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VENÍCIO A.

DE LIMA
JUAREZ GUIMARÃES
(ORGS.)

�t/J6rt/�t/& ti& &�/P&��ão


as várias faces de um desafio
Índice
AGRADECIMENTOS
INTRODUCÃO
Parte I
1. Parresia e isegoria: Origens político-filosóficas da
liberdade de expressão
2. A liberdade de expressão em uma chave não
dualista: as contribuições de John Dewey
3. A opinião pública democrática e a defesa pública da
liberdade de expressão 1
4. Sete teses e uma antítese
Parte II
5. A censura disfarcada
6. A TV pública e a comunicação democrática
7. Em nome da liberdade de expressão: visões críticas à
visibilidade da causa Guarani e Kaiowál
8. O Brasil necessita de uma nova lei de imprensa?
9. Vozes caladas, guerrilhas midiáticas
SOBRE OS AUTORES
Os autores agradecem à UFMG, à PUC Minas e à FUMEC, que
tornaram possível a realização do 1 º Colóquio "Liberdade de Ex­
pressão: as várias faces de um desafio"; à Fundação Ford, na pes­
soa do professor Mauro Porto, que viabilizou financeiramente a
publicação deste livro; à FUNDEP-UFMG, que operacionalizou a
transferência dos recursos; e a Jakson Alencar, da Paulus, que
prontamente acolheu nossa proposta.
confluência. Não se trata, pois, de pensar as relações entre polí­ A segunda razão que conspira contra a banalização do prin­
tica e comunicação, mas do desafio de constituir um campo de cípio que organiza este livro - a gênese mutuamente configura­
pensamentos no qual a própria política e a comunicação mútua dora entre política e comunicação social - é a do diagnóstico de
e geneticamente se constituem em seus conceitos fundamen­ que vivemos cada vez mais em sociedades centradas na midia e
tais. em processo dinâmico de mutação.
Há seguras e convincentes razões para que a universidade
Política e comunicacão
, são dimensões que não podem ser ana- A midia ocupa uma posição de centralidade nas sociedades
brasileira reflita, discuta e pesquise o que é a liberdade de ex-
liticamente isoladas sem se perder a compreensão do próprio contemporâneas, permeando diferentes processos e esferas da
pressão e os modos de criá-la, garanti-la e promovê-la nas soci­
objeto que se investiga. O princípio organizador deste livro- o da atividade humana, em particular a esfera da política.
edades democráticas.
relacão
' fundante e incontornável entre política e comunicação - A nocão
' de centralidade tem sido aplicada nas ciências sociais
Há hoje, nos planos internacional e nacional, um largo não pode e não deve ser banalizado. igualmente a pessoas, instituições e ideias-valores. Ela implica
dissenso sobre se o Estado deve estabelecer regulações sobre a
Há quatro razões que nutrem a absoluta atualidade desse a existência de seu oposto, vale dizer, o periférico, o marginal,
propriedade e os modos de funcionamento dos meios de comu­
princípio com o qual este livro se propõe a contribuir através de o excluido, mas, ao mesmo tempo, admite gradações de pro­
nicação de massa, sobre os limites e sentidos da atuação do Es­
uma pauta ampla e permanente de pesquisas e reflexões. ximidade e afastamento. Pessoas, instituições e ideias-valores
tado nesse campo tão decisivo para a democracia. Esse dissenso
A primeira está na ordem de uma falta nuclear que deriva da podem ser mais ou menos centrais.
democrático em geral se apoia sobre diferentes tradições de e n ­
tendimento do que vem a ser a liberdade de expressão. separação disciplinar e departamental, na teoria e na pesquisa, Um pressuposto para se falar na centralidade da grande midia
entre as áreas da comunicação e da política. Existe já, no plano (sobretudo a eletrônica) nas sociedades é a existência de um sis­
A opção por dogmatizar o conceito de liberdade de expressão,
internacional e nacional, um rico acúmulo de estudos teóricos e tema nacional (network) consolidado de telecomunicações. A
afirmá-lo de modo unidirecional e fundamentalista e natura­
empíricos interdisciplinares entre comunicação e política. Mas maioria das sociedades urbanas contemporâneas pode ser con­
lizá-lo de forma antipluralista revela um contrassenso absurdo.
pode-se fazer um diagnóstico seguro de que a maior parte das siderada como "centrada na midia" (media centric), uma vez
Por essa dogmática, discutir a liberdade de expressão seria
teorias democráticas e das teorias da comunicação contempo­ que a construção do conhecimento público que possibilita a
desde já ameaçá-la, colocá-la em risco. Como se a liberdade de
râneas não pensa, em seus fundamentos, as condições comuni­ cada um de seus membros a tomada cotidiana de decisões nas
expressão pudesse negar a expressão da liberdade ao discuti-la.
cativas democráticas de sua prática política nem as condições diferentes esferas da atividade humana não seria possível sem
Pelo contrário, o debate acadêmico e público sobre a liberdade públicas democráticas de seu exercício comunicativo. ela.
de expressão só pode alentar, esclarecer e desenvolver as teorias
Nesse campo de pensamentos que se busca construir, o diag­ Um bom exemplo dessa centralidade é o papel crescente da
da democracia. Se o direito ao voto universal - sem exclusões de
nóstico dessa falta é, em si mesmo, uma denúncia. Toda teoria midia no processo de socialização e, em particular, na socializa­
gênero, de renda ou de escolaridade - marcou toda uma época
que se pretende democrática, mas que não pensa as dimensões ção política. A socialização é um processo contínuo que vai da
histórica de construcão' da democracia, o direito à voz pública,
públicas da liberdade de expressão, as relações instituintes infância à velhice e é através dele que o indivíduo internaliza
de falar e ser ouvido, para todos os cidadãos e cidadãs parece
entre a constituicão
, da cidadania e o direito à voz pública, es- a cultura de seu grupo e interioriza as normas sociais. Uma
estar no centro dos impasses e desafios das democracias con-
• barrará em impasses ou antinomias centrais. Toda teoria da comparação da importância histórica de diferentes instituições
temporaneas.
comunicação que despolitiza o seu objeto, negando ou margi­ sociais no processo de socialização revelará que a familia, as
Este livro, fruto do 1 º Colóquio "Liberdade de Expressão: as nalizando as fundações políticas da comunicação que se faz em igrejas, a escola e os grupos de amigos vêm crescentemente per­
várias faces de um desafio", realizado na UFMG em março de sociedade, está na verdade optando por conceber a liberdade de dendo espaço para a midia que se transformou no "educador c o ­
2013, constrói-se a partir da visão de que a relação entre polí­ expressão como um direito que se privatiza ou que se realiza na letivo" onipresente.
tica e comunicacão' na Modernidade se organiza na ordem dos ordem do privado, em geral mercantil. Todavia, o papel mais importante que a midia desempenha
fundamentos. É insuficiente pensá-las através de uma relação
Sociedades centradas na mídia e em mutação decorre do poder de longo prazo que ela tem na construção da
interdisciplinar entre duas áreas de estudo que contêm zonas de
realidade através da representação que faz dos diferentes aspec-
tos da vida humana - das etnias (branco/negro), dos gêneros mente para a formação dos juizos públicos. existência de uma instituição e de um aparato tecnológico para
(masculino/feminino), das gerações (novo/velho), da estética Mais ainda, a relação entre a política e as grandes empresas que a comunicação se realize. Esse é um tipo específico de comu­
,
(feio/bonito) etc. - e, em particular, da política e dos políticos. E, de comunicação em geral não é de exterioridade, mas de com­ nicação, realizado através de instituições que aparecem tardia­
sobretudo, através da midia - em sua centralidade - que a polí­ penetração, organicidade e até simbiose, conformando redes mente na história da humanidade e constituem-se em um dos
tica é construída simbolicamente, adquire um significado.l doutrinárias e de interesses entre o sistema político e o sistema importantes símbolos da modernidade. Duas características da
A política nos regimes democráticos é (ou deveria ser) uma de midia. Assim, fenômenos de partidarização, parcialidade, comunicação da gr ande midia são a sua unidirecionalidade e a
,
atividade eminentemente pública e visível. E a midia - e s o - estreitamento de pluralismo ou até censura sistemática a infor­ produção centralizada, integrada e padronizada de seus conteú­
mente ela- que tem o poder de definir o que é público no mundo mações e opiniões antagonistas não parecem ser fenômenos ex­ dos.

contemporaneo. traordinários e sim recorrentes e típicos. Já a expressão nova midia serve para designar qualquer forma
Na verdade, a própria ideia do que constitui um "evento Mas a relação entre política e comunicação é certamente de comunicação realizada através da rede mundial de computa­
público" se transforma a partir da existência da midia. Antes de mão dupla. As políticas de Estado historicamente definem dores, isto é, da internet. Ao contrário da grande midia, a nova
de seu desenvolvimento, um "evento público" implicava com­ padrões institucionais singulares, conformando sistemas de midia possibilita a interação on-line entre emissor e receptor
partilhamento de um lugar (espaço) comum; copresença; visão, comunicação predominantes públicos ou privados mercantis, através de computadores pessoais fixos e/ou móveis (celulares,
audição, aparência visual, palavra falada; diálogo. Depois do d e ­ incentivando ou limitando a concentração de propriedade, con­ laptops, notebooks etc.). 2
senvolvimento da midia, um evento para ser "evento público" centrando ou distribuindo verbas de publicidade, regulando ou Compreender em contextos singulares as formas de interação,
não está limitado à partilha de um lugar comum. O "público" desregulando o exercício da comunicação. Estados de origem de transição entre a grande midia e a nova midia é certamente
pode estar distante no tempo e no espaço. Dessa forma, a midia colonial, periféricos ou dependentes, que sofrem de um déficit um dos desafios centrais para quem assume como princípio
,
suplementa a forma tradicional de constituição do "público", de soberania, podem sofrer de um processo sistemático de c o ­ analitico fundante a relação entre política e comunicação. E esse
mas também a estende, transforma e substitui. lonização midiática. À medida que os sistemas de comunicação mesmo princípio que pode permitir compreender esses macro­
Essa nova situação provoca consequências imediatas tanto operam com massas enormes de recursos, de tecnologias em processos de mudança a partir da interação entre seus condici­
para quem deseja ser político profissional quanto para a prática grande escala, essa dependência das políticas e orçamentos p ú ­ onantes institucionais, as posições estruturais de propriedade
da política. Isso porque a visibilidade tem que ser disputada: (a) blicos é cada vez maior. Além disso, diferenciações estruturais econômica e de formas novas de organização e interação social,
os atores políticos têm que disputar visibilidade na midia; e (b) de acesso à renda ou à educação, aos direitos de gênero e étnicos fugindo a prognósticos impressionistas que conferem às novas
os diferentes campos políticos têm que disputar visibilidade fa­ condicionam fortemente o direito à voz pública cidadã de falar e tecnologias o poder unidimensional de moldar futuros.
vorável de seu ponto de vista. ser ouvido.
Filosofia política e regulação do pluralismo conceituai
Assim, a interação constitutiva entre midia e política pro­ Essa relação simbiótica entre política e comunicação nas s o ­
ciedades modernas precisa ser necessariamente historicizada Uma terceira razão que confere alta complexidade ao desafio
cessa-s e em todas as fases do processo democrático: na cons­
e singularizada em contextos. E, uma vez que o campo das de pensar as relações fundantes entre política e comunicação
trução da agenda, através do filtro das informações publicadas,
comunicações passa por mudanças estruturais na contempora­ na Modernidade diz respeito ao largo dissenso conceitua!, à
do modo de editá-las, da seleção e ênfase das opiniões, na visi­
neidade e se alteram radicalmente as próprias bases de sua ope­ polissemia de sentidos, à cristalização de linguagens alternati­
bilidade e dramatização de temas selecionados; na ponderação
ração, seria necessário diferenciar o que poderíamos chamar de vas e, inversamente, ao deslizamento sincrético de significados
e presença dos próprios atores políticos, através da superexpo­
"gr ande midia" e de "nova midia". que caracteriza o campo de estudos das relações entre comu­
sição de porta-vozes ou do silenciamento de outros, na apre­
nicação e política. Essa situação particularmente babélica não
sentação positiva ou negativa com que são noticiados, influindo A expressão grande midia - midia, plural latino de medium
diz respeito apenas à crise de paradigmas das ciências sociais
assim no próprio pluralismo e assimetrias do processo político - pode ser entendida como o conjunto das instituições que
contemporâneas ou mesmo ao dissenso contemporâneo do es­
de participação e competição política; no grau de exposição e utilizam tecnologias específicas para "intermediar" a comuni­
tado da arte das teorias democráticas, mas é própria de estudos
crítica dos governos e de suas políticas, contribuindo decisiva- cação humana. Vale dizer que a grande midia implica sempre a
interdisciplinares que combinam códigos discursivos variados nal autocrático, assentado na escravidão, na cultura patriarcal Juarez Guimarães e Venício A. de Lima
sem o recurso a formas sistemáticas de regulação. e nos privilégios patrimonialistas, tornou central ao longo de Belo Horizonte/Brasília, Outono de 2013.
A grande opção teórica e de pesquisa inscrita neste livro é de nossa formação a "cultura do silêncio" ao invés da participação
ativa dos cidadãos em uma opinião pública democrática. REFERÊNCIAS
convocar a filosofia política, em seu largo pluralismo de tradi­
ções, para regular esse dissenso conceituai e para estabelecer Até relativamente pouco tempo, o Brasil não dispunha de LIMA, V . A. (2004). "Os 'Cenários de Representação' e a política". ln:
RUBIM,A. A. Canelas. (org.). Comunicacão e Política: Conceitos e Abor-
campos comuns de sentido. uma midia de alcance nacional. Embora a imprensa (jornais e •
dagens. Salvador/São Paulo: UFBA/UNESP,2004,p. 9-40.
Os recursos da filosofia política - a sua disposição a abarcar revistas) exista entre nós desde o século XIX, e o cinema e o _ _. (2012). "Cenário de Representação da Política ( C R -P):um conceito
largas temporalidades e construir conceitos unitários para além rádio, desde a primeira metade do século XX, por peculiaridades e duas hipóteses sobre a relação da mídia com a política". ln: Idem.

da rigidez das diversas disciplinas que foram separando e es­ geográficas e históricas só se pode falar em uma midia nacio­ Mídia:Teoria e Política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,2ª

pecializando o conhecimento das sociedades, a sua ambicão ' de nal a partir do surgimento das redes (networks) de televisão, reimpressão,p.179-216.

rigor e, ao mesmo tempo, seu método dialógico, a sua resistên- e isso já no inicio da década de 1970, portanto, há cerca de
!-As repre. sentaçõe. s da realidade feitas pela mídia compõem os diferente.s Cenários de
cia ao fechamento de sentidos e a sua tradição antidogmática - 40 anos. O fato de um moderno sistema de telecomunicacões ' Representação (CR) que constituem a hegemonia nas sociedades media centric. Sobre o

são imprescindiveis para se fundar um campo de pensamento ter se constituído exatamente num período de ditadura militar conce ito de CR, ver lima (2004) e, e. specificamente sobre o Cenário de Repre.sentação da
Política (CR-P), ver lima (2012 ) .
que unifique política e comunicação. e organicamente vinculado a seus interesses políticos e econô­
J. Essas definiçõe. s obviamente constituem uma •s1implificação. A grande mídia digitalli izada

Esses recursos são particularmente decisivos para investigar micos só evidencia o quanto o regime de sua propriedade, sua também oferece, tecnicamente, a poss• • 1bilidade de interação.
i

e superar o impasse dialógico muito frequente nas democracias concentração e sua regulação careceram na origem de um ethos
ocidentais sobre o que é liberdade de expressão e como ela deve democrático básico.
ser regulada em uma sociedade democrática. Na verdade, são as Essa contradicão
, entre a formacão
' de um sistema de comuni-
diferentes tradições conceituais do que é liberdade construída cacões
' moderno consolidado na ditadura e as condicões' básicas
pelas linguagens formadoras da Modernidade que esclarecem da formação de uma opinião pública democrática foi transmi-
os contrastantes discursos públicos em defesa da liberdade de tida para a contemporaneidade brasileira sob a forma de um
expressao. impasse constitucional. Se a Constituíção Federal fundamenta
Assim, neste livro comparecem pensamentos republicanos, princípios democráticos de relação entre midia e democracia,
liberais cívicos, pragmáticos críticos, socialistas democráticos, tem até agora prevalecido a resistência, formada pelos inte­
democráticos deliberacionistas dispostos a compartilhar, com resses empresariais na comunicação e seus lobbies políticos, a
seus pluralismos, um campo comum de reflexões e pesquisas. qualquer regulação democrática e pluralista do setor.
Assim, o impasse dialógico sobre a liberdade de expressão se
Uma abordagem praxiológica expressa na democracia brasileira contemporânea sob a forma
E, finalmente, a quarta razão que nutre o princípio organi­ de um impasse constitucional, que condiciona fortemente toda
zador deste livro é reunir reflexões de teoria com a pesquisa a práxis democrática. Por esse caminho, se a práxis democrática
sistemática sobre a história e a contemporaneidade dos desafios brasileira for incapaz de pensar os fundamentos da comunica­
vinculados à construção da liberdade de expressão no Brasil. O ção democrática entre os cidadãos, ela está perdendo a auto­
diálogo entre esse duplo trabalho permitirá enriquecer mutua­ consciência sobre seus impasses fundamentais.
,
mente a construção de conceitos universais e a singularidade da E para esse caminho, democrático e pluralista, informado e d i -
experiência inacabada de construção republicana do Brasil. alógico, que este livro busca, nas suas limitações, contribuir.
A longa história colonial e a fundação de um Estado nacio-
I. 'PM'r6�i� 6 i�630Piç:,,.· Vr&611$/oftéico­ na cidade democrática. No capítulo 3 do livro II, Políbio procura para a democracia.4 Em uma tradução bastante livre, a palavra
explicar a causa do sucesso político da Confederação Aqueia, à poderia ser vertida por uma perífrase: "igualdade (isa) do uso da
/jfo�ó/jc�� d'� /i/16rd'Af/6 d'6 6,t/P6���o qual estava associada sua própria cidade, vale dizer, Megalópo­ fala na assembleia política (ágara)". Para reforçar essa sugestão,
lis. Coerente com a metodologia que havia adotado para explicar vale lembrar que gregos antigos dispunham de um verbo para
HeltonAdverse
a grandeza de Roma, Políbio afirma que a grandeza da Confe­ expressar o uso da fala na assembleia: agareua, o mesmo verbo
deracão
' encontra seu fundamento no regime político de suas empregado pelo arauto quando iniciava uma sessão: tis agareu­
A Primeira Emenda da Constituicão ' dos Estados Unidos da cidades membros. E o que caracteriza esse regime é a "igualdade ein bauletai (quem quer usar a palavra?).
América inscreveu de modo definitivo a liberdade de expressão política (isegaria) e a liberdade de fala (parresia)", traços defini­ De sua parte, parresia poderia ser traduzida inicialmente
no rol dos direitos políticos. Apesar da indiscutível novidade t ivos da democracia.l como "franqueza", "fala franca", tendo em sua formação eti­
desse fato, é preciso obser var que o dispositivo jurídico conferia Tendo em vista meus objetivos, parece -me importante reter2 mológica os termos pan (tudo, todo) e rema (fala, palavra, dis­
uma forma moderna a um elemento central da tradição política: essa caracterização da democracia na qual as noções de isega­ curso). Levando isso em conta, a palavra poderia ser traduzida
a relação entre poder e linguagem. É tendo em vista esses dois ria e de parresia desempenham uma função -c have, mas não por "dizer tudo". 5 Diferentemente de isegaria, parresia faz parte
termos que acredito ser possível esboçar uma história das ori ­ porque Políbio teria dado, para o esclarecimento dessa ques­ de um universo mais amplo, sendo utilizada não somente no
gens conceituais e dos fundamentos filosóficos da liberdade de tão, uma contribuição definitiva. É precisamente o contrário. contexto político, mas também no domínio pessoal. Apenas um
expressao. Políbio apenas recupera, em um momento tardio da história exemplo entre vários: Isócrates, em sua carta a Aquidamos, diz
Para começar, convém lembrar que "liberdade de expressão" política das cidades gregas (no século II a.e.), um esquema que ao fazer um elogio, em privado, fala com franqueza.6 Con­
é a tradução usual para a expressão inglesa "free speech" (ou, conceitua! que vamos encontrar em diversos textos do período tudo, sua constante presença no vocabulário político é mais do
como consta na constitu icão' americana, "freedom of speech"), clássico, isto é, os séculos V e IV a.e. São muitos os autores que suficiente para delinear uma acepção propriamente polí­
que poderia ser literalmente traduzida por "discurso (ou fala) (ai incluindo Eurípides e Platão) que identificaram isegaria e tica. Nesse caso, o "falar com franqueza" pode ser considerado
livre". Ao levarmos esse fator em consideração, o que está em parresia como algo próprio da constituição democrática, muito primeiramente como um direito de expressar publicamente,
jogo quando falamos de "liberdade de expressão" é a liberdade embora esses escritores, em sua maior parte, não as reconhe­ sem qualquer entrave, aquilo que se pensa. A parresia é, do
do uso da linguagem no espaço público (não importando se cessem como qualidades, mas como deficiências desse regime. ponto de vista institucional, o dispositivo jurídico que coloca
a linguagem é verbal ou não). Ora, acredito que no começo 1 Porém, ao recuperar o antigo esquema conceitua!, Políbio de­ um agente político ao abrigo de toda forma de intervenção não
de nossa experiência política democrática podemos ver clara ­ monstra grande sensibilidade ao detectar o vínculo forte entre justificada no momento em que profere seu discurso em assem­
mente que as relações de poder envolviam a regulação do uso a forma política (a constituição, a paliteia) e a potência política. bleia. O aspecto institucional, no entanto, não nos deve levar a
da linguagem, assim como a definição de quem deve ter direito [segaria e parresia conferem à democracia uma dinâmica muito perder de vista que a parresia é, acima de tudo, compreendida
a esse uso. Dizendo de outra forma, a cidade democrática (que peculiar, capaz de assegurar uma estabilidade política que, na como uma forma de atividade política. Falar livremente é agir
vemos surgir no final do século VI a.e.) requer uma determ i ­ perspectiva polibiana, é imprescindivel para a grandeza. Para politicamente. Logo, o exercício da fala livre não pode ser redu­
nada configuração política na qual o jogo entre poder e lin­ entendermos melhor essa questão, vale a pena explicitarmos os zido ao exercício de uma liberdade, mas se confunde com o pró­
guagem está franqueado aos cidadãos. Como resultado, novas significados dos dois termos. prio exercício da liberdade. 7
concepções de liberdade e de cidadania são formuladas e, por As duas palavras têm significados que se recobrem, uma vez Esse segundo aspecto da parresia (que é, na verdade, o essen­
conseguinte, o próprio domínio político é compreendido a partir que ambas concernem à liberdade do uso da fala. Isegaria, con­ cial) também permite distingui-la com mais clareza da isegaria.
de uma nova perspectiva.
tudo, tem quase sempre significado e uso políticos, podendo ser Com efeito, na medida em que a ideia central contida na ise­
Uma passagem da História de Políbio pode ser de auxilio em traduzida por "igualdade de fala" e, por extensão, "igualdade garia é a de igualdade, ela guarda maior afinidade com nossas
nossa tentativa de compreender o problema da liberdade de política". Nesse último caso, não deve surpreender o fato de concepções jurídicas modernas, ao passo que na parresia a ên­
expressão à luz do exame da relação entre poder e linguagem Heródoto (em Histórias, 5, 78) utilizar o termo como sinônimo fase deve recair sobre a ideia da liberdade como aquilo que é
efetivamente experimentado na ação política. Assim, a isegoria deve e quando não se deve falar.li Mas é importante frisar que horrores e prazeres e que através desse conhecimento não se encolhem
diante do perigo. 12
é um status que define a condição de todo cidadão em uma pólis o propr10 termo parresza carregara essa conotaçao peJoratlva,
, •
• , N • •

democrática. Já a parresia pode ser corretamente definida como adquirindo por vezes o sentido de "insolência", "licenciosidade", Para atingir meus propósitos proponho dividir essa passagem
uma modalidade de ação política, ou uma forma de exercício do "atrevimento" ou "descaramento". em três trechos. No primeiro, Péricles apresenta os princípios
poder. Não deve causar surpresa o fato de não haver para isego­ Como podemos ver, a palavra parresia comporta uma ambi­ fundamentais da democracia ateniense: o cultivo do belo e da
ria um verbo correspondente, ao passo que de parresia derivam guidade que é inerente a sua natureza prática e que é inevitável inteligência deve conviver com a energia viril e a disposição a
os verbos parresiázomai e parresiázesthai, o substantivo parresi­ quando levamos em conta o espaço político em que era exercida. participar dos afazeres cívicos; o interesse privado jamais deve
astés e o adjetivo parresiastikós. No núcleo desses termos está a A liberdade de uso da palavra deixa o espaço político vulnerável se sobrepor ao bem comum; o cidadão que se desinteressa dos
ideia de atividade. à "boa" e à "má" parresia. No entanto, é necessário ter em mente assuntos públicos não é digno desse nome. No segundo trecho,
Mas precisamos examinar de um modo um pouco mais d e ­ que essa vulnerabilidade é insuprimível, uma vez que ela con­ Péricles faz o elogio do procedimento deliberativo característico
talhado em que consiste a parresia como atividade política. De cerne ao coração da constituição democrática. Na verdade, a da assembleia ateniense. As decisões políticas são tomadas s o ­
um lado, a parresia era vista sob uma luz altamente positiva. ambiguidade da parresia faz apenas refletir, por um lado, a a m ­ mente após os debates em que prós e contras são devidamente
Por exemplo, em algumas tragédias de Eurípides, 8 sobretudo biguidade da própria linguagem e, por outro, a instabilidade examinados. Isso significa que, entre os atenienses, a política
no Íon, ela é celebrada como o atributo definitivo do cidadão fundamental da democracia, evidenciando o fato de que esse obedece a indiscutíveis parâmetros de racionalidade, sendo que
ateniense, que dela se serve para conduzir os cidadãos na ek- regime é aquele cuja natureza é essencialmente paradoxal. Há, esta é uma das mais firmes convicções de todos os partidá­
,
klesía, no momento da tomada de decisão. E fundamental s a - portanto, um laço de parentesco entre parresia e democracia que rios do regime democrático (embora não fosse a do próprio
lientar que o homem que exercita a fala livre, o parresiastés, cabe, a partir deste momento, tentar esclarecer. Tucídides). 1 1 Por fim, no último trecho, o orador salienta um
apenas pode beneficiar a cidade se ele é dotado de virtudes que • elemento essencial no exercício do poder político: a coragem.
o qualificam para o exercício da proeminência política. Nessa Acredito que a articulação entre esses trechos nos fornecerá
Gostaria de evocar mais um texto grego. A famosa oração f ú ­
acepção positiva, a parresia é o uso da fala livre caracterizado uma visão de conjunto do problema da parresia na Atenas d e -
nebre de Péricles "reproduzida" por Tucídides no segundo livro ' .
por duas coisas: 1) aquele que fala acredita naquilo que profere mocratlca.
da Guerra do Peloponeso diz o seguinte:
( coincidindo, então, sujeito da enunciação, sujeito do enunciado A "descrição" de Péricles nos apresenta as condições ideais em
Nós cultivamos a beleza sem extravagância, e o intelecto sem a perda
e o conteúdo que é enunciado); 2) aquele que fala é reconhecido do vigor. A riqueza é para nós algo a ser utilizado na ação, e não que a parresia era exercida na pólis ateniense. Como evidencia
como um cidadão dotado das mais altas qualidades morais. 9 motivo para nos gabarmos. Não há vergonha em se admitir a pobreza, o segundo trecho, ela é uma forma de uso do discurso que s o ­
De outro lado, a parresia era frequentemente criticada como mas sim em não tomar as medidas adequadas para eliminá-la. Aqui cada mente pode ser praticada no interior de uma assembleia (e aqui
,
um uso indevido do direito de palavra. E precisamente essa indivíduo está interessado não somente em seus próprios afazeres, mas a parresia está articulada à isegoria). Nesse sentido, ela opera
nos do estado também, e aqueles que têm de se ocupar de seus próprios
visão pejorativa que aparece no livro VIII da República de Pla­ com parâmetros racionais, obedece às leis do discurso para que
negócios podem, contudo, adquirir um bom conhecimento da política. Nós
tão (557 b) ou no Discurso a Arquidamos, de Isócrates (6,97). somos únicos em nosso modo de considerar aquele que não participa dos
possa viabilizar o efetivo exercício do poder. Diferentemente
Mesmo em Eurípides, a parresia é por vezes identificada como assuntos públicos: não consideramos sua vida tranquila; a consideramos do governo autocrático, o governo democrático é congênere a
um abuso da língua, um falar sem travas que ultrapassa o inútil. Estamos todos envolvidos ou na devida formulação ou na um espaço do livre uso da palavra tendo em vista a tomada
limite do decoro. Havia um termo grego para isso: athuroglos­ devida revisão de nossa política, acreditando que o que atrapalha a de decisões. Nessas circunstâncias o parresiastés é aquele que
sos, que podemos encontrar, entre outros lugares, no Orestes, de ação não é o discurso, mas a falta de discussão antes de proceder à pede a palavra para expressar livremente o que pensa de modo
ação exigida. Essa é mais uma diferença entre nós e os outros, o que nos
Eurípides e no Sobre a charlatanice (503c), de Plutarco. 10 A ex­ a colaborar no procedimento deliberativo. Essa reivindicação,
assegura uma combinação excepcional entre ousadia e deliberação sobre
pressão significa literalmente "uma língua que não tem portas". o objetivo, enquanto com outros a coragem repousa sobre a ignorância, contudo, está duplamente condicionada. Como mostra o pri­
Ela se aplica àquela pessoa que não sabe distinguir entre o que é e para eles deliberar significa hesitar. A verdadeira força de espírito deve meiro trecho, o uso da palavra deve sempre ter em vista o bem
conveniente e o que não é conveniente falar; ou ainda, quando se ser corretamente atribuída àqueles que têm uma percepção acurada dos comum. Isso significa que a figura do parresiastés não deve ser
confundida com a do simples rétor, que pode ou não levar em dimensão pragmática e se faz presente, assim como a exigência sua segurança seus discursos e atividade política destinados a vos agradar, tal
homem é ousado sem nenhum risco; aquele, porém, que por vossos maiores
conta o interesse coletivo. Além disso, como esclarece o terceiro de coragem que lhe é inseparável, no ato mesmo de enunciar
interesses se opõem a vossos desejos e nada diz para vos agradar, mas sempre
trecho (mas em parte também o primeiro) o exercício da fala um discurso que contraria as expectativas, que fere as opiniões o que é mais útil, e escolhe aquela política na qual os acasos da sorte têm mais
franca requer certa disposição de espírito, uma virtude especial ou que faz a crítica da cidade. Inúmeros, na Antiguidade, são peso que os cálculos, e ainda se mostra diante de vós responsável por aqueles e
e, no momento democrático, 14 fundamentalmente política: a os exemplos do personagem corajoso que se levanta diante da por estes, este homem é corajoso e certamente é ele o cidadão útil, e não aqueles
coragem. Gostaria de explicar melhor esse último ponto ( e, para multidão para lhe dizer a verdade apesar de correr o maior de que, pelo desejo de vos agradar dia após dia, sacrificaram os maiores interesses

isso, me servirei das análises de Foucault). todos os riscos, isto é, perder a própria vida. Talvez a figura de da cidade.l.:! .

Na oração fúnebre, a coragem está associada ao conhecimento Sócrates seja a mais emblemática de todas, uma vez que o fil ó ­ Certamente o risco de morte era o caso extremo. Muitas vezes
claro do perigo que somente pode ser obtido por meio de um pro­ sofo, ao menos de acordo com o que Platão nos apresenta, não o orador encontrava uma resistência menor como o conhecido
cedimento discursivo. Contudo, Péricles já havia estabelecido o hesitava entre a morte e uma vida não filosófica, ou ainda, es­ thórybos, ou o barulho de protesto que os ouvintes faziam para
elo entre coragem e parresia no discurso presente no primeiro tava convencido de que uma vida que não fosse pautada pela abafar um discurso que os desagradava. Entretanto, a referên­
livro. A ocasião era a embaixada espartana que apresentava aos justiça não valia a pena ser vivida.liÉ verdade que Sócrates não cia ao risco é uma estratégia muito eficaz para chamar a atenção
atenienses um ultimatum. Uma ekklesia é convocada e Péricles, costumava exercer a parresia na ekklesia, porém é inegável que para o problema da verdade. Anteriormente, já havia feito men­
tomando a palavra, inicia seu discurso lembrando aos atenien­ sua "vida filosófica" (philosophounta zen).12. não podia deixar de ção ao caráter verídico da parresia. Cabe agora aprofundar um
ses que sempre foi a favor da guerra e que não iria mudar de produzir efeitos morais e políticos. pouco esse exame com o intuito de completar o quadro das rela­
opinião. Faz, então, a seguinte declaração: "Vejo que também Não escapou também a Foucault o fato de que o exercício da ções entre uso livre da fala e poder político na Antiguidade.
agora os meus conselhos devem ser semelhantes e análogos parresia implicava um risco de morte. Porém, é grande mérito •
[aos do passado] e julgo justo que, dentre vós, os que se deixarem de seutrabalho investigativo ter associado fortemente esse risco
Gostaria de avançar duas proposições: 1) A parresia é uma
persuadir deem apoio às decisões comuns mesmo se incidirmos com o caráter verdadeiro do discurso do parresiastés. Se o enun­
forma de veridiccão.
, 2) Dizer a verdade é um modo de exer-
em algum erro ou então, se tivermos êxito, não reivindiquem a ciado da verdade não comporta nenhum risco, então não se
cer a liberdade. No que diz respeito à primeira proposição, é
decisão inteligente".12. trata, rigorosamente, de parresia: o risco é uma condição sem a
importante esclarecer que a verdade que está em jogo não é
Como observou Foucault, Péricles está aqui propondo um qual o enunciado parresiástico não pode se constituir como tal.
de natureza objetiva, muito menos ontológica. Não se trata, r i ­
pactol§. a seus concidadãos de modo que partilhem a responsa­ A partir do momento em que o discurso verdadeiro se torna um
gorosamente, nem mesmo de uma verdade lógica. Trata-se da
bilidade pelo que acontecer uma vez tomada a decisão em favor evento "irruptivo", "abrindo para o sujeito que fala um risco não
verdade em sua dimensão prática, mas cujo critério não é o
da guerra. A necessidade de formular esse pacto apenas pode ser definido ou mal definido, nesse momento podemos dizer que há
efeito que produz e sim, como vimos, a adesão daquele que fala
entendida se tivermos em mente o risco que corre o parresiastés. parresia". 20
àquilo que fala. Em suma, é uma verdade bastante aparentada
Quando ele se dispõe a dizer a verdade na assembleia e a engajar Por essa razão, a coragem vai aparecer como a virtude política à doxa (na seguinte acepção: "o mundo tal qual aparece para
os demais na ação a partir do enunciado de seu discurso, o ora­ fundamental, reivindicada pelo próprio agente político quando mim"). Além disso, segundo Foucault, é necessário observar
dor está ciente de que corre um risco e por isso, como o ilustra o se dirige à assembleia, como vemos nos discursos de Demóste­ que o enunciado parresiástico difere de um enunciado demons­
exórdio de Péricles, é uma medida imprescindivel acordar com nes. Somente um exemplo basta para nos convencer: trativo e de um enunciado performativo. No demonstrativo, a
seus ouvintes que a decisão é sempre coletiva, não importando E então, u m indivíduo que talvez venha à tribuna e diz: "Com efeito, não
verdade pode ser dita, mas sua declaração está integrada em
se ela resulta em fracasso ou em sucesso. O que se evidencia queres propor um decreto, nem correr risco? És covarde e molenga". Eu não
um procedimento lógico-dedutivo feito em "condições neutras",
aqui, segundo Foucault, é o "jogo do risco, do perigo, da cora­ sou arrogante, impudente, desavergonhado, e oxalá não venha a ser. Entretanto, 22 no qual, em princípio, não há risco para quem enuncia, uma
gem". 17 penso que sou bem mais corajoso que muitos dos que tomam medidas políticas
vez que a verdade enunciada concerne a uma comunidade abs­
audaciosas. De fato, atenienses, o homem que, negligenciando o interesse da
Mas é preciso cautela para não reduzir o risco do parresiastés cidade, instaura ação judicial, faz confiscações, concessões e delações, age trata universal. Por outro lado, a veridicção parresiástica não se
às consequências das decisões tomadas. O risco ultrapassa essa dessa maneira sem precisar de coragem para isso, mas tendo como garantia de confunde com um enunciado performativo porque, apesar do
efeito prático desse enunciado, é mantida uma relação de exteri­ Estou convencido de que Foucault toca em um ponto essencial Nesse sentido, a isegoria está muito próxima do conceito de po­
oridade entre o sujeito do enunciado e aquilo que enuncia. 23 Na quando faz essa análise da parresia. Ao evocar o fundamento litéia, ou seja, constituição. Mais precisamente, a isegoria é o d i ­
parresia vemos algo muito distinto: ético da coragem, Foucault abre caminho para a reflexão acerca reito estatutário de falar definido pela politéia, que é a forma de
...aparresia é sempre uma espécie de formulação da verdade em dois níveis: um do caráter dinâmico da parresia, isto é, sua dimensão prática, organização política da cidade. A parresia, por sua vez, embora
primeiro nível que é aquele do enunciado da própria verdade (neste momento, irredutível à dimensão jurídica. Em outros termos, o que me esteja fortemente ligada à isegoria e à politéia, é propriamente
como no [enunciado) performativo, dizemos a coisa)... e depois um segundo parece altamente relevante na investigação de Foucault é o fato uma atividade e, por isso, concerne ao que Foucault denomina
nível do ato parresiástico, da enunciação parresiástica que é a afirmação de
de apontar os limites da interpretação jurídica do fenômeno da de dunastéia. 28
que o verdadeiro que dizemos, o pensamos, o estimamos [como verdadeiro], e
nós próprios o consideramos efetivamente como autenticamente verdadeiro. Eu
liberdade de expressão no contexto da cidade democrática e, da O termo dunastéia significa, de maneira geral, "poder", "do­
digo o verdadeiro, e eu penso verdadeiramente que isso é verdadeiro, e eu penso mesma feita, colocar em xeque outra vertente interpretativa, minação", "autoridade" e, por vezes, "dominação ilegitima" ou
verdadeiramente que eu digo o verdadeiro no momento em que eu o digo.24 isto é, aquela que identifica a parresia como uma liberdade m e ­ mais simplesmente "concentração de poder", como vemos em
Resta saber como essa coincidência entre sujeito da enunci­
ramente negativa, como se ela pudesse ser reduzida à simples Platão.29 Para Foucault, interessa chamar a atenção para sua
ausência de coercão
' à fala livre. ligação com a ideia do exercício do poder, sua ligação com o jogo
ação, sujeito do enunciado e a adesão ao conteúdo de verdade
envolve a liberdade. Na perspectiva de Foucault, o ato de dizer Dando continuidade à sua genealogia da parresia, Foucault irá no qual o poder é exercido. Em suma, seu caráter não instituci­
a verdade, na forma da parresia, somente pode ser considerado conferir grande importância à noção de "governo". Não precisa­ onal. Se, por um lado, os problemas da politéia são os da consti­
livre quando aquele que a diz faz valer, para dizê-la, somente de mos segui-lo nesse ponto. Contudo, ele faz ainda outra distinção tuição, por outro, os problemas da dunastéia dizem respeito "ao
sua liberdade. Dizendo de outro modo, o lugar a partir do qual que, acredito, vai me auxiliar a atingir os fins deste texto. Essa jogo político, a suas regras, a seus instrumentos, ao indivíduo
o parresiastés pode enunciar seu discurso pode ser institucio­ distinção recobre aquela que já conhecemos, a saber, entre p a r ­ que o exerce". 30 Por fim, o problema da dunastéia é aquele da
nalmente delimitado, como ocorre na constituição democrática, resia e isegoria. política considerada como uma experiência na qual a parresia
porém a figura do parresiastés não é definida por qualquer dis­ • surge como a "prática política efetiva". 1 1
positivo institucional. Ele pode ser, em princípio, qualquer um, Como já vimos, a parresia consiste no uso franco da palavra Essa distinção é tão mais importante na medida em que
desde que "faça valer sua própria liberdade de indivíduo que no espaço público tendo em vista exercer uma influência na permite colocar o problema da parresia no território que é seu: o
fala".25 Por esse motivo, Foucault acredita que não é o estatuto tomada de decisão, isto é, trata-se de uma ação política. O que da potência e do jogo de enfrentamentos. Vale lembrar que uma
ou as circunstâncias o que define a condição de parresiastés. A está no fundamento dessa ação não é o status social do parresi­ análise da história da formacão ' conceitua! do termo revela sua
veridicção parresiástica, por sua vez, requer somente "que haja astés, mas sua coragem de dizer a verdade. Seu objetivo, quando natureza democrática, enquanto a isegoria tem origem essenci­
liberdade na enunciação da verdade, liberdade do ato pelo qual o diz o que pensa e não poupa a cidade das críticas mais contun­ almente aristocrática.32 Mais ainda, a parresia faz sua aparição
sujeito diz a verdade, e liberdade também desse pacto pelo qual dentes,27 não é retirar algum proveito próprio, mas promover histórica precisamente no momento em que as divisões da c i ­
o sujeito que fala se liga ao enunciado e à enunciação da ver­ o bem comum. A recepção do discurso implica um risco para dade estão acentuadas e a fala livre significa o franqueamento
dade. E, nessa medida, no coração da parresia não encontramos o orador, uma vez que a pólis costuma apresentar resistência. do acesso ao espaço público para um número alargado de cida­
o estatuto social, institucional do sujeito, encontramos aí sua Nesse esquema, fica evidente que o orador que exerce a parresia dãos,33 ou seja, seu aparecimento coincide com a consolidação
coragem". 26 Se Foucault concede lugar central para a coragem exerce uma ascendência sobre os ouvintes no momento em que do regime democrático.
em sua definição da parresia é porque deseja retirá-la do d o ­ está disposto a jogar o jogo do poder. A contrapartida dessa as­ Se a parresia deve, então, ser pensada como a "prática política
minio exclusivamente institucional, encontrando para ela um cendência é a possibilidade de, em casos extremos, ele ser fisica­ efetiva", em contraste com a instituição política e a constitui­
fundamento ético. A parresia é a coragem da verdade, princípio mente eliminado. ção, torna-s e imprescindivel indagar acerca de sua relação com
fundamental da ação política na cidade democrática (mas não Na cidade democrática, podemos ver que as relações de poder a constituição, mais especificamente com a democracia. Um
apenas nela). No ato parresiástico se entrelaçam, portanto, dis­ se configuram de forma agonistica, sendo que as regras do e n ­ problema surge de imediato e será ele que deverá reter minha
curso, verdade, liberdade e poder. frentamento se identificam com o marco instituição da isegoria. atenção: por um lado, a parresia como atividade política essen-
cial, congênere à democracia, constitui um de seus princípios fundamento ético da parresia (ampliando sua análise para além eisangelia poderia ser utilizado contra um orador que tivesse
basilares; por outro lado, reconhecendo que sua presença no c o ­ dos regimes democráticos), Foucault opera um recorte com o mal conduzido o povo na tomada de decisões.40 O que significa
ração da instituição democrática mantém vivo o jogo agonístico qual a separa da política, ao passo que a melhor estratégia, acre­ a instituicão
' dessas restricões
' a não ser o reconhecimento de
da política (ou reitera a natureza agonística da democracia), a dito, para avaliar esse paradoxo é radicalizar sua natureza polí­ que a parresia, longe de ser apenas um "direito", era algo capaz
parresia não deixa de consistir em uma ameaça à democracia e, tica. Assim, os conflitos que viabilizam a fala franca, mas que de desestabilizar as relações de poder e, consequentemente, f a ­
em contrapartida, esta não pode deixar de ameaçá-la. Instaura­ são também despertos por ela, constituem a energia própria da vorecer ou prejudicar o interesse coletivo?
se, assim, uma tensão fundamental, inerradicável no núcleo da vida democrática. Foucault poderia, então, ter aprofundado sua Para encerrar, gostaria, mais uma vez, de recordar que está em
instituição democrática. Essa questão, vale observar, tem rece­ visão agonística da política, mas isso significaria colocar em questão, na parresia, o enunciado da verdade. Se é assim, creio
bido recentemente formulacões ' diversas entre teóricos da d e - um plano inferior o problema da verdade. Digo isso porque, ao que a verdade deve, nesse caso, ser tomada em seu teor político.
mocracia. 34 Mas creio que avançam pouco em relação àquilo tomar a parresia sobretudo como modo de veridicção que exige o A pergunta que me parece apropriada seria então: que espécie
que o próprio Foucault havia percebido. comprometimento de quem fala, Foucault escolhe fazer um m o ­ de liberdade construímos quando, no espaço político, dizemos
Com efeito, Foucault mostra-se ciente dessa tensão quando vimento pendular que o conduz do espaço da cidade ao espaço livremente a verdade? Não se trata somente de levar em consi­
destaca a presença de dois paradoxos na relação entre dizer da alma (ou da política à ética) e da alma à cidade. No pros­ deração o efeito político que pode ter o enunciado da verdade,
verdadeiro e democracia. O primeiro paradoxo se origina na i m ­ seguimento de sua investigação ficará claro que a ideia de "g o ­ mas ter em mente que nossa capacidade de dizer e suportar a
,
possibilidade de todos dizerem a verdade, apesar da parresia ser verno" vem precisamente viabilizar a comunicação entre esses verdade, como cidadãos, é o outro nome da coragem. E nessa
imprescindivel à estrutura democrática. O dizer verdadeiro i n ­ domínios, sendo portanto necessário atrelar "governo de si" e circunstância, acredito, que a democracia encontra sua prova
troduz uma diferença (na forma da ascendência e da qualidade "governo dos outros". Caso optasse pela ênfase sobre o aspecto de realidade, da mesma forma que Platão dizia que o vinho era
moral do parresiastés), de modo que "somente alguns podem conflitivo das relações de poder, a dimensão individual cederia para a alma do homem o básanos (a pedra de toque com a qual
dizer o verdadeiro". 35 O segundo paradoxo guarda maior afini­ lugar ao enfrentamento entre as partes da cidade, isto é, entre o se verificava a qualidade do ouro).41 E assim como a alma é
dade com aquele que apresentei acima: para que a democracia povo (o demos, ou os "muitos", hoi pleroi) e os "poucos", entre a afetada pelo vinho porque com ele tem algo em comum (vale
possa sobreviver, para que ela se conserve através de seus con­ massa e a elite ateniense. 38 A partir desse deslocamento do ob­ lembrar que o vinho tem espírito), a palavra verdadeira é o lugar
flitos, enfrentamentos, lutas (internas e externas) é necessário jeto de sua investigação das relações entre verdade e poder, fica­ próprio onde o poder, em um contexto democrático, desdobra
assegurar a fala franca. Por outro lado, porque o discurso ria evidente que o discurso verdadeiro, o exercício da parresia, sua capacidade constituinte e dissolvente.
verdadeiro requer o conflito, o enfrentamento e a rivalidade ele pode ser compreendido como um instrumento político valioso, � ,
sobretudo para o povo. Por meio da parresia, este não somente REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:
próprio é ameaçado pela democracia: assim, "nada de demo­
cracia sem discurso verdadeiro, pois sem discurso verdadeiro vê assegurada sua inscrição no espaço político, mas ultrapassa BALOT, R. K. "Free speech, courage, and democratic deliberation". ln:

ela pereceria; mas a morte do discurso verdadeiro, a possibili­ o formalismo da isegoria ao se constituir efetivamente como um SLUlTER, I.; ROSEN, R. (orgs.). Free speech in classical antiquity. Leiden:
Brill, 2004.
dade da reducão
' ao silêncio do discurso verdadeiro está inscrita agente político.
CARTER, D. M. "Citizen Attribute, Negative Right: A Conceptual Diffe­
na democracia". 36 Esses paradoxos não podem ser eliminados, Levando em consideração que o exercício da parresia é efe­ rence between Ancientand Modern ldeas ofFree Speech". ln: SLUlTER,
sendo possível identificá-los nas democracias atuais. 37 tiva ação política, não deve surpreender a necessidade de es­ I.; ROSEN, R. (orgs.). Free Speech in Classical Antiquity. Leiden: Brill,

Tenho a impressão, no entanto, de que Foucault, ao encon­ tabelecer leis para restringir a liberdade de discurso. 39 Essas 2004.
DEMÓSTENES. Sobre as Questões da Quersoneso, 68-70. ln: As três Filí­
trar um fundamento ético para a parresia, deixa escapar algo leis visavam impedir a calúnia e a ofensa aos magistrados no
picas e Oração sobre as questões da Quersoneso. Trad. de lsis Borges da
importante nesse paradoxo. Ele deve ser rebatido contra a d e ­ exercício dos cargos públicos. Era também proibido falar mal Fonseca. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
mocracia, de modo a ser incorporado em sua própria forma de Harmódio e Aristogeiton, os tiranicidas. Além dessas leis, a FOUCAULT, M. Le gouvernement de soi et des autres. Cours au College de
constitucional. O que quero dizer é que esse paradoxo é um acusação de "impiedade" (asibéia) poderia ser dirigida contra France. 1982-1983. Paris : Gallimard/Seuil, 2008.
dos núcleos da democracia: ele lhe é constitutivo. Ao enfatizar o um orador ímpio, assim como o procedimento conhecido como _ _. Discurso y verdad en la antigua Grecia. Texto estabelecido por A.
Gabilondo e F. F. Megías. Barcelona: Paidós, 2004.
!SÓCRATES. "Lettre à Archidamos". ln: Discours. Trad. de G. Mathieu e E. l Q. A re.spei to, ver M. FOUCAULT, Discurso yverdad, op. cit., p. 94-9. e democracia em seu li vro Free speech and democracy in Ancient Athens, Cambri dge,
1 1 - Ver idem, p. 96. Cambri dge University Pre.ss, 2006. Porém, acredito que a fórmula que emprega para
Brémont. Paris: Les Belles Lettres, 1962.
' r
expre.s- s- á_,l- a é equivocada, n a medida em que evoca a noção de '1 falta de vergonha" (uma
OBER,J. Mass and elite in democratic Athens. Rhetoric, ideology and the 1 2. TUCÍDIDES, li vro 2, 40. Uti •li tzo a tradução ingl e.sa de Marti n Hammond, Thucydides.
tradução insufici ente para aidós): '1 0 regime democrático não pode, no final das contas,
power of the people. Princeton: Princeton University Press, 1 989. The Peloponnesian War, Oxford, Oxford Uni vers·-i 11ty Pre.ss, 2009, p. 92-3, (gri fo meu).
praticar a completa 'falta de vergonha' (shamelessness), não pode ignorar sua história
_ _ . Political dissent in democraticAthens. Intellectual crisis of popular 1 3. Ryan K. Balot define e.sta convicção da seguinte mane 1i ra:- '1 ••• os ateniense.s acreditavam .,
e suas tradiçõe.s. O regi me democrático não pode ser puro em seu compromiL sso com o
profundamente que a assemble ia democrática poderi a produzir deci1..sõe.s raciona·11l mente discurso sem fre i os" ( p . 5 ) . A autora faz e.ssa declaração no contexto de sua análise do
rule. Princeton: Princeton University Press, 1998.
justificadas quando os indivíduos expre.ssavam suas próprias vi�-sõe.s publicamente, articulavam julgamento e morte de Sócrate.s, mas generali liza sua abordagem, querendo nos fazer acreditar
PLATÃO. Les Lois. Trad. de L. Brisson e J. F. Pradeau. Paris: Flammarion, sua razão diante dos outros, ouviam imparcialmente alternativas racionai�-.s e votavam após a que o problema mai or é o conflito entre a novidade radical que traz o discurso verdade iro
2006. devida reflexão''. «Free Speech, Courage, and Democratic Deliberati on", em Free speech in - vente) e a tradição (impre.sc ndíve para a conservação de qualquer regime
(seu caráter dil.ssol i l
_ _ .Apologie de Socrate. Trad. de L. Brisson. Paris: Flammarion, 1997. ClassicalAntiquity, op. cit., p. 241. políti co) (p. 7).
POLÍBIO.Histoire. Trad. de D. Roussel. Paris: Gallimard, 2003 (2ª edição). 1 4. À diferença, portanto, de uma concepção aristocrática da vi rtude que a entendia como -.
38. A re.spei to, val e a pena consultar duas obras de Jos·-i rah OBER, Mass and elite
RAAFLAUB, K. A. "Aristocracy and freedom of speech in the greco- pri me iramente uma virtude militar. in democratic Athens. Rhetoric, ideology and the power of the people, Pri nceton,
..
roman world". ln: SLUITER,I.; ROSEN,R. (orgs.).Free Speech in Classical 1 5. Para e.sse trecho, utilizo a tradução de Anna lia A. de Al me ida Prado, Tucídides. Pri nceton Uni vers-i �ty Pre.ss, 1989 e Political dissent in democratic Athens. Intellectual
HistóriadaGuerradoPeloponeso, li vro 1, São Paulo, Marti ns Fonte.s, 1999, p. 189. crisis ofpopular rule, Princeton, Pri nceton Univers.1ity Pre.ss, 1998.
Antiquity.
1 .§. M. FOUCAULT, Legouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 160-1. 39. Ver D. M. CARTER, art. ci t., p. 206-7.
SAXONHOUSE, A. Free speech and democracy in Ancient Athens. Cam­
1 7. Ibidem. 40. Ibidem, p. 207.
bridge: Cambridge University Press, 2006.
TUCÍDIDES. The Peloponnesian War. Trad. de M. Hammond. Oxford: Ox­ 1 ª_. Platão, Apologia de Sócrates, 38a. 41 . Ver Platão, Leis
649b-e. A re.spe ito do efe ito do vinho sobre a alma, Platão e.screve o

1 2- Idem, 28e. seguinte: ' Ele começa a tornar maill..s brincalhão o homem que o bebeu, e quanto maill..s e.ste
1

ford University Press, 2009.


homem o experi menta, mais e le é preenchido de e.spíritos numerosos e magníficos e mais
_ _ _ História da Guerra do Peloponeso. Livro I. Trad. de Anna Lia A. de 20. M. FOUCAULT, Legouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 61.
cre.sce sua capacidade de imaginar co i11_.sas. E por fim, claro, porque acredita tudo saber, e.ste
Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 21 . DEMÓSTENES, Sobre as Que.stõe.s da Quersone.so, 68-70, em As três Filípicas e homem é repleto de falar franco (parresia) e liberdade, de.sprovido de todo temor a ponto
Oração sobre as questões da Quersoneso. Trad. de ls-i � s Borge.s da Fonseca, São Paulo, de dizer e também de fazer qual quer coisa, sem re.strição'' (649b). Utilizo a tradução france.sa
11 •

- '
Martins Fonte.s, 2001, p . 64-5. Para a re i�v1indicação de que fala com parresia, ver de L. Bri '-sson eJ. F. Pradeau: PLATON, Les !ois, Pari Is,
L F ammar on, 2006, p. 111.
1- POLÍBIO, História, 11, 3, 38. Uti li zo a edição france.sa com a tradução de Denni n.s Roussel. - l i
DEMÓSTENES, Pri mei ra Fi lípica, 51, em As três Filípicas... , op. cit., p. 24.
Pol ybe, Histoire, Pari s, Gall imard, 2003 (2ª edição), p. 207-8.
22. M. FOUCAULT, Le gouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 60.
2. A exemplo do que fez Michel Foucault em 1983, que havia analL isado e.ssa me.sma passagem
para de.senvol ver suas inve.sti gaçõe.s sobre a parre.s-i ra. Ver M. FOUCAULT, Legouvernement 23. Por exemplo, o arauto no tribunal ateniense, ao d izer '1 quem quer tomar a p alavra",
de soi et des autres. Cours au College de France. 1982-1983, Pari s, Galli�mard/Seuil, faz a lgo com seu discurso (abre a se.ssão da assemble ia ) . Para a realização de.sse ato, pouco
2008, p. 69 e 137-9. importa a d1.
i spos_ i1ção ' interna" do arauto.
1

3. No que concerne a Platão, ver República, li vro VIII. 24. M. FOUCAULT, Legouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 61-2.

4. Ver D . M. CARTER, "Citizen Attribute, Negative R ight: A Conceptual Difference between 25. Ibidem, p. 63.
Anci ent and Modern ldeas of Free Speech", em 1. SLUITER e R. ROSEN (orgs.), Free Speech 26. Ibidem. (Gri fo meu.)
in ClassicalAntiquity, lei den, Bri�ll, 2004, p. 199. 27. Mai s uma vez, Demóstene.s aparece aqui como um parresiastés exemplar.
5. Ver M. FOUCAULT, Le gouvernement de soi et des autres, op. cit., p. 42-3. Ver
28. M. FOUCAULT, Legouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 146.
também a séri e de conferências que Foucault apre.sentou em Berkeley, nos me.se.s de outubro
29. Ver Platão, Leis 680b.
e novembro de 1983. M. FOUCAULT, Discurso y verdad en la antigua Grecia, texto
e.stabeleci do por A. Gabilondo e F . F . Megías, Barcel ona, Paidós, 2004. 30. M. FOUCAULT, Legouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 146.
l izar da franqueza em meus discursos''. Utilizo a edição
6. «Meu hábito é o de sempre utiIH _ll . Ibidem, p. 172.
france.sa com texto grego. ISOCRATE, "lettre à Archidamos", em Discours, trad. de G. 32. Ver a re.spei 1.to Kurt A. RAAFLAUB, "Ari stocracy and freedom of speech in the greco­
Mathieu e E. Brémont, Paris, le.s Bell e.s lettre.s, 1962, p . 196. roman worl d", em Free speech in classical antiquity, op. cit., p. 45.
7. Ne.sse senti do, D. M. Carter sugere a disti nção entrefreedom ofspeech (que pertenceri a 33. Kurt A. Raaflaub acredita que, originalmente, a expre.ssão maiÍ .s.. comum para '1 rfalf a l ivre"
propriamente ao campo jurídico, constituindo-se como um dire ito negativo) e free speech é eleutheros legein (que poderia ser traduzido como a fala do homem l ivre); em seguida,
(que expre.ssari a mel hor um senti do posi ti vo de liberdade). Ver D. M. CARTER, art. ci t., p. passa a dominar isegoria e, por fim, em um contexto democrático, parresia.
198.
34. Dentre el e.s de.staca-se Chantal Mouffe. Ver e.speci al mente The return of the political,
ise pormenorizada da que.stão da parresia na obra de Eurípide.s, ver M.
8. Para uma anál1. londre.s, Verso, 1 993, e The democraticparadox, londre.s, Verso, 2000.
FOUCAULT, Le gouvernement de soi etdes autres, op. cit., p. 71-1 56.
35. M. FOUCAULT, Legouvernementde soi etdes autres, op. cit., p. 1 67.
9. Retornare i a e.sse.s pontos e acre.scentare i ainda um terce iro: o parresiastés corre
36. Ibidem, p. 168.
deliberadamente um risco ao exercer a liberdade de fala.
37. Ibidem. Main.s recentemente, Arlene Saxonhouse explorou o paradoxo entre parresia
:Z. t4-fip&rr/Af/16 r/6 6,Y/JP6���0 61'1\ Ul'M­ Cuba, o bloqueio de conteúdos da web no Irã e na China, a prisão e sua conciliação com a necessidade de regulação dos meios de
. -
de Julian Assange por seus WikiLeaks, as recentes manifesta­ comurucacao.
CÁçi,V6 Mo rfu��tçi,.· çi,� coh.ÍriPui_çõ&� r/6 ,
ções públicas contra Yoani Sánchez e a criação de conselhos de
foM P&-W&y 1 comunicação no Brasil são todos vistos como ilustrações equi­
John Dewey: intelectual crítico e militante

valentes do ataque à liberdade de expressão. A especificidade John Dewey foi um intelectual público, com ampla produção
Ricardo Fabrino Mendonça
dos casos não merece atenção, mesmo porque não parece haver acadêmica e atuação política em um período de mais de 70
dúvidas sobre o significado do valor em questão. anos. Entre as últimas décadas do século XIX e o inicio dos anos
INTRODUÇAO 1950, Dewey tornou-s e referência fundamental nos campos da
Um olhar mais atento à filosofia política revela, contudo, que
A liberdade de expressão está na moda. Basta que alguém faça o próprio conceito de liberdade de expressão é alvo de mui­ educação, psicologia, filosofia e teoria democrática, chegando a
qualquer crítica aos meios de comunicação ou que defenda tas controvérsias. Venicio Lima (2010) e Guimarães e Amorim presidir relevantes associações científicas (como a Associação
mudanças na regulamentação das comunicações para que uma (no prelo) evidenciam a necessidade de uma discussão consis­ Americana de Psicologia e a Associação Americana de Filosofia)
enxurrada de artigos e editoriais midiáticos se erga contra os tente sobre o significado do conceito para que alguns mitos e a liderar o movimento norte-americano pela reforma social.
supostos ataques à liberdade de expressão. Mobilizando um l i ­ possam ser contestados. Os referidos pesquisadores trazem Seu progressivo desaparecimento na segunda metade do século
beralismo raso, segundo o qual a cidadania se resume à prote­ contribuições muito interessantes para o debate, contestando a XX só foi superado com o revival do pragmatismo, impulsio­
ção de liberdades individuais contra todo tipo de intervenção interpretação mais usual de liberdade de expressão mobilizada, nado, em grande medida, por Jürgen Habermas e Richard Rorty
externa (sobretudo a estatal), as empresas de comunicação sobretudo, pelas empresas de comunicação. Explorando os l i ­ a partir dos anos 1980.
mantêm-se como uma ilha no seio da comunidade política: elas mites de um liberalismo focado no individualismo e na acepção Nascido na pequena Burlington, no estado de Vermont, em
se isolam de todo tipo de controle democrático, embora se auto­ negativa de liberdade, eles argumentam a centralidade de uma 1859, Dewey teve formação religiosa e uma intensa vida fami­
concedam o direito de supervisionar todos os demais poderes e concepção focada na ideia de público. liar. Filho do generoso comerciante Archibald Sprague Dewey
instituições democráticos (Albuquerque, 2010; Porto, 2012). e da fervorosa protestante Lucina Artemisia Rich, Dewey viu­
, No entanto, uma figura particularmente importante para essa
E curioso, embora plenamente compreensível, que o modismo reinterpretação permanece subexplorada pelos autores. Trata­ se envolvido, desde cedo, em uma rotina de estudos e ações de
da mobilização pública (e rasa) desse importante conceito não se de John Dewey, pragmatista e democrata radical norte-ame­ filantropia. Ansiosa por assegurar que ele e seus dois irmãos
se veja acompanhado da emergência também pública de discus­ ricano, cuja significativa contribuição a esse debate é frequen­ fossem os primeiros Dewey's a obter educação superior, sua
sões sobre o sentido da liberdade de expressão. O conceito tor­ temente negligenciada. O motivo dessa negligência é a usual mãe assegurou-lhes acesso a uma ampla variedade de materiais
nou-s e um clichê usado indiscriminadamente para denunciar interpretação de que o pragmatismo seria uma espécie de posi­ informativos, complementando o currículo da escola pública
os ataques da "esquerda golpista" (e, raramente, da "direita gol­ tivismo aquiescente. Equivocada, tal visão foi propalada desde que frequentavam (Westbrook, 1991, p. 4).
pista") contra o legado democrático moderno, como se a própria os anos 1920, por autores como Lewis Mumford, Gramsci, Em 1 979, Dewey graduou-se emfilosofia pela então renomada
definição da liberdade de expressão não pudesse ser submetida Horkheimer e Herbert Marcuse, levando muitos pesquisadores Universidade de Vermont, dedicando-se também ao estudo de
ao debate. A liberdade de expressão vale para tudo, menos para críticos a se afastarem do pragmatismo antes mesmo de c o ­ cursos de geologia, biologia e fisiologia. Formado, Dewey passou
discutir a própria liberdade de expressão. Isso, não. Sem mais. nhecê-lo. a lecionar no Ensino Médio, mas, cansado da indisciplina dos
Nesse claro cerceamento da liberdade de expressão, em nome Este texto propõe-se a resgatar a importância de Dewey para alunos, resolveu voltar à academia, concluindo seu doutorado
da própria liberdade de expressão, condenam-s e as práticas as discussões contemporâneas acerca da noção de liberdade de pela Universidade Johns Hopkins em 1884. Nessa formação,
mais diversas, misturadas e equalizadas em uma autointitu­ expressão. Para tanto, iniciaremos com uma breve apresenta­ Dewey teve aulas com Charles S. Peirce e foi bastante influenci­
lada epopeia contra o cerceamento da possibilidade de fala. O f e ­ ção de sua biografia e de suas ideias, que buscam contestar a ado por William James e pelo evolucionismo de Darwin. Kant,
chamento de emissoras na Venezuela de Chávez, a Lei de Meios tese da aquiescência. Na sequência, exploramos suas contribui­ objeto de estudo de sua tese, também tem papel fundamental
na Argentina de Kirchner, a prisão de blogueiros no Egito e em ções mais específicas sobre o papel da liberdade de expressão em sua formação. O neo-hegelianismo lhe chega por meio do
professor George Morris, que defendia um idealismo orgânico a atuação no jornal como uma possibilidade de retirar a refle­ engajamento com os debates no campo da educação. Dewey
ansioso por compatibilizar o particular e o universal. xão acadêmica dos muros da universidade e fomentar a m u ­ questionava a fraca educação oferecida aos pobres, argumen­
Findo o doutorado, e ainda em 1884, Dewey se torna professor dança social a partir da participação de cidadãos informados. tando que ela minava a igualdade de oportunidades e assegu­
da Universidade de Michigan, no mesmo departamento para o Ford questionava o controle econômico da midia e advogava a rava a exclusão permanente de gigantescos contingentes popu­
qual seu mentor, Morris, havia se mudado. Nesse momento, sua necessidade de uma "reorganização radical da produção e da lacionais. A criação de escolas técnicas vocacionais separadas
produção se concentra em questões sobre psicologia e metafí­ distribuição de conhecimento" (Westbrook, 1991, p. 52). Apesar da formacão
' tradicional também é alvo de sua crítica, dados os
sica, assumindo uma virada ética a partir de 1889. Em uma do investimento pessoal de figuras proeminentes e do anúncio perigos de uma educação classista que alimentasse o já enorme
série de cursos, "Dewey desenvolveu a ética da autorrealizacão '
de um "piloto" em março de 1892, o jornal encontrou muitas fosso existente entre as classes sociais. É no bojo dessas refle­
neo-hegeliana que alicerça seus primeiros escritos sobre teoria críticas na imprensa, e um conflito entre Dewey e Ford acabou xões que Dewey cria sua célebre escola experimental, no seio
democrática" (Westbrook, 1991, p. 34). por minar a iniciativa antes mesmo de sua execucão , (West- da Universidade de Chicago, propondo um modelo de educacão '
O encontro com Alice Chipman Dewey e com T. H. Green, brook, 1991). pautado na cooperação e na resolução de problemas práticos.
ainda em meados dos anos 1880, seria essencial para seu pro­ Em 1894, Dewey migra para a recém-fundada Universidade Alicerçada em ideais democráticos, a escola não buscava edu­
gressivo interesse pela filosofia e pela práxis políticas. A pri­ de Chicago, onde se torna chefe do Departamento de Filoso­ car sujeitos para o mundo tal qual ele é, mas aspirava a atuar
meira foi sua aluna, antes de se tornar sua esposa em 1886. fia (e, posteriormente, do de Pedagogia, que foi criado por sua na formação de pessoas que viabilizariam uma transformação
Educada por seu avô, a professora Alice Chipman desdenhava sugestão). Cansado de uma filosofia puramente especulativa, radical da sociedade. Essa transformação começaria pelo ques­
convenções sociais, demonstrando-se uma crítica social con­ interessava-o encontrar um ambiente mais preocupado com tionamento da competitividade individualista, frequentemente
tundente. Ela teve um impacto fundamental na militância de problemas práticos. Aqui começa o progressivo afastamento de inculcada nas crianças pelas escolas tradicionais.
Dewey em torno de questões feministas e religiosas, bem como Dewey do idealismo alemão em direção ao pragmatismo norte­ Em 1904, depois de alguns conflitos em torno da direcão ' da
em seu progressivo distanciamento do cristianismo. americano. Em Chicago, ele se depara com um cenário de pro­ escola experimental, Dewey se muda novamente de instituição,
T. H. Green, por sua vez, foi um idealista inglês, defensor do funda transformação, impulsionada pela industrialização, pela ingressando na renomada Universidade de Columbia, à qual
socialismo ético, da filosofia prática aplicada ao mundo e das urbanização e pela intensa migração. A fervilhante Chicago es­ permaneceria vinculado até se aposentar, em 1930. Os anos
reformas sociais. É assim que, no final do século XIX, Dewey tava repleta de problemas sociais e tinha um espírito aberto à de Columbia são marcados pelo fortalecimento de sua posição
pode ser entendido como a esquerda hegeliana nos Estados novidade, o que permitia o desenvolvimento de lutas sociais. como intelectual público, além da estruturacão, mais sistema-
Unidos (Westbrook, 1991, p. 51). O movimento em direcão à Ali, Dewey se envolve em conflitos trabalhistas e sindicais, tizada de suas ideias sobre educação, ciência, metafísica e polí­
'
política afasta-o definitivamente do fervor religioso que mar- apontando a exploração econômica a que estavam submetidos tica.
cara o inicio de sua vida por influência de sua mãe. Comecam '
os trabalhadores. Vale destacar seu engajamento com a Hull Um capítulo importante de sua atuação pública ocorre por
a aparecer, aqui, suas críticas ao capitalismo - que inibiria a House, uma casa de apoio a imigrantes, trabalhadores e pobres, ocasião da I Guerra, quando Dewey defende, em nome da pro­
autorrealizacão
' da classe trabalhadora - e sua defesa de uma estabelecida em Chicago em 1889 e liderada por Jane Addams moção da democracia e do combate ao imperialismo europeu, o
democracia industrial. As cooperativas seriam um caminho i n - e Ellen Starr, que organizava várias acões
' sociais. Inicialmente envolvimento norte-americano no conflito e, num primeiro m o ­
teressante para viabilizar tal democracia. promovendo atividades culturais, a instituição logo se envolveu mento, a proposta da Liga das Nações. Essa posição lhe rendeu
No inicio dos anos 1890, Dewey procura canalizar seu engaja­ em práticas educativas e na promoção do associativismo de tr a ­ severas críticas entre intelectuais e progressivistas da época,
mento em uma atividade prática, investindo na criacão de um balhadores. A crescente influência de socialistas e de feministas incluindo alguns de seus ex-alunos, como Randolph Bourne. O
'
jornal alternativo chamado Thought News, o qual era liderado transformou a Hull House em um dos centros do movimento relativamente ingênuo endosso das posições norte-americanas
pelo jornalista Franklin Ford. A ideia era estruturar um veículo reformista dos Estados Unidos. Dewey se engajou nas lutas da foi, posteriormente, alterado com duras críticas à Liga das N a ­
analitico, baseado nas ciências sociais e capaz de incitar o instituição, defendendo as causas trabalhistas e feministas. ções e, um pouco mais adiante, à própria guerra. Nota-se, por
pensamento reflexivo e o ideário democrático. Dewey percebia Também é importante mencionar, nesse momento, seu amplo exemplo, que, às vésperas da II Guerra Mundial, Dewey assu-
miu uma postura radicalmente contrária à acão , militar, advo- um partido radical, capaz de englobar os anseios trabalhistas discursos em defesa da radicalizacão
' da democracia, uma tarefa
gando a criminalização da guerra. e as demandas da classe média em uma plataforma voltada à que caberia aos seres humanos associados politicamente em
Outra polêmica assumida por Dewey diz respeito às políticas profunda reforma da sociedade. Para ele, tal partido advogaria uma comunidade. Em 1946, aos 87 anos, Dewey se casa pela
de migração em vigor nos Estados Unidos no inicio do século o socialismo econômico, sem carregar o fardo do epíteto "socia­ segunda vez, com Roberta Lowitz, adotando um casal de órfãos
XX, que proibiam, por exemplo, a imigração chinesa. Dewey lista", marcado pelo repúdio da opinião pública e pelas nefastas da guerra. Seis anos mais tarde, em 195 2, ele falece aos 92 anos.
manifestou-s e severamente contra essas políticas racistas, s o ­ consequências da centralização estatal do poder observadas no
Obra e principais ideias
bretudo depois que conheceu a Ásia. Em 1918, uma visita à Uni­ socialismo real soviético.
versidade da Califórnia o levou a programar férias no Extremo Nesse momento, Dewey se envolve profundamente com o A vida de John Dewey evidencia uma trajetória de militância
Oriente. A curta viagem logo se tornaria uma visita de dois People's Lobby e a League of Independent Political Action, duas e engajamento que, por si só, permitiria negar a tese da aquies­
anos, com séries de palestras e cursos. A frustração com o Japão, organizações políticas de base trabalhista e inspiração socia­ cência. Como aponta Shalin (2011, p. 182), Dewey e os outros
por sua hierarquia engessada e aversão às ideias propícias à lista. Chegando a presid i -las, ele milita por reformas como a pragmatistas clássicos "não hesitaram em desafiar o poder".
democracia, foi aplacada pelo entusiasmo com a China, onde regulação da midia, a taxação progressiva, o seguro desemprego Sua obra acadêmica, no entanto, forneceria mais insumos sobre
Dewey viveu durante quase todo o período. A vivacidade do M o ­ e a jornada de 30 horas de trabalho (Kadlec, 2007). Dewey se a radicalidade de seu pensamento. Como afirma o próprio
vimento de 4 de Maio, as mobilizacões estudantis e a iminência apresenta, então, como um defensor do socialismo, embora crí­ Dewey, em artigo de 1927 intitulado The Pragmatic Acquies­
'
de transformações profundas, bem como a calorosa receptivi- tico do legado marxista, que ele considera não científico por seu cense, a ideia de que o pragmatismo seria conservador deve­
dade de suas ideias, deixaram Dewey encantado e renovado. dogmatismo. Ademais, o marxismo teria optado por uma ética se a um preconceito que vincula aquilo que é norte-americano
finalista que endossa o uso de meios violentos e não democrá­ à manutenção do status quo. Nos termos de Dewey, tal visão
De volta aos Estados Unidos, Dewey fortalece suas crencas '
ticos para a produção de uma utopia. É assim que Dewey se seria equivalente a atribuir o neorrealismo inglês ao esnobismo
democráticas e suas críticas à situação do país. A exploração
torna um crítico contundente do stalinismo, que ele aproxima aristocrático ou o idealismo alemão à habilidade de elevar a cer­
dostrabalhadores, a desigualdade de oportunidades, a fraqueza
do fascismo. Apesar de alguns elogios iniciais à União Soviética, veja e a salsicha a uma síntese com os valores espirituais de
da discussão pública e o individualismo inviabilizavam a possi­
fruto de uma visita àquele país e expressos em publicação inti­ Beethoven e Wagner. A ligação do pragmatismo com os Estados
bilidade do autogoverno democrático. Nem mesmo o New Deal
tulada Impressões do Mundo Soviético e do Mundo Revolucionário, Unidos se daria pela defesa da democracia e não pela ingênua
escapou às críticas do autor que entendia que o programa de R o ­
Dewey logo destaca seu caráter autoritário, o que o afasta, de sustentação do American Way ofLife.
osevelt não removia as prerrogativas do capitalismo e favorecia
as grandes empresas: "diferentemente de muitos liberais que vez, dos comunistas. A obra de Dewey é vasta e complexa, envolvendo tratados
acabaram por se aproximar do New Deal nos anos 1930, Dewey Em 1937, outro episódio marca seu distanciamento em r e ­ sobre psicologia, filosofia, educação, metafísica, ética, estética,
continuou a questionar a capacidade do capitalismo - mesmo lação ao comunismo stalinista. Convidado a presidir uma c o ­ epistemologia e política, além de centenas de artigos de posici­
o capitalismo reformulado - em promover valores democráti­ missão internacional criada para averiguar as acusacões contra onamento público sobre questões candentes. Entre seus princi­
'
cos" (Westbrook, 1991, p. 463, tradução nossa). Trotsky, Dewey conclui pela sua inocência. Embora discordasse paistrabalhos, convém citar: Psychology (1887), "The ReflexAre
de Trotsky e o julgasse um fanático, ele observou que seus e n ­ Concept in Psychology" (1896), "My Pedagogic Creed" (1897),
Na contramão dos elitistas que ganhavam terreno nos Es­
contros com o líder bolchevique haviam sido a experiência inte­ The School and Society (1900), How we think (1910), Democracy
tados Unidos, como Wallas e Lippmann, Dewey recusou-se
lectual mais interessante de sua vida (Westbrook, 1991,p. 471). and Education (1916), Reconstruction in Philosophy (1919), E x ­
a prescrever uma democracia meramente institucional e com
perience and Nature (1925), The Public and its Problems (1927),
baixa participação popular. Como discutiremos na próxima Os anos 1940 são marcados por uma progressiva perda de es­
The Qu est for Certainty (1929), Individualism Old and New
seção, ele buscou pensar as condições necessárias para o revigo­ paço de Dewey, seja pelo crescimento do já mencionado elitismo
(1930), Art as Experience (1934), Liberalism and Social Action
ramento do interesse público, o que seria essencial para o for­ democrático após a II Guerra, seja pelo fortalecimento de Rei­
(1935), Logic: the theory of inquiry (1938), Freedom and Culture
talecimento da ideia de democracia. Para Dewey, tal democracia nhold Niebuhr como lideranca , do movimento reformista norte- (1939).
poderia ser fortalecida nos Estados Unidos através da criacão
' de americano. Mesmo assim, Dewey realiza uma série de atos e
Dada a inviabilidade de uma varredura integral desta obra, segundo Dewey (2010, p. 431): a realidade com que se deparam. A experiência, em sua dupla
neste artigo, optamos por uma apresentação mais focada nas Em uma experiência, coisas e eventos que fazem parte do mundo físico e social face (de agência e sofrimento), é justamente a ocasião desse
ideias de Dewey do que no desenvolvimento processual de sua são transfonnados pelo contexto humano em que entram, enquanto a criatura teste de hipóteses. Da experiência emergem problemas ou rup­
obra. Nosso esforco ' será o de delinear as linhas gerais de seu
viva se modifica e se desenvolve através da interação com coisas que antes lhe turas de expectativas tidas como válidas, que nos obrigam à r e ­
eram externas.
arcabouço intelectual, de maneira a evidenciar a radicalidade de flexão e à reconstrução dos quadros de inteligibilidade de uma
seu pensamento, preparando o terreno para a discussão de sua Mundo e sujeitos se conformam mutuamente em um pro­ dada situação. Para resolver esse problema, o método cientifico
concepção de liberdade de expressão. Portanto, manteremos cesso de ajuste contínuo às resistências recíprocas oferecidas. demanda o efetivo choque de fins e de valores em competição.
sempre em mente as ideias políticas do autor, nas quais o con­ A experiência é a base que permite ao mundo tornar- s e perma­ O foco na reflexão cooperativa para a resolução de problemas
ceito de liberdade tem papel proeminente. nentemente. Os sujeitos sofrem o mundo e o alteram em um pavimenta o caminho de Dewey em direção à sua concepção de
Para entender a obra de Dewey, é fundamental partir de sua misto de receptividade e agência, que alimenta um ciclo i n ­ democracia. Como aponta Kadlec (2007, p. 6), a dinamicidade
metafisica, que nos ajuda a compreender sua concepção de cessante de organização e desorganização. Como discutido em dos problemas enfrentados exige "a habilidade para superar as
mundo. Como bom pragmatista, Dewey foi um crítico da meta­ Reconstruction in Philosophy (1919), a experiência não seria forças isoladoras por meio do desenvolvimento de hábitos deli­
física tradicional, que apostava em dualidades como: realidade oposta, nem menor, que a razão, sendo simultaneamente sua berativos de investigação e interação".
x experiência, sujeito x objeto e ideia x matéria. Desenvolvendo fonte e seu produto. Ela mereceria, pois, plena atenção da filoso­ A visão deweyana de democracia encontra-se sistematizada
plenamente suas ideias em Nature and Experience e em Art as fia, renovando suas compreensões de ciência e de política. em The Public and its Problems, embora perpasse toda a sua obra.
Experience, Dewey ressalta a contingência e a precariedade de Para responder ao mundo contingente identificado por Publicado em 1927, o livro se apresenta como uma resposta
um mundo marcado pela fluidez. Baseado no antifundaciona­ Dewey, a ação mais inteligente é a adoção do pensamento r e ­ às teorias que colocavam em questão a possibilidade de uma
lismo filosófico dos pragmatistas (Shalin, 2011; Kadlec, 2007; flexivo. Não cabe, pois, à ciência buscar leis causais universais democracia efetivamente participativa. Na psicologia, tanto os
Pogrebinschi, 2005), Dewey defendia que a realidade não estava que busquem apreender a "coisa em si", justamente porque essa behavioristas como os freudianos vinham demonstrando a pro­
pronta e encerrada, mas se conformava como o resultado de "coisa" (esse real) é incapturável em sua permanente mutação. funda dimensão não racional do comportamento humano. Na
uma série de articulações permanentes entre diversos elemen­ Daí advém a profunda crítica de Dewey à epistemologia, desde teoria política, elitistas como Wallas e Lippmann apresentavam
tos. A associação seria constitutiva da existência, implicando a os gregos aos modernos, em sua busca por certezas, o que é um diagnóstico muito pessimista da sociedade industrializada,
existência de afetacões
' mútuas entre as "coisas" que interagem tratado em The Questfor Certainty (1929). Dewey sugere que a marcada pela atomização, pela apatia e por um simulacro de
(Dewey, 1954, p. 22). As ideias de relatividade e de que o "conhe- forma mais frutífera de lidar com esse mundo contingente é o opinião pública. Dewey (1954) concorda com esse diagnóstico,
cedor" participa do que é conhecido o aproximam de Einstein e método da inteligência, em que se buscam soluções para um mas se recusa a defender que a única saída seria o elitismo d e ­
Heisenberg, em oposição à física newtoniana. problema concreto a partir da cooperação no seio de uma comu­ mocrático (Kadlec, 2007).
Diante desse universo fluido, precário e composto essencial­ nidade de investigação. Nesse contexto, Dewey apregoa uma revitalização do público,
mente por relações, o real se torna "acontecimental" e o con­ O ponto da investigação reflexiva não é descobrir, recuperar ou assegurar de modo a criar as condições para o surgimento de uma grande
ceito de experiência ganha centralidade. De acordo com Dewey princípios previamente justificados por meio de apelos à universalidade
comunidade, em que os indivíduos buscam cooperativamente
(2010, p. 122), a "experiência é resultado da interação entre transcendental, mas, em vez disso,
melhorar nossa capacidade individual
resolver problemas que afetam suas vidas. O público se con­
uma criatura viva e algum aspecto do mundo em que ela vive. e coletiva de explorar o potencial crítico da experiência vivida em um
formaria, de maneira sempre efêmera, na sustentação de uma
mundo que é inalteravelmente caracterizado pelo fluxo e pela mudança
Em consequência disso, fica sujeito a algo, sofre algo: o peso, (Kadlec, 2007, p. 12, tradução nossa). atenção coletiva às consequências comunais de certas transa­
o esforço, a textura da superfície da coisa levantada" (Dewey, cões.
' O meio de mobilizacão ' e sustentacão
' desse público seria
2010, p. 122). A experiência diz desse processo de uma transa­ Esse método cientifico não é exclusivo da academia, mas se a comunicação, entendida por Dewey como um mecanismo
ção continuada entre organismos e ambientes, por meio da qual revela na práxis humana, por meio da qual os membros de uma que viabiliza a compatibilização entre o singular e o coletivo.
a realidade é permanentemente elaborada e atualizada. Ainda sociedade testam hipóteses e soluções, sempre provisórias, para "Comunicar é o processo de criar uma participação, de tornar
comum o que era isolado e singular" (Dewey, 2010, p. 427). por transformações no campo da educação, como ele já colocava essencial para o próprio fortalecimento das capacidades indivi­
Na visão de Dewey, portanto, a democracia não se configura­ desde o final do século XIX. A educação precisava romper com duais da reflexão coletiva. Cinco anos mais tarde, em Liberalism
ria apenas como um sistema de governo, fazendo-se necessário alguns valores vigentes e promover a formação crítica, reflexiva and Social Action (1935), Dewey busca revisar a história do
compreender a ideia de democracia. Tal ideia não se confunde e cooperativa de sujeitos aptos à investigação social. Em School liberalismo, resgatando a centralidade das liberdades de inves­
com as instituições das democracias liberais, mas envolve uma and Society, palestra de 1899, Dewey critica as implicações a n ­ tigação, de discussão e de expressão em suas bases. Nessa obra,
aposta no autogoverno, viabilizada por uma sociedade que se tidemocráticas da sociedade industrial e a tendência da educa­ Dewey enfatiza que a liberdade não precisa ser pensada em
organiza a partir da liberdade, da igualdade de oportunidades ção formal de fortalecer o egoísmo. Em 1902, The child and the termos negativos, que o individualismo não é uma premissa
e da comunicação. A democracia seria, de acordo com Dewey curriculum questiona a dicotomia que perpassava os debates fundante do liberalismo, e que a falta de uma concepção histó­
(1954), o resultado da sustentação (moral e emocional) da i n ­ pedagógicos, ora focando na criança, ora no currículo (legado rica congelou o liberalismo, contestando suas próprias bases. A
terdependência fundante entre os membros de uma sociedade. social). A seu ver, ambas as posições reforçavam a oposição democracia requereria, assim, a reconstrucão, dos valores libe-
A ideia de democracia adviria da plena consciência de uma vida entre indivíduo e sociedade que dificultava a cooperação social. rais em nossa cultura, além de transformacões ' institucionais
comunal. Anos mais tarde, Democracy and Education (1916) organiza sua (Kadlec, 2007). Na contemporaneidade, ela requereria, ainda,
Para realizar essa ideia de democracia, uma comunidade polí­ reflexão inicial sobre educação e ressalta o papel da comunica­ o reconhecimento de que uma "economia socializada é o meio
tica deve manter públicos sempre vivos, engajando-os na tarefa ção na expansão da reflexividade social e na reconstrução da para o livre desenvolvimento do indivíduo, como fim" (Dewey,
(científica) de construção coletiva de soluções para problemas experiência. Essa reconstrução consistiria em uma ampliação 1970, p. 89).
concretos, que instauram rupturas na continuidade da experi­ da percepção de nossas conexões com os outros e da nossa capa­ Tanto em Liberalism and Social Action como em Liberty and
ência. O método da inteligência seria o caminho de realizacão cidade de transformar o mundo (Kadlec, 2007, p. 73). Culture (1939), Dewey evidencia a centralidade do conceito de
'
da democracia, requerendo uma práxis cooperativa por meio da Da mesma maneira que a educação, a estrutura econômica liberdade em seu constructo. É essa discussão que nos permite
qual o choque de posições e valores permite o teste de hipóteses. da sociedade precisaria ser revista, de maneira a não limitar, a destacar a rica contribuição do filósofo pragmatista para os d e ­
"A democracia é impossível se não há sensibilidade suficiente priori, a liberdade de muitos indivíduos. O questionamento do bates contemporâneos sobre liberdade de expressão, o que será
de grandes parcelas da sociedade às experiências problemáti­ capitalismo o leva a defender o socialismo econômico das guil­ desenvolvido na próxima seção. Por ora, esperamos ter eviden­
cas, e também se as investigações públicas acerca das possíveis das, que dependia do cooperativismo e da efetiva participação ciado que "Dewey foi um crítico voraz de seu tempo, atacando
resoluções de conflitos forem obstruídas" (Shook, 2002, p. 1 70). dos trabalhadores dentro das indústrias. Tal participação p o ­ as desigualdades econômicas, a intolerância racial, a opressão
A democracia deweyana está assentada nos valores da livre deria mudar os valores reproduzidos automaticamente nesses de gênero e, de maneira geral, o enfraquecimento do público ali­
investigação, livre discussão e livre expressão, que requerem espaços: mentado pelo economicismo tanto do capitalismo vigente como
ampla comunicação e tolerância à diversidade. A objeção primordial de Dewey à industrialização contestava a tendência que do socialismo real" (Mendonça, 2012, p. 123).
Tal acepção, como se nota, aposta nas capacidades dos indi­
a atividade industrial tem de especializar, individualizar e isolar a experiência
Se Gramsci teve a ousadia de dizer que o pragmatismo só
humana, bem como as restrições da industrialização quanto à possibilidade de
víduos, que Dewey percebe como umafé no ser humano. Para contribuiria para fundar associações conservadoras do estilo
compartilhar os bens na experiência genuinamente comum (Shook, 2002, p.
ele, a apatia, a competitividade e a desinformacão não eram Rotary, e Horkheimer o igualou a um instrumentalismo reacio­
' 166-7).
intrínsecas à natureza humana, mas socialmente gestadas por , nário, a leitura efetiva da obra deweyana evidencia que ambos
E no bojo de tais propostas que Dewey defende uma r a - se equivocaram e perderam a chance de dialogar com um efetivo
uma sociedade opressiva, desigual e pouco participativa. A d e ­
dicalização do liberalismo que volte às suas origens e se teórico da práxis (Shalin, 2011; Kadlec, 2007). Uma possível
mocracia teria, portanto, papel transformador alimentando o
liberte da carga capitalista e individualista que lhe teria sido explicação para esse equívoco é a ambivalência do marxismo
desenvolvimento individual e viabilizando formas mais com­
acrescida. Em Individualism Old and New (1930), Dewey res­ em relação à democracia e sua intolerância a pontos de vista a l ­
plexas de autorrealização, que levam em consideração a inter­
salta o equívoco de uma dicotomia entre indivíduo e sociedade, ternativos, além da frequente sujeição da liberdade a uma noção
dependência mútua entre os cidadãos.
relembrando o caráter social da configuração dos selves, como enfraquecida de igualdade. Não por acaso, anos mais tarde, H a -
A radical transformação social proposta por Dewey passaria
bermas (2002) admite ter sido convencido por Richard Berns­ dos bens e serviços, por meio de qualquer órgão político, pareceria a completa Além do fato de que a imprensa pode distrair com trivialidades a atenção
anulação de tudo por que estavam lutando. Crença semelhante ainda se ergue pública, ou ser u m agente faccioso, ou instrumento para inculcar ideias em
tein de que o pragmatismo era central para corrigir a fragilidade
com especial vigor, quando surge qualquer movimento, mesmo moderado, para apoio a interesses ocultos de um grupo ou classe (tudo em nome do interesse
democrática do marxismo. estabelecer o controle social dos negócios por ação política (Dewey, 1970, p. público); além disso, a realidade presente em todo o mundo é tal, a esse
147). respeito, que o indivíduo se sente esmagado e emocionalmente confuso ante
Liberdade, expressão e comunicação
a reverberação de uma publicidade sensacionalista de acontecimentos isolados
O delineamento das ideias de John Dewey deixa clara a cen­ O foco na proteção de indivíduos perante o Estado fortaleceria, (Dewey, 1970, p. 134).

' em sua obra. A comunicacão


tralidade da comunicacão ' é a base
nas vésperas da II Guerra, a ideia de que o totalitarismo seria o
da sustentação moral da comunidade, da atuação de públicos único inimigo das liberdades. Dewey pondera, contudo, que a De maneira bastante explícita, Dewey afirma que as condi­
e da condução das investigações sociais. A política democrática crença de que apenas essas coisas atuam para prejudicar a democracia impede-
ções econômicas em vigor limitavam o processo comunicativo
radical prescrita por Dewey é uma política comunicativa, que nos de nos pór em guarda contra as causas que podem estar operando para de que dependia o fortalecimento de públicos. Os meios de
permite aos membros de uma coletividade exercer conjunta­ minar os valores que, nominalmente, prezamos. Leva-nos até a não ver argueiros comunicação não promoveriam a livre expressão e o choque de
em nossos próprios olhos tais como nossos próprios preconceitos raciais valores, operando em uma lógica bastante distinta. Sobrecarre­
mente o pensamento reflexivo. (Dewey, 1970, p. 128).
gadas de informações (geralmente frívolas), as pessoas não par­
A comunicação é a chave para a capacidade cívica, e o contínuo enriquecimento
dessa capacidade é, por sua vez, a chave para gerar uma democracia significativa Além do racismo, Dewey salienta, entre os argueiros em ticipavam da construção e do teste de hipóteses necessários à
em que públicos flexivelmente interagem e indivíduos florescem no seio de suas nossos próprios olhos, as desigualdades e formas de dominacão'
democracia.
múltiplas e sobrepostas comunidades (Kadlec, 2007, p. 98, tradução nossa). geradas pelo capitalismo. Os desdobramentos econômicos que Polemicamente (e, curiosamente, em uma linha bastante se­
Se a comunicacão é fundamental à democracia e à autorreali- não foram previstos pelos pais fundadores dos Estados Unidos melhante àquela defendida pelos pensadores de Frankfurt),
'
zação humana, a liberdade de expressão se torna condição para haviam criado novas e severas limitações à liberdade humana. Dewey conclui com uma aproximação entre os perigos observa­
sua viabilização. A livre comunicação, calcada na publicidade, Entendendo que a liberdade se realiza na capacidade dos s u ­ dos nos Estados Unidos e aqueles dos países totalitaristas:
possibilita a pesquisa social permanente, reflexiva e moral. As­ jeitos (como seres sociais) de realizarem suas capacidades e A séria ameaça à nossa democracia não é a existência de Estados totalitários

segurar a liberdade de expressão torna-se, pois, essencial ao e n ­ de se autogovernarem, Dewey percebe que a forma de proprie­ estrangeiros. É a existência, dentro de nossas próprias atitudes pessoais e dentro

riquecimento da opinião pública e à sustentacão continuada da dade e de acumulação gerados pelo capitalismo inviabilizavam de nossas próprias instituições, de condições similares àquelas que deram vitória
' à autoridade, disciplina, uniformidade e dependência externas do Líder nos
comunidade moral. o florescimento humano. Se a liberdade é relativa às forcas ' países estrangeiros. O campo de batalha é também, consequentemente, aqui -
históricas opressivas, "Hoje [em 1935], significa libertar-se da
Para entender a defesa deweyana da liberdade de expres­ dentro de nós mesmos e de nossas instituições (Dewey, 1 970, p. 141 ).
insegurança material e das coerções e repressões que vedam as
são é preciso, antes de tudo, compreender sua concepção de Nesse contexto, Dewey advoga uma concepção de liberdade
multidões de participar dos vastos recursos culturais disponí­
liberdade, a qual se encontra detalhada em Liberty and Cul­ que não se define como a proteção do indivíduo em face da cole­
veis" (Dewey, 1970, p. 54).
ture (1939). Liberdade, para ele, não era apenas um princípio tividade. Mesmo porque, para Dewey, tal concepção apenas r e ­
abstrato, já que "questões de liberdade eram questões sobre a A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa recebem
atenção especial do filósofo. De acordo com ele, para os pais forçaria uma dicotomia equivocada. "A ideia de que a natureza
distribuição de poder" (Westbrook, 1991, p. 435). A liberdade é humana é inerente e exclusivamente individual é ela própria
coextensiva à igualdade uma vez que implica uma distribuicão fundadores dos Estados Unidos, "o inimigo da liberdade de i m ­
'
prensa era a censura e o controle oficial do governo; não previ­ um produto de um movimento cultural individualista" (Dewey,
de poder que permite o apropriado desenvolvimento de indivi- 1970, p. 114). Indivíduo e sociedade não podem ser pensados
dualidades no seio da sociedade. Por isso, Dewey advoga a n e ­ ram as causas não políticas que podiam restringir sua liberdade
nem os fatores econômicos que iriam dar um alto prêmio à cen­ separadamente.
cessidade de pensar a nocão' de liberdade dentro de contextos
tralização" (Dewey, 1970, p. 133). Percebendo a centralidade da No histórico do liberalismo feito por Dewey, em Liberalism
históricos específicos. Assim, quando a revolucão ' americana
comunicação para a investigação social democrática, incomoda and Social Action (1935), ele faz questão de questionar a asso­
ocorreu, o maior inimigo da liberdade era o governo:
a Dewey o fato de os meios de comunicação dedicarem-se ape­ ciação entre liberalismo e individualismo. Para ele, o primeiro
Para os pais fundadores da república, o controle da produção e da distribuição
nas a interesses econômicos e não ao fortalecimento do público: se assentaria em três valores: liberdade, desenvolvimento dos
indivíduos e papel central da inteligência e da discussão. O i n ­ E contesta o "velho hábito de defender a liberdade de pensa­ a sistemática obstrução desse debate revela uma forma de pri­
dividualismo não seria, pois, relevante ao liberalismo, mesmo mento e de expressão como algo inerente aos indivíduos, à parte vatização recorrente escamoteada por um discurso (raso) sobre
por se tratar de uma perspectiva que ignora a premissa básica e mesmo em oposição aos reclamos sociais" (Dewey, 1970, p. liberdade de expressão. Chama a atenção, portanto, a atualidade
da associação humana. De acordo com Dewey, a autorrealização 69). das análises deJohn Dewey para o contexto atual.
e o desenvolvimento dos indivíduos só são possíveis no interior A análise de Dewey deixa evidente a centralidade de uma A retomada do autor ajuda a compreender a liberdade de
do público e a partir do reconhecimento das transações que nos liberdade de expressão que não se conforme meramente com a expressão em uma chave distinta daquela pela qual ela é usu­
criam. liberdade liberal negativa, mas que viabilize a comunicação efe­ almente compreendida. Ela coloca a necessidade de um controle
A radicalização do liberalismo apregoada por Dewey passa, tiva. Assegurar a real e simétrica comunicabilidade era a chave público sobre um bem público de maneira a possibilitar que
portanto, pelo profundo questionamento do individualismo para a expansão da experiência e para o incremento da reflexi­ os próprios públicos possam existir. Esse ciclo virtuoso só pode
metodológico e pela centralidade da ideia de público. O libera­ vidade social. A ampla comunicação é que permite o choque e a ser assegurado à medida que os próprios meios de comunicação
lismo radical de Dewey é claramente republicano, cruzando as reconstrução de valores, por meio do qual emergem comunali­ se tornarem mais accountable, sendo objeto de discussão cole­
fronteiras da cristalizada dicotomia que opera no campo da t e ­ dades sem a supressão de singularidades. Eis a chave da teoria tiva. Nesse sentido, o que se defende não é um controle estatal,
oria política (Mendonça, 2012). Justamente por isso, Dewey d e ­ moral discutida por Dewey (1964). mas um controle público que poderia ser exercido, por exem­
fende a necessidade de regulação da liberdade de expressão e de A mídia - e Dewey fala especificamente sobre o potencial plo, pelos conselhos de comunicação que engatinham no país
controle público sobre os meios de comunicação. Como em toda do rádio no final dos anos 1930 - precisa ser, do mesmo sem a devida institucionalização de que necessitam. O Estado
a sua obra, é a centralidade do público que chama a atenção. modo que a terra e os meios de produção, usada em benefício tem papel importante, assim como as organizações da sociedade
Incomodado com a força da ideia de liberdade negativa, do interesse público. Esse argumento é explicitamente apre­ civil, os cidadãos ordinários e a própria academia - essa última,
Dewey afirmava que ela não poderia ser mais do que uma condi­ sentado pelo autor em Imperative need: a new radical party bastante distante do debate, com raras exceções.
ção para a efetiva liberdade, expressa na oportunidade de plena (1934). Assim, "Dewey não desejava conceder direitos privados O objetivo desse controle público sobre a comunicação não
realização das capacidades humanas. O Estado teria um papel invioláveis que limitariam o poder do Estado de proteger o seria assegurar que qualquer coisa possa ser dita - dada a
fundamental em assegurar a vivência dessa liberdade em um interesse público" (Westbrook, 1991, p. 305). Se, como já dis­ existência de direitos invioláveis individuais -, nem proteger os
sentido pleno: cutido, a democracia deweyana é impossível na insensibilidade falantes de qualquer crítica. Como já afirmava G. H. Mead em
O Estado é um organismo moral, de que o governo é um órgão. Somente pela da sociedade às experiências problemáticas e na obstrução das texto de 1917 (The Conscientious objector), o essencial é asse­
participação na inteligência comum e partilhando do propósito comum em seu investigações, nota-se que a falta de regulação da mídia pode gurar a todos o direito de serem ouvidos. Mais recentemente,
trabalho para o bem comum podem os seres humanos individuais realizar suas ter ambas as consequências. Crítico da privatização das oportu­ Dobson (2012) também argumenta que o foco na expressão aca­
próprias individualidades e se tomar verdadeiramente livres (Dewey, 1970, p.
nidades promovida pelos grupos economicamente dominantes, bou por negligenciar o que é mais essencial à democracia, que
34).
Dewey defende a regulação como modo de proteger a comunica­ é garantir o direito de ser ouvido. De nada adianta proteger a
O controle social sobre a produção de bens e de conhecimento ção pública e a liberdade de expressão. "liberdade de fala" se somente alguns a possuem ou se essa fala
seria essencial à democracia. Esse controle público - coopera­ não tem a menor possibilidade de afetar o processo por meio
Dewey e a contemporaneidade: à guisa de conclusão
tivo - deveria assegurar o "interesse da efetiva liberdade e do do qual uma coletividade se atualiza e se reconstrói. Entender a
desenvolvimento cultural dos indivíduos que constituem a s o ­ Logo no inicio deste texto, lembramos como a bandeira da liberdade de expressão contemporaneamente implica pensar a
ciedade" (Dewey, 1970, p. 59). Justamente por isso, parecia um liberdade de expressão é frequentemente agitada contra qual­ forma como os meios de comunicação podem fomentar fluxos
contrassenso a Dewey defender a liberdade de expressão apenas quer tentativa de discussão sobre a regulação dos meios de públicos de discurso que alimentem um processo em que todos
como modo de proteger alguns interesses. Irônico, ele afirma comunicação. Ainda que a imprensa preste um serviço público possam se fazer ouvidos na construção permanente do inte-
,
que "essa liberdade só é tolerada, quando não pareça de modo essencial à democracia, e que as emissoras de rádio e de tele­ resse público. E justamente o que Dewey propõe.
algum ameaçar o status-quo da sociedade" (Dewey, 1970, p. 68). visão sejam, literalmente, concessionárias de um bem público,
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l- Esse J de pesquisa intitulado A apropriação do pragma­


texto faz parte de um projeto
tismo pela teoria crítica, que recebe apoio da PRPq (Univers.1idade Federal1 de Minas
,. - ) . A essas instâncias, sou grato p e1lo financi-
Gerais) e do CNPq (Processo: 4761 30/2011 5
amento.
3. t4- o!Jiht�o /JÚPfic� f'Í6n,,ocr&tc� A referência à concepção de liberdade não é gratuita, pois o Recorro a três trechos retirados de uma obra ensaística do
tratamento atomistico da opinião pública está diretamente r e ­ poeta Octávio Paz sobre a identidade do povo mexicano, que
& � r/6{6:;�/JÚPfic� d'� fi/J&rd'� r/6
lacionado à compreensão liberal da liberdade como um direito ilustram bem as preocupações aqui discutidas. Eles estão o r ­
6,t!Jr&:;:;�o I pré-político e inscrito exclusivamente na esfera privada. Na ganizados no livro O labirinto da solidão e post- scriptum 4 e,
AnaPaolaAmorim contraposição elaborada pelo pensamento republicano, a liber­ embora não tratem especificamente do termo "opinião pública",
dade individual depende diretamente de sua defesa pública, tratam de questões diretamente relacionadas e ajudam a con­
relacionando-se com a capacidade de cada cidadão e cidadã par­ textualizar o tema.
A proposta deste breve ensaio é discutir a liberdade de ex -
ticiparem da elaboração das leis. O primeiro trecho é retirado do ensaio "Máscaras mexicanas":
pressão a partir da defesa de uma opinião pública democrática
A resposta apresentada neste ensaio segue as razões organiza­ Às vezes as fonnas nos sufocam (...) Poucas vezes a fonna tem sido uma criação
que se configure como uma expressão discursiva da soberania
das pela liberdade republicana com o objetivo de tentar compor original, u m equilíbrio atingido não às expensas de, mas sim graças à expressão
popular. Trata-se de uma lacuna na ciência política porque as
uma tradução possível para o conceito de opinião pública d e ­ de nossos instintos e vontades. Pelo contrário, nossas fonnas jurídicas e morais
questões relacionadas à opinião pública, em versões geralmente com frequência mutilam o nosso ser, impedem que nos expressemos e negam a
mocrática no qual a expressão dos pensamentos de um cidadão
agônicas herdadas das leituras liberais do conceito, foram as­ satisfação de nossos apetites vitais (p. 33).
ou de uma cidadã não signifique eliminação da opinião alheia,
similadas pelas teorias democráticas, mas não se pode dizer o
mas, sim, democratizar o espaço dessa expressão para que o O segundo está no ensaio "Todos os santos, dia de finados":
mesmo da incorporação das reflexões democráticas sobre as t e ­
outro ouça e seja ouvido e o público se forme incorporando as As grandes massas modernas são aglomerações de solitários. Nas grandes
orias de opinião pública. O resultado é que a relação entre liber­
particularidades de cada um e cada uma. ocasiões em Paris ou em Nova Iorque, quando o público se congrega em
dade de expressão e democracia fica comprometida por conta praças ou estádios, é notável a ausência de povo: veem-se casais e grupos, mas
das dificuldades de tratar um direito individual do ponto de Para isso, o argumento estará dividido em cinco partes. A nunca uma comunidade viva, onde a pessoa humana se dissolva e se resgate
vista de sua dimensão pública. primeira parte trata de justificar a importância do tema da opi­ simultaneamente (p. 46-47).
nião pública em relação às questões das teorias democráticas
O que prevalece nas leituras liberais do conceito de opinião O terceiro vem do Post-Scriptum:
contemporâneas e a identificar a origem liberal da concepção
pública é uma história de incompatibilidades. Começa pela es­
agônica do conceito nas abordagens que prevalecem na litera­ Se me perguntassem: poderão os Estados Unidos dialogar conosco? Eu
trutura do próprio conceito, tratando opinião (compreendida responderia: sim, sob a condição de que aprendessem a falar consigo mesmos,
tura da área. A segunda parte busca em Rousseau as bases para
como uma dimensão individual, particular) com o seu oposto, o com a sua própria "outridade": com os seus negros, com os seus "chicanos"
construir uma resposta republicana à concepção agônica de
público (coletivo).2 Essa mesma chave alimenta a visão descon­ e com seus jovens. Ter-se-ia de dizer alguma coisa parecida aos hispano­
opinião pública herdada do pensamento liberal. A terceira parte
fiada da opinião pública formulada por Tocqueville e Mill, 3 que americanos: a crítica do outro começa com a crítica de si mesmo (p. 199).
apresenta a proposta de formulação do conceito de opinião p ú ­
a coloca como inimiga da livre manifestação de pensamento e As três citacões
' estão relacionadas com reflexões sobre a
blica democrática, e a quarta parte discute as condições de sua
obstáculo ao desenvolvimento de subjetividades autônomas. identidade de um povo e a constituição de uma nação e, em
formação, indicando as relações entre opinião pública democrá­
O que se propõe neste ensaio não é negar a tensão entre o todas elas, a questão da comunicação pública está presente de
tica, soberania popular e liberdade de expressão. A quinta parte
coletivo e a subjetividade, mas propor outro caminho voltado uma forma ou de outra, sempre apontando para os perigos da
faz uma breve síntese do ensaio, indicando as contribuições
para se pensar no desafio de se elaborar as condições de uma falta de condição de diálogo. A primeira evoca o reflexo de uma
para uma nova reflexão em torno das relações entre política e
opinião pública democrática, buscando compreender as rela­ nação plasmada sem a manifestação da voz de seus cidadãos
comurucacao.
• N

'
ções de mútua configuração entre as duas dimensões (e não o e cidadãs. A segunda, retirada de um texto que fala das festas
da exclusão) que compõem a ideia de opinião pública. Isso sig­ 3 .1 Opinião pública: uma pauta para a democracia populares, busca encontrar uma qualificação para um público,
nifica propor uma revisão sobre o próprio conceito, considerá-lo A primeira questão que se põe é: por que falar em opinião p ú ­ sendo insuficiente a existência das praças quando não há o que
ainda aberto e em disputa, assim como está em disputa o pró­ blica e quais são as questões que esse tema traz para as teorias estabeleça a comunicação entre as pessoas que compõem este
prio conceito de liberdade. contemporâneas de democracia? grupo. A terceira apresenta o desafio do convívio com o outro, f a ­
zendo parte da própria constituição de si em uma situação ideal
na qual a formação de uma nação se faça diretamente associada nião pública herdadas dos fundamentos da tradição liberal. Da e outra, mas de como compatibilizar as liberdades por meio da
ao seu povo. desconfiança do racionalismo hobbesiano, 5 passando pelo e m ­ organização de Estados livres.
,
Em conjunto, essestrechos incorporam duas questões funda­ brião desenvolvido por Locke, chega a Tocqueville e Mill provo­ E, portanto, um exercício de desnaturalização do conceito de
mentais para a produção de identidade de um povo autônomo e cando impasses nas versões cívicas do liberalismo que acolhem liberdade que, ao contrário dos argumentos que predominam
ativo e que deveriam estar presentes nas principais discussões a necessidade de pensar a proteção da individualidade sem per­ no debate da comunicação, não é filha apenas (nem principal­
contemporâneas sobre democracia: a participação política e a der de vista a formação de uma comunidade política. mente) do liberalismo.
questão do outro no processo de nossa formação. Na discussão Essa desconfianca ' foi elaborada em um texto clássico de Esse exercício nos leva a pensar que o conceito de opinião
da opinião pública democrática é necessário que ambas sejam Benjamin Constant,6 no qual ele recorre à ideia atomistica de pública não é uma formulação exclusiva do iluminismo liberal,
vistas como questões diretamente relacionadas, pois não há construção da sociedade para desqualificar o conceito de l i ­ da mesma forma como é possível pensar na "liberdade antes (e
uma força política de uma opinião pública sem pensar no pro­ berdade republicana, relegada sob o título de "liberdade dos para além) do liberalismo". A referência de liberdade republi­
cesso de sua formacão.
' antigos". Assim, ele reforça uma razão que será atualizada por cana traz consigo uma forma distinta de organizar indivíduo,
No entanto, embora nas teorias democráticas liberais con­ Isaiah Berlin 7 na famosa oposição sobre a qual vai defender a público e Estado, elaborando outras questões em torno da opi­
temporâneas a opinião pública assuma uma força política, essa liberdade negativa (liberal) contra a liberdade positiva (repu­ nião pública.
mesma opinião pública é desacreditada pela fragilidade de uma blicana). Na razão estruturada por Berlin e Constant, a relação Nesse contexto, destacamos a contribuição de Rousseau para
concepção que a vê não mais do que uma soma de opiniões entre liberdade e autogoverno dos republicanos é tratada como a compreensão moderna do conceito de opinião pública9 a par­
pessoais. São formas fechadas de conceituar a opinião pública uma sobreposição da liberdade política sobre a liberdade indivi­ tir de uma argumentação republicana. A força das formulações
descrevendo-as exclusivamente como as "aglomerações de soli­ dual. Como consequência, o liberalismo inverteria essa lógica, e de Rousseau em torno da opinião pública decorre de sua pro­
tários" observadas por Octávio Paz. não restaria alternativa para proteger a individualidade da inde­ funda compreensão do papel social e político da linguagemI O e
A proposta de um conceito de opinião pública democrática vida intervenção política do Estado ou da opinião pública. de sua contribuição mais radical para a teoria democrática con­
convida a pensar nas condições que fazem com que as mas­ 3.2 Rousseau: base de uma resposta republicana à concepção liberal de temporânea: o conceito de soberania popular.li
sas modernas se configurem na solidão, mas também em como opinião pública
Isso acontece porque o conceito da opinião pública no pensa­
superar essa situação, identificando possibilidades de se cons­
Ao propor a discussão em torno do conceito de opinião pública mento de Rousseau deriva de sua compreensão de que a defesa
truir uma "comunidade viva, onde a pessoa humana se dissolva
democrática, o que se faz é elaborar um convite para pensar em da liberdade é feita a partir do público. O desafio na formação de
e se resgate simultaneamente", também como sugere o poeta.
outra solução a partir de uma releitura da herança republicana um Estado livre é manter íntegra a figura do indivíduo dentro da
Acontece que essa segunda parte da reflexão nem sempre está
que trata a liberdade como sinônimo de autonomia política e se figura do cidadão, garantindo que o corpo político seja capaz de
presente nas concepções agônicas de opinião pública que são
distancia da ideia de liberdade como propriedade pré-política de incorporar as individualidades.
hegemônicas na literatura sobre o tema.
indivíduos naturais. 8 Para Rousseau, a ideia de solidões perfeitas só existe no hipo­
A solidão que percorre o labirinto mexicano de Octávio Paz,
O republicanismo não é o elogio da virtude moral que se s o ­ tético e irrecuperável estado de natureza. O caminho sem volta
em forma de silêncio ou de não comunicação, atrela-se a um
brepõe à liberdade, como disseminada pela leitura jacobina da da socialização nos atrela ao fato de viver, para sempre, no olhar
liberalismo que faz a defesa da individualidade em oposição
república. Tampouco se apresenta como uma dicotomia entre do outro. Com isso, o genebrino não se esquiva de apontar o
ao outro, que representa uma constante ameaça à liberdade.
vida civil e subjetividade. A discussão da defesa pública da caráter heterônomo da socialização, pois essa tensão marca o
A subjetividade assim protegida em espaço de isolamento em
liberdade, nas variadas matrizes do pensamento republicano, surgimento da opinião pública como instrumento de promoção
relação ao outro gera uma sociedade de solitários. Mas não se
volta-se para discutir a tensão entre o indivíduo e o público na da coesão social. Mas essa mesma opinião pública acumula a
libera de impasses porque os mesmos solitários não vivem sozi­
formação da cidadania. Ao contrário do que disseminou a crí­ dimensão política de estabelecer controles ao exercício do poder,
nhos e a convivência com o público é quase um peso necessário.
tica liberal, não é uma questão de escolher entre uma liberdade pois, na república rousseauista, só são legítimas as leis aprova-
Esse princípio alimenta as concepções desacreditadas da opi-
das pela vontade geral e o cidadão é intimado a participar da lizar sua aplicação no presente. compartilhados capazes de instituir um campo de coesão para
vida política, pois, do contrário, perde a liberdade. As críticas de Habermas partem principalmente da resistên­ formar o corpo político. Mas a união desse corpo político não
No entanto, é necessário explorar as ambiguidades do pensa­ cia que Rousseau guarda das discussões públicas, alimentada pode significar uma unidade homogênea ou não cumpre a exi­
mento de Rousseau para perceber que a separação entre as duas pela profunda desconfiança na capacidade do homem comum gência de sua dimensão democrática. Por isso, deve incorporar
dimensões presentes em seu conceito de opinião pública não de participar da formulação das leis, que persiste mesmo no o atributo da pluralidade, pois o desafio é identificar o quanto
se trata simplesmente de dividir, de um lado, a opinião pública reconhecimento do papel da opinião pública como instrumento a generalidade é capaz de abrigar particularidades; isto é, a ela­
valorizada como mecanismo de controle político e, do outro, a para preservar a soberania popular dos abusos do executivo. boração dos valores comuns deve incorporar variadas opiniões,
instituição social que impõe regras e ameaça a liberdade i n ­ Mas as críticas não o impedem de recorrer aos princípios de de modo que cada cidadão ou cidadã se veja representado ou
dividual. Para Rousseau, a dimensão social não tem apenas o autogoverno e de soberania popular para propor uma teoria d e ­ representada no todo. O atributo da reflexividade diz respeito à
caráter passivo de submissão ao olhar do outro, mas vem com mocrática que resgate a participação cidadã nos processos de própria condição de formulação plural dos valores compartilha­
o desafio de construir condições de promover a autonomia no decisão e elabore uma resposta crítica às concepções elitistas de dos, pois se relaciona à necessidade de que os juizos elaborados
processo de formação da coletividade. democracia e também à concepcão pluralista de Robert Dahl. por cada cidadão e cidadã sejam orientados pela informação e
Na dimensão social da opinião pública encontra-se o ins­ 14 Ao valorizar a dimensão dis,cursiva da política, retoma a discussão públicas e não por imposições abstratas exteriores. 16
trumento necessário para formação de um ethos participativo, questão da opinião pública, mas também não alcanca , um con-
Democratizar a opinião pública não significa pensar exclu­
por meio da formação da identidade. Por sua vez, a força da ceito de opinião pública democrática e reproduz a divisão das sivamente em sua capacidade de fala. É necessário considerar
dimensão política da opinião pública depende fundamental­ versões agônicas do conceito: no campo político, uma opinião sua capacidade de escuta. Democratizar a opinião pública é, pri­
mente desse processo, pois diz respeito à formação do cidadão. pública fortalecida pela lógica racional dos procedimentos. Mas meiro, ensiná-l a a ouvir e tratar a fala como consequência da
E o cidadão não pode ser formado pela anulação de sua subjeti­ no social, reproduz a prisão solitária das individualidades i m ­ escuta, recepcionando um princípio da liberdade republicana
vidade, do contrário as leis não serão feitas de acordo com suas perfeitas que não chegam a formar uma opinião pública ..Ll. que sustenta a concepção de liberdade de expressão como a l i ­
paixões, e o resultado é a situação descrita por Octávio Paz de berdade de falar e ser ouvido.
3.3 Conceito de opinião pública democrática
formas jurídicas que sufocam. Essa argumentação trata a construção da voz cidadã como a
Rousseau deixa pistas da possível relação entre opinião p ú ­ O conceito de opinião pública democrática toma como base voz pública que se faz ouvir e estabelece direitos e deveres. A
blica com soberania popular, embora ele próprio não faça a concepção de Rousseau sobre opinião pública e dialoga cri­ escuta é, então, um dever que corresponde ao direito de falar e
esse caminho, em função de limitações de sua própria teo­ ticamente com as contribuições de Habermas. O objetivo é estabelece parâmetros para que o direito à fala não seja pretexto
ria. 12 No entanto, deixa uma inegável contribuição ao propor estruturar o caminho não percorrido por Rousseau, de forma para prejudicar ou impedir acesso de outras falas ao discurso
para a agenda política uma pauta que continua a percorrer as que permita aprofundar a via discursiva do republicanismo e público. Mas pode também ser interpretada como parte inte­
discussões democráticas contemporâneas: a necessidade de se relacionar a lei e a vontade geral em bases participativas. Essa grante dos direitos, tendo em conta que a livre manifestação da
estabelecer parâmetros públicos de defesa e promoção da subje­ concepção considera o princípio da liberdade como centro de opinião está articulada também às garantias de livre acesso às
tividade. organização da vida política, e remete à preocupação com a qua­ informações, ao conhecimento e à cultura.
lidade da representação dos interesses dos cidadãos na consti­ No liberalismo cívico de John Stuart Mill, a liberdade de
Na teoria democrática contemporânea, Habermas assumiu
tuição do interesse público. expressão é identificada como direito de audiência. Nessa pro­
um papel de destaque no resgate da dimensão discursiva da
política.11 Ele vai reconstruir uma Teoria do Discurso com base Nesse sentido, a opinião pública democrática se configura posta de formulação do conceito de opinião pública democrá­
na leitura que faz do conceito de soberania popular que busca como uma ordem normativa que torna pública a formulação de tica, essa compreensão é acolhida em diálogo crítico, propondo
traduzir para a atualidade conferindo a ela uma dimensão pro­ valores na vida política e social e que seja universal, plural e r e ­ uma leitura em chave republicana que volte atenção para as
cedimental. É a fórmula encontrada por Habermas para superar flexiva. O atributo da universalidade é necessário, uma vez que condições de formação da opinião pública democrática capaz de
o que percebe de pré-moderno no conceito de Rousseau e viabi- na opinião pública devem se expressar valores civilizatórios se constituir em condição de pluralidade.! 7
O objetivo é que o conceito de opinião pública democrática se 1 ) o primeiro relaciona-se às condições de representação política; é a oferta de uma estrutura privada, por si amparada pela defesa
forme aberto à ampliação do público, indicando uma percepção 2) o segundo, às condições de proteção e promoção do discurso público. da livre iniciativa, que combate a instrumentalizacão
' estatal da
do papel do Estado distinta daquela que é formulada tendo por No primeiro grupo, estão reunidas as condições de participa­ opinião pública, mas é a organização pública do sistema de ex-
referência o fundamento das variadas tradicões
, liberais, na m e - ção popular como mecanismos de materialização da opinião p ú ­ ploração como um todo.
dida em que se reconhece e se explora a relação de tensão entre blica, equivalendo a mapear as condições de que as vozes dos c i ­ 3.5 Considerações finais
público e privado, entre indivíduo e Estado, sem, contudo, tratá­ dadãos e das cidadãs sejam ouvidas e tenham efeito. Quanto aos
las como oposição ou esferas inconciliáveis. mecanismos de fortalecimento da representação democrática, O conceito de opinião pública democrática se ampara na
Participar da voz pública é o próprio exercício da liberdade. há que se considerar as formas de promoção da pluralidade e da concepção da liberdade de expressão como fundamento da d e ­
Pois não há cidadão ou cidadã livre sem que tenha a liberdade diversidade das próprias instituições representativas e também mocracia, considerando comunicação e política como campos
de se expressar e participar desse discurso público. Ao mesmo a promoção de instituições participativas, com mecanismos inter-relacionados. Isso implica a revisão do conceito de mídia,
tempo, não há condições de autogoverno sem autonomia pri­ de democracia direta que funcionem como complemento e r e ­ que passa a ser considerada, em visão ampliada pelo contexto
vada de cada cidadão e cidadã. forço da representação, garantindo, com isso, proteção do amplo da comunicação pública, como questão central das teorias d e ­
exercício da soberania popular. Contribuem para aumentar ou mocráticas, reforçando um papel político que nem sempre é a d ­
A defesa da autonomia do cidadão e da cidadã está para a sobe­
diminuir a dimensão democrática da formação da opinião p ú ­ mitido pela concepção liberal de mídia.
rania popular assim como a proteção da liberdade de expressão
está para a opinião pública democrática. Ambas as equações blica: a) o sistema partidário; b) o sistema de financiamento de Esse papel político da mídia - ou das mídias, a considerar a
guardam relação de complementaridade entre si. A soberania campanha; c) os mecanismos de participação popular e d) os necessidade de se pensar na articulacão
, das esferas comunica-
popular deve ser vista como a sustentação pública da liberdade mecanismos de representação. tivas - pode ser compreendido à luz da discussão que explora
individual, pois se o exercício da cidadania exige condições de O segundo grupo considera as possibilidades objetivas de pre­ a dimensão discursiva da democracia articulando linguagem
liberdade, a existência de cidadãos e cidadãs livres depende d i ­ servar as condições de autonomia de vozes que compõem o e poder. Na gramática republicana, implica investigar os m e ­
retamente de uma organização cívica estruturada em simetria discurso público e que devem se orientar pelo reconhecimento canismos de dominação e estabelecer condições para que eles
de direitos e deveres. Da mesma forma, o direito à liberdade de do estatuto público da comunicação. Aqui podemos identificar sejam combatidos. Implica ainda reconhecer que toda comuni­
expressão carece de seu amparo público, uma opinião pública dois subgrupos de requisitos: 1) os instrumentos de proteção e cação se estabelece dentro de relações políticas e que toda ação
democrática que seja capaz de fazer ouvir a pluralidade de vozes promoção da liberdade de expressão e 2) os critérios de organi­ política se concretiza em práticas comunicativas.
que se formam na sociedade e que, por sua vez, requer garantias zação do sistema de mídia. No primeiro subgrupo, encontram­ Com isso, a opinião pública democrática se apresenta como
para que todos e todas tenham condicões
, de manifestar critica- se os mecanismos de interdição da censura, os de proteção ao uma proposta para resgatar um sentido de comunidade viva
mente seus próprios juízos. discurso público (incluindo-se aí proteção ao direito de resposta na qual "a pessoa humana se dissolva e se resgate simultanea­
A opinião pública democrática torna-se, assim, uma base dis­ e criminalização do discurso de ódio), proteção à intimidade mente", voltando às citações de Octávio Paz. E que seja o espaço
cursiva da soberania popular, e a liberdade de expressão, prin­ e direito de acesso à informação pública. No segundo, encon­ de construção e promoção dos diálogos construtivos, no qual o
cípio constitutivo da própria condição de autonomia do cidadão tram-s e os instrumentos de protecão ' contra concentracão
' de encontro com o outro permita a "crítica de si" e promova a aber­
e da cidadã. Não são conceitos autônomos, mas inter-relacio­ propriedade de mídia e a instituição de regras públicas para tura para a "outridade" que constitui a nossa subjetividade. A
nados e que, para se estruturarem, dependem das condicões de exploração do serviço de radiodifusão. O reconhecimento do es­ esperança é superar um estado de solidão que nos prende em
'
uma comunicação pública democrática. tatuto público da comunicacão ' deve ser observado de modo a labirintos para que o interesse público seja formado respeitando
evitar contradições entre um serviço público explorado por um nossos mais autênticos desejos.
3 .4 As condições de formação de uma opinião pública democrática
sistema privado. Isso não significa interditar a exploração do REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Assim configurada, a opinião pública democrática depende de setor de comunicação por empresas privadas, mas a relação c o ­
BERLIN, 1. "Dois Conceitos de liberdade". ln: _ _. Quatro ensaios sobre a
requisitos que se organizam em dois grandes grupos: mercial deve ser submetida a critérios públicos. Isso porque não liberdade. Brasília: Editora UnB, 1981 (e 1969).
CONSTANT, B. Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos. Tra­ listas. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. habermas-i 1ana do concei to de soberania popular e.stá em HABERMAS (1 989). As bases dessa

discussão vão ori entar a Teori a do Agi r Comunicati vo, cuJas base.s são de.senvol vi das mai ILs_
dução de Loura Silveira. Traduzido da edição dos textos escolhidos de WOLIN, S. S. Politics and Vision. Continuity and innovation in Western Po­ j
detal hadamente em HABERMAS (1997).
Benjamin Constant, organizada por Marcel Gauchet, intitulada De la lítica/ Thought. Expanded Edition. Princenton University Press, 2006
1 4. Para Habermas, o model o liberal plural ista não avança em rel ação aos el iti stas porque
liberté chez les modernes. (Le Livre de Poche, Collection Pluriel. Paris, (c. 1960).
transfere o aspecto competi ti vo dos indi víduos para organi zaçõe.s soci ai s. Sua preocupação é
1980). s/d. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/-luarnaut/ -. -.
pensar um model o democráti co que possa re.sgatar a parti ci I'pação ci dadã nos proce.ssos de
1 . Este ensai o integra, de forma disti nta, as reflexõe.s de outros doiILs trabal hos: o li vro, ..
Constan t l_ iberdade.pdf>. deci são.
e.scri to em coautori a com o profe.ssorJuarez Guimarãe.s, inti tulado Acorrupção da opinião
DERATHÉ, R. Rousseau e a ciência política de seu tempo. São Paulo: Dis­ pública: ensaios republicanos em defesa da liberdade de expressão (no prel o) e a tese 1 5. Habermas faz uma disti nção entre opinião pública, opinião não pública e opinião quase
curso Editorial: Editora Barcarolla, edição brasileira,da 2ª ed. francesa, defendida no OCP/UFMG inti tulada "Opinião pública democráti ca e soberania popular: por pública. Cf. HABERMAS (2009 (1961 ]). Essa é a edição espanhola de Mudança Estrutural
2009. um paradi gma republicano da liberdade de expre.ssão'', sob ori entação do profe.ssorJuarez e da Esfera Pública, que recebeu o título de Historiay crítica de la opinión pública.

GANOCHAUD, C. "Opinion Publique et changement social chezJean-Jac­ co-ori entação do profe.ssor Veníci o de li ma. A el e.s sou agradecida pel a ampla interl ocução
11 - - 1 .§. Cf. Juarez GUIMARÃES e Ana Paola AMORIM (op. cit.).
que tem me permiti do avançar no tema. 1 7. Mill trabal ha a liberdade de pensamento e discussão em On Liberty, de.screvendo- a como
ques Rousseau". Revue Française de Science Politique. A. 28, n. 5, 1978,
J. Para revi l-,são do conce.!i to de opinião pública como herança liberal , cf. MATEUS (2008). direi to de ter ace.sso aos vári os pontos de vi sta de um assunto público. Cf. 01ROURKE(op.
p. 899-924
J. As referências uti li zadas aqui são: 1 ) TOCQUEVILLE (1973 (1835]), Mlll (2000 cit.).
GUIMARÃES,].; AMORIM, A. P. A corrupção da opinião pública: Ensaios re­
(1859]). Sobre a influência de Tocquevi lle na concepção de Mill sobre a indi vi dual idade, cf.
publicanos em defesa da liberdade de expressão (no prelo). O'ROURKE (2001 ).
GUNN, J. A. W. "Public Opinion". ln: BALL, T.; FARR, J.; HANSON, R. R. �- PAZ (1984).
(orgs.). Política/ innovations and conceptual change. Cambridge Univer­
�- A referênci a hobbe.s·-i 1ana no fundamento do liberal I,i�smo pode ser conferi da em SKINNER
sity Press, 1989,p. 247-265. (1999, 201 O) e WOLIN (2006 (1960]).
HABERMAS, J. "La soberania popular como procedimiento". Cuadernos §. A v ersão utilili1.zada é a tradução de loura Si lvei ra, em CONSTANT (s/d).
políticos. N. 57,maio-agosto, 1989,p. 1-32. Z- BERLIN (1981 (1969]).
_ _ . Direito e democracia: Entrefacticidade e validade (2 v.). Rio de J a ­ J!.. Cf. HONOHAN (201 O).
neiro: Tempo Brasileiro, 1997.
.2_. Habermas, em Mudança Estrutural da Esfera Pública, afirma que o genebri no foi o
_ _ . Historiay crítica de la opinión pública: la transformación estructu­ pri mei ro a utit,li1zar o termo «opinião pública1', em 1750 (Discurso sobre as ciências e as
ral de la vidapública. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2009 (c. 1961). artes), em seu senti do moderno, enfati zando ne.l �e a concepção políti ca. O histori ador J.
HONOHAN, I. Civic Republicanism. Nova York: Routledge, 2010. Gunn (1989), ao de.screver a trajetór JI i a do concei to de opinião pública na França e na
Ingl aterra, identi fica referências literai Ls do termo l'opinion publique por Montai gne, em
MATEUS, S. "A estrela (De)Cadente: uma breve história da opinião pú­
blica". Estudos em Comunicação. N. 4, nov/2008, p. 59-80.
'
1580. Ele lista outras referênci as- ao termo, anteri ore.s à data indicada por Habermas, e
faz um levantamento sobre as polêmicas em torno da rel evância do con unto de opiniõe.s
j
MILL, J. S. A liberdade (1859) - Utilitarismo (1861). São Paulo: Martins pri j,vadas na organi zação da vi da políti ca. No entanto, admite o pionei ri smo de Rousseau
º

Fontes, 2000. no de.senvol vi mento de uma concepção políti ca de opinião pública. Embora cons-i �dere
NASCIMENTO, M. M. Opinião Pública & Revolução: Aspectos do discurso equi vocado creditar ao genebri no a introdução do termo na literatura, Gunn reconhece
como inovadora a abordagem rousseauísta.
político na França revolucionária. São Paulo: Edusp, 1989.
1 O. A concepção políti ca de linguagem em Rousseau é tratada por STAROBINSKI (2011 ).
O'ROURKE, K. e.John Stuart Mill and Freedom of Expression: the genes is
Para o concei to de opinião pública em Rousseau, cf. 1 ) GANOCHAUD (1978) e
ofatheory. Nova York: Routledge, 2001. NASCIMENTO (1989).
PAZ, O. O labirinto da solidão e post- s criptum. Rio deJaneiro: Paz e Terra,
1 1 - A compreensão da opinião pública de Rousseau, cons-i1derando suas dimensõe.s políti ca
1984. e soci al , é uma que.stão central na te.se «opinião pública democráti ca e soberania popular:
SKINNER, Q. Hobbes e a liberdade republicana. São Paulo: Editora Unesp, por um paradi gma republicano de liberdade de expre.ssão1' (ci t.). Ne.sse trabal ho, o papel
2010. políti co da opinião pública de.scri to em O Contrato Social é discuti do à luz da sua
compreensão de linguagem a parti r das obras: Discurso sobre a origem e osfundamentos
_ _ . Liberdade antes do liberalismo. São Paulo: Editora Unesp, 1999.
das desigualdades entre os homens; Ensaio sobre a origem das línguas; Carta a
SPÉCTOR, C. Au prisme de Rousseau: usages politiques contemporains. Ox­
d'Alembert.Cf., ai nda, GUIMARÃES E AMORIM (no prel o).
ford, Voltaire Foundation, 2011.
1 2. As limitaçõe.s da teori a de Rousseau referem-se aos traços jusnatural istas de sua teori a,
STAROBINSKI, J. Rousseau e a origem das línguas. ln: _ _ .Jean-Jac- que faz com que o proce.sso de de.snatural ização para formação do pacto não seja completo,
ques Rousseau: A transparência e o obstáculo. Seguido de Sete Ensaios e à excl 1usão
- das mulheres da vi da políti ca. Cf. GUIMARÃES e AMORIM (op. cit.). Sobre o
sobre Rousseau. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. diál ogo críti co de Rousseau com os jusnatural istas, cf. DERATHÉ (2009).

TOCQUEVILLE, A. de. "A democracia n a América ( 183 5)". ln: Os Federa- 1 3. Para a lei tura de Rousseau por Habermas, cf. SPÉCTOR (2011 ). A discussão
linha fina que vincula a possibilidade da liberdade de expressão isso, é preciso fazer o diálogo, profundo e antidogmático, entre
à formacão
' das condicões
' de uma opinião pública democrática. republicanos e liberais cívicos, entre marxistas libertários e h u ­
Já está posto, desde Rousseau, o axioma da mútua configuração manistas cívicos, entre as tradições críticas e os pragmatismos
entre a autonomia individual e o princípio da soberania popular insurgentes, entre as tradições discursivas e deliberativas e as
Juarez Guimarães
que estabelece a fundação democrática das leis fundamentais virtudes cívicas da participação cidadã. Se hoje há Babel, há
que organizam o corpo político legitimo. Só é livre aquele que também, no horizonte, a formação potencial de uma linguagem
1. Mais do que um colóquio interdisciplinar, do que repor a participa da decisão sobre as leis que fundamentam o nasci­ comum, plural e sintética, da liberdade. Definitivamente, não
conversa entre dois saberes afins, mas ciosos de sua própria mento do corpo político. Mas ainda não está firmado o sen­ há um caminho só para a liberdade, a harmonia não pode abrir
autonomia, trata-se de fundar um campo teórico, uma reflexão tido público da liberdade de expressão individual e a dimensão mão do conflito, o que é comum não pode prescindir do singular
fundamentada em conceitos que não "cisionem" mais a política discursiva da formacão da vontade geral. Por essa linha fina, e a ética pública da linguagem livre só pode ser solidária à ética
'
da comunicação e a comunicação da política. Essa opção - es­ quanto mais democrático for o processo de formação da opinião pública do pensamento livre.
tabelecida a consciência incontornável desse caminho - não é pública maior será o campo da autonomia, quanto mais amplo 6. Essa disposição radical de pensar o político na linguagem
apenas mais um atalho metodológico, mas a própria formação for o campo da "autorreflexividade" maior será a potencialidade e o fundamento político da comunicação abre novos campos
da linguagem da liberdade que reclama essa mútua fundação democrática da formação da opinião. de investigação sobre fenômenos que assolam a aventura d e ­
entre política e comunicação. Afastar a comunicação da política 4. Por esse caminho, funda-se ao mesmo tempo uma pro­ mocrática na contemporaneidade. A crise de representação dos
é silenciar ou tornar inaudiveis as vozes que estão na gênese da blemática de sentido universal - a liberdade de expressão na partidos nas democracias contemporâneas é decerto irmã sia­
liberdade, e afastar a comunicação do sentido público da polí­ gênese e na possibilidade da liberdade - e a singularidade irre­ mesa de impasses estruturantes na formação de uma opinião
tica é alienar a comunicacão
' dos fundamentos democráticos de
, . dutível de cada manifestação dessa problemática no tempo e no pública democrática. Se o direito ao voto centralizou as lutas
seu exerc1c10. espaço, as condições históricas da formação da liberdade de ex- democráticas de meados do século XIX a meados do século XX,
2. A fundação desse campo teórico reflexivo e a construção pressão de cada um ou cada uma e da formação de uma opinião hoje, no século XXI, é o direito público à voz - o direito de
desses conceitos sintéticos demandam a linguagem geral da pública democrática. Por essa via, comunica-se a tradição e a falar e ser ouvido - que parece dramaticamente ir ao centro da
filosofia política para além dos dialetos científicos "departa­ inovação, somos gregos e romanos, filhos do humanismo, mas agenda democrática contemporânea. Sem o direito democrático
mentalizados" e suas subtrad icões.
' É a filosofia política com a também cada vez mais "internáuticos". Não se trata de antepor à voz pública, é a própria liberdade que assume uma condição
sua disposição de conhecer o que ainda não se sabe, com a cons- • •
o clássico ao moderno ou ao contemporâneo, muito menos de agoruca.
ciência de suas próprias indeterminações e suas aberturas de ceder à tentacão
' de dissolver a sabedoria clássica em rede, mas 7. Se a estatização da formação da opinião pública - a r e ­
sentido que pode fundar um campo reflexivo capaz de expressar de nos assumirmos em uma grande narrativa de nossa autofor- pressão à liberdade de expressão em nome da ortodoxia de um
a grande aventura humana da liberdade. O cidadão e a oratória, macão
' em liberdade. Assim, a reflexão teórica pode se alimentar fundamento da ordem, a legitimidade da censura oficial como
a parresia e a isegoria, a política e o sofista, a política e o dema­ da pesquisa empírica e historicamente circunstanciada, e esta autoposta pelos fundamentos autocráticos da própria ordem
gogo, a fala pública que instaura a questão da autoridade e do deve ser formulada nos quadros de uma investigação concei­ política, a narrativa histórica das brutais perseguições às vozes
juizo, que produz a possibilidade da maioria e até do consenso, tua!. heréticas - constitui a pré-história da liberdade de expressão, a
que conduz o conflito visceral e ineludivel à sua possível insti­ 5. Esse campo reflexivo, pela ambição de seus propósitos e por sua história contemporânea parece se centralizar no fenômeno
tucionalização. Se a gênese da liberdade está - a lição definitiva sua ampla temporalidade de pesquisa, deve recusar o caminho da sua corrupção, isto é, da sua privatização mercantil, da
de Maquiavel - no conflito que dilacera o corpo político, o seu de fazer de uma escola de pensamento uma identidade avessa sobreposição das vozes particularistas, mas poderosas em d e ­
nascimento instaura o coro das vozes públicas e a sua perma­ ao diálogo livre. A liberdade de expressão requer a faculdade trimento das vozes cidadãs instauradoras do interesse público.
nência cobra a formação da opinião pública democrática. de pensar a alteridade sem aderir aos sincretismos, à mera jus­ o público não pode ser o mercado, a desigualdade estrutural r e ­
3. Talvez o eixo estruturante desse campo reflexivo esteja na taposição ou combinatória de elementos diversos entre si. Por produz o bem chamado "efeito silenciador do discurso", a hete-
ronímia e a autocracia se reproduzem ali onde o direito público
à voz não se faz cidadão.
8. Por tudo isso, há que se instaurar publicamente entre nós o
debate sobre o que é liberdade de expressão em nome mesmo da
própria expressão da liberdade. Aqui e agora se insere esse pri­
meiro colóquio sobre liberdade de expressão: não se pode querer
manter a cultura do silêncio de um povo - para falar como
Paulo Freire e Venício Lima - em nome de um autoatribuido
direito de falar por todos. Pois, se já não é possível silenciar as
mulheres - é preciso afastar de vez o dito machista de que elas
são faladeiras, pois sempre foi exatamente o contrário disso que
se produziu- será que ouvimos já a sua fala livre? Se os que tr a ­
balham já se representam por muitos partidos na política, o que
se conversa mesmo nas fábricas, nos campos, nas construções?
Não sabemos. Se os negros e os pardos, os favelados já têm o d i ­
reito à imagem na televisão, ainda não ouvimos bem suas vozes
próprias, mas sim os sons de tiros que continuam a vitimar os
jovens pobres brasileiros da periferia. Se os índios já têm seus
direitos gravados na Constituição e já não estão ameaçados de
extinção, será que é necessária a ameaça de um suicídio coletivo
para serem ouvidos em sua dignídade? Vencida a fome, parece
ser a hora de superar o duro patronato dos que obstinam, por
serem donos da voz, em ser donos do poder.
midia, pretendo argumentar que o Estado não é o único censor. Bem sabem os que sabem a língua latina, que [a] palavra infans, infante, quer
dizer"o que não fala". Nesse estado estava o menino Batista, quando a Senhora
Muitas vezes, nem sequer o censor mais atuante. E, mais ainda,
o visitou, e neste esteve o Brasil muitos anos, que foi, a meu ver, a maior ocasião
muitas vezes o Estado pode e deve ser o garantidor da liberdade de seus males. [...) O pior acidente que teve o Brasil em sua enfermidade foi o
de expressão, vale dizer, da ausência de censura. 2 tolher-se-lhe a fala: muitas vezes se quis queixar justamente, muitas vezes quis
VenícioA. de Lima
Por óbvio, existem vários tipos de censura e diferentes censo­ pedir o remédio de seus males, mas sempre afogou as palavras na garganta, ou

res. o respeito, o u aviolência; e se alguma vez chegou algum gemido aos ouvidos de
Desde a Grécia antiga, a igualdade perante a lei e a liberdade de quem o devera remediar, chegaram também as vozes do poder, e venceram os
Há um tipo de censura, por exemplo, que atinge a liber­
expressão constituem a base da democracia. A professora Mari­ clamores da razão.

lena Chauí tem reafirmado que uma das características funda­ dade da imprensa e decorre da própria estrutura do mercado
das empresas de midia. Esse fato vem sendo reconhecido Para Vieira, portanto, o maior dos males do enfermo Brasil era
mentais da democracia é constituír uma ter sido mantido no mesmo estado do infans, infante, isto é, sem
desde a década de 70 do século passado pelo chamado PICA­
forma sociopolítica definida pelos princípios da isonomia (igualdade dos
Index (Press Independence and Critica! Ability) que registra a fala, sem voz.
cidadãos perante a lei) e da isegoria (direito de todos para expor suas opiniões,
vê-las discutidas, aceitas ou recusadas em público). (Nesta forma sociopolítica], independência e a capacidade crítica da midia. O PICA-Index Quatro séculos depois, o grande educador Paulo Freire parte
todos são iguais porque livres, isto é, ninguém está sob o poder de outro, incluiu entre seus indicadores as "restricões
, econômicas" e n - exatamente desse sermão de Vieira para identificar uma carac­
uma vez que todos obedecem às mesmas leis das quais todos são autores tendidas como consequências da concentração da propriedade terística dominante da formação histórica brasileira que chama
(diretamente, numa democracia participativa; indiretamente, numa democracia ou de problemas que decorram da instabilidade econômica das de "cultura do silêncio". Ele sustenta que os séculos de coloni­
representativa) (Chauí, 2012).
empresas jornalísticas. Por outro lado, o próprio Press Freedom zação portuguesa resultaram numa estrutura de dominação à
Admitida essa conceituação de democracia, pergunto: a a u ­ Survey, publicado anualmente pela ONG Liberal Freedom House, qual corresponde uma totalidade ou um conjunto de represen­
sência de voz e de participação - vale dizer, a ausência de isego­ trabalha com uma definição de liberdade da imprensa que i n ­ tações e comportamentos. Esse conjunto de "formas de ser, pen­
ria - poderia ser identificada como uma forma difusa de censura clui variáveis econômicas. Vale dizer, considera que restrições sar e expressar" é tanto um reflexo como uma consequência da
decorrente da estrutura de poder em determinada formacão , so- à liberdade da imprensa podem decorrer de fatores econômicos estrutura de dominacão. '
cial? alheios à interferência do Estado (Holtz-Bacha, 2004). A cultura do silêncio caracteriza a sociedade a que se nega a
O Parágrafo segundo do artigo 220 do capítulo sobre a Comu­ Registre-se que a censura da palavra, da expressão, é muito comunicação e o diálogo e, em seu lugar, se lhe oferecem "co­
nicação Social de nossa Constituíção reza: "É vedada toda e qual­ anterior à existência não só de Gutenberg - vale dizer, da possi­ municados", vale dizer, é o ambiente do tolhimento da voz e
quer censura de natureza política, ideológica e artistica". bilidade de imprimir - como é também anterior à existência da da ausência de comunicação, da incomunicabilidade. Mas não
Descarto, preliminarmente, o que tem sido chamado de "cen­ instituíção que passou a ser conhecida como "imprensa" e que basta ter voz porque o "mutismo" da cultura do silêncio- insiste
sura judicial" ou "censura togada" por compartilhar a posição hoje chamamos de "midia". Freire republicanamente - "não significa ausência de resposta,
expressa pelo ex-ministro Eros Grau em julgamento no S u ­ No caso brasileiro, a censura como ausência de voz e de parti­ mas sim uma resposta que carece de criticidade". Na verdade, é
premo Tribunal Federal quando afirmou: "O juiz está limitado cipação tem sido identificada desde a primeira metade do século necessário que essa voz expresse uma opinião cidadã formada
pela lei. O censor não. É descabido falar em censura judicial. XVII. livremente e que ela seja ouvida no espaço de deliberação p ú ­
Não há censura. Há aplicação da lei. A imprensa precisa de uma blica e autogoverno (Lima 2011c e 2011b).
Para descrever a situação em que se encontrava o "Estado do
lei" (RCL 9428). Brasil" nesse período, o pregador jesuíta Padre Antonio Vieira Não seria a cultura do silêncio uma forma histórica de cen­
Pergunto, então: de onde parte a censura? Quem são os censo­ saúda o recém-chegado vice-rei, Marquês de Montalvão, com sura na medida em que sonega de boa parte da população a
res? um de seus famosos sermões, o da "Visitacão de Nossa S e - isegoria, isto é, a liberdade fundamental de se expressar e parti­
,
nhora", proferido no dia 2 de julho de 1640. Vieira recorre ao cipar do debate público democrático?
Estado como garantidor de direitos
Evangelho de Lucas e descreve um quadro sombrio da Terra de A questão da liberdade
Contrariamente ao "eixo discursivo" dominante na grande Santa Cruz. Afirma ele:
Para responder a essa questão, há de se fazer uma distin­ trói a partir do século XVII na Inglaterra, depois como reação de expressão - Estado, regulação e diversidade na esfera pública -
çãofundamental, embora de maneira muito simplificada, entre conservadora à Revolução Francesa, e se consolida no século publicado originalmente em 1996, introduz o conceito de "efeito
duas noções de liberdade, uma na tradição liberal e outra na tr a ­ XIX em complemento à ideia de mercado livre, isto é, à liberdade silenciador do discurso" quando discute que, ao contrário do
dição republicana.3 privada de produzir, distribuir e vender mercadorias. que apregoam os liberais clássicos, o Estado não é um inimigo
A liberdade é um elemento pervasivo no pensamento m o ­ São tradições distintas: uma se origina em Atenas, passa por natural da liberdade. O Estado pode ser uma fonte de liberdade,
derno. Ela é parte intrínseca da história do que chamamos m o ­ Roma e se filia modernamente a pensadores como Maquiavel, por exemplo, quando promove
dernidade e tem dominado o pensamento ocidental nos últimos Milton e Paine. A outra a Hobbes, Locke, Benjamin Constant e, a robustez do debate público em circunstâncias nas quais poderes fora do

dois ou três séculos. No mundo bipolar da Guerra Fria, a liber­ mais recentemente, a Isaiah Berlin. Estado estão inibindo o discurso. Ele pode ter que alocar recursos públicos -
distribuir megafones - para aqueles cujas vozes não seriam escutadas na praça
dade serviu como argumento central na batalha ideológica do Embora ambas as tradicões reconhecam nominalmente a l i -
, ' pública de outra maneira. Ele pode até mesmo ter que silenciar as vozes de
Ocidente contra o Oriente (Nordenstreng, passim). A liberdade herdade de expressão (isegoria) como fundamental para a defi- alguns para ouvir as vozes dos outros. Algumas vezes não há outra forma (p.
talvez seja o valor mais invocado do mundo contemporâneo, nição da democracia, elas divergem radicalmente sobre o papel 30).
apesar de entendido nas mais variadas maneiras (Honohan, que o Estado desempenha em relação a essa liberdade.
passim). Fiss usa como exemplo os discursos de incitação ao ódio, a
Na tradição liberal, o Estado deve abster-se totalmente de pornografia e os gastos ilimitados nas campanhas eleitorais. As
Na perspectiva liberal, prevalece o caráter p r é p- olítico e pri­ qualquer interferência em relação à liberdade de expressão dos vítimas do ódio têm sua autoestima destrocada;
' as mulheres se
vado da liberdade. Entende-se a liberdade como se ela pudesse cidadãos. Na verdade, a liberdade de expressão é considerada transformam em objetos sexuais, e os "menos prósperos" ficam
ser desvinculada da política e como um direito formado exclu­ uma proteção do indivíduo em relação ao Estado cuja interfe­ em desvantagem na arena política.
sivamente na esfera privada. A versão mais conhecida dessa rência é entendida como cerceamento da liberdade individual,
perspectiva é a que reduz a liberdade somente à ausência de i n ­ Em todos esses casos, "o efeito silenciador vem do próprio
como uma forma de censura.
terferência externa na ação do indivíduo, a chamada liberdade discurso", isto é, "a agência que ameaça o discurso não é Es­
Na tradição republicana, ao contrário, a liberdade de expres­ tado". Cabe, portanto, ao Estado promover e garantir o debate
negativa. são é entendida como liberdade de deliberacão em nome do inte-
' aberto e integral e assegurar "que o público ouça a todos que d e ­
Já na perspectiva republicana, prevalece a ideia de liberdade resse público. Nas democracias, a intervenção do Estado é bem­ veria", ou ainda, garanta a democracia exigindo "que o discurso
associada à vida ativa, ao livre-arbítrio, ao autogoverno, à par- vinda na medida em que são os cidadãos que definem, através
, dos poderosos não soterre ou comprometa o discurso dos menos
ticipação na vida pública, na res publica. E daí que vem o sig- de sua participação política, as regras (leis) que serão seguidas poderosos".
nificado original da palavra política, de polis, isto é, tudo que se para que a liberdade seja desfrutada. A liberdade de expressão
refere à cidade, civil, público. Especificamente no caso da liberdade de expressão, continua
é o instrumento básico dessa participação e, embora se realize
Fiss, existem situações em que o "remédio" liberal clássico de
O poder arbitrário (dominação) é incompatível com a liber­ tanto no espaço público quanto no espaço privado, neste, ela só é
mais discurso, ao invés da regulação do Estado, simplesmente
dade cidadã, construída politicamente e entendida não como possível por meio da política, isto é, de sua defesa pública. Cabe
não funciona. Aqueles que supostamente poderiam responder
uma possessão privada desfrutada pelo indivíduo isolado, mas ao Estado garantir que todos os cidadãos possam exercer iguali­
ao discurso dominante não têm acesso às formas de fazê-lo (p.
como o pertencimento a um mundo onde todos podem revelar tária e plenamente a liberdade de expressão, a isegoria.
47-48), vale dizer, não têm acesso ao debate público controlado
a si mesmos, livremente, diante dos outros, sem qualquer medo Vale registrar que, mesmo em países onde a tradição liberal é pelos grandes grupos de mídia.
de punição (Saxonhouse, passim). dominante, há jurisprudência consolidada sobre o papel do Es­
Muitas vezes esse impasse provoca, desgraçadamente, o r e ­
Essa liberdade republicana se associa historicamente à demo­ tado como fiador das liberdades e, especificamente, da liberdade
curso ao terror da violência como forma de expressão de ideias
cracia clássica Grega, à república romana e ao humanismo cí­ de expressão. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos.
(Freitas, 2012).
vico do inicio da idade moderna. O jurista liberal e professor Owen Fiss da Universidade de
A vertente liberal norte-americana representada pelo profes­
A liberdade liberal tem sua matriz no liberalismo que se cons- Yale, em pequeno, mas precioso livro - A ironia da liberdade
sor Fiss, todavia, não tem sido a prevalente nem nos Estados
Unidos, nem no Brasil. Muito ao contrário. Na nossa história, uma reação tão forte no Brasil às eventuais propostas de política pressora, tipografia] como (b) qualquer meio de comunicação de
tem prevalecido um liberalismo excludente tanto de liberdade pública regulatória para a mídia. 5 massa ou, ainda, (c) o conjunto deles, a passagem do primeiro
quanto de cidadania. O "impasse do encarceramento" faz com que até mesmo o para os outros sentidos altera radicalmente o locus do sujeito da
O liberalismo brasileiro sempre conviveu e continua a convi­ debate sobre essa política - vale dizer, sobre a intervencão
' do liberdade de expressão vinculado a cada um dos três sentidos,
ver, sem qualquer problema, com a desigualdade - vale dizer, Estado como garantidor de liberdades- essencial na perspectiva vale dizer, do indivíduo-cidadão para a instituição-empresa.
com a ausência de isonomia - desde a escravidão até questões republicana passe a ser entendido como uma ameaça à própria Ademais, existe em inglês uma distinção entre speech (expres­
contemporâneas envolvendo as relações entre raças e gêneros.4 liberdade de expressão. são, palavra), print (imprimir), press (imprensa, impressora, t i ­
A prevalência desse liberalismo excludente foi exacerbada Esse paradoxo se manifesta no debate - ou na ausência dele, pografia) e the press � imprensa) que, na maioria das vezes, as
nas últimas décadas pela onda neoliberal que varreu o planeta. repito - em relação à liberdade da imprensa. traduções para o português insistem em ignorar.
Junto às privatizações veio o discurso do "fim do Estado nação" Um exemplo: se formos ao panfleto seiscentista Areopagitica
Liberdade de expressão x liberdade da imprensa
e do "Estado mínimo", portanto, a rejeição à interferência do Es­ deJohn Milton ( 1644), clássico reiteradamente lembrado na d e ­
tado, em especial no que se refere às garantias para que todas e Evocando a máxima dos antropólogos de que "toda identidade fesa da liberdade da imprensa, veremos que ele se refere ao
todos possam exercer o princípio da isegoria. é uma diferença", quero agora comparar a liberdade de expres­ direito, então considerado natural, do indivíduo-cidadão expres­
A exacerbação neoliberal provoca um estranho paradoxo no são com a liberdade da imprensa. Ao compará-las, espero m e ­ sar (speech) e imprimir (print) suas ideias no exercício de seu
que se refere ao debate - ou à sua ausência - em torno da liber­ lhor desvendar a identidade de cada uma.6 livre-arbítrio e sem restricões
' externas.
dade de expressão. Qual é a diferença entre liberdade de expressão e liberdade da Escrito para combater uma Ordenação do Parlamento inglês
Os professores mineiros Juarez Guimarães e Ana Paola Amo­ imprensa? Qual o significado original das palavras que expres­ regulando a impressão de documentos, panfletos e livros ("An
rim (2013) identificam o que chamam de "impasse do encarce­ sam essa diferença? Como os documentos legais tratam essas Ordinance for the Regulating of Printing", 1643), o argumento
ramento" ao tratarem da nocão liberal de liberdade. Recorro a liberdades? Quais as pré-condições materiais para que elas exis­ de Milton gira em torno da capacidade individual de livre-arbí­
'
eles, em texto ainda inédito, quando afirmam: tam? trio e da consequente necessidade de cada um se expressar e se
Vamos começar com o significado original das palavras speech expor às diferentes versões sobre um assunto para alcançar a
O estreitamento argumentativo liberal reside principalmente na desvinculação
entre a liberdade de expressão e as condições de autogoverno. Em sua história, (expressão), print (imprimir), press (imprensa) e the press (a i m ­ verdade.
o liberalismo formou (... ) o seu conceito de liberdade, separando-o da noção prensa). Creio que herdamos esse significado da língua inglesa. "Dai-me a liberdade para saber, para falar e para discutir livre­
de participação política e autogoverno. Nessa autonomização da liberdade de
Registre-se que o conceito de liberdade de expressão é muito mente, de acordo com a consciência, acima de todas as liberda­
expressão das condições de autogoverno residiria, então, o caminho de sua
anterior ao debate clássico ocorrido na Inglaterra do século des", afirmava Milton em passagem famosa do Areopagitica (p.
própria autonomização conceituai da noção de liberdade. (... )
XVII. Na Grécia antiga havia pelo menos quatro palavras que 169).
O impasse do encarceramento liberal refere-se à tradição argumentativa,
amplamente disseminada e até mesmo referencial, que explica a gênese da significavam liberdade de expressão - como já vimos, um dos OAreopagitica, portanto, cujo subtítulo é "Um discurso deJohn
liberdade de expressão e seu desenvolvimento única e exclusivamente à tradição princípios fundamentais da democracia e essencial para a reali­ Milton pela liberdade de imprimir sem licença, dirigido ao Parla­
liberal. Assim, o seu debate é circunscrito ao pluralismo apenas no interior da
zação do homem cívico na polis: isegoria, isologia, eleutherosto­ mento da Inglaterra" (''.A speech of Mr.John Milton for the liberty
mia e parrhesia (Stone, esp. cap. 17). 7
tradição liberal, à sua gramática, à sua variação conceituai e à sua linguagem.
of unlicenc'd printing to the Parlament (sic) of England"), não
(...)
O argumento liberal sobre a liberdade de expressão é paradoxal: [ela] não Na Inglaterra, por outro lado, a expressãofreedom of speech só poderia estar se referindo à imprensa (the press), no seu signifi­
se discute... fora dos marcos liberais! A fórmula propagandística que resulta aparece pela primeira vez nos famosos Institutes of the Laws of cado atual.
desse antipluralismo e sectarismo genéticos é que toda proposta, argumento ou England, publicados por Sir Edward Coke, entre 1628 e 1644. Ademais, no texto, não há referência a the press, mas sim a
legislação que contrarie os modos liberais de pensar a liberdade de expressão são
Embora em inglês como em português a palavra imprensa printing; e, na Inglaterra do século XVII, não existiam "jornais",
imediatamente denunciados como contrários à própria liberdade de expressão.
(press) possa significar tanto (a) a máquina de imprimir [im- no sentido contemporâneo e, muito menos, empresas comerci­
Não nos deveria surpreender, portanto, que continue a existir ais de mídia (de meios impressos e/ou eletrônicos).
Aliás, só há registro da palavra jornal- newspaper - na língua curar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer rentes sociedades, contam boa parte da história da própria i m ­
inglesa no final do século XVII, em 1670! meios (media, no original em Inglês) e independentemente de prensa e, consequentemente, da liberdade da imprensa.
,
Apesar disso, tanto na tradução clássica de Hipólito da Costa fronteiras" [Artigos 19, 13 e Princípio 1 º, respectivamente]. E necessário, portanto, que se leve em conta a consolidação da
publicada no Correio Brazilienze, em 1810, quanto na edição A nossa Constituição de 1988, por sua vez, refere-se à liber­ "imprensa" no contexto das enormes transformações que sofre­
contemporânea existente entre nós do Areopagitica (1999), dade individual de manifestação do pensamento (inciso IV do ram, ao longo dos últimos cinco séculos, as formas de imprimir
printing (imprimir) é traduzido por "imprensa" e seu sentido Artigo Sº ), e à "plena liberdade de informação jornalística" (§ 1º e aquilo que é impresso; as estradas de ferro como canais de
dominante em português tem sido "a imprensa" (the Press), ins­ do Artigo 220). A única ocasião em que aparece a expressão "li­ distribuição; a descoberta da eletricidade e de alguns de seus d e ­
tituição moderna que significa o conjunto dos meios de comuni­ berdade de imprensa" no texto constitucional é em relação às rivados, como, por exemplo, o telégrafo.
cação ou a mídia. O próprio subtítulo passa a ser "Discurso pela medidas que podem ser tomadas pelo Presidente da República Tudo isso num longo e lento processo que começa no século
Liberdade de imprensa ao Parlamento da Inglaterra", enquanto o na vigência do Estado de Sítio (inciso III do Artigo 139). Não é, XV, passando pela Revolução Industrial do século XIX, pela R e ­
texto original se refere à liberdade de imprimir sem licença. curiosamente, no Capítulo da Comunicação Social. volução Digital do final do século XX e chegando até os nossos
Como os documentos de referência - legais ou não - tratam E finalmente, a Declaração de Chapultepec, de 1994, se refere dias.
essas liberdades? claramente a duas liberdades, a liberdade de expressão e a liber­ Há um enorme e complexo caminho percorrido desde os
A distinção clara entre liberdade de expressão e liberdade da dade de imprensa. volantes avulsos anônimos sem periodicidade, aos livros de n o ­
imprensa também aparece em documentos (legais ou não), que, Como se vê, todos esses documentos se referem distintamente tícias (booknews), panfletos e pasquins artesanais, passando às
mesmo assim, são sempre indistintamente evocados na defesa (a) à liberdade da imprensa; (b) à liberdade de expressão (de gazetas, folhas (newspapers) e periódicos pessoais - onde o reda­
da liberdade da imprensa. Vejamos, cronologicamente: ideias e/ou de opiniões); ou (c) às liberdades de expressão (de tor, o cronista e o editor eram a mesma pessoa - até os jornais
Na Declaração de Virginia, de 1776, o Artigo XII fala especifi­ ideias e/ou de opiniões) e de imprensa. Isso significa que, histo­ populares de massa e os grandes jornais e revistas de nossos
camente em liberdade da imprensa (Jreedom of the press). ricamente, essas liberdades têm sido entendidas como distintas dias.
Jáa Primeira Emenda da Constituição dos EUA, de 1789/1791, ou não haveria razão para diferenciá-las. Ademais, a liberdade Considerando as diferentes condicões
' materiais necessárias à
assegura a liberdade de expressão (Jreedom of speech), a liber­ de expressão está sempre referida à pessoa, ao indivíduo-cida­ existência das liberdades de expressão e da imprensa, seria o
dade da imprensa (Jreedom of the press), a liberdade religiosa, a dão. Já a liberdade da imprensa aparece como "condição" para contexto do nosso século XXI favorável ao exercício da liberdade
separação entre Igreja e Estado, o direito de reunião e o direito de a liberdade individual (Declaração de Virginia) ou como uma de expressão? Ou melhor, seria possível considerar, como usu­
petição. liberdade da "sociedade" equacionada com a imprensa e/ou os almente se faz, a liberdade da imprensa - a imprensa hoje exis­
meios de comunicação (Declaração de Chapultepec). tente- como extensão da liberdade de expressão individual?
A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão francesa, de
1789, fala do direito à "livre comunicação das ideias e das opi­ Outra forma de diferenciar as liberdades de expressão e da Desde quando a imprensa se transforma em instituição, ou
niões" e que "todo cidadão pode, portanto,falar, escrever, impri­ imprensa é verificar quais são as pré-condições materiais n e ­ melhor, em empresa capitalista, sua relação direta com a liber­
mir livremente" (grifo acrescido).
cessárias para que cada uma delas exista. dade de expressão individual deixa de existir. Ela não guarda
Por outro lado, tanto a Declaração Universal dos Direitos H u ­ Enquanto a primeira nasce com o indivíduo-cidadão, a s e ­ mais relação direta com o que se pretende por liberdade da
manos, de 1948, como o Pacto Internacional dos Direitos Civis gunda, para existir, implica não só a disponibilidade de mate­ imprensa dos grandes conglomerados globais de comunica­
e Políticos, de 1966, a Convenção Americana sobre Direitos H u ­ rial para impressão - papel, impressora e tinta -, mas, também, ção e entretenimento, muitos deles com orçamentos superiores
manos, de 1969, e a Declaração de Princípios sobre Liberdade de a capacidade dos indivíduos de ler, vale dizer, implica a existên­ àqueles da maioria dos Estados membros das Nações Unidas.
Expressão, de 2000, falam do direito da "pessoa" (indivíduo) à cia de um público leitor. Na verdade, a transformação da imprensa em empresa que
liberdade de opinião e expressão, especificando que esse direito A passagem da cultura oral para a cultura letrada e a for­ demanda cada vez mais capital não é uma preocupação nova.
inclui "a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de pro- mação, o tamanho e a história dos "públicos leitores" nas dife- No inicio do século XX, no Primeiro Congresso da Associação
Alemã de Sociologia, realizado em 1910, Max Weber-fundador de comunicação são os meios de comunicação de si mesmos como partidos A plena liberdade da imprensa é um património imaterial que corresponde
(políticos]. ao mais eloquente atestado de evolução político-cultural de todo um povo.
da sociologia política- apresentou um programa de pesquisa no
Pelo seu reconhecido condão de vitalizar por muitos modos a Constituição,
qual afirmava: Na mesma linha, o também saudoso professor Octávio Ianní, tirando-a mais vezes do papel, a Imprensa passa a manter com a democracia
Uma das características das empresas de imprensa é, hoje em dia, sobretudo, o analisando o "complexo e difícil palco da política", na época da a mais entranhada relação de mútua dependência ou retroalimentação. Assim
aumento da demanda de capital. (... ) Em que medida essa crescente demanda globalização, referindo-se à televisão, afirmava em 1999: visualizada como verdadeira irmã siamesa da democracia, a imprensa passa
de capital significa um crescente monopólio das empresas jornalísticas a desfrutar de uma liberdade de atuação ainda maior que a liberdade de
Em lugar de O Príncipe de Maquiavel e de O Moderno Príncipe de Gramsci,
existentes? (...) Esse crescente capital fixo significa também u m aumento pensamento, de informação e de expressão dos indivíduos em si mesmos
assim como de outros "príncipes" pensados e praticados no curso dos tempos
de poder que permite moldar a opinião pública arbitrariamente? Ou, pelo considerados (grifo nosso).
modernos, cria-se O Príncipe Eletrônico, que simultaneamente subordina,
contrário, (... ) significa uma crescente sensibilidade por parte das distintas ,
recria, absorve ou simplesmente ultrapassa os outros.
empresas diante das flutuações da opinião pública? E também rotineiro encontrar-se não só o deslocamento do
Apesar do exposto até aqui, não é raro encontrar-se distorcões
'
sujeito da liberdade de expressão do indivíduo-cidadão para
Além de se transformar em empresa e operar dentro da lógica
e deslocamentos importantes na utilização que se faz das ex- a "sociedade" e, desta, implicitamente, para os "jornais", mas
do capital, a imprensa passou também a deter o monopólio
pressões liberdade de expressão e liberdade da imprensa, inclu­ também a utilização das duas expressões- liberdade de expres­
virtual da construção, manutenção e reprodução de capital sim­
sive nas mais altas instâncias do nosso Poder Judiciário. são e liberdade da imprensa- como se equivalentes fossem.
bólico e, portanto, a funcionar dentro de outra lógica, isto é, a l ó ­
gica do poder. Comentando o Artigo 19 da Declaracão ' Uníversal dos Direitos Um exemplo pode ser constatado nas poucas linhas de anún­
Humanos (1948), o renomado professor da Uníversity ofTam- cio de meia página que a Associação Nacional de Jornais (ANJ)
O famoso relatório da Comissão MacBride, publicado no início
pere [Finlândia], Kaarle Nordenstreng, afirma que "o sujeito dos fez publicar em vários jornais por ocasião de seus 30 anos
da década de 1980 do século passado e hoje abandonado pela
direitos humanos e das liberdades fundamentais não é uma (agosto de 2009). O sujeito da liberdade de expressão deixa de
UNESCO, referia-se à dimensão política da comunícação que a u ­
instituição chamada 'a imprensa' ou 'a mídia', mas um ser h u ­ ser o indivíduo-cidadão e passa a ser uma difusa "sociedade";
menta constantemente em funcão , de uma "contradicão' funda-
mano individual". E prossegue: "a frase 'liberdade de imprensa' os jornais são genericamente identificados com "os olhos e os
mental (inegável)". Dizia o relatório:
é enganosa na medida em que ela inclui uma ideia ilusória de ouvidos de milhões de pessoas" e a imprensa como formadora
à medida que ia se estendendo, em cada país e no mundo inteiro, o número
que o privilégio dos direitos humanos é estendido à mídia, seus desinteressada da opinião pública, "o que mais interessa na
daqueles a quem a alfabetização, a "conscientização" e o desenvolvimento da
independência nacional transformavam em solicitantes de informação, ou em proprietários e seus gerentes, ao invés de ao povo para expres­ democracia". Por fim, liberdade da imprensa e liberdade de ex­
candidatos à emissão de mensagens, uma contradição inegável, relacionada sar sua voz através da mídia". E mais à frente afirma: "nada no pressão são explicitamente consideradas como equivalentes. O
com as exigências financeiras do progresso técnico, talvez não de forma Artigo 19 sugere que a instituição da imprensa tem qualquer d i ­ texto completo do anúncio diz:
absoluta, mas pelo menos relativamente, reduzia o número de emissores, ao reito de propriedade sobre essa liberdade". Título: Sem liberdade de imprensa esta seria a única testemunha.
mesmo tempo em que intensificava/o poderdeles) (p. 31, grifo nosso).
A extensão de uma liberdade fundamental "à mídia, seus pro- (A imagem é de u m rato que assiste a uma suposta cena de corrupção sendo
Entre nós, o saudoso sociólogo e jornalista Perseu Abramo, . ' .
pr1etar1os e seus gerentes", no entanto, tem sido frequente. praticada por dois homens iluminados por faróis de automóveis.)
no seu conhecido livro Padrões de Manipulação na Grande Im­ O Acórdão do STF (novembro de 2009) em relação ao jul­ Texto: Nos últimos 30 anos, o país passou por mudanças decisivas. E
prensa, escrito em 1988, já afirmava: gamento da ADPF - Arguição de Descumprimento de Preceito os jornais foram os olhos e os ouvidos de milhões de pessoas durante
novas, diferentes o processo. Graças ao trabalho da imprensa, o cidadão teve acesso
Os órgãos de comunicação se transformaram em entidades Fundamental, n. 130, que considerou inconstitucional a totali­ a informações preciosas que se tornaram o que mais interessa numa
do que eram em sua origem, distintas das demais instituições sociais, mas
dade da antiga Lei de Imprensa (Lei 5.250 de 1967), consagra democracia: opinião.
extremamente semelhantes a um determinado tipo dessas instituições sociais,
que são os partidos políticos. (... ) N a realidade, esses grandes órgãos
interpretação oposta à do professor Nordenstreng ao estabelecer Assinatura: AN]. Há 30 anos lutando pelo que a sociedade tem de mais
efetivamente são autónomos e independentes, em grande parte, em relação a uma hierarquia entre as diferentes liberdades e deslocar o locus valioso: a liberdade de expressão.
outras formas de poder (...) porque são eles mesmos, em si, fonte original de da liberdade do indivíduo para "a imprensa". Diz o item n. 6 do
poder, entes político-partidários, e disputam o poder maior sobre a sociedade Acórdão que trata da "Relacão de Mútua Causalidade entre L i - O desafio da regulação democrática
,
em benefício dos seus próprios interesses e valores políticos. (...) Os órgãos
herdade de imprensa e Democracia": Diante dessa realidade, são muitos e enormes os desafios que
temos pela frente se pretendemos uma democracia onde preva­ tido, a ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária - deseja ouvir e/ou assistir?
leçam os princípios da isonomia e da isegoria, vale dizer, onde baixou, em 15 de junho de 2010, a Resolução RDC nº 24, regula­ Artigo 221
não exista qualquer forma de censura. mentando Os quatro incisos do artigo 221 se referem aos princípios que
O Brasil dispõe hoje de uma das mais avançadas legislações a oferta, propaganda, publicidade, infonnação e outras práticas correlatas, cujo
devem ser atendidos pela produção e pela programação das
de acesso à informação do planeta, a Lei 12.527 de novembro objetivo seja a divulgação e a promoção comercial de alimentos considerados
emissoras de rádio e televisão. São eles: preferência a finalida­
com quantidades elevadas de açúcar, de gordura saturada, de gordura trans, de
de 2011. Temos também a imensa possibilidade potencial de des educativas, artisticas, culturais e informativas; promoção
sódio e de bebidas com baixo teor nutricional.
construcão
, de novas formas de sociabilidade oferecida pela i n - da cultura nacional e regional e estímulo à produção indepen­
ternet, pendente a universalização do acesso aos computadores A Associacão' Brasileira das Indústrias da Alimentacão ' dente que objetive sua divulgação; regionalização da produção
e a banda larga de qualidade, além da aprovação pelo Congresso (ABIA), vendo os interesses empresariais de seus membros con­ cultural, artistica e jornalistica, conforme percentuais estabele­
Nacional do PL 2126/2011 - o marco civil da internet- cuja v o ­ trariados, ingressou com ação na Justiça Federal de Brasilia con­ cidos em lei; e respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da
tação está agora prevista para depois das eleições municipais. tra a ANVISA pedindo que não se aplicasse a eles os dispositivos familia.
Apesar disso, temos que trabalhar pelo fortalecimento do da referida resolução, de vez que só uma lei complementar p o ­
Não interessaria, por exemplo, aos produtores independentes
campo da mídia pública - das rádios e TVs públicas e comuni­ deria regular a Constituição.
de cinema e vídeo a geração de empregos, a promoção da cultura
tárias - e pela inadiável adoção de um novo marco regulatório Resultado: a 16ª Vara da Justiça Federal suspendeu os efeitos nacional e regional e o incentivo à produção cultural, artistica e
para a mídia. da resolução em liminar posteriormente mantida pelo Tribunal jornalistica regional? E a todos nós o respeito aos valores éticos e
E aqui devemos começar pelo simples cumprimento do que já Regional Federal da Primeira Região. sociais da pessoa e da familia?
determina a Constituição Federal de 1988, portanto, há mais de Pergunto: não interessaria, sobretudo a mães e pais de crian­ Artigos 222 e 223
23 anos. ças, a regulação da propaganda de "alimentos considerados com
Dos artigos 222 e 223 - deixando de lado a questão crítica
Indico a seguir algumas consequências parciais e imediatas quantidades elevadas de açúcar, de gordura saturada, de gor­
das outorgas e renovações das concessões de rádio e televisã°ª
para a democracia brasileira que resultariam apenas da regula­ dura trans, de sódio e de bebidas com baixo teor nutricional"?
- talvez o benefício mais perceptível fosse a regulamentação do
ção de quatro artigos da Comunicação Social (Capítulo V do T í ­ Da mesma forma, não interessaria a regulação do parágrafo "princípio da complementaridade" entre os sistemas privado,
tulo VIII) até hoje não regulamentados. 4º do mesmo artigo 220, que se refere à propaganda comercial público e estatal de radiodifusão. Combinada com o parágrafo
(Deixo de mencionar os vários incisos referentes à comunica­ de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e t e ­ 5º do artigo 220 -"os meios de comunicação social não podem,
ção que estão no artigo 5 º Dos Direitos e Deveres Individuais e rapias? direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio"
Coletivos.) O parágrafo 5º do artigo 220, por outro lado, reza que "os - essa regulamentação possibilitaria o necessário equilibrio no
Artigo 220 meios de comunicação social não podem, direta ou indireta­ mercado de rádio e televisão, hoje inexistente.
mente, ser objeto de monopólio ou oligopólio". Sua regulação Artigo 224
O professor Fábio Konder Comparato (2011) lembrou recente­
teria, necessariamente, que restringir a propriedade cruzada
mente que o Inciso II do parágrafo 3º do artigo 220 manda que O último dos artigos do Capítulo V cria o Conselho de C o ­
- um mesmo grupo empresarial controlando diferentes meios
a lei complementar estabeleça os meios legais que garantam à municação Social como órgão auxiliar do Congresso Nacional
(rádio, televisão, jornais, revistas, provedores e portais de i n ­
pessoa e à familia a possibilidade de se defenderem da propa­ regulamentado pela Lei n. 8.339 de 1991. O CCS somente foi
ternet), num mesmo mercado- como, aliás, acontece nas prin­
ganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à instalado 11 anos depois, em 2002, deixou de funcionar em
cipais democracias contemporâneas. Ao mesmo tempo, deveria
saúde e ao meio ambiente. Tal lei complementar não existe. 2006 e foi reinstalado agora - em agosto de 2012- sob protesto
promover o ingresso de novos concessionários de rádio e televi­
A Organização Mundial da Saúde, desde 2005, tem lançado da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito
são no mercado de comunicacões.'
advertências sobre os efeitos nocivos à saúde, provocados pela a Comunicação com Participação Popular (FRENTECOM) e do
Não interessaria ter um leque maior de alternativas para esco­ Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC),
obesidade, sobretudo entre crianças e adolescentes. Nesse sen-
lher a programação de entretenimento ou de jornalismo que se
pela forma antidemocrática como a Mesa Diretora do Congresso avançando no sentido da isegoria, princípio basilar da democra­ (2003-2004). Publisher Brasil, 2012b.

Nacional procedeu na escolha de seus membros e no encami­ cia republicana. _ _ . "Concessões de rádio e TV: serviço público x interesse privado".
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onde vamos". ln: Observatório da Imprensa. Edição n. 666 de

selhos Estaduais de Comunicação Social, já previstos em pelo ACÓRDÃO DO STF, ADPF n. 130. Disponível em: <http://www.
01/11/2011ª. Disponível em: <http://www.observatoriodaimpren­
sa.com.br/news/view
/_ on d e e
_ stamos_ e_para_ on d e vamos>.
_
menos nove constituições estaduais e na Lei Orgânica do Dis­ conjur.com.br/2009-nov-07/lei a -integra-acordao- stf-derrubou-lei­
trito Federal e, até hoje, instalados e funcionando apenas no es­ imprensa>.
- - .
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servatório da Imprensa. Edição n. 669 de 22/11/201 lb. Disponível
tado da Bahia (Lima, 201l a). ANVISA. ResolucãoANVISAng
• 24/2010.
em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ da _
CHAUÍ, M. "O poder da mídia". ln: Observatório da Imprensa. Edição n.
cultur a _ d o _silencio_ ao _direito_ a _comunicacao>.
Democracia republicana 7 1 0 de 04/09/2012. Disponível em: <http://www.observatoriodaim­
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prensa.com.br/news/view/_ ed7 lO _ o_poder_ da _mídia>.
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Paulo: EdUnB/Editora Fundação Perseu Abramo, 201 lc. 2ª edição re­
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NORDENSTRENG, K. "Myths about Press Freedom". ln: Brazilian]ourna­
Ao usar como estratégia o bordão da ameaça constante de GUIMARÃES, J.; AMORIM, A. P. A corrupção da opinião pública - Uma de­
lism Research. Vol. 3, n. 1, 2007.
fesa republicana da liberdade de expressão. São Paulo: Boitempo, 2013.
retorno à censura e de que a liberdade de expressão está em SAXONHOUSE,A. W.Free Speech andDemocracy inAncientAthens. Cam-
GRAMSCI, A. Selections of the Prison Notebooks. International Pu­
risco, os grandes grupos de mídia transformam a liberdade de blishers, 1971.
bridge, 2006.

expressão num fim em si mesmo. Ademais, escamoteiam a r e ­ HOLTZ-BACHA, C. "What is 'good' press freedom-The difficulty
SKINNER, Quentin. Liberdade antes do Liberalismo. Editora UNESP, 1999.
_ _ . Hobbes e a liberdade republicana. Editora UNESP, 2010.
alidade de que, no Brasil, o debate público não só (ainda) é of measuring freedom of the press worldwide", 2004. Dispo­
STONE, I. F. OJulgamento de Sócrates. Cia. das Letras, 1998.
majoritariamente pautado por ela- a grande mídia - como uma nível em: <http://www.kwpw.wiso.uni-erlangen.de/publikationen/
VIEIRA, Pe. A. "Sermão da Visitação de Nossa Senhora (1640)".
imensa maioria da população a ele não tem acesso e é dele histo­ docs/good_press_freedom.pdf>.
ln: _ _ . Obras Completas de Pe. Antonio Vieira - Sermões. Vol. III,
HONOHAN, I. Civic Republicanism. Routledge, 2002.
ricamente excluída. tomo IX. Lello & Irmão Editores, 1 95 9.
IANNI, O. "O Príncipe Eletrônico". ln: DOWBOR, L. et alii (orgs.). Desafio
Ao interditar o debate público de questões relativas à demo­ da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2001.
WEBER, M. "Sociologia da imprensa: um programa de pesquisa". ln: Lua
Nova. N. 55-56, 2002.
cratização das comunicações, os grupos dominantes de mídia, LIMA, V. A. de. "Por que não se avança nas políticas de comunicações?".
!-
na prática, praticam uma censura disfarçada. ln: SADER, E. (org.). Dilma e Lula - 1 O anos de políticas pós-neoliberais. O autor agradece a le itura crítica e os comentários de Ana Paola Amorim e Juarez
Guimarãe.s. Uma prime ira versão de.ste texto serviu de referência para pale.stra proferida na
São Paulo: Boitempo, 2013.
Essa é a situação em que nos encontramos. _ _ . "Conselho de Comunicação Social:Movimentos sociais excluídos,
abertura do seminário uA Censura em Debate1' promovido pelo Núcleo de Pe.squisas em
Comunicação e Censura (NPCC) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Univers_Ji·
De qualquer maneira, o critério fundamental para a formula­ parlamentares ignorados". ln: Observatório da Imprensa. Edição n. 704 dade de São Paulo (USP), São Paulo, 2 a 5 de outubro de 2012.

ção e a avaliação de uma política pública garantidora da liber­ de 24/07/2012. Disponível em: <http://www.observatoriodaimpren­
J. A discussão que aqui se faz não implica aceitação ou tolerância a nenhum tipo de censura,
dade de expressão e, portanto, da ausência de censura deve ser sa.com.br/news/view/_ ed 7 0 4 m
_ ovimento s _sociai s _excluidos_parla­
parta e la do Estado (censura e.statal), de empre.sas privadas (censura privada) ou tenha
mentares_ignorados >.
sempre se ela possibilita a superação da "cultura do silêncio". qualquer outra natureza, explícita o u disfarç ada.
_ _ . Liberdade de expressão x liberdade da imprensa- Direito a comuni­
Vale dizer, se possibilita que mais e diferentes vozes sejam ditas cação e democracia. 2ª edição. Publisher Brasil, 2012a.
J,. Existe
uma vasta bibliografia sobre o tema. Uma introdução geral pode ser encontrada

e ouvidas através da participação cidadã no debate público, _ _ . Política de Comunicações: um balanço dos governos Lula
em Honohan (2002). Em português, há o já cláss
•• itco de Skinner (1999) e também Skinner
(201 O ) .

4. Vários autore.s têm tratado das características do liberal ismo brasile iro, dentre e le.s lembro
Alfredo Bosi, Emília Viotti da Costa e Raymundo Faoro. -1 1 -

5. Para uma avaliação das políticas públicas de comunicaçõe.s no Brasil nos últi mos anos, ver
-1
li ma (201 2b) e li ma (201 3 ) . - 1,

6. Para uma detalhada discussão sobre as diferenças entre liberdade de expre.ssão e liberdade
da imprensa ver Lima (201 2a) onde e.stá de.senvo lvido o argumento que uti lizo aqui.
r 11 1·
7. Para um extenso e erudito debate sobre o papel da liberdade de expre.ssão n a democracia
clássica ateniense ver Saxonhouse (2006).

8. Sobre as conce.ssõe.s de radiodifusão, ver li ma (201 1 ) .


--[
G. fl7f'
/íú/Jfic� 6 Mon,.uhiCtt.f�O tipo de emissora..2. no mínimo curiosa, especialmente quando se vê que o atual
Historicamente, as TVs surgiram na Europa, há mais de seis governo e as forças que dão sustentação ao projeto de desen­
d'&nwcrUtc� volvimento em curso têm sido incessantemente alvo do ataque
décadas, como emissoras públicas, a exemplo da British Bro­
A
adcasting Corporation (BBC), considerada a melhor televisão do feroz da TV Comercial. Em nome da "liberdade de expressão", os
Angela Carrato
mundo, da italiana RAI, da France Télévision e da alemã ADR concessionários de canais de TV Comerciais recusam qualquer
(Deutsche Welle). Nos Estados Unidos, apontado como a pátria ação do poder público para coibir abusos e fazer valer os interes­
Em recente evento sobre comunicação realizado em Brasília, ses da maioria da população.
1 o relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para l i ­ por excelência da mídia comercial, as TVs Públicas estão pre­
sentes desde meados dos anos 1960, como é o caso das mais de O objetivo deste texto é contribuir para o entendimento dos
berdade de expressão, o guatelmateco Frank Willian La Rue, fez 300 estações que compõem o Public Broadcasting System (PBS). motivos pelos quais a TV Pública só tardiamente foi criada no
críticas à concentracão
' da mídia no Brasil e na América Latina. No Japão, a principal emissora é uma TV Pública, a NHK. Brasil, apontando também os problemas daí decorrentes no que
Segundo ele, "essa concentração traz concentração de poder p o ­
No Brasil, a força da TV Comercial retardou e inviabilizou, se refere a uma comunicação plural e ao avanço da democracia
lítico e isso atenta não só contra o direito à diversidade, mas
durante décadas, o surgimento de emissoras públicas. Como se no pais.
também contra a democracia".2 La Rue avalia que "na América
Latina temos uma visão excessivamente comercial [da comu­ isso não bastasse, a interdição que essa modalidade de emissora
sofreu e continua sofrendo foi e é utilizada por seus adversários 6.1 ATV Comercial e o senso comum
nicação] e isso faz mal para a sociedade", assinalando que, "em
como "prova" de sua fragilidade. Situação que tem sido danosa
outros lugares, a comunicação é prioritariamente pública com A defasagem com que a TV Pública surge no Brasil, especi­
para a democratização da comunicação e a própria democracia
diversidade etno-social". Para ele, a mídia comercial é legítima, almente se comparada à Europa e aos Estados Unidos, não foi
mas não deve prevalecer de forma absoluta, pois o direito à c o ­ em nosso país. Afinal, enquanto a TV Comercial, bancada pela
suficiente sequer para evitar comentários de que a sua criação
municacão deve ser de todos. publicidade e de olho apenas na audiência, se dirige ao consu­
' foi "afobada", de olho somente nos interesses do governo de Luiz
midor, o compromisso da TV Pública é com o avanço da cidada-
No Brasil, a televisão constitui-se na arena por excelência do • Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT). Aliás,
, rua.
espaço público nacional. E por ela que o país se conhece e se a grande mídia, que antes insistia em chamar a TV Brasil de "TV
A estreia da TV Brasil, a TV Pública brasileira, em dezembro do Lula", 7 agora alterna entre ignorá-la (exclusão pelo silêncio)
reconhece. Presente em 98% dos lares, ela é também o princi­
de 2007, foi um marco para todos que, há décadas, lutavam e criticá-la, referindo-s e a ela apenas como um inútil sorve­
pal meio de informação de que dispõem as pessoas, sobretudo
pela criação de uma emissora que não se pautasse pelo mer­ douro de dinheiro público.
quando levados em conta os baixos índices de leitura de livros,
cado nem fosse porta-voz do oficialismo ou de grupos econô­
jornais e revistas ou mesmo de acesso a blogs e sites jornalisti­ No que diz respeito à maioria da população, o desconheci­
micos.6 Transcorridos cinco anos, o otimismo inicial dá lugar
cos.3 mento dos primórdios e da história da TV não comercial no Bra­
a muitas incertezas, especialmente quando a presidente Dilma
Uma presença tão acentuada não seria problema se não exis­ sil contribuiu para criar a convicção de que só existe uma m o ­
Rousseff, pressionada pelos grandes grupos de mídia, recua na
tisse no Brasil o monopólio de uma modalidade de emíssora, a dalidade de emissora. Os problemas e o silêncio que cercaram e
estratégía definida no segundo governo de Luiz Inácio Lula da
TV Comercial, cuja principal característica tem sido a de inun­ ainda cercam as TVs do "campo público" ampliaram, junto aos
Silva de criar e fortalecer a mídia pública. Ao contrário do que
dar a sociedade com informações esvaziadas de qualquer con­ profissionais e mesmo entre a maioria dos estudiosos e pesqui­
está sendo feito na Argentina, Equador, Bolívia e Venezuela, o
teúdo. Ao contrário de países como Inglaterra, Estados Unidos, sadores da área, a falsa convicção sobre o "protagonismo" e a
governo brasileiro dá mostras de que, na atual gestão, não pre­
França, Alemanha e Japão, onde a Televisão Pública é de grande "superioridade" da TV Comercial entre nós.
tende se envolver com o projeto sobre a regulação dos meios de
relevância para a sociedade, 4 aqui se desconhece esse tipo de Atualmente no Brasil, as TVs do campo público atendem
comurucacao.
• N

'
emissora. Televisão no Brasil é sinônimo de TV Comercial. Fato por nomes diversos a exemplo de TVs Educativas, TVs Cultu­
Com isso, o debate sobre a urgência de um novo marco regu­
que deixa nitida a distorção e o comprometimento de nossa d e ­ rais, TVs Comunitárias, TVs Universitárias e TVs Públicas. Em
latório para o setor, além de interditado pela mídia comercial,
mocracia quando se observa o cenário proporcionado por esse comum, guardam a baixa audiência e recursos insuficientes
passa a ser também negligenciado pelo governo. Negligência
para viabilizar uma programação adequada. A existência delas, censura. Os poucos casos de regulação que contam com a inici­ focalizar o objeto não em sua pureza, mas em sua concreção.
frágeis e pulverizadas como estão, tem servido aos propósitos ativa do Poder Legislativo - como a classificação indicativa das Percebê-l o através das relações políticas, econômicas e sociais.
de seus adversários. Durante alguns anos, especialmente na d é ­ obras audiovisuais e a aprovação da nova Lei de TV por assi­ O que será feito a seguir em relação à televisão nada mais é do
cada de 1980, a TV Cultura de São Paulo foi uma honrosa exce­ natura - estão sendo interpelados judicialmente por parte das que uma releitura dos seus primórdios no Brasil. Releitura não
cão
' entre as emissoras não comerciais. emissoras comerciais, que questionam a constitucionalidade apenas com os olhos e os interesses da TV Comercial, mas l e ­
Ela nunca chegou a ser propriamente uma TV Pública, mas foi dos dispositivos regulatórios que vão contra os seus interesses. vando em conta a concreção dos fatos que marcaram o período.
o que, durante anos, mais próximo disso existiu no país. Não Contar a história da TV Pública brasileira extrapola o âmbito Ao contrário do que se possa imaginar, existe no Brasil uma
é por acaso que periodicamente ela se vê envolvida em crises deste texto. O assunto, no entanto, tem motivado a minha história das TVs não comerciais. História que começa com E d ­
financeiras que nada mais são do que reflexos de problemas pesquisa nos últimos anos, 9 e aqui pretendo apresentar apenas gard Roquette-Pinto, nos anos 1940, e desemboca, seis décadas
políticos mais amplos, de embates entre diferentes concepções alguns fragmentos do começo dessa história, tão vasta quanto depois, na criação da TV Brasil, em meio a todo tipo de críti­
sobre o papel do Estado. Depois de se tornar referência em ter­ desconhecida. Primórdios cujo conhecimento se torna impres­ cas por parte dos dirigentes da midia comercial e do desconhe­
mos de qualidade e criatividade, a TV Cultura atualmente e n ­ cindivel quando se trata de entender como se constituiu o des­ cimento da população sobre o que seja esse tipo de emissora.
contra-se em situacão
' lamentável. 8 medido poder de que desfrutam atualmente as TVs Comerciais, Entre o sonho de Roquette-Pinto e o inicio do funcionamento da
O primeiro desafio para quem se propõe a entender as razões contribuindo assim para o avanço da luta em prol da democrati­ TV Brasil tiveram lugar pressões, chantagens, avanços e recuos,
pelas quais a Televisão Pública demorou tanto a surgir no Brasil zacão
' da comunicacão' no Brasil. pequenas vitórias e muitas derrotas por parte dos defensores
e, uma vez criada, não sai do lugar, é resgatar os primórdios das emissoras não comerciais.
6.2 ATV Pública e a história contra-hegemônica
dessa história, em meio a seis décadas de Televisão Comercial. A bibliografia sobre a história da televisão no Brasil pratica­
Resgate que não é nada simples, uma vez que a TV Comercial O passado só adquire forma e é desenhado na batalha que mente ignora outra modalidade de emissora que não seja a C o ­
tem sido extremamente cuidadosa ao evitar que as caracte­ os homens travam no presente, visando dar a ele suporte para mercial. Disciplinas sobre Produção, Programação e Jornalismo
,
rísticas e tudo mais que diga respeito a essa modalidade de novos projetos e estratégias (Le Goff, 2003). E necessário desna- em emissoras públicas inexistem em nossos departamentos e
emissora possa chegar ao conhecimento da maioria da popula­ turalizar e desconfiar, como ensina Foucault (1996), dos objetos faculdades de Comunicação. As poucas referências às TVs não
ção. Some-s e a isso que, na história da televisão no Brasil, a TV que já se consideram plenamente definidos no tempo, como é o comerciais1 O servem para reforçar a impressão de que aqui não
Comercial tem desempenhado um duplo papel: o de narradora caso da TV Comercial, pois eles o foram não para sempre, mas há lugar para a TV Pública. Algo que teria a ver apenas com o u ­
e personagem da história narrada. Situação que acabou criando num dado momento, numa dada configuração de forças. Por­ tros países e culturas distintas da nossa.
e reforçando uma espécie de senso comum em torno de sua i m ­ tanto, mais do que tentar explicar fatos, é fundamental seguir
Seis familias controlam a televisão aberta no Brasil.li Ao
portância e de sua superioridade perante os demais modelos. suas linhas de constituição, suas lutas, experiências e as falas
contrário dos Estados Unidos e da Europa, onde a proprie­
que lhe deram origem. Isto, sem perder de vista os silêncios e as
Destravar o debate sobre a Televisão Pública é uma pauta es­ dade cruzada dos meios de comunicação é alvo de legislação
lacunas, que também são importantes elementos da tessitura
tratégica para a democracia brasileira. No entanto, desconstruir rígida, aqui os proprietários de jornais são também os donos
dos fatos.
um senso comum não é tarefa simples, especialmente quando de revistas, emissoras de rádio, televisão por assinatura e de
não se possui os mesmos instrumentos de comunicação daque­ Como toda organização do passado é provisória, torna-se fun­ portais na internet. Durante as últimas quatro décadas, a emis­
les que o criaram. Para as TVs comerciais, a situação atual não damental estar alerta para a situação de que algumas visões, sora de uma dessas familias, a Rede Globo, foi líder absoluta
poderia ser melhor. O Código Brasileiro de Telecomunicação é de uma vez cristalizadas, dificultam a emergência de outra forma em audiência e na participação no bolo publicitário nacional. A
1962 e está totalmente defasado, seja do ponto de vista político de se olhar para o passado e também de se pensar o futuro. TV Globo conserva a posição de liderança, mesmo que abalada
ou tecnológico. Os atuais detentores de canais comerciais de TV Some-se a isso que a toda história dominante ou história dos pela concorrência da TV Record e também em função de outras
detêm o monopólio da fala, da exibição de imagens, e não se vencedores corresponde uma contra-história. Contra-história modalidades de TV, como os canais pagos e as alternativas pos­
cansam de repetir que qualquer tentativa de regulação é igual à no sentido que lhe dá Losurdo (2006), para quem é necessário sibilitadas pelas novas tecnologias, especialmente internet e os
games, 12 nesta época de convergência dos meios. de emissora? mada naquele tempo.
A perda da liderança absoluta por parte da TV Globo não sig­ Diante dessas questões é razoável perguntar: a TV Pública é Igualmente, se indagadas, dificilmente essas pessoas já terão
nificou qualquer avanço para a ideia de emissoras não comer­ uma ideia fora do lugar no Brasil? Fundamental para a conso­ ouvido falar em Edgard Roquette-Pinto, e muito menos lhes
ciais, pautadas pela informação, educação e cultura. Vale dizer: lidação e o avanço da democracia em outras partes do mundo, passará pela cabeça que é a esse senhor que se deve o inicio
uma televisão comprometida com a cidadania. A cena televisiva aqui ela não passaria de mais um artificialismo? A questão da televisão no Brasil. A emissora pensada e planejada por R o ­
brasileira segue comercial, e oportunidades de mudança conti­ retoma uma conhecida indagação de Schwarz (2000) sobre a quette-Pinto só não foi ao ar por interferência direta de Assis
nuam sendo perdidas. O exemplo mais recente foi a definição do disparidade entre as ideias adotadas no país, as nossas institui­ Chateaubriand, o primeiro magnata brasileiro das comunica­
padrão adotado para a TV Digital, em 2006. O governo acabou ções e a realidade. No Império, o estatuto da escravidão impedia ções, articulado aos interesses norte-americanos, que contou
cedendo às pressões dos atuais concessionários, e a sociedade a prática das ideias liberais, por incompatibilidade. O ideário ainda com o beneplácito dos governos Eurico Outra e Juscelino
brasileira deixou passar uma oportunidade ímpar para demo­ liberal não era colocado em prática, mas nossas elites também Kubitschek.
cratizar o cenário televisivo nacional, com possibilidade de não não o descartavam, temendo passarem por retrógradas. Daí o Definido por Ramos (2007) "como o maior, ainda que talvez
só rever as atuais concessões, como de ter o leque de opções arremedo de realidade que marcou e continua marcando a vida o mais desconhecido herói da comunicação brasileira," 14 e por
efetivamente ampliado. A decisão do Supremo Tribunal Federal cultural e intelectual do Brasil, com as ideias, a exemplo do libe­ Castro (1996) como o "homem multidão",li pela variedade de
(STF), quatro anos depois, sobre a escolha desse padrão, apenas ralismo, sendo esvaziadas de qualquer conteúdo que não seja do atividades que exerceu e por uma vida dedicada ao estreita­
confirmou um erro histórico.11 interesse das elites. Aliás, nossos liberais, sempre que lhes foi mento dos vínculos entre ciência, tecnologia, educação e cul­
Na medida em que a TV Pública no mundo, em suas diversas conveniente, apelaram para a intervenção dos militares na p o ­ tura, Roquette-Pinto foi uma personalidade singular. Além de
versões e acepções, é reconhecida pela excelência de sua pro­ lítica, cercearam a liberdade de expressão e descartaram a livre médico e antropólogo, era também jornalista, professor emérito
• •
gramação, quais as razões para governo e sociedade brasileira concorrenc1a. da Universidade do Brasil, escritor, pioneiro do rádio, do cinema
não apostarem efetivamente em uma emissora assim? As d i ­ Desconhecer a existência da TV Pública, combatê-l a ao m á ­ e da TV Educativa, uma espécie de precursora da TV Pública
,
mensões do Brasil e a necessidade, reconhecida por todos, de se ximo, quando esse desconhecimento não for mais possível, ou entre nos.
elevar o nivel educacional da população seriam motivos extras descaracterizá-la, mantendo-a numa posição subalterna, confi­ O nome de Roquette-Pinto está ligado ao surgimento do rádio
para que uma televisão nesses moldes fosse adotada. Como as­ nada a uma situacão , irrelevante em termos de influência e de no Brasil, mas é ignorado quando se trata da televisão. Aliás, é
sinala Marques de Melo, audiência, não seriam partes de um mesmo processo? Não seria importante mencionar que ele foi batizado como "pai da radio­
Os brasileiros estão servidos por uma televisão tecnologicamente moderna a maneira de garantir, como assinala Schwarz, "a comédia ide­ difusão brasileira" pela imprensa norte-americana,li uma vez
e esteticamente satisfatória, embora disseminando conteúdos distantes ológica" entre nós? Comédia na medida em que essa televisão, que a imprensa brasileira preferiu adotar a versão divulgada
das necessidades educativas de vastos contingentes de concidadãos, que mesmo existindo, estaria fadada a não cumprir as suas razões pelos Diários Associados, de Chateaubriand. O fato de que não
permanecem excluídos do banquete civilizatório (Marques de Melo, 201 O, p. 3).
de ser. existem trabalhos biográficos de fôlego sobre Roquette-Pintoll
O que leva nossas elites a combater a TV Pública de forma tão 6.3 Roquette-Pinto e os primórdios da TV Pública no Brasil é uma lacuna que tem facilitado essas distorções.
acentuada e permanente? Considerando-se a televisão parte da Na principal e volumosa biografia escrita sobre Assis Chate­
midia que, por sua vez, é fruto do ideário liberal na Europa e Qualquer calouro de curso de Comunicação Social ou mesmo
aubriand, Morais (1994) dedica menos de duas dezenas de p á ­
nos Estados Unidos e que as elites brasileiras desde os tempos um cidadão que se julgue medianamente informado acredita
ginas aos episódios envolvendo o lançamento de sua primeira
do Império se consideram, em sua grande maioria, liberais, este que sabe o nome do criador da televisão no Brasil. "Assis Cha­
emissora de televisão, a TV Tupi. Em toda a obra não há uma
posicionamento torna-se, no minimo, contraditório. O que faz teaubriand", responderão prontamente. Certo? Errado! "Como
referência sequer a Roquette-Pinto, apesar dele e Chateaubriand
com que partidos políticos que têm em seus programas a defesa assim!", podem argumentar, citando livros, reportagens e sites
terem sido contemporâneos, pessoas de reconhecido destaque
de ideais liberais, dentre os quais se destaca a liberdade de infor­ que atribuem ao "ousado empresário" os créditos pela introdu­
e de seus interesses se antagonizarem.li Nos 37 volumes que
mação e expressão, critiquem, de forma tão acentuada, esse tipo ção entre nós da "oitava maravilha", como a televisão era cha-
reúnem os artigos publicados por Chateaubriand ao longo da
vida, igualmente não há uma só menção ao pioneiro da radio­ de uma taxa, uma espécie de assinatura por parte dos ouvintes, então "jamais concedido a ministros brasileiros, hospedando­
difusão no Brasil. 19 Um silêncio que, aos olhos de Le Goff, pode pois ele não aceitava a publicidade como meio para viabilizar se em Washington na Blair House, casa de protocolo do governo
ser considerado, no mínimo, eloquente. a emissora. Nos anos seguintes, Roquette-Pinto iria apaixonar­ norte-americano destinada a chefes de Estado estrangeiros".22
Mais recentemente, na biografia que escreveu sobre Roberto se pelas pesquisas envolvendo a transmissão de imagens. O p e ­ Definido pelo The New York Times como "o poderoso editor de
Marinho, Bial (2004, p. 182) refere-se a Roquette-Pinto como ríodo que passou no Instituto Nacional do Cinema e sua con­ 26 jornais, cinco revistas e dezesseis estações de rádio no Bra­
sendo apenas o nome de uma rua no bairro da Urca, no Rio de vivência com cineastas do porte de Humberto Mauro serviram sil", dentre os encontros que manteve com personalidades do
Janeiro. Rua cuja importância maior, a julgar pelo livro, é locali­ para reforçar-lhe a crença de que a televisão, com a reunião de mundo político e empresarial, estava o com David Sarnoff, d i ­
zar-se próxima à rua Irineu Marinho, nome do pai do fundador imagens e sons, poderia ser tão ou mais importante que o rádio rigente da National Broadcasting Corporation (NBC), que lhe
da TV Globo. Omíssões desse tipo não podem ser consideradas para a educação e a cultura do povo brasileiro. apresentou a "oitava maravilha do mundo".
apenas esquecimento ou desconhecimento. Quando Roquette-Pinto decidiu montar uma emissora de t e ­ Os norte-americanos pretendiam despertar o interesse de
Não existem, igualmente, referências a Roquette-Pinto entre levisão no Brasil, não se lançou em uma aventura, como o fez Chateaubriand para a televisão. Até porque mais cedo ou mais
os nomes que atuaram, desde a primeira hora, na Televisão C o - Chateaubriand. De tanto ler e estudar sobre o assunto, ele havia tarde ela chegaria ao Brasil, então que fosse pelas mãos de
,
mercial brasileira, como Alvaro de Moya, César Montecarlo, Dias criado, em sua pequena oficina, uma televisão primitiva à base alguém confiável. De volta, Chateaubriand reúne em São Paulo
Gomes, Marcos Rey, Walter Avancini e Cassiano Gabus Mendes. de processos mecânicos utilizando o disco de Nipkow.21 Seu um grupo de empresários, liderados por Walter Belian, da Cer­
Apenas Lima Duarte menciona, en passant, ter conquistado, em objetivo, como sempre, era buscar maneiras para ampliar o es­ vejaria Antarctica, para pedir-lhes apoio para a novidade que
1952, o "Prêmio Roquette-Pinto de melhor sonoplasta do ano". paço para a educação e a cultura. E foi pensando na educação havia conhecido nos Estados Unidos e que pretendia transfor­
De acordo com ele, "o Roquette-Pinto era um prêmio importante e na cultura que realizou, em 1943, a primeira transmissão de mar em sua nova empreitada.23
que existia naquela época".20 A ausência se mantém nas auto­ imagens no Brasil. Para tanto, instalou a emissão na sede da No mesmo período, já estavam adiantados os planos de R o ­
biografias de dois outros destacados nomes do meio televisivo Rádio Sociedade, na rua da Carioca, no centro do Rio de Janeiro, quette-Pinto para criar a primeira emissora de TV no país. Se
comercial: Walter Clark (1999) e José Bonifácio de Oliveira S o ­ e um receptor na casa de um amigo, localizada na rua Cândido não era de seu feitio pedir apoio a governos, tinha certeza de que
brinho (2010). Mendes, no bairro de Santa Teresa. a iniciativa não seria hostilizada por Getúlio Vargas. No entanto,
Por outro lado, pessoas insuspeitas de ligação com a TV C o ­ Foi feita uma única transmissão, o suficiente para provar que o fim da Segunda Guerra representou, internamente, a queda de
mercial, como Sérgio Matos (2002) e Cunha Lima (2008), tam­ o engenho funcionava. As imagens transmitidas eram as de um Vargas e a chegada ao poder de alguns de seus adversários, em
bém ignoram Roquette-Pinto. Matos, na síntese cronológica que cartaz com as letras A, B e I, formando a sigla da Associação que pese o novo governo ser encabeçado por seu ex-ministro da
faz dos principais acontecimentos envolvendo a televisão, toma Brasileira de Imprensa. No futuro, o cronista Antônio Maria iria Guerra, Eurico Gaspar Outra.
como ponto de partida o ano de 1 950. E o cuidado demonstrado fazer questão de destacar o fato de que, graças a Roquette-Pinto, A chegada de Outra ao poder significava complicação para o
por ele ao detalhar os problemas enfrentados por Chateaubri­ as primeiras imagens de TV levadas ao ar por parte de um bra­ projeto de Roquette-Pinto, que era identificado como "partidá­
and para colocar sua emissora no ar, no mínimo, contrasta com sileiro não foram as de um anúncio comercial ou o retrato do rio" de Getúlio. Roquette-Pinto sabia das dificuldades que iria
a falta de qualquer referência a Roquette-Pinto. Já Cunha Lima, presidente da República, mas o nome da entidade dos jornalis­ enfrentar, mas jamais pensou em mudar de ideia. Os seus
mesmo tendo o objetivo de contribuir para que a sociedade bra­ tas (Santos, 2005). planos para a televisão eram conhecidos e ninguém duvidava
sileira entenda que precisa de uma comunicação pública, se es­ Enquanto Roquette-Pinto pautava sua conduta e ação em de sua capacidade para viabilizá-los, especialmente quem tinha
quece de mencionar o pioneiro do setor. favor dos interesses dos brasileiros, o ambicioso Chateaubriand acompanhado os treze anos de existência da Rádio Sociedade do
Na década de 1920, o fascínio pela tecnologia levou Roquette movia-s e de acordo com as suas conveniências e as conveniên­ Rio de Janeiro. Se em relação ao rádio, Roquette-Pinto e Chateau­
Pinto à criação da primeira emissora de rádio brasileira, a cias norte-americanas, sempre de olho em uma nova maneira briand não chegaram a ser adversários, com a televisão o con­
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, voltada para a educação e a de ganhar dinheiro e ter mais poder. Em sua primeira visita fronto entre eles se tornou inevitável.
cultura. A Rádio Sociedade era mantida através do pagamento aos Estados Unidos, em 1944, ele mereceu um tratamento até Nos Estados Unidos, Chateaubriand ficou sabendo que México
e Cuba se movimentavam para colocar no ar suas emissoras bases comerciais, embora deficitárias 25 (grifo da autora). esse processo, de olho na manutenção de antigos privilégios, os
de televisão. De volta ao Brasil, foi informado que Roquette­ Chateaubriand sabia que a televisão na Inglaterra e na França setores liberais criaram, apropriaram-se e influenciaram uma
Pinto fazia igual movimento, fato que considerou inaceitável. não era comercial, mas isso pouco importava. série de instituições que funcionam como aparelhos privados
Extremamente vaidoso, além de sonhar com as glórias de intro­ de hegemonia. No Brasil, um desses aparelhos foi exatamente
Ao retornar ao poder, em 1950, Getúlio não tinha ilusões sobre
duzir esse invento revolucionário aqui, queria ser o pioneiro da a imprensa e, depois, a radiodifusão. No rádio e na televisão,
os problemas que iria enfrentar em relação a Chateaubriand,
América Latina. Na época, a BBC se consolidava no Reino Unido os concessionários se consideravam verdadeiros proprietários,
cujos jornais, revistas e rádios tanto haviam contribuido para
como modelo de televisão voltada para a educação e a cultura; não admitindo qualquer tentativa de regulamentação por parte
sua queda. De imediato, ofereceu suporte ao jornalista Samuel
nos Estados Unidos, já no final da década de 1940, surgiam c a ­ , do Estado e da sociedade em seus "negócios".
Wainer para que lançasse um novo diário, que viria a ser a U l -
nais de rádio reservados exclusivamente para a educação. Não Ao colocar no ar, em 1 8 de setembro de 1950, uma emissora de
tima Hora.26 Qualquer gesto no sentido de apoiar a montagem
era difícil prever que a TV voltada para a educação e a cultura forma totalmente improvisada, Chateaubriand acreditava estar
de uma emissora de televisão seria uma empreitada bem mais
também pudesse chegar ao Brasil. E, se chegasse, o favorecido marcando posição em relação aos seus "inimigos", além de i n ­
complexa, não só pelo cerco que a grande imprensa prometia
não seria ele. viabilizar as ações de Roquette-Pinto em direção a uma TV Edu­
fazer ao governo, como pela repercussão negativa que a inicia­
O rol de adversários listados por Chateaubriand aos seus pla­ tiva poderia causar. cativa. Se dependesse apenas do seu desejo, a primeira emissora
nos para a televisão não incluia apenas Roquette-Pinto. O com­ seria no Rio de Janeiro, mas sua equipe não conseguiu resolver
O Brasil havia mudado naqueles quatro anos em que Getúlio
bate que imaginava pela frente tinha gente muito mais graúda, os problemas de transmissão de imagens por causa do excesso
esteve fora do poder. O desenvolvimento econômico passava a
a começar por Getúlio Vargas, que, mesmo deposto em 1945, já de morros na cidade. Daí, a primeira emissora que inaugurou
ter como principal ênfase o chamado livre mercado, e a inicia­
se articulava para retornar ao poder. Entre os inimigos a serem ter sido a TV Tupi, em São Paulo.
tiva privada, por sua vez, havia estreitado relação com o capital
combatidos estavam também todos os que defendiam uma pos­
norte-americano. Como ressalta Jambreiro, 6.4 Para Chateaubriand, as facilidades; para Roquette-Pinto, a lei
tura nacionalista e se contrapunham aos seus métodos de ação.
A "oitava maravilha" seria fundamental, acreditava, para con­
Desde o início da Segunda Guenra Mundial,(...) os Estados Unidos iniciam na
Apontado pela história tradicional da televisão brasileira
América Latina uma verdadeira ofensiva moral, econômica e cultural, visando
solidar, de uma vez por todas, o próprio poder. garantir mercados para seus produtos, evitar o crescimento da ideologia nazista
como "marco zero", o lançamento da TV Tupi minimizou, n a ­
Para viabilizar seus planos, Chateaubriand consegue do g o ­ e reduzir as chances dos países europeus, sobretudo os alemães, mas também turalizou e ocultou uma série de práticas e ações que deveriam
verno federal, em 1948, um pacote de favores, dos quais consta dos ingleses reconquistarem a hegemonia no continente latino, após a guenra ser consideradas inaceitáveis pelos liberais que as adotaram.
a autorizaçao para que importasse eqwpamentos para a insta-
• N • • • Qambreiro, 2003, p. 1 O 1 ). Outra, que, como presidente da República, estaria acima de
,
lação de uma emissora de televisão. E importante observar que interesses específicos, atuou como um despachante de Chate­
Terminada a guerra, os objetivos norte-americanos tornaram­
essa autorização antecede à própria portaria nº 692, de 26 de aubriand. Além das facilidades para importar os equipamentos
se mais amplos. Tratava-se da conquista de mercados e do for­
julho de 1949, que definiu os padrões de transmissão da tele­ necessários à montagem da emissora, comprados da empresa
talecimento das relacões
, econômicas visando o crescimento de
visão no país.24 Não satisfeito, ainda buscava, através de seus norte-americana Radio Corporation of America (RCA), passou
sua economia e a consolidação de seu sistema de poder no Oci­
por cima de todas as formalidades e protocolos para que che­
artigos, convencer as autoridades e a população de que a única dente.27 Maior país da América do Sul, o Brasil era visto como
maneira para viabilizar a televisão era através da publicidade. gassem aqui, em prazo recorde, os 200 aparelhos de televisão
um mercado promissor, não só para a venda de aparelhos, mas
Para tanto, valia tudo, inclusive mentir e torcer a realidade. Em necessários para que as pessoas pudessem assistir à sua inau-
para filmes e seriados importados das agências UPI e CBS, atra­
um desses artigos, intitulado "Televisão para mais paulistas", guraçao.
vés dos quais se difundia o "way of life" norte-americano.
por exemplo, ele afirma que: A desorganização e o destempero de Chateaubriand eram t a ­
O liberalismo declinava na Europa e nos Estados Unidos,
manhos que, faltando um mês para o "dia D" e tendo investido
(...) Em três anos de funcionamento, uma estação emissora de televisão gasta o enquanto no Brasil a hostilidade dos liberais se voltava justa­
dobro do seu capital e para acompanhar os novos aperfeiçoamentos que vão cinco milhões de dólares (dos seus apoiadores) na montagem
mente contra a burocracia estatal, o planejamento, o "nacio­
introduzindo na técnica arrisca a tresdobrá-la. Isso explica porque somente os da emissora, havia se esquecido da necessidade de aparelhos
Estados Unidos, a lnglatenra e a França dispõem de televisão, explorada em
nal-desenvolvimentismo", o intervencionismo. Na resistência a
para que a população pudesse assisti-la. Aliás, ele só percebeu a 45 dias ininterruptos, quando foram definidas as especificações Segundo me disse, nós iríamos fazer no Rio uma estação que era o ideal com
que ele sonhara para os Estados Unidos e nunca conseguira concretizar. O nosso
necessidade desses aparelhos quando o engenheiro norte-ame­ para o que seria a TV Roquette-Pinto. Os trabalhos da Comis­
projeto estava de tal maneira planificado em seus mínimos detalhes, que os
ricano Walther Obermuller, que havia viajado ao Brasil para são desenvolveram-se com muita rapidez e, em abril de 1952, técnicos da Dumont se comprometeram a instalar a estação em apenas 1 5 dias,
supervisionar a inauguração, quis saber quantos milhares de poucos meses depois de inauguradas as emissoras de Chateau­ depois que o material chegasse ao Rio. Nosso planejamento foi a tal ponto, que
receptores já tinham sido vendidos pelo comércio à população briand em São Paulo e no Rio de Janeiro, a CTT apresentava ao até o cabeamento estava previsto. O equipamento foi totalmente embalado e
de São Paulo. Morais descreve a reacão
' de Chateaubriand da s e - prefeito do Rio de Janeiro, João Carlos Vital, um plano para dotar levado para Nova York, onde ficou anmazenado no cais à espera da ordem de

guinte forma: o então Distrito Federal de um canal de televisão educativa. embarque (Milanez, 2007, p. 23).

(...) Disse para ele não esquentar a cabeça com aquilo, que no Brasil tudo No mês seguinte, o presidente Getúlio Vargas concede a o u ­ Quando a concessão foi obtida, acreditava-se que rapida­
tinha solução. Telefonou ao dono de uma grande empresa de importação e torga de canais educativos para várias entidades sediadas no mente o Canal 2 entraria no ar, isso porque além do projeto
exportação e pediu-lhe que trouxesse por avião, dos Estados Unidos, duzentos
então Distrito Federal. O Canal 2 coube ao grupo de Roquette­ técnico e da programação já estarem elaborados, encontravam­
Pinto, que, rapidamente, dá início à sua implantação.28 O Diá­
aparelhos de TV, de modo que chegassem a São Paulo três dias depois. O
homem explicou que não era tão simples: por causa da morosa burocracia se em ritmo acelerado as obras de construção dos estúdios, que
do Ministério da Fazenda, u m processo de importação (mesmo que fosse rio Oficial de 14 de maio de 1952 publica o decreto assinado ocupariam alguns andares no prédio onde funcionava a Rádio
agilizado por ordem do presidente da República, como Chateaubriand sugeria) por Vargas e também por seu ministro de Viação e Obras P ú - Roquette-Pinto. A rádio continuaria com o 11 º andar, e a tele­
,
iria consumir pelo menos dois meses até que os televisores fossem postos no blicas, Alvaro Pereira de Sousa Lima. Em seguida, um resumo visão, com os andares subsequentes. Já estava igualmente estu­
aeroporto de Congonhas (Morais, 1996, p. SOO). das especificações do que se pretendia na TV Roquette-Pinto dada a melhor posição para a antena da TV, que seria montada
Ainda segundo Morais, Chatreaubriand não se assustou: era enviado aos fabricantes, agora acompanhado de pedidos de no Pão de Açúcar ou no Sumaré. Era ideia do prefeito transfor­
Então traga de contrabando. Eu me responsabilizo. O primeiro receptor que
preços e condições para a compra do equipamento técnico. De mar o Sumaré, seu local preferido para a antena, em um grande
desembarcar eu mando entregar no Palácio do Catete, como presente meu para posse das respostas, em solenidade pública realizada no Palácio centro de turismo, com a criação da "Cidade da Televisão".
o presidente Outra (Morais, 1996, p. 501 ). da Guanabara, com a presença do prefeito, foram abertas as pro­ A Prefeitura do Rio de Janeiro chegou a fazer o pagamento da
postas. A vencedora foi a firma Allan B. Dumont Laboratories, prestação inicial de US$ 70 mil. Nesse meio tempo, a Dumont
O lançamento da TV Tupi de São Paulo não desmobilizou
de Nova Jersey, nos Estados Unidos. já estava pagando US$ 40 por dia pela armazenagem, em Nova
o grupo de professores e intelectuais liderados por Roquette­
Pinto. Para eles, o surgimento de uma emissora comercial não De acordo com o contrato assinado entre a Prefeitura do Rio York, do equipamento técnico. Com a exoneração do prefeito
excluía a existência de uma TV Educativa. Tanto que Roquette­ de Janeiro e a Dumont, o equipamento técnico da TV Roquette­ João Carlos Vital, uma das primeiras providências do coronel
Pinto, juntamente com seu discípulo Fernando Tude de Oli­ Pinto custaria US$ 473 mil. A Prefeitura pagaria uma prestação Dulcídio Cardoso, que assume o cargo, foi demitir Tude de Souza
veira, com o engenheiro José Oliveira Reis e o general Lauro inicial de US$ 70 mil, outros US$ 166 mil seriam pagos durante da direção da Rádio Roquette-Pinto. A partir daquele dia, nin­
de Medeiros, conseguem que seja criada oficialmente pela Pre­ a montagem da estação, com os restantes 50% sendo abatidos guém mais falou com ele ou com o próprio Roquette-Pinto sobre
feitura do Rio de Janeiro uma equipe de trabalho, batizada de durante vários anos. O contrato foi aprovado, sem quaisquer a televisão educativa. Como assinala Tude de Souza, "o nosso
Comissão Técnica de Televisão (CTT), cujo objetivo era fazer um problemas, pelo Tribunal de Contas. Na viagem que fez aos projeto, que estava praticamente concretizado, despareceu den­
levantamento completo de tudo o que havia no mundo sobre o Estados Unidos, em companhia do general Lauro de Medeiros, tro das gavetas do Palácio da Guanabara, sem que nenhum
assunto, a fim de embasar a emissora que pretendiam colocar para participar de um seminário sobre educação, promovido outro prefeito quisesse se preocupar com o assunto" (Milanez,
no ar. pela Unesco, Tude de Souza, na condição de dirigente da Rádio 2007, p. 24).
Roquette-Pinto, foi incumbido pelo prefeito para complementar O episódio da exoneração do prefeito José Carlos Vital é um
Depois de estudadas as estações de TV existentes, a comis­
as negociações com a Dumont. Nesses contatos, Tude de Souza dos mais confusos de que se tem notícia na política do Rio de J a ­
são relacionou os oito fabricantes de aparelhamento técnico.
percebeu o entusiasmo do proprietário da empresa, Mr. D u ­ neiro. Episódio que acabou assumindo contornos políticos mais
Esses fabricantes foram contatados e examinaram o pedido
mont, que também era cientista e um dos pioneiros da televisão amplos, tendo em vista o quadro de acirramento entre os par­
feito pelos brasileiros, respondendo com análises detalhadas.
educativa nos Estados Unidos,29 pelo projeto brasileiro. tidários de Getúlio Vargas e os liberais da UDN que lhe faziam
De posse desse material, a Comissão voltou a se reunir durante
oposição. Há fortes indícios de que Chateaubriand aproveitou­ Roquette-Pinto teria tido a oportunidade de apresentar à popu­ não era uma exceção entre os responsáveis pela implantação da televisão no
Brasil: salvo u m ou outro que tivera convívio superficial com o incipiente cinema
se da ligação estreita que mantinha com inúmeros udenistas lação brasileira, no nascedouro, duas maneiras díversas de se
brasileiro, eram todos egressos do rádio. Etampouco haviade onde copiar um
para pressionar as autoridades municipais a deixarem de lado fazer televisão. Teria, sobretudo, criado uma base sobre a qual a modelo de sucesso, pois naquele ano só três canais de televisão funcionavam
o compromisso com a futura Televisão Roquette-Pinto. Apesar TV Pública pudesse ser erguida no país com menos díficuldades no mundo: um na Inglaterra, um na França e um nos Estados Unidos. Por ser
da insistência de Tude de Souza, o novo prefeito não se dígnou que as enfrentadas por todos que, desde então, tentam furar o o único canal comercial dos três, o norte-americano, da NBC (associada à RCA
sequer a responder aos insistentes pedídos da firma norte-ame- cerco imposto pelas TVs comerciais. No entanto, o que se veri­ Victor), era o que mais se aproximava do que se pretendiafazer no Brasil
..
r1cana. ficou é que, cinco anos depois, em 1957, a televisão planejada (Morais, p. 498, grifos da autora).

Eu, particulannente, por diversas vezes, procurei colaborar com a Prefeitura, por Roquette-Pinto perde inclusive a concessão, num ato deter­ Aqui, vale observar o processo de naturalização do que foi
pois a Dumont estava disposta a manter os preços estipulados no contrato, minado pelo presidente Juscelino Kubitschek, ao redístribuir os uma escolha e não algo inevitável. O modelo comercial de t e ­
embora não tivéssemos cumprido nossos compromissos. Entretanto, a nova canais no Rio de Janeiro ao sabor dos seus interesses políticos. levisão nos moldes do norte-americano é apresentado como "o
administração da cidade não quis prosseguir uma obra iniciada durante a
gestão de outro prefeito. E como ninguém resolvesse nada, a finna norte­
Encerrava-se assim o sonho da televisão educativa de R o ­ que mais se aproximava do que se pretendía fazer no Brasil".
americana retirou o material do cais de Nova York e cancelou o contrato que quette-Pinto. Escrevendo sobre o assunto, o pesquisador Louk Nesse processo de naturalização, as outras opções são providen­
havia feito com a Prefeitura do Rio deJaneiro, perdendo assim a municipalidade de La Rive Box faz uma constatação que vale a pena ser trans­ cialmente esquecidas. Tanto as existentes fora do Brasil, quanto
os 70 mil dólares da prestação inicial (MILANEZ, 2007, p. 24). crita: a que Roquette-Pinto pretendía colocar em prática. Além dísso,
Nesse meio tempo, Chateaubriand fazia questão de alardear Provavelmente o fenómeno mais notável na história da televisão educativa no não se tratava, necessariamente, de copiar um modelo. Chate­
que a TV que estava implantando no Brasil seguia os moldes
Brasil é sua desanimadora similaridade com a história do rádio educativo. As aubriand poderia ter criado um modelo próprio para a televisão
do que havia de melhor no mundo e que ele era o único capaz
implicações educacionais de ambas as mídias foram inicialmente propostas
brasileira, como era o projeto de Roquette-Pinto. Que os veículos
pelo mesmo homem: o professor Roquette-Pinto. Enquanto jovem, trabalhou
de dar conta de um projeto de tamanha envergadura. Como G e ­ na ideia de fazer o rádio servir às necessidades de desenvolvimento cultural do
associados não dívulgassem a informação de que havia mais de
túlio já vivia um verdadeiro inferno astral, sob fogo cerrado da país. Na sua meia idade, ele se dedicou às primeiras experiências com televisão um tipo de emissora de televisão no mundo é até compreensível,
UDN, dos Diários Associados e da maioria dos jornais e rádíos da no Brasil. Pouco antes de sua morte, participou da elaboração de planos para a mas que a história dos primórdíos da televisão no Brasil conti­
época, não havia o que fazer nem a quem o grupo de Roquette­ implantação de uma televisão educativa no Rio de Janeiro. Uma vez mais seus nue não registrando esse fato é algo que deve ser visto, no m í ­
Pinto pudesse recorrer.
planos foram desconsiderados por pressões políticas poderosas (...).30 nimo, com estranhamento.
Pelo projeto da Comissão Técnica de Televisão, a TV Roquette­ 6.5 A naturalização de uma escolha Chatô: o rei do Brasil, a biografia de Chateaubriand escrita por
Pinto deveria operar como "uma pequena BBC". Tude de Souza Fernando Morais (1994) é um dos livros que mais tem contri­
Como a palavra televisão é, no mínimo, polissêmica, refe­
já havia preparado inclusive uma "Carta Municipal" para que buido para a naturalizacão ' da TV Comercial entre nós. Como
rindo-se tanto ao objeto em si como à emissora ou canal, além
ela funcionasse em caráter experimental durante cinco anos. toda biografia é o biografado segundo o biógrafo, fica perceptível
de envolver o conteúdo por ele exibido, houve, no Brasil, desde
Tempo que imaginava ser suficiente para evitar concorrência o encanto de Morais para com Chateaubriand, ao optar por uma
o inicio, muita confusão entre os vários sentidos desse termo.
com outras estações e garantir suas finalidades exclusivas para escrita na qual acaba incorporando a visão de mundo de seu
Para a maioria das pessoas nos idos de 19 50, o assunto, seja pela
a educação e a cultura. Mas nem assim ela conseguiu sair biografado, cometendo um dos equívocos mais comuns nessa
novidade, seja pela complexidade ou pelo desconhecimento,
do papel. O projeto de televisão elaborado pela CTT presidída área: o de não perceber que a relação entre vida e obra de um i n ­
era irrelevante. No entanto, não faltou quem visse irrelevância
por Roquette-Pinto, inviabilizado no Brasil, acabou servindo de dívíduo não é uma relacão funcional de causa e efeito, mas uma
onde definitivamente ela não existia. É o caso da maioria da '

base para a organização de díversas estações de TV em várias relacão


' reflexiva.
equipe técnica que foi trabalhar com Chateaubriand, um grupo
partes do mundo, como foi o caso da emissora da Universidade de jovens recrutado em situações díversas e que estava ali sem Em outras palavras, ao ver o mundo pela ótica de Chate­
de São Francisco, na Califórnia. O que descarta qualquer possi­ entender exatamente o que se passava. Um desses jovens, na aubriand, desconhecendo as dísputas envolvendo o inicio da
bilidade envolvendo falhas técnicas no projeto. época com 22 anos, era Cassiano Gabus Mendes. Sua inexperi­ televisão no Brasil, Morais não leva em conta um processo
Caso tivesse entrado no ar, a emissora educativa planejada por ência, segundo Morais, mais amplo de pesquisa e interação criativa. Esse aspecto é
igualmente importante para se refletir sobre o fato de que "o farta distribuição de verbas publicitárias. do "banquete civilizatório". A Constituição de 1988, no capítulo
homem para todas as estações",ll como o cientista Carlos Cha­ Desde os primeiros momentos, Chateaubriand soube capitali­ 5, define como sendo complementares os sistemas Privado, P ú ­
gas Filho3 2 se referiu a Roquette-Pinto durante homenagem na zar ganhos políticos importantes como consequência do seu d e ­ blico e Estatal de televisão e isso até agora não foi levado em
Academia Brasileira de Ciências, em setembro de 1984, ainda cantado "pioneirismo" ao implantar a televisão. Ele sempre fez conta. Mais ainda: a falta de um efetivo Marco Regulatório conti­
não ter merecido uma biografia de fôlego, à altura de seu papel questão de desconhecer Roquette-Pinto e chamar para si todas nua inviabilizando a existência de uma comunicacão ' democrá-
para a ciência e a cultura no Brasil. Ser "apenas" um intelectual as glórias pelo início da televisão no país. Intelectual brilhante tica e plural em nosso país.
comprometido com a educação do povo brasileiro e o avanço e homem de ação comprometido com os desafios do seu tempo, Por tudo isso, esse outro olhar sobre os primórdios da histó­
da ciência pelo visto tornou Roquette-Pinto uma figura menos Roquette-Pinto via a televisão "como meio para educar o povo", ria da televisão no Brasil, aqui apresentado, aponta para uma
interessante que a vida cheia de golpes e pseudoglórias do "cor­ numa linha muito próxima à deJohn Reith, o primeiro dirigente disputa que os defensores do modelo comercial tudo fizeram e
dial" Chateaubriand. da BBC. Dificilmente ele aceitaria colocar no ar filmes e seriados fazem para que permaneça ignorada. Conhecer essa contra-his­
Não coube à Tupi a primazia de colocar no ar as primeiras que não refletissem e nada dissessem sobre a nossa realidade. tória pode significar um primeiro passo para que as emissoras
imagens da TV brasileira, como assinalou o cronista Antônio Dito de outra forma, ele estava longe de ter um perfil que inte­ não comerciais encontrem o seu lugar entre nós. Afinal, não se
Maria. O propagado espírito "empreendedor" de Chateaubriand ressasse aos norte-americanos e à própria elite brasileira. trata somente de mirar o passado. Trata-se de, a partir de outra
também precisa ser relativizado, quando se observa que a t e ­ visão do passado, contribuir na construção de um futuro que
Conclusão
levisão brasileira, assim como a mexicana e a cubana, fizeram efetivamente interesse à maioria da população.
parte de um projeto maior envolvendo empresários desses paí­ Nos primórdios da televisão no Brasil, a disputa travada entre
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ses e o governo norte-americano, com vistas a garantir a hege­ Chateaubriand e Roquette-Pinto ultrapassa em muito a questão
monia econômica e política na região. entre duas personalidades singulares. Ela sintetiza a situação BIAL, P. Roberto Marinho. Rio deJaneiro:Jorge Zahar Ed., 2004.
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Nos meses seguintes à sua inauguração, a TV Tupi Canal 3 política, econômica e social então vigente. Um Brasil que, por
doutoramento defendida n a Universidade de Colúmbia. Estados Uni­
continuou sendo notícia nos Diários Associados. Um registro um lado, lutava para superar suas raízes históricas e, por outro, dos, 1973.
especial foi realizado pelo próprio Chateaubriand em sua c o ­ assistia à ascensão de forças que marcavam o seu presente e t e ­ CARRATO, A. "A TV Pública e seus inimigos". Anais Intercom, 2005.

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Paulo. Agradecimento que deixa exposta mais uma contradição Atualmente, o país é uma democracia estável, com instituições
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rências do Estado na economia, essa interferência é motivo de mundo e, na última década, tem obtido significativos resulta­ Fundação Assis Chateaubriand, 2000, 36 volumes.
aplausos e elogios quando funciona a favor de seus interesses. dos na redução da pobreza, com políticas públicas direcionadas FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

Por isso, não é exagero afirmar que o principal sustentáculo a diminuir o seu grande déficit social e educacional. Apesar dos GOFF,J. L. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

para o surgimento da televisão privada, comercial, de Chate­ avanços, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais JAMBREIRO, O. A TV no Brasil do século XX. Salvador: EDUFBA, 2002.
LOSURDO, D. Contra-História do Liberalismo. Aparecida (SP): Ideias& Le-
aubriand, foi duplamente o Estado brasileiro, através de todas do planeta no que se refere à distribuição de riqueza entre seus tras, 2006.
as facilidades que obteve e também do "incentivo" financeiro habitantes. MARQUES DE MELO, J. "Para compreender o fenômeno". Prefácio do livro

garantido por órgãos como o Banco do Brasil e o Banco do Estado Quando do seu surgimento, a televisão se apresentava como 60 anos de televisão no Brasil, organizado por Alfredo Vizeu, Flávio Por­
de São Paulo. Aspectos obviamente não mencionados por Cha­ a grande novidade, capaz de informar a todos e trazer o mundo cello e Iluska Coutinho. Florianópolis: Editora Insular, 2010.
LIMA,]. C. Uma história da TV Cultura. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.
teaubriand, por terem se dado ao arrepio da lei. Igualmente não para perto de cada um dos brasileiros e brasileiras. Só que essas
MATOS, D. J. L. José Lessa (org.). Pioneiros do rádio e da TV no Brasil. São
é nenhum exagero afirmar-se que o principal sustentáculo das promessas continuam longe de ser cumpridas em se tratando Paulo: Códex, 2004.
TVs comerciais no Brasil continua sendo o Estado, através da da Televisão Comercial, onde o telespectador permanece alijado MATOS, S. História da televisão brasileira. Uma visão econômica, social e
política. Petrópolis: Vozes, 2002. profe. ssor Murilo César Ramos. 24. Seu conteúdo baseou-se n a Indicação n ° 1 , de 6 de julho de 1 949, da ComiL
ssão Técnica
É o caso de Sérgio Mattos, que, no livro História da televisão brasileira, Uma do Rádio. Estavam nela incluídas as determinaçõe.s sobre a largura de faixa, frequência do
MILANEZ,L. TVE Brasil cenas de uma história. Rio deJaneiro: TVE Brasil e 1 O.
visão econômica, social e política (2000), aborda apenas a história da TV Comercial.
1 - É
som, onda suporte, polarização da irradiação, potência e canai.s.
Banco do Brasil, 2007.
o caso, também, do livro 60 anos de telejornalismo no Brasil, organizado por Alfredo r 25. 'Tel eviLsão para mai,_.s paulistas", artigo publicado em 1 2 de outubro de 1949, em
MORAIS, F. Chatô, o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Vizeu, Fl ávio Porcell o e lluska Coutinho, que, me.smo sendo lançado 1 O anos depoi,_s, acaba O pensamento de Assis Chateaubriand. Brasília, Fundação Ass __ 11s Chateaubr and, 2000,
i i
SANTOS,J. F. Umhomem chamado Maria. Rio deJaneiro: Editora Objetiva, .. -.
seguindo a me.sma lógica de periodização proposta por Mattos, transformando a história da volume 26, p . 790.
2005. TV Comercia l1 .na história da TV bras_i;ile ira. 26. O ep iL.sódio, um dos maiL.s polêmicos da história da imprensa bras- ilile ira, foi fartamente
SOBRINHO,]. B. O. Boni. São Paulo: Casa da Palavra, 2010. } l . As famílias são: Abravanel (SBT), Dall evo e Carvalho (Rede TV!), MariL. nho (Organizações detalhado p elo próprio Wa.i1ner. Para um aprofundamento, ver: S . WAINER, Samuel, Minha
RIBEIRO, A. P. G; SACRAMENTO, I.; ROXO, M. História da televisão no Bra­ Globo), Macedo (Record) e Saad (Bande irantes). Razão de Viver, Rio deJane i ro, Record, 1987.
sil. Do início aos dias de hoje. São Paulo: Contexto, 2010. 1 2. Valério CRUZ BRITTOS; André KALIKOSKE, "TV aos 60 anos. De. safios 27. Para aprofundamento sobre o assunto, ver A. L. CERVO; C. BUENO. História da

SCHWARZ, R. "As ideias fora do lugar". ln: Ao Vencedor as batatas. São para a programação televisiva", em <www.observatoriodai mprensa.com.br>. Ace.sso em: Política Exterior do Brasil, Brasília, Editora UnB, 2002, p . 270.
05/10/201 O. 28. Receberam também outorgas de canai11s_ de televiLsão educativa, a Rádio Nacional (em
Paulo: Duas Cidades Ed. 34, 2000.
1 3. Em cinco de agosto de 201 O, o STF cons- i1derou improcedente a Ação Direta de nome da Superintendência das Empre.s as incorporadas ao Patrimônio Nacional - decreto
Inconstitucionalidade (ADI) 3944 impetrada pelo PSOl sobre a TV Digital. O relator do 29254), o Ministéri o da Educação e Saúde (Decreto 30814) e a Fundação Rádio Mauá, do
!- O Seminári o Internacional "lnfància e Comunicação'' aconteceu em Brasília (DF), nos
proce.sso, m inistro Ayre.s Brito, cons. i11derou que a opção pela tecnologia jap one.s a envolvia Ministério do Trabal ho (Decreto 30.81 5 ) .Juntavam-se a e.ssas conce.ssõe.s para uso educativo
dias 6, 7 e 8 de março de 2013, e contou com a pre.sença de e.specialli.ist as nacionaij1s_ e
apenas a mudança tecnológica e que eram improcedente.s outras que.stõe.s como as canai s para em ilissoras
.- comercia is, como as da Rádio Mayrink Ve iga e da Rádio Continental.
is, al ém de autoridade.s bras_ ir le i1 ras.
internaciona1.
envolvendo novos conce.s- s- i1onári1os,
·- o dire to da informação e o pr ncípio da public dade.
.. i i i 29. O cientista Allen Balcem Dumont (1901-1965) nasceu em Nova York, nos Estados
2. D . SANTINI, "Relator da ONU crit ti[ca concentração de mídia no Bras- i1l'', em Observatório O voto do relator foi acompanhado por se is outros miL nistros, com uma só discordância. ..
_ Unidos. Ele é conhecido por ter desenvol[vii do o tubo de rai1os catódicos, uti1lifzado nos
da imprensa, edição n. 738. (www.observatoriodai mprensa.com.br). ll
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i1odaimprensa.com.br>. Acesso em: 28/01/2013. comercialIliizar equipamentos completos para a montagem de em iii.. ssoras de televijsão,
_ ele teve,
edição da pesquisa Retratos da le itura no Bras- ii l, divulgada em 28/03/2012. A pesquisa, 1 4. Murilo César RAMOS. «2007: Meu ano Roquette-Pinto da comunicação social '', em por 1 O anos, uma e.stação de televisão nos Estados Unidos, voltada excl usivamente para a
encomendada pel o Instituto Pró-l - 1vro, foi rea iizada pe o lbope Inte gência e ouv u 5 mil TerraMa.gazine. Dili.sponível em: <www.terramagazine.com.br>. Acessado em: 15/01/2007. educação. Motivo pelo qual é cons- i1 derado pione iro da TV Educativa nos Estados Unidos,
i li l li i
pe.ssoas em 3 1 5 municípios bras- i1le it,ros entre junho e julho de 2011. com seu nome, em forma de homenagem, tendo sido dado aos canais de televin.são da
1 5. Ruy CASTRO. "Roquette-Pinto: o homem multidão". Revista especial dos 60 anos da
4. A BBC foi criada em 1922, como uma corporação voltada para a entrega de Rádio MEC. Rio de Jane iro, 1996, p . 4. Univers- ilidade de Montclair e ao da TeleviIL.são Pública de Nova Jersey.

corre.spondências e para as transm iIssõe. L. s telegráficas, incluindo posteriormente o rádio e a 30. louk de la Rive BOX, Organization of EducationalBroadcasting in Brazil. Tese de
1 6. «Quem deu o nome a ele de 'Pai do Rádio do Bras.1il' não foi o Bras. i�l, foi lá nos Estados
· ifl-.si1 on Italiana (RAI) surge em 1924; a France Television é de 1963, a ADR
TV. A Radiotel1ev doutorado defendida na Univers- 1idade de Colúmbia, Estados Unidos, em 1973. A citação
Unidos. Trê. s anos depo iI.sL de o rádio ter aparecido por lá, os jornaiIL.s de lá informavam:
(Deutsche Well e) e.stá no ar desde 1953. Já a NHK (Nipon Hoso Kyokai) foi criada em 1925, transcrita e.stá na pági1n a 31 9.
'chegou aqui o Pai do Rádio Bras- ilile iro'. Ele sempre ditzir a iILsso:
_ 'Ele.s lá é que me deram o nome
operando inicialmente como emi1.ssora
- de rádio.
de Pai do Rádio,,,. Depoimento de Se.atriz Roquette-Pinto Bo unga, em Roquette-Pint;o e a 31 . A citação é retir rada do epílogo de Thomas Elliot sobre Thomas Moore.
j
5. No que se refere à propriedade, a TeleviLsão possui trê.s modalidade.s: Pública, Comercial ou Rádio Sociedade do Rio deJaneiro, Adriana Duarte, Rio de Jane i ro, FGV, 2008. 32. Fi lho do renomado sanitari1 sta Carl os Chagas, foi médico, profe.ssor, cientista e e.scritor.
privada e Estatal. De mane ira s- i1:mplificada, a TVPública é independente tanto do mercado
1 7. A única biografia existente sobre Roquette-Pinto é a elaborada por Roberto Ruiz de Ex- p re.s.1idente da Academia Bras.1ile ili.ra de Ciência, era um profundo admirador da intelIliigência,
quanto do governo; a TV Comercial é bancada pela publicidade e vive em função do
Rosa Mateus, intitulada EdgardRoquette-Pinto: aspectos marcantes de sua vida e obra, da seriedade e do trabal ho realIlizado
i por Roquette-Pinto.
mercado, enquanto a TV Estatal é manti da pel o governo e apre.senta basicamente o ponto
de vista governamental.
publicada p elo MEC, em 1984. Como o próprio nome indica, e.stá longe de ser uma obra 33. O pensamento de Assis Chateaubriand. Artigos publicados em 1950, Brasília,
exaustiva. Já a pe.squill_.sa de Adriana Duarte não é uma biografia sobre o p ai da radiodifusão - - ILs Chate.aubr and, volume 27, p . 1014.
Fundação Ass
6. Sobre a luta em prol da TV Pública no Bras- i1l, ver Carrato (2005) e Carrato (2006). i i
bras- ilile i ra. No entanto, por conter depoimentos de famili are.s, am igos e colab oradore.s de
7 Alguns veículos de comunicação foram mai s longe. É o caso da revista Veja, para quem Roquette-Pinto, torna-se -- referência importante.
a criação da TV Bras- i1l «parece ser apenas um prêmio de consolação para os aloprados que 1 8. Roquete-Pinto nasceu em 1884 e faleceu em 1954. Chateaubriand é de 1892, tendo
tentaram em vão censurar a imprensa com a criação de um soviet (conselho em russo) morrido em 1968. A biografia e.scrita por Fernando MoraiILs tem 732 pági nas.
Federal deJornalIlii_smo no prime iro mandato de lula". Revista Veja, edição 2038, página 146.
1 9. Entre 1924 e 1968, Chateaubriand publicou 1 1 .870 artigos assinados.
8 No balanço que fez de sua gestão (2010-2013), João Sayad reconheceu que a audiência
20. Depoimento de lima Duarte a David José le.ssa Mattos, publicado no l ivro Pioneiros do
da TV Cultura atualmente é de apenas 1,3%, admitindo que os recursos que a em iILssora
-
rádio e da TV no Brasil, São Paulo, Códex, 2004, p . 1 1 9 .
recebe do governo de São Paulo são insuficiente.s. Ele, igual1mente,
. admiti1.u que em sua ge.stão
foram demitidos 50% dos funci onários, não vendo n1. 21 . O referido disco cons• iliste num aparelho inventado e m 1884 p elo al emão Paul Nipkow,
i sso
-· nenhum fator de comprometimento
para a qualidade da programação. Para maiIsL deta lhe.s, consultar «Interatividade recupera para enviar uma imagem em movimento de um local para outro, por me io de um condutor
elétrico. Para tanto, uti1'li.I•zou uma propriedade do selênio, que era o fato de a condutividade
a audiência", entrevista de João Sayad a Maria Eugênia de Meneze.s, publicada no s ite
elétrica de.ste el emento ser maior conforme a iluminação. Decompondo a imagem num
Observatório da Imprensa (www.observatori odaimprensa.com.br), edição n. 742 e "As
ide ias de.scont inuadas. João Sayad quer mudanças que os opositore.s intitulam de.smonte", conJ unto de pontos e.scuros e luminosos, e.ste.s poderiam ser convertidos em si nai .s de corrente
j
elétrica, de intensidade proporcional à claridade dos pontos.
em Carta Capital, edição n. 608, 1 1 de agosto de 2010, p . 54-55.
22. MORAIS, p . 439.
9. A história da TV Pública no Bras- i1l é o tema da minha pe.squisa, em fase de conclusão,
no programa de doutorado da Faculdade de Comunicação da UnB, sob a orientação do 23 . Idem, p . 440-441 .
7.en,, hOl'M d'� fip&rd'Af/16 d'& 6,(/JP6���o: que, por um lado, o estado de Mato Grosso do Sul concentra um No presente artigo, busca-se discutir, a partir de um conjunto
conjunto de atividades produtivas no segmento do agronegócio de textos midiáticos - artigos assinados e reportagens - publi­
vi�õ&� crttic�� � vi�i/Jd'id'Af/16 d'� c�u��
que lhe tem garantido um crescimento econômico vertiginoso. cados na imprensa e redes sociais após a reação vigorosa da
Gu�Mi 6 Miow.( 1 Dentre as forças econômicas que protagonizam a disputa de opinião pública em apoio à causa indigena, os dilemas da l i ­
modo a garantir condições para sua expansão podemos citar os berdade de expressão perante os chamados discursos de ódio,
grandes produtores de commodities como a soja, o gado, a m a ­ como tema fundamental do aprofundamento da experiência
Luciana de Oliveira
"Não existe propriamente uma questão indígena. deira de eucalipto e a cana, e suas associações de interesses - democrática no Brasil. Os textos em foco desqualificaram a
Há uma questão não indígena. dentre as quais se destaca a Federação da Agricultura e Pecuária participação popular e apresentaram argumentos que dão a ver
Quer dizer, nós, não índios, é que somos oproblema" do Mato Grosso do Sul (Famasul) -, empresas multinacionais um projeto de nação para o Brasil excludente e preconceitu­
Darcy Ribeiro. do ramo de papel e celulose, açúcar e etanol, extração mineral oso. Tais textos se constroem com base em diversos tipos de
(Congresso daSBPC, 1984) que atuam por meio do lobby e de pressões sobre os poderes do estratégias discursivas construidas com base em imaginários
Estado, quando não pela representação política direta, a exem­ bastante enraizados sobre os índios que aqui serão identificados
A luta dos índios Guarani e Kaiowá pelo direito à terra é plo da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Por e discutidos. Vale dizer que as visões estrategicamente construi­
antiga e congrega todo um movimento de resistência e insis­ outro lado, tal crescimento baseado na monocultura e na cri­ das nos textos analisados colocam-se em disputa hegemônica
tência política incrustado nas sombras da história brasileira. ação extensiva de gado tem sido acompanhado da destruição de sentido com as visões sobre os índios Guarani e Kaiowá,
Recentemente, na segunda metade do ano de 2012, assistimos do patrimônio natural e humano do Mato Grosso do Sul, como trazidas ou por eles mesmos ou por entidades apoiadoras de
às principais reivindicações dessa luta alcançarem expressiva apontam diversos especialistas. sua luta histórica que destacam sua capacidade de resistência, a
visibilidade nos media nacionais e internacionais pari passu legitimidade de sua luta pela terra e, principalmente, as violên­
Também no centro da controvérsia está a questão do direito
de grande mobilização nas redes sociais, espaços públicos e cias sofridas cotidianamente por eles: ameaças de assassinos
dos povos indigenas à terra e à autodeterminação, garantidos
em diversos fóruns. Essa mobilizacão ' teve como elemento d e - de aluguel contratados como "seguranças" por fazendeiros da
pela carta constitucional de 1988. Na prática, assistimos a uma
flagrador uma carta da comunidade de Pyellito Kue/Mbarakay região, o assassinato impune de importantes líderes e intelec­
série trágica e em larga escala de violações da legalidade (em
(Iguatemi, Mato Grosso do Sul) divulgada pelofacebook do Con­ tuais indigenas que historicamente lutaram por seus direitos,
sua grande maioria, impunes e que gozam da cumplicidade de
selho Aty Guasu - organização política dos Guarani e Kaiowá - principalmente o da demarcação de suas terras tradicionais de
setores importantes dos poderes locais). Assistimos quase que
motivada pela decisão judicial de reintegração de posse conce­ modo a garantir a preservação de seu modo de vida, ordens de
à impossibilidade dos indigenas serem realmente escutados e
dida a fazendeiros pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região despejo cujo fundamento jurídico é questionável, ameaças de
vistos, o que coloca em cheque qualquer noção de cidadania e
de São Paulo. Na carta, os índios pedem ao Estado brasileiro - morte, torturas, estupros, sequestros e outras formas de agres­
direito à comunicação. Mas o problema é mais amplo e afeta os
"ao governo e à Justiça Federal" - para decretar não o despejo ou são física e simbólica. As histórias contadas pelos protagonis­
próprios sentidos de democracia no Brasil. O que está aconte­
expulsão deles de seu território, mas "a nossa morte coletiva e tas indigenas sensibilizaram a muitos cidadãos brasileiros que
cendo no Mato Grosso do Sul não pode ser lido, de forma sim­
para enterrar nós todos aqui" ou "a nossa dizimação e extinção vivem distantes do Mato Grosso do Sul, mas também instiga­
plória, apenas como um problema de impunidade ou corrupção
total, além de enviar vários tratores para cavar um grande b u ­ ram a reação de forças políticas ligadas aos grandes interesses
em nivel local ou de um conflito regional. Muito menos pode ser
raco para jogar e enterrar os nossos corpos". Caso não fossem econômicos da região, com o apoio das empresas de mídia.
recalcado como algum resquicio, supostamente em extinção, de
atendidos, assinalavam a possibilidade da comunidade lutar outro Brasil, do passado, que sobreviveria em regiões remotas 7 .1 Breve nota sobre o percurso metodológico
até a morte contra as forças do Estado pois não abandonariam o ou com uma cultura política e uma sociedade civil menos "de­
seu tekoha (que em guarani significa "o lugar onde se pode viver O presente artigo propõe-se, do ponto de vista analitico, em
senvolvida" ou estruturada. Trata-se, pelo contrário, de um i n ­
do nosso modo"). primeiro lugar, a identificar os argumentos apresentados num
dicio marcante dos processos violentos e excludentes que fazem
A visibilidade da luta dos Guarani e Kaiowá pelo direito à terra parte do Brasil do século XXI e de suas contradições. conjunto de textos publicados em jornal, revista, portais de
não se deu sem controvérsia. Para compreendê-la, é preciso ver internet e redes sociais que questionam a legitimidade da causa
dos índios Guarani e Kaiowá e do apoio da opinião pública naci­ Num segundo movimento analítico, propomos relacionar as Assim, a hegemonia é uma construção de linguagem, e a
onal a ela. Os textos são os seguintes: "A ilusão do paraíso", p u ­ "teorias" da liberdade de expressão, tal como delineadas pela disputa hegemônica se dá numa superfície discursiva. A ambi­
blicado pela revista Veja em 04/11/2012; "Guarani Kaiowá de doxa na exegese dos textos jornalísticos realizadas por cidadãos, guidade discursiva é fator explicativo de primeira ordem, pois a
Boutique", do articulista Luís Felipe Pondé, publicado pelo jor­ com algumas das reflexões teórico-conceituais desenvolvidas luta hegemônica consiste em tentar consagrar certas interpre­
nal Folha de São Paulo em 19/11/2012; "A tragédia da Funai", da acerca do eixo comunicação-disputa hegemônica- nação brasi­ tações como válidas - o centro que detém o fluxo das diferenças
articulista Kátia Abreu, publicado pelo jornal Folha de São Paulo leira, tomando como referência os imaginários sobre os índios e denominados pontos nodais- bem como em fornecer uma apa­
em 03/11/2012; "Dois terços dos indigenas recebem benefícios as visões sobre liberdade de expressão, bem como os nexos apa­ rente unidade àquilo que em si mesmo é diverso. Assim sendo, o
do governo", matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo rentemente (im)prováveis entre ambos. ponto de observação da realidade social escolhido por eles loca­
em 10/11/2012; "Guarani Kaiowá é o c... meu nome agora é liza-s e no campo da articulação, devendo renunciar à sociedade
7.2 Para começar, a fronteira: comunicação, disputa hegemônica e
Enéas P. . .", publicado na coluna semanal de Walter Navarro, como totalidade fundante de seus processos parciais. O ponto
Nação
no jornal o Tempo em 08/11/2012.2 Trata-se de uma amostra nodal é, precisamente, o significado que se torna privilegiado
intencional que a meu ver representa discursos de incitação ao Antes de passar à análise dos textos, cabe uma pequena numa articulação discursiva, que consegue se estabelecer como
ódio e de desqualificação da opinião pública nacional. O con­ reflexão em resposta à pergunta: ao analisar textos midiáticos, hegemônico, fixando-se em uma cadeia: na medida em que n e ­
junto dos textos observados sugeriu que sua análise fosse feita para o que exatamente estamos olhando? Sem incorrer numa nhum conteúdo específico está predeterminado a preencher o
a partir de três operadores analíticos: 1) visões sobre a opinião visão simplista, mecânica e mediacêntrica do processo comu­ vazio estrutural, é o conflito entre vários conteúdos tentando
pública brasileira; 2) os imaginários sobre os índios; 3 ) a ques­ nicacional que resultaria numa compreensão determinística - desempenhar esse papel de preenchimento que vai tornar visí­
tão da terra. a midia determina a opinião-, é preciso dizer que os textos jor­ vel uma das interpretações contingentes com grau variado de
nalísticos fazem parte de uma rede estabelecida entre diferentes • •
Vale dizer ainda que são textos que se tornaram eles pró­ permanenc1a.
prios objeto de controvérsia; 3 especialmente o texto de Walter elementos e, portanto, para além da emissão de uma mensagem Na medida em que se refere a objetos somente acessíveis por
Navarro foi objeto de extenso debate no qual o tema da e sua recepção num processo linear, envolvem, a partir de seus meio de recursos comunicativos, não poderia deixar de aludir
liberdade de expressão ganhou centralidade. Por isso, propo­ múltiplos nodos institucionais e actanciais, múltiplas direções aos princípios constitutivos do discurso, desde que na com­
mos ainda, como um quarto operador analítico, a identifi­ da comunicação que comportam, simultaneamente, a forma­ preensão desse elemento haja um esforço em ultrapassar o
cação dos argumentos de defesa e de crítica a esse texto ção de um terreno comum de compreensão do real e a disputa de nível das características, formas e estruturas linguisticas, para
jornalístico, a partir de comentários na web (especialmente sentidos em embates discursivos. ,
entrar no campo da ideologia. E exatamente a tentativa de con-
o debate localizado no site "Belo Horizonte de A a Z", As matérias, reportagens e artigos jornalísticos bem como senso, que se dá no contexto da pluralidade e dos conflitos entre
que republicou o texto após sua remoção do portal do jor­ os comentários deflagrados por eles - suas interpretações - os grupos sociais, que constitui a prática articulatória de que
nal o Tempo: <http:/ /www.bhaz.com.br/apos-repercussao-nas­ conformam, portanto, um modo de observar disputas sociais no falam Laclau e Mouffe, a disputa hegemônica.4 Prática a partir
redes-sociais-jornal-o-tempo-afasta-colunista-walter-navarro/ plano discursivo. Laclau e Mouffe (2004) descrevem a disputa da qual os significados podem assumir outros sentidos. Mas
>), buscando compreender como os cidadãos caracterizam o hegemônica dessa forma, buscando uma ancoragem "aconte­ reconhecer que o sentido e as práticas articulatórias são posi­
conceito de liberdade de expressão, em que situações o evocam cimental" para situar o antagonismo em nossas sociedades. A cionais e contingentes não elimina o pressuposto, como fazem
e como o utilizam na defesa de suas posições. Portanto, não se disputa pressupõe uma rearticulação hegemônica permanente, entender os autores, de que essas novas posições não se dão
trata apenas de uma análise de conteúdo strictu senso presa ao devendo ser pensada no mundo contemporâneo ao nível das s u ­ num vácuo, e sim sobre uma teia de outras representações e
texto jornalístico ou interpretando-o autoritária ou solipsisti­ perfícies discursivas. A hegemonia é uma construção de lingua­ significados já existentes. Ao conflito e à busca do consenso,
camente, como chamam a atenção Leal, Antunes e Vaz (2012). gem na qual as ambiguidades dos signos são admitidas como portanto, seguem-se a objetivação e a ancoragem (num pro­
Há a consideração de que o texto jornalístico aciona a interação fator explicativo. Sob a visão "desconstrutivista" de Derrida, os cesso dinâmico e conflitivo) do novo sobre o estabelecido. Não
, . . ... autores veem o signo tanto como traço daquilo que ele substitui
entre pessoas, tematlcas, s1tuaçoes e contextos. é a pobreza de significados, mas, ao contrário, a polissemia que
(rastro) quanto como traço daquilo que ele não é (diferença).
desarticula uma estrutura discursiva. As duas condições para Neste foi adotado mais como forma utópica no plano do "idea­ expressao.
uma articulação hegemônica são, portanto, a presença de forças lismo político", balizando a visão das elites - os senhores rurais
7 .3 Olhando para os textos sob a ótica do discurso da nação
antagônicas e a instabilidade das fronteiras que as separam. então confrontados com a necessidade de pensar os negócios e
os interesses da coletividade fora dos nexos coloniais - sobre a 7.3.1 Eixo analítico 1 : visões sobre a opinião pública brasileira
Acreditamos que a disputa hegemônica entre diferentes pro­
jetos de nação para o Brasil pode ser observada a partir do es­ integração da sociedade nacional como processo e realidade. De maneira geral, os textos colocam a reação da opinião
,
quema conceitua! oferecido por Laclau e Mouffe. No caso aqui E com tais marcas de nascença que no Brasil emerge um pública apoiando a causa indigena em dois lugares: o primeiro,
analisado, o antagonismo coloca-se na disputa entre os índios projeto de nação sustentado simbolicamente na hibridização o da "banalidade massiva", e o segundo, o da manipulação por
Guarani e Kaiowá e o agronegócio (tanto de líderes ruralistas cultural. A intensa miscigenação representou uma caracterís­ poderes difusos e mal intencionados. Tal leitura não é inco­
quanto de suas organizações, formas de atuação e representa­ tica crucial da formação do povo brasileiro. Um importante mum no pensamento social brasileiro, na visão das elites e nas
ção política, assim como de grandes empresas envolvidas na ponto de sustentação é a noção, compartilhada pelas elites (os análises midiáticas. No Brasil, as elites econômicas e políti­
produção de alimentos, biocombustíveis, celulose e papel). Mas fundadores da nação), de defasagem civilizatória entre as raças cas tenderam historicamente a conceber a sociedade civil como
pelo que eles disputam? Obviamente, há uma disputa de terras e povos que habitavam o território, de modo que só pertenciam frágil (a sociedade seria, de modo geral, despreparada para a
no centro de toda a questão. Ocorre que ela vem amparada por à "nação" os ditos civilizados. No Brasil, considerava-s e que os participação) e os movimentos de protesto ou de insatisfação
embates de natureza simbólica, discursiva e, portanto, comuni­ outros não eram ainda civilizados, por isso teriam que ser edu­ social - quando visíveis no espaço público - são tratados como
cacional, que, a um só tempo, concretizam as posições de cada cados primeiro para eventualmente se integrarem plenamente "bagunça", desordem (Carvalho, 1996; 2001; Valadares, 1991;
uma das partes em disputa assim como traduzem visões sobre à nação, sendo que os índios nem deveriam talvez se integrar. Viscardi eJesus, 2007).
o Brasil, sobre a nação brasileira. Da parte mais poderosa do Tais ideias sobre a nação refletem-se no campo da comunica­ Para o articulista Luis Felipe Pondé, por exemplo, o fato de aci­
antagonismo - os que detêm hoje a posse da terra e os acessos ção e da cultura, na constituição de uma "cultura do silêncio", onar muita gente, as manifestações de apoio à causa indigena já
institucionais que garantem seu lugar de poder, incluindo aí o noção evocada por Lima (2011) ao analisar o conceito de comu­ são sinônimos de banalidade e, mais ainda, o fato de mobilizar
espaço midiático -, tais visões da nação buscam definir clara­ nicação no pensamento de Paulo Freire e suas afinidades com pessoas distantes da realidade dos índios, estratos médios da
mente quem pertence e quem não pertence à nação, determi­ o conceito de "efeitos silenciadores do discurso", de Owen Fiss. população que ele chama de "fenômeno dos 'índios de Perdizes'
nando razões de ingresso para aqueles que se situam dentre os Com tais contribuições, é possível compreender, por um lado, é um atestado dessa mediocridade e ridiculo". O gesto de acres­
que não pertencem. A nação é apresentada como comunidade o efeito de censura advindo da experiência histórica do Brasil centar o sobrenome Guarani e Kaiowá ou qualquer outro nome
imaginada (Anderson, 2008), especialmente as elites detêm os e, por outro, que certos mecanismos discursivos criam desvan­ indigena na identificação de usuário na rede social Facebook
instrumentos para fazê-lo, convocando a opinião pública a criar tagens para alguns atores no debate público e vantagens para (FB) é tomado como evidência da banalidade: "Carência afetiva?
disposições para concretizá-la como sentido, valor e prática. outros. Os discursos de incitação ao ódio são particularmente Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridiculo?
Vale lembrar a pertinência e atualidade do que Fernandes exemplares desse tipo de efeito, na medida em que buscam Falta de sexo? Falta de dinheiro?" ou o fim do interesse desper­
(1975 ), ao analisar as implicações socioeconômicas da Inde­ destruir o sentimento de luta que anima os defensores de uma tado pelas causas ambientais, fruto de "'pseudo-óbvia ciência',
pendência, identifica como marcas fundamentais do projeto de causa, além de reforçarem a situação de desigualdade na distri­ como ursinhos pandas, baleias da África e aquecimento global".
nação brasileiro voltado para o futuro, destacando que o libera­ buição do poder de fala e visibilidade. É por isso que, diante do Mas a identificacão
, dos cidadãos brasileiros com a causa indi-
lismo, ao contrário de toda uma vasta literatura que o analisa debate público em torno da causa Guarani e Kaiowá, interessa­ gena é também lida como expressão de falta do que fazer - para
simplesmente como algo "postiço, esdrúxulo ou farisaico", teve, nos aqui dispensar atenção aos textos jornalisticos que, em con­ o que Pondé sugere a alternativa do consumo - ou, o que é mais
com adaptações e reinterpretações à luz do contexto brasileiro, junto, chamamos de reação conservadora5 posto que represen­ ofensivo, de demência: "Pintar-se como índios e postar no Face
influências sociais construtivas em várias direcões.
, Não obs- tam, na disputa hegemônica, o intuito de manter em operação devia ser incluido no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico
tante, como forma ideológica, tenha se aplicado exclusivamente o mecanismo da "integração incompleta" (Dulci, 2009), cujas de Transtornos Mentais". O mesmo tom de desdém pela opinião
ao campo econômico e muito implicitamente ao campo político. implicações são fundamentais à discussão sobre liberdade de pública e seus modos de expressão são sublinhados no artigo de
Walter Navarro, publicado em o Tempo: dania e movimentos sociais, por outro, é importante destacar às custas do Estado, opção fácil em lugar de arrumar trabalho
Tem coisa mais chata, hipócrita, brega e programa de índio que este pessoal do algumas especificidades do caso aqui enfocado e sua relação e pagar impostos. Na construção do argumento, os índios são
Facebook adotando o nome Guarani Kaiowá? Gente cuja relação com o verde se com o tema que elegemos como eixo central das análises que ainda colocados no lugar de vilões por, contraditoriamente, se a
resume à alface do McDonald's... Mais ou tão. Uma dessas chatas do Facebook é a constituição imaginada da nação. A possibilidade de parti­ leitura é liberal, assumirem uma postura capitalista com vistas
reclamou da minha gozação dizendo que todo brasileiro é Guarani Kaiowá. Eu
cipação parece restrita a muito poucos. O desdém pela forma ao ganho individual:
não! Nunca nem ouvi falar e, se é pra escolher, prefiro descender dos tapaxotas
ou tapaxanas. Mas bom mesmo é de destapar...
de participação das classes médias urbanas mostra seu despre­ Elas [as pessoas que assumem sobrenomes indígenas] não entendem que índios
paro para a participação política e a indicação de que melhor são gente como todo mundo. Na Rio+20 ficou claro que alguns continuam
Na reportagem de Veja, 6 surge outro tipo de caracterização da seria ater-se ao consumo ou a outras causas sociais/ambientais pobres e miseráveis enquanto outros conseguiram grandes negócios com

opinião pública, o das massas enganadas ou manipuladas. Alvo prosaicas do que "meter-se" nos assuntos sérios da nação, os europeus que, no fundo, querem meter a mão na Amazónia e perceberam que
muitos índios aceitariam facilmente um "passaporte" da comunidade europeia
histórico de críticas por parte da revista, o Conselho Missionário quais desconhecem. A participação das massas parece ocorrer em troca de grana (Pondé).
Indigenista (Cimi) é o acusado de ludibriar a opinião pública num espalhamento por contágio, sem racionalidade, disparado
nacional, inclusive de ter sido o responsável pela divulgação pela associação morte coletiva <* suicídio ritualistico. Sem que­ A dependência do Estado é atestada com números na pesquisa
da carta de Pyellito Kue. Além do fato, por si só grave, de rer negar a importância desse elemento, importa problematizar Datafolha, encomendada pela Confederação Nacional da Agri­
incorreção da informação, já que a carta, na verdade, foi redi­ que a participação das pessoas e sua manifestação de apoio à cultura (CNA) apresentada na forma de uma reportagem assi­
gida e distribuída pelo Conselho Aty Guasu Guarani e Kaiowá luta pela terra dos índios Guarani e Kaiowá sejam inválidas por­ nada por jornalistas do veículo. Os números são os seguintes:
via seu perfil no Facebook (<https:/ /www.facebook.com/aty. que deflagradas pelo afeto e pela emoção. Por fim, a atribuição a 64% dos indigenas brasileiros recebem Bolsa Familia, em média
guasu?ref= ts&fref= ts>), há um desmerecimento implícito de outras entidades, que não a própria organização indigena, retira R$ 153,00, e quase metade dos entrevistados (46%) relatou r e ­
um enorme esforço de mobilização, luta política e produção de o protagonismo dos índios e reforça seu lugar de "massa de m a ­ ceber cesta básica da Funai ou da Funasa (Fundacão' Nacional
contrainformação pelos índios Guarani. Com efeito, o uso desse nobra" em nome de interesses outros que não os seus próprios. da Saúde).
argumento reforça-s e noutro: o desdém pelas manifestações de Tudo isso faz lembrar o verso de uma canção que diz que "o Bra­ A dependência pode não ser estatal na visão dos outros arti­
protesto como se fossem atos irracionais, impensados e, conse­ sil, não merece o Brasil" - esta parece ser a conclusão óbvia dos culistas, mas da sociedade civil, quando opera como Organiza­
quentemente, sem valor ou legitimidade política: textos em foco: nossa pobre opinião pública não está à altura da ção não Governamental (ONG) ou dos antropólogos. Nesse caso,
Em uma carta divulgada na internet no dia 1 O do mês passado, membros nacao.
' menos que uma dependência financeira, coloca-se o tema da
do Conselho lndigenista Missionário (Cimi) condenaram a ordem de despejo
7.3.2 Ei xo analítico 2 : Imaginários sobre os índios manipulação política e da "invenção da tradição" como recurso
dada pela Justiça Federal de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, comparando-a a
simbólico na luta pela terra. Há então uma naturalização que
uma "morte coletiva". Logo se espalhou pelas redes sociais a versão de que os As opiniões expressas nos textos - sejam elas assumidas
nega a herança de tradições indigenas e da contribuição desses
índios iriam cometer um ritualístico suicídio coletivo. Das redes, a solidariedade como de responsabilidade dos articulistas ou "objetivas" como
povos à construção da nação brasileira em argumentos do tipo
ganhou as ruas de diversas cidades, onde muitas brasileiras não perderam a
a que se expressa na reportagem sobre a pesquisa Datafolha
chance de protestar de peito aberto diante das câmeras. (...) O governo agiu "não devemos nada aos índios, a cultura sempre operou por
ou da reportagem de Veja - reproduzem imaginários sobre os
rápido, pediu a suspensão da ordem de despejo e exigiu que a Fundação contágio" (Pondé). Indo além, na defesa da posição classista dos
índios brasileiros já mapeados em pesquisas. 7 Nos textos exa­
Nacional do Índio (Funai) conclua em u m mês o laudo antropológico que
produtores rurais, as ONGs e os movimentos sociais são cul­
serviria como o primeiro passo para a demarcação oficial da terra reclamada minados, há uma chave de leitura que se sobressai: a da d e ­
pabilizados por defender "usurpadores e invasores de terras" -
pelo Cimi em nome dos índios. Com o episódio, o Cimi conseguiu mais uma pendência do Estado. Esse parece ser o grande problema dos
aqui, em sentido pejorativo, uma postura ativa é concedida aos
vez aproveitar a ignorância das pessoas das grandes cidades sobre a realidade em índios brasileiros, mas não há nenhuma menção ou tentativa
Mato Grosso do Sul e, principalmente, sobre quais são as reais necessidades dos indigenas - em detrimento daqueles que lutam "para colocar
de explicação sobre essa situação de dependência, se é que ela
índios (Reportagem de Veja, grifos meus). alimento mais barato na mesa do brasileiro" (Kátia Abreu).
existe, em nenhum dos textos. A opinião pública que apoia a
Se, por um lado, a desqualificação da opinião pública no Brasil causa indigena acha que eles são "lindos e vítimas sociais. Eles A pesquisa Datafolha e o artigo de Kátia Abreu reproduzem e
é fato já conhecido na literatura sobre participação cívica, cida- querem se sentir do lado do bem", enquanto os índios vivem reforçam outro imaginário sobre os índios brasileiros: eles não
existem mais. Ou porque estão integrados ao modo de vida u r ­ manter sua própria razão de existir e em certo lugar de poder Luz.8

bano ou porque não existem em correspondência com a ima­ como proprietários dos índios históricos, sem se preocupar com O Cimi e algumas ONGs, na informação oferecida pela revista,
gem clássica do índio - isolado, pelado, vivendo suas tradições os índios. Abreu atesta que não existem mais índios, pois eles orientam os índios a invadir propriedades, e a Funai é apoiadora
tal como num passado longínquo. Diz a reportagem da FSP agora se modernizaram e, a partir dessa divisão entre os í n ­ do que os repórteres denominam de "expansionismo selvagem".
sobre a pesquisa: dios históricos e os índios atuais, conclui que estes não passam ,
E nessa linha argumentativa - a palavra correta é preconceitu-
Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, de brasileiros pobres sob a tutela estatal, ecoando hábitos de osa - que se constroem também as opiniões emitidas por Wal­
DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram atraso: ter Navarro, articulista de o Tempo. A retirada de seu artigo
incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho
da maioria deles. (...) Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37%
Pensando em seu lugar, a Funai tenta manter o controle sobre eles, fingindo do portal de o Tempo foi imediata à reação da opinião pública,
não ver que a maioria assiste televisão e tem geladeira e fogão a gás, embora
têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% e seu afastamento do jornal foi anunciado tão logo a polêmica
continue morrendo de diarreia porque seus tutores não lhes ensinaram que a
já ligam do próprio celular. Só 1 1 % dos índios, no entanto, têm acesso à internet
água de beber deve ser fervida. (...) Ao contrário, esse status aparentemente
se instalou. O tom geral do artigo restringe-se à associação dos
e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos
romântico serve, na verdade, para justificar o contrato de tutela que ainda os índios Guarani e Kaiowá ao atraso, aproveitando-se disso como
entrevistados.
mantém como brasileiros pobres. (...) Nossos tupis-
guaranis, por exemplo, são um pretexto para criticar o atraso dos governos do Partido dos
Não obstante o contato com tecnologías de alguma maneira estudados há tanto tempo quanto os astecas e os incas, mas a ilusão de que eles, Trabalhadores (PT):
em seus sonhos e seus desejos, estão parados no tempo não resiste a meia hora
situar os índios na esfera do avanço moderno, em meio à repor­ de conversa com qualquer um dos seus descendentes atuais (Kátia Abreu).
Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, "Índio bom é índio
mortol" "Matar, se preciso for, morrer, nuncal". (...) Tudo em São Paulo tem
tagem, uma "inocente" associação evoca outro grande imagíná­
nome de índio. Consciência pesada dos bandeirantes: Anhanguera, lbirapuera,
rio sobre os índios: a imagem do atraso. "Eles ainda usam mais Na reportagem de Veja, além de os "índios bêbados e dro­
Canindé,Aricanduva, Morumbi,Jabaquara, Tucuruvi,Tatuapé e agora Haddad,
os remédios naturais (66%) do que os farmacêuticos (34%)." A gados", "incapazes de juizos próprios" serem manipulados por da tribo dos Ali Babás ... Ô raçal (... ) E chamar índio de preguiçoso é
reportagem até apresenta uma visão de contraponto, ao citar antropólogos, reforçam-se as acusações ao Cimi, como o grande preconceito, ignorância histórica. Índio é correligionário do ócio criativo...
,
uma opinião do Cimi (sem a identificação da fonte): "E evidente mentor das ações políticas dos indigenas. "Em sua percepção Ou, simplesmente do ócio, pronto. (...) Quando Darwin, Lévi-Strauss e Diogo

que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a medieval do mundo, os religíosos do Cimi alimentam a cabeça Mainardi descobriram o Brasil, tiraram várias conclusões sobre os Guaranis

instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma dos índios da regíão com a ideia de que o objetivo deles é unir-se Kaiowá, u m povo pescador de baiacus, que captura borboletas, retalha suas
asas e coloca-as em cinzeiros de vidro para espantar, melhor, para vender aos
TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indigena". contra os brancos em uma grande 'nação guarani"' (Veja). À d e ­
turistas. (...) Os Guaranis Kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio
Para em seguida concluir, fechando o contraponto, que os í n ­ pendência estatal e de ONGs soma-se a dependência de drogas e do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra.
dios na verdade são pobres que não têm o mesmo acesso ao con­ álcool, das quais se retira o seguinte corolário: a necessidade dos Petistas "avant la lettre"! Comem cupim. Intimidam até malária! Pigmeus,
sumo que a média dos brasileiros: "De todo modo, os números índios não é ter terras para desenvolver seu modo de vida tradi­ parecem formigas gigantes e caracterizam-se pela insuportável pneumatose

ainda estão longe dos percentuais de acesso a bens de consumo cional, e resolver a questão da demarcação de terras é insufici­ intestinal, o que faz deles companhia deveras desagradável. (...) Além de

da média da população. No Brasil como um todo, segundo o ente para resolver a grave situação social em que se encontram: incestuosos, trocam os filhos por um reles anzol. Por isso, o Brasil é assim,
uma mistura de índios flatulentos com criminosos portugueses... Andam nus,
IBGE, 98°/4 têm televisão; 82°/4, aparelho de DVD; e 79°/4 têm A 148 quilómetros da Fazenda Cambará, no município de Coronel Sapucaia,
exibindo suas vergonhas; os homens portam nem mesmo um estojo peniano. As
celular". Portanto, os índios não passam de brasileiros pobres, há uma reserva onde os caiovás dispõem de confortos como escolas e postos
mulheres são libidinosas e se vão com qualquer um. As moças tomam banhos
de saúde, mas não têm emprego, futuro nem esperança. Ficam entregues à
dependentes do programa Bolsa Família, do assistencialismo da coletivos, fazem suas necessidades nas moitas, fumam juntas e entregam-se a
dependência total da Funai e do Cimi, sem a menor chance de sobrepujar
Funai e de ONGs, consumidores de bens de consumo (abaixo da sua trágica situação de silvícolas em um mundo tecnológico e industrial. São
brincadeiras de gosto duvidoso, como cuspir uma na cara da outra (Walter
Navarro, grifos meus).
média da população brasileira, é verdade), mas que não teriam comuns ali casos de depressão, uso de crack e abuso de álcool. A reserva
nenhuma especificidade cultural, histórica ou social. Boqueirão, próxima a Dourados, abriga caiovás submetidos ao mesmo estado O tema da nação, especialmente quem não pertence e como
Para Kátia Abreu, a responsabilidade é da Funai e dos a n ­ desesperador. Levantamento feito por agentes de saúde locais revelou que vir a pertencer a ela, parece pertinente para alinhavar os vários
70% das famílias indígenas têm um ou mais membros viciados em crack.
tropólogos, que buscam "eternizar os povos indigenas como pontos levantados nos textos analisados. Por que os índios não
"Infelizmente, a vida dos 170 caiovás acampados na fazenda em lguatemi não
personagens simbólicos da vida simples e primitivos" para melhorará com um simples decreto de demarcação", diz o antropólogo Edward
pertencem à nação? Porque são cidadãos de segunda ordem,
de pior qualidade, uma vez que, como as figuras históricas quisa, por exemplo, de Geografia e Estatística. Já as terras agrícolas ocupam 39,2% do território
nacional, fatia que cai para 27,7% sem as áreas de preservação ambiental. Entre
fundadoras do Brasil, não existem mais e, atualmente, são Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos
proprietários, seus familiares e empregados do campo, são 1 6,5 milhões de
dependentes do Estado, de ONGs, do álcool e das drogas, além entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde. A situação territorial
- pessoas. A menção a esses números não embute nenhuma objeção da CNA à
de serem pobres, atrasados, infantis. E como nos lembra Lima ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (1 6%), do acesso
eventual ampliação das áreas reservadas aos povos indígenas. Se for da vontade
à educação ( 1 2%) e do emprego (9%). Em relação ao principal problema
(2013, neste volume), ao evocar um dos sermões de Padre Antô­ do governo e do povo brasileiro dar mais terra ao índio, que o façam. Mas não
enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%.
nio Vieira, "bem sabem os que sabem a língua latina, que esta O emprego apareceu em segundo, com 1 6%, seguido de saneamento (1 6%). A
à custa dos que trabalham duro para produzir o alimento que chega à mesa de

palavra, infans, infante, quer dizer o que não fala". Tal associa­ questão territorial, nesse caso, desaparece. A pesquisa mostra que o aumento
todos nós.

ção é reveladora de que nossa liberdade de expressão não é tão de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% A estatística aparece como recurso comprobatório dos argu­
livre, que o acesso à palavra é por vezes blindado a certos grupos conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula.
mentos contra a reivindicação indigena por terras, assim como
e que assim nem todas as vozes acedem ao debate público. Mais de 80% ouviram falar da Aids (Reportagem Folha).
desvinculando a questão da terra dos "problemas sociais" dos
Por outro lado, há um traço ainda mais relevante a ser des­ Assim, a questão da terra e da relação com o território seria índios. Também é largamente utilizada na reportagem de Veja,
tacado. O discurso dos que falam dos que acedem ao debate secundária para os povos indigenas brasileiros, sugerindo que que atesta que "as terras indigenas já ocupam 13,2°/4 da área
público não se preocupa apenas em desqualificar aqueles que suas preocupações, expectativas e necessidades pessoais s i ­ total do país. Salvo raras exceções, a demarcação de reservas
tradicionalmente estavam silenciados, como modo de dizer que tuam-se em outros campos. Beneficiados por programas sociais não melhorou em nada a vida dos índios". Deriva daí a infeliz
não pertencem à nação. Há um esforço de preenchimento do do governo, vivendo um modo de vida similar ao das popula­ coincidência: "ocorre que o território dessa 'nação' [nação Gua­
vazio discursivo no sentido de determinar, autoritariamente, de ções pobres urbanas, o problema da terra parece mais ligado ao rani] coincide com a zona mais produtiva do agronegócio em
que modo eles - os índios - podem vir a pertencer. Isso não setor produtivo agrário nacional. Mato Grosso do Sul" (Veja).
parece muito difícil já que a integração à sociedade moderna, do Para a defensora dos interesses ruralistas, senadora Kátia Outro argumento tomado como prova da ilegitimidade da
ponto de vista dos hábitos (especialmente tecnologia e modo de Abreu, há um descumprimento de um princípio constitucio­ reivindicação de terras pelos Guarani e Kaiowá diz respeito à
organização da vida), já está consolidada. Logo, a ação do Estado nal na medida em que as demarcações não se referem aos afirmação de que eles são na verdade um povo nômade, sem ter­
para integrá-los à nação não deve ser a de restituição de seus territórios tradicionais dos indigenas, mas aos territórios ocu­ ritório fixo e portanto sem hábitos de cultivo e cuidado da terra
territórios tradicionais - as suas terras -, mas a de gerar polí­ pados por eles até 05/10/1988, data da promulgação da Carta como modo de sobrevivência:
ticas públicas que possam alçá-los, no futuro, à condição pro­ Constitucional brasileira em vigor. O desrespeito ao princípio Segundo o IBGE, há 43.400 membros dessa etnia no país. Outros 4 1 .000
dutiva dentro dos moldes capitalistas e ensinar-lhes os hábitos constitucional é, na visão da senadora, a causa dos conflitos em residem no Paraguai. Eles transitam livremente entre os dois países, como parte
corretos da civilizacão
' dos brancos. MS, como também "criam falsas expectativas para toda a soci­ de suatradição nómade. Os antropólogos os convenceram de que o nascimento
ou o sepultamento de um de seus membros em um pedaço de terra que ocupem
7.3 .3 Eixo analítico 3 : A questão da terra edade" das quais advêm as manifestações errôneas da opinião enquanto vagam pelo Brasil é o suficiente para considerarem toda a área de sua
O tema central no debate público da causa Guarani e Kaiowá pública. A objetividade dos números ampara a argumentação propriedade. Com base nessa visão absurda, todo o sul de Mato Grosso do Sul
não é o tema central da discussão acerca do debate público, dos interesses conservadores. Com eles, demonstram que os í n ­ teria de ser declarado área indígena - e o resto do Brasil que reze para que os

ao menos em sua versão conservadora, ensejado pelo conjunto dios são "poucos" perto dos interesses do Brasil - da nação-, que antropólogos não tenham planos de levar os caiovás para outros estados, pois

de textos aqui analisados. Neste prevalece, como vimos, a atendem a "muitos": em pouco tempo todo o território brasileiro poderia ser reclamado pelos tutores
dos índios (Veja).
desqualificação da opinião pública e a desqualificação dos í n ­ É simplificação irreal e equivocada resumir o drama pelo qual passam os 1 70

dios. O tema da disputa por terras, que no léxico indigena é índios da etnia Guarani-Kaiowá a uma simples demanda por terra. As carências Assim, o debate em torno da terra resume-se aos seguintes
uma disputa por território, já que compreende não somente a dos índios, inclusive os que hoje ocupam dois hectares de uma fazenda no Mato
pontos: o problema da terra não é central para os próprios indi­
Grosso do Sul, são muito mais amplas. Falar em terra é tirar o foco da realidade
posse da terra,9 mas a relação simbólica com a mesma, quase ejustificar a inoperância do poder público. As terras indígenas ocupam 1 2,64%
genas, os índios são poucos e os interesses do outro Brasil são
não aparece. Quando aparece, ele é subestimado perante outras do território nacional. São, ao todo, 1 09,7 milhões de hectares, segundo dados
grandes e largamente majoritários, e, no caso específico de Veja,
necessidades das comunidades indigenas brasileiras. Na pes- da Funai. Vivem neles 5 1 7,3 mil indivíduos, segundo o Instituto Brasileiro na insistência do argumento do nomadismo como modo de des-
qualificar a relação dos índios com seus territórios. A observa­ duas direcões:
'
dizer uma vez que "a culpa da crise é das pessoas brancas de olhos azuis". Eu
tenho sim muito orgulho de ser quem eu sou e como sou, sou tão brasileiro
ção dos direitos e o respeito à expressão da diversidade cultural Liberdade de expressão limitada: (...) como todo e qualquer direito, a liberdade
quanto um negro ou u m índio, e exijo respeito para qualquercidadão deste país,
se veem, portanto, em risco. E não seriam esses elementos de expressão não é absoluta (nem o direito à vida o é, pois a lei brasileira permite
independentemente de sua etnia. Até concordo que o texto foi extremamente
tão importantes à constituição de uma nação plenamente d e ­ que se retire a vida de outra pessoa em uma situação de legítima defesa, prevê
infeliz, mas há muita gente disseminando opiniões tão ou mais infelizes, e
pena de morte em caso de guerra declarada etc.). Assim, a liberdade de expressão
senvolvida? Ou estariam os textos analisados apontando, nos inclusive são aplaudidas. É como se diz: "sou a favor da diversidade, desde que
encontra limites, principalmente quando se transforma em u m verdadeiro
moldes do evolucionismo do século XIX, que o desenvolvimento discurso de ódio. (...)
todos sejam iguais a mim".

se mede só pelo crescimento econômico e grau de desenvolvi­ Liberdade de expressão ilimitada: Eu já encaro a liberdade de expressão como Essa leitura é bastante complexa: reprova a atuação da opi­
mento tecnológico? os norte-americanos. Acho que ela não pode ter nenhum limite, por mais nião pública quando fala de ativismo de sofá e, ao mesmo
barbaridades e besteiras que o sujeito diga. Inclusive é um absurdo existir no
7.3.4 Eixo analítico 4: O debate em torno do artigo de Walter Navarro tempo, reprova o texto de Navarro e seus excessos. No e n ­
Código Penal crimes como calúnia e difamação.
sobre liberdade de expressão tanto, lê os direitos indigenas (e outros direitos de minorias),
Uma aproximação inicial com o debate da liberdade de ex­ Mas há também os leitores que discutem a questão em outra bem como políticas públicas que buscam equalizar assimetrias
pressão, ensejado pelo texto de Walter Navarro, indica uma base, sugerindo uma terceira camada interpretativa do con­ históricas, como privilégios, culminando numa certa ufania
primeira camada interpretativa do uso do conceito como chave ceito: quando a liberdade de expressão se enlaça à discussão de ser branco, homem, heterossexual. O autor clama por uma
para aprovação ou reprovação do conteúdo do artigo. Ou seja, de outros temas da sociedade e da cultura política brasileiras. igualdade irrestrita, no entanto, é como se negros e índios já es­
é liberdade de expressão dizer o que ele disse e com o que se Nesse ponto, a liberdade de expressão aparece mais claramente tivessem no mesmo patamar de direitos que os brancos. Quer a
concorda ou é inaceitável dizer o que ele disse, é um ato que como um conceito liberal de viés conservador que se posiciona igualdade como se a igualdade fosse já um pressuposto, ou m e ­
fere a liberdade de expressão. Não raro, nessa última vertente, contra os governos de esquerda no Brasil, supostamente i n ­ lhor, uma realidade. Um ponto de partida e não de chegada.
surgem questionamentos quanto às suas credenciais como jor­ teressado no controle autoritário da mídia. Isso aparece tanto Numa das defesas de liberdade de expressão ilimitada, apa­
nalista, bem como em relação às responsabilidades dos editores em críticas diretas ao PT, tal como "isso mesmo seus fascistas, rece uma associação que me parece requerer maior atenção. O
e do veículo, cobrando deles um papel mais ativo no que se r e ­ filhotes de Lula, aparelhem a mídia acabem com a liberdade de tema da liberdade de expressão associa-se a uma crítica à pre­
fere à seleção de conteúdos que devem ou não ser publicados. A expressão, o que serve e agrada a vocês fica, o que incomoda sença de ONGs - na opinião em questão, exagerada - no Brasil.
liberdade de expressão, nesse caso, está restrita ao foro de deci­ denunciem!". Mas há casos mais complexos, em que o tema da
Uai, e o direito de expressão? Agora deve-se engolir todas as
são interna do veículo de comunicação; é de natureza privada, liberdade associa-se ao da igualdade. Veja s- e um exemplo:
ideias que pipocam por aí? Um falso moralismo em que as pes­
portanto. Eu li o texto, e achei que a "culpa", se é que ela existe, é do redator, que
soas pensam em partes, mas ignoram o todo. Não pode falar do
permitiu que algo assim fosse publicado. Sou a favor da liberdade de expressão,
Numa segunda camada interpretativa, essa associação apa­ e até concordo que esses "ativistas de sofá" são a coisa mais chata que existe.
gay, não pode falar do índio, mas postam nas redes sociais fotos
rece mediada pela noção de politicamente correto: reprovar o Porém, a liberdade não deve ser confundida com libertinagem, e se o jornal se de gente pobre e debocham de todas as formas, riem dos obesos,
texto significa restringir a liberdade de expressão em nome do pretende sério, jamais deveria ter dado espaço para coisas desse tipo. Porém, fazem piadas com os negros, postam fotos indiscretas, tudo isso
que é politicamente correto. Nesse sentido, há, tanto entre os gostaria que todos fizessem uma reflexão: será que já não existe muito mais vale, mas quando alguém do meio midiático emite a opinião
que concordam quanto entre os que discordam do texto, um racismo e preconceito em muitas outras esferas da sociedade? Digo isso porque
de uma parcela da sociedade de que tem mais ONGs por metro
sou branco, homem, e heterossexual. Nunca fui vagabundo, nunca ganhei nada
acordo quanto ao direito do autor de expressar-se e certa repro­ quadrado tomando conta, por que será? É crime, e o resto é resto,
de graça, nunca tive pai rico para me dar as coisas, já perdi vagas de emprego
vação das opiniões que não aceitam essa premissa por aderirem ou promoção profissional para mulheres e negros,já fui obrigado a pagar caro o demais engole-se a seco. Isso é censura!
,
à onda do politicamente correto, bem como quanto à atitude de em faculdade por não ser elegível ao PROUNI (enquanto boa parte dos bolsistas O que isso quer dizer? E interessante que essa associação r e -
retirada do texto do portal do jornal e o afastamento do articu­ nem reprovado era), e também fico profundamente incomodado quando vejo forca
' a análise de Fernandes (1975) sobre os limites da insercão
'
lista. A liberdade de expressão, aqui, passa por um juizo moral gente que não tem um pingo de conhecimento de causa botando a culpa de
da ideologia liberal no Brasil, especialmente no campo político.
tudo em pessoas como eu. Exemplo disso era o nosso ex-presidente Lula, que
e sugere outra discussão: liberdade de expressão limitada ou ili­ A ampla presença de associações da sociedade civil num cenário
adorava apelar para o recalque das pessoas em seus discursos, chegando a
mitada? Abaixo são apontadas duas opiniões emblemáticas nas de pouco Estado é algo natural. Mas o problema é a suposta "pro-
teção" que estas oferecem aos índios. De novo, tal interpretação Kaíowá" no nome seja pífio para a resolução do problema, - já que põe em movimento elementos do discurso, no caso o
reforça a ideia de que os direitos dos índios são, na verdade, contudo criticar quem o faz também é. Por fim, aínda postulam discurso sobre a nação, que se concretizam nas práticas cotidi­
privilégios. sobre o vilipêndio da liberdade de expressão ... essa parte é a anas dos sujeitos, mas que se inserem em redes de disputa de
Por outro lado, o tema da liberdade de expressão, numa defesa maís risível de todas: nenhum direito fundamental é absoluto, poder que se voltam sobre si -, por outro lado, se pensado como
de sua limitação, vem associado a temas históricos como a d i ­ principalmente quando o seu exercício atenta de modo antijurí­ direito humano fundamental, exige um horizonte de simetria
tadura militar e a colonização, sinalizando a consciência acerca dico contra o direito de outro. No final temos uma gama de crí­ na relacão
' e u o- utro.
da "cultura do silêncio" vigente historicamente em nosso país ticas destrutivas que atacam um suposto "moralismo", quando, Assim, se a emergência da causa dos Guarani e Kaíowá no
como uma espécie de censura: na realidade, tão somente pugnam em seu cerne em favor de v a ­ debate público sugere um pequeno deslocamento ou indicio de
Quando um fantasioso pseudointelectual como o senhor Guto lores de cunho conservador retrógrado. Regozijo-me em ver que ruptura com o que Freire chama de "cultura do silêncio", essa
pensa que é realista, dá nisso. . . vê hipocrisias nos outros. . . esta mentalidade está em pleno declínio. Adeus, Navarro. força censora que opera de forma tácita retirando de parcelas da
acha reflexivo o que o bom senso e a inteligência chamam de Além dos apontamentos analiticos indicados sobre esse eixo, população o direito de palavra - uma violência contra segmen­
"pré-conceito", vê uma realidade natural em atitudes fascistas e há que se ressaltar que as opiniões emitidas demonstram um tos excluídos da participação cívica, especialmente nesse caso
manda um solene "ame-o ou deixe-o" dos velhos tempos da d i ­ bom nível de conhecimento sobre a temática da liberdade de ex- que afeta seres das palavras1 O -, por outro lado, sugere a reação
tadura militar, assim sublimado: "Os descontentes que embar­ pressão. Como reduzi-las ao lugar desqualíficado sugerido nas para constituição de pontos nodaís restituidores do ordena­
quem nas caravelas e voltem para as terras lusitanas, pois essa análises históricas sobre a opinião pública brasileira? Os temas mento histórico. Taís argumentos, oriundos de uma perspectiva
é a única solução realista. Quem vaí ser o primeiro?" O primeiro aqui discutidos em larga medida se aproximam daqueles discu­ hegemônica, cujos discursos têm encontrado espaço e reforço
deveria ser a Vale (... nossa única concordância na sua divaga­ tidos em âmbitos acadêmicos ou fóruns de especialistas. na grande mídia, os índios são ora selvagens ora sujeitos c o ­
ção). O segundo: o jornalista em questão. O terceiro deveria ser o optáveis, massa de manobra de associacões ' e missionários; ora
7 .4 Considerações finais
senhor Guto, que escreve na sua liberdade de expressão ... e não inocentes ora forças demoníacas, mas sempre parcela insigni-
se vê como um Zumbi, dominado. . . civilizado e sem filosofia! Após análise dos textos, a partir dos operadores analiticos por ficante da população sem poder político, não reconhecível nem
eles sugeridos, vemos que minimizar e até mesmo desqualíficar como agente da construção do estado do Mato Grosso do Sul e
Quando o tema são os entrecruzamentos entre posições pro­
a manifestação popular no debate público, reforçar e reproduzir do Brasil nem, portanto, como parte integrante da nação. Nosso
gressistas e conservadoras, encontramos outra interpretação
imaginários estereotipados sobre os índios e reduzir o problema exercício aqui foi identificar e colocar sob escrutínio atento os
interessante: a que separa um posicionamento de esquerda às
da terra a uma questão secundária para os próprios protago­ argumentos daqueles que buscam silenciar, no momento em
manifestações pró-indigenas nofacebook, critica a grilagem de
nistas da luta por ela são estratégias para manter a fronteira que se dá a ver a causa dos silenciados.
terras e o desmonte do Estado Democrático de Direito e condena
da nação cerrada aos indigenas no Brasil. Taís estratégias reve­
o texto de Navarro e o "vilipêndio da liberdade de expressão" em REFERÊNCIAS
lam a tendência de mesmizar o debate público, de retirar-lhe,
nome de valores retrógrados:
portanto, a característica fundamental da comunicação que é o ANDERSON, B. Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a origem e a di­
Curiosamente, alguns tacham qualquer um que se manifeste dialogismo. Dizer que o outro de quem se fala não vale a pena fusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
nofacebook em torno de questões sociaís de esquerdista e, logo como interlocutor é um jeito de retirar qualquer alteridade do
CARVALHO,]. M. de. Os bestializados: o Rio deJaneiro e a república que não
foi. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.
em seguida, de hipócrita. Bom, se manifestar repúdio a grila­ ato de fala, reduzindo o diálogo ao comunicado unilateral. _ _ _ . Cidadania no Brasil: o longo caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro:
gem de terra histórica, ou aínda questionar atitudes que jogam
Pensar o processo comunicativo tendo no horizonte a reflexão Editora Record, 2001.
todas as premissas sobre as quaís o Estado Democrático de D i ­ CLASTRES, P. "O dever da palavra". ln: A Sociedade contra o Estado: pes­
sobre liberdade de expressão impõe-nos, seguindo as pistas de
reito é edificado, é ser esquerdista, bom... preciso urgentemente quisas de antropologia política. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
Lima (2011) ao ler a obra de Paulo Freire, a necessidade de
ler o Manifesto Comunista, do qual sempre mantive distância. DULCI, O. "Os Processos de desenvolvimento sociopolítico no Brasil e na
pensá-l o numa chave dialógica. Se, por um lado, o processo c o ­
Ainda, hipocrisia? Por essa lógica eu só poderia execrar a guerra África do Sul". Exposicão
• no Fórum Brasil e África do Sul em Análise
municativo é interacional, relacional e reflexivo (França, 2006) Comparada.XIV Congresso Brasileiro de Sociologia. Rio deJaneiro, 28 a
civil no Congo se fosse para lá lutar!? Talvez colocar "Guarani-
31 dejulho de 2009. "A tragédia da Funai", da articulista Kátia Abreu, publicado pelo jornal público em torno da insta
-:
lação de Belo Monte ate.stam a reprodução de.sse.s imaginários
(OLIVEIRA, 2012a; 2012b).
FRANÇA, V . "Sujeito da comunicação, suie1tos em comunicação". ln: Folha de São Paulo em 03/11/2012.
§_. O antropólogo Edward luz foi expulso da Associação Brasile ira de Antropologia (ABA) em
FRANÇA,V.; GUIMARÃES, C. (orgs.). Na mídia, na rua: narrativas do co­ "Dois terços dos índigenas recebem benefícios do governo", reportagem
maio/2013, com base no Estatuto e Código de Ética da entidade.
tidiano. Belo Horizonte: Autêntica,2006. publicada pelo jornal Folha de São Paulo em 10/11/2012.
2- Val e lembrar que os índios no Brasi l não têm dire ito à posse de terra. Quando as terras
FREIRE,]. R. B. "Cinco ideias equivocadas sobre o índio". Revista do Centro "Guarani Kaiowá é o c... meu nome agora é Enéas P...", publicado na
indígenas são demarcadas, sua propriedade passa a ser da União.
de Estudos do Comportamento Humano (CENESCH). Nº 01 - Setembro coluna semanal de Walter Navarro no Jornal O Tempo On-Line em
1O. Referência à importância da palavra na cultura guarani. O dever de palavra, segundo
de 2000,p. 17-33. Manaus-Amazonas. 08/11/2012. Clastre.s (1978), é um ato ritualIli,zado nas sociedade.s contra o Estado (não nas sociedade.s
i
_ _ _ _ . "A herança cultural indigena: quem são os herdeiros?". ln: 1- Este texto
ancora-se em reflexõe.s e re.sultados da pe.squisa Sustentabilidade e De.senvolvi­ .ssociada da v.iliolência: «se nas sociLedade.s
sem Estado, note-se bem), em que a palavra e.stá di1..
CONDURU,R.; SIQUEIRA,V . B. Políticas públicas de cultura do Estado do mento: atore.s, enquadramentos e valore.s em di11..sputa no debate público sobre a constru­ de Estado a palavra é o direito de poder, nas sociedade.s sem Estado ela é, ao contrário, o

Rio de]aneiro. Sirius/FAPERJ, 2003. ção de Belo Monte, coordenada pela autora, com financiamento da PRPq-UFMG e do dever do poder" (CLASTRES, 1978, p . 107).
CNPq.
LACLAU,E.; MOUFFE,C. Hegemoníay estratégiasocialista: hacia una radi­
calización de la democracia. 2ª ed. em espaiiol. Buenos Aires: Fondo de
Cultura Económica,2004.
J. Al ém da pe.squ
-:
iE..sa que realli,izo atualmente sobre o debate público em torno da construção
de Bel o Monte, no qual a que.stão indígena é central e da qual extrai o a elaboração do
LIMA,V.. Comunicação e Cultura: as ideias de Paulo Freire. 2ª ed. rev. Brasí­ raciocínio analri ítico aqui de.senvol[v1ido, justifico a e.scolha do tema e do recorte empírico
lia: Editora da UNE/Fundação Perseu Abramo,2011. do pre.sente artigo pelo meu envol[vi�mento no campo da extensão com a causa Guarani e
MOORE,B.As origens sociais da ditadura e dademocracia. Lisboa:Cosmos, -- no 44° Fe.sti1,val de Inverno da UFMG, em julho de 2012, no
Kaiowá. Tal contato iniciou-se

1975. qual recebemos um rezador kaiowá, Valmir Cabrera, e o grupo de rappers Brô MC's que
cria e canta rap em guarani. Várias açõe.s com os Guarani e Kaiowá aconteceram no 2 °
OLIVEIRA, L. "Visões de um quase acontecimento: desenvolvimento,
seme.stre de 2012 na UFMG, como de.sdobramentos de.sse prime i ro contato, tematizando o
sustentabilidade e as disputas de sentido no debate midiático sobre genocídio e sua
-: relação com a univers- i1dade. Ne.sse me.smo período, realli,ize i duas viagens a
Belo Monte". Paper apresentado na 289 Reunião Brasileirade Antropolo­ Mato Grosso do Sul buscando conhecer in loco a grave s ituação de vi olação dos direitos
gia, 02 a 05 de julho, São Paulo,SP,Brasil,2012a (GT Antropologia e C o ­ humanos a li instalada (com viu .sitas a 8 alde ias), bem como a organização indígena para

municacão de Massa) . re.s- i1 stência e luta política (Aty Guasu). Tai1..s açõe.s me proporcionaram um acompanhamento

atento e s_1i stemático do debate midiático, de modo particular ne.sse período em que a causa
_ _ _ _ . "Cidadania índigena:quase acontecimento, Belo Monte e d e -
Guarani e Kaiowá ganhou grande vi.sibilidade. Sou grata, e.specialmente, a Tonico Benite.s
senvolvimento". Paper apresentado no XXI Encontro da Compós, na (líder Guarani e Kaiowá, doutorando em antropologia no PPGAS-Museu Naci onal/UFRJ),
Universidade Federal de Juiz de Fora,Juiz de Fora,de 12 a 15 de junho, à comunidade do tekoha Guai1viliry e à profe.ssora Rosângela de Tugny (Escola de Mús- i[ ca­-
2012b. (GT Comunicacão e Cidadania.) UFMG), que me apoiaram ne.ssa aproximação.

SOUZA LEAL,B.;ANTUNES,E.; FERREIRA VAZ,P. B.y. "El acontecirniento J.. Todos el e.s foram amplamente denunciados na pági na da Polícia Federal (<http://

como contenido de las noticias: repensando una metodologia". Estu­ . r/> ), e.stimulados via rede.s sociais (e.special mente Twitter e Facebook). A
denuncia.pf. g o v b
reportagem de Vejafoi alvo de ampla campanha pública de solicitação de dire ito de re.sposta.
diossobre el mensaje periodístico. Vol. 18,n. 1,p. 383-398. Madri: Servi­
Todos e.sse.s textos foram repudiados publicamente pelo Consel ho Aty Guasu - a grande
cio de Publicaciones de la Universidad Complutense,2012. assemble ia Guarani e Kaiowá - que tem papel histórirco na re.s- i�stência e luta pelos territórios
VALLADARES,L. "Cem Anos pensando a pobreza (urbana) no Brasil". ln: tradici onai•-.s e congrega lideranças indígenas das diversas áreas-conflito de Mato Grosso do
BOSCHI, R. (org.). Corporativismo e desigualdade: a construção do espaço Sul.

público no Brasil. Rio deJaneiro: Rio Fundo Editora-IUPERJ,1991. �- É ne.sse senti do que os autore.s reconhecem a maiI'or contribuição de Gramsci ao avanço
teórico e político da e.squerda. Ele foi o único pensador da Terce ii.ra Internacional capaz
VISCARDI,C. M. R.;JESUS,R. P. de. "A experiência mutualista e a formação
de substituir o conce ito de repre.sentação pelo de articulação, o u seja, - J a aceitar tanto a
da classe trabalhadora no Brasil". ln: FERREIRA,J.; REIS, D. A. A For­
d iversidade e.strutural das relaçõe.s nas quai.s os agente.s sociai1,.s. e.stão imersos, quanto o fato
mação das Tradições (1 889-1945). Rio deJaneiro: Civilização Brasileira, de que o grau de unidade que possa existir entre as me.smas não é expre.ssão de uma e.ssência
2007 (Coleção As esquerdas no Brasil,v . 1). comum sub1acente, mas- s- i1m a re.sultante de uma luta e construção políticas.
j
Artigose reportagens de jornal, revista e portaisde internet analisa­ i. A inspiração para o uso de.ssa expre.ssão vem da noção de Barrington Moore
dos «modernização conservadora" (1975).

"A Ilusão do Paraíso", reportagem publicada pela revista Veja em §_. A reportagem de Veja foi objJIeto
de grande mobilização acionada p elo Conse - lfho da Aty
04/11/2012. Guasu e apoiada por diversas organi�-zaçõe.s indígenas pelo dire ito de re.sposta que não foi
concedido.
"Guarani Kaiowá de Boutique", do articulista Luís Felipe Pondé, publi­
cado pelojornal Folha de São Paulo em 19/11/2012.
z. A propósito, as reflexõe.s de Freire (2000; 2003) sobre os ci nco equívocos que perpassam
..
nosso imagináriE o sobre
- - - i1m como os re.sultados de mi nha pe.squisa sobre o debate
os índios ass
8. V Yr��ifwc&��ié� r/6 ulM- 1tov� /6i No dia 30 de abril de 2009, o Supremo Tribunal Federal fina­ IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artistica, c i ­
lizou a sessão em que se declarou a não recepçãol em bloco entífica e de comunicação, independentemente de censura ou
tÍ6 inyJP6��f' de toda a lei 5.250/67, mais conhecida como Lei de Imprensa. licenca.
'
Essa decisão se deu nos autos da Arguição de Descumprimento Já ao tratar da Comunicação Social, a Constituição de 1988 foi
José Emílio Medauar Ommati
de Preceito Fundamental (ADPF) 130,2 proposta pelo Partido mais clara ao enfatizar a plena liberdade de imprensa, o que i n ­
Democrático Trabalhista - PDT -, requerendo a não recepção da viabilizaria qualquer lei em sentido contrário:
Neste texto, pretendo discutir se, a partir da decisão tomada referida em lei em face da Constituição de 1988 ou, alternativa­
pelo Supremo Tribunal nos autos da Arguição de Descumpri­ Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expres­
mente, que o Tribunal reconhecesse a interpretação conforme à são e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo
mento de Preceito Fundamental (ADPF) 130, no qual o Tribunal Constituição.2 de vários dispositivos da lei em comento.
considerou completamente incompatível com a Constituição de não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta
A ADPF foi distribuida ao Ministro Carlos Britto, hoje já apo­ Constituicão.
1988 a Lei nº 5.250/67, também conhecida como lei de i m ­ '
sentado. Em seu voto, o Ministro demonstrou a completa i n ­ §1º - Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir
prensa, seria necessária a aprovação de uma nova lei de i m -
, compatibilidade da lei de imprensa em face da Constituição de embaraço à plena liberdade de informação jornalistica em qual­
prensa para o nosso pais.
1988, pois, segundo o Relator, haveria um ardiloso ou sublimi­ quer veículo de comunicação social, observado o disposto no
Para atingir esse objetivo geral, inicialmente apresentarei a l ­ nar entrelace de comandos, a serviço da lógica matreira de que
guns elementos constantes nos votos de alguns ministros que art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.
para cada regra geral afirmativa da liberdade é aberto um leque
entendo importantes para a compreensão da própria decisão §2º - É vedada toda e qualquer censura de natureza política,
de exceções que praticamente tudo desfaz; e também pelo fato
tomada pelo STF bem como para encaminhar a discussão sobre ideológica e artistica.
de que a lei de imprensa apresentaria um propósito de ir além
uma possível lei de imprensa compatível com o atual Texto de um simples projeto de governo para alcançar um projeto de Portanto, qualquer forma de restrição ao trabalho da i m ­
Constitucional. Depois, discutirei a relação entre liberdade de poder. Projeto de poder que, só para ficar no seu viés político­ prensa e à divulgação do pensamento e da expressão está proi­
imprensa, liberdade de expressão, igualdade e democracia, para ideológico, imprimia forte contratura em todo o pensamento bida, tratando, nos demais dispositivos da Comunicação Social,
que se possa compreender a tese que aqui sustentarei: a com­ crítico e remetia às calendas gregas a devolução do governo ao a Constituição de estabelecer princípios que devem ser seguidos
pleta desnecessidade de uma nova lei de imprensa em termos demo­ poder civil.4 pelas emissoras de rádio e televisão (artigo 221, CF/88). Além
cráticos, o que não significa que não se possa e não se deva regular disso, a Constituição proibiu monopólio e oligopólio dos meios
Mas, por que esses elementos levantados pelo Ministro-R ela­
questões transversais à liberdade de imprensa, como, por exemplo, de comunicação social (§5º do artigo 220, CF/88), voltando a
tor Carlos Britto levariam à não recepção total da lei de i m ­
a criação de mecanismos legais para a pluralização do debate proibir qualquer forma de licença de autoridade para que haja a
prensa?
público através da pluralização da propriedade e exploração dos publicação de veículo impresso de comunicação (§6º, do artigo
meios de comunicação social no Brasil.
Por uma razão simples: a Constituição de 1988 impede qual­ 220, CF/88).
quer espécie de censura, considerando direito fundamental a
Contudo, afirmar a desnecessidade de uma nova lei de i m ­ Assim, segundo o Relator, Ministro Carlos Britto, a Constitui­
liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, além
prensa não significa que a aprovação de uma lei de imprensa ção teria sido enfática na proteção da liberdade de expressão e
de apresentar um capítulo inteiro à regulação dos meios de c o ­
seja necessariamente inconstitucional. A questão da possível de imprensa, já que tais direitos, na perspectiva do Ministro, são
municação social. Assim, para o que nos interessa, temos:
constitucionalidade ou não de uma nova lei de imprensa depen­ necessários para o desenvolvimento da democracia, já que atra­
derá do conteúdo da legislação a ser aprovada. Assim, embora Art. 5º (...) vés de uma imprensa livre o povo pode melhor controlar seus
eu entenda ser desnecessária uma nova legislação regulamen­ IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o governantes. Assim, para o Ministro, a liberdade de expressão e
tando a imprensa no Brasil, não significa que uma nova lei de anonimato; de imprensa é instrumental em relação à democracia. Isso por­
imprensa será necessariamente inconstitucional. V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, que, para o Ministro, as liberdades de expressão e de imprensa
além da indenização por dano material, moral ou à imagem; tornam a sociedade melhor, na medida em que pluralizam o
8.1 A ADPF 130 e a decisão do STF
mercado de ideias. de expressão tanto no Brasil quanto no Direito Comparado, para um antigo poeta grego, Arquiloco. A raposa sabe muitas coisas,
Embora concorde no geral com o voto do Ministro-Relator, concluir que, ao contrário do que afirmado pelo Ministro Carlos mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. O valor é uma
em relação a esse ponto, como demonstrarei mais à frente, Britto, a Constituição de 1988 permitiria sim uma nova regula­ coisa muito importante. 5
não posso concordar com a perspectiva de que as liberdades mentação da imprensa no Brasil para proteger outros princípios Assim, para Dworkin, haveria filósofos-raposa, que são aque­
de expressão e de imprensa sejam instrumentais em relação à constitucionais, especialmente os direitos à honra e à privaci­ les que entendem que os valores estão em colisão, e os filósofos­
democracia. Acredito, como defenderei ao longo desse texto, que dade e à dignidade humana. ouriço, ou seja, aqueles que são desafiados a construir uma t e ­
a liberdade de imprensa e de informação não são apenas instru­ Além disso, a simples existência de uma lei de imprensa oria unitária e interdependente dos valores. Para esses últimos,
mentais à democracia, mas essas liberdades são independentes não diminuiria ou descaracterizaria uma democracia consoli­ dentre os quais nos encaixamos Dworkin e eu mesmo, é não
do próprio direito à democracia, embora interligadas a esse ú l ­ dada, como mostrou o Ministro Gilmar Mendes, ao fazer um apenas possível, mas atraente em termos racionais e filosóficos,
timo. rápido apanhado de leis de imprensa em países de democracia como também desejável, construir essa teoria da unidade do
Por fim, o Ministro Carlos Britto encerrou seu voto afirmando consolidada. Assim, segundo o Ministro, países como Espanha, valor. 6
que não seria possível uma nova lei de imprensa, o que não invi­ Portugal, México, Reino Unido, França, Chile, Peru, Uruguai e Assim, para os filósofos-raposa, igualdade, liberdade, demo­
abilizaria a criação de normas que regulassem questões trans­ Alemanha apresentam leis de imprensa e nem por isso esses cracia e outros valores estão sempre em colisão, não sendo pos­
versais à liberdade de imprensa, como, por exemplo, norma países seriam considerados autoritários ou ditatoriais. Assim, sível realizar um sem diminuir a importância dos outros. Aque­
sobre propriedade e utilização dos meios de comunicação s o ­ concluiu o Ministro pela interpretação conforme a Constituição les que pregam uma ponderação de valores são, sem dúvida,
cial com o intuito de se vedar o monopólio ou oligopólio, como de alguns dispositivos da lei de imprensa, justamente para sal­ filósofos-raposa. 7
consta na Constituicão
' Federal. vaguardar esses outros valores constitucionais. Já para um ouriço, é possível articular em uma teoria consis­
O Ministro Menezes Direito, já falecido, seguiu o entend i ­ Quanto à relação entre democracia, liberdade de expressão e tente os valores mais importantes da humanidade: igualdade,
mento do Ministro-Relator, citando doutrina norte-americana, e de imprensa e igualdade, também entendeu o Ministro Gilmar liberdade, democracia, viver bem, vida boa, justiça etc. 8
o Ministro Gilmar Mendes sobre a ponderação de valores entre a Mendes que a liberdade de expressão e de imprensa é instru­ Essa unidade e essa independência do valor se constroem
liberdade de expressão e os direitos a honra, imagem, vida pri­ mental em relacão' à democracia. a partir de uma estrutura semelhante a uma árvore. Assim,
vada, todos protegidos pela Constituição. A partir de agora, mostrarei por que os Ministros Carlos Britto -
inicia-s e com a Etica, passando-s e para a Moral, depois para a
Embora a Ministra Cármen Lúcia tenha acompanhado o M i ­ e Cármen Lúcia e todos os demais que os acompanharam em Moral Política e, por fim, para o Direito. 9 A Ética, na perspectiva
nistro-Relator e o Ministro Menezes Direito no sentido de não não recepcionar em bloco a lei de imprensa estão certos, e por dworkiniana, está relacionada às questões de viver bem, da f e ­
recepcionar a lei de imprensa, o fez a partir da compreensão de que apenas a Ministra Cármen Lúcia está correta em cons­ licidade individual; já a Moral relaciona-se com as questões da
que limitar a liberdade de imprensa é necessariamente limitar truir uma fundamentação que unifique os valores da igualdade vida boa, ou seja, do que eu devo aos outros; a Moral Política
a dignidade das pessoas, de modo que seria impossível sepa­ (dignidade humana), liberdade de expressão, liberdade de i m ­ diz respeito ao conjunto de normas que devem reger uma c o ­
rar liberdade de imprensa e de expressão, dignidade humana prensa e democracia. munidade política entendida como comunidade de princípios;
(igualdade) e democracia. Nesse sentido, me parece que o voto 8.2 Igualdade, liberdade de expressão e de imprensa e democracia por fim, o Direito pretende estabelecer normas que devem ser
da Ministra Cármen Lúcia é jurídica e filosoficamente mais con­ reconciliados: a tese de um ouriço cumpridas por todos para compatibilizar todos esses enfoques.
sistente, como terei oportunidade de demonstrar mais à frente. Assim, embora esses diversos ramos sejam autônomos em
Neste ponto, o leitor deve estar se perguntando pela razão de algum sentido, a compreensão de um deles depende da compre­
Por fim, para o que interessa aos meus propósitos neste texto,
ser desse subtítulo. Afinal, o que um ouriço faz aqui? ensão dos demais. Essa é a noção de interdependência dos valo­
o voto do Ministro Gilmar Mendes.
O Ministro Gilmar Mendes, em voto extremamente profundo,
Essa figura do ouriço na filosofia, como nos relata Ronald res. 10
Dworkin, em sua mais recente obra traduzida para o português, Aqui, para o que me interessa, a questão que se coloca é a s e ­
buscou analisar os diversos sentidos da liberdade de imprensa e
foi tornada célebre por Isaiah Berlin, mas remete a uma frase de guinte: igualdade e liberdade estão em conflito? E mais: será que
é correto compreender as liberdades de expressão e de imprensa Sendo o direito uma questão interpretativa, é importante que tiva, o liberalismo deve defender um direito à igualdade e não
como apenas a maior liberdade possível para uma possível com­ nos perguntemos sobre a legitimidade do exercício da violência à liberdade ..Ll. E a democracia? Como entra nesse conjunto de
petição em um mercado livre de ideias? autorizada por esse direito. Afinal, qual a diferença entre uma valores?
Minha resposta pura e simples é não, para as duas questões. ordem dada por um ladrão e uma ordem dada por uma lei que Ao contrário do que possa parecer, democracia não é apenas
Mas, antes, para que possamos atingir uma melhor compre­ me ordena que todo mês me seja descontada uma porcentagem um sistema político em que há eleições periódicas e em que
ensão de todas essas questões, convém explicitarmos o conceito específica do meu salário a título de Imposto de Renda? Não s e ­ as pessoas são governadas por maiorias eventuais eleitas pelas
de direito adotado neste texto. Isso porque muitos podem opor riam as duas ordens igualmente fruto de um roubo oufurto? próprias pessoas. Essa é uma concepção muito influente, mas
a alegação de que, na verdade, o STF acabou por se substituir ao Adotando a perspectiva de Dworkin, a diferenca ' entre as duas equivocada de democracia .1§.
legislador democraticamente eleito ao não recepcionar a lei de ordens se centra justamente no fato de que a primeira é ilegi- Há uma concepção mais atraente que melhor descreve nosso
imprensa, pois não haveria claramente um direito constitucio­ tima, enquanto a segunda está marcada pela legitimidade. Mas regime democrático. Ora, democracia significa governo do povo;
nal à liberdade de imprensa. a legitimidade da ordem do Estado para o pagamento do I m ­ de todo o povo e não apenas de uma maioria. Assim, se é g o ­
De fato, a Constituição de 1988 não se pronuncia claramente posto de Renda não se centra apenas no fato de o Estado ter dado verno de todo o povo, a democracia deve ser entendida como um
sobre um direito de liberdade de imprensa. O Texto Constitu­ a ordem. Essa ordem será legitima se, através dela, o Estado e sistema de autogoverno coletivo. Para isso se realizar, é neces­
cional menciona, como visto acima, liberdade de informação, o governo demonstrarem que essa norma apresenta como obje­ sário que cada indivíduo tenha a mesma importância, a mesma
liberdade de crença, liberdade de expressão, liberdade científica tivo uma política geral que trate a todos os indivíduos que estão consideração e respeito na tomada de decisão coletiva. Portanto,
etc. Clara e textualmente, em nenhum momento a Constituicão sob o seu mando com igual respeito e consideração.l i democracia não é apenas forma ou procedimento, mas funda­
'
se refere a uma liberdade de imprensa, falando, contudo, da C o - E o igual respeito e consideração que o governo deve promover mentalmente a decisão sobre valores fundamentais. E, dentre
municação Social em capítulo próprio, proibindo censura etc. somente é possível em uma democracia. Daí porque a democra­ esses valores fundamentais, sem dúvida igualdade e liberdade
Por força disso, pode-s e concluir que não haveria um direito de cia é a melhor forma de governo: na medida em que possibilita entram em jogo.
liberdade de imprensa? que os cidadãos sejam tratados como iguais, ou seja, com igual A democracia, portanto, pode ser mais bem descrita como um
Na minha perspectiva, e aqui, mais uma vez, sigo os passos de respeito e consideração. Dessa forma, igualdade não significa sistema de parceria em que os indivíduos se reconhecem como
Ronald Dworkin, entendo que não. tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na livres e iguais e tomam decisões em comum para o desenvolvi­
medida em que se desigualam ou tratar a todos igualmente p e ­ mento e sucesso de sua comunidade. Assim, para que esse sis­
Na perspectiva aqui defendida, o direito é um fenômeno i n ­
rante a lei, mas fundamentalmente tratar a todos como iguais. tema de parceria se desenvolva, é de fundamental importância
terpretativo. Portanto, o fato de não haver textualmente uma 13
afirmação clara de um direito de liberdade de imprensa não sig­ que as pessoas se respeitem, ou seja, que sejam assegurados os
nifica que esse direito não tenha sido afirmado constitucional­ Assim, se igualdade exige uma postura de igual tratamento ou direitos individuais: direito a ter e professar uma religião; de
mente a partir de outros princípios constitucionais. o direito, de tratar a todos como iguais, exige igualmente que a todos seja escolher com quem casar e se vai ter filhos ou não; se terá uma
portanto, para usar uma expressão de Ronald Dworkin, não garantida a mesma liberdade. Isso porque o direito democrático parceria familiar homossexual ou heterossexual; que profissão
se esgota em um catálogo fixo de regras e princípios, mas é pretende afirmar uma comunidade de pessoas livres e iguais seguir etc. Como afirma Dworkin, não faço parte dessa parceria
dado por uma atitude interpretativa e política da comunidade e que se respeitam, apesar de suas diferenças. 14 Dessa forma, e dessa comunidade e, portanto, a comunidade não é democrá­
em relação à sua própria história institucional.li Para que se não posso ser tratado como um igual se tenho uma liberdade tica se ela não respeita como eu sou. 1 1
compreenda como compatibilizar igualdade, liberdade, e, con­ que o outro não tem ou se for garantida uma liberdade a um Por outro lado, não há igualdade se as pessoas não puderem
sequentemente, democracia, tenho que explicar como compre­ grupo e negada a mim essa mesma liberdade. se expressar, apresentar suas ideias, por mais desagradáveis
ender de modo adequado a igualdade e mostrar por que ela não Portanto, é errado entender que igualdade e liberdade estão que sejam. Como disse certa vez o Ministro da Suprema Corte
se encontra em contradição com a liberdade, mas ao contrário, a em conflito. Na verdade, não há um direito autônomo à liber­ Americana, Oliver Wendell Holmes Jr., a democracia exige a
pressupoe. dade. Se compreendermos esses valores a partir dessa perspec- "liberdade para as ideias que odiamos". 1 ª Assim, liberdade de
expressão é fundamental e intrínseca à igualdade e à demo­ de princípio que demonstre justamente que as liberdades de ex- Mas por que esse tipo de teoria é frágil em termos de justifica-
cracia, e não apenas instrumental. Além disso, uma democra­ pressão e de imprensa são interdependentes em relação à igual­ ção das liberdades de expressão e de imprensa?
cia genuína requer liberdade de associação, de manifestação do dade, decorrendo dela. Até porque nessa perspectiva da liber­ Teorias preocupadas em proteger o público geralmente apresentam o que
pensamento, de imprensa, tudo para que as pessoas possam dade de imprensa para favorecer o mercado de ideias pressupõe­ chamei de argumento de política a favor da liberdade de expressão e de
agir com autonomia e, portanto, com igualdade e liberdade não se implicitamente que o Estado é sempre o agressor e o inimigo, imprensa. Isto é, afirmam que um repórter deve ter certos poderes não porque

apenas no espaço público, como também no espaço privado. quando, muitas vezes, o Estado pode ajudar e promover com ele ou qualquer outra pessoa tenha direito a alguma proteção especial, mas para
assegurar um benefício geral à comunidade como um todo, exatamente como
Portanto, valores que aparentemente se colocavam como ri­ igualdade de condições o debate público através de medidas que os fazendeiros devem, às vezes, ter certos subsídios, não por si mesmos, mas
vais podem, agora, nessa nova perspectiva, ser reconciliados. visem promover as liberdades de imprensa e de expressão.21 também para assegurar algum benefício à comunidade. Teorias preocupadas
São interdependentes. Como demonstra Dworkin, essa justificativa da liberdade de em proteger aquele que fala, por outro lado, apresentam argumentos de

Dessa forma, ao contrário do que muitos defendem, a censura imprensa é pobre. Argumentando para o Direito norte-ameri­ princípio a favor da liberdade de expressão. Afirmam que a posição especial
daquele que fala, como alguém que quer expressar suas convicções em questões
é ruim para a democracia e, portanto, a liberdade de expressão cano, mas que pode ser usado também para o Direito brasileiro,
de importância política ou social, autoriza-o, com justiça, a uma consideração
e a liberdade de imprensa são fundamentais para essa forma Dworkin mostra que a Primeira Emenda à Constituição dos Es­ especial, mesmo que a comunidade como um todo possa sofrer por permitir
de comunidade, não apenas porque com a censura e sem essas tados Unidos que, justamente, trata das liberdades de expressão que ele fale. Assim, o contraste é grande: no primeiro caso, o bem-estar
liberdades o debate público fica empobrecido e não é possível se e de imprensa pode ser interpretada de muitas formas: da comunidade constitui o fundamento para a proteção, ao passo que, no
segundo, o bem-estar da comunidade é desconsiderado.23
falar em autogoverno coletivo, mas fundamentalmente porque A teoria dominante entre os constitucionalistas norte-americanos supõe que os

a violacão
' dessas liberdades e a instituicão
' da censura trata os direitos constitucionais de livre expressão - inclusive a liberdade de imprensa,
Concluindo, consegue-se perceber que é mais correto argu­
que, na linguagem constitucional, significa qualquer expressão tomada pública,
indivíduos como não iguais, como se os indivíduos não fossem mentar no sentido de que a liberdade de expressão e de i m ­
e não apenas a dos jornalistas - destinam-se à proteção do público. Isto é,
capazes de decidir com autonomia sobre a correção ou incorre­ protegem não quem fala ou escreve, mas o público que se deseja atingir. prensa não são apenas valores instrumentais, mas se ligam aos
ção das informações que recebem. Nesse sentido, toda censura Segundo essa visão, jornalistas e outros autores estão protegidos da censura valores da igualdade, liberdade e democracia em um todo unitá­
e toda violação da liberdade de expressão e de imprensa acabam para que o público em geral possa ter acesso à informação de que necessita para rio. Liberdade de imprensa e liberdade de expressão não servem
por representar uma forma de paternalismo governamental i n ­ votar e conduzir seus negócios de maneira inteligente.22
apenas para o autogoverno democrático, mas são uma face da
suportável para sujeitos que devem ser tratados como iguais, Interessante perceber que foi justamente esse o fundamento igualdade enquanto igual respeito e consideração.
livres e responsáveis. Essa é a ideia fundamental de dignidade adotado para o voto do Ministro Carlos Britto, fundamento Resta ainda responder a pergunta central: o Brasil precisa de
humana. 19 Daí porque a Ministra Cármen Lúcia, em seu voto, considerado por Dworkin fraco e inconsistente. Também inte­ uma nova lei de imprensa, como defendeu o Ministro Gilmar
ter feito a ligação entre igualdade, liberdade e dignidade h u ­ ressante perceber que o STF já considerou, tal como na leitura Mendes, ou essa nova lei seria desnecessária, como afirmou o
mana. feita por Dworkin do direito constitucional americano, que a l i ­
,
Ministro Carlos Britto? E o que tentarei mostrar na parte final
Essas ideias, no entanto, não levam a que se permita toda e berdade de imprensa não se restringe apenas a expressões tor­ deste texto.
qualquer expressão, já que não há democracia quando há grita­ nadas públicas por jornalistas, mas abarca também qualquer
8.3 Uma nova lei de imprensa para o Brasil?
ria, injúrias, calúnias, difamações e discursos que visam negar expressão tornada pública.
direitos a outras pessoas. Contudo, a aferição da licitude do dis­ Em julgamento proferido pelo STF nos autos do RE 511.961/ Como mostrei na primeira parte deste texto, o Ministro Carlos
curso somente pode ser visualizada após a própria realização do SP, da relatoria do Ministro Gilmar Mendes, julgado em Britto afirmou em seu voto que seria inconstitucional qualquer
discurso. Não pode, nesse sentido, haver censura prévia.20 17/06/2009 e publicado no Diário da Justiça de 13/11 /2009, o lei de imprensa, mesmo que elaborada pelo Congresso Nacional
Aqui, já se percebe que o fundamento das liberdades de ex- Tribunal concluiu pela desnecessidade de diploma de jornalista sob a influência dos princípios constitucionais da Constituição
pressão e de imprensa não se centra apenas na promoção de um para o exercício da profissão no Brasil, com fundamento nas l i ­ de 1988. Já o Ministro Gilmar Mendes seguiu em sentido dia­
livre mercado de ideias, pois assim a sociedade se torna melhor. berdades de profissão, de expressão e de informação. metralmente oposto, defendendo a necessidade da manutenção
Isso é um argumento de política! Precisamos de um argumento da antiga lei de imprensa naqueles pontos que não conflitassem
com a Constituição de 1988, enquanto o legislador não produ­ pelos órgãos de imprensa. Somente para citarmos dois exem­ conteúdo com a nova Constituição. Assi m, uma norma não é recepcionada quando ela
é anterior à Constituição e seu conteúdo não é compatível com o da nova Constituição.
zisse uma nova lei de imprensa. Quem estaria com a razão nesse plos: o Código Civil, que regula as indenizações por danos Para mai s detal hes, vi de: José Emílio Medauar OMMATI, TeoriadaConstituição, 2• edição
ponto? materiais e morais; o Código Penal, que regula as condutas rev1.ista e ampliada, R io de Jane iro, Lumen Juri s, 2013, p . 75.

Parece-me que nenhuma das duas posições é adequada. criminosas de calúnia, injúria e difamação. Quanto ao direito J. A Arguição de De.scumpri mento de Prece ito Fundamental é uma ação proposta perante
..
o STF para se discutir a constitucional idade o u não de uma le i em face da Constituição de

Ora, o Ministro Carlos Britto acerta quando afirma a desne­ de resposta, embora não tenhamos lei específica sobre isso, e n ­ 1 988. Para mai s detal hes, vi de: José Emílio Medauar OMMATI, op. cit., p. 231 a 232.

cessidade de uma nova lei de imprensa no Brasil. Contudo, tendo ser também desnecessária, seja porque a Constituição já J. Pela interpretação conforme a Constituição, busca-se fixar dentre as várias poss
- . Ebilidade.s
i

se equivoca quando afirma que o Congresso Nacional estaria estabeleceu parâmetros para tanto, seja porque os próprios Tri­ interpretativas da le i aquela que seja
. 1 adequada à Const ituição, de modo a manter
le i vigente e eficaz. Para mai1.s detalthe.s, vi de: José Emílio Medauar OMMATI, Teoria da
a

impossibilitado de construir uma nova legislação para a ativi­ bunais brasileiros desenvolveram balizas bastante seguras em Constituição, p. 238 a 239.

dade de imprensa. Além disso, como bem afirmou o Ministro relacão


' ao tema. �- Trecho do voto do Ministro Carl os Bri tto, Rel ator nos autos da ADPF 1 30/DF.

Carlos Britto, é de fundamental importância que seja discutida Assim, concluo o presente texto reafirmando minha posição 1- Ronal d DWORKIN,Justiçaparaouriço, li1sboa, 1_ Al medina, 2013, p. 13.
2- A obra Justiça para Ouriços, de Ronald Dworkin, é um empreendimento muito bem
e aprovada no Brasil uma lei que trate da propriedade e explo­ sobre a completa desnecessidade de uma nova lei de imprensa sucedido, d iga-se de passagem, ne.sse senti do.

ração das redes de rádio e televisão, por exemplo, para se evitar para o Brasil, demonstrando que o STF acertou ao decidir pela Z- Nesse senti do, cf. Robert ALEXY, Teoria dos direitos fundamentais, 2• edição, São

monopólio e oligopólio, cumprindo-se, inclusive, dispositivo completa incompatibilidade entre a lei de imprensa do regime Paulo, Mal he iros, 2011.

constitucional. Isso porque não adianta nada termos liberdade da ditadura e a Constituicão
' de 1988. §_. Rona·11l d DWORKIN, op. cit.
.2_. Idem.
de imprensa e de expressão se os meios de comunicacão ' social REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS l Q. Ibidem.
estiverem em sua grande maioria ou quase totalidade nas mãos 1 1 - Nesse senti do, vi de: Rona·1l d DWORKIN, O império do Direito, São Paulo, Marti ns
ALEXY, R. Teoria dos direitosfundamentais. 2ª edicão. São Paulo: Malhei-
de poucas pessoas. Não haverá circulação de ideias, e a digni­ ros, 2011.

Fonte.s, 1999. Para mai ore.s informaçõe.s sobre o dire ito como uma que.stão interpretativa,

dade das pessoas fica violada, sem contar o risco de manipula­ DWORKIN, R. O império do direito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
vi de: José Emílio Medauar OMMATI, Teoria da Constituição, 2• edição, Ri o de Janei ro,
Lumen JuriE.s, 2013, pri ncipalmente o capítulo 5.
ções políticas e eleitorais. _ _ . Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. .ll- Ronal d DWORKIN, A virtude soberana: A teoria e a prática da igualdade, São
Por outro lado, o argumento do Ministro Gilmar Mendes no _ _ . Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Paulo, Martins Fonte.s, 2005.

sentido de que há países democráticos que possuem leis de i m ­ _ _ . A virtude soberana: A teoria e a prática da igualdade. São Paulo: 1 3. Sobre isso, vi de: José Emílio Medauar OMMATI, A igualdade no paradigma do Estado
Martins Fontes, 2005. democrático de Direito, Porto Al egre, Sérgi o Antônio Fabri s Editor, 2004; Liberdade de
prensa e que não deixam de ser democráticos por isso é, ao expressão e discurso de ódio na Constituição de 1988, Ri o de Janei ro, Lumen Juri s,
_ _ . O direito da liberdade:A leitura moral da Constituição norte-ameri­
mesmo tempo, correto e falacioso; correto, pois uma nova lei cana. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
2012.

de imprensa não necessariamente será inconstitucional, desde _ __ .Justiça para ouriços. Lisboa: Almedina, 2013.
14. Sobre isso, vi de: José Emílio Medauar OMMATI, Teoria da Constituição.
1 5. Nesse senti do, vi de: Ronal d DWORKIN, Levando os direitos a sério, São Paulo,
que não viole os valores estabelecidos em nosso Texto Consti­ FISS, O.A ironia da liberdade de expressão: Estado, regulação e diversidade
Marti ns Fontes, 2002.
tucional; falacioso, pois de uma suposta necessidade de uma na esferapública. Rio deJaneiro: Renovar, 2005.
1 6. Dworkin denomina e.ssa concepção de concepção major
j i11taritsta da democracia. Ne.sse
LEWIS,A. Liberdadepara as ideias que odiamos: Uma biografiada primeira
nova lei de imprensa não decorreria que a antiga lei de imprensa senti do, vi de: Ronal d DWORKIN, A virtude soberana:A teoria e aprática da igualdade;
emenda à Constituição americana. São Paulo: Aracati, 2011. O direito da liberdade:A leitura moral da Constituiçao - norte-americana' São Paulo'
tivesse que ser mantida para não gerar vácuo legislativo. Isso OMMATI, J. E. M. A igualdade no paradigma do Estado democrático de di­ Marti1,.ns Fontes, 2006; José Emílio Medauar OMMATI, Liberdade de expressão e discurso
porque, como demonstraram os Ministros que votaram pela reito. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2004. de ódio na Constituição de 1988; Teoria da Constituição.

completa incompatibilidade da antiga lei de imprensa com a _ _ _. Liberdade de expressão e discurso de ódio na Constituição de
1 2- Ronal d DWORKIN, Avirtude soberana:A teoria e aprática da igualdade, op. cit.

Constituição de 1988, era e é completamente impossível compa­ 1988. Rio deJaneiro: LumenJuris, 2012. .l§.. Anthony LEWIS, Liberdade para as ideias que odiamos: Uma biografia da
primeira emenda à Constituição americana, São Paulo, Aracati , 2011, p. 14.
tibilizar esses dois diplomas normativos (Constituição e antiga _ _ _. Teoria da Constituição. 2ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Juris,
2013. 1 9. Além de.ssa dimensão, a dignidade humana apre.senta outra: a da importância intrínseca
lei de imprensa). SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ADPF 130/DF. Relator Ministro CAR­
de toda e qual quer vi da humana. Nesse senti do, vi de: Ronal d DWORKIN, Justiça para
Ouriços, op. cit.
Para mim, uma nova lei de imprensa é desnecessária, embora LOS BRITTO,j. 30/04/2009,p. DJe de 06/1 1/2009.
20. Sobre isso, vi de: José Emílio Medauar OMMATI, Liberdade de expressão e discurso de
não necessariamente inconstitucional, pois já temos normas
'
ódio na constituição de 1988, op. cit.
1- Ditz-se
que cumprem o papel de coibir possíveis abusos cometidos -_ que uma norma é recepcionada quando ela se
. encontra em consonância em seu
21 . Nesse senti do, vi de: Owen FISS, A ironia da liberdade de expressão: Estado,
regulação e diversidade na esferapública, Ri o deJanei ro, Renovar, 2005.
22. Ronal d DWORKIN, Uma questão de princípio, São Paulo, Marti ns Fontes, 2000, p.
574.
23 . Ronal d DWORKIN, Uma questão deprincípio, op.cit., p. 575 a 576.
e;. 1/o�&� c�MÍ��/3u&rrJf/,.�� herdade de imprensa pode originar -se de fatores alheios à inter­ vada. Tem seus precursores em Hobbes, John Locke, Benjamin
ferência do Estado. Constant e, maís recentemente, em Isaíah Berlin.
nwliUic��
A censura, muitas vezes, se é vista como um tapa-bocas, pode Liberdade republicana, diferentemente, tem sua matriz na
Glória Gomide também se transformar em uma ausência de vozes, uma exclu ­ Grécia, na república romana e no humanismo do início da Idade
são daqueles que têm direito à fala. E isso bem antes de Guten­ Moderna. Nela, a ideia de liberdade é associada à vida activa, ao
berg inventar uma multiplicadora da fala escrita. livre- arbítrio, ao autogoverno e à participação na vida pública.
A falta de voz ou quem é o dono da voz é questão síntese desta
No caso brasileiro, desde o início do século XVII, essa ausência Seus pensadores são homens como Maquiavel, John Milton e
segunda parte do I Colóquio sobre liberdade de expressão.
e a falta de participação são notórias. Segundo Lima, "a exclusão Thomas Paíne.
Venício A. de Lima sintetiza as apresentações do Colóquio
se dá pelo silêncio", é marco histórico, já que Vieira, nos seus Lima recorre a Juarez Guimarães e a Ana Paola Amorim em
no primeiro texto deste bloco com fundamentações históricas,
Sermões, em 1640, ao fazer um balanço de como se encontrava seu trabalho (aínda inéd ito) "A corrupção da opinião pública -
didaticamente apresentadas, ao fazer um trajeto que tem sua
a Colônia, diz que o Brasil se encontrava na mesma condição Uma defesa republicana da liberdade de expressão", no qual os
matriz na democracia da Grécia antiga, e percorrendo um cami­
do infante, aquele que não fala, e sua principal enfermidade é autores desenvolvem o argumento de que a hegemonia do con­
nho que atravessa a história, até o liberalismo e republicanísmo
"encolher -lhe a fala". Faz uma analogia do termo latino infans, ceito liberal de liberdade é a principal responsável pela inter­
como tradições opostas de liberdade. ,
"aquele que não fala", com infante. E uma das primeiras ma- dição do debate público sobre a liberdade de expressão, assim
Para os gregos, segundo Marilena Chaui (apud Lima) a demo- nifestações históricas da falta de voz, da exclusão de vozes na como também pela ausência da mídia nas teorias democráticas
cracia é constituída por uma sociedade brasileira. Segue citando o educador Paulo Freire, o e, aínda, pela permanente desqualificação da opinião pública.
forma sociopolítica definida pelos princípios da isonomia (igualdade dos qual reafirma que "no povo brasileiro, a sua enfermidade está Seu trabalho é recuperar o conceito liberal de liberdade no
cidadãos perante a lei) e da isegoria (direito de todos para expor suas opiniões, precisamente em não ter voz e participação". Sempre que o povo Brasil e, em seguida, compreender as consequências (democrá ­
vê-las discutidas, aceitas ou recusadas em público). (Nesta forma sociopolítica],
tenta se expressar um remédio lhe é dado: "a saúde, para essa ticas) ao longo do tempo.
todos são iguais porque livres, isto é, ninguém está sob o poder de outro,
uma vez que todos obedecem às mesmas leis das quais todos são autores
estranha democracia, está no silêncio do povo, na sua quie ­ Liberdade e liberdade de expressão são conceitos em disputa,
(diretamente, numa democracia participativa; indiretamente, numa democracia tude". mas ao mesmo tempo, como nos diz Lima, princípios a ser d e ­
representativa) (Chauí, 2012). Cultura do Silêncio é um conceito de Freire que tem sua origem fendidos em nome de uma democracia republicana.
com o Padre Antônio Vieira, e que o educador ampliou até as Venício Lima resgata a criação e os descaminhos do Conselho
Lima parte dessa afirmação para jogar a pergunta: a ausência
comunidades ou países do Terceiro Mundo, lugares onde não há de Comunicação Social - demonstra as possibilidades e d ifi ­
de voz e de participação (ausência de isegoria) política pode ser ,
diálogos, e sim comunicados. E o ambiente do tolhimento da culdades de articulações políticas e de políticas públicas para
identificada como uma forma de censura?
voz, da incomunicabilidade. referendar taís órgãos - mostrando que esses descaminhos não
Os censores são muitos. Não é só o Estado e nem sempre são
A cultura do silêncio é uma forma histórica de censura, consi­ deveriam impedir a criação dos Conselhos Estaduaís de Comu­
os censores propriamente contratados para tal função. Vide que
derando que sonega a uma parte grande da população a isegoria nicação Social, instalados apenas no estado da Bahia, aínda que
restrições à liberdade de imprensa decorrem muitas vezes de f a ­
- liberdade de se expressar e participar do debate público demo­ previstos em nove constituíções estaduaís e na Lei Orgânica do
tores econômicos alheios à interferência do Estado. E prossegue
crata. Daí há de se fazer a distincão entre duas nocões de liber - Distrito Federal.
Lima ao afirmar que o Estado pode e deve ser o garantidor da , '
dade: a trad ição liberal e a tradição republicana. Além disso, demonstra as possibilidades reaís de uma inclu ­
liberdade de expressão, logicamente o defensor da ausência de
censura. Liberdade liberal tem seu fundamento no liberalismo, a partir são democrática e efetiva - com a participação da sociedade civil
do século XVII, na Inglaterra. Prossegue como reação à Revo­ em sua forma maís plural, na Constituíção Federal de 1988, na
Há, no entanto, um tipo de censura que atinge a liberdade de
lução Francesa e se consolida no século XIX, como a liberdade criação desse conselho e que deveria ser caracterizado como um
imprensa e é notória quando decorre da estrutura hegemônica
das empresas de míd ia. Logo, resumindo, considera-se que a li - privada de produzir e vender mercadorias, além de distribu i ­ órgão colegiado autônomo - nacional e com seções estaduaís.
las. Aí se vê o caráter pré-político de liberdade, como esfera pri-
Bom, mas quanto maior o grupo corporativo que domina os se utilizou da voz mais alta, a dos poderosos grupos econômi­ racterizam os conceitos de tais liberdades e como as evocam em
media, maior a liberdade de expressão do mesmo. O que desdiz cos. defesa de suas posições.
o sonho do Senador da República, Ulisses Guimarães, o qual n o ­ A questão indígena é registrada por Luciana de Oliveira nas A partir, portanto, do caso Guarani e Kaiowá, analisa os
meou a Constituicão' de 1988 de "Constituicão
' Cidadã". diferentes vozes que defenderam ou atacaram aqueles que não discursos de ambos os lados, que têm como fundamentos os
Em seguida, Ângela Carrato reconta a história da TV brasi- a têm. Enquanto a grande mídia, através de matérias e de seus conceitos ideológicos, sob diferentes posições sociopolíticas e
leira, desde sua origem. Enquanto a maioria dos brasileiros crê articulistas, desacreditava os simpatizantes da causa Guarani e econômicas. Logo, quem detém o agronegócio comanda com
que sua criação foi por Assis Chateaubriand, é registrado que Kaiowá, outra grande parte - a da opinião pública - se manifes­ privilégio e poder o espaço midiático, o que implica uma possi­
a voz do verdadeiro criador, Edgard Roquette-Pinto, foi abafada tou através das redes sociais ao trocar os sobrenomes dos usuá­ bilidade maior de intervir na opinião pública.
pelos meios de comunicação de Chatô e pela literatura brasi­ rios pelo das tribos citadas. A exclusão cidadã dos indígenas levantou com força poderosa
leira. O caso Guarani e Kaiowá trouxe à baila fontes diferentes de uma polêmica que faz parte da história do Brasil e a análise das
Foi-se sedimentando uma inverdade, já que é visto que a TV informação. Por um lado, os jornais de circulação nacional c o ­ controvérsias entre as mídias e grupos antagônicos, os defenso­
pública, a inicial, fundamentada por Roquette-Pinto, não é s e ­ locaram até seus articulistas, como, por exemplo, Kátia Abreu res da causa indígena e os seus críticos, os quais acusaram os
quer citada pela maioria da mídia. Chateaubriand foi o homem e colunistas semanais, como Felipe Pondé, ambos na Folha de primeiros de serem "ativistas de sofá". Os textos pró e contra são
que através de artimanhas e conchavos políticos colocou no ar S. Paulo, além de Walter Navarro, no jornal mineiro o Tempo, debatidos e analisados, e v ê s- e a possibilidade real de uma dis­
uma TV comercial, através da qual setrouxe toda uma ideologia para publicar críticas aos defensores dos indígenas e criticar os cussão propícia no século XXI. Vemos, portanto a voz dos índios
dos dominantes, patrocinadores de programas enlatados e, na blogueiros ou os usuários das redes sociais - o outro lado da l i ­ ser abafada ou representada por grupos distintos. Tais cidadãos
sua maioria quase absoluta, sem nenhum valor educativo. berdade de expressão. são apresentados às vezes como párias, como invasores, inocen­
Nota-s e que, portanto, historicamente, não se é valorizada a O mote para essa discussão foi a carta de Pyellito Kue/Mbara­ tes, selvagens e nunca como parte integrante da nação.
TV pública - acusada de ser porta-voz do Governo. E atual­ kay, na qual até então o homem silenciado levantou a necessi­ Um Colóquio sem polêmica não se serve como tal, e este livro
mente, com a criação da TV Brasil, em 2007, mesmo havendo dade de sua comunidade lutar até a morte, caso houvesse uma tem as marcas do que foi dito em cada apresentação. Vimos,
um desejo de uma emissora que não se colocasse como porta­ ação de despejo em seu território no Iguatemi, Mato Grosso do portanto, emJosé Emilio Medauar Ommati, uma opinião discor­
voz oficial, nem por grandes grupos econômicos, além de não Sul. Ora, tal região é dominada pelo agronegócio, por empresas dante dos demais textos.
ser pautada pelo mercado, a grande mídia a critica ou a ignora. multinacionais do ramo de papel e celulose, pela extração m i ­ Tomando como estrutura fundamental a decisão do Supremo
O silêncio da exclusão ou a exclusão pelo silêncio. neral, e fortalecida pelo lobby e pela pressão sobre os poderes Tribunal Federal, o qual, em 20 de abril de 2009, declarou a não
Roquette-Pinto e Assis Chateaubriand foram personagens do Estado. Enquanto as tribos tentam sobreviver, têm sua área recepção em bloco de toda Lei 5250/67, mais conhecida como
fundamentais e antagônicos, donos de grupos de comunicação, destruída e são aos poucos dizimadas pelo uso de pesticidas e Lei de Imprensa, o autor referenda tal decisão.
logo, tinham vozes. Roquette era dono de rádio, e Chateaubri­ redução de seu locus. Em uma comunidade implantada dentro Ao citar os votos de vários ministros, coloca-se ao lado daque­
and, dono dos Diários associados, maior conglomerado da i m ­ da legalidade constitucional, os grandes empresários dizimam les que votaram pela desnecessidade de uma nova lei, ampa­
prensa nacional. Mas a voz mais poderosa - a comercial - abafou esses povos, até então com a conivência e o silêncio da mídia. rados pela Constituição de 1988. Ali, os membros do Supremo
a do comunitário e a do público. Oliveira propõe que sua análise seja balizada através de qua­ interpretaram que tal carta cobria os direitos à Liberdade de I m ­
Paradoxalmente, vimos que, se os dois tinham afinidades pro­ tro operadores analiticos: a visão sobre a opinião pública bra­ prensa e Liberdade de Expressão.
fissionais, os mesmos desejos, não se utilizaram dos mesmos sileira; o imaginário sobre os índios; a questão da terra e, pos­ A justificativa utilizada é que, em vários artigos, a Consti­
instrumentos para chegar ao destino final. Enquanto o primeiro teriormente, a identificação dos argumentos de defesa e crítica tuição impede qualquer espécie de censura e considera direito
se preocupava com o coletivo, com educação através dos meios aos textos jornalisticos. Nesse caso especificamente aprofunda fundamental a liberdade de expressão e de manifestação do
de educação, o segundo priorizava o lucro e as relações com o o debate, alargando as fronteiras sobre a liberdade de imprensa pensamento. Apresenta-nos, além disso, um capítulo que r e -
poder. Portanto, ficou na história, mesmo inverídica, aquele que e liberdade de expressão. Busca entender como os cidadãos c a -
gula os meios de comunicação. Inclusive, é citado o parágrafo maís de duas pessoas, a fim de discutir questões de doutrinas, e
,
5 do artigo 220 CF/88, o qual proíbe o monopólio e o oligopólio se possível lançar luz sobre dúvidas. E notório que, na maíoria
,
dos meios de comunicação. E notório que esse artigo não é cum- dos temas estudados, falou-se sobre a voz dos hegemônicos (o
prido, visto que, como nos disse Carrato, no país há apenas seis dono da voz) e dos ordinários (sem direito a tal).
grupos familiares que concentram em suas mãos pelo menos Logo, o nome do evento e os textos apresentados paradoxal­
as TVs abertas -Abravanel (SBT), Dallevo e Carvalho (Rede TV), mente refletem uma dicotomia, considerando que, na visão dos
Marinho (Globo) e Saad (Band). autores, há a impossibilidade de escuta das vozes prementes,
Portanto, Liberdade de Expressão e Liberdade de Imprensa pois estas não têm como se colocar. Sempre haverá o dono da
não podem ser tratadas como similares, é uma questão histó­ voz que exigirá que sua fala seja aceita como a verdadeira, sub­
rica. Se no passado imprimiam-s e pequenos jornaís com opi­ jugando as pequenas, as quaís, possivelmente maíorias, não
niões de classes, de grupos ou até de um determinado cidadão, têm um locus para expor-se. No nosso caso, expressá-las.
aos poucos foram massacrados pelos grandes jornaís que c o ­ As vozes caladas, como em guerrilhas narrativas, tentam se
meçavam. Estes eram diários, com anunciantes, vendidos com servir de caminhos avessos para que possam se manifestar,
a finalidade óbvia do lucro. Aos poucos, se tornaram empresas para serem ouvidas. E como são muítas trilhas, sempre acharão
jornalisticas fortalecidas pelo poder econômico, o que fez com veredas por onde possam possibilitar sua expressão. Amém.
que não houvesse maís espaço para os pequenos, que com o
tempo foram minguando.
Os grandes grupos formados transmitem ideias, mas como
cada vez maís foram se tornando conglomerados, defendem as
ideias dos grandes donos, todas iguaís. Defendem a voz do dono,
abafando a voz dos outros.
Assim, a liberdade de opinião pública é excluída por falta de
espaço para sua publicação. Esta seria a voz da liberdade de ex-
pressão. Paralelamente, a liberdade de imprensa se fortalece no
momento em que é detentora da opinião publicada.
Ommati, portanto, abre uma discussão com os demaís auto­
res dessa obra, já que defende a não necessidade de uma nova
Lei de Imprensa, apesar de não v ê l-a como inconstitucional. O
autor acredita que temos normas suficientes que cumprem o
papel de coibir os possíveis abusos cometidos pelos órgãos de
imprensa.
Polemiza explicitamente com as demaís vozes aquí presentes,
o que se transforma em um bom debate.
A questão premente neste segundo tempo do I Colóquío é o
seu próprio sinônimo. Dar voz, ou melhor, criar um debate entre
expressão, Boitempo, 2013, entre outros livros.
Luciana de Oliveira é professora do Departamento de Comu­
nicacão
, Social da UFMG, na Graduação e no Programa de Pós-
Graduacão, em Comunicacão;
' e mestre e doutora em Ciências S o -
ciais pela mesma instituição. Pesquisadora associada do Grupo
Ana Paola Amorim é professora do curso de jornalismo da - .
de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade - GRIS. E coorgaruza-
Universidade FUMEC, doutora em Ciência Política pela UFMG e
dora do livro Acontecimento: reverberações (Autêntica, 2012) e
pesquisadora do Grupo de Pesquisa Cerbras (Centro de Estudos
autora de capítulos de livro e artigos publicados em periódicos
Republicanos Brasileiros), sediado no Departamento de Ciência
científicos. Interessa-se pelos seguintes temas de pesquisa: c o ­
Política da UFMG. É coautora, com Juarez Guimarães, de A C o r ­
municação e cultura, comunicação e religião, disputas político­
rupção da Opinião Pública - Uma defesa republicana da liberdade
simbólicas em torno de acontecimentos, discursos e práticas de
de expressão, Boitempo, 2013.
responsabilidade social, sustentabilidade e desenvolvimento,
Angela Carrato é jornalista e professora do Departamento de especialmente relacionados à questão indigena no Brasil. Atu­
Comunicacão , Social da UFMG. Presidiu a Rede Minas de Televi- almente desenvolve a pesquisa Sustentabilidade e Desenvolvi­
são (2003-2005) e foi vice-presidente da Associação Brasileira mento: atores, enquadramentos e valores em disputa no debate
das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (ABEPEC). Inte­ público sobre a construção de Belo Monte, com financiamento da
grou a representação do governo federal na I Conferência Nacio­ PRPq-UFMG e do CNPq.
nal de Comunicacão' (dezembro-2009). É autora de vários textos
Ricardo Fabrino Mendonça é professor do Departamento de
sobre televisão no Brasil.
Ciência Política da UFMG.
Glória Gomide é publicitária, professora titular e doutora em
Literatura de Língua Portuguesa pela PUC Minas. Venício A. de Lima foi pesquisador visitante I do CNPq no D e ­
partamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013). Professor
Helton Adverse é doutor em Filosofia e professor do Departa­
Titular de Ciência Politica e Comunicação da UnB (aposentado),
mento de Filosofia da UFMG. Tem vários trabalhos publicados
é autor de Liberdade de Expressão x Liberdade da Imprensa - D i ­
na área de Filosofia Política. Mais recentemente, organizou o
reito à comunicação e democracia, Editora Publisher Brasil, 2ª
livro Filosofia Política no Renascimento Italiano (São Paulo: An ­
edição, 2012, entre outros livros.
nablume, 2013), e é autor do capítulo "A matriz italiana" do
livro Matrizes do Republicanismo (organizado por N. Bignotto.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013).
José Emílio Medauar Ommati é mestre e doutor em Direito
Constitucional pela UFMG; Professor de Teoria da Constituição
e Direito Administrativo I, no Curso de Direito da PUC Minas
Serro; e Coordenador do Curso de Direito da PUC Minas Serro
(2009-2014).
Juarez Guimarães é professor do Departamento de Ciência P o ­
lítica da UFMG e coautor, com Ana Paola Amorim, de A Corrup­
ção da Opinião Pública - Uma defesa republicana da liberdade de
Direção editori al : Claudiano Avelino dos Santos

Coordenação de desenvol vi mento di gi tal : Erivaldo Dantas

• • 1stente editoria.1 : Jacqueline Mendes Fontes


Ass i i l
,.
Revi são: Cícera Gabriela SousaMartins
Caio Pereira
Capa: Marcelo Campanhã

Dados Internaci onai s de Catal ogação na Publicação (CIP)


.1i lei ra do li vro, SP, Bras
(Câmara Bras • 1i l)

li berdade de expre.ssão: as vári as face.s de um de.safio / Veníci o A. de Li ma, Juarez Guimarãe.s


(orgs.)-São Paulo: Paulus, 2013. - (Coleção Temas de comunicação)

elSBN 978-85-349-3847-1

1 . Censura 2. Comunicação social 3. Imprensa 4. li berdade de expre.ssão 5. Mei os de


comunicação 6. Mídia e políti ca 1. Li ma, Veníci o A. de. li. Guimarãe.s, Juarez. Ili. Séri e.

1 3-09546 CDD-302.2

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1 . Políti ca e comunicação: Soci ologi a 302.2

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