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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO

DEPARTAMENTO DE MEDICINA VETERINÁRIA

ÁREA DE PATOLOGIA VETERINÁRIA

Disciplina: Patologia Especial dos Animais Domésticos

Profa. Dra. Márcia Figueiredo

Prof. Dr. Valdemiro Amaro da Silva Júnior

RELATÓRIO DE NECRÓPSIA

Alunos: Aline Lima Costa Miranda, Danielle Pimentel Ribeiro, Maria Gabriela de
Souza Pedrosa

Turma: SV1

Data da necrópsia: 06/12/2017

1. Identificação do Animal

Foi necropsiado um animal da espécie felina, do sexo masculino; de raça não definida,
cor preta e porte pequeno.

2. Histórico

O animal encontrava-se no gatil da Universidade Federal Rural de Pernambuco,


apresentando como queixa principal dificuldade respiratória. Foi administrado
diferentes tipos de antiflamatórios e Doxiciclina. Apresentava episódios de vômito
recorrentes. Não foi realizado nenhum exame clínico ou laboratorial. Foi encontrado
nas redondezas do HOVET/UFRPE e encaminhado para o gatil. Suspeitava-se que a
gata estava acometida pela PIF (peritonite infecciosa felina). Não foi informado o
tempo de evolução do quadro clínico, porém, na última semana de vida apresentou
piora significativa. O animal morreu aproximadamente quatro meses antes da data da
necropsia.

3. Achados Anatomopatológicos

Ao examinar externamente o animal, observou-se que ele encontrava-se mau estado


nutricional (magro) e pelos opacos. Apresentava enoftalmia (retração do globo ocular
dentro da órbita) e mucosa ocular ictérica. Na cavidade oral observou-se hiperemia no
palato e mucosas ictéricas. A ictericia também foi observada no pavilão auricular. No
exame interno, ao fazer a incisão longitudinal mediana desde a região mentoniana ate
a sínfise isquiática para abertura da carcaça, foi visto que o tecido subcutâneo do lado
direito da região cervical, apresentava hematoma. O esôfago continha muco
brancacento, catarral. No pulmão, havia a presença de enfisema e hemorragia. No
coração, constava endocardiose. Na abertura da cavidade abdominal, pode-se
verificar que o fígado apresentava evidente padrão lobular, icterícia, hemorragia e que
a vesícula biliar estava distendida, contendo bile espessa. Os rins apresentavam
congestão generalizada e a região medular estava edemaciada. Ao se abrir a bexiga,
constatou-se a presença de urina de coloração acastanhada. No cólon, havia a
presença de fezes ressecadas, indicando desidratação.

4. Discussão

O edema pulmonar encontrado consiste no acúmulo excessivo de fluido dentro do


pulmão. Inicialmente se forma dentro do interstício e depois progride para preencher
os alvéolos e finalmente as vias aéreas (BISTNER e FORD, 1997). Observamos no
histórico do animal problemas respiratórios nítidos, e foi ainda observado que o a
presença de secreção nasal não purulenta. O animal apresentava achados
macroscópicos sugestivos de pneumonia, pois o pulmão estava com a coloração
vermelho escuro, evidenciando uma condição de inflamação (GUYTON e HALL,
2002). O edema pulmonar pode resultar da diminuição da pressão oncótica
plasmática, sobrecarga de volume vascular, obstrução linfática, aumento da
permeabilidade vascular, ou uma combinação destes fatores (SHAW e IHLE, 1999).

No caso da gata, o edema apresentado pode ser oriundo de uma hipoproteinemia,


causada pela má nutrição do animal, uma vez que ele encontrava-se com uma baixe
escore corporal e anemia, como esses achados, tem-se a redução da albumina no
sangue, o que provavelmente causou uma alteração da pressão oncótica levando ao
extravasamento do líquido para o espaço intersticial, e consequente edema. A
excessiva administração de fluidos, pode ter resultado em sobrecarga vascular, e em
conjunto com hipoproteinemia, causou o edema pulmonar. Os animais com edema
pulmonar geralmente apresentam tosse, dificuldade respiratória, e secreção nasal,
condizendo com o estado clínico da gata B4. Para Nelson e Couto (2001), a
dificuldade respiratória pode ser mínima ou grave e se caracteriza por esforços
expiratórios e inspiratórios aumentados. Imediatamente precedendo a morte, uma
espuma tingida de sangue pode aparecer na traquéia, na faringe ou nas narinas. Essa
espuma na traquéia oriunda do pulmão foi encontrada na necropsia, onde ao
comprimir o pulmão houve o extravasamento de espuma tingida com sangue pela
traquéia. A função respiratória é afetada diversamente como resultado da atelectasia e
diminuição da complacência pulmonar, causada pela compressão dos alvéolos e
diminuição da concentração de surfactante (NELSON e COUTO, 1994). A maioria dos
casos de edema pulmonar são diagnosticados por meio de radiografias em conjunto
com anamnese, exames ecocardiográficos e mensuração das proteínas séricas,
indicativos de doenças associadas ao edema pulmonar. O edema causado por
permeabilidade vascular aumentada é difícil de diagnosticar, por isso vale ressaltar
que o animal não apresentou nenhum exame complementar.

Considerando os fatos inerentes ao edema pulmonar, associados aos achados


anatomopatológicos é possível perceber íntima correlação à pneumonia lobar. A
pneumonia lobar é uma doença, a qual, sua origem se dá na junção bronquíolo –
alvéolo, onde os agentes patogênicos podem atingir por via aerógena ou
broncogênica. É também considerada como uma broncopneumonia fulminante, porém
com evolução mais rápida e processo mais extenso (SANTOS e ALESSI, 2011). Ainda
segundo Santos e Guedes, a pneumonia lobar possui alta taxa de letalidade. Seus
exsudatos podem ser: fibrinoso, fibrinopurulento, hemorrágico ou até mesmo
necrótico. Ela provoca aumento acentuado da permeabilidade vascular, justificando
assim o edema pulmonar. A pneumonia lobar pode apresentar áreas de consolidação
fibrinosa em um ou mais lobos. Apresenta também coloração vermelho escura ou
vermelho acinzentado no parênquima pulmonar. Causa morte, a qual, pode estar
relacionada à hipóxia associada à toxemia, disseminação do agente patogênico via
hematógena, pericardite, peritonite, fibrose, toxemia, poliartrite fibrinosa e meningite.
Ao se comparar as características da pneumonia lobar aos achados
anatomopatológicos do gato B4, foi possível identificar através da necropsia, além do
edema pulmonar, áreas discretas de consolidação fibrinosa disseminadas por todos os
lobos, coloração vermelho escura e exsudato hemorrágico na cavidade torácica
(aproximadamente 35 ml). Não foi observada a presença de espessamento dos septos
interlobulares, nem exsudato fibrinopurulento, o que pode nos sugerir um estágio
inicial da doença ou a ela estar controlada/mediada pelo uso de antibiótico. Quanto ao
agente patogênico, é mencionado na literatura ser a Pasteurella multocida para os
felinos.

Como descrito no histórico, suspeitava-se inicialmente de PIF (peritonite infecciosa


felina). A PIF consiste na inflamação dos vasos sanguíneos (vasculite), é uma
síndrome de vasculite fibrinosa causada pelo Coronavírus. A PIF pode se manifestar
na forma úmida (efusiva), que é a forma mais grave da doença, onde muitos vasos
sanguíneos são danificados e há acúmulo de líquido amarelado viscoso no abdôme ou
no tórax. A forma seca (não-efusiva) consiste na forma mais crônica da doença, é
caracterizada pela formação de granulomas em órgãos abdominais, torácicos e do
SNC.

5.Conclusão
A contaminação por Pasteurella multocida pode estar associada ao estresse de
aglomerações. De acordo com estudos de sensibilidade da bactéria em questão à
antimicrobianos, foi possível constatar que ela possui taxa de sensibilidade de 80% em
relação à doxiciclina da classe das tetraciclinas, a qual, foi administrada para a gata
B4. Porém a Pasteurella multocida apresentou uma das maiores taxas de resistência à
doxiciclina. Sendo a ciprofloxacina o antimicrobiano eleito para tratatamento de
afecções causadas pela Pasteurella multocida com 100% de eficácia.

O uso empírico/incorreto do antibiótico em questão pode ter proporcionado resistência


bacteriana, o que levou a piora do estado do animal. Desta forma pode-se concluir que
o Diagnostico Etiológico é Pneumonia Lobar sendo sugestivo como agente etiológico a
Pasteurella multocida e a Causa mortis é insuficiência cardiorrespiratória.

a. Diagnóstico etiológico

Pneumonia Lobar, sendo sugestivo como agente etiológico: Pasteurella multocida

b. Causa mortis

Insuficiência cardiorrespiratória

6. Referências bibliográficas

 MCGAVIN, Donald. Bases da patologia em veterinária 4a edição.


Elsevier Brasil, 2009.

 SANTOS, R.L., ALESSI, A.C. Patologia Veterinária. Roca: São Paulo, 2011.

 PNEUMONIA E EDEMA PULMONAR: ESTUDO COMPARATIVO


PNEUMONIA AND PULMONARY EDEMA: A COMPARATIVE STUDY
-revista científica eletrônica de medicina veterinária – issn: 1679-7353 ano ix
– número 17 – julho de 2011 – periódicos semestral

 MOTTA, Garcia et al. Perfil de sensibilidade de amostras de Pasteurella


multocida e Mannheimia haemolytica isoladas na região de Botucatu, São
Paulo, Brasil, no período de janeiro de 2000 a novembro de
2007. Veterinária e Zootecnia, v. 16, n. 1, p. 173-179, 2012.

 DE OLIVEIRA, Fabiano Nunes et al. Peritonite infecciosa felina: 13 casos. Ciência


Rural, v. 33, n. 5, p. 905-911, 2003.

 DE SOUZA ZANUTTO, Marcelo; HAGIWARA, Mitika Kuribayashi. Peritonite


infecciosa em gatos–relato de caso. Veterinária Notícias, v. 13, n. 2, p. 63-69,
2007.

 https://evz.ufg.br/