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Juliana R. S.

Duarte
Juliana r. s. duarte
C aminhava em câmera lenta pelo
corredor. Mais adiante, esta-
va na porta de seu escritório; a po-
lícia tentando, em vão, afastar as

K erata, nome dado pela imprensa a um dos


serial killers mais procurados do mundo, é
um neurocientista, vítima de um desejo peculiar:
pessoas. O coração dela se deses-
perou, esperando o pior. A maldi-
ta porta se distanciava e diminuía
matar pessoas com talentos específicos e colecio- a cada passo; seus pés pareciam

kerata DE CÉREBROS
nar seus cérebros. andar para trás enquanto o rosto
Contudo, nesta incomum e intrincada trama, das pessoas se desfigurava feito
confetes jogados contra o vento.
mergulhamos no desenvolvimento dessa mente
Reconheceu Sophia entre eles, os
Juliana R. S. Duarte nasceu em doentia, na história da família de Kerata e na vida

k e r a t a
dentes trincados não deixavam seu
setembro de 1987. Tornou-se re- de diversos personagens que rodeiam e influen-
coração escapar. Alcançou a porta
datora publicitária, atuando em ciam, direta e indiretamente, no desdobramento e viu um homem com o uniforme
grupos internacionais de pro- de sua personalidade cruel.
Presente e passado se entrecruzam de modo
O cOleciOnadOr de cérebrOs do IML jogar um lençol por cima.
paganda. É poeta, compositora, Seus olhos acompanharam o movi-

O COLECIONADOR
violinista (para o terror dos seus surpreendente; segredos perturbadores vêm à mento. O pano era fino, de um ne-
vizinhos), viciada em pintura, li- tona. Somos, então, condicionados a nos questio- gro fúnebre quase poético. Ele des-
teratura e café. Muito café. Seu nar e a, quem sabe, compreender: como nasce um cia, hesitante, recusando-se a cair,
primeiro livro foi escrito aos sete serial killer? resistindo ao seu inevitável destino
anos de idade. até, finalmente, abraçar o corpo
cor de leite deitado ao chão. A ca-
beça ficou para fora. Havia peque-
nos furos em alguns pontos, e um
ISBN 978-85-428-1001-1
corte perfeito entre as têmporas e
as pálpebras criava uma espécie de
tampa. O cérebro não estava lá.
9 788542 81 0011

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k e r a t a
O COLECIONADOR DE CÉREBROS

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Juliana R. S. Duarte

k e r a t a
O COLECIONADOR DE CÉREBROS

TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

São Paulo, 2 017

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Kerata: o colecionador de cérebros
Copyright © 2017 by Juliana Rodrigues da Silva Duarte
Copyright © 2017 by Novo Século Editora Ltda.

coordenação editorial aquisições


Vitor Donofrio Cleber Vasconcelos
editorial
João Paulo Putini
Nair Ferraz
Rebeca Lacerda
Talita Wakasugui

capa revisão
Dimitry Uziel Luiz Alberto Galdini
Equipe Novo Século
diagramação
Nair Ferraz
foto de orelha
preparação Mel Audi
Edilene Possibom Maquiagem: Giovana Escalante

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da


Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1o de janeiro de 2009.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)


Angélica Ilacqua CRB­‑8/7057
Duarte, Juliana R. S.
Kerata: o colecionador de cérebros / Juliana R. S. Duarte. ­‑
Barueri, SP: Novo Século Editora, 2017.
(coleção Talentos da literatura brasileira)

1. Ficção brasileira 2. Ficção policial I. Título.

17-0675 cdd­‑869.3

Índice para catálogo sistemático:


1. Ficção: Literatura brasileira 869.3

novo século editora ltda.


Alameda Araguaia, 2190 – Bloco A – 11o andar – Conjunto 1111
cep 06455­‑000 – Alphaville Industrial, Barueri – sp – Brasil
Tel.: (11) 3699­‑7107 | Fax: (11) 3699­‑7323
www.gruponovoseculo.com.br | atendimento@novoseculo.com.br

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Dedico este livro às minorias da nossa sociedade.
Dedico-o aos negros, às mulheres, à comunidade
LGBT, aos pobres, aos deficientes, aos injustiçados
e, principalmente, às mulheres vítimas de todo tipo
de violência doméstica, incluindo as crianças que,
assim como eu, tiveram sua infância interrompida
por um abuso sexual.

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prefácio
Eu conheço a Ju há pouco mais de dois anos. Ela é in‑
crível. É uma ótima redatora. É uma das minhas melho-
res amigas. E foi por isso que aceitei ler o livro dela. Sabe
quando algum conhecido chega em você e diz: – Tenho
um negócio aqui que você vai gostar… – e você só diz que
está meio ocupada, que agora não consegue, fica para a
próxima e torce para que a pessoa esqueça? Pois é, só
que quando é a sua melhor amiga que fala isso, não dá
para usar uma desculpinha dessas. Então comecei a ler.
Quer dizer, comecei entre aspas, porque levei quase um
mês para realmente ler algumas linhas. Mas li. E li mais
algumas. E mais outras. Até que, um dia, percebi que já
estava lendo o livro há duas horas seguidas sem notar o
tempo passar.
Este livro é assim: começa com alguns personagens
que você não conhece bem a essência deles nem mesmo
em qual época vivem, e aí tudo muda. Esqueça‑os, deixa
eu te contar a história desses aqui. Gostou? Lembra‑se do que
você fez com os outros? Esqueça esses também, porque tem
mais gente nesse balaio… E as histórias vão evoluindo, e a

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profundidade aumenta, e tudo começa a ficar pesado, fre-
nético e urgente. Você tem que saber o que acontece com
todos. Você tem que tentar descobrir, ainda, o mistério
que se apresenta. Você tem é de ler mais. E mais. E mais.
Depois de ler um livro como este, lembrei­‑me porque,
desde a primeira vez que vi Juliana, ela me chamou a aten-
ção: pela sua inteligência. Só espero que, após ler este li-
vro, você a admire tanto quanto eu.

Marília Gil Pimentel


– diretora de Arte na Agência Isobar Brasil

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introdução
O presente livro está longe de ser a primeira versão
a qual eu havia pensado quando tive a ideia de escrevê‑
‑lo. As portas que bateram em minha cara e o constante
preconceito foram primordiais para que ele evoluísse e
se tornasse essa história que explora as patologias sociais
com realismo tão artístico quanto uma pintura abstrata.
Estudei psicanálise durante alguns anos e meu estudo
serviu para criar personagens consistentes, com persona-
lidades bem construídas e enredos bem elaborados.
Kerata também se apresenta como uma forma de de-
núncia social. Ele pretende envolver suas emoções, te
prender no enredo e fazer com que você se identifique
com ele.
Ao final da leitura, se eu conseguir te fazer refletir e
provocar mudanças em sua maneira de enxergar a vida,
uau! Serei a mulher mais realizada deste mundo.
Kerata fala de liberdade, de amor, de doença, de in‑
justiça, de bondade, de generosidade, de amizade, mas
principalmente, ele fala de desejo, das pulsões que nos
tornam selvagens domesticados pela sociedade, em uma

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negociação infinita sobre “quem sou”, “quem é o outro” e
“como vivo em sociedade”.
Usei alguns fatos históricos para situar a narrativa
dentro de um espaço de tempo. No entanto, não me pren-
do a estes acontecimentos históricos para narrar Kerata. O
enredo também não se prende a uma narrativa cronoló-
gica, fatos podem ocorrer simultaneamente em capítulos
diferentes.

Boa Leitura! Inclusive, ela fica melhor ao som de AC/DC.

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vazio
Um suave raio de luz esgueirou‑se pela fresta das ve‑
nezianas, iluminando seu corpo e despertando‑a para a
realidade daquela manhã de outono.
Olhou para o lado e ele ainda estava lá. Não lembra‑
va exatamente o que tinha acontecido, apenas que tinha
sido muito bom. Levantou-se graciosamente e, num salto,
já estava na cozinha, vestida com a camisa xadrez dele,
que descia acima dos joelhos, salientando suas pernas
torneadas.
Olhou para o relógio: 6h45 da manhã. Por mais que ela
apreciasse a ideia de dormir até mais tarde, nunca conse-
guira fazê‑lo. Aquele raio de luz a convidava todos os dias
para sair da cama. Era impossível resistir.
Ele acordou com a cabeça latejando, olhou para o lado
e ela não estava lá. Sentiu o coração arder e percebeu que
a amava com todas as suas forças. Estava feliz, apesar da
ressaca.
Tentou se levantar e, quando finalmente conseguiu,
viu‑a encostada junto à porta, segurando uma caneca de
café. Aquela foi, com certeza, sua epifania do dia.

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– Bom dia, dorminhoco.
– Bom dia – ele disse sorrindo de lado e se inclinando
para roubar um beijo, mas o celular dela tocou e sem per-
ceber a intenção dele, ela correu para atendê­‑lo.
– Quem me perturba?
– Clarice, estamos encrencadas. Preciso de você agora
no ateliê.
– O que aconteceu?
– Vem, que eu te explico.
– Mas ainda são sete horas da madrugada!
– É urgente, sério mesmo. Vai entender quando chegar.
– Ok! Estou a caminho.
Ele estava em pé, apenas o lençol branco cobria a sua
nudez. Conferiu algumas vezes no espelho os músculos
definidos e ensaiou um olhar sedutor que prometia arre-
batar o coração dela.
– Estou indo – ela disse.
– Mas já?!
– Problemas no ateliê.
Ele se aproximou para dar um beijo de despedida,
mas ela não parava de teclar em seu smartphone de última
geração.
– Eu adorei a… – O telefone tocou novamente.
– Eu estou a caminho! – ela disse em um tom irritado,
enquanto saía pela porta e simulava um adeus atrapalha-
do com as mãos.
Ele não entendeu nada, mas quando se tratava de Cla-
rice, não entender era normal. O importante é que tinha
vivido a melhor noite de sua vida.

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Clarice dobrou na rua do ateliê e logo viu as viaturas
e a van do IML.
Puta que pariu, Sophia! Que diabos você fez? Eu sabia que
esse seu caso com o padeiro ia dar merda. A mulher dele desco‑
briu, aposto!
Estacionou de qualquer jeito e correu para encontrar
a amiga. Apesar do horário, a casa estava cheia de curio-
sos. Uns murmuravam palavras de horror, outros de des-
crença e alguns, mais furiosos, arriscavam ameaças.
– Um filho da puta desses deveria ser cortado aos
pedaços!
– Como alguém faz uma coisa dessas?!
– Que terrível! Meu Deus! Meu Deus!
Clarice ficou assustada. Acho que isso não tem nada a ver
com o padeiro, afinal.
Caminhava em câmera lenta pelo corredor. Mais
adiante, estava na porta de seu escritório; a polícia ten-
tando, em vão, afastar as pessoas. O coração dela se de-
sesperou, esperando o pior. A maldita porta se distancia-
va e diminuía a cada passo, seus pés pareciam andar para
trás enquanto os rostos das pessoas se desfiguravam feito
confetes jogados contra o vento. Reconheceu Sophia entre
eles, os dentes trincados não deixavam seu coração esca-
par. Alcançou a porta e viu um homem com o uniforme
do IML jogar um lençol por cima. Seus olhos acompanha-
ram o movimento. O pano era fino, de um negro fúnebre
quase poético. Ele descia, hesitante, como se recusasse a
cair, resistindo ao seu inevitável destino até, finalmente,
abraçar o corpo cor de leite deitado ao chão. A cabeça fi-
cou para fora. Havia pequenos furos em alguns pontos, e

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um corte perfeito entre as têmporas e as pálpebras criava
uma espécie de tampa. O cérebro não estava lá. Não havia
sangue, nada, apenas o oco, o vazio. Os olhos de Clarice
começaram a rodar; Sophia lhe falava algo, mas ela não
conseguia ouvir. Sentiu seu corpo amolecer antes de ver a
si mesma caindo ao chão gelado e os dois policiais corre-
rem ao seu encontro.

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2
raízes
O sol brilhava com vigor naquela manhã, diferente‑
mente da sua alma inconformada com a vida. Haveria lu-
gar para se encaixar, alguém para pertencer e ser feliz?
Sentia‑se extremamente desligado do mundo, alheio à
felicidade que parecia encarnar em qualquer rosto ao re‑
dor, menos ao seu. A raiva era sua companheira fiel, se ao
menos o pai pudesse reconhecer seu esforço ao longo des‑
ses anos. Mas não, ele tinha que vir com aquelas histórias
carregadas de desprezo e pouca lição de moral: “Um ho‑
mem faz o seu próprio caminho, Pedro. Eu escolhi ser um
pianista famoso e isso trouxe bons frutos para nossa famí-
lia, veja bem” − e começava a escorregar seus dedos pelo
velho piano, arrancando-lhe gentilmente doces melodias
que enchiam a casa de uma perigosa satisfação competi‑
tiva. Jamais seria como ele, não levava o menor jeito para
música, pintura ou qualquer outra coisa relacionada ao
mundo das belas artes. Será que seu pai não percebia isso?
Pedro chutou uma garrafa com força e em seguida ouviu
um ai que lhe resgatou de seus pensamentos hostis. Agora
estava no céu, com certeza. Ou em algum lugar onde era

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permitida a livre circulação de anjos porque aquela garo-
ta era a coisa mais linda que seus olhos jamais tiveram a
chance de ver.
– Olha só o que você fez, seu idiota! Por que não olha
por onde anda? Olha isso, agora vou ter que refazer tudo,
tudo, entendeu? Do zero.
A jovem tagarelava enquanto andava de um lado para
o outro, furiosa, mas Pedro só conseguia se concentrar na
perfeição que eram os seus lábios se mexendo. Aquilo sim
era arte! E das melhores, pensou. Ela falava algo sobre dese-
nhos, tintas, Van Gogh, mas ele não conseguia pensar em
mais nada. Estava ridiculamente paralisado.
– Você é surdo ou o quê, garoto? – ela deu­‑lhe um for-
te empurrão. – Estou falando com você!
Vamos, diga alguma coisa. Peça desculpas, diga que ela é lin‑
da, aproveite e a convide para sair. Vai, é só abrir a boca e falar,
pensava. Ela estava vermelha de raiva, com a mão na cintu-
ra esperando uma resposta.
– Des… descul… pe, é que eu… eu, hum, não vi… Nossa!
Esses desenhos são seus?
Pedro de repente recuperou a habilidade de falar ao
perceber, pela primeira vez, os desenhos da bela jovem
que estava prestes a esganá­‑lo com as próprias mãos. Eram
tão bonitos quanto à dona. Seu olhar era tão meticuloso e
sincero que a moça até esqueceu a raiva. Nunca tinha vis-
to alguém olhar para o seu trabalho com tanta admiração.
– São seus esses desenhos? Digo, você quem os pintou?
– ele perguntou.
– Sim, são meus – ela respondeu, empinando o nariz.

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– São incríveis… olha só esses traços, a forma como
você pincela, as cores ao redor… são incríveis!
Havia verdade em sua voz, que era profunda, e às ve-
zes, até meio sombria. A jovem ficou encantada, envaide-
cida e entregue, apesar de que não queria admitir. Reto-
mou com prontidão a fúria de outrora.
– Obrigada, principalmente por estragar tudo!
– Perdão, de verdade. Não a vi. Você é talentosa, isso
é óbvio. A fonte de onde esses saíram deve estar cheia. O
que posso fazer é ajudar.
Aquela ideia brotou viva e oportuna. Diga sim, diga sim,
diga sim – torceu.
– Ajudar? Por acaso você é artista plástico? – ela perguntou.
– Não, mas meu pai é. E, apesar de não ter o menor
talento para a coisa, aprendi algumas técnicas que podem
ser úteis.
– Tipo o quê?
– Bem, posso tentar recuperar o quadro e os seus
desenhos.
Ele olhou ao redor e viu que os desenhos voavam pelo
campus; tinha derramado tinta na roupa dela, na grama e
mais ainda sobre a tela onde ela desenhava uma paisagem
com belas flores e uma jovem solitária sob uma macieira.
– Ah, deixa. Eu não estava gostando mesmo. Estava
pensando em começar do zero, acho que você me ajudou
– ela assentiu.
– Então, de nada. Sou Pedro.
– Agnes.
Ela deu um risinho tímido que soou como um sinal
verde para ele. Ganhei a garota, comemorou consigo, mas

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sem demonstrar muito. Adotou uma postura ao mesmo
tempo distante e interessada, com certa altivez no falar.
– Nunca conheci alguém com esse nome.
Em pouco tempo eles ficaram íntimos e em menos ain-
da descobriram que se amavam, apesar de guardarem o
sentimento para si sem revelar um ao outro. Eram com-
pletamente diferentes, mas havia uma tensão entre eles
que era quase magnetismo. Pedro adorava ver Agnes de-
senhar, adorava a forma como ela se sujava de tinta e a
forma como se irritava quando a inspiração não lhe alcan-
çava. Meu pai vai adorá­‑la também, dizia a si mesmo.
– Quando vou conhecer seu pai? – ela indagou.
– Em breve − falou obstinadamente.
Aquela pergunta havia mutilado seus pensamentos
da realidade, que, para ele, era o paraíso. Sentia­‑se feliz,
como nunca antes. Por que falar do pai?
– Você fala dele com tanto mistério. Às vezes acho que
está me escondendo ou que tem vergonha de mim.
– Vergonha de você? Que é isso, você é a pessoa mais
incrível que já conheci. Meu pai que é complicado.
– Sou inteligente, posso entender o nível da compli-
cação. A gente está junto há quase seis meses. Tá, eu sei
que não é lá todo o tempo do mundo, mas, poxa, você já
conheceu meus pais. E seu pai é artista, o que pode ter de
complicado nisso? Podemos nos entender muito bem.
Lá no fundo ele sentia medo. Medo de que o pai se
apaixonasse por Agnes e a roubasse dele. Ele era talento-
so, as mulheres o cortejavam, não seria difícil imaginar
Agnes caindo de amores pelo pai. Quando pensava nisso,
uma ira tomava conta do seu ser. Se ao menos eu pudesse…

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se ao menos eu fosse tão espetacular quanto o meu pai. Mas não
tenho chance, pensava, frustrado. Um ar sombrio envol-
veu seu rosto. Parecia outra pessoa. Desconfortável, sen-
tiu uma pressão no peito e uma dificuldade de respirar.
Não queria compartilhar essa parte de sua vida, apesar de
que apresentá­‑la ao pai também poderia ser a chance de
mostrar­‑lhe o quanto era capaz de conquistar uma mu-
lher tão talentosa, que inclusive o admirava. Sentou na
grama, misteriosamente silencioso e com uma elegância
extraordinária.
– Desculpa, não quis invadir seu espaço.
– Meu pai é Miguel Baptiste Debret.

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3
desencontros
Era quase meia‑noite quando Clarice finalmente acor‑
dou. Sua cabeça estava prestes a explodir. Era difícil man‑
ter os olhos abertos, mas se esforçou para reconhecer o
lugar onde estava, porém só conseguiu ver um salpicado
infinito de luzes por todo canto.
– Eu preciso ir para casa – balbuciou algumas palavras,
que logo trouxeram Sophia.
– Ah, minha amiga! Que bom que acordou! Como você
está? Trouxe você para o hospital, te examinaram, mas fa‑
laram que estava tudo bem, que seus sinais vitais estão
ótimos, só que estava em choque e que acordaria a qual‑
quer momento. Não liguei pra sua família porque não quis
preocupá‑los, mas provavelmente eles já devem ter visto
a notícia nos jornais. Que terrível! Que…
– Quer calar essa boca! Caraca, minha cabeça tá
explodindo!
Sua espontaneidade continuava intacta. Levantou‑se
da cama, o mundo rodou e ela tornou-se a deitar. Fechou
os olhos e viu o oco da cabeça de sua colega de trabalho.
Que ser imundo faria uma coisa dessas? Maldito! O ódio a

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empurrou da cama, de repente percebeu que estava num
apartamento de hospital, com roupas de hospital. Tirou a
bata na hora que o enfermeiro entrou no quarto.
– Perdão, senhoras. – Fechou a porta.
– Não tem problema, pode entrar − disse Clarice.
– Clarice! Cê é louca? Não pode entrar não!
O enfermeiro tornou a sair.
– Até parece que ele nunca viu uma mulher pelada.
Ele tornou a entrar, apreciando os seios de Clarice.
– Ah, que bom saber que suas doidices estão normais
também! Você quer sair daqui, seu tarado! Veste isso, Clarice!
– Preciso ir pra casa. Cadê minhas roupas, Soph?
– Você não vai a lugar nenhum!
– Não vai me dar ou quer que eu saia assim?
– Você não teria coragem.
Clarice saiu pelada pelo hospital, quer dizer, estava de
calcinha, se é que podemos chamar “aquilo” de calcinha.
Estava mais para um miúdo pano transparente na frente
e um fio atrás.
– Adoro o que faço − suspirou o enfermeiro.
Sophia correu atrás de Clarice com um cobertor e a
cobriu.
– Clarice, por favor, não é hora de ser você. Pare e me
ouça, que a situação é grave.
– Eu sei muito bem disso, Sophia. E sei também que a
minha família deve estar surtando uma hora dessas e você
sequer ligou para eles para dar uma satisfação!
– Desculpe, mas eu não sabia o que dizer e teve tanta
coisa pra resolver: policiais me fazendo perguntas o tem-
po todo, e ainda tive que ligar para os pais da Rafa para

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dar a notícia. Você tem noção do que é isso? Ligar pra uma
mãe e dizer: “Ah, Sra. Zuleide, me desculpe, mas sua filha
apareceu aqui no trabalho sem o cérebro”.
– Desculpe, não pensei nisso.
– Claro que não, você acha que o mundo gira em torno
de você. Agora, por favor, volta para aquele quarto.
– Só se me der minhas roupas e meu celular.
– Ok. Agora vai. O que tá olhando, seu tarado? Aff, ain-
da mais essa!
Sophia era uma daquelas mulheres viúvas ricas que
herdou tudo do marido. Uma perua chique de quase 1,75m,
32 anos e nada de conteúdo. Era desprovida de qualquer
tipo de conhecimento mais profundo, mas era intensa-
mente sincera e amiga. Diferente do que saía nas revistas,
ela amava o velho marido, que tinha 89 anos quando se
casaram. Ele morreu aos 92 no ano passado, e ela ainda
sofria com sua morte, apesar de que não podia ver uma
barbicha que logo se engraçava. Investia em artistas e ga-
lerias de arte porque era algo que o ex­‑marido gostava e
porque lhe caía tão bem quanto as joias caras que usava.
Era a dona do ateliê, mas não entendia nada sobre arte.
Deixava Clarice comandar, o que era um problema, por-
que Clarice era indomável e fazia o que queria, na hora
que bem entendesse.
– O que aconteceu, Soph? Quem fez aquilo com a Rafa?
– Ainda não sabem, amiga. Não havia sangue, nem si-
nais de luta, nada. As câmeras da rua não pegaram nada,
não há digitais, simplesmente nada.
– Que bizarro.
– É.

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O médico do plantão entrou no quarto. Charmoso,
branquinho de cabelo preto, deveria ter quase 1,70m; era
forte, elegante. Sophia, apesar do momento fúnebre, não
conseguiu controlar seu sexo, que só faltou pular das cal-
ças e agarrar o médico.
– Que bom que acordou, Clarice. Como se sente?
– Presa. Posso ir embora?
– Claro, só preciso fazer uns exames e te dou alta,
pode ser?
– Não.
– Psiu! Clarice! Pode sim, doutor…
– Ah, perdão. Sou Marcello. Estou substituindo a dou-
tora Isabella. Licença − disse, aproximando-se de Clari-
ce. Pegou o iPhone e ligou a lanterna, apontando para os
olhos dela. Em seguida, pegou o estetoscópio e auscultou
o coração.
Ai, vem colocar esse estetoscóptero em mim, dotô, pensava
Sophia.
– Bom, parece estar tudo bem, mas por precaução, vou
pedir os exames. A senhorita passou muito tempo desa-
cordada. Licença, o enfermeiro vem aqui colher o sangue.
– Meu Deus, Sophia! O cara já estava envergonhado
com você secando ele. Sua funcionária foi assassinada e
você consegue pensar em sexo?
– Ai, eu não tenho culpa. Ele é gostoso mesmo, o que
posso fazer?
Clarice pegou a bolsa e saiu do quarto, quase esbarrou
no enfermeiro que estava entrando. Sophia correu atrás,
de novo.
– Pelo menos ela tá vestida − o enfermeiro comentou.

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– Cala a boca, seu tarado. Clarice! Clarice! Aonde
você vai?
– Você tem noção que minha avó pode estar morren-
do agora de tão preocupada? Olha aqui quantas chamadas
dela – falou, apontando o celular na cara de Sophia. Conti-
nuou andando até chegar à calçada do hospital. Procurou
a chave do carro na bolsa, o celular vibrava. Hoje é o dia,
grunhiu com raiva.
– Está procurando por isso?
– Eu vivo esquecendo a chave desse carro, saco!
– Um dia você vai acabar perdendo de vez. Que baru-
lho é esse?
– É meu celular que não para de vibrar, droga! Minha
avó me ligou 30 vezes! Trinta vezes, Sophia!
– E o Davi ligou umas 60…
– Cala a boca! – Com a chave na mão, acionou o alar-
me. Foi quando percebeu que estava sem carro. – Ah não,
não, não, não, não – tagarelou aflita enquanto rodopiava
elegantemente na calçada.
– Eu te trouxe, Clarice. Tá vendo porque você precisa
ficar e fazer os exames?
– Amiga linda, por favor, eu prometo que volto pra fa-
zer esses exames e o que mais você quiser, mas please, me
leva pra casa, preciso ver minha avó.
– Tá bom, vai.
– Não sei o que seria de mim sem você, Soph.
Sophia pediu o carro ao manobrista, que logo o trouxe.
Aliviada, Clarice disparou com Sophia para casa. No carro,
o celular começou a tocar. Era ele.
– Hummm, Davi ligando pra você?

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– E parece que ligou o dia inteiro.
– Não vai atender?
– Depois eu retorno, não tô com saco pra drama ado-
lescente. Quero ver minha avó, meu vô, eles devem estar
muito preocupados. Depois falo com o Davi.
– Quando você vai aprender, hein, Clarice? Esse rapaz
é louco por você. Só você não enxerga isso. E dormir com
ele? Tsi, tsi, tsi. Realmente não foi uma boa ideia.
– Quem disse que eu dormi com ele?
– Óbvio, né? O cara te ligando assim sem parar? Você
com essa camisa de homem? Juntei os pontos, né? Sou
boba não, meu amor.
– Ih, olha só quem tá falando. Toda derretidinha pelo
médico. E você me conhece, sou vira­‑lata. Gosto de fazer o
que quero na hora que tenho vontade. Naquele momento
eu estava afim, e daí? Foi só uma transa. Ele é homem,
entende bem isso.
– Sei não, viu.
– Só consigo pensar nos meus avós agora e naquela
cena terrível de hoje de manhã.
– Nem me fale, acho que nem vou conseguir dormir hoje.
Davi estava em um bar próximo à universidade, to-
mando doses de lembranças. Seu corpo era tomado por
um êxtase estonteante só de lembrar que há poucas ho-
ras estava dentro de Clarice, saboreando seu gozo e
arrancando­‑lhe gemidos que soavam como melodia ao seu
ouvido. Ficaria ali para sempre, não a deixaria fugir.
– Davi! Davi! Ei, cara, acorda!
– Opa! Fala, Cauê, senta aí – disse, puxando a cadeira
para seu amigo.
– Tava sonhando acordado, mano?

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– Eu lá sou homem de sonhar acordado, Cauê? Eu es-
tava pensando na noite maravilhosa que eu tive com…
Adivinha?
– Eu sei lá, mano. Com a Rebeca?
– Não.
– Larissa?
– Não.
– Aha! A Wanessa não foi, safadinho?
– Não!
– Essas são as únicas mulheres que você conhec… não
me diga que você agora tá jogando no meu time!
– Claro que não, seu louco.
– Então fala quem foi.
– A Clarice, Cauê. A Clarice.
A realização estava estampada em seu rosto. Os olhos
brilhavam de felicidade.
– Não acredito! A Clarice deu bola pra você? Conta
outra, Davi.
– Pois pode acreditar, meu velho.
– E como foi isso?
– Bom, a gente se encontrou por acaso num restau-
rante, ela estava desenhando, aliás, tentando desenhar.
Aí eu…
– E aí, gente boa? Tudo tranquilo?
– Fala, Serjão. Senta aí com a gente. Vamos rachar
uma cervejinha.
– Não dá, rapaziada. Tenho uma prova importante
amanhã.
– Prova de quê, mano? − Cauê levantou­‑se da cadeira e
puxou o namorado secreto de canto.

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– A prova do concurso que te falei.
– Ah, verdade.
Sérgio baixou o tom de voz e sussurrou para o “ami-
go” ao reparar no jeito estranho de Davi.
– O que tá rolando?
– Não liga pra essa alma, não; mal de mulher, Serjão.
Sabe como é. − Cauê respondeu propositalmente aos gritos
para deixar claro que ele gostava da fruta. − Aparece lá na
praia pra gente curtir umas ondas, falou?
– Tô precisando. Falou.
– Sim, você ia dizendo… – retomou Cauê.
– Meu celular! Tomara que seja… − O semblante caiu
ao ver que não era a Clarice, mas sim a namorada, Priscila.
– Oi, Priscila − disse em tom sacal.
– Por onde foi que você andou, Davi? Eu te liguei o dia
inteiro e você não me atendeu, não me retornou. Também
não respondeu às minhas mensagens e e­‑mails. Eu estou
preocupada. A sua mãe…
– Você ligou pra minha mãe?!
– Claro! Você sumiu o dia inteiro. Vai que aconteceu
um acidente, você foi sequestrado, sei lá.
– Não exagera, Priscila. Eu estou bem, só tive um dia
cansativo de trabalho; muitas provas pra corrigir, acabei
perdendo a hora. E você sabe que sempre ponho o celular
no silencioso quando estou corrigindo provas pra não ser
incomodado.
– Hum, sei.
– Então…
– A gente se vê hoje? Eu preparei uma surpresa pra você.
– Hoje não dá, Pri.

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– Pri?
– O que houve com “amor”, “minha linda”, “minha flor”?
– Só estou cansado − hesitou −, amor. – Queria que fosse
Clarice do outro lado.
– Tudo bem. A gente se vê amanhã. Te amo.
– Beijos.
Priscila não era uma mulher fácil de se terminar um
relacionamento. Davi havia tentado inúmeras vezes, mas
foi um desperdício de discurso. Ela chorava, mudava de
assunto, e quando ele se dava conta, estava fodendo a ga-
rota com muita vontade. Disso ele não podia reclamar, ela
era gostosa e chupava seu pau como nenhuma outra mu-
lher, mas não era a Clarice.
– Não sei mais o que fazer com a Pri, Cauê.
– Ih, vocês ainda estão nessa? Seja homem: termina, ora.
– Não é tão fácil assim terminar com ela. Sempre que
eu tento ela inventa uma desculpa, você conhece a peça.
– Se conheço!
– Liguei pra Clarice o dia inteiro e ela nem pra me
atender. Poxa, nós tivemos uma noite incrível ontem,
cara. Sabe quando você sente algo diferente, parece que o
seu corpo deixa de ser seu?
– Ih, sei disso não, cara. E outra, você não lê jornal?
– Por quê?
– Então, houve um assassinato no ateliê onde a Clarice
trabalha, pensei que soubesse.
– Oi? Assassinato?! Conta isso direito, cara.
– Então, mano, não para de passar isso na TV. Tá o
maior mistério. Tiraram o cérebro da mina. Bizarro.
– O quê? Como assim, cara? Pera, fala do começo.

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– Então, uma funcionária do ateliê, a Rafaela, sabe?
Aquela ilustradora.
– Sei, sei.
– Então, ela apareceu morta. Sem o cérebro.
– Puta merda, que animal faz isso?
– Pois é, bizarro. O pior é que não tem pista nenhuma.
Não tinha sangue, digitais, nada.
– Por isso a Clarice não me ligou.
– Se liga, mano, a mina foi morta e você pensando se a
Clarice te ligou ou não.
– Tem razão. Mas você também, hein, nem pra me avi-
sar? Ouviu toda a minha dor de cotovelo.
– Tinha esquecido.
– Tem que parar com a maconha. – Os dois riram. –
Vou lá ver a Clarice.
– Tá doido? Ela deve tá super mal com tudo isso. De-
pois você fala com ela.
– Verdade.
Clarice estava com seus avós, sequer lembrava­‑se da
existência de Davi. Contou toda a história, aos prantos.
Sophia vez por outra intervinha. Foi melhor ter ido para
casa porque recebeu o apoio da família. Sentiu­‑se acolhi-
da, mesmo com o horror estampado na face dos avós. So-
phia se despediu depois do jantar. Clarice pediu a bênção
dos avós e foi se aninhar em sua velha cama, mas não con-
seguiu dormir. Sempre que fechava os olhos, revivia aque-
la cena, a cabeça aberta de sua amiga, totalmente vazia.
Levantou­‑se e foi ao quarto dos avós. Ficou observando
eles dormirem. Percebeu o quanto amava aqueles velhi-
nhos lindos. Sempre foram pais para ela: espertos, gentis e

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com bons conselhos na manga. Imaginava se seus pais bio-
lógicos eram assim também. Principalmente seu pai, será
que ele era tão sábio e bondoso quanto o avô? Gostaria de
tê­‑lo conhecido, mas seus avós mudavam de assunto toda
vez que perguntava algo a respeito. O assunto era quase
proibido, mas tinha esperança de um dia encontrá­‑lo. Sua
avó acordou.
– Vovó, perdão − sussurrou.
– Magina, pequena. Também não estou conseguindo
dormir. Vamos, vou fazer um chá.
– Uau, minha gostosura, vem cá, deixa eu lhe dar um
cheiro.
Tomaram o chá e conversaram até serem pegas, de
surpresa, pelo sono. Clarice acompanhou sua avó até o
quarto, da porta dava para ouvir o ronco do avô.
– Esse aí não perde o sono por nada nesse mundo. –
Riram baixinho.
Clarice se despediu da avó, não antes de garantir que
ficaria bem. Tomou um banho quente e voltou ao quar-
to onde havia passado boa parte de sua infância e ado-
lescência. Tudo estava do jeito que tinha deixado, os avós
preservaram todos os detalhes. Pegou um quadro de sua
mãe e ficou admirando, imaginando o que ela faria em seu
lugar, agora que tinha uma cena tenebrosa em sua mente
e uma ideia brilhante para pensar. Com certeza você já teria
milhares de ideias e soluções, não é, mãezinha? Tão talentosa…
Será que um dia chego aos seus pés? No quadro, uma assina-
tura se destacava, apesar de borrada: Debret.

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4

frieza
Lápis, papéis, tintas e um coração impenetrável. Olha‑
va para o filho com repúdio, sem conseguir imaginar como
um ser desprovido de talento carregava seu sobrenome, o
nome da família, que historicamente expressava a essên‑
cia artística francesa. Um acompanhamento regrado, discipli‑
na e horas de treino e estudo vão consertar este sujeitinho. Ah,
tanto que pedi, roguei, implorei a Deus para me dar um herdeiro
que levasse nosso nome de geração em geração, mas aí está, uma
criaturinha sem a menor habilidade. Na idade dele eu já fazia
prodígios. Miguel Baptiste Debret encarava os rabiscos de
um sol mal feito que o filho desenhara desajeitadamente.
– O que você acha, papai?
– Não ouse me chamar de pai enquanto seus desenhos,
se é que chama isso de desenhos, forem semelhantes às
pinturas das cavernas. O que está pensando, hum? Em me
envergonhar? Em sujar o nome da nossa família, é isso?
Debret rasgou o desenho do filho e o ergueu friamente
pelo pescoço e o suspendeu no ar. Em seguida, o largou lá
de cima.

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– Debret! Debret! Ele é só um menino! – Correu a mãe
ao encontro do filho, mas um tapa a fez rodopiar e cair ao
chão.
– Eu era um menino quando compus minha primeira
sinfonia!
Arrastou o filho pelo braço até o grande salão onde o
Bösendorfer Imperial, com seus 2,90m de puro glamour,
reinava imponente. O piano engolia o menino numa de-
licadeza brusca, sua cauda distante era a representação
perfeita da relação entre ele e o pai. Como algo tão belo,
tão amável poderia ser tão tempestuoso e cruel? O salão
possuía grandes janelas arqueadas que se espalhavam aos
pares aos quatro cantos daquele lugar. Suas cortinas bran-
cas voavam ao vento, que se achegava para entoar notas
de uma melodia profunda, sem qualquer ritmo ou sentido
aos corações mais alheios. Colunas ornamentadas se er-
guiam paralelas às janelas e, de algum modo, faziam parte
daquele sublime instrumento fabricado no início do sécu-
lo XX e cuidadosamente herdado por ele de seu avô.
– Nocturne, vamos! O que está esperando? Eu ensinei
ontem para você! Tam nam, tam nam, tam nam nam ram, tam
tam, tam nam nam ram, vamos, você sabe.
– Eu não me lembro…
– Ah, você não lembra? Você é mesmo uma decepção!
– disse friamente, quase cuspindo, e se retirou, insolente.
O piano agora era palco de lágrimas que escorriam
copiosamente dos olhos melancólicos de um menino de
apenas seis anos de idade. Sua mãe correu ao seu encontro
e o envolveu com braços de amor.

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– Você é meu príncipe, perfeito e talentoso à sua ma-
neira. Não importa o que o seu pai diga, você é incrível e
fará coisas incríveis, entendeu?
A casa era constantemente frequentada por músicos,
pintores, fotógrafos e artistas que vinham apreciar a boe-
mia ao lado de amigos. Debret era outro homem na frente
deles, dava gargalhadas contagiantes e sempre tinha algu-
ma piada sobre americanos ou algum elogio para tecer às
atrizes que o cortejavam deliberadamente.
Certa vez, Pedro ouviu ruídos estranhos vindo do
grande salão. Era tarde da noite e mesmo assim não era
possível ouvir o costumeiro ronco do pai. Foi ao quarto da
mãe, que chorava de joelhos sobre um tapete carmesim.
Subiu vagarosamente as escadas. O ruído transformava­‑se
em pancadas violentas, um som opaco acompanhado de
gemidos até então estranhos aos seus ouvidos. Olhou pela
fresta da porta e viu a bunda branca do seu pai mover­‑se
numa velocidade feroz enquanto duas pernas tremiam no
ar. Outra mulher pairava seu sexo sobre a boca daquela
que recebia o órgão fervente do pai. Ele agarrou­‑lhe pela
nuca e a trouxe para junto de sua boca, onde enfiou sua
língua pegajosa. A mulher viu o menino e se assustou. O
pai imediatamente virou­‑se e viu os olhos do filho sumi-
rem. A passos largos, alcançou­‑o no limiar da porta, imó-
vel. Puxou­‑o para dentro às gargalhadas.
– Esse, meninas, é meu talentoso filho, herdeiro do
meu nome. Mostrem para ele como um artista deve ser
tratado.
Elas deram risadas agudas e sem qualquer censura
chuparam o longo e duro órgão de seu pai. O menino, de

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algum modo, sabia que aquilo era errado, e como que, por
reflexo, fechou os olhos. O pai gritou para que ele abrisse
os olhos e visse o que faz um homem de verdade. O me-
nino não conseguia obedecer, nem mesmo se aquilo lhe
custasse a vida. Correu e saltou aos tropeços pela escada,
ouvindo as risadas daquelas mulheres se dissiparem aos
poucos. Juntou­‑se à mãe e desejou nunca mais ver o pai.
Espero que ele morra! E acreditava que ele realmente mor-
reria só de desejar sua morte.

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5
perguntas
A escuridão tomava conta de tudo ao seu redor. Por mais
que se esforçasse para enxergar, a única coisa palpável era a
própria negritude, tão densa que, se esticasse as mãos, poderia
tocá‑la. Estava ferida e só percebeu quando tentou se levantar,
mas foi empurrada ao chão por uma fisgada profunda e aguda
em suas costas. Se ao menos pudesse ver alguma coisa! Tateou
cegamente até tocar em algo pegajoso. Não era exatamente o
melhor lugar para se segurar, mas deu um jeito. Logo, depois
de muito esforço, estava de pé. Um ruído inesperado quase a fez
saltar de sua pele e, de repente, o mundo se encheu com um forte
aroma de café.

– Acorde, minha pequena, seu vô acabou de fazer café.


O quarto era simples, mas aconchegante. Havia um
guarda‑roupa de acácia levemente desbotado, mas ex‑
tremamente conservado, diferente das roupas que es‑
tavam lá, todas fedendo a mofo. O piso também era de
madeira, pequenos blocos retangulares falseavam em
seus lugares, fazendo um barulho chato quando alguém
pisava. Clarice os detestava, principalmente quando

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chegava tarde de suas festas. Caminhava na ponta dos
pés, mas mesmo assim eles faziam questão de dedurá­
‑la. A faxineira, Dna. Neide, também os odiava. Voavam
facilmente ao mais leve toque da vassoura. Certo dia, um
deles voou e acertou em cheio um dos vasos preferidos
de Estela, avó de Clarice. Foi um chororô, Dna. Neide não
queria perder o emprego, pagava a escola de Victória, sua
filha, com ele. Por isso Clarice assumiu a culpa e ficou dois
meses sem ver televisão. Nunca se arrependeu disso, tinha
um carinho enorme pela empregada e a filha, que era qua-
se uma irmã.
As paredes, que há muitos anos recebiam pôsteres de
bandas famosas, agora revelavam uma cor salmão suave
que precisava de retoque. A cama, também feita de acácia,
era pequena e aconchegante. O colchão era macio e abra-
çava Clarice de um jeito que era difícil sair de lá. Era uma
tortura acordar todos os dias tão cedo para ir à escola.
Clarice abriu os olhos com dificuldade, demorou para
entender que estava na casa da avó e não na sua. Por um
momento sentiu falta daquele raio de luz que sempre a
despertava pela manhã, mas ter o mimo da avó era me-
lhor que tudo.
– Que cheirinho bom, vó.
– Café, do jeitinho que você gosta.
– Não lembrava de como essa cama é gostosa. Sabe
que horas são?
– Quase 10h30.
– Jura?! Só aqui mesmo para eu dormir tão bem.
– Então por que você não volta? Pelo menos economi-
za com aluguel.

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– Você sabe por que, né, vó? Aqui fica muito longe do
ateliê e o trânsito é daquele jeito, mas não só por isso, é
bom ter a minha independência, meu cantinho…
– Você, sempre independente, desde criança. Ia sozi-
nha para escola, fazia os deveres só, mas também não pe-
dia ajuda quando precisava. Se lembra do dia que invadiu
o quintal do vizinho e libertou todos aqueles periquitos?
– Lembro, sim – disse gargalhando –, mas continuo
achando que lugar de bicho que tem asa é no céu. Para
quê mais teriam asas senão para voar?
Clarice saltou da cama, puxou sua avó pelas mãos,
ajudando­‑a a ficar de pé e deu­‑lhe um abraço.
– A senhora é a coisinha mais linda desse mundo! Va-
mos tomar café, senão vou me atrasar mais ainda.
– Atrasar pra quê?
– Trabalho, né, vó!
– Ah, minha filha, pode esquecer. Sophia ligou e pa-
rece que o ateliê agora é cena de crime. Está fechado, a
polícia está lá investigando tudo.
– Tinha esperança de tudo isso ser apenas um pesadelo!
– E tem o velório da Rafaela, esqueceu? Será às dezes-
seis horas. Sophia vem almoçar com a gente e vamos todos
juntos para lá.
– Tinha esquecido, vó. Não estou normal.
– O café vai esfriar, mocinhas – falou o avô, convidando­
‑as à mesa.
As duas caminharam para lá. Havia café fresquinho,
pães franceses ainda quentinhos, queijo, presunto, suco
de laranja, leite, manteiga e um bolo de fubá.
– E lá em casa tem só bolacha de água e sal.

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– Ah, não pode fazer isso, pequena. Tem que comer. Tá
vendo por que deveria voltar? – Dessa vez quem falou foi o
avô enquanto beijava­‑lhe a testa para, em seguida, roubar
uma bitoquinha de sua velha companheira.
– Tem pão quentinho, acabei de trazer da padaria.
Clarice encheu sua caneca de café, pegou um pãozinho
e passou manteiga, que derreteu com o calor do pão. Não
precisava de mais nada. Teria um dia duro, aquela cena era
insistente em sua cabeça. Ao mesmo tempo, lembrava que
era questão de vida ou morte criar algo diferente, genial,
mas não sabia o quê, nem como, mas sentia que estava ali,
latente em sua mente, como a morte de sua amiga. Quem
teria feito aquilo? O café foi interrompido pela campainha.
– Deve ser a Sophia.
– Mas ela disse que só viria para o almoço.
– Até parece, vó, é da Sophia que estamos falando.
Certa de que era Sophia, Clarice sequer olhou pelo olho
mágico. Abriu a porta e deu de cara com dois policiais.
– Bom dia, Sra. Clarice. Desculpa vir sem avisar, mas
a senhora não atende ao celular. Sua chefe, Sophia –
era esquisito ouvir que Sophia era sua chefe − nos deu o
endereço.
– Ah, tudo bem. Podem entrar. Já pegaram o maldito?
– Na verdade, não. E é sobre isso que queremos falar.
Precisamos fazer algumas perguntas. Íamos fazer isso on-
tem, mas como a senhora…
– Senhora não, Clarice, por favor.
– Perdão, Clarice. Como passou mal, esperamos a
senh… você se recuperar.

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– Sophia, eu ainda não fiz o almo… − Dna. Estela ficou
surpresa − Olha, são policiais. Cadê a Sophia?
– Não era ela, vó. Os policiais…
– Ah, sim. Rodolfo. E esse é meu parceiro, Roberto. Es-
távamos lá quando desmaiou.
– Pegaram o assassino?
– Ainda não. Estamos aqui para fazer algumas perguntas.
– Claro, claro.
– Quem taí, veinha?
– São policiais, Jorge, vieram ver a Clarice.
– Ah, sim. Vocês querem café? Acabei de fazer.
– Aceitamos. – Jorge foi buscar e sua esposa, Estela, foi
junto para ajudar.
– Então, Clarice, se não se importa…
– Claro, podem começar.
– Como sabe, não temos suspeitos efetivos porque não
há pistas, por enquanto: sangue, sinais de luta ou qualquer
digital. Também não encontramos hematomas pelo corpo.
– Rafaela. O nome dela era Rafaela.
– Perdão. O que quero dizer é que, neste caso, todos
são suspeitos. Rafaela estava em sua sala e…
– Não, pera. Está sugerindo que eu sou suspeita?
– Todos são, todos que têm acesso ao ateliê, até a mu-
lher da limpeza.
– Tudo bem. Prossiga.
– Como era o relacionamento entre vocês?
– Éramos muito amigas, sempre saíamos juntas, uma
amizade gostosa.
– Sabe se ela tinha algum inimigo?

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– Impossível. Rafa era uma mulher apaixonante, tinha
fila de pretendentes que a flertavam, e muitos amigos. Por
isso acredito que tudo isso seja um grande equívoco por-
que não faz o menor sentido.
– Entendo. Então ela era muito cortejada?
– Sim, como qualquer mulher bonita.
– Sabe de algum namorado?
– Hum, ela não tinha bem um namorado. Tinha uns
casinhos, sabe? Podem ver isso no celular dela.
– Estamos analisando as mensagens do WhatsApp. E
onde estava na noite do crime?
– Em casa.
– Pode provar isso?
– Claro, estava com o Davi.
– Podemos pegar o número dele com você?
– Claro. – Clarice pegou o celular e ditou o núme-
ro. Por um momento ficou aliviada de ter transado com
ele, também se lembrou de como tinha sido gostoso. Ele
fode bem.
– Se importa se ficarmos com o seu celular?
– Se tiverem um mandado, não.
– Só queremos resolver esse caso o mais rápido possível.
– Quando foi a última vez que chegou ao trabalho e
encontrou sua amiga sem o cérebro no tapete da sala,
Rodolfo?
– Entendo. Mas não somos inimigos aqui, queremos
ajudar.
– Está aqui o café, senhores.
– Trouxemos açúcar e adoçante.
– Pãezinhos também.

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– Obrigado, muito obrigado, mas queremos só o café.
Estela e Jorge se sentaram ao lado de Clarice e acom-
panharam o restante da entrevista.
– Se não se importa, Clarice, vamos ligar para o seu
amigo, aqui mesmo em sua presença para confirmar a
história antes que tenha a oportunidade de falar com ele,
tudo bem?
– Tudo bem.
– O que está acontecendo, pequena? – questionou o avô.
– Eles acham que sou suspeita – respondeu Clarice
com certa frieza.
– Mas que absurdo!
– Vô, vô! Calma! – Clarice explicou rapidamente a si-
tuação antes que Jorge se exaltasse demais.

O telefone de Davi chamava. Ele mal pôde acreditar


que era Clarice. Atendeu imediatamente.
– Clarice, minha linda, fiquei sabendo dessa história
bizarra. Como você está?
– Olá, não é a Srta. Clarice na linha. Sou Rodolfo,
policial.
– Policial? Ué, onde está Clarice?
– Calma, senhor. Só quero fazer uma pergunta.
– Hum.
– Sabe onde estava Clarice na noite do crime?
– Quê? Que pergunta é essa, cara? Você está louco?
Perdeu o juízo? É da Clarice que você está falando!
– Se acalme, senhor. Não há evidências no caso, então
todos são suspeitos. Pode apenas me responder sem levar
para o lado pessoal?

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– Ela estava comigo.
– E onde estavam?
– Na casa dela. Mas que pergunta é essa? Que desaforo!
– Senhor, por favor, peço que se acalme. Alguém pode
confirmar que estavam juntos?
– Claro, estávamos no bar antes de ir para casa. Tem
o porteiro, as câmeras do elevador ou do estacionamento.
É só entrar com ação judicial e pedir essas informações.
– Obrigado. Vamos nos encontrar em breve. Deseja falar
com ele, Clarice? – Ela balançou a cabeça negativamente. –
Depois ligo.
– Então nós já vamos. Muito obrigado e me desculpem
o incômodo.
– Magina.
Clarice os levou até a porta. Em seguida, ligou imedia-
tamente para Davi. Desculpou­‑se brevemente e falou que
logo mais o encontraria e conversaria melhor com ele.
Davi ficou aliviado e pegou o endereço do velório com ela.
As horas se arrastaram. Parecia que nunca chegaria o mo-
mento de ir ao enterro. Sophia chegou, almoçaram todos
juntos. Clarice arriscou cochilar depois de comer, mas não
conseguiu. Sentiu uma incrível necessidade de mudança.
Queria mudar, mas não sabia por onde começar. Queria
tanta coisa: ser reconhecida, por exemplo, uma referência
no mundo artístico. Depois que isso passar eu vou encher a
cara e dançar até me acabar. Partiram para o velório, que
foi realizado em uma capela simples dentro do cemité-
rio. Clarice não parava de chorar. Davi estava ao seu lado,
assim como os avós e Sophia. A família de Rafaela esta-
va acabada, sua mãe se agarrava ao caixão e gritava. Foi

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quase impossível o padre terminar a ministração, que era
algo sobre a vida, céu e perdão de pecados. Perdão? Clarice
queria justiça. Talvez vingança. Será que Deus perdoaria o
animal que fez isso?

A ministração acabou e todos caminharam até a se-


pultura. O caixão, aos poucos, foi sumindo e a terra negra
tomava seu lugar até desaparecer por completo. Clarice
não aceitou aquilo. Como poderia alguém, que até ontem
estava ali, de repente deixar de existir? Nunca mais ou-
viria Rafaela, nunca mais sua risada gostosa encheria seu
escritório com a alegria contagiante, nunca mais poderia
ligar para ela quando quisesse desabafar, nunca mais a ve-
ria dançar até o dia amanhecer ou ouviria suas lições de
moral sobre o amor, a vida, sobre tudo. Era linda, gentil,
chata muitas vezes, talentosa pra caramba, criativa, uma
artista! Quem faria isso?
Uma lágrima fugiu de sua alma, talvez a última. Uma
lágrima que a fez pensar sobre si mesma, sobre os próprios
pais e avós. E quando chegar a hora deles? Não vou aguentar
ver meus velhinhos partirem. Prefiro ir primeiro, Deus. Por fa‑
vor, me leve primeiro, clamou em silêncio.
Por sempre estar diante de espaços vazios e pessoas
que deveriam estar lá, mas não estavam, Clarice permitia­
‑se viver e sentir tudo o que a vida lhe apresentasse.
Acreditava que a experiência cotidiana um dia lhe traria
aquele estalo criativo que tanto sonhava. Mas ainda era
sexta­‑feira e de uma coisa ela estava certa: Rafa cairia na
pista e ela faria isso também, em sua homenagem.

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6
indigestão
Uma rua estranhamente silenciosa unia-se ao tédio de
uma vizinhança tão fria quanto o vento que chicoteava o
rosto dos corajosos que ousavam colocar os pés lá fora.
– Por que está tão nervoso? Nem eu, fã do Sr. Debret,
estou assim, suando frio. Meu Deus! Você está tremendo –
disse Agnes, caindo na gargalhada.
– Por favor, prometa que não irá exaltá‑lo tanto. Haja
normalmente, como se fosse o padeiro da esquina, por fa‑
vor, por favor, por favor – implorou Pedro.
– Palavra de honra – ela disse pairando uma mão no
ar, enquanto a outra pressionava o peito esquerdo, e o riso
forçava arrebentar seus lábios avermelhados.
– Você não está me levando a sério. Olha, meu pai não
é bem quem você…
Ouviram alguém bater na porta. O estômago de Pedro
transformou‑se em água. É só uma noite, disse a si mesmo.
Vai passar rápido. Vai dar tudo certo.
– Ele chegou! – animada, Agnes correu para o espelho,
olhou‑se mais uma vez, insegura.
– Você está perfeita. – Perfeita demais para mim.

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Toc, toc, toc. As batidas pareciam urgentes e, com o
frio que estava lá fora, não poderia culpá­‑las. Pedro respi-
rou fundo, deu a mão para sua namorada e, juntos, foram
abrir a porta.
– Ah, finalmente – soltou Miguel, invadindo a casa an-
tes mesmo da porta se abrir por completo. – Pensei que
fosse congelar.
– Perdão, pai.
– Sr. Debret, já falei.
Seus olhos percorreram o vão da sala. Em poucos se-
gundos pôde perceber que não estava em qualquer lugar,
mas na casa de pessoas ricas e apreciadoras das belas ar-
tes, tendo em vista os inúmeros quadros de artistas do
barroco, cubismo e surrealismo. Isso o interessou, princi-
palmente a bela moça à sua frente.
– Mademoiselle. – A palavra escorregou de seus lábios
como uma de suas notas musicais. Cortês, parecia outra
pessoa enquanto beijava a mão de Agnes.
– Agnes, Sr. Debret.
– Ah, querida, me chame de Miguel. Pode pegar meu
casaco, Pedro?
Miguel fez um arco com seu braço e pôs gentilmente a
mão de Agnes dentro dele, ignorando todo o resto. Pedro
pendurou o casaco do pai e cumprimentou a mãe, que es-
tava magnífica, apesar de um leve aspecto abatido.
– Uau, minha mãe! A senhora está simplesmente
deslumbrante.
– Ah, Pedro, você está sendo gentil. Estou cansada, na
verdade, das grosserias de seu pai.
– Quem não está?

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– Bom, pelo menos ele gostou da moça. – Olharam e
viram Agnes e Miguel rindo enquanto apontavam para um
quadro de Dalí.
– A noite promete – falaram juntos.
O jantar estava surpreendentemente agradável. Da
entrada ao prato principal, tudo parecia impressionar o
Sr. Debret. Principalmente o fato de Agnes ter sido a co-
zinheira. O vinho também estava impecável, a conversa
fluía naturalmente.
Ele realmente consegue ser uma boa pessoa quando quer.
Nossa vida poderia ter sido sempre como este jantar, pensa-
va Pedro.
– Conte­‑me mais sobre os seus pais. Por que não estão
aqui com você?
– Ah, meus pais são envolvidos com política, vivem
viajando. Praticamente cresci sozinha e aprendi a me vi-
rar desde muito cedo.
– Entendo, faz bem. Vejo que terá muito o que ensinar
ao meu fi… ao Pedro.
– Na verdade, ele que tem me ensinado muitas coisas.
Inclusive, sabia que o Pê é um excelente…
– Preciso ir ao banheiro – Debret interrompeu,
levantando­‑se abruptamente da mesa. – Onde fica?
– Ah, é logo ali.
– Licença.
– O que deu nele?
– Ah, minha querida, é uma longa história. Espero
nunca tomar seu precioso tempo contando­‑a. A única
coisa que precisa saber é que por debaixo desse homem

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charmoso e inteligente, esconde­‑se um ser um tanto
quanto neandertal.
– É o que tentei dizer a ela, mas a melhor maneira é
descobrir por si mesma.
– Tem uma bela casa, senhorita. Não sei como não tem
medo de ficar sozinha aqui – disse Miguel, retornando ao
seu assento.
– Ah, não, senhor, temos seguranças, uma governanta
e Pedro sempre está aqui comigo. – Suas mãos encontra-
ram as de Pedro, calorosas.
Miguel sentiu­‑se desconfortável com aquilo, sua mu-
lher percebeu e logo interrompeu aquele silêncio.
– Eu adorei o salmão, Agnes. Está divino!
– Ah, sim, que bom que gostou. É a mesma receita que
usei para temperar a minha berinjela.
– Ela é vegana – interviu Pedro.
– Receita da sua mãe?
– Ah, não, não, eu que inventei. Fui misturando tem-
peros até chegar nesse sabor. Ainda bem que deu certo
com o salmão.
– Quanto talento! – admirou­‑se Miguel.
– Ela também é pintora, pai. Precisa ver os quadros
dela, uma artista deslumbrante – disse Pedro.
– Ah, também não é assim – falou Agnes constrangida,
corando o rosto.
– Quantos talentos você tem, senhorita? Creio que su-
portar esse rapaz aí – apontou para Pedro – é o maior de-
les. – Riu ironicamente.
– Então devo ser muito talentosa por suportar você,
querido – interrompeu Clarice, mãe de Pedro.

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Ouviu­‑se um forte estalido e em seguida, o rosto bran-
co de Clarice avermelhou­‑se. Sentiu a face queimar, en-
quanto sua mão rapidamente empurrava Pedro da cadei-
ra. Pedro estava decidido a espancar o pai até a morte.
Crescera vendo a mãe apanhar e nunca fizera nada até
então. Um dia ainda vou dar as tripas desse idiota aos cães!
Ele imaginara inúmeras maneiras de matá­‑lo. Envolvia­‑se
nesses pensamentos com certo prazer, mas logo os aban-
donava pedindo perdão a Deus por tais ideias. Uma vez
imaginou que era um samurai e lutava contra o pai. Come-
çou apanhando feio, mas ao final da luta, já quase desistin-
do, revidou com um golpe fatal. Seu pai morria afogado no
próprio sangue. Imaginação, apenas.
Agnes estava perplexa em sua cadeira, não acre-
ditava naquilo que tinha visto. Para Miguel, nada havia
acontecido.
– Vamos à sobremesa, senhorita?
– Cla, claro, sen, senhor. Vou buscá­‑la.
Agnes ergueu­‑se, trêmula. Pedro tentou acompa-
nhá­‑la.
– Você fica exatamente onde está, Pedro.
Ele obedeceu, enquanto o ódio tomava conta de suas
emoções. Sons de louças caindo tomaram a casa. Agnes
estava assustada com a cena que tinha presenciado.
– Vá ajudá­‑la, mulher. Rápido.
Clarice se levantou e correu para a cozinha. Encon-
trou Agnes sentada no chão, chorando.
– Ah, querida, não se preocupe. Não se preocupe. – Ela
enxugou as lágrimas e a olhou nos olhos.

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– Pedro é um bom garoto. Merecia um pai melhor,
mas infelizmente eu não fiz uma boa escolha, como pode
ver. Cuide do meu filho e me prometa uma coisa: sejam
felizes e não deixem ninguém, ninguém mesmo, interfe-
rir no amor de vocês. E se um dia ele não for gentil, não
pense duas vezes, largue­‑o. Falar mais alto já anuncia uma
violência maior no futuro, filha, lembre­‑se disso. Duvido
muito que isso aconteça com o meu Pedro, mas ninguém
pode saber o que está no coração das pessoas. Então, va-
mos viver o agora. Onde está a sobremesa?
– Na ge­‑na­‑ge­‑ladeira, Sra. Debret.
– Clarice, minha menina, me chame de Clarice. Venha,
me ajude.
À mesa, Pedro questionava o pai sobre sua atitude.
– Uma noite, pai. Nem uma noite o senhor pôde agir
como o cavalheiro que costuma ser para os amigos.
– Xi, é melhor não continuar com o discurso se não
quiser virar um sem­‑teto, Pedro. Aliás, me chame de Sr.
Debret, já disse isso milhares de vezes, mas será que nem
isso você aprende? Santo Deus! Onde eu errei?
Agnes e Clarice apareceram trazendo pudim de leite,
salada de frutas, sorvete caseiro de chocolate e torta de
morango. Tudo feito por Agnes, que se limitou a comer
sua saladinha de frutas por evitar alimentos derivados
de animais. A noite seguiu sem clima para todos, exceto
para Miguel, que não parava de falar de seus feitos, suas
apresentações musicais em outras cidades, os artistas que
conhecia etc. Agnes agora entendia perfeitamente o moti-
vo pelo qual Pedro ficava tão transtornado quando falava
do pai. Ela simplesmente estava decepcionada com aquele

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homem que tanto admirou. Agora ele não passava de um
esnobe e estúpido. Queria pular toda aquela conversa fia-
da, despedi­‑los e ficar a sós com o seu amor. Quem sabe
aquela noite pudesse ter um final feliz.
– Senhorita, toda a comida estava divina. Você é uma
excelente cozinheira. Preciso levá­‑la para minha casa,
quem sabe você ensina uns truques culinários para mi-
nha mulher – concluiu com uma gargalhada exagerada e
solitária.
– Obrigada, querida. Vocês formam um lindo casal.
Vamos, Miguel? A noite está bem fria.
– Sim, sim. Tenham uma boa noite. E, Pedro, não che-
gue tarde em casa, mas se chegar, por favor, tente não fa-
zer barulho. Você sabe que meu sono é leve.
– Pode deixar.
Despediram­‑se, finalmente. Ao fechar a porta, Agnes
encarou Pedro com absurda incredulidade.
– Por que não me falou que seu pai é um ogro?
– Mas eu falei, você quem não quis acreditar.
– Estou chocada! Nunca mais quero vê­‑lo! Como sua
mãe aguenta? Oh, meu Deus! Como você o aguenta? Esse
homem é um monstro.
– Eu sei, eu sei, mas tente esquecer tudo isso, tá bom?
Foca no aqui e no agora, nesse momento que nós dois es-
tamos a sós.
Pedro a pegou gentilmente pela cintura e colou seu
corpo no dela. Beijou­‑a lentamente, envolvendo­‑a com
paixão. Seu pênis pulsou ansioso por penetrá­‑la, mas es-
tava firmemente decidido a fazê­‑lo somente depois do
casamento. Queria que tudo fosse perfeito. Pressionava

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o corpo de Agnes ao seu e ela podia perceber seu órgão
duro. Isso a deixou molhada. Que beijo delicioso. Dormiria
com ele agora. Deixaria que ele tirasse minha roupa, que me to‑
casse. Será que ele me teria por uma dessas prostitutas se eu
fizesse isso? Os tempos estão mudando, que mal teria?
– É melhor pararmos.
– Sim, claro. – Agnes estava bêbada de tesão, trêmula.
– Preciso ir, ouviu o que o velho disse.
– Ah, sim. Pois é, você tem que ir mesmo – concordou
sem graça, mas o que ela queria de verdade é que ele ras-
gasse sua roupa e a comesse a noite toda.
– Durma bem, princesa. A gente se vê amanhã cedo na
faculdade – sussurrou, enquanto beijava­‑a na testa.
Naquela noite, ambos masturbaram­‑se freneticamen-
te pensado um no outro. Pedro se lembrava do vestido
levemente decotado de Agnes, na avenida bronzeada que
havia entre os seios, nos fios de cabelo em sua nuca e no
modo como deixava a boca entreaberta. Ela pensava na
forma como a blusa de Pedro grudava em seu abdômen,
relevando um corpo definido, nos olhos incrivelmente
azuis hipnotizantes e no pênis duro se esfregando nela.
Seus desejos encontraram­‑se nos sonhos, que duraram até
o amanhecer.
Preciso pedi­‑la em casamento. Este foi o pensamento que
tirou Pedro de seus sonhos eróticos. Mas como poderia
casar se nem mesmo tinha um emprego e se quer fazia o
que gostava? E o que gostava de fazer? Sinceramente, não
sabia. Havia crescido nesse mundo da arte, mas realmente
não tinha talento nem vontade para seguir uma carreira
artística, seja ela qual fosse: música, teatro, pintura. Só de

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pensar sentia náuseas. Parte dele queria ser reconhecido
pelo pai, outra parte não estava nem aí para o que Miguel
Debret pensava. Sua vida se resumia a este conflito, afinal.
E tinha Agnes, que também era artista. O que será que faz
de alguém um artista? O que existe de diferente entre um ser
humano e outro para que um deles tenha dons artísticos e outro
não? Será que é algo que se aprende? Será que posso aprender a
ser artista? Duvido.

– Filho, está atrasado. O café está na mesa.


– Ah, sim, mãe. Vou tomar um banho e já desço.
– Seu pai já está lá, sabe como fica quando não se junta
à mesa.
– Não sei por que ele faz tanta questão de unir a “famí-
lia” para comer – disse em tom de ironia.
– Eu sei, eu sei, mas se pudermos evitar um surto da-
queles, por que não fazê­‑lo?
Seu tom era meigo; as rugas, precoces, enfeitavam
sua face, mas de alguma maneira não a envelheciam, pelo
contrário, realçavam sua beleza melancólica. Clarice tam-
bém não tinha lugar no mundo da arte e, não fosse sua
beleza, Debret jamais teria olhado para ela. Era um ho-
mem gentil, sedutor, e envolver uma mulher era o me-
lhor de todos os seus talentos. Fazia isso com tal vocação
e energia, mas era só conseguir a presa que logo perdia o
interesse. Não era um apreciador da monogamia, e Clarice
teve a infelicidade de descobrir isso na noite de núpcias.
Depois, tornou­‑se esse homem estúpido dia a dia, como se
houvesse encenado todo aquele romantismo.

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Clarice era orgulhosa, seus pais amavam Debret, ja-
mais acreditariam em nada do que ele fazia em casa, se-
ria vã a sua denúncia. Sem falar no orgulho e no papel da
mulher no sucesso de um casamento. Caso ela se separas-
se, ninguém entenderia o seu lado, ela seria a causadora
dos males, seria malvista e até exilada da sociedade. Como
viveria? Com certeza seus pais não a receberiam de bra-
ços abertos, a alternativa era se calar e fazer o que uma
boa esposa deve fazer: zelar pelo marido e filhos. E o fez:
calada, sofrendo, sendo obrigada, muitas vezes, a sorrir
publicamente e encenar um casamento feliz quando o que
mais queria era gritar e desaparecer. Quando Pedro nas-
ceu, Clarice dirigiu todas as suas energias ao filho. Ele será
gentil, como Debret nunca foi. O ensinarei a ser um homem de
verdade. E será forte, como uma rocha, para enfrentar o pai. Por
isso será Pedro, pensava. Mas não foi o mar de rosas que
Clarice imaginava. Debret era violento com o filho, prin-
cipalmente porque ele não demonstrava nenhum talento
para arte.
– Culpa sua! Eu jamais deveria ter plantando minha
semente numa enfermeirazinha de quinta. Tantas mu-
lheres magníficas e fui escolher logo você – Debret falava
numa violência letal e suas palavras doíam mais que os
socos que dava no estômago dela. Nunca no rosto, porque
deixavam marcas explícitas e não queria levantar suspei-
tas entre vizinhos. – Ele puxou a você, poderia ter puxado
a mim, mas escolheu você e por isso não é digno de meu
nome! – Arrastava o pequeno Pedro pelos cabelos até o
velho quarto de quinquilharias, onde guardava instru-
mentos quebrados, livros velhos, móveis imprestáveis e

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insetos asquerosos. Largava o menino ali e o trancava o
dia inteiro, sem direito à água, comida, e sequer poderia
ir ao banheiro.
– Mamãe, me tira daqui. Mamãe, por favor, eu preciso
fazer xixi – berrava aos prantos.
– Por favor, Debret, ele é apenas uma criança.
– Não, deixa ele aí para aprender. – Chutou a porta
para intimidá­‑lo. – Faz seu xixi aí, moleque.

Uma lágrima fugiu dos olhos de Clarice com essas lem-


branças. Por um momento o passado a agarrou traiçoei-
ramente e uma profunda tristeza mudou seu semblante.
Ainda falta muito para que eu descanse para sempre, meu Deus?
– Mãe? O que houve?
– Nada, nada, só uma lembrança ruim. Vamos, vamos
antes que o café esfrie.
Desceram e o café não estava mais na mesa. Debret
estava em sua poltrona terminando de ler o jornal.
– Onde estão as coisas do café, Debret?
– No lixo, onde mais? Vocês demoraram, achei que
não estivessem com fome e tomei a liberdade de jogar
fora. Estou enganado?
– Seu filho da puta de uma merda! Como pôde fazer uma coi‑
sa dessas? – enfurecido, Pedro segurou o pai pelo pescoço,
enforcando­‑o. – Seu maldito!
– Estou enganado? – A ênfase venenosa resgatou Pe-
dro de seu delírio matinal. Queria dizer umas verdades
para o pai, enfrentá­‑lo, mas era covarde demais para isso.
– Não, pai. Não está. Desculpe, amanhã estaremos no
horário para o café.

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– Muito bem.
Clarice se despediu do filho com um olhar e logo o viu
sair para a faculdade. Ele ficou gentil demais. Poderia ser fir‑
me e colocar o Sr. Todo Poderoso da casa em seu devido lugar.
– É melhor não atrasar o almoço.
– Claro. Espero que engasgue enquanto come e morra len-
tamente.
Pedro pegou o trem no mesmo horário de sempre, às
7h10. Já conhecia os passageiros, que sempre se sentavam
nos mesmos lugares. Mas nesse dia havia dois sujeitos di-
ferentes. Vestiam branco dos pés à cabeça e falavam algo
sobre ondas cerebrais, cirurgias e trauma pós­‑guerra.
Pedro ouvia tudo atentamente até interrompê­‑los, quan-
do mencionaram a necessidade de um assistente para o
consultório.
– Perdão, senhores, mas não pude deixar de ouvir a
conversa. Precisam de um assistente, é isso?
– Isso. Qual o seu nome?
– Pedro, senhor. Pedro Debret. E estou procurando um
emprego.
Os médicos o olharam dos pés à cabeça. Era um rapaz
bem aparentado, pensaram. O médico mais alto puxou um
cartão do bolso da frente de sua camisa e o entregou a
Pedro.
– Apareça neste endereço às 11h.
– Às 11h não posso, senhor. Minha última aula vai até
às 12h20. Posso encontrá­‑los às 14h?
– Aula, hum? E o que estuda?
– Chego às 14h e conto a vocês.
– Gostei. Não se atrase.

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– Claro, senhor. Opa, esta é minha estação. Licença e
obrigado.
Pedro saiu feliz. Preciso desse emprego. Se conseguir, já é
um passo para pedir Agnes em casamento.
Agnes estava aguardando Pedro na frente da estação
de trem, como sempre. Notou a alegria no rosto dele assim
que o viu, estava diferente, nem parecia que tinham tido
um péssimo jantar. Pedro soltou a mochila e a agarrou
pela cintura, erguendo­‑a para o alto e girando­‑a.
– Nossa! Quanta animação. O que houve?
– Você, meu amor, você é motivo de felicidade eterna!
Dá aqui um beijo!
– Vamos, senão chegaremos atrasados, sabe como é a
professora de História da Arte.
– Uh, sei. Vamos.
Pedro esteve ansioso durante todo o dia. Olhava para
o relógio de segundo a segundo, mas o ponteiro parecia
não colaborar. Via os lábios da professora se mexerem,
mas não conseguia ouvir nada. Medicina, talvez seja isso o
que eu nasci para fazer. Será? Hum, acho que levo jeito para
cuidar das pessoas e não pareço enjoar quando vejo sangue. É
um bom sinal, quem sabe. Tem que dar certo. Já deu certo!
– Ei, para de balançar as pernas – sussurrou Agnes,
enquanto pressionava o joelho de Pedro.
– Perdão.
O insuportável sinal que anunciou o final da aula nun-
ca tinha sido tão bem­‑vindo. Parecia uma das doces melo-
dias que seu velho pai arrancava do piano. Pedro saltou da
cadeira e correu alucinado para a estação.
– Aonde você vai?

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– Te explico depois – gritou enquanto sua voz se dispersava.
– O que deu nele?
– Sei lá. Homens… vai entender!
– E aí, me conta tudo o que aconteceu no esperado jan-
tar com o excelentíssimo Debret.
– Uma droga.
– Como assim? Impossível a presença do mestre das
artes ser uma droga.
– Diria até abominável.
– Explica – Gisele falou com certa incredulidade, espe-
rando ouvir uma história sem qualquer fundamento.
Gisele era uma jovem de aparência hedionda. Quando
sorria era pior, dava vontade de ir ao inferno encontrar o
capeta. Seu rosto não tinha qualquer simetria: olhos gran-
des demais para a cabeça pequena demais, rosto cheio de
espinhas, boca levemente torta com dentes terrivelmente
tortos e amarelados. Se Deus realmente existia, Ele não
tinha sido bom com Gisele. Porém a moça era de uma
simpatia apaixonante. Extraordinariamente, as pessoas
gostavam dela, gostavam de estar com ela. Era difícil
encontrá­‑la sozinha, estava sempre cercada de amigos. E
o mais impressionante era que Gisele parecia não se im-
portar com sua falta de beleza. Inclusive, vivia confiden-
ciando namoricos para Agnes.
Outro dia, um professor entregou­‑lhe um bilhete:

Encontre­‑me no banheiro feminino da quadra de es‑


portes às 13h. Bata três vezes.

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Era o horário mais vazio, nunca tinha ninguém lá às
13h. Chegou à porta e fez como o professor pedira. A porta
abriu e ela não acreditou no que estava vendo. As calças
do professor já estavam no chão e ele massageava seu ór-
gão ereto com certa violência.
– Vem chupar.
A cena inesperada só levou Gisele a uma atitude: obe-
decer. Caiu de joelhos até sentir o líquido quente descer
por sua garganta. O professor subiu as calças e saiu do ba-
nheiro sem falar nada. Isso voltou a acontecer milhares de
vezes. Sempre o mesmo bilhete pedindo que Gisele o en-
contrasse em algum lugar. Ela ia, fazia o serviço e ele par-
tia sem nada dizer. Acho que ele me ama, pensava. Acredito
que não fala comigo por medo, acha que vou pedir pra largar a
mulher, sei lá. Pode ser…
– Ele é um grosso, estúpido, Gi. Maltratou a mulher na
minha frente, xingou. O Pedro já tinha me alertado que o
Debret não era nada do que as pessoas imaginam que ele
seja. É um bruto desumano.
– Que horror!
– Ficou um clima terrível em casa. Assim de perto,
você realmente percebe que ele é grosseiro.
– Entendi, o jantar foi uma merda, mas e depois…?
– E depois… nada.
– Como assim nada?
– Nada de nada. Já estou ficando maluca. Sei que o Pe-
dro quer muito, sinto ele daquele jeito, mas ele sempre
para quando parece que vamos mais adiante, sabe? E te-
nho vergonha de me oferecer demais e ele achar que sou
alguma vadia desesperada.

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– Não, para. Ele te ama, claro que não vai pensar isso.
– Será que ele ama mesmo?
– Mas é claro! Todo mundo percebe a cara de idiota
dele quando olha para você. Vocês dois juntos são como
um daqueles casais que dão até nojo de ver de tão perfei-
tinhos que são, sabe?
– Você acha?
– Todo mundo acha! Mudando de assunto, me ajuda
a separar os alimentos que arrecadamos semana passa-
da? Quero começar a deixar para as famílias depois de
amanhã.
– Claro, ajudo, sim.

Pedro correu até a estação, entrou na fila para pegar


o ticket e quando colocou a mão no bolso para pegar o en-
dereço dos médicos, percebeu que ele estava vazio. Não ti-
nha nada. Colocou o forro do bolso para fora e nada. Olhou
na mochila, nada. Folheou os livros, o cartão não estava lá.
Nos dias seguintes, Pedro esperou ver os médicos no-
vamente, mas eles também não estavam no mesmo va-
gão. Mesmo assim, não perdeu a esperança. Passou a fre-
quentar a biblioteca mais vezes, na secção de Medicina.
Interessava­‑se pelo conteúdo, as gravuras dos corpos, a
anatomia. Pela primeira vez, se viu realmente interessado
por algo. Como médico, posso casar com Agnes e ter o respeito
de meu pai. Quem sabe até algum dinheiro.
Ele começou a estudar loucamente para ingressar no
curso de Medicina e não contou nada para ninguém, nem
para sua mãe e muito menos para Agnes. Não queria cor-
rer o risco de compartilhar uma decepção futura, apesar

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de estar seguro sobre seu ingresso. Vou entrar na melhor
faculdade desse país, dizia a si mesmo. Estudava dia e noite.
Mal tinha tempo para Agnes e ela já estava atormentada
com esse comportamento estranho. Num belo dia, aliás,
numa bela madrugada de insônia, ela rolava de um lado a
outro da cama quando decidiu conversar seriamente com
ele. Ainda de pijama, pegou o carro dos pais e foi até a
casa dele. De longe, viu a luz do quarto acesa. Imbecil. Es-
tacionou de qualquer jeito e gritou por Pedro, acordando
toda a vizinhança. Assustado com os gritos, as olheiras de
Pedro, única coisa em evidência em seu rosto naquele mo-
mento, surgiram na janela, curiosas.
– Precisamos conversar. E agora.

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7
segredos
– Não precisava falar comigo daquele jeito! – a voz de
Sérgio soou como um trovão dentro da casa, acompanha‑
da de um encontro brutal entre a porta e a parede. Cauê
acabou derramando a cerveja ao chão com o susto.
– Caraca, mano, quer me matar do coração?!
– É, eu bem que deveria. Por que você me tratou da‑
quela maneira na frente do seu amigo?
– Não estou te entendendo, Serjão.
– Não me chama assim, não sou teus brothers.
– E é o quê, então?
– Idiota – sussurrou.
– Tá, vamos lá. Acho que estamos num mal‑entendido
aqui. Primeiro: combinamos de não dar pinta por aí, agi‑
ríamos como amiguinhos e tal pra não levantar suspeitas.
Segundo: só estava tentado fazer o primeiro item dar cer‑
to. É assim que trato meus amigos.
– Hum, pode ser. Só não gostei da sua frieza.
– Não tem problema, a gente pode esquentar agora.
Cauê estava só de cueca, a cerveja havia molhado
parte dela, deixando-a levemente transparente. Ele se

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aproximou de Sérgio da mesma forma abrupta que ele
havia entrado na casa, meio que para se vingar. Sérgio
deu alguns passos para trás, nervoso, mas Cauê insistiu,
parecendo se divertir com a ocasião. Queria ver até onde
ele iria resistir aos seus desejos. Estava duro e seu órgão
pulsava mais forte cada vez que Sérgio se afastava, até en-
contrar a parede e não ter mais para onde ir. Encurralado,
Cauê pegou a mão de Sérgio e colocou sobre a sua cueca.
Ele conseguia sentir a pulsação ali, latente, e de alguma
maneira inexplicável, sentiu um formigamento em sua
boca. Queria chupá­‑lo, naturalmente, mas essa ideia o fez
pular para o lado.
– Não posso; desculpa, Cauê.
Sérgio saiu porta à fora e Cauê foi atrás.
– Espera, Sérgio, por favor.
Sérgio parou, louco de tesão. Queria beijar Cauê, saber
como era e que gosto teria. Queria sentir o corpo nu dele
junto ao seu, o pau duro em sua boca. Por um instante, se
imaginou passando a língua na cabeça do pênis de Cauê,
alternando com suaves chupadinhas. Imaginou as bolas
dele dentro da boca. Ah! Deve ser uma delícia. Imaginou­‑se
de quatro e o pau do Cauê dentro dele, duro e pulsante,
entrando e saindo. Ora com força, ora devagar e lento. Es-
tava gemendo por dentro, seu órgão parecia que ia explo-
dir em suas calças quando sua mente foi traída por uma
imagem de uma criança, que sorria com os olhos para ele.
– Não posso – bateu a porta e correu para o carro. Di-
rigiu sem rumo com a cabeça a mil. Até quando o Senhor
vai me deixar assim, hein? Num piscar de olhos o Senhor me
consertaria, mas não, aposto que sente prazer com a minha dor.

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Misericórdia, perdão por pensar isso, Senhor. Me perdoe, mas eu
já não sei mais o que fazer. – Não sei mais o que fazer!
Estacionou, desceu do carro e caminhou até uma
igreja. Era simples, paredes recém­‑pintadas com tinta cal
da cor branca, ainda dava para sentir o cheiro. A nave da
igreja era retangular e comprida, deveria ter uns cinquen-
ta metros, preenchidos com cadeiras de plástico, brancas
também. Alguns ventiladores espantavam o calor ou pelo
menos tentavam. No verão, era como se não existissem.
Ao final da nave estava o altar, feito de tijolos e coberto
com papel adesivo que simulava madeira. Nele havia duas
poltronas confortáveis encostadas à parede e um púlpito
de vidro translúcido com uma enorme Bíblia marrom em
cima. Era bem velha, a capa bem desgastada denunciava
seu uso contínuo. O homem que a lia também: um senhor
imponente, mas de feições graciosas. Suas rugas, apesar
de entregar a idade, também expressavam certo aconche-
go, principalmente quando sorria. Era alto, estatura forte,
e caminhava de um lado para o outro do altar, enquanto
sua voz grave compassiva enchia aquele lugar e os cora-
ções das pessoas que ali estavam, muitas em desespero.
Sérgio entrou e sentou no único assento disponível lá no
fundo, junto à grande porta de entrada.
– Acharam, meus amados, acharam? Tiago 4:4 diz:
“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do
mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que
quiser ser amigo do mundo constitui­‑se inimigo de Deus.”
Mas a parte linda está nos versos sete e oito, vamos ler?
Diz assim: “Sujeitai­‑vos, pois, a Deus, resisti ao Diabo, e ele
fugirá de vós. Chegai­‑vos a Deus, e ele se chegará a vós.

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Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purifi-
cai os corações”. Vemos aqui dois momentos: no primeiro
há uma denúncia, o Senhor nos desmascara, diante Dele
ninguém se esconde, não há segredos. Adúlteros e adúlte-
ras! Ele deu nome ao pecado daquele povo. Qual o nome
do seu pecado? Encare­‑o, deixe de fugir, pois enquanto
você fugir, você não poderá viver esse segundo momento
que lemos nos versos sete e oito: o Diabo fugirá de você.
Então é isso. Preciso encarar, me assumir. Deve ser por
isso que nunca fui curado, talvez só precise externalizar para
alguém…. Ah, Pai, meu Pai, o Senhor morreu naquela cruz por
mim e levou sobre si todo o meu pecado. Sou… eu sou gay, sou
homossexual desde criança e não quero ser, não posso ser.
– Alguém mais deseja aceitar Jesus? Venha aqui para
frente, nós vamos fazer uma oração por você. Ou se você
que já é da igreja, mas ainda tem aquele espinho na carne,
algo que insiste em não sair, venha aqui, dê nome ao seu
pecado e saia daqui livre de uma vez por todas!
Sérgio levantou­‑se prontamente e num segundo já es-
tava lá na frente do altar, aos prantos. Baixinho, ele orava:
“Não quero ser gay, Senhor, me cure, por favor. Por fa-
vor, por favor”. Sentiu uma mão forte sobre sua cabeça e a
mesma voz grave compassiva lhe disse: “Seja livre, filho, o
Senhor ama você do jeito que você é”.
O culto acabou e as pessoas logo se dispersaram. Sér-
gio permaneceu em sua cadeira, os olhos inchados por
causa do choro. As pessoas passavam e o cumprimenta-
vam. Por último, vinha o pastor e Sérgio pôs­‑se em pé, a
fim de falar com ele.

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– Pai, preciso conversar com o senhor e precisa ser
agora.
– Claro, meu filho, estou feliz que tenha vindo. Fiquei
até surpreso. Há tempos não vinha à igreja.
– É, eu sei. Mas agora estou aqui. Podemos falar?
– Sim, vamos para o cantinho. – Foram para longe dos
poucos curiosos que ainda restavam no templo.
– Então, filho, o que aconteceu? Está tudo bem com a
Silvia?
– Está sim, pai. Ela está ótima.
– E as meninas, tão bem?
– Lindas e saudáveis.
– Glória a Deus.
– Mas não é sobre elas, é sobre mim.
– Até imagino o que seja. Já estava esperando você vir
falar comigo.
– Já? Como assim?
– Ora, Sérgio, não sou nenhum tolo. Conheço você e
a pregação de hoje… Bem, o fato de ter ido lá na frente.
Confesso que fiquei orgulhoso e desapontado ao mesmo
tempo. Orgulho porque é preciso ter muita coragem para
assumir e ir lá para frente, você sabe, as pessoas julgam.
E desapontado porque você é meu filho, afinal. Sou hu-
mano, penso no que as pessoas podem pensar, mas que
seja feita a vontade de Deus. Mas adultério, infelizmente,
é um pecado comum. E você não pode continuar traindo
sua mulher, precisa deixar esse hábito, se sujeitar a Deus e
ser santo, fiel a Deus.
– Hã? Traição? Não, pai, não é nada disso, eu não estou
traindo a Silvia… eu jamais a traí ou trairia, quer dizer,

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não fiquei ou tive qualquer contato com outras pessoas,
imagina, num é isso.
– O que é, então?
– É algo bem pior que isso e pode ser que depois dessa
conversa o senhor não queira mais ser meu pai, mas é a
única esperança que tenho de ser livre.
– Nunca vou deixar de ser seu pai. O que tem de tão
grave para me falar?
Sérgio respirou fundo, as palavras se agarravam, de-
sesperadas, em sua garganta. Não queriam sair, tinham
medo de sair. Foram arrastadas para fora, expulsas de sua
boca numa violência que nocauteou a alma de seu pai, le-
vando sua consciência ao chão.
– Sou gay.
– Não é, não! Isso é mentira do Diabo, repreenda! Que
história de gay é essa?! Você está louco? É casado! Bem
casado! Tem duas filhas lindas, não, como pode?! – o pas-
tor estava transtornado, ficou de pé, andando de um lado
para o outro.
– Pai, me ouve, me ouve. Eu sou assim desde criança.
– Desde criança?! Ah, como ousa falar uma barbari-
dade dessas! Eu te criei com tudo do bom e do melhor!
Dei tudo: educação, amor, disciplina! Ensinei você a ser o
homem que é hoje!
– Eu sei, pai, eu sei. Eu continuo a mesma pessoa e foi
por causa dessa educação que me deu que eu nunca aceitei
ser isso. Não entende, pai? Eu nunca quis ser isso! Sempre
busquei a cura, sempre. E só estou contando para o senhor
porque é minha última esperança de ser curado. Por fa-
vor, pai, já basta ter crescido me repugnando. Não posso

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viver se o senhor também me rejeitar. Preciso da sua aju-
da. Me ajuda, pai?
O pastor tomou as rédeas de suas emoções, olhou para
o filho e se compadeceu. O que Jesus faria? – perguntou­
‑se. Caminhou em sua direção e o abraçou forte. – Eu amo
você, meu filho, e vamos superar isso juntos. Se o Senhor
é por nós, quem será contra nós? Agora, olhe para mim:
ninguém precisa saber disso. Sua mãe, esposa, ninguém.
Vou compartilhar apenas com a liga dos libertadores, os
mais íntimos e confiáveis. Vamos começar a curar você e
logo, logo esse demônio vai bater em retirada e você será
o homem que o Senhor quer que você seja.
– Amém, pai.
– Vá para casa, tome um banho e faça amor com sua
esposa. Amanhã, vou almoçar com vocês.
– Obrigado, pai.
Sérgio saiu da igreja. Estava aliviado, um mundo havia
saído dos seus ombros. Entrou no carro e pegou o celular.
Cauê havia mandado mensagem no WhatsApp.

Tá bem, mano? Me liga.

Procurou o Cauê nas últimas chamadas. Ficou olhan-


do para o smartphone, pensando se ligaria ou não. Jogou
o celular na poltrona ao lado e dirigiu até em casa. A luz
da sala estava acesa, suas filhas provavelmente estavam
brincando. Acionou o alarme e contou até três para ouvir
as crianças gritarem “Papai”. Elas pularam em cima dele
ainda quando a porta estava entreaberta.

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– Ué? Quem são vocês? Quem são vocês? Eu não
conheço essas miniaturas de gente. – Elas gargalharam.
– Silvia! Silvia! Você conhece essas pessoas?
Silvia veio da cozinha, entrando na brincadeira: – Nun-
ca na minha vida!
– Ah, conhece sim, mamãe – elas gritaram, animadas.
– Somos suas filhas.
– Filhas? Eu me lembraria se tivesse filhas, não me
lembraria, Silvia?
– Eu também me lembraria. – Foi até Sérgio e o bei-
jou, calorosa. – Bem­‑vindo, meu anjo. Vou esquentar seu
jantar.
Sérgio a prendeu em seus braços e não a deixou es-
capar. – Ah, depois de um beijo desse você quer, simples-
mente, ir pra cozinha esquentar meu jantar?
– Ficou interessado, foi?
– Se fiquei! Por que não vamos lá para o quarto e es-
quentamos outra coisa?
– Tipo o quê?
– Segredo, só conto lá. Mas deixa eu dar conta dessas
pirralhinhas primeiro.
Sérgio olhou para as filhas, estavam paradas enca-
rando a cena de romance. Soltou sua mulher e pulou para
agarrá­‑las. – Eu me lembro de vocês! Eu me lembro!
Sérgio brincou com as crianças até elas ficarem cansa-
das, como de costume. Depois de banhá­‑las e colocá­‑las na
cama, Silvia esquentou o jantar e comeram juntos.
– Demorou hoje, mô.
– Fui pro culto na igreja do pai.
– Sério? Como foi?

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– Uma benção. Inclusive, amanhã ele vem almoçar
com a gente, então, capricha.
– Sempre capricho.
– Isso é verdade. – Esticou­‑se para dar um selinho nela.
– E como foi no trabalho?
– Chato! Mal vejo a hora de passar nesse concurso e
ter um emprego decente, finalmente. Não aguento mais
aqueles playboys tocando terror na minha sala.
– Vai dar tudo certo, meu bem, em nome de Jesus.
– Em nome de Jesus!
– Ah, seu amigo Cauê ligou.
– Foi? – falou perdendo um pouco a compostura, mas
logo a recuperou com receio de dar pinta. – Esse maluco,
deve tá querendo programar o surf. Parece que os ventos
vão vir com tudo e a turma tá combinando de aproveitar
o clima.
– Bom, acho que tem outro clima pra gente aproveitar.
Transaram. O tempo todo Sérgio combatia seus pen-
samentos e expulsava o Cauê de lá. Em outros momentos,
cedia e imaginava foder Cauê em vez de Silvia. Uma, duas,
três, cinco vezes até desmaiarem. No dia seguinte, quase
não acordaram. Sérgio odiou o fato de seu pai ir almoçar
em sua casa, mas só porque estava cansado. Mandou ver
a noite toda e o que mais queria era dormir, nada mais.
Silvia também, mas foi atrás da coragem, levantou­‑se e foi
preparar o almoço enquanto a babá cuidava das crianças.
A campainha tocou pontualmente ao meio­‑dia. A mesa
já estava posta quando o pai dele entrou abençoando a
casa e dando a paz do Senhor às crianças, que o adoravam.
Sempre tinha umas histórias legais para contar. Depois

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do almoço, o pastor Saulo puxou o filho de canto para fa-
lar que sua primeira sessão de libertação estava marcada:
próximo sábado, às 14h. Deveria fazer um jejum de doze
horas todos os dias da semana até lá, para enfraquecer a
carne e deixar o espírito mais forte.
Fez tudo como o pai o orientou, queria, com todas
as forças do seu coração, deixar de sentir essas coisas
por homens. Queria amar sua mulher, sentia­‑se mal por
nunca a ter desejado de verdade. Casou­‑se virgem, na
esperança de ser curado na lua de mel, quando escorre-
gasse para dentro dela. Mas não foi bem assim. Alimen-
tou a mesma esperança quando sua primogênita, Laris-
sa, nasceu. Nada. Quando Silvia engravidou pela segunda
vez, ele pediu um sinal: se for outra menina é porque o
Senhor vai me curar. Era menina, mas a cura não veio.
Revoltou­‑se e deixou de pisar na igreja desde então, esta-
va desiludido e sem esperanças. Foi quando veio o Diabo
e lhe ofereceu o prato de lentilhas: Cauê. Sérgio se dei-
xou envolver pelo sentimento; já estava no inferno, mas
sem coragem de abraçar o capeta.

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