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UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP

INSTITUTO DE CIENCIAS SOCIAIS E COMUNICAÇÃO – ICSC


CURSO DE CIENCIAS ECONÔMICAS

História Econômica Geral

Campinas, SP
2014
1 - O SURGIMENTO DA MODERNA SOCIEDADE ECONÔMICA

1.1 - O Problema Econômico


O homem é um ser social, portanto, ele só pode sobreviver em grupos. Graças aos
grupos, ele pode dividir tarefas, especializar-se em determinado setor e, com isto, conseguir
uma produtividade maior. Trata-se de uma divisão funcional das tarefas, num só esforço por
maior eficiência. Com isso ele vai vencendo a luta pela sua sobrevivência.
Com o passar do tempo, a divisão do trabalho vai resultar num aumento da
produtividade individual.
O homem passando a produzir mais do que o estritamente necessário para
sobreviver. Por exemplo, Ao plantar trigo, soja, entre outros, ele colhe certa quantidade para
consumo, reserva parte para plantar na próxima estação e ainda sobra certa quantidade para
comercializar.
Com isso vamos chamar esta sobra de EXCEDENTE ECONÔMICO.
O Excedente econômico é a quantidade de bens que ultrapassa a quantidade
necessária para a sobrevivência dos trabalhadores que a produziram. Havendo excedente,
pode-se dizer que uma parcela da população pode deixar de trabalhar diretamente na lavoura
desses produtos e dedicar-se a outras atividades, tais como, administração, estudar (pintura,
música, etc.)
Conclui-se então que para que parte da população deixe o campo produzindo os
meios de subsistência é necessário que os que lá ficam produzindo, consigam produzir para
ambos, ou seja, terão de gerar um excedente econômico.
É nessa fase que surgem os PROBLEMAS (econômicos), isso porque precisamos
justificar esta nova situação, ou seja, definir quem vai dedicar-se a produção dos meios de
subsistência e quem vai administrar estudar, entre outras atividades.
Como justificar esta divisão, que não é mais apenas uma divisão funcional, mas uma
divisão apoiada em privilégios.
Exemplo: Alguns trabalham mais duramente do que outras e não usufruem
totalmente dos frutos de seu trabalho, pois parte é transferida para outros grupos.
1.2 - Problema fundamental:
 Quem cria o excedente econômico?
 Quem se apropria do excedente econômico? E finalmente,
 Com que direitos ele se apropria desse excedente econômico?

Com isso fica evidente que uma sociedade com tais características não poderá
sobreviver se não conseguir justificar-se diante de seus membros. Portanto, toda organização
social precisa legitimar-se. É a partir daqui que surge o conceito de Ideologia.
A Ideologia é o conjunto de normas, valores, símbolos, idéias e práticas
sociais que procuram justificar as relações econômicas e sociais existentes no interior
da sociedade. Portanto, é a visão que a sociedade tem de si mesma.
Uma parte importante da IDEOLOGIA é constituída de práticas sociais que, por
assim dizer, penetram no sangue sociedade e se tornaram co-extensivas a ela.
O grupo dominante tem muitos mecanismos de preservação de seus interesses, que
vão desde o domínio do Estado, até de posse de instrumentos menores, mas extremamente
eficazes, tais como: Emissoras de Rádios, TVs, jornais (imprensa) e outros.
A Ideologia é algo elaborado formalmente pelo grupo dominante como se este
estivesse tramando um sistema para subjugar a sociedade.
A ideologia é um fenômeno social espontâneo, e não algo produzido para uma visão
conspiratória do processo histórico. Ela desempenha funções importantes nas sociedades.
 A ideologia mantém a coesão social;
 A ideologia funciona como uma espécie de sistema de dominação.

1
Antes de analisarmos estes dois papéis da ideologia, vamos compará-la, agora, com a
ciência. É preciso dizer que ambas (ideologia e ciência) se apresentam a nós sob a forma
racional, isto é, apoiadas em argumentação lógica. Mas a ciência encaminha-se para a busca
da verdade. Seu universo é o universo das "leis" objetivamente estabelecidas. A ideologia
move-se no universo dos "valores". Ora, os valores, tais como se apresentam nas diversas
sociedades, estão ligados a grupos de interesses. Os valores não são neutros. Cada sociedade
tem um quadro de valores dominantes. O perigo da ideologia é que esta se apresenta com a
roupagem de ciência, mas defende determinados interesses e não a "verdade". Ao lado dos
conjuntos antes apresentados, podemos acrescentar, agora, o conjunto ideologia. Mas
atenção! Este conjunto é de natureza diversa. Você já sabe que ele procura explicar o mundo
e a sociedade, mas está ligado a valores. É um sistema de idéias que tende a transformar-se
num sistema de crenças, segundo a feliz expressão de Jacques Ellul.

Ideologia

Na prática a coisa complica-se, porque os conjuntos se sobrepõem. Em muitos casos


é praticamente impossível separar ciência de ideologia.
Observe o diagrama abaixo

Ciência

Ideologia

Os limites entre ciência e ideologia (bem como entre ciencia e tradição) não são
claros. Como distinguir entre estes dois campos? Tarefa difícil, senão impossível, porque não
existe um lugar "não ideológico" a partir do qual se possa falar cientificamente sobre
ideologia. Todo discurso ou qualquer elaboração mais ou menos sistemática pode estar
contaminada pela ideologia, mas apresenta-se a nós com foros de ciência.
Vamos resumir o que dissemos até agora. A ideologia, para se expressar com eficácia,
tende a aglutinar-se num conjunto de idéias. Estas idéias filtram-se até as últimas camadas da
pirâmide social e, sorrateiramente, passam a governar o comportamento dos grupos que
compõem a sociedade. Embora a ideologia esteja vinculada ao grupo dominante, ela é
internalizada pela maioria dos membros da sociedade (pertençam ou não ao grupo
dominante). A partir daí, os membros desta sociedade passam a acreditar na retidão das
instituições. Apoiado neste sistema de idéias que, agora, se transformou num sistema de

2
crenças, a aceitação da organização social existente torna-se espontânea. Justifica-se o status
quo1.
Por isso mencionamos que uma das funções da ideologia é a coesão social. O que
significa isto? Significa que a ideologia, ao tornar mais ou menos uniforme à visão dos
diversos grupos que compõem a sociedade, mantem-na unida. Com isto diminui a
probabilidade de choques entre grupos que ocupam posições extremamente díspares e evita-
se a ruptura do tecido social. A ideologia é uma espécie de projeto da sociedade. Paul Ricoeur
dizia que a ideologia desempenha para a sociedade o mesmo papel que a motivação
desempenha para a pessoa individual. A pessoa age quando se vê motivada. A sociedade age
quando tem um projeto existencial cujas linhas essenciais são perceptíveis na ideologia.
A segunda função que atribuímos à ideologia é a função de dominação. Esta função
decorre da primeira, porque manter coesa uma sociedade hierarquicamente organizada é
possibilitar a dominação de determinados grupos sobre outros. É evidente que não estamos
falando aqui de hierarquia funcional. Se a organização hierárquica da sociedade fosse apenas
funcional, isto é, se fosse baseada em necessidades objetivas de organização do trabalho, não
seria preciso o recurso à ideologia. A justificativa de tal sistema seria científica. Mas não é
isso O que ocorre. A organização hierárquica das sociedades conhecidas, em grande parte,
baseia-se em privilégios. Alguns grupos se beneficiam com ela, outros não. E tal situação
deve aparecer aos olhos de todos (inclusive dos beneficiados) como normal. O sistema
ideológico procura conseguir isto. E, nesta tarefa, ele substitui, com vantagens, o uso da força
e da violência. Procura dominar pela persuasão2. Tenta falar à razão, embora fale muito mais
à emoção do que à razão. É por isso que toda ideologia tende a transformarem-se em slogans,
símbolos, afirmações simplistas. O simplismo permite que ela alcance as massas e as pessoas
pouco afeitas à análise crítica da realidade. Com isto ela perde em rigor científico, mas ganha
em eficácia. A verdade deforma-se, mas este é o preço que se paga pela eficácia do sistema
ideológico.
A ideologia opõe-se à ciência. Em certo sentido ela é a anticiência. Mas a própria
ciência pode ter função ideológica. Isto ocorre quando ela se torna instrumento de
dominação nas mãos de determinados grupos. Tão é raro que um grupo, para se legitimar
no poder, apele para a ciência. Os tecnocratas são um exemplo claro do que estamos
afirmando.
É evidente que a economia não fica imune à ideologia. A própria existência de escolas
econômicas atesta isto. Até que ponto a economia permanece ciência? Até que ponto ela está
contaminada pelo vírus da ideologia? Até que ponto ela é um simples instrumento de defesa
de grupos privilegiados? Levantam-se estes problemas sem ter a pretensão de resolvê-los
todos.
Até agora falamos em abstrato. Na vida diária, como se manifesta a ideologia? Você
deve ter percebido que ela desempenha papel importante na sociedade. Portanto, ela é
funcional para o sistema que defende. Todas as vezes que sistemas de idéias (ou práticas e
símbolos sociais) são instrumentalizados para defender interesses parciais dentro da
sociedade, eles podem ser chamados legitimamente de sistemas ideológicos. É sua função
dentro da sociedade que caracteriza um sistema de idéias ou um conjunto de práticas sociais
como sendo ou não ideológico. Neste sentido:
• o sistema jurídico pode ser ideológico e freqüentemente o é;
• a religião pode ser ideológica e freqüentemente o é:
• a escola pode ser ideológica e freqüentemente o é;
• os símbolos pátrios (bandeiras, fardas etc.) podem ser ideológicos e freqüentemente
os são.

1status quo = loc (lat) Locução que significa situação inalterada. Var: statu quo.
2Persuasão = sf (lat persuasione) 1 Ato ou efeito de persuadir. 2 Convicção, crença. 3 Polít Método de exercer
ação repressiva, por exemplo, pela ostentação de armamentos perante a outra parte.

3
Evitamos a afirmação dogmática de que tais sistemas são· ideologias. Esta
interpretação afasta-se da interpretação ortodoxa, mas tem uma razão de ser. A afirmação
categórica de que os sistemas antes mencionados são ideologia parece-me um equívoco,
porque confunde os níveis epistemológicos3. Uma coisa é o estatuto teórico dos sistemas
antes mencionados, outra coisa é o papel que cada um deles desempenha no interior da
sociedade. Se eles não estiverem a serviço de uma classe ou de um grupo específico, não
podem ser classificados como ideologia, pelo menos no sentido em que a definimos.
Vamos esclarecer mais um problema. Segundo nossa definição, ideologia é
qualquer estrutura de pensamento ligada ao grupo dominante. Contudo, há sistemas
de idéias com as mesmas características da ideologia, mas não ligados ao grupo dominante.
A esses sistemas ligados aos grupos que contestam a validade das instituições e as relações
sociais e econômicas existentes na sociedade chamaremos utopias, usando a mesma
terminologia de Karl Mannheim. Ideologia e utopia têm o mesmo estatuto teórico. Só
que a ideologia está com o grupo dominante e pretende preservar a sociedade, as utopias
estão com os contestadores e pretendem transformá-la.
Resumindo: se você leu com atenção este capítulo, deve ter uma noção mais clara do
que é ideologia, utopia, ciência e do estatuto teórico destes conceitos, bem como da função
que cada um deles exerce na sociedade. Deve ter percebido que não tem sentido a pergunta,
"qual a ideologia de seu partido?", "qual a ideologia do PMDB?". Um partido político deve
ter (nem sempre o tem) um ideário, um programa. Não pode ter ideologia. Usar o termo
ideologia para designar o programa de um partido é desconhecer a ideologia e qual sua função
na sociedade. É usar o termo de maneira incorreta.
Para terminar, vai aqui uma citação de Joan Robinson4:
"A economia política sempre foi, em parte, veículo da ideologia domi· nante em cada
período. em parte, método de investigação científica. Cabe ao economista distinguir O que é
ideologia do que é ciência."

1.2 - DE BIZÂNCIO AO FEUDALISMO


A decadência do império romano trouxe por decorrência dois pólos políticos opostos
constituídos pelo Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e o Império Romano
do Oriente, ou Império Bizantino. A rápida derrocada do primeiro trouxe como
conseqüência o afrouxamento dos laços comerciais existentes entre as diversas nações, pela
falta de um poder centralizador. Já não existindo a hegemonia militar romana, as fronteiras
do império foram cedendo às rebeliões e às invasões de povos bárbaros oriundos do oriente,
cujo intuito preponderante era mais o de destruir do que dominar. Os governos centralizados
se enfraqueceram, e as cidades e aldeias que sobreviveram fecharam-se em si mesmas, ou
simplesmente desapareceram, pela dispersão de seus habitantes, que se espalharam em
centros fortificados (os castelos) para garantir a sua sobrevivência.
Na primeira fase da Idade Média, as condições sociais presentes no Império
Bizantino eram bastante superiores às do Império do Ocidente. Neste, grandes porções da
Itália e do sul da França já tinham regredido a um ruralismo primitivo, em uma total
decadência da civilização que Roma tinha imposto em seus tempos áureos. Já no Império do

3 Epistemológico = adj (gr epistéme+logo2+ico2) Concernente à epistemologia. Portanto, Epistemologia, = sf


(gr epistéme+logo2+ia1) Filos Teoria ou ciência da origem, natureza e limites do conhecimento.
4 ROBINSON. Joan. Filosofia econômica. Rio de Janeiro. Zahar. 1978. Joan Robinson foi uma grande

economista inglesa, com grande lucidez para certos pontos relativos a escolas econômicas e para o problema
da ideologia.

4
Oriente, mantinha-se ainda o caráter urbano e suntuoso, com uma classe rica que vivia no
luxo e no conforto.
Constantinopla, Tarso, Edessa e Tessalônica eram cidades populosas, com um
comércio ainda florescente. Só em Constantinopla viviam cerca de um milhão de pessoas, e
não havia sinais de decadência cultural ou econômica. Mercadores, banqueiros, industriais e
ricos proprietários de terras absorviam-se em uma atividade comercial intensa, consumindo
artigos de luxo, ricas vestimentas de lã e de seda, tapeçarias, artefatos de vidro e porcelana.
O esplendor das artes do Império Bizantino foi tal que até os dias de hoje ainda surpreendem
os especialistas. A sua arte do mosaico, por exemplo, influenciou a arte dos vitrais, usados
extensamente nas catedrais góticas.
Apesar da miséria (comum para a época) das classes inferiores, estes ainda assim
estavam em melhores condições econômicas do que a dos cidadãos das partes ocidentais do
Império. Havia uma estabilidade política e econômica, que permitia uma prosperidade
crescente. Foi somente com a ascensão do império sarraceno que teve início a decadência do
Império Bizantino.

1.2.1 – As Invasões Bárbaras


O Império do Ocidente, a invasão dos bárbaros ocorrida entre os anos de 395 d.C. e
571 d.C., deixou terras devastadas e povos trucidados por onde eles passaram. Em sua esteira
ficavam apenas ruínas de povoados, de cidades e de terras de cultivo, numa ânsia
inconcebível de destruição. Os bárbaros invadiram a Trácia, a Panônia, as Gálias, a África, a
Itália, e finalmente a própria cidade de Roma, jogando abaixo séculos de refinamento cultural
e de civilização. Se for possível situar no tempo o início das trevas que se abateram sobre o
ocidente, dando início à Idade Média, é exatamente no período destas invasões. O ano de
410 d.C. representa aproximadamente este limite entre idades, dando fim à idade antiga e
iniciando um período que só veio a ter término por volta do ano de 1300.
Até a época das primeiras cruzadas pouca coisa tinha mudado após mais de
quinhentos anos, no continente europeu. Com o término dos impérios romanos do Ocidente
e depois do Oriente, um marasmo se instalou por todo lado e a evolução histórica e cultural
dos povos europeus como que estagnou. O feudalismo, regime estático por excelência,
tornou-se dominante. A Idade Média estava começando.
Foi com o Papa Urbano II e com Pedro, o Ermitão, que conclamaram à libertação
de Jerusalém e do Santo Sepulcro do jugo muçulmano, que tiveram início as primeiras
cruzadas. Estas foram movimentos militares de inspiração religiosa que lançaram as bases
para uma mudança profunda nas estruturas sociais, políticas e mesmo religiosas até então
vigentes. Seguindo o caminho aberto pelas cruzadas, o comércio intensificou-se por toda as
rotas asiáticas, com o que as cidades portuárias de Pizza, Veneza e Gênova alcançaram grande
poder marítimo. O comércio intensificou-se a tal ponto que as instituições feudais
mostraram-se incapazes de atender a demanda dos territórios conquistados; esta situação,
por fim, conduziu à criação de centros urbanos por todo lado, sementes das futuras cidades
européias, bem como contribuiu decisivamente para a derrocada do feudalismo e para a
ascensão futura de uma nova classe, a burguesia.
O contato dos cruzados com a civilização árabe, bem mais refinada e culta nesta
época, levou por outro lado a mútuos intercâmbios culturais que mais aproveitaram ao
Ocidente. Os árabes tinham traduzido os autores gregos clássicos, os quais chegaram, via as
traduções muçulmanas, às mãos de vários estudiosos ocidentais. Os sistemas de filosofia, a
medicina, a matemática, a geometria, a literatura, a arquitetura, formaram parte deste legado
cultural.
Com o surgimento das cidades e o remIClO das trocas COmerCIaiS, começaram a
surgir também associações de trabalhadores artífices. O comércio se dava através de vias de

5
transporte e também de feiras, entre as quais as mais célebres foram as de Flandres5 e de
Champagne6. O contato cultural proporcionado pelas cruzadas permitiu o desenvolvimento
de novas cidades-Estado, tais como Veneza, Florença, Gênova e Pizza, com a criação de
grandes corporações de comércio. A especialização em ofícios e a divisão do trabalho se
intensificaram, expandindo o mercado; a manutenção das cidades passou a depender dos
produtos agrícolas, aumentando a interação urbano-rural. Novas profissões surgiram, e as
trocas comerciais entre os centros urbanos e as localidades rurais produtivas se consolidaram.
A partir do ano 800, já se podia notar, no Ocidente, um lento despertar da letargia da
época medieval. O contato com as civilizações bizantinas e sarracena, o embate com os
nórdicos, foram algumas das causas deste ressurgimento. Nos quinhentos ou seiscentos anos
seguintes (principalmente a partir do século XII) houve um surto de progresso, e o aumento
do comércio trouxe prosperidade e estimulou as artes, a ciência e a cultura.

Basicamente, o feudalismo foi uma estrutura descentralizada da sociedade (ou seja,


com um fraco ou inexistente poder central). O poder era dividido entre a nobreza, através
de um sistema de suserania7 e de vassalagem8. A partir do século VII, os reis merovíngios
costumavam recompensar os condes e duques com benefícios e com terras (que se tornavam
condados - no primeiro caso - ou ducados - no segundo caso). Posteriormente, os reis
carolíngios recompensavam os nobres locais quando estes forneciam tropas de soldados para
lutarem contra os mouros. Quem possuía o feudo tinha o direito de propriedade, e por
conseqüência o direito de governar. Entre o suserano e os seus vassalos havia uma relação
contratual, que envolvia obrigações recíprocas. Os vassalos pagavam tributos aos seus
senhores, que se obrigavam a proporcionar-lhes proteção de assistência econômica.
Aos poucos, aumentou a dependência do governo central com relação às diversas
suseranias. Como a maioria adquiria imunidade (isenção de pagamento de impostos), a
autoridade central foi diminuindo cada vez mais. Apenas nominalmente, o suserano se
submetia à autoridade do rei. Além disso, as constantes invasões de nórdicos, turcos e
muçulmanos levavam a população a se voltar para os senhores feudais em busca de proteção.
Aos poucos, este sistema evoluiu para um tipo de sociedade estratificada; no segundo período
da Idade Média ("Alta Idade Média"), o feudalismo (que já se tornara hereditário) chegou a
constituir um tipo legalmente reconhecido de estrutura social, até mesmo encarado como
um sistema ideal. A lei era produto do costume ou da vontade de Deus.
No regime feudal, a principal unidade econômica era a chamada "herdade senhorial",
que era geralmente o domínio de um cavaleiro. Alguns chegavam a possuir várias herdades
(às vezes, centenas ou milhares), em que o tamanho médio de cada uma podia chegar a 150
hectares. Em cada uma havia uma ou mais aldeias, e as terras cultivadas pelos camponeses
se dividiam em três partes: o terreno de plantio da primavera, o terreno de plantio do outono
e o "pousio". Todos eram revezados a cada ano (era o sistema chamado de "três campos").

LEITURA COMPLEMENTAR: A Economia e a Filosofia Escolástica9

5
Região da Europa localizada ao longo do Mar do Norte. Atualmente, está dividida entre a
França, Bélgica e Holanda
6
Região do nordeste da França; no período medieval, foi um importante condado, tendo
atingido o seu apogeu no século XIII, graças às feiras que realizava.
7 Suserania - su.se.ra.ni.a - sf (suserano+ia1) 1 Qualidade de suserano. 2 Poder de suserano. 3 Território onde o
suserano domina.
8 Vassalo - vas.sa.lo - sm (lat vassallu) Indivíduo dependente de um senhor feudal, ao qual estava ligado por

juramento de fé e submissão; súdito, feudatário. adj 1 Diz-se do príncipe tributário de outro. 2 Que depende de
outrem. 3 Tributário, subordinado. 4 Que paga tributo a alguém.
9 Escolástica - es.co.lás.ti.ca - sf (lat scholastica) Sistema teológico-filosófico surgido nas escolas da Idade Média

e caracterizado pela coordenação entre Teologia e Filosofia; concordância do conhecimento natural com o

6
As idéias econômicas predominantes neste período tinham forte influência da Igreja
Católica, através de seus pensadores (teólogos, canonistas e filósofos moralistas), que
procuraram se alicerçar nos escritos sagrados e nas obras aristotélicas, principalmente.
Aristóteles é o pensador de maior influência entre os medievos, e sua noção de "equilíbrio"
foi a base para a concepção de justiça nas trocas (preço justo e justo salário), e para o princípio
de moderação e moralidade como essência do fenômeno econômico.
A Igreja Católica admitia a propriedade individual, mas regrada por um princípio
social restritivo, que a legitima. O proprietário não deve abusar do seu direito de propriedade
em detrimento da coletividade. O direito de propriedade é reconhecido como propiciador
de ordem e paz social, além de aumentar o rendimento da produção (essencialmente
agrícola). Reconhece, entretanto, que os benefícios da posse da terra não devem ficar restritos
a uma minoria privilegiada, porque isto traz desigualdade de condições e injustiça social.
Entretanto, tal reconhecimento não foi capaz de evitar a prevalência das condições que
exatamente se procurava evitar: a concentração da posse da terra, com a conseqüente
ascensão social daqueles que a detinham. a feudalismo, como veremos, foi exatamente isso:
a posse privilegiada da terra pela nobreza, que tinha poder total sobre os camponeses que a
ocupavam e a faziam produzir.
O princípio moral regulador, a proibição da usura (empréstimo a juros) bem como o
princípio da troca justa era basicamente a base do sistema econômico deste período. Os
artífices, organizados em corporações, tinham fixado o seu salário como uma retribuição
máxima regulamentada oficialmente (não se fixava um valor mínimo, como se procede na
atualidade). O lucro resultaria do equilíbrio entre o trabalho empregado (com a perícia
envolvida) e a utilidade do serviço. Condenava-se o lucro imoderado, por ser contrário á
"justiça nas trocas".
Os chamados Padres da Igreja (Tomás de Aquino; Boaventura, entre outros),
acompanhando o raciocínio aristotélico, distinguiam entre bens fungíveis e não fungíveis. O
dinheiro seria um bem fungível, que desaparece com o consumo. O bem não fungível, por
não desaparecer com o uso, pode ser emprestado ou locado por contrato. a seu detentor,
por se privar do uso e gozo da coisa, pode exigir uma compensação. Mas no empréstimo de
coisa fungível, o cedente entrega simultaneamente o uso e a propriedade da coisa. A justiça
e o justo preço se realizariam pela simples devolução do objeto, sem mais nada (ou seja, sem
juros sobre o empréstimo). Desse modo, o dinheiro não pode ser objeto de empréstimo a
juros. Tal era a concepção inicial da Igreja.
Além da preocupação com o "preço justo", S. Tomás considerava também a
possibilidade de um vendedor vender um produto defeituoso. Ele afirmava que caso isto
ocorresse, não deveria ser um ato intencional, e que, se descoberto o defeito, o vendedor
deveria compensar o comprador.
Esta concepção veio a se modificar gradativamente, quando novas condições foram
surgindo. Por exemplo, começou-se a se admitir a possibilidade de recebimento de juros
pelos empréstimos, nos seguintes casos: se o emprestador sofria danos resultantes do
empréstimo; se havia riscos, ou se havia renúncia a um possível lucro imediato. Razões
religiosas levaram a liberar a usura para os judeus e para os lombardos10, que se admitia não
estarem submetidos às regras católicas.
Com relação às idéias monetárias, havia grandes debates a respeito do valor e da
circulação da moeda, bem como da conveniência de alterar ou não o seu valor. Nicolau
Oresme, bispo de Lisieux e conselheiro do Rei Carlos V, e Buridan, reitor da Universidade
de Paris, foram teóricos que estudaram o assunto. Oresme criticou as mutações monetárias;
para ele, o rei não tem legitimidade para fazer estas mutações de valor. O valor da moeda é

revelado; argumentação silogística e reconhecimento da autoridade de Aristóteles e dos padres da Igreja.


Manteve-se em alguns estabelecimentos até os fins do século XVIII. Var: escolasticismo.
10 Povo germânico que veio a se fixar na Panônia (atual Hungria).

7
garantido pela autoridade do Rei, que ordena sua cunhagem, e que teria assim, autoridade
para mudar o seu valor. O cunho indicava a qualidade da peça e o seu peso. Entrando,
entretanto, em circulação, o seu valor passa a depender da comunidade onde ela circula que
decide pela conveniência de lhe alterar o valor11.

Oresme observou que em sua época praticavam-se cinco diferentes formas de


mutações monetárias:
1) mudanças na efígie, o que acontecia normalmente devido à mudança de
governantes;
2) mudança da proporção, ou mudança do valor entre o metal nobre (ouro ou prata)
e o valor da moeda;
3) mudança nominal, ou modificação dos preços em moeda corrente (havia uma
moeda real, cujas subdivisões em moeda corrente podiam variar);
4) mudança oficial do peso da moeda (as fraudes se davam, pela diminuição - ou
cerceamento - do peso da moeda, limando suas beiradas circulares);
5) mudança de sua substância: neste caso, mudava-se a sua liga, substituindo um
metal por outro.
Como já dissemos a moeda má expulsa a moeda boa do mercado, e se acontecia de
haver muitas mutações, quando a situação econômica se deteriorava, a tentativa de restaurar
a ordem econômica pela introdução de uma nova moeda esbarrava neste obstáculo: a moeda
boa, capaz de trazer estabilidade monetária, era fundida, ou simplesmente tomava rumo para
fora do país.

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11 18 Algumas classes sociais mais elevadas, tais como juizes e eclesiásticos, que costumavam ter uma renda
fixa, ficavam prejudicados por estas mutações de valor na moeda. O povo também via-se despojado, quando
era obrigado a receber moedas de valor nominal muito baixo, em troca de mercadorias de muito maior valor.
Foi o que ocorreu, por exemplo, graças a um edito real de Jaime 11, que forçou O recebimento, sob pena de
morte, de moedas de cobre cujo valor aposto era seis vezes maior do que o seu valor intrínseco.

8
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9
2 - Feudalismo
A palavra Feudalismo é derivada de feudo12 - O feudalismo foi o sistema sócio-econômico
dominante na era medieval. Seu período histórico é:
1 – Século - III a VIII - formação do Feudalismo, onde teve início com as primeiras invasões
bárbaras;
2 – Século - VIII a XI – foi seu apogeu máximo, e no;
3 – Século - XI ao XV – foi sua decadência.

O feudalismo teve seu início entre o século V, após a queda do Império Romano, e daí então
começa aparecer pequenos reinos, porém esses reinos não foram capazes de solucionar os
problemas de segurança de sua população, e esta começa a fazer um êxodo urbano, pois
estava indefesa contra os ataques dos Germanos13 procurando assim se esconder desses
guerreiros “bárbaros’’.
O Feudalismo tinha uma sociedade formada pela aristocracia proprietária de terras, que era
composta pelo alto clero e pela nobreza, bem como pela massa de camponeses, que eram na
verdade os servos e vilões não proprietários.
Nessa época o clero ocupava um papel relevante na sociedade feudal. Os sacerdotes
destacavam-se como servidores de Deus e detentores da cultura, além de administradores
das grandes propriedades (da Igreja), estes também eram conhecidos por sua marcante ação
assistenciais aos desvalidos.
A Igreja procurava justificar o modo de agir da nobreza, dizendo que Deus tinha dado
determinadas tarefas a cada homem e que, portanto, uns deviam rezar pela salvação de todos
(clero), outros deviam lutar (ou colocar os soldados do rei) para proteger o seu povo (a
nobreza) e os outros cidadãos deviam alimentar com seu trabalho, aqueles que oravam e
guerreavam (os camponeses).
O sistema feudal se origina tanto de instituições romanas quanto da germânica.
A economia ou unidade econômica de produção era o feudo, que se dividia em três partes
completamente distintas, que são, a saber: a propriedade privada do senhor, chamada manso
senhoril, no interior da qual se erigia um castelo fortificado, o manso servil, que correspondia
à porção de terra arrendada aos camponeses em lotes denominados tenências, e ainda o
manso comunal, constituído por terras coletivas, pastos e bosques, usados tanto pelo senhor
quanto pelos trabalhadores camponeses presos à terra – os servos. Diante da crise econômica
e das invasões germânicas, muitos dos grandes senhores romanos abandonaram as cidades e
foram morar nas suas propriedades no campo. Esses centros rurais, conhecidos por vilas
romanas, deram origem aos feudos medievais.
Uma grande maioria de romanos, os menos ricos, passaram a buscar proteção e trabalho nas
terras desses grandes senhores. Para poderem utilizar as terras, no entanto, eles eram
obrigados a entregar ao proprietário parte do que produziam, estava instituído assim, o
colonato14. Com isso o sistema escravista de produção no Império Romano foi sendo

12 Feudo - feu.do - sm (frâncico *fêhu ôd, via lat med feudu) 1 Terra nobre ou propriedade rústica concedida pelo
seu senhor a um vassalo com a obrigação de fé, homenagem, prestação de certos serviços e pagamento do foro
ou tributo; bacálio. 2 Posse exclusiva. 3 Vassalagem feudal. 4 Tributo feudal.
13 Germano - ger.ma.no - adj (lat Germanu) Relativo aos germanos, antigos habitantes da Alemanha. sm Indivíduo

desse povo. Ou numa melhor definição: Os germanos ou povos germânicos são um grupo histórico de
povos falantes de línguas indo-europeias, originários da Europa Setentrional e identificados pelo uso comum
das línguas germânicas, que se diversificaram a partir do proto-germânico ou germânico comum durante a
Idade do Ferro pré-romana. Os povos falantes de línguas germânicas da Idade do ferro romana e do período
de migrações dos povos bárbaros revelam uma cultura material uniforme e crenças religiosas comuns, embora
pesquisas recentes contestem a existência de um grupo étnico germânico distinto.
14 Colonato - co.lo.na.to -sm (colono+ato2) 1 Estado de colono. 2 Instituição de colonos.

10
substituído pelo sistema servil de produção, que iria predominar na Europa feudal. Com isso
nascia, então, o regime de servidão, onde o trabalhador rural é o servo do grande proprietário.
No sistema feudal, o rei dava terras a grandes senhores (nobres, parentes), estes, por sua vez,
davam essas terras a outros senhores menos poderosos chamados cavaleiros, que, em troca
lutavam a seu favor. Quem concedia a terra era um suserano15, e quem a recebia era um
vassalo. As relações entre o suserano e o vassalo eram de obrigações mútuas, estabelecidas
através de um juramento de fidelidade. Quando um vassalo era investido na posse do feudo
pelo suserano, jurava prestar-lhe auxílio militar. O suserano, por sua vez, se obrigava a dar
proteção jurídica e militar ao vassalo. O feudo (terra) era o domínio de um senhor feudal.
Não se tem conhecimento exato do tamanho médio desses feudos.

2.1 - As Principais Características Econômicas e Sociais do Feudalismo


É importante saber que durante a alta idade média (séculos V ao XI), devido, principalmente
a instabilidade política, que era fruto das invasões bárbaras, a economia feudal caracterizou-
se pela auto-suficiência. Isto quer dizer que o feudo buscava produzir tudo que era necessário
para a manutenção da comunidade, significando dizer que não havia excedente de produção,
portanto, a quase inexistência de comércio externo entre feudos.
Assim, as principais atividades econômicas eram a produção agrícola e a criação de animais,
portanto, estavam ligadas à manutenção das pessoas no feudo.
Entretanto no período chamado de Baixa Idade Média notou-se um rompimento dessa
posição de subsistência que apresentava o feudalismo. Foi devido ao fim das invasões
bárbaras e o surgimento de novas técnicas agrícolas foi possível a comercialização do
excedente de produção.
Com o aumento do comércio houve também o desenvolvimento das cidades medievais, que
nessa época ainda tinham um núcleo fortificado com muralhas, chamado burgo16.
Com o crescimento da população, o burgo foi alargando seus limites para além das muralhas.
Os comerciantes e artesãos que viviam em torno dos burgos eram chamados de burgueses.
Aos poucos, o progresso do comércio e das cidades foi tornando a burguesia mais rica e
poderosa, passando a disputar interesses com a nobreza feudal. Além disso, a expansão do
comércio também influenciou na mentalidade da população camponesa, contribuindo para
desorganizar o feudalismo.
Os servos cansados da exploração feudal, ouvindo entusiasmados as notícias da agitação
comercial das cidades. Uma grande parcela deles migrava para as cidades em busca de
melhores condições de vida. Com isso as cidades tornaram-se locais seguros para aqueles que
desejavam romper com a rigidez da sociedade feudal.
Os servos que não migraram para as cidades organizaram no campo, diversas revoltas contra
a opressão dos senhores. Em muitos casos, conseguiram aliviar o peso de algumas
obrigações, como a talha17 e a corvéia18. Isso foi forçando a modificação das antigas relações
servis (juramento de fidelidade). Por exemplo, começaram a surgir os contratos de
arrendamento da terra entre camponeses e proprietários, também surgiram os contratos de
pagamentos de salários para o trabalho dos camponeses.

15 Suserano - su.se.ra.no - adj (fr suzerain) 1 Que era senhor de um feudo de que outros dependiam. 2 Relativo
aos soberanos a quem outros Estados, aparentemente autônomos, rendiam vassalagem. 3 Relativo à suserania.
sm Senhor dominial, na organização medieval do feudalismo; senhor que possuía um feudo de que dependiam
outros feudos.
16 Burgo - bur.go - sm (baixo-lat burgu, de origem germânica) 1 Povoação de certa importância, menor que cidade.

2 Arrabalde de cidade ou vila. 3 Aldeia. 4 Casa nobre; paço. 5 Mosteiro.


17 Talha – ta-lha - ant Espécie de tributo ou derrama (em geral era dar a metade de sua produção).
18 Corvéia - cor.véi.a - sf (fr corvée) 1 Trabalho gratuito que o camponês devia a seu amo ou ao Estado. 2 por ext

Tarefa fatigante

11
Lentamente foi surgimento rotas de comércio por toda a Europa, merecendo destaque as
cidades mais ricas, as rotas do sul que eram organizadas pelas cidades italianas de Gênova e
Veneza e as rotas do norte que se desenvolviam na região de Flandres (atualmente Bélgica)
Com o rápido crescimento do comércio e do artesanato nos burgos, a concorrência entre
mercadores e artesãos aumentou bastante. Para regulamentar e proteger as diversas
atividades surgiu as chamadas Corporações. Cada uma dessas corporações reunia os
membros de uma atividade, regulando-lhes a quantidade e a qualidade dos produtos, o regime
de trabalho e o preço final. Procurava assim eliminar a concorrência desleal, assegurar
trabalho para todas as oficinas de uma mesma cidade e impedindo que produtos similares de
outras regiões entrassem no mercado local (Potecionismo). Em cada oficina havia apenas
três categorias de artesãos: Mestres, Oficiais ou Companheiros e Aprendizes. Se observarmos
bem, veremos que em breve os artesãos foram transformando-se em industriais (pois, o
serviço de um foi sendo distribuídos para várias pessoas)

2.2 - A Sociedade Feudal


A sociedade medieval era dividida em estamentos19. Os três principais grupos eram: nobreza,
clero e servos.

Logicamente que havia outros grupos sociais, como já mencionamos anteriormente, mas
estes em pequeno número, os comerciantes, na alta idade média, mas foi somente na baixa
idade média que surgiu a burguesia, aquela que rompeu com a característica da sociedade
apresentada acima.
A sociedade medieval apresentava ausência de ascensão social e quase inexistia mobilidade
social. Como o clero e a nobreza comandavam a sociedade, era comum o clero criar
justificativas religiosas para que os servos não contestassem a sociedade. Era uma sociedade
estamental (modo de estar).
Na sociedade feudal cada grupo social detinha uma função. O clero cumpria a função da
salvação da alma de todos, e a nobreza deveria proteger a todos, entretanto os servos
deveriam trabalhar para sustentar a todos. Assim se justificava a exploração do servo e a
necessidade dele seguir os desígnios da Igreja.
O camponês é servil, a relação de trabalho é servil. Era comum o servo, para obter as terras
dentro do feudo do senhor feudal ou nobre, jurar fidelidade a esse senhor. Essa cerimônia
era baseada na relação de suserania e vassalagem realizada entre suserano e vassalo. Ao jurar
fidelidade um ao outro, o senhor se comprometia a proteger o servo. Porém, o servo deveria

19 Estamento - es.ta.men.to - sm (cast estamento) 1 Modo de estar. 2 Congresso

12
dar em troca um conjunto de obrigações que passaria para a História como obrigações servis.
A terra é o maior símbolo de riqueza e poder;
Relações sociais - verticais ou horizontais:
 relações sociais de servidão entre o Senhor das terras e o Camponês (servo)- não
possuidor de terras- o servo deve obrigações ao senhor feudal. É uma relação vertical;
 relações jurídico-políticas de Vassalagem: é a relação entre dois nobres. É uma relação
horizontal. Os dois senhores feudais juram fidelidade e trocam benefícios e homenagens
recíprocas;
Pirâmide social "de baixo p/ cima": Laboratores (servos), Belatores (Nobreza), Oratores
(Clero)
Suserano: nobre que doa a terra;
Vassalo: nobre que recebe a terra para nela trabalhar;
Investidura: é um ato solene que através do qual o nobre feudal torna-se suserano ou
vassalo.

2.3 - As Obrigações do Servo a seu Senhor


Cada feudo compreendia uma ou mais aldeias, as terras cultivadas pelos camponeses, a
floresta e as pastagens comuns, a terra pertencente à igreja paroquial e a casa senhorial, que
ficava melhor cultivável. A base do sistema feudal eram as relações servis de produção. Os
servos viviam em extrema miséria, pois, além de estarem presos à terra por força de lei,
estavam presos aos senhores, a quem deviam obrigações como:
 a talha
 a corvéia
 a banalidades
A talha era a obrigação de o servo dar, a seu senhor, uma parte do que produzia. Essa parte,
em geral, correspondia à metade.
A corvéia era a obrigação que o servo tinha de trabalhar de graça alguns dias por semana no
manso senhorial, ou seja, no cultivo das terras reservadas ao senhor.
As banalidades eram os pagamentos que os servos faziam aos senhores pelo uso da
destilaria, do forno, do moinho, do celeiro etc.
Além, disso, uma parte da sua produção era destinada à Igreja. Tudo isso levava a um
baixíssimo índice de produtividade, pois, além de as técnicas serem rudimentares, os servos
não tinham a menor motivação para desenvolvê-las porque sabiam que, quanto mais
produzissem, mais os senhores lhes sugariam.

13
Típico feudo

O fator que mais contribuiu para o declínio do sistema feudal foi o ressurgimento das cidades
e do comércio. Com o ressurgimento das cidades, os camponeses passaram a vender mais
produtos e, em troca, conseguir mais dinheiro. Com o dinheiro alguns puderam comprar a
liberdade. Outros simplesmente fugiram para as cidades em busca de melhores condições de
vida.

2,4 - As Características Políticas do Feudalismo


Poder Político descentralizado nas mãos do Rei e centralizado nas mãos do senhor Feudal >
Característica Política;
Trabalho Servil: os servos trabalhavam em troca de proteção;
Estado monárquico feudal (base - relação de subsistência e vassalagem entre a nobreza e o
Rei);
Caráter Ideológico;
Igreja Católica (formadora de idéias).

O que dizer da Igreja Católica e o Feudalismo


Um dos motivos da igreja Católica, ter sido tão poderosa nesta época, era devido ao grande número
de adeptos, além de ser dona de muitos feudos, seus bens vinha a maioria das vezes por doações
deixadas por nobres em seus testamentos. A nobreza e a cúpula da igreja pertenciam a mesma classe,
a dos senhores feudais.
O domínio da igreja não era só na vida religiosa das pessoas, mas também na cultural, os clérigos
faziam parte dos poucos que sabiam ler, por causa disso tudo o que se dizia ou pensava devia ter a
permissão da igreja. Caso contrário, a pessoa era considerada um herege, inimigo da fé cristã, quem
fosse condenado com tal, tinha punições pesadas entre ela: a fogueira e a masmorra20.

Masmorra - mas.mor.ra - sf (ár maTamûrâ) 1 Celeiro subterrâneo, que servia também de prisão entre os
20

mouros. 2 Cárcere subterrâneo. 3 Lugar isolado, sombrio e triste.

14
A igreja tinha um papel político de importância, como ela andava de mãos dadas com os senhores
feudais, ela podia difundir a idéia de conformidade da sua situação, principalmente em relação aos
servos, e deste modo tentar controlar os camponeses revoltosos, logo, muitas revoltas camponesas
foram consideradas heresias.

2,5 - O Modo de Produção no Período Feudal


Campos abertos: terras de uso comum. Nelas os servos podiam recolher madeira e soltar
os animais. Nesses campos, que compreendiam bosques e pastos, havia uma posse coletiva
da terra.
Reserva senhorial: terras que pertenciam exclusivamente ao senhor feudal. Tudo o que
fosse produzido na reserva senhorial era de sua propriedade privada.
Manso servil ou tenência: terras utilizadas pelos servos, das quais eles retiravam seu próprio
sustento e recursos para cumprir as obrigações feudais.

2.6 - A Relação de Trabalho dos servos no Feudalismo


Todas elas foram para legitimar as obrigações servis.
1 - Corvéia: trabalhos gratuitos e obrigatórios realizados pelos servos durante alguns dias na
semana nas terras do manso senhoril;
2 - Talha: taxa paga pelo servo ao senhor feudal que consistia em metade da produção obtida
no manso servil;
3 - Banalidade: taxa paga pelo servo pelo uso de determinadas localidades do feudo;
4 - Capitação: taxa que o servo pagava ao senhor feudal por cada membro de sua família
dentro do feudo;
5 - Dízimo: taxa paga à Igreja Católica pelo fato do servo respeitar a Igreja e ainda “comprar
um terreno no céu”;
6 - Taxa de casamento: era paga pelo servo ao senhor feudal, quando aquele fosse se casar
com uma mulher pertencente a outro feudo;
7 - Taxa de nascimento: taxa paga pelo servo, quando o seu filho nascesse;
8 - Taxa de justiça: é a taxa que o servo pagava ao senhor feudal para que se fizesse justiça
dentro do feudo;
9 - Taxa da mão-morta: taxa que o servo pagava ao senhor feudal para ocupar heranças.
Haviam outras taxas que variavam de região para região. Assim, o servo vivia uma grande
exploração que permitia o sustento do restante da população.

2.7 - O Poder Ideológico e Coercitivo21 da Igreja


A Igreja tinha grande poder ideológico e coercitivo sobre as pessoas da época. Até hoje a
Igreja possui grande influência cultural.

2.8 - As Principais causas da decadência do feudalismo


Com o crescimento da população, verificado entre os séculos XI a XIV, que foi realmente
muito grande. Os nobres aumentaram em número e tornaram-se mais exigentes com relação
aos seus hábitos de consumo, com isso determinava a necessidade de aumentar suas rendas
e para consegui-las, aumentou-se enormemente o grau de exploração da massa camponesa.
Esta grande exploração produziu protestos dos servos, consubstanciados em numerosas
revoltas e fugas para as cidades. A repressão a esses movimentos foi enorme, mas a nobreza
e o alto clero tiveram razões para temer por sua sobrevivência.

21Coercitivo - co.er.ci.ti.vo - adj (lat coercitivu) V coercivo, portanto, coercivo - co.er.ci.vo - adj (coerção+ivo) 1 Capaz
de exercer coerção; que reage; que reprime. 2 Dir Que impõe pena.

15
Durante o século XIII, ocorrera paralelamente, importantes alterações do quadro natural,
que provocaram sérias conseqüências, uma expansão das áreas agrícolas, devido ao
aproveitamento das áreas de pastagens e à derrubada de florestas, esse desmatamento
provocou alterações climáticas e chuvas torrenciais e contínuas, enquanto o aproveitamento
da área de pastagens levou a uma diminuição do adubo animal, o que se refletirá na baixa
produtividade agrícola. Com as péssimas colheitas que se verificaram, ocorreu uma alta de
preços dos produtos agrícolas. Os europeus passaram a conviver com a fome.
Dificuldades econômicas de toda ordem assolavam a Europa, que passou a conviver com
outro problema: o esgotamento das fontes de minérios preciosos, necessários para a
cunhagem de moedas, levando os reis a constantes desvalorizações da moeda. Isso só fazia
agravar a crise.
No plano social, ao lado dos problemas já levantados, importa verificar o crescimento de um
novo grupo: a burguesia comercial, residente em cidades que tendiam para uma expansão
cada vez maior, pois passaram a atrair os camponeses e os elementos “marginais” da
sociedade feudal.
Politicamente, a crise se traduz pelo fortalecimento da autoridade real, considerado
necessário pela nobreza, temerosa do alcance das revoltas camponesas. A unificação política,
ou surgimento dos Estados Nacionais, aparece desta forma, como uma solução política para
a nobreza manter sua dominação.
Finalmente, a crise se manifesta também no plano espiritual—religioso. Tantas desgraças
afetaram profundamente as mentes dos homens europeus, traduzindo-se em novas
necessidades espirituais (uma nova concepção do homem e do mundo) e religiosas (a igreja
Católica não conseguia atingir tão facilmente os fiéis, necessitados de uma teologia mais
dinâmica).
Esta crise é o ponto de partida para se compreender o processo de transição do Feudalismo
ao Capitalismo. Para melhor compreendê-la, selecionamos alguns documentos que
permitirão um entendimento das questões provocadas pela Peste Negra22, no que se refere à
demografia e às modificações na mentalidade da sociedade européia
A palavra feudo significa propriedade. O sistema feudal era um sistema social fechado,
fundamentado na propriedade da terra.
Os senhores dos coutos23 (propriedades da Igreja) e das honras (propriedades da Nobreza)
exerciam autoridade absoluta e só prestavam obediência ao rei.

Revisão geral para leitura (tirando dúvidas)

As Principais Características do Feudalismo


Economia de consumo, trocas naturais, sociedade estática e poder político descentralizado.
Fatores que contribuíram para a formação do Feudalismo
1 - Estruturais: Instituições econômicas, sociais, políticas e culturais dos romanos (Império
Romano do Ocidente) e dos povos germânicos que se fixaram dentro do Império a partir do
século V.

22 Peste Negra - História da peste negra na Idade Média, peste bubônica, causas, sintomas,
transmissão pela pulga, condições de higiene na Idade Média, as mortes, revoltas camponesas na
Idade Média
23 Coutos - cou.to - sm (lat cautu) 1 Terra coutada, defesa, privilegiada. 2 Asilo, homizio, refúgio, valhacouto.

Var: coutio.

16
2 - Conjunturais: Invasões (germânicos, muçulmanos e normandos). Os magiares
(húngaros), de caráter nômade, também se movimentavam pela Europa acentuando a
belicosidade24. O mesmo fizeram os eslavos, povos da Europa Oriental.

Como era a Vida feudal


Economia fechada, sem mercados externos (natural pelo caráter das trocas in natura – sem
acréscimos de mão de obra). A produção destinava-se ao consumo, visava a auto-suficiência.
Sociedade estamental. Não existia mudança de posição social. Eram apenas duas as posições:
o senhor e o servo.
O senhor tinha a posse dos servos, posse legal das terras, poder político decorrente que podia
ser poder militar, jurídico ou religioso.
O servo era o oposto do senhor. Era possuído por ele (senhor), pois lhe devia obrigações
costumeiras, tinha a posse útil da terra e o direito à proteção pastoral.
Economia
Ao senhor do feudo (a Igreja ou a Nobreza) era devido uma obrigação sob forma de produtos
e serviços ou moedas. Os bens eram possuídos privativamente, mas a terra, um bem
econômico fundamental, podia ser possuída pelo senhor e pelo servo ao mesmo tempo, ou
por todos os membros da comunidade feudal.
O regime de trabalho era servil, pois o servo devia ao senhor a corvéia (trabalho na reserva
senhorial, ou ainda na pesca, na caça ou trabalhos artesanais), a talha (pago individualmente
por cada servo, era uma parte da produção obtida em sua faixa de terra (tenência), as
banalidades (presentes, dízimos pagos pelo uso do lagar, forno ou moinho), a mão-morta
(imposto pago pelo servo que tomava posse da tenência em substituição ao seu pai falecido)
e o vintém (pago para sustentar a igreja paroquial, mas que acabava indo para o senhor feudal.
Obs.: Essas obrigações eram frutos de costume e variavam conforme a região da Europa.
As Instituições políticas no Feudalismo
O suserano (nobre, proprietário que concedia feudos a seus protegidos através da cerimônia
de investidura) dava proteção militar e prestava assistência judiciária aos seus vassalos; recebia
de volta o feudo, caso o vassalo morresse sem deixar herdeiros; proibia casamentos entre
seus vassalos e pessoas que não lhe fossem fiéis. O vassalo (nobre que recebia feudos do
suserano, prometendo-lhe fidelidade), por sua vez tinha que prestar serviço militar durante
certo tempo, a seu suserano; libertava o suserano, caso ele fosse caísse prisioneiro;
comparecia ao tribunal presidido pelo suserano toda vez que era convocado.
Algumas Curiosidades deste Período
Os nobres gastavam seus rendimentos em jóias e banquetes e ocupavam seu tempo em
treinamentos no uso de armas (espada, lança e escudo), em torneios, duelos e caçadas,
utilizando cães e cavalos amestrados, símbolo de pompa e riqueza. A necessidade de
melhores equipamentos, armaduras e cotas de malhas contribuíram para o progresso da
metalurgia.

Pontos Importantes da Revisão

O Sistema Feudal
1. Introdução
A Alta Idade Média é o período inicial da Idade Média. Começa no século V e termina no
século XV. Caracteriza-se pela formação do sistema feudal - feudalismo (do século V ao
IX) e por sua cristalização (do século IX ao XI), isto é, quando o feudalismo esteve
plenamente estruturado. Após o século XI, o sistema feudal entrou em crise e foi substituído

24 Belicosidade - be.li.co.si.da.de - sf (belicoso+i+dade) Qualidade de belicoso. - belicoso


be.li.co.so - adj (lat bellicosu) 1 Guerreiro. 2 De ânimo aguerrido. 3 Habituado à guerra. 4 Que incita à guerra. 5
Disposto para a guerra.

17
pelo sistema capitalista, num processo muito lento que só se completaria no século XV até
o século XVIII.
2. Origens do sistema feudal
O feudalismo é um sistema caracterizado pela economia de consumo, trocas naturais,
sociedade estática e poder político descentralizado. Os fatores que explicam o surgimento
desse sistema na Europa podem ser divididos em estruturais e conjunturais.
Os fatores estruturais estão representados pelas instituições econômicas, sociais, políticas e
culturais dos romanos (Império Romano do Ocidente) e dos povos germânicos que se
fixaram dentro do Império a partir do século V.
Os principais elementos romanos que contribuíram para a formação do feudalismo foram: a
economia agrária e auto-suficiente das vilas romanas; as relações de meação (sendo o
colonato a mais importante) existentes no campo durante o Baixo Império; o distanciamento
social entre os proprietários e os trabalhadores (clientes, colonos e precários); e o poder
político-militar localizado. Todos estes aspectos eram resultado da crise econômica e política
do Império Romano.
Os elementos germânicos que entraram na formação do feudalismo foram: a economia
agropastoril; o regime de trocas naturais; a sociedade, em que os guerreiros se submetiam à
autoridade de um chefe militar; e o individualismo político. Entre os germanos não existia a
noção de Estado. Cada chefe possuía autonomia, de tal forma que só em época de guerra ou
perigo os chefes se submetiam à autoridade suprema de um “rei”.
Assim sendo, surgiu entre os germanos uma instituição chamada Comitatus. Nessa
organização (na verdade um bando armado), as relações entre comandante e comandados
eram diretas e recíprocas, baseadas em juramentos de lealdade e fidelidade. Tais
características iriam ser mantidas nas relações políticas do feudalismo.
O processo de integração das estruturas românicas e germânicas foi lento, cobrindo todo o
período que vai do século V ao IX. Isto porque a forma de integração dependia dos fatores
conjunturais, relacionados com as invasões que assolaram a Europa do século V ao IX,
semeando a insegurança, dificultando as comunicações, enfraquecendo o poder político e
atomizando à sociedade, de forma a ter no feudo sua unidade fundamental.
As invasões germânicas (séculos V e VI) visaram inicialmente aos centros urbanos do
Império, a fim de saqueá-los; mas depois tenderam a se fixar nas regiões favoráveis às
atividades agrárias. Com isso, completaram o êxodo urbano já iniciado no Baixo Império
Romano e cortaram as comunicações entre as unidades rurais e urbanas, enfraquecendo as
segundas e forçando as primeiras à auto-suficiência. O poder político, incapaz de conter as
invasões, viu-se na contingência de transferir as funções de defesa para os proprietários
rurais. Dessa forma, completava-se a descentralização do poder, o qual iria se tornar
localizado.
Em seguida às invasões germânicas, vieram os muçulmanos (século VIII). Os árabes tinham
se unificado politicamente depois da união religiosa conseguida por Maomé, organizador do
islamismo. A religião islâmica, sintetizada no Corão25 e na Suna26, pregava a guerra santa aos
infiéis, justificava o direito de saquear os infiéis (botim) porque não aceitavam o Deus criador
dos bens materiais. A elevada pressão demográfica na Arábia (havia poligamia), mais os
fatores religiosos e econômicos, explicam a fulminante conquista empreendida pelos
muçulmanos. Conquistaram o Oriente Médio, o Norte da África, a Península Ibérica, o Sul
da França e as ilhas do Mar Tirreno (Córsega, Sardenha e Sicília). Mas a pirataria muçulmana
impedia a navegação de barcos cristãos pelo Mediterrâneo. Dessa forma, a Europa ficou

25 Corão - co.rão -sm (ár Qur´ân) desus O mesmo que alcorão.= Alcorão - Al.co.rão
sm (ár al-qur´ân) Rel 1 Livro sagrado que contém as doutrinas de Maomé. 2 Religião maometana. Var: Corão.
26 Suna - Su.na f (ár sûnnâ) 1 Livro, por alguns considerado suplemento do Alcorão, e que é uma coletânea de

preceitos de obrigação, tirados das práticas do Profeta e dos quatro califas ortodoxos. 2 A ortodoxia
muçulmana.

18
isolada do Oriente e quase desapareceu o comércio, as cidades e a própria economia de
mercado, com suas trocas monetárias. Completa-se então, na Europa Meridional, o processo
de ruralização econômica.
Quando os muçulmanos completaram sua tomada de posição no sudoeste da Europa, o
Ocidente europeu começava a sofrer os ataques dos normandos (vikings), procedentes da
Noruega e da Dinamarca. Os normandos eram ligados às atividades marítimas, pescadores e
piratas que, por volta do século IX, aterrorizaram as Ilhas Britânicas e a França com suas
incursões. Não se restringindo aos ataques no litoral, subiam o curso dos rios e saqueavam
as populações ribeirinhas, pilhando vilas, mosteiros e igrejas, roubando o gado e escravizando
os cristãos. Dado esse duplo caráter, marítimo e fluvial, de suas operações, não havia na
Europa força militar adequada para contê-los. As áreas mais atingidas foram a Inglaterra e o
noroeste da França, aonde uma parte dos normandos veio a se fixar, dando origem à
Normandia.
Na Europa Oriental, ou, mais precisamente, em terras da Rússia e Ucrânia atuais, os
normandos da Suécia (conhecidos como varegues) realizaram uma penetração de caráter
principalmente comercial, pois as populações locais eram demasiado atrasadas para oferecer
boas perspectivas de pilhagem. Seguindo o curso dos rios que desembocam no Mar Negro,
os varegues acabaram estabelecendo contatos mercantis com Constantinopla, onde trocavam
trigo e produtos da Europa Setentrional por artigos manufaturados.
Ainda no século IX, os magiares (húngaros), procedentes da Ásia Central, invadiram a
Europa, aumentando a insegurança geral. A situação agravou-se com a chegada dos eslavos,
vindos das estepes russas.
No século IX, portanto, definiu-se na Europa um quadro de instabilidade generalizada, o
qual criaria as condições necessárias para a consolidação das estruturas feudais.
3. O modo de produção do sistema feudal
A economia feudal
A economia feudal era fechada, sem mercados externos; era também natural, pois as trocas
comerciais se realizavam in natura. A produção do feudo destinava-se ao consumo local,
visando à auto-suficiência (economia de subsistência).
O elemento essencial e definidor do feudalismo eram as obrigações consuetudinárias
(costumeiras) devidas pelos servos a seus senhores, tanto em produtos como em serviços.
Os bens eram possuídos privativamente, mas a terra — um bem econômico fundamental —
poderia ser usufruída por todos (posse coletiva), quando se tratasse de pastagens.
O regime de trabalho era servil, pois os servos constituíam a mão-de-obra típica do sistema.
Eles estavam presos à terra que cultivavam, sendo-lhes proibido abandoná-la. Mas, embora
privados de liberdade, não poderiam ser considerados escravos, pois tinham alguns direitos
e recebiam proteção de seus senhores. Em troca, deviam-lhes diversas obrigações, a saber:
A corvéia era o trabalho agrícola realizado pelo servo na reserva do senhor (também
denominada manso senhorial); mas podia igualmente compreender serviços como a limpeza
dos fossos e dos caminhos, a conservação das instalações do castelo ou ainda atividades
artesanais. A talha correspondia à entrega da metade do que o servo produzia em sua gleba
(também chamada de manso servil), a qual era constituída de faixas cultivadas descontínuas,
intercaladas com as glebas de outros servos. As banalidades também eram obrigações em
produtos, pagas pelo uso de certas instalações pertencentes ao senhor (lagar, forno e
moinho). Havia ainda a mão-morta, paga pelo servo quando herdava a gleba devido ao
falecimento de seu pai. Finalmente, o vintém, correspondente a um vigésimo da produção
do manso servil, destinava-se à manutenção da igreja paroquial. Deve-se notar que todas
essas obrigações eram frutos dos costumes locais (obrigações consuetudinárias), e por isso
variavam de uma região para outra.
A técnica adotada na agricultura era rudimentar. Somente as terras mais férteis eram
ocupadas. Adotava-se o sistema de três campos (divisão da gleba em três partes, destinadas

19
sucessivamente à forragem, ao plantio de cereais e ao pousio), fazendo-se rotação trienal para
evitar o esgotamento do solo.
A sociedade feudal
A sociedade feudal pode ser definida como estamental, devido a sua imobilidade e ao fato
de a posição do indivíduo ser determinada pelo nascimento. Os estamentos básicos eram
dois: senhores e servos. O senhor se caracterizava pela posse legal da terra, pelo poder sobre
os servos e pela conseqüente autoridade política local; esta última incluía o poder militar,
jurídico e religioso (no caso dos senhores eclesiásticos). O servo correspondia ao pólo social
oposto. Era preso à terra e inteiramente subordinado ao senhor (na medida em que lhe devia
obrigações costumeiras); mas tinha a posse útil da terra e o direito à proteção senhorial.
Afora essas situações sociais básicas, poderia mencionar algumas outras. Os escravos eram
em número reduzido e viriam a desaparecer, fosse porque se destinavam aos afazeres
domésticos (função pouco relevante em uma população rarefeita), fosse por causa da
proibição eclesiástica de se escravizarem cristãos. Os vilões eram homens livres que
trabalhavam no feudo mediante arrendamento, mas conservavam o direito de ir embora, se
o desejassem descendiam de pequenos proprietários que haviam entregado sua terra ao
senhor, em troca de proteção. Devem ainda ser citados os ministeriais, agentes do senhor
feudal encangados de manter a ordem no feudo e de cobrar as obrigações devidas pelos
servos; em certas regiões, eles eram chamados de bailios; em outras, de senescais27.
Os ministeriais representavam uma situação de permeabilidade social porque podiam
ingressar na pequena nobreza, se o senhor lhes concedesse em benefício uma determinada
área, como reconhecimento pelos serviços prestados.
As instituições políticas
Politicamente, o sistema feudal embasava-se nas relações de suserania e vassalagem.
Suserano era o rei ou nobre que, em troca de determinados compromissos, concedia a outro
nobre um benefício — geralmente um feudo, correspondente a uma extensão de terra com
tamanho variável.
Foi a insegurança do período que levou reis e nobres a estabelecer relações diretas entre si,
visando à proteção recíproca. Como os nobres pertenciam a unia aristocracia guerreira de
ascendência germânica, era importante poder contar com seu apoio.
Os grandes senhores procuravam ligar-se a outros senhores menores, com o objetivo de
contar com o maior apoio militar possível. Para isso, existia a subenfeudação, em que um
senhor concedia parte de seu feudo em beneficio a outro nobre. Isso fazia com que os
senhores feudais pudessem ser simultaneamente, vassalos de um senhor e suseranos de
outros.
Oficialmente, a autoridade política máxima era o rei, por ser o suserano dos grandes senhores
e não prestar vassalagem a ninguém. Na realidade, porém, o poder se fragmentava entre os
senhores feudais, caracterizando uma estrutura política descentralizada ou, mais
corretamente, localizada.
Os senhores feudais não constituíam um grupo social uniforme. Devido à existência da
subenfeudação, formavam ima hierarquia que começava no rei e se ramificava até alcançar o
mais modesto dos cavaleiros. É, portanto possível classificá-los em alta nobreza (aqueles
que prestavam vassalagem diretamente ao rei) e pequena nobreza (aqueles que eram
vassalos de outros senhores). Tais relações se estabeleciam pela cerimônia de investidura,
a qual compreendia três partes: a homenagem, em que o vassalo reconhecia a superioridade
do suserano; a investidura propriamente dita, quando o suserano concedia ao vassalo a
posse do feudo; e o juramento de fidelidade prestado pelo vassalo, o qual recebia, em
contrapartida, a promessa de proteção por parte do suserano.

27 Senescal - se.nes.cal - sm (frâncico *siniskalk) 1 Mordomo-mor ou vedor de corte, na Idade Média, com
autoridade judicial, e que em muitos casos chegava a ser um alto funcionário de Estado ou comandante militar.
2 Oficial feudal judicial ou administrativo, na Idade Média; espécie de bailio.

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Eram obrigações do vassalo para com seu suserano: prestar auxílio militar, se convocado;
hospedar o suserano e sua comitiva, quando de passagem pelo feudo; participar do tribunal
dos Iguais, presidido pelo suserano, para julgar um senhor acusado de algum crime; e ainda
contribuir para o dote das filhas e para a cerimônia em que os filhos do suserano feriam
armados cavaleiros. Reciprocamente, o suserano tinha obrigações para com seu vassalo:
proporcionar-lhe proteção militar; garanti-lo na posse do feudo dado em beneficio; se o
vassalo fosse acusado de um crime, assegurar-lhe o direito de ser julgado por um tribunal de
senhores; exercer a tutoria dos herdeiros menores e proteger a viúva do vassalo falecido.
4. As instituições religiosas do sistema feudal
Durante grande parte da Idade Média, a Igreja constituiu a única força realmente organizada
dentro da Europa. Tendo plena consciência de sua importância, ela exerceu uma
extraordinária influência ao longo do período. Era a Igreja, por exemplo, que teorizava sobre
as relações sociais do feudalismo, calcadas em uma rígida hierarquia, atribuindo-as à
determinação divina. Segundo essa interpretação, Deus dividiu a sociedade feudal em três
categorias: os que lutam (a nobreza senhorial), o que rezam (o clero) e os que trabalham
(servos e vilões).
A partir do século IX, o clero foi expressamente proibido de praticar a usura; para os leigos,
a proibição veio no século XI. Usura, especificamente, era o comércio do dinheiro, ou seja,
a cobrança de juros. Mas a Igreja também condenava o lucro como pecaminoso, defendendo
a prática do justo preço (o comerciante deveria cobrar por uma mercadoria apenas o custo
da mesma, acrescido do necessário para sua própria manutenção).
A posição da Igreja ia ao encontro das necessidades sociais do feudalismo, posto que, numa
economia de subsistência, com freqüentes problemas de escassez, preços altos seriam
considerados imorais. Além disso, a economia feudal era quase desmonetizada. Assim, se
alguém necessitasse urgentemente de dinheiro, seria por um motivo multo grave; portanto,
cometeria um grande pecado quem quisesse aproveitar-se da aflição de alguém para cobrar
juros.
Esses ideais foram acatados durante o período de cristalização do feudalismo, entre os
séculos IX e XI. Entretanto, tão logo começou o Renascimento Comercial e Urbano (séculos
Xll-XIV), os lucros e a cobrança de juros voltaram a ser praticados. Não obstante, a postura
oficial da Igreja continuou a ser a defesa do ‘justo preço” e a condenação da usura.
O clero monopolizava a cultura e o ensino do sistema feudal. Os nobres recebiam quase
sempre uma educação apenas elementar, ministrada nas escolas paroquiais ou nos mosteiros.
A base do conhecimento estava na Bíblia (principalmente no Novo Testamento) e os livros
pagãos eram proibidos. Depois do século XI, as universidades começaram a organizar um
currículo básico, denominado Escola de Artes, que compreendia dois graus: o Trivium
(Gramática, Dialética e Retórica) e o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e
Música). Vinham depois os estudos superiores, na maioria das vezes dedicadas à Teologia
(baseada no pensamento de Santo Agostinho). Mas houve universidades que implantaram
também cursos de Leis ou de Medicina.
Sociedade Feudal
A sociedade feudal era composta por dois estamentos (dois grupos sociais com status fixo):
os senhores feudais e os servos.
Os servos constituídos pela maior parte da população camponesa – presos a terra e sofrendo
intensa exploração. Eram obrigados a prestar serviços ao senhor e a pagar-lhe diversos
tributos em troca da permissão de uso da terra e de proteção militar.
Embora a vida dos camponeses fosse miserável, a palavra escravo é imprópria.
Veja agora como o poeta franco Benoît de Saint-Maure, um dos poucos literatos medievais
a preocupar-se com o destino das classes servis, descreve a triste situação desse grupo: “São
eles que fazem viver os outros, os quais alimentam e sustentam; eles próprios sofrem os
maiores tormentos: neves, chuvas e tempestades”.

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Miseráveis e famintos cavoucam a terra com suas mãos. Levam uma vida rude, sofrendo e
mendigando. E sem essa raça de homens, não imagino verdadeiramente como os outros
poderiam viver.
A seguir as principais obrigações servis :
 Corvéia : trabalho gratuito nas terras do senhor em alguns dias da semana.
 Talha : porcentagem da produção das tenências.
 Banalidade : tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens do senhor, como o
moinho, o forno, o celeiro, as pontes.
 Capitação: imposto pago por cada membro da família servil (por cabeça)
 Tostão de Pedro: imposto pago à igreja, utilizado para a manutenção da capela local.
Economia e propriedade
O modo de produção feudal próprio do Ocidente europeu, tinha por base a economia
agrária, amonetária, não-comercial, auto-suficiente. A propriedade feudal, pertencia a uma
camada privilegiada, composta pelos senhores feudais, altos dignitários da Igreja (o clero) e
longínquos descendentes dos chefes tribais germânicos.
A principal unidade econômica de produção era o feudo, que se dividia em três partes
distintas: a propriedade privada do senhor chamada, manso senhorial ou domínio, no interior
da qual se eregia um castelo fortificado; o manso servil, que correspondia à porção de terras
arrendadas aos camponeses e era dividido em lotes denominados tenências; e ainda o manso
comunal, constituído por terras coletivas – pastos e bosques - , usadas tanto pelo senhor
quanto pelos servos.
Devido ao caráter expropriador do sistema feudal o servo não se sentia estimulado a
aumentar a produção com inovações tecnológicas – porém não para si, mas para o senhor.
Por isso, o desenvolvimento técnico foi irrelevante, limitando a produtividade.
A principal técnica adotada foi a agricultura dos três campos que evitava o esgotamento do
solo, mantendo a fertilidade da terra.
A sociedade feudal foi regida pela terra e por uma economia natural, na qual nem o trabalho
nem seus produtos eram bens. O produtor imediato, o Camponês, estava unido ao solo por
uma específica relação social, cultivavam e ocupavam a terra, mas não eram seus
proprietários.
Quando o Feudalismo consolidou-se como uma forma de sociedade, essa força foi
legitimada pela instituição da Servidão, que tem como definição legal: Gleba ou ligados a
terra, neste contexto os servos juridicamente tinham mobilidade restrita. As propriedades
agrícolas eram controladas privadamente por os senhores feudais, que extraiam um
excedente de produção dos camponeses através de uma relação político-legal de coação.
Esta coação não-econômica significa que não há negociações de mercado entre os senhores
feudais e os camponeses que são obrigados a pagar renda por causa da força superior exercida
pelo senhor da terra. A relação entre estes toma a forma de serviços que são pagos em espécie
ou obrigações exercidas tanto na terra do senhor como nas faixas pequenas de
arrendamentos cultivadas pelo próprio camponês
Papel importante no estudo da Sociedade Feudal é o da Igreja que na Antiguidade estava
sempre ligada ao Estado Imperial, e a ela subordinada, agora se tornava uma instituição
eminentemente autônoma dentro desta sociedade. Seu domínio sobre as crenças e valores
era imenso, mas sua organização eclesiástica era diferente do de qualquer nobreza ou
monarquia secular. No feudalismo ocidental a Igreja podia defender seus próprios interesses
particulares, se necessário, a partir de um reduto territorial e pela força armada. Bispos e
Abades eram eles próprios grandes senhores feudais.
Definindo a Sociedade Feudal em termos mais amplos do que simplesmente o econômico,
as dimensões políticas e ideológicas não devem ser negligenciadas. O poder em geral era
exercido através da jurisdição, que era política, a ponto de se poder dizer que os meios pelos

22
quais os senhores arrancavam o excedente dos camponeses serem mais políticos que
econômico.
Segundo essa visão orgânica da sociedade, a partir de uma divisão tríplice da sociedade entre
Clero, a nobreza e o camponês, o que refletia a visão ideológica de uma sociedade de ordem
criada divinamente e dividida entro os que rezam (o clero), os que lutam (a nobreza) e os que
trabalham (os camponeses), doutrina instituída pelo clero e caso se afastasse dela seria um
crime não só contra a ordem social, mas também contra Deus.
Esta doutrina social foi aceita e vigente até o século XVII, quando foi destruída pelas várias
doutrinas do individualismo burguês produzidas naquele século. É bem verdade que outras
classes sociais tiveram que ser acomodadas além das três ordens originais com o
desenvolvimento da urbanização, mas a mensagem de harmonia e de imobilidade sociais
continuou a mesma.
Texto escrito pela Professora Patrícia Barboza da Silva licenciada pela Fundação
Universidade Federal do Rio Grande – FURG.

Referencia Bibliográficas:
BOTTOMORE, Tom (ed). Verbete – Sociedade Feudal in: Dicionário do Pensamento
Marxista. Rio de Janeiro; Zaar, 1998.
ANDERSON, Perry. Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. São Paulo, Brasiliense, 1994
4ª ed.
Autoria: Patrícia Barboza da Silva e Claudia Machado da Silva

Feudalismo - Decadência
A Idade Média, na Europa, foi caracterizada pelo aparecimentos, apogeu e decadência de um
sistema econômico, político e social denominado feudalismo. Este sistema começou a se
estruturar na Europa ao final do Império Romano do Ocidente (século V), atingiu seu apogeu
no século X e praticamente desapareceu ao final do século XV.
O processo de decadência do sistema feudal tem origem nas próprias contradições inerentes
a qualquer modo de produção. No século XI, com a necessidade de aumentar a produção de
alimentos, os senhores feudais aumentaram a exploração sobre os servos, que iniciaram uma
série de revoltas e fugas, agravando a crise já existente.
As cruzadas entre os séculos XI e XIII representaram um outro revés para o feudalismo, já
que Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos e o cristianismo não foi reunificado, com
as igrejas Católica Romana e Ortodoxa permanecendo separadas. A reabertura da navegação
no Mediterrâneo entre Oriente e Ocidente (principal desdobramento das Cruzadas), resultou
no crescimento de relações econômicas mais dinâmicas, representadas pelo Renascimento
Comercial e Urbano.
O trinômio "guerra, peste e fome", que marcou o século XIV, afetou tanto o feudalismo
decadente, como o capitalismo nascente. A Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre França
e Inglaterra devastou várias regiões da Europa, enquanto que a "peste negra" eliminou cerca
de 1/3 da população européia. A destruição dos campos, devastando plantações e rebanhos,
trouxe a fome e a morte.
Nesse contexto de transição do feudalismo para o capitalismo (passagem da Idade Média
para Moderna), além do desenvolvimento do comércio monetário, notamos transformações
sociais, com a projeção da burguesia, políticas com a formação das monarquias nacionais,
culturais com o antropocentrismo e racionalismo renascentistas, e até religiosas com a
Reforma Protestante e a Contra Reforma. Nota-se ainda, o início do processo de expansão
ultramarina, que abrirá os horizontes comerciais para os Estados europeus fortalecendo tanto
a burguesia como os monarcas absolutistas.

23
Transformações na Sociedade Feudal
Muitas vezes as mudanças acontecem de forma que nem notamos em especial na sociedade,
e na maioria dos casos não notamos as forças destas mudanças. Foi o que aconteceu com a
sociedade feudal, que aos poucos foram surgindo pequenas novidades na estrutura de sua
economia. Mas as pessoas que viveram estas novidades não imaginavam que estas acabariam
contribuindo para as transformações econômicas que levariam séculos para serem notadas.
O feudalismo europeu apresenta, portanto, fases bem diversas entre o século IX, quando os
pequenos agricultores são obrigados a se proteger dos inimigos junto aos castelos, e o século
XIII, quando o mundo feudal conhece seu apogeu, para declinar a seguir. A passagem do
século X ao XI foi um momento de mudanças na Europa Feudal. Com o fim das invasões
bárbaras, o mundo medieval conheceu um período de paz, segurança e desenvolvimento.
O primeiro dado importante refletindo esse novo momento foi o aumento da população. O
crescimento demográfico foi ocasionado pelo fim das guerras contra os bárbaros e pelo recuo
das epidemias, gerando uma queda da mortalidade. Além disso, ocorreu uma suavização do
clima, proporcionando mais terras férteis e colheitas abundantes. Veja na tabela abaixo como
a população da Europa ocidental foi crescendo significativamente no período:

Crescimento Populacional da europa Ocidental


ANO POPULAÇÃO
1050 46 milhões
1150 50 milhões
1200 61 milhões

1300 73 milhões

Esse crescimento implicou maior demanda de alimentos estimulando o aperfeiçoamento das


técnicas agrícolas para aumentar a produção. Assim, o arado de madeira foi substituído pela
charrua (arado de ferro), facilitando o trabalho de aragem; atrelagem dos animais foi
aperfeiçoada, permitindo o uso do cavalo na tração; os animais passaram a ser ferrados; os
moinhos foram melhorados; e o sistema trienal se estendeu por toda a Europa,
proporcionando melhor qualidade e maior quantidade de produtos agrícolas. O
aperfeiçoamento do artesanato de roupas e objetos pessoais, armas e armaduras asseguravam
maior conforto e capacidade militar.
Havia séculos que os camponeses seguiam a mesma rotina de plantação. No começo dos
trabalhos, os servos semeavam uma extensão de terra do feudo. A planta crescia e um belo
dia era colhido. E assim fazia ano a pós ano, geração após geração. Era a tradição que era
muito respeitada na Idade Média, como já viemos discutindo. O problema era que, aos
poucos, a terra ia se esgotando, perdendo sua fertilidade. A semente plantada se tornava uma
planta cada vez mais fraca e por conseqüência produzindo sementes para o próximo plantio
cada vez menores.
Até o século IX, os camponeses dividiam a terra a ser plantada em duas partes. Enquanto
plantavam numa das partes, a outra descansava para recuperar a fertilidade. Com esse
sistema, metade das terras cultiváveis ficava sem uso. Com o novo sistema, de três campos,
plantava-se em dois campos, um, com trigo; outro, com cevada; e o terceiro, as forragens
para os animais. As forragens são espécies vegetais que têm a capacidade de recuperar a
fertilidade do solo para o plantio de cereais no ano seguinte. Com isso a área plantada e,
conseqüentemente, as produções aumentaram. Haveria a colheita de dois cereais por ano em
vez de apenas um.

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O principal cereal consumido na Europa era o trigo. Mas, para ser consumido, ele precisa
ser transformado em farinha. Isso dava muito trabalho para os camponeses, pois era feito
manualmente. O uso de moinhos movidos a água diminuiu o esforço para se obter farinha.
Lá pelo século XIII foi introduzido o moinho movido a vento. A máquina e a energia dos
ventos e da água começavam a substituir a energia humana no trabalho. Os camponeses
tiveram, assim, mais tempo e energia para se dedicar a outras tarefas, que não as
essencialmente agrícolas.
Os efeitos da maior produção de alimentos logo se fizeram sentir. Comendo melhor, as
pessoas passaram a viver mais. As doenças já não as pegariam com tanta facilidade. Com o
aumento da população, muitas áreas não aproveitadas para a agricultura passaram a ser
plantadas. Dessa maneira, a produção crescia, não somente por causa das técnicas agrícolas,
mas também pelo aumento da área plantada.
Com tudo isso, muitos feudos começaram a produzir mais que o necessário. Com estes
excedentes, era possível vender e com o dinheiro, comprar outras coisas que vinham das
regiões vizinhas.
Com isso começam a surgir às feiras medievais, estas eram os locais onde os comerciantes
faziam seus negócios. Algumas destas feiras se tornaram tão importantes que deram origem
às cidades. Nas cidades viviam a maioria dos artesãos e comerciantes. A cidade e o campo
foram aprimorando suas atividades econômicas. Ficando da seguinte forma: o campo
aprimorando sua agricultura e criação de animais, já as cidades se concentrando no artesanato
e no comércio. E os nobres ficaram com a parte que era a força motriz da época: consumir,
principalmente as mercadorias vendidas pelos comerciantes e artesãos.
No entanto, esse inegável desenvolvimento técnico foi limitado, não atendendo ao
crescimento da população e, portanto, do consumo. Inicialmente novas terras foram
ocupadas e desbravadas. Além disso, ocorreu um fenômeno histórico novo para a Idade
Média, o êxodo rural, ou seja, parcelas consideráveis das populações rurais dirigiram-se para
as cidades.
É importante notarmos que muitas das invenções tecnológicas avançadas para a época, eram
de autoria de pessoas simples do povo, servos e artesãos, a maioria analfabeta. Do que
podemos concluir que a inteligência e a criatividade não são qualidades exclusivas de pessoas
que estudaram muito ou que são ricas.
Texto escrito pela Professora Patrícia Barboza da Silva licenciada pela Fundação
Universidade Federal do Rio Grande – FURG.

Referência Bibliográfica
FERREIRA, José Roberto Martins, História. São Paulo: FTD; 1997.
MORAES, José Geraldo. Caminho das Civilizações. São Paulo: Atual. 1994.

Transição do Feudalismo ao Capitalismo


Os primeiros indícios do pré-capitalismo começaram a despontar já no século XII. O
capitalismo é um sistema baseado nas relações de trabalho assalariadas, no espírito de lucro,
na função reprodutiva do capital, na busca de uma organização racional para os negócios, na
produção voltada ara o mercado e na economia monetária.
Os primórdios do pré-capitalismo estão ligados à crise o sistema feudal, provocada pelo
crescimento demográfico a Europa e pela conseqüente inadequação da produção ao
consumo. A nova situação econômica e social que se criou deu origem ao Renascimento
Comercial e Urbano. E é claro que este acelerou a decadência do feudalismo, na medida em
que se tornou um importante elemento do capitalismo nascente.
Concomitantemente, a marginalização social resultante ia crise feudal (pessoas que se viram
obrigadas a sair dos feudos, por necessidade ou porque foram expulsas) proporcionou os
contingentes necessários à expansão da Europa cristã: Guerra de Reconquista contra os

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mouros, na Península Ibérica; Cruzadas, no Oriente Próximo; e avanço alemão no litoral sul
do Mar Báltico, tendo como ponta-de-lança a ordem religiosa e militar dos Cavaleiros
Teutônicos28.
A convivência de dois sistemas acarretou problemas, principalmente se considerarmos o
dinamismo de um e a estagnação do outro. Tal contradição produziu as crises de retração
(século XIV) e de desenvolvimento (século XV) do comércio europeu, cujas raízes se
encontram no choque entre feudalismo e capitalismo e em fatores conjunturais, como as
secas e a Peste Negra.
A crise do século XIV provocou uma retração econômica, devido ao encolhimento dos
mercados europeus. Já a crise do século XV teve fatores diametralmente opostos e levaria à
expansão do comércio, graças aos Grandes Descobrimentos.
Com o fim da Idade Média e a Expansão Marítima dos Tempos Modernos, o comércio
adquiriu dimensão mundial e o capitalismo entrou em sua primeira etapa real: o capitalismo
comercial ou mercantil, voltado para a acumulação de capitais no setor da circulação de
mercadorias. Ora, como existe um consenso teórico de que o sistema capitalista deve
apresentar maior lucratividade no setor da produção, o capitalismo comercial é considerado
apenas uma fase de acumulação primitiva de capitais. Dentro desse enfoque, o verdadeiro
capitalismo somente se consolidaria a partir do século XVIII, com o advento da Revolução
Industrial.

3. - AS PRIMEIRAS TEORIAS DE COMÉRCIO INTERNACIONAL: O


MERCANTILISMO

3.1 - Introdução

28Teutônico - teu.tô.ni.co - adj (teuto2+n+ico2) 1 Pertencente ou relativo aos teutões; teuto. 2 Diz-se de uma
espécie de letra gótica. sm Antiga língua germânica.

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O período compreendido entre os séculos XVI e a metade do século XVIII
(aproximadamente entre os anos 1500 a 1750) é conhecido nos livros de história como sendo
da “Revolução Comercial”. Foram anos fundamentais para o estabelecimento de uma
economia mundial e para a consolidação de uma nova forma de organização política: o estado
nacional.
Do ponto de vista do comércio internacional, foi durante esse período que se
estabeleceram as bases conceituais de todas as futuras teorias de comércio exterior, que foram
e são praticadas até os dias atuais. Além disso, as teorias e práticas econômicas, que no seu
conjunto denominamos hoje de mercantilistas, contribuíram para a organização e a
consolidação do Estado nacional, como o principal agente econômico no plano mundial.
O estudo do mercantilismo, e conseqüentemente da teoria de comércio exterior que
expressa, pode ser feito tendo como base qualquer dos países que o praticaram, pois em
essência seus fundamentos são os mesmos. No nosso caso, privilegiaremos ao longo deste
trabalho, exemplos relacionados com Portugal e a dominação colonial portuguesa no Brasil
que fornece ótimas referências que facilitam a compreensão da política comercial seguida por
diferentes nações no período.
É importante destacar que quando nos referirmos ao mercantilismo, estaremos
tratando de um conjunto de práticas e idéias adotadas pelos Estados absolutistas, ao longo
dos séculos XVI e XVIII. Quando agrupamos esse conjunto de práticas e idéias nos dias
atuais, é que constituem a primeira teoria de comércio internacional de que se tem notícia.
Este é um aspecto importante a ser assinalado, pois ao longo de todos os séculos de
predomínio do mercantilismo, não surgiu nenhuma teoria mais ou menos articulada
elaborada por nenhum pensador, e que poderia ter servido de guia para os governantes da
época. Houve isto sim, em cada país onde essas práticas e idéias foram adotadas, indivíduos
que elaboraram propostas teóricas e que no seu conjunto ao as reunirmos as caracterizamos
como um corpo doutrinário único. Logo, para as pessoas da época, nem a palavra
mercantilismo foi utilizada, nem este se constituía numa teoria articulada de desenvolvimento
nacional.

3.2 - A construção do sistema econômico mundial

A integração de diferentes economias numa só economia-mundo sob a égide


do capitalismo, teve seu início na Europa com o desenvolvimento e expansão de práticas
comerciais que em linhas gerais podemos denominá-las capitalistas - a partir do século XI .
O embrião do futuro sistema capitalista que se consolida após o século XVIII, pode ser
encontrado deste modo no período que vai do século XI ao século XIV. A partir deste último
século com as grandes navegações, a abertura de uma rota comercial pelo Atlântico Sul rumo
ao Oriente, há um crescente desenvolvimento das trocas comerciais levando ao
fortalecimento da burguesia européia. Esse fortalecimento se dá com o aumento substancial
de sua capacidade de acumulação propiciada pela expansão dos mercados com a descoberta
da América, a exploração da África e dos países do Oriente. Esse processo de acumulação se
constituiu em grande medida na exploração das minas de ouro e prata das Américas, na
escravização do negro africano e na prática predatória das companhias de exploração das
grandes potencias coloniais em todo o mundo.
A formação dessa economia-mundo, a partir do desenvolvimento de uma
economia capitalista européia apresenta vários aspectos que podem ser analisados quando se
constata essa realidade de vivermos a tempos em um mundo integrado economicamente,
onde cada parte do planeta cumpre uma papel econômico que pode ser fundamental ou
periférico.

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3.2.1. A importância da rota do Atlântico

A conquista do Atlântico correspondia às necessidades da época, por isso


foram tão importantes e revolucionárias as suas conseqüências marcando o período com a
denominação de revolução comercial. O Atlântico transformou-se na mola propulsora do
desenvolvimento capitalista, na fonte principal de acumulação de riqueza. E, com a
integração do Atlântico no âmbito das relações internacionais, foram se consolidando as
nações absolutistas, desenvolvendo-se novas relações entre as comunidades, consolidando-
se no espaço europeu o sentimento de nacionalidade, que seria o embrião de formação dos
modernos estados nacionais.
Com o estabelecimento das rotas atlânticas do ouro africano e das especiarias
asiáticas, o capitalismo italiano entrou em colapso. Uma nova camada de capitalistas emergiu
então em Flandres, na Inglaterra, na Alemanha do Sul, na França, na Espanha e em Portugal
dando o golpe final na estrutura econômica sustentada pelas cidades italianas que entravavam
o desenvolvimento do capitalismo moderno. A associação de capitais flamengos, ingleses e
alemães com a expansão portuguesa pode ser justificada por esta necessidade de crescimento
independente do monopólio mediterrâneo.
O fato de Portugal passar a tratar diretamente com os produtores de
mercadorias eliminando o intermediário muçulmano diminuiu em muito o preço dos artigos
asiáticos. Um exemplo dessa redução de preço final é a pimenta, um artigo extremamente
procurado, que os negociantes muçulmanos pagavam na Índia a 2,5 a 3 ducados o quintal,
era vendida na praça de Alexandria a 80 ducados. Os portugueses, mesmo vendendo a um
preço inferior lucravam enormemente com as viagens (DIAS, 1963).
Com o deslocamento do eixo econômico para Lisboa, esta se vê receptora
das finanças européias. Os capitalistas alemães foram os primeiros a transferir suas operações
comerciais e bancárias para Lisboa, corria o ano de 1503, e retornava a segunda expedição
de Vasco da Gama ao Oriente. Assim como os alemães, os mercadores flamengos foram
atraídos pelo carregamento dessa expedição. Muitos capitais italianos - genoveses e
florentinos - também começaram a se instalar em Lisboa atraídos pelo retorno das
expedições à Índia.
Em período anterior, muitos banqueiros já tinham se instalado em Portugal
para participarem da expansão marítima na África, como Gerônimo Sergini e Bartolomeu
Marchioni, magnatas de Florença, que operavam em Lisboa com dinheiro desde meados do
século XV. Esses banqueiros italianos contribuíram bastante para atender as necessidades
dos reis portugueses - Afonso V, D. João II e D. Manuel - participando e financiando várias
expedições portuguesas a Índia e ao Brasil (DIAS, 1963).
Os comerciantes e banqueiros italianos, alemães e flamengos, cujos interesses
não estavam diretamente relacionados a seus países, desenvolviam operações de capital que
ultrapassavam o continente europeu. Foi graças a sua participação que a Coroa Portuguesa
conseguiu encontrar os capitais necessários para o financiamento da expansão ultramarina e
para a sustentação de uma rede comercial de escoamento dos artigos obtidos nas expedições.
Por outro lado, com vimos, o capitalismo europeu encontrou no expansionismo marítimo
as condições necessárias para o seu crescimento e desenvolvimento.
Com o deslocamento da corrente de comércio do Mediterrâneo para o
Atlântico, Antuérpia (na atual Bélgica) foi tomando o lugar das cidades italianas como
grandes centros comerciais e bancário. Com os mercadores, corretores e banqueiros
negociando livremente dentro dos muros de Antuérpia, a cidade tornou-se gradativamente
um grande centro de comércio internacional. O comércio de tecidos ingleses se realizava em
Antuérpia, assim como o das especiarias da Índia. Os portugueses realizavam a maior parte
de seus negócios naquela cidade. Em Antuérpia as grandes casas bancárias alemãs e italianas
tinham seus depósitos principais, e as transações em dinheiro passaram a ser mais

28
importantes que o próprio comércio, com a criação de câmaras de compensação evitando-
se o manuseio do próprio dinheiro. Desse modo a "maquinaria financeira para enfrentar as
necessidades do comércio em expansão foi posta em movimento no século XVI, por mercadores e banqueiros"
( HUBERMAN, 1976: 105).

3.3 - O surgimento do mercantilismo


Já no século XV, antecipando-se a outros reinos, em Portugal o rei havia
assumido o poder absoluto, centralizando o poder de Estado, submetendo a nobreza e
estreitando os vínculos com os comerciantes. O Estado que nasce deste movimento logo se
tornará o principal agente incentivador das novas descobertas e da expansão marítima
européia. Este fenômeno, de formação de Estados Absolutistas, se espalha a partir do século
XV para a Espanha, França e Inglaterra.
Antes do aparecimento do estado nacional, em diferentes épocas existiram
unidades governamentais sob a forma de comunas, cidades-estados e feudos. As unidades
econômicas formaram nesta ordem: a família, o feudo, a comunidade da vila, a cidade e a liga
das cidades. Os estados centralizados, portanto, eram diferentes de tudo o que existia
anteriormente, surgiram gradativamente e desenvolveram medidas econômicas
especializadas, dinheiro e crédito, e instituições e práticas comerciais, com a finalidade de se
tornarem auto-suficientes.(Bell, 1982)
Com o surgimento desses novos Estados, necessita-se de burocratas para
administrá-lo, e comerciantes para financiá-lo. É a partir destes dois grupos sociais que surge
o Mercantilismo. Este se desenvolve a partir do estreitamento do vínculo entre a riqueza dos
comerciantes (a burguesia mercantil) e o Estado fortalecido. Predomina a idéia de que com
o crescimento do comércio o Estado terá mais riquezas e portanto mais poder. Por outro
lado, o poderio do Estado podia assegurar segurança e rentabilidade às rotas marítimas, bem
como os monopólios exigidos pelos comerciantes.
Deste modo com o fortalecimento do Estado, ocorre um grande salto rumo
a um futuro comércio mundial no final do século XV. Este começa a se concretizar com o
avanço marítimo no Atlântico e a descoberta de uma nova rota para a Índia por Portugal, e
com a descoberta da América pela Espanha. Com as explorações, zonas de colonização e
feitorias comerciais dos dois países ibéricos, além de um incremento do comércio entre os
países europeus, deu-se início a um intercâmbio mundial de mercadorias, incorporando-se
novas regiões ao comércio originário da Europa, constituindo-se, a partir daí, de fato uma
economia-mundo.
É nesse momento, segundo DEYON(1985:18) que nasce uma “teoria
econômica, que inspirou e sustentou os esforços dos monarcas, preocupados com o estado de suas finanças e as
necessidades dos exércitos e diplomatas”. É essa teoria que estudaremos nas páginas seguintes em
suas linhas gerais.
Em meados do século XVI a penetração comercial européia já havia chegado
às duas costas do Pacífico; os navios espanhóis faziam a rota do Peru a Europa através da
região onde se localiza atualmente o Panamá, e os portugueses chegavam as ilhas da atual
Indonésia. Esses dois movimentos dos países ibéricos introduziram no comércio
internacional, uma abundante quantidade de especiarias vindas da Ásia, e enorme quantidade
de metais preciosos com origem na América Espanhola o que provocou na
Europa, a chamada “revolução dos preços”.
O primeiro carregamento de metais preciosos vem das Antilhas em 1503, em
1519 começa a pilhagem do tesouro dos astecas do México; em 1534, a dos incas do Peru.
Segundo BEAUD(1987:21) “de acordo com os dados oficiais, dezoito mil toneladas de prata e duzentas

29
toneladas de ouro foram transferidos da América para a Espanha entre 1521 e 1660; de acordo com outras
estimativas é o dobro”.29
A revolução dos preços foi causada por esse enorme afluxo de metais preciosos
da América para Espanha, quantidade esta que gerou uma inflação sem precedentes. Com a
súbita desvalorização da moeda, os preços nominais de todos os produtos tiveram que se
elevar.
O poderio de Portugal e Espanha durante o século XVI era inegável,
constituindo-se no principal pólo econômico da economia mundial no período,
“...o primeiro graças ao virtual monopólio do comércio de especiarias que exercia no oceano Índico,
e à produção açucareira do Brasil – 180 mil arrobas em 1570, 350 mil em 1580 e 1,2 milhão de arrobas
em 1600, e a segunda, principalmente à produção da minas de suas colônias americanas...(REZENDE
Fo., 1997:117)
Seu poderio em fins do século XV e século XVI era tal que em 1494 tentaram dividir
o mundo em suas respectivas áreas de influência, assinando sob os auspícios do Papa, o
Tratado de Tordesilhas.
No entanto, mesmo com o controle de imensos territórios, como a Espanha
ou com uma formidável rede de feitorias comerciais, como Portugal; as duas potências
ibéricas não conseguiram converter-se em verdadeiras metrópoles comerciais e/ou
industriais. Não conseguindo se manter isoladas nesta expansão por muito tempo. Já no
século XVI, a Holanda despontava como potencia comercial e marítima, fortalecida pelas
relações com a coroa portuguesa que negociava os produtos obtidos no além mar
principalmente através de sua feitoria instalada em território holandês o que acabava
reforçando a burguesia holandesa (flamenca).
Portugal com um ativo comércio oriental, e necessitando de capitais,
estabeleceu uma sociedade comercial com os banqueiros e comerciantes holandeses, para a
montagem do complexo açucareiro no Brasil. Nessa associação, ficaram os portugueses
encarregados da produção – terras, colonizadores, escravos e primeira refinação do açúcar -
, ao holandeses cabia o financiamento do empreendimento, a comercialização nos mercados
europeus e a segunda refinação do açúcar, enquanto que o transporte do produto da América
para a Europa seria dividido entre ambos(REZENDE Fo.,1997).
Em seguida franceses e ingleses se juntaram aos holandeses no processo de
exploração e pilhagem dos novos mundos, fundando colônias, feitorias, dominando rotas
comerciais, atacando as frotas espanholas e portuguesas. Estes países no seu conjunto
(Espanha, Portugal, Holanda, Inglaterra e França) recolheram uma extraordinária riqueza das
terras descobertas cuja acumulação posteriormente contribuiu de forma decisiva para a
Revolução Industrial que teve seu início no século XVIII.
Os pensadores econômicos do período compreendido entre o século XVI e
a primeira metade do século XVIII desenvolveram um conjunto de idéias que tornaram o
comércio exterior um dos mais poderosos instrumentos da política econômica. A idéia
central consistia em que os grandes estoques de metais preciosos constituiriam a própria
expressão da riqueza nacional. Inicialmente em Portugal e Espanha, essas idéias foram
seguidas por outros Estados Europeus como: Holanda, França, Inglaterra e Alemanha,
assumindo em cada um deles uma característica em função de seus recursos naturais.
No século XVI o afluxo de ouro e prata das colônias espanholas foi de tal
ordem e influenciou de tal maneira a Europa que em diversos países surgiram pessoas que
buscavam explicação para os fenômenos econômicos que decorriam desse movimento de
metais preciosos e em particular teorizavam sobre a importância de mantê-los ou traze-los

29REZENDE Fo., (1997:117) cita números semelhantes para um período aproximado, afirma que entre os
anos de 1503 e 1620 nada menos que 13mil toneladas de prata e 170 toneladas de ouro foram levadas para a
Espanha.

30
para o País. Preservar e aumentar a acumulação dos metais preciosos era sua preocupação
central. DEYON(1985) cita várias manifestações nesse sentido:
Na Inglaterra em 1581 um autor inglês escreve sob o título A compendious or
brief examination of certain ordinary complaints que se acabasse com a importação das mercadorias
fabricadas no estrangeiro, que poderiam ser fabricadas na Inglaterra, e ao mesmo tempo,
restringir a exportação das lãs, peles e outros produtos em estado bruto, e chamando artesãos
de fora sob o controle das cidades, fabricando mercadorias que poderiam ser exportadas, as
cidades poderiam voltar a reencontrar sua antiga riqueza .
Na França, em 1515, Claude de Seyssel declara em La grande monarchie de
France, “ que o poder do país reside em suas reservas de ouro e prata”.
Na Espanha, Luiz Ortiz, no seu memorial Para que a moeda não saia do reino
defende a multiplicação das manufaturas e a interdição da exportação das matérias-primas
têxteis.
Esses pensadores, acentua ROSSETTI(1994:98),
“entenderam que os grandes estoques de metais preciosos constituíam a própria expressão da
riqueza nacional. Os Estados que dominavam as novas terras conquistadas, como Portugal e Espanha,
deveriam mobilizar as colônias, no sentido de que essas lhes fornecessem as maiores quantidades possíveis de
ouro e prata. Os principais pensadores econômicos da Península Ibérica nos séculos XVI e XVII
recomendavam a conservação dos metais extraídos das novas colônias e advertiam que as balanças comerciais
da Espanha e de Portugal deveriam ser sempre favoráveis, para que os Estados com os quais comerciassem
não lhes cobrassem em lingotes de ouro e prata os eventuais déficits resultantes das transações internacionais.”
Esse conjunto de práticas econômicas que foram assumidas de diferentes
modos pelas potencias européias da época, denominamos hoje de mercantilismo30. Cada
estado procurou as medidas que mais se ajustavam às suas peculiaridades: alguns se
concentravam na exploração colonial, na obtenção de metais preciosos; outros, nas
atividades marítimas e comerciais; e outros, ainda, optaram por incentivar a produção
manufatureira. A expansão comercial e colonial européia está fortemente associada à política
mercantilista.
No século XVII “os projetos mercantilistas são universais, e em toda parte, nas
deliberações dos Conselhos de governo, encontram-se as mesmas decisões, as mesmas proposições e todos os
argumentos que a literatura econômica da época popularizava. A Dinamarca como a Baviera, os Estados
dos Habsburgos, como os principados italianos ou germânicos conhecem as companhias monopolizadoras, as
manufaturas privilegiadas, as tarifas protecionistas e a instituição dos Conselhos ou Colégios de
Comércio”(DEYON, 1985:35)

3.4 - As principais características da política mercantilista.


Em alguns países adotou-se uma denominação particular como: bulionismo31 na
Espanha, colbertismo na França e cameralismo na Alemanha.
No entanto, embora houvesse variações de adoção de medidas de Estado para
Estado, e de acordo com as várias épocas, houve uma série de princípios comuns que

30 É importante reafirmar que os principais promotores do mercantilismo, como Thomas Mun na Grã-
Bretanha, Jean-Baptiste Colbert na França,Antonio Serra na Itália e muitos outros que serão citados ao longo
deste trabalho, nunca empregaram esse termo. Sua divulgação coube ao maior crítico do sistema, o escocês
Adam Smith, em The Wealth of Nations (1776; A riqueza das nações).
31 A origem da palavra bulionismo remete a bulhão,que segundo o dicionário HOUAISS(2001), era um

medalhão ou medalha comemorativa, de ouro ou prata, usada como moeda no século XV.

31
orientaram a política econômica mercantilista, particularmente no que diz respeito ao
comércio com outras nações. Os principais traços comuns a toda política mercantilista
foram: o metalismo, a balança comercial favorável, o protecionismo alfandegário, a
intervenção do estado na ordem econômica, o monopólio e o colonialismo.

3.4.1 - O metalismo
Para os mercantilistas configura-se como a essência da atividade econômica, é uma
concepção que identifica a riqueza e o poder de um Estado com a quantidade de metais
preciosos por ele acumulados. A obtenção de ouro e prata viabilizou-se com a exploração
direta das colônias ou com a intensificação do comércio externo.
O Estado é que deveria organizar e programar a obtenção do ouro e da prata. O
primeiro movimento nesse sentido tomado pelos governantes foi impedir que o ouro e a
prata saíssem do reino: na Espanha, no início do século XVI, foi proibida a exportação de
ouro e prata sob pena de morte; na França, proibiu-se a saída de numerário desde 1506, e
depois em 1540, 1548 e 1574; na Inglaterra, houve tentativas em 1546 e 1576(DEYON,
1985).

3.4.2 - A balança comercial favorável.


Com o mercantilismo aparece pela primeira vez o conceito de balança comercial, já
que os países se vêem forçados a desenvolver ao máximo as exportações de produtos que
são pagos em ouro e prata e reduzir ao mínimo possível as importações que seriam pagas
nestas mesmas moedas. Deste modo a balança comercial seria sempre favorável;
Um documento inglês do século XVII, o Relatório da comissão sobre a tecelagem ao conselho
privado de 22 de junho de 1622, transcrito por DEYON(1985:92) explica como deve se
proceder para obter um saldo comercial favorável:
“No que concerne à raridade das espécies no reino, que se cuide de impedir o transporte de
nossas moedas, e que os contraventores sejam severamente punidos...Mas sobretudo que seja remediado o déficit
de nosso comércio exterior, porque se as importações de vaidade e de luxo prevalecem sobre as exportações de
nossos produtos, as reservas deste reino serão desperdiçadas, pois, será preciso exportar espécies para
restabelecer o equilíbrio”.

3.4.3 - O Protecionismo alfandegário


Restringia as importações impondo pesadas taxas alfandegárias aos produtos
estrangeiros, ou até mesmo proibindo que certos artigos fossem importados. Em 1664,
Thomas Mun, afirmava sobre a política protecionista:
"Os impostos aduaneiros de exportação podem ser nocivos porque encarecem as exportações
britânicas... Por outro lado os impostos aduaneiros de importação devem ser suficientemente altos para
desencorajar o consumo de bens estrangeiros na Inglaterra”.

3.4.4 - Intervenção na ordem econômica


Para manter uma balança favorável, o Estado exerceu seu poder de forma altamente
centralizada, e buscando controlar em todos os seus aspectos a atividade econômica. Isto
implicava no estabelecimento de um conjunto de leis que regulassem a produção e o
comércio, como vias de se conseguir uma melhor organização que facilitasse a sua
implementação, tais como: o desenvolvimento da infra-estrutura do país, das comunicações,
dos portos, regulamentarem o trabalho nas manufaturas etc; Em Portugal, no início do
período mercantilista havia leis proibindo o uso de panos e artigos de luxo estrangeiros.
Havia incentivos à produção nacional, visando a exportação de produtos que seriam pagos
em ouro e prata.

32
A França no período de Colbert, por volta de 1664, nos oferece um exemplo
significativo do grau que poderia assumir a intervenção estatal na economia, pois de acordo
com DEYON(1985:25),
“Não há um único setor da produção manufatureira, um único negócio remoto que escape a sua
intervenção. Arsenais, fundições de canhões, manufaturas de renda, de malharia, de meias de lã e de seda,
tecidos de luxo ou tecidos finos, Companhia das Índias Orientais, Companhia das Índias Ocidentais,
Companhia do Norte, Companhia do Levante gozam alternadamente de sua exigente proteção. (...)Mais de
150 regulamentos de fábrica procuram fazer da produção francesa uma produção de qualidade sem igual na
Europa. Especificam a proporção das tintas, a largura dos tecidos, o número de fios na malha, os utensílios
e os trabalhos de todos os corpos de ofício. Sob o controle dos intendentes, um novo corpo de inspetores das
manufaturas é encarregado de controlar as fabricações e de constatar as contravenções”.
Embora a França, particularmente no período de Colbert, tenha se caracterizado pela
excessiva intervenção na economia, nos outros paises europeus as práticas se assemelhavam,
marcando o intervencionismo econômico como um dos pilares da política mercantilista.

3.4.5. O Monopólio
Os Estados absolutistas exerciam diversos tipos de monopólio: de comercialização,
de exploração, de transporte etc. O monopólio era um importante componente da política
comercial do Estado. Quando este não o exercia diretamente, transferia o direito de
monopólio a particulares, sejam pessoas ou empresas.
A primeira notícia da existência do pau-brasil em terras brasileiras foi dada por
Américo Vespúcio em carta dirigida ao rei D. Manuel após a expedição exploratória de
1501/1502, que logo declarou o comércio dessa madeira monopólio da Coroa. Como era
monopólio e a sua venda para outras nações proibida, a atividade de qualquer embarcação
estrangeira no recolhimento de pau-brasil era considerada ilegal, e justificava a apreensão e o
afundamento de seus barcos por naus lusitanas.
A primeira concessão para exploração do pau-brasil foi outorgada em 1501 a
Fernando de Noronha (ou Fernão de Loronha), associado a mercadores judeus, e durou até
1504, havendo relatos de que tenha sido renovada (SIMONSEN, 1978).
O Monopólio colonial era um dos principais fundamentos do mercantilismo, que
fundamentalmente era constituído de três pontos: a. toda exportação era dirigida
exclusivamente à metrópole; b. toda importação da colônia só poderia ser feita através da
metrópole e c. os transportes entre a metrópole e a colônia eram exclusividade dos navios
do país colonizador.
Outra forma de controlar o comércio externo era o estabelecimento de monopólios
de exploração de determinada atividade ou de uma determinada região.Esse monopólio
poderia ser exercido diretamente pelo governo ou entregue a Companhias de Comércio que
o exerceriam mediante concessão do Estado Em Portugal, a Casa da Mina, controlava o
monopólio de metais preciosos e a Companhia das Índias, o comércio de especiarias. Os
monopólios de exploração eram muitas vezes entregues a companhias de comércio que
contribuíram enormemente com a expansão colonial das potências européias.
De modo geral, aquele que estivesse interessado em abrir um negócio comprava do
Estado a autorização, este em compensação lhe concedia o monopólio do exercício da
atividade, produto ou da exploração de uma determinada região.

3.4.6 - O Colonialismo
Um aspecto essencial da política econômica mercantilista foi à conquista e a
exploração das colônias, que foram controladas através de uma relação de domínio político
e econômico exercido pelas metrópoles européias. Esta relação, conhecida como Pacto
colonial, tinha uma regra básica, que consistia em que a colônia só podia produzir aquilo que
fosse autorizado pela metrópole, e só poderia vender seus produtos a ela, a preços sempre

33
baixos, para que fossem revendidos a outros países com grande margem de lucro. A função
das regiões colonizadas era exclusivamente servir ao enriquecimento da metrópole, sua
exploração era organizada através do monopólio, constituindo-se numa região onde a
potência colonial européia detém a exclusividade dessa exploração.
Para garantir os resultados a Metrópole,
“...se arroga em monopolizadora das compras e vendas dos produtos de sua colônia, o que significa
que todas as exportações da colônia se destinam à Metrópole e todas a importações da colônia provêm da
Metrópole. E, para assegurar integralmente a aplicação desses dois monopólios, a Metrópole reserva a si
também o monopólio dos transportes: somente seus navios têm o direito de realizar o comércio com a colônia,
salvo exceções autorizadas e controladas pelo país colonizador”.(Hugon, 1980:79)
A vida econômica das colônias era organizada em função dos interesses da
metrópole, não podendo, por exemplo, desenvolver uma produção voltada para as suas
necessidades internas. Sua economia deveria ser sempre complementar e jamais concorrer
com a atividade econômica da metrópole, a existência de manufaturas, por exemplo, eram
rigorosamente proibidas. As colônias serviam de mercados fornecedores de matérias-primas
a baixíssimo custo para as metrópoles, funcionando também como mercados consumidores
de suas exportações de produtos manufaturados. Em sua essência a política mercantilista
em relação às colônias lhes reserva o papel de fonte de matéria prima e de metais preciosos,
num segundo momento, tornam-se mercados consumidores de produtos manufaturados na
metrópole.
Segundo HUGON(1980:78),
“A política colonial desta época é uma conseqüência lógica do mercantilismo, dele se deduzindo
integralmente. E nos territórios longínquos, subjugados e dependentes, sem possibilidade de tomar medidas de
represálias econômicas, o caráter unilateral da política comercial do mercantilismo encontrará ambiente
favorável ao seu desenvolvimento. É aí que ele aparece, tal como através de uma lente de aumento, em toda a
sua amplitude; é aí que ele é mais nítido e, muitas vezes também, mais brutal”

Um bom exemplo da política colonial mercantilista pode ser observado pelo fluxo
comercial entre o Brasil colonial e a metrópole, nos séculos XVI e XVII. Nesse período a
produção brasileira de açúcar superou o que era produzido pelas ilhas portuguesas no
Atlântico até então, principalmente, pela implantação de um novo modelo de produção
baseado num sistema empresarial, onde a "escala de produção e de investimento no trabalho escravo,
bens de capital e facilidades de transporte aumentou de forma tão marcante" a produtividade agrícola.
(FRANK, 1977:83).
O comércio brasileiro no período caracterizou-se por exportação de açúcar, pau-
brasil, algumas especiarias ( como o gengibre), mel e cera ( produtos do sertão) e tabaco. Da
Europa eram importados produtos manufaturados, alimento, sal e vinho; do rio da Prata
chegam couros e prata obtida de modo geral com a troca por escravos; quando aportam
navios da Ásia nas costas brasileiras chegam sedas e artigos de luxo.
Do ponto de vista econômico e social esse período, conhecido como ciclo do açúcar,
foi fundamental para a consolidação da ocupação do Brasil e sua inserção definitiva no
comercio mundial. Numa época em que era o mais importante artigo do escambo marítimo
internacional, o açúcar brasileiro dominou o comércio do produto entre 1600 e 1700. A
plantação de cana-de-açúcar provocou a fixação do europeu no Brasil e a formação dos
primeiros capitais, contribuiu definitivamente para a caracterização de um tipo de população
com a importação de escravos negros para trabalharem na lavoura. A população brasileira
em 1600 estava por volta de 100.000 habitantes, dos quais 30.000 de raça branca, em 1700
entre colonos e homens livres haviam por volta de 200.000 indivíduos (SIMONSEN, 1978).
No século XVII o açúcar constituía o eixo central de seu comércio, tudo girava em
torno dele, não só estimulou outras atividades acessórias, como também encorajou a
ampliação de negócios complementares. O mais importante deles foi o comércio de escravos,

34
o segundo foi fornecer dinheiro para incrementar as transações, na forma de moedas de
prata. Essas duas mercadorias dominaram o comércio Triangular - Portugal, África, Brasil -
que ligava essas três regiões por volta de 1570 e 1630. No Brasil se comercializava: objetos
religiosos, lâmpadas e candeeiros de latão e de vidro, cintos, vestuário, vinho, azeite, vinagre,
farinha de trigo, sal, camas, ferramentas, utensílios e panelas de cobre, especiarias e moedas
( JOHNSON, 1992).
A rota triangular desenvolvia-se, por exemplo, com navios saindo de Lisboa
transportando vestuário, outros produtos têxteis, quinquilharias, frutas secas, vinagre, vinho,
azeitonas, etc. que se destinavam a África. Em Cabo Verde ou em São Tomé esses artigos
eram trocados por escravos levados para o Brasil para venda, juntamente com o que restava
dos artigos europeus. Do Brasil se levava principalmente açúcar, couros e pau-brasil. Às
vezes havia uma mudança nesse circuito, quando um barco que saísse de Lisboa vinha
primeiro para o Rio de Janeiro receber um carregamento de mandioca para transportar para
a África e, de regresso levar escravos para a Bahia ou para o Recife. Para a África era levada
do Brasil ainda a farinha de trigo, a cachaça e mais tarde o tabaco.

3.5 - As modalidades do mercantilismo


Cada país europeu adotou um tipo de mercantilismo devido às características
peculiares do seu desenvolvimento histórico e particularmente em função dos recursos
naturais. Deste modo, identificamos o mercantilismo: espanhol ou bulionismo, o francês ou
colbertismo, o inglês, o holandês, e o francês. Privilegiamos aqui os tipos de mercantilismo
que tiveram de uma ou outra forma importância na história da formação do Brasil.
3.5.1 - O mercantilismo espanhol
Os espanhóis praticaram a forma clássica de mercantilismo, o bulionismo. Como
controlavam colônias produtoras de metais preciosos na América, os espanhóis podiam
importar todos os alimentos e artigos manufaturados que desejassem dos países estrangeiros,
pois mantinham sua balança comercial favorável, na medida em que tinham as minas que
produziam o ouro e a prata. Esta política comercial, no longo prazo, impediu o crescimento
de uma produção agrícola e industrial própria, favorecendo outros países que se organizaram
de maneira a obter os metais preciosos da Espanha através do comércio, e mesmo da pirataria
pura e simplesmente (FALCON, 1990). Dito de outro modo, podemos afirmar que a
Espanha explorou suas colônias mas não se beneficiou dessa exploração.
Com a abundância dos metais preciosos na Espanha havia um excesso de empregos
improdutivos isentos de impostos: no serviço público, clero e outros; que oneravam o
tesouro real, juntamente com os gastos voltados para os esforços de guerra. Esse quadro
tornou-se insustentável com a queda da produção das minas no novo mundo, contribuindo
para a decadência do poderio espanhol no século XVII.

3.5.2 - O mercantilismo francês


O mercantilismo francês foi muito diferente do espanhol, na medida em que a França
não possuía minas de ouro ou prata, e que para obtê-los deveria recorrer ao mercado externo.
Desse modo, a economia francesa desenvolveu suas manufaturas de luxo para atender o
mercado existente na Espanha, onde obtinha os metais preciosos de que necessitava, e ao
mesmo tempo expandiu as companhias de comércio e a construção naval32. Por isso o
mercantilismo francês é associado a um mercantilismo de tipo industrial.

32 De modo geral o mercado consumidor da época praticamente se limitava aos nobres e burgueses,
consumidores de tecidos finos, especiarias orientais, perfumes exóticos, vinhos, porcelanas e jóias de todo tipo.
Um produto bastante consumido nesse período eram as escarradeiras de ouro. A grande importância dada pelos
mercantilistas às manufaturas de luxo, também, era devido à crença de que esses produtos,por serem mais caros,
proporcionavam maior riqueza.

35
A política de desenvolvimento das manufaturas foi desenvolvida por Jean Baptiste
Colbert ( 1619-1683), ministro de Luis XIV, que implementou uma política de
industrialização, geradora de produtos exportáveis e que seriam pagos em ouro e prata.
Devido ao sucesso dessa política o mercantilismo francês também é conhecido por
colbertismo. Colbert pertencia a uma família de comerciantes têxteis o que pode explicar sua
tendência a um fortalecimento das manufaturas.
Foi com Colbert que o mercantilismo desenvolveu regras mais rigorosas e
sistemáticas. Procurou melhorar a economia francesa através da severa intervenção estatal,
protegendo e estimulando as atividades econômicas em geral e as indústrias em particular.
Abolição de impostos aduaneiros internos, regulamentos para a produção de artigos de luxo,
proteção à construção naval, privilégios fiscais e monopólios, elevação de impostos de
importação e o restabelecimento de antigas manufaturas foram algumas das medidas
tomadas e que tornaram a França, durante o período, famosa pela produção de artigos de
luxo.
Como ministro das finanças, Cobert construiu uma marinha mercante e uma marinha
de guerra. Foram melhoradas as instalações portuárias para facilitar o movimento das
mercadorias. Promoveu as companhias comerciais coroadas de êxito e expandiu o império e
o comércio colonial tornando-o monopólio do Estado.(Bell, 1982).

3.5.3 - O mercantilismo inglês


Na Inglaterra desenvolveu-se o mercantilismo comercial, pois os ingleses não possuíam
um grande império colonial e suas manufaturas não conseguiam competir com a indústria
francesa, que estava consolidada há mais tempo. Os mercantilistas ingleses defendiam que se
podiam fazer importações de produtos baratos, transformá-los, tornando-os mais caros, e
revendendo-os a um preço mais elevado, obtendo-se deste modo maiores quantidades de
ouro e prata. O incremento desta atividade por sua vez, incrementaria o comércio exterior,
favorecendo ainda mais a captação de ouro e prata. Incentivavam a construção naval e a
formação de grandes companhias de comércio, com privilégios concedidos pelo Estado. São
exemplos dessas companhias: Os Mercadores Aventureiros, a Companhia Inglesa das Índias
Orientais, a Companhia de Moscovia, a Companhia do Levante etc.
Os atos de navegação foram importantes instrumentos da prática mercantilista
inglesa. O primeiro Ato de Navegação foi decretado no ano de 1651 com o objetivo de
proteger suas atividades comerciais. Em essência o ato dizia que as mercadorias importadas
de outros países só poderiam ser transportadas em navios ingleses ou do país de origem; do
mesmo modo os produtos da Ásia, da América ou da África não podiam ser importados
senão pela marinha britânica ou colonial. Anos mais tarde, em 1660, é decretado o 2o. Ato
de Navegação, que estipulava que o capitão e pelo menos ¾ da tripulação deveriam ser
ingleses. Medidas estas tomadas para se evitar fraudes segundo DEYON(1985:33).
No final do século XVII, com a descoberta de ouro no Brasil, no atual Estado de
Minas Gerais, a Inglaterra viabiliza um tratado comercial com Portugal, denominado Tratado
de Methuen,celebrado em 1703, no qual os ingleses concediam facilidades alfandegárias para
que os lusitanos exportassem vinho para a Inglaterra, e em troca receberiam facilidades para
exportarem tecidos para os portugueses(SODRÉ, 1957). Com a venda de têxteis para
Portugal, a Inglaterra conseguia vencer a barreira à importação desses produtos, que seriam
pagos em ouro. O afluxo de ouro para a Inglaterra foi de tal maneira volumoso que
influenciou enormemente o aceleramento do início da revolução industrial inglesa no século
XVIII. Deve-se destacar que o Tratado de Methuen só favorecia a Inglaterra, pois os vinhos
deveriam ser importados de qualquer modo, pois os ingleses não possuíam solo, nem clima
favorável à sua produção. Ao passo que para Portugal o tratado impediu o desenvolvimento
de uma política industrial consistente. A partir daí em todo o território português os tecidos

36
vendidos eram os ingleses, que eram pagos em ouro. Nas próprias Minas Gerais, as roupas
que os comerciantes, escravos e mascates trajavam eram as inglesas.

3.5.4 - O mercantilismo holandês


O mercantilismo das Províncias Unidas (Holanda) apresentava características
bastante diferentes dos demais praticados pelos outros países europeus. Em primeiro lugar,
diferentemente dos outros Estados, a burguesia flamenca controlava diretamente o Estado
sem intermediação de um Rei e em segundo lugar, desenvolveram profundamente tanto o
aspecto comercial quanto o industrial. Deste modo o mercantilismo holandês pode ser
caracterizado como comercial e industrial ao mesmo tempo. Os holandeses formaram
poderosas Companhias de Comércio, desenvolveram a indústria naval e controlavam de
forma quase absoluta o comércio marítimo internacional no século XVI. Possuíam
numerosas refinarias de açúcar o que lhes permitiu monopolizar a distribuição de açúcar no
norte da Europa. As Companhias de Comércio, eram apoiadas pelo Estado de tal modo que
muitos membros do governo eram membros das direções destas empresas. Foi criado o
Banco de Amsterdã com o objetivo de dar suporte às empreitadas dessas companhias,
particularmente, nos mercados de especiarias do oriente.

3.5.5 - O mercantilismo português


Entre todos os países europeus foi em Portugal onde se desenvolveu com
maior flexibilidade a política mercantilista. Sendo um dos primeiros países europeus a
constituir um Estado centralizado, e onde havia uma burguesia mercantil associada a este
Estado, Portugal antecipou a prática mercantilista que seria dominante a partir do século
XVI. Já no século XV, o metalismo era praticado pelos portugueses devido ao seu controle
sobre as minas de ouro no oeste africano. No século XVI, com a descoberta de um novo
caminho para as Índias, o declínio da exploração de ouro na África, e com os enormes lucros
obtidos com as especiarias, desenvolveu-se o mercantilismo comercial com a compra de
especiarias a baixo preço no Oriente e a revenda em Lisboa. Com o aumento da concorrência
no Oriente, diminuindo a lucratividade do negócio, os portugueses concentraram sua atenção
no Brasil onde desenvolveram a prática do monopólio da produção e comercialização do
açúcar.

3.5.6 - O mercantilismo alemão ou Cameralismo


O mercantilismo adotado pelos alemães e austríacos é conhecido como Cameralismo,
e se tornou o termo aplicado a todo o conjunto de práticas políticas e econômicas adotados
pelas monarquias absolutistas nesses Estados.
A origem do termo esta associada à Kammer ( do latim, câmera, ou câmara) que na
Idade Média era o local onde era guardado o tesouro real. Assim Kammer tornou-se um termo
associado ou sinônimo de prosperidade, tesouro ou rendas reais e até mesmo de um
procedimento governamental sistematizado. Durante a maior parte do período do
Cameralismo, foi empregado todo elemento que pudesse ter significação para a formação do
Estado. Em seu âmbito foram incorporadas as orientações políticas, medidas tributárias, leis
reguladoras, medidas técnicas relativas à produção, venda e distribuição de mercadorias, bem
como políticas econômicas gerais. Todas essas medidas visavam ao mesmo fim que o
mercantilismo, ou seja , o aumento do poder do Estado.(Bell,1982).
O Cameralismo de todos os tipos de mercantilismo é mais fortemente caracterizado
como fundamentalmente uma política. Foi primordialmente uma teoria e uma técnica de
governo, que necessariamente tratou de alguns problemas econômicos.

37
O Cameralismo atuou fundamentalmente em torno dos propósitos e objetivos do
Estado, os que escreveram sobre o assunto na época estavam tão subordinados aos interesses
do Estado, quanto os próprios funcionários públicos. Segundo Bell(1982:106)
“O Cameralismo assentou na hipótese fundamental do poder dos interesses coletivos, ou na
subordinação dos interesses individuais aos da comunidade ou Estado. Esse conceito de relação entre indivíduo
e Estado, que se assemelha à relação entre um sargento instrutor e um recruta,não se encaixa em nossos
conceitos de liberdade ou de função do Estado. No entanto, foi isso o que prevaleceu durante quase trezentos
anos e constituiu, de fato, um dos mais importantes fatores condicionadores que afetaram o desenvolvimento
alemão subseqüente”.

3.6 – o Significado do Mercantilismo


O mercantilismo estabeleceu as bases de funcionamento do relacionamento entre as
nações num período de formação do Estado Nacional. O relacionamento comercial entre
diferentes países se baseia hoje em dia nos princípios estabelecidos pelos mercantilistas,
muitas de suas definições, conceitos e formulações permanecem profundamente atuais, e
muitos de seus programas de governo, poderiam servir para o incremento do comercio
exterior de muitas nações ainda hoje.
Por outro lado, o mercantilismo cumpriu um importante papel na consolidação de
uma economia mundial, e na criação e fortalecimento dos Estados nacionais para citar apenas
dois aspectos que refletem na atual realidade global. O período mercantilista caracterizou-se
como uma Revolução Comercial que integrou a América, África e Ásia nos marcos do
sistema econômico europeu. Nesse período desenvolveu-se a navegação no Oceano
Atlântico, a produção manufatureira consolidou-se, aumentou a circulação de moedas e
mercadorias, ampliaram-se as operações financeiras – crédito, seguros e outras - . A
agricultura aumentou sua produtividade, a mineração intensificou-se, cresceu a metalurgia,
desenvolveu-se a navegação por todo o globo e a divisão técnica do trabalho se aprofundou
promovendo uma grande acumulação de capital que favoreceu o surgimento da Revolução
Industrial que ocorreu a partir da segunda metade do século XVIII inicialmente na Inglaterra.
Esse período que tem seus marcos no final do século XV e vai até meados do século
XVIII é considerado revolucionário pelas profundas transformações que promoveu na
sociedade da época e que se refletem até os dias atuais. Para os brasileiros em particular, o
estudo e o conhecimento do mercantilismo é extremamente importante, pois o Brasil viveu
a maior parte de sua história sob as práticas políticas mercantilistas, sofrendo influências
diretas e indiretas de mais de uma potência colonial, cumprindo um papel significativo no
processo de acumulação européia que antecedeu a criação e consolidação do capitalismo
como sistema econômico dominante.

4 - A Escola Clássica - I

A escola clássica, cujos principais representantes são Adam Smith, Ricardo, Malthus e John
Stuart Mill, só podem ser compreendidos se levarmos em conta as condições institucionais
e históricas em que nasceu. Os clássicos sucedem aos mercantilistas e fisiocratas,
representantes de duas correntes anteriores que, por não apresentarem um corpo doutrinário

38
completo e coerente, não constituíram escolas. Esta divisão é arbitrária. Sob outros critérios,
os fisiocratas, pelo menos, poderiam ser considerados como a primeira escola de economia.
Na época dos clássicos, a importância crescente da indústria colocava fora de moda a visão
naturista (fisis = natureza) dos fisiocratas. E a necessidade de maior liberdade comercial,
bem como de uma força de trabalho dotada de maior mobilidade, mostravam que o excesso
de regulamentação e intervenção governamental, preconizado pelos mercantilistas, já não se
ajustava às necessidades da expansão econômica. Estas duas correntes estavam sendo
ultrapassadas pelos fatos. Para os fisiocratas, a verdadeira riqueza das nações estava na
agricultura. Num mundo essencialmente agrícola e constantemente ameaçado pela falta de
alimentos, isto não nos deve causar admiração. Só a terra tinha a capacidade de multiplicar a
riqueza. Um grão de milho germina, cresce e produz espigas com centenas de grãos. Só a
natureza (fisis em grego significa natureza e crátein significa dominar) é capaz do milagre
da criação. A indústria raciocinava, os fisiocratas, não cria. Apenas transforma insumos em
produtos. Os fisiocratas não levaram a sério o fato de a produtividade não ser apenas
conseqüência da natureza. O arado, o trator, os fertilizantes e a genética (produtos da
indústria) podem quadruplicar uma colheita. Isto está claro para nós, hoje, mas não foi objeto
de um estudo atento por parte dos fisiocratas.
Os mercantilistas, por seu lado, preocupavam-se, sobretudo com a política econômica, com
saldos favoráveis na balança comercial, com o estoque de metais preciosos e com o poder
do Estado. O Estado seria tanto mais forte quanto maior fosse seu estoque de metais
preciosos. Para alcançar isto, ele deveria restringir as importações e estimular as exportações.
Mas esta é uma política inconseqüente. Se todos os países restringirem suas importações,
quem conseguirá exportar? As importações de um são as exportações do outro. Não podia
dar outra coisa. A política mercantilista exacerbou o nacionalismo, estimulou as guerras e
uma maior presença do Estado nos assuntos econômicos. Daí a necessidade imperiosa de
regulamentações.
Sem levarmos em conta este contexto, não compreenderemos a obra dos clássicos. Eles
estavam combatendo estas correntes já ultrapassadas pelos fatos e procurando explicar a seus
contemporâneos o mundo novo que estava nascendo. Estas são as condições institucionais
e históricas de que falamos no início deste trabalho.
Pode parecer arbitrário atribuir o mesmo rótulo a autores com idéias e posições tão diversas
como, por exemplo, Ricardo e seu amigo Thomas Malthus. Mas as discordâncias dos autores
clássicos giravam em torno das mesmas preocupações fundamentais. A abordagem que
adotavam era também muito semelhante. São as preocupações fundamentais e o tipo de
abordagem dos problemas que definem a escola.
Quais seriam essas preocupações? Em outras palavras, quais os temas centrais da escola
clássica?
A preocupação central de todos os autores clássicos é o crescimento econômico no longo
prazo e o modo como a distribuição da renda entre as diversas classes sociais influencia este
crescimento.
Modernamente poderíamos dizer que os clássicos estavam preocupados com uma teoria do
crescimento econômico. O crescimento se dá graças à acumulação do capital.
Como devemos entender a inter-relação entre crescimento econômico e classes sociais?
Antes de entrarmos neste assunto, vamos preparar o terreno. A teoria neoclássica, que é o
paradigma predominante hoje, nas escolas de economia do Brasil, eliminou de seu campo de
preocupações a questão das classes sociais. Natura abhorret vacuum (a natureza tem horror
ao vácuo) - diziam os físicos pré-newtonianos. O mesmo se pode dizer da teoria neoclássica
com relação às classes: ela tem horror a este tema. No entanto, não poderemos entender nem
os fisiocratas nem os clássicos se deixarmos de lado as classes sociais. Para os fisiocratas, a
sociedade dividia-se em camponeses, latifundiários e artesãos. Para os clássicos, em
trabalhadores, latifundiários e capitalistas. Cada uma dessas classes aufere determinada renda.

39
Parte dessa renda é consumida no sustento dos trabalhadores e das demais classes sociais. A
parte restante estará nas mãos dos capitalistas e dos latifundiários, porque os trabalhadores
destinam toda sua renda à subsistência. Os latifundiários, com seu consumo supérfluo, ao
desviarem parte da renda para si, diminuem o excedente econômico a ser reinvestido. O
comportamento desta classe cria obstáculos ao crescimento econômico, porque ela não se
preocupa com a acumulação. Os capitalistas, por seu lado, têm a função de acumular. Eles
estão sempre procurando reinvestir o excedente e criam, assim, as bases da expansão
econômica. Daí seu papel dinâmico e revolucionário para a época.
A visão que acabamos de apresentar é esquemática e simplificadora. Nem todos os clássicos
tinham esta visão do processo econômico. Thomas Malthus, por exemplo, justificava o
consumo supérfluo dos proprietários de terra (latifundiários) como sendo necessário para
evitar a superprodução. Embora a argumentação de Malthus não tenha sido convincente, foi
seguindo esta linha de raciocínio que ele se afastou da "lei de Say" e tornou-se um dos
precursores do princípio da demanda efetiva, mais tarde brilhantemente defendido por John
M. Keynes. O próprio Keynes dirá que a história do capitalismo teria sido outra se esta linha
de raciocínio tivesse prevalecido sobre a linha de Ricardo, que aceitara a "lei de Say"'.
A “Lei de Say” estabelece que "quando um produtor vende seu produto, o dinheiro que obtém com essa
venda está sendo gasto com a mesma vontade da venda de seu produto resumindo: a oferta de um
produto gera sua própria demanda (e de outros produtos). Pela teoria de Say, não
existem as chamadas crises de "super-produção geral", uma vez que tudo o que é produzido
pode ser consumido já que a demanda de um bem é determinada pela oferta de outros bens,
de forma que a oferta agregada é sempre igual a demanda agregada. Say aceitava ser possível
que certos sectores da economia tivessem relativa superprodução em relação aos outros
setores, que sofressem de relativa sub-produção. A lei de Say deve o seu nome a Jean-Baptiste
Say (1767-1832),

Já, Karl Marx atacará Malthus, por ver nele um dos defensores das classes improdutivas.
Pelo que acabamos de apresentar, você já pode perceber que os pontos de vista dos diversos
autores estão condicionados por sua visão do mundo, isto é, por aquilo que designamos
como ideologia ou utopia.
Mencionamos poucas linhas atrás, o termo improdutivo. Para os clássicos, algumas classes
sociais eram improdutivas, outras produtivas. Trata-se de um conceito importante entre eles,
pois procuravam uma teoria da criação de riquezas. Também os fisiocratas33 empregavam
os termos produtivo e improdutivo para analisar a realidade econômica. Para estes últimos
todas as classes eram improdutivas menos os agricultores. Os clássicos herdaram a
33Fisiocracia = No século XVIII, uma escola de pensamento francesa, a Fisiocracia, elaborou alguns trabalhos
importantes. Os Fisiocratas sustentavam que a terra era a única fonte de riqueza e que havia uma ordem natural
que fazia com que o universo fosse regido por leis naturais, absolutas, imutáveis e universais, desejadas pela
Providência Divina para a felicidade dos homens. O trabalho de maior destaque foi o do Dr. François Quesnay,
autor da obra “Tableau Economique”, o primeiro a dividir a economia em setores, mostrando a interrelação dos
mesmos. Apesar de os trabalhos dos fisiocratas estarem permeados de considerações éticas foi grande sua
contribuição à análise econômica.
O Tableau Economique foi aperfeiçoado e transformou-se no sistema de circulação monetária input-output criado
no século XX (+/- anos 40) pelo economista russo naturalizado americano Wassaly Leontief, da Universidade
de Harvard.
Na verdade a Fisiocracia surgiu como reação ao mercantilismo. Ela sugeria que seria desnecessária a
regulamentação governamental, pois a lei da natureza era suprema, e tudo o que fosse contra ela seria derrotado.
A função do soberano era servir de intermediário para que as leis da natureza fossem cumpridas.
Para os Fisiocratas, a riqueza consistia em bens produzidos com a ajuda da natureza, (fisiocracia, significa
“regras da natureza”) em atividades econômicas como a lavoura, a pessoa e a mineração. Portanto, encorajava-
se a agricultura e exigia-se que as pessoas empenhadas no comércio e nas finanças fossem reduzidas ao menor
número possível. Em um mundo, constantemente ameaçado pela falta de alimentos, com excesso de
regulamentação e intervenção governamental a situação não se ajustava Às necessidades da expansão
econômica. Só a terra tinha a capacidade de multiplicar a riqueza.

40
terminologia dos fisiocratas, mas alteraram-lhe o conteúdo. Para eles, trabalhadores
produtivos eram todos aqueles que criavam a riqueza material da nação. Os demais
trabalhadores eram considerados improdutivos. Por exemplo, todos os trabalhadores do
setor serviços como médicos, advogados, sacerdotes, professores, intelectuais etc. caíam
nesta última categoria. Mas atenção! Trabalho improdutivo não significa trabalho
desnecessário ou inútil. Alguns destes trabalhos são essenciais e eram tidos como tais pelos
clássicos. Os termos produtivo e improdutivo não trazem em si um julgamento de valor nem
conotação negativa, como um leitor menos avisado poderia supor. São categorias para a
análise da realidade econômica. Para explicar o crescimento econômico eles foram obrigados
a criar um instrumental analítico que lhes permitisse o exame da realidade. Outro conceito
(intimamente relacionado com os anteriores) essencial na teoria clássica é o de excedente
econômico, ao qual já aludimos. E o destino do excedente que definirá o ritmo da
acumulação. Imagine o leitor determinado nível de excedente econômico num dado período
de tempo. Suponha dois cenários: num deles o excedente fica nas mãos dos latifundiários e
é gasto no consumo supérfluo. Este destino do excedente cria obstáculos para o crescimento.
No segundo cenário, o excedente cai nas mãos dos capitalistas que o reinvestem. Neste
segundo caso, ele entra no circuito da criação de riquezas. Não é sem razão que Adam Smith
se torna um defensor fervoroso da frugalidade34.
É interessante notar que a escola neoclássica (posterior) deixará de lado por completo o
conceito de excedente. Em parte, porque a preocupação neoclássica é a alocação ótima dos
recursos e não o crescimento e, em parte também, devido ao potencial explosivo que este
conceito traz para o campo da economia. O estudo da criação e apropriação do excedente
pelas diversas classes toca em pontos delicados da organização social. Tal estudo obrigaria a
uma análise mais profunda dos critérios pelos quais o produto social se divide entre as
diversas classes. Num momento em que o capitalismo experimenta enorme êxito e os
capitalistas se firmam como classe dominante, não é difícil entender que tal tarefa seria
desagradável. Tanto mais que as contestações já eram fortes por parte do operariado. Joan
Robinson, ao analisar o declínio da escola clássica por volta de 1860-70, atribui este declínio
a duas causas: uma teórica e outra ideológica. São elas:
• a incapacidade de dar resposta satisfatória a alguns problemas importantes no
campo teórico;
• a não-adequação das explicações clássicas aos interesses da classe então dominante.

Em que sentido deveu entender esta última afirmação? No sentido de que a organização
produtiva e social da época estava possibilitando grande crescimento econômico. A máquina
de geração de riqueza funcionava bem. Uma análise do tipo clássico (preocupada com a
distribuição do produto entre as classes e com o papel de cada classe na geração da riqueza)
chamaria a atenção para os pontos fracos do sistema e mostraria o poder oculto atrás da
organização, revelando a classe à qual este poder estava beneficiando. Revelaria também o
processo de transferência de renda de uma classe para outra. Isto não era conveniente.
Poderia dar argumentos mais sólidos à contestação que já lavrava no seio da sociedade.
Todos nós sabemos que uma das estratégias de qualquer sistema de poder é manifestar-se
como não sendo poder. O autoritarismo é o grande inimigo da autoridade.
Outro ponto importante: os clássicos irão considerar a ciência econômica como um sistema
regido por leis naturais às quais cabe obedecer. Estas leis levariam o sistema ao equilíbrio e à
auto-regulação. As conseqüências deste enfoque são importantes. Primeiro, se o sistema é
capaz de auto-regulação, a interação entre as diversas forças econômicas deve levá-lo a uma
situação ideal e à harmonia entre as classes, desde que não haja interferências estranhas. Daí
a política do laissez-faire. Esta expressão significa não-intervenção do Estado nas leis
do mercado. A grande maioria dos clássicos (salvo Ricardo e poucos mais) viam harmonia
34 Frugalidade, fru.ga.li.da.de = sf (lat frugalitate) 1 Qualidade de frugal. 2 Temperança

41
de interesses entre as diversas classes sociais e, portanto, não viam com bons olhos a ação
governamental em favor dos pobres ou dos operários. Se o mundo ainda não era o melhor
dos mundos, se a situação social era das piores, tal fato devia-se às intervenções e
regulamentações governamentais que impediam o pleno funcionamento do sistema.
A situação social da maioria da população era calamitosa. Qualquer viajante de um país
industrial moderno que passasse pela Inglaterra entre 1770 e 1830 ficaria chocado com a
miséria, a subnutrição e a exploração do operariado. A jornada de trabalho podia chegar a
mais de 14 horas diárias. Crianças e mulheres eram obrigadas a trabalhar em condições sub-
humanas. As crianças, às vezes, eram amarradas às máquinas para não fugirem. As condições
de higiene também eram péssimas e os costumes brutais. Não é de se admirar que a
mortalidade infantil fosse elevada. Existiam mulheres que haviam tido 20 filhos e todos
haviam morrido. A sorte era muito desigual para as diversas classes sociais. Este era o preço
que a sociedade estava pagando pela acumulação.

Um mundo novo nascia, cheio de contrastes, promessas e pesadelos. Resumindo as


principais características da escola clássica:
• preocupação com o crescimento econômico no longo prazo;
• preocupação com o destino do excedente e com o modo pelo qual a sua divisão
entre as classes afeta o crescimento;
• afirmação de que a economia é regida por leis naturais. Auto-reguladoras que levam
à harmonia social. Portanto, não há necessidade de intervenção do Estado nas leis do
mercado (laissez-faire)35.
5 - A Escola Clássica – II
5.1 - Adam Smith (1723 – 1790)
Adam Smith nasceu em Kircaldy na Escócia, cidade com cerca de 1.500 habitantes. O pai
morrera antes do nascimento do filho. Aos 4 anos o menino foi seqüestrado por um bando
de ciganos e só foi libertado graças aos esforços de um tio. Smith nunca se casou e viveu
quase toda sua vida junto à mãe. Às vezes esta permanência junto à mãe era interrompida
por viagens de trabalho ou de estudo, mas ele sempre voltava à casa materna ou pedia que a
mãe o acompanhasse.
Aos 14 anos, Adam Smith entrou para a Universidade de Glasgow, onde se destacou como
aluno brilhante. O professor que mais o influenciou em Glasgow foi Francis Hutcheson,
livre-pensador cujas opiniões se chocavam com as idéias da época. Hutcheson tinha visão
naturalista das questões morais e era firme adepto da liberdade política e religiosa.
Em 1740, com 17 anos, ganha uma bolsa de estudos para o Balliol College de Oxford.
Permanecendo seis anos nesta universidade. Não se dá bem em Oxford. O ambiente era

35 Laissez-faire é parte da expressão em língua francesa "laissez faire, laissez aller, laissez passer", que significa
literalmente "deixai fazer, deixai ir, deixai passar". Esta frase é legendariamente atribuída ao comerciante
Legendre, que a teria pronunciado numa reunião com Colbert, no final do século XVII (Que faut-il faire pour
vous aider? perguntou Colbert. Nous laisser faire, teria respondido Legendre). Mas não resta dúvida que o primeiro
autor a usar a frase laissez-faire, numa associação clara com sua doutrina, foi o Marquês de Argenson por volta
de 1751. [1] . A expressão refere-se a uma filosofia econômica que surgiu no século XVIII, que
defendia a existencia de mercado livre nas trocas comerciais internacionais, ao contrário do forte
protecionismo baseado em elevadas tarifas alfandegárias que se sentia na altura.
Segundo esta teoria, que teve em Adam Smith um dos seus principais defensores, o comércio
internacional sem impostos tem maiores benefícios para as nações envolvidas, do que a protecção
da produção nacional face às importações de bens.
O laissez faire tornou-se o chavão do liberalismo na versão mais pura de capitalismo de que
o mercado deve funcionar livremente, sem interferência. Esta filosofia tornou-se dominante
nos Estados Unidos e nos países ricos da Europa durante o final do século XIX até o início
do século XX.

42
ruim, pelo menos para ele, e não encontrou estímulo junto aos professores. Passou este
período devorando livros, mas sem orientação. Uma prova de que a linha' pedagógica de
Oxford, na época, era obscurantista e fechada é que Adam Smith quase foi expulso da
universidade por terem encontrado em seu quarto o Tratado da natureza humana de
David Hume36.
Cinco anos após deixar Oxford, assume a cadeira de Lógica em Glasgow. No ano seguinte,
assume a cadeira de Filosofia Moral deixada por Hutcheson, seu antigo mestre. O campo da
Filosofia Moral era vasto e compreendia disciplinas como Teologia Natural, Ética,
Jurisprudência e Economia Política. Só um espírito enciclopédico como o de Smith mover-
se-ia com facilidade neste vasto campo. Smith ocupa esta cadeira de modo ininterrupto até
1762 ou 1764. Há discordância entre os autores sobre estas duas datas.
Em 1759 publica a Teoria dos sentimentos morais e ganha reputação nos meios
acadêmicos. A partir desse momento será olhado com outros olhos. O próprio Charles
Townshend, homem eminente da época e, mais tarde, ministro das finanças da Inglaterra,
ofereceu-lhe a tutoria de seu enteado, o duque de Buccleugh. Adam Smith aceita a proposta
e parte com o duque para a França. A tutoria era uma espécie de curso universitário informal
na Inglaterra daquela época. Os membros da nobreza (após fazerem o secundário) podiam
optar por este curso que era feito sob a orientação de um mestre eminente e em viagens por
vários países. Os tutores eram muito bem remunerados. Após a tutoria, que durava cerca de
dois anos, eles geralmente recebiam uma pensão vitalícia. A oferta feita a Adam Smith foi de
300 libras anuais, quantia muito superior às 170 libras anuais, salário máximo que conseguira
em Glasgow.
A viagem à França abriu-lhe novos horizontes intelectuais. Aí, ele entrou em contato com os
princípios fisiocráticos e com alguns de seus representantes mais eminentes, como Turgot e
François Quesnay. Para ele, até o momento, o sistema fisiocrático era a maior aproximação
da verdade em Economia Política. É evidente que Smith via limitações neste sistema e
sonhava com um sistema mais completo. Um espírito nascido na Inglaterra de então,
profundamente agitada pelo ímpeto da industrialização, não poderia aceitar a agricultura
como a única fonte de riqueza. Smith, como os demais clássicos, levará em conta a
agricultura, a indústria e o comércio. Mas muita coisa ele aprendeu junto aos fisiocratas. Um
dos pontos em que Smith mais aplaudiu estes últimos foi a condenação radical que eles
faziam da política mercantilista.
A admiração de Adam Smith por François Quesnay era enorme. Tão grande que ele
pretendia dedicar-lhe sua obra máxima. Quesnay morreu antes que Smith a tivesse
terminado.
Foi também na França que, dispondo de muito tempo livre, empreendeu a enorme tarefa de
escrever A Riqueza das Nações ou, no seu título mais completo, Uma indagação sobre a
natureza e as causas da riqueza das nações. O livro saiu pela primeira vez em 1776, muito
tempo depois de ter sido iniciado. De início, não teve a repercussão que merecia. Na época,
ninguém imaginava a revolução que esta obra iria causar no estudo da Economia Política.
Nem mesmo o próprio Adam Smith. Porque o impacto produzido pelo livro só pode ser
explicado por uma conjunção favorável de fatores. Estávamos nos inícios da industrialização
e de um esforço impetuoso para a abertura de novos mercados. As inúmeras
regulamentações existentes na época, relativas à liberdade comercial e industrial, eram como
que barreiras ao dinamismo empresarial que estava se iniciando na Inglaterra e que, em breve,

36 Davld Hume (1711-76). Filósofo de pensamento cético e pouco ortodoxo que deixou contribuições
significativas para o desenvolvimento da economia. Tornou-se mais tarde grande amigo de Adam Smith com
quem partilhava de muitas idéias em questões econômicas. Ele insistiu muito com Smith para que este
publicasse A riqueza das nações.

43
contaminaria toda a Europa. A obra de Smith é um libelo37 contra estas regulamentações,
contra a intervenção excessiva do governo na economia, contra o monopólio concedido pelo
Estado a algumas grandes companhias e contra as leis que dificultavam a mobilidade da força
de trabalho (lei dos pobres). Enfim, era um ataque cerrado à política mercantilista. A
argumentação era convincente por apoiar-se numa visão global e coerente da ciência
econômica. Como ele argumentava em favor da livre iniciativa, ganhou o apoio do
empresariado que estava lutando exatamente por isto.

5.2 - Idéias Importantes


Ao tentar resumir uma obra tão vasta e rica de intuições, estamos correndo o risco de
parcialidade. Constitui delicada tarefa resumir o pensamento de Smith. Muitos poderão
enfatizar outros aspectos da obra ou discordar dos selecionados aqui. Que fazer? Este livro
tem limitação de páginas e selecionamos aquilo que nos pareceu importante, no momento.
Nunca é demais repetir que o leitor não deve dispensar a leitura do texto original. No caso
de A riqueza das nações, apesar do tamanho da obra, o livro é de fácil e agradável leitura.
Smith preocupa-se com três problemas básicos:
a) Que fatores são responsáveis pela riqueza das nações e como se dá o crescimento
econômico?
b) Que fatores impedem o desmoronamento' da sociedade, composta por pessoas
essencialmente egoístas? Ou seja, como explicar a coesão social num mundo onde todos
buscam os próprios interesses?
c) Para onde caminha a sociedade? Em que direção ela se move?

A causa da riqueza das nações é o trabalho humano. Este trabalho pode gerar um produto
anual maior ou menor, dependendo de dois fatores, divisão do trabalho e proporção de
trabalhadores produtivos com relação aos improdutivos. O fator decisivo é a divisão do
trabalho. Smith abre A Riqueza das Nações com uma verdadeira apologia da divisão do
trabalho. Para ele, a divisão do trabalho resulta da tendência inata do homem para a troca e
traz consigo uma série de conseqüências positivas, como aumento da destreza pessoal,
economia de tempo e condições mais favoráveis para que os trabalhadores inventem ou
aperfeiçoem máquinas e instrumentos que lhes poupem esforço. Ao tentar ilustrar sua tese,
ele recorre a um exemplo que se tornou clássico na literatura econômica, a fabricação de
alfinetes.
"Tomemos, pois, um exemplo, tirado de uma manufatura muito pequena, mas na qual a divisão do
trabalho muitas vezes tem sido notada: a fabricação de alfinetes. Um operário não treinado para essa
atividade ... nem familiarizado com as máquinas ali empregadas ... dificilmente poderia fabricar talvez um
único alfinete, em um dia, empenhando o máximo de trabalho; de qualquer forma, certamente não
conseguirá fabricar vinte. Entretanto, da forma como essa atividade é hoje executada, não somente o trabalho
todo constitui uma indústria específica, mas ele está dividido em uma série de setores, dos quais, por sua
vez, a maior parte também constitui provavelmente um ofício especial. Um operário desenrola o arame, um
outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colocação
da cabeça do alfinete ( ... ) Assim, a importante atividade de fabricar um alfinete está dividida em
aproximadamente 18 operações distintas, as quais, em algumas manufaturas, são executadas por pessoas
diferentes, ao passo que, em outras, o mesmo operário às vezes executa 2 ou 3 delas. Vi uma pequena
manufatura desse tipo, com apenas 10 empregados, e na qual alguns desses executavam 2 ou 3 operações
diferentes. Mas, embora não fossem muito hábeis ... conseguiam, quando se esforçavam, fabricar em torno
de 12 libras de alfinetes por dia. Ora, 1 libra contém mais de 4 mil alfinetes de tamanho médio. Por
conseguinte, essas 10 pessoas conseguiam produzir entre elas mais do que 48 mil alfinetes por dia. Assim,

37
Libelo, li.be.lo = (é) sm (lat libellu) 1 Dir Exposição articulada do que se pretende provar contra um réu.
2 Artigo ou escrito que envolve acusação a alguém. 3 Certificado usado pelos libeláticos. L. acusatório:
exposição articulada de fatos criminosos que o Ministério Público pretende provar contra um réu.

44
já que cada pessoa conseguia fazer um décimo de 48 mil alfinetes por dia, pode-se considerar que cada uma
produzia 4.800 alfinetes diariamente. Se, porém, tivessem trabalhado independentemente uma da outra. e
sem que nenhuma delas tivesse sido treinada para esse ramo de atividade, certamente cada uma não teria
conseguido fabricar 20 alfinetes por dia ...".

A citação mostra o enorme aumento da produtividade resultante da divisão do trabalho. E


quem determina a divisão do trabalho? Já dissemos que, segundo Smith, ela decorre de nossa
tendência inata para a troca. Em outras palavras, é condicionada pela extensão dos mercados.
A linha de raciocínio de Smith é perfeitamente lógica. A produtividade decorre da divisão do
trabalho, esta decorre de nossas tendências inatas para a troca, e esta por sua vez, é estimulada
pela ampliação dos mercados. Portanto, é preciso ampliar mercados para aumentar a
produtividade e a riqueza.
No Capítulo 3 do Livro II de A Riqueza das Nações, Smith aborda o tema da acumulação
de capital e mostra como a acumulação aumenta as forças produtivas da nação. A acumulação
decorre da poupança. Daí seu elogio da parcimônia e da frugalidade. Este enfoque receberá,
mais tarde, reparos por parte de Keynes, como veremos em tempo oportuno.
Voltemos à segunda pergunta. Que fatores impedem a dissolução de uma sociedade
composta de pessoas essencialmente egoístas?
Aqui entram as considerações sobre as leis do mercado e a teoria da "mão invisível" de Adam
Smith. Todo ser humano é levado a agir pelo desejo de uma recompensa. Este impulso é
inato. Inscreve-se na natureza da pessoa. Eis as palavras do próprio Smith:
"Não é da bondade do açougueiro ou do padeiro que podemos esperar nosso jantar, mas de seu interesse.
Nós nos dirigimos não a seu espírito humanitário, mas ao seu interesse e nunca lhes falamos de nossas
necessidades e sim de suas vantagens."

Mas a coisa não pára aí. Ao seguir seus impulsos egoístas, as pessoas interagem umas com as
outras. Assim, a busca do próprio interesse "leva ao mais inesperado dos resultados: a harmonia
social". Esta harmonia foi provoca da pelo confronto das pessoas no mercado, ou seja, pela
competição. Assim, o choque entre egoísmo e competição leva ao melhor dos mundos. Não
se deve intervir nas leis do mercado: deixada a si mesma, a economia caminha para o melhor
dos resultados, conduzida por uma espécie de mão invisível. Esta é a essência do que ficou
conhecido como liberalismo econômico. E é uma conseqüência do suposto de Smith (e dos
clássicos em geral) de que a economia é uma ciência regida por leis naturais, universais e
eternas, tal como a física newtoniana.
Esta posição de Smith de não-intervenção do Estado nas leis do mercado foi, em grande
parte, responsável pelo sucesso de sua obra. Não nos esqueçamos de que, nesta época, a
Inglaterra entrava numa nova era e as regulamentações, decretos e demais intervenções
governamentais impediam a livre movimentação do capital e do trabalho, requerida pelos
novos empresários. Smith não era tão benevolente para com os empresários como dá a
entender uma divulgação pouco fundada de suas principais idéias. Seu arguto senso de
observação levou-o a verificar que os empresários raramente se reuniam para tratar de seus
assuntos, mas quando o faziam era para tramar algo contra o interesse dos consumidores ou
para elevarem os preços. Apesar desse registro, sua obra dá argumentos sólidos para a defesa
da burguesia nascente, que combatia com todos os meios as regulamentações e os
monopólios comerciais nascidos da legislação mercantilista.

Qual deveria ser então, o papel do Estado para Smith? O Estado deveria: (a) proteger a
sociedade contra os ataques externos; (b) estabelecer a justiça; e (c) manter obras e
instituições necessárias à sociedades, mas obras não lucrativas e que, por isso, não seriam
empreendidas pela iniciativa privada. Ao Estado caberia ainda o controle de emissão de
papel-moeda (que não deveria ficar nas mãos dos banqueiros), o controle da taxa de juros,
em determinados casos, e até mesmo a proteção da indústria nacional essencial à defesa do

45
país. Uma não-intervenção do Estado na economia não era a tese de Smith. Por isso, neste
livro, preferimos usar a expressão não-intervenção do Estado nas leis do mercado, em vez
de não-intervenção do Estado na economia.
Para onde caminha a sociedade? Esta terceira indagação de Smith é uma decorrência da
anterior e do papel que ele atribui à acumulação de capital, resultante do aumento de
produtividade, provocado pela divisão do trabalho. Embora fosse péssima a situação do
operariado na época, ele via, com a tranqüila certeza dos que acreditam no determinismo das
leis naturais, que a riqueza só podia crescer e, crescendo, beneficiaria a todos. Sua visão do
mundo era a visão de um otimista.

6 - A Escola Clássica - III


6.1 - David Ricardo (1772 – 1823)
Antes mesmo de falar sobre David Ricardo gostaríamos de dizer que Adam Smith não foi
capaz de fornecer uma teoria razoável da distribuição do excedente entre as diversas classes
sociais. Esta tarefa caberá a David Ricardo que, numa linguagem concisa e menos colorida
que a de seu predecessor será o responsável pela formalização de muitos conceitos
econômicos. A influência de Ricardo foi enorme. O próprio Keynes dirá que Ricardo
dominou a Inglaterra tão completamente como a Santa Inquisição dominou a Espanha. É
considerado o maior dos economistas clássicos.
David Ricardo era filho de um judeu que, vindo da Holanda, se estabelecera como corretor
de valores na bolsa de Londres. Aos 14 anos, já trabalhava na bolsa com o pai. Mas, aos 21
anos, desentendeu-se com ele por ter desposado uma "quaker38" e abraçado o cristianismo.
Continuou na boba onde fez fortuna, pois possuía qualidades excepcionais para os negócios.
Aos 42 anos de idade já possuía uma fortuna calculada entre 500 mil e um milhão e 600 mil
libras! Com esta fortuna, pode retirar-se dos negócios e dedicar-se tranquilamente a seus
estudos de economia. Tinha uma inteligência poderosa e analítica. Não recebeu instrução
econômica formal. O maior dos economistas clássicos nunca freqüentara as cadeiras de uma
universidade. Seu grande conhecimento econômico ele o conseguiu através de leituras e de
reflexão. Em 1799 leu A riqueza das nações e ficou profundamente impressionado com o
livro de Smith. Parece que data desta época seu interesse intelectual pela economia. Mas
esperou ainda uns dez anos antes de lançar sua primeira publicação, em forma de carta no
Morning Chronicle. Publicou vários trabalhos importantes. Em 1817 saiu pela primeira vez
sua obra máxima Princípios de economia política e de tributação. Nesta época já era
famoso e suas idéias tiveram boa acolhida.
Ricardo interessou·se muito pelos problemas de sua época. Este interesse leva-o em 1819 à
Câmara dos Comuns, onde teve destacada influência, embora não gostasse de discursar.
Conta-se que Ricardo sentia grande dificuldade em redigir. Ele próprio registrou esta
dificuldade em cartas a amigos. James Mill, grande economista com quem Ricardo mantinha
relações de amizade, instava para que ele publicasse suas idéias e reflexões.
Ricardo era grande amigo de Thomas Robert Malthus, embora estes dois economistas
discordassem em quase tudo. A discordância no plano das idéias nunca afetou a amizade
entre eles.

38Quaker é o nome dado a um membro de um grupo religioso de tradição protestante, chamado Sociedade
Religiosa dos Amigos (Religious Society of Friends). Criada em 1652, pelo inglês George Fox, a Sociedade dos
Amigos reagiu contra os abusos da Igreja Anglicana, colocando-se sob a inspiração directa do Espírito
Santo. Os membros desta sociedade, ridicularizados com o nome de quakers, ou tremedores, rejeitam qualquer
organização clerical, para viver no recolhimento, na pureza moral e na prática activa do pacifismo, da
solidariedade e da filantropia. Perseguídos na Inglaterra por Carlos II, os quakers emigraram em massa para a
América, onde, em 1681, criaram sob a égide de William Penn a colónia da Pensilvânia. Em 1947, os
comités ingleses e americanos do Auxílio Quaker Internacional receberam o Prêmio Nobel da Paz.

46
A obra ricardiana exerceu enorme influência sobre todas as correntes econômicas
posteriores. Marx e os socialistas encontrarão no seu estudo de distribuição do produto entre
as classes um ponto de partida para o desenvolvimento de novas teorias. Alfred Marshall e a
corrente neoclássica encontrarão na sua teoria da renda da terra e na visão coerente da
economia, como ciência regida por leis naturais, a inspiração germinal dos conceitos
marginalistas e do tratamento modelístico em economia.
Agora já temos condições de apresentar uma visão esquemática das escolas econômicas.
Ricardo e Malthus têm raízes intelectuais em Adam Smith. Diferenciam-se porque Malthus
não aceita a "lei de Say" (lê-se lei de Sé) e Ricardo sim. Este problema será tratado, mais tarde,
ao falarmos de Keynes e do problema da demanda efetiva.
Marx e Marshall defendem pontos de vista diametralmente opostos no encaminhamento das
questões econômicas, mas ambos de inspiração ricardiana. A riqueza de um pensamento está
justamente nesta capacidade de abrir novos horizontes intelectuais. Neste ponto, O
pensamento de Ricardo foi fecundo.
Em 1823, com pouco mais de 50 anos e deixando uma bagagem respeitável, morre Ricardo,
rico, respeitado e famoso.

6.2 - Idéias Importantes (Teoria do Valor)


Ricardo voltar-se-á para o problema do valor, ao tentar interpretar a inflação que ocorria na
Inglaterra e ao envolver-se nas discussões sobre o preço das mercadorias. Já mencionamos
seu artigo no Morning Chronicle. Algumas de suas sugestões foram adotadas pelo Banco da
Inglaterra e sofreram críticas. Ao tentar aprofundar este assunto e responder às críticas,
Ricardo defronta-se com o problema do valor. Para ele, o valor de uma mercadoria é
determinado pela quantidade de trabalho nela incorporada. Ou seja, o valor é dado pelo seu
custo em trabalho (teoria do valor-trabalho). Este custo não é calculado apenas pelo trabalho
imediato, mas também pelo trabalho mediato39. Se uma mercadoria for produzida pelo
emprego de uma máquina e um trabalhador, entram no cálculo do valor da mercadoria não
só o custo em trabalho do trabalhador (custo imediato), mas também o custo do trabalho
incorporado à máquina (custo mediato). Não se pode esquecer que a máquina foi
construída com o dispêndio de certa quantidade de trabalho. Portanto, atrás do preço da
mercadoria está o valor, atrás do valor estão os custos de produção e atrás dos custos de
produção está o trabalho humano porque todo custo pode, em última análise ser decomposto
cm sua expressão mais simples que é o trabalho humano.
Não escapava aos clássicos que a utilidade tinha certo peso na determinação dos preços. Mas
esta importância era relativa. Ela fazia os preços oscilarem em torno de determinado patamar,
mas não explicava o nível deste patamar. Por que um carro custa $ 10.000 e um saco de
batatas custa $ 20 mesmo quando as proporções entre oferta e procura para estes dois bens
são as mesmas? O preço não pode ser explicado unicamente por um elemento subjetivo. A
oferta e a procura explicam as oscilações dos preços em torno de determinado patamar, não
os preços.
Alguns neoclássicos mais atentos, como, por exemplo, Marshall percebeu este problema e
consideraram os custos de produção como integrantes do valor. Mas os custos de produção
não são o último elo da corrente. Eles podem ainda ser decompostos em trabalho. O trabalho
é o elemento mais simples, e irredutível a qualquer outro. Na determinação do preço deve
haver um elemento objetivo que só pode ser o trabalho humano.

39
Mediato, me.di.a.to = adj (lat mediatu) 1 Que está em relação com uma coisa por intermédio de uma
terceira; indireto. 2 Diz-se da causa que produz um efeito por intermédio de outra causa. 3 Que comporta
algum intermediário. Antôn: imediato.

47
Ricardo percebeu que sua lei tinha exceções. O preço de certos objetos raros como, por
exemplo, obras de arte e vinhos finos não eram determinadas pelo seu custo em trabalho.
Mas a exceção não invalidava a lei geral. Afirma ele que o custo em trabalho só explica o
valor quando se trata de bens que "a indústria humana pode reproduzir de maneira praticamente
ilimitada". Não devemos esquecer-nos de que as leis econômicas têm de captar a essência dos
fenômenos e não a aparência. É certo que há inúmeras causas que explicam a oscilação dos
preços e que serão rigorosamente impossível (mesmo na era dos computadores) explicá-las
ou apontá-las todas. Mas deve existir lima lei que dê coerência e unidade a todo o resto e que
tenha grande poder explicativo. A teoria do valor-trabalho tem este papel no modelo
ricardiano.
Tanto para Ricardo como para Smith, toda mercadoria tinha dois preços: o preço natural,
equivalente ao valor e o preço de mercado que oscilava em torno do valor, conforme a oferta
e a procura. As mil causas que determinam as oscilações dos preços de mercado não os
afastam muito (de modo geral) do valor.
Henri Denis recorre a um artifício para explicar a formação do preço natural em Ricardo.
Designa por PA o preço de A, por qA o custo em trabalho de A e por qm o custo em trabalho
da moeda (para se cunhar uma moeda há dispêndio de trabalho). O preço de A, será então:

PA = (qA / qm)

Suponha que o custo em trabalho de se produzir uma moeda seja de $ 10 e o custo em


trabalho de produzir um livro seja de $ 100.000. O preço do livro será:

PA = (qA / qm) = (100.000) / (10) = $ 10.000

A teoria do valor-trabalho de Ricardo será retomada e aperfeiçoada por Marx. Os


neoclássicos a abandonaram não por ser ela simplista (como alegam), mas por trazer
problemas delicados para a economia. Veremos, depois, que o campo de estudo da economia
neoclássica é mais restrito que o da economia clássica. Nele não há lugar para as classes
sociais.
"A grande preocupação de Ricardo, no seu capítulo consagrado ao valor, é mostrar que os movimentos dos
preços dependem das variações dos produtos e não das flutuações dos salários." É essencial que se entenda
isto, para se compreender sua teoria da repartição que abordaremos agora.

6.3 - Teoria da Repartição


No prefácio de sua principal obra, Ricardo diz que o problema central da Economia Política
é explicar as leis que regulam a repartição do produto nacional entre as diversas classes
sociais. Mas, no fundo, o problema que ele persegue é o mesmo de Smith: o estudo do
crescimento econômico. Acontece que a composição de classes foi considerada por ele como
um fator tão condicionante do crescimento econômico que tal crescimento não poderia ser
explicado se não se partisse do estudo de como o produto social se distribui entre as classes.
Desse ponto de vista, ele só poderá elucidar o crescimento explicando a repartição do
produto entre as várias classes. A parte do produto nacional que cabe aos latifundiários
depende das diferentes condições em que se dá a produção agrícola. Esta parte tende a subir
porque, com o crescimento da população, terras cada vez menos férteis terão de ser
incorporadas à estrutura de produção. Vejamos como funciona sua teoria da renda da terra.

48
A partir deste esquema, entenderemos seu modelo completo. Para o leitor de hoje, talvez
seja útil um esclarecimento. No esquema ricardiano há três classes sociais: latifundiária,
capitalista e operária. Os latifundiários ou proprietários de terra geralmente não a cultivam.
É o capitalista que se dedica à produção e para isso aluga a terra do latifundiário e contrata
operários para cultivá-la.
Feito este esclarecimento, voltemos a nosso assunto principal. Vamos tomar um exemplo do
próprio Ricardo. Para demonstrar seu modelo de formação da renda (renda é a parte do
produto que vai para o latifundiário) ele nos apresenta um novo país onde a terra é livre e
onde só a melhor terra é cultivada porque a população ainda não é suficientemente grande
para pressionar os recursos naturais. Nestas circunstâncias, não se paga renda. Veja o
esquema abaixo onde o retângulo indica uma porção de terra capaz de produzir uma tonelada
de trigo com certa quantidade fixa de trabalho e capital. O retângulo pode significar também
o custo de se produzir uma tonelada de trigo.

Custo de Produção
de 1 tonelada de trigo

É evidente que o preço desta tonelada de trigo deverá, pelo menos, cobrir os custos de
produção. Caso contrário, não valerá a pena plantar trigo para vender.
Suponhamos, agora, que a população aumente e que novas terras me· nos férteis sejam
incorporadas à estrutura produtiva. O preço do trigo de· verá subir, para cobrir os custos do
cultivo, em terras menos férteis. Para se produzir a mesma tonelada de trigo, teremos que
utilizar mais capital e mais trabalho. Os custos de produção sobem ao se cultivar a gleba B
de segunda qualidade (que Ricardo chama de terra 2).

Renda Custo de Produção de 1 Tonelada


de trigo na terra B

A B

E evidente que, agora, o preço do trigo será maior. O valor de troca da produção deverá ser
regulado pelo custo de produção nas circunstâncias menos favoráveis. No nosso caso, o
preço mínimo de uma tonelada de trigo deverá cobrir os custos de produção na gleba B. Isto
porque a competição intercapitalista levará os lucros a se equalizarem. Com o aparecimento
da terra de segunda qualidade, surge a renda na terra de primeira qualidade. A renda é a
diferença entre o produto obtido pelo emprego de duas quantidades iguais de capital e
trabalho ou, se quiserem, é o saldo que vai para as mãos dos proprietários das terras mais
férteis. A situação, aqui, é a seguinte: o capitalista da terra A produz a um custo mais baixo
que o da terra B, mas vende seu produto a um preço que, pelo menos, cobre os custos de
cultivo na terra B (não na terra A). O saldo, contudo, não fica com ele. Este saldo terminará
nas mãos do proprietário de quem ele alugou o terreno porque estas terras férteis, agora, são
escassas e estão sob com· petição. Se o capitalista X não arrendar, outro a arrendará e pagará

49
por ela até a diferença entre os custos de produção de A e de B. A renda é a diferença dos
custos de produção nos dois tipos de terra.
Mas a coisa não pára aí. Se a população crescer e pressionar por mais alimentos, novas glebas
terão de ser cultivadas (a terra de segunda qualidade) e começará a gerar renda, e assim
sucessivamente. Observe o diagrama abaixo:

Preço mínimo de 1 ton.


de trigo = custo de produção
da tonelada na terra D

A B C D

A terra D não proporciona renda, mas esta aparece nas terras A, B e C, como mostra o
diagrama. Deste modo, à medida que as terras cultivadas vão estendendo-se, a porção do
produto que vai para as mãos dos latifundiários aumenta. Ricardo não considera o preço da
terra como custo de produção. Se você entendeu os passos anteriores, poderá compreender,
agora, sua afirmação de que "o trigo não é caro porque se paga renda, antes paga-se renda
porque o trigo é caro ...".
Alguns autores, pouco atentos à situação da Inglaterra na época, foram levados a dizer que
Ricardo faz aqui um exercício de abstração, onde, aceitas determinadas premissas e escolhida
determinada variável, a conclusão se impõe. Esse esforço de abstração (que é inegável em
toda a obra de Ricardo) Schumpeter chamou de "vício ricardiano". É verdade que com
Ricardo a economia deixa de ser empírica e torna-se abstrata e austera, como diz Spiege1.
Mas o encarecimento do preço do trigo na Inglaterra da época era real e o estudo de Ricardo
não fazia mais que refletir a realidade. Sua teoria era bastante realista, como mostra o quadro
seguinte:

Média dos preços por década entre 1770 e 1813

1770-1779 45 shillings
1780-1789 45 s. e 9 d
1790-1799 55 s. e 19 d
1800-1809 82 s. e 2 d
1810-1813 106 s. e 2 d

O preço real do trigo mais que duplicou em 40 anos. Ora, isto trazia problemas para a
economia. O trigo era o principal componente da dieta do trabalhador e seu peso era grande
no custo de vida. Aumentar o preço do trigo era empurrar os salários para cima. Por outro
lado, com terras cada vez menos férteis, tinha-se de aumentar a quantidade de trabalho (e,
portanto, a massa de salários) para se colher a mesma quantidade de trigo. Acrescente-se a
isto que os proprietários de terra ainda detinham o poder político e, com isto, impediam a
importação de cereais, fato que poderia baratear os salários. O temor dos latifundiários era

50
que, com o fim das guerras napoleônicas, o trigo chegasse abundante e barato à Inglaterra, o
que prejudicaria seus interesses. Por isso mantiveram a "lei dos cereais". Esta lei só cairá
muito mais tarde, quando a burguesia tiver conseguido o poder político. Em 1815 a luta
estava quente no Parlamento. A teoria ricardiana da renda da terra é o reflexo de tudo isto.
Não nasceu de um sonho, mas do embate político que se travava no momento, e do qual
Ricardo foi um dos protagonistas. Ele percebe o conflito de interesses entre as classes e toma
partido em favor dos capitalistas contra os latifundiários, porque, em sua teoria, o motor do
crescimento econômico é o lucro (excedente disponível para investimento) que tendia a
diminuir se o cultivo de terras cada vez menos férteis se ampliasse. Para entender isto, vamos
estudar como ele considera o crescimento econômico.

6.4 - Teoria da Evolução Econômica (Salários, lucros e investimentos)


Já sabemos que para Ricardo os componentes do preço mínimo (que deve igualar-se aos
custos de produção) são os salários e o lucro natural, ou seja, aquela remuneração mínima
sem a qual O empresário não iniciará o negócio. Estes dois componentes não se comportam
da mesma maneira.
O lucro é um resíduo. Determinado o salário, o que sobra é o lucro. O salário, por sua vez,
divide-se em salário natural e salário de mercado. Salário natural é aquele que permite a
aquisição de uma cesta mínima de bens que possibilite os operários subsistirem sem aumento
nem diminuição. Não se trata de subsistência física apenas. Este mínimo depende do grau de
civilização da sociedade. Por exemplo, se o trabalho exigir gasto com instrução, este tipo de
gasto fará parte do mínimo de subsistência. Considerado o mínimo desta maneira, Ricardo
pode explicar o aumento secular do salário real sem abandonar sua definição de que o salário
natural é aquele que proporciona o mínimo para os operários sobreviverem. Salário de
mercado é o salário determinado pela oferta e procura de trabalhadores. Este salário girará
em torno do salário natural, mas poderá ser maior ou menor do que este, dependendo da
oferta e da procura de trabalhadores. Se a mão-de-obra for abundante, o salário tenderá a
diminuir. Se for escassa, tenderá a aumentar. Ora, com o cultivo de terras cada vez menos
férteis sobem o preço do trigo. Subindo o preço do trigo, sobe o salário natural e, portanto,
diminui o lucro. Já vimos que, com a incorporação de terras inferiores, surge um saldo, que
vai para as mãos dos latifundiários. Os capitalistas, ocupados com o cultivo nestas terras, não
se beneficiam com isto. Ao ampliarem o cultivo em direção a terras de qualidade inferior,
são obrigados a aplicar mais trabalho para obter o mesmo produto. Resultado: queda dos
lucros. Por outro lado, Ricardo aceita a teoria da população de Malthus, segundo a qual a
população aumenta quando os salários aumentam e diminui quando os salários diminuem.
Sendo assim, o salário de mercado estará sempre próximo do salário natural (mínimo de
subsistência). Por que isto? Porque, se os salários subirem, a população aumentará e teremos
abundância de trabalhadores. A abundância de trabalhadores provocará queda dos salários
de mercado. Quando os salários estiverem muito baixos, a situação se inverterá. Teremos
diminuição da população e escassez de trabalhadores. Isto levará a um aumento dos salários,
e assim sucessivamente. Mas se os salários não se afastam muito do nível de subsistência e
os lucros não crescem, antes diminuem com o cultivo de terras menos férteis, quem se
beneficia com o aumento do produto? Só pode ser a classe dos proprietários de terra. Ora,
o crescimento econômico só é possível com o investimento e o investimento é parte do lucro
aplicado na produção. Investir é a função do capitalista. Se o lucro diminuir, o investimento
também diminuirá. Se a taxa de lucro tender a zero, como tenderá se, se verificarem todas as
hipóteses ricardianas, a economia tenderá para o estado estacionário, ou seja, para um estado
no qual a população é estável e a renda per capita é constante. No estado estacionário, a
economia não cresce nem diminui. Embora a teoria ricardiana aponte para este estado,
Ricardo acha que ele poderá ser retardado se se adotarem certas medidas como aplicação de
melhores técnicas de cultivo e importação de cereais. A importação de cereais baratearia o

51
custo do trabalho. Para mostrar cientificamente como o livre comércio favorece os diversos
países e, portanto, favoreceria também a Inglaterra, caso fosse adotado, Ricardo desenvolve
um teoria (ou um princípio) que se tornará célebre, em economia, com o nome de teoria das
vantagens comparativas. Apoiado nesta teoria, ele será um decidido defensor do livre-
cambismo que tantos benefícios trará à Inglaterra, alguns anos mais tarde. Com este
instrumental, ele terá argumentos fortes contra a "lei dos cereais" e a favor da livre
importação de grãos.

6.5 - A teoria das vantagens comparativas


A teoria das vantagens comparativas é um avanço em relação à teoria das vantagens
absolutas de Adam Smith. Este último mostrara que o livre comércio seria benéfico para as
diversas nações. Se as nações se especializarem na produção daquilo para o qual estão mais
aparelhadas e, em seguida, trocarem a produção excedente entre si, todas serão beneficiadas.
Por exemplo, se for mais barato produzir chá no Ceilão do que nos Estados Unidos e mais
barato produzir trigo nos Estados Unidos do que no Ceilão, estes dois países deverão
dedicar-se à produção do que lhes for mais barato e trocar o excedente. Os Estados Unidos
comprariam chá do Ceilão e este último país compraria trigo dos Estados Unidos. Isto é
óbvio. Até aí o progresso não foi grande. Trata-se de uma aplicação evidente do princípio da
divisão do trabalho. Ricardo dá um passo além. Mostra que mesmo no caso de um país ser
superior ao outro na produção de dois bens, ainda assim o comércio entre eles é
compensador. Vejamos como ele desenvolve este raciocínio. Primeiro vamos fazer uma
analogia e, em seguida, lançar mão de um exemplo do próprio Ricardo. Suponha que você
seja tradutor e financista e que seu trabalho na área financeira exija a tradução de
determinadas revistas especializadas. Para simplificar, vamos supor que você gaste, em média,
8 horas para traduzir 20 páginas e ganhe com isto $ 10 (dez unidades monetárias) e que ganhe
$ 20 por 8 horas de consultaria financeira. É evidente que você preferirei dedicar-se
totalmente à consultaria e contratar o indivíduo B para fazer as traduções, mesmo que este
tradutor seja menos eficiente do que você. Você é mais eficiente que B em finanças e em
tradução, mas em termos monetários é mais eficiente em finanças do que em tradução.
Ricardo apresenta um exemplo análogo. Para produzir certa quantidade de vinho por
unidade de tempo, Portugal ocupa 80 homens e para produzir certa quantidade de tecido, na
mesma unidade de tempo, ocupa 90 homens. Para produzir estas mesmas quantidades de
vinho e tecido, por unidade de tempo, a Inglaterra ocupa 120 e 100 homens respectivamente.
Esquematicamente temos:

Vinho Tecido
Portugal 80 90
Inglaterra 120 100

Portugal tem vantagem absoluta tanto em vinho quanto em tecido, mas tem vantagem
relativa em vinho, ou seja, é mais eficiente na produção de vinho. Ele ganhará ocupando
todos seus homens na produção de vinho e trocando o vinho excedente pelo tecido
excedente da Inglaterra, que ganhará mais se especializando em s6 produzir tecidos. Os países
devem especializar-se naquilo que são mais capazes de produzir, mesmo que um deles seja
mais eficiente do que o outro na produção de todos os bens.

52
Este tipo de argumentação (correta se considerarmos as economias como estáticas) foi uma
poderosa arma nas mãos dos adeptos do livre-cambismo. A Inglaterra tornou-se senhora do
mundo apoiada na defesa intransigente do comércio livre.
Alguns anos atrás, já no nosso século, os estudos de Raul Prebish e da CEPAL, sobre a
deterioração das relações de troca entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, mostraram
que a argumentação ricardiana continha supostos irrealistas. Os fatos levantavam-se contra
a argumentação de Ricardo apoiada nas vantagens relativas. Onde estaria a falha de uma
argumentação tão convincente? No fato de se considerar o mundo econômico de maneira
estática. Voltando à nossa primeira analogia: é de todo evidente que o financista deva dedicar-
se totalmente à consultoria e deixar as traduções para o tradutor, mas este último não precisa
permanecer eternamente tradutor. Que lei o impede de progredir? Se as condições são tais
que o financista sempre estará lucrando mais que o tradutor, por que este último não se torna
financista?
Uma das forças que impede esta transformação é a argumentação ideológica. t: ela que lança
mão dos argumentos ricardianos sobre livre comércio para justificar a atual divisão
internacional do trabalho. Voltamos a acentuar que a argumentação de Ricardo sobre
vantagens relativas é perfeitamente válida e convincente dentro de um marco referencial
estático. Mas não há nenhuma lei dizendo que este referencial deva ser estático.

6.6 - A Teoria da Renda de David Ricardo


David Ricardo foi outro pensador vinculado à Escola Clássica. Foi bastante
influenciado pela leitura da obra de Adam Smith40, que dirigiu sua atenção para a economia
política. Mas, ao contrário deste e de outros pensadores, Ricardo é menos acadêmico do que
um filósofo prático, com extraordinário talento para os negócios, e com uma visão bastante
abrangente a respeito do fenômeno econômico.
Suas primeiras especulações dirigem-se para a moeda, e ele demonstra que o valor da
moeda metálica deriva do trabalho para produzi-Ia; quanto à moeda fiduciária, ou moeda
sem lastro, o seu valor depende da quantidade em circulação. Apontou a relação entre o
comércio exterior e o valor desta moeda: se há excesso de moeda, os preços internos sobem
o que leva ao aumento de importação, que por sua vez acarreta déficit na balança comercial.
Este déficit deverá ser coberto pela saída de ouro, que ao sair do país, elimina o excesso. Por
outro lado, se os preços internos baixam, há um incremento na exportação, trazendo
superávit na balança de pagamentos, e, portanto haverá entrada de ouro país (este equilíbrio
somente irá ocorrer se a moeda possuir lastro, ou ouro bastante que sustente o seu valor de
conversão).
Ricardo elaborou uma teoria geral da renda, que ele baseou em hipóteses econômicas.
Ele considera que em um primeiro momento, haverá um acesso em comum a terras férteis,
que serão cultivadas com o mesmo custo, e vendidas ao mesmo preço; não há, pois, renda,
pois que o lucro é igual para todos.
Com o aumento da população, novas terras deverão ser cultivadas, para suprir a
alimentação dos novos contingentes populacionais. Entretanto, só estarão disponíveis, nesse
instante, terras menos férteis, cujo cultivo terá maior custo. Assim, eleva-se o preço de venda
(admite-se que a produção feita em terras mais férteis terá seu preço ajustado aos das terras
menos férteis; assim, o lucro das primeiras será maior, porque terão um lucro suplementar,

40
Contemporâneo de Ricardo, Jean Baptiste Say também sofreu esta influência; na verdade, ele levou as
idéias de Smith para a França. Deve-se a Say a famosa lei dos mercados, bastante citada nos livros de texto,
até a atualidade. Para ele, da produção de bens provém uma demanda global efetiva, que é capaz de adquirir
a oferta global destes bens. Em outra palavras, jamais pode haver uma escassez de demanda, que é a
contrapartida da superprodução (esta lei, como veremos oportunamente, foi refutada por John Maynard
Keynes, quando ocorreu a Grande Depressão).

53
independente do capital e do trabalho dedicado à produção). O que não se pode admitir seria
vender abaixo do preço de custo.
Em um processo crescente, provocado pelo aumento populacional, novos
contingentes de produtores entram no esquema, em uma escala decrescente de lucros.
Haverá sempre uma diferença de custos entre os primeiros e os últimos produtores,
acarretando o que se denomina renda diferencial.
Levando mais longe o seu raciocínio, Ricardo chega ao momento em que já não
haverá mais terras disponíveis. Mas como a população continua crescendo, os preços
também sofrem aumentos constantes. Esta alta de preços traz uma renda suplementar
àqueles que detêm as menos férteis das terras (terras marginais). Neste caso, não se chama
de renda diferencial, mas de renda de monopólio.
Os proprietários das terras mais férteis, em todos os casos, estarão sempre
aumentados os seus preços (e incrementando a sua produção), para aproveitar o preço ditado
pelo custo de produção das terras menos férteis. Entretanto, esta produção suplementar
exige, por sua vez, quantidades cada vez maiores de trabalho e de capital, os quais deverão
ser remunerados41?
A necessidade progressiva de explorar terras sempre menos férteis altera esta
repartição. Enquanto a renda aumenta sem limite, o salário e o lucro tendem a diminuir. O
primeiro, pela crescente oferta de mão-de-obra; quanto ao lucro, tende a uma margem cada
vez menor, devido aos custos crescentes de produção. Mas, ainda que a renda aumente,
haverá uma queda nas taxas de juros, e com isto uma queda na poupança, o que por fim
levaria a uma estagnação na indústria.
Analisando os detalhes práticos da política econômica inglesa, Ricardo se opôs às
restrições legais à importação de trigo, que só poderia ser feita caso o preço ultrapassasse um
determinado patamar. Para ele, o alto preço do produto impunha altos salários nominais, que
traziam redução nos lucros. O acúmulo de capital que se daria a partir dos lucros vê-se
impedido, e até ameaçada a expansão da atividade econômica, porque a elevação dos preços
limitava a acumulação.

"Ricardo era contemporâneo do início da Revolução Industrial e identificava-


se com a burguesia industrial, cujos interesses supunham que coincidiam com os de
toda a sociedade. Verificava que o excedente se repartia lucros e renda da terra e
defendia abertamente uma política favorável ao lucro em detrimento da renda.
Ricardo tomava, dessa maneira, posição no conflito de classes a favor da burguesia,
o que o levou a entrar em polêmica contra o seu amigo Malthus, que era partidário
dos proprietários fundiários." (4)

Numerosas críticas surgiram a respeito da explicação generalista que Ricardo tentou


estender a todos os casos de renda fundiária (mas não da sua teoria, do modo como ele a
expôs). Por exemplo, o economista Charles Henry Carey (1793-1879), que também estudou
a renda, contestou a idéia de que a exploração da terra passava forçosamente por estas etapas,
como se fosse uma lei histórica imutável42.

41
A remuneração pela venda dos produtos agrícolas tinha três destinatários: a renda, para os proprietários
da terra; o salário, para remuneração do trabalho; o juro (na verdade, o lucro), ou remuneração do capitalista
empreendedor (esta é a teoria da repartição, de Ricardo).
42
Segundo John Kenneth Galbraith, nos Estados Unidos a civilização e o aumento populacional
pressionaram a que o plantio se deslocasse não para solos mais pobres, mas sim para solos muito mais
férteis (a colonização do território americano deslocou-se progressivamente de leste para o oeste, que tinha
terras mais ricas para o plantio. Estas terras a oeste, posteriormente, devido ao aumento populacional e às
ferrovias, viriam a sofrer extensa valorização, com a conseqüente especulação sobre elas).

54
Analisando a forma como se deu a exploração de vários países, mesmo na Europa,
Carey observa que muitas vezes, o início da exploração agrícola se dá a partir de terras menos
férteis, principalmente se encontram em território a salvo de invasões, ou mesmo se são de
maior facilidade de cultivo. Em seguida, podia-se se passar (o cultivo) para terras mais férteis.
Essa ordem de cultivo, para Carey, daria origem a uma possível baixa progressiva do preço
dos produtos, e com isso, do valor da terra (Carey chegou a negar a possibilidade de existência
da renda)43.
Para Ricardo, o valor baseia-se estritamente no trabalho44; ele rejeita a utilidade como
causa e medida do valor. Para ele, havia duas espécies de bens: aqueles não suscetíveis de
reprodução, cujo valor depende de sua raridade e da relação entre oferta e procura; e aqueles
suscetíveis de reprodução indefinida, sempre a um mesmo preço de custo.
Ricardo também fez interessantes estudos a respeito de moeda, crédito e comércio
internacional. Para ele, cada país está, em um determinado instante, em equilíbrio monetário
resultante de sua atividade econômica, do sistema monetário e do sistema bancário. Este
equilíbrio não está relacionado com a quantidade total de moedas e de metais preciosos que
existe em todo o mundo. Admite-se que os metais preciosos possuem a mesma capacidade
de aquisição de mercadorias, em cada país.
Em sua análise, ele afirma que o equilíbrio decorre da relação entre um superávit
inicial, que:
1) provoca a entrada de ouro em função do excedente exportado;
2) provoca uma alta de preços;
3) provoca um aumento das importações (com a saída de ouro correspondente); e
que,
4) acaba por levar a um déficit na balança na pagamentos, até que,
5) se atinja o equilíbrio entre os preços e a distribuição do ouro45.

Ricardo notou também que os países de economia mais desenvolvida (e de preços


mais baixos) atraíam moedas e metais de países menos desenvolvidos46. Ao identificar a

43
A chamada lei do rendimento decrescente proposta por Ricardo, apesar de exata, vem-se se mostrando
inoperante pela força dos fatos históricos mais recentes. O progresso técnico, o aumento do rendimento
ocasionado por novas técnicas de cultivo, o desenvolvimento dos meios de transporte, tem mostrado que
esta lei só tem eficácia em determinados momentos históricos de sistema econômico mais simplificado,
voltado principalmente para a agricultura. Além do mais, a teoria da renda proposta por ele não leva em
conta o fator procura, mas sim a oferta. Stuart Mill, em oposição a este fato, apontou para o fato de que era
perfeitamente possível toda a terra de uma nação ser cultivada (qualquer que fosse a sua qualidade), e ainda
assim proporcionar uma renda.
44
Esta teoria do valor-trabalho, entretanto, carecia de uma maior fundamentação, e mesmo Ricardo tinha
dúvidas a seu respeito. Por exemplo, como explicar o valor de um diamante frente ao trabalho de extração,
ou como explicar que alguns produtos tinham variação de preço de um ano para outro, ainda que o trabalho
não variasse? (era o caso, por exemplo, das safras desiguais de uvas, que alteravam o preço do vinho).
45
Esta análise, por se basear unicamente quantidade do ouro, sem levar em consideração a quantidade de
moeda, acabou por ser abandonada. Ricardo acreditava que somente o ouro bastava para fazer variar os
preços. Por outro lado, ele também acreditava que a oferta da moeda bastava para regular a procura; mas,
por confundir a moeda-ouro com a moeda-papel, não foi capaz de perceber que a primeira tinha função de
instrumento de reserva de valor, enquanto que a segunda era apenas um título jurídico, sem valor real e
nem sempre conversível ou procurada internacionalmente (modernamente, apenas as moedas "fortes"
costumam ser entesouradas).
46
Atualmente, esta relação decorre da relação cambial entre as moedas dos vários países, e de sua produção
industrial. Países como China e Japão, de moeda desvalorizada, mas de grande produção industrial,
possuem superávits em suas balanças de pagamento em razão da proporção entre os volumes de exportação
e de importação. Países deficitários serão aqueles que exportam menos e importam mais (o que provoca
desequilíbrio na balança de pagamentos).

55
moeda metálica com a moeda bancária (papel-moeda), ele fez várias ilações, das quais extraiu
várias propostas: a criação de um sistema monetário de papel-moeda em circulação e de
conversibilidade em ouro; criação de bancos nacionais; políticas de deflação; etc.

11 – A Influência da Escola Clássica


As idéias econômicas clássicas tiveram extrema influência no comportamento prático
das nações, seja na política fiscal, seja nas idéias monetárias e nos fatos econômicos. As idéias
defendidas por Ricardo fizeram-se sentir, por exemplo, quando da promulgação do Bullion
Report, de 1810, como no Act (Lei) de Peel, de 1844, que procedeu à reforma do Banco da
Inglaterra.
No século XIX procedeu-se à revogação, na Inglaterra, de uma série de leis
protecionistas (até criando-se leis antiprotecionistas), e tomaram-se medidas a favor do
câmbio livre, bem como outras medidas de forte influência clássica, principalmente
ricardiana. No continente (na França), as idéias pessimistas de Malthus não encontraram eco;
ao contrário, a maioria dos autores que escreviam acerca de economia tinha propensão ao
otimismo. E enquanto a escola inglesa dava ênfase à propriedade rural e à renda, a escola
francesa privilegiava o empreendedor e o lucro. Colocou também a indústria como o centro
da produção, e a produção como o centro da economia.
As idéias econômicas clássicas continuaram a influenciar a próxima geração de
economistas de fins do século XIX e início do século XX. O economista Mac-Leod fez um
amplo estudo a respeito da natureza do crédito, e do papel exercido pelos bancos, em sua
criação. Ele apontou a semelhança existente entre a nota de banco e os créditos bancários
utilizáveis através de cheques. Achava que se devia substituir a noção de criação de riqueza
pela de criação de utilidade. Mostrou, entre outras coisas, que as dívidas e os créditos também
são bens econômicos a se levarem em conta. Sendo assim, concluía-se (como ele o fez) que
poderiam existir utilidades econômicas em potencial, ou futuras.
No século XX, surgiram novas tendências no pensamento do classicismo. Registra-
se o aparecimento das escolas históricas, hedonista e intervencionista moderada. Deve-se as
primeiras a metodologia de análise e de dedução; às segundas, a noção de utilidade,
produtividade marginal e de equilíbrio econômico; às terceiras, a concepção de
intervencionismo de Estado, permeado por um liberalismo moderado.

6.7 - Stuart Mill


John Stuart Mill (1806-1873) é o filósofo da "justiça social", e, ainda que de tendência
liberal, inicialmente, voltou-se posteriormente para uma corrente de pensamento de molde
socialista e intervencionista. Mill preocupou-se, e fez uma distinção radical entre os
fenômenos da produção e da repartição. Para ele, os primeiros eram fixos e rígidos, e não
podiam sofrer intervenção humana para modificá-los. Já os segundos, dependiam da vontade
humana.
Mill achava que a distribuição da riqueza podia ser submetida a regras da sociedade,
e ele mesmo propôs algumas medidas de organização social, para melhor repartição desta
riqueza. Ele é, a um só tempo, individualista e intervencionista; enquanto defende a expansão
da pequena propriedade agrícola, por outro lado volta-se para medidas arbitrárias de restrição
da prole (neste caso, mostra-se um neomalthusiano convicto). Propôs o desenvolvimento de
cooperativas de produção, pois achava que isto transformaria a classe obreira em capitalista.
Mas não deixa também de ansiar por uma ordem futura, baseada no comunismo, como ele
a definia.
Era, claramente, um reformista social, devido às suas preocupações humanitárias,
mas suas idéias sofrem de freqüente contradição, quando buscava conciliar ponto de vista
opostos, sobre os quais não tinha uma posição definida; nestes casos, seu pensamento se

56
mostrava nebuloso47. Mas suas idéias, principalmente o conceito de dinâmica econômica (ou
transformação econômica) viriam a permitir que se fizesse posteriormente, em épocas
posteriores, uma distinção entre "Economia Pura" (que lançava mão do método matemático
para pesquisar a relação entre os fatos econômicos) e "Economia Aplicada" (os conceitos e
ferramentas teóricas utilizados pelas autoridades que podem decidir sobre os fatos
econômicos).

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HUGON, Paul. História das Doutrinas Econômicas. Editora Atlas. 10ª edição. São Paulo.
1969.

47
A crítica moderna sobre Mill aponta o fato de que ele separou arbitrariamente dois fenômenos
econômicos que são estritamente solidários e interdependentes, e que não podem ser divididos do modo
como ele o fez.

57
HUNT & SHERMAN. História do Pensamento Econômico. Ed. Vozes. Petrópolis. 1977.

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TRAGTENBERG, Maurício. Planificação – Desafio do Século XX. Editora Senzala. S/l.


S/d.

7 - Escola Clássica IV
7.1 - Thomas Malthus (1766 -1834)
Malthus, como Ricardo, parte dos problemas colocados por Smith em A riqueza das nações,
mas ambos tomam caminhos diversos ou, como diz Schumpeter, apresentam formas
alternativas para a recomposição da obra de Smith.

A fama de Malthus provém do Ensaio porque o paradigma dominante na ciência econômica,


até pelo menos 1930-36, incorporava a si a "lei de Say"48 e excluía o problema da demanda
efetiva. Hoje, as hipóteses ma1thuusianas sobre população parecem-nos menos importantes.
Isto porque elas não se verificaram. Com isso não estamos dizendo que o problema
populacional seja desimportante. Estamos afirmando que as hipóteses malthusianas não
levaram em conta certos fatos que vieram a predominar. A inovação tecnológica no campo
agrícola afastou o fantasma de uma produtividade sempre sujeita à lei dos rendimentos
decrescentes. O outro problema, aquele abordado no Principles e que tratava da poupança e
do investimento ou da "teoria dos excessos gerais" é que veio a tornar-se importante,
principalmente após a obra de Keynes. Se o paradigma dominante da ciência econômica
tivesse sido outro, provavelmente Malthus se teria tornado famoso pelo Principles e não pelo

48
Lei de Say – A lei de Say deve o seu nome a Jean-Baptiste Say (1767-1832), nascido
em Lyon (França) em uma família de mercadores de tecidos. Ela tem como conceito que
“A oferta de um produto sempre gera demanda por outros produtos”

58
Ensaio. Eis aí um problema incômodo para os cultores das ciências sociais. As obras, às
vezes, são valoradas por critérios extra-científicos.
Ma1thus não foi, de modo algum, um pensador medíocre. Foi, antes, um pomo de discórdia.
Ferozmente criticado por muitos e aplaudido por poucos. Uma obra que desperta aplausos,
paixão e ódio não pode ser obra de um medíocre. Mas, sem dúvida, é uma obra fortemente
influenciada por tendências ideológicas específicas e voltada para a defesa dos proprietários
de terra e das classes não produtivas em geral.
Malthus preocupava-se com o problema da superprodução. Como já dissemos, ele não
aceitava a "lei de Say", talvez mais atento aos fatos (o capitalismo já estava experimentando
crises periódicas) do que a um tipo de raciocínio puramente dedutivo, baseado em
determinados supostos, como é o raciocínio que leva à "lei de Say".
Como resolver o problema da superprodução? Aumentando a demanda de bens de
consumo. Mas esta demanda não costuma aumentar da parte dos capitalistas, que mais
investiam (demanda de bens de capital) do que consumiam. Isto agravava o problema. Não
poderia aumentar também da parte dos trabalhadores, que recebiam salários próximos ao
nível de subsistência. Só poderia aumentar da parte dos que recebiam rendas, dos rentistas
que estavam sempre dispostos a consumir. Com este tipo de raciocínio, Malthus torna-se um
defensor dos rentistas, colocando-os como indispensáveis na solução dos problemas de
superprodução. Embora Keynes não tenha esposado esta idéia, há muitos pontos de contato
entre o pensamento de Malthus e o de Keynes. Por exemplo, Malthus mostra que a
superabundância de capital era causada por decréscimos nos dispêndios militares do governo.
No momento em que ele escrevia isto, a Inglaterra estava entrando num período de paz, após
as guerras napoleônicas e diminuíra os gastos militares. Keynes também mostrará que o
governo deve ter papel importante na solução de problemas de insuficiência de demanda.
É fácil perceber também que, ao defender os latifundiários, Malthus se coloca em oposição
frontal a Ricardo e toda aquela argumentação que este último apresenta para justificar a
importação de trigo (comércio livre etc.). Malthus era favorável ao protecionismo. Escreveu
mesmo um artigo cujo título era Bases para uma opinião sobre a política de restrição à
importação de trigo (1815), mostrando que a Inglaterra deveria estimular a produção
interna de trigo e tornar-se independente das importações. Já vimos que Ricardo defendia
posição oposta devido ao encarecimento do trigo na Inglaterra, encarecimento que
provocava aumento dos salários (o trigo entra na dieta do trabalhador) e conseqüente baixa
dos lucros.
Tudo isto mostra muito claramente que a obra de Malthus, como a dos demais autores
clássicos, tem raízes profundas nos movimentos sociais e políticos da época. Ignorá-los é
condenar-se a não compreendê-la.

8 - A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E A TESE SOCIALISTA


A Ascensão da Classe Burguesa
A Revolução Industrial teve início, basicamente, na Inglaterra, nas primeira três
décadas do século XVIII (teve seu auge entre 1750 e 1830). Foi uma transição de uma
economia de moldes agrícolas e artesanais, para outra predominantemente urbano-industrial.
O acúmulo de capital decorrente do extenso comércio com as colônias deu ensejo a um
grande crescimento econômico, que por sua vez deu ensejo ao surgimento de novas técnicas
de produção. Aliado ao acesso a grandes reservas de recursos naturais, tudo isto permitiu a
criação de grandes fábricas equipadas com máquinas que tinham sido inventadas
recentemente, graças aos progressos paralelos da ciência e das técnicas49. Na Inglaterra, a

49
Foi a época das grandes máquinas a vapor, que vieram substituir extensamente o trabalho humano. Na
verdade, há um paralelo possível entre a industrialização desta época, e a robotização, que é uma característica
crescente das fábricas do final do século XX e início do século XXI.

59
Revolução Industrial provocou dramáticas e repentinas transformações na repartição da
demografia nacional, com afluxo em massa de mão-de-obra para as cidades, a partir dos
campos. O ritmo de urbanização corria a par de uma intensificação do crescimento
demográfico. Se antes de 1840 havia apenas duas cidades na Inglaterra com mais de 100.000
habitantes, depois de 1910 já existiam quarenta e oito. Nos últimos trinta anos do século
XIX, cerca de um terço da população rural já havia migrado para as cidades, engrossando o
contingente de trabalhadores na indústria e tendo uma vida miserável.
A Revolução Industrial teve uma multiplicidade de causas. A Revolução Comercial
Ja propiciara fazer surgir novas invenções, tais como o relógio de pêndulo, o termômetro, a
roda de fiar e o tear, bem como novas técnicas metalúrgicas. Progressos paralelos ocorreram
em outras indústrias, tais como a vidraria, a relojoaria, a construção naval e a carpintaria. A
imensa disponibilidade de capitais que surgira a partir do intenso acúmulo de metais
preciosos provocou um surto de novos negociantes que buscavam incessantemente novas
formas de lucrar; entretanto, com o correr do tempo havia cada vez menos atividades
lucrativas. A procura intensa por produtos "industrializados" (de início, apenas
manufaturados, em escala doméstica) provocou a necessidade de aumentar a produção destes
produtos, o que se podia fazer unicamente adotando melhoramentos mecânicos. O crescente
povoamento das novas colônias obrigava a aumentar constantemente a quantidade de
produtos para exportação. A produção de ferro, que exigia inicialmente um grande consumo
de carvão, ao passar a usar o coque (cujas minas estavam normalmente inundadas) levou à
necessidade de encontrar bombas eficientes capazes de fazer a sucção desta água das minas;
isto acabou levando à invenção da máquina a vapor, que se tornou verdadeiramente o ícone
da revolução industrial em progresso. Também a necessidade premente de mecanização da
indústria têxtil levou ao desenvolvimento da máquina de fiar e do tear hidráulico, e não
tardou a que novas máquinas fossem inventadas para os outros tipos de manufatura.
A Revolução Industrial acelerou a divisão da sociedade em duas novas classes: a
burguesia industrial e o proletariado. A revolução política representada pela Revolução
Francesa já tinha mostrado o abismo existente entre as classes sociais, e os anseios populares
de justiça e de inclusão social. A distribuição (ou repartição) da riqueza se dava
principalmente entre as classes favorecidas, entre as quais a nobreza e os representantes do
clero. A grande massa do povo vivia na miséria, contemplando impotentes a opulência e o
luxo das outras classes. Agora, a emergência desta nova classe social (a burguesia) mostrava
uma dinâmica social cuja causa só poderia estar nos fenômenos econômicos. Se o fim do
feudalismo permitiu maior mobilidade social, o mercantilismo permitia por sua vez que,
através do comércio, novos contingentes sociais pudessem ascender economicamente, com
o conseqüente aumento de status político. Entretanto, esta ascensão social era privilégio de
poucos; o novo liberalismo econômico, bem como o sistema capitalista que teve início com
a Revolução Industrial, apesar de propiciarem esta ascensão social, por outro lado
escancaravam novos abismos entre as classes, e já em 1848 ocorriam convulsões sociais
provocadas pela situação de miséria das populações, miséria esta basicamente provocada pela
exploração dos pobres pelos novos ricos.
A inexistência total de uma política oficial de proteção ao trabalhador permitiu aos
capitalistas que exercessem uma exploração da mão-de-obra trabalhadora, que se submetia a
extensas jornadas de trabalho, sem contrapartidas de salário justo, descanso ou mesmo
proteção no caso de doença. As condições de vida para os trabalhadores urbanos eram
terríveis, e os salários permitiam apenas um mínimo de subsistência, próximo à miséria. Por
outro lado, mesmo entre os capitalistas as condições da economia eram desfavoráveis,
porque a competição acirrada muita vezes trazia como conseqüência a falência ou a absorção
pelos mais fortes (o que acarretava, cada vez mais, a formação de monopólios).

60
"A experiência histórica demonstra que sempre que as sociedades precisaram
obrigar parte de seus membros a apertar os cintos e a viver ao nível da subsistência,
foram os de menor poder econômico e político que tiveram que arcar com os
sacrifícios. Foi o que aconteceu na Inglaterra, à época da Revolução Industrial. Em
1750, a classe operária vivia em condições extremamente precárias, próximas ao nível
de subsistência, e seu nível de vida (avaliado em termos do poder aquisitivo dos
salários) deteriorou-se durante a segunda metade do século XVII." (ADAM
SMITH/RICARDO. p. 246).

Como vimos, o liberalismo dos clássicos decorria de uma visão de mundo no qual
pensavam existir uma ordem natural. Este liberalismo batia-se pela liberdade econômica, pela
livre concorrência e pelo individualismo, opondo-se a qualquer restrição legislativa ou
regulamentação estatal, somente aceitando a regulamentação do mercado. Mas contra esta
concepção viria a formar-se, no início do século XIX, uma reação geral provinda
principalmente dos pensadores socialistas. Em 1867, Karl Marx editou a sua obra máxima,
"O Capital", na qual fez uma extensa análise das conseqüências da adoção deste tipo de
concepção econômica (o capitalismo) e suas conseqüências deletérias sobre o campesinato e
sobre o operariado. Antes, contudo, veremos o que veio antes.

8.1 – O Socialismo Pré-Marxista


A injustiça flagrante desta nova sociedade fez com que vários filósofos e pensadores
se levantassem contra ela. Os socialistas, por exemplo, que se batiam pela igualdade entre os
indivíduos50, vieram propor formas de repartição, tanto da riqueza, quanto dos meios de
produção (que podiam produzi-la). Idéias como participacionismo, apropriacionismo e
coletivismo eram bastante comuns, sempre com a idéia de compartilhamento da
propriedade como fundo comum. Outro ponto característico do socialismo era a restrição à
propriedade; o socialismo não admitia senão um mínimo de propriedade privada. Mas
também a liberdade se restringia (e com ela a livre iniciativa, característica do capitalismo).
Como substituto à livre concorrência, propunha-se a planificação ou planejamento51. Os
socialistas se dividiam entre voluntaristas (que acreditavam que as medidas econômicas
seriam aceitas pelos interessados) e em autoritários (que pensavam que se devia lançar mão
da coerção, para obrigar a esta aceitação52).
Contra a ordem natural defendida pelos economistas clássicos, que viam a natureza
como um reflexo das leis divinas, o socialismo propôs o materialismo, segundo o qual a vida
orgânica seria a principal finalidade da vida humana (e que a matéria determinava a formação

50
A indefinição deste conceito de igualdade provocou extensas polêmicas, tanto entre socialistas quanto entre
os seus críticos. Na verdade, jamais se chegou a um consenso sobre ele, e os regimes políticos que se diziam
"socialistas" mostraram que sua sociedade ideal podia se mostrar extremamente desigual (foi o caso, por
exemplo, da classe burocrática soviética, denominada Nomenklatura, que detinha privilégios não alcançados
pela população em geral).

51 A extinção da União Soviética e a abertura política e econômica decorrente puseram a nu os excessos do


planejamento oficial, que controlava de modo avassalador todos os aspectos da vida econômica.
52 O socialismo marxista sempre teve esta tendência, e os países que adotaram o socialismo tornaram-se regimes

fechados, exatamente para impor suas idéias e reprimir pela força os dissidentes. O Camboja, em época bem
recente, sofreu um mortícinio que eliminou mais de três milhões de pessoas, em nome do "purismo" marxista.
A própria Rússia sofreu tanto nas mãos de Stálin que Khruschev se viu obrigado a denunciar o "stalinismo",
quando se tornou Primeiro Ministro.

61
da consciência, por ser anterior a ela); contra o livre-arbítrio (que dava fundamento à
liberdade econômica), propôs o determinismo (filosofia coerente com o ceticismo, para a
qual os fatos humanos são determinados pela história ou pelas correntes sociais
preponderantes).

8.2 – O Socialismo de Karl Marx


O socialismo pré-marxista era voltado a ideais de uma sociedade onde fossem
abolidas as diferenças sociais, como também a propriedade privada e o princípio do lucro.
Nesta época, tornou-se comum a tentativa de criar comunidades ideais, em que se voltaria
ao "comunismo primitivo". Cooperativas (ou falanstérios53, como foram denominadas)
eram incentivadas, mas todas as iniciativas neste sentido acabaram redundando em fracasso 54.
Mesmo os socialistas mais moderados eram a favor de que o Estado se apropriasse da
administração da produção e da distribuição.
Marx classificava as idéias socialistas anteriores a ele "socialismo utópico55, ele propôs
uma nova interpretação tanto das leis econômicas quanto das leis históricas, à qual deu o
nome de "socialismo científico". Para ele, os socialistas anteriores eram apenas filantropos,
que se indignavam com a exploração desumana que foi uma característica do início do
capitalismo. Muitos pertenciam à própria classe que abominavam, e os verdadeiros
revolucionários seriam poucos.
Marx tinha uma formação filosófica, e foi bastante influenciado por Hegel, um dos
maiores filósofos alemães. Ele aderiu ao materialismo histórico, e usou o processo chamado
de "análise dialética" de Hegel para explicar a História, os sistemas e as instituições sociais.
Para Marx (e seguindo o pensamento de Hegel), a História move-se dialeticamente, devidos
às forças sociais antagônicas que se criam em seu seio: a vida econômica, social e política
estão em constante transformação. Marx dedicou a sua vida a tentar descobrir quais eram as
forças sociais subjacentes a este processo, cujo resultado era a História. De acordo com a
lógica dialética de Hegel (ou dialética dos opostos), há três elementos da realidade: a tese; a
antítese; a síntese56. Tais elementos foram apropriados por Marx para a sua explicação da
História, que se dava por movimentos sociais que criavam antagonismos internos (que ele
chamava de contradições); tais contradições resultavam das relações de produção e das forças
produtivas materiais.
Em outras palavras, Marx disse que o que movia a História era a economia. A base
econômica da sociedade (modo de produção) influenciava todas as demais instituições
sociais. Ele a chamou de infra-estrutura. As demais instituições (religião, sistemas políticos,
leis, costumes, etc.), ele chamou de superestrutura. Assim, sobre uma infra-estrutura
econômica erguia-se uma superestrutura jurídica e política.
O modo de produção seria formado por dois elementos: as forças de produção; as
relações de produção. As primeiras são constituídas por fábricas, ferramentas, equipamentos
em geral; as segundas são formadas pelas relações sociais que os homens mantêm entre si.

53 Falanstério - sm (fr phalanstère) Cidade para habitação da comuna societária, segundo o sistema Fourier.
54 Talvez uma das poucas iniciativas de vida comunal que deram certo foram as comunidades criadas em Israel,
os denominados kibutzim. Kibutz é uma fazenda coletiva, que se baseia no regime de propriedade comunal e
na cooperação voluntária. Tiveram início bem antes da formação do Estado de Israel (que se deu em 1948), a
partir do início do século XX, em terras palestinas (à época). Os moldes pelas quais foram criados tiveram
inspiração nos ideais socialistas dos imigrantes sionistas russos.
55 Entre os nomes mais famosos, representantes de várias tendências do socialismo, temos: Robert Owen;

Charles Fourier; Louis Blanc; Gracchus Babeuf; Michael Bakunin; Eugen Dühring; Auguste Blanqui; Peter
Kropotkin; William Godwin; Henri de Saint Simon; Pierre Proudhon; Thorstein Veblen.

56De acordo com Hegel, a história se desenvolve assim: em um primeiro momento surge a tese, um momento
da realidade que se impõe; em seguida, surge uma reação, chamada antítese. Posteriormente, surge uma
conciliação entre os contrários, chamada antítese (e que se toma uma nova tese, para movimentos futuros).

62
Ele destacava, entre elas, a relação de propriedade que cada classe estabelecia com os meios
de produção. O modo de produção da vida material determinava o desenvolvimento da vida
social, política, intelectual, etc. Após um certo estágio de desenvolvimento, as forças de
produção entram em contradição com as relações de produção existentes (ou relações de
propriedade). Deste choque surge uma época de revolução social, que busca transformar a
base econômica, pela mudança das relações de produção.
Para Marx, houve quatro sistemas econômicos (modos de produção distintos), ao
longo da evolução da civilização européia: o comunismo primitivo; o escravismo; o
feudalismo; o capitalismo. Cada um destes sistemas era dominado por um modo de
produção, caracterizado por determinadas forças produtivas e relações de produção, com
uma estrutura particular de classes.
Marx vê com olhos bastantes críticos a fase do capitalismo, que ele coloca como uma
característica da classe "burguesa57", classe dominante que detinha o modo de produção e
explorava economicamente a classe de trabalhadores (proletários, operários e camponeses),
que se opunham dialeticamente entre si, dando ensejo a uma interminável "luta de classes58".
Este conceito de luta de classes59 foi aproveitado por ele (juntamente com a análise dialética
de Hegel) para definir a História como uma sucessão de movimentos sociais de oposição
entre si, compostos por várias fases: a formação de uma classe social; o avanço desta classe
em direção a novas estruturas sociais, num movimento contrário às classes já existentes, que
buscam o seu status quo; revoluções sociais como forma de transformar os modos de
produção em propriedade social (a síntese dialética histórica).
Para Marx, o comunismo seria a última forma de sociedade, na qual o proletariado
seria a última classe60. Suprimidas todas as classes, o próprio Estado já não teria razão de
existir61. Entre a sociedade capitalista e a comunista, haveria um período de transformação
revolucionária, caracterizado pelo que chamou de "ditadura do proletariado". Como
socialista autoritário, e também em razão de sua análise histórica, Marx acreditava que as
classes dominantes não entregariam facilmente o poder (os modos de produção), e que,
portanto deveriam ser desalojadas (pela força da revolução)62.
Engels, parceiro teórico das idéias de Marx, afirmava por sua vez que o proletariado
deveria se apoderar da força do Estado e começar a transformar e transferir para este os
meios de produção. Somente assim ele iria se destruir como proletariado, pela abolição de
todas as distinções e antagonismos de classe. E somente assim o próprio Estado poderia ser
abolido.

57 Que começara a surgir a partir da Revolução Francesa.


58 No Manifesto Comunista, Marx afirma que "a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história
das lutas de classes". Curiosamente, Marx, que era contra a exploração dos trabalhadores pelos capitalistas, não
tinha uma posição clara contra a escravidão negra, ainda imperante em sua época (os últimos países a aboli-Ia
foram Cuba, em 1880, e Brasil, em 1888).
59
Já conhecido por outros autores anteriores, tais como Maquiavel, Sismondi, Thierry, Thiers, Carlyle, e muitos
outros historiadores e economistas.
60 Dialeticamente, seria a síntese histórica final de todos os movimentos sociais passados, cujas teses e
antíteses (ou contradições internas, como Marx as chamava) redundavam em sínteses insatisfatórias, por não
trazerem o final das lutas de classes.
61 A maioria dos marxistas acreditava que esta fase estaria em um futuro muito distante.
62
Lênin, a este respeito, manifestou-se assim: "Por dois motivos e em dois sentidos diferentes, a ditadura é
necessária na transição do capitalismo para o socialismo. Em primeiro lugar, a vitória do proletariado é
impossível sem a opressão mais absoluta exercida sobre as classes dominantes, que não querem renunciar a
seus privilégios e que durante muito tempo colocarão todas as forças em movimento para derrubar o governo
proletário que odeiam. Por outro lado, nenhuma grande revolução, sobretudo socialista, é possível sem guerra
civil, mesmo se reina a paz com as potências estrangeiras" (CASTRO, Paulo. Pág. 155.).

63
Para Engels, a classe antiga, que se move através dos antagonismos de classe, tem
necessidade do Estado, pois somente através dele pode manter a sua força exploradora e sua
força de opressão contra as classes trabalhadoras.

LEITURA COMPLEMENTAR – a Teoria Econômica de Marx


Marx foi um escritor extremamente prolixo, e sobre economia, suas obras são
inúmeras (dos seus vários textos, podemos citar: O Capital; Introdução à Crítica da
Economia Política; Contribuição à Crítica da Economia Política; Salário, Preço e Lucro;
Teorias sobre a Mais-Valia; etc.). Para ele, toda mercadoria deveria satisfazer uma necessidade
(deveria ter um valor de uso). Ele identificou o valor de troca da mercadoria, e afirmou que
toda mercadoria acabada (produzida) tinha um valor maior do que o valor dos seus
componentes. Assim, um casaco teria um valor maior do que o valor do tecido utilizado em
sua confecção. Ele explicava este acréscimo de valor como resultante da quantidade de
trabalho. Mas havia o trabalho médio simples, e o trabalho complexo. O primeiro varia
conforme o país, enquanto que o segundo seria uma espécie de múltiplo do primeiro, com
custos mais altos e de maior duração.
A troca de mercadorias se daria através de um equivalente geral, o dinheiro. Este seria
a medida padrão para todas as mercadorias, com "consistência objetiva e validade social
universal". Produtos diversos de trabalho são equiparados, e o valor da mercadoria,
normalmente, tem o seu valor de troca determinado através do tempo de trabalho. Este valor
da mercadoria não é o seu preço, mas está intrinsecamente ligado a ele (na troca de
mercadorias simples, predomina o valor de uso). Por fim, preços diferentes podem
representar quantidades iguais de trabalho social.
Marx afirma que os meios de produção transferem valor ao produto pela perda do
valor próprio, durante o processo de trabalho. A diferença excedente entre o valor total do
produto e a soma dos elementos que o formam tem origem na força de trabalho humana,
que expende mais esforço do que aquele necessário à própria subsistência. Quanto ao capital,
uma parte se mantém constante (é o chamado capital constante), quando convertida em
instrumentos de produção; já aquela convertida em força de trabalho muda de valor no
processo de produção. Além do próprio valor (que ela reproduz), há um valor excedente,
que Marx chama de mais-valia63. Esta parte do capital pode ser maior ou menor; ele a chama
de capital variável.
Esta parte do capital (a mais-valia) torna-se objeto de litígio entre o capitalista e o
trabalhador, principalmente pelo que ela representa de diferença entre o tempo de trabalho
excedente e o tempo de trabalho necessário ao sustento da força de trabalho (materializada
na jornada de trabalho. Marx afirma que, na história da produção capitalista, a
regulamentação da jornada de trabalho é um embate incansável entre a classe capitalista e a
classe trabalhadora64.
Para Marx, o trabalhador sentia-se alienado de seu trabalho, do seu meio cultural e
até de seus próprios companheiros. Alienação, no contexto em que ele emprega o termo,
significava que o trabalhado era externo ao trabalhador, não lhe pertencia. O seu trabalho
não era voluntário, e sim forçado; quando trabalhava, não o fazia para si, mas para outrem.
Por isso, por não poder desenvolver livremente a sua energia física e espiritual, o trabalhador

63 O conceito de mais-valia tem sofrido extensas críticas de vários economistas. Ele não surgiu com Marx; na
verdade, os fisiocratas já utilizavam um conceito semelhante quando acreditavam que somente a agricultura
produzia riqueza, e, portanto somente ela produzia um excedente que podia ser tributado. Muitos economistas
criticam a noção de que a produção, de algum modo, possa criar um excedente de receita, que é acumulado por
determinadas classes.
64 Marx previu que o conceito de mais-valia deveria sofrer revisão em uma época de automalização (como é o

caso cada vez mais comum na atualidade). Para ele, o tempo de trabalho poderia deixar de ser a medida da
riqueza, se a própria forma de trabalho se modificar (vide nota 130).

64
era infeliz, e sentia-se degradado e desumanizado. Por ter sido transformada em mercadoria
a sua atividade necessária de subsistência, ele sofria uma deformação no desenvolvimento da
sua personalidade. A única forma de eliminar a alienação seria fazendo a propriedade dos
meios de produção mudar de mãos.

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65
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TRAGTENBERG, Maurício. Planificação – Desafio do Século XX. Editora Senzala.


S/l. S/d.

8.3 - O Pensamento de Karl Marx (1818 – 1883)

Não vamos falar aqui de uma escola marxista porque, na realidade, existem várias escolas
marxistas. As leituras da obra de Marx são tão diversas que é quase impossível chegar a um
consenso sobre certos aspectos dessa obra. Por outro lado, o pensamento marxiano (para
diferenciar do termo marxista), é rico, múltiplo e variado e não se deixa sistematizar com
facilidade. Por isso apresentaremos, aqui, apenas alguns conceitos econômicos fundamentais.
Os limites deste livro não nos permitem ir mais longe.

É importante ressaltar também que, em muitos círculos do mundo capitalista, as idéias de


Marx são pouco conhecidas. Geralmente são apresentadas à maneira de caricatura. A
caricatura deforma, exagera os traços mais salientes da fisionomia de uma pessoa ou de uma
obra c com isso cria uma atmosfera ridícula ou irreal. A ideologia faz o mesmo com as
utopias, ou seja, com aqueles sistemas de idéias que se contrapõem à corrente principal. Não
é difícil entender que muitas idéias atribuídas a Marx são apenas caricaturas das idéias de
Marx. Um mínimo de honestidade científica exige que não as aceitemos como tal. Vamos
fazer um esforço para entendê-las melhor.

Conceitos Importantes
Existem alguns conceitos que o leitor deve dominar para entender o pensamento de Marx.
Ao avançar na leitura, você encontrará o esclarecimento dos seguintes conceitos:

66
Capital trabalho concreto
Capital constante trabalho abstrato
Capital variável mais-valia absoluta
Classe Social mais-valia relativa
Valor mercadoria
Valor de Uso força de trabalho
Valor de Troca composição orgânica do Capital

O que é Capital?

A principal preocupação de Marx é desvendar as leis do movimento do capital na sociedade


capitalista. Para isso vai criar alguns instrumentos de análise que teremos de manejar com
certo cuidado. Em primeiro lugar, categorias como capital, mercadoria, força de trabalho têm
sentido preciso e histórico na pena de Marx. Não são categorias universais nem eternas.
Descrevem fenômenos que não existiram em todos os períodos históricos. € preciso
conhecer o conteúdo exato de cada um destes termos para compreendermos o que ele está
dizendo. Comecemos com o termo capital. A idéia mais geral para Marx é a de que capital
não é uma coisa. Não é simplesmente, como para os neoclássicos, o conjunto de máquinas,
equipamentos, estradas e canais. É também isto, mas sob determinadas condições. Capital é,
antes de tudo, uma relação social. € a relação de produção que surge com o aparecimento da
burguesia, ou seja, com o aparecimento daquela classe social que se apropria privadamente
dos meios de produção (monopólio de classe) e que se firma definitivamente após a
dissolução do mundo feudal. O capital não é uma coisa, mas uma relação social entre pessoas
efetivada através de coisas. Diz Marx: "A propriedade de dinheiro, de meios de subsistência,
de máquinas e outros meios de produção não transforma um homem em capitalista, se lhe
falta o complemento, o trabalhador assalariado, o outro homem que é forçado a vender-se a
si mesmo voluntariamente."

"Um negro é um negro. Só se converte em escravo se houver certas condições. Uma máquina de fiar
algodão é uma máquina de fiar algodão. 5ó em certas condições se transforma em capital. Fora
destas condições, não é capital, como o ouro em si mesmo e por si mesmo não é dinheiro ou o açúcar
não é preço do açúcar. .. O capital é uma relação social de produção. f. uma relação histórica de
produção."

Marx falará de capital constante (relacionado a máquinas e equipamentos), capital variável


(relacionado à força de trabalho) e de capital-dinheiro, mas todas essas modalidades do
capital devem ser entendidas dentro do contexto anterior. São as relações específicas dessas
coisas dentro do modo de produção capitalista que as torna capital. Caso contrário, os
instrumentos de análise de Marx perderiam valor porque ele os criou para explicar relações
sociais e econômicas que estavam surgindo naquele momento e que eram realmente
diferentes de todas as outras. Identificar, por exemplo, um instrumento de produção como
capital, sem mais, é o mesmo que dizer que o capitalismo existiu sempre. O primeiro primata
que tentou colher um fruto mais alto provavelmente usou uma vara ou algo parecido para
atingir este objetivo. Seria ele o primeiro capitalista'?
A análise de Marx tem raízes na história. O que ele quer analisar é um modo de produção
específico que estava surgindo com a dissolução do mundo feudal. Ignorar isto é condenar-
se a não compreender sua análise.

67
O que é então, o capitalismo para ele? E uma relação sui generis65 que se caracteriza pela
compra e venda da força de trabalho e que só se tornou possível sob determinadas condições
e visando a determinados fins que ficarão mais claros depois. Em outras palavras, o
capitalismo surge quando tudo se torna mercadoria, inclusive a força de trabalho. Para que
isto ocorra é necessário que uma classe (a burguesia) se torne proprietária exclusiva dos meios
de produção e que outra (o proletariado), não tendo mais como produzir o necessário para
o sobreviver, seja obrigada a vender no mercado sua força de trabalho. Esta relação entre
proprietário dos meios de produção e proprietários da força de. trabalho se reveste de
algumas características específicas que estudaremos mais tarde. E só a partir desta relação (e
das conseqüências dela) que os meios de produção se tornam capital e a força de trabalho,
mercadoria.
Para mostrar a especificidade do capitalismo. Marx recorre a um artifício didático e começa
O capital fazendo o estudo da mercadoria e da sociedade mercantil simples. E mais fácil
compreender a originalidade do capitalismo se o confrontarmos com outro modelo.

Esclarecimentos
No modelo de capitalismo puro só existem duas classes sociais, os proprietários dos meios
de produção (capitalistas) e os proprietários da força de trabalho (operários). Mas é bom
lembrar que estamos falando de um modelo e todo modelo faz abstração de muitos outros
elementos reais, para captar apenas os traços essenciais. Na vida real não existe um modelo
puro nas formações sociais concretas, em que o modo de produção capitalista (modelo puro)
combina-se, em maior ou menor grau, com outros modos de produção. Às vezes, Marx
refere-se ao modelo e, às vezes, à realidade histórica. Para uma pessoa pouco habituada a
estas distinções, a questão complica-se. t o caso das classes sociais. Há passagens em que fala
de apenas duas classes sociais (burguesia e proletariado) e outras em que fala de três ou mais.
No primeiro caso, Marx está referindo-se ao modelo, no segundo à complexidade das
formações reais.
Ao falar de classe social, temos de evitar um equívoco muito freqüente, a confusão entre
classe e estratificação social. A classe social para Marx é definida objetivamente pela posição
que a pessoa ocupa na estrutura de produção. E, neste caso, no modelo puro, só existem
duas posições possíveis; ou a pessoa possui os meios de produção e pertence à classe
capitalista ou não possui e pertence à classe operária. É a posição da pessoa na estrutura de
produção que determina sua faixa de renda. Não é a renda que determina a posição da pessoa
na hierarquia social. Freqüentemente recorrem-se ao critério de renda para se dividir "classes
sociais". De tantos a tantos salários mínimos classe C, de tantos a tantos classe A, e assim
por diante. Isto é apenas descrição superficial dos fatos ou um método sutil de encobrir a
verdadeira questão. O que deve ser explicado é o seguinte: por que Fulano ganha mil vezes
mais do que Beltrano, sendo que tem mais ou menos a mesma capacidade? O estudo da
posição da pessoa na estrutura produtiva e do mecanismo de transferência de renda entre as
diversas classes esclarece este fato. Outro ponto a ser esclarecido é o conceito de mercadoria.
Para Marx, mercadoria não é a mesma coisa que produto ou bem.
Mercadoria é o produto que se destina à troca no mercado. Uma sociedade que só produz
para auto-consumo não produz mercadorias, mas bens ou produtos. Antes do capitalismo já
existiam sociedades mercantis, uma vez que muitas delas se dedicavam ao comércio, mas só
no capitalismo há a generalização da mercadoria, isto é, tudo se torna mercadoria inclusive a
força de trabalho. Este último traço é distintivo do capitalismo.

65Sui generis = significa literalmente "de seu próprio gênero", ou seja, "único em seu gênero". Usa-se como
adjetivo para indicar que algo é único, peculiar: uma atividade sui generis, uma proposta sui generis, um
comportamento sui generis.

68
Outro ponto: Marx discorda de Adam Smith e de outros economistas quanto ao conceito de
trabalho produtivo. Para Adam Smith trabalho produtivo é aquele que produz bens materiais
vendáveis que sobrevivem ao processo de criação. Os serviços não são produtivos. Para
Marx. trabalho produtivo é aquele que é comprado com o capital-dinheiro, sendo capaz de
criar um excedente (lucro). Trabalho improdutivo é o trabalho contratado como serviço
pessoal ou como artigo de consumo. Isto ficará mais claro após o estudo do conceito de
mais-valia. Trabalho produtivo é todo e qualquer trabalho capaz de criar mais-valia.
Finalmente uma observação de ordem metodológica. Marx vem de uma tradição filosófica
que sempre distinguiu entre fenômeno e essência, aparência e realidade. Esta distinção torna-
se muito mais visível em Hegel. O objetivo de qualquer prática científica é esclarecer a
essência das coisas e não descrever aparências. A ciência deve partir do fenômeno para chegar
à realidade que se esconde atrás do fenômeno. Na tradição positivista e neopositivista66 isto
não tem sentido. A preocupação exclusiva é com os fenômenos. O próprio conceito de
causalidade (o que causa o quê? Qual o sentido da causalidade?) deixa de existir, cedendo
lugar ao conceito de função. O erro metodológico que está na raiz deste último procedimento
tem conseqüências graves tanto para a economia como para a política econômica. Não são
questões acadêmicas irrelevantes. Por exemplo. alguém poderia dizer que o aumento da
inflação é função do aumento salarial. Poderíamos inverter a afirmação e dizer que as
pressões para o aumento de salários têm origem no aumento da inflação. A correlação existe
nos dois sentidos. Do mesmo modo, alguém poderia dizer que a inflação é função do
aumento da base monetária. Outro poderia responder que a inflação tem raízes na luta dos
diversos agentes econômicos para não perderem parcela significativa da renda: o aumento
da base monetária apenas sanciona a inflação provocada por esta luta.
O leitor deve perceber por estes exemplos que o conceito de função é insuficiente. É preciso
buscar também o conceito de causa e em que sentido atua esta causa. Alguém poderia replicar
que isto está implícito nos conceitos de variável dependente e independente. Concordamos,
mas como estabelecer a variável dependente e a independente sem o conceito de causa?
Quem aceita os postulados do neopositivismo não conseguirá entender Marx.

A Revolução Industrial
Europa - Inglaterra - A Revolução Industrial
A partir de 1760 com a invenção da máquina a vapor por James Watt (1736-1819) e a sua
posterior aplicação à produção, uma nova concepção de trabalho veio modificar
completamente a estrutura social e comercial da época, provocando profundas e rápidas
mudanças de ordem econômica, política e social que, num lapso de aproximadamente um
século, foram maiores do que as mudanças havidas no milênio anterior. É o período
chamado de Revolução Industrial, que se iniciou na Inglaterra e rapidamente se alastrou por
todo o mundo civilizado.
Revolução Industrial pode ser dividida em duas épocas bem distintas:

66 Neopositivismo = Positivismo lógico é uma posição filosófica geral, também denominada empirismo lógico
ou neo-positivismo, desenvolvida por membros do Círculo de Viena com base no pensamento empírico
tradicional e no desenvolvimento da lógica moderna. O positivismo lógico restringiu o conhecimento à ciência
e utilizou o verificacionismo para rejeitar a Metafísica não como falsa, mas como destituída de significado. A
importância da ciência levou positivistas lógicos proeminentes a estudar o método científico e explorar a lógica
da teoria da confirmação. O positivismo lógico hoje em dia é considerado pela maioria dos filósofos. Mas, as
correntes filosóficas desdobradas de Kuhn (que estabelece o caráter paradigmático da ciência) e Paul
Feyerabend (demonstrando que na prática científica a ciência não evolui segundo normas pré-estabelecidas)
geraram graves problematizações de suas idéias.

69
1780 a 1860: 1ª Revolução Industrial ou revolução do carvão e do ferro.
1860 a 1914: 2ª Revolução Industrial ou revolução do aço e da eletricidade.

Embora tenha se iniciado a partir de 1780, a Revolução Industrial não adquiriu todo o seu
ímpeto antes do século XIX. Ela surgiu como uma bola de neve em aceleração crescente.

A 1ª Revolução Industrial pode ser dividida em 4 fases:


1ª fase: a mecanização da indústria e da agricultura, nos fins do século XVIII, com o
aparecimento da máquina de fiar (inventada pelo inglês Hargreaves em 1767), do tear
hidráulico (inventado por Arkwright em 1769), do tear mecânico (por Cartwright em 1785),
do descaroçador de algodão (por Whitney em 1792), que vieram substituir o trabalho braçal
e a força motriz muscular humana, animal ou ainda da roda de água. Eram máquinas grandes
e pesadas, mas com incrível superioridade sobre os processes manuais de produção da época.
O descaroçador de algodão tinha capacidade para trabalhar mil libras de algodão enquanto,
no mesmo tempo, um escravo conseguia trabalhar cinco.

2ª fase: a aplicação da força motriz à indústria. A força elástica do vapor descoberta por
Dénis Papin, no século XVII, ficou sem aplicação até 1776, quando Watt inventou a máquina
a vapor. Com a aplicação do vapor às máquinas, iniciam-se as grandes transformações nas
oficinas, que se converteram em fábricas, nos transportes, nas comunicações e na agricultura.
3ª Fase: o desenvolvimento do sistema fabril. O artesão e a sua pequena oficina patronal
desapareceram para dar lugar ao operário e às fábricas e às usinas, baseadas na divisão do
trabalho. Surgem novas indústrias em detrimento da atividade rural. A migração de massas
humanas das áreas agrícolas para as proximidades das fábricas provoca o crescimento das
populações urbanas, com o surgimento de favelas, redução das condições de saúde e,
conseqüentemente, o aumento da mortalidade.

4ª fase: um espetacular aceleramento dos transportes e das comunicações. A navegação a


vapor surgiu com Robert Fulton (1807) nos Estados Unidos e logo depois as rodas
propulsoras foram substituídas por hélices. A locomotiva a vapor foi aperfeiçoada por
Stephenson, surgindo a primeira estrada de ferro na Inglaterra (1825) e logo depois nos
Estados Unidos (1829). Esse novo meio de transporte propagou-se vertiginosamente.
Outros meios de comunicações foram aparecendo com uma rapidez surpreendente: Morse
inventa o telégrafo elétrico (1835), surge o selo postal na Inglaterra (1840), Graham Bell
inventa o telefone (1876). Já se esboçam os primeiro sintomas do enorme desenvolvimento
econômico, social, tecnológico e industrial e as profundas transformações e mudanças que
ocorreriam com uma velocidade gradativamente maior.

Com todos esses aspectos define-se cada vez mais um considerável controle capitalista sobre
quase todos os ramos da atividade econômica.
A partir de 1860, a Revolução Industrial entrou em uma nova fase profundamente diferente
da I Revolução Industrial. É a chamada 2ª Revolução Industrial, provocada por três
acontecimentos importantes:
- desenvolvimento de novo processo de fabricação de aço (1856);
- aperfeiçoamento do dínamo (1873);
- invenção do motor de combustão interna (1873) por Daimler.

70
As principais características da 2ª Revolução Industrial são as seguintes:
1. A substituição do ferro pelo aço como material industrial básico.
2. A substituição do vapor pela eletricidade e pelos derivados de petróleo como principais
fontes de energia.
3. O desenvolvimento da maquinaria automática e um alto grau de especialização do
trabalho.
4. O crescente domínio da indústria pela ciência.
5. Transformações radicais nos transportes e nas comunicações. As vias férreas são
melhoradas e ampliadas. A partir de 1880, Daimler e Benz constroem automóveis na
Alemanha, Dunlop aperfeiçoa o pneumático em 1888 e Henry Ford inicia a produção do seu
modelo "T" em 1908, nos Estados Unidos. Em 1906, Santos Dumont faz a primeira
experiência com o avião.
6. O desenvolvimento de novas formas de organização capitalista. As empresas de sócios
solidários, formas típicas de organização comercial, cujo capital provinha dos lucros
auferidos (capitalismo industrial), e que tomavam porte ativa na direção dos negócios, deram
lugar ao chamado capitalismo financeiro, que tem quatro características principais:
a) a dominação da indústria pelos investimentos bancários e pelas instituições financeiras e
de crédito, como foi o caso da formação da United States Steel Corporation, em 1901, pela
J. P. Morgan & Co.;
b) a formação de imensas acumulações de capital, provenientes de trustes e fusões de
empresas;
c) a separação entre a propriedade particular e a direção das empresas;
d) o desenvolvimento das “holding companies”.
7. A expansão da industrialização até a Europa Central e Oriental, e até o Extremo Oriente.

Da calma produção do artesanato, em que os operários eram, organizados em corporações


de ofício regidas por estatutos, onde todos se conheciam, em que o aprendiz, para passar a
mestre, tinha de produzir uma obra perfeita perante os irmãos de ofício, que eram as
autoridades da corporação, passou o homem rapidamente para o regime da produção feita
por meio de máquinas, dentro de grandes fábricas. Não houve uma gradativa adaptação entre
as duas situações sociais. Houve, isto sim, uma súbita modificação de situação, provocada
por dois aspectos:
1. A transferência da habilidade do artesão para a máquina, que passou a produzir com maior
rapidez, maior quantidade e melhor qualidade, possibilitando uma redução no custo da
produção.
2. A substituição da força do animal ou do ser humano pela maior potência da máquina a
vapor (e posteriormente pelo motor), que permitia maior produção e economia.

Os proprietários de oficinas, que não estavam em condições financeiras de adquirir máquinas


e maquinizar a sua produção, foram obrigados, por força da concorrência, a trabalhar para
outros proprietários de oficinas que possuíam a maquinaria necessária. Esse fenômeno da
maquinização das oficinas - rápido e intenso - provocou uma série de fusões de pequenas
oficinas que passaram a integrar outras maiores que, aos poucos, foram crescendo e se
transformando em fábricas.

71
Esse crescimento foi acelerado graças ao abaixamento dos custos de produção que propiciou
preços competitivos e um alargamento do mercado consumidor da época. Isso aumentou a
demanda de produtos e, ao contrário do que se previa na ocasião, as máquinas não
substituíram totalmente o homem, mas deram-lhe melhores condições de produção. O
homem foi substituído pela máquina naquelas tarefas em que se podia automatizar e acelerar
pela repetição. Com o aumento dos mercados, decorrente da popularização dos preços, as
fábricas passaram a exigir grandes contingentes humanos. Aumentou a necessidade de
volume e de qualidade dos recursos humanos. A mecanização do trabalho levou à divisão do
trabalho e à simplificação das operações, fazendo com que os ofícios tradicionais fossem
substituídos por tarefas semi-automatizadas e repetitivas, que podiam ser executadas com
facilidade por pessoas sem nenhuma qualificação e com enorme simplicidade de controle. A
unidade doméstica de produção, ou seja, a oficina, o artesanato em família, desapareceu com
a súbita e violenta competição, surgindo dai uma pluralidade de operários e de máquinas nas
fábricas. Com a concentração de indústrias e fusão das pequenas oficinas alimentadas pelo
fenômeno da competição, grandes contingentes de operários passaram a trabalhar juntos,
durante as jornadas diárias de trabalho, que se estendiam por 12 ou 13 horas de labor, dentro
de condições ambientais perigosas e insalubres, provocando acidentes e doenças em larga
escala. O crescimento industrial era improvisado e totalmente baseado no empirismo, uma
vez que a situação era totalmente nova e desconhecida. Ao mesmo tempo em que intensa
migração de mão-de-obra se desenvolvia dos campos agrícolas para os centros industriais,
surge um surto acelerado de urbanização, também sem nenhum planejamento ou orientação.
Ao mesmo tempo em que o capitalismo se consolida, cresce o volume de uma nova classe
social: o proletariado. As transações se multiplicam e a demanda de mão-de-obra nas minas,
nas usinas siderúrgicas e nas fábricas aumenta substancialmente. Com isso, os proprietários
passam a enfrentar os novos problemas de gerência, improvisando suas decisões e sofrendo
os erros de administração ou de uma nascente tecnologia. Obviamente esses erros, em muitos
casos, eram cobertos pela mínima paga aos trabalhadores, cujos salários eram baixíssimos. A
par do baixo padrão de vida, da promiscuidade nas fábricas e dos tremendos riscos de graves
acidentes, o longo período de trabalho em conjunto permitia uma interação mais estreita
entre os trabalhadores e uma crescente conscientização da precariedade de suas condições
de vida e de trabalho e da intensa exploração por uma classe social economicamente melhor
favorecida. As primeiras tensões entre a classe operária e os proprietários de indústrias não
tardaram a aparecer. Os próprios Estados passaram a intervir em alguns aspectos das relações
entre operários e fábricas, baixando algumas leis trabalhistas. Em 1802, o governo inglês
sanciona uma lei protegendo a saúde dos trabalhadores nas indústrias têxteis. A fiscalização
do cumprimento dessa lei era feita voluntariamente pelos pastores protestantes e juizes locais.
Outras leis esparsas são impostas aos poucos, na medida em que os problemas vão se
agravando.

Com a nova tecnologia dos processos de produção e da construção e funcionamento das


máquinas, com a crescente legislação que procura defender e proteger a saúde e a integridade
física do trabalhador e, conseqüentemente, da coletividade, a administração e a gerência das
empresas industriais passaram a ser a preocupação permanente dos seus proprietários. A
prática foi lentamente ajudando a selecionar idéias e métodos empíricos. Ao invés de
pequenos grupos de aprendizes e artesãos dirigidos por mestres habilitados, o problema
agora era o de dirigir batalhões de operários da nova classe proletária que se criou. Ao invés
de instrumentos rudimentares de trabalho manual, o problema era o de operar máquinas,
cuja complexidade aumentava. Os produtos passaram a ser elaborados em operações parciais
que se sucediam, cada uma delas entregue a um grupo de operários especializados em tarefas
específicas, estranhos quase sempre às demais outras operações, ignorando até a finalidade
da peça ou da tarefa que estavam executando. Essa nova situação contribuiu para apagar da

72
mente do operário o veículo social mais intenso, ou seja, o sentimento de estar produzindo
e contribuindo para o bem da sociedade. O capitalista passou a distanciar-se dos seus
operários e a considerá-los uma enorme massa anônima, ao mesmo tempo em que os
agrupamentos sociais, mais condensados nas empresas, geravam problemas sociais e
reivindicativos, ao lado de outros problemas de rendimento do trabalho e do equipamento
que necessitavam de uma rápida e adequada solução. A principal preocupação dos
empresários se fixava logicamente na melhoria dos aspectos mecânicos e tecnológicos da
produção, com o objetivo de produzir quantidades maiores de produtos melhores e de
menor custo. A gestão do pessoal e a coordenação do esforço produtivo eram aspectos de
pouca ou nenhuma importância. Assim, a Revolução Industrial, embora tenha provocado
uma profunda modificação na estrutura empresarial e econômica da época, não chegou a
influenciar diretamente os princípios de administração das empresas então utilizados. Os
dirigentes de empresas simplesmente trataram de cuidar como podiam ou como sabiam das
demandas de uma economia em rápida expansão e carente de especialização. Alguns
empresários baseavam as suas decisões em modelos as organizações militares ou eclesiásticas
bem-sucedidas nos séculos anteriores.

A utilização capitalista das máquinas no sistema fabril intensifica o caráter social do trabalho,
implicando em:
a) ritmos rígidos;
b) normas de comportamento estritas;
c) maior interdependência mútua.

A máquina impõe como absolutamente necessária o caráter cooperativo do trabalho, a


necessidade de uma regulação social. Porém, o uso capitalista das máquinas leva a uma
direção autoritária, à regulamentação administrativa sobre o operário, tendo em vista a
extorsão da mais-valia pelos membros do quadro administrativo, executivos, diretores,
supervisores, capatazes. Os patrões conseguem fazer passar por simples regulamentação
social o que na realidade é o seu código autoritário. Direção autoritária é objetivo capitalista
que, pela chamada "racionalização do trabalho" e controle do comportamento do operário,
define as garantias da cooperação. Para obter cooperação na indústria, as funções diretivas
transformam-se de normas de controle em normas de repressão.

A principal conseqüência disto tudo é que a organização e a empresa modernas nasceram


com a Revolução Industrial, graças a um grande número de fatores, dentre os quais podemos
destacar principalmente:

a) a ruptura das estruturas corporativas da Idade Média;


b) o avanço tecnológico, graças às aplicações dos progressos científicos à produção, com a
descoberta de novas formas de energia e a possibilidade de uma enorme ampliação de
mercados;
c) a substituição do trabalho artesanal pelo trabalho de tipo industrial.

73
A seguir
Leitura Complementar - IMPORTANTE

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Revolução Industrial na Inglaterra a partir de 1760; Crise do Capitalismo entre 1873 e 1893 e o
Neocolonialismo

Capitalismo Monopolista, Imperialismo e Neocolonialismo


De 1760 a 1830, a Revolução Industrial ficou limitada à Inglaterra, a oficina do mundo. Para manter a exclusividade,
era proibido exportar maquinário e tecnologia. Mas a produção de equipamentos industriais superaria logo as
possibilidades de consumo interno e não seria possível conter os interesses dos fabricantes. Além disso, as nações
passaram a identificar o poderio de um país com seu desenvolvimento industrial. E o processo se difundiu pela
Europa, Ásia e América.
A tecnologia industrial avançou, a população cresceu, os movimentos imigratórios se intensificaram. No fim do
século XIX, sobreveio a primeira Grande Depressão (1873 - 1896), que fortaleceu as empresas pela centralização
e concentração do capital. Iniciou-se aí nova fase do capitalismo, a fase monopolista ou financeira, que se
desdobrou na exportação de capitais e no processo de colonização da África e da Ásia.

A Revolução Industrial se irradia


Em ritmo vertiginoso, como na Alemanha, ou retardado por razões políticas, como na França, o impacto da
Revolução Industrial inglesa atingiu todas as partes do mundo.

Bélgica – Primeiro país da Europa a industrializar-se no século XIX. Dois ingleses criaram uma fábrica de tecidos
em Liège já em 1807. Foi rápido o desenvolvimento, facilitado pela existência de carvão e ferro, pelo investimento
de capitais ingleses e pela proximidade do mercado europeu.

Alemanha – Em ritmo acelerado a partir de 1870, a industrialização alemã se beneficiou da unificação nacional,
da decidida proteção estatal, da atuação do capital bancário e do crescimento demográfico. A peculiaridade aqui
está no casamento entre indústria e bancos, bem como no uso de técnicas que permitiram alto grau de
racionalização.
A Alemanha já era grande produtora de carvão desde 1848. A siderurgia avançou, estimulada pelo desenvolvimento
ferroviário. Na década de 1880, a indústria têxtil ameaçava superar a inglesa, devido à adoção de fibras sintéticas e
novos corantes; destaque-se aqui a expansão da indústria química, ligada à pesquisa científica. No fim do século,
graças a Werner Siemens, a indústria elétrica tomou grande impulso. Em 1914, a Alemanha iria produzir 35 % da
energia elétrica mundial, seguida por Estados Unidos (29%) e Inglaterra (16 %) .

França – A Revolução Francesa retardou o desenvolvimento econômico do país. A consolidação da pequena


indústria e a tradição de produzir artigos de luxo dificultaram a grande concentração industrial. É difícil falar em
Revolução Industrial francesa. Não houve arranque acelerado, mas lenta transformação das técnicas de produção
e das estruturas industriais.
O processo se acelera a partir de 1848, com a adoção de medidas protecionistas, ou seja, impediu-se a importação
de produtos industriais e estimulou-se a exportação. Assim mesmo; havia entraves ao avanço: houve retração
demográfica no século XIX, com baixo índice de natalidade e lenta regressão na mortalidade; a estrutura agrária
preservava a pequena propriedade, o que limitava o progresso tecnológico; faltava carvão e seu preço era o mais
alto do mundo; os recursos iam para empréstimos públicos e investimentos no estrangeiro, em vez de ir para o
setor produtivo.
A expansão industrial foi freada ainda pela prática do autofinanciamento, ou seja, a, o reinvestimento dos lucros
na própria empresa, que preservava seu caráter familiar, limitado.

Itália – A unificação política e aduaneira impulsionou a industrialização, que arrancou no decênio de 1880-1890.
O Estado reservou a produção de ferro e aço para a indústria nacional, favorecendo a criação da siderurgia
moderna. A falta de carvão, ao elevar os custos, reduzia a competitividade no exterior. Protegida pelo Estado, a
siderurgia se concentrava no norte e sua produção não era suficiente para o mercado interno, o que exigia
importações. A indústria mecânica cresceu mais depressa, especialmente as de construção naval e ferroviária,

75
máquinas têxteis e ligadas à eletrificação (motores, turbinas). A partir de 1905, a indústria automobilística de Turim
conseguiu excelentes resultados.
Também protegida, a indústria têxtil era a única com capacidade de conquistar mercados externos. A falta de
carvão estimulou a produção de energia elétrica. O problema mais grave estava na total concentração do processo
de crescimento no norte, enquanto o sul permanecia agrário e atrasado.

Império Austro-Húngaro – Sua característica era a enorme mistura de povos e minorias nacionais. O
desenvolvimento industrial se acelerou mais na ex-Tchecoslováquia (atuais Eslováquia e República Tcheca),
sobretudo nos setores têxtil, de extração de carvão e siderurgia. Destacou-se a Skoda, famosa produtora de armas,
material ferroviário, máquinas agrícolas, etc.

Suécia – Deu-se aqui um caso típico de rápido desenvolvimento ligado a pesados investimentos estrangeiros,
principalmente alemães; o mecanismo se explica pelas relações entre grandes bancos suecos e alemães. Mais tarde,
viriam os bancos franceses. A Suécia chegou a ter a dívida externa mais alta do mundo.
Na década de 1870, teve início a construção ferroviária. A partir dos anos de 1890, os alemães se voltaram para as
minas de ferro, fundições e forjas. O aço de alta qualidade era exportado. Os franceses investiram mais em energia
elétrica. Também tiveram importância a indústria madeireira e a química, como a de explosivos, controlada pelo
grupo Nobel.

Rússia – A arrancada do último país da Europa a industrializar-se se deu entre 1890 e 1900, com taxa de
crescimento industrial de 8% ao ano, jamais igualada pelo Ocidente. Motivos: participação do Estado,
investimentos externos e presença de técnicos estrangeiros. A abolição da servidão em 1861 não mudou muito a
estrutura agrária, baseada no mir, comunidade agrícola de culturas coletivas. A produtividade não cresceu, nem o
poder aquisitivo dos agricultores; e não houve êxodo rural que fornecesse mão-de-obra excedente às indústrias.
O Estado exerceu papel importante. A compressão do consumo dos camponeses gerou excedentes de produtos
agrícolas exportáveis, cujos rendimentos eram transformados em investimentos. Em 1913, metade do capital
investido era estrangeira, com maior participação da França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Estados Unidos. As
indústrias de mineração tinham 91% de capital estrangeiro; as químicas, 50%; as metalúrgicas, 42%; a madeireira,
37%; e a têxtil, 28%.
Formaram-se gigantescos conglomerados, como o Cartel Prodameta, que controlava trinta siderúrgicas e
metalúrgicas, com capital francês. Explorava-se carvão da rica bacia do Donetz. A produção de máquinas era ainda
reduzida. A descoberta de petróleo no Cáucaso deu origem a grande exploração, dominada pelos Rothschild de
Paris. Controlada por ingleses e alemães, a indústria têxtil respondia por um terço da produção russa.

Estados Unidos – Primeiro país a industrializar-se fora da Europa, a partir de 1843, em resultado da conquista
do oeste e dos enormes recursos daí advindos; alguns autores preferem como marco a Segunda Revolução
Americana, a Guerra de Secessão entre 1860 e 1865, momento em que a classe capitalista do norte aumentou sua
fortuna financiando o governo federal, fornecendo provisões aos exércitos e desenvolvendo a indústria ligada às
necessidades do conflito. O resultado foi a consolidação do capitalismo industrial, representado politicamente
pelos republicanos. Não foi por acaso que, enquanto a abolição da escravatura destruía a economia sulista, o
protecionismo alfandegário, a legislação bancária, a construção de estradas de ferro e a legislação trabalhista
garantiam a supremacia do norte e de sua economia industrial.
Depois da guerra, o país tinha território unificado, rede de transportes em expansão, população crescente, poucas
diferenças sociais. Isso permitia a produção para o consumo de massa, o que facilitava a racionalização da
economia. O país dependia de seu próprio mercado, pois exportava apenas 10% do que produzia a Inglaterra, por
exemplo, exportava 52%. Daí o caráter fortemente protecionista da industrialização americana. O dinamismo do
país atraiu capitais europeus, que se voltaram para setores estratégicos, como ferrovias. A descoberta de ouro na
Califórnia acelerou ainda mais á economia,
Em 1890, algodão, trigo, carne e petróleo contribuíam com 75 % dá exportação. O beneficiamento de produtos
agrícolas foi a primeira grande indústria; ás siderúrgicas e indústrias mecânicas superaram o setor agrícola apenas

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no início do século XX. Sua característica era a formação de enormes empresas, que produziam ferro, carvão,
produtos siderúrgicos e ferroviários.
Em 1913, os americanos assumiriam á liderança na produção de ferro, carvão, aço, cobre, chumbo, zinco e
alumínio. A indústria mecânica avançou, sobretudo á automobilística, com métodos racionais desenvolvidos pela
Ford. A indústria têxtil deslocou-se para o sul. A elétrica, estimulada pelas investigações científicas que resultaram
na fundação da Edison Electric Company, criaram filiais em vários países, como Itália e Alemanha.

Japão – Na Ásia, foi o país que mais depressa implantou sua Revolução Industrial. Até meados do século XIX, o
Japão vivia fechado, com sua sociedade dominada por uma aristocracia feudal que explorava a massa de
camponeses. Desde 1192, o imperador tinha poder simbólico; quem o exercia era o Shogum, supremo comandante
militar. A economia monetária vinha se acentuando desde o século XVIII e á pressão dos Estados Unidos forçou
em 1852 a abertura dos portos aos estrangeiros, atendendo a interesses de expansão dá indústria americana. O
ponto de partida para ás grandes transformações foi o ano de 1868, com a Revolução Meiji (Luzes). Com apoio
estrangeiro, o imperador tomou o poder do Shogum e passou á incorporar á tecnologia ocidental, para modernizar
o Japão.
A Revolução Meiji aboliu o feudalismo, com finalidade nem tanto de melhorar a vida servil dos camponeses más
de torná-los mais produtivos. A fortuna dos grandes comerciantes e proprietários aumentou, em prejuízo dos
aposentados e pequenos lavradores. A criação de um exército de trabalhadores, devido ao crescimento
populacional, permitiu uma política de preços baixos, o dumping, favorável à competição no mercado externo.
Um aspecto importante foi a acumulação de capital nacional, decorrente dá forte atuação do Estado, que concedeu
patentes e exclusividades e integrou os investimentos. Depois de desenvolver as indústrias, o Estado as transferia
a particulares em condições vantajosas de pagamento. Formaram-se assim grandes concentrações industriais,
zaibatsu, pois 40% de todos os depósitos bancários, 60% da indústria têxtil, 60% da indústria militar, a maior parte
da energia elétrica, a indústria de papel e a de construção naval eram controlados por apenas quatro famílias:
Sumitomo, Mitsubishi, Yasuda e Mitsui. A indústria pesada avançou devagar pela falta de carvão e ferro. Os
recursos hidrelétricos foram explorados a partir de 1891. No início do século XX, a siderurgia deu um salto, criando
a base para a expansão da indústria naval.
O Estado, assentado na burguesia mercantil e na classe dos proprietários, tinha apoio dos militares, que pretendiam
construir o Grande Japão. O pequeno mercado interno impôs a busca de mercados externos e uma política
agressiva, iniciada com a guerra contra a China (1894-1895), que proporcionou enorme indenização ao Japão. O
mesmo aconteceu após a guerra contra a Rússia (1904-1905). A I Guerra Mundial (1914-1918) abriu espaços no
mercado asiático, imediatamente ocupados pelo Japão.

Mudanças na estrutura industrial


As mudanças na estrutura da produção industrial foram tão aceleradas a partir de 1870, que se pode falar de uma
Segunda Revolução Industrial. E a época em que se usam novas formas de energia: eletricidade, petróleo; de
grandes inventos: motor a explosão, telégrafo, corantes sintéticos; e de intensa concentração industrial. A grande
diferença em relação à primeira fase da Revolução Industrial era o estreito relacionamento entre ciência e técnica,
entre laboratório e fábrica. A aplicação da ciência se impunha pela necessidade de reduzir custos, com vistas à
produção em massa. O capitalismo de concorrência foi o grande propulsor dos avanços técnicos.
Novas fontes de energia foram substituindo o vapor. Já se conhecia a eletricidade por experiências em laboratório:
Volta, em 1800 e Faraday, em 1831. O uso industrial dependia da redução do custo e, acima de tudo, da transmissão
a distância. O invento da lâmpada incandescente por Edison em 1879 provocou uma revolução no sistema de
iluminação.
Já se usava o petróleo em iluminação desde 1853. Em 1859, Rockefeller havia instalado a primeira refinaria em
Cleveland. Com a invenção do motor de combustão interna pelo alemão Daimler em 1883, ampliou-se o uso do
petróleo. A primeira fase da Revolução Industrial tinha se concentrado na produção de bens de consumo,
especialmente têxteis de algodão; na segunda fase, tudo passou a girar em torno da indústria pesada. A produção
de aço estimulou a corrida armamentista, aumentando a tensão militar e política. Novas invenções permitiram
aproveitar minerais mais pobres em ferro e ricos em fósforo. A produção de aço superou a de ferro e seu preço
baixou. O descobrimento dos processos eletrolíticos estimulou a produção de alumínio.

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Na indústria química, houve grande avanço com a obtenção de métodos mais baratos para produzir soda cáustica
e ácido sulfúrico, importantes para vulcanizar a borracha e fabricar papel e explosivos. Os corantes sintéticos, a
partir do carvão, tiveram impacto sobre a indústria têxtil e reduziram bastante a produção de corantes naturais,
como o anil.
O desenvolvimento dos meios de transporte representou uma revolução à parte. A maioria dos países que se
industrializavam elegeu as ferrovias como o maior investimento. Elas empregavam 2 milhões de pessoas em todo
o mundo em 1860. No final dessa década, somente os Estados Unidos tinham 93 000 quilômetros de trilhos; a
Europa, 104 000, cabendo 22 000 à Inglaterra, 20 000 à Alemanha e 18 000 à França. A construção exigiu a
mobilização de capitais, através de bancos e companhias por ações, e teve efeito multiplicador, pois aqueceu a
produção de ferro, cimento, dormentes, locomotivas, vagões. O barateamento do transporte facilitou a ida dos
trabalhadores para as vilas e cidades. Contribuiu, assim, para a urbanização e o êxodo rural. As nações aumentaram
seu poderio militar, pois podiam deslocar mais depressa suas tropas. Ninguém poderia imaginar tal mudança
quando Stephenson construiu a primeira linha em 1825, de Stockton a Darlington, na Inglaterra.
Depois que Fulton inventou o barco a vapor em 1808, também a navegação marítima se transformou. As ligações
transoceânicas ganharam impulso em 1838, com a invenção da hélice. Os clíperes, movidos a vela, perderam lugar
para os novos barcos, que cruzavam o Atlântico na linha Europa - Estados Unidos em apenas dezessete dias.

A Grande Depressão
A primeira grande crise do capitalismo, a Grande Depressão, começou por volta de 1873 e só terminou em 1896.
O ciclo da crise é marcado pelas seguintes fases:
_ expansão: aumenta a produção, diminui o desemprego, crescem salários e lucros, ampliam-se as instalações e
os empresários têm atitude otimista;
_ recessão: a empresa não usa toda a sua capacidade produtiva, o que aumenta os custos e provoca a alta da taxa
de juros; os empresários temem investir em excesso;
_ contração: caem os investimentos, os empregados da indústria de bens de capital (indústria pesada) são
demitidos, diminui o poder aquisitivo da população, os bancos reduzem os empréstimos, os empresários tomam
todo cuidado com o custo da produção, têm postura pessimista;
_ revitalização: os preços baixam demais, estimulando alguns a comprar; os estoques se esgotam logo; os preços
tendem a subir; os industriais recuperam a confiança e retomam o investimento em instalações.
A crise de 1873 - 1896 tem explicação estrutural. A organização dos trabalhadores, isto é, o aparecimento dos
sindicatos nacionais, resultou em aumento real de salários entre 1860 e 1874. Por isso, os empresários preferiram
investir em tecnologia, para aumentar a produção com menos trabalhadores. De um lado, produção e lucros se
mantiveram; de outro, declinou a massa global de salários pagos, determinando a recessão do mercado consumidor.
Os capitais disponíveis não poderiam ser investidos na Europa, pois a produção aumentaria e os preços cairiam.
Teriam de ser aplicados fora, através de empréstimos com juros elevados ou na construção de ferrovias.
A crise eliminou as empresas mais fracas. As fortes tiveram de racionalizar a produção: o capitalismo entrou em
nova fase, a fase monopolista. Sua característica é o imperialismo, cujo desdobramento mais visível foi a expansão
colonialista do século XIX, assunto do próximo capítulo. O imperialismo, por sua vez, caracteriza-se por:
_ forte concentração dos capitais, criando os monopólios;
_ fusão do capital bancário com o capital industrial;
_ exportação de capitais, que supera a exportação de mercadorias;
_ surgimento de monopólios internacionais que partilham o mundo entre si.

Formas de monopólio nesta etapa do capitalismo:

Truste – Um grupo econômico domina várias unidades produtivas; nos trustes horizontais, reúnem-se vários tipos
de empresa que fabricam o mesmo produto; nos verticais, uma empresa domina unidades produtivas estratégicas,
por exemplo, da mineração do ferro e carvão à fabricação de locomotivas, passando pela siderurgia;

Cartel – Empresas poderosas, conservando sua autonomia, combinam repartir o mercado e ditam os preços dos
produtos que fabricam;

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Holding – Uma empresa central, geralmente uma financeira, detém o controle das ações de várias outras empresas.

Imperialismo; o novo colonialismo partilha África e Ásia


A colonização portuguesa e espanhola do século XVI havia se limitado à América. Com raras exceções, as terras
africanas e asiáticas não foram ocupadas. Ali, os europeus limitaram-se ao comércio, principalmente o de
especiarias. Por isso, no século XIX, havia grandes extensões de terras desconhecidas nos dois continentes, que
Portugal e Espanha não tinham condições de explorar. Começou então nova corrida colonial de outras potências
européias, sobretudo as que haviam passado por uma transformação industrial, como Inglaterra, Bélgica, França,
Alemanha e Itália.

Os motivos do Neocolonialismo
No século XVI, o objetivo colonialista era encontrar metais preciosos e mercados abastecedores de produtos
tropicais e consumidores de manufaturas européias. O interesse concentrou-se na América.
São mais complexos os fatores que explicam o renascimento colonialista do século XIX: claro que havia,
sobretudo, interesses econômicos; mas a eles se juntaram outros, sociais, políticos e até religiosos e culturais.
Nessa época, vários países europeus passavam pela Revolução Industrial. Precisavam encontrar fontes de matéria-
prima (carvão, ferro, petróleo) e de produtos alimentícios que faltavam em suas terras. Também precisavam de
mercados consumidores para seus excedentes industriais, além de novas regiões para investir os capitais disponíveis
construindo ferrovias ou explorando minas, por exemplo.
Tal mecanismo era indispensável para aliviar a Europa dos capitais excedentes. Se eles fossem investidos na
Europa, agravariam a Grande Depressão e intensificariam a tendência dos países europeus industrializados de
adotar medidas protecionistas, fechando seus mercados e tornando a situação ainda mais difícil. Some-se a tudo
isso o crescimento acelerado da população européia, necessitada de novas terras para estabelecer-se. No plano
político, cada Estado europeu estava preocupado em aumentar seus contingentes militares, para fortalecer sua
posição entre as demais potências. Possuindo colônias, disporiam de mais recursos e mais homens para seus
exércitos. Tal era a política de prestígio, característica da França, que buscava compensar as perdas na Europa,
especialmente a Alsácia-Lorena, para os alemães. Ter colônias significava ter portos de escala e abastecimento de
carvão para os navios mercantes e militares distribuídos pelo planeta.
Já os missionários se encaixavam nos fatores religiosos e culturais. Eles desejavam converter africanos e asiáticos.
Havia gente que considerava mesmo dever dos europeus difundir sua civilização entre povos que julgavam
primitivos e atrasados. Tratava-se mais de pretexto para justificar a colonização. Uma meta dos evangelizadores
era o combate à escravidão. Dentre eles, destacaram-se Robert Moffat e Livingstone. Suas ações, em suma,
resultaram na preparação do terreno para o avanço do imperialismo no mundo afro-asiático.
Também teve importância o movimento intelectual e científico. As associações geográficas chegaram a reunir 30
000 sócios, 9 000 somente na França. Famosos exploradores abriram caminho da mesma forma que os
missionários: Savorgnan de Brazza, Morton, Stanley, Karl Petersoon, Nachtigal. É importante notar o
desenvolvimento de ideologias racistas que, partindo das teorias de Darwin, afirmavam a superioridade da raça
branca.

A partilha da África
Em 1830, a França invadiu a África e iniciou a conquista da Argélia, completada em 1857. Dez anos mais tarde,
Leopoldo II da Bélgica deu novo impulso ao colonialismo ao reunirem Bruxelas, a capital, um congresso de
presidentes de sociedades geográficas, para difundir a civilização ocidental dizia o rei; mas os interesses eram
econômicos. Dali resultaram a Associação Internacional Africana e o Grupo de Estudos do Alto Congo, que
iniciaram a exploração e a conquista do Congo. Leopoldo era um dos principais contribuintes das entidades,
financiadas por capitais particulares.
Outros países europeus se lançaram à aventura africana. A França, depois da Argélia, rapidamente conquistou
Tunísia, África Ocidental Francesa, África Equatorial Francesa, Costa Francesa dos Somalis e Madagascar. A
Inglaterra dominou Egito, Sudão Anglo-Egípcio, África Oriental Inglesa, Rodésia, União Sul-Africana, Nigéria,
Costa do Ouro e Serra Leoa. A Alemanha tomou Camarões, Sudoeste Africano e África Oriental Alemã. A Itália

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conquistou Eritréia, Somália Italiana e o litoral da Líbia. Porções reduzidas couberam aos antigos colonizadores: a
Espanha ficou com Marrocos Espanhol, Rio de Ouro e Guiné Espanhola; Portugal, com Moçambique, Angola e
Guiné Portuguesa.
O ponto de partida para a corrida foi a Conferência de Berlim (1884 - 1885), proposta por Bismarck e Jules Ferry.
Seu objetivo principal foi legalizar a posse do Congo por Leopoldo II.

A Europa ocupa tudo


Os investimentos em ferrovias abriram o mercado asiático para os produtos ocidentais e, no século XIX,
finalmente os países do Ocidente passaram do simples comércio praticado nos portos à política de zonas de
influência. Promoveram então uma verdadeira partilha do Oriente.
A Rússia era o país mais interessado em expandir-se para o oriente. Depois da ferrovia Moscou-Vladivostok, ela
se chocou com a Inglaterra na Ásia Central e com o Japão na Manchúria.
Em 1763, os ingleses haviam tomado a Índia aos franceses e encarregado uma companhia de explorá-la. Em 1858,
revoltaram-se os cipaios, nativos que serviam nos exércitos coloniais. A Índia foi então integrada ao Império
Britânico. Na China, a Guerra do Ópio (1840-42) permitiu a conquista de Hong-Kong, Xangai e Nanquim. Uma
associação secreta, a Sociedade dos Boxers, reagiu à invasão, promovendo atentados contra os estrangeiros; tinha
apoio do governo chinês. As potências européias organizaram uma expedição conjunta, o que provocou a Guerra
dos Boxers. Depois dela, as potências ocidentais dominaram a China inteira.
Os japoneses ocuparam a Coréia; os alemães, a Península de Shantung; os franceses, a Indochina. Os Estados
Unidos estabeleceram um protetorado no Havaí e ocuparam Pearl Harbour. Em 1898, anexaram Havaí, Guam,
Ilhas Marianas e Filipinas. Na América, ocuparam Porto Rico e, após guerra contra a Espanha, estabeleceram um
protetorado em Cuba.
Em 1914, 60% das terras e 65 % da população do mundo dependiam da Europa. Suas potências tinham anexado
90% da África, 99% da Oceania e 56% da Ásia.

A administração neocolonialista
Nas áreas de dominação francesa, havia dois tipos básicos de ligação com a metrópole:
1. Colônia, ficava sob supervisão direta do Ministério das Colônias, com administração de um governador-geral,
responsável por toda a atividade colonial;
2. Protetorado, bastante autônomo, administrado por gente da região, com supervisão de um representante da
metrópole.
Entre os ingleses, havia mais variedade administrativa:
1. Colônia da Coroa, dependia diretamente do Escritório Colonial da metrópole;
2. Colônia, com certo grau de autonomia, tinha Parlamento eleito;
3. Domínio, praticamente independente, exceto no tocante às relações estrangeiras e à defesa.
A administração colonial dos outros países era semelhante à dos franceses e ingleses.

Política de espoliação
Foram os ingleses que organizaram melhor o sistema de exploração colonial. A extensão do império lhes
proporcionou extraordinária variedade de recursos, humanos e materiais. A política econômica liberal, que vigorou
na Inglaterra a partir de 1850, estendeu-se às colônias.
Já a política francesa tarifária (de aumento dos impostos) variava de acordo com a colônia e com o tipo de produtos
que ela gerava e consumia.
A ocupação das colônias criou sérios problemas administrativos, pois os colonos vindos da metrópole queriam
terras, o que só seria possível se eles as tomassem dos habitantes do país. Foi o que fizeram. Os europeus confisca-
ram as terras diretamente ou usaram regiões em disponibilidade ou, ainda, forçaram tribos nômades a fixar-se em
territórios específicos. Para encorajar a colonização, a metrópole concedeu a exploração das terras a particulares
ou a grandes companhias que tivessem condições de realizar grandes empreendimentos, de rendimento elevado.
Para evitar toda concorrência, a metrópole só permitia indústria extrativa, mineral e vegetal. Mesmo assim, a
indústria colonial progrediu impulsionada pela abundância de matéria-prima e mão-de-obra.

80
A colonização, na medida em que representou a ocidentalização do mundo, destruiu estruturas tradicionais, que
muitas vezes não se recompuseram, e nada construiu em seu lugar. Na Índia, o artesanato desapareceu. No Congo,
os belgas obrigaram as populações nativas a executar trabalhos forçados e a pagar impostos. Na Argélia, a fim de
liberar mão-de-obra, os franceses destruíram a propriedade coletiva do solo e o trabalho comunitário, o que levou
muitas pessoas à fome e à indigência.

Imperialismo: a supremacia inglesa na Era Vitoriana


A indiscutível supremacia da Inglaterra na Europa do século XIX atingiu seu apogeu entre -1850 e 1875. O país,
que havia iniciado sua Revolução Industrial mais de cem anos antes, colocou-se quase um século na frente dos
demais Estados europeus. Somente na segunda metade do século XIX foi que França, Itália e Alemanha
começaram a avançar, mas não o suficiente para abalar a hegemonia inglesa.
A Inglaterra enviava homens, capitais, carvão, tecidos e máquinas para o mundo inteiro. A supremacia naval
completava a supremacia econômica. As camadas médias prosperavam, e seu papel político ganhava importância.
Londres era a maior cidade do mundo, e o Parlamentarismo, um regime político estável, maleável para que as
reformas se antecipassem às necessidades sociais. Assim, a Inglaterra evitou as agitações que assolaram a Europa
dos fins do século XVIII ao século XIX.
A união de desenvolvimento econômico com progresso social e estabilidade política criou condições para a
formação de um vasto império colonial na América, África e Ásia.
A dinastia Hannover, surgida no início do século XVIII, teve na rainha Vitória (1837-1901) o grande símbolo da
virtude e da perseverança inglesas. Ela governou o país durante o período de supremacia britânica, por isso mesmo
chamado de Era Vitoriana.
Evolução econômica
Depois de 1815, quando terminaram as guerras com a França, a agricultura inglesa entrou em crise. A paz trouxe
a queda de preços dos cereais; os pequenos proprietários tiveram de vender suas terras. A concentração de
propriedades deu origem a uma agricultura intensiva, dotada de moderna tecnologia. Os grandes proprietários,
controlando o poder político, fizeram aprovar leis para impedir a importação e manter altos os preços no país: as
Leis dos Cereais (Corn Laws).
O crescimento da indústria e da importância dos industriais mudou tal situação. Com cereais caros; eles tinham de
pagar salários mais altos, o que diminuía seus lucros. Portanto, defendiam a livre importação de cereais. A
campanha pela extinção das Corn Laws começou por iniciativa de Cobden, industrial que pregava o livrecambismo,
ou liberdade de troca, como forma de baratear os alimentos e matérias-primas industriais, bem como de abrir
mercados para os produtos industrializados ingleses. Entre 1848 e 1852, todas as leis restritivas foram abolidas,
inclusive os Atos de Navegação, baixados no século XVII.
A Inglaterra consolidou então sua hegemonia comercial em todo o mundo. Controlava 80% da construção de
navios de ferro. Sua frota mercante representava 60% da tonelagem mundial. Somados, o comércio francês e o
alemão representavam menos de 80% do comércio inglês, em 1870. A Inglaterra comprava alimentos e matérias-
primas e exportava para todos os continentes produtos industrializados e capitais.
A concentração industrial do norte e oeste, perto das bacias carboníferas e dos grandes portos, fez nascer a
lnglaterra Negra em oposição à Inglaterra Verde do sul e sudoeste; dominada pela agropecuária. Em 1870, o país
produzia dois terços do carvão mundial. A indústria metalúrgica concentrava-se em Birmingham e Sheffield. A
expansão estava ligada ao desenvolvimento da indústria ferroviária e a novos métodos de obtenção de aço.
A partir de 1890, começaram a surgir grandes concentrações industriais, como forma de conter a concorrência:
reuniam siderúrgicas, empresas de mineração e de construção naval. Londres era o primeiro mercado mundial de
lã; Leeds e Bradford processavam a matéria-prima importada. Cresceu a indústria têxtil do algodão. Seu centro era
Manchester, que recebia fibra da América e exportava tecido, sobretudo para o Extremo Oriente. Em 1850, essa
exportação representava metade da exportação inglesa global.
A abundância de carvão impediu o desenvolvimento hidrelétrico. A química também estava em atraso, porque a
Inglaterra recebia da Alemanha quase todo o corante de que precisava.
Problemas sociais
Um traço marcante foi o acelerado crescimento demográfico. Havia 11 milhões de ingleses no início do século
XIX; em 1870, eles eram 26 milhões, graças à queda da mortalidade, conseqüência do progresso da medicina e da

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melhoria de condições de higiene, junto com o aumento da natalidade. O êxodo rural superlotou as cidades, que
em 1870 concentravam 70% da população. Londres tinha mais de 3 milhões de habitantes.
Surgiram problemas. O excesso de mão-de-obra comprimiu os salários. Os trabalhadores viviam em subúrbios
miseráveis. Cresceu a tensão social, e as leis se tornaram mais severas. A classe trabalhadora reagiu de diferentes
formas. Primeiro, houve tentativas de greves gerais, que falharam porque os operários não tinham condições de
sustentar-se durante as paralisações. Os sindicatos trataram de constituírem-se como organizações defensoras dos
interesses de classe.
Entre 1870 e 1880, os sindicatos conseguiram para os operários igualdade perante a lei, direito de greve,
regulamentação do horário de trabalho e a responsabilidade patronal em caso de acidente de trabalho. Outra
solução para a questão social foi a emigração. A Inglaterra tornou-se o grande celeiro de emigrantes do século
XIX.
No topo da sociedade, continuava a dominar a aristocracia fundiária, uma classe fechada, mas receptiva à chegada
dos ricos burgueses, industriais ou comerciais. Desta fusão, resultava uma elite poderosa, diferenciada do ponto
de vista econômico, não do nascimento.
Trajetória política
A partir de 1850, conservadores e liberais se alternaram no poder. Depois do governo do liberal Palmerston,
preocupado com questões externas, os dois grandes líderes políticos foram: Gladstone, liberal, pacifista, religioso,
e Disraeli, conservador, defensor da monarquia democrática e da expansão do império.
Em 1867, Disraeli adotou uma lei eleitoral que beneficiou a Inglaterra industrial, ou seja, os setores novos da
sociedade.
A questão da Irlanda
Dominada pela Inglaterra fazia séculos, a Irlanda jamais se havia deixado subjugar completamente. De língua céltica
e religião católica (exceto no Ulster, ao nordeste), opunha-se aos ingleses que exploravam seus pequenos
proprietários e lhes tomavam as terras, em caso de atraso no pagamento de tributos. A situação se agravou na
Grande Fome (1846-47), quando a Irlanda perdeu 3 milhões de habitantes, mortos ou emigrados. Um grupo de
tendências radicais dominou então o país.
Pela Associação Católica, O’Connel foi eleito em 1829 para o Parlamento, como representante da Irlanda. Com
apoio de Gladstone, ele defendeu um governo autônomo para a Irlanda, sem resultado. Sobrevieram atentados,
que o governo britânico reprimiu duramente. A sociedade secreta dos Fenianos, com apoio de emigrados nos
Estados Unidos, tentou sublevar o país em 1867. A questão continuaria pelo século XX afora, mesmo depois que
a Irlanda conseguiu independência parcial.
O Império Britânico
Os ingleses se expandiram por meios pacíficos ou belicosos. No início do século XX, o Império Britânico tinha
400 milhões de habitantes, em 35 milhões de km2 de terras na América, Ásia, Oceania e África.
Tornou-se importante controlar os mares. Superior a qualquer outra marinha européia, a inglesa dominava
posições estratégicas no Mediterrâneo, Atlântico, Índico, no sul da África e nas rotas Índia-China e Mediterrâneo-
Índia.
Depois de 1815, os ingleses se haviam apossado da Índia, Egito, Sudão, Nigéria, quase todo o sul africano;
conquistaram e colonizaram a Austrália e a Nova Zelândia; impuseram sua tutela à Birmânia, Beluchistão,
Mesopotâmia e Palestina.
Os domínios
As formas de ocupação variavam, mas havia essencialmente dois tipos de colônia: as de comércio, nos trópicos; e
as de povoamento, nas regiões temperadas. Os traços mais gerais do colonialismo inglês foram:
_ liberalismo econômico, em substituição ao monopólio;
_ a abolição do tráfico de escravos, em 1807; _ a abolição da escravidão, em 1833;
_ a autonomia considerável nas colônias em que predominava a população branca, como no Canadá.
As unidades autônomas eram chamadas domínios. Entre eles e a metrópole as relações acabaram sendo de igual
para igual, pois, com o tempo, o Império se transformaria em federação de Estados livres, ligados apenas por
interesses econômicos: a Commonwealth, ou Comunidade das Nações.
Nas colônias de exploração comercial, o regime variava. Algumas eram administradas diretamente pelo Estado
inglês e outras, confiadas a companhias que detinham algum monopólio.

82
A Índia é um exemplo característico da colonização britânica. A conquista deu-se entre 1798 e 1849. Os ingleses
respeitaram os costumes locais e construíram ferrovias. Em 1857, com a revolta dos cipaios, os soldados indígenas,
seguiram-se dezoito meses de combates e represálias sangrentos. Para evitar novos problemas, a Inglaterra
reorganizou o país. A Companhia das Índias perdeu seus privilégios. E funcionários designados pelo governo
britânico passaram a administrar a Índia.
A ciência e a cultura no século XIX
Do ponto de vista científico e cultural, as características dominantes no século XIX avançaram pelo século XX.
Houve progressos enormes em todos os campos da ciência e numerosas invenções na física e na química. A difusão
de suas aplicações revolucionou indústria e comércio, transformando as condições de vida.
Com o triunfo do maquinismo, a renovação dos instrumentos de produção, a reformulação dos métodos e a
concentração empresarial, abriuse nova era para a humanidade: a era da civilização científica.
O progresso científico
A organização mais eficiente do trabalho acelerou o progresso científico. Antes, os pesquisadores eram em geral
amadores. A Revolução Francesa criou museus e escolas politécnicas, com ensino de Ciências. A aplicação dos
conhecimentos estimulou novos inventos, que levaram a novas pesquisas e descobertas.
Durante a Revolução e o Império surgiram na França matemáticos ilustres, como Lagrange, Monge e Laplace. Na
Física, os resultados mais significativos ocorreram no campo da óptica, da teoria do calor e da eletricidade. Fresnel
demonstrou que a luz é uma vibração que se propaga por ondas. Carnot, estudando o rendimento das máquinas a
vapor, estabeleceu os princípios fundamentais da termodinâmica em 1824.
Em 1800, o italiano Volta inventou a pilha elétrica, geradora de corrente contínua. Ampère estabeleceu os
princípios que tornaram possível o desenvolvimento técnico da eletricidade: ele formulou as leis do
eletromagnetismo, demonstrando a existência de certa identidade entre os fenômenos elétricos e magnéticos, e
construiu o eletroímã.
O inglês Faraday descobriu as correntes de indução, fontes de inumeráveis aplicações práticas. Em 1889, o alemão
Hertz mostrou que as oscilações elétricas propagavam-se no espaço através de ondas, como a luz. O francês
Becquerel descobriu, em 1896, os fenômenos radiativos: a propriedade de certos corpos de emitir radiações. Em
1900, Pierre Curie e sua mulher Marie, poloneses radicados na França, isolaram o mais poderoso corpo radiativo:
o rádio.
Químicos e naturalistas aprofundaram o conhecimento sobre a matéria e a vida. Descobriram numerosos
elementos químicos, como potássio, sódio, bromo; agruparam as substâncias de acordo com suas propriedades e
classificaram-nas em sais, ácidos e óxidos, com enorme utilidade para a metalurgia. A criação da química orgânica
enriqueceu a química mineral. Gay-Lussac, grande representante da escola francesa, descobriu o iodo. Os trabalhos
de Berthelot derrubaram as barreiras entre química mineral e orgânica, trazendo soluções ao problema da síntese
orgânica.
Em 1833, o alemão Gauss inventou o telégrafo elétrico; o americano Morse criou o aparelho transmissor em 1835.
No fim da década, a partir dos trabalhos de Daguerre, surgiu a fotografia.
Em Paris, o Museu de História Natural tornou-se centro de pesquisadores ilustres, como Cuvier, fundador da
paleontologia, e Lamarck, estudioso da influência do meio nas modificações dos seres vivos. Em 1859, o inglês
Darwin publicou Origem das Espécies, dando início à teoria evolucionista.
Claude Bernard afirmava que os fenômenos biológicos obedeciam às mesmas leis que regiam os corpos
inanimados. Para demonstrar tal teoria, usou o método experimental, até ali exclusivo para fenômenos físicos.
Pasteur descobriu que a fermentação e as doenças infecciosas resultavam da ação de seres vivos, micróbios e
bactérias. Isolou-os e cultivou-os artificialmente. Isto permitiu a fabricação de vacinas, importantes na prevenção
de doenças infecciosas.
As ciências humanas avançaram, destacadamente a Geografia e a História. Michelet, Guizot e Therry procuraram
recriar uma imagem viva do passado; Alexis de Tocqueville salientou a importância dos aspectos econômicos e
sociais na compreensão da História. Com Fustel de Coulanges, a História adquiriu rigor minucioso: ele estudou a
Gália, os capetíngios e os carolíngios.
Com Vidal de la Blache, a Geografia adquire novas dimensões. No campo da Psicologia, os franceses Janet e
Dumas estudaram os automatismos. O estudo de doenças mentais, especialmente o de Charcot, levaram Freud à
exploração do inconsciente e à criação da psicanálise.

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A partir de Auguste Comte, pai do positivismo, a sociologia procurou determinar as leis que regem os fenômenos
sociais, mostrar sua influência sobre a mentalidade individual e as representações coletivas, transformando a
consciência moral em imperativo dos grupos sociais - negando o sentido universal dos valores morais.
Representantes desta escola foram Durkheim, autor de O Suicídio (1897), e Lévy-Bruhl.
No fim do século, o racionalismo estreito bateu em retirada. O francês Bergson contribuiu para tanto, com sua
tese de 1889, que procurava forças vivas do pensamento, por oposição às construções artificiais da inteligência. O
alemão Nietzsche exaltou a superioridade dos valores vitais em face da ciência e da razão. O americano William
James desenvolveu o pragmatismo, empirismo radical segundo o qual uma verdade é uma ação que tem êxito.
Tendências literárias
O Romantismo surgiu como reação a um Classicismo acadêmico e ao intelectualismo do século XVIII. Enfatizava
o sentimento e o indivíduo. Surgiu na Inglaterra, com Wordsworth, Byron, Shelley, e na Alemanha, com Goethe,
Schiller e Heine; por volta de 1820 atingiu a França, onde teve precursores como Rousseau, Chateaubriand e
Madame de Staël.
Na poesia, destacaram-se os franceses Lamartine, Victor Hugo, Musset e Vigny; no romance, Stendhal, Balzac e
Dumas; no teatro, Dumas, Musset e Victor Hugo, autor de Hernani (1830). O Romantismo entrou em declínio a
partir de 1850. Na poesia, triunfou a doutrina da arte pela arte, ou poesia dos parnasianos, como Leconte de Lisle,
hostil à exaltação dos sentimentos íntimos. Mais tarde, Baudelaire anunciaria o Simbolismo. No romance, firmava-
se a corrente realista de Flaubert na França, Dickens na Inglaterra, Tolstoi e Dostoievski na Rússia.
A partir de 1875, a literatura apresenta duas tendências marcantes. Sob influência do Naturalismo, o romance
acentua a relação entre indivíduo e seu meio; torna-se um instrumento nas mãos daqueles que pretendem estimular
a reflexão sobre as condições de sua época.
O Naturalismo punha em evidência as preocupações sociais do Realismo. A meta do Naturalismo era o realismo
levado ao limite extremo. O romance tornava-se o processo verbal da vida, ganhava conotação pessimista,
identificava-se com as tendências socialistas. Daí seu aspecto engajado, como nos textos de Zola. Seguem a mesma
linha Verga na Itália; Blasco Ibanez na Espanha; Thomas Mann na Alemanha; Thomas Hardy na Inglaterra;
Máximo Gorki na Rússia.
A arquitetura
Na França, permaneciam traços da arte barroca, dominante durante o Império. O uso de ferro (Pavilhão da
Indústria de 1878, Torre Eiffel de 1889) não deu origem a um estilo verdadeiramente novo. Os ingleses buscavam
uma arte nacional, com estilo próprio, daí a importância do tijolo à vista, que recuperava o estilo Tudor.
No Salão dos Artistas Decoradores de Paris, em 1901, surgiria um esforço para a criação de uma arte decorativa
aplicável a todas as outras, da fachada do prédio aos móveis. Inspirava-se na natureza, em especial na flora, e
empregava a linha curva, apropriada ao uso do ferro.
Uma revolução resultou da invenção do concreto armado por Joseph Monnier, em 1848. Depois 'de; tentativas de
definição de formas mais racionais no Teatro dos Campos Elísios, na França, foi na América que a mistura
encontrou singular aplicação. O elevado preço dos terrenos e a concentração urbana impuseram a construção de
edifícios elevados - o primeiro surgiu em Chicago, entre 1884 e 1887. Os arquitetos alemães definiram formas
originais e o estilo de Munique se impôs na exposição de Colônia, em 1914.
A pintura
A pintura apresentou tendências notáveis. Ela se firmou como oposição ao Academismo, iniciado no final do
século XVI com os bolonheses Carracci. Segundo esse movimento, os artistas - deveriam inspirar-se na mitologia
grega e nas – histórias da Bíblia, reproduzindo a vida, a natureza e o homem. Procuravam imitar os renascentistas
na composição (Rafael), na cor (Ticiano) e na técnica do claro-escuro (Da Vinci).
A pintura do século XIX também se opunha ao Neoclassicismo, que dominou a Europa em meados do século
XVIII e que tinha muitos pontos em comum com o estilo das academias, o Academicismo. Os neoclássicos tinham
paixão pela Antiguidade; afirmavam a existência de uma forma bela, ideal, absoluta e eterna, que se encontrava
sobretudo entre os escultores gregos. O exemplo da tendência na Inglaterra foi Ingres, que pintou Édipo Explica
o Enigma da Esfinge. Na França, temos Louis David, pintor oficial do Império Napoleônico, autor de A Morte
de Marat. A pintura francesa do século XIX seguiu sua escola. Mas, aos poucos, a arte abandonou os temas
clássicos e voltou-se para o cotidiano, mais próximo dos anseios políticos e sociais do povo.

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O Romantismo logo dominou a pintura, como oposição ao Neoclassicismo. Dava à cor maior expressão que ao
desenho. Pregava a liberdade e orientava-se mais pelo sentimento que pela razão. Surgiram então grandes
paisagistas, como Delacroix e Corot.
Gross, autor de Os Pestilentos de Jafa, desviou-se dos ensinamentos neoclássicos de Louis David: deu às figuras
maior movimento e cores mais expressivas. Mas foi Delacroix o grande pintor romântico. Sua obra mais famosa
é A Liberdade Guiando o Povo, em que se retrata com um fuzil nas mãos em defesa da liberdade, na revolta
parisiense de 1830.
Na segunda metade do século surge o Realismo. Os neoclássicos haviam se preocupado com o desenho, e os
românticos, com a cor. Os realistas agora centravam a atenção no equilíbrio entre cor e desenho, entre emoção e
inteligência. Abandonaram temas históricos e concentraram-se em cenas diárias, inspirados pelas idéias políticas
dominantes. Afirmavam que ser realista não era ser exato, mas verdadeiro. Destacou-se Gustave Courbet, que,
recusado pelo júri da Exposição Universal, expôs em plena rua, em Paris. Marc Chagall, nascido na Rússia, foi um
pioneiro do Realismo.
Ao Realismo sucedeu um movimento chamado Impressionismo. Um dos principais precursores do
Impressionismo foi Édouard Manet. Em 1863, Manet enviou ao Salão dos Artistas Franceses a tela Almoço na
Relva, que foi recusada pelo júri. O imperador Napoleão III determinou então que fosse organizada uma exposição
paralela, chamada Salão dos Recusados. A tela de Manet causou grande escândalo, mas marcou uma nova tendência
na pintura. O jornalista Louis Leroy, vendo Impressões do Sol Nascente, de Monet, acusou a ele e a seu grupo de
só fazerem borrões. E os chamou ironicamente de impressionistas.
Essa nova tendência, o Impressionismo, destacava o efeito da luz solar sobre os objetos; os pintores
impressionistas procuravam registrarem suas telas as constantes alterações que essa luz provoca nas cores da
natureza. Em abril de 1874, foi inaugurada a primeira exposição de obras impressionistas. Entre os expositores
estavam Renoir, Degas, Pissarro, Cézanne, Sisley, Monet e Morisot. O público reagiu negativamente diante dessas
obras.
Em 1886, eles passaram a ter seu próprio salão. Em oposição aos artistas que pintavam em ateliês, os
impressionistas saíam ao ar livre, em busca do sol e das mudanças de luminosidade na natureza. A arte da caricatura
evoluiu com esse movimento; floresceu com Toulouse-Lautrec, autor de cartazes para teatro.
Em 1905, surgiu o Expressionismo, reação contra o Academismo e o Impressionismo, sob influência do holandês
Van Gogh e do alemão Edvard Munch. Eles deformavam as imagens, buscando o drama interior do homem, a
verdade por meio da emoção. Os expressionistas viviam o drama de cada ser humano e da sociedade: miséria,
infância infeliz, vícios, injustiças, angústias. Van Gogh tratou o tema magistralmente, como se pode ver no auto-
retrato com a orelha cortada.
O Fovismo surgiu no mesmo ano de 1905. No Salão de Paris, Henri Matisse e outros fizeram uma exposição, na
qual havia uma estátua do florentino Donatello. Um crítico francês disse que o mestre italiano estava entre fauves
(feras), referindo-se às cores fortes e puras, sem mediações, dos jovens pintores. O movimento revelava influências
de Van Gogh e Gauguin, já falecidos. Os fovistas abandonaram as regras tradicionais acadêmicas, o desenho
detalhado, o claro-escuro; usavam as cores de forma selvagem, realçando os contornos com traços negros.
Gauguin ficou entre o Expressionismo e o Fovismo. Levou vida tumultuada e morreu na miséria no Taiti. Achava
importante recriar a natureza dando a cada imagem um valor simbólico, que podia ser alterado e deformado. Usava
cores fortes combinadas a técnica simples.
O Cubismo surgiu em 1908. Desde 1906, Pablo Picasso e Georges Braque vinham dando novas formas à
representação do corpo, procurando reduzi-lo a seus elementos geométricos básicos. Seus quadros resultavam de
partes de objetos variados da natureza, num jogo de linhas e planos. Diz-se que a tela de Picasso As Senhoritas de
Avignon (1907, Paris) foi a primeira obra cubista; outros dão a primazia a Braque, pela exposição de 1908 sobre
temática paisagística.
O mesmo crítico que batizou o Fovismo chamou de cubos as paisagens de Braque. O movimento teve forte
influência sobre a produção industrial e abriu caminho para o Futurismo. Picasso, um dos maiores pintores de
todos os tempos, produziu a principal obra do Cubismo: Guernica, nome da cidade bombardeada pelos alemães
a pedido do ditador espanhol Francisco Franco. O desespero da população foi representado em preto, branco e
cinza, numa tela de 8 x 3,5 metros. Um documento de dor da Humanidade.

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As bases do Futurismo foram lançadas num manifesto assinado pelo escritor italiano Filippo Marinetti. Exigia a
destruição do passado e a glorificação do futuro. Seus temas eram multidões, fábricas, arsenais, pontes,
locomotivas, aviões, motores. Na pintura, tal como no cinema, as imagens aparecem dinamizadas pela repetição,
como o célebre Cão, de Bala. Os futuristas queriam transmitir situações tensas, em constante mutação, em
oposição aos cubistas.
Em 1910, surge o Abstracionismo, resultado da evolução da pintura de Kandinsky, inicialmente fovista e
acadêmico. Para ele, um quadro retratava um estado de espírito, não era a mera representação de objetos. A força
das cores expressaria o sentimento. Formas e cores eram seus ritmos e sons. O abstracionismo de Kandinsky era
sensível, mais ligado aos sentimentos, enquanto o de Mondrian era geométrico, matemático.
Escultura
Auguste Rodin paira como grande nome da escultura. Com O Beijo, Os Burgueses de Calais e sobretudo O
Pensador, influenciou decisivamente a evolução da escultura francesa e mundial. Preocupava-se com a miséria
humana, a grandeza heróica da Humanidade, seus sonhos.
Música
A escola romântica alemã dominou a música. Na primeira geração, destacam-se Schubert e Beethoven; na segunda,
Schumann, Mendelssohn, Chopin e Berlioz; na terceira, Liszt e Wagner; Brahms representou o retorno ao
Classicismo. Os italianos Verdi e Puccini produziram óperas imortais. Fauré, Debussy e Ravel brilharam na França
e marcam uma renovação. Na Rússia, Rimsky-Korsakov seguiu uma linha desligada de influências ocidentais,
enquanto Tchaikovsky permaneceu ligado à música clássica. O austríaco Schönberg trouxe à tona a música atonal.
A musicalidade e a nostalgia dos negros americanos deu origem a uma música nova, destinada a fazer sucesso em
todo o mundo contemporâneo: o jazi. Sua origem se localiza nas canções de trabalho, work-songs; nos cantos
religiosos, spirituals e gospel-songs; e nos blues, cantos melancólicos não-religiosos. A primeira banda surgiu em
Nova Orleans em 1912. O jazz penetrou em Chicago em 1914 e em Nova York em 1917.
Cinema
A partir de 1882, as experiências com movimentação de imagens fotográficas prepararam o advento do cinema.
Os irmãos franceses Lumière e o americano Thomas Edison realizaram as primeiras projeções cinematográficas.
Os Lumière projetaram o primeiro material filmado, em 1895.
Das cenas reais, passou-se à filmagem de temas sentimentais e históricos com atores, em minúsculos estúdios. Em
1912, surgiu a sincronização entre a película e o fonógrafo, antecipando o cinema falado. A futura sétima arte se
expandiria nos Estados Unidos. O Nascimento de uma Nação, de Griffith, criador das técnicas de montagem, foi
um marco na história do cinema como forma de arte e entretenimento. Rapidamente, Hollywood se tornou a
fábrica de sonhos, geradora de celebridades populares em todo o mundo. Mary Pickford, Theda Bara, Charles
Chaplin e Rodolfo Valentino, eis apenas alguns dos grandes nomes do cinema em seus primórdios.
Para saber mais:

O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo - - V.I. LÊNIN


Bibliografia:
História Geral - Aquino, Denize e Oscar - Ed. Ao Livro Técnico
Toda a História - José Jobson Arruda - Ed. Ática
História - Luiz Koshiba - Ed. Atual

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incluída.

Capitalismo Monopolista, Imperialismo e Neocolonialismo. Disponível em:


<http://www.culturabrasil.org/neocolonialismo.htm>. Acesso em: 02/04/2012

CONTINUAÇÃO:

86
Revolução Industrial na Inglaterra a partir de 1760; Crise do Capitalismo entre 1873
e 1893 e o Neocolonialismo

O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.


Martin Luther King

História do Capitalismo - De especulação também se vive


RELAÇÕES EXTERIORES

A história do capitalismo mostra que o sistema econômico enfrenta abalos financeiros desde
o século XVII e que as crises estão ligadas ao eterno processo de empréstimos, investimentos
e inadimplências

POR MARCOS LOBATO MARTINS

Multidão de investidores reunidos do lado de fora do Banco dos Estados Unidos, após
anunciar falência, em 1931
Em setembro de 2008, o estouro da "bolha imobiliária" americana deu início a uma crise
financeira de enormes proporções. Há quem chame essa crise de "o primeiro crash da
globalização". Outros a vêem como o início do fim do "império norte-americano" e a
certidão de óbito do neoliberalismo. Para os historiadores econômicos, a assombrosa perda
de riqueza que está ocorrendo agora, graças ao derretimento do sofisticado mercado
financeiro construído nos países centrais, evidencia algo mais prosaico, embora terrível: o
capitalismo é inseparável de crises financeiras agudas. A história do capitalismo pode ser
contada, portanto, por meio dos dramáticos enredos das numerosas crises financeiras que
ele engendra. É o que se propõe neste artigo, com a devida brevidade.

LUCRO, COMPETITIVIDADE E INSTABILIDADE

Considerado o criador da moderna economia, o escocês Adam Smith (1723-1790), no livro


A Riqueza das Nações, apreendeu o princípio motor do capitalismo: "Não é da benevolência
do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do
empenho deles em promover seu próprio auto-interesse". É a vontade de obter dinheiro e
lucro que anima os agentes econômicos, que faz os mercados funcionarem e, segundo Smith,
promoverem, de lambuja, o bem-estar dos indivíduos e da coletividade. O mercado
capitalista, sob o regime do laissez-faire (deixai estar), produziria a marcha inelutável para o
progresso. Ao Estado, caberia apenas garantir a ordem e a segurança contra os inimigos
externos.

O alemão Karl Marx, fundador da teoria marxista, que influenciou as grandes


revoluções do século XX
As crises econômicas e as revoluções sociais do século XIX colocaram em xeque a visão
idealizada do liberalismo de Adam Smith. Karl Marx (1818- 1883), o mais eminente crítico
do capitalismo, construiu uma poderosa e influente interpretação da economia capitalista, na
qual ganhou relevo as falhas - e, portanto, as crises - inerentes à dinâmica das forças de
mercado. O ponto de partida do marxismo é o mesmo: o mercado é o princípio organizador
da sociedade capitalista, de maneira que essa sociedade está presa a forças subterrâneas que
têm vida própria. No interior do mercado, movem-se indivíduos impulsionados pelo desejo
de ganhar dinheiro, de acumular capital.

87
O mecanismo da competição econômica, segundo Marx, gerava simultaneamente tanto a
riqueza quanto a pobreza, bem como a tendência à concentração dos capitais. Mas a trajetória
da economia capitalista não é suave, tampouco apenas ascendente. Marx dedicou bastante
atenção aos solavancos da roda da fortuna capitalista. Assinalou a tendência recorrente da
economia de perder impulso e até mesmo de ir para trás, vivendo em "ciclos", passando de
períodos de expansão para períodos de contração.

A explicação para os ciclos pode ser encontrada nos excessos e desajustes de oferta e
demanda, nas retrações de crédito, nas variações de otimismo e pessimismo entre os agentes
econômicos, no aparecimento de rupturas tecnológicas ou institucionais e alterações nas
relações de força entre trabalho e capital (embates entre sindicatos, empresas, governos e
opinião pública).Enfim, a interpretação de Marx põe em relevo três características do
capitalismo histórico: a) aguda instabilidade; b) baixa previsibilidade; e c) difícil
governabilidade.

Para se ter uma idéia da montanha-russa que é a economia capitalista, basta lembrar que,
desde 1790, há registros confi- áveis de pelos menos 46 ciclos econômicos irregulares. Entre
1854 e 1919, a duração média de uma recessão era de 22 meses; nos Estados Unidos, a
economia se retraía em média a cada 49 meses. Mesmo nos tempos atuais, as crises
econômicas continuam freqüentes. Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), desde
1970 ocorreram 124 crises financeiras pelo mundo afora.

"Irei até o Paraíso (...) onde se vendeu a primeira ação do mundo. EVA COMPROU-A À
SERPENTE, COM ÁGIO, VENDEU-A A ADÃO, também com ágio, até que ambos
faliram. Machado de Assis, crônica de 23/10/1892"

Mais de mil homens desempregados marcham em direção à Tesouraria de Perth, na


Autrália ocidental, para ver o Premier Sir James Mitchell, em 1931
Tendo em vista essas características do capitalismo, o economista Hyman Minsky (1919-
1996), um dos pioneiros no estudo de crises financeiras, observou ironicamente, em 1982,
que o mais significativo evento econômico desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) "é
algo que não aconteceu: não houve uma depressão profunda e duradoura" na economia
internacional.

CRESCIMENTO, CRÉDITO E MERCADO FINANCEIRO

O capitalismo depende da propensão para o consumo, fato que Henry Ford (1863-1947)
expressou muito bem quando afirmou: "Quem faz o emprego do trabalhador é o
consumidor, que é o próprio trabalhador". Para manter a pleno gás o reator da demanda, as
empresas começaram a criar, elas próprias, as necessidades de novos bens e serviços,
incrementando a pesquisa, o projeto e o marketing. Seduzidos, os consumidores precisam de
crédito para comprar os bens e serviços que anseiam. As empresas também precisam de
crédito para expansão de seus negócios, capital de giro, financiamento de inovações e da
comercialização e de quem lhes ajudasse a lançar títulos nos mercados de capitais. Por
isso.mesmo, os bancos são peças vitais da engrenagem capitalista contemporânea. Sem eles,
a economia pára de funcionar.Os bancos operam, por natureza, alavancados.

No sistema bancário, o crédito de um é o débito do outro. Essa cadeia liga os bancos entre
si e aos clientes

Eles criam dinheiro, na medida em que possuem capacidade de gerar meios de pagamento.

88
Os depósitos à vista que os bancos captam de indivíduos e empresas são multiplicados por
meio de empréstimos para terceiros, inclusive outros bancos. Assim, o sistema bancário cria
crédito e possibilita negócios que não seriam viáveis sem ele. O decisivo, porém, é o fato de
que, no sistema bancário, o crédito de um é o débito do outro. Uma cadeia intricada de
créditos e débitos liga invisivelmente os bancos entre si e com seus clientes. De modo que a
falência de um banco pode ser vista como a derrocada do sistema bancário, causando
prejuízos generalizados.

O empresário Henry Ford, o inventor Thomas Edison, e o empreendedor Harvey


Firestone, em 1929 - eles colaboraram para a formação das grandes indústrias
A posição estratégica dos bancos na economia é algo relativamente recente. Nos primórdios
do capitalismo, o período mercantilista dos séculos XV a XVIII, a atividade principal dos
bancos concentrou-se no financiamento da dívida pública dos Estados europeus (garantida
por impostos) e do comércio a longa distância (monopolizado por companhias privilegiadas).
Na Inglaterra da Revolução Industrial (1760-1830), os bancos mantiveram sua atuação
tradicional, participando marginalmente do financiamento dos novos empreendimentos
fabris.

As atividades industriais lançaram mão de economias familiares e do reinvestimento de lucros


gerados pelas próprias indústrias, algo possível naqueles tempos pioneiros, uma vez que os
capitais exigidos pelas fábricas eram relativamente modestos. Na segunda metade do século
XIX, o papel dos bancos, principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha, sofreu
transformações de monta. Enquanto os bancos ingleses aumentaram suas operações de
desconto mercantil e reforçaram sua função de sistema de crédito internacional, as
instituições financeiras americanas e alemãs assumiram a função de antecipação de
capitaldinheiro para as empresas, colocando o crédito a serviço da formação de corporações
econômicas gigantescas.

A "bolha das tulipas", que arruinou a economia holandesa no século XVII pode ser
comparada à crise da Nasdaq, em 2000; abaixo, panfleto holandês da "tulipomania", datado
de 1637

Na Holanda, no século XVII, as tulipas viraram uma febre: elas eram trocadas por
terras, animais e casas
O capital a juros dos bancos, sob forma "livre" e líquida, possibilitou a fusão dos interesses
entre os bancos e a indústria, concretizada na forma das "sociedades anônimas" no final do
século XIX. A propósito, escreveu o economista inglês John Hobson (1858-1940), autor do
livro Th e Evolution of Modern Capitalism: "Quando nos damos conta do duplo papel
desempenhado pelos bancos no financiamento das grandes companhias, primeiramente
como promotores e subscritores (e freqüentemente como possuidores de grandes lotes de
ações não absorvidas pelo mercado) e, em segundo lugar, como comerciantes de dinheiro -
descontando títulos e adiantando dinheiro - torna-se evidente que o negócio do banqueiro
moderno é a gestão financeira geral e que a dominação financeira da indústria capitalista é
exercida fundamentalmente pelos bancos".

Esse processo deu origem a uma "classe fi- nanceira", que torna a gestão empresarial
intrinsecamente especulativa, repleta de práticas destinadas a ampliar "ficticiamente" o valor
do capital existente. Essas práticas só podem ter livre curso com o alargamento do crédito,
exigindo a constituição de enorme e complexo aparato financeiro. O "financista" utiliza sua
função de direção dos fluxos de capital, que é legítima e profícua, para desenvolver

89
abusivamente métodos de ganho privado, manipulando, como feiticeiro, pilhas de papéis e
estimativas de retornos e riscos para atrair a confiança de poupadores que lhes destinam suas
economias.

PRIMÓRDIO DAS CRISES: A BOLHA DAS TULIPAS

Desde o surgimento dos bancos na Idade Média, a história das finanças é repleta da imagem
de investidores arruinados com os resultados da própria cupidez. O capitalismo, por assim
dizer, banalizou essa imagem. Entre os séculos XV e XVIII, encontram-se antepassados dos
grandes crashes dos séculos XX e XXI.

Um desses antepassados é a curiosa "bolha das tulipas", que produziu estragos na Holanda
do século XVII. A "bolha das tulipas" é vista por muitos como a primeira bolha de mercado,
e comparada à crise da Nasdaq, a bolsa das empresas pontocom nos Estados Unidos.

As tulipas chegaram à Europa, provavelmente vindas da Turquia, em meados dos anos 1500.
Na Holanda, os portos encheram-se de flores, especiarias e plantas exóticas, destacando- se
as tulipas, cujo cultivo teve início ali em 1593. No alvorecer do século XVII, a flor já era
muito usada por jardineiros e apreciada por colecionadores, em decorrência de sua beleza.
Rapidamente, a popularidade da tulipa cresceu. Mudas especiais receberam nomes
extravagantes ou de almirantes da marinha holandesa. As mais desejadas tinham cores
vívidas, linhas e pétalas flamejantes. A tulipa tornou-se artigo de luxo e símbolo de status,
estabelecendo-se a competição entre indivíduos das classes altas, mercadores e artesãos, pela
posse das variedades mais raras. Os preços começaram a disparar. Em 1623, um simples
bulbo da variedade Semper Augustus custava 1.000 florins. As tulipas eram trocadas por
terras, animais e casas. Um bom negociante de tulipas conseguia ganhar 6.000 florins por
mês, quando a renda média anual, à época, era de 150 florins.

O movimento ascendente dos preços das tulipas não cessou até 1636. As tulipas eram
negociadas nas bolsas de valores das ricas cidades holandesas. Muitas pessoas venderam ou
negociaram suas posses no intuito de especular no mercado de tulipas.

Quadro do inglês Edward Matthew Ward (1816-1879), representando o colapso da South


Sea Company; abaixo, ilustração ironizando a queda das ações da companhia

Negociantes passaram a vender bulbos de tulipas que tinham acabado de plantar ou que
tencionavam plantar - os chamados contratos futuros de tulipas -, em transações conhecidas
como weindhandel ("negócio de vento"). Na base das expectativas exageradas a respeito da
evolução dos preços das tulipas, estava o Banco de Amsterdã, com sua capacidade de
estender o crédito e suportar o avanço da especulação.

Porém, no início de 1637, a "bolha das tulipas" estourou. Surgiu a suspeita de que a procura
por tulipas não duraria. O movimento de subida dos preços dos bulbos terminou, induzindo
os comerciantes a vendê-los. Os preços, então, subitamente caíram 90%. Alastrou-se o
pânico no mercado. Muitos compradores deixaram de honrar os contratos de compra de
tulipas. Outros se acharam na posse de bulbos cujo preço era, agora, muito inferior ao que
haviam pagado. Os severos juízes holandeses consideraram as dívidas sem valor legal, porque
resultantes de negócios especulativos, o que deixou os vendedores de tulipas sem o poder de
executar o pagamento dos contratos. Por conseguinte, milhares de holandeses, incluindo
membros da alta sociedade, tiveram prejuízos enormes.

90
O COLAPSO DOS MARES DO SUL
No início do século XVIII, a poderosa Inglaterra ficou às voltas com a "bolha dos Mares do
Sul", episódio de especulação desenfreada envolvendo as ações da South Sea Company.
Endividado por gastos de guerra, em 1711, o governo inglês obteve dessa companhia um
empréstimo de 11 milhões de libras, a ser fi- nanciado a juros de 6%. A companhia recebeu,
ainda, garantia do monopólio das trocas nos Mares do Sul. A empresa aceitou o negócio, de
olho nas oportunidades de ganho com o comércio de escravos e as trocas nos portos das
colônias espanholas.

Para financiar as operações, a South Sea Company começou a emitir ações. Os investidores
foram atraídos pelos lucros potenciais associados ao monopólio em poder da companhia.
Várias emissões de ações foram realizadas com sucesso, enquanto os diretores cuidavam de
alimentar a imagem de prosperidade da empresa, abrindo diversos escritórios e espalhando
boatos de que a Espanha garantira o uso total dos portos coloniais pelos navios da
companhia. Virou mania possuir ações da South Sea Company, o que estimulou banoutras
empresas a entrarem no mercado de ações. Os investidores responderam com avidez.
Fortunas formaram-se do dia para a noite. A euforia cresceu - até mesmo Sir Isaac Newton
(1643-1726) adquiriu ações da South Sea Company - e alcançou a Europa continental, onde
muitos investidores compraram ações negociadas em Londres.

Mas, em 1718, o início da beligerância entre Inglaterra e Espanha inviabilizou os planos da


South Sea Company. Os seus diretores, então, inescrupulosamente emitiram mais ações.
Em seguida, venderam seus papéis, obtendo lucros elevados. Quando os investidores se
aperceberam da realidade da companhia, as ações despencaram. Os diretores da South Sea
Company fugiram para outros países. Isaac Newton perdeu 20 mil libras. Milhares de pessoas
perderam muito dinheiro. O governo inglês reagiu proibindo a emissão de ações, medida que
foi relaxada somente um século depois, em 1825. A economia da velha Albion, portanto,
ressentiu- se com o episódio.

Há quem veja analogias entre a "bolha dos Mares do Sul" e a crise da falência da Enron,
gigante americana da energia, ocorrida nos anos 1990. Corrupção, gestão fraudulenta,
ganância de executivos, expectativas irreais, fiscalização leniente. Ingredientes que fomentam
crises.

A FALÊNCIA DO INGLÊS OVEREND & GURNEY


A quebra do banco inglês Overend & Gurney ilustra o tipo de crise bancária decorrente de
dificuldades de liquidez (dinheiro) que contagiam instituições financeiras menores. Antigo e
respeitado banco da City, o Overend & Gurney era, conforme o jornal Th e Times of
London, o maior instrumento de crédito do Reino, recebedor dos fundos excedentes dos
pequenos bancos espalhados pela Inglaterra. Quando, em 1856, morreu Samuel Gurney
(1786-1856), o fundador do banco, uma nova geração de sócios assumiu o comando da
instituição e abandonou dois séculos de austera administração quaker.

Eles começaram a emprestar os fundos de curto prazo depositados no Overend & Gurney
para financiar empreendimentos de retorno a longo prazo: navios, portos e, principalmente,
estradas de ferro. Quando os resultados esperados não ocorreram (no caso das ferrovias,
após a febre de construção em meados do século, a concorrência excessiva entre as empresas
causou extraordinária queda dos lucros), boatos espalharam-se e os depositantes do banco
Overend & Gurney começaram a exigir seu dinheiro de volta. Nas palavras de Walter

91
Bagehot (1826-1877), à época editor do Th e Economist, os sócios geriram os negócios do
banco "de maneira tão inescrupulosa e tola a ponto de qualquer criança que tivesse aplicado
dinheiro na City teria se saído melhor". Em maio de 1866, a corrida bancária teve início.

A morte de Samuel Gurney (1786-1856), à esqueda, fundador do Overend & Gurney,


desencadeou a crise que atingiu o banco inglês
Os controladores do Overend & Gurney acreditaram que viria socorro do Banco da
Inglaterra. Este, por sua vez, decidiu deixar a casa falir, julgando que o pânico seria curto. A
multidão furiosa rumou para Lombard Street, rua de Londres onde ficavam as sedes de
muitos bancos. A polícia interveio. Muita gente teve perdas pesadas. Uns poucos
depositantes do Overend & Gurney recuperaram seu dinheiro, após longos litígios judiciais.
Os sócios desse banco perderam seus bens, obras de arte e dinheiro, foram processados
criminalmente, mas terminaram absolvidos.

Em 1873 surgiu o livro de Walter Bagehot (1826-1877), Lombard Street, propondo que
deveria existir um "emprestador de última instância" capaz de injetar liquidez temporária nas
instituições que enfrentassem problemas de acesso a dinheiro, mas não eram insolventes.
Para o jornalista e economista inglês, o "emprestador de última instância" deveria, diante da
crise bancária, anunciar sua prontidão de emprestar sem limites para estabilizar o mercado e
deter, no estado inicial, o "contágio" do sistema financeiro. Bagehot escreveu, ainda, que uma
crise financeira possui três fases: o alarme, quando o público percebe que uma ou outra
instituição está fragilizada e pode quebrar; o pânico, quando se desconfia que todo, ou quase
todo, o sistema fi- nanceiro pode estar abalado; a loucura, quando cada um se convence de
que não há mais salvação e é o "salve-se quem puder".

Obra do pintor holandês Marinus van Reymerswaele (1490- 1546), O banqueiro e sua
mulher, retrata o surgimento dos bancos durante a Idade Média

A crise do Barings Brothers é comparável à "crise da dívida externa" dos países emergentes,
nos anos 1980

A revista norte-americana Puck Magazine, mostra o Tio Sam ao lado de Pierpont


Morgan, fundador do banco Morgan, mostrando a disparidade entre a importância de cada
um

APLICANDO A PROPOSTA
A proposta de Bagehot foi empregada pela primeira vez na crise do Barings Brothers, em
1890-1891, situação que guarda semelhanças com a chamada "crise da dívida externa" dos
países emergentes na década de 1980, que perturbou os mercados financeiros americano e
europeu.

Na década de 1880, havia grande massa de recursos financeiros no mercado inglês, à procura
de oportunidades de investimentos de alta lucratividade. Esses capitais fluíram
principalmente para os Estados Unidos, Argentina, Austrália e Rússia. Na Argentina, esse
dinheiro aportou em obras de infra-estrutura, ferrovias e sob a forma de empréstimos
públicos. A entrada maciça de libras no país provocou o aumento das importações, forte
expansão do crédito bancário interno, emissão excessiva de moeda, gasto público elevado e
especulação de todo tipo, tudo lastreado no endividamento externo.

Por conseguinte, a balança de pagamentos argentina ficou bastante deficitária, mas a entrada
de investimentos externos possibilitava o fechamento das contas. Porém, na década de 1890,

92
a recessão na Europa provocou a diminuição da inversão externa na Argentina e a queda dos
preços das exportações do país (lã, carnes e cereais). Por conseguinte, os argentinos
começaram a ter dificuldades cada vez maiores para cumprir os compromissos externos. A
desconfiança dos investidores europeus na capacidade de pagamento da Argentina levou o
país à moratória, no ano de 1891.

Havia anos que a casa Barings canalizava para a Argentina vastas somas e garantia os
rendimentos dos aplicadores. Quando a crise surgiu, em 1890, bancos argentinos faliram e
as cotações das ações de empresas platinas e dos títulos da dívida pública desabaram. O
Barings Brothers teve prejuízos enormes, fechando as portas provisoriamente. Dessa vez,
porém, o governo britânico socorreu a instituição.

Em novembro de 1890, negociações secretas entre o Banco da Inglaterra e financistas de


Londres, liderados pelo banco Rothschild, levaram à criação de um fundo de resgate de 18
milhões de libras esterlinas, antes que a extensão do prejuízo do Barings fosse conhecida
publicamente. Esta intervenção, que contou com participação do Banco da França, do Banco
da Rússia e do americano Morgan, evitou uma crise financeira de grandes proporções.

Multidão em frente ao American Union Bank, em Nova York, durante a Grande Depressão
- o banco começou a funcionar em 1917 e fechou as portas em 1931

Imagem de 1907; aglomeração de pessoas em Wall Street, durante o "pânico dos


banqueiros"

TENSÃO EM NOVA YORK NA BELLE ÉPOQUE


A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1907, representou forte choque em um
ambiente de grande liberdade de fluxo de capitais e bens, característico da "globalização",
sob hegemonia britânica na belle époque. Desde a segunda metade da década de 1890, a
economia norteamericana entrara numa fase de crescimento expressivo, com saldos positivos
na balança de pagamentos e aumento da poupança interna, o que tornava o país muito
atrativo para investimentos estrangeiros. O mercado de ações americano estava inflado e os
bancos tinham emprestado dinheiro demais para corretores que não tinham condições de
honrar suas obrigações. Mas tudo ia bem enquanto o crescimento prosseguia e o crédito era
farto. Porém, o Banco da Inglaterra, visando reverter saídas de ouro rumo aos Estados
Unidos, elevou a taxa de redesconto de 3,5% para 6%, em 1906. Essa medida enxugou a
liquidez (quantidade disponível de dinheiro/crédito) nos Estados Unidos, provocando o
crash de Wall Street no princípio de 1907 e o declínio da atividade econômica. Em outubro,
teve início uma corrida contra os bancos, que foram forçados a suspender os pagamentos
em dinheiro. Muitas instituições financeiras faliram. O país entrou em uma severa recessão.
Pierpont Morgan (1837- 1913), fundador do banco Morgan, foi chamado para assumir o
leme e restaurar a ordem financeira, liderando comissão de banqueiros.

Para boa parte desses diplomatas latino-americanos, o regime nazista simbolizava o


autoritarismo bem-sucedido

O RESULTADO DO NEW DEAL

O acordo foi adotado pelo governo dos Estados Unidos logo após a posse de Franklin
Roosevelt, em 1937. Com o plano, o Estado norte-americano interveio diretamente na
economia e controlou a situação financeira do país

93
Na política monetária, o New Deal abandonou o padrãoouro e realizou emissão de dólares,
desvalorizados em 41%. Com isso, a economia americana recuperou sua competitividade
internacional e os preços internos subiram, fatores de estímulo para as empresas. Para
reativar as atividades agrícolas, o governo lançou o Agricultural Adjustment Act - pagando
indenizações aos fazendeiros, reduziu-se a quantidade de terras cultivadas e o tamanho dos
rebanhos. Analogamente, o Nacional Industrial Recovery Act procurou evitar a
superprodução e os excessos da concorrência: foram fixados preços mínimos e quotas de
produção. Os salários dos trabalhadores fabris foram elevados e as suas jornadas diminuídas.

Sem dúvida, a face mais visível do New Deal foi a política de grandes obras públicas. Entre
1933 e 1942, o governo investiu US$ 13 bilhões na construção de infra-estrutura. A
recuperação da economia americana, impulsionada pelo New Deal, ocorreu com certa
lentidão. Nas vésperas da Segunda Guerra, o país recuperara os índices de atividade do ano
de 1929.

Vale ressaltar um aspecto importante. A comissão chefiada por Morgan impôs ao presidente
Theodore Roosevelt (1858-1919) medidas que contrariaram sua bandeira política de caça aos
trustes. Ele teve de concordar com a compra da Tennessee Coal and Iron Co. (uma
empresa siderúrgica) pela poderosa U. S. Steel. A razão era simples: a corretora a que
pertencia a TC&I estava insolvente, mas precisava ser salva. O pragmatismo suplantou os
discursos inflamados e até certo ponto eleitoreiros do ocupante da Casa Branca.
Clientes sinalizam para os escritórios da Associação de Mercados de Nova York, em 1916
Os efeitos negativos logo alcançaram Inglaterra, França, Itália e América Latina também. A
crise de 1907 foi fator importante para avançar o consenso político nos Estados Unidos
sobre a necessidade de criação de um banco central. Em 1913, surgiu o sistema do Federal
Reserve. Há certos paralelismos da crise de 1907 com a crise atual que devem ser ressaltados:
a ampla liberdade de movimentação de capitais, a falta de boas regras financeiras, a farra de
crédito que conduziu a ativos inflados e especulação desenfreada.

A CRISE DE 1929
O GRANDE CRASH DE 1929
A quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, é considerada a maior crise
econômica de todos os tempos. No fim da década de 1920, os Estados Unidos eram os
maiores fornecedores mundiais de crédito, os maiores exportadores e importadores. A roda
da economia girava em torno dos humores do mercado americano. Mas o crescimento dos
Estados Unidos apresentava sérias fragilidades.

A onda de inovação tecnológica provocara grande aumento da produtividade, cujos efeitos


colaterais foram o aumento da taxa de desemprego e a queda do valor real dos salários. No
campo, a superprodução agrícola provocou a baixa dos preços dos produtos, fazendo
declinar a renda dos fazendeiros. Assim, no fim dos anos 1920, mais de 60% das famílias

94
norte-americanas tinham renda anual menor que US$ 2 mil. O que quer dizer que o tamanho
do mercado consumidor era limitado, justamente quando as fábricas de bens de consumo
duráveis e semiduráveis produziam a todo vapor. Porém, desde 1926, havia euforia,
consumismo e especulação no mercado acionário.

No ano de 1929, surgiram sinais de que a expansão terminara. A acumulação de estoques nas
fábricas e os cortes de encomendas feitas pelas grandes empresas comerciais geraram os
primeiros balanços ruins. O pânico caiu sobre a Bolsa de Nova York. As ações despencaram.
As corridas bancárias tiveram vez. As bancarrotas começaram. Enquanto isso, apegado à
ortodoxia liberal, o presidente Herbert Hoover (1874-1964) limitou- se a assistir a
quebradeira, a redução drástica do comércio internacional e o derretimento dos preços dos
ativos. A repatriação de capitais norteamericanos aplicados na Europa, para fazer face às
necessidades de dinheiro que cresciam nos Estados Unidos, provocou a desvalorização das
moedas européias. Um a um, os países abandonaram o padrão-ouro, iniciaram
desvalorizações competitivas e adotaram medidas protecionistas, o que teve o efeito de
"travar" o comércio internacional. A inércia de Hoover transformou o crash da Bolsa de
Nova York na Grande Depressão.
Entre 1929 e 1933, nos Estados Unidos, 110 mil empresas faliram e 8.812 bancos
desapareceram. O desemprego atingiu 25% em 1933. A produção industrial reduziu-se à
metade e o PIB caiu 46%. Os salários tiveram queda de 60%. Os preços agrícolas reduziram-
se 55% e os dos bens de produção 26%.
As palavras de Winston Churchill (1874-1965) ilustram o quadro da maior déblâcle do
capitalismo: "Toda a riqueza tão velozmente acumulada nas carteiras de títulos dos anos
anteriores desfez-se em fumaça. A prosperidade de milhões de lares norteamericanos havia
crescido sobre uma estrutura gigantesca de crédito inflado, que subitamente se revelou um
fantasma. Afora a especulação com ações em âmbito nacional, que até os mais famosos
bancos haviam incentivado por meio de empréstimos fáceis, um vasto sistema de crediários
na compra de casas, móveis, automóveis e inúmeros tipos de utensílios e artigos domésticos
de luxo havia crescido. Ruíram juntos.As poderosas linhas de produção foram lançadas na
tormenta e na paralisia. (...) Agora, as dores atrozes dos salários em declínio e do crescente
desemprego afligiam a comunidade inteira" (Memórias da 2a Guerra Mundial).
Movimentação na Bolsa de Valores de Nova York, logo após o crash de 1929

Pessoas protestam nas ruas de Nova York durante a crise de 1929


Com a eleição de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), em 1933, os Estados Unidos
organizaram sua reação à Grande Depressão. Foi posto em prática o plano conhecido como
New Deal. No campo financeiro, o governo passou a exigir das instituições maior rigor na
concessão de créditos, para os quais foram aumentadas as reservas mínimas que os bancos
deveriam manter no Fed. O Glass-Steagall Act proibiu o envolvimento direto dos bancos
comerciais em operações nos mercados de capitais e nos mercados imobiliários. Por meio da
criação do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), o governo garantiu depósitos
de até US$ 2.500. Também foi criada a SEC (Securities and Exchange Commission),
entidade federal encarregada de supervisionar e fiscalizar as operações de bolsa.
As crises originam-se nos países avançados e espalham-se, em seguida, para as regiões
periféricas do globo
No decurso da administração Roosevelt, os Estados Unidos passaram a contar com os
seguintes meios de intervenção e controle para remediar fragilidades bancárias: a) o
emprestador de última instância (o banco central); b) exigências de solvência que os bancos
comerciais têm que obedecer; c) sistema de supervisão para monitorar as atividades de bolsa
e bancárias; e d) esquemas de seguro de depósitos bancários. O Acordo de Bretton Woods
(1944) produziu o efeito de generalizar gradualmente esses elementos pelas economias

95
capitalistas. Há quem sustente que a escassez de crises financeiras nas três décadas que se
seguiram ao acordo deve ser atribuída, em boa medida, à "repressão financeira" resultante
do acordo.
Retrospectivamente, o crash de 1929 guarda algumas semelhanças com a crise que se vive
hoje. Ambas estão associadas a explosões de bolhas de crédito que produzem contração
violenta de patrimônios, receitas, atividades e empregos. Tanto em 1929 quanto em 2008,
assiste-se a uma deflação pela dívida. Porém, há duas diferenças importantes. A primeira diz
respeito à ação das autoridades. Em 1929, como assinalou o economista Milton Friedman
(1912-2006), luminar do chamado neoliberalismo, houve falha das autoridades monetárias e
do governo.
Hoje, as autoridades mundiais compreenderam a escala da ameaça e estão agindo com maior
presteza e medidas drásticas. A segunda diferença é que, em 1930, os Estados Unidos
estavam sozinhos - todas as reservas do mundo estavam com eles, e o país era o motor
solitário do crescimento internacional. Mas agora os americanos têm a China e outros países
emergentes como parceiros.

AS CORRIDAS BANCÁRIAS NO SÉCULO XIX


O século XIX foi marcado por grande número de crises financeiras, que tiveram como
protagonistas bancos e corretoras de valores. Desde 1825 até a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), ocorreram tensões no mundo inteiro, em todas as décadas. O quadro abaixo,
que recolhe apenas casos mais famosos, evidencia esse fato:
Crises financeiras na Europa e nos Estados Unidos (1772 a 1907)
Evento Páis de Origem Ano
Quebra do Ayr Bank Escócia Junho 1772
Quebra do Pole, Thornton & Co. Inglaterra Dezembro 1825
Quebra da Bolsa de Valores Inglaterra Dezembro 1836
Bolha das Ferrovias Inglaterra 1847
Bolha das Ferrovias Estados Unidos Agosto 1857
Quebra do Overend & Gurney Inglaterra Maio 1866
Quebra do Crédit Mobilier França 1867-1871
Quebra da Bolsa de Valores Áustria/Alemanha 1873
Quebra do Jay Cooke & Co. Estados Unidos Setembro 1873
Quebra do Union Générale França 1882
Quebra do Barings Brothers Inglaterra Novembro 1890
Quebra da Bolsa de Valores Estados Unidos 1893
Quebra da Bolsa de Valores Estados Unidos 1907

AS LIÇÕES DAS CRISES FINANCEIRAS

Em uma perspectiva histórica, as crises bancárias e de bolsas de valores não são novidades.
As "bolhas de crédito" são muitas e recorrentes. Os custos dessas crises, em termos de
riquezas dilapidadas e sofrimentos humanos, são enormes. O mercado financeiro capitalista
não aprende. As pessoas não aprendem. Os investidores muito menos. Sempre há quem
fique alavancado em demasia, quem assuma riscos excessivos ou mal conhecidos ao lidar
com inovações financeiras cada vez mais complexas.

Na base das crises financeiras modernas, há sempre o mesmo erro de avaliação dos agentes
econômicos: as pessoas acreditam que, dessa vez, realmente o mundo mudou e a economia
funciona sobre bases sólidas e definitivas. Alimentam expectativas de retorno desmedidas,
lançam mão do crédito abundante para fazer negócios, produzindo uma espiral de ativos
intangíveis. As crises têm início quando há rápida deterioração dos indicadores econômicos

96
e surgem boatos ou notícias da dificuldade financeira de uma empresa ou de um banco para
cumprir seus compromissos.

A evidência histórica também permite pensar que as crises financeiras são transmitidas pelos
canais do comércio internacional, dos empréstimos entre países ricos e pobres, dos mercados
de commodities e bolsas de valores e das arbitragens em mercados de títulos de curto prazo.
Do século XVII a meados do século XX, as crises originaram- se, predominantemente, nos
países avançados da Europa (com destaque para a Grã-Bretanha) e nos Estados Unidos,
espalhando-se, em seguida, para as regiões periféricas do mundo.

Quanto ao problema de abreviar as crises fi- nanceiras, de modo a diminuir os impactos


negativos que elas causam nos setores produtivos da economia, a história ensina que os
Estados têm de agir rapidamente para salvar o sistema financeiro. Os Estados devem ser
pragmáticos. Os governos precisam se lembrar de que eles criam mercados, e que mercados
só podem existir com regulamento. Que não se alimente o falso debate governo versus
mercado.

Outra lição é a de que existem limites para a expansão econômica baseada no crédito. O
endividamento excessivo de famílias, empresas e países geram catástrofes enormes. Quando
o emprego e a renda não acompanham a oferta de crédito, os negócios das famílias, empresas
e instituições financeiras logo se chocam com a realidade da inadimplência. O trabalho e a
produção devem ter prioridade sobre a compra e venda de papéis.

REFERÊNCIAS

CHANCELLOR, Edward. Salve-se quem puder: uma história da especulação financeira. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001. FIORI, José Luís (org.). Estados e moedas no
desenvolvimento das nações. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2000. FRIEDMAN, Milton;
SCHWARTZ, Anna J. A monetary history of the United States, 1867-1960. Princeton: Princeton
University Press, 1963.
KINDLEBERGER, Charles P. Manias, PANICS, AND CRASHES: a history of financial
crises. 3. ed. New York: John Wiley and Sons, 1986. MAURO, Frédéric. História econômica
mundial, 1790-1970. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
MORRIS, Charles R. Os magnatas: como Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, Jay Gould
e J. P. Morgan inventaram a supereconomia americana. 3. ed. Porto Alegre: L&PM, 2007.
MARCOS LOBATO MARTINS é Doutor em História Econômica pela USP. Professor dos
Cursos de História e Direito das Faculdades Pedro Leopoldo, MG (FPL).

HISTÓRIA VIVA. Disponível em:


<ttp://historianovest.blogspot.com.br/2009/03/historia-do-capitalismo-de-
especulacao.html>. Acesso em 02/04/2012

LEITURA COMPLEMENTAR – ENTREVISTA COM - Eric Hobsbawm


A Crise do Capitalismo Financeiro no Século XXI
Eric Hobsbawm67 e A Crise do Capitalismo e a atualidade de Marx

67 Eric John Ernest Hobsbawm (Alexandria, 9 de junho de 1917 - Londres, 1 de outubro de 2012 ) foi
um historiador marxistabritânico reconhecido como um importante nome da intelectualidade do século XX.

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Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck
College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque).
Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do "longo século XIX": "A Era da
Revolução: Europa 1789-1848" (1962); "A Era do Capital: 1848-1874" (1975); "A Era
do Império: 1875-1914 (1987) e o livro "A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991
(1994), todos traduzidos em vários idiomas.

Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi
apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções.
Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do
"marxismo-leninismo", não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua
obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa
Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: "O
pensador do terceiro milênio?". Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada
pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes
de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o
terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de "relevância atual".
Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como
título "Ein Gespenst Kehrt zurük" (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do
programa "In Our Time" da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de
todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse
que, paradoxalmente, "são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx" e
falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal
George Soros a seguinte frase: "Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele
diz". Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx?
É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais,
para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento
moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova "demanda
de Marx", do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no


mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia,
do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150°
aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica
internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do
livre-mercado.

Ao longo de toda a sua vida, Hobsbawm foi membro do Partido Comunista Britânico. Um de seus interesses
foi o desenvolvimento das tradições. Seu trabalho é um estudo da construção dessas tradições no contexto
do Estado-nação. Argumentou que muitas vezes as tradições são inventadas por elites nacionais para justificar
a existência e importância de suas respectivas nações. Nascido no Egito, ainda sob dominação britânica, teve,
por isso, a nacionalidade britânica. Seu sobrenome foi alterado por erro de escrituração: era filho de Leopold
Percy Hobsbaum, inglês, e Nelly Grün, austríaca, ambos judeus. Teve uma irmã - Nancy. Passou os primeiros
anos de sua vida em Viena e Berlim. Nessa época, tanto a Áustria quanto a Alemanha sofriam com a crise
econômica e a convulsão social, consequências diretas da Primeira Guerra Mundial. Seu pai morreu em 1929,
e sua mãe em 1931. Ele e sua irmã foram adotados pela tia materna, Gretl, e por seu tio paterno, Sydney, que
se casaram e tiveram um filho - Peter. A família mudou-se para Londres em 1933. Em 1947 passou a lecionar
no Birkbeck College, em Londres, mas só foi promovido em 1970. Ele atribuía essa demora às suas posições
políticas. Hobsbawm casou-se duas vezes: a primeira, com Muriel Seaman, em 1943, de quem se divorciou
em 1951, e a segunda, com Marlene Schwarz. Com esta última, teve dois filhos, Julia e Andy. Teve também um
filho fora do casamento, Joshua Bennathan. Morreu em 1° de outubro de 2012, no hospital Free Royal de
Londres, de pneumonia, entre outras complicações decorrentes da leucemia.

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Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise
da "sociedade burguesa", cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os
capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem
impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros
sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.

A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada
pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos
anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado,
assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados
por Marx e Lênin. Os assim chamados "novos movimentos sociais", como o feminismo,
tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente,
muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no
progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o
socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o "proletariado", dividido e
diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada
por Marx.

Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos
radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises
teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um
grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como
França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada
ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice
nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que
percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do
capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia
internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este
processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e
teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social
generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no
verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos
empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora se tornou a
maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela
obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a
explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas
análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso
dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx,
mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que,
como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente –
eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais
promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode
transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da
teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-
americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.

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As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno
de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China,
as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre
mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos
altos escalões de governo. É claro que qualquer "retorno a Marx" será essencialmente um
retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da
humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do
desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com
dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram
os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a
história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser
definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda
internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI,
renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a
transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida em que
sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está
baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento
histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria
substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda
que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum
sistema pós-capitalista.
Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não
pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias "socialistas" foram
organizadas sob o chamado "socialismo realmente existente". Quanto aos objetivos do
socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e
alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas
foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de
inspiração.
No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se
compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos,
autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo
capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento
capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma
apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de
Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de "O
Capital". Como mostram os "Grundrisse", aliás. Inclusive, um Capital completo teria
conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente
ambicioso.
Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas
radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização
existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como
um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e
o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos
leitores e comentadores são os "Grundrisse". Escritos entre 1857 e 1858, os "Grundrisse"
são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o

100
trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx
não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião,
estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro
texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica
da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto


internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles
permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz,
contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma
outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo
no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam,
portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance
da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou
anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de
Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca
problemas importantes que não foram considerados no "Capital", como por exemplo as
questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's
Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por
M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para
comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: "Talvez este seja o
momento correto para retornar ao estudo dos "Grundrisse", menos constrangidos pelas
considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita
Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev". Além disso, para destacar o enorme valor
deste texto, você diz que os "Grundrisse" "trazem análise e compreensão, por exemplo, da
tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a
era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da
automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação
sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos
próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na "Ideologia Alemã". Em
poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em
toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos "Grundrisse" hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e


tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil
massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a
distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da
sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem
surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a
acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou
não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes
filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão,
um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no
qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos

101
deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele
mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for
entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e
dos problemas que devemos enfrentar.

[Tradução para Sin Permiso (inglês-espanhol): Gabriel Vargas Lozano]


[Tradução para Carta Maior (espanhol-português): Marco Aurélio Weissheimer]

Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College
(London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas
muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do "longo século XIX": "A Era da Revolução: Europa 1789-
1848" (1962); "A Era do Capital: 1848-1874" (1975); "A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o
livro "A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.

Revista Estratégia Internacional / Revista Estratégia Internacional Brasil Nº 03


sábado 7 de junho de 2008
Crises e contradições do "capitalismo do século XXI"

Por Juan Chingo

As coordenadas geopolíticas: o já “não mais” da indiscutível supremacia norte-americana e


o “ainda não” de uma nova potência emergente
Parte significativa da crescente instabilidade da acumulação capitalista atual surge como conseqüência do
declínio histórico dos EUA. Podemos localizar o começo desse fenômeno no fim do boom do pós-guerra. Ao final
dos anos 1960 e começo dos 1970, o ressurgimento do Japão e da Alemanha (no marco do processo de unificação
européia) como potências emergentes terminou com a imensa superioridade econômica norte-americana e deu origem
à divisão do mundo em uma tríade de potências imperialistas mais ou menos equivalentes. [1]
Esse retrocesso relativo dos EUA levou ao fim do sistema Bretton Woods [2]. Desde então, os EUA utilizaram
o novo regime de câmbio flexível e a continuidade do dólar como moeda de reserva e meio de pagamento em âmbito
mundial como forma de enfrentar a crise, manipulando em seu proveito esse privilégio somente reservado à potência
hegemônica. O enorme benefício econômico para os EUA lhes permitiu viver para além de seus meios, o que tem se
expressado em um sobre consumo e em déficits comerciais de grande magnitude. Exportando sua inflação [3], os
EUA têm aumentado a instabilidade e os desequilíbrios da economia mundial ’ como demonstra a aceleração de crises
monetárias, financeiras e da bolsa de valores. Em outras palavras, durante esse período os EUA vêm atuando, cada
vez mais, como o principal desestabilizador da economia capitalista mundial. [4]
Esse comportamento “irresponsável” foi “tolerado” por seus sócios comerciais como reflexo, em última
instância, de sua imensa hegemonia como superpotência mundial, o que se fortaleceu com o desaparecimento da ex-
URSS e que se sustenta na inigualável superioridade de suas Forças Armadas. No entanto, o débâcle no Iraque está
corroendo essas bases políticas e geopolíticas nas quais se baseia uma economia com fundamentos frágeis.
Hoje, diferentemente do período posterior à guerra fria, estamos entrando em um novo cenário geopolítico,
caracterizado pela já “não mais” indiscutível supremacia norte-americana, e o “ainda não” surgimento de uma nova
potência emergente. Um vazio hegemônico em âmbito internacional crescentemente perigoso. A Guerra do Iraque,
que estava destinada a ser uma contundente demonstração do poderio norte-americano, tem se convertido, pelo
contrário, numa constatação dos limites de seu poder. Os efeitos disso sobre os EUA e o mundo são profundos. A

102
ocupação do Iraque e do Afeganistão tem desgastado os EUA. A confiança norte-americana em seu predomínio
indiscutível tem se desvanecido. Isso é percebido mundialmente. Nessas circunstâncias, as outras potências, grandes
ou pequenas, estão tratando de tirar vantagem da nova situação. Isto é um fato geopolítico de grande importância que
afeta o funcionamento do sistema capitalista mundial. É que, contra as teorias da globalização, o capitalismo mundial
não se desenvolve sem um marco político e geopolítico adequado.
Por sua vez, não se delineia facilmente, como no passado, uma potência capitalista que possa substituir o atual
hegemon, como foi o caso da emergência norte-americana no final do século XIX e começo do século XX frente ao
domínio britânico. A UE, a mais preparada economicamente, se encontra dividida por profundos e insolúveis
antagonismos nacionais. A Rússia, apesar de sua recuperação parcial com respeito à débâcle dos anos 1990, não tem
no cenário mundial a mesma posição que tinha no passado, sobretudo no mundo semicolonial, e é um pigmeu no
terreno econômico, somente beneficiado pelos altos preços do gás, do petróleo e minerais dos últimos anos. China,
a que muitos com ligeireza chamam de “nova potência do século XXI” , apesar de seu crescimento, ainda está longe,
em termos de PIB per capita e da produtividade do seu trabalho, dos principais centros imperialistas. Sua política
exterior tem caráter defensivo e seu eixo é o controle da estabilidade interna cada vez mais transtornada por crescentes
desigualdades. São essas contradições dos principais competidores dos EUA as que outorgam à situação mundial certa
inércia. No entanto, a hegemonia norte-americana é cada vez mais discutível. No princípio da década, os EUA
evitaram que a recessão causada pelo desinflar da chamada “nova economia” se transformasse em depressão, mas à
custa de hipotecar e exacerbar os desequilíbrios próprios e da economia mundial, prolongando uma política que já
dura vários anos: uma fuga para a frente, baseada cada vez mais na queda da poupança e na acumulação de dívidas.
Esse modelo de sobre consumo que dependente da financeirização do resto do mundo descansa sobre bases cada
vez mais frágeis. A crise financeira atual pode dar sua sentença de morte. As autoridades políticas e monetárias dos
EUA se encontram frente a uma encruzilhada maior: a necessidade de salvar a economia norte-americana a tempo de
manter a confiança no dólar. Em outras palavras, o dólar necessita desvalorizar-se sem entrar em colapso. O Banco
Central não pode arriscar um forte crescimento das taxas de juros de longo prazo, em resposta à perda de confiança
na estabilidade dos preços nos EUA e o colapso de sua taxa de intercâmbio. Manterá o dólar sua posição dominante
como moeda de reserva mundial depois da crise atual? Uma crise do dólar pode significar um grande salto na crise da
hegemonia norte-americana, somando-se ao fracasso de seus objetivos no Iraque. Contudo, haja ou não queda abrupta
do dólar, seu papel como moeda de reserva mundial está entrando em período de lenta agonia. Uma crise do dólar
somente aprofundaria as tendências à desordem e à instabilidade, aumentando as probabilidades de crises maiores.
O que está claro é que o papel dos EUA como consumidor em última instância poderia estar chegando a seu
fim. Pelo contrário, é provável que o motor norte-americano atue de forma inversa buscando, mediante a
desvalorização do dólar, melhorar sua balança de comércio exterior. É que no marco da queda do preço das moradias,
inclusive com uma baixa das taxas de juros, é pouco provável que os norte-americanos sejam seduzidos para se
endividar e gastar. Dessa forma, o resto do mundo deverá se acostumar a viver em uma situação em que o motor da
sobre demanda norte-americana se torna lento agudamente. O famoso “re-equilíbrio” da economia mundial deverá
se acelerar. Ao não se produzir ’ variante altamente provável -, a perspectiva é desaceleração ou recessão. Nesse
cenário, aumentarão as possibilidades de choques comerciais e ameaças à ordem política da chamada “globalização”
[5].
A contradição entre economia e política ou as dificuldades na gestão geopolítica da “estrutura social
da humanidade”
Em um excelente artigo, Justin Rosenberg trata de aplicar a lei do desenvolvimento desigual e combinado à
“Teoria das Relações Internacionais” para interpretar o mundo contemporâneo. As conseqüências de tal
procedimento são surpreendentes. Pondo de lado a estrutura política do sistema de Estados, queremos nos deter no
que Trotsky chamou “a estrutura social da humanidade” [6]. Segundo Rosenberg,
a frase soa bastante abstrata, mas Trotsky queria expressar com ela algo muito concreto: a inter-relação real de todas estas
diferentes sociedades, em virtude da qual constituem um todo dinâmico mais amplo; a contraditória, mas irreversível unidade de
desenvolvimento social humano criada pela expansão do mercado mundial. E todas as tensões e conflitos originados pelo desenvolvimento
geopoliticamente combinado e sociologicamente desigual do sistema internacional. Dentro dessa totalidade, o sistema de Estados é crucial,
mas em nenhum caso independente. Pelo contrário, em parte sua posição histórica e geográfica dentro dessa estrutura social da humanidade
explica por que o Estado na Inglaterra, Alemanha e Rússia adotou formas políticas tão distintas.Mais ainda, essa mesma estrutura social

103
da humanidade, em seu conjunto, as grandes potências se vêm obrigadas a gestionar geopoliticamente para defender seus próprios interesses.
Se a penetração do capitalismo na Rússia deformou a sociedade russa, pela mesma razão incorporou essa distorção social na estrutura
política do mercado mundial. “Vemos assim, escreveu Trotsky em 1906, como a burguesia internacional fez a estabilidade de seu sistema
de Estados profundamente dependente dos instáveis baluartes pré-capitalistas da reação” . O desenvolvimento desigual e combinado do
capitalismo se expressa tanto por um nível interestatal como por um problema de ordem geopolítica [7].
Esse conceito é central porque contra toda a visão geopolítica e economicista da situação internacional tão
cara às teorias realistas das relações internacionais, que somente vêem ante a ausência de um governo mundial uma
luta dos Estados pela sobrevivência tratando de estabelecer um equilíbrio de poderes entre eles, ou a visão “globalista”
, que supõe que o capital criou um mundo homogêneo, permite explicar as linhas de falha da política internacional e
a necessidade dos Estados, sobretudo da potência hegemônica, de manejar politicamente as mesmas.
Rosenberg, contra toda a visão ideológica que supõe que o interesse dos EUA durante a guerra fria foi
“defender a democracia” , ou num estreito economicismo, o prosseguimento de seus próprios interesses econômicos,
diz:
O desafio da política exterior do pós-guerra dos EUA era manter politicamente unido o mercado mundial em um momento em
que a desigual, mas rápida transformação capitalista das sociedades de Terceiro Mundo ameaçava empurrar muitas delas nos braços da
URSS. De fato, quando analisamos a ocupação militar das potências fascistas derrotadas, a confrontação bipolar com a URSS, ou suas
relações com os estados de Terceiro Mundo, descobrimos que o principal conteúdo social da política exterior de pós-guerra dos EUA não
foi colocar ordem na anarquia, ou defender a democracia, ou inclusive perseguir seus próprios interesses econômicos: mas a gestão geopolítica
do desenvolvimento combinado e suas conseqüências em escala mundial. Trotsky predisse essa conjuntura internacional de hegemonia norte-
americana, a orientação geopolítica da política exterior dos EUA e sua paradoxal fusão de auto-afirmação e involuntária implicação
exterior. É precisamente ’ escreveu em 1928 - o poder internacional dos EUA e a irresistível expansão que o obrigam, ou o forçam a
incluir entre as peças de sua estrutura os paióis de todo o mundo: cada um dos antagonismos entre o Leste e o Ocidente, a luta de classes
na velha Europa, a revolta das massas coloniais e todas as guerras e revoluções... fazendo com que esteja constantemente mais interessado
em manter a ordem em cada rincão do globo. [8]
Utilizando esse método passemos agora a elucidar quais seriam as linhas básicas da “estrutura social da
humanidade” que as grandes potências, em especial os EUA, devem gestionar politicamente na atualidade, tomando
em conta a nova divisão mundial do trabalho a que nos referimos.
A forte relocalização do capital industrial (e ultimamente dos serviços como o novo pólo da Índia) em países
de mão-de-obra barata tem gerado, poderíamos dizer, dois tipos potenciais de conflitos de classe: um associado aos
novos lugares de acumulação de capital, que tem fortalecido estruturalmente a nova classe operária, e no outro pólo
da equação a liquidação (ou intento de) das conquistas sociais adquiridas pela força de trabalho nos velhos centros de
acumulação capitalista [9]. Analisemos separadamente ambos os pólos.
Em primeiro lugar, vejamos a gestão geopolítica dos novos centros de acumulação de capital, em particular a
China, e seu impacto sobre o mercado mundial capitalista. Enquanto a China é vista do ângulo do capital internacional,
hoje poderíamos dizer, parafraseando Trotsky com respeito à Rússia czarista, que “a burguesia internacional tem feito
a estabilidade de seu sistema de Estados profundamente dependente dos instáveis baluartes” da arcaica estrutura de
comando de origem stalinista/maoísta do Peça que ainda governa o gigante asiático. Inclusive, o correto seria afirmar
que essa dependência é muito maior que na Rússia de antes. Por que muito maior? Em primeiro lugar, pela escala da
China. Segundo, porque o papel da Rússia czarista na divisão mundial do trabalho do final do século XIX e começo
do XX empalidece com a atual localização da China na nova divisão do trabalho mundial, que tem liquidado em
grande medida a antiga divisão do mundo entre países da periferia, produtores de matérias-primas, e países adiantados
produtores de manufaturas. É certo que, particularmente em 1914, um quarto de todo o capital exportado pela França
teve como destino a Rússia, e que os franceses possuíam cerca de um terço de todas as sociedades estrangeiras nesse
país, desde minas até fábricas metalúrgicas, passando pelo sistema bancário. No entanto, o grosso dos capitais
franceses ia para o Estado: 91,6% do estoque de capital em 1890; 87% em 1900 e 82% em 1914 [10]. Ao contrário
disso, a China tem se convertido no principal foco de investimentos estrangeiros diretos (IED), que em menos de
duas décadas a tem transformado na “oficina manufatureira mundial” [11]. Enquanto os pavões da burguesia estão
preocupados com a ascensão da China como a próxima potência do século XXI, a verdadeira questão que poderá
colocar (e já está colocando) à prova o sistema capitalista mundial é como está preparada a China para uma crise
econômica, social e política em seu território, e as repercussões que terá para o sistema capitalista mundial em seu

104
conjunto. Essa é a verdadeira questão a analisar, e não tanto a sustentabilidade do crescimento ou os custos do atual
modelo, ainda que esses aspectos não deixem de ser importantes. Essa preocupação, podemos ver, por exemplo, na
seguinte análise:
A estratégia de crescimento tem implicado uma série de distorções e limitações políticas que tem reduzido enormemente a margem
de manobras em caso de que haja algum colapso forte. É inevitável que, à medida que a economia se torne mais complexa e mais integrada
com o comércio e o sistema financeiro mundial, estará exposta a mais crises. Essas podem se produzir por causa internas - por exemplo,
perda de confiança no sistema bancário, instabilidade social gerada por desigualdade cada vez maior - ou razões externas - por exemplo,
crise do mercado internacional de capitais, colapso da demanda externa, sanções comerciais dos EUA, intensificação das tensões comTaiwan
etc.[...] uma questão mais importante que a sustentabilidade sobre as bases de uma dinâmica puramente interna do sistema é a economia
ter a suficiente flexibilidade para resistir e recuperar-se de grandes crises, internas ou externas. Aqui a resposta é muito menos clara. [12]
Digamos que um dos riscos maiores é a crescente instabilidade social que, combinada com um choque externo,
pode ser explosiva:
A recente desigualdade de renda - entre as áreas rurais e as urbanas, entre os trabalhadores altamente capacitados e os não
qualificados etc - tem criado ressentimento profundo numa sociedade aparentemente motivada por ideais de igualdade. Além disso, os efeitos
da debilidade institucional, como a corrupção e a falta de transparência no setor público, são sentidos mais intensamente pelos pobres. Tais
tensões poderiam explodir com facilidade por toda uma série de questões menores. O Partido Comunista Chinês até agora tem se arranjado
para conter a instabilidade social ilhando e reprimindo tais incidentes, mas isso poderia sair facilmente do controle se o governo responde a
um choque externo de maneira tal que a maior parte do peso da crise recaia sobre os pobres. [13]
Serão os golpes da crise financeira internacional em curso as que despertam o gigante operário chinês? Não
sabemos. O que podemos afirmar, com Beverly Silver, é que a “importância para o futuro da conflitividade trabalhista
da classe operária chinesa em escala mundial parece inquestionável ” [14]. Isso não significa que a força numérica e
estrutural do novo proletariado chinês vá se expressar automaticamente em lutas. Existem fatores objetivos e
subjetivos de peso que terá que superar para emergir com toda a sua potencialidade. Entre os primeiros, está a
crescente informalidade do trabalho e inclusive um aberto desemprego nas cidades nos últimos anos, que pode atuar
como fator conservador da luta operária [15]. E entre os subjetivos, a nova classe operária chinesa deverá saldar contas
com as “três linhas” de controle que o PCCh ainda tem sobre ela: sindicatos oficiais, células do partido e uma espécie
de comitês de fábrica.
Em segundo lugar, vejamos como a nova divisão mundial do trabalho tem transtornado as bases sociais e de
estabilidade das democracias imperialistas. Isso tem dado lugar a conflitos operários e populares em defesa das velhas
conquistas, em que o avanço mais importante tem sido o ciclo de lutas de 1986-2006 (especialmente de 1995 em
diante) dos trabalhadores e estudantes franceses contra o desmantelamento do chamado “Estado de Bem-Estar” .
Neste outro pólo, a brutal redistribuição negativa da renda tem se convertido em crescente pauperização das
classes médias e da classe operária. Como concebe Gabor Steingart, as “classes média e baixa” vivem sem reservas
financeiras e se parecem mais “a famílias de terceiro mundo golpeadas pela pobreza. [16] A “aristocracia operária”
dos países centrais, que durante o boom foi parte da base social dos regimes imperialistas, apoiando as políticas de
colaboração de classes das direções social-democratas e stalinistas, vem sendo duramente golpeada e reduzida, e essa
é a explicação, em última instância, das crises agudas dos partidos social-democratas. Um movimento de descenso
social, inverso ao dos chamados “trinta gloriosos” , que havia levado muitos sociólogos a afirmar que a classe operária
havia desaparecido porque tinha se tornado pequeno-burguesa, ou seja, seria parte da classe média [17]. Esse
movimento tem sido acompanhado por crescente polarização da classe média e pauperização de um setor dessa classe
média:
Se olharmos a experiência, nos últimos 30 anos, dos profissionais cuja vida está intimamente interconectada com a classe
trabalhadora ’ professores de centros populares, advogados nas oficinas públicas ou com pequenos escritórios, doutores que trabalham em
bairros operários e professores das escolas públicas ’ notamos que sua posição econômica e social tem se deteriorado. Contudo, se observarmos
os profissionais que tem se dedicado a prestar serviços à classe capitalista (advogados das grandes corporações, profissionais dos serviços
financeiros, as quatro maiores empresas de contadores públicos, e os médicos que exercem a profissão além do alcance do seguro médico
global e as companhias seguradoras fiscalizadoras), notamos que esses profissionais têm aumentado sua fortuna como a classe à qual eles
servem, ainda que somente até certo ponto. Isso tem sido de maneira absoluta e proporcional. [18]
Ambos os elementos têm rachado as bases sociais que garantiam a estabilidade das democracias burguesas
imperialistas, e junto com as crescentes tensões econômicas e geopolíticas explicam as tendências ao bonapartismo

105
no marco de regimes democrático-burgueses cada vez mais degradados em grande parte dos países capitalistas. O
bushismo nos EUA ’ hoje em decadência política ’ com sua guerra contra o terrorismo no plano externo e o nefasto
“ato patriótico” no plano interno, não é mais que sua manifestação mais aguda.
A pressão à queda dos salários tem sido constante. Para Stephen Roach, essa é uma das principais tensões da
chamada “globalização” :
O que têm em comum as três maiores economias do mundo? A resposta sublinha uma das tensões-chave da globalização ’ a
implacável pressão sobre a renda dos trabalhadores. A natureza desse fenômeno é igualmente reveladora ’ ganhos cada vez mais altos para
os donos do capital. Para uma economia mundial que está atravessando o boom mais forte desde o princípio dos anos 70, que já leva
quatro anos, essa dominação vigorosa entre o trabalho e o capital é fonte de desequilíbrio cada vez maior [...] Nas três economias, o
desemprego vem diminuindo nos últimos anos ’ queda de 27%no índice de desempregados nos EUA desde meados de 2003, declínio de
21% no Japão desde 2003, e de 15% na Alemanha desde meados de 2004. No entanto, em nenhuma dessas três economias o
fortalecimento cíclico nos mercados trabalhistas resultaram em aumento significativo dos salários reais e/ou da porção do trabalho na renda
nacional. De acordo com nossos cálculos, passados 57 meses do atual ciclo de ascenso, a compensação do setor privado dos EUA continua
em quase 400 milhões de dólares (em termos reais) debaixo da média dos quatro últimos ciclos econômicos. Após um tênue vislumbre de
reativação no início do ano de 2005, o estancamento é novamente evidente nos salários reais do Japão. Tampouco existem sinais de uma
ativação significativa nos salários reais na Alemanha; ao contrário, as compensações ajustadas pela inflação dos trabalhadores no conjunto
dos setores na realidade têm declinado em quatro dos últimos cinco anos [...] quanto ao incremento da produtividade, não existe nenhuma
melhora importante da “parte da torta” que recebem os trabalhadores. Aí radica o problema: a economia nos ensina que os salários reais
em última instância seguem o crescimento da produtividade ’ que os trabalhadores são recompensados de acordo com seu produto. Porém,
esse não tem sido o caso nas economias com salários altos do mundo industrial nos últimos anos. De acordo com as estimativas feitas por
nós, à porção real da renda nacional destinada a compensações nos chamados países do “G-7 plus” (EUA, Japão, os 12 países da
Eurozona, Reino Unido e Canadá) caiu de 56%em 2001 para 53,7%em 2006 (o que parece ser um nível baixo recorde). Com um
comércio e uma produção mundial orientados cada vez mais pelas economias de baixos salários e economias em transição, o que eu chamo
a “arbitragem trabalhista global” coloca de maneira inexorável pressão nos salários reais no mundo industrial de salários altos. Algumas
pessoas poderiam argumentar que o pior da arbitragem já passou - já que a inflação salarial decolou na China e Índia. Não confiem nisso.
Nossas estimativas sugerem que inclusive depois de cinco anos de uma inflação de dois dígitos na China, a compensação por hora para os
trabalhadores chineses do setor manufatureiro permanece a somente 3% dos níveis predominantes nas economias industriais mais
importantes. Enquanto os trabalhadores são espremidos, os donos do capital têm desfrutado uma flexibilidade maior sob esse clima. Dada
as extraordinárias pressões competitivas, as corporações têm redobrado seus esforços na área da produtividade. E, como se tem feito notar
mais acima, todos esses esforços têm dado seus frutos ’ por mais de uma década nos EUA e ultimamente no Japão e Alemanha. Os frutos
desses esforços têm se evidenciado sob a forma de crescente aumento dos lucros das corporações e aumento dos preços das ações [19].
Sua conclusão é que podemos estar frente a uma fase mais desestabilizante:
Contrariamente à teoria ortodoxa que diz que todos ganham (“win-win theory” ), a globalização é um fenômeno altamente
assimétrico. Também resulta em desequilíbrios extraordinários entre as nações com déficit em suas contas correntes e os que têm excedentes.
E tem levado a ampliar a disparidade dos lucros entre os trabalhadores e o capital. Isso significa que a globalização é um fenômeno
inerentemente insustentável? Provavelmente não. Porém, significa que poderíamos estar diante da fase mais desestabilizadora dessa mega-
tendência. A porção da renda da força de trabalho nunca tinha sido mais baixa. Como ao dia se segue a noite, o pêndulo oscilará até o
outro lado - e o mesmo ocorrerá com o equilíbrio entre os salários reais e os lucros dos negócios. Somente é questão de quando e sob quais
circunstâncias.
Economia, relações interestatais e luta de classes
Nos parágrafos anteriores analisamos a situação da economia, a dinâmica das relações interestatais e as tensões
que essas geram na “estrutura social da humanidade” .
Aprofundemos mais esse aspecto, seguindo o método de Trotsky, que combinava em sua análise a economia,
as relações entre os Estados e a luta de classes. Em outras palavras, como os dois primeiros elementos dessa relação
dialética moldam a luta de classes (enquanto essa atua sobre a economia e a política internacional dos Estados e
governos). Essa inter-relação se manifesta no aumento das tendências belicosas do imperialismo, principalmente
norte-americano e de seus aliados, como o Estado de Israel. Ao mesmo tempo, a forte pressão da competição
internacional provoca constantes ataques aos salários e às condições de reprodução da força de trabalho em âmbito
internacional. Dessa situação surgem duas tendências fundamentais da luta de classes na atualidade: por um lado, as
tendências ao enfrentamento às guerras imperialistas, e por outro lado uma lenta recomposição do movimento

106
operário depois do retrocesso das décadas passadas, sobretudo em alguns países latino-americanos, mas também na
Europa.
A luta contra a política neo-imperialista dos EUA tem seu ponto mais alto indubitavelmente na resistência
iraquiana às tropas de ocupação, ainda que pelo caráter de suas direções não se tem transformado numa verdadeira
guerra de libertação nacional, que abarque o conjunto das massas, independentemente de sua religião ou etnia. Longe
dessa perspectiva, desde o começo de 2006 a situação adquiriu traços de guerra civil, empurrada fundamentalmente
pela política de “divide e reinarás” dos EUA e de seu sócio britânico frente à impotência de derrotar a resistência com
baixos custos. Porém, o enfrentamento aos planos neo-imperialistas não somente se manifesta no Iraque, como na
crescente resistência no Afeganistão, que tem complicado enormemente as tropas de ocupação da OTAN, ou no
Oriente Médio, na primeira derrota em toda a sua história do poderoso exército sionista pelas mãos do Hezbollah, na
última guerra do Líbano.
A outra forma que adquire a luta de classes é a lenta recomposição do movimento operário, que tem sua
expressão mais avançada na América Latina. Ainda que a recuperação das economias latino-americanas favorecidas
pelo último ciclo de crescimento da economia mundial tem permitido o acolchoamento das tendências à ação direta,
e rebeliões, que se expressaram no princípio do século em países como Argentina, Bolívia ou Equador, consolidando
os desvios dos distintos governos pós-neoliberais; o mesmo processo de melhora econômica tem fortalecido
estruturalmente o proletariado industrial. O novo despertar do movimento operário se expressa em uma maior
recuperação da luta de classes e da organização dos trabalhadores, questão que se manifesta em diferentes níveis em
uma grande quantidade de países da região, e com a entrada em cena de importantes bastiões do proletariado, que se
achavam postergados, como o caso dos mineiros, que desde o México, passando pelo Peru e Bolívia, até os
trabalhadores chilenos do cobre têm protagonizado importantes lutas. [20]
Por sua vez, na Europa vêm se desenvolvendo dois tipos de luta: uma de caráter mais defensivo, porém
altamente política, como a dos trabalhadores e estudantes franceses contra a liquidação das conquistas que ainda
permanecem do chamado “Estado de Bem-estar” ; e outras de tipo reivindicativo, que têm sido alimentadas, em certa
medida, de um lado pela recuperação econômica dos últimos anos que alcançaram as economias européias, em
especial seu motor mais importante, a Alemanha. Por outro lado, pela crescente carestia de vida no que tange à
alimentação e moradia, isto é, pelas tendências inflacionárias que se manifestam na grande maioria de países em escala
mundial.
Exemplo do primeiro tipo de fenômeno são as lutas da classe operária e o movimento estudantil francês que,
com suas ações, tem colocado importantes obstáculos à aplicação da agenda neoliberal na França, e que agora o
governo neo-bonapartista de Sarkozy tenta resolver a favor da classe patronal. A feroz ofensiva lançada por esse
governo de dura direita já desatou em um primeiro teste de força em novembro de 2007, com a greve de mais de uma
semana dos trabalhadores do transporte e da eletricidade, a luta dos empregados públicos contra a redução de pessoal
e poder aquisitivo do salário e a entrada explosiva do movimento estudantil contra a privatização parcial da
Universidade: em dezenas de cidades da França e na capital houve assembléias massivas e bloqueios das sedes, além
de solidarizar-se, em muitos casos de forma ativa, com os trabalhadores em greve.
Os trabalhadores e estudantes franceses são, indubitavelmente, a vanguarda da luta de classes na Europa.
Desde 1986 até o presente, vêm protagonizando um ciclo de lutas contra a ofensiva neoliberal dos distintos governos
de direita ou “socialistas” , destacando-se em particular a greve de 1995. Durante todos esses anos de luta foi se
criando uma subjetividade e uma rica experiência de organização que, ligadas à degradação das condições de vida, ao
fim dos direitos trabalhistas, e ao ataque a direitos democráticos e sociais, forjaram uma consciência mais profunda
sobre os males do capitalismo. Isso se expressa em que hoje os franceses são os mais inseguros sobre o futuro que
lhes aguarda, em especial os mais jovens, entre os quais um de cada três teme converter-se em pobre, sentimento que
se reflete em muitos estudantes universitários que se percebem, ao contrário do Maio de 68, como trabalhadores em
potencial, o que facilita a unidade operária e estudantil. Essa potencialidade assusta o governo e as direções
burocráticas que têm feito tudo ao seu alcance para evitar que a convergência objetiva se expresse plenamente,
derrotando a ofensiva capitalista. Os próximos meses e anos serão decisivos para o resultado da luta de classes na
França. E, pela importância desse país, também para a relação de forças entre as classes na Europa. Se os trabalhadores
e os estudantes franceses derrotam Sarkozy e seu plano, pode-se abrir uma tendência ao ascenso da luta de classes no

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Velho Continente. Se, ao contrário, Sarkozy consegue impor os aspectos centrais de seu plano, pode-se abrir um
período reacionário em que primará a consolidação bonapartista [21].
A máxima expressão do segundo tipo de lutas, mais reivindicativas, que vêem se dando na Europa, é a greve
de várias semanas do sindicato de maquinistas de trens alemães (GDL), os quais, em novembro de 2007,
protagonizaram a greve ferroviária mais importante da história da Alemanha. A luta por aumento salarial de 31%
significa o fim da moderação salarial na Alemanha que as burocracias sindicais podiam impor sobre os trabalhadores
em troca de que se evitassem as demissões. Por sua vez, prenuncia o desenvolvimento de setores antiburocráticos e
combativos. A luta encabeçada pelo GDL, um pequeno sindicato que agrupa ao redor de 1.800 trabalhadores e apesar
disso ocupa lugar estratégico da condução dos trens, com o qual pode paralisar seu funcionamento, tem sido
duramente atacada pelo resto das organizações sindicais ferroviárias, que já negociaram com a Deutsche Bahn, mas
também pela direção do IG Metall e da federação de sindicatos Verdi, pois um triunfo desse setor teria importantes
repercussões na luta de classes e na troca da relação co-gestionada das relações trabalhistas entre o capital, os sindicatos
e o governo da Alemanha. O surgimento desses elementos novos não nega que ainda sigam primando lutas contidas
ou traídas abertamente pela burocracia sindical, como as quase seis semanas de greve dos trabalhadores da Deutsche
Telekom, que foi entregue escandalosamente pela burocracia do sindicato de trabalhadores públicos alemães, Verdi.
Contudo, é sintoma dos novos fenômenos que estão emergindo [22].
Em síntese e como perspectiva, tanto a tendência às guerras como o relativo vazio criado pela crise da
hegemonia norte-americana e a tendência a atritos interestatais em âmbito internacional - em especial neste momento
com a Rússia - como as mostras da luta de classes que estamos observando, permitem antecipar que é possível que
se multipliquem as condições para uma maior emergência proletária e das massas em geral no próximo período. Essas
tendências podem dar saltos qualitativos, à direita ou à esquerda, quando a crise financeira internacional nascida nos
EUA se transporte abertamente à produção, e as massas trabalhadoras se vejam submetidas a uma redobrada ofensiva
sobre suas condições de vida com o conseqüente aumento do desemprego e da miséria, enquanto setores das classes
médias, afetados por essa situação, vêem diminuir seu patrimônio. Devemos nos preparar para essa perspectiva,
manifesta no imediato das características mais profundas da economia e da política internacional do começo do século
XXI (que temos descrito nessa nota).
A atualidade da definição do capitalismo como um sistema em declínio
Desde seu início, o capitalismo como modo de produção foi um regime inerentemente sujeito a crises. Toda
a história do século XIX o prova. No entanto, essas crises brutais como, por exemplo, a chamada Grande Depressão,
eram compensadas pela existência de um entorno social não capitalista, ou seja, de velhas relações de produção que
atuavam, poderíamos dizer, como limite à extensão e profundidade da crise, apesar da virulência que nos tinham
próprios espaços capitalistas. Contudo, com as transformações desse modo de produção em resposta às crises [23],
foi-se obtendo um aprofundamento das relações capitalistas em grande parte ajudada pelo surgimento das finanças
modernas, da grande empresa e da extensão das relações de produção capitalista a nível global, a menos como uma
subsunção formal do trabalho ao capital. Essas transformações qualitativas do sistema capitalista em sua época foram
resumidas por Lênin em seu célebre trabalho O imperialismo, fase superior do capitalismo. A Primeira Guerra Mundial foi
uma prova eloqüente de que havia tido um salto de quantidade e qualidade na natureza do sistema social. Como é
clássico sublinhar,
as forças produtivas têm superado há tempo os limites do Estado nacional, transformado em conseqüência o que era antes um
fator histórico progressivo numa restrição insuportável. As guerras imperialistas não são mais que explosões das forças produtoras contra
as fronteiras nacionais, que chegou a ser, para elas, demasiado limitadas. [24]
Essas características foram depois reafirmadas por distintos acontecimentos, principalmente o crack de 1929
e a Grande Depressão, a crise mundial mais virulenta da história do capitalismo, que desembocaram no estouro da
Segunda Guerra Mundial, pois a Primeira Guerra não havia resolvido os problemas que a mesma deixou claro: mais
ainda, havia postergado e, se quiser, agravado. Todos esses cataclismos confirmarão a definição da época imperialista
própria da III Internacional como “época de crises, guerras e revoluções” .
A resolução da disputa pela hegemonia européia e mundial deu renovada vitalidade ao sistema capitalista no
chamado “boom do pós-guerra” , período que abarcou 25 anos, durante os quais o capitalismo cresceu a taxas sem
precedentes. No entanto, esse período foi uma excepcionalidade histórica, como demonstramos. Somente é possível
pela enorme destruição de forças produtivas acumuladas durante o período prévio à guerra, assim como

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fundamentalmente pela Segunda Guerra Mundial mesma. Isso é o que provam fidedignamente os trabalhos mais
sérios que temos citado. O efeito “rattrapage” , junto com a atenuação da competição no marco da hegemonia
“benigna” norte-americana, é o que dá conta centralmente do boom.
Porém, uma vez finalizada a excepcionalidade do boom, o capitalismo voltou a mostrar seu caráter destrutivo
e desestabilizador (intrínseco aos limites desse modo de produção e ao caráter imperialista da época) [25]. Os
problemas não são somente os menores índices de crescimento dos últimos 30 anos, comparados aos do boom.
Tampouco estamos ante uma volta ao século XIX, ainda que as taxas de crescimento atuais sejam parecidas às desse
momento histórico, como afirmam muitos autores, para demonstrar que não estamos em um período de declínio
capitalista e para desacreditar as posições mais catastrofistas [26]. Para elucidar o caráter do capitalismo do século
XXI temos que seguir o método de Trotsky (e não nos guiarmos por comparações estáticas antidialéticas), quando
sublinhava nos anos 1920 que a chave da economia mundial não estava nos índices econômicos, mas na existência de
desequilíbrio na divisão mundial do trabalho.
A questão é que, por mais que os índices de crescimento sejam os “normais” , o capitalismo não é o do século
XIX. A fronteira de sua expansão está qualitativamente esgotada, não somente como subsunção formal, como na
época de Lênin, mas como subsunção real, com a internacionalização do processo de produção em âmbito mundial.
Nesse marco se manifesta agudamente a estreiteza do mercado mundial e daí os efeitos destrutivos da competição
entre firmas transnacionais cada vez mais poderosas, entre países mediante guerras comerciais, por ora de baixa
intensidade, que podem desembocar no futuro em novos enfrentamentos políticos, geopolíticos e até militares entre
as grandes potências. Com base nessas tendências de fundo da economia ’ além das idas e vindas da conjuntura - e
contra toda visão a histórica das crises capitalistas ou toda visão que normaliza as mesmas, devemos analisar o sistema
capitalista do ponto de vista de suas forças vivas, capacidade ou não de reformar-se e, portanto, alcançar uma nova
vitalidade, abandonado seu curso perigoso. Os ideólogos que se autocelebram nos dizem que as últimas crises têm
sido relativamente menos profundas e mais curtas, levando em conta que tanto a recessão norte-americana do começo
dos anos 1990 e a crise de 2001-2002 não se convertam em depressão, eles desestimam que a saída das mesmas tem
significado uma fuga para frente, que não tem liquidado, mas agravado os desequilíbrios da economia mundial; em
outras palavras, o risco de grandes catástrofes não desapareceu, mas se estendeu no tempo, ao preço de aumentá-las
em proporção e explosão quando estourar. Portanto, longe de toda a visão evolutiva própria dos brokers das finanças
que consideram que o Banco Central norte-americano [27] sempre poderá evitar as grandes perdas, e que portanto
pode seguir arriscando e se endividando sem limites, que, como mostra na atual crise, deixou sem cobertura os buracos
negros dos maiores bancos do mundo [28], o único prognóstico realista é se preparar para a irrupção de uma crise
generalizada e profunda, o que levará à explosão das poupanças das classes médias, demissão massiva de trabalhadores
não somente na periferia mas também nos países centrais, e que portanto, a pequena burguesia deverá voltar a optar
entre a revolução proletária ou o fascismo, como ocorreu na Alemanha nos anos 1930 ou na Guerra Civil espanhola.
Essa base econômica realista dá fundamento à validade da definição da época atual como “época de crises, guerras e
revoluções” [29].
A questão a remarcar uma e outra vez é que a recuperação dos lucros nos anos 1980 se fez no marco de um
mercado mundial mais estreito, como conseqüência do aparecimento, no começo dos anos 1970, da Alemanha (e
outras potências da UE) e Japão como grandes competidores, ademais de se incorporarem países como Coréia do Sul
e Taiwan, entre outros. Isso se manifesta numa competição exacerbada que leva a uma corrida louca pela baixa do
preço da força de trabalho e a impor modelos exportadores que não impulsionem o desenvolvimento de seu mercado
interno na mesma medida, coma China como exemplo paradigmático na periferia capitalista e nos países mais
avançados, reduzindo-o ainda mais devido à queda do poder de compra dos salários, além do desemprego. Isso cria
um mundo profundamente desequilibrado (que é à base dos desequilíbrios macroeconômicos entre os países com
déficit de conta corrente e os países que têm superávit) que é bastante eficiente para aumentar a taxa de exploração e
recuperar em grande parte a taxa de lucro, mas que, por outro lado, limita as possibilidades de“realizar” o conjunto
das mercadorias para o nível de demanda solvente, e daí, as periódicas crises de sub-produção e sobre acumulação
exacerbadas pelo crédito não somente para a produção, como também para o consumo.
Isso explica o paradoxo, que é central e inédito no capitalismo, de recuperação da taxa de lucro sem um
aumento da acumulação durável e generalizada, como demonstramos baseando-nos em Husson. Isso se dá enquanto
uma tendência a sobre-acumulação quando o capital encontra uma “janela de oportunidade” de investimento rentável,

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(chame-se revolução da informática e das telecomunicações, bolha imobiliária, China), já que a fonte única do lucro
capitalista surge do processo de produção. Esse processo se viu exacerbado pelo sobre endividamento e a sobre
especulação com todas as características desestabilizantes que isso tem para um capitalismo que se estendeu
geograficamente e que aumentou qualitativamente a assalarização, e atravessado por um forte sistema financeiro
internacionalizado, que é o que amplifica as crises (compare, por exemplo, a repercussão da crise de S&L nos EUA
nos 1980 com a crise dos créditos subprime de 2006-2007).
Em última instância, e quando a contra-tendência para a recuperação da taxa de lucro que significou a ofensiva
neoliberal está alcançando um limite, como deixa claro a crise atual, que tem seu epicentro no coração do sistema
capitalista mundial, os EUA, é importante recordar que ao longo do século XX o capitalismo somente pode recobrar
parte de seu dinamismo e vitalidade depois de grandes cataclismos e uma enorme destruição de forças produtivas,
como demonstramos baseando-se nas elaborações de Johsua. As sucessivas crises financeiras - e a forma das mesmas
[30] - que se incrementou ao longo dessas décadas, apesar de terem“limpado” alguns capitais excessivos não
provocaram uma destruição comparável a desses acontecimentos históricos, como demonstra a debilidade da
acumulação e o enlouquecido crescimento do capital fictício, apesar do “milagre” chinês, enquanto que a depressão
da força de trabalho pela restauração capitalista (sobretudo na China) e as derrotas da ofensiva neoliberal, não podem
evitar os limites do processo de realização do capital [31]. Essa situação, caracterizada por uma exacerbação da
competição, por um lado, e pela volta à crise de sobre-acumulação, sobre-endividamento e sobre-especulação por
outro, coloca novamente no horizonte grandes crises como as de 1929 [32], apesar da existência de mecanismos
“anticíclicos” que todavia conservam depois desse grande trauma histórico - como a rápida intervenção e as operações
de resgate dos bancos centrais ante aos primeiros sintomas de estouro ’ ainda que exista um salto qualitativo no
desmantelamento de aspectos cruciais dessa regulação.
Essa perspectiva de grandes cataclismos é o que dá vida à definição do capitalismo atual como um sistema
declinante, conservando toda sua atualidade a caracterização da época como “época de crises, guerra e revoluções” .
ANEXO I
O caráter excepcional do boom do pós-guerra
Depois da Segunda Guerra Mundial a economia internacional experimentou uma taxa de crescimento sem
precedentes, com 30 anos de expansão forte e regular. Isso permitiu como tendência uma elevação do nível de vida
dos trabalhadores. Presenciamos o funcionamento relativamente inédito do capitalismo que se caracterizou,
sobretudo por uma intervenção crescente dos poderes públicos na vida econômica, uma lição da crise de 1929.
Também observamos uma nova relação salarial, na qual os lucros de produtividade acompanhavam o aumento do
salário real, permitindo o crescimento do consumo das massas. Assim houve forte regulação das atividades financeiras,
subordinação da bolsa e estrita regulamentação bancária. Ademais, se criou um sistema monetário internacional, com
tipo de câmbio sólido e estável fundado no domínio do dólar, adotando um padrão ouros-divisa no qual os EUA
deviam manter o preço do ouro em U$ 35 por onça. Na mente de seus credores estavam para trás as destrutivas
desvalorizações competitivas que quebraram a unidade do comércio internacional, durante os anos da Grande
Depressão nos anos 30. Esses mecanismos permitiram não somente acelerar o ritmo da expansão mas,
fundamentalmente, amenizar a profundidade da crise evitando a transformação das recessões em depressões maiores.
As concessões ao trabalho e às regulamentações sobre a mobilidade do capital teriam elevado custo, mas a alta taxa
de lucro poderia permitir que o sistema funcionasse dessa maneira. Essa foi à base de um pacto social explícito ou
implícito sobre o qual se baseou a estabilidade do pós-guerra.
No entanto, ao contrário do que afirma a Escola da Regulação, que bate o pé nas mudanças, nas trocas
institucionais que sofreu o capitalismo nestes anos, é necessário remarcar que as altas taxas de crescimento e a forte
recuperação da taxa de lucro que viveram os principais países imperialistas nesses anos se deram depois de uma
destruição colossal de forças produtivas, causada primeiro pela crise de 30 e depois pela Segunda Guerra Mundial.
Como explica corretamente Isaac Johsua
É impossível pensar a conjuntura depois da Segunda Guerra Mundial sem levar em conta, em todas as suas dimensões, o período
de 1914 a 1945, que foi particularmente excepcional, que abarca em três dezenas de anos, golpe sobre golpe, as duas guerras mundiais e
a mais importante crise econômica que o mundo tinha conhecido. Um período que Churchill tivera qualificado de “guerra de 30 anos” ,
designado como período de “guerras, crises e revoluções” pela Internacional Comunista. Quanto à Europa, tenho a hipótese de que as taxas
de lucros elevadas e a força da expansão que se constata desde ”™46 se explicam, em primeiro lugar, como taxas elevadas de “uma fase

110
de recuperação do atraso” (“rattrapage” ). As duas guerras mundiais e a grande crise implicaram uma enorme destruição, desgaste e falta
de renovação do capital fixo, assim como grandes atrasos de consumo acumulados. Quando, no fim desse período agitado, se reuniram as
condições para a volta à atividade, o ascenso foi muito forte, alimentado por essas demandas, possibilidade de importar os avanços
tecnológicos dos EUA e pela existência de numerosas oportunidades de investimentos rentáveis por causa da eliminação de enormes massas
de capitais. Assim, foram resolvidos, por um tempo, os dois maiores problemas do sistema: realização e valorização [33].
O mesmo autor toma diversos indicadores econômicos, como nível de produção, consumo ou investimento
para demonstrar a magnitude da queda em curso desse convulsivo período, em particular na Alemanha e França, ao
contrário do Reino Unido. Sobretudo nos EUA, cuja trajetória é totalmente diferente daqueles países europeus. Assim
sustenta:
O mais impressionante é, portanto, a observação da coluna “do total” : de 1913 até 1946 (ou 1945) os PIB alemão e francês
caíram entre 20% e 30%, o da Inglaterra subiu quase 50% e o dos EUA mais de 150%! Que se trate da produção industrial tanto
como do consumo dos lares, a gradação entre esses quatro países é a mesma e as diferenças também gigantescas. Assim, o consumo dos lares
alemães havia diminuído (entre 1928 e 1946) mais de 150%, enquanto o dos ingleses aumentava uns 17% (entre 1931 e 1945) e o dos
norte-americanos subia mais de 50% (entre 1929 e 1946). A situação particular da França e Alemanha se evidencia também quando
estudamos a produtividade do trabalho. Comparativamente com a tendência de longo prazo (representada pelo período de 1870-1913), a
desaceleração do crescimento da produtividade do trabalho se deve principalmente à grande crise dos EUA, enquanto se deve imputar à
Segunda Guerra Mundial no caso da França. De sua parte, a Alemanha teria que fazer frente ao conjunto dos acontecimentos, pois o
ritmo de crescimento de sua produtividade teve retrocesso sensível durante a grande crise, o único dos quatro países a registrar queda da
produtividade ente ”™38 e ”™50. Porém, o mais interessante para a nossa análise é a evolução do estoque líquido no capital fixo. Havia
diminuído 48% na Alemanha (entre 1930 e 1946, incluindo as moradias) e 35% na França (entre 1931 e 1945, excluindo as
moradias). O estoque líquido de capital fixo do conjunto dos setores franceses se encontra em 1945 no mesmo nível que em 1910. Ao sair
da Segunda Guerra Mundial, voltou 35 anos. As coisas são ainda mais claras no que concerne ao estoque líquido de equipamentos, o
centro da argumentação: seu volume caiu mais de 40%na França entre 1931 e 1945.
Estão dadas as condições para um salto no investimento:
Esse processo de desvalorização está assegurado, em condições mais ou menos boas, para o funcionamento normal do sistema. Se
não é suficiente, as crises econômicas, mas também as guerras, são os meios pelos quais se destruíram massas importantes de capitais. Tal
foi o caso entre 1914 e 1945: grandes massas de capital fixo foram destruídas, usadas e esgotadas sem ser renovadas; outras ainda mais
importantes se encontraram obsoletas, se comparado ao estado dos equipamentos europeus em 1945 com o padrão internacional, ou seja,
com os EUA. Essa situação permitiu a multiplicação das ocasiões rentáveis para o investimento.
Em conclusão:
A expansão depois do pós-guerra, forte e regular, tem duplo fundamento: uma fase durante a qual se recupera o atraso e uma
nova regulação, a fase de recuperação do atraso explica melhor a força; a nova regulação explica melhor a regularidade. Essas duas fases
têm origem comum: a guerra de 30 anos que, tudo ao mesmo tempo, abriu a fase de recuperação e impôs a nova regulação. No entanto, as
duas fases não podem ser consideradas da mesma maneira: a mais importante é a fase de recuperação, pois ajudou a sustentar a taxa de
lucro e assegurou a durabilidade da nova regulação. Essa última será abandonada justo quando se acabou a fase de recuperação, quando
as taxas de lucro chegaram a níveis considerados como demasiado baixos pelos possuidores de capitais. Os 30 gloriosos têm sua base nos
30 anos de guerras crises e revoluções.
Resta agregar a essa excelente explicação do caráter excepcional do boom que outra de suas condições foi o
papel contra-revolucionário que o stalinismo cumpriu no cenário mundial, colaborando com o sustentação da
estabilidade, expresso nos pactos de Yalta e Potsdam, um acordo entre as potências imperialistas vencedoras e a União
Soviética comandada por Stálin, que contiveram as tendências revolucionárias que se deram no imediato pós-guerra.
Somente depois da restauração da autoridade patronal [34] e da estabilidade macroeconômica, essas enormes forças
acumuladas no corpo econômico puderam aplicar-se.
Em outras palavras, a enorme destruição de forças produtivas e postergação do consumo, e o desvio/derrota
dos processos revolucionários nos países centrais, permitiram ao capitalismo ’ ainda que perdendo o controle de um
terço do globo depois da revolução chinesa e as transformações na Europa do Leste - seus “anos dourados” , período
que definimos como de “desenvolvimento parcial” das forças produtivas.
ANEXO II
Monopólios e exacerbação da competição

111
Segundo Lênin, o alto grau de desenvolvimento da concentração da produção e do capital deu origem aos
monopólios, que cumprem papel decisivo na vida econômica. Porém, no começo do século XXI, a afirmação não é
somente realidade no âmbito nacional, que era a que fundamentalmente se referia Lênin, mas que com respeito ao
início do século XX é o grau de concentração e centralização do capital em âmbito internacional. Vejamos somente
alguns exemplos da indústria automotiva e da indústria farmacêutica (ver Tabelas 1 e 2).
Porém, isso não implica eliminação da competição, como sustentava, por exemplo, Paula Sweezy, mas que,
pelo contrário, essa se intensifica entre as grandes corporações. Na realidade, ambas as tendências se engendram
reciprocamente e formam parte de um mesmo processo de acumulação, como pode se ver no fato de que a tendência
à concentração e centralização internacional do capital avance junto com a exacerbação da luta pelos mercados, lucros
extraordinários por inovação tecnológica ou simplesmente o crescimento exponencial do mercado de fusões e
aquisições (ver Tabela 3) na qual nenhuma empresa está segura de não sofrer uma OPA (Oferta Pública de Aquisição)
hostil [35], expressão de uma competição brutal que por sua vez aumenta a centralização do capital. Em outras
palavras, sem essas duas tendências é impossível dar conta das características do capitalismo atual.
ANEXO III
“Um assalariamento universal”
O retrocesso da atividade agrária a partir dos anos 50 não é parte do prolongamento de tendência secular.
Pelo contrário, existe nítida ruptura no ritmo de evolução durante o curso ou a saída da Segunda Guerra Mundial. Os
resultados são impressionantes. Como afirma Joshua: “A constatação é clara: durante a segunda metade do século
XX a queda foi brutal, aproximando o número de países aos mínimos observados nas regiões desenvolvidas. Os que,
como a China, saíram ”˜mais tarde”™, estão em níveis elevados, mas percorrem o caminho ainda mais rapidamente
(ver Tabelas 1 e 2). A trajetória de certos países ”˜atrasados”™ da Europa é particularmente impressionante, como
mostra o gráfico 1: Irlanda, Portugal e Espanha concentraram ao longo de cinco anos uma evolução que outros
haviam conseguido em muito mais tempo; a proporção de população ativa ocupada na agricultura, muito alta no
início, está hoje na média da européia. Não é ainda o caso da Turquia, mas esse país literalmente está indo mais rápido
e não deverá tardar a chegar perto do resto da tropa. A dinâmica da Europa “atrasada” está longe de ser ilhada: o
crescimento do trabalho assalariado em certos países do Sudeste Asiático é igualmente impressionante (Tabela 3) e
especialmente sugestiva quando se põe em correlação com a famosa crise do verão de 1997, que teve lugar nesses
países, com o impacto internacional que se conhece” [36].
[1] Como disse Ernest Mandel: “ A lei do desenvolvimento desigual pela primeira vez na história se reverteu
contra o imperialismo norte-americano. As outras potências imperialistas, que partiram de um nível de produtividade
industrial muito mais baixo que os EUA, têm modernizado suas indústrias muito mais rapidamente e têm conseguido,
por sua vez, vantagens de produtividade consideráveis. Muitas de suas mercadorias são, hoje em dia, de qualidade
parecida e às vezes superior e, antes de tudo, mais baratas que as mercadorias norte-americanas: os navios japoneses;
os pequenos automóveis europeus e japoneses; as máquinas-ferramentas alemãs.” Ernest Mandel, A crise do dólar,
Ediciones del Siglo, Argentina 1973.
[2] Ver nota 17.
[3] Desde 1960, a oferta monetária dos EUA cresceu 25 vezes, enquanto o produto bruto real somente quatro.
Isso tem sido acompanhado por uma consistente baixa dos requerimentos para os empréstimos. Os bancos foram
encorajados pelo Banco Central a expandir o crédito por uma série de reduções nas reservas requeridas contra seus
próprios depósitos. No último ciclo de crescimento, essa política monetária de baixas taxas de juros ’ como resposta
à crise da chamada nova economia, para evitar que a mesma se transforme em uma depressão ’ foi utilizada de forma
abusiva com abundante liquidez, dando origem à bolha imobiliária creditícia mundial, que agora está se desinflando.
[4] É o contrário da atuação dos EUA durante o boom do pós-guerra. Esse período foi qualificado como de
“hegemonia benigna” ou “benevolente” , baseada na necessidade dos EUA de conter o perigo da revolução na Europa
e no Japão, ambos devastados pela guerra. O imperialismo norte americano, que saiu como potência hegemônica
após a Segunda Guerra Mundial, combinou a colaboração contra-revolucionária com a burocracia stalinista, posta em
prática nos pactos contra revolucionários de Yalta e Postdam, que dividiram o mundo em zonas de influência, e que
permitiram no imediato pós-guerra derrotar e desviar a revolução em países centrais como França, Itália ou Grécia,
com uma política de “contenção” dos movimentos geopolíticos do Kremlin, o que implicou a disputa relativa nos
planos militar (corrida armamentista, criação da OTAN), político (luta por influência nos países da periferia capitalista)

112
e ideológico (luta contra o “totalitarismo” em defesa do “mundo livre” ), ainda sem ultrapassar nunca os estritos
limites estabelecidos em Yalta. No entanto, esse pacto não impediu a existência de atrito, como a Guerra da Coréia,
a crise de Berlim ou a dos mísseis cubanos, assim como períodos de “distensão” ou “detenção” ’ com uma política
de desenvolvimento do “Estado de bem-estar” e a reconstrução da Europa (Plano Marshall) e Japão, para afastar o
perigo da revolução. Isso permitiu aos Estados Unidos “hegemonizar” as distintas potências imperialistas atrás de
seus desígnios, mas o fazia, e por isso se denominava “hegemonia benigna” , como garantia da “livre imprensa” ,
promovendo como base para a consolidação política de sua hegemonia o êxito econômico de seus aliados e
competidores, ao mesmo tempo em que recriava um mercado para a expansão de suas multinacionais no estrangeiro.
Assim, ao passo que os EUA asseguravam que suas firmas ficavam com a “maior parte” da acumulação capitalista
mundial, permitiu e alimentou o extraordinário crescimento que Alemanha e Japão, as duas potências derrotadas na
Segunda Guerra, tiveram durante o boom. As conseqüências desse último comportamento para a ordem mundial
estão bem analisadas por Robert Brenner: “Devido a que o êxito econômico dos EUA estava tão fortemente ligado
ao êxito de seus rivais e aliados, o desenvolvimento econômico internacional do pós-guerra dentro do mundo
capitalista avançado pode, por um curto período, manifestar-se em um relativamente alto grau de cooperação
internacional ’ marcado por elevados níveis de ajuda norte-americana e apoio político econômico a seus aliados e
competidores -, apesar do domínio do estado norte-americano e de estar em maior parte moldado de acordo com os
interesses dos EUA. O governo dos EUA, assim como seus principais capitalistas, teve a vontade de tolerar esses
níveis de intervencionismo estatal, de protecionismo comercial, de taxas de intercâmbio subavaliadas e de ataduras
financeiras de seus rivais, porque eles mesmos possuíam um forte interesse no desenvolvimento econômico nacional
de seus rivais ’ especialmente no crescimento de seu mercado interno ’ e sua estabilidade política. Em conseqüência
se observava, ao menos por um tempo, uma simbiose, se bem que altamente conflitiva e instável, do líder e seus
seguidores, dos desenvolvidos cedo e tardiamente, do hegemon e os hegemonizados” . Robert Brenner, “The boom
and the bubble” , Londres, Verso, Maio 2002.
[5] “Grande parte do ajuste a um crescimento mais baixo, ou inclusive a uma diminuição no consumo norte-
americano, deve vir de alguma parte. Entre outros, a China estará no olho do furacão. Suponhamos, por exemplo,
que o dólar se desvalorize contra as moedas flutuantes, em particular o euro, acompanhado pelo renminbi (moeda
oficial da China). Suponhamos, também, que as autoridades chinesas não tomem medidas para expandir a demanda
doméstica. Então, o ajuste externo se sentirá em outra parte do mundo. Isso se demonstraria altamente disruptivo,
particularmente na Europa continental. Inclusive o compromisso da abertura dos mercados estaria em perigo.” Martin
Wolf, “Challenge of rescuing world economy” , Financial Times, 11/09/2007.
[6] Ainda que não a tenha teorizado, Trotsky utiliza essa expressão separadamente da economia, para dar
conta de terceiro aspecto da teoria da revolução permanente: “Este aspecto da teoria da revolução permanente é
conseqüência inevitável do estado atual da economia e da estrutura social da humanidade. O internacionalismo não é
um princípio abstrato, senão unicamente reflexo teórico e político do caráter mundial da economia [...] A revolução
socialista começa dentro das fronteiras nacionais; mas não pode se conter nelas. A contenção da revolução proletária
dentro de um regime nacional não pode ser mais que um regime transitório, ainda que seja prolongado, como
demonstra a experiência da União Soviética. No entanto, com a existência de uma ditadura do proletariado, as
contradições interiores e exteriores crescem paralelamente a seus êxitos. Se continuar ilhado o Estado proletário cairia
mais tarde ou mais cedo, vítima destas contradições” . Leon Trotsky, La revolución permanente,en La teoría de la
revolución permanente (compilación), Buenos Aires, CEIP “León Trotsky” , 2000.
[7] Justin Rosenberg, “Isaac Deutscher y la historia perdida de las relaciones internacionales” , Tradução do
inglês, Viento Sur.
[8] Idem. Essa correta visão dos objetivos da política exterior norte-americana durante o pós-guerra de Justin
Rosenberg esquece que um grande elemento, senão o principal, da “gestão política do desenvolvimento combinado
e suas conseqüências em escala mundial” , foi à colaboração contra-revolucionárias da burocracia stalinista, sem cuja
ajuda jamais haveria se consolidado e administrado a ordem mundial hegemonizada pelos EUA.
[9] Seguindo as leituras teóricas distintas de Karl Marx e Karl Polanyi, ainda que relacionadas nesse plano,
Beverly J. Silver classifica ambos os tipos de conflitos da seguinte maneira: “Por conflitividade trabalhista de tipo
polanyiano nos referimos à resistência operária frente à extensão de um mercado global auto-regulado, em particular
aos segmentos da classe operária que sofreram erosão pelas transformações econômicas globais, assim como aos

113
trabalhadores que haviam se beneficiado dos bloqueios sociais estabelecidos, quando esses se vêem abandonados
desde cima. Por conflitividade trabalhista de tipo marxiano, entendemos as lutas da nova classe operária emergente,
que se vê reforçada, como resultado não pretendido do desenvolvimento do capitalismo histórico, no momento
mesmo em que os velhos segmentos da classe operária vão se decompondo” . Beverly J. Silver, Fuerza de trabajo.
Los movimientos obreros y la globalización desde 1870,Madrid, Ediciones Akal S.A., 2005.
[10] Dados tomados de Isaac Joshua, op. cit.
[11] Contra toda a visão unilateral do crescimento chinês, que trata de apresentá-lo como o modelo mais bem-
sucedido para os países em desenvolvimento, não devemos nunca perder de vista a dependência direta das reformas
e de seu modelo de crescimento ou padrão de acumulação com respeito às corporações multinacionais. Como
assinalam corretamente Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett: “A estratégia de crescimento chinês tem se
diferenciado enormemente da empregada pelo Japão, Coréia do Sul e Taiwan. Como destaca um economista do
Brooking Institute, esses países ”˜dependem quase exclusivamente de firmas domésticas para fabricar e exportar
commodities; a China depende enormemente das empresas de investimento estrangeiro para produzir artigos de
exportação, e praticamente nenhuma companhia chinesa nacional controla redes de exportação de importância”™.
The Economist acrescenta: ”˜devido a que o governo central tem permitido a entrada na China de companhias
estrangeiras numa etapamuitomais prematura de seu desenvolvimento [...] essas firmas agora controlam o grosso da
exportação industrial do país, têm aumentado seu posicionamento no seu mercado interno e retêm a propriedade de
quase toda a tecnologia” Martin Hart-Landsberg & Paul Burkett, “China, capitalist accumulation, and labor” , Monthly
Review, Volume 59, Nº 2, Maio de 2007.
[12] Eswar S. Prasad, “Is the Chinese growth miracle built to last?” (paper), Cornell University, abril de 2007.
[13] Idem.
[14] A autora baseia sua afirmação na seguinte análise da conflitividade trabalhista chinesa que, em geral, para
além dos termos conceituais que utiliza e que temos definido mais acima, compartilhamos: “De fato, vão chegando
notícias de uma crescente conflitividade trabalhista na China. Um informe oficial estimava em 30 mil o número de
manifestações somente no ano de 2000, ainda que a maioria dessas manifestações fossem protestos contra a perda de
postos de trabalho e salário e pensões não pagas, dado que a rápida industrialização alimentada pelo investimento
estrangeiro direto temido demão dada com o desmantelamento das empresas industriais de propriedade estatal.
Portanto, a crescente conflitividade trabalhista na China tem adquirido até esta data, em grande medida, a forma do
que vínhamos chamando movimentos de tipo polanyiano contra a quebra de formas estabelecidas de vida e de
sustento [...] Por outro lado, a análise efetuada até agora [para dizer em poucas palavras, como disse a mesma autora,
fazendo um percurso da conflitividade trabalhista desde 1870 até nossos dias, que “aonde vai o capital, o acompanha
o conflito” , N de R.], também nos faz esperar que surja uma conflitividade trabalhista de tipo marxiano. Os
trabalhadores de distintas indústrias contaram com um poder de negociação variável, muito maior para alguns (como
os trabalhadores automobilísticos). Está ainda por surgir exatamente esse tipo de conflitividade trabalhista de tipo
marxiano e como atuarão os trabalhadores com os protestos dos desempregados. No entanto, a importância para o
futuro da conflitividade trabalhista em escala mundial da classe trabalhadora chinesa parece inquestionável” .
[15] Segundo assinalam alguns autores, “o exemplo no Estado e nas empresas coletivas (o que a Organização
Internacional do Trabalho denomina empresas formais tradicionais) diminuiu em 59,2 milhões em um período de 13
anos, apesar do rápido crescimento do país e apoio do governo a um novo tipo de companhias não dependentes do
Estado. As novas empresas formais que emergem (empresas cooperativas, empresas de propriedade coletiva,
corporações com responsabilidade limitada, corporações de acionistas e empresas financiadas no exterior) geraram
somente 24,1 milhões de postos de trabalho. O resultado foi a perda de 34,1 milhões de postos de trabalho no setor
de emprego formal. Inclusive com a contribuição de emprego do setor urbano informal (pequenas empresas
registradas privadas e empresas de propriedade individual), a economia chinesa somente conseguiu aumento geral no
emprego regular de 1,7 milhões de trabalhadores em um período de 10 anos [período 1990-2000 N do R.]. Isso estava
muito longe de ser suficiente para igualar o crescimento na demanda trabalhista. Portanto, uma quantidade cada vez
maior de trabalhadores chineses tem se visto obrigada a aceitar empregos irregulares. Com aumento de 80 milhões,
agora é a categoria única de maior emprego urbano. Uma porção cada vez maior desse trabalho irregular representa
a indústria sexual chinesa. Enquanto o governo diz que existem 3 milhões de prostitutas em todo o país, cálculos
independentes estimam que a cifra chega a 20 milhões (o trabalho sexual representa até 6% do PIB da China, se

114
incluídos devidamente os trabalhadores sexuais em casas de massagem, casas de entretenimento e inclusive barbearias
e salões de beleza). E mais adiante afirma: “Esse aumento massivo no emprego irregular é ainda mais chamativo
quando se dá conta que uma quantidade cada vez maior de trabalhadores na realidade tem deixado o mercado de
trabalho urbano. Por exemplo, a taxa de participação da força de trabalho dos residentes urbanos diminuiu de
72,9%em 1996 a 66,5% em 2002. Além disso, o desemprego total também segue sendo problema sério. Segundo
explica a OIT: “Uma conseqüência importante das reformas da década de 1990 tem sido o surgimento de um
desemprego aberto nas áreas urbanas da China. As cifras oficiais do governo subestimam a seriedade do problema
em parte por causa da estreita definição que usa. A OIT, que emprega definições internacionais, mas comumente
aceitas, estima que, em 2002, a taxa de desemprego para residentes urbanos de longa data estava em 11-13%”™” .
Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett, op. cit.
[16] Gabor Steingart, “Declínio da superpotência: a classe média dos EUA, perdedora da globalização” ,
Spiegel Online, 24/10/2006.
[17] No entanto, apesar dessa tendência à redução e debilitamento da aristocracia operária, segue sendo a base
dos nefastos aparatos burocráticos dos sindicatos, com seus milhares de membros corrompidos pelas patronais e
pelos Estados. A debilidade estrutural das burocracias pode, frente a futuras crises, permitir que surjam com mais
facilidade setores da classe operária que radicalizem e recuperem suas organizações, colocando agentes das grandes
empresas para fora de suas organizações. Nisso deveriam apostar e para isso deveriam se preparar as correntes que se
denominam marxistas-revolucionárias.
[18] Michael Zweig,The working class majority: America”™s best kept secret, Ithaca, N.Y Cornell University
Press, 2000.
[19] Stephen Roach, “Labor vs. Capital” , Morgan Stanley, 23/10/2006.
[20] Para aprofundar as tendências de luta de classes na América Latina, ver EduardoMolina, “Elementos para
um balanço da situação e perspectivas” ’ www.ler-qi.org.
[21] O outro batalhão de vanguarda da classe operária européia - os trabalhadores e jovens italianos - vem se
recuperando lentamente da enorme confusão política que se abriu depois da subida do governo Prodi sustentado pela
esquerda Refundazione Comunista e o conjunto da burocracia sindical, depois de anos de luta e ascenso contra a
política anti-operária de Berlusconi. Sintoma disso é a paralisação e mobilização de 9 de novembro de 2007 em mais
de 20 cidades da Itália.
[22] Nesse artigo, centrado na economia mundial, não desenvolvemos as tendências à luta de classes noutras
regiões, como Ásia ou Rússia, aonde vem acontecendo um ressurgir da luta operária, ou os EUA, onde o exemplo
mais notório foi a recente greve dos trabalhadores da General Motors, a primeira nacional desde 1974, traída
abertamente pela burocracia da UAW.
[23] Segundo Gerard Duménil e Dominique Levy: “Os historiadores econômicos concordam geralmente em
identificar uma crise de grande envergadura entre 1875 e 1893 na Europa, sobretudo na França. As opiniões divergem
sobre a extensão geográfica do fenômeno e sobre suas características, mas o fato mesmo está firmemente estabelecido.
Na mesma época, os Estados Unidos conheceram um período de grande instabilidade, entre o fim da Guerra de
Secessão em 1865 e o fim do século. Essas crises conduziram a uma transformação profunda do capitalismo nesse
país. As tensões econômicas e políticas que se manifestaram nessa ocasião haviam criado as condições para uma
profunda transformação da ordem capitalista anterior. O capitalismo posterior à crise estrutural do fim do século XIX
era muito diferente do anterior à crise. Basta recordar que as finanças modernas e as grandes firmas, que ainda
dominam nossas sociedades, ou seja, toda a estrutura social do capitalismo contemporâneo, nasceram como
conseqüência dessas perturbações. Um aspecto fundamental dessa transformação foi a separação entre a propriedade
do capital e a gestão do mesmo. O desenvolvimento das grandes sociedades deu à luz uma classe de acionistas, de
credores e de financistas, a certa distância do funcionamento direto das empresas. Apareceu um sistema complexo de
instituições financeiras enquanto os mecanismos monetários e financeiros passavam por uma verdadeira explosão.
Também mudavam radicalmente as condições de trabalho do operário na oficina. Tal como se tem descrito amiúde
esse processo, o produtor direto se convertia cada vez mais em um apêndice da máquina. Os marxistas, e em particular
Lênin, perceberam a amplitude do que estava em jogo, ainda que a história não lhes haja dado razão em sua
antecipação da destruição radical da sociedade capitalista” . Crise et sortie de crise. Ordre et désordres néolibéraux,
Presses Universitaires de France, Paris, 2000

115
[24] LeónTrotsky, “Qué es el marxismo” , en SuMoral y la nuestra / Qué es el marxismo,Madrid, Fundación
Federico Engles, 2003.
[25] Em um trabalho anterior sustentamos: “A vitalidade mostrada pelo capitalismo durante o “boom” não
foi a de um menino, um adolescente nem a de um adulto em plenitude. Foi a de um homem maior, que depois de ter
estado perto da morte, obtém uma herança, estica a pele, e volta aos maus hábitos, com a vantagem da experiência
acumulada. Seu aspecto parecerá jovial, mas não poderá evitar o envelhecimento de suas células. Sua experiência lhe
permitirá ainda fazer frente a novos percalços, mas tem envelhecido irremediavelmente. Suas recaídas serão cada vez
mais periódicas e profundas. É essa a situação que vive o capitalismo desde princípios dos anos 1970. Christian
Castillo, “Las crisis y la curva del desarrollo capitalista” , en Estrategia Internacional Nº 7, março/abril 1998.
[26] Por isso é incorreto falar de uma crise estrutural aberta desde os anos 1970 até 2007, como se nunca se
tivesse saído, ao menos parcialmente, e não tivessem atuado desde os anos 1980 com o neoliberalismo, fortes contra
tendências que recuperam consideravelmente as taxas de lucro. Tampouco a questão é o nível alcançado por esta,
comparada com os níveis alcançados durante o boom. Como corretamente diz Husson: “Finalmente, é preciso ter
cuidado com uma concepção em que a taxa de lucro representaria o alfa e ômega, de tal forma que existirá um limiar
de rentabilidade que bastaria alcançar para que se iniciasse espontaneamente uma nova fase de expansão” .
[27] A aura que rodeava o chamado “mago” das finanças, Alan Greenspan, presidente do FED durante quase
duas décadas, era a expressão mais eloqüente de que com a financeirização brutal da economia o alinhamento próprio
do sistema mercantil se desenvolveu a níveis jamais alcançados, onde o poder dos acionistas e a coletivização da
poupança deslocaram as decisões hierárquicas anônimas que manipulam fundos e títulos e governam assim a vida de
milhares de milhões de homens e mulheres no planeta.
[28] Assim, o principal banco do mundo, o Citicorp, faz milhares de piruetas para ocultar sua verdadeira
contabilidade, frente a evidências cada vez mais certeiras, de que não dispõe de capital suficiente para pagar seus
compromissos; em outras palavras, que está virtualmente quebrado ao menos segundo os parâmetros da contabilidade
tradicional. SegundoMarketWatch (05/11/07), o Citigroup mantinha 134 bilhões 840 milhões de dólares no chamado
“nível três” , cujas posses “carecem de liquidez e freqüentemente não são cotizáveis e suas valorizações se baseiam
na intuição da diretiva” . Em finanças contábeis, o “nível três” equivale ao valor de “ativos” não determinados pelo
mercado, pelo que carece de um preço confiável. Sobre Goldman Sachs - o principal banco de investimento do
mundo, que no meio da turbulência financeira apresentou balanço com fortes lucros -Martin Hutchinson, economista
crítico, explica que “existe um mistério em Wall Street: a semana passada Merrill Lynch cancelou 8 bilhões e 400
milhões de dólares da hipoteca imobiliária de baixa qualidade, cifra revisada dos prévios 4 bilhões 900 milhões de
dólares informados; no entanto, Goldman Sachs não sentiu a necessidade de um cancelamento similar. O segredo
real da diferença provavelmente reside nos detalhes de sua contabilidade, em particular no mundo turvo, que logo
será revelado, de seus ativos que se encontram no ”˜nível três”™ de sua carteira” (Blog “The Bear”™s Liar” ,
29/10/07). Para esse economista, a partir do dia 15 de novembro “haverá uma nova ferramenta para esquadrinhar
quanto resíduo tóxico existe das folhas contábeis dos bancos de investimentos” , referindo-se à nova regra contábil
FASB 157, que requer que os bancos dividam seus ativos cotizáveis em três níveis, de acordo com a facilidade para
conseguir preço no mercado. Segundo o mesmo autor, “o ”˜nível um”™ expõe os ativos nos mercados dinâmicos.
No outro extremo, os ativos do ”˜nível três”™ são impossíveis de serem avaliados e somente têm cotizações segundo
a referência dos modelos dos próprios bancos” . Goldman Sachs revelou, em fevereiro, ou seja, antes do desabamento
imobiliário, seu “nível três” , que ascendeu a 72 bilhões de dólares, que esses então representavam8%de seus ativos
totais. Frente a isso comenta o autor citado: “O problema torna-se mais sério quando se estabelece que tais 72 bilhões
de dólares representem o dobro do capital de Goldman Sachs, que é de 36 bilhões. Conseqüentemente, numa situação
extrema, a inteira existência de Goldman Sachs reside no valor de seus ativos em ”˜nível três”™” , ou seja, também
virtualmente se quebra. A mesma observação faz o economista Nouriel Roubini: “Repentinamente os mercados e os
investidores estão descobrindo que muitas instituições financeiras estavam deixando uma grande parte de seus ativos
no pilar do terceiro piso, quando queriam evitar usar os preços do mercado para avaliar ditos ativos, mas preferem
confiar nas ”˜apreciações modelo”™(valorizações modelo)e ”˜entradas despercebidas”™. Porém, agora, a próxima
regularização FASB 157 lhes impedirá (ao menos que um lobby político leve a uma prorrogação de sua implementação
em 15 de novembro) que façam esses truques sujos contábeis e os obrigará a usar preços de mercado ’ quando estejam
disponíveis inclusive em condições de liquidez do mercado ’ para avaliar esses ativos” . E o mais interessante é a

116
conclusão a que chega: ” E agora, adivinhem o quê? Novas estimativas (cálculos) confiáveis sugerem que usar esses
preços de mercado ’ em vez dos truques do terceiro piso ’ pode levar a perdas de outros 100 bilhões de dólares
ademais dos bilhões que já se perderam nas subprimes. Alguns participantes do mercado já estão na realidade falando
’ algo bastante realista ’ de um total de perdas deste desastre creditício cercando os 500 bilhões de dólares” . (N.
Roubini, “Credit and financial markets losses: $100.000 billion or $200 billion? Or most likely $500 billion?” , artigo
publicado no blog do mesmo autor, 07/11/2007). Essas surpresas estão levando alguns analistas a falar de um “Enron
dos bancos” : “Essas turbulências fazem recordar a alguns anos os escândalos financeiros da Enron, ou da Vivendi
no começo dos anos 2000. “Nós vivemos um pouco o 2002 do sistema bancário” , já compara M. Mourier. “O vento
de pânico dos mercados da bolsa deriva do ato de que se começa a adivinhar o tamanho da parte submergida do
iceberg da crise dos subprimes” , explica Paul Jorion, economista e pesquisador da Universidade da Califórnia” (“Les
craintes sur le système bancaire s”™accentuent, les Bourses plongent” , Le Monde, 08/11/2007).
[29] As correntes de esquerda ou extrema esquerda que consideram “anacrônicas” as questões estratégicas
que apresentou a Revolução Russa e as Internacionais III e IV, tais como a luta pela ditadura do proletariado e a
necessidade de um partido revolucionário, em última instância negam essa perspectiva e é o fundamento de sua
adaptação às democracias burguesas degradadas.
[30] As crises atuais têm uma dinâmica parecida às crises do século XIX, motorizadas por um setor dinâmico
- o ferroviário, a indústria elétrica, etc. - cujo estancamento depois de arrastar o conjunto dos setores no momento do
ascenso do ciclo econômico gerava crises de todo o sistema. Essas características não se davam desde a Grande
Depressão dos anos 1930.
[31] Para além da ofensiva do capital sobre as condições dos assalariados, se coloca em evidência o limite
social do capitalismo, a base cada vez mais estreita das relações mercantis, a reprodução de valor, para transformar
em realidade as possibilidades da organização social capitalista. Mais que nunca fica patente que o valor é uma medida
miserável, que se traduz hoje nas dificuldades de realização.
[32] Apesar do caráter único e não repetível desse fenômeno histórico.
[33] Isaac Joshua, Op. Cit. As citações seguintes desse autor são da mesma obra.
[34] A instabilidade política e social do período de reconstrução é bem expressa pela seguinte citação de The
Economist ao final dos anos 1940: “A burguesia francesa não está reconciliada com a passagem de uma grande parte
do poder político e ainda mesmo do poder econômico à classe operária organizada [”¦] Guerra Fria na indústria
italiana [”¦] Com gritos até ficar rouco de “abaixo o comunismo” , os empresários japoneses se apressaram [”¦] a
eliminar o cambaleante movimento sindical japonês” . Citado por Andrew Glyn em Capitalism Unleashed, Nova
York, Oxford University Press, 2006.
[35] Que atualidade frente ao brutal crescimento das fusões e aquisições tem essa frase de Lênin em seu citado
livro! Para eliminar a competição numa indústria tão lucrativa, os monopolistas se valem inclusive de artimanhas
diversas: fazem circular falsos rumores sobre a má situação da indústria; publicam nos jornais anúncios anônimos:
“Capitalistas! Não coloquem vosso capital na indústria do ci mento!” ; por último, compram empresas “outsiders”
(quer dizer, que não fazem parte dos sindicatos), pagando 60, 80, 150 mil marcos ao que ”˜cede”™. O monopólio
abre caminho em todas as partes, valendo-se de todos os meios, começando pelo pagamento de uma “modesta”
indenização ao que cede e terminando pelo “procedimento” americano do emprego de dinamite contra o competidor”
. O mesmo poderíamos dizer em outro plano com respeito à seguinte afirmação: “Achamo-nos em presença não já
de uma luta de competição entre grandes e pequenas empresas, entre estabelecimentos tecnicamente atrasados e
estabelecimentos de técnica avançada. Achamo-nos ante o estrangular, pelos monopolistas, de todos aqueles que não
se submetem ao monopólio, ao seu jogo, à sua arbitrariedade” . No início do século XXI, essa tendência tem se
aprofundado. O “estrangulamento” por parte da empresa norte-americana que melhor expressa o capitalismo de hoje,
o empório comercial de qualidade de quase indústria, Wal Mart, não somente com respeito às centenas de pequenos
subcontratistas na China ou outros países da periferia, mas de grandes corporações manufatureiras de produtos de
consumo, como Procter and Gamble, Clorox, Revlon, Nabisco ou Sara Lee (cujo montante de negócios com Wal-
Mart varia entre 15 e 30% de sua produção total, criando no final enorme dependência) é prova contundente.
Porém,Wal-Mart é somente um exemplo mais destacado de uma realidade que abarca empresas de porte como
Carrefour, Royal Ahold, Tesco, Ito-Yokado, assim como IKEA, Home Depot, Costco e Best Buy. E essas grandes

117
distribuidoras são acompanhadas por um conjunto de vendedores como Nike, Gap, Loius Vuitton, Dell, Hewlett
Packard e muitas outras empresas similares.
[36] Isaac Joshua, op. cit., págs. 133-134.

Crise financeira - Internacional

LEITURA COMPLEMENTAR

A EXPANSÃO DO CAPITALISMO

Entre 1840 e 1873 houve uma rápida expansão econômica em toda a Europa. O
processo de industrialização iniciado na Inglaterra teve prosseguimento nos países do
continente, que importavam os bens de capital deste país. Entre 1840 e 1860 as exportações
inglesas atingiram níveis incríveis, que levaram a um tremendo progresso internos. A
produção de ferro, aço e carvão aumentou consideravelmente, e extensas linhas ferroviárias
foram construídas.
Este período, caracterizado pela livre concorrência68, levou também a uma grande
concentração de capital, e em pouco tempo as empresas menores sucumbiram às mais
poderosas, que se fundiam em cartéis e trustes monopolistas. O mercado se expandiu ainda
mais, e surgiram grandes sociedades anônimas e corporações, que controlavam um grande
volume de capital. Ao final do século XIX, o excesso de concorrência em um mundo
dominado por estas gigantescas corporações forçou a uma maior associação entre elas, como
forma a eliminar a concorrência predatória. Companhias ainda maiores começaram a surgir
como resultado das concentrações e fusões, e com isto surgiram enormes monopólios e
oligopólios, que controlavam instituições financeiras, bancos e grupos industriais.

16 – O Imperialismo – A Nova Face do Capitalismo

68 O capitalismo, corno doutrina econômica, sempre pressupôs a existência de alguns princípios: o direito à
propriedade individual; a livre-iniciativa; a concolTência livre; a busca do lucro. Caberia ao Estado normatizar
alguns parâmetros, tais corno, entre outros: o câmbio; as taxas de juros; a emissão e o controle de moedas; o
exercício do fisco. Somente em épocas posteriores o Estado preocupou-se em criar uma legislação voltada à
proteção do trabalhador (assistência médica, previdência, aposentadoria, etc.). O controle fiscal e financeiro da
economia pelo Estado é, também, característica das modernas economias capitalistas

118
O antigo colonialismo das grandes potências foi substituído pelo imperialismo, uma
nova forma de dominação econômica69. Um dos primeiros países a sofrer as conseqüências
da expansão imperialista foi a Índia. Desde 1757, ano em que Bengala foi conquistada, a
Companhia das Índias Orientais manteve intensas relações comerciais com a região. Nesta
época, a Índia já era economicamente avançada, com métodos organizados de produção
industrial. A partir da conquista de Bengala, a Companhia das Índias iniciou um longo e
metódico processo de dominação e de exploração de uma grande parte do território indiano.
A exploração foi brutal e gigantesca, arrancando grandes somas de dinheiro deste país70.
A partir de 1857, para poder atingir e explorar o restante do território, os ingleses
começaram a construir uma extensa malha ferroviária. O governo assegurava aos
investidores ingleses um retorno mínimo de 5% para o dinheiro investido nas estradas de
ferro, prometendo que, se os lucros caíssem abaixo deste limite, a diferença seria coberta por
meio de impostos lançados sobre o povo indiano.
Entre 1875 e 1900, Grã-Bretanha, Bélgica, França, Alemanha, Rússia e Estados
Unidos incorporaram imensas áreas aos seus impérios, submetendo ao seu domínio cerca de
um quarto da população mundial. No continente africano, 93% das terras estavam sob
dominação estrangeira, na busca frenética de seus recursos minerais (necessários à constante
expansão industrial) e agrícolas. A Inglaterra apoderou-se das mais ricas regiões do território
africano, entrando em choque com outra potência colonialista, a Holanda. Após a Guerra
dos Boeres (1899 a 1902), a Inglaterra adquiriu o controle da África do Sul, em substituição
àquela (o império colonial britânico chegou a abranger uma área de 33,5 milhões de
quilômetros quadrados, com cerca de 500 milhões de habitantes, um quarto do total da
população mundial, à época).
Também o continente asiático sofreu a invasão colonial. Em 1878 o Afeganistão foi
conquistado pelos ingleses; em 1858, a França conquistou o território da Indochina71. Os
Estados Unidos, por sua vez, conquistou possessões no Pacífico, tais como as ilhas Samoa,
Pago-Pago e o Havaí. Em 1898 foram anexados Porto Rico, Guam e as Ilhas Filipinas. Em
1903, ao forçar a separação do Panamá da Colômbia, adquiriu direitos sobre a chamada
"Zona do Canal do Panamá". Mas o embate entre as potências colonialistas era constante, e
viria a ter enormes conseqüências.
As potências que emergiram vitoriosas da Primeira Guerra Mundial impuseram às
derrotadas as humilhações econômicas inscritas no famoso Tratado de Versalhes, que
limitava grandemente o desempenho econômico e militar destes países. A Liga das Nações,
organismo criado para reunir em um foro único os países do mundo, teve vida curta, e foi
inoperante enquanto existiu. Houve grandes esforços pelo desarmamento mundial, mas tais
esforços esbarravam na desconfiança mútua e na indiferença, quando não na rivalidade
militar patente. Aos poucos, as potências entraram em uma corrida armamentista irrefreáve1.
No período entre guerras, além da anarquia econômica trazida pelas dívidas de guerra, pelo
nacionalismo econômico e pela diminuição do comércio mundial, o espectro da depressão
econômica rondava, e veio a fazer a sua aparição em 1929 (como veremos no item 16).
69 O nome imperialismo, que obteve uma conotação depreciativa graças às invectivas marxistas, na realidade
tem sua origem no fato de que urna grande parte das ricas nações européias do início do século XX ainda eram
estados imperiais, no sentido de que eram governados por um imperador (corno era o próprio caso do Brasil).
70 Ainda que o capital das sociedades anônimas que operavam no país não ultrapassasse 36 milhões de libras,

calcula-se que entre 1757 e 1815 os ingleses tenham retirado do país entre 500 e 1000 milhões de libras (em
especiarias, jóias, ouro e pedras preciosas). A corrupção interna dentro desta empresa atingiu níveis inauditos,
com os funcionários lutando entre si para explorar a miséria dos nativos indianos.

71 Atual Vietnã. Obrigada a retirar-se em 1957, a França cedeu o seu lugar aos Estados Unidos, que tinha uma
política asiática de aconselhamento militar, visando rechaçar o comunismo. Aos poucos, este envolvimento
transformou-se em uma guerra não declarada (em 1964), na qual os Estados Unidos chegaram a enviar cerca
de um milhão de soldados para esta região. Em 1975, a tomada da capital sul-vietnamita, Saigon, pelas forças
comunistas levou ao fim da guerra e à retirada americana.

119
Já no início do século XX os Estados Unidos haviam se tornado o maior país
industrial do mundo, bem à frente do segundo colocado (a Alemanha). O seu parque
industrial, no entanto, era dominado por um pequeno número de empresas. O ramo
petrolífero, do aço, do tabaco, as ferrovias e os bancos, principalmente, estavam nas mãos
de um reduzido grupo de pessoas. A concentração de renda chegou a atingir níveis
alarmantes72.
Naturalmente, este estado de coisas fazia pressupor que havia algo errado com a
ideologia liberal clássica ou mesmo neoclássica, que supostamente era a doutrina econômica
em voga. Para esta, a economia deveria ser composta de uma infinidade de pequenas
empresas. Assim, nenhuma seria capaz de exercer influência significativa sobre os preços, ou
sobre o total de mercadorias que seriam vendidas no mercado. Cada decisão econômica
dependeria da preferência do consumidor e da concorrência oferecida pelo mercado73. Ao
contratarem ou adquirirem fatores de produção, as empresas os utilizavam de forma a
maximizar os seus lucros. Entretanto, os preços dos produtos finais e dos fatores de
produção estavam fora de seu controle.

17 – Anarquistas e Sindicalistas
Ao tempo em que a agitação marxista-1eninista tomava conta da Europa, já existiam
outros movimentos paralelos que os combatiam, geralmente radicais de outras tendências.
Entre 1860 e 1870, o movimento anarquista (membros da Associação Internacional dos
Trabalhadores, ou Primeira Internacional) lutava por um ideal que se expressava por um tipo
de coletivismo não submetido a qualquer controle governamental; eles se batiam pelo fim do
Estado e do Capita174. Na esteira do anarquismo surgiu outro movimento trabalhista que
viria a redundar, em 1895, na criação do chamado "sindicalismo revolucionário75", por
Fernand Pelloutier. Pela sua fórmula, o sindicato operário devia ser utilizado como
instrumento da luta de classes por melhores condições de vida, entre cujas armas ele apontou
a greve geral e a violência.
Nos Estados Unidos, o sindicalismo floresceu entre 1905 e 1920 através da
Industrial Workers of the World - IWW. Este sindicato organizava os trabalhadores por
indústrias, e não por profissão. Em 1935 foi fundado o Congresso das Organizações
Industriais (CIO), que viria a fundir-se futuramente (em 1955) com a Federação Americana
do Trabalho, AFL, que já existia desde 1886 (antes de 1886 existia a organização sindical
chamada Ordem dos Cavaleiros do Trabalho), criando a AFL-CIO. Chegaram a congregar
125 sindicatos, representando 15 milhões de trabalhadores.
No final do século XIX e início do século XX as lutas sindicais estiveram
principalmente sob a égide do movimento anarquista internacional. Aos pouco, contudo,

72 Em 1929, apenas 5% da população controlavam 34% das rendas. Isso, apesar de o Estado ter feito aprovar
uma legislação antitruste já desde o final do século XIX (a Lei Sherman). Outras se seguiram, tais como a Lei
Clayton, e a lei que criou o Federal Trade Commission.
73
Esta concepção se devia basicamente às obras de três economistas de final do século XIX: William Stanley
Jevons; Karl Menger; Léon Walras.

74Os anarquistas mais radicais foram os primeiros a usarem bombas para criar o terror e para matar governantes
e autoridades (foi um ato terrorista anarquista executado na região dos Bálcãs que levou à deflagração da
Primeira Guerra Mundial).

75No início do século XIX, punia-se, na Inglaterra, com prisão e deportação, para a Austrália, quem
procurasse criar sindicatos trabalhistas. A Revolução Industrial recente tinha provocado desemprego, pela
introdução de máquinas; entre 1811 e 1818, os inconformados com esta situação chegaram mesmo a iniciar
uma campanha de destruição destas máquinas, no movimento que ficou conhecido como ludita (Luddites,
devido ao seu inciador, Ned Ludd). A partir de 1824, a persistência dos trabalhadores levou à revogação dos
Combination Acts, que eram leis que proibiam a organização sindical

120
este movimento foi desaparecendo (muitos de seus membros foram se convertendo ao
socialismo), e a condução do movimento trabalhista mundial passou a ser regido pelos vários
partidos comunistas dos vários países, que seguiam a orientação central de Moscou.

18 – O Comunismo Soviético
A Rússia, que desde o início da Primeira Guerra Mundial estivera em grande agitação
interna, viu uma revolução acabar (em 1917) com o império czarista e alçar em seu lugar um
governo que tomaria tendência socialista. Os mencheviques (que também lutavam pelo
poder) deram lugar aos bolchevistas, que, com Lênin à frente, iriam adaptar as idéias de Marx
para eliminar os resquícios da burguesia e do feudalismo que caracterizavam a sociedade
russa.

Nos anos subseqüentes, a Rússia bolchevista começou a formar um novo império ao


espalhar a agitação política pelos países asiáticos vizinhos. Logo conseguiram o controle dos
governos da Ucrânia, Azerbaijão, Armênia e Geórgia. A partir de 1923, este bloco de países
formou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Cada república, dominada
basicamente pelo partido comunista, era formada tendo à frente um Comissariado do Povo,
que respondia ao Comitê Executivo Central.
A revolução bolchevista produziu profundas reformas no sistema econômico,
político e social da Rússia e países satélites, abolindo quase que por completo a manufatura
e o comércio privado. Foram estatizadas fábricas, minas, ferrovias e serviços de utilidade
pública, bem como armazéns e cooperativas de produtores e consumidores. A agricultura
também foi socializada, e foram organizadas fazendas coletivas sob base cooperativa. Até o
final de 1918, a luta contra os ricos latifundiários estava concluída, tendo-se efetuado a
nacionalização e a distribuição das suas terras. O monopólio estatal do comércio do trigo foi
implantado, visando-se, com tal medida, evitar intermediários na distribuição deste cereal.
Entretanto, vários fatores imprevistos começaram a afetar a economia soviética já
em seu início. Primeiro, a excessiva politização imposta aos camponeses. Somente em 1918
já existiam 70.000 comitês políticos no campo. Era mais importante tornar-se comunista
(oficialmente) do que dedicar-se à produção de grãos. Segundo: nesta época, ainda havia lutas
internas contra os "Brancos", que se opunham aos bolchevistas. Assim, o meio rural era
constantemente devastado e saqueado por forças opostas. Os próprios meios de transporte,
tais como estradas de ferro e vias fluviais estavam em estado de total anarquia,
interrompendo a atividade comercial. Em terceiro lugar, a inflação fora de controle levou à
completa desvalorização do dinheiro, que já não era mais aceito, e forçando a economia a
regredir a um estágio de trocas.
Por último, a excessiva ênfase dada à planificação, com a instituição de Planos
Qüinqüenais priorizando a indústria pesada e a fabricação de armamentos levou a escassez
de produtos e bens de consumo geral, cuja qualidade também sempre deixava a desejar. Em
alguns períodos (por volta de 1925, principalmente), houve fome generalizada em virtude
dos métodos ineficazes de agricultura que foram impostos. Durante a Segunda Guerra
Mundial a Rússia passou por fortes privações econômicas, ao transformar todas as suas
fábricas para que produzissem equipamento bélico para o Exército Vermelho, em luta contra
os exércitos nazistas. O parque industrial montado na Sibéria (com forte ajuda dos norte-
americanos, que eram aliados contra Hitler), seria levado após a guerra para as estepes russas,
e seriam utilizadas posteriormente para manter uma produção militar de armas que seriam
usadas contra alguns países europeus.
No final da guerra, a pretexto de "libertar" os povos das repúblicas da Europa
Oriental do jugo nazista, os russos começaram a ocupar militarmente estes países, impondo
governos fantoches em todos. Em 1956, a tentativa de criar um governo democrático na
Hungria levou a que seu território fosse invadida pelas forças militares do Pacto de Varsóvia,

121
reprimindo brutalmente o movimento popular. Em 1967, foi a vez da Tcheco-Eslováquia,
que ao tentar criar uma versão mais amena de socialismo, também foi invadida e ocupada,
sofrendo forte repressão. Em ambos os casos, os líderes foram punidos ou executados.
Antigos aliados, os Estados Unidos e Rússia iriam passar os próximos quarenta anos em uma
corrida armamentista que teria fortes reflexos na economia mundial como um todo.
De um modo ingênuo, muitos dirigentes bolchevistas acreditavam que a abolição do
dinheiro estava dentro da política marxista mais ortodoxa, e nada fizeram, de início, para
controlar a inflação.
Polônia, Hungria, Bulgária, Tcheco-Eslováquia, Alemanha Oriental, Romênia,
Iugoslávia, (estes dois últimos foram os únicos países que conseguiram manter certa
autonomia frente ao intervencionismo soviético). A Ucrânia, Bielo-Rússia, Azerbaijão e
outros países asiáticos já estavam sob o domínio da União Soviética de Stálin.
Os negócios mundiais que movimentaram maior quantidade de dinheiro nas quatro
últimas décadas do século XX foram: petróleo, armas e fretes marítimos (o comércio mundial
de armas sempre esteve por trás das principais revoluções políticas em todo o mundo). Na
década de 1960, os Estados Unidos gastaram cerca de vinte bilhões de dólares (em valores
da época) em seu programa espacial de conquista da Lua, mas quando saíram do Vietnã em
1973, já tinham gasto cerca de dez vezes este valor, em equipamento bélico e com suas forças
de ocupação.

LEITURA COMPLEMENTAR Os Neoclássicos


Para os neoclássicos, o consumidor distribuiria a sua renda entre as várias
mercadorias que desejavam adquirir, de forma a maximizar a utilidade extraída dessas
mesmas mercadorias. Estas constituíam uma fonte de prazer ou de utilidade, que eles criam
que podia ser quantificada. Através de uma medida-padrão, poder-se-ia avaliar a intensidade
de necessidades ou a utilidade intensiva, seja em unidades similares ou em unidades diversas,
de um mesmo tipo ou de vários tipos de riqueza. Esta avaliação podia ser quantificada através
do uso de fórmulas matemáticas gerais.
Para os neoclássicos, em razão da distribuição de riqueza e rendas, quando os
consumidores adquiriam mercadorias, eles estavam distribuindo a sua renda, de forma a
maximizar o bem-estar de todos. Eles também tinham a firme convicção, derivada das idéias
de Adam Smith, de que a mão invisível da concorrência regia o mercado, e defendiam
ferrenhamente a política do laissez-faire
A interferência do governo no mercado devia se restringir ao mínimo indispensável.
Em épocas posteriores, alguns economistas buscaram modificar esta teoria, por perceberem
que não existia a chamada "concorrência perfeita". Existiam vários e ponderados fatores que
influíam nos preços; em certos casos, os custos de produção diferiam enormemente dos
custos sociais, ainda que o produtor se beneficiasse com a venda da mercadoria, e tivesse
bons lucros. Uma das soluções que estes economistas neoclássicos apontaram foi a admissão
de uma intervenção governamental limitada.
Como sistema econômico, o capitalismo, principalmente aquele praticado nos países
europeus e nos Estados Unidos, evoluiu segundo as linhas teóricas da livre concorrência; na
prática, a concorrência desleal e o excesso de concentração econômica levaram à falência
grande parte dos participantes do mercado.
Mas a concorrência foi feroz também em várias outras áreas da economia, que se
tornaram cada vez mais concentradas. Em alguns casos, a concorrência foi tão destruidora
que os próprios participantes solicitaram uma intervenção federal. Entretanto, as empresas
monopolistas que sobraram buscaram fazer acordos de preços entre elas, elevando-os de
forma a maximizar os lucros.

122
O clamor público em razão do descontentamento se elevou tanto, que forçou o
governo a promulgar a Lei Anti- Truste, ou Lei Sherman, em dezembro de 1889. Esta lei
forçava ao desmembramento das corporações em partes menores, não sujeitas ao controle
acionário dos acionistas originais. Tinha por objetivo principal evitar a formação de
monopólios, na economia. Tanto a escola clássica quanto a neoclássica propôs diversas leis
para explicarem os fatos econômicos. As principais delas são:
1) a lei do interesse pessoal. Segundo esta lei, cada indivíduo tem uma tendência
natural a buscar o máximo de bem- estar e prosperidade, com o mínimo de esforço.
2) lei da livre concorrência. Em um regime de liberdade individual, cada indivíduo é
livre para escolher o que mais lhe agrade.
3) lei da oferta e da procura. Talvez a mais famosa e mais popular, estabelece que o
valor de troca de uma mercadoria varia na razão direta da procura, e na razão inversa da
oferta.
Já Stuart Mill tinha compreendido que esta relação não tinha um caráter matemático
rigoroso; entretanto, alguns neoclássicos procuram submetê-la a uma forma matemática,
representando de forma gráfica a evolução entre os dois fatores (a oferta e a Procura).
A questão da estabilidade da moeda e dos preços também foi uma fonte de perenes
discussões entre os economistas clássicos e neoclássicos. O desenvolvimento das operações
a crédito e os contratos a prazo levaram a se estabelecer medidas de previsão de preços mais
seguras; na Inglaterra, usava-se um sistema no qual se tomava a média de preços das
mercadorias de maior consumo (no atacado), em um determinado ano, e os anos
subseqüentes eram referidos a este ano base (este sistema era chamado de "números
índices").
Quanto à moeda em si, havia a mentalidade predominante pela qual ela deveria ter
um lastro de metal precioso, de ouro ou de prata, e o seu valor deveria ser tomado em relação
a um destes metais.
O montante de moeda (papel-moeda) em circulação jamais deveria ultrapassar o
lastro disponível, se se quisesse manter a estabilidade da moeda e da economia como um
todo. Antes da Segunda Guerra Mundial, existia uma constante drenagem de ouro (em razão
dos sistemas de comércio mundial): ora esta se fazia para a Inglaterra, ora para os Estados
Unidos, ora para a França. Até mesmo quando em 1931 a Inglaterra abandonou o padrão
ouro, houve uma grande afluência deste metal para os seus depósitos. Alguns economistas
temiam que este excesso de ouro pudesse provocar uma alta excessiva de preços, levando a
uma especulação exagerada e a um estado de otimismo infundado. Na verdade, foi o que
aconteceu em outubro de 1929, com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, que levou os Estados
Unidos, e todo o mundo junto, à Grande Depressão.
Estas técnicas deram origem à economia matemática, ou econometria.
Na atualidade, a preocupação com o meio-ambiente levou à criação de uma legislação
para proteção ecológica, que restringe ou penaliza fortemente as indústrias poluidoras.
Através de práticas extremamente desleais, John D. Rockefeller chegou a dominar
ente 90 a 95% da produção de petróleo refinado. A maioria de seus concorrentes foi
simplesmente esmagada.
Este princípio aplica-se a todos os aspectos práticos da vida diária, como a procura
do melhor trabalho ou o estabelecimento da livre concorrência. Insurge-se contra o
intervencionismo de Estado e contra todas as medidas de tutela e de proteção por parte do
governo.
Outros conceitos também foram desenvolvidos, ou melhor, teorizados, tais como as
noções de riqueza, utilidade, necessidade, valor; renda; moeda; crédito; circulação; consumo.
Estes e outros conceitos formam o substrato teórico da moderna teoria econômica.
Entre 1845 e 1850 tomaram-se os preços de 45 mercadorias (depois reduzidas a 22).

123
Modernamente, usa-se o chamado deflator implícito, que é um método matemático
para calcular o valor real da moeda. Esta medida costuma ser o mais preciso indicador da
inflação, em um período determinado (o ano-base tomado para essas medidas, no Brasil, é
1949).
Em 1937, os estoques de ouro do Tesouro americano representavam a metade dos
estoques mundiais. Isto se devia à pujança do parque industrial dos Estados Unidos, que
fornecia mercadorias para o mundo todo.

O PROBLEMA BRASILEIRO
O Brasil e o Cone Sul
O Brasil possui atualmente uma economia estabilizada, com uma inflação sob
controle, situação esta surgida após um dramático período caracterizado por índices
elevadíssimos de inflação.
Entretanto, de um modo paradoxal, os remédios econômicos adotados à época, ainda
que pouco ortodoxos (correção monetária; câmbio fixo; etc.) permitiram um crescimento
relativamente alto durante este período.
Por outro lado, a situação atual caracteriza-se por índices nominais de juros
altíssimos; elevada distorção na distribuição de renda; um apetite fiscal insaciável e um nível
ainda baixo de crescimento econômico.
Ainda assim, a economia brasileira apresenta um potencial de crescimento geral, com
segmentos da economia apresentando bom desempenho (safra regular e produção industrial
estável, por exemplo).
Acompanhando a tendência mundial de integração econômica, o país vem tentando
consolidar um grupo econômico regional no Cone Sul (o MERCOSUL) através de
negociações de alto nível para diminuir barreiras tarifárias e legislações protecionistas. Este
esforço, contudo, tem esbarrado no nacionalismo crescente dos países sul-americanos. Por
outro lado, o Brasil vem sendo solicitado a se integrar a um mercado econômico mais vasto
(ALCA), que abrangeria todo o continente americano.
Os Problemas da Integração Econômica
As negociações a nível diplomático e comercial conduzidas no processo da
integração econômica (e também na integração à economia globalizada) envolvem grandes e
complexos temas. Não está descartado totalmente o uso de barreiras alfandegárias para
proteção de certos produtos, principalmente devido ao fato (que constitui uma tendência
histórica) de que certos segmentos da economia estão sempre defasados das áreas
tecnologicamente mais adiantadas, e que sucumbem facilmente ante a exposição à
importação de produtos mais baratos.
Uma forma de protecionismo é feita através de barreiras não tarifárias, como por
exemplo, a criação de subsídios agrícolas. Políticas locais de lobby também são responsáveis
pela adoção de medidas antidumping, geralmente através de legislação específica. Medidas
compensatórias também costumam ser tomadas pelo país que se julga prejudicado por
medidas tais como a desvalorização da moeda.
Os Estados Unidos costumam criar barreiras alfandegárias contra determinados
produtos brasileiros, tais como suco de laranja, aço, produtos siderúrgicos, calçados e fumo.
Até bem pouco tempo, o Brasil costumava proteger o seu mercado de eletrônica e de
informática. A importação de produtos chineses tem afetado bastante certos setores
industriais brasileiros.
Talvez um dos grandes problemas relativos à integração (ou não) do Brasil e de
outros países latinos ao ALCA seja a tremenda diferença que separa estes países da dinâmica
economia americana (incluindo a economia do Canadá). Enquanto que a integração

124
econômica na Ásia e Europa se deu entre países de mesmo nível (relativamente) econômico,
a integração a ser realizada pela ALCA poderia levar a um desequilíbrio econômico
insuportável pelos países latino-americanos, que poderia vir a favorecer a economia norte-
americana (e inclusive provocar uma ênfase indesejável na produção de produtos primários,
pelos países abaixo do Equador), pelo aumento da dependência dos países mais fracos
economicamente.
Outras considerações a serem levadas em conta incluem o problema relativo a
patentes (de informática, fármacos, bioquímicos, eletrônica, etc.), que é fonte perene de
discussões acirradas. A falta de uma política nacional voltada para a pesquisa e
desenvolvimento, aliado ao (ainda) porte reduzido do mercado interno no Brasil (derivado,
por outro lado, da desigual distribuição de renda e dos baixos salários), são, basicamente, a
causa do pequeno número de patentes registradas aqui. A defasagem tecnológica atual já faz
o país depender completamente das corporações multinacionais, para adequar o seu parque
interno de informática, eletrônica, comunicações, telefonia. O Brasil não possui sequer um
segmento nacional, no que tange à produção de veículos automotores, fazendo o seu
mercado dependerem exclusivamente das decisões tomadas fora do país.
APÊNDICE - A MOEDA
Não há notícia acerca do surgimento efetivo da moeda, como meio de pagamento de
mercadorias. Na antigüidade, a partir dos “tempos históricos”, inicialmente usavam-se
bastões em metais ou fios, como forma de pagamento. Acredita-se que a cunhagem de
moedas surgiu a partir de Pheidon, Rei da Ilha de Egina, em 750 a.C. No início, havia moedas
redondas, quadradas e com outras formas. No Japão, por exemplo, usavam-se pedaços
chatos e oblongos de prata, chamados itbizus.
Ao tempo do império romano, a moeda era fundida, e não cunhada.
Modernamente, não há distinção básica entre “moeda” e “dinheiro”; entretanto, o costume
tem levado a entender por “moeda” apenas os objetos metálicos assim rotulados.
A moeda é um objeto que possui um valor intrínseco ou apenas nominal, que é
utilizado como meio intermediário de troca, seja como medida, seja como reserva de valor.
Há dois tipos de moeda: a moeda-mercadoria, que é este objeto dotado de valor de troca; a
moeda-escritural, formada de papel-moeda e recibos de depósitos bancários (esta última
concepção surge em uma etapa posterior de civilização, por ser um meio mais abstrato de
medida de valor). Intrinsecamente ligados ao conceito de moeda, e derivados de seu uso,
surgiram o conceito de crédito, o conceito de câmbio (pela consideração do valor relativo de
uma moeda em relação a outra) e a necessidade prática de criar estabelecimentos de troca: os
bancos. Ordens de pagamento bancário, por exemplo, já eram utilizados desde o tempo dos
egípcios antigos (impostos já eram cobrados, há tempos, pela apropriação de parte da
produção agrícola).
Atualmente, a “moeda” (seja ela constituída de moeda metálica, papel-moeda, letras
de câmbio, ações, recibos de compra de mercadoria, que constituem a quantidade total de
dinheiro em circulação) tem um valor intrínseco de mercado superior ao custo de sua
manufatura (impressão ou cunhagem). Se em virtude da inflação este valor se iguala ou se
torna inferior, a autoridade encarregada do controle de circulação monetária troca-a por
outra, de maior valor de mercado, ou procede à troca do meio de circulação, trocando a
“moeda” por outra (basicamente, o que se faz é apenas dar outro nome a uma moeda com
outra efígie: é que acontece, por exemplo, quando ocorre uma inflação descontrolada). Até
por volta do início da segunda metade do século XX, a maioria dos países procurava ter um
lastro para a sua moeda, lastro esse baseado no ouro ou na prata. Isto significava que a moeda
era conversível, ou seja, que o Banco Central trocaria aquele papel (o papel- moeda) por ouro
(foi o que fez a França de De Gaulle, que levou grandes quantidades de ouro dos EUA, em
troca do dólar em papel. Isto mudou quando os EUA tornaram a sua moeda inconversível.
Sendo, entretanto, um país de enorme quantidade de riqueza produzida anualmente (o PNB,

125
ou Produto Nacional Bruto) e com uma gigantesca participação no comércio mundial, isto
não teve qualquer conseqüência na aceitação e circulação do dólar-papel em todo o mundo.
Atualmente, na verdade, costuma-se basear a quantidade de moeda em circulação já não mais
no ouro, e sim nesta riqueza nacional produzida anualmente. Dentro de uma economia em
crescimento, procura-se medir a produtividade do trabalho, que se considera um índice
seguro da relação entre produto social, renda distribuída, uso de mão-de-obra, know-how e
capacidade de aproveitamento dos recursos naturais.
A RENDA NACIONAL
A renda nacional costuma ser calculada pelo valor líquido das mercadorias e serviços
produzidos, e a sua flutuação normalmente se reflete na quantidade de moeda existente.
Quanto ao poder aquisitivo do indivíduo, este aumenta na relação direta da produção de
bens (desde, é claro, que estes bens sejam destinados ao consumo interno). O dinheiro é a
expressão material desse maior ou menor poder aquisitivo. Todas as tentativas feitas por
diversos governos para aumentar artificialmente esta renda redundaram em total fracasso.
Durante o governo Blum, na França, em 1936, e posteriormente no governo de Roosevelt,
foram feitas experiências cujo escopo era dar dinheiro a certas classes sociais para que
pudessem gastá-lo (e que, achavam os governantes, provocaria um aumento de produção).
Todas estas experiências redundaram em retumbante fracasso.
A teoria visa explicar as variações do valor do dinheiro em função da
quantidade de dinheiro existente. Os partidários desta teoria acreditam que o valor da moeda
está ligado a esta quantidade: tendo-se um determinado volume de comércio, os preços irão
variar em proporção direta com a oferta de moeda. “
Como o valor da moeda é expresso pela comparação desta com o valor das utilidades
mediante o índice dos preços, conclui-se que qualquer alteração na quantidade da moeda
acarretará correlativa variação nos preços das mercadorias, estabelecendo-se assim rígida
dependência entre o valor do dinheiro e a sua quantidade. Eis a teoria de que participaram os
economistas da Idade Média, na quadra sintética dos fenômenos econômicos. Sofrendo a evolução peculiar às
teorias econômicas, chegou ela até nossos dias desdobrados em novos elementos fornecidos pela análise, que,
tornando-se mais percuciente à medida que avançam os conhecimentos da ciência, desagregou o bloco inteiriço
de certas noções ”. (GOMES, Luiz Souza. Pág. 112). Mas a renda nacional é, também, o total do
valor monetário de gastos em todos os bens e serviços que, por sua vez, geram rendas dentro
do país. Este valor não é obtido pelo somatório de todos os gastos em todos os bens e
serviços, por três motivos: 1) os gastos em compras de matérias-primas e outros insumos se
reflete nos preços de venda dos bens produzidos; alguns dos gastos realizados no exterior
não revertem em criação de renda interna; enquanto alguns gastos são subsidiados, outros
são (menos ou mais) tributados.
Entre 1933 e 1934 a quantidade de moeda em circulação na Inglaterra diminuiu um
pouco, apesar do aumento sensível da renda nacional, no mesmo período.
No Canadá, chegou-se, inacreditavelmente, a distribuir somas de dinheiro entre os
cidadãos, para compensar o dinheiro que estes entesouravam.
A experiência histórica não impede que novas iniciativas neste sentido sejam
tomadas, seja por governos clientelistas, seja por socialistas que vêm propor renda mínima,
como se isso resolvesse os problemas econômicos.
Esta teoria é atribuída a John Locke (1632-1704).
Uma parte da renda nacional surge através dos chamados “pagamentos de
transferência”, ou “rendas de transferência” (por exemplo: pensões de aposentadoria;
benefícios da previdência; juros sobre a dívida nacional). Esta renda transferida sempre
aumenta o poder aquisitivo de quem os recebe a expensas de outros participantes do
processo econômico, que foram tributados para isso.
Alguns economistas dizem jocosamente sobre isso que “não existe lanche grátis”
(alguém sempre paga por ele)

126
A FORMAÇÃO DOS PREÇOS
Define-se “preço” como a relação numérica existente entre a moeda (a moeda
corrente) e o valor subjetivo de uma coisa, produto ou serviço. Em geral, o preço decorre de
várias circunstâncias, entre as quais podemos citar: o montante ou volume de moeda em
circulação; o montante de produção industrial e agrícola; a facilidade ou dificuldade de
crédito, em função dos juros (que reflete a política fiscal do governo); o maior ou menor
valor intrínseco de um objeto, pela sua raridade, valorização (é o caso das ações, p. ex.), ou
da menor ou maior oferta no mercado. A relação cambial da moeda em comparação com
outras também se reflete nos preços, devido ao comércio exterior (é o caso, por exemplo, do
preço da gasolina, que reflete o preço internacional do petróleo). Evidentemente, o preço
também reflete o custo total de produção, o pagamento das taxas de juros envolvidas e a
margem de lucro do capitalista. Em uma economia livre (livre de qualquer forma de
monopólio), geralmente é o mercado que define os preços, em função da oferta e procura
de produtos e serviços, e em função da concorrência (mercado é o conjunto de todos os
bens e serviços que são oferecidos aos consumidores que manifestem interesse em adquiri-
los;
Concorrência é a oferta do produto no mercado, a preços iguais ou menores do que
os de outros produtos semelhantes, oferecidos por aqueles que estão no mercado).
Costuma-se distinguir entre preço de mercado e preço natural (tomando-se o valor
intrínseco da mercadoria). Há também o preço de monopólio, que é o preço da mercadoria
sem concorrência. O preço normal de mercado é também chamado de preço corrente. O
preço corrente pode flutuar, em razão de vários parâmetros: estoque; velocidade de venda;
demanda; perecibilidade da mercadoria; encolhimento do mercado (por exemplo, no início
de uma feira livre, há bastante gente, e os preços são maiores; à medida que passam as horas,
há menos gente comprando, e como ainda há estoque perecível, o feirante diminui o seu
preço de venda).
O preço das coisas e serviços não se mantém estável; o próprio aumento da renda
(tanto individual quanto nacional) tende a aumentá-los, ano após ano. Quando a economia
se descontrola ou se desequilibra, este fato pode dar início a um aumento descontrolado de
preços, fenômeno este denominado inflação (a inflação muitas vezes resulta do excesso de
emissão de papel-moeda). No processo de inflação, o valor de aquisição de uma moeda se
deteriora, e os preços aumentam continuamente (quando o ritmo é muito rápido, estamos
diante de uma hiper-inflação). Por outro lado, se os preços diminuem, o processo é chamado
de deflação. A deflação pode trazer recessão (que é fenômeno da diminuição ou parada da
produção de renda e riqueza nacional); mas se estão juntas a recessão e a inflação, temos o
terrível fenômeno do estagflação. Em geral, os Bancos Centrais costumam estipular uma taxa
de juros anual, que, ainda que baixa, não permite que a economia se torne estática (ou que
venha a ocorrer a deflação, tão prejudicial quanto a inflação). Em geral, os preços estão
relacionados a vários índices oficiais de medida econômica, que medem o desempenho da
economia como um todo: são, por exemplo, os índices (medidos em vários períodos) da
variação do preço (seja para o consumidor, seja para os diversos segmentos produtores de
riqueza – agricultura, indústria, serviços construção civil, etc.); os índices de inflação; as taxas
de juros; a variação cambial; etc. Tais índices podem ser medidos ou avaliados tanto por
órgãos oficiais quanto por entidades civis, e servem (os primeiros) de referência para outras
decisões econômicas, tais como a estipulação do salário mínimo; as tabelas e taxas de
impostos; o orçamento fiscal da União; estipulação de preços controlados e de preços
públicos; etc.

A POLÍTICA DEMOGRÁFICA

127
Uma das grandes preocupações modernas é o aumento dramático da população
mundial. As intensas medidas de saúde pública, de saneamento e de higiene, de combate às
doenças, a par do progresso da medicina preventiva levaram a uma queda progressiva do
índice de mortalidade em todos os países. Os antibióticos, as vacinas contra doenças
endêmicas, medidas sanitárias diversas (como o tratamento da água) podem ter contribuído
para o aumento da população. A fome endêmica também foi vencida pela chamada
“revolução verde”, que, com o uso intensivo de fertilizantes químicos e usando sementes de
trigo e arroz de alto rendimento, proporcionaram a colheita de enormes safras agrícolas nos
países menos avançados, reduzindo a morte por esta causa. Ainda que a taxa de natalidade
tenha decrescido, principalmente devido a políticas deliberadas de anticoncepção, o
crescimento populacional ainda ameaça a maioria das políticas econômicas dos países, que
nem sempre conseguem incorporar as constantes levas de novos indivíduos em idade de
trabalhar.
Esta preocupação geral levou alguns especialistas a se voltarem para as idéias de
Thomas Malthus, que analisaram no século XVIII quais seriam as conseqüências de um
crescimento populacional desenfreado. Para Malthus, a terra (a produção agrícola) jamais
seria capaz de acompanhar o crescimento da população.
Estas idéias de Malthus foram atualizadas e aperfeiçoadas; atualmente, os
neomalthusianos apontam para o fato de que os recursos naturais do planeta (metais,
petróleo, água potável) estarão em breve exauridos, devido à exploração em alta escala. A
poluição e a decadência do meio-ambiente acabarão por tornar inabitável grandes porções
de território, aumentando terrivelmente, por outro lado, os custos para a sobrevivência.
Ainda que a expectativa geral de vida tenha aumentado, nem sempre a oferta de alimentos
acompanhou este crescimento. Além disso, ocorre um fenômeno perverso por trás desta
estatística. Em certos casos, ainda que a produção total de alimentos tenha registrado
aumento, ocorreu um declínio per capita, anunciando uma deficiente distribuição desta
produção (e até o desperdício). Se Malthus acertou em sua previsão, seu acerto somente se
dá quando se considera a expansão do índice de consumo per capita, quando confrontado
com a produção total de alimentos. A renda per capita (tomando-se aqui a renda
econômica), ainda que tenha subido na maioria dos países do Terceiro Mundo, nas três
últimas décadas do século XX, ainda assim sobem mais lentamente do que do produto
nacional bruto, porque sobe muito rapidamente o número de bocas a serem alimentadas.
Além do mais, o índice de crescimento desta renda entre habitantes do Primeiro
Mundo é bem maior do que o O surgimento dos buracos na camada ionizada da atmosfera
terrestre são um terrível alerta neste sentido.
Atualmente (2008), cresce o espectro da fome. Na disputa entre bio-combustíveis e
alimentos, a produção agrícola tende gradativamente para os primeiros, diminuindo a
produção de alimentos (em área plantada e colheita). Além disso, o aumento da renda per-
capita em países como China e Índia, de enorme contingente populacional, tem pressionado
o consumo geral de bens e insumos não-renováveis e de alimentos, aumentando ainda mais
o problema. Mesmo índice entre os habitantes dos países mais pobres.
Desta forma, o rápido crescimento demográfico entre estes últimos os afasta cada
vez mais de uma prosperidade econômica.
De qualquer forma, os neomalthusianos afirmam que, seja como for, qualquer
aspiração de riqueza dos países pobres é irrealizável, devido à insuficiência de recursos
naturais capazes de sustentar uma industrialização em grande escala. Para alcançar o patamar
de prosperidade e o padrão de vida apresentado pelos europeus, por exemplo, estes países
iriam consumir um volume de recursos que levaria rapidamente ao esgotamento todas as
reservas mundiais.
O pequeno índice de crescimento demográfico entre países ricos traz, por outro lado,
conseqüências imprevistas. O aumento da idade média da população tem reflexos na política

128
previdenciária, de aposentadoria e de bem-estar social. De um modo geral, a política interna
desses países oscila entre a necessidade de abrir-se para a imigração de mão-de-obra, e a
rejeição à invasão (via esta mesma imigração) de culturas indesejáveis. Atualmente, a maioria
dos países europeus que fechar os seus países a esta imigração (o Canadá tem uma política
voltada para admitir novos imigrantes – preferencialmente, altamente qualificados).
De 1970 para cá, os índices de natalidade tem caído com rapidez em vários países.
O declínio da fecundidade tem se apresentado em países tão diversos quanto a China, Coréia
do Sul, Formosa, Singapura, Malásia, Chile, Costa Rica, Brasil, Porto Rico, Jamaica, e um
longo número de pequenos países. Política de controle demográfico apenas tinham se
iniciado nesta época em países de alta densidade demográfica, tais como Índia, Bangladesh,
Paquistão, Indonésia, Nigéria e México.
A própria crise de energia que assola atualmente todos os países decorre desta
exploração. A demanda incessante por petróleo e por gás natural levou ao encarecimento
destes recursos, utilizados como armas estratégicas pelos países produtores. As sucessivas
crises no Oriente Médio levaram os preços do barril de petróleo a preços cada vez mais altos
(cerca de 114 dólares o barril, em 2008). Por outro lado, a opção da energia atômica traz os
seus próprios problemas, tais como contaminação ambiental e ausência de lugares seguros
para depositar os resíduos tóxicos provenientes deste tipo de energia.

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S/d.

A CRISE DO CAPITALISMO

19 - A Grande Depressão
A Grande Depressão econômica surgida a partir de 1929 podia fazer supor o fim do
capitalismo.

130
Esta crise econômica afetou todo o mundo, pondo fim à crescente pujança
econômico característica dos anos 1920 e 1930.
Nenhum país escapou desta crise, e o comércio mundial caiu enormemente.
Internamente, o desemprego em massa, as falências sucessivas e as perdas de fortuna da noite
para o dia trouxeram uma dramática mudança de cenário na vida econômica.
Não existe uma razão ou motivo único que tenha causado esta crise. Uma série de
fatores foi se acumulando e criando o cenário para que ela acontecesse. Em 1929, havia
pouco conhecimento econômico teórico sobre mercados de capitais, e sobre a necessidade
de regulação governamental sobre este mercado. A euforia da expansão econômica na década
de 1920 deixou mais ousadas as pessoas, que arriscavam suas economias em quaisquer papéis
que prometessem um enriquecimento rápido. O consumo em massa veio acompanhar este
cenário de fartura, através do crédito fácil e rápido. Entretanto, quando em 24 de outubro
de 1929 o valor dos títulos negociados na Bolsa de Nova Iorque iniciou uma trajetória
descendente, isto veio abalar a confiança nos negócios, e o otimismo foi substituído
rapidamente pelo pessimismo.
A Grande Depressão americana não foi nem de longe semelhante à crise econômica
ocorrida na Alemanha na década de 1920. Enquanto que nesta a inflação atingiu níveis
estratosféricos, numa rápida deterioração da moeda, a depressão nos Estados Unidos
provocou uma deflação, ou queda de preços, que solapou a indústria e a agricultura. Em
certos momentos, apesar de os juros estarem praticamente a níveis nominais, quem possuía
alguma poupança não desejava consumir, o que fazia retrair ainda mais a economia.
Uma das manias mais freqüentes de Marx era a de prever a derrocada do sistema
capitalista (ele afirmava constantemente que "a economia capitalista contém em si o germe
de sua própria destruição"). A crise de 1929 não foi a primeira das crises do capitalismo
(houve crises em 1825, 1836, 1847, 1857 e 1866), mas talvez tenha sido a mais importante,
pelas suas conseqüências políticas e sociais (deve-se a ela o surgimento dos regimes fascistas
da década de 1930). Em 1937, uma nova crise foi chamada de recessão.
O sistema capitalista nos Estados Unidos, em razão de sua extensa base industrial,
permitiu o progressivo crescimento do poder aquisitivo dos operários da indústria. O
advento das linhas de montagem, com o aumento explosivo da produção em massa, trouxe
a necessidade de aumentar os salários, para que os produtos pudessem ser consumidos (foi
o caso, por exemplo, da indústria automobilística; Henry Ford aumentou os salários de seus
trabalhadores para que estes pudessem comprar os carros que fabricavam).
Entre 1929 e 1932 o comércio exterior dos Estados Unidos caiu em mais de dois
terços. Era comum encontrar pessoas bem vestidas (ricos que tinham perdido tudo) nas filas
de instituições caritativas, à espera de uma sopa.
De 1914 a 1929, o produto nacional bruto americano (índice que avalia todos os bens
e serviços produzidos no país) crescera 62%. Em 1929, o desemprego estava em 3,2% da
população ativa, e o número de veículos vendidos já atingira a cifra recorde de 26 milhões de
unidades.
Empresários começaram a fazer cortes na produção e nos investimentos, o que por
sua vez acarretou novo declínio da renda nacional e do nível de emprego. A corrida aos
bancos, por sua vez, provocou uma “quebra” generalizada no sistema financeiro e bancário.
De 1929 a 1932, o cenário econômico americano virou um verdadeiro pandemônio; 85.000
empresas foram à falência e mais de 5.000 bancos fecharam, levando ao desemprego cerca
de 12 milhões de pessoas. A renda agrícola reduziu-se a menos da metade, e o produto
industrial reduziu-se em cerca de 50%. A crise atingiu indistintamente ricos e pobres;
enquanto que muitos dos primeiros foram levados ao suicídio pelo desespero de terem
perdido suas fortunas, não coube outra solução aos últimos senão conformar-se com a
própria miséria.

131
As minorias raciais sofreram ainda mais, sendo mais intenso o desemprego entre elas.
A cadeia de inadimplência estendeu-se por todos os segmentos econômicos e afetou um
grande contingente de pessoas, e o espectro da fome levou à necessidade de que entidades
assistenciais providenciassem uma ajuda humanitária em massa. A pior parte deste cenário é
que ele não tinha solução pela economia ortodoxa, representada pelos economistas clássicos
e neoclássicos. Nos Estados Unidos, esta ortodoxia, que aceitava em todos os seus termos a
famosa Lei de Say (vide nota 38), queria que o governo se mantivesse ao largo dessa crise,
esperando que ela desaparecesse por si só.
O governo de Herbert Hoover caracterizou-se pela inércia, pois amparava a sua
política econômica nos conceitos ortodoxos do esquema clássico, e com isso nada fez para
intervir na economia. Foi somente com a posse de Franklin Roosevelt que novos conceitos
econômicos vieram a ser adotados no combate à depressão; tais conceitos surgiram
basicamente a partir dos estudos econômicos de John Maynard Keynes. * * * Já em
1932, alguns economistas à margem da ortodoxia tinham alertado para alguns fatos pouco
levados em consideração. Rex Tugwell e Adolf Berle, em um estudo que realizaram
abordando a administração e o controle da empresa moderna, tinham
Até esta época, não existiam estudo consistentes sobre ciclos econômicos, matéria
considerada excessivamente “esotérica”, para ser estudada seriamente nos centros
acadêmicos. Apenas o economista Wesley C. Mitchell (1874-1948) chegou a realizar um
estudo sobre o assunto (Marx acreditava que o capitalismo estava sujeito a crises cíclicas, cuja
causa, ele acreditava, decorreria basicamente da introdução de maquinaria pelos capitalistas,
propensos a compensar qualquer diminuição de seus lucros).
Atualmente, se aceita a realidade dos ciclos econômicos. Um ciclo econômico é
definido como a sucessão de períodos de auge e depressão sofridos pelo sistema econômico.
Entende-se por depressão um período de baixa de preços, escassez de negócios e
desemprego generalizado. O auge se caracteriza por alta de preços, grande produção, grande
consumo, pequeno ou nenhum desemprego. Não há uma explicação plausível para a
existência destes ciclos, mas há várias teorias que tentam fazer isso. Algumas delas referem-
se a ciclos climáticos; outras, a diferenças entre a demanda de bens de capital (que é indireta)
e bens de consumo (que é direta). Outras ainda apelam à flutuação periódica dos preços,
suscetíveis de variar em função de vários fatores: inovações tecnológicas; mudanças políticas;
erros na política fiscal; políticas recessivas propositais; gastos governamentais excessivos;
desequilíbrios cambiais; desequilíbrios da balança de pagamentos; desequilíbrios do mercado
resultante de fatores exógenos (por exemplo, se o mercado interno não for protegido, o
excesso de importações de mercadorias mais baratas pode destruí-lo).
Percebido que, na maioria das grandes empresas americanas (da época), os acionistas
já não exerciam qualquer função prática e significativa. Isto significava que quem realmente
tomava as decisões eram os administradores (que não eram proprietários das empresas que
administravam), e que respondiam unicamente a uma diretoria (conselho diretor) que eles
próprios escolhiam.
Isto conduzia naturalmente ao oligopólio, mais do que à livre concorrência. Este
estudo foi ignorado pelos economistas da época, pelo seu conteúdo heterodoxo. A crença
predominante na Lei de Say e nas teorias clássicas, juntamente com a ausência de estudos ou
teorias a respeito de crises econômicas fazia acreditar que a crise realmente terminaria por si
própria. De acordo com a ortodoxia clássica, a economia iria encontrar o seu equilíbrio no
pleno emprego, do qual viria o fluxo de demanda capaz de sustentá-lo. Keynes refutou esta
crença, quando afirmou que a economia moderna não encontra o seu equilíbrio,
necessariamente, no pleno emprego. Ela pode também encontrar este equilíbrio no
desemprego. Mas Keynes tinha outras afirmações revolucionárias. Além de mostrar o
equilíbrio do desemprego, a teoria keynesiana apelava a que o governo empreendesse gastos
sem ter as receitas necessárias para cobri-los, a fim de manter o nível de demanda.

132
20 - A Economia do Pós-Guerra
No cenário do pós-guerra, após 1946, as economias européias estavam
completamente destruídas.
A Inglaterra, em razão do esforço de guerra, estava praticamente falida, e os Estados
Unidos emergiu deste período como a principal potência econômica do mundo. O fato da
antiga aliada, a União Soviética, ter se expandido politicamente pela Europa oriental, na
esteira do Exército Vermelho, que vinha ocupando sistematicamente os países a propósito
de “libertá-los” do jugo nazista, alertou os americanos para a necessidade de uma
reconstrução econômica da Europa e do Japão.
Posteriormente, os gerentes receberam um respaldo oficial dos empresários. Em
1956, por iniciativa da Universidade de Colúmbia, promoveu-se um ciclo de conferências no
qual se abordava em profundidade a ideologia gerencial. Os empresários, em geral, viam o
gerente como um “profissional”, que se preocupava “com os consumidores, os empregados,
os acionistas, os fornecedores, as instituições educacionais, as instituições de caridade, o
governo e o público em geral, tanto quanto com as vendas e com os lucros”. (HUNT &
SHERMAN, pág. 188).
Também os países da América Latina, Oriente Médio e Extremo Oriente teve as suas
economias arrasadas em virtude da guerra. Nem todos, entretanto, chegaram a receber a
ajuda americana para a sua reconstrução. A ameaça comunista tornou prioritária a ajuda a
aliados (Inglaterra e França, principalmente), mas também a ex-inimigos (Alemanha, Itália e
Japão).
Durante a guerra (a Segunda Guerra Mundial), os Estados Unidos foram os grandes
fornecedores de material bélico para os países que lutavam contra o Eixo (formado pela
aliança entre Alemanha, Japão e Itália). O ataque japonês a Pearl Harbor levou os Estados
Unidos a entrarem na guerra, e a invasão, por Hitler, da Rússia (tomando completamente de
surpresa Stálin, que não acreditava nesta possibilidade), colocou esta última entre os
chamados “Aliados”. As perdas em equipamento militar da Inglaterra, Rússia e China foram
repostas maciçamente graças à enorme produção industrial americana (que Roosevelt
chamava de “o Arsenal de Democracia”), que desviou todo o seu parque industrial para a
produção de armas.
Para reerguer estas economias, os Estados Unidos criaram um plano econômico
chamado de “Plano Marshall”
Este plano de auxílio econômico destinava cerca de 22 bilhões de dólares (entre 200
a 250 bilhões de dólares, a preços atuais) para a reconstrução econômica e política dos países
europeus. A recém formada Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 1945,
tornou-se o fórum de debates econômicos; a chamada “Carta de Havana” (com todas as suas
deficiências e cláusulas duvidosas) tornou-se, na prática, o código de comércio internacional
para o pós-guerra. A partir de 1945, novos organismos internacionais entraram em cena,
visando regulamentar o comércio mundial. Em 1947 criou-se o Acordo Geral de Tarifas e
Comércio (GATT), um tratado sobre comércio internacional. Este órgão criou e
regulamentou as regras a serem seguidas neste comércio entre nações, estipulando, entre
outras coisas, cotas de importação e exportação e os limites a serem seguidos na proteção
tarifária aos produtos internos.
Em 1954 foi criada a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e
Desenvolvimento ou United Nations Conference on Trade and Development.
(UNCTAD), instituição destinada a estimular o comércio internacional. No bloco soviético,
foi criado o Conselho de Mútua Assistência Econômica (COMECON), órgão que
centralizava o comércio e os planos de desenvolvimento econômico. O COMECON,

133
contrariando sua feição marxista, adotou critérios da economia clássica, atribuindo funções
especializadas a cada economia do leste europeu.
O Plano Marshall cumpriu o seu intento, e a economia européia (e por extensão, o
comércio mundial) se expandiu, atingindo níveis de prosperidade cada vez maiores. O Japão,
que emergira da Segunda Guerra Mundial totalmente aniquilado economicamente, sofreu
ocupação militar por parte dos Estados Unidos. O general Douglas MacArthur, responsável
pela ocupação, procedeu à implantação de reformas econômicas no país, extinguindo o
sistema feudal que ainda prevalecia. Esta reforma se deu basicamente através de uma reforma
agrária que distribuiu terras entre colonos, mas também através da criação dos primeiros
sindicatos japoneses, e da introdução do sistema de governo democrático (escolha de
representantes através do voto). Mas a figura do imperador não foi tocada, mantendo-se
como símbolo de união do povo japonês.
George Catlett Marshall foi chefe do Estado-Maior do exército americano entre 1939
e 1945. Era altamente respeitado, tanto como militar quanto estadista. Como Secretário de
Estado do governo Truman, deu início ao Programa de Recuperação Européia, também
chamado Plano Marshall. Participou da criação da Organização do Tratado Militar do
Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar ocidental criada em oposição ao Pacto de
Varsóvia.
Estes pactos comerciais nem sempre ajudavam aos participantes, principalmente os
de economia menos desenvolvida. O Brasil, que tem uma participação mínima no comércio
internacional (menos de 3% do total), ainda assim sofre constantemente a retaliação por parte
dos Estados Unidos, que o acusam de dumping (exportação de mercadorias com preços
artificialmente baixos). Por outro lado, este país do norte, além de abusar da proteção
alfandegária, recusa-se a admitir que o Brasil crie barreiras alfandegárias contra os seus
produtos.
Na única, o único país que resistiu a esta tentativa de desenvolvimento segmentado
foi a Romênia. Resistindo às pressões soviéticas, optou pelo que chamou de desenvolvimento
multilateral, ou industrialização completa.

A Teoria Keynesiana
Em 1936 Keynes publicou um livro chamado “ Teoria Geral do Emprego, do Juro
e da Moeda”. Esta obra é considerada como um marco na evolução da ciência econômica, e
determinou uma virada conceitual profunda e abrangente nas doutrinas econômicas em geral.
Keynes contrapõe a sua teoria à teoria clássica, da qual aponta várias contradições. Aponta
principalmente a ausência de hipóteses ou teorias sobre a moeda; a desconsideração do
desemprego; o tratamento fragmentário da realidade econômica. Contra a crença dos
clássicos, a de que o mercado em geral (de trabalho, de capital e de mercadorias) funciona
através da lei da oferta e da procura, ele apresenta novos princípios sistematizadores. Para
ele, cabe à procura o papel de agente motor de todo o sistema econômico. O emprego varia
no mesmo sentido que o rendimento global (que gera a procura global). Afirma que este
rendimento pode ser empregado de três modos: entesourado; investido; consumido. Quanto
à procura efetiva, depende de três fatores psicológicos e independentes entre si: a preferência
pela liquidez; o estímulo para investir; a propensão a consumir. A primeira se traduz pela
preferência pelo dinheiro líquido (papel-moeda ou títulos de crédito a vista); tal se dá porque,
como a moeda é uma reserva de valor, as pessoas tendem a conservar as suas economias para
o fim de transação (trocas comerciais), por precaução ou para especulação. Através da
taxa de juros, a moeda transforma-se em um elemento ativo capaz de modificar as condições
de equilíbrio econômico. O juro representa a renúncia à liquidez, e a sua taxa representa a
diferença entre o volume de moeda em circulação e a sua procura para entesouramento.
Para Keynes, é necessária a intervenção do governo na economia, porque nem sempre
funcionam os mecanismos auto-reguladores previstos pela economia clássica; situações de

134
desemprego podem prolongar-se no tempo, enfraquecendo a economia. Por outro lado, esta
intervenção, feita através de uma política fiscal e monetária adequada, não deve induzir a um
entesouramento estéril, e sim estimular despesas (consumo e investimento) capazes de
aumentar o emprego. A política tributária deve tornar-se um elemento ativo na distribuição
dos rendimentos, bem como na orientação geral da política econômica. A expansão do
crédito deve basear-se na redução da taxa de juros (tornando “barato” o dinheiro); na
verdade, a política de juros constitui o fulcro do sistema de Keynes. Além de incentivar o
mercado livre, o governo deve estimular os investimentos; Keynes recomenda uma política
de grandes obras públicas. Também recomenda uma balança econômica favorável.
As idéias de Keynes, apresentadas na Conferência de Bretton-Woods, em 1944 (que
iria definir o futuro econômico do pós-guerra) serviram de base à criação do Fundo
Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional de Reconstrução e
Desenvolvimento Econômico (BIRD – mais conhecido como Banco Mundial).

A NOVA REALIDADE ECONÔMICA


O Japão, apesar de se submeter à ocupação militar, não se submeteu a uma
ocupação econômica. Ainda que totalmente devastado, o parque industrial japonês
continuou sob controle nacional, e o gênio e a capacidade de trabalho deste povo logo deu
início à sua recuperação. Programas econômicos governamentais em paralelo com a ajuda
externa propiciaram a recuperação econômica, e já na década de 1960 o Japão era um dos
países de mais rápido crescimento da economia, em todo o mundo, com um crescimento
bastante veloz da renda nacional.
Uma florescente indústria automobilística e eletrônica logo colocou de novo o país
como um dos maiores exportadores do mundo.
A formação de uma comunidade econômica européia na década de 1960 evoluiu para
a formação de um bloco político e econômico, a União Européia, com uma moeda única (o
Euro) e que caminha para um governo unificado (o Parlamento Europeu ainda não tem total
autonomia sobre todos os assuntos dos países membros).
A Alemanha, apesar de ter gasto uma soma fabulosa em sua reunificação, não tem
dado mostras de esgotamento econômico.
Apesar de uma recessão quase endêmica que o assolou, a economia do Japão ainda
é a segunda do mundo, com uma produção nacional de cerca de 10 trilhões de dólares por
ano. A renda per capita japonesa, atualmente, é uma das maiores do mundo.
O comércio do Japão com o resto do mundo, extremamente favorável para a sua
balança de pagamentos (constantemente superavitário), tem permitido a que este país
acumule uma grande quantidade de moedas fortes (as reservas monetárias). Este fenômeno,
ainda que aparentemente benéfico, talvez explique a paralisia econômica que assolou o país.
Com um excesso de poupança, os consumidores, ainda que com dinheiro nas mãos,
recusavam-se (tal como na época da Grande Depressão americana) a consumir, agravando o
problema e causando desemprego crescente (o Japão sempre se orgulhou de seus níveis de
emprego, pois é – ou era – uma característica, da maioria das empresas japonesas, a de jamais
demitir).
A União Européia é formada por vinte e sete países: Alemanha, Áustria, Bélgica,
Bulgária. Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França,
Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos
(Holanda), Polônia, Portugal, Reino Unido, República, Romênia e Suécia Inicialmente, doze
países se uniram economicamente (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França,
Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo e Portugal), com a condução da economia
sendo feita por um banco central europeu. Macedônia, Croácia e Turquia caminham para

135
esta integração econômica. Os tratados que definem a União Européia são: Tratado da
Comunidade Econômica Européia (CEE); Tratado da Comunidade Européia do Carvão e
do Aço (CECA); Tratado da Comunidade Européia da Energia Atômica (EURATOM);
Tratado da União Européia (UE), o Tratado de Maastricht, que estabeleceu os fundamentos
da futura integração política. Neste último tratado, fizeram-se acordos mútuos de segurança
e política exterior, bem como a confirmação de uma Constituição Política para a União
Européia. A integração monetária foi realizada através de uma moeda única, o Euro.
A produção de riqueza deste bloco europeu é calculada em cerca de mais de 10
trilhões de dólares por ano.
No continente americano, os projetos de unificação comercial (ALCA e Nafta)
esbarram na exagerada desproporção econômica dos países centro e sul-americana frente ao
gigante do norte. Problemas políticos e econômicos sempre foram a regra no chamado Cone
Sul, e o crescimento econômico sempre foi descontínuo (o México, ainda que tenha passado
recentemente por graves problemas, apresenta atualmente uma economia em franco
progresso). As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pelo início do processo de
regionalização das relações comerciais mundiais. Este processo, contudo, apenas continuava
aquele processo iniciado a partir da década de 1950, quando se iniciou o processo de
integração econômica européia. Em 1957, com a assinatura do Tratado de Roma, foi criada
a CEE – Comunidade Econômica Européia (ou Mercado Comum Europeu – MCE), na
esteira do Plano Marshall, inicialmente com os seguintes países: Alemanha Ocidental, França,
Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Em 1973, incorporaram-se à organização a Irlanda,
Inglaterra e Dinamarca, que antes participavam da Associação Européia de Livre Comércio.
Em 1967, surgiu a Asean, ou Associação das Nações do Sudeste, que atualmente compreende
a Indonésia, Filipinas, Malásia, Tailândia, Singapura, Brunei, Vietnã, Mianmar (antigo Ceilão),
Laos e Camboja. Em 1969, surgiu o Pacto Andino, ou Comunidade dos Países Andinos, que
compreende os seguintes países: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Em 1973,
foi formado o Mercado Comum e Comunidade do Caribe (Caricom), integrado por
Suriname, Guiana, Honduras, Belize e as Ilhas do Caribe. Em 1988, surgiu o Nafta, reunindo
Estados Unidos da América, Canadá e México. Em 1989 veio a Apec, ou Cooperação
Econômica da Ásia e do Pacífico, composta por Austrália, Brunei, Canadá, Indonésia, Japão,
Malásia, Nova Zelândia, Filipinas, Singapura, Coréia do Sul, Tailândia, Estados Unidos,
China, Hong Kong, Formosa (Taiwan), México, Papua, Nova Guiné, Chile, Peru, Federação
Russa e Vietnã. A CEE, ou Comunidade dos Estados Independentes, foi criada em 1991,
tendo como participantes a Armênia, Belarus (Bielo-Rússia), Cazaquistão, Federação Russa,
Moldávia, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Ucrânia, Geórgia e
Azerbaijão. Em 1991 criou-se o Mercosul, ou Mercado Comum do Cone Sul, formado por
Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Em 1992, surgiu a Comunidade da África Meridional
para o Desenvolvimento (SADC), integrado por Angola, África do Sul, Botswana, Lesopo,
Malauí, Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, República Democrática do Congo, Ilhas
Seicheles, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue. Este processo de regionalização
econômica marcou o modo como se tem se desenvolvido a economia mundial, nas últimas
décadas. O Mercado Comum Europeu evoluiu para a integração política do continente
europeu (a União Européia), unificando moedas e abrindo fronteiras internas. Ainda hoje
estão em processo embrionário de formação outras comunidades; o grande debate hoje em
dia, no Brasil, é decidir se o país fará parte da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas),
que irá integrar todo o continente americano (com a exceção prevista de Cuba) em um único
bloco econômico.

21 - Capitalismo versus Comunismo


A constante expansão econômica que se deu no período do após guerra veio
desmentir em toda a linha as críticas que sempre se fizera contra o sistema capitalista. No

136
confronto econômico entre os blocos dos países capitalistas e dos países ditos socialistas, a
realidade acabou por mostrar a diferença crônica entre os dois sistemas. A derrocada do
socialismo e o fim da União Soviética se deram exatamente por motivos econômicos. O
planejamento econômico centralizado sucumbiu ante a pujança da economia baseada na
propriedade individual e na livre concorrência.
A economia soviética não pôde suportar os sucessivos aumentos de gastos militares,
e acabou ruindo. Mesmo um país como a China, que se declara politicamente marxista, aderiu
completamente ao sistema econômico capitalista, admitindo a propriedade privada e a livre
iniciativa. A preocupação com o bem-estar do trabalhador, ainda que nebulosamente fizesse
parte das considerações teóricas de Karl Marx em sua revolta furibunda contra o capitalismo
de sua época, realmente jamais fez parte da sua ou das demais preocupações dos marxistas.
Assim, quando Lênin subiu ao poder na Rússia, ele estava mais preocupado em fortalecer o
Estado contra os inimigos internos ou externos; jamais houve nenhuma iniciativa no sentido
de criar uma legislação trabalhista adequada, por exemplo. Qualquer sinal de comportamento
“anti-revolucionário” (que incluía a busca do conforto ou da prosperidade pessoal) era
severamente punido.
Não se pode citar uma só conquista trabalhista que se tenha dado em função da
pretensa “proteção” socialista ao trabalhador, constantemente apregoada pelo regime. Na
verdade, a regra sempre foi a repressão a qualquer anseio de melhoria, qualquer que fosse
ele.
Os países socialistas sempre se caracterizaram por uma agricultura extremamente
pobre, incapaz de produzir para as próprias necessidades. Desde os tempos de Stálin, a Rússia
sempre foi um grande importador de grãos e cereais do ocidente, por não poder produzi-los
em quantidade suficiente. Em 1958, na sessão plenária do Comitê Central, foi lida a seguinte
declaração de Khruschev: “o principal objetivo da União Soviética consiste em desenvolver,
por todos os meios, o caráter mercantil da economia agrícola, o progresso de relações
mercantis, conduzindo à abundância de produtos agrícolas para o mercado (...)”. Isto ocorreu
depois de 41 anos de sucessivas planificações econômicas. Apesar da retórica marxista, os
sucessivos planos econômicos sempre redundaram em fracasso. O sucesso conseguido na
indústria militar e espacial, por sua vez, se deu à custa de um limitado atendimento às
necessidades do mercado interno (produzia-se “mais canhões, e menos manteiga”).
Revolta esta que se justificava, tendo em vista unicamente a perspectiva histórica que
a criou. Mas Marx jamais foi capaz de aceitar que o capitalismo seria capaz de propiciar um
bem-estar aos trabalhadores, como realmente acabou acontecendo. Ele não poderia prever
que os novos acionistas das grandes corporações seriam exatamente os trabalhadores, cuja
riqueza cresceria na proporção do crescimento da empresa (pela distribuição dos dividendos
dos lucros acionários).
Que se faz normalmente pela elevação do poder aquisitivo. Isto pressupõe a
existência de outros fatores, como pleno (ou quase pleno) emprego, bons salários, boa
educação, sistemas adequados de previdência e de aposentadoria, etc.
Nos pretensos “paraísos” socialistas, era considerado como dissidência política achar
que o sistema era menos que perfeito, e o infrator era geralmente punido com o exílio para
a Sibéria. A falsificação dos fatos históricos tomou tais rumos na União Soviética, que a sua
historiografia, mesmo nos dias de hoje em que se tem acesso aos arquivos oficiais, já não é
mais possível distinguir entre a falsificação e a verdade. Considerado falta gravíssima, punida
com o exílio na Sibéria. Além disso, o Estado soviético não tinha nenhum respeito pelo
trabalhador. Em vários momentos, cogitou-se da substituição do salário por bens “úteis”.
“Na Rússia, o Estado combina as formas mais evoluídas de controle e dominação burocrática
com o que de mais baixo e atrasado existe no que se refere ao desenvolvimento econômico.
Daí a consideração da personalidade humana como mero índice de produção, podendo a
burocracia dirigente dispor como bem quiser do homem, transferindo-o do Kirkiz à Sibéria

137
ou de Vladivostok a Moscou TRAGTENBERG, Maurício”. Pág. 112). A situação do
trabalhador soviético só começou a melhorar com a ascensão de Khruschev ao poder, após
a morte de Stálin.
E, no entanto, este estado de coisas apenas representava a paranóia que tomava conta
dos dirigentes, sempre vendo a ameaça capitalista em tudo. Lênin, assim que tomou o poder
na Rússia, procedeu a um verdadeiro expurgo nas próprias fileiras marxistas, exterminando
antigos companheiros a pretexto de seu (deles) vezo burguês.
O sistema capitalista, por sua vez, após ter passado pela fase “selvagem” (que foi a
que Marx conheceu), começou gradativamente a mudar. Não foi uma mudança rápida;
entretanto, já em 1880 o cenário social alemão viu surgir uma nova mentalidade, que viria a
se traduzir no moderno Estado do Bem-Estar. O chanceler Bismarck, temeroso que a ordem
do Estado fosse afetada por revoluções sociais, começou a exortar para que se atenuasse a
face mais cruel do capitalismo. Seu poder de convencimento levou o Reichstag alemão a
aprovar, em 1884 e 1887, leis que, ainda que de forma rudimentar, viriam a prover aos
trabalhadores proteção e assistência nos casos de doença, acidentes, incapacidade, bem como
ampará-los na velhice. Medidas similares foram adotadas na Áustria, na Hungria e no resto
da Europa. Na Inglaterra, por volta do final do século
A historiografia “oficial” mudou tantas vezes (naquele estilo descrito no romance de
George Orwell, 1984), que é quase impossível encontrar documentos idôneos nos arquivos
russos.
Não se pode afirmar, contudo, que o socialismo tenha morrido (exceto o socialismo
“marxista”). Antes de Marx já existiam outros socialistas (que foram menosprezados por ele),
cujas teorias sociais ainda continuam válidas, em sua maioria (não é o caso da prática social,
que na maioria dos casos redundou em fracasso).
Também Stálin procedeu a grandes expurgos entre as suas próprias fileiras: “As
primeiras vítimas da repressão stalinista foram todas as organizações populares de caráter
esquerdista que não se dobraram ante os fundadores das ‘democracias populares’ ”. Citação
extraída de: Planificação – Desafio do Século XX, por Maurício Tragtenberg. Pág. 128.
Em vista das agitações promovidas pelas internacionais socialistas, dominadas por
Marx e seus seguidores. XIX e início do século XX, homens e mulheres socialmente
engajados, bem como os sindicatos (que já eram poderosos e bem organizados), fizeram
aprovar leis (em 1911) que instituíam proteção contra doença e invalidez, e mais tarde, contra
o desemprego (o seguro-desemprego). Para sustentar todas estas medidas, novos impostos
foram criados, que agora alcançavam uma classe que jamais os pagara: os ricos.
Quando o presidente Roosevelt subiu ao poder em 1933, e tendo como tarefa vencer
a Grande Depressão, ele tomou medidas econômicas visando combater o marasmo
econômico e a queda de produção e de renda nacional. Apesar de que tenha ocorrido outra
crise (uma recessão) em 1937, suas medidas levaram pouco a pouco o país a recuperar-se, e
lançaram as bases da prosperidade que se seguiria à Segunda Guerra Mundial.

22 - A Nova Revolução Industrial


Com a derrocada do sistema socialista da União Soviética, e com o predomínio
da mentalidade capitalista, o mundo entrou em uma nova era econômica. Se antes se dividia
em pólos opostos pela ideologia, agora o mundo se divide em áreas econômicas de influência.
A civilização atual, seja ela formada nos moldes capitalista ou provinda dos escombros do
socialismo, caracteriza-se por uma forte tendência ao consumismo. “
A Revolução Industrial elevou a produtividade do trabalho a níveis sem precedentes
na história do homem. A multiplicação das fábricas e a ampla utilização de máquinas
constituíram a base mecânica dos ganhos de Que já se batiam pelos seus próprios direitos

138
(eram as chamadas sufragistas, que defendiam o direito de voto da mulher, proibida de
manifestar seu direito de escolha política).
A legislação social aprovada sofreu forte oposição das classes mais privilegiadas, que
se opunham a ser taxados. Conflitos políticos e tumultos criaram uma crise sem precedentes,
e em 1910, a Câmara dos Lordes somente aprovou a lei a contragosto. A instituição destes
impostos não tinha uma sustentação teórica de fundo clássico; na verdade, a ortodoxia
clássica se opunha à redistribuição de renda, porque acreditava que a utilidade marginal do
dinheiro para o indivíduo que o adquire não diminui (sua satisfação não é reduzida com cada
unidade adicional). Afirmava também que não era possível comparar utilidades interpessoais
(não se podia dizer que alguém com mais bens obtinha menor satisfação dos incrementos do
que alguém com menos bens). Assim, não havia uma justificativa econômica para a
transferência de renda de ricos para pobres. Em 1920 o economista Arthur Pigou
demonstrou que desde que a produção global não diminuísse devido às medidas tomadas, o
bem estar econômico aumentava, com a transferência de recursos de ricos para pobres. Mas
a adoção de uma legislação que assegure proteção aos pobres, seguro-desemprego e pensões
de aposentadoria continuam sendo condenada por economistas aferrados às concepções
clássicas (por exemplo: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek). Para eles, a única coisa que se
conseguiria com isto seria a destruição do capitalismo. Ainda que radicais, suas idéias são
válidas até certo ponto. Os países escandinavos, por exemplo, foram obrigados a limitar a
sua política pública social devido ao esgotamento atingido (crescentes benefícios sociais que
já não podiam ser cobertos por novos impostos, que já estavam em um patamar altíssimo).
Com base nas teorias de Keynes. As características mais perversas da Depressão (a
deflação, o desemprego e a privação trazida aos desfavorecidos) foram combatidas com
medidas amplas, algumas de alcance restrito, outras de alcance no longo prazo. As medidas
adotadas para amenizar o sofrimento dos grupos mais vulneráveis do sistema econômico
lançaram a gênese do Estado do Bem Estar (welfare).
Entre as várias medidas econômicas adotadas criaram-se uma política de preços
mínimos para os principais produtos agrícolas, políticas de limitação (se necessário) da
produção, e a criação de estoques de regulação do mercado. Tais medidas acabaram sendo
adotadas pela maioria dos países industriais. Produtividade. Contudo, a canalização do
potencial produtivo para a criação de bens de capital exigiu que uma parte relativamente
menor deste potencial fosse dedicada à produção de bens de consumo. “A aquisição de
bens de capital fez-se, portanto, a um custo social elevado, resultando em grandes
privações para as massas “. (HUNT & SHERMAN. Pág. 71). Nos países mais
avançados economicamente, o aumento crescente da produtividade, trazendo mais altos
salários que propiciassem ao consumo, levou à criação de um forte mercado interno de
consumo.
O bem estar e a aparente tranqüilidade proporcionada pela pujança material, por
outro lado, possuem um lado menos racional; a prosperidade pagou o seu preço. “Os
direitos e liberdades que foram fatores assaz vitais nas origens e fases iniciais da sociedade
industrial renderam-se a uma etapa mais avançada desta sociedade: estão perdendo o seu
sentido lógico e conteúdo tradicionais. Liberdade de pensamento, liberdade de palavra e
liberdade de consciência foram – assim como o livre empreendimento, que elas ajudaram a
promover e proteger – idéias essencialmente críticas destinadas a substituir uma cultura
material e intelectual obsoleta por outra mais produtiva e racional. Uma vez
institucionalizados, esses direitos e liberdades compartilharam do destino da sociedade da
qual se haviam tornado parte integral. A realização cancela as premissas”. (MARCUSE,
Herbert. Pág. 23). Entretanto, uma nova consciência vem surgindo por entre os beneficiários
desta sociedade de opulência, representada por uma atitude crítica frente ao preço a pagar
por ela. Cada vez mais se levantam críticas, oposições e movimentos organizados contra a
ação predatória e poluidora característica do sistema industrial. Atualmente, aumenta cada

139
vez mais a preocupação pelo equilíbrio ecológico do planeta, ameaçado pela exploração
desenfreada de seus recursos. Por todo o mundo, grupos se organizam visando defender não
apenas o futuro, mas o próprio presente ameaçado.
O grosso da produção industrial de países tais como EUA, Japão, Inglaterra, França
e Alemanha, entre os de economia mais desenvolvida, volta-se principalmente para o
mercado interno. Apenas o excedente da produção (que por si já é bastante elevado) é
exportado. Tal política não é seguida pelos países periféricos (ditos em desenvolvimento),
que privilegiam a exportação, em detrimento do seu mercado interno. Ao mesmo tempo, a
dificuldade econômica crônica destes países leva-os a ter que seguir as determinações do
FMI, cuja orientação econômica volta-se claramente para uma ortodoxia clássica.
A poluição trazida por empresas de alta tecnologia não atinge a atmosfera, mas sim
a terra e os lençóis freáticos. O chamado “Vale do Silício”, região de tecnologia de ponta
localizada na Califórnia, é atualmente o lugar onde o meio-ambiente está mais exposto. Para
produzir os chips e outros componentes usados intensivamente em computadores, são
necessárias substâncias extremamente tóxicas. Estas substâncias, de acordo com a Enviroment
Protection Agency, são: xilênio (que pode causar defeitos em fetos); compostos de chumbo
(cancerígeno); ácido nítrico e compostos do nitrato (envenena os pulmões e corrói a carne);
éter glicólico (afeta o sistema nervoso e pode interromper a gravidez); ácido hidroclorídrico
(corrói a pele e provoca choque anafilático). As empresas que industrializam a celulose (base
para a produção do papel, indispensável por formar o substrato físico da civilização
intelectual) são as maiores poluidoras dos rios.
“A questão política mais básica, ( ... ) não é quem controla os últimos dias da sociedade industrial,
mas quem modela a nova civilização que surgirá rapidamente para substituí-la. Enquanto as escaramuças
políticas de curto alcance esgotam a nossa energia e atenção, uma batalha muito mais profunda já está tomando
lugar sob a superfície. De um lado estão os guerrilheiros do passado industrial; do outro, crescentes milhões
que reconhecem que os problemas mais urgentes do mundo – a comida, a energia, o controle da armas, a
população, a pobreza, os recursos, a ecologia, o clima, os problemas da idade, o colapso da comunidade urbana,
a necessidade de trabalho produtivo e compensador – não mais podem ser resolvidos dentro da estrutura da
ordem industrial”. (TOFFLER, Alvin. Págs. 30/31).
A obra de Toffler que citamos acima tem uma penetrante visão sobre o modo como
se desenvolveu a nossa civilização. Para este autor, este desenvolvimento pode ser dividido
em três fases: a Primeira Onda, de características essencialmente agrícolas; a Segunda Onda,
especificamente industrial; e a Terceira Onda, que apenas iniciamos, e que se caracteriza pela
desurbanização, desindustrialização e por formas de produção econômicas totalmente novas.
Para Toffler, a atual revolução está se processando em um eixo cujo motor é a
tecnologia, transportes aperfeiçoados e as comunicações. Daniel Bell, outro teórico da nova
civilização, a chama de “sociedade pós-industrial”. Ele diz que esta sociedade se caracteriza
por três componentes principais: em economia, pela mudança da manufatura para os
serviços; em tecnologia, pela centralização destas nos ramos de computadores, eletrônica,
ótica e polímeros; sociologicamente, pela ascensão de novas elites técnicas e novas
estratificações de classes sociais. Para este autor, as mudanças na indústria e na economia
irão se caracterizar pela automação em massa, impondo novos ritmos à vida cotidiana, ao
modo de vida e ao lazer, pela diminuição dramática do número de horas trabalhadas por
semana.
É o caso do surgimento de empresas “virtuais” na Internet, cujo valor não pode ser
avaliado por um patrimônio “visível”, como é o caso das empresas tradicionais. Isto não
impede que elas atinjam um valor de mercado impressionante.
Alguns autores, por sua vez, criticam esta nova sociedade tecnológica. De um modo
geral, esta crítica aponta para o fato de que, nas nações industrializadas, o homem moderno
tornou-se escravo desta tecnologia, e o vício do conforto material apenas esconde as
profundas deficiências e a injustiça social desta sociedade. Além disso, a tecnologia trouxe

140
poluição, envenenamento do solo por defensivos agrícolas e o perigo nuclear. Para Robin
Clarke, autor inglês, esta análise é injusta, por não levar em consideração que a tecnologia
traz mais benefícios reais do que malefícios. Para ele, a tecnologia pode evoluir para formas
não poluentes e menos perigosas para o meio-ambiente. O erro está no modo como se trata
a tecnologia. A própria forma de ajuda dos países ricos aos mais pobres mediante o
fornecimento de tecnologia avançada, além de ser extremamente dispendiosa, nem sempre
resolve os problemas econômicos dos últimos. Além disso, para Clarke, sempre se
encontram, integrados na tecnologia, os valores e os ideais da sociedade que a criou. Em
contato com outras culturas, esta tecnologia geralmente tem um efeito perverso, capaz de
deformar o seu sistema de valores (inclusive a sua atitude frente à natureza e à sociedade). O
mau uso da tecnologia poderia decorrer destes equívocos culturais e da assimilação deturpada
do conhecimento tecnológico (por exemplo, os conhecimentos tecnológicos relativos à
pesquisa de defensivos agrícolas podem ser desviados para a pesquisa de armas químicas e
biológicas). Composição básica da força de trabalho se altera, à medida que os processos
automáticos reduzem o número de operários industriais necessários à produção. Como
conseqüência mais importante, Bell aponta o fato de que as indústrias passariam a se localizar
distantes das grandes cidades, mais perto das fontes de matéria-prima e combustíveis.
A descentralização industrial, além de revolucionar a topografia social, tornaria
indistintas as orlas radiais das metrópoles e das fronteiras entre urbano e suburbano. Sob o
domínio da automação, a depreciação do maquinário representaria um custo maior do que o
dos salários da mão-de-obra; assim, para neutralizar o alto investimento de capital, cada vez
mais as fábricas automatizadas passariam a funcionar 24 horas por dia. Como conseqüência
ficaria alterada todas as formas conhecidas de “turnos de trabalho”, trazendo como
conseqüência novas relações trabalhistas, nova legislação e novas formas sociais e jurídicas
de interpretação do trabalho.
Um aspecto que causa calafrios é o gigantismo da nova economia. Fusões sucessivas
estão criando corporações tão gigantescas, que fazem parecer insignificantes as corporações
de fim do século XIX. O advento da tecnologia da informática e do mundo virtual criado
pela rede de computadores (a Internet) propiciou o surgimento de novas corporações cujo
valor de mercado ascende a centenas de bilhões de dólares. Atualmente, já não se pode definir
uma empresa como sendo de capital intensivo ou de mão-de-obra intensiva. A pesquisa, a
engenharia e o design levaram à criação de um novo termo, a inteligência intensiva. No custo
final de um chip, por exemplo, apenas 15% referem-se à matéria prima, energia, maquinário
e mão-de-obra. Os restantes 85% são gastos com a pesquisa e o design.
A maioria das gigantescas corporações está migrando o seu pessoal para a produção
de softwares e projetos de sistemas; outra parte está ligada ao marketing de vendas. Apenas
5% do pessoal se ocupam com a fabricação propriamente dita.

23 – Um Novo Mundo Econômico


A característica mais marcante da nova economia mundial, a globalização, tem
efeitos favoráveis e efeitos perversos. As gigantes empresas transnacionais, ao perderem a
sua identidade, já não possuem um centro definido; elas procuram se instalar
preferencialmente em países de mão-de-obra barata, e buscam também unificar a sua
produção, fabricando produtos “mundiais” que se possam rapidamente adaptar para outros
perfis de consumo. Globalização, então, é o processo de descentralização industrial, processo
este que força a que as economias mundiais (ou seja, que os países

Esta análise de Bell foi feita na década de 1970, e mostrou-se extremamente profética
quanto às atuais formas de trabalho nos Estados Unidos e no Japão, principalmente.
Marx já havia previsto que, no futuro, o advento de instrumentais criados pela ciência
e pela técnica iria modificar a relação entre o tempo de trabalho (e da quantidade de trabalho)

141
e a criação da riqueza real. Desta forma, o trabalho humano já não estaria incluído no
processo de produção; o homem apenas se relacionaria com este processo como supervisor
e regulador. Na verdade, é isto que vem acontecendo nas empresas de alta tecnologia e
elevada robotização, onde o trabalho humano está exatamente neste nível previsto por Marx
(entretanto, mesmo assim ele condenou esta forma de trabalho, porque, dizia, se apropriava
da produtividade universal do homem). (Participantes deste processo tenham uma economia
aberta, permitindo um maior fluxo tanto de capital quanto de mercadorias e serviços – seja
na exportação, seja na importação). Isto implica na necessidade de limitar o controle
alfandegário, diminuindo (ou mesmo abolindo) tarifas protecionistas sobre mercadorias. O
próprio fato de que a maioria das mercadorias atualmente fabricadas em qualquer país surge
da montagem de peças provindas dos mais variados pontos do globo obrigam a esta abertura.
A característica mais marcante da globalização é o surgimento do chamado “produto
mundial”, uma mercadoria que tem basicamente as mesmas características em qualquer dos
mercados nacionais onde seja fabricada e vendida. O produto mundial (que surgiu da
necessidade de diminuir custos de produção, e da concorrência enorme no mercado) decorre
da padronização das linhas de montagem e da unificação e diminuição das peças básicas
usadas no produto (ou seja, diminuição do número de fornecedores).
Novas técnicas de administração, tais com o Controle de Qualidade Total ou de
reengenharia vem assolando os manuais de economia e de administração, e em seu nome,
crescem as demissões. Neste processo capitalista acelerado, as mercadorias são vendidas em
todo o mundo, num processo de competição sem paralelo. Este fenômeno é acompanhado
por uma maior circulação de capitais (via empréstimo), que entretanto já não deseja seguir as
regras tradicionais de maturação (tempo médio estimado para retorno dos investimentos);
em um único dia, uma quantidade inacreditável de dinheiro (chamado “dinheiro volátil”) gira
pelos vários mercados financeiros mundiais, sem se fixar por muito tempo em uma ou outra
economia nacional.
Frente a estas quantias astronômicas, o dinheiro público disponível para
investimentos, na maioria dos países, é simplesmente insignificante. Esta situação, agravada
pela contenção orçamentária, obrigou muitos países a desestatizarem a sua economia, pela
privatização de empresas públicas, apenas porque não tinha outro meio para conseguir
dinheiro para investimentos. Esta movimentação econômica mundial sem precedentes
mudou todos os parâmetros e teorias econômicas, incapazes de abarcar todo o processo.
Mais do que a Revolução Industrial, que deslocou o foco da sociedade do campo para as
cidades, a nova
A produtividade industrial também decorre desta padronização. Da década de 1980
para cá, o tempo de produção de um carro “mundial” no Brasil baixou de, entre 5 a 10 dias,
para 24 horas. O número de fornecedores baixou em média, de 1000, para menos de 100
(Revista Veja, edição 1749, 1º de maio de 2002. Pág. 108).
Entre 1971 e 1995, o volume de empréstimos internacionais aumentou em 130
vezes, de um total de 10 bilhões de dólares, para 1,3 trilhão. Este capital volátil, nas duas
últimas décadas do século passado, foi o terror das economias nacionais, arrasando
economias tão díspares como a mexicana, coreana ou brasileira.

Apenas para comparação, as dez maiores corporações mundiais (e tomando-se


apenas aquelas da economia tradicional) chegaram a faturar 1,4 trilhão de dólares em 1995,
superando o PIB de muitos países. E a maior parte do seu faturamento é feito a nível
mundial. Em geral, estas corporações possuem as suas unidades fabris espalhadas pelo
mundo. Um único produto tecnológico pode ser composto por componentes físicos
fabricados em lugares tão diversos quanto Formosa, Coréia do Sul, Cingapura ou Vietnã.
Galbraith chama a atenção para um fato a que se dá pouca atenção, o de que a
escravidão é um fenômeno tipicamente agrícola. Assim, é possível que o advento da

142
Revolução Industrial tenha permitido a abolição da escravidão, em todos os países. Não é
uma surpresa que a Inglaterra, berço desta revolução, foi a primeira a aboli-la.
Economia está lançando as bases para um mundo totalmente diferente, que mal pode
ser imaginado.
Sob um ponto de vista, parece que uma característica marcante desta nova economia
seria o desemprego maciço, mesmo em países economicamente avançados. Segundo alguns
especialistas, os índices de desemprego na Europa, ao final do século XX eram os mais
elevados desde a época da Grande Depressão. Visto sob outra ótica, parece estar havendo,
na verdade, uma migração em massa de empregos, originalmente das empresas tradicionais,
para empresas de serviços e até mesmo empresas automatizadas. Os países que mais
avançaram nestas áreas (Estados Unidos e Japão) atravessaram o período sem graves crises
de desemprego (mesmo em recessão, o Japão manteve os seus índices tradicionais de
emprego). A globalização, apesar da grande oposição que tem levantado, tem mostrado
ser um fenômeno irreversível. Os países que tentaram fechar a sua economia ao comércio
mundial regrediram a um nível vegetativo de crescimento, com fome e miséria interna (é o
caso da Coréia do Norte e da Albânia). Se a globalização tem uma faceta ruim, ela pode
estar no fato de que os governos nacionais vêm perdendo sua autonomia interna (e, em certos
casos, até mesmo uma parte de sua soberania), pelo fato de terem de se submeter aos ditames
do capital internacional.
A quebradeira generalizada de vários países deu-se em função, basicamente, da sua
incapacidade de controlar os capitais voláteis.
Reservas de mercado, legislação reguladora, controle de preços, proteção
alfandegária, são medidas inócuas e até mesmo deletérias, em uma economia globalizada.
E se o país tenta simplesmente fechar suas fronteiras, fatalmente deixará de ter
acesso aos capitais externos e a novas tecnologias. Caminhando para trás, seus produtos
acabam por perder competitividade, a indústria sucateia, e a inflação acaba vindo como
corolário deste estado de coisas.

24 - O Problemas dos Países Emergentes


Para Kenichi Ohmae, autor do livro “O Fim do Estado Nação”, “trata-se de uma
nova espécie de processo social, uma civilização genuinamente transnacional, alimentada pela
exposição à tecnologia e pelas mesmas fontes de informação”.
Marx afirmava que a concorrência entre os capitalistas levando ao esmagamento dos
menores pelos maiores, bem como o aperfeiçoamento da tecnologia (que levaria, segundo
ele, a que as empresas precisassem ampliar a produtividade do trabalho, com aumento da
escala de produção) levavam inexoravelmente à concentração da riqueza e do poder
econômico em um número cada vez mais restrito de capitalistas. A par desta concentração
cresceria a miséria e a exploração econômica. Como corolário de sua análise, Marx exortava
a que as massas se unissem e se organizassem contra o sistema capitalista.
Se o país desvaloriza a moeda tentando proteger a sua economia, estes capitais se
volatizam da noite para o dia, pulverizando as suas reservas internacionais.
Não significa que a economia não possa ter segmentos protegidos, principalmente
nos países de economia mais vulnerável. E, no entanto, esta também é uma prática comum
nos países mais fortes economicamente. O aço, por exemplo, é um produto que volta e meia
entra na pauta de produtos protegidos pelos Estados Unidos (como proteção, é claro, à sua
siderurgia). No entanto, sempre que isto ocorre, algum outro segmento da economia
americana sofre as conseqüências (quase sempre, a indústria automobilística).
Com a progressiva descolonização que ocorreu após o fim da Segunda Guerra
Mundial, um novo problema surgiu. A maioria dos países recém-independentes era muito

143
pobre e subdesenvolvido, sendo a sua pobreza caracterizada por desemprego, baixos salários,
analfabetismo, doenças, fome, etc. Enfim, a má qualidade de vida era a principal característica
desses países.
Mas não eram apenas as ex-colônias que estavam nesta situação. Países há muito
independentes politicamente, por seu lado, mostravam-se extremamente dependentes
economicamente, apresentando uma economia fraca e incapaz de trazer prosperidade e bem-
estar aos seus cidadãos.
A solução buscada, adotada ou imposta, na maioria dos casos, voltava-se para um
desenvolvimento urbano-industrial, como o único capaz de eliminar o atraso crônico destes
países.
Vários preceitos foram postulados para se proceder a este desenvolvimento forçado:
industrialização urbana maciça; mecanização intensiva da agricultura; desenvolvimento das
áreas urbanas; controle demográfico; adoção de uma política de redistribuição de renda;
adoção de reformas políticas e administrativas, visando basicamente coibir a corrupção;
incremento das exportações. Por outro lado, nada disto funcionaria se não houvesse uma
contrapartida externa, materializada na forma de ajuda, investimento direto, transferência de
tecnologia e importação.
Analisando-se os resultados gerais desta política de desenvolvimento, podemos notar
que pouca coisa mudou desde que ela foi adotada. Em geral, e com poucas exceções, os
países do Terceiro Mundo que conseguiram sair do “círculo vicioso” da pobreza o fizeram
às próprias custas, através de investimento maciço em educação e pesquisa tecnológica.
De um modo geral, as condições econômicas e sociais bastante instáveis que
prevaleceram nas décadas de 1960 a 1980 impediram que diversos países pudessem proceder
a um desenvolvimento auto-sustentável. A tentativa de industrialização a qualquer custo
redundou em fracasso, em muitos países, principalmente devido ao fato de que eles careciam
de know-how tecnológico. A falta de uma estrutura educacional abrangente impede o
aproveitamento integral da ajuda tecnológica.
Por outro lado, a maioria das indústrias tecnológicas está em mãos de empresas
estrangeiras, que repassam apenas uma tecnologia ultrapassada para suas filiais. Alia-se a este
fato a relutância dos países avançados em passar para os menos desenvolvidos os que
consideram “tecnologia sensível”, principalmente nos campos da mecânica fina, robótica,
nanotecnologia, ótica, microprocessadores, polímeros, energia nuclear, exploração espacial,
etc.
Os exemplos mais flagrantes são a Índia e a China, que adotaram uma via própria de
desenvolvimento, pressionados pelo seu gigantismo demográfico.

No Brasil, é comum encontrarmos equipamentos tecnológicos, que foram


fornecidos (e muitas vezes, comprados), ainda encaixotados, enferrujando e tornando-se
obsoletos, simplesmente porque não há quem possa montá-los e operá-los.
Na década de 1970 o Brasil assinou contratos de ajuda para a implantação de usinas
nucleares com a Alemanha Ocidental que vieram a se mostrar extremamente prejudiciais ao
país. Paralelamente, e em segredo, havia um projeto secreto de pesquisas que foi capaz de,
realmente, fazer o Brasil adquirir know-how neste campo de pesquisas. Infelizmente, no
Governo Collor, o excesso de demagogia fez interromper estas pesquisas, as quais tornavam
o país autônomo, nesta área. No campo da exploração espacial, o Os problemas relativos ao
desenvolvimento levaram várias pessoas a repensar esta questão. Acreditar, por exemplo, que
o desenvolvimento deva ter como parâmetro único o crescimento econômico, é
perigosamente enganoso. Expandir, simplesmente, a produção de bens e serviços, talvez
seja uma condição necessária, mas não é suficiente para garantir o desenvolvimento.
Distribuir riqueza não é o mesmo que criar um mercado de consumo (que, quase sempre,

144
baseia-se na obsolescência planejada como forma para continuamente criar novos anseios de
consumo, em uma espiral interminável).
Os países em desenvolvimento, ou países “emergentes”, geralmente buscam
transplantar um ou vários tipos de indústria a partir de países avançados, sem, no entanto
buscar paralelamente usar os recursos técnicos e culturais disponíveis internamente para
complementar a tecnologia estrangeira. Além disso, muitas vezes esquecem que os países
avançados dão grande ênfase à sua produção primária, alocando recursos baratos e
proporcionando constantes estímulos (via subsídios) à classe de agricultores. Isto quer dizer
que os países industrializados o são tanto na parte urbana quanto na parte rural, característica
esta facilmente esquecida pelos países do Terceiro Mundo, que dão pouco apoio à
agricultura.
Em alguns países menos desenvolvidos, a experiência provou que algumas iniciativas
simples de mistura de política doméstica e internacional eram capazes de acelerar o
desenvolvimento, reduzir disparidades de renda e colocar sob controle o crescimento
populacional. Estas iniciativas passam pela oferta generalizada de educação, crédito,
tecnologia barata e serviços de saúde a pequenos produtores rurais e urbanos, bem como a
trabalhadores subempregados. De um modo surpreendente, notou-se que estas iniciativas
eram capazes de, por si só, tornar altamente produtivos estes segmentos sociais, que também
adquiriam capacidade de poupança e de investimento positivo.
Outro fator comumente desconsiderado é o fato de que, nos países avançados, a
maioria dos empregos oferecidos geralmente está no setor de serviços; a indústria e a
agricultura, excessivamente mecanizadas, ocupam pouca mão-de-obra. Entretanto, na
maioria dos países do Terceiro Mundo, o Estado (o setor público) vem assumindo este mister.
O que se nota é que o setor público vem se expandindo e absorvendo áreas do setor privado
(indústrias nacionalizadas, bancos, etc.) ou simplesmente aumentando o quadro de pessoal
da administração direta e indireta. Na maioria dos países menos desenvolvidos, o excesso de
burocracia, a voracidade fiscal e um excesso de leis, regulamentos e decretos, em vários níveis
governamentais, aliado a um excesso de impostos, vem onerando a produção de riqueza
nacional via o comércio. A soma destes fatores maléficos tem como conseqüência a redução
da oferta de empregos e o aumento da sonegação, como forma de sobrevivência econômica.
***

Brasil tem um projeto completo, inclusive com veículos lançadores de satélites (na
base de Alcântara), que sofrem a mesma miopia demagógica, pois se restringem cada vez
mais as verbas, o que provoca a dissolução de sofisticados grupos de pesquisa, graças aos
baixos salários e à falta de motivação.
Há um último e importante parâmetro a ser considerado, no que tange às
necessidades econômicos de um país. Normalmente, considera-se a necessidade de uma
poupança interna elevada, como meio de suprir as elevadas demandas de capital necessário
para os investimentos. Historicamente, os países menos desenvolvidos têm mostrado uma
menor capacidade de poupança. Entretanto, um fator importante normalmente é
desconsiderado, aqui. A poupança existente nos países mais ricos somente surgiu após ser
satisfeita a demanda de consumo interno. Um país como o Japão, por exemplo, que apresenta
índices atuais altíssimos de poupança, criou um mercado interno vigoroso, de intensa
demanda, e nele baseou o seu crescimento econômico. A exportação jamais foi a mola-
mestre do crescimento econômico japonês (dizendo de outro modo: o Japão jamais
necessitou priorizar as exportações, como o fazem os países menos desenvolvidos, que
praticam uma política equivocada de desenvolvimento).
Todos os fatores apontados mostram claramente a necessidade de mudanças
culturais, antes que se proponham mudanças econômicas. O desenvolvimento deve começar
pela reorientação das metas, apoiando e estimulando todas as iniciativas que levem à

145
formação de uma verdadeira e coerente base material e tecnológica interna, bem como a uma
reforma coerente do sistema produtivo de riqueza.

25 – Tecnologia e Desenvolvimento
Na atualidade, pode-se dizer que a tecnologia é sinônimo de desenvolvimento e
importante fator para a prosperidade dos países avançados. O alto grau de dependência da
ciência em relação à tecnologia força a que as nações lancem cada vez mais mão dos recursos
disponíveis com o fim de possibilitar a pesquisa científica, pesquisa esta que, aplicada
praticamente, contribui para que estas nações mantenham os seus altos índices de progresso
e crescimento econômico.
Nenhuma nação que esteja em vias de desenvolvimento deve desdenhar este esforço,
ou jamais alcançará a sua emancipação. No entanto, ainda assim parece existir, nestas nações,
uma dicotomia entre esta necessidade e o esforço que despende para tal. Um equívoco,
contudo, parece imperar entre os responsáveis por este esforço. Quando se trata de adquirir
tecnologia, sustentam a tese de que esta deve ser adquirida no exterior, justificando que assim
se pode “queimar etapas” inúteis. Agindo assim, ou demonstram má-fé ou parecem ignorar
que isso só faz dar continuidade à dependência cultural, científica e econômica do país que
age assim. O pior é que, além da tecnologia, o país absorve uma infra-estrutura cultural que
não lhe é própria, na forma aparentemente inocente de métodos educacionais
(acompanhados por livros didáticos, manuais, técnicas pedagógicas, etc.) estranhos, que
apenas fazem tumultuar o esforço nacional.
A dependência tecnológica que se cria é perpetuada pelo fato de que qualquer
atualização, além de dispendiosa, não acompanha o desenvolvimento tecnológico interno,
porque este fica amarrado à produção de ciência feita no exterior.
Este monopólio da tecnologia cria aspectos inusitados de dominação econômica,
porque a carência de pesquisa interna não cria os benefícios que se poderia esperar dos
avanços científicos. O próprio sistema internacional de patentes cria obstáculos à pesquisa,
além de criar monopólios de comercialização em diversas áreas sensíveis, tais como
defensivos agrícolas e remédios. Além do mais, a tecnologia transferida sempre constitui,
para quem a recebe, autêntica “caixa preta” da qual não tem idéia do conteúdo.
Em várias ocasiões, a ONU posicionou-se quanto a este assunto, manifestando uma
preocupação neste sentido. Para este órgão internacional, os seguintes fatores devem ser
considerados:
1) o custo real da tecnologia é superior ao que se poderia desejar;
2) os modos atuais de transmissão de tecnologia tendem a perpetuar a dependência
tecnológica dos países que a recebem, e impedem o incremento de uma tecnologia nacional;
3) a tecnologia estrangeira, ainda que possa fortalecer a capacidade produtiva
nacional, freqüentemente se converte em fator de elevação dos custos de produção;
4) a tecnologia transferida nem sempre contribui para a expansão das exportações de
produtos manufaturados;
5) muitas vezes, a tecnologia importada é incompatível com as condições locais.

A implantação de uma tecnologia genuinamente nacional choca-se muitas vezes com


diversos obstáculos. O núcleo natural do qual ela deveria provir, universidade e centros de
pesquisa avançadas, muitas vezes sofre de alta de recursos, pela falta de apoio governamental,
ausência de uma educação de alto nível, baixos salários, etc. Este último fator tem levado a
uma intensa evasão de talentos, que agrava ainda mais o problema.
Outras vezes a pesquisa é mal orientada, dando prioridade a setores não tão
importantes. Com isso, recursos preciosos são mal gastos, piorando o problema. Também

146
falta de planejamento ou até mesmo planejamentos errôneos, bem como a falta de técnicos
de nível médio capazes de dar suporte (montagem, conserto e manutenção) aos
equipamentos de alta complexidade tecnológica acaba por tornar-se um obstáculo
absolutamente intransponível.

26 – Haverá Uma Ideologia para a Nova Época?


Finalmente, neste mundo novo que se avizinha, a antiga pregação ideológica
perde o seu matiz. A “queda” do Muro de Berlim em 1989 foi um marco referencial para
uma mudança de paradigma, a passagem para uma nova época na qual perde o sentido
qualquer discussão ou separação entre “esquerda” e “direita”, ambos órfãos de uma filosofia
social capaz de dar sentido e finalidade a qualquer discussão, debate ou confronto entre
ideologias. Doravante, apenas um discurso de novo tipo, voltado para a conservação
ecológica, para a tentativa de realização de um ideal social baseado em premissas
“Calcula-se que, atualmente, os negócios são responsáveis por mais de 25 bilhões
de toneladas de poluentes, dispersos no ar e lançados na água e na terra; cerca de 125
toneladas de dejetos, anualmente, possíveis, pode conseguir a atenção do habitante deste
mundo novo, e será capaz de lançar os modelos para uma nova sociedade, modelos estes
calcado em novas teorias sociais e econômicas capazes não só de trazer prosperidade e
eliminar o fosso existente entre as classes privilegiadas e as classes desfavorecidas, mas
principalmente trazer condições não apenas para que este mundo novo seja, além de
próspero e feliz, também mais equilibrado e mais racional.

LEITURA COMPLEMENTAR A Nova Economia


A chamada economia “globalizada” não se baseia em premissas econômicas
recentes. O “neoliberalismo”, que é o fulcro teórico que sistematiza esta onda econômica
atual já existe desde 1938; surgiu pois, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Como
doutrina, foi balizada por diversos teóricos da economia, tais como Hayek, Mises, Robbins,
Baudin, etc.
O neoliberalismo procurou examinar os resultados das numerosas intervenções
do Estado na economia. Este estudo, além de focalizar o mecanismo dos preços, tentava
também avaliar todas as conseqüências de uma economia planificada (cuja característica
principal é o controle de preços).
Para o neoliberalismo, este controle é daninho para a economia, porque eles não
podem ser usados para aferir o mecanismo da oferta e procura. Assim, a única intervenção
que aceitam é no sentido de o Estado intervir com uma função reguladora (impedindo
cartéis) ou mesmo reformando instituições ineficientes. Aceita também a possibilidade de vir
o Estado a exercer de uma forma permanente uma atuação em certos setores da economia,
tomando medidas econômicas que visem reduzir ao mínimo as injustiças sociais, aceitando
mesmo uma legislação social para isso.
Os neoliberais mais radicais, por seu lado, acreditam que o Estado é perdulário,
incompetente e corrupto, e por isto incapaz de intervir de forma eficiente na economia e no
sistema econômico; sua tese é a de que os indivíduos deste sistema econômico são capazes
de encontrar suas próprias soluções para sanar todos os problemas.
Para cada homem, mulher e criança nos Estados Unidos. Incluídos nessa quantidade estão cerca de
150 milhões de toneladas de fumaça que escurece o céu e envenena o ar, 22 milhões de toneladas de produtos
de papel jogados fora, 3 milhões de toneladas de sobras de fábricas, e 50 trilhões de galões de líquidos aquecidos
e poluídos que são despejados em rios, cursos d’água e lagos, todos os anos”. (HUNT & SHERMAN.
Pág. 216).

147
Especificamente, foi com Jacques Rueff, economista francês, que surgiu inicialmente
a fundamentação teórica do neoliberalismo.
Enquanto os socialistas acreditam que a intervenção do Estado visa tão somente
garantir sua sobrevivência, pela manutenção das formas de produção e das relações
tradicionais de dominação, os neoliberais mais radicais possuem as suas próprias razões para
não quererem esta intervenção.
Com relação à doutrina econômica neoclássica, a crítica que se faz a ela não ataca os
problemas práticos enfrentados pelo Estado e pela sociedade moderna. Não enfrenta
desigualdade de crescimento, ou defasagem de crescimento entre segmentos diversos; não
ataca a crescente desigualdade na distribuição da renda; não explica porque o abismo entre
ricos e pobres aumenta cada vez mais, ainda que aumente a produção geral de riqueza; não
explica, nem apresenta alternativas aos problemas de decadência urbana e de poluição
ambiental.
O atual cenário apresentado pela economia internacional faz crer que as atuais teorias
econômicas, apresentadas nos manuais acadêmicos, são apenas adaptações das antigas
teorias. Na verdade, desde Keynes não surgiu uma teoria abrangente capaz de explicar o atual
panorama econômico, em toda a sua complexidade. As modernas teorias matemáticas que
procuram explicar o comportamento econômico apresentam o ranço histórico de sua
origem. Nenhuma nova teoria tem ousado ir além dos moldes capitalistas e socialistas
tradicionais, em busca de um novo mundo econômico.

Crise de 1929 e Relações Econômicas entre EUA e Europa Ocidental no pós guerra
(Bretton Woods e Padrão Ouro-Dolar)

Autores encontram-se abaixo

As grandes tendências da economia mundial no século XX


A economia internacional — um sistema articulado de economias nacionais intercambiando
bens, serviços, capitais e tecnologia, em um contexto dinâmico de assimetrias estruturais —
passou por diversas fases ao longo do século XX: saltos tecnológicos, mudanças de padrões
monetários, crises financeiras, anos de crescimento sustentado seguidos de conjunturas de
estagnação, surtos de liberalização alternando com impulsos de protecionismo comercial,
incorporação de novos atores econômicos e preservação de velhas desigualdades estruturais,
fases de fechamento e de abertura aos movimentos de pessoas e aos fluxos de capitais,
redistribuição dos fluxos de renda na direção de novos centros de acumulação e confirmação
de antigos mecanismos de concentração e de acumulação, enfim, uma gama variada de
tendências e de ciclos tão diversos quanto os processos políticos que marcaram um século
ao mesmo tempo destruidor e criador. A despeito das diferenças estruturais e das inversões
de tendência, características comuns são detectáveis no início e no final do período: a
presença hegemônica do mesmo conjunto de economias no centro do sistema (um reduzido

148
grupo de países não muito distinto do atual G-7), processos de globalização comercial e de
internacionalização financeira relativamente semelhantes, bem como a atuação de um grupo
influente de atores transnacionais, os cartéis do final do século XIX e as companhias
multinacionais na passagem para o século XXI.
Esses três conjuntos de elementos e processos históricos — preservação de um mesmo
núcleo de economias dominantes; fluxo, refluxo e nova expansão da chamada
interdependência global; organização social da produção dominada por um grupo restrito de
atores relevantes — oferecem um quadro analítico adequado para o exame do
desenvolvimento da economia internacional num "longo século XX econômico", que
ultrapassou de várias décadas o "breve século XX político". Com efeito, o século XX
econômico tem início na década final do século XIX, quando o capitalismo manchesteriano de
meados daquele século entra em sua fase madura de industrialização e de incorporação de
um novo fluxo de inovações tecnológicas no quadro da segunda revolução industrial (não
mais marcada pela máquina a vapor, mas pela eletricidade, pelo motor a explosão e pela
química). É a fase de formação de trustes e cartéis, moderadamente controlados por leis de
defesa da concorrência, da passagem do laissez faire doutrinal para o protecionismo comercial
e o nacionalismo econômico, com a prática agressiva de tarifas diferenciadas e o
desenvolvimento de zonas geográficas de exclusão (as preferências imperiais do apogeu do
colonialismo europeu), ainda que esses processos restritivos tenham sido contrabalançados
por uma liberalização inédita no que respeita os fluxos de pessoas (imigrações
transcontinentais) e os movimentos de capitais (unificados sob o regime do padrão ouro).
O século XX econômico termina, não numa suposta era "pós-industrial" (pois a indústria, e
não os serviços, continua a ser o traço dominante e característico de nossa civilização), mas
numa fase de combinação crescente dos sistemas produtivos e administrativos com as novas
características da sociedade da informação, na qual os elementos brutos da produção — terra,
capital, trabalho — são necessariamente permeados e dominados pela nova economia da
inteligência. Os componentes de matéria prima e o valor extrínseco de um bem durável
passaram a valer bem menos, no final do século XX, do que o valor intrínseco e a inteligência
humana embutida nesses produtos, sob a forma de concepção e design, propriedade
intelectual sobre os processos produtivos e sobre os materiais compostos utilizados em sua
fabricação, royalties pela cessão e uso de patentes, trade-secrets e transferência de know-how,
marcas registradas, marketing, distribuição e publicidade. O setor de serviços certamente
cresceu no decorrer do século — e seu valor agregado superou, na metade do século, o da
agricultura e o da indústria combinados — mas trata-se de uma enorme variedade de serviços,
alguns velhos, muitos novos, vários deles combinados à atividade primária (no chamado agri-
business), outros inextricavelmente ligados à produção manufatureira (como o controle
informatizado das linhas de montagem e a automação crescente dos processos produtivos).
Uma rápida verificação dos números brutos pode dar uma idéia da profundidade e da
dimensão das imensas transformações ocorridas na economia mundial ao longo do século.
Três elementos decisivos devem ser levados em conta nesta avaliação preliminar: a mão-de-
obra, a estrutura da produção (e o produto per capita) e os sistemas financeiros nacionais e
internacionais. A população do planeta foi quadruplicada, passando de 1,6 bilhão em 1900 a
mais de 6,3 bilhões de pessoas em 2000, com diferenças notáveis entre as taxas de
fecundidade dos países desenvolvidos — que realizaram sua transição demográfica ainda nas
primeiras décadas do século — e dos países em desenvolvimento, cujas taxas de natalidade
ainda se situam em níveis relativamente elevados. A diminuição bem mais rápida da
mortalidade nestes últimos (pelos progressos efetuados no saneamento básico, na prevenção
e no tratamento médico) e o aumento geral da esperança de vida modificaram a estrutura
etária, aumentando a proporção de jovens nestes países e a de velhos nas sociedades mais
avançadas. Os movimentos de população também foram importantes ao longo do período,
mas as políticas migratórias geralmente receptivas do começo do século foram substituídas,

149
em quase todos os países, por medidas restritivas que visam coibir — sem conseguir
totalmente — o deslocamento contínuo de um imenso contingente de miseráveis em direção
das zonas mais afluentes. A distribuição do exército industrial de reserva foi afetada, na maior
parte do século, por fatores essencialmente políticos — guerras, fechamento de fronteiras,
oposição entre capitalismo e socialismo — mas, no limiar do século XXI é o capital, não o
trabalho, que se desloca livremente, realizando uma alocação ótima de recursos em função de
custos menores de mão-de-obra (mas também de custos de transporte, dimensão dos
mercados e outros fatores ligados às políticas setoriais de atração de investimentos e à
educação).
A estrutura da produção foi radicalmente transformada pelas mudanças introduzidas nos
padrões de trabalho (especialização) e pelos avanços tecnológicos, que aumentaram
dramaticamente o produto per capita, muito mais do que o crescimento da população. O
século XX desmentiu cabalmente as sombrias previsões malthusianas, com um incremento
de 19 vezes no produto global, correspondendo a uma taxa anual de 3%. Nos países mais
avançados, o grosso da população economicamente ativa deixou as atividades primárias,
migrou para o setor industrial em meados do século e passou a ser majoritariamente ocupada
nos serviços do setor terciário no final do período. A natureza da atividade econômica não
foi fundamentalmente alterada — já que o modelo alternativo de planejamento centralizado
manifestou-se tão somente num curto intervalo histórico de 70 anos, se tanto — mas
observou-se uma expansão notável do setor público ao longo do século, tanto nos países
avançados como nos industrialmente emergentes, aqui mais no setor produtivo do que nos
mecanismos regulatórios, como é a norma nos primeiros. Em todos eles, o papel das políticas
públicas e o peso da tributação direta e indireta são elementos cruciais do bom desempenho
da economia altamente complexa do limiar do século XXI, aqui num contraste notável com
a situação existente no final do século XIX, que também conhecia um grau apreciável de
interdependência econômica entre os países, a chamada globalização.
Os sistemas financeiros nacionais, finalmente, interagiram de maneiras diversas com os
processos produtivos, as correntes de comércio e os movimentos de capitais, ao passo que
o padrão monetário internacional passou por mudanças radicais, abandonando a referência
exclusiva ao ouro como garantia de liquidez e a rigidez das paridades cambiais do começo
do século em favor de formas variadas de um regime de flutuação que se tornou praticamente
universal em seu final, com as poucas exceções dos sistemas de conversão (currency boards).
A primeira idade do ouro do capitalismo encerrou-se abruptamente com a Primeira Guerra
Mundial e as tentativas posteriores de voltar ao padrão ouro, em sua forma clássica,
revelaram-se infrutíferas, até que a crise de 1929 e as desvalorizações cambiais maciças
ocorridas em seu bojo enterraram de vez essas pretensões. Os movimentos de capitais
deixam de ser livres nos anos 1930, já que os governos passam a alimentar a ilusão de poder
controlar a especulação, assim como eles pretendem evitar os efeitos nocivos de choques
externos sobre a economia doméstica, atuando sobre os juros e a demanda para combater o
desemprego. A reorganização monetária efetuada pela conferência de Bretton Woods
determinou o surgimento de um padrão ouro-dólar e de um regime de paridades fixas (mas
ajustáveis) que funcionou durante um quarto de século, se tanto, até que o fenômeno
inflacionário e os desequilíbrios externos dos Estados Unidos terminaram por romper a
paridade de 35 dólares por onça de ouro que prevalecia desde 1934. O Fundo Monetário
Internacional foi criado para corrigir desequilíbrios temporários de balança de pagamentos e
para administrar esse regime de paridades correlacionadas, mas teve que renunciar a essa
segunda missão quando ocorreu a decretação unilateral da suspensão da conversibilidade do
dólar em ouro em 1971.
Os grandes fluxos de capitais deixam de ser privados para assumir a forma de transferências
públicas (por meio dos bancos de desenvolvimento) numa primeira fase do pós-guerra, mas
voltam a ser predominantemente comerciais a partir dos anos 70, quando as especulações

150
nos mercados de futuros (cambiais e bolsas de mercadorias) e a reciclagem de petrodólares
colocam enormes somas de dinheiro — relativamente barato, em função da defasagem entre
as taxas de juros e os níveis de inflação — à disposição dos mercados emergentes. O aumento
dos juros nos EUA — para corrigir os enormes desequilíbrios fiscais e comerciais naquele
país — resultou na crise da dívida do início dos anos 80, o que inverteu dramaticamente o
fluxo líquido de capitais dos países em desenvolvimento para os desenvolvidos. Esses fluxos
foram restabelecidos no início dos anos 90, depois de moratórias e renegociações que
envolveram algum desconto do valor face dos títulos da dívida, mas crises financeiras
extremamente virulentas voltaram a se manifestar em meados dessa década, primeiro no
México, depois nos países asiáticos, na Rússia e no próprio Brasil, como resultado da
globalização financeira e dos enormes volumes de capitais voláteis que passaram a se deslocar
de um canto a outro do planeta a uma velocidade nunca conhecida na era do padrão ouro
(quando lingotes viajavam de navio, em contraste com os movimentos eletrônicos
instantâneos do final do século XX).
A despeito dos choques atravessados pela economia mundial no século XX, os atores
relevantes permanecem os mesmos: o grupo de economias dominantes é quase idêntico entre
1870 e 2000, com uma ou outra exceção: ocorre, por exemplo, na Europa, o desaparecimento
do Império Austro-Húngaro, ao mesmo tempo em que na Ásia se confirma a ascensão do
Japão. A Rússia e a China eram economias marginais em escala planetária e assim
permaneceram durante quase todo o período: a União Soviética teve mais importância na
esfera política do que na econômica e o gigante asiático recuperava muito lentamente sua
condição de maior economia do planeta, que o Império do Meio ostentou até o começo do
século XVIII. A Alemanha, que já tinha ultrapassado, em 1900, a economia então dominante,
a da Grã-Bretanha, volta a integrar o pelotão das economias dominantes, apesar de amputada
de cerca da metade de seu território e população e de reduzida à condição de anã política
durante a maior parte do período. Os Estados Unidos, convertidos de grande exportador de
produtos primários em primeira potência industrial na passagem do século, permanecerão
nessa condição, acrescentando, a partir dos anos 30, o título de primeira potência financeira,
ao operar-se, no seguimento da suspensão da conversibilidade da libra em 1931, a passagem
à hegemonia financeira do dólar nos mercados financeiros (capitais para empréstimos e
investimentos diretos). Uma grande diferença, contudo, se manifesta em termos geopolíticos,
pois o movimento de globalização retomado no último terço do século XX é acompanhado
pelo processo de regionalização, destacando-se aqui a formação, consolidação e expansão do
bloco europeu — mercado comum, Comunidade, depois União Européia — mas ele é, de
certa forma, o herdeiro das potências coloniais européias do início do século.
Em que pese à manutenção de um mesmo número definido de atores globais e a persistência
de padrões relativamente similares de produção, comércio e finanças, a economia globalizada
e interdependente do final do século XX apenas aparentemente se assemelha àquela de seu
início, como se verá pela análise histórica mais detalhada que agora se empreenderá. Como
traços distintivos, figuram o aumento das distâncias (em termos de distribuição de renda e
de acesso a bens) entre países, regiões e grupos sociais, assim como o aprofundamento das
fontes de divergência entre as economias de alto desempenho e outras mais atrasadas,
resultante dos diferenciais de produtividade entre elas, o que por sua vez é explicado pela
intensidade de utilização de capital nos diferentes sistemas nacionais, sobretudo daquele tipo
de capital que personifica a própria economia do século XXI, o capital humano.
Transformações da economia internacional na primeira metade do século XX
O capitalismo globalizado e liberal da belle-époque seria transformado a partir dos eventos e
processos deslanchados com a Primeira Guerra: intervenção dos governos na economia,
desafio socialista ao capitalismo, crise de 1929 e depressão dos anos 30, protecionismo
comercial, suspensão da conversibilidade das moedas, desvalorizações cambiais maciças, para
não falar da própria destruição física trazida por dois conflitos de proporções gigantescas. A

151
segunda guerra de trinta anos vivida pela Europa entre 1914 e 1945 transformou a natureza das
relações internacionais tanto quanto a estrutura da economia internacional: ela não apenas
retirou a Europa do comando da política mundial — ao precipitar a hegemonia mundial dos
dois gigantes planetários, como antecipado por Tocqueville — mas também modificou as
bases de funcionamento do capitalismo.
O processo de globalização se viu dificultado pelas crises do entre - guerras, assim como foi
interrompido em todos aqueles países que optaram, voluntariamente ou não, pelo modo
socialista de produção. Esse intervalo seria de setenta anos no caso da Rússia e menos nas
outras experiências de transformação da economia capitalista, mas o impacto real do
socialismo foi bastante pequeno para a economia internacional, quase marginal em termos
de comércio, finanças e investimentos. O fascismo e o nacional-socialismo, embora também
tenham exercido certo impacto econômico nos países dominados por esses regimes no entre
- guerras, representaram, antes, desafios ao liberalismo político, do que implicaram
transformações radicais da economia capitalista. Os regimes corporativistas exacerbaram, é
verdade, o apelo ao nacionalismo econômico e a sistemas produtivos autônomos (autarquia),
mas eles tocaram muito pouco nas bases da propriedade, no sistema de mercado ou nas
relações sociais de produção, como tentou fazer o socialismo. Este apresentou desempenho
relativamente satisfatório nas etapas iniciais do processo de industrialização, mas foi bem
menos eficiente no que se refere à organização agrícola ou na aplicação da inovação
tecnológica aos processos produtivos. O que ele apresentou de admirável nos campos da
pesquisa e desenvolvimento e na aplicação da ciência a problemas da vida real esteve
essencialmente vinculado ao complexo industrial-militar, que era movido mais pela competição
estratégica do que pela necessidade de satisfazer os desejos dos consumidores. Infenso aos
sinais do mercado e aos mecanismos de preços, o socialismo caminhou para a irrelevância
econômica tão pronto encerrada a fase de industrialização pesada e colocou-se a passagem a
sistemas produtivos mais complexos.
Ainda mais autocentrado e autárquico do que as economias comandadas por regimes
fascistas, o socialismo manteve-se — ou foi mantido— à margem da economia mundial.
Esta, estruturada em mercados interdependentes de bens, serviços e fluxos tecnológicos e
financeiros, continuou a funcionar basicamente segundo os mesmos princípios
organizacionais ao longo do século. Ainda assim, os sistemas baseados no planejamento
estatal centralizado exerceram certa influência no pensamento econômico do século XX,
contribuindo para moldar políticas econômicas que tiveram certa ascendência no imediato
pós-guerra, como a indução pública dos investimentos, o controle estatal da oferta de bens
públicos e os novos monopólios nacionais nas esferas de transportes, comunicações, energia,
notadamente. Não obstante, o planejamento indicativo e o controle estatal praticado em
certas economias capitalistas na segunda metade do século foram mais devidos ao legado do
período de guerra, quando setores inteiros da economia possuindo algum significado
estratégico tiveram de ser mobilizados e controlados pelo Estado, do que a algum
compromisso ideológico com os sistemas econômicos de tipo nacional-socialista ou
comunista. Vale lembrar, também, que a suposta herança keynesiana dos anos 30, teve
escassa influência nos padrões de políticas públicas do período anterior à guerra, vindo a
florescer, basicamente, nos sistemas de welfare state do pós-guerra. As mudanças políticas
então introduzidas, no sentido de maior controle governamental sobre o instrumental
macroeconômico (demanda agregada, política fiscal, taxa de juros, movimentos de capitais),
respondiam mais a preocupações de ordem prática dos estadistas, acossados pela memória
da depressão dos anos 30, do que a essas contribuições teóricas do grande pensador
econômico britânico.
Se a economia industrial capitalista retoma, pouco a pouco, o ritmo e os padrões de
crescimento que tinham sido os seus no período anterior às crises econômicas dos anos 30,
em uma área as transformações estruturais se revelariam permanentes e duradouras,

152
influenciando decisivamente as políticas econômicas do pós-guerra: no campo monetário,
onde o rompimento do padrão ouro não daria mais lugar às tentativas canhestras em favor
de seu restabelecimento, como tinha sido o caso nos anos 20 e no início dos anos 30. O
desmantelamento completo dos sistemas de pagamentos na fase da depressão — com o
desenvolvimento alternativo de modalidades de troca e de mecanismos de compensações
entre moedas não conversíveis — e a prática abusiva das desvalorizações cambiais para fins
protecionistas e de competição comercial, alteraram radicalmente o sistema monetário
conhecido até então. Já não haveria mais volta à liberdade de transferência de capitais da
época do padrão ouro e, sobretudo, o controle absoluto que então passou a ser feito pelos
governos centrais sobre as emissões de meio circulante significou a emergência de um
fenômeno que, até essa época, era relativamente ignorado pelos economistas: a inflação.
Expansão e crise da economia internacional no pós-Segunda Guerra
A economia internacional ingressa numa fase de expansão nas três décadas seguintes à
Segunda Guerra, com o aumento do comércio e dos investimentos diretos ultrapassando o
ritmo de crescimento do produto global. Os Estados Unidos, que tinham emergido como a
grande potência econômica no imediato pós-guerra — detendo cerca de 25% do produto e
do comércio mundiais — recuam para posições mais modestas no decorrer do período, à
medida que o Japão e os países europeus retomam os patamares de produção anteriores à
guerra e passam a participar mais ativamente dos intercâmbios globais. O dólar se tinha
convertido, entrementes, em moeda praticamente absoluta nas trocas internacionais, o que
suscitou algumas dúvidas sobre seu real poder de compra, uma vez que o governo americano,
pressionado pelas despesas decorrentes dos encargos militares assumidos no plano mundial
(inclusive com a custosa guerra do Vietnã), passou a emitir em ritmo superior ao crescimento
da produtividade na economia dos EUA.
Uma fase de recessão — de fato estagflação, ao combinar baixo crescimento e pressões
inflacionistas — seria conhecida nos anos 70, com dois choques do petróleo (1973 e 1979)
sucedendo à suspensão da conversibilidade do dólar em ouro (estabelecida em Bretton
Woods em 1944) e se antecipando à crise da dívida na América Latina. Essa crise, iniciada
pela insolvência mexicana de agosto de 1982, logo seguida pela do Brasil no mês de
novembro, atingiria outros países em desenvolvimento em outros continentes. Seria na
América Latina, entretanto, que ela provocaria efeitos mais graves, com uma década de
retrocesso econômico e social. Esse período coincide com a emergência dos mercados
financeiros globais (eurodólares), isto é, a notável expansão dos fluxos de capitais, das
aplicações em bolsas e dos movimentos especulativos sobre as moedas, fenômenos
suscitados tanto pela derrocada do sistema de paridades fixas de Bretton Woods como pela
necessidade de serem reciclados os petrodólares detidos pelos países produtores.
A interdependência aumenta entre as economias capitalistas, mas a liberalização ainda não é
universal, uma vez que subsistiam inúmeros mecanismos de controle estatal nos países em
desenvolvimento (sobretudo no que se refere a movimentos de capitais e monopólios estatais
sobre setores inteiros da economia) e permanecia a alternativa, ou o desafio, mais teórico do
que real, representado pelas economias socialistas. O movimento de globalização seria
retomado nas duas últimas décadas do século XX, ao encerrar-se o intervalo histórico de
desafios socialistas ao modo capitalista de produção e ao serem incorporadas à economia
internacional as últimas terrae incognitae do sistema de mercado: o início dos anos 90
representou assim, não tanto um fim da história mas mais propriamente um fim da geografia.
O impacto da incorporação dos ex-países socialistas aos circuitos da economia internacional
não seria muito grande em termos de produto global (15 %, se tanto, do PIB mundial, dada
sua baixa produtividade) e menos ainda, numa fase inicial, como aumento do comércio
(basicamente produtos primários, já que os manufaturados socialistas tinham competitividade
nula), mas as conseqüências seriam mais relevantes no que tange a divisão internacional do
trabalho, com uma expansão de 35%, aproximadamente, da população economicamente

153
ativa. Esse incremento do exército industrial de reserva se refletiria no aumento da participação
da China nos fluxos de comércio internacional, na medida em que ela (ainda formalmente
socialista) passa a dirigir para o exterior a produção derivada dos investimentos diretos
estrangeiros (grande parte deles da diáspora chinesa no sudeste asiático) que ela passa a
acolher em volume expressivo nos anos 90.
Antes mesmo da terceira onda de globalização manifestar-se como tendência da economia
internacional no último quinto do século XX, novos atores já tinham sido incorporados ao
sistema global de produção mercantil — os novos países industriais ou economias
emergentes —, países da periferia capitalista que lograram desenvolver um sistema industrial
integrado e relativamente competitivo, capaz de fornecer mercadorias a baixo custo e
adaptadas aos padrões industriais dominantes. Esses países — Coréia do Sul, Brasil, México,
Tailândia, além de outros na periferia dinâmica do capitalismo global — combinaram
mecanismos de mercado e de indução estatal para constituir, via substituição de importações
ou integração aos circuitos produtivos das corporações mundiais, sistemas produtivos
performantes e capazes de digerir a moderna tecnologia industrial, ainda que com certa dose
de mimetismo dos modelos avançados de design, de inovação e de marketing.
Esse processo de melhoria qualitativa de sistemas produtivos periféricos não impediu a
continuidade das velhas desigualdades estruturais que sempre caracterizaram a economia
capitalista desde sua emergência mundial, há pelo menos cinco séculos. De fato, a
globalização tende a agravar, num primeiro momento, os padrões de desigualdade regional,
ao selecionar áreas suscetíveis de serem integradas à nova economia planetária — pela oferta
abundante de mão-de-obra assalariável, comunicações baratas, condições institucionais
adequadas — e outras, sequer merecedoras do direito de serem exploradas (países menos
avançados, regiões pobres da África ou da Ásia do Sul). Essa nova fase da globalização
capitalista também coincidiu com o desenvolvimento e a expansão notável dos processos de
integração regional, evidenciados nos exemplos da União Européia, do NAFTA (Acordo de
Livre Comércio da América do Norte) e do Mercosul, ademais de vários outros menos
conhecidos. Esses blocos passaram a dominar grande parte do intercâmbio comercial global,
como agora se verá.
Comércio: liberalismo, protecionismo, Multilateralismo e neoprotecionismo
Os fluxos de comércio explodiram ao longo do século, saindo do quadro dos tratados
bilaterais — com cláusulas condicionais e limitadas de nação-mais-favorecida — para o
âmbito dos acordos multilaterais regidos pelo GATT. Poucas nações, a exemplo da Grã-
Bretanha entre 1856 e a Primeira Guerra Mundial, praticavam o livre comércio, mas as
barreiras tarifárias e não-tarifárias eram bem menos importantes no século XIX do que elas
vieram a ser na passagem para o século XX e, sobretudo, depois da grande crise de 1929.
Depois do protecionismo dos anos 30, o comércio internacional cresceu a ritmos sustentados
no pós-guerra, atuando como um indutor de modernização tecnológica e de ganhos de
competitividade. De fato, o ritmo de expansão do comércio internacional, nesse período,
apresentou taxas consistentemente superiores ao crescimento do produto global,
evidenciando o aumento da especialização, a diminuição dos custos de transportes e uma
estratégia de market sharing por parte das empresas transnacionais.
Elas são, na verdade, as grandes responsáveis, a partir dos anos 50, pelo aumento do
comércio mundial, que, à diferença do início do século, não mais se reduzia à troca de
produtos acabados entre economias nacionais, mas passa a ser cada vez mais dominado pelo
intercâmbio de produtos semi-acabados e de componentes que são exportados, não mais
para países mas para outras firmas, muitas vezes afiliadas ou subsidiárias das primeiras. A
partir do quarto final do século XX, um terço, senão mais, do comércio internacional é
realizado entre as próprias firmas multinacionais, geralmente num sentido Norte-Norte, já
que o comércio Norte-Sul continua a ser dominado por um padrão mais tradicional de trocas,

154
envolvendo matérias primas e commodities contra manufaturados e outros produtos de maior
valor agregado.
Por outro lado, uma parte desse intercâmbio também começou a ser realizado ao abrigo de
sistemas preferenciais, como são os esquemas de integração, seja no formato mais simples
das zonas de livre comércio, seja-nos mais sofisticados de tipo mercado comum ou união
monetária. Esses arranjos econômicos, sancionados ou não pelo sistema multilateral de
comércio regido pelo GATT, começaram a ser feitos, em certa medida, para contornar
obstáculos não-tarifários que passaram a ser erigidos à medida que as rodadas de negociações
multilaterais do GATT foram reduzindo, a níveis geralmente insignificantes, as tarifas
aplicadas a bens industriais pelos países mais avançados. Em determinado momento, o
desarme tarifário deu lugar a discussões sobre obstáculos não-tarifários e outra medidas não
quantificáveis — chamadas de zona cinzenta — cujo impacto cresceu a partir do momento em
que novos competidores agressivos, como os países emergentes da periferia capitalista,
passaram a oferecer uma gama mais ampla de produtos de melhor qualidade nos mercados
mundiais.
O protecionismo comercial pode ser ocasional e sujeito a lobbies setoriais que fazem pressão
pela defesa de empregos em determinadas indústrias — como nos EUA, onde ele geralmente
assume a forma de abusivas medidas antidumping ou dos direitos compensatórios — ou
institucionalizado e sistemático, como no caso da Política Agrícola Comum da União
Européia, baseada em mecanismos complexos de proteção à produção local — via subsídios
à produção e restrições quantitativas, como quotas e picos tarifários contra as importações
— complementada pela competição desleal no comércio externo, mediante subvenções
ilegais às exportações. Geralmente aplicado ao setor agrícola ou no caso de algumas
indústrias tradicionais não competitivas — siderúrgicas, têxteis, calçados —, o
neoprotecionismo dos países desenvolvidos subtrai aos países emergentes e em
desenvolvimento o benefício que eles poderiam retirar do comércio exterior enquanto fator
indutor de crescimento e de transformação estrutural de suas economias.
Alguns mecanismos compensatórios foram desenvolvidos a partir dos anos 50 e, sobretudo,
nos 60 para integrar de forma mais completa os países em desenvolvimento na economia
mundial. Eles se manifestam no sistema geral de preferências – pelo qual os países
industrialmente avançados fazem concessões tarifárias àqueles menos avançados, sem exigir
compensações — e em alguns acordos concessionais que tendem a reproduzir antigas
relações de dependência formalmente abolidas com a descolonização. A Conferência das
Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento — UNCTAD — tentou consagrar, nos
anos 60 e 70, formas mais avançadas de relacionamento comercial, financeiro e tecnológico
entre países ricos e pobres que pudessem institucionalizar, por meio de acordos multilaterais,
o princípio do tratamento diferencial e mais favorável em favor dos últimos, mas os
primeiros sempre manifestaram preferência por arranjos mais flexíveis, caracterizados pela
concessionalidade unilateral e seletiva (inclusive do ponto de vista político). Práticas
discriminatórias e modalidades pouco transparentes de acesso a mercados continuam,
portanto, a marcar o comércio internacional, a despeito do grande progresso que se logrou
quando, a partir do final da Rodada Uruguai de negociações comerciais multilaterais, se
passou, em 1995, do regime mais permissivo do GATT – 1947 para os mecanismos mais
estritos do GATT – 1994 e da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Não obstante, o tratamento discriminatório se manifesta sobretudo sob a forma dos
esquemas de integração, geralmente entre países vizinhos. Os blocos regionais de comércio
adotam como ponto de partida a contiguidade geográfica para desenvolver mecanismos
preferenciais de acesso aos mercados dos países membros, mas a maioria limita-se a
esquemas pouco elaborados, ao estilo das zonas de livre comércio como o NAFTA (embora
este contemple arranjos reforçados em serviços, investimentos e propriedade intelectual).
Alguns blocos comerciais avançam a ponto de se converter em mercados comuns (como

155
pretende ser o Mercosul, que ainda precisa completar sua união aduaneira) e apenas um, a
União Européia, consolidou seu mercado comum e deu passos decisivos para converter-se
em união econômica e monetária, tendo adotado inclusive uma moeda comum, o euro.
Os blocos comerciais tornaram-se importantes atores da economia internacional,
justificando-se que a OMC tenha decidido instituir, um ano após sua criação, um comitê
dedicado a monitorar suas atividades, de maneira a assegurar que esses arranjos — que, por
sua natureza discriminatória, podem desviar fluxos de intercâmbio — preservem a
compatibilidade com as regras do sistema multilateral. Em todo caso, na passagem do século
XX para o XXI, o processo de liberalização comercial poderia ser impulsionado tanto pelas
rodadas multilaterais administradas pela OMC, cuja estrutura é formalmente igualitária, como
pelos mecanismos geograficamente restritos dos blocos comerciais.
Dentre estes, o Mercosul — uma bem sucedida experiência político-econômica e o mais
importante esquema de integração entre países em desenvolvimento — estava ameaçado de
ser colocado numa situação de diluição comercial antecipada sob pressão da ALCA (Área de
Livre Comércio das Américas), projeto envolvendo todo o hemisfério (com exceção de
Cuba) sob a liderança nem sempre bem aceita dos EUA. Criado pelo Tratado de Assunção
de 1991, o Mercosul juntou numa mesma união aduaneira — com a perspectiva de se avançar
para um mercado comum — as economias da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai,
aos quais se associaram, mediante um acordo de livre comércio de 1996, o Chile e a Bolívia.
Como resultado de uma reunião de chefes de Estado dos países da América do Sul em
Brasília, em setembro de 2000, negociações estavam sendo travadas para a conformação de
um espaço econômico integrado nesse continente até 2005, unindo os países do Mercosul e
os da Comunidade Andina.
Os Investimentos Estrangeiros Diretos (IDE), por sua vez, se converteram, junto com o
comércio, numa das principais fontes de crescimento econômico, associados que são, como
sempre foram, aos fluxos privados de tecnologia e de know-how, sob a forma de licenciamento
de patentes e de segredos comerciais. De fato, diminuídas as prevenções nacionalistas e as
tendências estatizantes em muitos países periféricos, eles também foram sendo gradualmente
incorporados aos fluxos crescentes de IDE em proveniência majoritária das potências
industriais avançadas. A China, particularmente, mas também o Brasil converteram-se, nos
anos 90, em principais recipiendários dessas correntes de IDE, que carecem de mecanismos
regulatórios no âmbito da OMC ou de outro organismo. Uma tentativa de se negociar um
acordo multilateral sobre investimentos na OCDE — um foro de coordenação e cooperação
econômica congregando as principais economias industrializadas — revelou-se infrutífera,
em 1998, permanecendo esse campo carente de instrumento que discipline direitos e
obrigações de investidores e países recipientes, à exceção de acordos bilaterais e de alguns
plurilaterais (como no âmbito do Mercosul).
Finanças: padrão ouro, padrão ouro-dólar e flutuação generalizada de moedas
Se o comércio internacional caminhou no sentido de sua institucionalidade, as finanças, por
sua vez, abandonaram os mecanismos informais do padrão ouro, cuja moeda central era a
libra esterlina, para ingressar numa fase de padrão ouro-dólar, seguida, a partir dos anos 70,
pela flutuação generalizada das moedas, com a preservação do predomínio do dólar
(desafiado, na fase recente, pelo surgimento do euro). De fato, o mundo passou de uma
situação de relativa previsibilidade quanto à paridade relativa das moedas, muitas das quais
eram plenamente conversíveis em ouro no início do século, como a libra virtualmente
hegemônica, para uma situação de instabilidade depois da Primeira Guerra, temperada por
tentativas de restabelecimento do padrão anterior, e daí para o caos monetário dos anos 30,
quando tiveram início restrições unilaterais de toda ordem que agravaram desmesuradamente
o protecionismo comercial então em voga.
No plano monetário, se tenta um acordo formal no sentido da estabilização das paridades
cambiais, com base no padrão ouro-dólar, fixado em Bretton Woods (1944) à taxa de 35

156
dólares por onça de ouro, valor de referência para todas as demais moedas. Esse regime de
paridades fixas, mas ajustáveis, administrado pelo Fundo Monetário Internacional,
funcionou, se tanto, por duas décadas, tendo sido marcado, no início, por desvalorizações
não autorizadas de moedas importantes (como o franco e a libra, então sob pressão das
conjunturas inflacionárias de reconstrução) e, no final, pela suspensão informal da conversão
do dólar em ouro, logo seguida pela decretação unilateral da inconversibilidade e da alteração
da taxa de referência (1971). O mundo ingressou então num não-sistema financeiro internacional,
marcado pela flutuação recíproca das moedas e, de fato, pela anarquia cambial, com intensos
movimentos especulativos contra determinadas moedas, a ponto de suscitar mecanismos de
intervenção nos mercados pelos bancos centrais dos países mais importantes.
O FMI perdeu, em 1973, sua jurisdição para administrar paridades cambiais, sem ter
adquirido a responsabilidade sobre os movimentos de capitais, mas viu reforçada sua
capacidade de realizar intervenções financeiras para corrigir desequilíbrios temporários de
balança de pagamentos, mediante a criação de novos instrumentos de liquidez, dentre eles o
DES — Direito Especial de Saque — uma moeda contábil que pode cumprir o papel
temporário de linha de crédito monitorada. Sendo uma companhia por ações e não um
organismo formalmente igualitário como a OMC, as políticas do Fundo são de fato
determinadas por seus acionistas principais, basicamente os países que compõem o G-7, o
foro de coordenação das economias mais avançadas do planeta. Muitos mitos se criaram em
torno das políticas de ajuste rigoroso do FMI — que impõe uma espécie de cura de
emagrecimento forçado em caso de desequilíbrios externos e de graves desajustes fiscais —
mas o fato é que esses programas de estabilização dependem em grande medida da adesão
voluntária dos países interessados nessas linhas de crédito temporárias, uma vez que as
alternativas disponíveis — recessão ainda mais brutal, perda de credibilidade externa e
descontrole inflacionário — poderiam revelar-se ainda piores. Por outro lado, à medida que
avançou a globalização financeira, a proporção dos recursos colocados a disposição do FMI
pelos países membros revelou-se insuficiente para compensar movimentos por vezes
desestabilizadores provocados por fluxos substanciais de capitais voláteis e pelo volume
significativo alcançado pelas especulações cambiais.
Os capitais de risco e de empréstimo perderam a liberdade de movimentos da fase do padrão
ouro (durante a qual a totalidade dos créditos era de fontes privadas) para um ciclo de
restrições e de controles nacionais, seguido do surgimento, em Bretton Woods e nas duas
décadas seguintes, de mecanismos multilaterais de financiamento público, como o Banco
Mundial (1945) e os bancos regionais (BID, BAD, BASD, nos anos 60). Geralmente
vinculados a projetos de infra-estrutura — mas crescentemente também a programas de
cunho social —, os financiamentos dos organismos multilaterais de crédito permitiram suprir
as necessidades de alguns países numa conjuntura (do final dos anos 40 aos 60) na qual eram
poucas as fontes de capitais voluntários de caráter comercial para esse tipo de investimento
de maturação mais demorada. Para as economias mais pobres, como os novos Estados saídos
da descolonização em 1960, foram criados mecanismos e instituições (como a AID,
vinculada ao Banco Mundial) que passaram a oferecer a esses países empréstimos altamente
concessionais, a custos moderados (praticamente sem juros e a prazos mais longos) e
complementados por assistência técnica na formulação dos projetos.
Reconstituída a economia dos países centrais no início dos anos 60, volta à oferta financeira
privada, desta vez não mais a juros fixos (como na época do padrão ouro), mas flutuantes,
como correspondência a um ciclo econômico que passou a conviver com a inflação. Em
poucos anos, seguindo-se ao levantamento das restrições aos pagamentos correntes e de
muitas modalidades de transferência de capitais, ocorreu uma verdadeira explosão dos fluxos
comerciais de crédito nos anos 70 (com a reciclagem de petrodólares, a criação de títulos
cambiais a partir do novo regime de flutuação, a diversificação dos mercados de futuros e
derivativos), no quadro da internacionalização do sistema bancário. As tentativas de controle

157
das variações entre as moedas por meio da cooperação voluntária entre os principais
protagonistas do mundo desenvolvido — introdução de bandas restritas a partir de 1979, no
Sistema Monetário Europeu, ou a coordenação de políticas financeiras pelas autoridades
monetárias do G-3 (EUA, Japão e Alemanha) ou do G-5 (mais o Reino Unido e a França),
logo convertido em G-7 (com o ingresso da Itália e do Canadá) — não produzirão nenhum
resultado apreciável em termos de disciplina cambial e os mercados financeiros continuarão
a se expandir de maneira mais ou menos anárquica durante toda a década de 80.
Depois de alguns anos de relativa euforia nos mercados bursáteis, com a recuperação das
principais economias desenvolvidas da estagflação dos anos 70, o mundo voltou a conhecer,
em 1987, os sobressaltos típicos das fases de turbulências financeiras do capitalismo. A queda
nos títulos cotados em bolsas chegou a alcançar 22% num único dia de outubro desse ano,
sinalizando para uma possível repetição da crise de 1929. Não foi porém o que ocorreu, a
despeito de tremores localizados nas economias centrais, e os mercados de futuros e o velho
jogo de especulação nas bolsas conheceram novos patamares de valorização nos mercados
acionários dos anos 90. Os mercados cambiais, em especial, tiveram uma expansão sem
precedentes na história do capitalismo financeiro. As variações extremamente significativas
das moedas no decorrer dos anos 80 não corresponderam exatamente a variações nos ciclos
econômicos nacionais, mas mais propriamente ao desenvolvimento extraordinário dos
mercados financeiros, com diversos mecanismos de hedge e de derivativos que aumentaram
o volume — e a fragilidade — do dinheiro circulando diariamente no sistema financeiro.
Ocorreram mudanças relevantes no sistema, desde a oferta de crédito institucional dos anos
1960 — dominada basicamente pelos bancos de desenvolvimento — até os derivativos dos
anos 90, passando pelo mercado de eurodólares dos anos 60 e os syndicated loans dos anos 70
e 80. As crises e contrações do mercado financeiro estiveram associadas às situações de
inadimplência temporária de grandes devedores: países emergentes da Ásia e da América
Latina (como o México), economias ainda socialistas como Polônia, Alemanha Democrática
e Hungria, tigres asiáticos nos anos 90.
As sucessivas crises financeiras internacionais que tiveram início no México em 1994-95,
abalaram a Ásia a partir de meados de 1997, estenderam-se em 1998 à Rússia e logo em
seguida ao Brasil, constituíram uma repetição daquela série histórica que o economista-
historiador Charles Kindleberger chamou de "pânicos, manias e crashes" do capitalismo, desde
sua irresistível ascensão em meados do século XIX até sua atual preeminência enquanto
modo de produção praticamente universal. Os fluxos de capitais voláteis foram identificados
com essas graves crises financeiras, produzindo efeitos devastadores para países fragilizados
por desequilíbrios fiscais ou por problemas de balança de pagamentos. Era o caso do Brasil,
que a partir de 1997 e particularmente após a decretação da moratória pela Rússia, em agosto
de 1998, assistiu a saídas maciças de capitais de curto prazo e a uma diminuição espetacular
do volume de crédito voluntário oferecido pelas instituições privadas. Para controlar seus
efeitos, montou-se um pacote de tipo preventivo aplicado em caráter inédito com a
cooperação conjunta das autoridades do G-7, do FMI e do Governo brasileiro. O acordo
concluído com o FMI em outubro de 1998 (revisto em fevereiro de 1999, no seguimento da
desvalorização do Real) permitiu a liberação de um pacote de ajuda global de mais de 41,5
bilhões de dólares, dos quais o Brasil chegou a utilizar a metade e reembolsou a maior parte
do devido em abril de 2000.
A globalização capitalista e as desigualdades estruturais entre países e sociedades
A globalização capitalista revigorada do final do século XX trouxe, provavelmente, mais
riqueza material e progressos sociais do que jamais ocorreu em fases precedentes da
economia mundial, mas ela dá nitidamente a impressão de estar associada ao crescimento das
desigualdades dentro dos países e entre as regiões, o que não foi ainda confirmado por
estudos especializados. Parece um fato que as tendências da economia mundial nesse século
foram mais no sentido do aprofundamento das divergências entre as economias nacionais

158
do que na direção da convergência esperada pela maior parte dos economistas. Em outros
termos, as nações que já eram relativamente ricas em 1900 tornaram-se ainda mais afluentes
em 2000, enquanto que as menos avançadas progrediram igualmente, mas em menor escala
e menos rapidamente do que as primeiras.
A tendência das últimas décadas do século XX confirma o aumento das diferenças entre
nações desenvolvidas e países em desenvolvimento, assim como das desigualdades no acesso
a bens e a distância acumulada entre os rendimentos dos grupos sociais. Deve-se lembrar,
preliminarmente, que o aprofundamento das defasagens entre regiões e entre os estratos
sociais já estava em curso no período anterior à aceleração da globalização.
A evolução, no que tange às regiões, teve menos a ver com o chamado intercâmbio desigual—
uma vez que várias economias periféricas, entre elas o Japão, a Coréia, o próprio Brasil e
mais recentemente a China, conseguiram diminuir a defasagem — e mais com a estruturação
material das sociedades e economias, seu substrato humano (em termos de educação e
capacitação profissional), o meio ambiente institucional (estabilidade das regras, respeito aos
contratos, segurança dos direitos de propriedade contra práticas abusivas de extração de renda
pelo Estado ou por grupos de interesse) e a intensidade de vínculos com a economia
internacional, de onde provêm os estímulos à competição e os ganhos de produtividade e de
know-how, mediante transferências diretas e indiretas de tecnologia. Os diferenciais de renda,
que se acentuaram nas duas últimas décadas do século XX, foram mais devidos às diferenças
de produtividade entre as economias do que ao próprio movimento da globalização.
De fato, estudos econométricos tendem a demonstrar que a decalagem entre os países ricos
e os pobres no século XX pode ser explicada, antes de mais nada, pelos diferenciais de
produtividade entre economias nacionais, apresentando diferentes ritmos históricos de
desempenho relativo e ostentando fontes diversas de crescimento. À medida que os países
se afastam das estruturas uniformemente agrícolas de um passado não muito distante, a
amplitude do leque entre as economias de serviços de inteligência — e portanto de alta renda
— e as simples economias agrícolas de subsistência ou de exportação de produtos primários
tende naturalmente a aumentar. Estas últimas, no entanto, são mais pobres hoje não em
virtude da globalização — que tende a mobilizar recursos e, portanto, a distribuir renda em
escala planetária — mas a despeito dela, e mais precisamente em virtude de deficiências de
crescimento e na administração de suas políticas econômicas nacionais e setoriais (políticas
agrícola, industrial, de ciência e tecnologia etc.), que as levaram a marcar passo, quando não
a regredir (como no caso da África), na luta competitiva do capitalismo global.
Na maior parte das vezes, a questão da distância entre níveis absolutos de riqueza se reduz a
um simples problema de ritmos de crescimento sustentado. Quando o Brasil cresceu a taxas
sustentadas nos anos 1950 a 70, a distância em relação ao PIB dos EUA diminuiu: entre 1957
— data decisiva no processo de modernização brasileira, com a implantação da indústria
automobilística — e 1986, a expansão do PIB brasileiro foi de 594,9%, contra um aumento
acumulado de apenas 150,4% para o PIB dos EUA. Em conseqüência, a distância que
separava o PIB per capita brasileiro do americano se viu encurtada. Em contraste, a
diminuição do crescimento na década seguinte fez com que a distância fosse novamente
alongada, considerando-se também o crescimento sustentado da economia americana nos
anos 90. Em termos de paridade de poder de compra – uma medida mais adequada para se
estimar a riqueza relativa das economias – as distâncias diminuíram dramaticamente, por
exemplo, entre a China e os Estados Unidos nas últimas duas décadas do século XX, em
vista do crescimento sustentado e das altas taxas que o gigante asiático apresentou desde o
início das reformas, tendentes a aproximar a economia chinesa das regras de mercado e do
sistema internacional (demanda de ingresso na OMC). A Índia, menos populosa, mas
reconhecidamente capitalista em face de uma China ainda formalmente socialista, realizou
menos progressos em termos de crescimento per capita, provavelmente por ter seguido uma
estratégia menos globalizada.

159
A globalização capitalista do século XX não teve como missão histórica provocar uma
homogeneização entre os povos e países, muito embora ela possa fazê-lo no longo prazo, no
nível da estrutura produtiva e dos perfis laborais, em um ritmo provavelmente mais medido
em termos de gerações humanas. A missão econômica da globalização foi a de produzir
maior quantidade de bens a custos continuamente mais baixos, no que se deve reconhecer
sua tremenda eficiência relativa, maior em todo caso do que os sistemas econômicos
baseados na alocação administrativa de recursos. Se grande parte desse processo — isto é,
volumes crescentes de comércio de mercadorias, de intercâmbio de serviços e de
investimentos recíprocos — se deu preferencialmente entre os próprios países desenvolvidos
e com uma gama reduzida de países emergentes, isso não derivou de nenhuma discriminação
a priori contra certos povos ou nações, mas tão simplesmente em função da equação custo-
oportunidade, conhecida dos economistas: alguns países, por razões de soberania nacional,
colocaram-se voluntariamente à margem do processo de globalização, aumentando o lado
do custo em relação aos ganhos de oportunidade.
No que se refere, por outro lado, à concentração de rendas no interior dos países, cabe
lembrar que as variáveis desse processo são muito mais amplas do que a simples exposição
de um país à interdependência global e que o Brasil, por exemplo, tornou-se um campeão
das desigualdades sociais numa fase de notório fechamento externo da economia e de
acirrado protecionismo comercial. O coeficiente de Gini (medida da concentração de renda)
já era bastante elevado — em comparação com países apresentando níveis similares de
desenvolvimento — quando o Brasil vivia em relativo isolamento econômico, com uma
autonomia produtiva de cerca de 95% e uma tarifa alfandegária média de 45%.
São poucos ou relativamente escassos, para não dizer inexistentes, os estudos consistentes –
isto é, possuindo um certo recuo de tempo – que permitam tirar conclusões positivas ou
definitivas a esse respeito, ou seja, fornecendo evidências empíricas que demonstrem
cabalmente algum tipo de vínculo estrutural entre a marcha da globalização e o aumento das
desigualdades sociais ou setoriais. Outras variáveis, que não apenas a liberalização comercial
ou a inserção nos circuitos globais, estão em jogo nos recentes processos comprovados de
aumento da concentração de rendas, como nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, os dois
exemplos mais notórios de políticas liberais, que teriam conduzido a um maior nível de
concentração de renda nos estratos mais abastados da população. Dentre essas variáveis, que
precisariam ser computadas nos estudos de avaliação do impacto da globalização, figuram,
por exemplo, a extensão e a cobertura das políticas domésticas com impacto social indireto
(saúde, educação, habitação etc.) ou direto na área distributiva (alocações sociais,
progressividade tributária), que muitas vezes independem do grau de abertura da economia
para produzirem efeitos eventualmente nefastos do ponto de vista da distribuição dos
rendimentos.
A estrutura institucional da economia internacional no século XX
A história institucional da economia mundial desde o século XIX é, basicamente, uma
história das organizações intergovernamentais de cunho cooperativo nos terrenos da
regulação industrial (patentes, normas técnicas, pesos e medidas), dos transportes e
comunicações (uniões telegráfica, postal, de ferrovias), do comércio (tarifas, direito
comercial), bem como no campo das questões sociais (liga contra o trabalho escravo, oficina
internacional do trabalho), jurídicas (corte permanente de arbitragem, tribunal internacional
de justiça), de higiene pública, de direitos humanos ou da educação e pesquisa. As uniões ou
organizações concebidas a partir da segunda Revolução Industrial — a primeira foi a União
Telegráfica Internacional, em 1865 — prosperaram desde então, contribuindo decisivamente
para impulsionar a chamada governança global a partir de meados do século passado até o
surgimento da mais jovem dentre elas: a Organização Mundial do Comércio, que começou a
funcionar em 1995.

160
Essas entidades intergovernamentais ajudaram a criar mercados mundiais para os bens
manufaturados por meio do estabelecimento de melhores meios de comunicações (uniões
postal e telegráfica) e da interconexão física dos transportes (escritórios de ligações
ferroviárias ou marítimas), pela proteção da propriedade intelectual (união de Berna sobre
direito autoral) e industrial (união de Paris para a propriedade industrial) e através da redução
das barreiras ao comércio (união para a publicação das tarifas, escritório de cooperação
aduaneira). O comércio se fazia ao abrigo dos acordos bilaterais de "comércio, amizade e
navegação", que geralmente continham a cláusula de nação-mais-favorecida (NMF), mas
muitas vezes sob a forma condicional e restrita, o que certamente suscitou a necessidade de
sua uniformização multilateral, obtida tão somente a partir do GATT – 1947 . A sede dessas
organizações era, na maior parte dos casos, na Europa, simplesmente porque as potências
européias controlavam, até a primeira metade do século XX, a maior parte do mundo
civilizado (e o não civilizado).
Paralelamente ao trabalho burocrático desses organismos de cooperação, eram realizadas
todo ano, de forma ad hoc ou institucionalizada, centenas de conferências, européias ou
mundiais, constituindo um verdadeiro sistema global de consulta e de coordenação entre
representantes de governos e de entidades associativas de empresários, que definiam, assim,
a agenda econômica mundial. No plano financeiro, os capitais circulavam livremente durante
a era clássica do laissez-faire e as transações bancárias e com ouro não conheciam restrições
de monta até o final da belle-époque, o que facilitava a interdependência dos mercados
capitalistas e dispensava qualquer organismo para intermediar as relações entre os bancos
centrais. Ainda assim, no período anterior à Guerra, foram realizadas conferências para a
unificação de letras de câmbio e cheques.
A Primeira Guerra destruiu os fundamentos dessa ordem liberal, introduzindo em seu lugar
o protecionismo comercial e restrições dos mais diversos tipos aos fluxos de bens, serviços,
capitais e pessoas. Alguns acordos de matérias-primas negociados nessa fase buscaram
amenizar os desequilíbrios entre a oferta e a procura de determinados bens, mas eles tiveram
escasso sucesso em sua implementação. As cláusulas econômicas da paz de Versalhes e as
instituições por ela criadas (a Liga das Nações e a Oficina Internacional do Trabalho)
tentaram reduzir o potencial de conflitos embutido no sistema discriminatório então
existente, baseado nos sistemas coloniais de reservas de mercado e de preferências tarifárias.
A taxa de mortalidade do Multilateralismo econômico foi relativamente alta: um terço das
uniões criadas a partir da segunda metade do século XIX não sobreviveu à Primeira Guerra
Mundial e apenas a OIT cresceu para ser absorvida depois da Segunda Guerra por um
sucessor mais forte. As uniões relativas à infra-estrutura, à indústria, à propriedade intelectual
e ao comércio sobreviveram, muito embora algumas tiver seu potencial diminuído com o
desaparecimento de alguns de seus patrocinadores (reis e príncipes).
Com a ascendência do nacionalismo econômico e do princípio da auto-suficiência, poucas
entidades intergovernamentais foram criadas: o Instituto Internacional de Refrigeração
(1920) e os escritórios internacionais de epizootias, da uva e do vinho (ambos em 1924) e de
feiras e exposições (1931). Em 1930 era criado o Banco de Compensações Internacionais,
com sede na Basiléia, mas, longe de ser um organismo multilateral, ele estava voltado para
administração das dívidas de guerra da Alemanha. O período de entre - guerras foi incapaz
de restabelecer as condições de uma ordem internacional aceita por todos os parceiros,
sobretudo em virtude de atitudes defensivas por parte de algumas potências européias e o
prosseguimento de políticas coloniais. No terreno do comércio, uma conferência da Liga das
Nações, em 1927, tentou converter esforços bilaterais e unilaterais de liberalização em um
tratado de redução multilateral de tarifas, segundo o princípio NMF, mas o tratado recebeu
muito poucas ratificações para entrar em vigor, inclusive porque os EUA, que não faziam
parte da Liga e também aderiam ao nacionalismo econômico, não reduziram
substancialmente suas tarifas.

161
A crise dos anos 1930 e a depressão que se seguiu bloquearam qualquer solução cooperativa
para os problemas do comércio mundial de bens e dos fluxos de pagamentos. As políticas
de exportação do desemprego, de desvalorizações competitivas, bem como os sistemas
discriminatórios de intercâmbio (muitos deles baseados na compensação estrita) e de
controle de capitais mergulharam a maior parte do sistema capitalista numa das piores crises
já conhecidas em sua história econômica. Ao reunirem-se, ainda durante a segunda guerra,
as potências aliadas buscaram reconstruir em novas bases a ordem econômica internacional,
reduzindo o grau de bilateralidade discriminatória em favor de um sistema tanto quanto
possível multilateral, dotado de regras transparentes e não-discriminatórias e aberto à adesão
contínua de um número cada vez mais amplo de parceiros, desenvolvidos ou em
desenvolvimento.
A histórica econômica mundial, de Bretton Woods a Marraqueche (criação da OMC),
constituiu um itinerário bastante imperfeito em busca desses ideais, num processo permeado
por ensaios e erros, por tentativas e frustrações em torno dos princípios da reciprocidade, do
tratamento nacional e da cláusula da nação-mais-favorecida. Os interesses nacionais — e
dentro deles os interesses de grupos econômicos dominantes —, assim como o grau
diferenciado de desenvolvimento industrial dos países participantes do sistema econômico
multilateral conjugaram-se para diminuir substantivamente o cenário ideal desenhado no
final da Segunda Guerra. No decurso do meio século que se seguiu, a agenda econômica
mundial passou por diferentes etapas e processos de estruturação, densificação e de aumento
da participação de atores individuais ou coletivos (espaços de integração), trazendo as
relações econômicas internacionais do plano predominantemente bilateral no qual ela se
situava no período entre - guerras para o âmbito cada vez mais disseminado das negociações
multilaterais.
A partir da conferência de Bretton Woods (julho-agosto de 1944), que decide a criação do
Fundo Monetário Internacional e do Banco Internacional de Reconstrução e
Desenvolvimento, o processo de aprofundamento do Multilateralismo econômico se
desdobra igualmente em Chicago (dezembro de 1944: Organização da Aviação Civil
Internacional) e no Quebec (1945: Organização para a Alimentação e Agricultura), bem
como nas várias conferências do pós-guerra em capitais européias e em cidades norte-
americanas (1946-47), preparatórias à conferência sobre comércio e emprego de Havana
(1947-48), que deveria completar o tripé institucional concebido em Bretton Woods,
acrescentando uma organização dedicada exclusivamente ao comércio às entidades já criadas
para os aspectos monetário (FMI) e financeiro (BIRD). A emergência de novos instrumentos
e instituições multilaterais de caráter econômico se deu durante as três décadas seguintes —
reforma do GATT, surgimento da UNCTAD e do PNUD (Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento), criação da Organização das Nações Unidas para o
Desenvolvimento Industrial (ONUDI) e de diversos outros foros para inserir os países
menos avançados na economia mundial —, culminando com a própria tentativa de
estabelecimento, pelos países em desenvolvimento, de uma nova ordem econômica internacional.
As grandes mudanças nos cenários político e econômico mundiais, nos anos 80 e 90, com a
fragmentação política do chamado Terceiro Mundo, a emergência da Ásia e a derrocada
econômica do mundo socialista, acarretaram situações inéditas do ponto de vista das relações
internacionais, sobretudo em sua vertente econômica.
O sempre crescente número de participantes tornou complicada a obtenção de um mínimo
de consenso em matérias dotadas de evidente complexidade substantiva, razão pela qual
muitos setores da atividade econômica permaneceram à margem de qualquer regulamentação
multilateral (como os investimentos, por exemplo). Em 1944-45, meia centena de países, se
tanto, se reuniam para constituir as principais organizações do pós-guerra, em Bretton
Woods e em São Francisco, para a constituição do FMI-BIRD e da Organização das Nações
Unidas, respectivamente. O GATT começou a funcionar com apenas oito ratificações,

162
dentre os 23 países que participaram, em 1947, das primeiras negociações comerciais
multilaterais. No final do século XX, duas centenas de países integravam o sistema da ONU,
ao passo que a conclusão da Rodada Uruguai de negociações comerciais, em Marraqueche,
era assinada por mais de 115 representantes de partes contratantes ao GATT.
A OMC se constituiu, em 1995, com mais de 120 países membros, ao passo que sua
antecessora histórica, a Organização Internacional do Comércio, aprovada por 53 países
participantes da Conferência sobre Comércio e Emprego de Havana (1947-48), tinha
recolhido, três anos depois, não mais do que duas ratificações, o que inviabilizou por
completo sua entrada em vigor. O velho GATT de 1947 contava com um punhado, se tanto,
de países em desenvolvimento, que sequer participaram das primeiras rodadas de redução
tarifária. Ao reclamarem, em princípios dos anos 60, a incorporação de uma vertente
dedicada ao desenvolvimento na agenda comercial internacional, esses países se agruparam
no que ficou conhecido como o Grupo dos 77, logo integrado por mais de 120 países.
Em meados do século XX, a agenda econômica internacional era dominada por um punhado
de países — um grupo não muito diferente do atual G-7 —, à exclusão dos que então tinham
optado, voluntariamente ou não, pela economia centralmente planificada e daquelas zonas
econômicas que conformavam a periferia formal e informal das potências colonizadoras. Em
Bretton Woods, por exemplo, atuaram basicamente os Estados Unidos e o Reino Unido,
que se opuseram mais intensamente entre si do que o fizeram os interesses ocidentais àqueles
representados pela então União Soviética. Esta tinha participado da conferência de Bretton
Woods e se viu atribuir um poder de voto em total desproporção com sua importância
econômica mundial ou sua participação no comércio e nas finanças internacionais. Ainda
assim, a URSS recusou-se a ingressar nas entidades capitalistas e permaneceu, junto com a
China e outros países comunistas, à margem da maior parte dos organismos econômicos
multilaterais do pós-guerra. Em contraste, para discutir o impacto e os desafios trazidos pela
crise financeira asiática de 1997-1998, o G-7 (que já tinha incorporado a Rússia em suas
discussões políticas desde 1992) convidou outros quinze países emergentes — ex-socialistas
e em desenvolvimento — para participar de um foro informal que logo evoluiu para o G-20
(do qual faz parte o Brasil), cuja agenda de debates não difere muito daquela que é conduzida
pelo FMI.
Se for verdade que, em princípios do século XXI, essa agenda continua de certa forma a ser
dominada, como no século XIX, pelos interesses das economias mais avançadas — o diretório
econômico do G7 —, o processo decisório tornou-se bem mais complexo, ou pelo menos mais
participativo, talvez em virtude da convergência conceitual em torno dos princípios da
economia capitalista. O conteúdo temático e o alcance das negociações se ampliaram
dramaticamente para setores regulatórios cada vez mais extensos e substantivos (como o
meio ambiente, por exemplo), fazendo com que a normatividade internacional penetrasse
em campos de intervenção econômica antes restritos à soberania exclusiva dos Estados
nacionais.
A despeito de uma configuração basicamente liberal apresentada pela ordem econômica
internacional no século XIX e, inversamente, das tendências fortemente estatizantes,
intervencionistas e protecionistas observadas no século XX, assim como das tentativas
frustradas de construção de uma nova ordem econômica internacional no período recente, deve-se
enfatizar a crescente interdependência do mundo econômico contemporâneo. A revolução
industrial, agora em sua terceira geração, chegou à periferia, alterou radicalmente fluxos de
intercâmbio de bens, serviços e capitais e continua produzindo grandes modificações nos
padrões de distribuição da riqueza e da tecnologia proprietária em nível mundial. Certamente
que, em termos de poder e dinheiro, a oligarquia econômica mundial não é muito diferente hoje
do que ela era em meados ou finais do século XIX, mas novos atores entram em cena — as
chamadas economias emergentes — e os termos do intercâmbio global não reproduzem mais

163
necessariamente, pelo menos para alguns desses atores, o tradicional padrão Norte-Sul de
trocas entre bens primários e produtos manufaturados.
Mais importante ainda, uma fração crescente do poder regulatório internacional deixou a esfera
puramente bilateral das relações entre Estados soberanos para concentrar-se cada vez mais
no seio de organizações intergovernamentais dotadas de staff técnico capacitado para lidar
com os complexos problemas da agenda econômica internacional. É evidente que o poder
real de propor, negociar e implementar medidas efetivas de acesso a mercados ou normas
disciplinadoras das relações econômicas internacionais permanece e permanecerá com os
Estados individuais, mormente com os mais poderosos dentre eles. Mas não resta dúvida
que a emergência do Multilateralismo econômico no século XX representa um enorme
avanço sobre a era dos tratados desiguais do século XIX.

Fontes e referências bibliográficas


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Revista Brasileira de Política Internacional


Print version ISSN 0034-7329
Rev. bras. polít. int. vol.44 no.1 Brasília Jan./June 2001
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-73292001000100008
PRIMEIRA INSTÂNCIA
A economia internacional no século XX: um ensaio de síntese
Paulo Roberto de Almeida
Doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas. Diplomata de carreira, Ministro-
Conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington

CONTINUAÇÃO:

Globalização e regionalização

O desfecho da Segunda Guerra Mundial descortinou um panorama radicalmente novo


na economia capitalista mundial. A Europa ocidental e o Japão, arrasados pelo conflito,
dependiam profundamente das exportações americanas, ao mesmo tempo em que careciam
desesperadamente de dólares para fazer frente a essas necessidades comerciais. Os Estados
Unidos, ao contrário, emergiam como credores isolados do mundo capitalista, contando com
uma economia, dinamizada pelo esforço de guerra, que conhecia taxas inéditas de crescimento.
Esse panorama impunha uma reorganização do mercado mundial capitalista que formalizasse
a nova posição dos Estados Unidos como vértice da economia ocidental.

165
No verão de 1944, reuniu-se nas cercanias de Washington a Conferência de Bretton
Woods, destinada a estabelecer as novas regras do jogo monetário, comercial e financeiro
internacional. Reconhecendo a nova realidade mundial, os acordos de Bretton Woods
substituem o antigo padrão-ouro, que regulava as trocas internacionais, por um novo padrão,
conhecidos como padrão dólar-ouro.
Segundo a nova regra, o dólar passava a funcionar como moeda internacional no
mesmo nível do ouro. Era estabelecida uma paridade fixa entre o dólar e o ouro (uma onça de
ouro – igual a 28,35 gramas - correspondia a 35 dólares) e a convertibilidade total de dólares
por ouro. Assim, o Tesouro dos Estados Unidos obrigava-se a trocar, imediatamente, ouro por
dólares, segundo a paridade fixada, agindo como fiador do novo sistema monetário
internacional.
Do Sistema de Bretton Woods nasceram inúmeros organismos destinados a regulamentar
a economia internacional, promover a reconstrução européia e japonesa do pós-guerra e evitar
graves crises econômicas internacionais. O FMI e o Bird surgem com a finalidade de prestar
assistência financeira aos Estados-Membros.
A memória da crise de 1929 ainda atormentava os estrategistas da economia capitalista,
que buscavam fórmulas para prevenir depressões e recessões capazes de conduzir à quebra dos
fluxos internacionais e ao isolacionismo comercial. O Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT)
, hoje denominado O.M.C. (Organização Mundial de Comércio), complementava a arquitetura
econômica originada de Bretton Woods, visando promover o crescimento dos fluxos comerciais
internacionais e diminuir as tarifas, taxas e barreiras comerciais.
Em 1947 era deflagrado o Plano Marshall, instrumento ativo da reconstrução capitalista
do pós-guerra. Para revitalizar os fluxos comerciais internacionais, o Plano buscava corrigir a
defasagem imensa entre a acumulação de dólares no interior dos Estados Unidos e a dramática
carência de dólares dos aliados europeus, transferindo moeda a juros simbólicos de um lado
para o outro do Atlântico Norte. Estratégia econômica de fundo geopolítico, o Plano Marshall
tinha como horizonte a constituição de uma sólida área de economia capitalista no Ocidente
europeu, integrada à economia americana, e de enfrentamento do Bloco Socialista.
Durante duas décadas, a economia capitalista mundial conheceu um boom ininterrupto,
marcado por taxas de crescimento inéditas e por uma estabilidade desconhecida nas
tumultuadas décadas anteriores. A Europa ocidental e o Japão tomavam-se, depois dos Estados
Unidos, verdadeiras "sociedades de consumo". Entre 1950 e 1970, os países capitalistas
desenvolvidos cresceram a uma média anual de 5,3%. No mesmo período, o comércio mundial
se elevou de 60 bilhões para 300 bilhões de dólares.
O Tratado de Roma, de 1957, lançou as bases da Comunidade Econômica Européia
(CEE), moldura para um pólo capitalista de intensa prosperidade. No interior da CEE.- a RFA
(República Federal Alemã) realizou, ao longo dos anos 50, o seu "milagre econômico",
integrando-se plenamente ao mundo ocidental e capitalista tanto no plano político como no
econômico. No Extremo Oriente, o "milagre japonês" dos anos 70 dinamizou a formação de
outro pólo capitalista, abrangendo as áreas asiáticas sob influência geopolítica ocidental (Coréia
do Sul, Taiwan, Cingapura, Hong Kong).
O ciclo de prosperidade capitalista do pós-guerra, cujo início coincidiu com a
deflagração da Guerra Fria, foi conduzido por governos conservadores.
De fato, a conjuntura política e econômica produzida pelos primeiros lances da Guerra
Fria e pelo Plano Marshall provocou o encerramento do curto período de governos de ampla
coalizão instalados no imediato pós-guerra. As forças de centro e de centro-direita passaram a
controlar integralmente as administrações dos principais Estados europeus.
Na França e na Itália, as novas realidades da cena internacional determinaram o
alijamento dos partidos comunistas que, desde o fim da guerra participavam minoritariamente
de gabinetes de coligação. Na Grã-Bretanha, principal país europeu aliado dos Estados Unidos,
as eleições gerais de 1950 marcaram a derrota dos trabalhistas, que ocupavam o governo desde

166
1945, e a volta dos conservadores liderados mais uma vez por Winston Churchill. Já a RFA,
Estado gerado diretamente pela Guerra Fria, não chegou a conhecer um período
governamental de centro-esquerda ou de coalizão. Desde sua proclamação, em 1949, os
conservadores de Konrad Adenauer mantiveram uma ampla hegemonia política. Os
trabalhistas ingleses conseguiram maioria nas eleições de 1964, configurando uma exceção na
paisagem político-eleitoral européia.

ANOS 70: A DÉCADA DA CRISE


Os anos 70, uma década de crise e recessão na economia mundial, assinalaram o
esgotamento do modelo de crescimento adotado no pós-guerra, encerrando um longo ciclo
ascendente da economia capitalista.
A crise dos anos 70 ficou conhecida nos meios de comunicação como "crise do
petróleo". Efetivamente, a década conheceu dois grandes choques altistas do preço do principal
combustível das economias industriais, que passou de menos de dois dólares o barril para quase
trinta dólares durante o período.
Indiscutivelmente, o choque do petróleo foi um componente essencial da "crise dos
70", atuando como poderoso acelerador da inflação nas economias desenvolvidas. Contudo, o
petróleo não pode ser visto como causa de uma crise de natureza estrutural, que já se
manifestava antes da primeira alta do preço do barril e que era condicionada pela completa
alteração das condições gerais que tinham impulsionado o ciclo ascendente das décadas de 50
e 60.

A economia americana e a crise internacional


O modelo de crescimento arquitetado no pós-guerra alicerçava-se no absoluto
predomínio da economia americana no mundo capitalista e no correspondente papel jogado
pelo dólar, simultaneamente moeda nacional americana e meio de troca internacional. Eram
pressupostos necessários desse modelo à hegemonia comercial americana e a carência de
dólares dos demais países capitalistas desenvolvidos, tanto da área européia como da asiática.
Esse modelo começou a desaparecer justamente em função do seu sucesso. A
reconstrução do pós-guerra e, depois, os "milagres" alemão e japonês provocaram o
desaparecimento progressivo da hegemonia comercial americana e o surgimento de fortes
concorrentes no mercado mundial capitalista.
A Guerra do Vietnã, que recrudescia no fim da década de 60, exatamente quando
evaporavam os grandes saldos da balança comercial e do balanço de pagamentos dos Estados
Unidos, obrigava Washington a adotar uma política de emissão de dólares não lastreados em
ouro. Era uma política nitidamente inflacionária que, entre outros efeitos, contribuía para o
surgimento de um fenômeno inédito: pela primeira vez, a conta corrente (saldo entre todas as
exportações e importações de bens e serviços) americana revelava-se negativa. Ao mesmo
tempo, a tradicional carência de dólares na Europa e no Japão transformava-se numa inédita
abundância.
Nas novas condições, a paridade fixa e a livre convertibilidade entre o dólar e o ouro,
pilares do Sistema de Bretton Woods, tornavam-se extremamente perigosas para os Estados
Unidos. De um lado, a paridade fixa mantinha o dólar artificialmente valorizado em relação às
demais moedas européias e japonesas, destruindo a competitividade dos produtos de
exportação americanos e agravando os problemas da balança comercial. De outro, a livre
convertibilidade de um dólar enfraquecido criava o risco de uma corrida dos Bancos Centrais
europeus e japonês rumo aos estoques de ouro do Tesouro americano, que não mais era capaz
de honrar a troca estabelecida em Bretton Woods.
O Sistema de Bretton Woods estava falido. Em agosto de 1971, o presidente americano
Richard Nixon começa a mudança das regras do jogo, decretando unilateralmente uma
desvalorização do dólar em relação ao ouro.

167
Em 1973, Nixon completou a "virada da mesa", decretando o fim do sistema de
paridades. fixas e livre convertibilidade. O dólar passava a "flutuar" em relação ao ouro e às
demais moedas fortes, valorizando-se ou desvalorizando-se de acordo com as leis do mercado.
Além disso, o Tesouro americano livrava-se da obrigação de trocar dólares por ouro.
A jogada de Nixon selava a morte do sistema monetário do pós-guerra, mas não o
substituía por qualquer outro. Apenas protegia a economia americana dos graves riscos de curto
prazo que a ameaçavam. "Atuando" em condições de abundância relativa, o dólar tendia a se
desvalorizar em relação às moedas fortes, o que deveria permitir a recuperação da
competitividade das exportações americanas e da balança comercial, à custa dos parceiros
europeu e japonês.
Desobrigada da convertibilidade, a administração americana podia continuar
financiando seus déficits pela emissão de dólares, claro que à custa de uma alta inflacionária
não só no interior dos Estados Unidos, como em toda a área internacional capitalista regida
pelo dólar.
Com a inflação, diminuíam as trocas internacionais e a atividade econômica, sinais
claros de uma recessão internacional. O desemprego aumentava e os níveis salariais caíam na
América do Norte, Europa e Japão.

O petróleo e a crise internacional


A propalada "crise do petróleo" surge como agravante conjuntural de uma crise
estrutural que já manifestava seus primeiros sintomas em 1968, e se revelava de maneira
dramática em agosto de 1971. Prova disso está no fato de o primeiro “choque de preços”
produzido pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) acontecer apenas no
fim de 1973, após a derrota árabe diante de Israel na Guerra do Yom Kippur.
A crise do petróleo, mesmo não sendo a "causa" da recessão mundial, alimentou os
sinais inflacionários e recessivos já presentes na década de 70. Entretanto, seus resultados são
mais complexos do que parecem.
Entre os grandes beneficiados pela crise do petróleo estão os Estados Unidos (e,
evidentemente, as multinacionais petrolíferas, a maioria das quais americana) e os países
exportadores de petróleo.
Os Estados Unidos se beneficiaram por diversos motivos. De um lado, porque
apresentavam menor dependência de importações de petróleo que seus concorrentes europeu
e japonês, o que possibilitou recuperações conjunturais da sua balança comercial, com reflexos
favoráveis na conta corrente. Observe no gráfico esse fenômeno no comportamento da conta
corrente americana nos anos seguintes aos dois "choques do petróleo", ocorridos em 1973 e
1979. De outro, porque os excedentes de dólares em mãos dos exportadores de petróleo
(petrodólares) foram investidos principalmente no mercado financeiro americano (que atraiu
esses capitais praticando elevadas taxas de juro), o que provocou nova valorização do dólar em
relação às demais moedas fortes.
Entre os prejudicados com a crise do petróleo estão a Europa ocidental e o Japão, que
conheceram um agravamento das suas taxas de inflação, durante alguns anos de recessão, e
crescimento econômico nulo ou negativo. Já os países subdesenvolvidos acabaram por pagar a
quase totalidade dos custos da crise, em função das políticas de recuperação adotadas pelos
países desenvolvidos, que envolveram a alta dos juros internacionais (com o crescimento
acelerado das dívidas externas) e a baixa dos preços das matérias-primas e produtos agrícolas
no mercado mundial.

A crise Internacional e o Welfare State


A década de 70 combinou uma prolongada crise econômica com uma radical alteração
da diplomacia internacional, marcada pela coexistência pacífica. Essa combinação repercutiu
nas instituições políticas, provocando o recuo dos partidos conservadores, desgastados pela

168
crise, que tinham dominado a cena européia desde o início dos anos 50. Voltaram ao poder os
partidos social-democrata e trabalhista.
Foi na Alemanha Ocidental que teve início o ciclo de governos de centro-esquerda,
com a ascensão do Partido Social-Democrata (SPD) do chanceler Willy Brandt. Criador da
política de reaproximação com a Alemanha Oriental, transformou-se na mais importante
liderança da distensão européia.
Na Grã-Bretanha, o Labour Party retomava finalmente ao poder nas eleições de 1974.
Até 1979, os trabalhistas ocupariam o governo por meio dos primeiros-ministros Harold
Wilson e James Callaghan. O conservadorismo das instituições da V República francesa
retardou a manifestação da tendência internacional de ascensão social-democrata até o ano de
1981, quando François Mitterrand foi eleito para a presidência e formou um governo de
coligação entre socialistas e comunistas. Mesmo nos Estados Unidos, a virada política rumo à
centro-esquerda se manifestou por meio da eleição de Jimmy Carter, do Partido Democrata,
em 1976.
No poder, esses governos orientaram-se na direção de políticas destinadas a amenizar
as conseqüências sociais da crise econômica. Procuraram conter a elevação do desemprego,
proteger os salários submetidos à corrosão inflacionária e multiplicar as leis sociais (seguro-
desemprego, aposentadorias, programas estatais de saúde, etc.). Esse conjunto de medidas, que
respondia a um descontentamento social crescente e a uma dinamização das atividades
sindicais, ficou conhecido como Welfare State. ou Estado de Bem-Estar.
Suas raízes encontram-se no pensamento político-econômico keynesiano, adotado na
década de 30 para recuperar a economia mundial abalada pela crise de 29. Apregoava a
intervenção do Estado na economia para minimizar os efeitos da concentração de riqueza
produzidos pelo liberalismo.

ANOS 80: A ALTERNATIVA LIBERAL


A reconstrução capitalista do pós-guerra e o longo ciclo ascendente que a seguiu
originaram-se de uma reorganização geral das forças produtivas internacionais.
Esse período de reconstrução baseou-se na reposição das mercadorias e da infra--
estrutura destruída ou tornada obsoletas pela guerra. Paradoxalmente, a destruição econômica
provocada pelo conflito tornava-se uma alavanca para a recuperação de inúmeros setores
industriais e para a criação de novos setores antes inexistentes. Em decorrência, abriram-se e
cresceram novos setores industriais, particularmente nos ramos químico e petro-químico,
eletroeletrônico, energético, etc.
Um intenso processo de oligopolização acompanhou a abertura dessas novas fronteiras
produtivas. As grandes empresas, favorecidas pelas encomendas do Estado e pelos programas
de reconstrução da economia, engoliam os pequenos capitais e expandiam seus negócios além
das fronteiras dos países-sede, tornando-se conglomerados transnacionais.
Os anos 70 manifestaram, pelos sintomas típicos da recessão (queda do emprego e alta
dos preços), o esgotamento dessa base produtiva construída nas décadas de 40 e 50. A crise da
década de 70 provocou um novo rearranjo e um movimento generalizado na direção de um
novo modelo de crescimento capitalista.
A nova organização da base produtiva apoiou-se num esquema parecido com o do pós-
guerra, ou seja, na abertura de novos setores de investimentos, direcionados agora para a
informática, a biotecnologia, os novos materiais, a pesquisa aeroespacial e a química fina. Como
no pós-guerra, esse processo desbravador foi acompanhado e viabilizado por gastos estatais e
por estímulos à pesquisa e ao desenvolvimento. Nova- . mente, ele combinou-se com
movimentos de concentração e centralização de capitais tendentes à oligopolização, isto é, à
eliminação dos pequenos capitais e à fusão de conglomerados já existentes.

A retomada do crescimento das economias desenvolvidas

169
A política econômica da administração Reagan (conhecida como reaganomics) comandou
a estratégia de superação da crise posta em prática pelos países desenvolvidos.
No início dos anos 80, os preços do petróleo iniciavam uma trajetória de baixa
acelerada, provocada pela combinação do aumento da oferta mundial do produto com a perda
da capacidade da Opep de controlar essa oferta em ascensão.
A nova situação propiciava uma rápida recuperação das balanças comerciais dos
concorrentes dos Estados Unidos, capitaneados pelo Japão e pela Alemanha Ocidental. Ao
mesmo tempo, a supervalorização do dólar - mantida na segunda metade da década de 70 pela
recessão européia e japonesa e pelos fluxos de petrodólares rumo ao mercado financeiro
americano - provocava déficits sucessivos na conta corrente dos Estados Unidos. O mercado
americano absorvia uma quantidade cada vez maior de produtos importados e os demais países
compravam cada vez menos dos Estados Unidos.
Nessas condições, a administração Reagan optou por uma política econômica
aparentemente contraditória. Nela se combinavam altas taxas de juros, sérias restrições
monetárias, convivência com déficits gigantescos na conta corrente e diminuição dos impostos
com a conseqüente produção de um gigantesco déficit orçamentário. Essa política econômica
surpreendente se baseava na circunstância especial que faz do dólar, simultaneamente, moeda
nacional e meio de troca internacional.
A política de altas taxas de juros servia para desviar o rumo do seguro mercado
financeiro americano: a poupança internacional. Em conseqüência, o dólar prosseguiu
valorizando-se em relação às demais moedas fortes até quase o final do governo Reagan.
O "superdólar", artificialmente valorizado, permitia à administração Reagan conviver
com a perda de competitividade das exportações americanas e com o decorrente rombo na
conta corrente. Permitia, ainda, financiar o explosivo déficit orçamentário (receitas menos
despesas do governo), derivado dos imensos gastos armamentistas e da política de diminuição
dos impostos. A poupança internacional, aplicada no mercado financeiro americano,
simplesmente substituía os recursos antigamente conseguidos pelas exportações de
mercadorias e serviços.
Simultaneamente, as severas restrições na política monetária (um controle violento da
emissão de moeda) conseguiram debelar as altas taxas inflacionárias da década anterior.
A engenhosa política da administração Reagan conduziu a uma rápida retomada do
crescimento econômico americano, apoiada numa explosão de consumo cujos fundamentos
eram a inflação em declínio, a baixa dos impostos e a importação generalizada de bens de
consumo.
As economias européia e japonesa, mesmo financiando em parte os déficits americanos,
devido à atração de suas poupanças provocadas pelo "superdólar", beneficiaram-se da
retomada do crescimento dos Estados Unidos. Na esteira do consumismo americano,
ampliaram-se largamente suas exportações para aquele mercado insaciável, ao mesmo tempo
em que os preços do petróleo deixavam de constituir fator de estrangulamento de suas contas
externas. Os sinais do relançamento econômico do mundo desenvolvido já estavam claramente
delineados, em 1983.

A transferência da crise para o Terceiro Mundo


O relançamento das economias desenvolvidas apoiou-se, nitidamente, sobre uma
transferência dos custos da crise para os países do Terceiro Mundo.
Dois mecanismos principais de transferência foram acionados: a manipulação das taxas
de juros internacionais e dos preços das commodities (produtos primários ou semi-elaborados).
As altas taxas de juros praticadas pela reaganomics repercutiram sobre todo o mercado
financeiro internacional. Os grandes prejudicados foram os países endividados com instituições
oficiais ou bancos particulares sediados nos países desenvolvidos. A explosão dos juros

170
determinou assim uma explosão das dívidas externas, que se convencionou denominar debt
crisis, como mostra o quadro a seguir:
Os países endividados foram arrastados para conjunturas recessivas agudas, ao
comprometer praticamente todos os saldos comerciais com os pagamentos dos serviços (juros
e taxas) da dívida.
Precisamente nessa conjuntura, em que os países subdesenvolvidos transformavam-se
em fontes de capitais para a recuperação econômica dos países desenvolvidos, o FMI adotava
uma orientação voltada para a negação de novos empréstimos que ajudassem os devedores a
"rolar" suas dívidas. A dramaticidade do problema das dívidas veio à tona já em 1981, com o
reconhecimento da impossibilidade de continuar pagando os serviços da dívida pela Polônia,
seguida depois pelo México, Brasil e Peru.
Para a liberação de novos empréstimos, o FMI passava a exigir dos devedores a
aplicação de estratégias recessivas (chamadas eufemisticamente "ortodoxas") em suas
economias internas. Tais estratégias conduziam ao aumento das exportações para gerar divisas
destinadas ao pagamento dos juros e taxas das dívidas. Porém, o crescimento da oferta de
commodities no mercado mundial provocava um rebaixamento contínuo do preço dessas
mercadorias.
Para produzir saldos comerciais sempre crescentes, os endividados terminavam por
conter o consumo interno (pelo rebaixamento do poder aquisitivo da população) e diminuir as
importações (ocasionando problemas de reposição dos bens de produção e queda da atividade
econômica). Esse circuito perverso só pode conduzir ao aumento do desemprego e a processos
inflacionários e hiperinflacionários, como os conhecidos pelo México, Argentina, Brasil, Bolívia
e Peru.

O neoliberalismo no poder
A década de 80 produziu uma nova reviravolta no jogo político europeu e americano.
O cerne dessa reviravolta esteve na decadência das políticas orientadas para o Welfare State e na
ascensão das políticas chamadas "neoliberais".
O relançamento econômico dos anos 80 apoiou-se na premissa de que o Estado deveria
abandonar as intervenções, que tendiam a limitar os lucros auferidos pelo capital, a fim de que
fossem estimulados os investimentos nos novos setores abertos pela "revolução tecnológica"
em andamento. Segundo os teóricos neoliberais, a interferência do Estado (por exemplo, na
defesa dos empregos) retardava a necessária realocação de capitais até então investidos em
setores econômicos estagnados.
O termo "neoliberalismo" surgia nesse contexto para produzir a imagem de que as
teorias em moda pregavam o "livre jogo do mercado" e a "completa liberdade da lei da oferta
e da procura".
Entretanto, essa imagem configurava muito mais um disfarce das teorias econômicas
em ascensão do que uma realidade. Efetivamente, o que o neoliberalismo buscava não era o
fim da interferência do Estado na economia, mas uma mudança de rota dessa interferência. O
Estado deveria parar de opor restrições ao capital, defendendo direitos e leis sociais, e subsidiar
e estimular os processos de oligopolização e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento
nos setores de tecnologia de ponta.
Os governos de Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, e de Ronald Reagan, nos Estados
Unidos, implantados, respectivamente, em 1979 e 1980, ilustram nitidamente as orientações
neoliberais que passavam a ter hegemonia sobre a política econômica dos países desenvolvidos.
Interessante é constatar que, mesmo naqueles países em que socialistas e social-
democratas mantiveram o poder, como é o caso da França de Mitterrand e da Espanha de
Felipe González, as teorias neoliberais passaram a dar o tom das políticas econômicas
governamentais.

171
DÓLAR, MOEDA TRANSNACIONAL
O texto seguinte é de autoria do francês Raymond Aron, especialista em economia e relações
Internacionais. Foi extraído da obra Os últimos anos do século (Rio de Janeiro, Guanabara, 1987, p. 44 a
50), publicada originalmente na França, em 1984.
Inicialmente, ao serem negociados os estatutos de Bretton Woods, os Estados Unidos,
saídos intactos de uma guerra e enriquecidos pela mobilização de seu parque industrial,
desfrutavam de um super poder econômico e financeiro. Eles se outorgaram uma autoridade
quase ilimitada dentro do Fundo Monetário Internacional. Apesar disso, enquanto respeitaram,
fosse como fosse, os regulamentos que em boa parte ditaram, tiraram menos proveito que seus
concorrentes.
O mesmo não aconteceu após 1973. Após uma experiência de dez anos, constatou-se
que o mercado aumenta e diminui o valor do dólar. Ora supervalorizado, ora desvalorizado,
ele jamais se situa no nível da taxa que corresponderia à paridade do poder aquisitivo. Com
toda certeza ele continua a gozar as vantagens que lhe assegura o seu caráter transnacional:
possibilita comprar produtos estrangeiros e, automaticamente, permite aos dirigentes de
Washington tolerarem sem ansiedade os déficits da balança de pagamentos. Os períodos de
desvalorização comportam, assim como os de supervalorização, vantagens e inconvenientes,
tanto para estrangeiros como para norte-americanos (...).
Atualmente, a política de Ronald Reagan irrita ou indigna a maioria dos dirigentes dos
principais países (com exceção do Japão). Essa política consiste na combinação de um déficit
orçamentário considerável (100 bilhões, cerca de 6% do PI B) e restrições monetárias (até o
mês de agosto de 1983). As restrições monetárias provocam uma queda considerável da
inflação e alta das taxas de juros. Assim, na fase inicial de recuperação, as taxas de juros são
mais altas do que jamais o foram nessa fase do ciclo. As taxas de juros atraem o capital
estrangeiro e fazem o valor do dólar aumentar no mercado. A recuperação da economia arrisca-
se a ser rapidamente freada: para evitar que a retomada da atividade econômica venha
acompanhada de um recrudescimento inflacionário, o Federal Reserve Board poderia ser
levado a adotar ações restritivas.
Cabe aqui uma primeira observação. Os Estados Unidos, mais uma vez, aproveitam-se
de sua situação ímpar. Nenhum Estado pode atrair capitais se tiver um déficit orçamentário
maciço (mesmo se o déficit de pagamentos for em parte compensado pelos interesses dos
investimentos no exterior). Nenhum Estado pode permitir-se tal déficit orçamentário e lutar
de maneira eficiente contra a inflação usando exclusivamente a arma monetária (...).
Seria por causa de a força militar de seu país que Ronald Reagan poderia adotar tal
política? Uma formulação desse gênero não tem, a meu ver, nenhum sentido. É claro que a
força militar é parte do todo "Estados Unidos". Eu não saberia como responder de maneira
sensata à pergunta: "Poderiam os Estados Unidos se comportar assim se não tivessem a força
que têm em terra, mar e ar?" A hipótese irreal parece-me bastante inverossímil para que se
possa escolher entre um sim ou um não. O que me parece essencial é que os Estados Unidos
administram a sua moeda transnacional como se ela fosse estritamente nacional. Decidido a
combater a inflação e incapaz de reduzir as despesas governamentais, justo no momento em
que tomara a decisão de aumentar o arsenal, o presidente encarregou o presidente do Federal
Reserve Board de conter a alta dos preços. A situação ímpar dos Estados Unidos tornou isso
possível. A moeda transnacional desempenha sua função, qualquer que seja o estado das
finanças públicas ou da balança de pagamentos.
Já houve, é claro, um momento em que Carter se viu obrigado a intervir no mercado
para segurar a cotação do dólar. Qualquer dia desses ele cairá do topo onde se encontra. O
capital estrangeiro é atraído não só por taxas de juros elevadas, mas também pelo país refúgio
em caso de crise internacional, pela economia que, apesar de tudo, é ainda a mais rica e talvez
a mais dinâmica do mundo.

172
Teria a situação sido diferente, caso a segurança dos europeus não dependesse dos
Estados Unidos? Talvez; porém o que modificaria a paisagem econômica seria a formação de
uma autêntica unidade européia. Se a comunidade européia se tornasse o equivalente dos
Estados Unidos da América, as discussões transatlânticas tomariam outro rumo. A moeda dos
Estados Unidos da Europa anularia a posição de monopólio do dólar e sua condição de unidade
monetária transnacional; nem a economia alemã nem a britânica possuem dimensões
suficientes para servir de suporte a uma moeda transnacional (...).
Teriam os Estados Unidos interesse em deixar sua moeda ficar acima ou abaixo do
valor de equilíbrio, que corresponderia à paridade do poder aquisitivo? A resposta não é tão
óbvia. A supervalorização do dólar provoca um déficit da balança comercial (em tempos de
crise, os Estados tentam desvalorizar, como aconteceu na década de 30); a desvalorização do
dólar em 1978-79 favorecia as exportações norte-americanas e facilitava a tarefa dos devedores
dos bancos e do Tesouro norte-americanos. Acaso uma taxa de câmbio próxima da paridade
dos poderes aquisitivos seria melhor tanto para os Estados Unidos quanto para o sistema
econômico em geral?
Não duvido, mas não tenho a ilusão de convencer nem os assessores nem os
responsáveis de Washington. Tanto uns como outros guardam a lembrança dos anos 60, que
foi um período de paralisia. Como o dólar estava ligado ao ouro, ele não podia se mover
sozinho; só flutuava quando havia flutuação de outras moedas. Ao pedirem uma desvalorização
plenamente legítima em 1971, encontraram resistência por parte de seus aliados e concorrentes.
A partir de então, rejeitam qualquer forma de rigidez e aplicam com satisfação às moedas a
idéia de que o mercado tem sempre razão. A extensão da lei do mercado às moedas leva a um
tipo de relatividade geral. A moeda não mais encarna um bem real, não se liga a nenhuma
mercadoria em particular. Assim como outras moedas, o dólar vale o que os compradores estão
dispostos a gastar em francos, marcos ou ienes para comprá-lo.
Por quanto tempo ainda os Estados Unidos vão impor as taxas de câmbio flutuantes?
Ninguém arriscaria uma previsão. Pode ser que, na falta de um acordo entre os ocidentais sobre
um regime substituto, o regime perdure. A restauração do padrão-ouro e do padrão de câmbio-
ouro (moedas juntando-se ao ouro enquanto instrumentos de reserva) pressupõe uma
conversão dos peritos americanos, que só se manifesta esporadicamente. A opinião dominante
entre os economistas e nos meios dirigentes continua mais fiel à recusa da rigidez anterior do
que às flutuações atuais. Ora, qualquer reforma limitaria a liberdade de ação interna dos
governantes. O presidente Ronald Reagan quer aumentar o orçamento da defesa, reduzir o
imposto de renda e vencer a inflação. A política do Federal Reserve Board completa e concilia
essas intenções aparentemente divergentes e mesmo contraditórias. Como resultado, temos o
aumento das taxas de juros e a ascensão do dólar.
A isso, vários peritos do outro lado do Atlântico objetariam que os capitais europeus
afluem para os Estados Unidos menos por causa das taxas de juros do que pela atração exercida
pela economia norte-americana, destinada atualmente a um novo florescimento, enquanto
todas as economias européias, de uma forma ou de outra, parecem estagnadas. Pode ser que
estejamos assistindo a uma repetição dos anos que vieram imediatamente após a guerra, quando
o Velho Continente ainda não recuperara a confiança em si mesmo e a confiança do mundo.

Orientação Bibliográfica
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