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26/07/2017 A internacionalização das universidades vista por três especialistas estrangeiros - Ensino Superior Unicamp

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entrevistas
Entrevista 09/05/2016 | Para Romano, acomodação da
esquerda está na gênese da crise

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Garcia dos Santos, Brasil já vive Estado de Exceção
três especialistas estrangeiros 27/10/2015 | “É preciso que a Universidade se abra
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Publicada originalmente no Jornal da Unicamp, dezembro de 2010
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eliminou exigência de gasto mínimo com educação
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geral
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o melhor caminho para chegar lá? E como transpor barreiras inerentes a esse processo? de fenômenos sociais nas ciências com o uso de
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Na entrevista a seguir, Ben Wildavsky, Francisco Marmolejo, e John Douglass falam
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necessário para o Brasil tornar-se uma liderança regional em ensino superior e mostram 10/08/2016 | Em defesa da língua portuguesa
como é possível fazer as universidades latino-americanas serem mais reconhecidas no
20/05/2016 | Origens do produtivismo acadêmico e o
cenário internacional. caminho do impacto social do conhecimento

09/05/2016 | Para Romano, acomodação da


esquerda está na gênese da crise

Ben Wildavsky
Pesquisador da Kauffman Foundation, nos Estados Unidos, autor do
livro The Great Brain Race: How Global Universities Are Reshaping
the World e colaborador do blog WorldWise da publicação norte-
americana The Chronicle of Higher Education.

Francisco Marmolejo
Diretor-executivo do Consórcio para a Colaboração no Ensino
Superior da América do Norte (Conahec), vice-reitor assistente de
Programas do Hemisfério Ocidental da Universidade do Arizona, nos
Estados Unidos, e colaborador do blog WorldWise.

John Douglass
Pesquisador do Center for Studies in Higher Education (CSHE) da
Universidade da Califórnia (Berkeley, EUA). Fundador e coordenador
do Student Experience in the Research University (SERU), sistema
de avaliação utilizado por 17 das melhores universidades públicas
americanas, Douglass esteve em Campinas como pesquisador
visitante do Grupo de Estudos em Ensino Superior (GEES) do Centro
de Estudos Avançados (CEAv) da Unicamp.

Por que as universidades latino-americanas dificilmente se classificam entre as 200


melhores do mundo? Esse fato se deve à metodologia de elaboração dos rankings
internacionais ou elas realmente estão muito atrás das universidades dos países
desenvolvidos?

Ben Wildavsky – É uma boa pergunta. não estudei a


Os rankings não medem a
posição exata das universidades do Brasil e de outros
importância das instituições
países da américa latina nos rankings, por isso é difícil
para suas economias e
responder de maneira muito específica. Obviamente, os
culturas nacionais ou a
rankings são diferentes entre si. o ranking de Xangai foi
qualidade de seu ensino, ou
criado como parte do esforço da china para ter
o moral de seus professores
universidades de excelência. Os chineses pensaram: se
ou estudantes, ou o nível de
queremos ter boas universidades, precisamos saber onde
liberdade acadêmica e a
estamos e para onde devemos ir. É um ranking muito
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abertura para discussão de focado em pesquisa e em áreas como ciência e
problemas na sociedade engenharia.

De maneira geral, uma universidade só se classifica bem nele se sua massa crítica de
pesquisadores for muito produtiva, publicar artigos em periódicos revisados por pares e
tiver seu trabalho citado por outros pesquisadores. Algumas universidades se saem muito
melhor no ranking da times Higher education (THE) do que no levantamento de Xangai. A
metodologia do ranking da THE mudou significativamente quando a revista trocou de
parceira [até 2009, a parceira da THE era a empresa QS; em 2010, passou a ser a
thomson reuters]. Eles fazem um levantamento sobre a reputação das universidades e
também consideram elementos como publicações e gastos com pesquisa. O foco é um
pouco mais amplo.

Talvez as universidades brasileiras fossem mais competitivas se os rankings avaliassem


departamentos individualmente, e não as instituições como um todo. É claro que também
seria bom se eles dessem mais ênfase ao ensino. Mas se uma instituição quer ser uma
grande universidade de pesquisa, ela tem de fazer pesquisa de qualidade em todas as
suas áreas. Não basta ter uma ou duas pessoas muito boas. É preciso ter uma massa
crítica de professores e pesquisadores muito talentosos. Creio que essa é uma luta para
muitos países em desenvolvimento.

Francisco Marmolejo – Os rankings são, em certo sentido, um agregado arbitrário de


variáveis elaborado por alguém para comparar uma instituição com outra. É assim com o
ranking da Times Higher Education, com o de Xangai e com outros levantamentos. O fato
de haver um agrupamento arbitrário de variáveis obviamente coloca certas instituições
em vantagem e outras em desvantagem, e essa é uma das razões pelas quais as
universidades da América Latina se classificam tão mal.

A outra razão tem a ver com o modelo de desenvolvimento que prevaleceu nas
universidades latino-americanas durante praticamente os cem anos de existência formal
do sistema contemporâneo. É claro que não se pode generalizar, mas em muitos países
privilegia-se um acesso relativamente limitado ao ensino superior, como no caso
brasileiro. O sistema latino-americano também costuma ter níveis de financiamento
menores que os dos países desenvolvidos e modelos de governança muito orientados ao
assembleísmo, o que dificulta a tomada de decisões nas instituições. Além disso, as
pressões demográficas são tão fortes na américa latina que o desafio de construir mais
universidades acaba sendo maior que o de melhorar a qualidade das que já existem.

Há outros dois elementos que considero complicados. um


As pressões demográficas
é o fato de o currículo das universidades latino-
são tão fortes na América
americanas ser altamente profissionalizante, muito rígido
Latina que o desafio de
e ineficiente. em outras palavras, provavelmente
construir mais universidades
ensinamos coisas que talvez já não sejam tão relevantes
acaba sendo maior que o de
e não permitimos que o aluno construa o seu próprio
melhorar a qualidade das que
portfólio de competências. Finalmente, os processos de
já existem
internacionalização das universidades latino-americanas
são muito limitados e ainda ficam à margem do processo educativo das instituições.

John Douglass – Os rankings mundiais têm uma forte tendência à análise de citações –
que se inclinam às ciências e à engenharia – e também à pesquisa de reputação. Do meu
ponto de vista, os levantamentos dizem algo sobre a qualidade de muitas universidades,
mas são muito mais uma imagem incompleta e tendenciosa. Por exemplo, eles não
medem a importância das instituições para suas economias e culturas nacionais, ou a
qualidade de seu ensino, ou o moral de seus professores ou estudantes, ou a habilidade
de gerenciar de maneira eficaz as universidades, o nível de liberdade acadêmica e a
abertura para discussão de problemas na sociedade. As administrações não devem
concentrar-se na crescente variedade de rankings e querer que as universidades sejam
instituições emblemáticas. A universidade brasileira está ganhando rapidamente na sua
qualidade e eficácia, em todas as áreas, em parte devido ao apoio contínuo dos governos
federal e estadual, mas também porque é crescente a percepção de que o Brasil precisa
de uma rede de qualidade nas universidades de pesquisa, para o desenvolvimento
econômico. Já há sinais de um aumento da produtividade em pesquisa, e de uma
crescente cultura focada em auto-aproveitamento e correções para melhorar, incluindo
experimentações com o ensino geral.

Processos mais fortes de internacionalização ajudariam as universidades latino-


americanas a serem mais reconhecidas e respeitadas no cenário internacional?

Ben Wildavsky – Sem dúvida. Muitos países entenderam, e os formuladores de políticas


entenderam, que a competição para as universidades não é só local, nacional ou regional
– é global. de certa forma, o mesmo tipo de globalização que chegou ao mundo dos
negócios e da cultura também chegou ao mundo do ensino superior. Houve um aumento

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muito grande na colaboração científica internacional. o número de artigos coassinados
por professores de países diferentes mais que dobrou nos últimos 20 anos.

Na idade média, quando as primeiras universidades ocidentais foram criadas em cidades


como Paris, Bolonha e Oxford, já havia estudantes que viajavam de um lugar para outro.
mas agora a globalização está ocorrendo em uma escala jamais vista na história. Há 3
milhões de alunos estudando fora de seus países de origem, o que representa um
aumento de 57% em apenas uma década. em 2025, haverá cerca de 8 milhões. As
melhores universidades do mundo estão procurando os melhores talentos onde quer que
possam encontrá-los. Países de todos os continentes já perceberam que o capital
humano é essencial para o crescimento econômico.

Muitos estão tentando aumentar o acesso ao ensino superior — o que, pelo que sei, é
uma preocupação do Brasil. outros, como China, Coreia do Sul e Arábia Saudita, estão
investindo na criação de universidades de excelência — talvez porque não queiram
enviar seus alunos para estudar no exterior. Na Arábia Saudita, o rei Abdulla investiu US$
10 milhões na criação da universidade rei abdulla de ciência e tecnologia (Kaust, na sigla
em inglês), a sexta maior doação já feita no mundo.

Francisco Marmolejo – Sem dúvida. O que a


Se uma instituição quer ser
internacionalização faz é abrir a universidade para o
uma grande universidade de
mundo e aproximar o mundo da universidade – duas
pesquisa, tem de fazer
necessidades enormes no caso latino-americano.
pesquisa de qualidade em
Internacionalizar a universidade significa revisar o
todas as suas áreas. Não
currículo para ver quais conteúdos são relevantes não
basta ter uma ou duas
mais em um contexto local, mas em um contexto
pessoas muito boas. É
internacional. Implica atrair professores de fora, mandar
preciso ter uma massa crítica
docentes para o exterior e propiciar maior mobilidade aos
de professores e
alunos para que eles possam entender melhor o mundo
pesquisadores muito
complicado em que vão trabalhar. Implica, ainda, que a
talentosos
universidade comece a comparar-se mais com seus pares
internacionais. Afinal, trata-se de um processo de alinhamento da universidade com as
novas necessidades que o mundo globalizado está nos apresentando.

John Douglass – O essencial é uma cultura de autoaperfeiçoamento e gestão capaz,


juntamente com amplos recursos financeiros. Mas há muitos outros fatores para criar
instituições de melhor qualidade, incluindo a liberdade acadêmica e, eu diria, sociedades
que sejam democráticas e abertas em sua natureza. Sou otimista em relação às
universidades no Brasil, e à força crescente de instituições como Unicamp e USP.

A liberdade acadêmica e um senso de necessidade de qualidade na abordagem da maior


parte dos campos do conhecimento são fortes aqui. A estabilidade política e o empenho
de recursos, como no estado de São paulo para suas universidades, são fundamentais.
Essas condições são corretas, penso eu, para as universidades brasileiras ganharem
reconhecimento internacional e, mais importante, para o desenvolvimento econômico e a
sua respectiva promoção da mobilidade socioeconômica.

De acordo com o Global Survey Report on Internationalization of Higher Education,


divulgado pela International Association of Universities (IAU), a América Latina e o
Caribe não são considerados destinos prioritários para o envio de alunos e
professores por instituições de nenhuma parte do mundo – nem mesmo por
instituições latino-americanas e caribenhas. Como o senhor vê esse fato?

Francisco Marmolejo – É um chamado de atenção tanto para as universidades latino-


americanas como para as autoridades educativas. O estudo foi conduzido com
universidades. Ou seja: foram as universidades da América Latina que disseram que sua
primeira prioridade para internacionalização do ponto de vista geográfico era a Europa,
depois a América do Norte e só então a própria América Latina.

Por um lado, parecemos não nos importar muito com a internacionalização dentro da
região; por outro, também é preocupante o fato de a América Latina não ser prioridade
para as demais regiões do mundo. Deveríamos, como região, fazer esforços mais sérios
para promover as universidades latino-americanas e para alinhá-las com o resto do
mundo.

John Douglass – O Brasil está na iminência de estar


Talvez as universidades
numa posição muito melhor mundialmente, e o caráter
brasileiras fossem mais
internacional de suas universidades será um componente
competitivas se os rankings
importante para que isso aconteça. Mas é necessário que
avaliassem departamentos
os legisladores alterem uma infinidade de obstáculos
individualmente, e não as
legais e culturais que tornam a internacionalização
instituições como um todo
extremamente difícil.

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26/07/2017 A internacionalização das universidades vista por três especialistas estrangeiros - Ensino Superior Unicamp
Isso significa haver maior liberdade para ministrar cursos em inglês, políticas de vistos
menos restritivas, e esforços mais evidentes para atrair talentos de todo o mundo – com
opções para eles ficarem e ajudarem a construir essas instituições e contribuírem para a
sociedade brasileira.

É necessária também uma gama de serviços, entre os quais alojamentos para estudantes
e visitantes, e centros para ajudar a atrair e apoiar os visitantes internacionais. Isso está
apenas começando a surgir nas universidades brasileiras e eu espero que se torne algo
muito importante.

O que o Brasil deveria fazer para tornar-se uma liderança regional como a China já
se tornou na região Ásia-Pacífico no que diz respeito à atração de professores e
estudantes?

Ben Wildavsky – Não quero parecer presunçoso porque não conheço muito sobre o
Brasil. Mas, de maneira geral, um país não pode simplesmente declarar que de agora em
diante é um líder regional. ele precisa saber quais são as suas forças e oferecer algo que
as pessoas desejem para chegar a essa posição. Se há muita gente interessada em
estudar engenharia biomédica, um país que já tenha certa competência nessa área pode
melhorar seus programas de pós-graduação, modernizar seus laboratórios, contratar
mais professores e pesquisadores e então começar a recrutar alunos estrangeiros. Isso é
um exemplo. Em outros casos, pode ser que falte apenas ampliar a visibilidade do país
no exterior.

Francisco Marmolejo – Não pretendo ditar receitas ao Brasil, pois meu conhecimento a
respeito do país é relativamente limitado, mas considero que vocês têm ao mesmo tempo
uma enorme oportunidade e uma enorme responsabilidade. O fato de o Brasil ter-se
tornado a power house da américa latina e uma das economias mais importantes do
mundo obrigam-no a refletir seriamente sobre como ampliar o acesso à educação
superior com equidade – há coisas muito interessantes sendo feitas no país – e como
atender às necessidades de internacionalizar o currículo, aumentar o intercâmbio de
professores e alunos e garantir que estes últimos dominem um segundo idioma ao final
de seus estudos universitários. O Brasil tem condições para tornar-se um líder regional –
algumas de suas universidades, como a de campinas, são de alta qualidade e
apresentam produção científica invejável. O que falta é o desejo, a intenção de fazê-lo.

John Douglass – Isso está na minha resposta anterior,


Há 3 milhões de alunos
mas eu gostaria de acrescentar que as abordagens pan-
estudando fora de seus
regionais, como na Europa, e em padrões emergentes na
países de origem, o que
Ásia, dão ao Brasil e a toda América do Sul modelos nos
representa um aumento de
quais se basear. Isso inclui a busca pelo alinhamento de
57% em apenas uma década.
seus requisitos, os acordos sobre intercâmbio de
Em 2025, haverá cerca de 8
estudantes e professores, e talvez até mesmo o
milhões
desenvolvimento eventual de uma zona de pesquisa pan-
latino-americana.

Especialistas brasileiros e estrangeiros costumam apontar a questão da língua


como uma das principais barreiras para a vinda de professores e alunos do exterior
para o Brasil. O senhor concorda com essa opinião?

Ben Wildavsky – O inglês realmente tornou-se a língua do mundo acadêmico. Essa não
é uma questão em aberto. o diretor da Universidade Sciences Po, da França, disse-me
certa vez que uma instituição tem de operar em inglês se quiser ser globalizada. não
tenho a pretensão de dizer como vocês devem agir, mas de fato é difícil conseguir que
um grande número de pessoas aprenda português para lecionar ou estudar no Brasil.
Embora isto não signifique que vocês devam abandonar sua língua nativa, é importante
estimular seus professores a publicar em inglês e garantir que seus alunos tenham um
bom conhecimento de inglês para que possam fazer parte da comunidade internacional
de pesquisa. Fora das fronteiras nacionais, a língua usada é o inglês. Talvez seja o
chinês daqui a 50 anos, mas tenho minhas dúvidas.

Francisco Marmolejo – Os países que mais atraem alunos são aqueles que oferecem
cursos em inglês. Embora não gostemos, isso é uma realidade. O inglês converteu-se na
língua franca do mundo contemporâneo em termos acadêmicos. Creio que o Brasil
deveria oferecer mais cursos universitários em inglês – não digo cursos de inglês, mas
cursos em inglês. Ao mesmo tempo, deveria vincular mais o trabalho de universidades
como a de Campinas ao de instituições parceiras no exterior para que se fortaleçam os
programas internacionais de ensino de português. Isso faria aumentar o interesse dos
estudantes estrangeiros em aprender português e, consequentemente, em vir ao Brasil.

John Douglass – Infelizmente, sim, eu concordo. Os líderes do governo e da


comunidade universitária precisam trabalhar juntos, e olhar para as reformas e os
esforços dos concorrentes globais, para criar um regime de diplomacia diferente. Sei que

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isso pode ser difícil, já que a cultura do Brasil continua fortemente regional e
conservadora. mas acredito que isso deva ser mudado. A questão é com qual rapidez.

Dentre os mais de 200 pesquisadores estrangeiros


Provavelmente ensinamos
que mandaram currículos para a Unicamp entre
coisas que talvez já não
outubro de 2009 e outubro de 2010, apenas dois ou
sejam tão relevantes e não
três eram portugueses e nenhum tinha interesse em
permitimos que o aluno
assuntos muito particulares do Brasil, como música
construa o seu próprio
ou cultura brasileira. A maioria era das áreas
portfólio de competências
biomédica, tecnológica ou das ciências exatas, e
muitos estavam vinculados a instituições de prestígio nos Estados Unidos e na
Europa. Como o senhor vê esses resultados?

Ben Wildavsky – Esses resultados mostram que vocês são capazes de atrair pessoas
de outras partes do mundo. Vocês receberam mais de 200 currículos. Se o inglês fosse
sua principal língua de instrução, talvez recebessem mais de 2 mil. Atrair professores de
fora é uma ideia excelente.

Mas é preciso também procurar bons alunos no exterior, principalmente de pós-


graduação. As universidades dos estados unidos tornaram-se ímãs para estudantes do
mundo inteiro. em muitos departamentos, de 60% a 65% dos alunos de doutorado são
estrangeiros. Isso é muito importante porque ajuda a disseminar o conhecimento. Ao
voltar para seus países de origem, esses alunos continuarão a colaborar com a instituição
onde estudaram.

Na verdade, para ser competitiva no mundo globalizado, uma universidade de pesquisa


precisa recrutar alunos e professores internacionalmente, mas também precisa enviar
alunos para outros países, estimular a participação de seus professores em conferências
no exterior e encorajar a formação de parcerias com instituições estrangeiras. Sozinha,
nenhuma dessas ações é uma bala de prata.

Francisco Marmolejo – O Brasil é o país da moda no


O diretor da Universidade
mundo e o país da esperança na América Latina. meu
Sciences Po, da França,
país, o México, já foi visto por essa perspectiva – hoje não
disse- me certa vez que uma
é mais. a falta de segurança, a vinculação do narcotráfico
instituição tem de operar em
à economia e a altíssima dependência em relação à
inglês se quiser ser
economia norte-americana – muito positiva nos
globalizada. Não tenho a
momentos de boom econômico, mas prejudicial nos
pretensão de dizer como
momentos de crise –, entre outros elementos, levaram o
vocês devem agir, mas de
México a enfrentar desafios complicados nos dias de hoje
fato é difícil conseguir que um
que também afetam as instituições de ensino superior.
grande número de pessoas
aprenda português para O Brasil felizmente não tem esse tipo de problema. O país
lecionar ou estuda está crescendo e sua economia é diversificada. Enfim, há
uma série de aspectos que fazem as estrelas estarem
alinhadas para o Brasil. O país precisa aproveitar esse momento histórico antes que haja
alguma mudança. Tomara que a situação atual perdure, mas é impossível prever o que
vai acontecer.

John Douglass – Isto é, em parte, reflexo do enorme crescimento da ciência e da


engenharia, sentido entre os docentes nestas áreas de maior mobilidade e apoio
financeiro. Talvez também mostre o fato de que o mundo está apenas começando a
entender o aumento da importância e vitalidade cultural do Brasil e da América do Sul em
geral.

Mas existem caminhos para melhorar a atratividade dos professores e alunos para virem
ao Brasil, também no campo das ciências sociais e humanas. Isso exige maior
determinação por parte das universidades brasileiras, para criar um ambiente mais
propício e investir recursos.

e-mail: rwmuniz@unicamp.br
Fone: + 55 19 3521-2599
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