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livros

Resenhas do mês
A tensão essencial Longe do Brasil Gramática de usos do Caminhando
Thomas Kuhn; tradução Claude Lévi-Strauss; português contra o vento
de Marcelo Amaral tradução de Jorge Villela; Maria Helena de Moura Roberto Rodrigues;
Penna-forte; Editora Unesp; Editora Unesp; Neves; Editora Unesp; edição independente;
404 págs. R$ 58 72 págs. R$ 16 1005 págs. R$ 98 272 págs. Grátis

O sempre essencial
Thomas Kuhn infelizmente concluo, é que ele pode ser O desencontro
Ensaios apresentados em livro quase tudo para quase qualquer pessoa”,
complementam uma das obras escreve Kuhn num dos ensaios mais in- de Lévi-Strauss
mais influentes da história teressantes do livro, “Reconsiderações Visões do
da filosofia da ciência acerca dos paradigmas”.
Nele o historiador resolve colocar ordem
na casa e responder aos críticos, apresen-
E m formato de bolso, a Editora Unesp
publica a entrevista que o francês Clau-
de Lévi-Strauss deu à jornalista Véronique
agronegócio
tando uma definição mais estrita: “Um Moraigne, do jornal Le Monde, em 2005, brasileiro
Pablo Nogueira paradigma é aquilo que os membros de em Paris. O pai da Antropologia Estrutural A língua
uma comunidade científica, e apenas eles,
compartilham. Reciprocamente, é a posse
e um dos fundadores da Universidade de
São Paulo conta que o Brasil representou como ela é C aminhando contra o vento é a ter-
ceira coletânea de textos publica-

P oucos historiadores do século 20 al-


cançaram o renome do americano
Thomas Kuhn (1922-1996). Sua obra mais
Mas é só uma preparação para a segunda,
intitulada “estudos meta-históricos”.
Nesta, ele apresenta sete escritos que
de um paradigma em comum que institui
a comunidade científica a partir de um
grupo de pessoas com outras disparida-
a experiência mais importante de sua vi-
da. Mas o momento mais interessante da
entrevista, talvez, seja o destacado no pre- P ara a linguista Maria Helena de Mou-
ra Neves, da Unesp em Araraquara,
dos na imprensa por Roberto Rodrigues,
ex-ministro da Agricultura, professor da
Unesp em Jaboticabal e coordenador do
conhecida – A estrutura das revoluções valem como uma espécie de segundo tem- des”. Trata-se, ele mesmo reconhece, de fácio pelo antropólogo Eduardo Viveiros gramática é a língua em funcionamento, Centro de Agronegócio da Fundação Ge-
científicas (ou simplesmente A estrutura) – po de A estrutura. Entre as monografias um argumento circular. Mas sua análise de Castro: o retorno rápido do cientista ao não um conjunto de regras que devem túlio Vargas (GVAgro). Publicados na Folha
foi, ao mesmo tempo, atacada e elogiada apresentadas, destaca-se aquela que dá esmiúça as condições essenciais para per- Brasil, em 1985, na comitiva presidencial ser decoradas. Seu Gramática de usos do de S. Paulo, nas revistas Agroanalysis e
por “humanizar” a ciência. O livro ajudou nome ao livro: “A tensão essencial: tra- tencer a essas comunidades, a tal ponto de François Mitterrand. português, uma referência na área, chega Globo Rural, entre outros veículos espe-
a enterrar de vez a noção de que as teorias dição e inovação na pesquisa científica”. que, sugere o autor, “se esses pontos essen- Lévi-Strauss embarca num avião para à segunda edição atualizado conforme o cializados, os textos foram organizados em
científicas seriam construções absoluta- Aqui pode-se ver o primeiro lugar onde ciais puderem ser percebidos, poderemos visitar as aldeias Bororo, que ele conhece- novo Acordo Ortográfico da Língua Por- capítulos temáticos. No primeiro, “Econo-
mente objetivas, infensas a interpreta- o conceito de paradigma foi emprega- dispensar o termo ‘paradigma’”. ra em 1935. Devido a uma tempestade, a tuguesa. Diferentemente das gramáticas mia rural”, o autor comenta aspectos do
ções, valores, disputas entre grupos etc. do, durante uma palestra proferida por Outro grande momento do livro é o pre- viagem fracassa. Para Viveiros de Castro, tradicionais, esta parte da observação dos agronegócio no Brasil e no mundo. Em
E o conceito de “paradigma”, formulado Kuhn em 1959. fácio, onde o americano compartilha com a visita que não aconteceu é uma varia- usos realmente correntes do português no “Política agrícola”, os textos refletem a
por Kuhn, na obra, extrapolou os limites Entre as muitas críticas levantadas no o leitor o seu momento “fiat lux”. Ao pre- ção do mito Bororo do “desaninhador de Brasil, reflete sobre eles e os apresenta de preocupação do ex-ministro com temas
disciplinares da história e da filosofia da debate que se seguiu ao lançamento de parar um curso sobre Galileu e Descartes, pássaros”, sobre o qual Lévi-Strauss escre- acordo com as possibilidades de construção como o manejo da água, a carga tributária
ciência. Readaptado, foi incorporado ao A Estrutura estava a de que, ao longo do viu-se obrigado a mergulhar na física de veu em Mitológicas, trilogia de livros que que estão sendo aproveitadas pelos usuários sobre os alimentos, as mudanças climá-
imaginário social contemporâneo e deu livro, o termo paradigma era apresentado Aristóteles. “O que minha leitura de Aris- refletem sobre a mitologia das Américas. para a obtenção dos sentidos pretendidos. ticas e o novo Código Florestal. A tensão
origem à hoje quase onipresente expres- com significados diferentes. Essa variabi- tóteles parecia revelar era uma espécie de “`Preso entre o céu e a terra, sem poder Os capítulos foram organizados segundo a entre a produção de alimentos e de etanol
são “mudança de paradigma”. lidade teria sido transmitida aos leitores, mudança global no modo como a natureza descer, nosso herói se acha numa situação divisão tradicional em classes de palavras, é um dos tópicos explorados no capítulo
Publicado originalmente em alemão nos possibilitando leituras bastante persona- era vista... Uma mudança que não poderia em tudo análoga à de seu personagem, tendo em vista as necessidades do leitor “Agroenergia”. No quarto capítulo, “Temas
anos 1970, este A tensão essencial reflete lizadas. “Ao ouvir algumas conversas, em ser descrita de maneira apropriada como o desaninhador”, escreve o antropólogo não especializado. Embora não seja uma da alma”, o autor demonstra seu amor ao
a amplitude de interesses do seu autor. A particular entre entusiastas do livro, foi constituída de acréscimos ao conhecimento brasileiro. Segundo ele, Lévi-Strauss es- gramática normativa, a autora compara campo. Já sua veia de contador de história
primeira parte, que leva o nome de “estudos difícil acreditar que todos os participan- ou meras correções de equívocos. Enquan- tava de fato vivendo o mito que analisou os usos com as normas, para informar o aparece no capítulo final, “Causos”. O livro
historiográficos”, traz sete ensaios relacio- tes da discussão falavam de uma mesma to descobria a história, descobri minha durante várias décadas de sua longa vida. leitor sobre possíveis restrições feitas a tem distribuição gratuita; para adquiri-lo,
nados diretamente à história da ciência. obra. Parte da razão de seu sucesso, como primeira revolução científica.” • Luciana Christante certas construções comuns. • LC envie um e-mail para gvagro@fgv.br. • LC

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