile) e a
o açacu ( Hura crepitans ), o apuí aninga ( Montrichardia arborescens).
( Urostigma sp.), castanha-de-macaco Esta disposição de plantas aquáticas,
( Couroupita su.bsessilis ), sapucaia diante da floresta de várzea é pratica-
( Lecythís paraensis), genipapo ( Ceni- mente a mesma em toda região das
pa americana), limão-rana ( Chloro- Ilhas.
phora tinctoria ), macacaúba-da-várzea Associações quase puras de Mauritia
(Platymiscium Ulei), mamorana (Bom- flexuosa ( meritizais) são encontradas
bax aquaticu.m), mamorana-grande na região das Ilhas, notadamente ao
( Bombax spruceanum), maparana longo do canal de Breves.
( Aspidosperma inundatum), marimari-
da-várzea ( Cassia leiandra), pau-mu-
lato ( Calycophyllum spruceanum) pa-
ricá-branco ( Acacia polyphylla ), pari- 3 - FLORESTA PERENIFÓLIA
cá-grande-da-várzea ( Pithecolobium
niopoides), piquiá-rana-da-várzea ( Ca- RIBEIRINHA
rocar microcarpum), piranheira ( Pi- PERMANENTEMENTE
ranhea trifoliata ), seringueira-barrigu- INUNDADA
da (Hevea spruceana), sumaúma
( Ceiba pentandra), tacacazeiro ( Ster-
culea elata ) e outras . 1!: conhecida como floresta ou mata de
igap6, característica do baixo-médio
Azevedo ( 1967) faz distinção entre rio Negro, alguns de seu afluentes e
as flQrestas de várzea, dos cursos mé- outros trechos de rios de águas pre-
dios que se originaram da deposição tas, isto é, muito pobres em sedimen-
direta de aluviões fluviais e a floresta tos. Ao contrário dos solos das várzeas
das várzeas dos baixos cursos dos rios que são enriquecidos anualmente pelo
e que resultam da sedimentação das acréscimo de argila, os solos dos iga-
partículas levadas ao oceano pelo rio pós sofrem a ação da erosão pelas cor-
Amazonas e que daí são transportadas rentes. Le Cointe (1945) denomi-
para aquelas áreas por efeito das ma- na de matas de igapó aquelas que, tan-
rés. Neste último tipo são assinaladas to na terra firme como na várzea, co-
as seguintes características da vegeta- brem espaços onde, por deficiência de
ção no Território Federal do Amapá: escoamento natural, as águas prove-
maciço florestal de 20-25 metros de al- nientes de enchentes ou das chuvas
tura no máximo, grande número de ár- locais ficam retidas muito tempo, ou
vores portadoras de raízes tabulares, estagnadas, banhando os troncos a al-
grande variedade de cipós, sub-bosque turas variáveis.
arbustivo denso. As espécies mais fre- Para Sioli ( 1951), entretanto, o iga-
qüentes são: sumaúma ( Ceiba pentan- pó ou mata de igapó, resulta sempre
dra), andiroba (Garapa guianensís), da ausência de sedimentação nos rios
, 74
de "água preta", que na verdade são ta ou sapupira-de-igapó ( Diplotropis
rios de água clara, transparente, dando martiusii), marajá ( Bactris concinna),
ao observador colocado em suas mar- cururu ( Cylindrosperma anomalum),
gens ou em embarcações a impressão louro-mamorim ou inhamuí (Nectan-
de cor de café ou mesmo castanho- dra elaiophora ), catuari ( Crataeoo
avermelhado. Estes rios possuem ge- benthami), araparirana ( Macrolobium
ralmente um vale largo, cuja soleira é multijugum), cip6-de-tucunaré (Dal-
coberta pela floresta, quase constante- bergia inundata ), iara-açu ( Leopoldl-
mente inundada. (Fig. 7)
nia maior), piaçava ( Leopoldinia pias-
"Nos igapós cresce uma vegetação di- saba), cedro-rana-de-igapó ( Andria-
ferente da vegetação de terra firme, petalum rubescens), cedro (Roupa la
que já à primeira vista dá uma im- obtusa), macacu ( Aldina latifolia),
pressão menos pujante. O chão tem ajuru ( Licania heteromorpha), hervão
uma coberta muito rala de gramíneas (Heterostemon mimosoides), coman-
e ervas, se é que se pode falar deste dá-açu (Campsiandra laurifolia), itau-
tipo de vegetação. Durante as águas barana ( Sweetia nitens ), riteira ( Bur-
altas é possível penetrar de canoa en- dachia prismatocarpa), umiri-rana
tre as copas das árvores, podendo-l>e (Qualea retusa), sururu ( M ollia lepi- .
coletar as orquídeas epífitas de uma dota), apapá ( Eloosia callophylla),
maneira muito fácil", cf. Hueck, op. casinga-cheirosa ( Laetia suaveolens),
cit.
cumacai ( Lophostoma calophylloides),
Huber ( 1909) cita para o igapó do caranaí ( Mauritia aculeata), e outras.
rio Negro e de outros rios de águas Na fisionomia pouco difere a mata de
semelhantes a este as seguites espécies igapó da mata de várzea.
mais características: Roupala obtusa-
ta, Panor>sis rubescens ( proteáceas);
Licania heteromorpha, Couepia sp.
(rosáceas); espécies de inga, Pitheco- 4- FLORESTA
lobium, CaUiandra, Parkia, Sclerolo- SUBCADUCIFÓLIA
bium, Peltogyne, Eperua, Heterosto-
mon, Ormosia e Sweetia ( legumino- AMAZÔNICA
sas); Qualea retusa ( voquisiácea) e
numerosas mirtáceas, rubiáceas e me- Em torno do núcleo da floresta hileia-
lastomatáceas. na, com largura variável, estende-se a
À semelhança das árvores dos climas floresta subcaducifólia.
temperados e frios, as madeiras das Floristicamente ela é hileiana, embora
matas de igapó apresentam anéis de alguns de seus elementos participem
crescimento nítidos, que se desenvol- igualmente da Floresta Subcaducifólia
vem de acordo com o nível da água.
Tal fato também pode ser observado Tropical. Ab'Saber ( 1966) a exclui da
Hiléü~, considerando-a transição entre
em árvores da várzea.
três diefrentes domínios; também nós
São espécies tí:eicas do igapó: anani ( 1960) clasl>ificando-lhe como mata de
( Symphonia globulifera), sapupira-pre- transição.

FIG. 7
Cortt tlpico otrov4e MatG Glla da
de um ri o ele óvuos prttGs, ttrra firMe
sevundo Si o li ( K. Hutck- 1972)

75
Esta enorme área de transição encon· racteriza é o babaçu ( Orbignya 1TU.lr·
tra-se a leste e sul do Estado do Pará, tíana).
sudoeste do Estado do Amazonas, su-
deste do Estado do Acre, mais de 3/4 No que se refere a sua composição flo-
do Território Federal de Roraima, rística, a leste do Estado do Pará ocor-
grande parte do norte do Estado do rem as seguintes espécies: castanheira
Pará e a porção noroeste do Território ( Bertholetia excelsa), o caucho (C~­
Federal do Amapá. ( Fig. 8). tilloa ulei), acapu ( Voucapoua ame-
ricana), pau-amarelo ( Enxylophora
paraensís), pau-santo ( Zollernia pa-
De modo geral predominam neste tipo raensis), maçaranduba ( M imu.sops
de vegetação árvores altas ( 15 a 20 elata e M. amazonica), mata-matá
metros de altura), troncos finos, copas ( Chytroma sp.), Estas espécies for-
pouco desenvolvidas. Há vários estra- mam um estrato de 30 metros. Um es-
tos, nos mais altos dos quais grande trato mais elevado que atinge até cerca
parte das árvores perde as folhas na de 50 metros é constituído por árvores
estação seca. Outros estratos mais bai- dos seguintes gêneros: Lecythis, Cari-
xos, em número variável, pode perdê- niana, Ceiba, Hymenaea, Andira, Te-
las em parte ou conservá-las inteira- coma, Vochysia, et. cat.
mente, dependendo da maior ou me-
nor quantidade de água qisponível no São também inúmeras as palmeiras,
solo. Há muitas lianas, mas tornam-se sendo assinaladas inajá ( Maximiliana
mais raras as epífitas. Uma das espé- regia), bacaba ( Oenocarpus dísticu.s),
cies que integra o estrato superior da tucumá (Ast1"ocaryum vulgare), mum-
vegetação nos altos cursos dos afluen- baca (Astrocaryum mumbaca), macajá
tes da margem direita do Amazonas é ( Acrocomía sclerocarpa), pixiúba ( Iri-
a seringueira (Hevea brasiliensis) . artea exorrhiza), pupunharana (Cocos
Entretanto, a espécie 9ue mais a ca- speciosa), jatá (Cocos syagru.s), ubin-

Fig. 8 - Aspecto da Floresta Subcaducifólia Amawnica no alto curso do rio Candeias. Est>a
flOresta tem como uma das principais características a perda parcial de sua.s folhas durante
a estação seca. Para o menor desenvolvimento da floresta contribuem ainda os solos rasos,
podendo-se observar na área afloramentos rochosos.

76
guaçu (Geonoma ma:xima), açaí (Eu- estação seca, que tem a duração de
terpe oleracea ), meriti ( Mauritia fle- três meses, os solos muito permeáveis
xuosa) e, sobretudo, babaçu ( Chbig- retêm pouca umidade e a maioria das
nya martiana) . plantas perde a folhagem. Entre as es-
pécies mais comuns podem. ser cita-
São poucos os documentos existentes das: ariauá ( Qualea grandiflora) e ou·
sobre a Floresta Subcaducifólia da ver- tras do mesmo gênero, o carvão-de-
tente norte da Bacia Amazônica, pois ferreiro ( Schlerolobium paniculatum),
o acesso ao interior das matas ainda a quaruba (Vochysia ferruginea) e ou-
é difícil. Apenas através do exame de tras do mesmo gênero, o jacarandá
fotografias aéreas é possível estabele- ( Dalbergia spruceana) e o feijão-bra-
cer-se os limites aproximados entre este vo ( Centrosema venosum) .
tipo de vegetação e a Floresta Pereni-
fólia. O mapa de vegetação da Região Norte
A parte mais conhecida da Floresta (Fig. 9), quando confrontado com
Subcaducifólia é a que se limita com a outros mapas de vegetação, mostrará
Hiléia ao sul do Estado do Pará, em uma sensível redução da área de Flo-
grande parte recobrindo o rebordo do resta Perenifólia e um correspondente
Planalto Brasileiro. Nesta floresta as aumento da área da Floresta Subca-
espécies mais caracteristicas são: se- ducifólia. A diminuição da área da
rin~eira (H evea brasiliensis), gua-
Floresta Perenif6lia se deve, em grande
nandi (Calophyllum brasiliensis), sou- parte, à recente utilização de fotogra·
veira ( Couma sp. ), angico ( Piptade- fias aéreas e estudos in loco, sendo
nia sp.), carapanaúba ( Aspidcesper- quase certo que os limites assinala-
ma sp.), gogó-de-guariba (Mootabea dos ainda estejam longe da realidade.
sp.), et. cat. Embora estas espécies te- Os fatos que até há pouco concor-
riham sido encontradas em áreas da riam para o alargamento da área da
Floresta Semidecídua, elas praticamen- floresta perene eram a suposta homo-
te podem ser consideradas do domínio geneidade do cli.ma superúmido em
hileiano, pois são espécies que ocupam quase toda a Região Amazônica e o
o solo da várzea alta. desconhecimento quase total dos seus
solos. Sioli ( 1951), indicando a exis-
Em terreno mais seco, mais afastado tência de rios de água clara em vasta
dos cursos d'água, são comuns as se- porção da vertente sul da bacia ama-
guintes espécies: garapa ( Apuleia Zônica, implicitamente indicava a exis-
praecox), jatobá (Hymenaea stilbo- tência de solos arenosos pobres. A
carpa), abiurana (Lucuma lasiocar- mancha de vegetação semixeromorfa
pa), peroba-branca e preta (bignoniá- em solos arenosos nas proximidades de
cea), marupá (Simaruba amara), pe· Santarém já é conhecida de ·longa
roba-poca ( Aspidosperma cylindrocar- data.
pa).
Entretanto, questiona-se ainda a res-
À margem direita do rio Tapajós, en- peito da relação clima-vegetação. Os
tre Santarém e Belterra e na margem trabalhos de Nimer ( 1972-1973) apli-
esquerda do rio Amazonas, em área cáveis ao Brasil mostram a grande ex-
dos municípios de Monte Alegre e tensão do clima quente com mais de
úbidos, ocorre vegetação semixero- 3 meses sem chuva na Amazônia e
morfa. Este tipo de vegetação é encon- que, significativamente, cobre a maior
trado em solo de areia branca, muito parte àa área de Floresta Subcaducifó-
permeável. Fisionomicamente ela tem Iia, tomando ainda muito maior a área
afinidade tanto com a Caatinga como possível. Desta forma, pode ser expli-
com o Cerrado, apresentando três es- cada também a maior parte das man-
tratos característicos: um herbáceo, po- chas de Cerrado inclusas nos tipos flo-
bre, que em alguns lugares deixa o restais.
solo descoberto; um arbustivo, denso
e um arbóreo, também pobre, com ár- Este autor, pondo em evidência não
vores bastante espalhadas e que rara- apenas os totais pluviométricos mas,
mente ultrapassam os 10 metros. Na principalmente, o número de meses

77
Região Norte
...
VEGETAÇAO

-
D
Floresta pere111fóho polu<loso nbetunho pertodleomenle tl'llfl<lodo ( moto de vórzeo
0<1 permoMntemenre tnunóodo ( moto de 1q0pó l

Floresta perentf oha hu;róftiO luleana amazôr-co ( maio de terra fume

Floresta subcaductfóflo amozôntca


l
l

S. 9
-
D
D
Cerrado

Campo

Campa tnundÓvtl
-

,---
1
---'
I
Vegelacão Ltlaranto

Reservo florestal ( sevundo I B O F- 1972)

o 100 200 K111

D Cornpluo do ROI'otmo, do Ca chtmba e da Xingu


Fig. 10 - Nas proximidades de Monte Alegre são .encontradas manchas de Cerrsdo. A
composição florística encerra espécies do Cerradp elo Brasil Central. como a Curatella
americana, BC7Wdichia virgilioides, Qualea grandiflora, Vochysia ferruginea, etc. A interfe-
rência humana imprimiu modificações estruturais: o estado herbáceo apresenta-se rarefeito e
o arbustivo bastante agrupado.

ro Grande e da serra Azul, têm com- 6- CAMPOS


posição semelhante aos Cerrados de
Monte Alegre e Prainha. ( Fig. 10) X
A imensa floresta que recobre quase a
Na ilha de Marajó o Cerrado tem, como totalidade da Região Norte é, em mui-
no Território Federal do Amapá, dire- tos lugares, interrompida por áreas
ção norte-sul, formando uma Iaixa de abertas que recebem os nomes de sa-
largura regular no centro da ilha, li- vanas nas Çuianas e campos e cam-
mitando-se a leste com os campos e a pinas no Brasil. Neste, de modo geral,
oeste com a Hiléia. Fisionômica e flo- qualquer área de vegetação aberta
risticamente pouca semelhança tem es- que se opõe fisionomicamente às áreas
ta formação com o Cerrado típico, fechadas ou florestadas recebe o no-
devido talvez à profunda interferên- me de campo. AssiJ? sendo, os tipos
cia humana, através de intensa cria- mais diversos de vegetação, como Cer-
ção de gado. rado e Campo Limpo são considerados
A mangabeira (Hancomia speciosa), como campo ~
produtora de frutos comestíveis, é uma Na Amazônia as áreas de vegetação
aas poucas espécies do Cerrado pre- aberta são conhecidas com vários no-
servadas. ~es regionais, resultando ser difícil
Sob a denominação de campo sujo ou estabelecer-se comparações com tipos
campo coberto há um gran:de núme- correspondentes em outras partes do
ro de áreas de vegetação aberta que Brasil. São comuns os campos lavra-
fisionomicamente podem ser classifi- dos, campos sujos ou cobertos, campos
cadas no grupo dos Cerrados. Sua afi- de várzea, campinas, campinaranas,
nidade com o Cerrado típico das re- campos- inundados, campos firmes.
giões do Brasil Central, de clima semi-
úmido, com uma estação seca de 5 a 6 Levando-se em consideração a grande
meses é não só fisionômica como importância da água, juntamente com
também florística, embora as espécies a riqueza mineral e orgânica dos so-
comuns. às diversas áreas sejam poucas. los, os campos são classificados em 2

81
grandes grupos: os campos de várzea Estes campos na ilha de Mataj6, se-
inundados eeriodicamente pela água gundo Chermont de Miranda cit. por
de rios ou de lagos e campos firmes Le Cointe, são de cinco categorias:
não inundáveis. Os principais campos
de várzea são encontrados ao longo do a) Os Campos Altos, com solo areno-
litoral atllntico e acompanham o Bai- so, ou de barro consistente (campos
xo Amazonas Paraense. de Muaná, do rio Atuá, margens do
rio Camará e do igarapé Grande) .
Autores, entre os quais Le Cointe São ricos em plantas forrageiras de
( 1945). admitem a existência de três boa qua!idade, notadamente gramíneas
tipos: e leguminosas. Sobre o estrato herbá-
a) Os Campos Mistos - inundáveis em ceo sobrepõe-se um de pequenas árvo-
parte pelas enchentes peri6dicas ( cam- res isoladas ou formando pequenos gru.
pos inundáveis para outros autores), pos ou capões.
cujos melhores exemplos são os de Ma- b) Os Campos pouco Alagados - cam-
raj6, os do leste do Tenit6rio do Ama- pos centrais, lavrados ou limpos, con-
pá e os da região do lago Grande de
Vilafranca, ao sul de óbidos, na mar- siderados como os melhores pastos.
gem direita do Amazonas. c) Os Campos Baixos - alagados du-
b) Os Campos de Várzea - mais ou rante uma parte do ano, de solo mais
menos cobertos pelas águas durante as ou menos barrento, formando atolei-
cheias anuais e situados atrás da cor- ros, com vegetação vigorosa, cerrada,
tina estreita de matas que acompanha constituindo pastagens de primeira
as restingas ao longo dos rios. qualidade.
c) Os Campos Firmes, nunca alagados. d) Mondongos - são campos baixos,
com atoleiros, em grande parte sub-
mersos no inverno e com grandes anin-
6.1 -Os Campos Mistos ou gais e poucos tesos. A vegetação é mais
desenvolvida e cerrada que a dos cam-
Alagáveis pos baixos.
embora de solos mais pobres que e) Tesos .ou Restingas - que recortam
os da várzea propriamente dita, pos- os diversos tipos de campo, ou cons-
suem abundância de plantas forragei- tituem simples ilhotas um pouco mais
ras, aproveitadas pelo gado no perto- elevadas no meio da planície. ( Fig.
do das secas. 11).

Fig. 11 - Quase toda a


porção oriental da ilha de
Maraj6 é recoberta por cam-
pos inundáveis, de importln-
da para a pecuária. Como
n.o restante da área de tais

_,
campos, houve uma grande
·alteração na flora original
após a introdução de novas
.-- ·~)f.. ,~
,, !> (
forrageiras. As J)eC}uenas ele-
vações, os "tesos ', a salvo
das inundações, são recober-
tas por .uma vegetação de
porte arbustivo ou arbóreo.

82
Nas partes alagadas dos campos inun· 6.2- Os Campos de Várzea
dáveis são mais comuns as seguintes
espécies: agrógano ( Polypompholyx - "Atrás da cortina, geralmente estrei-
laciníata), espadana ( Sagitaria acuti- ta, que cobre a restinga da margem
folia), maücia-d ' água ( N eptunia ole· do rio quando este corta a planície de
racea), purpurina ( Rhynchantera ser- aluviões recentes, avistam-se, no tem-
rulata ), juquiri-manso ( Neptunia ple- po de verão, campos verdejantes que
na), alcatifa ( Trichospira menthoides), se estendem, às vezes, a perder de vis-
alg~o-bravo (Ipomoea fistulosa), ta. Mastando-se da beira, o terreno vai
aninga ( Montrichardia arborescens ), baixando gradualmente e apresenta
botão-de-ouro (Xyris paUida), carque- depressões dispersas sem ordem,
ja (Hydrolea spinosa), coquilho (Can- ocupadas por aningais ou, quando
na glauca), corticeira-do-campo ( Aes- mais fundas e extensas, formando la-
gos cujas partes mais rasas são capin-
chynomene sensitiva), jupinda ( Cleo- zais meio submersos. Com a cheia
me psoraleaefolia), partasana ( Typha estes lagos unem-se e na água lodosa
dominguensis), samambaia ( Lycopo- tudo submerge durante alguns meses".
dium cernum), sororoca-mirim (Heli-
Este trecho de Le Cointe ( 1945) re-
conia pendula), majuba (Sphenoclea
produz fielmente o aspecto dos cam-
zeylanica), uapé ( ?Vymphea rudgea- pos de várzea, tão comuns a toda a
na), arumarana ( Thalia geniculata), área de várzeas do Amazonas e seus
capim-de-marrua ( Paspalum conjuga- afluentes. São constituídos quase ex-
tum), capim-cortante ( Cyperus radia· clusivamente de gramíneas, algumas
tus), canarana-fluvial (Panicum spec- das quais excelentes forrageiras.
tabilis ), canarana-de-folha-miúda (Pa- As espécies mais encontradas são : o
nicum amplexicaule ), violeta-d'água murim ou mori (Paspalum fascicula-
(Eichhornia natans), piri (Cyperus tum), gramínea alta, formando conso-
gtganteus), orelha-de-veado ( Eích- ciações muito densas. Juntamente com
homia azurea ). junco bravo ( Cype- esta é abundante a canarana ( Pani·
rus articulatus); et. cat. cum spectabile e P. amplexicaule), ex-
celente forrageira. Além destas são
Nos tesos são encontradas as seguin- comuns as seguintes gramíneas : piri-
tes espécies: tucumã ( Astrocaryum tu- mumbeca ou canarana-rasteira (Pas-
cuma), língua-de-vaca ( Elephantopus palum repens), peripomongo ou an-
dr~uicé (Laercio liexandra ), taqua-
scaber), batatão (Ipomoea pentaphyl-
ri-d água (Panicum oppressum), taqua-
la), embaúba (Cecropia leucocoma), rizinho ( Andropogon spathiflorus),
mata-pasto (Cassia marginata), anin- capim uamá (Luzio1a spruceana), que
ga-pará ( Dieffenbachia preta), puruí cobre inteiramente as superfícies das
( Alibertia edulis), capim-manso ( Pae- águas rasas, capim-miçanga ( Coix la-
palanthus lamarchii), arroz-do-campo crima ), arroz-bravo ( Oriza sativa var.
( Trachypogon polymorphus ), capim- subulata).
de-bolota ( Rhyncospora cephalotis ),
capim-de-botão ( Cyperus luzular), pi-
tomba ( Simaba guianensis), lacre 6.3- Os Campos Firmes
(Visima guianensis), jutaf-rana (Cns-
- da Região Norte estão dispersos
dia pari voa), geniparana ( Gustavia pelos Estados do Pará, do Ainazonas e
guianensis), morcegueira ( Andira pelo Território de Roraima, ao sul do
inermis ), canária ( Crotalaria maypu· paralelo de 2° N. Não estão sujeitos
ensis), anil (Indigofera anil), mundu- às inundações e podem ser subdividi-
bi ( Cassia diphylla), ouricuri ( Atta- dos em duas categorias principais de
lea excelsa), sumaúma ( Ceiba pentan- acordo com sua fisionomia: campos
dra ), macajá ( Bactris major), caua- limpos ou lavrados e campos sujos ou
çu ( Coccoloba latifolia ), et. cat. cobertos. Muitas áreas de campo sujo

8S
Fig. 12 - Vista nos campos de Ererê, constituídos predominantemente por gramineas.
Tais campos são denominados por Hu~k de "campos abertos". Ao fundo, as elevações da
"serra" do Ererê recobertas por uma ve~tação arbórea.

possuem algumas espécies do Cerrado c) Território Federal do Amapá: Cam-


típico, fato que tem determinado a in- pos de Calçoene, Macapá, Matapi e
efusão destas áreas na 'Categoria de Mazagão.
Cerrados. ( Fig. 12).
As seguintes espécies são comuns a
Somente um estudo detalhado poderia quase todos os campos firmes: peua
individualizar as áreas de campo lim- (Andropogon brevifolius), salva (Hyp-
po e campo sujo na Região Norte, pois tis sp.), rabo-de-raposa (Andropogon
eles se sucedem com freqüência em es- bicorne), pau-de-candeia, candeia ou
paços relativamente curtos e apresen- oiteira (Plathymenia reticulata), pau-
tam muitas nuances. de-marfim ( Agonandra brasíliensis),
Entre o grande número de áreas de genipapo-do-campo (Tocayena fomw-
campo firme da Região destacam-se os sa) muirapixi (Lucuma parviflora), za-
seguintes: ranza ( Leptocoryphium lanatum).

a) Estado do Pará: Campos de Almei-


rim; Alter-do-Chão, Ariranha, Arraiolos,
Bragança, Breu Branco, Cametá, Cica- 7 - COMPLEXOS DE RORAIMA,
tanduba, Cupijó, Ererê, Faro, serras CACHIMBO E XINGU
ltanapari e Paituna, morro Mangabal,
rio Maracá, Marajó, Mariapixi, ilha As áreas assinaladas no mapa como
Me.xiana, Monte Alegre, Santarém, Ti- complexos incluem diferentes quadros
gre, morro Uruâ, Velha Pobre, Vila fitofisionômicos e florísticos.
Franca, Viseu, Campinas de Vigia,
Perdido, Porto de Moz, rio Mapuera, O termo "complexo" assinala tipos de
Aramateua, Breves, Gurupi, Gurupá. vegetação pouco identificados com os
b) Estado do Amazonas: Campo tipos mais característicos da vegeta-
Amélia, Grande (Borba), Puciari-Hu- ção brasileira, tipos que mostram re-
maitá, Jutaí, campinas do rio Padauri, lações evidentes com duas ou mais co-
rio Tarumá-Mirim e Ponta Negra. munidades ou ainda áreas em que vá-

84
rios tipos de vegetação se intercalam Cerrado na hiléia são comuns, incluin-
formando um mosaico de tal forma do-se a bela Salvertia conoolariaedo1-a,
complexo que somente uma cartogra- estão ausentes nos campos de Rorai-
fia minuciosa poderá representá-lo. ma. (Fig. 13).
A área dos campos de Roraima pode Entre as principais espécies contam-se:
ser enquadrada em todas as situações pnracariana ( Bowdichia virgilioides),
acima referidas. Eles são constituídos canária ( Crotalaria 11Ulypurensis), mo-
por extensas superfícies, ora de cam- roró ( Bauhinia f1UlCrostachya e B. gla-
pos sujos, não chegando a ser conside- bra), carrapicho ( Krameria .tomento-
rados campos cobertos, isto é, seme- sa), muirarema ou angelim-pedra (Hy·
lhantes aos Cerrados, ora por florestas menolobium petraeum), mirixi ou mu-
em estreitas faixas ao longo dos rios rici ( Byrsonif1Ul coccolobifolia), inajá
ou como manchas em algumas de- ( Maximiliana regia), mirixi-do-cam-
pressões do terreno. Estão localizados po ( Byrsonima crassifolia ), capim-ti-
ririca ( Diplasia kerataefolia), pé-de-
na porção nordeste do Território Fede- pato ( Dtoclea guianensis ), caimbé
ral de Roraima, a partir do rio Cana- {Curatella americana), pirito ( Swart·
mé e do igarapé do Cachorro, afluentes zia dipetala ), timbó ( Clitoria guianen-
do rio Branco. sis), algodãoziQho ( Cienfuegosia phlo-
Sua origem é tanto climática como pe- midifo[ia), aráçá-do-campo (Eugenia
dológica. O clima da área é semi-úmi- polyphylla ), surucuá ( Combretum
do, com 4 a 5 meses secos e solos bas- assimile), tapioqueira ( Martiusia ex-
tante profundos e pobres. O lençol celsa), manga-brava ( Clusia grandi-
d'água está situado entre 10 e 15 me- flora e Andina retusa), folha-de-carne
( Casearia silvestris), congonha ( Rou-
tros de profundidade. pala montana ), canela-de-maçarico
Embora as características do clima, ( Cassia flexuosa), castanha-elétrica
do relevo e dos solos sejam semelhan- ( Thevetia peruvianà~ vinagreira-de-
tes às do Centro-Oeste brasileiro, sua camaleão ( Oxalis mairàf'yensis), uari-
flora tem pouca afinidade com a flora mã ( Cassia multiiuba ), orelha-de-ra-
do Cerrado e outros tipos campestres posa ( Galactia jussialva), pau-roxo
daquela área. As espécies típicas do (Peltogyne puQescens e P. gracilipes),
Cerrado que mesmo em enclaves de relógio-do-campo ( Soemmeringia sem-

Fi~. lS - Uma das fisionomias da vegetaçio do Complexo de Roraima é a do Cerrado


CUJA estrutura apresenta um estrato arbóreo-arlnutivo disperso e um herbáceo, mais ou meno;
contínuo, onde pndominam grauúneas.

85
per-flcrens), raposa-quirinha ( M yrda báceos pouco diferenciados. Sobre so-
didrichsmíana), mata-zombando (In-- lo arenoso, mais delgado, predomina
digofera pascuorum), esporão-de-galo vegetação arbustiva, com indivíduos
( Basanacantha spioosa ) , cedro-de-es- grupados ou esparsos. Entre estes, for-
pinho ( Bombax quinatum), ca_pim.,de- mando uma cobertura baixa e muito
bolota (Rhynchospora cephalotes), rala, crescem gramíneas e eriocaulá-
capim-do-brejo ( Rhynchospora globo- <:eas. Em afloramentos diaclasados de
sa ), capim-estrela ( Dichromena cilia- quartzito desenvolve-se vegetação ar-
ta), coroa-de-frade ( Melocactus ne· bustiva, de folhas coriáceas, com estra-
blyi). tos herbáceos de bromeliáceas, cipe-
A "serra" do Cachimbo é um chapa- ráceas, eriocauláceas e velosiáceas.
dão residual, quartzítico, longo e es- 1!: assinalada também a existência de
treito, ao sul do Estado do Pará e pe- áreas de campo limpo, constituídas
quena porção do norte de Mato Gros-
so. Suas encostas são fortemente dis- principalmente pela gramínea (An-
secadas por rios das bacias do Xingu thaenantia lanata ), eriocauláceas ( Syn-
e Tapaj6s. gonanthus graomongolensis, Paepalan·
thus spp.), labiata (Hyptis sp.) e bro-
Castro Soares ( 1953), faz preciosas e:
meliácea (Ananas sp.). observada a
observações sobre a vegetação da ação do fogo nas proximidades do
"serra" do Cachimbo. Os solos quart- campo de aviação da "serra" do Ca-
zíticos, muito pobres, são recobertos chimbo, fato que, generalisado para
por uma vegetação sui genem, toda a área, poderá explicar em parte
abrangendo, fisionomicamente, aspec- o caráter "sui generis" da vegetação.
tos que vão da mata seca a verdadei-
ros campos limpos. Diz este autor. Na bacia do rio Xingu, entre os Esta-
dos de Mato Grosso e Pará, foi tam"
"Verificamos que a vegetação dos to-
pos dos chapadões em apreço não po- bém assinalada, por meio de fotogra-
de ser confundida com a dos Cerraaos fias aéreas, uma grande área de vege-
e cerradões. A única espécie arbórea tação semelhante à observada na "ser-
característica do Cerrado que nela en- ra" do Cachimbo, e que constitui o
contramos foi o murici ( Byrsonima chamado "Complexo do Xingu".
sp.). Trata-se, evidentemente, de uma Nos topos tabulares da chapada dos
vegetação "sui generis", de difícü clas- Parecis e "serra" dos Pacaás Novos,
sificação. Não sabemos se os índios
para ela têm alguma denominação es- são encontrados diferentes tipos de ve-
pecial. Tentaremos, todavia, descrevê- getação, que podem ser enquadrados
-la em seus traços principais. Consis- na classificação de "complexo". São
tirão estas fonnações arbustivas os cerrados, cerradões, chavascais, char·
chamados cbavascais ou charravascais? ravascais, bamburrais, taquarais, etc.
Logo à primeira vista pode-se, porém, O referido autor faz referência ao char-
distinguir três tipos dessa vegetação: ravascal descrito por Hohene, consi-
o arbõreo, o arbustivo e o gramínea-
herbáceo", ap. Castro Soares, v. ref. 69 derando-o em tudo semelhante a um
da Bibliografia. dos tipos encontrados na "serra" do
Cachimbo: "mato seco raquítico, ora
Assinalou ainda o autor quatro aspec- denso ora mais aberto, deixando ver,
tos diferentes da vegetação, ligados a amiúde, por entre as suas árvores altas
diferentes condições de solo. Sobre so- de troncos finos e pequenas copas de
lo arenoso profundo desenvolve-se ve- poucas folhas (principalmente duran-
getação constituída de pequenas árvo- te a época da estiagem, quando as
res, com altura variável entre 4 a 5 observamos), um solo pedregoso, on-
metros, troncos finos, copas estreitas de afloram lajedos lisos e grandes blo-
e com pouca folhagem, com espaça- cos rochosos fraturados e decompos-
mento muito reduzido entre os troncos, tos", cf. Castro Soares, op. cit. ( Fig.
apresentando estratos arbustivos e her- 14).

86
Fig. 14 - Nas partes de solos mais pobres e arenosos a vegetação do Complexo do
CaChimbo se ·apresenta com a fisionomia campestre, constituída por subarbustos e gramíneas
esparsas. Destacam-se na foto representantes da família Eriocaulácea, como Paepalanthus e
Syngonanthus.

8 - VEGETAÇÃO LITORÂNEA Do cabo Orange à foz do rio Gurupi


a vegetação de praias e dunas se alter-
nam com a de mangues, de acordo com
Distinguem-se dois tipos de vegetação o substrato.
em quase todo o litoral brasileiro e
que estão subordinados às influências As espécies características das praias
diretas do mar: a vegetação de praias e dunas são: o capim-da-areia (Pani-
e dunas, constituídas de plantas ·her- cum racemosum); capim-da-praia ou
báceas e arbustivas e · a vegetação de paraturá ( Spartina brasilíensis); cam-
mangues, constituídas de espécies ar- painha-branca ( Ipomoea litorallis);
bustivas e arbóreas. salsa-da-praia ( Ipomoea pes-capreae);
A vegetação de praias e dunas está ipecacuanha-de-flor-branca ou poaia
adaptada a um substrato exclusivamen- da-praia (H ybanthus ipecacuanha) e
te arenoso, onde a ação da água do outras.'
mar se faz sentir diretamente através
de ondaS mais violentas e do vento, Os manguezais ocorrem em quase toda
nas praias propriamente ditas e a ação a extensão dos lit~rais tropicais e pos-
mecânica do vento nas dunas. Na praia suem fisionomia semelhante graças à
o número de espécies é bastante redu- presença de espécies homólogas, em-
zido e ·as plantas são exclusivamente bora apresentem composição florística
de pequeno porte, com profuso e pro- diferente, seg. Schnell ( 1971).
funêlo sistema radicular. Nas dunas,
tanto a ausência do cloreto de sódio Do ponto de vista florístico, distin-
ci>mo a presença na areia de matéria guem-se os manguezais ocidentais, tí-
orgância permitem o desenvolvimen- picos do litoral atlântico do continen-
to de um maior número de espécies, te africano e dos litorais atlântico e
uma cobertura mais contínua do solo pa~ífico das Américas do Sul e Cen-
e maior porte dos indivíduos, tanto tral e dos manguezais orientais, que
arbustivos como arbóreos. abrangem os litorais do leste da Afri-

87
ca, da Ásia, da Indonésia e de algu; do manguenzal: o mututi ( Pterocar-
mas ilhas do Pacífico. pus draco), embira-do-mangue ( Hi-
biscus tiliaceus) e araticum, ( Anona
Os gêneros Rhyzophora e Avicennia palustris).
são comuns a quase todas as áreas de
mangue, em ambos os tipos. Quando a vegetação do mangue pene-
Os manguezais orientais são muito tra em lugares arenosos é chamado de
"mangue seco" pelas populações locais.
mais ricos em espécies características
No litoral do Estado do Pará ó man-
do que os ocidentais, encontrando-se
guezal penetra de 20 a 40 quilômetros
nos primeiros 49 espécies e nestes ape- ao longo dos rios costeiros, ocorrendo
nas 13, segundo Van Steenis ( 1962), até onde chega a água salgada ou sa-
cit. por Schnell ( 1971) . lobra das marés. Jt justamente nas par-
Do ponto de vista dinâmico, o man- tes mais interiores do manguezal que
guezal pode ser considerado o estágio as árvores atingem o maior porte, de-
inicial da halosere da mata pluviaf, crescendo em ãltura à medida que se
isto é, a série evolutiva que, a partir aproxima do mar, passando a formas
de espécies halófilas pioneiras ( Rhy- arbustivas e, finalmente, sendo substi-
zophora mangle, etc. ), evoluirá até o tuídas por uma cobertura de grami·
clímax da floresta úmida tropical. neas.

A vegetação dos mangues, ao contrá- Os extensos manguezais entre o rio


rio da vegetação das praias e dunas, é Amazonas e o rio Oiapoque são as-
constituíáa de vegetais que ocorrem sim descritos por Hueck ( 1972):
em solos de vasa, de formação recen- "Rhyzophora e Laguncularia, em opo·
te, de pequena declividade, sob a ação sição ao trecho mais meridional da
diária das marés de água salgada ou costa, são menos freqüentes aqui. Sem
pelo menos salobra. dúvida, a espécie que predomina é ·
Avicennia nítida ( siriúba) . Os man-
Os manguezais são floristicamente bas- guezais deste tipo são chamados siriu-
tante homogêneos, desde o' extremo bais. Seu aspecto fisionômico é com-
norte do Brasil até Santa Catarina. Do pletamente diferente dos manguezais
'ponto de · vista fisionômico apresen- ae laguncularia do sul do •Brasil. For-
tam variações quanto à altura dos in- ma-se aqui uma mata de grande uni-
divíduos, sendo que na região norte formidade, mais ou menos densa, de
suas espécies alcançam porte bem mais cerca de 20 metros de altura. Em lo-
elevado do que nas outras regiões, cais com baixo teor de salinidade vi-
constituindo verdadeira floresta. vem arbustos de Conocarpus erecta e
Bucida buceras que atingem 20 me-
Por ordem de afastamento do litoral tros. O sub-bosque é muito pobre em
são encontradas as seguintes espécies: espécies, como em todos os mangue-
mangue-vermelho ( Rhyzophora man- zais. Encontram-se: Arrabidea sp.,
gle), que atinge até 12 metros de al- uma espécie de bambu ( Guadtl4 sp.) ,
tura e possui raízes aéreas que, de- uma leguminosa arbustiva ou arbórea
vido ao solo lodoso e instável, garan- ( Machaerium lunatum) c uma sa-
tem-lhe sustentação. Suas raízes aéreas mambaia grande Acrostichum aureum,
são em parte ou totalmente recobertas onde o manguezal penetra para o in-
pelas águas da maré alta; mangue-si- terior ao longo dos rios em geral é mar-
riúba ( Avicennia schaueriana ou A. geada por uma faixa de "Pterocarpus
nítida) que pode atingir até 15 me- draco", cf. Hueck, op. cit.
tros de altura e ocorre numa área pou-
co atingida pelas marés e, finalmente,
no trecho mais estável porém ainda
lodoso, a tinteira ou mangue-branco - CONCLUSÕES -
(Laguncularla racemosa) e Conocar-
pus erecta. Além das espécies acima, A Região Norte, ao contrário das de-
conhecidas como mangues, as seguin- mais llegiões brasileiras, apresenta o
tes espécies são também características seu revestimento vegetal pouco altera-

88
do. Apenas em locais atravessados por algumas espécies de alto valor econô-
estradas nas áreas vizinhas aos a~lo- mico são fatos que indicam a necessi-
merados humanos e nas áreas agnco- dade da criação de meios de proteção
las, em geral muito pequenas, foi feito tanto aos recursos vegetais e paisagís-
o desmatamento. ~moora diminutas, ticos como à conservação dos solos.
em relação à imensa área coberta de
florestas, as experiências agrícolas in- 'l-A abertura da Transamazônica, um
dicaram a necessidade de um intenso dos acontecimentos mais importantes
trabalho de esclarecimento ao agricul- para a integração da Amazônia, repre..
tor regional, visando ao melhor apro- senta, por isto mesmo, uma séria preo-
veitamento dos recursos do solo. Os cupação. Embora tenham sido toma-
solos de "terra firme" são, no enten- das medidas para a restrição do des-
der da maioria de seus pesquisadores, matamepto das áreas ao longo das es-
bastante pobres, e, em conseqüência, tradas, sabe-se ser quase impossível
susceptíveis de rápido esgotamento manter a ação destrutiva apenas nas
quando submetidos à práticas agríco- áreas loteadas ou nas grandes pro-
las tradicionais, isto é, ao processo de priedades agropecuárias. Daí a neces-
queimada e coivara. A região da Bra- sidade da criação de um maior nú-
gantína, cuja cobertura florestal foi mero de reservas florestais, reservas
quase inteiramente retirada com a ins- biológicas ou parques, que deverão ser
talação de colonos ao longo da Estra- mantidos como verdadeiros santuários,
da de Ferro Belém-Bragança (hoje em que não só a flora como também
substituída por estrada de rodagem), a fauna deverão ser protegidos.
dá idéia do que poderá ocorrer em
quase toda a Região Norte. Os solos Atendendo à necessidade de preser-
empobrecidos depois de alguns anos var e reconstituir a vegetação no Ter-
de uso, mal dão para minguadas co- ritório Brasileiro o Governo Federal
lheitas de mandioca, sendo então repo- criou parques e reservas florestais em
voados por arbustos sem valor, for- várias áreas do Território Brasileiro.
mando ralas capoeiras. Estas, antes de Obedecem elas a quatro categorias:
proporcionar substancial melhoria do Parque Nacional, Reserva Biológica,
solo, passam novamente pelo processo Monumento Nacional e Floresta Na-
de queimada e, assim, sucessivas utili- cional ( Reservas Florestais ) .
zações reduzem os Jolos a uma areia Até o momento a Região Norte não
pura, quase estéril. possui nenhuma área com a categoria
Menos evidentes na paisagem do que de Parque Nacional.
a exploração para fins agrícolas, a re-
tirada de madeiras e a exploração dos As Reservas Florestais distribuídas em
seringais e castanhais nativos consti- diferentes áreas da Região Norte têm
tuem as atividades de maior significa- por fim "a proibição cfe atividades li-
ção na Região. gadas à utilização, perseguição, caça,
apanha ou introdução de espécies da
Apesar da imensa riqueza potencial da fauna e da flora silvestres e domésti-
Floresta Amazônica ( 600 espécies de cas, bem como modificações do meio
madeira de lei, segundo Ducke), a ambiente, ressalvadas as atividades
exploração madeireira mal foi inicia-. científicas devidamente autorizadas
da. Em alguns locais, entretanto, algu- pela autoridade competente", segundo
mas espécies já são escassas, desta- Magnanini, ref. 49 da Bibliografia. .
cando-se o pau-rosa, árvore que é sa-
São sete as reservas florestais da Re-
crificada para obtenção de óleo per- gião,
fumado e o mogno, cujas maiores re- das pela localizadas em áreas pouco afeta-
atividade humana:
servas encontram-se no oeste do Ma-
ranhão e norte de Goiás, áreas muito No Estado do Pará:
expostas à destruição.
1.0 Reserva Florestal de Caxiuaná, nas
A comprovada pobreza dos solos de proximidades da Baía de Caxiuaná,
"terra firme" e a possível extinção de entre os rios Xingu e Tocantins. Área

89
típica de floresta · hileiana com casta- da com a denominação de Caatinga e
nlieiras, maçaranduba, etc. Ocupa par- pela floresta hileiana.
te da várzea e parte da terra firme.
No T errit6rio de Roraima:
2.0 Reserva Florestal Gorotire, forma
um polígono irregular, compreendido 5.0 Reserva Florestal Parimo-, cujos li-
entre os rios Fresco ao norte, Xingu mites ao Norte atingem as elevações
ao norte e oeste e por segmento ao da serra de Pacaraima, na fronteira
paralelo de 8° ao sul. Ela engloba com a Venezuela. Compreende gran-
áreas de floresta decídua nos vales, des extensões de Cerrados e matas ci-
com ocorrência de mogno e Cerrados liares. Há poucas áreas de mata pro-
nos espigões. priamente dita.
3.0 Reserva Flore~l Mundurucdnia, No Território de Rond.,nia:
de forma bastante irregular, limitada 6. 0 Reserva Florestal do ]aru, situada
ao norte pelos rios Tapajós e das Tro- no vale do rio Machado, englobando
pas, estendendo-se no sentido NO-SE um grande trecho da floresta hileiana.
e englobando parte da "serra" do ca:.
chimbo. Ela compreende Cerrados nas 7.0 Reserva Florestal de Pedras Ne-
partes mais elevadas da "serra" do Ca- gras, situada na encoita da serra dos
chimbo e uma extensa área de flo- Parecis e no vale do Guaporé, englo-
resta. bando vegetação florestar hileiana e
Cerrados.
No Estado do Amazonas:
Dado a grande extensão da Região
4.0 Reseroa Florestal do Rio Negro, si- Norte e a fragilidade do seu equilibrio
tuada no alto rio Negro até atingir a ecológico, maior número de reservas
fronteira com a Colômbia. Ela é cons- florestais poderia ser implantado bem
tituída, em sua maior parte, por vege- como serem criados Parques Nacio-
tação arbórea baixa e aberta, conheci- nais. 1

NOTA DE REFER~NCIA

1 Grande . parte das listas de espécies aqui apresentadas foi obtida de trabalho inédito do
geógrafo Miguel Guimarlles de Bulhões.

90
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Boletim do Museu Goeldi, Belém Série Botânica, (7): 1·17, 1960.
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Editora Nacional, 1939, 668 p. il.

94
A

1- A BACIA AMAZONICA
NO QUADRO A

GEOTECTONICO E
HIDROGRÁFICO DO
CONTINENTE
SUL-AMERICANO
Abrangendo uma área de aproximada-
mente 6,5 milhões de km2 ( exclusive
a bacia independente do Tocantins-
Araguaia), a Bacia Amazônica se es-
tende, segundo Fernando F. M. de
Almeida. por dois grandes domínios
estruturais do continente sul-america-
no, isto é, pela vasta área cratônica
Brasília-Guiana, a leste, e pela Cordi-
lheira dos Andes, a oeste, incluindo-
se no último os sistemas extra-andinos
- os "Brasüandes", de Steinmann t.
"Sobre ela se alojam grandes bacias
sedimentares Paleoz6icas e Mesozói-
cas de reduzido tectonismo" escreve
este autor, acrescentando ser a mesma
uma "área que, desde o Siluriano, se
tem mostrado tectonicamente calma,
HIDROGRAFIA reagindo às ações diastr6ficas através
de manifestações de caráter epirogê-
LúCIO DE CASTRO SOARES nico e deformações locais por abaula-
mentos ( plis de fond) e falhamentos
de gravidade" 2.
Seu dilatado âmbito geográfico abar-
ca, assim, quatro granáes unidades
geotectônicas: a extensa bacia sedi-
mentar amazônica; a elevada cadeia
andina; e os velhos escudos cristali-
nos brasileiro e guianense 8 • Em seu
fundo encontra-se um dos seis grandes
doDlÍoios modoclimáticos brasileiros
caracterizados por Aziz N. Ab'Saber -
o domínio mqrfoclimático amaz6rúco,
constituído, segundo este autor, pelas
"terras baixas equatoriais florestadas
ou ainda o domínio dos "tabuleiros"
equatoriais florestados" 4 •
A calha coletora geral das suas águas
é o caudaloso Amazonas que se dis-
põe 110 longo do eixo de um geossin-
clinal produzido em terrenos do Pri-
mário e do Secundário, os quais foram,
por sua vez, cobertos por espesso man-
to de sedimentos do Terciário; cavan-
do, desde o inÍcio, o seu leito na imen-
sa bacia detrltica instalada dentro do

95
geossinclinal e suavemente inclinada mar se estendia, por um lado, à Bacia
para leste, o Amazonas viria a se trans- do Parnaíba e, por outro, ao Peru e
formar, no decorrer do Quaternário, Bolívia.
em "um grande rio conseqüente-mes-
tre", segundo Ab'Saber 5 • Foi a última ingressão marinha no in-
terior da Amazônia que passou ao re-
A origem da bacia hidrográfica ama- gime continental.
zônica é, sensu lato, a da própria bacia Se o quadro paleogeográfico esboçado
sedimentária amazônica, surgida na era for correto, a presença na bacia do
terciária pelo entulhamento do imenso Acre apenas do terreno Carbonífero e
"lago" de água doce então alojado no a prática ausência dos terrenos Pa·
gigantesco "anfiteatro" compreendido leozóicos na bacia de Marajó devem-
entre as "ilhas" Arqueanas do norte e se à erosão.
do sul do equador, o geossincUneo an-
dino, a oeste, e, segundo Mesner & A alternativa é de a Bacia do Amazo-
Wooldridge, o "horst de Gurupá" que nas ter-se comportado como a única
separava as bacias sedimentárias do área subsidente até o fim do Carbo-
Médio Amazonas e de Marajó 8 • nífero, época em que o mar ocupou
as bacias do Acre e Marajó.
Numa feliz tentativa de síntese da evo-
lução geológica do vale do Amazonas, Então os sítios das bacias do Acre e
Marajó ter-se-iam mantido emersos
escreve Josué Camargo Mendes: até o fim do Carbonífero. No fim do
"Formaram-se, em primeiro lugar, os Paleozóico passaram ao regime con-
escudos Brasileiro e das Guianas que tinental todas as bacias.
PQ<iem ter-se mantido unidos até o Os sedimentitos cretáceos das bacias
início do Paleozóico. sedimentares, embora nllo se possa es-
tar certo disso no caso do Acre, gera-
No Siluriano o sítio da atual Bacia do ram-se de sedimentação fluvial e lacus-
Amazonas sofreu subsidência, talvez tre. Pelo menos uma parte dos rios
acompanhada de falha.mento, transfor- dessa época demandava o mar a leste,
mando-se em uma grande calha de di- num arremedo do futuro Amazonas, a
reção leste-oeste. julgar pelas grandes espessuras dos se-
dimentitos Cretáceos deltaicos da bacia
Ocupou-a, então, o mar, talvez o mar de Marajó.
que invadiu a bacia do Parnaíba. :E:
pouco provável, mas não impossível, No fim do Mesozóico os depósitos do
que também mantivesse conexão a oes- geossinclíneo andino sofreram nova
te com a bacia andina. fase orogenética. Pode ter sido essa a
causa do dobramento das camadas ba-
Deu-se, após, a exondação da bacia do sais do Acre.
Amazonas, que perdurou até o início
A~s o clímax da orogênese andina, no
do Devoniano, quando houve nova irucio do Terciário, formou-se a vasta
subsidência. cobertura sedimentar moderna da
Com gJ'8Dde probabilidade, o mar De- Amazônia, enquanto as falhas da fos-
voniano da Amazônia se continuava na sa de Marajó se reativavam, aprofun-
dando sucessivos depósitos Cenozóicos.
bacia do Parnaíba e, aparentemente, A drenagem que acumulou tais alu-
ligava-se, a oeste, com a bacia andi- viões deve ter sido muito similar à ho-
na. Entre as rochas acumuladas figu- dierna.
ram as que geram petróleo.
"O atual Amazonas e seus tributários
Após outro longo intervalo de exon- alargaram seus vales nesses antigos de-
dação. retomou o mar à Bacia do Ama- pósitos fluviais e passaram, por sua vez,
zonas no fim do Carbonífero. Suge- a aluvionar na imensidão das suas
rem os dados paleontológicos que esse várzeas" 7 •

96
2 - O TECTONISMO E O cudos cristalinos) do continente e,
ainda, a disposição do próprio rio Ama-
EUSTATISMO NA zonas ao longo do eixo de um geossin-
DRENAGEM REGIONAL clinal muito fraturado (fossa interes-
cudal cratônica, segundo Loczy, for-
Com cerca de 2 milhões de km2, aba- mando extenso e complexo graben),
cia sedimentar amazônica representa cara<.:terizam-na como sendo, no seu
uma vastíssima extensão de terras bai- conjunto, uma região de drenagem ori-
xas, a maior do País, cobertas por flo- entada pela tectônica.
restas pouco acessiveis e esparsamen- Com efeito, os ângulos, com vértices
te habitadas, onde o Amazonas tem voltados para leste, formados com o
3/4 do seu curso e onde se encontra Amazonas por seus tributários mais
quase toda a rede naturalmente nave-
gável da sua bacia; estreita a leste importantes por ambas as margens,
(costa atlântica), vai se alargando con- mostram uma nítida adaptação da dre-
sideravelmente para oeste, até os flan- nagem às linhas de falhamento, orien-
cos orientais dos Andes, limitando-se tadas na direção NNW-SSE (margem
ao norte e ao sul com os planaltos esquerda) e na direção SSW-NNE
Guianense e Brasileiro 8 • (margem direita ) , direções gerais es-
tas que são as do fraturamento pro-
A adaptação da rede hidrográfica duzido pelos arqueamentos epirogêni-
amazônica às grandes linhas de aobra- cos principais dos escudos brasileiro
mento (parte andina) e de fratura ( es- e guianense ( Fig. 1)

LINHAS DE ELEVAÇÃO OU DOBRAMENTO


UNHAS DE ELEVAÇAO OU DOBRAMENTO INCOMPLETAMENTE
I VERIFICADAS- ( Seo. EVANS)
'- .... 1
I
........ -.. DIRECAO DE ARQUEAMENTO PRINCIPAL
I

Fig. 1 - Croqui tectônico da Bacia .Amuauica, segundo Evans, com as direções dos arquea-
mentos priDc:ipais. Note-se a acentuada dissimetria da bacia, resulante do tectonismo, bem
como a disposição do rio Amazonas ao longo do eixo de um geossinclinaJ. (Extrafdo de
Freltas, ref. 18 da Bibllografla).
São exemplos de grandes rios de vales acentuada dissimetria. Por outro lado,
estruturais o Negro e seu afluente o o abaulamento, de grande raio de cur-
rio Branco, o Uatumã, o Trombetas, o vatura, sofrido durante a orogênese
Paru e o Jari (direção NW-SE), bem andina pelo escudo brasileiro, seria o
como o Javari, o Puros, o Madeira-Be- responsável pela considerável extensão,
ni-Madre de Dios, o Tapajós e o Xin- por vezes superior a 1.500 km, de al-
gu-lriri (direção SW-NE}; tal adap- gun~ rios da vertente meridional da
tação é particularmente observada nos bacm.
médio e baixo cursos de muitos outros
rios da Bacia Amazônica. Por terem os grandes tributários do
Amazonas suas bacias alojadas sobre
A disposição E-W (a "direção amazô- os desgastados maciços guianense e
nica", de Ruellan) do socle guianense, brasileiro, "rebaixados pela pediplana-
assim como a proximidade deste escu- ção neogênica e reentalhados pela evo-
do cristalino em relação à calha do lução geomorfológica comJ>lexa do
Amazonas, fizeram com que seus tri- Quaternário", segundo Ab'Saber 9 , são
butários setentrionais tivessem, naque- freqüentes os casos de epigenia, estes
le trecho, menor percurso, disso resul- evidenciados por numerosas gargantas
tando apresentar a Bacia Amazônica que cortam cristas monoclinais e por

Fig. 2 - Garganta epigênica produzida pelo rio Juruena Jogo a jusante da cachoeira de
São João da .Barra (extremo-norte de Mato Grosso), no ponto em que o rio corta uma crista
arrasada e formada por rochas do embasamento cristalino do planaJto sul-americano.

98
Fig. 3 - Padronagem da hidrografia sobre o platô terciário amazônico entre os rios Negro e
Solimões, segundo Stemberg, p. 522 ref. 66 da Bibliografia.

incontáveis rápidos e corredeiras for- cesso lento de restabelecimento do


mados por camadas rochosas mais re- equilíbrio isostático 10 ainda em curso,
sistentes à erosão fluvial e orientadas como constatou Antônio Teixeira
nas direções gerais NW-SE e NE-SW Guerra há duas décadas, na cidade de
( Fig. 2) . Dessa adaptação à estrutura Rio Branco, capital do Acre 11 •
resUltou uma padronagem acentuada-
mente ortogonal da drenagem secun- Em conseqüência das regressões mari-
dária amazônica. nhas manifestadas no Quaternário An-
tigo, houve forte encaixamento do
Tal padronagem orientada pela tectô- Amazonas e de toda a sua rede hidro-
nica é também, com freqüência, encon- gráfica nos sedimentos Terciários ( Fig.
trada, com as direções já referidas, na 5 ); os leitos dos cursos d'água cavados
rede hidrográfica dos terrenos Terciá- nesses sedimentos foram aprofundados
rios amazônicos, o que levou Hilgard pela erosão remontante durante as os-
O'R. Stemberg ( Fig. 3) a supor um cilações glácio·eustáticas marinhas qua-
tectonismo resultante do abatimento do ternárias ( estas devidas à formação ou
embasamento cristalino ( provavelmen- fusão de grandes massas de gelos con-
te já fraturado pelo diastrofismo gond- tinentais) e tiveram os vales dos seus
wAnico) sob a ação da enorme sobre- trechos finais "afogados" pela subida
carga produzida pela massa de sedi- das suas águas, em virtude das trans-
mentos sobre ele acumulados desde os gressões que sucederam aos diversos
princípios da era Paleozóica ( Fig. 4); abaixamentos do nível de base oceâni-
esses abatimentos, observados desde co e que foram igualmente responsá-
fins do século XVII, operar-se-iam, se- veis pela construção das várzeas ama-
gundo este autor, devido a um pro- zônicas, como bem explica Sioli 12 •

99
Fig. 4 - Adaptação da rede fluvial amazônica à estrutura, no platb Terciário (padronagem
or~o&onal). Note-se o alargamento dos trechos finais (afogados) ciOs afluentes de pouca exten-
sio, devido à eJOsio de vertentes resultante das variações gJácio-eustáticas do nível de base
marinho. O espesso manto florestal oculta quase totalmente o curso superior dos pequenos
afluentes.

Reâlmente, os últimos trechos "afoga- Quem primeiro admitiu a existência


dos" do Xingu, Negro, Coari, Tefé e de "rias fluviais" recortando as bordas
Anapu (o deste rio veio a formar a dos baixos tabuleiros arenosos que
grande "baía" de Caxiuaná), para ci- margeiam o leito maior do Amazonas
tar somente os mais expressivos exem- foi Pierre Denis ( 1927), que tentou
plos, assemelham-se, por sua forma, explicar a origem das mesmas pelas
largura e profundidade, a rias mari- oscilações eustáticas do continente. 14
nhas em costas baixas. Deve-se, porém, a Francis Ruellan a
explicação dos processos que realmen-
As "rias fluviais", ou interiores, am~ te deram causa às "rias" interiores ama-
nicas apresentam notáveis despropor- zônicas, oú seja, aqueles relacionados
ção entre suas larguras e extensões e as com as variações glácio-eustáticas qua-
dos cursos d'água que para elas fluem ternárias do nível de base atlAntico 115•
( Figs. 5 e 6); Pierre Gourou descre-
veu-as como sendo vales encaixados e Segundo Ruellan, as "rias" interiores
muito digitados, cheios de água doce amazônicas formam uma série de va-
e com vertentes muito íngremes 1a les fluviais muito ramificados, invadi-

100
FIG.5

Fig. 5 - Exemplos de antigas "rias fluviais" na Planicie Amazônica. Observe-se a despro-


porção existente entre as suas larguras e comprimentos e os dos cursos d'água que para elas
fluem. Fonte - Carta do Brasil ao Milionésimo (Folhas Manaus, Santarém e Belém) - mGE.

dos por água doce e não colmatados, Tal fato, acrescenta Ruellan, não é par-
não apresentando grande modificação ticular ao Amazonas: a formação dos
após a sua formação. aluvionamentos Terciários é uma se-
qüência relativa dos movimentos alter-
Explicando a sua origem, este geomor- nados do nível do mar e dos continen-
fólogo lembra que, por ocasião das tes, correspondendo às oscilações de-
grandes glaciações, o nível do mar nominadas na Europa baixo Monaste-
abaixou-se (mais de 100m em Würm), riano e pré-F1andriano, esta última cor-
acarretando uma retomada de erosão respondente à Würm. Algumas dessas
fluvial. Esses fatos foram evidenciados oscilações se colocariam, perto de nós,
pelos terraços de 100, 50, 40, 30, 20, 8 a cerca de 9 mil anos.
e 4 m (os três últimos existentes na ilha
de Marajó e nas proximidades de Be- As "rias marinhas", conclui Ruellan, são
lém), representando os diversos de- evidências dos abaixamentos do mar,
graus de dissecação ligados aos aluvio- como o são as "rias fluviais" interiores
namentos do fim do Terciário. amazônicas.

101
o lkm

SONDAGENS EM METROS

S. Raimundo
+ lg.N.S. de Fáti ma

MANAUS

31
35 26

28 34
3J

31
31 Educandos
38
17
33

28 31 32 33 44 30 36

Fig. 6 - Os terra90s que servem d.e Sítio à capital do Estado do Amazonas são sulcados por
duas recortadas e profundas "rias" do rio Negro. (Reproduzido, com simplificações, da Carta
de Praticagem 4.100 (Porto de Manaus), da Diretoria de Hidrografia e Navegação).

Fig. 1 - Mouthbay (Sioli) do rio Arapiuns, afluente do baixo Tapaj6s. Note-se as franjas
brancas fonnadas pelas praias deste 'rio de água preta' . Foto aérea de H. Sioli.

102
Fig. 8 - Um pouco acima da sua mouthbay, o rio Arapiuns ocupa um vale afogado em
fonna de meandros-de-vale. Foto e legenda de H . Sioli.

Aos trechos finais, muito dilatados ( an- de embocadura) ou, como prefere, ri-
tigas rias fluviais), dos rios de águas ver-lakes (rios lagos), observando fur-
"claras" ou "pretas", tributários diretos marem os mesmos aspectos muito pe-
ou não do Amazonas, Sioli expressiva- culiares na paisagem amazônica. 16
mente denomin~ mouthbays (baías (figs. 7 e 8).

Fig. 9 - O litoral muito recortado, com numerosas ilhas ·e estuários com a forma de funil,
compreendido e.ntre as baías de Maraj6 (Pará) e de São Marcos (Maranhão), apresenta-se
como uma baixa costa de ria talhada em terrenos Terciários da série das Barreiras e do
Quaternário antigo. (Fonte: - Carta do Brasil ao Milionésimo (Folha São Luís) - ffiGE).

~20
o

o 20km
I

lOS
Em conseqüência, portanto, dos movi· sendo raros os trechos em que o seu
mentos regressivos do oceano, o Ama· talvegue está entre 60 e 90 m (Tah. 3);
zonas e seus afluentes mais caudalosos nos baixos cursos de seus afluentes, a
tiveram seus leitos profundamente en- profundidade chega a atingir 25 me-
caixados nos sedimentos Terciários. Se- tros.
gundo as sondagens procedidas pela
Marinha de Guerra Brasüeira, de 1966 Da colmatagem dos leitos planiciários
a 1969, a profundidade do Amazonas do Amazonas e de seus afluentes re-
chega a atingir a mais de 100 m, não sultaram extensas planícies aluviais -

Fig. 10 - Situação do cmyon submarino do Amazonas no primitivo deltoa deste rio e hoje
localizado na borda da platalonna contineotaJ. A reentrAncia fonnada pela curva batimétrica
de 10 metros, em frente ao estuário amaz6oico, estaria a iodicH as margens do antigo canal
desa~or do Amazonas, quando da última regressão marinha. (Extraído de MM-DHN, ref.
11 dá Bibliografia).

0~·--------------1-Joqkm

ILHA DE MARAJÓ

104
as várzeas - que, entrecortadas por Da sedimentação processada nas ca-
paranás e furos e semeadas de nume· lhas fluviais amazônicas resultou a
rosos lagos e lagoas formam, em seu barragem de grande número de bocas
complexo conjunto fisiográfico, a "pla- de vales submersos ("rias fluviais")
nície amazônica propriamente dita." não s6 de tributários diretos do Ama-
segundo Pedro de Moura; nelas a pre- zonas mas também de afluentes des-
sença multiforme da água é uma cons- tes, transformando-se tais "vales afo-
tante, mesmo no período da vazante, gados" em profundos, alongados e ra-
dando a impressão, quando vista de mificados lagos de água "limpa" ou
grande altura, de ser uma vasta exten- "preta", dos quajs os maiores são os
são alagadiça, onde o elemento líquido das embocaduras dos rios Coari, Tefé,
parece dominar sobre as terras, como Piorini, Amanã e Urubu, todos de mar-
bem observa Ab'Saber, ao chamar a gens altas e com forte declive. Tais
atenção para o contraste que elas ofe- margens, fluviais ou lacustres, são,
recem em relação ao baixo platô sedi- na maioria dos ·casos, bordas de terra-
mentar florestado, no qual se acham ços mais antigos (alguns atualmente
embutidas 17 • na retaguarda da planície de inunda-

Fig. 11 - Entre as isóbatas de 50 e 80 metros e a uns 150 quilômetros da costa, as pesquisas


oceanográficas da Expediçiio Ceomar li localizaram o pró-delta do rio Amazonas, próximo
ao seu primitivo delta, onde se encontra o seu profundo e recurvado canyon sul:imarino.
(Extraído de MM-DHN, ref. 11 da Bibliografia).

o 30 kM

GEOMAR l i
Conven~Oes
Fig.ll
LABOftATÓfiiO DE GEOLOGIA MARINHA - · - I n icio do BOTTOMSET
INSTITUTO DE GEOCtl:NCtAS U f R J - - f r o n t e do DELTA
.......... Limito do fundo LAMOSO com fundo ARENO·LAMOSO
AGOSTO • 1911 ou LAMO·ARENOSO

105
ção ), assinalando vanaçoes pretéritas plataforma continental, ao largo da foz
do nível de base atlântica 18• do Amazonas e a cerca de 200 km da
costa sul do Amapá. Este vale subma-
O último abaixamento do nível de base rino, de uns 70 km de comprimento
oceânico teve como conseqüência o e 5 km de largura média, acha-se em
encaixamento do rio Amazonas em an- seu primeiro terço disposto na direção
tigos terraços provavelmente do Pleis- SW-NE, infletindo depois para E, até
toceno, no que foi acompanhado pelos o limite da plataforma, e está delinea-
seus tributários; desse encaixamento do, em toda sua extensão, pela isóbata
resultaram margens ~ltas e de perfil de 150 m, em sua borda, e pela isóbata
abrupto, talhadas em argilas fortemen- de 200 m, em seu fundo; a menos de
te endurecidas por diversos estágios de uma dezena de quilômetros e a noroes-
laterização, como pode ser observado te do mesmo, os registros ecobatimétri-
na cidade paraense de Gurupá, cujo cos do N. Oc. Almirante Saldanha des-
Sítio é um terraço de 6 a 8 m de altura, cobriram um outro vale submarino um
formado pelo que restaria de um anti- pouco menos profundo ( 150 m), de-
go dique marginal do Amazonas t&. senvolvendo-se por uns 60 km de SW
para NEE. Este vale e aquele canyon
As variações do nfvel atllntico deixa- - denominado Canyon do Amazonas
ram igualmente evidências no litoral - estão talhados no primitivo delta ou
amazônico. Com efeito, uma baixa cone do Amazonas 21 ( Figs. 10 e 11) .
"costa de ria" (com falésias talhadas No croqui da figura 10 a curva bati-
pela abrasão em terrenos da série métl·ica de 10 m parece mostrar as
Barreiras) se estende nos litorais do margens do antigo canal desaguador
leste Paraense e do noroeste do Ma-
do Amazonas; lançado, como o seu pri-
ranhão, ( Fig. 9), por mais de 400 lan
no litoral da chamada "Amazônia Ma- mitivo delta, na direção geral SW-NE,
ranhense" se destacam, pela sua gran- este canal submarino estaria a indicar
deza e penetração no continente, as uma adaptação à estrutura do trecho
"rias" formadas pelas embocaduras final do Amazonas submerso pelas úl-
afuniladas do rio Turiaçu (baía de Tu- timas transgressões marinhas .
riaçu), dos rios Pericumã e Itapetinga
(baía do Cumã), bem como as dos As expedições oceanográficas GEO-
rios Mearim (baía de São Marcos) e MAR I e II revelaram, peJa primeira
ltapicuru (baía de São José), as duas vez, os principais aspectos da geomor-
últimas separadas pela ilha de São fologia submarina da porção da plata-
Luís. forma continental fronteira ao estuário
do Amazonas, a qual "apresenta uma
Evidências das variações glácio-eustá- superffcie de gradiente muito regular
ticas que afetaram a drenagem da Ba- e reduzido, da costa até aproximada-
cia Amazônica são também encontra- mente a isóbata de 00 m. A partir des-
das na porção da plataforma continen- ta profundidade, o gradiente acentua-
tal situada em frente ao golfão Ama- se até a profundidade de 75 metros
zônico ou Marajoara. (Zembruscky, Gorini, Palma é Costa).
A partir daí o fundo apresenta-se com
Sondagens realizadas pelo Navio Ocea- irregularidades e acha-se em faixa de
nográfico Almirante Saldanha - ao se- profundidade entre 70 e 85 metros" 22;
rem levadas a efeito as Operações as características geomorfo16gicas dos
GEOMAR I ( 1969) e GEOMAR 11 níveis de O a 00 m e de 70 a 85 metros,
( 1970) 20, programadas Pela Diretoria bem como o dimensionamento de sedi-
de Hidrografia e Navegação da Mari- mentação nestes dois nfveis são, igual-
nha Brasileira - revelaram a existên- mente, encontradas neste relatório dos
cia de um canyon submarino próximo resultados da "Operação GEOMAR
à borda ou quebra ( shelf break) da 11".

106
Fig. 12 - Com uma área superior a 6 milhões de km' e uma extensão navegável da ordem
de 20 mil km, a gigantesca Bacia Amazônica apresenta a maior, a mais rica e mais densa rede
fluvial do mundo. Extraído de MT-DNPVN, ret. 9 da Bibliogratia.

3 - EXPRESSÃO lume da água doce de todo o planeta,


o rio Amazonas é a artéria fluvial de
CONTINENTAL DA maior vazão já medida, carregando 15
BACIA AMAZÔNICA a 20% da água que todos os rios do
mundo conduzem aos oceanos.
Em virtude do predomínio do clima A expressão continental da Bacia Ama-
de elevada pluviosidade na quase tota- zônica reside no fato de ela drenar
lidade do seu imenso território, a Bacia aproximadamente 1/4 da superfície da
Amazônica apresenta a mais densa e América do Sul, abrangendo seis dos
rica rede de drenagem conhecida, do onze países sul-americanos ( Fig. 12);
que resulta possuir a Região Amazôni- no Brasü, sua importância decorre do
ca o maior sistema fluvial da Terra. papel que ela desempenha na circula-
ção da Região Norte, graças às excep-
Recolhendo grande parte da precipita- cionais condições de navegabilidade
ção pluvial do Globo, os rios da Bacia oferecidas pela sua abundante rede de
Amazônica são permanentemente cau- drenagem. Realmente, como estradas
dalosos; escoando cerca de 1/5 do vo- liquidas q'l.le cortam, em todas as dire-

107
ções, o denso manto florestal que reco- realidade, divisores cristalinos forte-
bre quase inteiramente a grande re- mente rebaixados pela erosão), têm
gião, seus rios vêm contribuindo, há suas cabeceiras em brejos e banhados
mais de trezentos anos, para o devas- que são também as nascentes de for-
sarnento e ocupação da Amazônia bra- madores de grandes rios da vertente
sileira. norte do maciço das Guianas; um des-
ses brejos é a fonte comum dos rios
Não obstante possuir uma drenagem Trombetas e Essequibo.
nitidamente do tipo exorréico, a Bacia
Amazônica apresenta a singularidade Duas ligações são encontradas, ao sul,
de comunicar-se com outras grandes com a Bacia Platina, unindo as bacias
bacias hidrográficas sul-americanas, do Guaporé e Paraguai, resJ>eetivfl
por vezes através de verdadeiras anas- mente pelos seus formadores Alegre e
tomoses entre diferentes sistemas flu- Aguapeí, este último afluente do Jau-
ru; fazem-se pela lagoa Rebeca e pelo
viais. Grande Tremedal, oferecendo navega-
A ligação mais conhecida é aquela fei- ção a barcos de reduzido calado na
ta por meio do canal Casiquiare, que epoca das cheias.
estabelece comunicação permanente A intercomunicação mais central d~t
entre as Bacias Amazônica (rio Negro) América do Sul verifica-se entre as Ba-
e orinocense (rio Orinoco), permitin- cias do Amazonas e do Paraná e acha-
do navegação por pequenas embarca· se numa pequena área brejosa, semila-
ções durante todo o ano 23; entre estas custre, situada nos confins ocidentais
duas bacias existem mais quatro inter- da chapada dos Parecis (Mato Gros-
comunicações fluviais. so), interligando formadores do Jurue-
na e do Paraguai; no Brasil Central es-
Ainda nos limites setentrionais da ba- tas áreas brejosas de cabeceiras, en-
cia há outros casos de defluviação, co- contradas sobre chapadões campestres,
mo o verificado nas cabeceiras do rio recebem o nome de "águas emenda-
Madalena, a principal artéria fluvial das", por estabelecerem ligação entre
da Colômbia; faz-se por meio de dois as águas de diferentes bacias fluviais u.
lagos andinos, situados a 3. 500 m de
altitude e de onde manam as águas do No quadro hidrográfico sul-americano,
rio Caquetá, este um dos mais impor- a Bacia Amazônica figura com um ren-
tantes tributários ocidentais do Amazo- dimento 211 variando entre 436,7 e 618,8
nas e denominado Japurá em terras milímetros por ano, depois da bacia
brasileiras . do Madalena, esta a detentora do
maior rendimento do continente, ou se-
As interligações de bacias hidrográfi- ja, 982,6 mm/ ano; o maior rendimento
cas sobre os escudos cristalinos perifé- do mundo - 995,5 mm/ ano - é o apre-
ricos à Planície Amazônica são uma sentado pela bacia do Irrawady, a
conseqüência do rebaixamento sofrido grande artéria fluvial de Burma.
pelos mesmos, devido à forte pedipla-
nação que, em determinadas áreas, os Graças à descomunal descarga do
colocou praticamente ao nível dos ta- Amazonas, a América do Sul - com
buleiros Terciários da Bacia do Amazo- um rendimento variando de 404,1 a
nas, como ocorre com o pediplano do 484,8 mm/ ano - é o Continente que
alto rio Negro, onde se verifica, entre oferece o mais elevado rendimento mé-
outras, a interligação estabelecida pelo dio ( 32,9$) dentre as demais extensões
canal Casiquiare. continentais, cujos rendimentos total
e médio são, respectivamente: Europa
Alguns formadores de afluentes seten- - 285,7 mm/ano e 19,4%; ÁSia -
trionais do curso inferior do Amazo- 283,8 mm/ ano e 19,3%; América do
nas, que nascem nas chamadas "serras" Norte - 200,9 mm/ano e 13,6%; e
de Tumucumaque e Acaraí (estas, na África - 186,7 mm/ ano e 12,7% 2e.

108
@OS CONDICIONAMENTOS tidade média anual de chuva apresen-
ta um índice muito elevado, e sua dis-
DO CLIMA. REGIMES. AS tribuição geográfica está intimamente
CHEIAS DO AMAZONAS ligada à ação das massas de ar,Jrinci-
palmente à massa Ec ( Equatori Con-
tinental), que ocupa grande parte do
tô regime dos rios da Bacia Amazôni- território durante largo período do ano,
ca está, antes de tudo, condicionado ao Provocando precipitações abundantes
regime pluvial reinante nesta vastís- sob a forma de grandes chuvas de con-
sima área geográfica, muito embora o vecção" 28
Amazonas e seus formadores extremo-
ocidentais de origem andina tenham Cortada pelo círculo do equador em
também uma alimentação nival. A sua porção extremo-norte, a Bacia Ama-
água proveniente do derretimento pri- zônica sofre, portanto, a influência do
maveril das neves andinas representa, regime oluvial dos dois Hemisférios: no
porém, uma contribuição bem peque- Verão austral a vasta porção meridio-
na quando comparada com o formidá- nal ela bacia, cerca de seis vezes maior
vel volume d'água que cai na grande que a setentrional, recebe maior quan-
bacia; além disso, há uma certa regu- tidade de chuva que esta última, ocor-
laridade na alimentação da rede hidro- rendo o inverso no Verão boreal, quan-
gráfica am~nica pelo degelo andino. do as precipitações são mais abundan-
Estudando os fatores do regime dos tes na porção setentrional.
rios brasileiros, Maurice Pardé assim
se refere à inexpressiva contribuição Tal alternblcia é devida aos desloca-
oferecida pelo derretimento nival an- mentos anuais a que está submetida a
dino ao regime do Amazonas~..A neve massa Equatorial Continental ( Ec),
não exerce papel algum como fator originada na "zona ciclonal interior"
hidrográfico no interior do Brasil; ela (segundo a denominação de Serra &
pode, fora do Pais, no extremo oeste Ratisbonna) formada, por seu turno,
da rede amazônica ter alguma impor- na parte sul da Região Am~nica e na
tblcia nas áreas andinas, porém este Região Centro-Oeste do BrasU, pelo
aspecto é insignificante na gigantesca superaquecimento do solo nestas duas
superfície de'5 e meio milhões de qui- Regiões do Continente. "Esta massa Ec
lômetros quadrados que drena o Ama- tem sua origem na área aquecida e co-
zonas", escreve este autor, acrescen- berta de vegetação florestal do conti-
tando que "as pulsações devidas à nente sul-americano, onde dominam as
neve, lúnitadas portanto a pequenas calmarias e os ventos fracos", escreve
áreas, não teriam influência marcante, Marília Galvão, acrescentando tratar-
ao lado das flutuações sazonárias das se a mesma de "'uma massa estável de
chuvas no Solimões e mesmo talvez no elevada umidade e temperatura que,
Maraiion inferior" 27 no período de Verão (austral), cobre
toda a região central do Brasil e países
Assim, a explicação do regime dos rios vizinhOS"" ao norte do trópico, ficando
amazônicos está no pr6prio regime das limitada a oeste pelos Andes e a leste
chuvas caídas na bacia, este dependen- pela Frente Intertropical ( FIT), pro-
do, por sua vez, do comportamento da duzindo chuvas e trovoadas quase diá-
circulação geral atmosférica dentro da rias" 29• Já no Invemo austral dá-se o
zona intertropical sul-americ:ana, isto deslocamento para o norte da massa
é, dos deslocamentos das massas de ar Equatorial Continental (Ec), que nes-
nesta larga faixa climática. ta quadra do ano se instala no Hemis-
fério Norte, a noroeste da Bacia Ama-
A dinâmica da circulação geral atmos- zônica, sem contudo muito se afastar
férica da faixa intertropical onde se en- do equador.
contra a América do Sul, amplamente
estudada por Serra & Ratisbõnna em Vê-se, assim, que a alimentação plu-
1942, foi bem caracterizada por Ma- vial dos rios das vertentes norte e sul
rilia Velloso Galvão: "Na Região Ama- da Bacia Am~nica é garantida, alter-
zônica, escreve esta geógrafa, a quan- nadamente, pelas migrações no senti·

109
ENCHENTE-I
53 I
:;;~; I

VAZANTE- -1
I 35
I
I
I
27
I
I
I
I
I
13 I
I
I
Fi~. 13 - Freqü&k:ia
(numero de vezes por I
5
mês) das cotas m4ximas I
das enchentes do rio
Amazooas, pró'limo à
foz do rio Negro, no o !- !- > N Z >
periodo de 1900 a 1973. ~
UJ
(J)
:::>
o oz UJ
o <l
..., UJ
I.L

do dos meridianos, da massa Equato- e a periodicidade de suas máximas re·


rial Continental, cujas chuvas são mais sulta do papel preponderante que exer-
abundantes e constantes na porção oci- cem sobre o regime do rio os seus aflu-
dental da bacia, pois esta parte é o entes meridionais. Mas como não coin-
domínio, praticamente durante todo o cidem as cheias destes com as dos da
ano, da massa Ec, portadora de copio· margem setentrional (pelo fato de os
sos aguaceiros de convecção. primeiros pertencerem ao Hemisfé-
rio Austral e os segundos ao Hemis-
.;(A alternância de períodos chuvosos, fério Boreal) dá-se uma compensação,
ao sul e ao norte da Bacia Amazônica, vulgarmente conhecida pelo nome de
garante, pois, uma alimentação farta "interferência" 30 •
e permanente do rio Amazonas o ano
inteiro, fazendo com que as oscilações t'com efeito, a subida das águas dos
do nível das suas águas apresentem afluentes meridionais do Amazonas
uma amplitude bem menor do que tem início em outubro ou novembro -
ocorreria se ele fosse subordinado a em conseqüência das grandes chuvas
um único regime pluvial.-\' caídas na porção sul da bacia, no Ve-
rã o austral - áo passo que o engros-
Há, portanto, um fator moderador que samento dos seus tributários, que têm
mantém, durante todo o ano, o gran- suas bacias situadas no Hemisfério Nor-
de volume d'água dentro do seu largo te, dá-se em abril e maio (águas pro-
e profundo leito, impedindo variações venientes das copiosas chuvas tomba-
mais acentuadas da sua lâmina d'água. das nesse Hemisfério, no Verão bo-
Este re1atwo equilíbrio hidrostático de- real), quando, então, a vazante já vai
corre, como vimos, do fato de a Bacia adiantada nos altos cursos dos afluen-
Amazônica abranger dois Hemisférios, tes meridionais a~
nos quais as estações chuvosas se al-
ternam, devido ao deslocamento anual As cheias dos afluentes meridionais
da massa Equatorial Continental de prolongam-se por uns quatro meses,
um Hemisfério para outro. Observa até março, aproximadamente, e as dos
Delgado de Carvalho que "a relativa tributários setentrionais até julho, don·
moderação das enchentes amazônicas de as águas das cheias dest~s últimos

110
ainda encontrarem ·no leito do Amazo- ~epois qo "repiquete" há a segunda
nas as águas das enchentes dos aflu- época de diminuição de pluviosidade
entes da sua margem direita; desse en- (fevereiro) quando o rio baixa às ve·
contro de águas de cheias alternadas zes apenas alguns metros, enquanto
- a "interferência" 32 - resulta o intu- que outras vezes alcança nível ainda
mescimento máximo do Amazonas, isto mais baixo que na vazante de setem-
é, a sua enchente propriamente dita, bro. Cumpre salientar que os dois pe-
a qual, nos seus cursos planiciários de- ríodos de diminuição de pluviosidade
nominados "médio" ( Solimões) e "bai- não são, de maneira a1guma, estações
xo" (Amazonas), ocorre com mais fre- secas propriamente ditas, pois no alto
qüência no mês de junho: .53 vezes em Amazonas, mesmo nestes períodos, as
71 anos ~e observação ( 1903-1973); 13 chuvas são quase que diárias, princi-
vezes em julho; e somente 2 vezes em palmente no Outono, estação em que
maio ( Fig. 13). ocorre o máximo de pluviosidade" M.
~s vazantes do Amazonas têm início, No seu trecho conhecido regionalmen-
via de regra, na segunda quinzena de te como "baixo Ama-zonas', o nível
junho e atingem a sua cota mínima mais alto das águas do Amazonas é.
geralmente em outubro e novembro, todavia, observado com mais freqüên~
respectivamente, 35 e 27 vezes em 72 cia em maio, apresentando ali as cheia'>
anos de observacão ( 1902-1973 ), 9 uma antecedência com relação ao apo-
vezes em dezembro e somente uma geu das águas do Solimões e médio
vez em setembro. · Amazonas (trecho compreendido entre
as embocaduras do Negro e Trom-
Devido ao fenômeno da "interferên- betas).
cia", o Amazonas, embora alimentado
por dois regimes pluviais desencontra- O ingurgitamento máximo do baixo-
dos, tem uma única enchente; como Amazonas em maio seria provocado
observou Pardé, "na maior parte do ' pela cheia do Tapajós (que atinge seu
Amazonas, no Brasil pelo menos, o nível mais alto em abril e maio, em
gráfico das médias mensais apresenta virtude do auge do período chuvoso
um só ápice e uma só descida" 33 . ocorrer em abril), sendo reforçado
pelo afluxo das águas das cheias dos
l'No período em que a vazante é mais afluentes oriundos do Planalto das
acentuada, as águas do Amazonas ex- Guianas (Trombetas, Cuminá, Curuá
perimentam, em seu curso inferior, e Maicuru), cujas bacias têm seus má-
uma pequena e passageira elevação de ximos pluviométricos também em abril
nível, a qual é conhecida regional- e maio. Seriam, pois, as cheias destes
mente por "repiquete". tributários setentrionais concomitantes
com as do Tapajós, responsáveis pela
Ass:m se refere Marília Galvão à...ocor- elevação, em maio, das águas do baixo-
rência dessa "segunda ~nchente", que Amazonas, um mês antes da subida
está relacionada com o regime pluvial máx:ma das águas do médio Amazo-
na porção da Bacia Amazônica corres- n_as, a qual, como visto, ocorre com
pondente ao baixo curso do Amazo- mais freqüência em junho~
nas:
A amplitude média de variação do ni-
-iSegue-se (à grande ou "primeira en- vel do Amazonas é superior a 10 m; no
chente", de março a junho) durante os seu curso médio ( Solimões) vai de 16
meses de julho, agosto e setembro uma a 20 m; em frente à foz do rio Negro
época de diminuição de pluviosidade; de 10 a 16 m e, mesmo no seu baixo
o nível do rio volta ao normal, assim curso, de 5 a 7 m. Considerando-se o
permanecendo até outubro quando se descomunal volume d'água do Amazo-
inicia a segunda estação chuvosa que nas, tais amplitudes são relativamente
se estende até janeiro. Acontece neste modestas e, se não houvesse a ação,
momento a segunda cheia, menor 9ue até certo ponto mpderadora, da "inter-
a primeira, e comumente chamada 're- ferência", as oscilações do nível do rio
piquete". mais caudaloso do mundo seriam diff-

111
Tabela 1 Níveis nuiximos e nummos do Rio Negro em Manaus (1902/1975)
correspondentes aos do rio Amazonas, funto à sua foz.
(Cotas em metros reduzidos ao nível do mar)

ENCHENTE VAZANTE Amplitude


ANO de
Da"' Co"'
(m) Da"' Cou
(m) ~
1902. •.....• .. .
1903 ...• .... . .. 26
-jun. -
27,52
20 nov.
9 nov.
16,78
111,26
-
11,27
11104• ....... . .. 26 jun. 28,78 5 dea. 17,69 10,09
1005. .......... 20 juo. 26,07 10 out. 17,.52 9,56
1906 .. ..•....•. 6 jun. 26,01 13 nov. 14,20 11,81
1907 ........... 9 juu. 27,10 9 nov. 16,44 10,76
1008... .••. ... . 9 jun. 28,92 30 out. 18,09 10,83
1909 .....•..... 14 JUO, 29,17 23 out. 1.5,04 14,13
1910.. ..•. .... . 2 jul. 27,81 29 out. 18,S9 9,42
1911 ........... 22. lt n. 27,67 23 out. 16,08 11,49
1012.. ...•.. .. . 19 jun. 24,87 30 nov. 19,42 5,46
1013. .......... 29 jun. 28,60 14 nov. 21,24 7,26
1914 .... ....... 17 jun. 28,44 12 dea. 17,60 10,94
11115........ ... 27 mai. 27,73 6 nov. 16,t'2 11,11
1916••......... 8 ~un. 26,63 17 out. 14,92 12,21
1917.. ......... 13 l\U>o 26,77 14 out. 17,48 11,29
1918........... 13 jun. 28,74 16 out. 18,61 10,23
1019. • 9 jun. 2o,3G 26 out. 11\,76 9,110
1920 ........ ... 6 juJ. 28,57 16 des. 19,80 8,77
1921 .. ......... 13 Jun, 27.97 29 out. 16,32 11,66
1922.. ... . ..... 18 jun. 29,34 22 nov. 20,90 8,44
1923 •..••..•..• 24 jun. 29,19 29 nov. 16,75 12,44
19 24 ........... 26 jul. 26,14 1 out. 17,31 8,78
1925.. . . ... .. .. 29 ju.n. 28,43 16 oov. 17,67 10,76
19211. . ···•··· . . 5 jul. 21,71 12 out. 14,54 7,23
1027........... 15 jun. :17,67 22 out. 18,78 9,79
1928..... .... . . 15 juJ. 28,60 5 out. 18,19 10,70
19~9 ........... 20 jun. 28,14 4 nov. 111,98 11,16
1930. .......... 23 ju.n. 27,119 27 nov. 18,36 9,33
1931. .......... 6 jun. 26,66 13 out. 17,48 9,18
1932.. ......... 12 jun. 27,76 30 out. 17,87 0,89
1933...... ..... 23 jun. 28,12 25 out. 16,43 11,60
1034.. ......... 23 juo. 2764 25 out. 21,16 6,48
1035. •. 11 jun. 27!67 7 nov. 16,13 11,54
1036. ...•.....• 20 mai. 26,64 14,97 11,67
1931........... 19 j un. 26,91 29
13 ""'·
des. 16,12 10,79
1938.......... . 15 jun. 27,92 18 out. 17,96 9,96
1039. .......... 23 juJ>. 28,04 16 des. 20,66 7,-18
11140.. ......... 30 jun. 26,77 14 de&. 19,58 7,19
1941 .. 28 mai. 27,09 21 out. 16,20 10,89
1042. .......... 25 jun. 27,63 23 out. 17,34 10,29
1043 . .......... I jul . 28,19 6 nov. 16,64 11,35
11144. .......... 22 ju.n. 28,79 17 nov. 18,11 10,64
1045.. ......... 18 jun. 27,03 20 out. 16,72 10,31
1046.. .•....... 8 jun. 27.98 6 nov. 17,62 10,38
1047.......... . 8jul. 26,75 31 out. 19,30 7,38
1948.. ......... 16 JUD.. 27,51 18 out. 16,69 11,82
1949 .. ......... 2 jun. 28,32 2 nov. 20,08 8,24
1950.......... . 17 jun. 28,25 9 nov. 16,74 1~.1)1
1051. .......... 3 jul. 28,47 7 nov. 18,05 10,42
1062........... 7 jun. 26.~8 30 out. 19,1-l 7,44
:9.53........... 11 jun. 29,69 31 out. 17,07 12,62
1954 . .......... 14 jun. 28,49 18 out. 17,63 10,86
1956.. 21 jun. 28,53 24 nov. 16,03 12,50
1066... :::::::: 23 jun. 27,6f 22 out. 20,89 16,76
19.57. .......... 11 jul. 27,33 22 out. 16,51 10,82
1958........... 29 mai. 27,58 18 out. 14,74 12,84
1969........... 30 jun. 27,71 211 out. 18,67 9,04
1960........... 21 jun. 27,55 I nov. 18,33 9,22
1961 ........... 7 jul. 27,13 12 out. 15,96 11,17
1962•.•........ 4 jul. 28,33 25 out. 17,16 11,18
1963.. .•. . • ... . 17 jun. 27.~1 30 out. 13,64 13,117
1964 ...........
196.!>.. ... . . ....
ta jul.
4 jun.
25,91
26,58
28 nov.
6 nov.
18,(1
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10,68
1966........... 20 jun, 26,41 11 nov. 16,76 9,65
1967.... ....... 19 jun. 27,91 26 out. 16,18 11,73
11168• .••.••.. . . 4 jun. 27,13 31 des. 21.0:\ 6,10
1969........... 26 mai. 2?,40 2 des. 16,86 10,5-t
1970. •...•..... 26 jun. 28,31 12 nov. 18,19 10,12
1971 ••......... 24 jun. 29,12 8 nov. 21,14 7,98
1972.......... . !6 jun. 28,70 10 nov. 20,02 8,68
1973 . ••..•..• . . 6 jul. 28,57 1 des. 21,47 7,10
11174. .•..•.•... 2 iul. 28,43 4 des. 21,84 0,68
1976........... 23 jnn. 2?,11 2~ nov. 19,32 9,79
1976 ........... 1' juu. 2~.ll1 22 n~v. 18,03 11.56

Fonte: PORTOBRÃS.

112
FLUVIOGRAMAS CARACTERISTICOS
.
3000

RIO NEGRO EM MANAUS


2600 .......... _
······.··~·.·~·.-···.··_···~·:~·.-:..·::::.:::~.::.·:-•. :. :,'"'"'~--=:-.::--...·-....:.-.. ·~ -~
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~ 1800 ...
o "········ ·· ...........;·'··
..
õ<.>
w 1400
1948 estiagem
1947 médio
1953 máximo

1000~------.-------~------~------~------,-------.-------.-----~~------,-------.-------.-----__,
31 28 31 30 31 31 31 31 30 31
Fev. Mor. Abr. Moi. Jun. Jul. Ago Set. Out. Nov. Dez
Fonte: DNPVN SGTE- LASA

Fig.l4
250
225

200~
RIO AMAZONAS EM ÓBIDOS
175 i'
..
~
150 "'e
..........··· 125 g
1943 estiagem e'
......···
~
!1
o<.> ....................·"'· 1940 médio
., 1944 máximo
100
"O
w 100
80
0~------.------.-------r------.-------.-------.-------.-----~-------.-------r------~----~
31 28 31 30 31 30 31 31 30 31 30 31
Jon. Fev. Mor. Abr. Moi. Jun. Jul. Ago. Set Out. Nov. Oez. .
Fonte: DNAEE- DNPVN SGTE -LASA

Fig. 14- Fluviogramas característicos do rio Nego em Manaus e do rio Amazonas em óbidos. (Reproduzido de MT-DNPVN, ref. 9 da Bibliografia).
..
... o
DD
...

....e ..e..
u ...
00
..
... o
DD
...

.. ..
e e
>
o o
>
zz
.
... ...
o

--
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N
1/)
N N N
..,
N N
N
Sij3.l3~ N1 .LH913H 39Y9
4

Fig. 15 - Cotas diárias (metros acima do ruvel do mar) do rio Amaz~na.s, próximo a Manaus,
no período 1900-1952, por décadas, e no ano de 1953. (Reproduzido de Oltman et alii, p. 8,
ref. 37 da Bibliografia). .

114
m 1902 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1973 m

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FIG:I6
190 2 1910 1920 1930 194 0 1950 1973

Fig. 16 - Níveis extremos do rio Negro em Manaus, de 1902 a 1973, segundo dados forne-
cidos pelo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. Estes nivei.s correspondem,
praticamente, aos do trecho do Amazonas-Solimões nas proximidades da foz do rio Negro.
Note-se como a variação das alturas máximas das enchentes é, comumente, bem menor que
a variação d.as alturas mínimas das vazantes.

ceis de imaginar 35 . Lembre-se que o A carência de dados lúdrológicos, ne-


rio Olúo, com uma descarga muitas cessários para uma melhor compreen-
vezes menor, mas alimentado por um são do comportamento sazonário do
único regime pluvial, chega a apresen- Amazonas, lamentada por Pardé, ain-
tar, em Cincinnati, a diferença de 21 da perdura, a despeito das medições de
m entre os níveis máximo das cheias descarga até agora ( 1977) levadas a
e mínimo das vazantes. efeito em cerca de 70 estações fluvio-
métricas espalhadas por toda a vasta
Estudando as variações sazonárias do área brasileira da bacia aT.
Amazonas, escrevia Maurice Pardé, há
quarenta anos: Como observou Pardé, o regime do
Amazonas se caracteriza por uma só
"Até o presente ( 1936) a incerteza cheia e uma única vazante (Figs. 14 e
paira sobre a hidrologia do maior rio 15), em côntraste com o Congo, seu
do nosso globo, o Amazonas. A respei- símile africano, cujo nível apresenta
to das descargas do curso d'água prin- dois ápices e dois mínimos cada ano.
cipal e de seus afluentes, sabe-se pou- Medições dom régua linimétrica du-
ca coisa. Até o momento não estamos rante 72 anos (1902-1973) revelam
melhor informados sob este ponto de que a . maior amplitude de variação
vista, o que muito lamentamos. A cheia-vazante do Amazonas foi, próxi-
abundância média anual e mensal, os mo à foz do rio Negro as, de 16,76m,
coeficientes e os déficits de escoamen- em 1956, e a menor, de 5,45 m, em
to, os máximos e mínimos nos dtversos 1912 (Tab. 1).
ramos da imensa rede, tantas questões
apaixonantes de alta importância geo- A amplitude média de variação para
gráfica e para as quais quereríamos aquele perío_d o e local 39 foi de 10,2
uma resposta. Tememos que isto não m; o nível mais elevado ( 29,69 m) e
seja para breve. o nível mais baixo ( 13,64 m) das suas
águas acima do nível do mar foram
Ao contrário, alguma precisão começa registrados, respectivamente, em 1953
a aparecer quanto às variações sazo- e em 1963; o nível médio das cheias
nárias, graças às observações regulares foi, no período, 27,61 m, e o nível mé-
de altura d'água". as dio das vazantes, 17,53 m (Fig. 16).

115
Tabela 2 Níveis máximos atingidos Penna informa que o seu nível ultra-
pew rio Amazonas funto à foz do rio passou de 3 metros o da várzea, pro-
Negro vavelmente no baixo Amazonas, onde
sempre se concentrou a maior parte
(Cotas em metros reduzidos ao rnvel dos habitantes ribeirinhos do Grande-
domar). Rio 4o.

Grandes cheias Cheias e:xcepcione.i.<l Neste século outras grandes enchentes


assolaram as várzeas amazônicas, in-
flingindo enormes J>lejufzos aos seus
ANO Cote. , ANO Cote. habitantes, devastando rebanhos e des-
(m) (m) truindo plantações (Figs. 17 e 18).
Se considerarmos como grandes cheias
1904 28,78
1908 28,92 .
aque]as em que as águas do Amazonas
1909 29,17 atingiram (na foz do rio Negro) cotas
1913 28,50 entre 28 e 29 metros acima do nível
19H 28,44 do mar, e 'como cheias excepcionais
1918 28,74 quando alcançaram níveis superiores a
1920 28,57
1922 29,34 29 metros, constataremos que as pri-
1925 28,43 1923 29,19 meiras representam 31% das inundações
1928 28,50 amazônicas e as últimas, mais raras,
1929 28,14 10%, no período 1903-1976.
1933 28,12
1939 28,04
1943 28,19
Segundo este critério, ocorreram, na-
1944 28,79 quele período, 23 gi'andes cheias e 7
1949 28,32 cheias excepcionais ( Tab. 2).
1950 28,25
1951 28,47 Dentre as cheias do Amazonas até hoje
1953 29,69 medidas por estação fluviométrica, des-
1954 28,49
1955 28,53 taca-se a ocorrida em junho de 1953,
1962 28,33 a maior já registrada e que elevou as
1970 28,31 águas do rio Negro, em Manaus, 29,695
1971 29,12 metros acima do nível do mar, isto é,
1972 28,70
1973 28,75 praticamente a mesma altura atingida,
1974 28,46 naquele ano, pelas suas águas junto à
1975 28,57 29.11 confluência daquele seu grande aflu-
29,61 entre 41• As cheias excepcionais, bem
como as grandes enchentes do Amazo-
nas, não se apresentam como um fenô-
Pelas suas conseqüências, sempre meno dclico e, por dependerem da in-
desastrosas para as populações que ha- tegração de diversos fatores variáveis
bitam as suas váneas, as grandes do clima, são imprevisíveis.
cheias do Amazonas merecem especial
menção quando se estuda o regime As oscilações anuais do nívE-l das águas
deste gi~antesco caudal. do Amazonas em seus médio e baixo
cursos estão, como visto, relacionadas
A mais antiga grande enchente do com o chamado fenômeno da "interfe·
Amazonas já registrada pela crônica rência", e as suas grandes cheias (e,
regional ocorreu em meados do século em particular, as excepcionais), são,
passado; dela nos dá notícia Domingos por sua vez, manifestações mais acen-
S. Ferreira Penna, no capítulo "A gran- tuadas deste fenômeno oriundo da al-
de inundação de 1850 e seus efeitos.., ternância das estações chuvosas nas
da sua obra A Região Ocidental da Pro- porções da Bacia Amazônica si~uadas
víncia do Pará. Não se conhece, toda- em cada Hemisfério.
via, a altura a que chegaram as águas
do Amazonas na grande cheia de 1850; As enchentes do Amazonas são a con-
louvado, porém, no relato de testemu- seqüência da subida do seu nivel (já
nhas desta famosa enchente, Ferreira elevado pelas cheias dos afluentes do

116
Fig. 17 - A ván;lea do Amazonas, a montante de Parintins, cobert>a pelas águas da grande
eochente de 1953. Um par~ de margens inundadas, é visto na diagonal da fotografia.

Fig. 18 - O nfvel mais baixo da vúzea alta marginal do rio Amazonas, onde está instalada
a Vila Amaz6nia, a jusante de Parintins, foi inteiramente coberto pelas águas da grande cheia
de 1953, a maior registrada neste skulo.

117
sudoeste da sua bacia, no Verão aus- D:)!IUIIII'It OUDII:)Q - - e
X
trai) pelo afluxo das águas das cheias o
9dO:)O~--
dos seus tributários do noroeste da ba-
cia, no Inverno austral. Assim, basta
uma pequena antecedência na estação
chuvosa do noroeste amazônico, ou um
atraso (ou prolongamento) do período
1
(/) 810
mais chuvoso no sudoeste da bacia, ct
para que o nível médio da enchente z
do Amazonas suba mais alguns metros,
{/) o
~ N
produzindo cheias de maior porte. z ct sop1qp--
Q ::;;
(!)
As alterações no regime pluvial da por- w ct o
ção ocidental da Bacia Amazônica são
também devidas ao estacionamento, no
Outono austral, da massa Equatorial
Continental (Ec), numa área mais
a:
{/)
w
~
o
ª
próxima do equador, ou mesmo sobre
z
{/)
esta linha. :::> '
go
snouor~--
w
{/)
Em outras palavras: as causas das
cheias, grandes ou excepcionais, do ~
o(.)
Amazonas podem resultar da concomi-
tância parcial das enchentes nele pro- {/)
~
vocadas pelas abundantes chuvas que z
o
caem nas regiões sudoeste (de ou tu-
bro a novembro) e noroeste (de mar-
N
~
(/)

UJ
8
C\1

ço a julho) da sua gigantesca bacia, ~ o


~ ::;;
quer pela antecedência das precipita- o
ções na região noroeste quer pelo atra- .J
a: o
so destas na região sudoeste . o (/)
o
o 810
Outra causa seria, simplesmente, uma C\1
maior pluviosidade, de caráter excep-
a:
-~
cional, ocorrida na vasta região noro- ü
este da bacia, ou seja, no território com- z
~
preendido entre o Solimões e o rio _J
0Jid/JISOJ8 II~IW!I - -
Negro . a..
o 8
::t:
(.)
~
w
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-
5 - O RIO AMAZONAS.
EXTENSAO E DESCARGA.
1-
oo
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SO~!Ob!--
TRANSPORTE DE LL. z 8
a: I()

-
ct
SEDIMENTOS E w cr
pt)

Q..
CONSTRUÇAO FLUVIAL ct
::E

Canal coletor geral das águas de uma


das maiores e mais pluviosas bacias hi- O)
...-
drográficas do p laneta, o rio Amazo-
5:2
O:)UOJJOg-- §
nas, pelo seu comprimento e largura, .r
LL.
se destaca na paisagem terrestre como tlj:)fJ8SUO~ IIP OfliJOd - -
um dos mais notáveis acidentes geo- 8 ~ E
o
N
gráficos.

118
Fig. 20 - Neste longo trecho do seu curso inferior, entre as cidades paraenses de Almeirim e
Monte Alegre, o Amazonas apresenta· sua maior largura, ou seja, quase 10 quilômetros entre
as ilhas do Itanduba e do Acará-Açu, bem como profundidades que atingem a até 90
metros, conforme sondagem feita entre a margem esquerda ·e a ilha do Jurupari. (Mosaico
semicontrolado de radar - Projeto Radam - 1972).
Sua verdadeira extensão, todavia, so- Não obstante o. seu diminuto gradiente
mente poderá ser conhecida quando de 3/100.000, o Amazonas é um rio
for definitivamente determinado o seu muito impetuoso, devido à pressão de
principal formador, ou seja, onde se escoamento da sua descomunal massa
encontram as suas verdadeiras nascen· d'água. Assim, a sua velocidade média
tes . é àe aproximadamente 2,5 km/h, des-
locamento esse muito maior no~ pe-
Os livros didáticos vêm repetindo, de ríodos de enchente, quando então a sua
longa data, que a origem do Amazo- correnteza chega a desenvolver mais
nas está no lago Lauri ( Lauricocha) de 5 quilômetros horários, e até mes-
dos Andes peruanos, onde nasce o rio
mo 7 km/h em sua aJ>ertada passagem
Maraíion; tal afirmação, já tradicional,
em frente à cidade de ~dos, como
lhe conferiria o comprimento aproxima-
do de 5. 500 km, o que o situaria em nos informa Le Cointe '
terceiro lugar entre os mais extensos Com uma largura média de 4 a 5 km
rios da Terra, depois do Nilo e do em seu curso planiciário, o leito menor
Mississipi-Missouri. do Amazonas chega a atingir um má-
Admitindo-se, porém, o Ucaiali (de ximo de distância livre de uma mar-
maiores bacia, extensão e descarga que gem a outra (isto é, sem ilhas de per-
o Maraiion) como sendo o seu princi· meio) de quase 10 km, como observa-
pal formador, e o rio Apurimac como do logo a montante da ilha Curuá e
o principal formador do Ucaiali, o entre as ilhas de Itanduba e Acará-
Amazonas teria - de acordo com as Açu, no Pará ( Fig. 20); durante as
medições feitas por J. c. Pedro Gran- grandes cheias, porém, ao cobrir total-
de - uma extensão total de 6. 571 km; mente o seu leito maior (a várzea), se
com este comprimento o Amazonas se- espraia numa faixa de aproximadamen-
ria a segunda mais extensa artéria flu- te 50 km de largura, como ocorre no
vial do Globo, vindo logo após o rio trecho compreendido entre a foz do
Nilo (6.696 km), ficando em terceiro rio Nhamun<ij e a cidade amazonense
lugar o binômio fluvial Mississipi-Mis- de Parintinsf
souri (6.231 ou 6.418 km) •2 •
Suas menores larguras em Território
Segundo, no entanto, o geógrafo José Brasileiro são encontradas no trecho
Cezar de Magalhães Filho ( 1960), o em que ele recebe a denominação re-
principal formador do Ucaiali é o rio giomil de Solimões (entre a foz do rio
Urubamba, o que dá ao Amazonas a Negro e a fronteira com o Peru) e va-
extensão total de 6. 577 km ( ref. 81 da riam de 1 km em Tabatinga, quando
Bibliografia). entra no Brasil, a 4 km, entre as cida-
des de Coari e Codajás.
kQuanto ao seu perfil, o Amazonas é
um rio tipicamente de planfcie, dre- As enormes larguras do Amazonas,
nando - com a sua riquíssima rede hi- quase sempre medidas por pares de
drográfica formada por numerosos quilômetros, justificariam a expressiva
afluentes e subafluentes, também de denominação de "Rio-Mar.., que lhe foi
consideráveis extensões, grandes bacias dada desde a sua descoberta (o mar
e enormes volumes d'água - a maior dulce, de Pirizon); pela mesma razão,
planfcie ou baixo platô sedimentar do suas extensas margens sem recortes re-
mundo. cebem o nome de "costas.. (costa de
óbidos, costa do Iranduba) e os gran-
O declive que o Amazonas apresenta des estirões nas concavidades dos seus
em seu longo trecho planiciário (cerca amplos meandros são chamados ..en-
de 3/4 do seu comprimento total) é seadas" (enseada do Carapanaf, en-
mínimo; ao entrar em terras brasileiras seada do Madeira), ambos termos de-
(Tabatinga), a mais de 3.000 km do signativos de acidentes geográficos
oceano, está apenas a 60 m de altitude, marítimos.
descendo para o nível de base atlân-
tico com a ine~ressiva queda de 20 A comparação do Amazonas com o
mm/km ( Fig. 19) . oceano poderia ainda ser feita se con-
.,.
2'
60' 56' 52' .•.
100 o 100 200 KILOM ETERS
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·r. I I
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I
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200 MOLES
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EXPLANATION
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MANAUS
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I DO CARE I RO

Fig. 21 - Croqui mostrando, acima, o local (Obidos) onde as observações foram feit-as e,
abaixo, a localização das seções onde foram realizadas as medições de descarga e velocidade,
nas vizinhanças de Manaus. Direction of flow - direção da corrente; Location of discharge-
measurement section - localização das seções das medições de descarga. (Reproduzido de
Oltrnan, p. 5, ref. 87 da Bibliografia).

siderannos a movimentação que, por do forte agitação, que dá aos largos


vezes, suas águas apresentam sob a e longos estirões um aspecto de mar
ação do vento. Com efeito, os alíscos encapelado, podendo fazer sossobrar
de NE encrespam a superfície da pequenas canoas; por outro lado, o
água no seu trecho final, principal- ataque pelas ondas produzidas pelos
mente de outubro a novembro, quando alísios (combinado com a pulsação das
sopram com mais violência, provocan- marés), sobre a base da elevada mar-

121
gem do antigo terraço sobre o qual está A medição feita na seção de óbidos
a cidade de Gurupá, deu origem a uma revelou a surpreendente descarga de
escarpa que, pelo seu perfil e proces- 216. 340 m3 I s, num período de cheia
so de formação, pode ser comparada anual um pouco mais baixa que a mé-
a uma falésia costeira ... dia 47 •
O Amazonas é o caudal possuidor da Em 1967, por iniciativa do Departa-
maior vazão conhecida. mento Nacional de Águas e Energia,
foram levadas a efeito novas medições
A primeira estimativa da descarga e diretas de descarga na seção de óbi-
velocidade do Amazonas data do se- dos 48, as quais indicaram, no período
gundo quartel do século passado e foi de 24 a 29 de maio, uma vazão de
feita, em 1831, por Spix & Martius; em 227.075 m8 /s 49 •
sua memorável viagem à Amazônia,
estes dois sábios alemães estimaram, As descargas do Amazonas medidas
na seção de óbidos e na vazante, a sua em 1963 e 1967 vieram confirmar a sua
descarga em 14.000 m3 /s e a sua velo- absoluta primazia entre os rios mais
cidade em 0,7 m/s. A esta, outras esti- volumosos do Globo, pois elas são mais
mativas se seguiram, não só em óbi- de três vezes superiores às do Mississi-
dos mas também na sua embocadura, pi-Missouri (65.128 m3 /s) e quase cin-
como as de Wallace (1853), Lalle- co vezes maiores que as do Gongo
mont ( 1860), Ferreira Penna ( 1880), ( 41. 000 m3I s). O deflúvio médio
Guppy ( 1880), Selfridge ( 1882), Re· anual para toda a bacia é estimado
clus ( 1895), Siemens ( 1896), Katzer em 250.000 m3 /s.
( 1898), Le Cointe ( 1922), Delgado de
Carvalho ( 1942), Jarvis ( 1945) e Par- O descomunal e incomparável volume
dé ( 1955), uns baseando-se nas esti- d'água do Amazonas resulta, essencial-
mativas dos outros 46 • Tais estimativas, mente, do fato de a sua imensa bacia
feitas em diversos pontos do seu curso - que com seus seis e meio milhões de
e em diferentes épocas do ano, variam quilômetros quadrados abrange 82
de 21. 500 a 286.000 m8 I s, para a des- graus em latitude e 26 graus em lon-
gitude - estar dentro de uma das zo-
carga, e de 1 a 2,04 m/ s, para a velo- nas de mais alta pluviosidade do pla-
cidade46. neta. Sua alimentação não é, como vi-
mos, somente de origem pluvial; ten-
As primeiras medições diretas da des-
do os seus grandes formadores ociden-
carga do rio Amazonas são, porém, tais ( Marafion, Caquetá, Putumaio,
relativamente recentes ( 1963 e 1964) Napo, Huallaga, Ucaiali) e sul-ociden-
e resultaram da execução de um pro- tais ( Beni, Madre de Dios, Mamoré)
jeto conjunto de iniciativa da Univer- suas nascentes em geleiras e nevados
sidade do Brasil (Departamento de andinos, possui também uma alimenta-
Geografia do Brasil), tendo sido reali- ção nival, se bem que em escala mui·
zadas pelo U. S. Geological Survey, to reduzida. O Amazonas é, assim, um
com a cooperação da Marinha de rio d~ regime misto, plúvio-nival, pro-
Guerra do Brasil e com a participação vindo todavia da chuva a quase tota-
da Divisão de Águas do antigo Depar- lidade das suas águas.
tamento Nacional da Produção Mi-
neral. Para dar vazão à considerável massa
líquida que se precipita sobre sua gi-
Assim, em julho de 1963, foi direta- gantesca bacia, o Amazonas cavou pro-
mente medida a descarga do Amazo- fundo leito nos depósitos sedimentares
nas em quatro pontos: uma medição onde tem os seus médio e baixo cur-
na seção de óbidos e três medições em sos, chegando o seu talvegue a encon-
seções · próximas à foz do rio Negro trar-se a pouco menos de uma centena
(no Solimões, no Amazonas e no pa- de metros abaixo do seu nível médio,
raná do Careiro), assinaladas na fi- como é observado em diversos pontos
gura 21. do seu curso inferior (Tab. 3).
Tabela 3 Maiores profundidades do ficas apesar da temperatura; ritmo de
rio Amazonas encontradas entre o seu origem pluviométrica e não de origem
estuário e a foz do rio Negro. térmica; contrastes de regimes atenua-
dos pelo efeito da permeabilidade dos
solos; modéstia relativa das cheias
Profun· et c." 61 .
LOCAL didade
em
metros• A singularidade hidráulica do Amazo-
nas, observa ainda Demangeot, faz-se
igualmente notar quanto à sua descar-
Próximo it margem esquerda e em ga específica de 31 litros/s por km 2,
frente i> ilha do Jurupari, 24 km excepcic;>nal para um rio tropical, bem
a montante de Almeirim (Pará) 91
como quanto às suas cheias, também
Entre a margem esquerda e a ilha excepcionais, como a de 1953 que,
do Acará-Açu, no trecho com- com um coeficiente A de 157, escoou
preendido entre Almeirim e Prai- 850.000 m8 I s ( sic) na seção de óbi-
nha (Pará) ..... .... ..... ..... . 86
dos 52 .
Entre a margem esquerda e a pon-
ta E da ilha da Prainha, 6 km a No estudo do transporte de sedimentos
j\L'l&.nte de Prainha (Pará) ..... . 84 pela rede hidrográfica amazônica, há
Em frente it cidade de Óbidos {Pará) 81
que considerar-se três tipos de rios
que, na terminologia geográfica regio-
Em frente il cidade de Parintins nal da Amazônia Brasileira, são deno-
(Amazonas).. ................. . 98 minados: rios de "água branca", rios
Entre a margem direita e a ilha do
de "água clara" (ou âe "água limpa" )
Arari, 40 km a montant~ de Pa-- e rios de "água preta" 53, os dois últi-
rintins (Amazonas) ............ . 84 mos quase não transportando carga só-
lida em suspensão ( Fig. 22). "O fenô-
Em frente it ponta do Remanso, no meno mais notável no ambiente dos
trecho compreendido entre Pa--
rintins e Urucurituba (Amazonas) 91 rios de água preta, observa Sioli, são
os vales que eles elaboram no terreno,
Entre a margem esquerda e a ilha pelo menos em certos trechos; o fundo
do Beiju-Açu, entre Parintins e destes vales é então coberto !'Or uma
Urucurituba (Amazonas)....... . 118
floresta característica de inunâaç~o, o
Em frente r. cidade de Itacoatiara chamado "igapó", pelo qual o verda-
(Amazonas).. ................. . 89 deiro leito fluvial se estende, ora em
meandros, como no rio Cururu, ora !)U-
• Sondagens em metros reduzidas aproxima· ma largura formidável de muitos qui-
damente ao nível mínimo de 1963, o mais lômetros como no rio Negro" M.
baixo do século.
Fonte: Marinha do Brasil - Cartas de Pra- Os rios ditos de "água branca" deve-
ticagem do Rio Amazonas N.•• P 4.102 B, riam, a rigor, ser chamados rios de
P 4.104 A e B e P 4.105 A e B.
"água amarela", pois a cor das suas
águas é amarelada, barrenta, pela con-
Jean Demangeot chama a atenção para siderável quantidade de argüa que
o fato de a bacia do Amazonas, instala- contêm em suspensão. Assim, o bar-
da em sua maior parte em terras bai- rento Amazonas é regionalmente consi-
xas e planas, recoberta por um tapete derado um "rio branco", bem como o
vegetal contínuo e com uma pluvio- caudaloso Madeira, o Puros, o Trom-
mebia de certo modo homogênea ( 2 betas e muitos outros seus afluentes e
subafluentes de grande caudal.
a 3 metros de água sobre a metade da
área), apresentar características hi- Outra característica dos "rios brancos",
dráulicas únicas no mundo 50 • "A hi- ou de "água branca", é a instabilidade
drologia do Amazonas, acrescenta este dos seus leitos; estes rios estão sempre
autor, apresenta evidentemente todos modificando os seus cursos pela ação
os caracteres da hidrologia intertropi- simultânea da sedimentação e da ero-
cal: abundância de descargas especi- são. São ricos em meandros que diva-
gam nas planfcies aluviais por eles A cor escura das águas dos rios ·ne-
construídas; estes deslocamentos de gros" ou "pretos", variando do mar-
seus leitos menores se processa à custa rom amarelado ao marrom avermelha-
da erosão de suas margens de terrenos do, decorre da forte dissolução de
argila-arenosos mal consolidados, a substâncias húmicas coloidais que pro-
qual provoca, durante as enchentes, as vêm do manto de matéria orgânica em
chamadas "terras caídas" que, por sua decomposição ( litter); fornecida pela
vez, são uma das fontes do material vegetação florestal que se desenvolve
argiloso encontrado em suspensão nas nas áreas inundáveis das suas nascen-
suas águas. tes e margens, bem como pelos solos
podzólicos e arenosos das áreas cam-
Os rios denominados de "água preta", pestres das suas cabeceiras ( Sioli). As
em compensação, justificam plenamen- áreas justafluviais inundáveis destes
te tal apelido; suas águas, quando em rios, quando ocupadas por floresta, fo-
grandes massas, são realmente muito ram denominadas igap6s pelos indíge-
escuras, de cor marrom-café, como as nas, e as matas nelas existentes, caai-
do já famoso rio Negro. São transpa- gap6s (matas alagadas) .
rentes e cristalinas; quando vistas em
lugares rasos, com fundo de areia bran- Há ainda os rios que, apesar de prati-
ca, apresentando a cor da infusão de camente não transportarem sedimen-
chá. Isto porque praticamente não tos, não são rios de "água preta", mas
transportam sedimentos, do que resul- apresentam uma cor esverqeada (ver-
ta não constituírem várzeas às suas de-oliva, segundo Sioli) nos trechos
margens, nem ilhas em seus leitos, a profundos, e verde-esmeralda nas par-
não ser quando recebem afluentes de tes rasas com fundo de areia branca.
"água branca", como acontece com o São os chamados "rios de águas cla-
próprio rio Negro que, segundo obser- ras" ( Sioli), dos quais são exemplos
vação de Sioli, apresenta, por esse mo- típicos o Tapajós e seus formadores
tivo, algumas ilhas e pequenas planí- Juruena e São Manuel ou Teles Pires,
cies aluviais G:>. o rio Verde (afluente deste último), o

- CURSO SUPERIOR-: :--------- B A I X O C U R S O - - - - - -

Zono de sedimento~õo
com formo~o de várzea

Encosto de
terro- f i r me

várzea -formoçõo de
sed imentoçlSo recente

Nível oito
do óouo
Fig. 22 - Díferentes seções ao longo do curso de um rio de "águas claras" na Amazania,
segundo Sioü. {Reproduzido de Sioü, p. 120, ref. 59 da Bibliografia).
Xingu e seu afluente lriri, para citar mus), que dão às águas as colorações
somente os mais representativos. marrons. Ambos fatores dependem de
determinadas caractensticas das re-
Os rios de "águas claras", ou de "águas giões das nascentes dos rios, sobretudo
limpas", se caracterizam pelo diminu- da sua topografia. Regiões montanho-
to transporte de sedimentos argilosos, sas, possuidoras de quantidade neces-
os quais se depositam principalmente sária de chuva, pela qual é continua-
a jusante das últimas cachoeiras, corre- mente lavada e sempre renovada a
deiras e rápidos por eles vencidos an- crosta terrestre, formada por erosão e
tes de atingirem a planície terciária. que é transportada pelas águas correo·
Essa deposição, muito fraca, só ocor- tes, dão origem às águas brancas; fica
re praticamente na época das grandes demonstrado que os grandes rios da
chuvas caídas em suas bacias, que se Amazônia típicos de águas brancas,
encontram geralmente sobre terrenos
rochosos ou arenosos, com pouca quan- como por exemplo o Amazonas, Soli-
tidade de argilas. A areia - oriunda, mões ou o Madeira, têm o seu começo
na sua maior parte, da meteorização nos Andes ou nas montanhas situadas
das rochas pré-cambrianas dos escudos antes dele. Regiões de perfis fortemen-
norte e sul amazônicos - constitui o te trabalhados e terraplanados podem
material básico na sedimentação pro- oferecer somente pequenas quantida-
vocada pelos rios de "águas claras" des de matérias em suspensão nas
gue, por isso, são ricos em praias e águas; os rios que delas se originam
liancos de areia ("coroas"), emergen- possuem água clara e transparente.
tes nas vazantes ( Fig. 22) . Desta forma descem os grandes rios de
"águas claras", o Tapajós, o Xingu etc.,
Estes três tipos de rios amazônicos do antigo platô de Mato Grosso.
( Figs. 23 e 30) foram pela primeira vez
caracterizados por Harald Sioli, a quem No caso de precipitação e planação
são devidas importantes ·pesquisas e mais forte não pode haver escoamento
estudos sobre a composição química, das águas pluviais; contínua ou perio-
coloração, zoo e fitoplancto dos cur- dicamente se encontram amplos areais
sos d'água e lagos da Amazônia bra- cobertos de águas mais ou menos es-
sileira. Transcrevemos a caracteriza- tagnadas e por conseguinte de igapó
ção que dos mesmos faz este eminente (floresta inundada) . As águas oriun-
hidrobiologista, diretor do Instituto das de tais regiões são enriquecidas de
Max-Planclc de Limnologia: matérias de húmus colorante ( depen-
"1. Rios de águas turvas cor de bar- dendo também de determinada quí-
ro, chamados na região "água branca". mica das águas e de especiais condi-
2. Rios de água mais ou menos trans- ções do solo ( Sioli, 1955), talvez
parentes, de cor verde-amarela até ver- também até a existência de determina-
de-oliva ("água clara"). das qualidades de plantas ) , são rios
de "água preta". O mais conhecido, o
3. Rios de água também mais ou me- maior representante deste tipo, o rio
nos transparentes, mas de cor marrom- Negro, não possui nascente própria,
oliva e cor de café, havendo em cer- vem, sim, de gigantescos miritizais,
tos trechos riachos de cor vermelho- bosques de palmeiras existentes em
marrom, chamados pela população lo- pântanos. Ou o rio Cururu (afluente
cal "água preta". do alto Xingu) que vem, na qualida-
Tal divisão dos rios amazônicos tem de de rio verde-oliva de "águas claras",
por base, de um lado, a quantidade de de região desconhecida do Brasil Cen-
matérias contidas em suspensão na tral, entrando porém abaixo das que-
água, as quais determinam o grau de das d'água e da cachoeira de Kere-
turvação (medido pela lâmina Secchi putjá, num vale plano de 10 quilôme-
e apontado como profundidade visí- tros de largura, inundável e coberto
vel), de outro lado o conteúdo de de igapó, formando aqui um rio mar-
substâncias em estado coloidal ( hú- rom de "água preta" ~~e.
Segundo Sioli, estes três tipos de águas Para a presença da carga sólida trans-
correntes são, à vista disso, "determi- portada pelos rios de "águas brancas"
nados pelas condições geomorfológicas contribuem, episodicamente, as "terras
e/ ou pelas condições litológicas e pe- caídas", nome dado na região aos mo-
dológicas existentes nas regiões das ca- vimentos coletivos de grandes massas
beceiras dos respectivos rios ou córre- de terras marginais argilo-arenosas pa-
gos. Assim, na Amazônia, os rios de ra dentro do rio; esses deslizamentos,
"águas brancas" estão relacionados a bruscos e de conjunto, de extensas fai-
encostas montanhosas na região das xas ribeirinhas, são devidos, segundo
suas nascentes e os de "águas claras" ao Tricart, a variações, durante as vazan-
relevo suave e bastante nivelado na- tes, da pressão hidrostática e ocorrem
quela região; os rios de "águas pretas" quando o limite de retenção da água
são encontrados sobre terrenos planos, pelas argilas é atingido.
bem como sobre certos tipos de solos
podzólicos e sobre areias lavadas com O material lançado ao rio pelas "terras
ou sem horizonte B compacto ou orsts- caídas" freqüentemente acumula-se em
tein"151. (Tab. 4). grandes massas no seu álveo; trabalha-

TERRA TERRA
FIRME FIRME

G A P (f I G A PÓ
L E I T O
O O R IO

C A )

TERRA FIRME TERRA FIRME

LEI TO DO RIO

CB )

NlVEL MÁXIMO DA ENCHENTE


NÍVEL MÍNIMO DA VAZANTE

Fig. 23 - Corte trãnsversal ideal (A) pelo vale de um rio de "'gua preta" e (B) pelo vale
de um rio de "'gua limpa" ou "clara". (Reproduzido de Sioll, p. 19-20, ref. 51 da Biblio-
grafia).

126
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ra parede de argila no fundo do rio" 118•
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"' ê·'::0t! Quando os "salões" afloram nas vazan-
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cheias, surgindo uma vegetação pio-
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tos, dão início à formação de uma ilha
fluvial ("'ilha nova", na terminologia
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vas" e das "varzeas novas" do Médio e
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A elevada taxa de sedimentos, carrea-
dos pelos rios de "águas brancas", não
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dos seus médio e baixo cursos, mas
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destes, que têm suas bacias drenando
os plamiltos guianense e sul-amazôni-
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D !i .,f trazido pelas suas águas, resulta da
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alteração profunda das rochas-mães
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temente químico, peculiar ao sistema
o 3 km

Fig. ~4 - Formas de construção fluvial no Jeito menor do rio Amazonas: S - "Salão"; SD -


"Siilio" ch!scoberto na vazante; IN - "Ilha nova" com vegetação sempre descoberta; T -
"Torrão"; l - Ilha aluvial já formada. (Fonte: - Carta de Praticagem P 4 .110 B (Rio Solimões)
da Diretoria de Hidrografia e Navegação).

morfoclimático equatorial, no caso, ao (em terras da antiga fazenda Cacaual


do domínio morfoclimático amazôni- Grande, município de Monte Alegre,
co 59. Pará), revelaram ser maior do que se
supunha a quantidade de sedimentos
Segundo Le Cointe, a concentração da transportados pelo Amazonas durante
carga em suspensão nas águas do rio as cheias .
Amazonas é de 500 p.p.m. na época da
vazante e de 1. 250 p. p. m. durante as Reportando-se a este fato, Felisberto
cheias, informa Stemberg 60 . "As alu- C. de Camargo informa que as medi-
viões deixadas na várzea do Careiro, ções da carga sólida transportada pelas
quando as águas baixam, atingem, às águas do Amazonas em 1951, 1952 e
vezes em uma só enchente, vário.s pal- 1953, por um daqueles canais de col-
mos de espessura. Em alguns casos, matagem, indicaram que a quantidade
como no da enchente de 1953, terre- de sedimentos em suspensão oscilava
nos houve que tiveram um acréscimo entre 50 e 200 gramas por tonelada de
de 1,50 m de sedimentos" 61 • água que passava pelo canal; tomando
por base uma vazão do rio Amazonas
Experiências de colmatagem provoca- da ordem de 16 milhões de metros
da, realizadas há mais de duas décadas cúbicos de água por dia e a capacidade
pelo então Instituto Agronômico do transportadora, de 200 gramas de sedi-
Norte (atual Institulo de Pesquisas mentos por metro cúbico, Camargo es-
Agronômicas da Amazônia), em 'cinco timou em S milhões de toneladas a
canais (de 32 m de largura e 5,5 m de quautidade de sedimentos lançada
profundidade) abertos na faixa de diariamente ao mar pelo Grande-Rio 62•
várzea-baixa situada entre o lago Estimativa mais recente ( Oltman et
Grande do Maicuru e o rio Amazonas alii, 1973), segundo informa Stemberg

128
Fig. 25 - "Várzea oova" da margem esquerda do SoUm6es (Bailio Craode, muoiclpio ele
Manaw) oa grande enchente de 1953, ocupada por uma rinúsia de ouraoeira (Salh sp>, uma
das espkies vegetais piooeiras dos depósitos aluviais de rec:eot-e emersio; esta ~ie arbórea
fixa também os secl.imlmtos dos "salões" que emergem na vazante, daodo origem aa "ilhas
oovaa".

(v. ref. 70 da Bibliografia), revelou O crescimento das várzeas amazônicas


que o volume total da matéria sólida pode ser: a) - pela sedimentação de
que o Amazonas lança ao mar vai além extensas áreas subfluviais que, toman-
de l,S milhões de toneladas por dia. do-se cada vez mais rasas devido à
acumulação constante de sedimentos
Sioli chama a atenção para o fato de
a corrente equatorial norte impedir (como no caso dos bancos e baixios
que o Amazonas construa um delta pa- fluviais), afloram finalmente nas águas
ra dentro do oceano, apesar de lançar baixas; b ) - pela deposição de sedi-
ao mar a volumosa carga sólida que as mentos sobre estas áreas subfluviais
suas águas transportam; ". . . os sedi- (já emersas e revestidas de vegeta-
mentos são levados pela corrente e de- ção); e c) - pelo aluvionamentó total
positados no Amapá e Guiana France- dos lagos e depressões de várzea.
sa - escreve este autor - onde a zona
costeira é construída por aluviões de A construção das várzeas faz-se tam-
sedimentos de água doce do Amazo- bém pela soldadura das "restingas",
nas, numa largura de 80 Jan: -a bai- isto é, de antigos diques marginais ar-
xada litorânea do Amapá e Guiana, queados (os •arcos de crescimento" da
coberta de campo inundável e que fica planície aluvial, de Stemberg), graças
4 m sob a água na estação chuvo- à acumulação de sedimentos nas es-
sa" 83• A corrente equatorial não im- treitas e alongadas depressões ("jazi·
pede, todavia, que parte da carga só- gos") que separam os dorsos das res-
lida lançada ao oceano pelo Amazonas tingas, paralelamente dispostos ao lon-
se deposite sobre a plataforma conti- go das margens dos grandes rios de
nental, em frente ao seu amplo estuá- "água branca" e presentes, da mesma
rio e até a profundidade de 80 metros maneira, nas grandes ilhas aluviais
(Fig. 11). (Fig. 26).

129
Fig. 26 - Extremidade sul da ilha Grande do Tapará, no rio Amazonas, vendo-se no canto
direito da fotografia a foz do rio Tapaj6.$. Notem-se as "restingas" (cobertas de mata) de forma
recurvada, e os "jazigos" (com campo alagável), que constituem um dos estágios da construção
fluvial. A ilha está inteiram'ente sob as águas da grande cheia de 1953.

Nos trechos adiante transcritos, Sioli aluviões, mas sim, no Amazonas infe-
explica o mecanismo da construção das rior, por sedimentos do lago continen-
várzeas amazônicas pela sedimentação tal amazônico Terciário, das camadas
anual durante as cheias: da "série Barreiras" ( Pliocênio) .
Como exemplo de várzeas de rio de
"águas brancas" seja citado a do curso 1l: fácil compreender como foi realiza-
inferior do rio Amazonas. da a formação especifica da várzea,
com maior elevação junto às margens
O terreno da várzea é mais ou menos e baixando terra adentro: com a cres-
amplo, mas incompleto. As partes mais cente altura da água do rio, isto é, no
elevadas acompanham a margem do curso inferior do Amazonas, mais ou
rio, em forma de faixas relativamente menos na época do fim do ano, áreas
estreitas, formando um paredão que cada vez maiores da várzea do rio fi-
carrega a floresta de várzea com sua cam sob a água; nesta ocasião a água,
formação florística especifica ( Huber, penetrando terra adentro, vem a per-
1909). der com relativa rapidez sua corrente-
Penetrando no interior, o terreno vai- za, permitindo a deposição de partí-
se inclinando proporcionalmente, a culas em suspensão, nela contidas. A
floresta vai-se tornando primeiro mais floresta em galeria da várzea não atua,
baixa, para dar lugar a mais gigantes- nesta ocasião, como peneira, colhendo
ca várzea-campo, campinas inundáveis. e retendo as matérias em suspensão na
As partes m~s baixas do terreno são água, mas s:m como freio à corrente-
então tomadas por lagos rasos que al- za original, que atinge no curso infe-
cançam, com freqüência, grandes ex- rior do Amazonas, na época da seca,
tensões. em média 1-2 milhas por hora, e du-
rante as chuvas, no tempo das águas
Além dos lagos o terreno sobe relativa- altas, 2-5 milhas marítimas por hora
mente depressa para a "terra firme", ( correspondendo mais ou menos 0,5-
que não é mais formada por recentes 2,5 m/seg).

lSO
As elevadas beiras das margens ( ba- Bem se pode avaliar, portanto, os pre-
laústre das margens) poderão, desse juízos sofridos pelos habitantes das
modo, teoricamente, crescer em apro- várzeas amazônicas, e pela própria eco-
ximação assintótica até as alturas má- nomia regional, em conseqüência das
ximas das águas. Na verdade, sua altu- grandes enchentes do Rio-Mar e, so-
ra está situada, na maioria das vezes, bretudo, das suas cheias excepcionais.
em nível mais baixo, correspondendo
à média da cheia anual do rio, de ma-
neira que, no caso das extremas inun-
dações, como por exemplo em 1953, CARACTERÍSTICAS MORFO-
fica toda a várzea sob a água, o que
traz conseqüências catastróficas aos HIDROLÓGICAS.
moradores e ao gado. A DRENAGEM NA VÁRZEA
Da mesma forma que a formação ver- E NA TERRA-FIRME
tical (para cima), é evidente que, com AMAZÔNICAS.
a diminuição da correnteza das "águas FORMAÇÕI:S LACUSTRES
brancas" penetrantes na várzea, alcan-
çam primeiro as partículas em sus- Os perfis longitudinais dos grandes rios
pensão, minerais, mais grosseiras, de da Bacia Amazônica revelam dois tipos
peso específico mais elevado, enquanto de cursos d'água: rios de planície e
as partes minerais mais delicadas e as rios de planalto.
orgânicas de peso específico menor
( planctos fluviais, vivos e mortos, as- Entre os primeiros figuram o Amazo-
sim como detrito orgânico finíssimo) nas e seus importantes tributários oci-
são transportados mais para dentro da dentais como, por exemplo, o Madeira,
várzea e para os lagos de várzea, an- o Içá-Putumaio e o Japurá-Caquetá
tes de formarem, por deposição, o so- que, embora tendo a quase totalidade
lo da várzea. Assim, é necessário ad- .dos seus cursos na planície amazônica,
mitir que as características dos solos são formados por rios que têm nas-
das várzeas resultam da diferença do centes nas elevadas altitudes da cordi-
material depositado na proximidade lheira andina.
da margem do rio e no interior da
várzea" 84 • Os rios Javari, Purus e Juruá, para ci-
tar unicamente os maiores tributários
Devido ao limo depositado sobre a sua ocidentais do Amazonas pela margem
superHcie pelas águas das cheias, as direita, podem ser considerados rios
várzeas amazônicas possuem solos cuja inteiramente de planície, já que suas
fertilidade é naturalmente renovada, e respectivas bacias acham-se instaladas
por isso são aproveitadas para cultu- sobre as terras baixas do platô terciá-
ras de subsistência (de ciclo rápido) rio amazônico; apesar de ser também
e para o cultivo comercial da juta um rio de planície, o rio Negro tem
(anual), todas com grande rendi- somente a metade do seu leito cavado
mento. nos sedimentos terciários amazônicos,
O fértil solo das várzeas prop1c1a, correndo o restante do seu encachoei-
igualmente, a existência de extensas rado curso sobre terrenos do embasa-
manchas de campos alagáveis, forma- mento cristalino, fortemente rebaixados
dos por gramíneas de alto valor nutri- por pediplanação e situados pratica-
tivo e que constituem excelentes pasta- mente no mesmo nível daquele baixo
gens nativas, nas quais é praticada a platô sedimentar.
criação extensiva de gado de corte,
do que resulta encontrar-se nos cam- Os perfis longitudinais dos rios Ama-. _\,.•
pos-de-várzea amazônicos cerca da zonas e Negro apresentados nas figu-
terça parte do rebanho bovino da Re- ras 19 e 27 foram desenhados tendo-
gião Norte. se como base perfis construídos pelo

181
Departamento Nacional de Portos e ainda bastante desconhecidas; até ago-
Vias Navegáveis 65, com modificações ra somente cerca de uma centena de-
em suas escalas vertical e horizontal. las foi traçada para medição de des-
O perfil do rio Amazonas é parcial, carga, construção de usinas hidrelétri-
abrangendo unicamente o seu longo cas e pontes rodoviárias e para estu-
trecho planiciário, entre o Pongo ( sãl- dos de projetos hidroviários. Num rá-
to} de Manseriche, situado em terri- pido levantamento do que já foi feito
tório peruano, a 150 m acima do nível (até 1974) com tais finalidades, pode-
do mar e limite de navegação franca se constatar que:
do Grande-ruo e o oceano; represen-
tando uma extensão de 4. 350 km. ou a) no Território do Amapá o rio Ara·
seja. mais de 60% ( Amazonas-Ucaiali) guari teve sua seção determinada em
e 70$ ( Amazonas-Maraiion) do seu Porto Platon e em alguns pontos pró-
comprimento total, este perfil mostra ximos à cachoeira do Paredão (para a
claramente ser o Amazonas um típico construção da Usina Hidrelétrica Coa-
rio de planície. Essa mesma caracte- racy Nunes), o mesmo ocorrendo no
rística é evidenciada pelo perfil do rio rio Amapari (em serra do Navio, para
Negro, não obstante grande parte do a construção de ponte ferroviária) e no
seu CW'SO ser interrompido por núme- afluente deste último, o rio Falsino;
ros rápidos e corredeiras, entre as
quais se destaca, pela sua extensão e b) no Estado do Pará são conhecidas as
desníveL a corredeira de São Gabriel. seções dos rios Guamá (no ponto em
que ele é atravessado pela Rodovia Be-
Como rios de planalto da Bacia Amazô- lém-Brasllia}, Curuá-Una ( 4 seções na
nica podem ser considerados aqueles cachoeira do Portão, onde está sendo
que, embora de grande extensão, so- construída uma usina hidrelétrica),
mente oferecem navegação livre de Tapajós (em Santarém, Fordlândia e
obstáculos naturais em seus trechos fi-
nais, de poucas centenas de quilôme- Jatobal), Trombetas (em Oriximiná e
tros e já cavados nos terrenos que for- na cachoeira da Porteira), Mapuera
mam os baixos tabuleiros arenosos Ter- (no estirão da Angélica), Xingu (em
ciários. Altamira e Porto de Moz), Aiaiá (em
Taperinha), Jari (em São Francisco),
Os mais extensos rios de planalto da Maicuru (em Arapari), Capim (em
Bacia Amazônica são o Xingu e o Ta- Boca do Inferno), Gurupi (em Cami-
pajós, que descem do planalto sul- ranga) e outras mais. Na Zona Bra-
amazônico, o último formado por dois gantina ( leste paraense) quase todos
rios inteiramente de planalto, o Jurue- os principais cursos d'água já tiveram
na e o São Manuel ou Teles Pires; suas seções levantadas. No trecho em
descendo do planalto das Guianas e que o rio Tocantins se encontra na
também apresentando pequenos tre- região amazônica foram traçadas se-
chos francamente navegáveis, podem ções transversais em Baião, Nazaré dos
ser citados os rios Trombetas ( Fig. Patos, Tucurui, Sítio Soturno (a 7 km
27), Jari, Paro e Maicuru. Os trechos a montante de Tucuruí), Jatobal, ca-
planiciários dos rios de planalto da Ba- choeira do Ipixuna, Itupiranga, Mara-
cia Amazônica têm como limite a cha- bá, Porto São Félix e em outros pontos;
mada "linha das cachoeiras" que, ao no seu afluente ltacaiúnas foram de-
norte e ao sul do vale do Amazonas, terminadas seções em Barra do Cin-
une as quedas d'água que freqüente- zento e Fazenda Alegria, e em seu
mente marcam o contacto dos terrenos afluente Parauapebas, em Gelado;
Terciários com as formações Paleozói-
cas e Mesozóicas do geossinclinal ama- c) no Estado do Amazonas o Solimões
zônico. teve sua seção levantada num ponto
As seçõE-s transversais dos leitos per- ( ltacoatiara) situado entre Coari e a
manente~ dos rios da Região Norte são foz do rio Negro, bem como em Mana-

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800 700 600 500 400 300 200 100 OKm

Fig. 27 - Perfis dos rios Negro (rio de planície) e Trombetas (rio de planalto), com alturas referidas ao nível de base do rio Amazonas. Fontes: - MT-
DNPVN, ref. 9 da Bibliogafia (rio Negro) e Carta do Brasil ao Milionésimo (Folha Santarém) - IBGE (rio Trombetas).
capuru, Coari, Santo Antônio do Içá, Por iniciativa do Departamento Na-
São Paulo de Olivença e Benjamim cional de Aguas e Energia foi também
Constant. Outros rios amazonenses ti- levantada, em 1968, a seção do Ama-
veram suas seções determinadas, como zonas em óbidos ( Fig. 29) .
o Madeira (em Humaitá), o Purus, o
Juruá, o Uatumã (na cachoeira More- Como se vê, poucas são as informações
na), o Jatapu (na base da Siderama), disponíveis para o estudo da morfolo-
o Paru de Oeste ou Urubu e o Negro gia dos leitos dos rios que formam a
(em Manaus, em Airão, Barcelos e a mais rica e extensa rede potâmica do
jusante de Tapuruquara); mundo 87, o mesmo acontecendo com
referência à carência de dados quanto
d) no Estado do Acre foram traçadas ao perfil longitudinal das suas grandes
seções no rio Acre (em Rio Branco), artérias fluviais .
no rio Purus, no rio Iaco ( 3 seções) e
no rio Moa ( 2 seções) ; Os processos geomorfológicos peculia-
res ao domínio morfoclimático amazô-
e) no Território de Roraima duas se-
nico geraram formas resultantes da
ções transversais do rio Branco foram ação da erosão plúvio-fluvial (ação
levantadas, uma perto de Boa Vista e combinada com as variações glácio-
outra junto às cachoeiras de Caraca- eustáticas do nível de base atlântico e
raí, nos pontos em que este rio é trans- com o trabalho da construção fluvial)
posto por grandes pontes rodoviárias; que deram origem a elementos da dre-
com a mesma finalidade foram deter- nagem tanto da terra-firme quanto da
minadas as seções dos rios Mucajaí (em várzea amazônica. Tais elementos são
Fé e Esperança e em Santo Antônio), os "igarapés", "paranás" e "furos", bem
Parimé, Cauamé, Uraricoera, Apeú como os lagos-de-terra-firme e os la-
(em Macapasinho) e Cotingo (na Fa- gos-de-várzea.
zenda Branca );
A várzea amazônica é formada pelo
f) no Território de Rondônia foram leito maior do Amazonas e dos seus
unicamente traçadas seções no rio Pa- afluentes de "água branca", ou seja,
caás Novos e, no rio Jamari, uma se- pelas suas planícies de inundação,
ção em Ariquemes e duas na cachoeira constituídas por faixas de terrenos ho-
do Samuel 88 • locênicos encaixadas no baixo platô
O rio Amazonas e o rio Negro tiveram Terciário, este regionalmente chamado
suas seções pela primeira vez levan- "terra-firme".
tadas para medição direta de descar-
ga em 1963, graças ao trabalho em co- Pela sua amplidão, flora e fauna varia-
operação do U. S. Geological Survey, das, e, sobretudo, pela sua abundância
Universidade do Brasil e Marinha Bra- em água, a várzea do Amazonas im-
sileira ( Fig. 28). Desse esforço con- pressiona a todos que penetram na Re-
junto resultou o levantamento de três gião vindos do litoral atlântico. Mar-
seções, uma no final do seu trecho re- geando quase todo o caminho daqueles
gionalmente denominado Solimões, ou- que, subindo o Rio-Mar, demandam o
tra próxima à foz do rio Negro, e outra interior da Amazônia, tem sido a par-
em frente à cidade de óbidos; fora cela mais conhecida da Região; muitos
do seu leito principal foi traçada mais dela não passam, satisfeitos com o es-
uma seção transversal, esta no paraná petáculo quase completo que oferece
do Careiro, braço que liga o Solimões da natureza amazônica.
ao Amazonas, formando a ilha do Ca-
reiro. A seção transversal do rio Negro, Daí a imensa e variada Região Amazô-
levantada em 1963, fica bem próxima nica ter sido repetidamente descrita
da sua foz e a somente uma dezena pela sua encharcada ante-sala - a vár-
de quilômetros distante de Manaus. zea; disso decorreu o falso conceito de

184
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'::!!

o zooo 4000 6000 8000 Feet

o 1000 2000 Meters

Fig. 28 - Seções e velocidade média na vertical dos rios Amazonas, Negro, Solimões e
paraná do Careiro nos locais das medições (Fig. 21) . Left bank - margem esquerda;
Right bank - margem direita; Feet - pés; Sounding - sondagem; Feet per seoond - pés por
segundo; Meters per second - metros por segundo. (Reproduzido de Oltman et alii, p. 7, ref.
37 da Bibliografia).

ser toda a Amazônia um vasto alagadi- Na realidade, a várzea amazônica, ape-


ço com terrenos ainda em formação, o sar da sua vastidão, representa uma
que lhe valeu os epítetos de "terra parcela relativamente pequena do gran-
imatura", "último capítulo do Gênesis" de todo regional; segundo Felisóerto
e outros igualmente fantasiosos, mas de Camargo ( ref. 12 da Bibliografia)
de grande efeito literário, todos frutos ela ocupa cerca de 64 .400 km 2, que
de uma generalização decorrente do correspondem, aproximadamente, a
desconhecimento geográfico da região 1,5$ da área amazônica em Território
em seu conjunto. Brasileiro.

185
Rio Amozonos em Obados
PERFIL DA SE<;Ão DE MEDIÇÃO DE DESCARGA
MorQem
dI relia Óbldoa

lO

20

30

50

60 lsÓiocos em melros por otQundo

o 500m
70m

Fig. 29 - Perfil da seção do rio Amazonas em frente à cidade de óbidos, em fins de maio
de 1967 (por ocasião da medição da sua descarga por iniciativa do Departamento Nacional
de Águas e Energia), quando foi também medida a velocidade máxima de 3,2 metros por
segundo. {Reproduzido, com simplificações, de MME-DNAE, ref. 8 da Bib)jografia).

A primeira tentativa de representação rios de planície da Ásia Meridional e


cartográfica das várzeas do rio Ama- da Indonésia. .
zonas, desde a sua foz ao sopé dos An-
des, bem como das várzeas dos trechos A morfologia da várzea amazônica é
finais de alguns de seus afluentes mais relativamente simples. Trata-se de
importantes, como o Purus, Madeira, uma planície aluvial inundável muito
Ucaiali, data de 1925, tendo sido feita baixa; em Benjamim Constant, na fron-
por C. F. Marbut e C. B. Manifold; teira brasileiro-peruana e a 2. 500 km
do litoral atlântico, está somente a 65
no croqui que estes dois membros da m acima do nível do mar. Não guarda,
Missão Oficial Norte-Americana de Es- porém, um nível uniforme, donde há
tudos do Vale do Amazonas organiza- que se distinguir várzeas-altas e vár-
ram, na escala de 1:5.000.000 e publi- zeas-baixas, as primeiras somente sub-
caram sob o título Faixas de planícies mersas pelas águas das grandes en-
inundáveis da bacia amazónica inte- chentes, enquanto que as últimas são
rior, estão representadas as áreas de alagadas, anualmente, pelas cheias
várzeas que puderam então delimitar, normais. As várzeas-altas são, via de
assinalando os trechos em que as mes- regra, sempre florestadas, ao passo que
mas confinam com as bordas íngremes as várzeas-baixas, além de serem tam-
(a que chamaram bluffs) do platô bém recobertas pelas matas-de-várzea,
Terciário 68• são a sede de extensas campinas inun-
dáveis - os campos-de-várZea, dispos-
A fisiografia da várzea amazônica se tos em torno dos lagos-de-várzea, per-
assemelha, em última análise, à das manentes ou temporários, e por detrás
várzeas dos grandes rios que correm dos diques marginais dos rios, paranás
nas planícies sedimentares florestadas e furos.
das regiões equatoriais e intertropicais,
notadamente com as do rios Gongo, A várzea-alta é modelada nos níveis
Orinoco, Ganges e outros caudalosos mais elevados do Quaternário amazô-

136
nico. isto é, nos níveis dos tesos de pendente menos forte, quando as bor-
Marajó ( 4 a 20 m), de Marbut & Ma- das desses terraços já foram bastante
nifold. Não se apresenta como uma desgastadas pela erosão pluvial.
planície contínua, mas é, na realidade,
constituída por tratos de terrenos que Quanto à amplitude de sua seção, po-
demos distinguir três tipos de leito
permanecem acima do nível das águas
maior do Amazonas e dos trechos pla-
durante as cheias normais, e por isso
niciários de seus afluentes: 1 ) o for-
aproveitados para abrigar as sedes, mado por várzeas de grande largura,
currais e retiros da fazenda de criação alcançando mais de 200 Jcm, encontra-
e as habitações dos plantadores de ju- do na chamada "região das Ilhas",
ta. Podemos considerar ainda como compreendida entre as ilhas de Mara-
várzea-alta tanto os diques marginais jó e Grande de Curupá; 2) o constituí-
atuais como os antigos, estes últimos do por várzeas de largura média, até
aparecendo dentro da planície de inun- 50 Jcm, como na região do Baixo-Ama-
dação sob a forma de baixos dorsos zonas; e 3) o em que as várzeas são
arqueados e paralelos entre si - as comparativamente mais estreitas, como
"restingas". se observa entre a foz do rio Madeira
e o sopé dos primeiros contrafortes
Traçando-se um perfil esquemático da andinos (nos trechos do Amazonas re-
várzea amazônica, tem-se uma idéia gionalmente chamados Solimões e Ma-
aproximada da sua morfologia ( Fig. rafion) . Somente na embocadura do
30). caudaloso Ucaiali, já em território pe-
ruano, o Maraõon apresenta uma vár-
A largura da várzea do Amazonas não zea de considerável largura, superior a
é uniforme; ao longo dos 3. 500 km de 80 quilômetros.
seu curso planiciário varia de poucas
centenas de metros a dezenas de qui- Construída pelas deposições sucessi-
vas dos sedimentos em suspensão nas
lômetros, sendo que em numerosos e
águas transbordantes dos rios durante
extensos trechos observa-se mesmo a as enchentes, sua topografia é, no con-
sua ausência. junto, plana com depressões, do9de a
sua drenagem ser difícil e desorganiza-
A explicação desse fato pode ser en- da, mesmo na época da vazante, em
contrada na topografia do fundo da conseqüência do seu relevo inexpressi-
Bacia Amazônica, constituída em qua- vo e do seu caráter essencial áe pla-
se sua totalidade por um baixo platô nície de inundação.
terciário (e, em algumas áreas, por
terrenos que datariam do Quaternário Além da topografia peculiar que apre-
antigo), dispostos em degraus e cujos senta, outro fator concorre para difi-
níveis superiores ultrapassam alturas cultar a circulação da água, tanto a de
de 100 m acima do nível médio do origem pluvial como a de transborda-
rio, os mais baixos ficando a ·poucos mento; trata-se da densa e intrincada
metros a cavaleiro do nível máximo vegetação graminácea, arbustiva e ar-
atingido pelas enchentes. bórea que a reveste inteiramente, como
um manto contínuo.
~ que o Amazonas, segundo o pro-
A circulação da água nas várzeas é in-
cesso normal de evolução dos rios de
teiramente desordenada durante as
planície aluvial, ao descrever grandes cheias; nas vazantes, quando os rios
meandros na planície por ele cons- voltam aos seus leitos normais, a sua
truída, vai calibrando o seu vale en- drenagem toma-se um pouco mais de-
caixado no baixo platô Terciário, ou finida, circulando a massa líquida
terra-firme, tocando este em vários tre- pelos "regos" (estreitos canais que, na
chos, O(lde então a sua margem passa vazante, aparecem no fundo das de-
a ser a própria borda do platô; nesses pressões lacustres em adiantado pro-
pontos sua margem é ora alcantilada cesso de colmatagem) , pelos "para-
(dando origem às "barreiras") ora de nás" e pelos "furos", estes últimos re-

187
PLATÕ TERCIÁRIO PLANÍCIE QUATERNÁRIA PLATÕ TERCIÁRIO

Terra- firme Várzea oito várzea b o lt o Terra -f i r me

PoronÓ
ou Rio
furo principal

Sed imantas tere iÓrios Sedimentos terciários


( Série Barreiros ) ( Série Barreiros)
Terreno de aluviões recentes

1 nos orondes cheios campo inundóvel


N tve I do rio principal: 2 - nos cheios médios
3 - nos vazantes médios v eoetoç"o florestal
FIG .30
L. C.S . - 1975

Fig. 30 - Corte ideal do leito maior cfe um rio ~nico transportador de sedimentos (rio de "água branca"), mostrando os principais elementos da sua
drenagem, relevo e vegetação.
cebendo também as águas que defluem ilha de Marajó do continente e esta-
dos lagos permanentes e temporários. belece comunicação entre o rio Amazo-
Assim, enquanto as drenagens dos pla- nas e o chamado "rio Pará", nome
naltos norte e sul amazônicos, bem esse dado ao extremo corpo d'água do-
como a do platô Terciário, são geral- ce situado ao sul daquela grande ilha e
mente bem definidas, a das várzeas é onde o Tocantins tem o seu estuário.
complicada e difícil, sendo variada a
nomenclatura regional para designá-la. Os cursos d'água de pouca extensão e
reduzida largura, mas com bacias bem
O extenso, largo e profundo braço de definidas, tanto da várzea como da
um grande rio que, na planície de terra-firme, recebem na Amazônia bra-
inundação amazônica forma uma gran- sileira o nome indígena de igarapés
de üha, é regionalmente chamado "pa- ( igara - canoa; pé - caminho, tri-
raná" (pará - mar; nã - semelhante, lha).
na língua indígena) 69 ; quando de me- No capítulo sobre a Amazônia de sua
nores proporções recebe o nome de obra L'Amérique du Sud, Pierre Denis
"paraná-muim" (mirim - pequeno). refere-se aos igarapés como "braços
Os "paranás" são permanentemente na- d'água" da várzea do Amazonas, e aos
vegáveis, ao passo que os "paranás-nú- "paranás-mirins" como "canais parale-
rins" nem sempre permitem, na época los ao rio", comunicando entre si os
da vazante, a livre circulação de em- lagos-de-várzea e "confluindo com o
barcações de maior calado ( Figs. 31 e rio no topo dos meandros, nos pontos
32). em que a corrente vem se chocar com
a terra-firme" 70 •
Os canais que nas várzeas amazônicas
estabelecem comunicação entre o rio Gilberto Osório de Andrade considera
principal e o seu afluente mais próxi- os igarapés elementos mais da drena-
mo, acima da confluência definitiva, gem do platô Terciário (terra-firme)
são denonúnados "furos". :E: digna de do que propriamente da várzea; em
menção, pela grande área que abran- seu trabalho intitulado Furos, paranás
ge, a rede de canais desse tipo, verda- e igarapés 11, este autor estuda a gê-
deira anastomose fluvial, conhecida nese e a morfologia desses componen-
como "região dos furos", que separa a tes do sistema potâmico da Amazônia,

Fig. 31 - Principais elementos da drenagem da várzJea amazônica: 1 - Igarapé; 2 - Furo;


3 - Paraná; 4 - Re~os em lago temporário; 5 - Lago pennanente; 6 - Lago de meandro
abandonado ("sacado'); 7 - Lago de barragem em antiga na fluvial.

139
Fi$· 32 - Mosaico aerofotográfko de um trecho da várzea amaz6nica mostrando os ~­ ~o ~gem, nas úus baixas; na mata-de-várzea que margeia o parW, na linha, sio
pau elementos que com~m a sua paisagem ~ica. A esquerda vl·se parte de uma ilha vistas clarea~ retangulares com plantações de juta. Os lagos-àe-várzea ocupam as dep~
aluvial com faixas arqueadas de "restingas" cobertas por mat.a-d.e-várzea; separando-a da do terreno amda em processo de .entulhamento; comunicando entre si lagoas situadas entre
planície de inundação, um ..paraná" apresenta duas ilhas alongadas, tamWm de origem aluvial. os dois furos, são vistos os "regos.. pelos quaiJ é feits, na vazante (época em que (oram
Um "furo", ao ~ual vem ter um outro mais estreito, corta a planície inundávei; note-se a
mata ciliar, ou • de pestana", instalada sobre os seus cliques mar~, bem como sobre os tomadas as fotografiaJ), a dreoagem dos terrenos ainda em formaçio. No canto superior direito
cliques mar~is do paraná. Nas partes já parcial ou ~talmente colmatadas da planicle de vf-se o contato da várZea com a terra-firme coberta de mata, onde foram abertos roçados
inundação podem ser vistos campos-de-várzea e matas-de-várzea, os primeiros utilizados para lavoura de subsistlncia.

140 141
com "o propósito de sugerir critérios Os chamados wgos-de-terra-firme e
sobretudo genéticos à identificação lagw-de-várua são elementos de
desses elementos e mais dos lagos-de- grande expressão na hidrografia regio-
terra-firme, por oposição aos lagos-de- naL ambos desempenhando importante
várzea". Do resumo 72 que apresenta papel na drenagem, tanto da terra-fir-
deste bem fundamentado trabalho, me como da várzea amazônicas.
fruto de acurada pesquisa de campo,
colhemos as seguintes conclusões: Os lagos ditos de terra-firme são mas-
sas de água doce e límpida, alongados,
1.0 Do ponto de vista genético os "fu- profundos e ramificados, que ocupam
antigas "rias fluviais", cujas bocas fo-
ros" podem ser identificados como a)
ram colmatadas pelo material sólido
- resultados de ruturas de interflúvios carreado por rios de "água branca";
(captura) ou de antecedência ( heran- são, portanto, lagos·de-barragem, isto é,
ça) na terra-firme e na várzea alta, e resultantes do represamento - pelas
b) - canais ramificados e anastomosa- aluviões das restingas construtoras da
dos que drenam as águas das cheias várzea- das largas e afuniladas embo-
e da vazante na planície inundável caduras de cursos d'água que, descen-
atual (várzea baixa), sendo, assim, do dos tabuleiros arenosos, afluíam ou-
elementos fluviais que se formam tan- trora diretamente para os rios transpor-
to nas terras-firmes como nas várzeas tadores de sedimentos ( Fig. 33) .
amazônicas 73 •
Por esse processo formaram-se grandes
2.0 Quanto aos paranás, devem ser lagos-de-terra-firme que se desenvol-
considerados, numa primeira caracte- vem por dezenas de quilômetros e che-
rização geral, os trechos do Solimões- gam a apresentar até 7 km de largura,
Amazonas nos quais têm lugar a) - entre os quais merecem especial men-
confluências de tributários importantes ção os lagos Piorini e Erepecu, res-
de"água branca" e b) - confluên- pectivamente com 80 e 70 km de ex-
cias de tributários de "água preta" ou tensão, bem como os lagos Badajós,
"limpa". Anamã, Nbamundá e Manacapuru,
todos com cerca de 50 Jcm, e o lago
3.0 Os rios de ..água branca" sobre- de Tefé com 25 1cm de comprimento.
carregam o rio principal, com o ma-
terial sólido que transportam em sus- A orientação NE-SW e NW-SE dos
~nsão em suas águas, e entulham os eixos de grande número de lagos-de-
deltas de confluência", onde a dre- terra-firme, formando ângulos quase
nagem, no princípio divagante, termi- retos, sugeriu a Hilgard O'R. Stem-
na por se estabelecer como uma rede berg uma adaptação dos mesmos à re-
de furos e paranás, com uma resultan- de de fraturas ( Figs. 3 e 4) que,
te lateral. segundo este autor, teria fendido o pa-
cote Terciário amazônico 74 •
4.0 A montante da confluência dos
tributários de "água preta", ou "lim- Estariam, assim, os lagos-de-terra-fir-
pa", a migração do leito menor se es- me dispostos ao longo de linhas de fra-
tende sobre a margem da confluência; turas nas quais se Clesenvolveram ini-
no rio principal, a montante do ponto cialmente vales rasos que, posterior-
de confluência, a planície de inunda- mente alargados pela erosão das ver-
ção permanece instável e os desloca- tentes e aprofundados pelas sucessivas
mentos do leito menor deixam segmen- regressões marinhas, foram finalmen-
tos ( paranás) na retaguarda da mi- te "afogados" pela última elevação do
gração. nível de base atlântico, transformando-
se em verdadeiras "rias fluviais" no in-
5.0 Os furos e paranás são "cursos terior da Planície Amazônica.
complementares", no sentido de que
eles restituem elO rio principal a fração São exemplos de lagos-de-terra-firme,
da descarga que ele recusou na con- originados de antigas "rias fluviais" in-
fluência. teriores e orientados pela tectônica: na

142
direção geral NW-SE - o lago de Fa- dos rios Anapu, Camarapi e Mucaja-
ro ("ria" do Nhamundá), as séries de tuba (Fig. 39), pelas suas enormes
lagos dispostos ao longo do baixo cur- extensões ( 20 a 50 km) e considerá-
so do rio Trombetas ("ria" do Trom- veis larguras ( 5 a 15 km), receberam
betas) e do rio Uatumã ("ria" do Ua- os nomes de "baias" (baía de Caxiua-
tumã ), bem como os grandes lagos ná, baía de Pacajaí, baía de Portei
Piorini e Anamã; na direção geral e baía de Melgaço, esta última comu-
SW-NE - o grande lago de Coari nicando-se, por um feixe de furos, com
("ria" do Coari), o lago Mamori ("ria" o chamado "rio Pará").
do paraná do Mamori), a grande "ria"
lacustre do rio Arapiuns, próxima à A barragem destas "rias" não foi feita
foz do Tapajós ( Figs. 7 e 8) e a já men- por aluviões recentes, mas por sedi-
cionada "baía" de Caxiuaná ("ria" do mentos datando provavelmente do
Anapu). Quaternário antigo, os quais formam
atualmente terrenos com altitudes cor-
Na gênese dos lagos-de-terra-firme há respondentes às dos níveis de Marajó
que considerar-se, como observa Gil- ( 4, 8 e 20 m), donde tais "baías" não
berto Osório de Andrade, a evolução poderem ser classificadas como lagos-
dos igarapés, e nesta a ação combi- ae-barragem típicos; de formação bem
nada da erosão das vertentes dos seus mais remota, constituem hoje em dia
trechos finais ( recuo das vertentes ) e lagos-de-terra-firme interiorizados.
o afogamento dos mesmos pelas águas
dos rios da planicie quaternária, em Formada pela deposição anual dos se-
conse~üência de transgressões mari- dimentos em suspensão nas águas das
nhas 7 • enchentes, a várzea amazônica tem um
crescimento lento e intermitente, da
Os grandes lagos-de-terra-firme em sua periferia mais alta (dique margi-
que se transformaram as antigas "rias" nal) para o seu interior deprimido, que

Fig. 33 - Lago-de-terra-finne de barragem (L), com a boca barrada por estreita faixa de
mesma a uma rede de falhas e fraturas. (Croqui feito sobre fotografia aérea Trimetrogon,
USAF - 1943).

143
abriga grandes lençóis d'água - os la- cia din~mica da erosão e do aluviona-
gos-ile-várzea - estes em progressivo mento que vinha caracterizando a ca-
processo de entulhamento. lha ativa, e esta, reduzida a lago em
ferradura ou sacado, entra a deterio-
Os lagos-de-várzea ocuram as depres- rar, sendo aos poucos entulhada" 77 •
sões da planície aluvia em formação,
ou seja, as áreas ainda não inteira- Recolhendo apreciável parcela da des-
mente colmatadas pelo material sólido carga fluvial durante as enchentes, os
depositado durante as cheias, no pro- lagos-de-várzeas de qualquer origem
cesso normal de construção das várzeas funcionam, até certo ponto, como re-
amazônicas; são massas líquidas rasas, servatórios de compensação das cheias
de margens indefinidas e com profun- dos rios de "água branca", impedindo
didades variando de 3 a 6 m, nas que estas alcancem níveis mais eleva-
cheias, e somente de 1 a 2 m nas va- dos.
zantes.
Fora da bacia de drenagem do Amazo-
Muitos lagos-de-várzea ocupam gran- nas, mas dentro ainda do gigantesco
des áreas na planície aluvial do Ama- quadro hidrográfico da Região Norte,
zonas; com áreas variando de 20 a mais estão as formações lacustres da baixa-
de 40 km 2 podem ser citados o lago da litorânea do Amapá e da porção
Grande do Maicuru, entre Santarém oriental da ilha de Marajó.
e Monte Alegre; o lago Itandeua, en-
tre Alenquer e óbidos; o lago Grande Estudando a gênese da chamada "re-
do Curuaí e a lagoa do Poção, ao sul gião dos lagos do Amapá", Antonio
de óbidos; o lago Camaçari, a nor- Teixeira Guerra concluiu tratar-se a
deste de ltacoatiara; e o lago Cabalia- mesma de uma zona lacustre constituí-
na, próximo a Manacapuru. Outros es- da "de lagos de barragem, isto é, for-
tão situados em grandes ilhas aluviais, mados por flechas sucessivas de lama,
como o lago do Rei, na ilha do Careiro, hoje transformadas em terras fir-
fronteira à foz do rio Negro, e o lago mes" 78 • Na época das chuvas (janeiro
Piracacira situado na ilha Grande do a maio) estes lagos transbordam e suas
Tapará, para citar somente os que pos- águas cobrem toda a planície litorâ-
suem área superior a 10 km 2 • nea, transformando-a em um vasto ala-
gadiço, que vai das margens do Ara-
São também lagos-de-várzea agueles guari às do Amapá Grande e ao ocea-
oriundos de meandros abandonados, no no (Fig. 35).
caso com a forma de crescente ou fer-
radura. Dentre os grandes rios amazô- O interior da porção oriental da ilha
nicos que divagam em suas planícies de Marajó se caracteriza topografica-
de inundação, o Puros e o Juruà são mente por ser uma área deprimida e
os mais ricos em meandros, apresen- de drenagem desorganizada, no fundo
tando, conseqüentemente, maior nú- da qual encontra-se o grande lago Ara-
mero de lagos desse tipo, formados por ri; não se trata, porém, de uma região
alças de antigos meandros e reponal- de drenagem endorréica, uma vez que
mente denominados "sacados" 7 ( Fig. este lago tem como principal desagua-
34). douro o rio Arari, que desemboca na
baía de Marajó, após um longo per-
A origem desses lagos de meandros curso de quase 100 km, através de
abanáonados ("lagos-de-meandros", campos alagáveis. O lago Arari funcio-
segundo Ab'Saber) foi pormenorizada- na, no entanto, como um verdadeiro
mente estudada por Sternberg em seu nível de base regional, para onde cor-
trabalho intitulado A propósito de me- re grande quantidade das águas das
andros. Escreve este autor: "O rompi- chuvas caídas sobre aquela parte da
mento do istmo da península em que se ilha, de janeiro a maio.
transforma o terreno envolvido por um
meandro põe termo ao crescimento des- Apesar de ocupar a considerável área
te. A volta isolada do rio pode dizer- de aprox:madamente 400 km 2, o lago
se inativa ou morta; cessa a coexistên- Arari possui pouca profundidade, o

144
Fig. 34 - Trecho do rio Purus a montante de Lábrea. Note-se a sua riqueza em meandros
e a existência de grande número de lagos-de-vánea fonnados por alças de meandros abando-
nados, regionalmente denominados "sacados". (Extraído da Carta Aeronáutica USAF (Base
Preliminar} - Folha Lábrea - 1945).

que faz com que, no longo período da nia Maranhense" uma região lacustre
estiagem marajoara (junho a dezem- situada dentro da Baixada Ocidental
bro), ele exponha grandes trechos do Maranhense, de expressiva atividade
seu fundo lamacento 711 • agropecuária (rizicultura inundada e
criação extensiva de bovinos); os la-
Da dificuldade de escoamento das gos nela encontrados são antigas "rias"
águas provenientes da elevadíssima do Mearim, Pindaré e Grajaú, hoje in-
precipitação pluvial insular ( 3. 000 mm teriorizadas. No trecho final do rio
anuais), resulta a generalizada inunda- Turiaçu um conjWlto de antigas "rias"
ção das pastagens nativas e o acúmulo interiores forma uma série de lagos-
do excesso d'água em vastas e numero- de-terra-firme.
sas áreas permanentemente brejosas
no norte da ilha - os "mondongos",
cujas maiores concentrações estão si-
tuadas entre o lago Arari e a lagoa da 7- O DELTA-ESTUÁRIO DO
Tartaruga ( mondongos do Cajueiro)
e entre esta lag.oa e a lagoa de Açoeua AMAZONAS
( mondongos áo Cemitério) .
O trecho final do rio Amazonas se ca-
Os mondongos de Maraj6, ricos em racteriza por apresentar um grande
gramíneas próprias dos terrenos en- número de ilhas, numa extensão de
charcados, prestam-se admiravelmente mais de 300 km; ali · se encontra Ma-
à criação de búfalos indianos (o "bú- rajó - que, .possuindo cerca de 50 mil
falo d'água"), animais de hábitos aquá- krit2 , é a maior ilha flúvio-rnadtima do
ticos, abrigando a grande ilha o maior mundo - e outras menores, mas com
rebanho bufalino do País. área-s superiores a mil quilômetros qua-
drados (ilha Grande de Gurupá -
Considerando-se o Mearim como sen- 4.864 km2; Mexiana:- 1.534 km:l; Ca-
do o limite geográfico da Região _Nor- viana - 4. 968 km 2 ), todas alojadas
~ no Maranhão (pelo fato de até este dentro da larga reentrância da costa
rio se estender à floresta amazônica ), atlântica conhecida p9r "Golfão Ama-
vamos encontrar na chamada "Amaz6- zônico".

145
--Limite do Baixado 30km
Litorâneo lnundovel

Fig. 35 - "Região dos lagos" do Amapá na porção da baixada litoorAnea inundável situada
entre os rios Araguari e Amapá Grande.

As ilhas situadas na entrada do afuni- Mais para dentl'o do estuário amazô-


lado estuário do Grande-Rio, isto é, as nico há um outxo "arquipélago" inte-
mais próximas do oceano, formam rior (chamado "delta interno" por Le
agrupamentos aos quais Delgado de Cointe) que, embora visitado pelas
Carvalho denominou "arquipélagos marés, já apresenta características ti-
amazônicos". picamente fluviais; dele fazem parte a
ilha Grande de Gurupá e as ilhas dos
Os "arquipélagos" que estão ao norte Porcos, do Pará, do Vieira Grande,
da ilha de Marajó, ocupando quase Queimada, Mututi, Ituquara e deze-
todo o estuário do Amazonas e dos nas de outias.
quais fazem parte as ilhas de Bailique,
Mexiana, Caviana, Janaucu e Jurupa- As ilhas da foz do Amazonas são, em
ri, fronteiras ao oceano, sofrem maior sua maioria, de origem fluvial, do tipo
deltaico; as ilhas de Marajó, Caviana
influência marinha, manifestada pela e Mexiann têm, contudo, uma origem
invasão de seus cursos d'água pelas ma- mista, de vez que em parte foram cons-
rés; a presença da água salobra é res- txuídas por sedimentos fluviais e em
ponsável pela existência de mangue- parte são constituídas por tratos de
zais nas costas insulares voltadas para terrenos bem consolidados, que datam
leste, fato também observado em toda do Quaternário antigo ( Pleistoceno) e
a costa oriental de Marajó. ao que se supõe separados tectonica-

146
mente do continente; a porção ociden- confluência. A única diferença reside
tal de Maraj6, predominantemente flo- no fato de aqui não se tratar de um s6
restal (mata-de-várzea) e formada por afluente, mas de um estuário formado
terrenos mais recentes, é, porém, de por grande número de rios maiores ou
origem fluvial 8o. menores. Seria mesmo preferível falar
não dum "rio Pará", como se faz ge-
Comunicam o Amazonas com o ralmente, compreendendo sob este no-
chamado "rio Pará" numerosos canais me um trecho mais ou menos extenso
("furos") de grande extensão (até 100 do estuário que se estende ao sul de
km ), profundos (de 6 a 40 m), estrei- Maraj6, mas de um "estuário do Pará",
tos uns (50 m), outros muito largos reunindo sob esta denominação toda
( 450 m) e interligados; dispostos na a série de "baías", desde a baía de
direção geral N-S formam, no seu con- Maraj6 até a de Portei, senão até a de
junto, a já referida "região dos furos" Caxiuana. Em toda a extensão destas
de Maraj6. baías, a feição hidrográfica mais im-
portante parece ser o fato de que a
Segundo Sioli, a "região dos furos" maré provoca correntezas contrárias e
formou-se com a colrllatagem da zona não, como na boca do Amazonas, sim-
deprimida a oeste de Maraj6 81, du- plesmente uma represa mais ou menos
rante as transgressões marinhas post- forte. A parte meridional dos furos es-
glaciais, enquanto que os furos teriam tá sob a influência do sistema hidro-
sido produzidos pela erosão fluvial du- gráfico do estuário do Pará; a porção
rante as fases de regressão do mar 82 • setentrional é dependente do regime
fluvial do Amazonas .
Deve-se a Jacques Huber minucioso
estudo sobre esse interessante sistema A particularidade hidrográfica da re-
potâmico do estuário amazônico, em- gião dos furos reside nesta dependên-
bora muitos outros autores tenham es- cia de dois sistemas hidrográficos de
crito a seu respeito, como o fizeram caráter diferente. Entretanto, os fenô-
Martius, Wallace, Agassis, Hartt, Her- menos provocados pelas marés são os
bert Smith, Barão de Maraj6, Katzer, mesmos na maioria dos furos, tanto nas
Le Cointe e, mais recentemente, Sioü;
em seu trabalho Contribuição à Geo- embocaduras setentrionais como nas
grafia Ffsica dos furos de Breves e da meridionais. De ambos ·os lados a água
parte ocidental de Maraj6, Huber as- entra com a enchente e sai com a va-
sim situa, descreve e caracteriza a "re- zante, porque a sjmples represa das
gião dos furos": águas do Amazonas provoca, nestes ca-
nais laterais, correntezas semelhantes
"Sob o nome de "Região dos furos de às dos verdadeiros fluxos e refluxos no
Breves" deve-se compreender a área domínio do estuário do Pará.
limitada ao N pelo furo de Tajapuru e
sua continuação meridional, Tajapuru- Importa agora, antes de tudo, saber on-
zinho, a E pelo rio Macacos e o rio de se acha, nesta rede de canais, a zona
dos Breves, ao S pelas baias Portei, de neutralização destas influências. O
Melgaço e das Bocas. O conjunto hi- ponto onde se encontram, num furo
drográfico assim d~limitado correspon- determinado, a influência hidrográfica
de à definição do "furo" propriamente do rio Amazonas· e a do estuário do
dito, isto é, de uma comunicação entre Pará é chamado, pela gente do País,
o rio principal e o seu afluente, acima pelo termo muito apropriado de "en-
da confluência definitiva". contro d'água". € claro que os "encon-
tros d'água", isto .é, os pontos onde teo-
Como magistralmente mostrou Herbert ricamente as correntezas de maré do
Smith, " ... o Amazonas entra com qua- Amazonas e do rio Pará se encontram,
se todos os seus afluentes em comunica- praticamente não são pontos bem de-
ção por um ou diversos furos, pelos finidos, mas zonas mais ou menos ex-
quais estes afluentes recebem, ao me- tensas, mesmo por causa dó nível va-
nos durante a cheia do Amazonas, as riável do Amazonas e do rio Pará, res-
águas deste rio, acima da verdadeira pectivamente. Além disto, é de obser-

147
var que a gente do País não pode to- (a ilha Grande de Gurupá representa
mar em conta senão as correntezas su- a palma desse pé e os artelhos a ilha
perficiais, que certamente não concor- do Pará e os agrupamentos insulares
dam sempre com o movimento das onde se encontram as ilhas dos Porcos
águas do fundo destes canais relativa- e da Queimada, a ilha do Vieira Gran-
mente estreitos e profundos. Apesar de, a ilha Mututi e as ilhas Ituquara
destas resbições, a determinação dos e Mutunquara). A forma do delta e
"encontros d'água" é uma das questões sua posição parecem permitir classifi-
fundamentais para a compreensão do cá-lo como um delta-de-flanco estua-
regime hidrográfico dos furos" 83 . rino ( Fig. 36) .
Ao estudar a foz do rio Amazonas, o c) Mais adiante, em direção ao ocea-
geógrafo não se pode furtar a abordar no, surge um outro delta, cujas partes
o problema da sua classificação como emersas formam um arquipélago (ilhas
acidente geográfico . Mexiana, Caviana, Jurupari e Janaucu )
e ainda um arquipélago menor, junto
A existência nela de um grande nú- à costa do ~apá, formado pelas ilhas
mero de ilhas de formação deltaica, si- Curuá, do Brigue e Bailique. A porção
tuadas dentro de uma larga emboca- submersa deste outro grande delta (ele
dura de mais de 150 km de abertura, é de maré ) está compreendida entre
com características de um amplo es- a borda externa do emerso e a isóbara
tuário, levou alguns estudiosos da hi- de 10 metros. Aí é digno de nota um
drografia amazônica a considerá-la um setor muito picotado que deve corres-
"delta-estuário"; outros, desconhecen- ponder ao principal canal de entrada
do a geologia da porção oriental da e saída das mais fortes correntes de
ilha de Maraj6 e das grandes que lhe marés, cujas águas são o resultado da
ficam próximas e ao norte ( Caviana, mistura (ambiente de muita turbulên-
Mexiana) e, portanto, acreditando se- cia) de águas oceânicas e amazônicas.
rem as mesmas inteiramente de origem No interior do canal aparecem vários
fluvial, admitiram a existência de um cordões alinhados, paralelos à direção
grande delta na foz do Grande-Rio. de penetração das marés. Também em
frente ao rio Pará aparecem feições se-
Em trabalho inédito, o geógrafo Carlos melhantes.
de Castro Botelho aborda o problema,
preferindo classificar o complexo mor- d) Num resumo de interesse hidroló-
fohidrográfico encontrado no trecho gico: os rios Anapu-Pacajá, Jacundá,
final do Amazonas como um "delta-de- Araticu, Cupij6, Tocantins, Moju, Aca-
flanco estuarino". Assim resume este rá e Guamá desembocam no rio Pará;
autor as razões que o levaram a adotar o rio Amazonas, vencido o delta em
tal classificação: forma de pé, despeja suas águas no
oceano através de vários canais, dentre
a) Os rios Amazonas e Tocantins cor- os quais se destacam o do Norte e o
rem para um amplo e complexo estuá- do Sul; a ilha de Marajó é envolvida
rio que se estende desde o litoral do completamente por correntes de ma-
Amapá (talvez a planície do Araguari rés, pelo norte e pelo sul, até os furos
dele participe) até o litoral de Belém de Breves e dos Macacos, por onde
e no sentido do ocidente deve englo- penetram, reversivelmente atingindo o
bar a ria da baía de Caxiuaná. Ele é rio Pará, quando vindas do norte, e o
extremamente complexo por conter, canal Vieira Grande, quando vêm do
além das deposições estuarinas e for- sul.
mas associadas, também "rias" e deltas
recentes e atuais ( emersos e sub- Com estas considerações, baseadas na
mersos). disposição das massas insulares e na
hidrografia da área geográfica em te-
b) Observe-se bem toda a área e po- la, Carlos Botelho oferece argumentos
der-se-á perceber um gigantesco delta válidos para a definitiva classificação
fluvial progredindo dentro do estuário, do complexo estuário do rio Amazo-
assumindo a forma de um pé humano nas.

148
Por sua vez, Sioli também não consi- do Planalto Central brasileiro fosse o
dera a boca do Amazonas· um verda- primeiro grande tributário do Amazo-
deiro delta, mas sim um extenso e lar- nas a partir do oceano. .
go estuário; para este autor, o verda-
deiro delta do Amazonas está entre a Na realidade, porém, o rio Amazonas
ilha de Marajó e o continente, e é for- lança a quase totalidade das suas águas
mado pelo feixe de "furos" que desem- no Atlântico através do seu próprio es-
bocam na baía das Bocas ( Figs. 37 tuário, ou seja, pelo canal do Norte,
e 38), esta situada na extremidade oci- sendo comparativamente mínimo o vo-
dental do "rio Pará" 8'. lume de suas águas que, pelos "furos"
que separam a ilha de Marajó do con-
O fato de o Tocantins desaguar no cha- tinente, vem ter ao "rio Pará" onde,
mado "delta-estuário" amazônico, le- por sua vez, o Tocantins despeja suas
vou à crença de que este caudaloso rio volumosas águas ( Fig . 39) .

·~

Mozog& o

ILHA DE MARAJÓ

Fig. 36 - Formações deltaicas no estuário do rio Amazonas.

149
Tudo está a indicar que o rio Tocan- ao mesmo tempo (1942), em seu tra-
tins sempre possuiu o seu próprio es- balho O rio Amaz:onas e sua bacia:
tuário no "rio Pará" ao qual outrora "O rio Tocantins nunca foi, em pedodo
vinham ter as águas do Amazonas pelo geológico algum, tributário direto do
seu antigo "canal do Sul", cujo entu- Amazonas: a sua foz é. distinta, é o
lhamento deu origem à "região dos fu- rio Pará" 87•
ros" de Marajó 85 ; a afluência ou não
do Tocantins ao Amazonas somente Apesar das afirmações feitas há tantos
anos por estas duas autoridades, res-
suscita controvérsia entre aqueles que pectivamente na geologia e na geogra-
ainda não examinaram o "problema" do fia do Brasü, livros diâáticos e publi-
ponto de vista geológico e geomorfoló- cações oficiais vinham incluindo, até
gico, pois há quase quatro décadas há bem pouco, o rio Tocantins na bacia
(1938), escrevia Matias Roxo: " . . . do Amazonas; a partir, porém, de 1972,
questão que muito tem feito gastar tin- o Anuário Estatístico do Brasil passou
ta e papel é a de ser ou não o Tocantins a apresentar, em separado, os dados
afluente do Amazonas: nunca foi nem referentes ao potencial hidráulico das
é; em qualquer das épocas passadas bacias Tocantins-Araguaia, de acordo
teve uma comunicação livre com o com a divisão adotada pelo Departa-
oceano, como hoje em dia tem" 86• Cor- mento Nacional de Águas e Energia
roborando com esta assertiva, Delgado Elétrica para as bacias hidrográficas
de Carvalho também afirmou, quase brasüeiras.

Fig. 37 - O feixe de canais ("furos") que se~ra a ilha de Maraj6 do continente e vem
desaguar na extremidade ocidental do "rio Pará' (baia das Bocas) forma, segundo Harald Sioli,
o verdadeiro delta d:a boca do Amazonas, admitido o mesmo como um delta interno. Fonte:
Carta Aeronáutica USAF (Base Prelímlnar) - Folha Mazagão - 1948.

150
Fig. 38 - Litoral sul da ilha de Marajó. A direita e ao alto as entradas dos furos de Breves
e Boiuçu e, além, a baía das Bocas.

8 - AS MARÉS NO LITORAL tas baixas de longos trechos dos lito-


rais do Amapá e da ilha de Marajó:
AMAZÔNICO
No litoral amazônico a amplitude mé-
Fato marcante da hidrografia do lito- dia das marés de sizígia (fevereiro a
ral e estuário amazônicos são as suas abril) varia de 3,5 a 4 m; excepcional-
marés que, manifestando-se naqueles mente pode alcançar quase 4,5 m na-
trechos com considerável amplitude, quele período. Dentro do estuário do
grande impetuosidade e com certas pe- Amazonas e na baía de Maraj6, obser-
culiaridades, têm notável influência na va-se grande irregularidade nas oscila-
navegação dos pequenos barcos que ções do nível da maré 88.
estabelecem as comunicações maríti-
mas entre os portos situados nas em- Na cidade de Amapá, situada no tre-
bocaduras dos rios que deságuam di- cho final do rio Amapá Pequeno, as
retamente no Atlântico. Além disso, diferenças entre a baixamar e a prea-
penetrando pelos estuários de alguns mar de equinócio são também supe-
desses rios e no próprio Amazonas, riores a 3,5 m; no porto de Santana,
produzem o temido fenômeno da "po- ao sul de Macapá, no canal do Norte
roroca", bem como os já referidos "en- do Amazonas, as marés sizígias têm
contros d'água" da região dos "furos", e oscilações que podem atingir até 3,94
ainda a constante destruição das cos- metros .

151 .
Na costa do Amapá e na boca do Ama-
zonas as marés apresentam caracterís-
ticas mais diversas e imprevisíveis, de-
vido à influência de certos fatores de
ação também variável. "As marés nas
vizinhanças do Amazonas são sujeitas
a tantas variações e irregularidades,
que é difícil precisar o seu regime: a
duração, a altura e força da corrente
dependem da força do vento, da quan-
tidade de chuva e das caprichosas va-
riações da direção da corrente. Como
exemplo de anomalias existentes nas
marés do estuário do Amazonas, pode-
se citar já terem sido observadas dife-
renças de 2 a 3 horas em estabeleci-
mento do porto, em dois lugares sepa-
rados somente por 1 milha, e uma di-
ferença, nesses mesmos pontos, nas
amplitudes das marés, de 2 para 9 me-
tros. Nas proximidades da ilha de Ma-
rajó, durante a estação chuvosa, a pre-
amar se manifesta quase instantanea-
mente, sendo a amplitude da maré de
5 metros, realizando-se metade da ele-
vação nas duas primeiras horas da en-
chente, e sendo a velocidade da cor-
rente cerca de 6 nós" 89 •
Distanciando-se do oceano, as ampli-
tudes das marés vão sendo cada vez
menores; nos furos de Breves, Rubens
Lima constatou "que no verão, nos
meses de J.ulho, agosto e setembro, nas
marés de 'quadratura", a amplitude de
oscilação entre a baixamar e a preamar
é de 1,2 metros em média. Naqueles
mesmos meses as marés de "lua cheia"
e "lua nova" ultrapassam de 20 a 25
centímetros os limites atingidos nas
"quadraturas" 00 . Amazonas acima, a
amplitude da maré continua a diminuir
gradativamente, não indo além de 40
a 50 em na foz do Xingu e, em Santa-
rém já é de 20 em somente. Normal-
mente, a influência da maré no rio

Fig. 39 - O rio Tocantins tem a sua ampla


foz, de quase 20 lan, no chamado "rio Pari";
não sendo este um braço ou canal do rio
Amazonas, possui saída livre e independente
para o oceano. As regionalmente chamadas
"baías" de Caxiuaná, de Pracaf, de Portei e
de Melgaço são, na realidade, lagou-de-
terra-fimie interiorizadas, que· ocupam antigas
"rias" dos rios Anapu, Pracaf, Pacajá e Ca-
marapi. Fonte - Carta do Brasil ao Milioné-
simo (Folha Belém) - IBGE.

152
Amazonas se faz sentir até óbidos, a uma intumescência, a "onda de maré",
mais de mil quilômetros do oceano, on- que vai subindo o rio, que tem assim a
de a amplitude é praticamente a mes- sua correnteza invertida na superfície.
ma de Santarém.
Quando a onda da maré passa por so-
Pela sua maior amplitude e velocidade bre os baixios e bancos de areia dos
(que chega a 20 km/h), as marés equi- estuários, a massa d'água em desloca·
nociais, ou preamares de sizígia, se mento se fragmenta em vagalhões de
destacam sobremodo no estudo da hi- 4 e mais metros de altura, com um
drografia do litoral amazônico. As su- ruído surdo e fragoroso como o trovão,
cessivas ondas por elas formadas sobre ouvido a quilômetros de distância.
o fundo areno-lamoso do oceano (ex- Vencendo sempre a massa fluvial, a
posto na baixamar, junto à linha da onda da maré vai "rolando" rio acima
costa), se deslocam velozmente do lar- com uma velocidade de 10 a 20 quilô-
go para o continente; ao encontrarem metros por hora 9 2 •
as costas baixas, cobertas por densa
franja de manguezais, sobre elas se O ruído estrondeante· e repetido que
precipitam com violência, destruindo- acompanha o fenômeno fez com que
as em grandes extensões ' 1 e alagando- o aborígine o denominasse poroc-po--
as numa profundidade de centenas de roc, expressão onomatopaica que, se-
metros, pelo que as marés que as pro- ~ndo Barbosa Rodrigues, significaria
duzem são regionalmente denominadas arrebentar -seguidamente: que bem
"marés de lançante" ou de "águas vi- exprime a maneira da sucessão das va-
vas". gas que arrebentam".

O Amazonas penetra com relativa fa- Para explicar a velocidade e a impe-


cilidade no oceano, exceto nos perío- tuosidade da onda de maré que pro-
dos das "marés vivas", ou de sizígia, duz a pororoca, alguns autores lem-
quando a atração combinada do Sol e bram a ação dos ventos que constan-
da Lua (então em conjunção, ou em temente sopram, por vezes com gran-
oposição) faz subir ainda mais alto o de intensidade, do mar para a terra
nível das águas do mar que procuram, naquele trecho do litoral brasileiro .
de acordo com o princípio dos vasos O fenômeno da pororoca tem sido des-
comunicantes, invadir o seu vasto es- crito e explicado por diversos observa-
tuário. Acontece, porém, que nos me- dores; as descrições são geralmente
ses de janeiro, fevereiro, março e abril semelhantes, concordando em seus as-
as "marés vivas" têm que vencer uma pectos principais, mas as explicações
força maior, oferecida pela pressão da nem sempre revelam as suas verdadei-
massa líquida do Grande-Rio,- então ras causas.
mais volumosas devido ao fato de nes-
tes meses ele ter a sua descarga pro- A melhor descrição e explicação da
gressivamente aumentada em conse- pororoca parece ser ainda a de Le
qüência das abundantes chuvas na sua Cointe, e é a seguinte:
imensa bacia.
"Ao norte de Maraj6 o Amazonas es-
Elevando-se consideravelmente na épo- tende seu imenso estuário com águas
ca das sizígias, as águas do mar, por de um amarelo turvo, correndo com
sua vez, procuram penetrar com maior violência, no meio de grandes ilhas de
ímpeto o estuário amazônico, nas ma- aluvião, entre margens freqüentemen-
rés enchentes. No início da preamar, te lamacentas, cobertas de detritos de
toda a espécie e de troncos de árvores
a enorme massa fluvial opõe-se, no en- encalhados; faz irrupção no Atlântico
tanto, à marcha da maré montante, por três cortes largos e profundos e
oferecendo-lhe grande resistência. Es- repele a água salgaaa até uma grande
ta, no entanto, vai elevando cada vez distância da costa; as marés normais
mais o nível das águas do rio, e quan- fazem somente subir o nível das águas
do o equilíbrio existente entre as duas e diminuem a velocidade da corrente-
forças contrárias é rompido, forma-se za, mas não podem invertê-la. Raros

158
são os bons ancoradouros. À ação com- ocorre periodicamente, pondo em pe-
binada da correnteza e dos ventos que rigo as embarcações por ela surpre-
nada detêm do lado do largo, vem, endidas.
com efeito, acrescentar-se, periodica-
mente, na maior parte das enseadas Na costa do Amapá a pororoca não só
das margens, o peri&oso e curioso fe~ ocorre em quase todos os rios que ali
nômeno da "pororoca', espécie de "on- desembocam como também se faz sen-
da de maré" análoga ao ma.scaret do tir com grande intensidade; são bem
rio Sena, ou ao bore do rio Ganges, conhecidas e temidas as violentas po-
rorocas do estuário do rio Araguari.
que se manifesta com extrema violên-
cia nas épocas das grandes marés, nos Mais ao sul da foz do Araguari, nos
dois ou três dias que precedem ou se- rios e canais das ilhas Bailique, Curuá,
guem a lua nova e a lua cheia (marés Caviana, Janaucu, Jurupari e Mexiana,
de sizígia), principalmente nos equi- a pororoca se manifesta igualmente
nócios. Nestas ocasiões, mais ou me- impetuosa e destruidora, o mesmo
nos três horas depois do princípio da acontecendo nos trechos finais dos rios
enchente, produz-se a ruptura de equi- que deságuam nas costas norte e leste
líbrio entre as águas montantes do da ilha áe Maraj6.
oceano e a massa de água doce que se
escoa pela foz do Amazonas e, sendo Na baía de Maraj6, bem como no "rio
mais leve que a água salgada, estende- Pará" e no estuário do Tocantins, não
se à grande distllncia pelo mar afora, se observam pororocas; entretanto, em
muitos rios que defluem naquela imen-
numa larga toalha que se inclina para sa baía-estuãrio, a pororoca ocorre
o norte sob o impulso da corrente normalmente. Martius presenciou uma
equatorial; a "onda de maré", assim pororoca no baixo rio Guamá (à mar-
atrasada, prec:pita-se com impetuosi- gem de cujo estuário está a cidade de
dade ainda aumentada pelo vento rei- Belém), e a descrição vívida que dela
nante; quando passa por cima de uma faz dá uma excelente idéia do que real-
coroa de areia ou de um baixio e quan- mente é este curioso e espetacular fe-
do penetra num canal apertado entre nômeno hídrico. A. W. Sellin, em sua
ilhas, ou em rios pequenos por onde Geografia do Brasil, assim apresenta o
sobe, não acha mais, na seção assim relato do grande sábio alemão:
diminuída, uma passagem suficiente,
um intumescimento maior se manifes- Martius descreve de maneira ani-
ta e, de repente, erguem-se três enor- mada o fenômeno da pororoca, que
mes vagas, algumas vezes quatro, de viu no rio Guamá, afluente do Tocan-
tins ( sic). "A pororoca, descreve ele,
3 a 4 metros de altura, que se seguem devia em conseqüência da periodicida-
de perto, e avançam com fragor de de regular no fluxo e refluxo começar
uma a outra margem, derrubando, depois do meio-dia, pois a lua naquele
varrendo e submergindo tudo o que dia ( 28 de maio de 1820) tinha de
encontram. Em dois ou três minutos passar pelo meridiano um minuto an-
deixam de si as águas niveladas com tes da meia-noite; não deixei, pois, um
as do mar, elevando assim de repente instante um morro baixo, fronteiro ao
a maré à altura que gastou horas a rio, do qual poderia vê-la. Trinta mi-
alcançar em outros lugares. Na sua nutos depois de uma hora, ouvi um
carreira, quando chegam em paragens rugido violento, igual ao estrépito de
profundas, estas vagas desaparecem grande cachoeira; dirigi os olhos pelo
como que mergulhando, para surgirem rio abaixo, e passado um quarto de
outra vez nos baixios que seguem" 93 . hora apareceu uma onda de uns quin-
ze pés de altura, ocupando, qual mu-
A pororoca não é, todavia, exclusiva ralha, toda a largura do rio, que com
do estuário do Amazonas; em alguns terrível estrépito avançava para cima
estuários e trechos finais de rios do li- com grande rapidez, sendo as águas
toral amazônico, que deságuam direta que se precipitavam na crista em tor-
ou indiretamente no Atlântico, ela velinho substituídas sempre por outras

154
que vinham da enchente de trás. Em do estuário do Amazonas; segundo Le
alguns lugares, contra a praia, mergu- Cointe, "em 1850 a ilha Caviana foi
lhava a água na largura de uma a duas dividida em duas partes por um largo
toesas; eleva-se, porém, de novo rio canal que a violência da "pororoca"
acima, onde a onda reunida prosse- rasgou no meio terras relativamente
guia sem descanso. Enquanto, pasmo, altas" 95 •
eu assistia a esta insurreição das águas,
mergulhou por duas vezes toda a mas- O material arrancado das margens dos
sa aquosa, abaixo da união do Capim estuários e da própria costa pela poro-
com o Guamá, ao mesmo tempo que roca e pelas vagas nas "marés vivas",
ondas largas e superficiais e peque- juntamente com a carga sólida lançada
nos turbilliões ocupavam toda a super- ao oceano pelo Amazonas, é tangido
fície do tio. Apenas se apagara o es- para o norte, pela corrente Equatorial,
trondo dessa primeira corrida, emi>i-
nou-se de novo a água, subiu mugindo e vai dar origem a grandes bancos de
com violência, e continuou, qual· mu- lodo que, quando fixados por vegeta-
ralha de água-viva, sacudindo as praias ção halófila (mangues), dão origem a
trêmulas até os alicerces, coberta de ilhas ao longo da costa.
uma crista de espuma, quase tão alta
como viera, e dividida em dois ga- Em virtude da sua descomunal descar-
lhos meteu-se pelos dois rios, onde ga, o Amazonas avança mar adentro,
em breve perdi-a de vista. levando bem longe as suas águas car-
regadas de material sólido em suspen-
Todo o fenômeno fora obra de meia- são e quebrando a salinidade do ocea-
hora apenas, as águas assanhadas que, no até uma distância que pode ser
entretanto, bem como as ondas da po- superior a duas centenas de quilôme-
roroca, não pareciam muito turvas, de tros, conforme a estação do ano, como
lama, apareciam agora nas condições informa Sioli, baseado em estimativas
da mais alta cheia; gradualmente fo- feitas por Egler & Schwassermann
ram sossegando, e depois de prazo quanto à variação anual da salinidade
igualmente curto ao começar o refluxo do Atlântico em frente ao delta-estuá-
começaram a baixar visivelmente. rio do Amazonas es. Informa Stemberg
( ref. 70 da Bibliografia) que, se-
Em outra parte, diz o mesmo escritor: gundo Ryther et alü ( 1967), é da or·
Em muitos lugares, e são sempre de dem de 2 e meio milhões de Jan2 a área
fundo considerável, a pororoca mergu- do oceano que tem a salinidade abai-
lha, mas eleva-se de novo acima, em xada pelas águas do Amazonas.
lugares rasos do rio. Os lugares tran-
qüilos chamam-se esperas. Neles se ob-
serva aumento d'água, porém não po-
roroca" e•. 9 - A HIDROGRAFIA NA
A pororoca é, antes de tudo, um agen-
-ORGANIZAÇÃO E
ce destruidor. A baixa costa do Amapà, VALORIZAÇÃO REGIONAL
de formação flúvio-marinha recente,
está em longos trechos recuando cons- A importância da hidrografia na orga-
tantemente, devido ao ataque periódi- nização e valorização da Região Norte,
co das vagas das "marés àe lançante" ou seja, do espaço geográfico amazô-
e à ação da pororoca nos estuários; cor- nico brasileiro, é devida à navegabili-
roendo as margens destes últimos, a dade natural oferecida não só pelo rio
pororoca vai alargando-os progressiva- Amazonas mas também pelos nume-
mente e tomando-os cada vez mais ra- rosos cursos d'água que drenam as ter-
sos, com barras instáveis, em perma-
nente deslocamento e de difícil pra- ras baixas da sua imensa bacia; conta
ticagem. a região com uma extensão fluvial na-
vegável estimada em 20 mil km, dos
Sua ação destruidora é igualmente ob- quais cerca de 10 mil km francamente
servada nas ilhas situadas na entrada navegáveis.

155
Constituindo os rios as únicas vias na- prias à colonização e, por outro, suple-
turais de circulação na região, em qua- mentar o transporte ffuvial com a im-
se sua totalidade revestida por espesso plantação de um sistema conjugado hi-
manto florestal, são às suas margens drorrodoviário, para atendimento do
que se localizam os habitantes da ama- transporte na região, estabelecendo um
zônia interior, quer isoladamente, como entrosamento do rio com a estrada.
no caso da solitária habitação pala- Um grande projeto elaborado dentro
fítica do caboclo ribeirinho (considera- da idéia do Governo em estabelecer
da esta como a menor unidade de po- um Programa de Integração N acionai
voamento), quer em núcleos urbanos - com o objetivo de gerar de forma
de diversas categorias (povoados, vilas mais racional o desenvolvimento do
e cidades ) . Daí o .habitat rural amazô- Nordeste e promover a colonização da
nico poder ser classificado como do
Amazônia - foi o da construção da
tipó linear e disperso, tendo o rio co-
Rodovia Transamazônica, definida co-
mo eixo.
mo uma linha no sentido leste-oeste,
Por mais de três séculos os rios da para conectar o Nordeste à Amazônia;
Amazônia vêm sendo as vias naturais outro foi o da construção da Rodovia
de penetração e de circulação entre Perimetral .Norte, réplica da Transama-
as unidades de povoamento, núcleos zônica cortando os aflu~ntes setentrio-
humanos e centros urbanos regionais, nais do Amazonas.
permanecendo indevassados os inter-
flúvios que os separam. Juntamente com o Departamento Na-
Até a inauguração da Rodovia Belém- cional de Estradas de Rodagem e ou-
Brasília, na década de 60, todo o sis- tros órgãos federais, o Departamento
tema de transporte na Amazônia esta- Nacional de Portos e Vias Navegáveis
va condicionado pela rede hidrográfi- participa ativamente do Programa de
ca, e, em princípios de 1974, cerca de Integração Nacional, pela implanta-
80% do transporte global da Região ção de terminais rodofluviais nos pon-
Norte eram feitos por hidrovias, o que tos em que as principais artérias na-
revela o alto índice de transportes flu- vegáveis são cortadas pela Transama-
viais na região e a importância da hi- zônica; esta rodovia corta, num per-
drografia na vida regional. Não obs- curso de mais de 2. 000 km, os Estados
tante, portanto, a execução de grandes
projetos rodoviários na Amazônia bra- do Pará e Amazonas e tem por. obje-
sileira, a rede viária desta vasta área tivo "interligar os terminais navegáveis
geográfica ainda reflete as condições dos afluentes meridionais do Amazo-
ambientais, isto é, baseia-se na nave- nas, como o rio Tocantins, Xingu. Ta-
gação fluvial. pajós e Madeira, unindo, conseqüente-
mente, por terra, os distanciados nú-
Em 1970 o Governo Federal imprimiu cleos populacionais da região, como
nova orientação à conquista, povoa- Marabá, Altamira, ltaituba e Humai-
mento e colonização da Amazônia, tá, e complementar o vasto sistema flu-
atràvés do estabelecimento de cami- vial da Amazônia (20.000 km), possi-
nhos terrestres para conectar os aflu-
entes navegáveis do Amazonas; na con- bilitando o acesso às terras altas e seu
cepção dessa política g~vernamental aproveitamento racional" 97•
visando ao desenvolvimento da região,
foi levado em conta 6 aproveitamento Dentro da estratégia de povoamento e
dos rios amazônicos e suas ligacões ter- valorização regional adotada - pela
restres através do sistema rodoviário suplementação do transporte fluvial
regional. com a criação de um sistema conjuga-
do lúdrorrodoviário . - já foram exe-
Com essa nova política deseja o Gover- cutados no setor portuário os primei-
no, por um lado, criar entre o Grande- ros projetos que dotarão os rios prin-
Rio e esses caminhos uma extensa fai- cipais de uma infra-estrutura indispen-
xa de terra, entrecortada de vias nave- sável, ligando-os às estradas; para ar·
gáveis que apresente condições pró- ticular a Transamazônica e a Cuiabá-

156
Santarém com os principais cursos Visando a intensificar a utilização dos
d'água, foram construídos, em princí- grandes rios brasileiros e melhorar as
pios de 1974, portos fluviais em Impe- condições de sua navegabilidade, o
ratriz (na margem esquerda do rio Plano Hidroviário contido no II Pla-
Tocantins, no Maranhão), em Altami- no Nacional de Desenvolvimento pre-
ra (em Remanso do Pontal, na margem vê a interligação de diversas bacias -
esquerda do rio Tapajós) e em Santa- hidrográficas, bem como a introdu-
rém (na confluência dos rios Amazo-
ção, nos leitos das principais arté-
nas e Tapaj6s) . Outras obras de ins-
talações de portos fluviais serão leva- rias fluviais, de melhoramentos di-
das a efeito em Marabá, Tucuruí, Hu- retos, da canalização parcial com apro-
maitá, Porto Velho, Lábrea e Boca do veitamentos múltiplos, da construção
Acre, todas em conexão com a Transa- de canais laterais, de barragens mó-
mazônica; em fase de projeto para im- veis e de eclusas.
plantação ou ampliação, se encontram
os portos de Itacoatiara, Parintins, Ma- Dentre a série de medidas a serem
nicoré, Tefé, Coari e Tabatinga no executadas em todo o Pais, dentro do
rio Amazonas, e o porto de Borba no sistema hidroviário nacional e de acor-
rio Negro e a construção de terminais do com esse plano, encontra-se a inter-
hidroviários em Macapá (Amapá) e ligação da Bacia do Amazonas com a
Caracarai (Roraima) . Bacia do Paraguai, seus principais aflu-
entes e subafluentes, estando previstas
A idéia básica no planejamento deste a canalização das corredeiras do Bem
programa governamental sem prece- Querer, no rio Branco, a qual estabele·
dentes, isto é, a abertura de rodovias cerá a continuidade da navegação entre
na floresta tropical mais densa do
Manaus e Boa Vista, interrompida em
mundo, bem como a construção, am-
pliação e modernização dos portos que 14 km, e a canalização dos rios Ma-
servem à Amazônia, foi conjugar uma deira e Mamoré, entre Porto Velho e
rede rodoviária com o sistema fluvial, Guajará Mirim, trecho encachoeirado
visando a um aumento substancial na com quase 400 km de extensão. Na
capacidade transportadora dos rios, ilha de Maraj6 está prevista a interli-
conforme declarou o Ministro dos gação dos rios Tartaruga e Jenipapocu.
Transportes, ao inaugurar o porto de
Santarém, em fevereiro de 1974 &a. Estariam, assim, lançadas as bases para
a revitalização da navegação fluvial
O rio Amazonas passará, assim, a figu- na região, um dos grandes objetivos do
rar como uma grande mediatriz desse Plano de Integração Nacional.
sistema integrado rodofluvial da Ama-
zônia brasileira, circundado por um A utilização da rede . hidrográfica na-
enorme "anel rodoviário" - formado cional (estimada em 50 mil km), co-
pela Transamazônica e pela Perime- mo forma de transporte, integração e
tral Norte - a interceptar os trechos escoamento da produção, colocará o
navegáveis de seus afluentes de am- Brasil em destaque no mundo aqua-
bas as margens. viário e, dentro do País, fará ressaltar
Salientando a importãncia da hidro- ainda mais a importância da Região
grafia na execução dos projetos de cir- Norte nesse setor, uma vez que nela
culação na área, declarou naquela se encontra cerca da metade da exten-
ocasião o Ministro dos Transportes que são fluvial brasileira.
os rios continuarão a ser importantes
componentes no sistema de transporte Intimamente relacionados com a hidro-
na Região, por serem "significativos ca- grafia amazônica estão valiosos recur-
minhos naturais que, conjugados com sos naturais, entre eles a pesca abun-
os caminhos terrestres, hão de formar dante em seus incontáveis rios e lagos,
a grande e necessária resultante: um e ainda a sua potencialidade em ener-
sistema integrado de transportes para gia hidráulica, como se pode depre-
toda a Amazônia". ender das estimativas mais recentes.

1ST
A pesca fluvial e a lacustre ainda não J>or sua vez, a rede hidrográfica do
permitem, todavia, a industrialização Amazonas já oferece, em Território
do pescado em grande escala, mas Brasileiro, apreciável potencial energé-
abastece os núcleos urbanos regionais tico: pesquisas visando à descoberta de
e constitui um dos itens básicos na ali- novas reservas hidrelétricas revelaram,
mentação das populações ribeirinhas. em 1973, segundo a ELETROBRAS,
um potencial presumido de 20 mil mW
Por outro lado, o fato de o Amazonas (15 mil mW, nos afluentes da margem
possuir várzeas em quase toda a sua esquerda e 5 mil mW, nos afluentes da
extensão planiciária - o que ocorre margem direita), o qual representava,
igualmente em muitos dos seus maio- naquele ano, cerca de 34,5i do poten-
r~s afluentes ..... propicia a criação ex- cial presumido para todo o País, então
tensiva nos campos nativos nelas exis- da ordem de 58 mil mW 99•
tentes, atividade essa que, além de ser
um fator de fixação do homem à terra, Finalmente, os recursos minerais da
na despovoada Amazônia, contribui Região Norte poderão certamente con-
expressivamente para a economia re- tar com a rede fluvial regional para o
gional; um terço (mais de meio milhão seu escoamento dentro do sistema In-
de cabeças) do rebanho bovino da Re- tegrado. das vias fluvia;s com as vias
gião Norte é criado nos campos inun- terrestres em implantacão na Região.
dáveis das várzeas amazônicas e a me- Os rios têm sido e continuarão a ser,
tade nas pastagens nativas alagáveis da ainda por muito tempo, importantes fa-
ilha de Marajó e da baixada litorânea tores na organização e valorização do
do Amapá. espaço amazônico brasileiro.

NOTAS DE REFERlNCIAS

1 Cf. Almeida, Os fundamentos geológicos, p. 61; v. ref. 4 da Bibliografia.


2 Ibidem.
8 Na constituição geológica da Bacia Amazônica em Território Brasileiro, Josué Camargo Men-
de.s di.,tingue quatro grande~ unidades georectônicas: "a área cratônica conhecida como Escu·
do BrtJJileiro, a área cratônica designada Escudo dtJJ GuiantJJ, a bacia intracratôniei chamada
Bacia do Amazonas e a bacia pericratônica que os geólogos denominam Bacia do Acre. Mendes.
Evolução geológica da Amazônia, p. 2; v. ref. 34 da Bibliografia.
• Ab'Saber, ProblemtJJ geomorfo/6gicos da A.maz6nia Brasileir~ pp. 41-47; v. ref. 2 da Bi-
bliografia.
G Ibidem, p. !19.

6 Mesner 8c: Wooldridge, Estratigrafia das bacias paleozóica e cretácea do Maranhão, p. 138;
v. ref. 35 da Bibliografia.
T Mendes, op. cit., pp. 7-8.
8 Com uma espessura variando de 2 a 4 mil metros, a bacia sedimentar amazônica tem gran-
de importAncia para a economia brasileira, pelas possibilidades que apresenta da ocorrência
de petróleo, já comprovada por sondagens levadas a efeito na reg~o amazonense do Baixo-
Amazonas (em Nova Olinda, no vale inferior do rio Madeira e no paraná do Autás-Mirim. a
8 km de Manaus).
9 Ab'Saber, op. cit., p. 36.
lO Cf. Stemberg, Vales tectônicos na planície amazônica? p. 516; v. ref. 66 da Bibliografia.
11 "O falhamento que vem ocorrendo nessa área está danificando as construções, sendo que
algumas já estão sendo abandonadas e outras, como é o caso da Santa Casa de Misericórdia,
terão também de ser abandonadas, em virtude dessas falhas.,. As direções das falhas são muito
variadas, todavia existe um grande predomínio das que possuem direção NW-SE e mais ou
menos paralelas". Guerra, Estudo geográfico do Território Federal do Acre. pp. 14-16; v. rd.
2!1' da Bibliografia.
12 "Sabe-se que nos períodos glaciais o nível do mar era de 75 a 100 m mais baixo do que
hoje. Os rios da planície amazônica devem então ter tido um declive muito mais forte que
hoje e, em conseqüência disso, puderam escavar amplos vales nos sedime.n tos moles do

158
Terciário. Com a elevaç:lo do nível do mar, ao derreterem-se os capeamentos de gelo, os rios
foram represados em gigantescos lagos fluviais. nos quais. tal como antes, o material em sus-
pensão trazido pelos rios, diminuída a correnteza, era depositado. Assim, os rios puderam,
progredindo corrente abaixo, encher os seus antigos vales com suas próprias aluviões ... Os
rios de água branca. entre eles o próprio Amazonas, formaram com sua enorme car~ra de
sedimeotos uma extensa terra de colmatagem, a chamada várzea ... ". Sioli, Landschafts-
õlr.ologischer Beitrag aus Amazonien, p. 44; v . rer. 55 da Bibliografia.
13 Cf. Gourou. Observações geográficas na Amazônia, p. 391; v . ref. 20 da Bibliografia.
H "Entre estes lagos de vale - escreveu Denis - a terra firme avança em promontórios na
várzea. A borda da terra firme. com seu desenho sinuoso e suas profundas articulações. faz
pensar numa costa de rias; e!a tem as mesmas origens; os lagos interiores do baixo Amazonas,
emoldurados pela terra firme, são vales submersos. Ao levantamento geral, que obrigou o rio
e seus afluentes a entalhar seus vales no platô terciário, sucedeu um movimento inverso,
muito menos amplo. mas que foi suficiente para colocar os antigos talve~rnes. na zona vizinha
ao rio, abaixo do nível de base. Este movimento determinou um aluviamento rápido que
aprofundou as partes inferiores dos vales e deixou subsistir lagos por toda parte onde os
rios eram pobres em aluviões". Denis,. L'Amirique du Sud, p. 114; v. ref. J5 da Bibliog:tafia.
15 Ruellan, As rias amazônicas; v. ref. 46 da Bibliografia.
16 Paisagens muito peculiares na Amazônia Baixa e Central são formadas pelos trechos com
a forma de bala de muitos tributários. Os rios aqui são largos, o Tapajós com largut:l supe-
rior a 14 km; a correnteza cai a quase rero e. por isso. estes trechos se parecem mais com Ja~ros
do que com rios verdadeiros. Essas "mouthbays" n-lio slio produtos daqueles rios em seu pre-
sente estágio, mas são conseqüências da variação do nível do mar". Sioli, Amazon Tributaires
and Drainage Basins, p. 205; v . ref . 61 da Bibliografia. Acha, no entanto, Sioli, que ""um
novo termo - "lagos-de-rios amazônicos" (riverlakes) - seria mais adequado a esta espécie
de corpo de água". Sioli, Principal biotopes of primat-y production in the waters o{ Ama-
tania, p. 593; v. ref. 59 da Bibliografia.
tT "O último ePidclo erosivo do entalhamento pós-pliocênico coincidiu com a formação das
atuais planícies de inundação, que acompanham a calha do grande rio e de ~eus afluente~
por alguns milhares de quilômetros, numa largura média variável de 15 a 30 km. Observada
de avião. à. altura de !l ou 4.000 metTos. a planície aluvial se destaca como uma larga esteira
de sedimentação em processo, embutida num corredor de relevo estabelecido no dorso dos
tabuleiros que ladeiam pelo norte e pelo sul. Enquanto na planície rasa n:lo se pode dizer
quem domina - se é a água ou se são os depósitos modernos em faixas e ma:tchas irregulares
- nos tabuleiros as colinas se desdobram em maciça sucessão de baixos Platôs tabuliformes,
inteiramente recobertas por floresta", Ab'Saber. op. cit., p. 157.
18 Estas bordas íngremes de terraços foram pela primeira vez representadas cartografica-
mente, como bluffs, por C. F. Marbut e C. B. Manifold, no croqui que estes dois autores
organizaram com o título de Faixas de p/anicies inunddveis da bacia amazônica interiOT.
Marbut &: Manifold, A topografia do vale do Amazonas; v . ref. 32 da Bibliografia.
19 Soares. Observações sobre a morfologia dtts margens do Baixo Amatanas e do Baixo Tapajós,
p. 750; ref. 64 da Bibliografia.
20 "A Expedição "Geologia Marinha I" (GEOMAR 1) foi idealizada pelo Departamento de
Geofísica da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Br:;sil, com a finalidade de
cooperar com as entidades nacionais empenhadas ou que quisessem se iniciar na pesquisa
geológica da Plataforma Continental do Brasil", tendo sido convidados para dela participarem
a Petrobrás, o Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Depar-
tamento Nacional da Produção Mineral, o Instituto de P<'Squisa da Marinha c ainda o Labo-
ratório de Ciências do Mar do Instituto Oceanográfico de Recife. MM-DHN, Operação Geomar
li, p. I; v. ref. li da Bibliografia.
:!1 "A existência de um canyon submarino na parte externa da plataforma e no tabuleiro
continental até a profundidade de 1.500-2.000 m, ao largo da foz do Rio Amazonas, foi pri·
meiramente assinalada por Ealey (1969, inédito)". MM-DHN, op. cit., p. 25.
22 MM-DHN, Operação Geomar ll, pp. 5·6.
23 Deve-se a Alexandre von Humboldt o primeiro estudo geográfico do canal Cassiquiare.
por ele percorrido em meados do século passado. quando da sua memorável viagem pela
região equinocial da América do Sul. Cf. Sioli, Studies in Amazonian waters, p. 19; v. ref.
58 da Bibliografia.
2-l Informações pormenorizadas sobre as imercomunicações da bacia amazônica com as de-
mais bacias hidrográficas sul-amcric~as são encontradas na memória apresentada por Jagua-
ribe de Mattos ao 111 Congresso Internacional de Hi~tória das Ciências, sob o título Les idies
sur la physiographie studamericaine, v. ref. JJ da Bibliografia.

159
25 Quantidade também chamada de potência ou escorrimento da bacia, "t. o caudal acumu-
lado de um ano, referido à área total da bacia, e pode ser expresso em milímetros d'água por
ano, assim .como se costuma indicar em Meteorologia a precipitação e a evapotranspiração. O
rendimento reflete. porta.nto, a relação entre a bacia imbrífera (bacia pluvial) e o caudal por
ela produzido, sendo, na maioria dos casos. um dado muito significativo das condições cli-
máticas da mesma". Heinsheimer. Os cinqüenta rios mais caudalosos da Terra, p. 9; v. ref. 24
da Bibliografia.
26 Cf. Heinsheimcr, op. cit., pp. 11·12 .
27 Pardé, Les variations saisonniere de l'Amazone, p. 5; v. ref. J9 da Bibliografia.
28 Galvlio, A Grande Regi4o Norte, p. 65; v. ref. 19 da Bibliografia.
29 Como no inverno austral o anticiclone do Atlântico Sul, observa Marília Calvão, "se
encontra bem acima do equador. e os ventos por ele emitidos, os alíseos de nordeste (da
massa En) têm sua ação muito reduzida (apenas atingindo o extremo norte do Brasil), tam·
bém a oeste o encontro das massas Ec e Ea (Equatorial Atlântica), se desloca para o norte,
localizando-se muito próximo do equador, na regi<lo do alto Amazonas, onde permanece a
massa Ec". Ibidem, p. 64.
Ao emprejtar a expressão "alto Amaronas" esta geógrafa quer ~e referir à porção NW
da bacia amazônica, onde se situam as bacias dos rios Napo, Putumaio-lçá, Caquetá-Japurá,
Uaupés e Negro.
30 Delgado de Carvalho, O rio Amazonas e sua bacia, p. 340; v. ref. 1J da Bibliografia.
81 "Em maio, informa Le Cointe, enquanto rio abaixo o Coari continua a engrossar, os altos
Purus, Juruá, Madeira, etc. já se encontram quase secos". Le Cointe, O clima amazônico,
p. 505;' v. ref. 28 da Bibliografia.
32 "Na bacia amazônica há certa complexidade nos regimes fluviais. Tal complexidade advém
~obretudo da imensa extensão territorial da bacia, abr.tngendo regiões onde não se identificam
totalmente as condições climáticas. As águas drenadas para o Amazonas provêm de três cen-
tros dispersares diferentes, a encosta dos Andes bolivianos e equatorianos, o Planalto Brasileiro
e o Plan:!lto dás Cuianas. Em cada um desses centros varia o regime das fontes, porque varia,
principalmente, o regime pluviométrico.
Acrescente-se, ainda, que a bacia Amazônica, dado a sua posição geográfica, estende -se
ao norte e ao sul da linha do equador e, em conseqüência, o rio Amazonas recebe afluentes de
um e outro hemisfério. Diverge o regime de uns e outros, mas, na realidade, as cheias e
vazantes não se alternam perfeitamente, como em geral se julga, ao considerar o fenômeno
da intf'T'erê,..cia no regime do Amaronas ". Simões, O regime dos rios brasileiros, p. 13; v.
ref. 50 da Bibliografia.
33 Pardé, op. cit., p. 35.
u Galvão, op. cit.. p. 75.
SG A ação moderadora da "interferência" juntam-se outras que contribuem igualmente para
atenuar a intensidade das cheias do Amazonas; essas seriam, como observou Maria de Lourdes
Radesca, o transbordamento lateral para a pbnície de inundação c para os lagos nela situa-
dos, e :\inda a pouca velocidade das águas motivada pelo pouco declive. Cf. RADESCA, Hidro-
grafia, O Brasil- a Terra e o Homem, p. 563: v. ref. O da Bibliografia.
aa Pardé, op. cit., p. 502 .
ST As medições de descarga fluvial na Região Norte resultaram de iniciativas do antigo
Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM), Departamento Nacional de Aguas e
Energia (DNAE), Departamento Nacional de Portos e Vias ~avegáveis (DNPVN), Eletrobrás,
e das Centrais Elétricas <to Pará (CELPA) e do Amapá (CEA).
ss "No curso médio (Solimões) as flutuações sazonárias do nível d'água chegam a ser de
10 a 20 m, na boca do rio Negro de 10 a 16 m e mesmo no baixo curso de 5 a 7 m".
Wilhelmy, Amazonia as a living area and an economic area, pp. 119-120; v. ref. 71 da Bi·
39 Os dados numéricos das oscilações do nível do rio Amaronas aqui apresentados não re-
sultaram de medições feitas no seu leito, e sim em Manaus, no trecho final do rio Negro. a
18 km da sua foz, onde os níveis destes dois rios praticamente se equivalem. Assim, o nível
do rio Negro pode ser considerado, grosso modo, como sendo o do próprio Amazonas na altura
do meridiano de Manaus, pois, tanto nas cheias como nas vazantes, as suas águas são como
que "represadas" pelas do Grande-Rio, estas muitas vezes mais volumosas.
40 Cf. Penna. op. cit.; v. ref. 4/ da Bibliografia.

41 Incalculáveis foram os danos cau!ados pela cheia de 1953. Cidades tiveram grande núme·
ro de construções total ou parcialmente destruídas, sendo incontáveis :\S habitações arrasadas,
nas várzeas, pela força das águas. Estimou-se em 30% a perda do rebanho bovino na região
do Baixo Amazonas, onde os prejuízos nas plantações de juta foram praticamente totais.

160
Milhares de ribeirinhos, desalojados de suas casas, procuraram abrigo nas cidades mais pró·
ximas. Tendo assumido um caráter de calamidade pública, exigiu do Governo Federal e Esta.
dual medidas especiais de socorro às suas vitimas.
42 Grande, O maior rio do mundo, p. 188; v. ref. 21 da Bibliografia.
43 "A correnteza, contudo, é rápida, tão grande é a massa líquida que recebe a vasta super.
fície da bacía e que se apressa para o oceano por este único coletor. Sua velocidade no meio
do rio varia de mais ou menos 2.000 metros por hora (0,60 metros por segundo) durante
a estiagem, a 4.500 metros (1.25 metros por segundo) em tempo de maior enchente. Em
frente de óbidos, onde as margens se aproximam para formar o que se chama a "garganta
do Amazonas", com 1.892 metros somente de largura, ela atinge e ultrapassa, nesta época,
7.000 metros por hora". Le Cointe, O Estado do Pard, p. 28; v. ref. 27 da Bibliografia.
u Soares. Observações sobre a morfologia das margens do Baixo AmazO[IaS e Baixo TaPa·
jós, p. 754; v. ref. 64 da Bibliografia.
45 Bareado na precipitação pluvial da Bacia, Maurice Pardé estimou entre 90.000 e 100.000
m3js o módulo do Amazonas em óbidos. Cf. Pardé, Q.uelques aperçus relatifs à l'hidrologie
brbiliense; v. ref. ~O da Bibliografia.
48 Cf. Oltman, Reconnais.sance investigation of the discharge and water quality of the
.fmazon; v. ref. JB da Bibliografia.
n Cf. Oltman et alii, .fmazon River 1nvestigations, Reconnaissanu Measurements of ]uly
1963; v. ref. J7 da Bibliografia.
48 As operaçõts destas mediçõts foram executadas pela firma especializada Hidrologia Co-
mercial Ltda.; sua sucessora, Hidrologia S. A. - Engenharia, Indústria e Comércio, realizou
para a Divis!!o de Aguas do DNAE, por intermédio da CPRM, mais de 21 medições em
óbidos e 54 mediçõts em outros pontos do eixo Solimõts-Amazonas.
A preferência pela seção do Amazonas fronteira à cidade de óbidos. para a medição de
sua descarga, deve-se ao fato de naquele ponto o rio correr em um único canal, uniforme e
relativamente estreito (1.800 m) e de ali serem os efeitos da maré (20 em apenas) pratica·
mente desprezíveis.
49 Cf. MME·DNAE, Mediçllo de descarga e seus problemas técnicos; v. ref. 8 da Biblio·
grafia.
1!0 Demangeot, Le continent brésilien, p. 15; v. ref. U da Bibliografia.
51 Demangeot, op. cit. , p. 15 .
52 Demangeot. Ibidem .
53 A primeira explicação de que se tem noticia, em obra essencialmente geográfica, das de-
nominaçõts regionais "branco" e "negro" (ou "preto"), dadas a certos rios da Amazônia, é
devida a Pierre Denis. Realmente, há cinqüenta anos escrevia este geógrafo: "A populaç.ão
amazônica distingue duas espécies de cursos d'água: os rios turvos argilosos (rios brancos)
e os rios com água puras, coloridas por matérias vegetais (rios negros)". Denis, op. cit., p. 111.
p. Jll.
11• Sioli, Alguns resultados e problemas da limnologia amazônica, p. 20; v. ref. 51 da
Bibliografia. "O terreno do igapó não é então formado por crescimento - como a várzea
dos rios de água branca - pela deposiçllo vertical de partfculas suspensas na água (a água
preta praticamente ~o carrega tais partículas), mas sim o resultado de processos de desgaste
da superflcie terrestre e, quando muito, talvez recolmatado em alguns lugares e, até um certo
grau, pela areia transportada no fundo do Jeito Ouvia!. Por isso, porém, ele nunca alcança,
em relação ao nlvel mais alto do rio durante a enchente, a altura registrada perto da margem
do rio, no caso da terra aluvial da várzea dos rios de água branca". Sioli, Ibidem.
55 A respeito, escreve Sioli: No rio Negro deve-se considerar que somente seus afluentes da
direita, que vêm da região entre o Negro e o Solimõts, trazem "água preta". Quase todos os
afluentes da margem esquerda, entre eles o majestoso e rico em água, Demeni, bem como
o rio Branco, vêm, todavia, das montanhas do sistema das serras Paracaima, Parima, Curupira,
Tapirapecó e Imeri, e conduzem assim "água branca", rica eru matéria suspensa. A estes
afluentes deve o rio Negro, e não à sua própria "água preta", a formaçllo de suas ilhas de
sedimentos recentes e pequenas várzeas de margem que ele possui em certos trechos". Sioli,
Sedimentation in Amaxonasgebit, p. 631; v. ref. 54 da Bibliografia.
1!8 Sioli, op. cit., pp. 609·610.
1!7 Sioli, .fmazon Tributaries and Drainage Basins, p. 201; v. ref. 61 da Bibliografia.
H. Klinge, do Instituto Max-Planck de Limnologia, estudou alguns solos podzólicos ocor-
rentes na Bacia Amazônica, concluindo serem os mesmos fontes dos rios de "água preta" (v.
ref. 26 da Bibliografia).

161
58 Figueiredo, Terras caldas. p. 2!19; v. ref. 17 da Bibliografia.
59 Cf. Mabesoone, Sedimentos correlativos do cfima tropical, p. !129; v. n:f. JO da Biblio·
grafia.
80 Stemberg, A água e o homem na várzea do Careiro, p. 51; v . n:f. 68 da Bibliografia.
81 Stemberg, Ibidem.
62 C f. Camargo. A conquista das vár%eas do A matonas; v. ref. J2 da Bibliografia.
63 Sioli, General features of the delta of the Amaton, p. !181; _v. ref. 56 da Bibliografia.
64 Sioli, Sobre a sedimentação na várzea do Amazonas; v. ref. 52 da Bibliografia.
65 MT·DNPVN, Vias navegáveis interiores do Brasil; v. n:f. 9 da Bibliografia.
68 Agradecemos a Hidrologia S.A. - Engenharia, Indústria e Comércio, as informações pres-
tadas sobre a situação, em 1974. das medições de seções fluviais na Região Norte.
87 Uma dessas raras informações é a que nos transmite Sioli, ou seja, de que existe no
fundo do leito do Baixo Amazonas "material que se desloca em forma de ripple-marJr.s gigan·
tescos, de verdadeiras dunas". Sioli, Studies in Am4%0n waters, p. 45; v. ref. 58 da Biblio-
grafia.
68 Cf. Marbut 8c Manifold, A topografia do vale do Amatonas; v. ref. J2 da Bibliografia.
69 Extenso paraná de aproximadamente 450 km, com os nomes locais de Abacaxis, Urariá e
do Ramos, liga os rios Madeira e Amazonas, formando a chamada ilha Tupinambarana que,
representando a largura máxima de 60 km e uma área de cerca de 50 mil km2, é a segunda
maior fluvial da América do Sul, depois da ilha do Bananal. esta considerada a maior ilha
fluvial do mundo.
70 Denis, op. cit., p. 144; v. ref. JJ da Bibliografia.
11 Andrade, op. cit.; v. ref. 6 da Bibliografia.
72 Andrade, Furos, paranás e igarapés, pp. 4!1-45; v. ref. 5 da Bibliografia.
73 "Os furos que se estabelecem nas planícies de inundação atuais dos grandes c1,1rsos ama-
zônicos sao elementos do sistema-padrão de condutos anastomosados e entrelaçados que, nas
aluviões recentes, dão escoamento às águas da vazante e são por estas deixados .em condições
de orientar o subseqüente alagamento da várzea-baixa na enchente". Andrade, Furos, paranás
e igarapb, p. 115; p. ref. 6 da Bibliografia.
'lf Cf. Sternberg, Jlales tectdnicos na planície amatdnica!; v. ref. 66 da Bibliografia.
75 wJgarapés e lagos-de-terra-firme represent.a m diferentes estágios, ou mesmo diferentes des-
fechos dum só e mesmo processo: a erosao "flsica" das vertentes das seções afogadas de vales
secundários. A penetração do afogamen1o e as proporções em que esses vales se alargam variam
entre diversas partes da bacia, certamente em virtude de estrutura ou de clima, quando nlio
de uma e de outro; especialmente no que diz respeilo à constituiç4o e à porosidade dos solos
terciários e à distribuição anual das chuvas em relação com o ritmo das cheias". Andrade,
op. cit. p. 124.
76 Em monografia intitulada, O Sacado - Murfo-dinâmica fluvial, Mário Ypiranga Mon-
teiro assim se retere a este elemento da drenagem ttgioi\àl: ··o sacado é um dos mais comple-
xos fenômenos de mobilida<:fe fluvial. Uma rotura, o estrangulamento do istmo ralizado, que
favorece a consumação lógica de dois acidentes: um lago semicircular, em forma de ferra-
dura ou semilunar, e uma ilha. Às vezes, mais lagos. O lago principal e a ilha só aparecer:ío
definitivamente quando se verificar a clotura nos extremos do braço morto". Monteiro. op.
cit., p. 12; v. ref. J6 da Bibliografia.
77 Sternberg, op. cit., p . .488; v. ref. 66 da Bibliografia.
78 Guerra, Estudo geogr;\fico do Território Federal do Amapá, p. ~O; v. ref. 22 da Bi·
bliografia. A expressão "terras firmes", usada por Guerra, signiiica terrenos consolidados do
Quaternário antigo (níveis de Marajó), não devendo ser confundida com aquela reservada
aos terrenos que constituem o baixo platô terciário amazônico.
78 "O lago Arari, o maior de Marajó, tem 4 a 6 quilômetros de largura e 18 de compri-
mento N-S, profundidade de I a 2,5 metros no verão e de 5 a 7 metros no inverno, com
águas cristalinas nesta estação, parecendo, no verão, mais uma lama lfquida cor de zinco
e sabor sui generis", Le Cointe, O Estado do P_ará, p. 75; v. ref. 27 da Bibliografia. Os
termos "verlio" e "inverno", aqui empregados por Le Cointe, t~m acepção regional, corres-
pondendo, respeCtivamente, aos períodos anuais de estiagem e de chuvas.
80 Cf. Sioli, General features of the delta of the Amazon, pp. SS!I-!184; v. rcf. 56 da Bi-
bliografia.
81 "No largo desvão talhado na série Barreiras, entre o Amapá e o nordeste do Pará, pro-
cessou-se, no Quaternário antigo, um afogamento eustático, de certo vulto, que contribuiu para

162
a geração de um delta moderno em cima da criPtod~pr~ssào d~ Marajó. t. de se crer que
o golfão, ali criado pela invasão eusútica da primitiva área de embocadura da drenagem
amazônica, preparou o terreno para a sedimentação deltaica subseqüente. Enquanto o Ama·
ronas da época desaguava no fundo desse antigo golfo, o Tocantiru jogava suas águas e sedi·
mentos na borda sul do mesmo". Ab'Saber, O r~levo brasileiro e seus problema5, pp. 157
158; v. ref. J da Bibliografia.
82 Sioli, op. cit., p. !185; v. ref. JJ da Bibliografia. Lembra este autor ser "também neces·
sário supor que não somente as variações eustáticas do nfvel do oceano mas também os
movimentos verticais da crosta terrestre contribuíram para trazer o estuário amazônico à sua
forma atual". Ibidem, p . !186.
8S Huber, op. cit., pp. 45245!1; v. ref. 25 da Bibliografia.
84 Cf. Sioli, op. cit., pp . !18!1 e !185.
85 Surgida a fossa de Marajó, o Amazonas passou a fluir também pelo sul da grande ilha,
desaguando igualmente no gigantesco corpo d'água que viria a ser denominado "rio Pará ",
o qual, por sua vez, ia dar no já existente estuário do Tocantins. Cf. Sioli, ibidem, p. !185.
86 Roxo, O vai~ do Amazonas, p. 485; v. ref. 45 da Bibliografia.
87 Delgado de Carvalho, op. cit., p. !147; v. ref. JJ da Bibliografia.
88 Informa Rubens Lima que "a amplitude da oscilação nas sizígias de fevereiro, março e
abril é de !1.50 m, !1,59 m e !1,61 m ... " e que ".. . em anos excepcionais, a maré no porto
de Belém tem apresentado oscilações muito acima daquela média, como aconteceu, por exem·
pio, em 1928', ano em que a amplitude chegou a 4,47 m". Lima, Agricultura na.s várz~a.s do
~stuário do A mazonas, p. 2!1, v. ref. 29 da Bibliografia.

89 MM-DHN, Roteiro- 1945, pp. 4!144; v. ref. 10 da Bibliografia.


90 Lima, op. cit., p . 25; v . ref. 29 da Bibliografia.
91 O canal de Carapapóris, que separa a ilha de Maracá da costa do Amapá, com uma lar·
gura variando de 10 a l!O Jun e 50 km de extensão, alarga-se cada vez. mais em virtude da ação
destruidora das "mam de águas vivas", tanto na sua margem insular como na continental.
92 Este interessante fenômeno produzido pela "onda de maré" também ocorre nos estuários
de rios de outros continentes, em diversas latitudes, onde recebem, por exemplo, os nomes
locais de m4Scar~t (estuário do Sena) e bore (estuário do Ganges) .
93 Le Cointe, O E.stado do Pard, p. 46; v. ref. 27 da Bibliografia.
94 SeUin , A Pororoca, pp. 414·415; v. ref. 48 da Bibliografia.
95 Le Cointe, op. cit., p . 42; v. ref. 27 da Bibliografia.
96 "Em todo estuário com :a forma de funil há uma z.ona transicional de água salobra de
diversas concentrações entn: a água pura do rio e a água pura do mar. Es1a z.ona varia
acentuadamente com as estações do ano. Foi estimado por Egler e Schwassermann que o seu
começo está a uns 200 km mais próximo do mar na estação chuvosa do que durante a
esta~o seca". Sioli, G~ntral f~atures of the eleita of lhe Ama:on, p. !189; v. ref. 56 da Bi·
bliografia. ·
97 Reis, A Rodovia Transamaz6nica; v. ref. 44 da Bibliografia.
98 Santarém é, depois de Belém, o porto amazônico mais próximo da América do Norte t•
da Europa, e integra o "Corredor de Exportação" que ligará a Região None ao Brasil Central;
situado em posição estratégica entre duas capitais, Belém e Manaus, servirá de escoadouro da
Rodovia Santarém-Cuiabá.
99 Cf. Pinto, A energia do amanhã; v. ref. 42 da Bibliografia.

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America. Eisuitalter und Gegemuart, OhringenjWürtt., Band 19: 20!1·208. Oktober,
1968.

166
INTRODUÇÃO

A análise do processo demo~ico na


Amazônia em seu caráter evo1utivo, es-
pacial e estrutural será orientada no
sentido de destacar os fatores respon-
sáveis pelo atual elenco de caracterís-
ticas populacionais da Região.
Duas dimensões caracterizam o qua-
dro geográfico da Amazônia Brasilei-
ra: a enorme dimensão física, com
seus 3.554.000 quilômetros quadrados
( 42,0i do espaço nacional) e a muito
pequena dimensão humana (3.650.750
habitantes) , das quais resultam a es-
cassa ocupação de 1,0 habitante por
quilômetro quadrado. Apenas 3,9% da
população do País aí se encontram.
Considerando-se a Amazônia Lega1, 1
a sua dimensão física passa a ser, apro-
ximadamente, de três quintos do terri-
tório brasileiro, no qual se encontram
7,4% da população. De caráter ama-
zônico é, portanto, a maior parte do
território nacional.

POPULAÇÃO Fato importante a destacar, também,


é que sendo a Amazônia um conceito
geográfico, sua área transcende as
ELZA COELHO DE SOUZA KELLER fronteiras nacionais, abrangendo total
ou parcialmente a Colômbia, Peru,
Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana,
Suriname, Guiana Francesa, área que
corresponde a quatro décimos do con-
tinente sul-americano.
Este imenso espaço físico, que contém
um quinto da disponibilidade mundial
de água doce e a terça parte das re-
servas de Florestas Latifoliadas do glo-
bo, tem problemas comuns de desen-
volvimento:
- desconhecimento da potencialidade
dos recursos naturais;
- escassez e baixa qualificação dos
recursos humanos;
- modesta infra-estrutura sócio-econô-
mica;
- baixo grau de integração com áreas
mais dinlmicas;
- pobreza da tecnologia tropical em
termos de melhor aproveitamento dos
recursos naturais.

167
Todo esse quadro comporta obstáculos participa, por diferentes fatores, do
à ocupação territorial, à valorização mercado interno nacional com força
econômica e ao desenvolvimento re- semelhante a das demais Regiões.
gional desta área de dimensão conti-
nental. A poUtica de integração levada a efei-
to pelo Governo Federal na década de
A unidade da Amazônia Brasileira é 60, com a implantação dos dois gran-
apoiada em dois dados: o subpovoa- des eixos rodoviários: Belém-Brasilia
mento e o subdesenvolvimento, que se e Cuiabá-Porto Velho-Rio Branco, foi
estendem sobre um quadro físico de o fator mais importante de aumento
características heterogêneas. das relações da Amazônia eom o res-
tante do País e de aceleração do pro-
O subpovoamento e o subdesenvolvi- cesso de mudança da estrutura de in-
mento apresentam diferentes estágios tercâmbio da Região.
dentro do vasto espaço territorial, co-
mo decorrência do processo histórico O processo histórico de ocupação es-
de ocupação espacial e dos sistemas só- pacial foi responsável pelos moldes que
cio-econômicos implantados, coman- guardam o ecúmeno amazônico: pe-
dados sempre por duas condições que quenas áreas com densidade demográ·
tiveram ampla influência nas carac-- fica apreciável, onde a população se
terísticas regionais: a distância dos dedica basicamente a uma agricultura
centros de decisão nacional e a fraca tradicional de subsistência apoiada no
integração do sistema econômico ama- sistema de "roças" e, excepcionalmen-
zônico ao. sistema nacional. te, em áreas muito restritas a culturas
industriais de produtos de exportação
Essa integração só começou a se estru- (juta, pimenta-do-reino e malva), so-
turar na década de 40, pela atuação si- bretudo na Amazônia oriental, de gran-
multânea da frente industrial paulista des extensões de população extrema-
e da frente econômica da Amazônia, mente rarefeita, com o extrativismo ve-
pela complementariedade de interes- getal e · a pecuária extensiva como ati-
ses que passou a unir os dois sistemas. vidades predominantes, em meio a
O processo de industrialização do cen- grandes vazios demográficos.
tro-sul representava um enorme po-
tencial de consumo para absorver os Região que foi ocupada sob o signo
p~odutos primários e as matérias-pri· de uma economia primária exporta-
mas produzidas pela Região. Foi quan- dora, tendo como base o fornecimento
do se desvia o fluxo de sua tradicio- de matérias-primas aos mercados in-
nal corrente de comércio exterior para
o núcleo dinâmico do centro-sul. lni· dustrializados nacionais ou estrangei-
ciada pela borracha, a integração dos ros e daí sujeita à instabilidade econô-
dois sistemas teve novo ímpeto com a mica provocada pela demanda externa,
juta, a partir de 1945. teve o seu arcabouço urbano apoiado
apenas em duas cidades macrocéfalas:
Ao lado da importação, a Amazônia Belém e Manaus, nas quais se verifi-
passou a consumir produtos agrícolas, cam a concentração quase absoluta da
bens de consumo e bens de produção geração de renda, da produção e dis-
para dar partida ao seu próprio pro- tribuição de bens e serviços e das re-
cesso de industrialização regional. 2 .
lações com o mundo extra-amazônico.
Porém a integração da Amazônia ao E este o quadro geral da conjuntura
mercado interno nacional ainda é bas- demográfica da Região.
tante fraca, reduzindo-se as trocas co-
merciais à pequena pauta de pro· O principal problema que se coloca
dutos. nesse quadro é que a capacidade de
domínio e valorização do espaço ama-
Na realidade, como será mostrado mais zônico tem estado em desproporção
adiante, a rigor a Amazônia ainda não com os esforços e o grau de desenvol-

·168
vimento tecnol6gico reclamados pelas nhado pela ampliação progressiva das
dimensões, pelas potencialidades e pela fronteiras econ~micas, a exemplo do
complexidade do quadro natural da que ocorreu nas frentes de expansão
Região. agrícola das Regiões Sudeste e Sul. Só
recentemente as áreas mais meridio-
Como destaca Mário Lacerda de Melo nais da periferia amazomca vêm so-
"a extensão territorial representa van- frendo a penetração e a valorizaç.ão,
tagem enquanto espaço produtiv~, .mas através do impacto provocado pelas
indica encargo enquanto sur,erfiCle a novas vias de acesso que estão abrindo ·
ocupar e distância a percorrer '. 8 frentes de expansão agrícola e intro-
duzindo novas relações de trabalho.
A baixa população representa não só Esse movimento de ocupação pioneira
escassez de mão-de-obra para as tare- vem atingindo o norte áe Mato Grosso
fas produtivas como debilidade de e de Goiás, o sude5te e o centro-leste
mercado interno para motivar um cres- do Pará, o Território de Rondônia, po-
cimento baseado na demanda e no con- rém, sem mobilizar, ainda, grandes
sumo regional •. massas de migrantes.
Ao longo de toda a história da ocupa- Em síntese, as condições geográficas
ção territorial e da valorização econô- da Região: dimensão continental, es-
mica do Território Brasileiro não se cassez e dispersão dos recursos huma-
encontraram, aqui, fatores de atração nos, fraca integração com os centros
de atividades e de populações seme- dinâmicos do País, grande distância
lhantes aos que ocorreram em outras dos centros de decisão nacional, falta
Regiões do País. de integração interna da economia, re-
lações de subordinação do sistema eco-
Excluindo-se o movimento amplo de nômico a mercados externos, primiti-
ocupação nordestina dos vales amazô- vismo dos processos produtivos que
nicos ricos em seringueiras como con- ainda se apoiam grandemente no ex-
seqüência do aumento da demanda in- trativismo vegetal e dimensões reduzi-
ternacional da borracha ocorrido no das e não dinâmicas do quadro indus-
começo do século, nenhum outro surto trial, são debilidades do sistema ama-
povoador significativo ocorreu em ter- zônico que se refletem na incapacidade
ras amazônicas. de manter comunidades humanas em
níveis de vida condignos e na limita-
Esse espaço jamais conheceu proces- ção de sua capacidade de ocupar novas
so dinâmico de crescimento, acompa- terras.

Tabela 1 Densidade demográfica


POPULAÇÃO
UNIDADES
DA Habitantes por quilômetro quadrado
FEDERAÇÃO
1872 1890 1900 1920 1940 1950 1960 1970

Rondônia . . ... ...


Acre .. ..........
-- -
-
-- -
-
-0,52 0,15
0,75
0,29
1,15
0,48
1,43
Amazonas ...... . 0,04 0,09 0,16 0,23 0,28 0,33 0,46 0,62
Roraima . ....... .
Pará ... .. . ..... .
-0,22 -
0,27
-
0,36
-
0,80
-
0,77
0,08
0,92
0,13
1,26
0,18
1,76
Amapá .. ........ - - - - - 0,27 0,50 0,84

Região Norte .. ,. 0,09 0,13 0,20 0,40 0,44 0,52 0,73 1,03

BRASIL . .. . ... . 1,17 1,70 2,06 3,62 4,88 6,14 8,39 11,18

Fonte: Sinopse Preliminar do Censo Demogrdf•co. Bras•l 1970.

169
Dest~ modo, compreendido o quadro EVOLUÇÃO DA POPULAÇAo· TOTAL A curva ascencional da população da ritórios, sendo que este último sofreu
sócio-econômico regional, do qual o MIL HA8S. Região, no período indicado, se mostra uma perda de 13,6%.
10000
processo demográfico é um componen· bastante irregular e nela podem ser
te, entende-se o reduzido dinamismo identificadas três fases principais que Nesse período v~rificou-se - ·como de-
da população amazônica. correspondem a diferentes períodos corrência da depressão econômica - o
da história econômica da Amazônia. refluxo de nordestinos e a emigração
A escassez da população se verifica em 5 000
(Fig. 1). dos naturais da Região.
todas as unidades da Região Norte: 4 .000
apenas os Estados do Pará e do Acre
tem densidades superiores a um habi- 3 000
AE GIÃO A primeira fase, de 1872 a 1920, tem
um alto incremento populacional e
A partir de 1940 verifica-se a retoma-
da do crescimento da população re-
tante por quilômetro quadrado (Pará V JAR Á corresponde ao período de exploração gional acompanhada pela recuperação
1,76 e Acre 1,42), tendo os Territórios 2 .000 I da borracha, destinada aos mercados populacional em todas as unidades fe-
de Rondônia e Roraima as mais baixas
densidades, menos de 0,5 habitante por v vI mundiais. De 332.847 habitantes, em
1872, a Região passa a contar com
derativas. O cr~cimento vegetativo, a
partir dessa data, tem sido o fator mais
atuante de e~ansão demográfica. Ve-
quilômetro quadrado (0,47 e 0,18 res-
pectivamente) . O Amazonas e o Ama-
pá têm densidades ligeirnmente su-
I 000
900 /
I . / AMAZONAS
1. 439.052 em 1920, quando atingiu a
mais alta participação na população
rificou-s~ mesm<il um pequeno aumen-
to da taxa intrín~eca de crescimento, de
800
/ / L brasileira, 4,7% ( Tab. 3 ). 2,4% no período 1930-1940 para 2,8%
periores: 0,61 e 0,82 ( Tab. 1). 100 v /
/ / / em 1940-1950, possivelmente em decor-
6 00 Entre 1890-1900 e 1900-1920 foi a Re-
500 / / v giãq Norte a que teve, no Brasil, maior
rência de uma relativa melhoria nas
/ / /
v intensidade de crescimento: 45,9% no
condições sanitárias da Região e pe-
1- EVOLUÇÃO
DA POPULAÇÃO
4
v_v /
/ primeiro período e 106,9% no segundo,
representando um aumento ao ano de
quena redução das altas taxas de mor-
talidade. 6
300
.........
v cRE
4,5% nos dois períodos indicados A retomada vem se caracterizando por
I - ( Tab. 4) . . um ritmo crescente de aumento: no
v
200
1.1 - Evolução da v Deu-se, nessa época, a grande afluên-
periodo 1940-1950, quando o incre-
mento relativo foi de 26,1%, verificou-
População Total
I /
I RONDÔNIA
J w. APÁ
cia de nordestinos, sobretudo cearen·
ses, que atraídos pelo extrativismo da
se pequeno movimento migratório con·
seqüente ao recrudescimento da explo-
100
O aumento da densidade regional foi I / I borracha e afugentados por grandes ração da borracha natural, em decor-
bastante lento: em 1872 a Região Nor-
90
80 L -........ I
secas, principalmente a de 1877, espa-
70 I 'I rência da Segunda Guerra Mundial e
te tinha 0,09 habitante por qUilômetro 60 1
/ J lharam-se pelos vales seringueiros do da formação do mercado interno da
quadrado e 3,3% da população nacio· I Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xin· borracha, com o desenvolvimento da
50
nal; em 1970 com 1,0 habitante por AP/ RORAl MA gu. A migração nordestina nesta fase indústria paulista.
quilômetro quadrado nela se concen- foi de mais de 300.000 pessoas 5 .
v
40
RO
travam apenas 3,9% da população do 30
Foram novamente correntes imigrató-
País (Tab. 2). Com a perda dos mercados externos rias nordestinas que se encaminharam
O aumento abs?luto da população da
Região de 1872 a 1970, durante um sé-
20 I da borracha amazônica, inicia-se uma
segunda fase no processo demográfico
regional: no período 1920-1940 verifi-
para a Amazônia, tendo tido o Acre,
então, maior aumento relativo regio-
nal, 43,9%.
culo, portanto, foi apenas de 3 317 903 ca-se um pequeno crescimento absolu-
habitantes em contraste, por exemplo, to da população que, de 1. 439. 052 ha- Apesar dos fluxos populacionais de fo-
com a Região Sudeste cujo incremen· lO bitantes, passa a 1.462.420, o que re- ra da Região, nesse período, o saldo
to populacional foi da ordem dos 30 1872 1890 1900 1920 1940 1950 1960 1970
presentou um incremento relativo de líquido entre o número de brasileiros
milhões de habitantes ou do Nordeste· apenas 1,6%. O Pará e o Acre tiveram naturais de outras Regiões - residen-
com 20 milhões. FIG. 1 diminuição de população em seus ter- tes na Amazônia - e aquele dos natu-

Tabela 2 Evolução da participaçiio da população regional na população brasileira - Período 1872-1970

1872 1890 1900 1920 1940 1950 1960 1970


REGIÃO
População % População % População % População % Populaçio % População % População % População %
NORTE
332.847 3,35 476 .370 3,32 695 . 112 3,99 1.439.052 4,70 1.462.420 3,55 1.844.655 3,55 2.601.519 3,67 3 .650. 750 3,86

Brasil .. .. .. .... 9.930.478 100,00 14 .333 .915 100,00 17.438 .434 100,00 30.635 .605 100,00 41.236. 315 100,00 51.944.397 100,00 70.992 .343 100,00 94.508.554 100,00

Fonte: Sinopse !'reliminaT do Censo !Xmogrdtiéo. Brasil 1970.

170 171
rais dela - residentes em outros Esta-
dos - era negativo (- 1,1%) . O mais ••• o • •

o c:oooo-~'--"'
alto saldo negativo estava no Pará &:; =~8·:::::
(- 4,7%) . Realmente, os Estados da .... ~
Região Norte pouca atração exerciam,
na época, sobre as correntes de migra-
ções internas, e mesmo as motivações •• o •• o

econômicas da Região não eram capa- o:::-c:ooo


I ' <Q N N •r.
_..,_ ar.- <Q
zes de reter sua população.
A partir de 1950 acelera-se o ritmo de
aumento da população para 41,~. de C"!U'::'~<J:J~t-­
C?lt:"x_-t-t--
1950 a 1960, o qual se mantém quase 0:1'---
. . .-.N'O!'
..
o mesmo de 1960 a 1970, 40,3%. A <O'OI''OI'OC<":I'--
C") --- ~:-')
-_;
taxa de incremento anual nos últimos
vinte anos tem sido, portanto, de cerca
-~
-
1 .'')

de 4%. Essa taxa tem sido pouco su-


perior à taxa intrínseca de crescimen-
to que foi de 3,8% no período 1960-
1970.
O crescimento demográfico da Amazô-
nia é, portanto, basicamente resultan-
te do aumento natural. O aumento da
taxa de crescimento intrínseco de 2,8% o
em 1940-1950 para 3,8% em 1960-1970
representa, também, um maior contro-
le das causas de morte na Região e
ª
conseqüentemente um dos fatores de :g :g
I' (')
aceleração no crescimento populacio-
nal. I I~ I~ I
O incremento de 4% ao ano significa
uma maior retenção dos naturais da ~----+-----~---~---r-0~-~~~
Região pela atração de algumas novas C>~ ~O'l .....
atividades - implantadas em determi-
nadas áreas amazônicas - as quais pro- I I ~ I~ I ~ ~
vocaram não somente importantes des- -
..;.
locamentos internos como também co-
meçaram a se estruturar como áreas ~----+-----0---1'-----r-"~-00~~ ·ª
de atração de migrantes inter-regio- ;é ~ ~ ~ E
nais. ~ h1 c!lo
C>
De 1950 a 1960 os incrementos rela- ~
tivos mais significativos verificaram-
Q"
se nos Territórios do Amapá (83,8%),
Rondônia (91,6%) e Roraima (62,8%). -
11-----+-----------+--~----1 ~

~~
~ ~
.

Nesse período se deu a instalação dos


- "...
'M ...

.§E
Territórios, daí o seu grande incremen- ~ .
to populacional e a implantação da in- Q,ct:
dústria extrativa do manganês no ~.g
Amapá. ~]'
!S.
Outras atividades responsáveis pela .. ~
dinâmica populacional do período fo- "'o
cl
ram o desenvolvimento das culturas "'""
172
industriais de exportação; juta no va- de livre comércio de importação e ex-
le médio do Amazonas; pimenta-do- portação e de Incentivos Fiscais espe-
reino em Tomé-Açu e malva na Gua- ciais com a finalidade de criar no in-
jarina. A formação dessas áreas de cul- terior da Amazônia um centro indus-
turas industriais, embora reduzidas em trial, comercial e agropecuário dota-
extensão, tiveram como resultado o in- do de condições econômicas que per-
cremento da mobilidade espacial in- mitam seu desenvolvimento, em face
terna, a partir das áreas de depressão dos fatores locais e da grande distân-
demográfica, e a atração de correntes cia a que se encontram os centros con-
externas, principalmente de maranhen- sumidores de seus produtos.
ses e cearenses .
A criação da Zona Franca tem tido re-
Foi também nesse período que a ação percussões demográficas e econômicas
governamental passou a atuar no sen- significativas, como a atração de ca-
tido de desenvolver a Regiãp com a pitais externos, criação de novos em-
criação da Superintendência do Plano pregos que vêm absorvendo parte da
de Valorização Econômica da Amazô- força de trabalho ociosa, elevação do
nia (1953). volume de negócios, retomo de téc-
De 1960 a 1970, como indicado, con- nicos locais radicados em outras áreas
tinuou a ser elevado o incremento po- do País, incremento do turismo, au-
pulacional na Região ( 40,3%), decor- mento da renda real da população e
rente das novas variáveis introduzidas deflagração de um incipiente processo
no espaço amazônico através da ação de industrialização.
governamental em três campos: em
primeiro lugar, a polftica de Incentivos Finalmente, a partir de 1970, a im-
fiscais 1 aplicados a projetos agrope- plantação do Programa de Integração
cuários, industriais e de serviços bá- Nacional que, com a abertura de ro-
sicos, os quais, com a participação do dovias de ligação inter-regional (Ma-
setor privado, vêm provocando o de- naus-Porto Velho, Cuiabá-Santarém
senvolvimento de algumas áreas da e Transamazônica) vem abrindo a Re-
Amazônia. oriental e das duas grandes gião à penetração de novas correntes
cidades da Região. Grupos empresa- de povoamento e de novos investimen-
riais do Sudeste e do Sul do Brasil têm tos destinados à valorização do seu po-
procurado prpmover substanciais in- tencial natural.
vestimentos graças a esse sistema con-
trolado pela SUDAM 8 • Um aspecto Essas três medidas de âmbito gover-
positivo da política de Incentivos Fis- namental já vêm tendo repercussões no
cais é a maior diversificação da econo- desenvolvimento regional e conse-
mia, o que vem proporcionando base qüentemente no processo demográfico,
mais efetiva ao processo de povoamen- sobretudo promovendo a ocupação e
to e de desenvolvimento regional. a valorização de espaços vazios, pro-
vocando mudanças estruturais na for-
Em segundo lugar, o Governo Federal, ça de trabalho e incrementando as ta-
procurando induzir os investimentos à xas de urbanização.
aplicação na Amazônia ocidental, área
menos desenvolvida no contexto regio- Assim é que, no período de 1960-1970,
nal, inaugurou novo elenco de incen- verificou-se uma aceleração do cresci-
tivos especiais dispensados à Superin- mento populacional no Pará, sem dú-
tendência da Zona Franca de Manaus vida o Estado que mais vem se bene-
- SUFRAMA - cuja jurisdição esten-
de-se a uma superfície de 10.000 qui- ficiando do impacto dessas medidas
lômetros quadrados, na qual se encon- governamentais ( 18,9% na década de
tra á cidade de Manaus. 1940-1950, 38,0% em 1950-1960 e 41,6%
em 1960-1970). Nessa última década
O objetivo da instituição da Zona mantiveram-se, também, os altos cres-
Franca foi o de estabelecer uma área cimentos das populações de Rondônia

173
Tabela 4 Variação absoluta e relativa da população total
1872-1890 1890-1900 1000-1920 192()-1940 194()-1950 1950-1960 1960-1970
UNIDADES DA
FEDERAÇÃO
Absoluta Rdat. Absoluta Relat. Absoluta ReiAt. Absoluta Relat. Absoluta Relat. Absoluta
I Relat. Absoluta Relat.

Rondônia. .. .. - - - - - -
-
-12.611 -13,65 -34.987 - 33 .848 91,64 45.837 64,75
Arre ...... .. -90.30.3 - -
101.841
- 68,85 -
113.410 45,40 74.842 20,60 76 .091
43,86
17,37
4.'>.453
207 . 116
39,60
40,29
57.798
239 .719
36,07
33,23
Amazonas ..... 156,75
Roraima .. - - -116 .901 - -
5.18.151
-
120,83
-
38.863
-
3,95
-
178.629
-18,90 11 .376
427 .662
62,79
38,07
12. 149
646.137
41,19
Pará. ..........• 53.218 19,33 35,59 41,66
Amapá ........ - - - - - - - - - - 31.412 83,81 47 .591 69,08

143.:>23 43,11 218 .742 45,91 743 .940 106,93 23.368 1,62 382 . 235 26,13 756.864 41,03 1.049.231 40,33
Região Norte ......

4 . 403. 437 44,34 3 . 104 .519 21,65 13 . 197 . 171 75,67 10.600.710 34,60 10.708.082 25,96 19 .047.946 36,66 23.516 . 211 33,12
Bra.sil ........

e do Amapá, 64,7% e 69,0% respectiva- queno, esse aumento por migrações in- Estados da região amazônica sejam os ções sobre o processo de urbanização
mente. ter-regionais foi, no entanto, maior que de maior proporção de população na- que vem acontecendo na Região, em
em outras áreas do País, como no Nor- tural na população total: 96,0$. seu conjunto, e nas diferentes Unida-
As tendências de incrementos mais deste, inclusive meio-norte, em Minas des Federativas que a compõem.
significativos da população encontram- Gerais-Espírito Santo e mesmo em
se no Amapá e em Rondônia, com sua Santa Catarina-Rio Grande do Sul. Como característica mais importante
economia extrativa mineral em expan- 1.2- Evolução da População
da urbanização na Amazônia se des-
são, e no Pará, onde estão sendo aber- A despeito de seus grandes vazios de- Urbana e Rural taca a rapidez deste processo nas últi-
tas novas frentes de expansão agrá- mográficos, de suas potencialidades e mas décadas. Considerando-se a taxa
ria, simultaneamente com o desenvol- das novas e recentes medidas de in- As características do sistema econômi- de urbanização, definida como a taxa
vimento de Belém no setor industrial. centiv.os ao povoamento e à valoriza- co amazônico, com predominância das de incremento médio anual da popula-
Na realidade, a maior parte dos pro- ção econômica por parte do Govemo atividades primárias, fazem com que ção urbana, encontram-se valores mui-
jetos agropecuários e industriais resul- Federal, a Amazônia se configura., ain- no quadro demográfico sejam mais nu- to elevados nos últimos 20 anos: 6,9%
tantes da política de Incentivos Fiscais da, como área não dinâmica e onde a merosos os habitantes rurais. Em 1970, na década 1950-1960 e 6,8% em 1960-
tem sido implantados no Pará, em fun- terra é fator extremamente abundan- na Região Norte, viviam 2.001.320 ha- 1970. Este processo está em expansão,
ção essencialmente da existência de te e não aproveitado. bitantes rurais e 1. 646.430 urbanos, pois que na década de 1940-1950 o au-
economias externas, da potencialidade ou seja, uma predominância dos pri- mento urbano foi de 4,3% apenas. As
da demanda e da boa disponibilidade Essa situação se expressa bem no seu meiros de 54,8$. taxas de urbanização na Amazônia fo-
de recursos produtivos. ( Fig. 2). índice de mobilidade espacial no pe- ram semp~e superiores às taxas de in-
ríodo 1960-1970,9 o qual é o mais bai- Seguindo a tendência geral do País de cremento médio anual da população
Esse fato vem acentuando as desigual- xo de todo o País: f8 em 100 pessoas diminuição dos quadros rurais, verifi- total, que foram de 2,6$ (1940-1950),
dades regionais já existentes no con- da população residente se deslocaram ca-se na Amazônia uma diminuição 4,1% ( 1950-1960) e 4,0$ ( 1960-1970),
texto amazônico entre a Amazônia ori- dentro da própria Região, ou realiza- progressiva da participação rural da de modo que, como referido anterior-
ental (Pará e Amapá) e a Amazônia ram migrações inter-regionais. Esse população: em 194b, 72,2% da popula- mente, os quadros urbanos vêm au-
ocidental (Amazonas, Acre, Roraima baixo volume migratório está perfei- ção total localizavam-se nas áreas ru- mentando progressivamente sua parti-
e Rondônia) muito mais isolada e me- tamente consistente com as caracferís- rais, em 1950, 68,5% e em 1960, 62,2$. cipação na distribuição espacial dã po-
nos dinâmica: cerca de 66,0% da po- ticas geográficas e sócio-econômicas Essa diminuição está relacionada ao pulação. Um ritmo de urbanização
pulação acrescentada ao contingente da Região: grandes distâncias e ex- mais lento incremento da população tão rápido é explicado pelo crescimen-
amazônico na última década se con- trema deficiência do sistema de trans- residente no campo: se na década to diferencial da população urbana e
centrou na Amazônia oriental. portes - que são dois fatores limita- 1950-1960 o aumento rural foi de 28,0%, da rural, dando-se o crescimento urba-
tivos aos deslocamentos - a situação na década de 1960-1970 reduziu-se a no às expensas da população rural.
Pelo exposto, compreende-se a forma- de subdesenvolvimento regional - que 23,7$ (Tab. 5).
ção de novas correntes de migração de não gera diversificação espacial de Ao mesmo tempo, os quadros urbanos No Brasil a população urbana tem
destino amazônk'<>, no fim da década oportunidades de emprego - e o pe- cresceram aceleradamente: 43,H foi o crescido mais rapidamente nos Esta-
de 60, mas ainda restritas a pequenos queno número de centros ou zonas incremento relativo de 1940 a 1950, dos ou Regiões menos urbanizadas, in-
volumes de pessoas. Considerando-se de atração capazes de induzir às mi- 69,3% de 1950 a 1960 e fr7,7$ na últi- dependentemente do tamanho de suas
o aumento absoluto da população ocor- grações. ma década . populações e das densidades demográ-
rido no período ( 1. 049. 231 pessoas ), ficas. As taxas de urbanização do Cen-
tem-se como crescimento devido à mi- A importância muito reduzida das mi- As informações contidas na tabela 5 tro-Oeste são ainda muito mais eleva-
gração cerca de 11$. Apesar de pe- grações inter-regionais faz com que os permitem estabelecer algumas observa- das que as da Amazônia, mesmo ex-

174 175
REGIÃO NORTE
VARIAÇÃO DA POPULAÇÃO TOTAL 1960 -1970
(Segundo os óreos mínimos Mo alterados no período)

1-VIGI-·ANANIND(UA-KHEVtD(S-
S I ~"e[ L 00 'AIIÃ t OIJTAOS
Z·UAETITUIA
)•SOUA[·IALYATP:AAA
4-C.UTAHHAL
5·S.'AAt.ctSCO 00 'AU
6-CUtlucA
?-IOAIIA'f·IIIRI
I·IIUANO'
,_TUCUIIU(
IO.UI!YCURITUIA
tt-NOYA OLINOO 00 NORTE
tl·SILVES
l)·tTAPIRAHGA

......... 0

- - 100.000 8 """'""-.0/1'0

Poo ~­
-.0/10
o Poo ltl'O

Oro POt c ~uo Olooo Alnt


cluindo-se Brasília. Na década 1950- 1960) o aumento urbano devido às
1960, a taxa de urbanização nessa Re- novas localidades foi de 2,4%.
gião foi de 12,4% e em 1960-1970, de
10,1%. ~ crescimento diferencial da popula-
çao urbana e da rural vem determi-
As elevadas taxas de urbanização das nando diferenças importantes no grau
Regiões menos desenvolvidas do País, de urbanização 10 das Unidades Fede-
nos últimos 20 anos, contrastam com rativas da Região.
as taxas mais moderadas das áreas de-
senvolvidas e já altamente urbanizadas Em 1970 o Estado do Pará e os Ter-
do Sudeste e do Sul. A constatação do ritórios do Amapá e Rondônia tinham
grau de urbanização superior à média
processo crescente de urbanização nas regional ( 45,2%) . O mais alto grau de
áreas subdesenvolvidas leva à neces- urbanização estava no Amapá com
sidade da elaboração de estudos com 54,6%, seguindo-se Rondônia com
o objetivo de compreender o proces- 52,7% e o Pará com 47,3%.
so, suas características e causas deter-
minantes, de estabelecer as relações Já em 1950 essas três unidades supe-
com outros processos econômicos e so- ravam o grau de urbanização regional
ciais e de conhecer os problemas hu- que era de 31,5%. Rondônia e Amapá
manos que acarreta e as necessidades tinham cerca de 37,0% de urbanos e o
administrativas que se criam. Pará 34,6%.

Outro aspecto significativo a conside- O Acre, desde 1950, é a mais ruraliza-


rar quando se examina o nível regio- da unidade amazônica ( 18,5% de ur-
nal de urbanização é a magnitude das banos) e mantém ainda essa situação,
· taxas de crescimento urbano absoluto. em 1970, com 27,5% de habitantes ur- .
Do total anual de aumento de 105.000 banos apenas.
pessoas (1960-1970) na Amazônia, cer-
ca de 66.000 ou 63,0% foram absorvi- O Estado do Amazonas é o que obteve
dos no setor urbano. Neste elevado o mais alto crescimento urbano, tendo
crescimento, já referido, a migração se elevado o seu grau de urbaniza-
teve papel mais importante que o au- ção de 26,8% em 1950 para 42,4% em
mento vegetativo. 1970.

Um fator que na Amazônia - Região Os Estados e Territórios da Amazônia


em processo de povoamento e valori- diferem amplamente quanto aos níveis
zação - também atua nas taxas de e tendências do crescimento urbano-
urbanização é a criação de novas vi- rural. A tabela 5 permite apreciar a
las e cidades. Nos últimos trinta anos diversidade de situações e tendências.
( 1940-1970) o número de vilas pas- As unidades amazônicas nas quais a
sou de 116 a 162, com uma população população urbana cresceu mais rapi-
que aumentou de 50.599 habitantes a damente durante a década 1000.1970
132.403. O número de cidades no mes- foram os Territórios de Rondônia com
mo período passou de 88 para 143, 96,3% e Amapá com 80,2% ( Fig. 3).
com uma população absoluta de
355.193 habitantes e 1. 517.021 nas Os Estados ainda muito rurais do
duas datas. Na última década (1960- Amazonas e Acre também tiveram au·
1970) cerca de 3,5% do crescimento mentos urbanos superiores à média re-
urbano total se deve às novas locali- gional (67,7%), com 70,8% e 78,1% res-
dades de caráter urbano surgidas no pectivamente. Com crescimentos ur·-
período. Também esse fator de urba- banos inferiores ao da Região estão
"nização vem se tomando mais atuan- o Pará com 64,5% e Roraima com
te, pois que no período anterior ( 1950- 41,0%.

177
Tabela 5 Variação absoluta e relativa da população urbana e rural nos períodos censitários
POPULACXO URBANA POPULACXO RURAL POPULAC.ÃO URBANA POPULACXO RURAL
UNIDADES DA J$4011g&e 19~/11180 11180(lg'70 1$40/1~ Jg~/ 11180 I1180/1g'TO

I
FEDERAC!O 1~0 urro 1960 1970 1$40 111~ 11180 1g'70
Abeoluto % Abeoluto % Abeoluto % % Abeoluto % Abeoluto
Al>.oluto %
Acr. ... •••....•.•..•. 14. 138 21.272 33.998 60 .551 M .630 U . 483 1211. 210 157. 449 7 . 134 ~.45 12. 72«1 sg.s2 2G . Mg 78.11 27 .853 42.43 32. 727 35,00 31.2ag 24,75
Aaut.IOIIAa ............. 104 . 7sg 137 . 736 239 .659 .og. 278 333. 21g 3711. 363 481.556 Ml.~ 32.947 31.44 101.g23 73,99 1119.11Jg 70,77 4'1 . 144 12.94 J05. 1g3 27.~ 10 100 0,1,
Pani ... . . ............ 286 .865 389.011 630.672 1.037.340 102. 148 35,60 241.11111 62,12 4011 .11118 64.48 76 . 483 11,62 186. 001
Road6aia ........ ....... . . -- 13.816 30.842 60 .541
M7 . 779
-
734 . 282
23 . 119
920 . 2113
39 .941
1. J5g. 732
58.079 -- --- 17 .02G 123,23 29. 1199 98,29 -
-- - 111.822
25,33
72,711
2ag 4119
111 . 138
2«1,02
40,40
-- --
Roraima .................. 5 . 132 12. 717 17.929 12.984 111.772 23 . 709 7 . 5&S 147,79 5 .212 40.98 3 . 788 29,17
Amap6 ... . . .... - 13.900 35. 390 113. 785 23 .677 33. 499 62 .695 - 21.4g() 154,60 28 396 80,23 g _gn 42,08
11 937
Jg 198
25,91
57,30
REOIXO NORTE. 405 . 795 580.867 g83 .278 1.649. 430 1.058. 828 1.2113.788 1.818. 241 2 . 001.320 175.075 43,14 402 . 411 &g,27 111111 . 162 67,74 207 . 160 1g,60 354 . 463 28,04
----
383 079
---
23,67
Fonte: Smopse Prel1mmar do Censo Demograf&co. Bras1l 1970.
..
EVOLUCÃO DA POPULAÇÃO URBANA E RURAL
2.1- Composição por Sexo
A tabela indicada pennite analisar, urbanos, por constituírem focos de - - P.Urbano
também, a evolução da população ur- atração de fluxos migratórios. 3000 ,A_e s._ _ _r----..------..
MIL H_ - --P. Rural
A igualdade aproximada entre o nú-
bana nos três últimos períodos inter-
censitários. Os mais altos crescimentos De outro. lado, o Amazonas se destaca mero de pessoas do sexo feminino e
REGIÃO
urbanos verificaram-se no período como o Estado de mais baixo cresci- 2 .000 1-----+----+---..-=-,._, do masculino - que é uma caracterís-
.. .... - REGIÃO tica orgânica de toda a população bio·
1950-1960, quando foram criados os
Territórios Federais e conseqüente-
mento rural - 14,6i. O aumento da
população desse Estado, na última dé- .... .. .... logicamente normal - pode ser mo-
mente instaladas as suas capitais. Cres-
cimentos superiores a cem por-cento
cada, foi quase exclusivamente de ha-
l:itantes urbanos que, como referido, --- .. -- dificada por certos fatores de desequi-
líbrio, entre os quais são significativos
os diferenciais de mortalidade dos se-
ocorreram nos três Territórios, tendo aumentaram em 70,8i xos e a mobilidade geográfica da po-
sido o mais alto o do Amapá ( 154,6$). pulação .
Após o período de instalação, os au- Acre e Pará mantêm-se pouco acima
mentos urbanos se reduziram na déca- da média do incremento regional rural.
A medida da relação entre o número
da seguinte, porém continuaram bas- Comparando-se a evolução das taxas
de homens e o de mulheres é dada
tante elevados, com exceção de Rorai- de cres-cimento da população rural
pelo índice ou razão de masculinida-
ma. nos três períodos intercensitários, ob-
de, que se define como o número de
serva-se que, na última década, ocorreu homens para cada 100 mulheres. De
Nos três Estados, enquanto o Acre e um decréscimo nos incrementos rurais modo geral. a composição da popula-
o Pará tiveram incrementos ascen- muito acentuado no Acre, Amazonas ção por sexo caracteriza-se por um li-
e Rondônia. :€ de se destacar, porém,
dentes, o Amazonas - cuja população
urbana crescera a um nível extraordi- o aumento crescente da população ru·
ral do Amapá e uma situação de esta-
.. ....
ACRE geiro predomínio dos homens nas ida-
des jovens, predomínio que é cada vez
nariamente alto (74,0i) na década menor até aproximadamente 40 anos
bilidade nos quadros rurais do Pará. de idade, quando passa a se verificar
1950-1960- desceu para um valor ain-
da muito elevado de 70,~ no último o predomínio crescente do sexo femi-
período intercensitário . , nino até as últimas idades da vida, em
2 - CARACTERISTICAS decorrência da mais elevada mortali-
Do mesmo modo, as unidades amazô- dade masculina nas idades adultas.
nicas diferem amplamente quanto aos DEMOGRÁFICAS DA
níveis e tendências do crescimento da POPULAÇÃO Os índices de masculinidade a nível
população rural. O maior crescimento regional e de cada Unidade Federativa
rural no último decênio ocorreu no A classificação da população segundo deverão aqui ser interpretados consi-
Amapá (57,3i) que obteve também determinadas características tem gran- derando as condições especiais de ca·
os mais altos crescimentos urbanos de interesse para os estudos demográ- da área.
na Região, como referido. Rondônia ficos, sobretudo as classificações quan-
também se destaca com um crescimen- to à idade e ao sexo, pois que o com- De modo geral, procura-se conhecer as
to rural bastante acima da média re- portamento dos grupos de população causas que determinam um distancia-
gional (23,7i) com 40,4$. Os dois definidos segundo essas características mento do índice em relação a cem: os
Territórios indicados são, portanto, os é diferencial com relação à natalidade, 10~------~------~----~
fato(eS que levam a esta situação são
1940 1950 1960 1970
de crescimento mais rápido na Amazô- à mortalidade, às migrações e aos as- o número diferente de nascimentos
MOGRÁFICO- 8 R AS I L - 1970
nia, tanto nos quadros rurais quanto pectos educacionais e econômicos. masculinos e femininos, a mortalidade
FIG. 3
178
' 179
'
diferencial por sexo e os movimentos
migratórios.
Em 1970, na Região Norte, o índice
de masculinidade era ligeiramente su-
perior a 100, o que é característico das
áreas de alta proporção de população
jovem (O - 19 anos) e de adultos jo-
vens ( 20 - 39 anos) como ocorre
quando a natalidade é elevada. A ní-
vel regional esse índice atingiu 101,9 I
homens para 100 mulheres, tendo seus ?.:
a; 1

mais altos valores em Rondônia E


( 113,2) e Acre ( 103,8) por serem ~ I
áreas de atração imigratória e onde
ocupações basicamente do sexo mas-
culino predominam, como as ativida-
des extrativas minerais e a exploração
-
::;>

de produtos florestais. O Estado do


Pará apresenta um equilíbrio entre os
sexos ( 100,7), enquanto o Amapá e o
Amazonas muito pequena predominân-
cia masculina (Tab. 6).

O efeito dos movimentos migratórios


adquire especial importância quando
se trata de áreas urbanas e rurais. Co-
mumente os índices de masculinidade
são altos nas zonas rurais e baixo nas
urbanas, particularmente nas grandes
cidades.
C')
a>
Entre as causas mais importantes do .......
o

-~
~

menor índice de masculinidade das


áreas urbanas destaca-se a atração que
a possibilidade de empregos no setor 1----.--~1------+---1 cq
de serviços exerce sobre as mulheres à
jovens que geralmente não dispõem de . . . .a>. .
C') :o:~ O> C'l <D ~
fontes de trabalho nas zonas rurais pela _..,.0
cr--r--u:~~.o

~
própria natureza das atividades agrí- E
colas. No caso da Amazônia, a situa- ~
ção ainda se agrava pelo tipo de eco-
nomia dominante, pois que a explora-
ção de produtos florestais é feita qua-
se exclusivamente pela população mas- .,...
culina. 1:

t----~---------t---t E
A tendência de pessoas em idade ma-
dura de retirar-se para cidades e vilas,
l
também contribui para diminuir os ín-
dices de masculinidade urbanos, já
que as mulheres, tendo maior longevi-
dade, sobrevivem em maior número
que os homens.

180
lt significativa a diferença dos índices A progressiva perda de importância
de masculinidade dos quadros rurais relativa da economia extrativa na Re-
e urbanos na Amazônia, onde o baixo gião e o processo crescente de urba-
índice de masculinidade urbano 91,9 nização seguem paralelas a uma dimi-
se contrapõe ao alto índice rural de nuição da proporção masculina na po-
110,9. pulação.
O mais baixo índice urbano encontra-
se no Pará ( 90,8), onde está a Metró-
pole Regional. Em Rondônia há um 2.2 - Estrutura Etária
equilíbrio de sexos na população ur-
bana ( 100,3 ) pela importância da imi- A composição, por idade, é uma das
gração, a qual se comp3e principal· mais importantes características demo-
mente de população masculina. gráficas; o seu conhecimento permite
avaliar as possibilidades de evolução
Nos quadros rurais é geral o predo- e expansão de uma população e é uma
mínio da população masculina, sendo variavel das mais necessárias à aná-
o índice de masculinidade rural da lise e à política econômicas, pois que
Região de 110,9. Os mais elevados ín- a repartição por idades de uma popu·
dices estão em Rondônia ( 130,3), Acre !ação está na origem das transforma-
( 114,6 J e Roraima ( 112,2) . ções demográficas.
Na tabela 7 observa-se que está ha- Para sintetizar o exame da estrutura
vendo uma pequena diminuição da por idades distinguem-se três princi-
proporção da população masculina so- pais grupos etários, divisão que cor-
bre a total que em 1950 foi de 50,9% responde a uma preocupação econô-
e em 1970 de 49,6$. A <Jiminuição vem mica: os adultos ( 20 a 59 anos) re-
se verificando em todos os Estados e presentam a parte da população pro-
Territórios, à exceção do Pará que, dutiva, os jovens (O a 19 anos) os fu-
desde 1940, tem uma situação equili- turos produtores, os quais, juntamente
brada na repartição de sexos ( 50,1%) . com os velhos ( 60 anos e mais) re-
presentam os grupos improdutivos.
O Estado do Acre chegou a ter 63,1~
de população masculina em 1920, em As características principais da estru-
decorrência do afluxo das correntes tura etária da Amazônia - proporção
migratórias para a exploração da bor- muito elevada da população jovem e
racha, a qual diminuiu para 52,1% em proporção muito baixa de velhos -
1970. vem se mantendo praticamente inalte-

Tabela 7 Percentagem da população masculina

POPULAÇÃO MASCULINA
UNIDADES
DA % sobre a população total
FEDERAÇÃO
1872 1890 1900 1920 1940 1950
I 19701

Rondônia . .... ... .


Acre ...... ........
-
-
-- -
-
-
63,1
-
55,3
56,6
54,6
55,5
53,0
Axnazonas...••.. .. 54,6 54,7 54,7 54,0 51,5 51,3 51,3
Roraima .. ...... . . - - - - - 53,2 52,0
Pará ... ... . .... . .. 51,8 50,6 51,3 51,1 50,1 50,1 50,3
Axnapá ........ .... - - - - - 52,6 51,0.

REGIÃO NORTE - - - - 50,8 50,9 49,6

Fontes: Brastl, a Terra e o H.omem, volume ll, A V1da Humana.


1 Sinopse Preliminar do Censo Demográfico. Brasil, 1970.

181
radas, porém com pequeno aumento da to menor população de velhos, 5,1%
população jovem desde 1940, quando para 3,~. ( Fig. 4).
era de 52,~. atingindo os 58,5% em
1970 (Tab. 8). Com jovens em grande número e ve-
lhos muito pouco numerosos, a Ama-
A proporção de velhos vem-se man- zônia tem a estrutura típica de uma
tendo praticamente em tomo dos 3,5~ população demográfica jovem.
(3,3% em 1940, 3,7% em 1950 e 3,6%
em 1970). Examinando-se a proporção de sexos
Embora venham se incrementando os por grupos de iàade (Tab. 9), ve-
fluxos migratórios para a Região, o rifica-se que a estrutura etária exis-
grupo de adultos está diminuindo tente em 1950 e 1960, com predomínio
( 43,9% em 1940 e 37,9% em 1970) . do grupo masculino em todas as faixas
de idade, exceto na de 80 anos e mais,
Comparando com os valores da estru- teve em 1970 pequena alteração, com
tura etária do Brasil, verifica-se que ligeiro predommio de mulheres na fai-
a Região Norte tem mais alta propor- xa dos adultos jovens ( 20 a 39 anos),
ção de jovens, a qual era, em 1970, o que mostra uma estabilidade grande
de 52,7% para o País e 58,5% para a da composição etária e de sexo na Re-
Região e, por outro lado, também mui- gião.

Tabela 8 População segundo os grupos de idade (anos completos) em 1920,


1940, 1950 e 1970
ANOS O a 19 anos 20 a 59 anos 60 e mais
CENSI-
TÁRIOS Absoluto % Absoluto % Absoluto %
1920 .... ...... . 739 .624 52,91 616 .075 44,05 42 .565 3,04
1940 .. .. ... .... 770 . 460 52,7S 640.702 43,87 49 .007 3,35
19.50 ... . ... . .. . 991.426 53,93 778.715 42,35 68.419 3,72
1970 .. .... .. ... 2 . 104 . 995 58,54 1.363.104 37,90 128 .250 3,56
Fonte: Censos Demográficos, 1920- 1940 - 1950 - 1970.

REGIÃO NORTE
POPULAÇÃO TOTAL