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ILUSTRÍSSIMO SENHOR (A) DOUTOR (A) REPRESENTANTE DA

COMPANHIA REDE CENTRAL ELÉTRICAS DO PARÁ – CELPA


S/A.

Inspeção nº 1004174772.1
UC: 940135

JOSÉ RENATO BERGH, brasileiro, casado, aposentado, portador do


RG nº: XXX, CPF nº: 001.179.512-34, telefone: (91) XXX, sem endereço
eletrônico, residente e domiciliado nesta Capital, na Avenida José Bonifácio nº
802, Bairro de São Brás CEP: XXX, por intermédio de advogado ao fim
assinado, com escritório identificado em procuração anexa, onde recebe
intimações, vem, respeitosamente, à elevada presença de Vossa Excelência,
interpor o presente

RECURSO ADMINISTRATIVO

com fundamento no art. 133, § 1º da Resolução Normativa nº 414/2010 da


ANEEL, em face de cobrança da COMPANHIA REDE CENTRAIS
ELÉTRICAS DO PARÁ – CELPA S/A, pessoa jurídica de direito privado
constituída sob a forma de sociedade anônima, inscrita no CNPJ
04.895.728/0001-80, com endereço na Rod. Augusto Montenegro, s/n, Km 8,
Coqueiro, Belém/PA, CEP: 66823-010, inconformado com a cobrança de

1
recuperação de consumo derivada da Inspeção nº 1004174772.1 realizada junto
à UC: 940135, pelos fatos e fundamentos abaixo transcritos:

I – DA TEMPESTIVIDADE DO RECURSO

1. Preliminarmente, impende registrar que a Carta NS – Cálculo


1004174772.1 com Aviso de Recebimento dispondo sobre a identificação precisa
do dia da ciência por parte do responsável pela Unidade Consumidora não foi
entregue pessoalmente ao RECORRENTE., visto ter sido deixada junto com as
demais postagens, sem qualquer tomada de ciência do teor do documento por
parte do referido consumidor.

2. Em virtude disso, utiliza-se o RECORRENTE a data materializada na


própria carta, dia 08.11.2016, a qual contando-se o prazo de 30 (trinta) dias para
a interposição do presente recurso, teria seu termo ad quem, somente no dia
08.12.2016.

3. Logo é tempestivo o presente recurso.

II – BREVE SÍNTESE DOS FATOS

4. O RECORRENTE é pessoa idosa e no dia 08.11.2016 fora


surpreendido com uma notificação consubstanciada pela Carta NS – Cálculo
1004174772.1 de que em inspeção técnica realizada pela RECORRIDA no
equipamento de medição da Unidade Consumidora nº 940135, instalada em área
externa ao imóvel de sua propriedade, onde foi constatada irregularidade de
consumo, resumida na lacônica descrição de “Medidor Avariado, por intervenção não
autorizada pela CELPA”, fazendo com que o medidor registrasse apenas parte do
que foi efetivamente consumido pela referida Unidade Consumidora, resultando
em consumo que não foi objeto de registro, faturamento e cobrança por parte da
RECORRIDA.
2
5. Ademais, vale lembrar que o RECORRENTE, no momento da
realização da referida inspeção por parte da equipe técnica da referida
RECORRIDA sequer foi informado do registro de avaria em seu medidor,
impossibilitando que tomasse outras providências tais como o relato de
vizinhos sobre o fato, ou mesmo o pedido de esclarecimento de técnico
responsável.

6. É importante anotar que consta na referida carta de cobrança que a


RECORRIDA efetuou o cálculo de recuperação do consumo apresentando a
memória descritiva de cálculos, resultando em resgate de débito de energia
equivalente a 5086 kwh, importando no valor de R$ 4.320,02 (quatro mil
trezentos e vinte reais e dois centavos), sendo que tal procedimento
administrativo de cobrança de dívida pretérita se deu com base na estimativa de
consumo pela “utilização da média dos 3 (três) maiores valores disponíveis de consumo de
energia elétrica, proporcionalizados em 30 dias” da unidade residencial do
RECORRENTE, cálculo efetuado de forma unilateral, manu militari, partindo da
presunção de culpa e de correção de toda a atuação e cálculo da própria
RECORRIDA, sequer sendo realizado laudo pericial para dar ares de
comprovação da suspeita de fraude.

7. Quanto a este ponto é importante aduzir ser inegável o direito por parte
da RECORRIDA de realização da inspeção dos medidores de consumo de
energia elétrica e uma vez constatada e provada à violação do equipamento possa
emitir o respectivo Termo de Ocorrência de Irregularidade (TOI), conforme
previsto pela Resolução nº 414/2010 da ANEEL.

8. Ocorre que os medidores são instalados em locais pré-determinados


pela própria RECORRIDA, bem como os equipamentos são lacrados para evitar
sua violação, ressaltando-se ainda que tal como os demais consumidores, o
reclamante não tem qualquer acesso aos medidores – acondicionados nas
externalidade do imóvel, à vista de todos, principalmente, nas residências

3
unifamiliares, não podendo se falar taxativamente que a violação do lacre se deu
por conduta imputada ao RECORRENTE.

9. Impende registrar ainda que MENSALMENTE, funcionários das


fornecedoras dos serviços realizam leitura do consumo, não restando, portanto,
motivo idôneo para sustentar que apenas depois de 36 (trinta e seis) meses a
reclamada pode ter ciência da suposta avaria no medidor, o qual repita-se não
fica sob a esfera de domínio útil do RECORRENTE.

10. Assim, não se conformando a presente cobrança, pugna-se na presente


defesa escrita pela sua declaração de nulidade, como medida de Justiça.

III– DO DIREITO

III. 1 DA NULIDADE DA RECUPERAÇÃO DE CONSUMO –


AUSÊNCIA DE PERÍCIA TÉCNICA.

11. Incipientemente, o RECORRENTE com fulcro no art. 129, § 1º,


Inciso II, da Resolução Normativa nº 414/2010 da ANEEL 1 , em virtude de
apuração de consumo faturado a menor sob a alegação de avaria não autorizada
no medidor, requer a declaração de nulidade da referida cobrança,
solicitando igualmente a realização de perícia técnica a fim de suprir a
deficiência no lastro informacional trazido pela RECORRIDA, a qual sequer
trouxe dados suficientes para caracterizar o significado da expressão “Medidor
Avariado, por intervenção não autorizada pela CELPA”, impossibilitando
uma melhor análise sobre a matéria.

12. Pois bem. Uma leitura rápida e superficial da carta de cobrança


permite de pronto extrair a sua característica mais marcante: o extraordinário e
perturbador laconismo na descrição dos fatos tidos como irregulares. A
narrativa fática contida no escrito não apresenta uma única palavra sobre o que

1 II – solicitar perícia técnica, a seu critério, ou quando requerida pelo consumidor ou por seu
representante legal.
4
seria tal avaria no medidor e tampouco informa como o RECORRENTE teria
contribuído, concorrido ou participado da presente intervenção não autorizada.
Não há uma linha sequer sobre essa importantíssima exigência legal.

13. Se há uma suspeita de fraude ante a constatação de que o equipamento


estava sem o lacre, caberia a RECORRIDA utilizar-se dos meios legais para a
aferição do equipamento, apresentando informação completa, adequada e
necessária acerca da avaria encontrada, possibilitando a reação devida pelo
RECORRENTE.

14. Isso porque a anemia semântica da referida expressão “medidor


avariado por intervenção não autorizada” pode ser compreendida naquilo
que STRECK denomina ser um “conceito sem coisa”, isto é, “palavras vazias de
significado que podem ser utilizadas para dizer qualquer coisa sobre qualquer
coisa” 2 , dificultando ao máximo a possibilidade de rediscussão da matéria
imposta, haja vista que o RECORRENTE sequer foi comunicado no momento
da inspeção. Questiona-se: Como seu deu tal avaria? Qual o instrumento
utilizado? O RECORRENTE possuía a custódia do equipamento acondicionado
em área externa?

15. Nenhuma dessas perguntas encontra resposta na descrição


apresentada na cobrança, de modo que a vagueza, a pobreza descritiva e a
generalidade da carta configuram a impossibilidade de qualquer impugnação. Isto
porque, obviamente, é impossível defender-se de algo que não se sabe o que é.

16. No art. 129 da resolução normativa nº 414/20103, tem-se indicado um


necessário conteúdo positivo para a recuperação do consumo supostamente

2
STRECK, Lenio Luiz. O que é isto – decidido conforme a minha consciência? Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2010, p. 55.
3 Art. 129. Na ocorrência de indício de procedimento irregular, a distribuidora deve adotar as

providências necessárias para sua fiel caracterização e apuração do consumo não faturado ou faturado a
menor. § 1o A distribuidora deve compor conjunto de evidências para a caracterização de eventual
irregularidade por meio dos seguintes procedimentos: I – emitir o Termo de Ocorrência e Inspeção –
TOI, em formulário próprio, elaborado conforme Anexo V desta Resolução; II – solicitar perícia
técnica, a seu critério, ou quando requerida pelo consumidor ou por seu representante legal; III –
elaborar relatório de avaliação técnica, quando constatada a violação do medidor ou demais
equipamentos de medição, exceto quando for solicitada a perícia técnica de que trata o inciso II; IV –
5
desviado. É dizer: ela, a cobrança, deve conter a exposição do fato
normativamente descrito como irregular, com suas circunstâncias e o conjunto
de evidências de tal prática, cabendo também o registro fotográfico da
ocorrência visualizada, possibilitando que esteja devidamente fundamentada a
alegação da RECORRIDA, o que não foi realizado, em completa
desconformidade com o art. 129, § Inciso V, “b” da Resolução nº 414/2010.

17. Aporte factual, esse, que viabiliza a plena defesa do RECORRENTE,


permitindo a imposição de limites a atividade fiscalizatória do Estado de modo a
evitar arbitrariedades no seu desempenho além, é claro, de possibilitar um real e
efetivo exercício do direito à ampla defesa e ao contraditório

18. Ademais, é sempre importante lembrar que o RECORRENTE se


defende dos FATOS que lhe são imputados (imputatio facti). Ou seja: sem a
descrição objetiva e suficiente dos FATOS o RECORRENTE não terá qualquer
segurança jurídica diante da cobrança que lhe é feita pelo Estado e, o que é mais
penoso, terá cerceado o seu direito de defesa, ficando vulnerável à possibilidade
de sofrer tal cobrança de forma objetiva, o que é repudiado veementemente pelo
ordenamento jurídico brasileiro.

19. Nessa esteira, impende registrar que o Tribunal de Justiça do Estado


do Pará possui jurisprudência no sentido de considerar nula a cobrança de
débitos anteriores com base unicamente em termo de ocorrência de
irregularidade sem a realização de perícia técnica, por violação ao princípio da
ampla defesa e contraditório:

“Primeiramente, é inegável que a concessionária de serviço público tem


o direito de realizar a inspeção dos medidores de consumo de energia
elétrica, a fim de apurar eventuais irregularidades. No entanto, deve
observar as regras contidas no art. 129 da Resolução 414"2010 da
Agência Nacional de Energia Elétrica. Entendo que, se não reconhecida
pelo titular da unidade consumidora a violação do medidor de energia

efetuar a avaliação do histórico de consumo e grandezas elétricas; e V – implementar, quando julgar


necessário, os seguintes procedimentos: a) medição fiscalizadora, com registros de fornecimento em
memória de massa de, no mínimo, 15 (quinze) dias consecutivos; e b) recursos visuais, tais como
fotografias e vídeos

6
elétrica, tal qual se verificou na hipótese vertente, a inspeção técnica
realizada unilateralmente pela concessionária, a partir da lavratura
do Termo de Ocorrência de Irregularidade - TOI, não é suficiente
para caracterizar a irregularidade na aferição do consumo de
energia, tornando-se necessária a realização de perícia técnica a
fim de comprovar eventual desvio de energia. A Resolução ANEEL
nº 414"2010, atualmente vigente, no escopo de afastar a unilateralidade
na apuração de eventual irregularidade, estabelece como uma das etapas
do procedimento a solicitação de perícia técnica, a seu critério ou quando
requerida pelo consumidor: Art. 129. Na ocorrência de indício de
procedimento irregular, a distribuidora deve adotar as providências
necessárias para sua fiel caracterização e apuração do consumo não
faturado ou faturado a menor. § 1º. A distribuidora deve compor
conjunto de evidências para a caracterização de eventual irregularidade
por meio dos seguintes procedimentos: I - emitir o Termo de Ocorrência
e Inspeção - TOI, em formulário próprio, elaborado conforme Anexo V
desta Resolução; II - solicitar perícia técnica, a seu critério, ou quando
requerida pelo consumidor ou por seu representante legal. A
constituição do débito em tela decorreu unicamente de um TOI,
ao qual mediante algumas fotografias juntadas aos autos, apurou-
se um desvio de energia, que resultava num faturamento a menor
do consumo. Todavia, há várias incongruências que demonstram a
fragilidade do procedimento adotado pela empresa concessionária,
que fulminam a garantia da ampla defesa e do contraditório do
consumidor, o qual se viu compelido ao pagamento de um valor
imposto unilateralmente, e com critérios e demonstrativos de
cálculos vagos, dando margem a abusos nas cobranças dessa
natureza (...). Por fim, diante de todo o exposto, merece
PROCEDÊNCIA, nesse ponto, o pedido do autor, para DECLARAR-
SE a inexistência do débito alegado pela Concessionária de Energia,
apurado através de procedimento unilateral, sem obediência às normas
da Aneel”. (TJ-PA, Processo nº 000586670.2015.8.14.0301. 1ª Vara da
Fazenda da Capital. MMª. Juiz Elder Lisboa Ferreira da Costa, DJ
02/06/2016). (grifo para destaque)

20. Nessa toada é firme também a jurisprudência de outros tribunais


pátrios:

“APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DECLARATÓRIA DE


INEXISTÊNCIA DE DÉBITO – IRREGULARIDADE
CONSTATADA EM EQUIPAMENTO DE MEDIÇÃO – DESVIO
DE FASE PARA A RESIDÊNCIA VIZINHA – AUTORIA
ASSUMIDA PELA PROPRIETÁRIA DO IMÓVEL CONTÍGUO
AO DO REQUERENTE – APLICAÇÃO DO CDC– AUSÊNCIA
DE RESPONSABILIDADE POR PARTE DO AUTOR –
RECURSO PROVIDO. Considerando que a concessionária de energia
elétrica se enquadra no conceito de fornecedora, e tendo em vista a
hipossuficiência técnica do usuário, a análise das provas carreadas aos
autos deve seguir o pressuposto da inversão do ônus, sempre com
vistas a conferir à consumidora a proteção constitucional prevista nos
arts. 5º, XXXII, e art.170, V, da CF/88 . O simples termo de
ocorrência que demonstra a existência de irregularidades na
7
unidade medidora de energia, aliada a ausência de prova pericial
judicial, não é suficiente para comprovar que o defeito fora
ocasionado por fraude do usuário, de modo que o consumidor
não pode ser obrigado ao pagamento de quantias supostamente
consideradas consumidas e não pagas. Comprovado que a
proprietária da casa situada ao lado da residência do autor, para onde a
fase foi desviada, sem o seu conhecimento, confessou e assumiu a
responsabilidade pela fraude, deve ser declarado inexistente o débito
imputado ao requerente. (TJ-MS. Relator (a): Des. Eduardo
Machado Rocha; Comarca: Corumbá; Órgão julgador: 3ª Câmara
Cível; Data do julgamento: 28/07/2015; Data de registro:
29/07/2015)
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS - ENERGIA ELÉTRICA - Cobrança
de diferença de consumo baseada em suposta fraude - Termo de
Ocorrência de Irregularidade (TOI) - Produção de prova unilateral -
Medição de consumo regularizada - Consumo que não se elevou, ao
contrário, sofreu discreta redução - Irregularidade na medição não
constatada - Reconhecimento da inexigibilidade do valor pretendido pela
ré. Sentença reformada. Recurso provido. (TJ-SP - APL:
00003143820158260157 SP 0000314-38.2015.8.26.0157, Relator: Sá
Moreira de Oliveira, Data de Julgamento: 26/10/2015, 33ª Câmara
de Direito Privado, Data de Publicação: 27/10/2015)

21. Por fim, o próprio Superior Tribunal de Justiça (STJ) já possui


precedente acerca da matéria:

RECURSO ESPECIAL. ENERGIA ELÉTRICA. CORTE.


FORNECIMENTO. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO DOS ARTIGOS
22 E 42 DA LEI 8078/90 E INCISO II, § 3º DO ARTIGO 6º DA LEI
8987/95, ALÉM DE DISSÍDIO PRETORIANO. ACÓRDÃO
FUNDADO EM MATÉRIA FÁTICA. RAZÕES RECURSAIS QUE
CONFRONTAM OS FATOS NOS QUAIS SE BASEOU O
DECISÓRIO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 07/STJ. RECURSO
NÃO CONHECIDO. 1. Em exame recurso especial interposto de
acórdãos assim ementados: "ENERGIA ELÉTRICA.
FORNECIMENTO. INDÍCIOS DE FRAUDE. COBRANÇA E
CORTE. NORMAS DO CDC. VIOLAÇÃO. I – A existência de
indícios de violação no relógio de medição de consumo de energia
elétrica implica na participação policial para periciar o equipamento, uma
vez que, em tese, há o delito do art. 155 § 3º do Código Penal, que é de
ação pública. II - A concessionária que dispensa a constatação
policial, retira o relógio, se credita de valores e os cobra, sob
ameaça de corte no fornecimento de energia, adota atitude
violadora dos artigos 22 e 42 da Lei Federal 8.078 (CDC). III -
Essas condutas evidenciam exercício arbitrário das próprias
razões, tornando inexigíveis os valores cobrados e implicam em
reparação do dano moral sofrido pela consumidora de eletricidade.
IV - Apelação provida para condenar a concessionária (STJ - RESP
783102 / RJ - Relator Ministro JOSÉ DELGADO - PRIMEIRA
TURMA - j. 13/12/2005 - Data da Publicação/Fonte: DJ 01.02.2006
p. 461).
8
22. Em virtude disso, pugna-se pela declaração de NULIDADE da
referida cobrança, pelo qual se solicita A REALIZAÇÃO DE PERÍCIA
TÉCNICA para comprovação da vexata quaestio, e nos moldes do § 7º do artigo
129 da Resolução nº 414/2010 4
, que este representante legal seja
comunicado, por escrito, com pelo menos 10 (dez) dias de antecedência, o
local, data e hora da realização da perícia técnica para que possa exercer o
direito ao contraditório.

III. 1 DA IRREGULARIDADE NA RECUPERAÇÃO DE CONSUMO –


NÃO DEMONSTRAÇÃO DAS RAZÕES DOS CÁLCULOS -
VIOLAÇÃO AO DEVER DE INFORMAÇÃO – CONSUMIDOR
HIPERVULNERÁVEL.

23. Pedindo permissão pelo pleonasmo, aduz-se inicialmente que o


direito à informação é o mais básico dos direitos básicos do consumidor.
Representa um dever-direito. Dever de informação, nas palavras de CLÁUDIA
LIMA MARQUES "é comunicar, é compartilhar o que se sabe de boa-fé, é
cooperar com o outro, é tornar 'comum' o que era sabido apenas por um" 5 ,
motivada de um lado pela própria competência técnica ou profissional do
fornecedor, e do outro pela inexperiência ou incapacidade do consumidor de se
informar.6

24. Em um primeiro momento, pode-se dizer, de acordo com MOSSET,


que a informação é irmã-gêmea – "inseparável", dos Princípios da Transparência,
da Confiança e da Boa-fé Objetiva. Sem ela, esses princípios não se realizam. Só
o consumidor bem informado das irregularidades evidenciadas quando da

4
§ 7º Na hipótese do § 6º, a distribuidora deve comunicar ao consumidor por escrito, mediante
comprovação, com pelo menos 10 (dez) dias de antecedência, o local, data e hora da realização da
avaliação técnica, para que ele possa, se desejar, acompanhá-la pessoalmente ou por meio de
representante nomeado.
5
MARQUES, Claudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: O Novo Regime das
Relações Contratuais , 5a ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p. 772
6 MOSSET, Jorge. Defensa del Consumidor , 2ª ed., Santa Fé, Rubinzal - Culzoni, 2003, p. 29

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relação de consumo, consegue de fato proteger-se de maneira adequada da
ocorrência que lhe é demandada.

25. Por tudo isso, o art. 31 do CDC 7 é extremamente minucioso e


desdobra o dever de informar, em quatro categorias principais, imbricadas entre
si, em diálogo e sobreposição: a) informação-conteúdo (= características intrínsecas
do produto e serviço), b) informação-utilização (= para que se presta e se utiliza o
produto ou serviço), c) informação-preço (= custo, formas e condições de
pagamento do produto ou serviço), e d) informação-advertência (= sobretudo
quanto aos riscos do produto ou serviço).

26. Comportamento positivo e ativo quer dizer que o microssistema de


proteção do consumidor não se coaduna com meia-informação, semi-
informação, proto-informação ou informação parcial, qualquer que seja o termo
que se escolha. Informação ou é prestada de forma completa, ou não é
informação no sentido jurídico (e prático) que lhe atribui o CDC.

27. E veja-se que nos últimos anos a RECORRIDA melhorou e muito o


conteúdo das cobranças ordinárias, bem como seu canal de atendimento - e isso
em todas as interfaces - regularizando as informações conteúdo, utilização e
preço.

28 Contudo, justamente no campo das inspeções, principalmente no que


tange a recuperação de consumo, a qual se conecta diretamente com a
possibilidade de incidência de responsabilização patrimonial do consumidor,
torna-se possível encontrar várias notas de violação aos direitos de informação
do consumidor, bem como do devido processo legal.

29. Isso porque, a informação prestada na referida Carta de Cobrança não


se mostra correta, clara, precisa, ostensiva, nos moldes do preconizado pelo

7
Art. 31 - A oferta e a apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas,
claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade,
composição, preço, garantia, prazo de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos
que apresentam à saúde e segurança dos consumidores .
10
CDC, posto que os vários dados apresentados estão dispostos de forma
desorganizada, chegando ao ponto de mostrar-se confusa.

30. No caso específico, indaga-se: qual a relevância de registrar um quadro


com vários números sequenciais, baseados em critérios altamente técnicos, sem
explicitar o seu significado? Além disso, o que significa “Medidor Avariado”? A
esmagadora maioria dos consumidores certamente visualizará a cobrança e
responderá: "Sim, e o que tudo isso significa? Ou mesmo: "o que significam
todos esses números?".

31. Perceba que a utilidade da informação, mais ainda em um País pouco


educado em temas de direitos, só aparece quando a informação é vinculada de
forma clara aquilo que se propõe. Sem o referido complemento das
circunstâncias da inspeção ou mesmo a clarificação dos dados técnicos, a carta
de cobrança propicia aos consumidores um indevido processo de cobrança,
insuficiente para a finalidade que a justifica e legitima. É justamente a
subinformação do consumidor.

32. E no caso do RECORRENTE, pessoa idosa, considerada pela


doutrina e jurisprudência majoritárias, consumidor hipervulnerável, a informação
deve ser diferenciada, mais completa, de fácil compreensão. Sim, porque
descartar a presença do consumidor quando da realização da inspeção ou mesmo
não apresentar uma cobrança adequada, com várias letras pequenas e
informações incoerentes, é desprezá-lo: ora, “ele é velho mesmo, não vai entender, pelo
contrário, vai complicar a fiscalização”.

33. O que se espera do RECORRENTE, assim como os demais agentes


econômicos é que se atentem para as peculiaridades desse grupo de
consumidores.

34. Este introito é importante para aduzir que a RECORRIDA afrontou


claramente o art. 130 da Resolução Normativa nº 414/2010 e o direito à
informação ao não fundamentar de forma clara e adequada - quando do envio da
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cobrança de valor considerável - o motivo da utilização do critério de “utilização
da média dos 3 (três) maiores valores disponíveis de consumo de energia elétrica,
proporcionalizados em 30 dias” (Inciso III) e não os demais critérios anteriores ou
sucessivos apresentados no referido preceito legal8.

35. Da mesma forma, não restou demonstrado na cobrança que o


consumo mensais anteriores ou posteriores ao período cobrado como forma de
garantir o controle sobre o histórico de consumo, impossibilitando a verificação
do aumento ou diminuição do consumo do RECORRENTE antes ou após a
identificação da avaria e troca do medidor. Note-se que sem esses dados
encontra-se prejudicada a apuração do período em que se iniciou tal avaria, ou se
esta se encontra intimamente ligada (ou não) a retirado do lacre. Informações
essenciais para a descoberta da suposta irregularidade, as quais não foram sequer
levadas em consideração pela RECORRIDA.

36. Em virtude disso, o RECORRENTE, assim como os demais


(vulneráveis) consumidores ficam à mercê do valor imposto, posto desconhecer
as outras formas de cálculo, ou mesmo do porquê da não incidência de outros
critérios, impossibilitando qualquer forma de controle postergado sobre a
recuperação de consumo.

37. Aliás, cabe frisar que o presente critério de “utilização da média dos 3
(três) maiores valores disponíveis de consumo de energia elétrica, proporcionalizados em 30
dias” (Inciso III) foi inserido por meio da Resolução Normativa nº 670

8
Art. 130. Comprovado o procedimento irregular, para proceder à recuperação da receita, a distribuidora
deve apurar as diferenças entre os valores efetivamente faturados e aqueles apurados por meio de um
dos critérios descritos nos incisos a seguir, aplicáveis de forma sucessiva, sem prejuízo do disposto nos
arts. 131 e 170: I – utilização do consumo apurado por medição fiscalizadora, proporcionalizado em 30
dias, desde que utilizada para caracterização da irregularidade, segundo a alínea “a” do inciso V do § 1o
do art. 129; II – aplicação do fator de correção obtido por meio de aferição do erro de medição causado
pelo emprego de procedimentos irregulares, desde que os selos e lacres, a tampa e a base do medidor
estejam intactos; (...) IV – determinação dos consumos de energia elétrica e das demandas de potências
ativas e reativas excedentes, por meio da carga desviada, quando identificada, ou por meio da carga
instalada, verificada no momento da constatação da irregularidade, aplicando-se para a classe
residencial o tempo médio e a frequência de utilização de cada carga; e, para as demais classes, os
fatores de carga e de demanda, obtidos a partir de outras unidades consumidoras com atividades
similares; ou V – utilização dos valores máximos de consumo de energia elétrica, proporcionalizado em
30 (trinta) dias, e das demandas de potência ativa e reativa excedentes, dentre os ocorridos nos 3 (três)
ciclos imediatamente posteriores à regularização da medição
12
apenas em 14.07.2015, sendo que o critério anterior estabelecido pela própria
Resolução Normativa nº 414/2010, com vigência até 13.07.2015, permitia a
“utilização da média dos 3 (três) maiores valores disponíveis de consumo MENSAL de
energia elétrica, proporcionalizados em 30 dias”, possibilitando a realização de cálculo
de média aritmética dos 03 (três) valores anteriores de uma dada mensalidade,
critério mais equânime e menos gravoso ao consumidor.

38. Em virtude disso, o RECORRENTE requer a declaração de


nulidade da presente cobrança por violação ao princípio da informação,
pugnando, ou, subsidiariamente, pela realização de novo cálculo de
recuperação de consumo com todo o DETALHAMENTO do
procedimento adotado, verificando também a adoção da média aritmética de
valores preceituada pela Resolução nº 414/2010 da ANEEL até a data de
13.07.2015, bem como a utilização da Resolução Normativa nº 670/2015
somente a partir de 14.07.2015.

III. 3 DA ABUSIVIDADE DA SUSPENSÃO DO FORNECIMENTO


DE ENERGIA ELÉTRICA.

39. O serviço de distribuição de energia elétrica é serviço de utilidade


pública indispensável à vida de segurança das pessoas. Ademais, a ameaça de
corte no fornecimento de energia identificada na cobrança como forma de
compelir o RECORRENTE ao pagamento de valor supostamente devido é
meio de cobrança que constitui verdadeira sanção, submetendo-o a inegável
constrangimento (art. 42 do CDC9). Veja o entendimento do STJ:

ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO


ESPECIAL. ENERGIA ELÉTRICA. CONSUMIDOR
INADIMPLENTE. IMPOSSIBILIDADE. Esta Corte vem
reconhecendo ao consumidor o direito de utilização dos serviços
públicos essenciais ao seu cotidiano, como o fornecimento de energia
elétrica , em razão do princípio do da continuidade (CDC, art. 22) – o
corte de energia utilizado pela Companhia para obrigar o usuário ao
pagamento de tarifas em atraso e débitos pretéritos extrapola o limite da
legalidade, existindo outros meios para buscar o adimplemento do

9
-+-
13
débito. Precentes. Agravo Regimental improvido. (STJ - AGRESP
296017/MG - Relator Ministro FRANCISCO FALCÃO -
PRIMEIRA TURMA - Data da Publicação/Fonte: DJ 03.04.2001)

40. Tanto, por isso, que ilegal a ameaça de suspensão do fornecimento de


energia elétrica como forma de coação, ante a sua essencialidade, ferindo de
morte o princípio do devido processo legal, como única forma de garantias dos
débitos atrasados. Pelo exposto, requer a não suspensão do fornecimento de
energia por parte da recorrida em caso do não pagamento da carta
cobrança nº 1004174772.

V – DO PEDIDO

41. Isso posto requer o RECORRENTE:

A) que seja declarada a nulidade da cobrança consubstanciada na


inspeção nº 1004174772 pela não realização de perícia técnica bem
como pela violação ao direito à informação, a qual se faz a devida
solicitação de perícia, nos moldes do art. 129, § 1º, da Resolução
Normativa nº 414/2010 da ANEEL, garantindo a comunicação,
por escrito, com pelo menos 10 (dez) dias de antecedência, o
local, data e hora da realização da perícia técnica para que possa
exercer o direito ao contraditório.

B) Que subsidiariamente, em caso de não declaração de nulidade,


pugna-se pela realização de novo cálculo de recuperação de
consumo com todo o DETALHAMENTO do procedimento
adotado, verificando também a adoção da média aritmética de
valores preceituada pela Resolução nº 414/2010 da ANEEL até a
data de 13.07.2015, bem como a utilização da Resolução
Normativa nº 670/2015 somente a partir de 14.07.2015.

C) Que não determine a suspensão do fornecimento de energia por


parte da recorrida em caso do não pagamento da carta cobrança

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nº 1004174772, por completa violação ao princípio da
essencialidade do serviço público de distribuição de energia
elétrica.

Termos em que, cumpridas as necessárias formalidades legais, deve a presente


ser recebida, conhecida, processada e acolhida, como medida de inteira Justiça.

Belém/PA, 01 de dezembro de 2016.

Advogado

OAB/PA

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