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Editora Edgard Blücher Ltda.

Abridores de letras de Pernambuco: um mapeamento da gráfica popular


© 2013 Fátima Finizola
Solange Coutinho
Damião Santana
Editora Edgard Blücher Ltda. Projeto | Project
Abridores de Letras de Pernambuco – um Mapeamento
da Gráfica Popular, Funcultura 2010–2011

Editor Edgard Blucher Coordenação Fátima Finizola


Editor Coordinator

Projeto Gráfico e Diagramação Corisco Design Produção Executiva Sandro Lins


Book Design Executive Producer

Revisão Consultexto Pesquisa de Campo Fátima Finizola


Text Revision Field Research Damião Santana

Tradução Brian Honeyball Análise e Texto final Fátima Finizola


Translation Analysis and final text Solange Coutinho

Tratamento de Imagem Robson Lemos Fotografia Damião Santana


Image Processing Photography

FICHA CATALOGRÁFICA

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4º andar Finizola, Fátima


04531-012 - São Paulo - SP - Brasil Abridores de letras de Pernambuco: um mapeamento da
Tel 55 11 3078-5366 gráfica popular / Fátima Finizola, Solange Coutinho, Damião
contato@blucher.com.br Santana. - São Paulo: Blucher, 2013.
www.blucher.com.br

Segundo Novo Acordo Ortográfico, conforme 5. ed. do


ISBN 978-85-212-0798-6
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa,
Academia Brasileira de Letras, março de 2009.
1. I. Título II. Coutinho, Solange III. Santana, Damião

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer


meios, sem autorização escrita da Editora 13-0819 CDD 745.4

Todos os direitos reservados a Índice para catálogo sistemático:


Editora Edgard Blücher Ltda. 1. Design: Artes 745.4
Dedicatória /Agradecimentos
Dedications/acknowledgements

Agradecemos a todos aqueles que colaboraram para a We would like to express our gratitude to all those who collabo-
realização deste projeto de pesquisa e, em especial, aos rated with this research project, and especially to the craftsmen
artífices que enriqueceram esta obra com suas histórias: who have enhanced this work with their stories: Laércio, Carioca,
Laércio, Carioca, Ely, Carlinhos, Marcos, Freq, Carlos, Java, Ely, Carlinhos, Marcos, Freq, Carlos, Java, Sebastião, Moisés,
Sebastião, Moisés, Genivaldo e Zé Moura. Genivaldo and Zé Moura.

Ao Fundo de Incentivo à Cultura do Estado de Pernambuco Also to Funcultura – Cultural Investment Fund for the State of
– Funcultura, pela oportunidade de apresentar ao público o Pernambuco, for providing us with the opportunity of presenting
resultado desta investigação. the results of our investigation to the general public.

Às famílias pela força e apoio incondicional. And to our families, for their encouragement.
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Conteúdo Prefácio | Lia Monica Rossi

Apresentação, 11
Uma jornada tipográfica do litoral ao sertão pernambucano

CAPÍTULO 1 Introdução, 15
A gráfica e o letreiramento popular de Pernambuco

1.1 Uma breve reflexão acerca da produção informal de design e a gráfica popular, 16
1.2 Os letreiramentos populares e sua inserção nas paisagens urbanas, 19
1.3 O ofício do pintor de letras – um pouco de história, 24

CAPÍTULO 2 Abridores de Letras, 29


Mapeando a gráfica popular de Pernambuco

2.1 Recife, 34
2.2 Gravatá, 46
2.3 Caruaru, 54
2.4 Arcoverde, 66
2.5 Salgueiro, 76
2.6 Petrolina, 84

CAPÍTULO 3 Um Olhar Tipográfico, 97


Descobrindo padrões visuais

CAPÍTULO 4 Aspectos Técnicos, 105


Materiais e modos de fazer

4.1 Conhecendo os materiais de trabalho, 106


4.2 Entendendo o método geral de trabalho, 110
4.3 Exemplificando alguns processos, 112

CAPÍTULO 5 Considerações Finais, 117


O fim da jornada ou apenas o começo

English Version, 121


Referências, 142
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Prefácio Desde sua criação, em 1972, o Curso


de Design da UFPE, particularmente
mestres como Tom Zé, Raul Seixas,
Zé Ramalho, Sivuca, Hermeto, Chico
Preface a área de Programação Visual, nas Science, velhos e novos maracatus e
ações de ensino, pesquisa e extensão, tanto mais. Colagens de feira de sába-
se caracteriza por um olhar sobre os do com zabumba, sanfona, triângulo
aspectos culturais regionais, ao con- sobre trovadores medievais de cordel
trário de congêneres nacionais mais hodierno. Nordeste.
voltados para uma ênfase europeizan-
te no enfoque do design. Os cursos de Na narrativa fotográfica empreendi-
pós-graduação lá criados mais recen- da on the road por Fátima, Solange e
temente reforçam essa preocupação Damião, vemos um corte sincrônico
com valores sociais incorporando que vai da escrita quase infantil para a
saberes e tecnologias recentes, suas tecnologia de arquivos digitais, pas-
interrelações com a “cultura material” sando pela materialidade do molde
e sua preservação, dando sentido vazado, álbuns de recortes, amostras,
próprio à historia do design. Na inspi- referências visuais em cadernos/bi-
ração dessa “coisa regional”, portan- bliotecas, pincéis, rolinhos, compressor
to brasileiríssima, nos arriscamos a para aerografia, etc. Seja em transições
colocar num grande balaio pensadores ou em cortes, seja em técnicas ou
como Camara Cascudo, Celso Furtado, estilos, esteticamente vale quase tudo
Josué de Castro, Gilberto Freyre, Ariano para agradar o cliente e conquistar um
Suassuna, Glauber Rocha, entre ou- consumidor.
tros, e cada um à sua maneira única.
E, acrescentando melodia ao texto e à Entre uma cidade e outra, encontramos
teoria, vemos também nessa mistura a sinalização rodoviária oficial e sua
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sintaxe gráfica mais rigorosa, feita pelo “arquitetura sem arquitetos”, cujos classificação dos artistas. Como acon-
design oficial para facilitar a viagem. Já exemplos, “comoventes ou não” devem tece na arquitetura, os classicismos
na entrada da cidade, surgem as placas ser estudados em profundidade e até tipográficos foram se “sertanejando”.
dos abridores de letras, para tempe- preservados “porque são legítimos seg- Nas versões mais ingênuas, expõe-se
rar a jornada. Nesse design popular, mentos de nosso Patrimônio Cultural”. imodesta a composição sem planeja-
através de pouco ou nenhum respeito Tais exemplares representam “esforços mento, sem previsão de espaço, que
pela entrelinha e pelas margens, a hie- populares” que aliam “dificuldades permite abreviações em soluções ines-
rarquia de espaços, dimensões e cores materiais” à dignidade consciente “da peradas. Nessas ruas onde “apregam-
são ditadas unicamente pelo preten- imprescindibilidade da intenção artísti- -se botões”, também “temo solda”, há
dido impacto comunicativo. Ícones de ca”. As obras dos grandes artistas, con- um(a) “Bar-racharia”, o “abatedor” é o
produtos, marcas, caracteres, setas se tinua Lemos, “justamente por serem “Doutor Galinha”, e o “rei do carbura-
arremessam em nossa direção numa excepcionais, não são representativas dor” está “24 horas no ar” (um alívio!).
“desordem” gráfica que grita por nossa de nossa sociedade”. Julgamos perfeito Afinal, como afirma o letrista Carlos,
atenção com humor. o paralelo dessa citação com a obra “o ofício de pintor terá uma vida longa,
e vida de nossos letristas, plenas de pois esse trabalho reflete a necessida-
E, num gostoso lance metalinguístico, “dificuldades materiais”, mas cheias da de de urgência que as pessoas têm em
a tipografia de títulos e abertura de imprescindível “intenção artística”. resolver problemas de comunicação”.
capítulos do livro incorporam em corru- Mas devemos acrescentar: nessas ruas
tela o estilo dos abridores, desenhando “Vende-se letras”, anuncia a placa. e neste livro, a urgência deixou lugar
vetorialmente o contorno para depois "Amadoras, quadradas, serifadas, para o importante.
fingir-se de letra cheia feita de uma cursivas, gordas, grotescas, caligráficas,
simples pincelada... fantasia, expressivas”, na classificação Que bom para todos nós!
da pesquisadora Fátima; e também
Em seu brilhante Alvenaria Burguesa, boleadas, soltas, de fôrma, em bas- Lia Monica Rossi
o mestre Carlos Lemos nos fala da tão reto, góticas, itálicas, romanas, na Setembro 2013
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APRESENTAÇÃO

O ARTESÃO BRASILEIRO O livro Abridores de Letras de Pernambu- plementar da tese de doutorado, sob o
É BASICAMENTE UM co – um mapeamento da gráfica popular mesmo tema, em desenvolvimento no
é resultado de uma extensa pesquisa mesmo programa de pós-graduação
DESIGNER EM POTENCIAL visual por várias cidades e regiões do desde março de 2010, pela designer e
Estado de Pernambuco ao longo de pesquisadora Fátima Finizola, sob a
Aloísio Magalhães mais de 5 anos. Os primeiros registros orientação da professora Solange Gal-
na cidade do Recife foram realizados vão Coutinho e com a colaboração do
no mestrado em Design da Universida- designer e fotógrafo Damião Santana.
de Federal de Pernambuco, entre 2008 Ambos os projetos são parte integrante
e 2010. Em 2011, o projeto foi contem- da pesquisa interinstitucional (Procad/
plado pelo edital do Fundo de Incentivo Capes) Memória Gráfica Brasileira: estu-
à Cultura do Estado de Pernambuco dos comparativos de manifestações grá-
– Funcultura, e, por meio deste, conse- ficas nas cidades do Recife, Rio de Janeiro
guiu estender a pesquisa a outras cida- e São Paulo, que envolve pesquisadores
des do interior do Estado. da PUC-Rio, UFPE e Senac-SP.

Dessa forma, este estudo dá continui- A linguagem gráfica popular e vernacu-


dade ao projeto de mestrado concluído lar são um tema instigante e desafia-
em janeiro de 2010, intitulado Panorama dor para o desenvolvimento de pesqui-
Tipográfico dos Letreiramentos Populares sas culturais. Alguns outros países já
– um estudo de caso na cidade do Recife, registraram, por meio de livros e catá-
desenvolvido dentro do Programa de logos, parte da riqueza desse universo.
Pós-Graduação em Design da UFPE, e Aqui no Brasil, algumas obras também
também se configura como parte com- já foram produzidas abrangendo o
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tema. Algumas enfatizam os aspectos ruaru, Arcoverde, Salgueiro e Petrolina. Neste livro, procuramos nos aprofun-
relacionados à construção gramatical Assim, buscamos investigar as similari- dar na investigação da linguagem vi-
dos textos e ao seu conteúdo, outras dades e diferenças da linguagem visual sual desses artefatos — uso de cores,
abordam seus aspectos gráficos; no dos letreiramentos populares dessas tipografias e suportes —, bem como no
entanto, o assunto ainda tem muito a cidades, em busca de traçar um perfil da processo de confecção desses objetos
ser explorado. configuração visual e do processo pro- por seus artífices, procurando revelar as
dutivo desses artefatos no Estado, sob inspirações e influências que norteiam
O objetivo principal do projeto de pes- o olhar do design, com ênfase nos as- o trabalho dos pintores letristas e suas
quisa desenvolvido, descrito neste livro, pectos tipográficos. ferramentas e técnicas.
foi realizar um mapeamento e análise
da produção de letreiramentos popula- Dessa forma, foi possível constituir um Suas páginas ilustram, com riqueza de
res e da profissão do pintor letrista em acervo com mais de 1.000 imagens de imagens, os principais resultados dessa
Pernambuco, por meio do estudo com- letreiramentos populares coletadas jornada, despertando o olhar do leitor
parativo entre as paisagens urbanas nessas regiões, que poderão ser utiliza- para o rico universo do letreiramento
das cidades do Recife, de Gravatá, Ca- das também para outras pesquisas. popular comercial, que muitas vezes
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passa despercebido diante da vida fu- biografias dos artífices entrevistados estudado, bem como reflexões sobre o
gaz das grandes cidades. nesses centros urbanos. No capítulo futuro do ofício do pintor letrista.
3, fizemos uma análise, sob o ponto de
Para compreender a estrutura deste vista da tipografia, das peculiaridades e Para garantir uma maior visibilidade da
livro, o capítulo 1 introduz o leitor ao similaridades entre os letreiramentos pesquisa, todo o conteúdo do livro tam-
nosso campo de pesquisa — o design das diversas cidades visitadas, em bus- bém pode ser consultado em inglês ao
vernacular —, bem como ao nosso ob- ca de delinear um panorama tipográfi- final da publicação.
jeto específico de estudo — os letreira- co desses artefatos no Estado de Per-
mentos populares. Apresentamos, no nambuco. O capítulo 4 procura resumir Esperamos, assim, oferecer ao leitor
capítulo 2, um painel visual composto de forma sucinta os principais instru- uma experiência verbo-visual dessa
pelos inúmeros registros fotográficos mentos e técnicas utilizados pelos pin- jornada tipográfica do litoral ao sertão
dos letreiramentos e pintores letristas tores letristas entrevistados de acordo pernambucano.
realizados durante o estudo de cam- com o tipo ou gênero do suporte a ser
po, organizados de acordo com cada pintado. Por fim, o capítulo 5 apresenta Fátima Finizola, Solange Coutinho
cidade visitada, bem como pequenas as considerações finais sobre o tema & Damião Santana
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Capítulo 1
INTRODUÇÃO

A contínua presença O rico universo popular brasileiro pas- rantir seu sustento; outros se adapta-
do “útil e necessário” sa por um processo de deslocamento, ram às novas tecnologias; no entanto,
é que constituem o valor adaptação e tradução para os meios muitos ainda resistem e continuam até
digitais. Ofícios antes desenvolvidos por hoje desenvolvendo seus artefatos de
desta produção, sua poética
processos exclusivamente manuais aos forma manual.
das coisas humanas não- poucos necessitaram incorporar técni-
gratuitas, não criadas cas e ferramentas digitais para mante- O trabalho de resgate do ofício dos
para mera fantasia. rem-se vivos e concorrerem com a pro- pintores de letras em Pernambuco —
dução de artefatos em larga escala. Foi que aqui denominamos abridores de
Lina Bo Bardi assim que aconteceu com a indústria letras1 — busca contribuir para o for-
da comunicação visual brasileira. Com a talecimento da Memória Gráfica Per-
introdução das novas tecnologias digi- nambucana, principalmente daquelas
tais, a maioria das antigas "oficinas de manifestações informais de design
pintura" ou casas de "faixas e placas" passíveis de extinção — como a gráfi-
desapareceram ou cederam espaço ca popular —, com o intuito de tornar-
para empresas de sinalização e birôs -se uma fonte de referência para o de-
de impressão, que incorporaram ao seu senvolvimento de novos projetos que
maquinário routers, plotters de recorte incluam, em sua essência, elementos
de vinil ou de impressão digital. da cultura local.

Nesse processo de transição, alguns Ao mesmo tempo, o projeto também


1 | O termo abridores de letras deriva
artífices e mestres no fazer manual de busca revalorizar um ofício que se en-
da expressão abrir letras, utilizada
pelos pintores para descrever placas e letreiramentos perderam seu contra marginalizado no mercado, para
a ação de desenhar o letreiro sobre lugar no mercado e foram obrigados a quem sabe reintroduzi-lo na cadeia pro-
o suporte escolhido. migrar para outras profissões para ga- dutiva local.
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Capítulo 2
ABRIDORES
DE LETRAS

ENXERGAR O VERNACULAR Para realizar o mapeamento e a análise nambuco por meio de entrevistas se-
É ENXERGAR O INVISÍVEL. da produção de letreiramentos popula- miestruturadas. Para analisar as ima-
É OLHAR PARA ALGO COMUM res e da profissão do pintor letrista em gens dos letreiramentos sob o ponto de
Pernambuco, foi desenvolvido um es- vista dos seus aspectos tipográficos, foi
E SE APAIXONAR.
tudo comparativo entre as paisagens utilizado como base o sistema de clas-
Tibor Kalman urbanas das cidades do Recife, de Gra- sificação dos letreiramentos populares
vatá, Caruaru, Arcoverde, Salgueiro e Pe- desenvolvido por Finizola5 (2010a) .
trolina, com a finalidade de investigar as
similaridades e diferenças da linguagem As cidades escolhidas para esse levan-
visual dos letreiramentos populares da tamento pontuam toda a extensão do
região metropolitana, ao agreste e ser- Estado de Pernambuco, do litoral ao
tão pernambucano. sertão, por meio da BR–232 — uma das
rodovias mais importantes da região,
Os métodos utilizados para desenvolver complementada pelo trecho que inter-
esse levantamento envolveram pes- liga as cidades de Salgueiro e Petrolina.
quisas de campo para a realização de Ao mesmo tempo, também represen-
registros fotográficos dos letreiramen- tam centros urbanos e comerciais de
tos populares, bem como entrevistas e destaque que estão em pleno desenvol-
visitas ao local de trabalho dos artífices vimento econômico em cada uma das
que desenvolvem esses artefatos. Essa suas respectivas regiões.
extensa coleta de dados proporcionou
a formação de um acervo de mais de Nas últimas décadas, a cana-de-açúcar
5 | Veja o sistema de classificação 1.000 fotos e o registro do trabalho de deixou de ser o principal produto primá-
completo nas páginas 100 e 101. 12 pintores letristas do Estado de Per- rio de Pernambuco. O Estado, recente-
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mente, observa uma relevante mudança cidade de Petrolina, localizada no Vale comerciais, placas e murais, vitrines,
na sua economia, com grandes inves- do Rio São Francisco (Figura 9). carrocinhas de ambulantes, cartazes,
timentos nos setores secundários, em entre outros gêneros.
especial o petroquímico, biotecnológi- É interessante observar as transições e
co, farmacêutico e automotivo, aliada à contrastes entre a paisagem, o bioma e De forma geral, todas as paisagens
crescente importância do setor terciário, topografia do Estado de Pernambuco e, urbanas visitadas apresentaram cla-
do turismo e de empreendimentos dos ao mesmo tempo, tentar compreender ramente o contraste entre fachadas e
setores: alimentício, químico, têxtil, de como as particularidades de cada local placas confeccionadas por processos
materiais elétricos, comunicação e me- — os hábitos, costumes, tradições, etc. manuais e aquelas desenvolvidas por
talurgia, dentre outros. Destaca-se tam- — podem deixar marcas na paisagem meio de plotters de impressão digital
bém a produção e exportação de frutas tipográfica de cada cidade. ou recorte. As placas impressas por
ao longo do São Francisco, além de ou- processos digitais geralmente tomam
tros polos dinâmicos de desenvolvimen- espaço predominantemente nas vias
to, como o gesseiro no Araripe, a pecu- PARA REALIZAR O principais de cada centro urbano. En-
ária leiteira e o polo têxtil do Agreste, a quanto que aquelas produzidas por pro-
cana-de-açúcar e a biomassa na Zona MAPEAMENTO E A ANÁLISE cessos manuais são encontradas com
da Mata e o polo de informática, indus- DA PROFISSÃO DO PINTOR mais facilidade em vias secundárias ou
trial e de serviços na Região Metropoli- áreas mais populares.
tana do Recife.
LETRISTA EM PERNAMBUCO,
FOI DESENVOLVIDO UM A presença de elementos de comuni-
As cidades mapeadas em nosso es- ESTUDO COMPARATIVO ENTRE cação visual em cada cidade, indepen-
tudo, além de pertencerem à rota da dentemente da técnica utilizada para
BR–232, encontram-se entre as 30 (de AS PAISAGENS URBANAS sua confecção, está intrinsecamente
um total de 185) cidades mais populo- DAS CIDADES DO RECIFE, DE ligada aos serviços e atividades comer-
sas do Estado e representam quatro das ciais prestados nas áreas visitadas, haja
cinco Mesorregiões de Pernambuco: a
GRAVATÁ, CARUARU, ARCOVERDE, vista que a grande maioria dos letrei-
Região Metropolitana do Recife; o Agres- SALGUEIRO E PETROLINA. ramentos é porta-voz de mensagens
te Pernambucano; o Sertão Pernambu- de cunho comercial ou publicitário, em
cano; o São Francisco Pernambucano; e detrimento daquelas com conteúdo po-
a Zona da Mata, a única não contempla- lítico ou religioso. Entre as atividades
da, por estar muito próxima à região me- Cada centro visitado carrega consigo que mais empregam letreiramentos
tropolitana e por ter apenas um pequeno idiossincrasias que refletem os aspec- populares como elemento de publici-
trecho margeando à BR–232. tos históricos, geográficos e culturais dade em sua fachada, destacam-se pe-
que permearam o processo de formação quenos estabelecimentos ou negócios
Iniciamos pela região metropolitana, de cada cidade, de seu tecido urbano e informais, como borracharias, oficinas
onde visitamos a cidade do Recife. De- de suas paisagens arquitetônicas. Nes- mecânicas, eletricistas, cabeleireiros,
pois seguimos para o Agreste, onde per- se contexto, elementos de comunicação manicures, bares e restaurantes, entre
corremos as cidades de Gravatá e Carua- também se caracterizam como parte outros. Por outro lado, um amplo espec-
ru. Continuamos a adentrar o interior do dessas paisagens urbanas por estarem tro de atividades se utiliza dos murais
Estado e visitamos as cidades de Arco- integrados às edificações ou se encon- publicitários desenvolvidos por pintores
verde e Salgueiro, em pleno Sertão per- trarem em locais públicos. Entre eles, letristas, entre elas estabelecimentos
nambucano, para finalmente alcançar a figuram fachadas de estabelecimentos comerciais de médio porte, cursos e
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DISTÂNCIA DA CAPITAL (aprox.)


Distance from Recife
Gravatá 85 Km
Caruaru 137 Km
Arcoverde 256 Km
Salgueiro 518 Km
Petrolina 722 Km

Figura 9 Cidades onde foi realizado o levantamento dos abridores de letras de Pernambuco
Cities visited during the research project for sign painters in Pernambuco
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A cidade de Caruaru está localizada


a 130 km da capital na mesor-
região do Agreste do Estado de
produzidos por processos digitais
nas vias principais voltadas para
o comércio, competindo com os
Pernambuco e microrregião do Vale letreiramentos manuais, que se
do Ipojuca. É a cidade mais populosa encontram em quantidade mais
do interior, tendência que deve per- reduzida nessa região.
durar devido à instalação de grandes
empresas na área, à recente dupli- A cultura tipográfica da cidade
cação da BR–232, que tem facilitado o também é marcada pela tradição da
acesso à cidade, bem como à reforma pintura de lameiras para caminhões
do seu aeroporto e à consolidação do e veículos de menor porte. Além de
polo universitário na região. Entre as empresas que confeccionam car-
atividades econômicas mais expres- rocerias na própria cidade, é comum
sivas do local, estão o comércio — encontrar profissionais que prestam
com destaque para as feiras livres e esses serviços nas imediações de

A CIDADE
The City
lojas de confecção —, o turismo e a centros comerciais e regiões mais
produção de artesanato, que consa- populares. Assim, identificamos os
grou o título de Maior Centro de Artes pintores Wilson — que confecciona
Figurativas da América Latina à cidade, "lameirões" — e Marcos — que faz
pela Unesco. lameiras para veículos de menor
porte, como vans, caminhonetes e
Na paisagem visual da cidade, nota- jipes — além do estabelecimento
-se a disseminação dos letreiros Casa das Lameiras.
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Letreiramentos | Caruaru
Lettering | Caruaru
62
63

Caruaru

são expostas por toda parte — na parede O processo de confecção segue as se-
AS LAMEIRAS ou em cima do móvel. Há dois modelos guintes etapas: pintura da base branca,
DE MARCOS predominantes de lameiras, aquelas na pintura dos motivos coloridos e fundos
cor preta, apenas com a reprodução da degradê, finalização das letras com tin-
marca do veículo em branco, e outras ta preta. Marcos nos conta que, no iní-
extremamente coloridas, com pinturas cio de sua carreira, fazia esboços a lápis
de paisagens e inscrições de texto, ge- antes de pintar, mas que hoje em dia faz
ralmente frases de cunho religioso com tudo "de cabeça".
pedidos de proteção ao veículo: "Só Je-
sus Salva", "Proteção Divina", "Jesus ama É interessante observar que a maioria
você", etc (p.61). das lameiras possuem mensagens es-
critas num estilo tipográfico chamado
Dentro da banca, além das lameiras, de degradê pelo pintor, que é elaborado
também encontramos a maleta de em duas etapas: a primeira consiste
ferramentas do artífice, também com em pintar a base com um degradê, e a
a inscrição "pintor" grafada. Marcos segunda em finalizar a letra de forma
prefere pintar as peças na sua própria vazada com tinta preta sobre o campo
Marcos trabalha há 32 anos como pintor casa e usa seu ponto comercial ape- degradê, deixando transparecer a pin-
e é especialista na pintura de lameiras nas para vendê-las ou retocá-las. As tura do fundo. A letra tem aspecto ex-
— placas emborrachadas fixadas às car- principais ferramentas de trabalho são trabold, sua base é um retângulo com
rocerias dos caminhões para adornar ou pincéis [chatos] de pelo de camelo e a hastes retas e cantos cortados em 45º,
proteger o veículo da lama. Faz ponto há tinta sintética. A base das lameiras é que vai sendo trabalhado até dar forma
anos na mesma esquina, situada numa cortada num material de borracha de- a cada caractere. O mesmo estilo tam-
região comercial denominada Guara- nominado "Neolite". bém pode ser encontrado facilmente
rapes, no bairro de Nossa Senhora das em diversos letreiramentos inscritos
Dores, no Centro de Caruaru. As lameiras simples, onde figura ape- nos para-choques traseiros de cami-
nas a marca do veículo, geralmente são nhões da região para reproduzir a placa
Iniciou a sua trajetória como aprendiz feitas a partir de uma tela de serigrafia, do veículo ou frases temáticas.
do pintor Freq, outro letrista da área, e "para dar melhor acabamento". As la-
aos poucos se especializou na pintura meiras ilustradas, por outro lado, são O pintor, que vive exclusivamente des-
de lameiras para caminhonetes e veícu- pintadas exclusivamente à mão. Estas se ofício, observa que ultimamente as
los menores. se compõem por uma moldura, uma vendas têm caído bastante, pois acre-
ilustração na metade superior e uma dita que os motoristas estão usando
Sua banca de madeira, com aproxima- frase na parte inferior da peça. Como menos as lameiras devido à moderni-
damente 1 m de altura, apresenta a são vendidas aos pares, geralmente a zação dos carros do mercado. Aos pou-
inscrição "pintor" e chama atenção pelo frase é dividida entre as duas lameiras cos, as lameiras tendem a se transfor-
colorido e personalidade (p.60). Lameiras que compõem o jogo (p. 61). mar em objetos do passado.
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125

a synchronic cross-section that ranges The sign says "Letters for sale"... "Amateur,
SIGN PAINTERS OF from graphic examples of almost childlike squared, serif, cursive, rounded, grotesque,
PERNAMBUCO writing to the technology of digital files, calligraphic, fantasy, expressive", in the clas-
and through to the materiality of stencils, sification of the researcher Fatima, as well as
Mapping out the vernacular
scrapbooks, samples, visual references in rounded, loose, block, straight, Gothic, Italic,
graphics books/libraries, brushes, rollers, airbrush Roman, in the classification of artists. As in
compressors, etc. Whether as transitional architecture, the typographical classicisms
styles or pushing new directions on painting have become "countrified". In the most
techniques, it is aesthetically worth to do ingenuous versions, unplanned composi-
almost everything in order to please the tions with little spacing planning are exposed
customer and gain a client. shamelessly, with little space planning,
which results on certain abbreviations and
Between one city and another we encounter unexpected typographic solutions. On these
the official road signs and their stringent streets where "buttons is sewn" and "we has
// PREFACE graphical syntax, produced by official design welding", there is a "Rubberised Bar", where
methods. Arriving at the entrance to a city, the "slaughterer" is "Doctor Chicken", and the
Since its creation in 1972, the Design Course hand-painted signs begin to emerge, sea- "King of the carburettors" is "on the air for 24
at UFPE, particularly the Graphic Design area, soning the journey. This form of vernacular hours" (what a relief!).
with its teaching, research and extended ac- design, with little or no respect for spacing
tions, has been characterized by its examina- and margins, spatial hierarchy or dimensions After all, as the sign painter Carlos states,
tion of the local culture, quite unlike most of and colours is dictated solely by the intended “the craft of sign painting still has a long life
its national counterparts which have tended communicative impact. Icons of products, ahead, because the work reflects the press-
to give emphasis to an European focus brands, characters and arrows hurl them- ing need people have to solve communica-
within the area of design. Recent postgradu- selves towards us in a graphic 'disarray' that tional problems.” But we should add that
ate courses created at this same institution humorously screams for our attention. along these streets and within this book the
have continued to reinforce this concern with call for urgency has given place to graphic
social values, as well as incorporating con- And in a delicious metalinguistic bid, the artefacts of cultural importance.
temporary knowledge and technologies, their typography of titles and opening chapters This is good for all of us!
interrelationships with the 'material culture' of this book incorporates linguistic corrup-
and its preservation. This is the manner in tions of the sign painters’ style, vectorially Lia Monica Rossi
which they attribute their own very particular drawing the outline and then feigning to August 2013
meaning to the history of design. Inspired by be a filled in letter completed in one simple
this 'regional thing', so very very Brazilian, we brush stroke ...
could even risk including in the same basket,
thinkers such as Camara Cascudo, Celso Fur- In his brilliant Alvenaria Burguesa (‘Bourgeois // PRESENTATION
tado, Josué de Castro, Gilberto Freyre, Ariano Masonry’; 1989, Ed Nobel, pag 191), Carlos
A typographic journey from the coast
Suassuna, Glauber Rocha, among others, Lemos speaks of "architecture without archi-
each with their own unique manner. In order tects", whose examples, whether "poignant to the hinterlands
to add melody to this text and theory, we or not," need to be studied in depth and even
preserved "because they are legitimate seg- Basically, the Brazilian artisan is much more a
may also behold within this mixture, musical
ments of our Cultural Heritage". These exam- potential designer, than an artisan in the
masters like Tom Zé, Raul Seixas, Zé Ramal-
ples represent "grassroots efforts" that align classical sense. – Aloísio Magalhães
ho, Sivuca, Hermeto, Chico Science, traditional
and new maracatus and much, much more. "material hardships" to the conscious dignity
"of impressive artistic intent.". The works of Sign Painters of Pernambuco – mapping
Collages including local Saturday markets,
the great artists, continues Lemos, "precisely out the vernacular graphics is the result of
bass drums, accordion and triangle entwined
because they are exceptional, they are not an extensive visual research across various
with medieval troubadours within the pages
representative of our society." It is our belief cities and regions throughout the state of
of a piece of modern cordel literature. That is
that this quote sits perfectly alongside the Pernambuco over a period of 5 years. The
the Brazilian Northeast.
work and life of our sign painters, full of first visual registers, in the city of Recife,
"material hardship" but also of impressive were recorded for the Design master’s
In the ‘on the road’ photographic narrative
"artistic intent". degree course at the Universidade Federal
by Fátima, Solange and Damião we observe
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REFERÊNCIAS
References

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SOBRE OS AUTORES
About the authors

FÁTIMA FINIZOLA SOLANGE COUTINHO DAMIÃO SANTANA


Designer gráfica e pesquisadora na área Designer, PhD pela University of Reading, Especialista em design da Informação
de design vernacular e tipografia. Dou- Inglaterra; Pesquisadora PQ 2 - CNPq; pela UFPE. Sócio da Corisco Design e
toranda em Design pela UFPE e sócia da Professora do Departamento de Design fundador do projeto colaborativo Crimes
Corisco Design, onde também desenvolve da UFPE (Graduação e Pós-graduação); Tipográficos. Designer por formação e
o projeto colaborativo Crimes Tipográfi- Coordenadora da Equipe Associada 1 - fotógrafo por vocação.
cos. Autora do livro ‘Tipografia Vernacular PROCAD/CAPES.
Urbana’ (Blucher). Integrou a diretoria da Specialised in information design at UFPE. An
ADG Brasil entre 2009-2013. associate partner of Corisco Design and was
Designer, PhD from the University of Reading,
responsible for founding the collaborative project
UK; A researcher PQ 2 - CNPq; Professor at the
Graphic designer and researcher in the field of entitled Crimes Tipográficos. A designer by gradu-
Department of Design at UFPE (Graduation and
vernacular design and typography. She is currently ation and a photographer by vocation.
Post-graduation); Coordinator of the Equipe As-
undergoing a Doctorate in Design at UFPE and is an sociada 1 - PROCAD/CAPES.
associate partner of Corisco Design, where she also
develops the collaborative project entitled Crimes
Tipográficos. Author of ‘Tipografia Vernacular
Urbana’ (Blucher). She was part of the directorship
at ADG Brasil during the period 2009-2013.
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COLEÇÃO GRÁFICA POPULAR BRASILEIRA

Este livro é resultado do projeto ‘Abridores de Letras de Pernambuco


· um mapeamento da gráfica popular’, contemplado pelo edital do
Fundo Pernambucano de Incentivo à cultura 2010-2011.
O projeto gráfico foi elaborado pela Corisco Design utilizando as
fontes Cartaz Popular® , Din e Titillium. A impressão offset foi
realizada pela Gráfica Santa Marta em papel couchê fosco 150g/m2 .
A tiragem é de 1.000 exemplares.

This book is a result of the project ‘Sign Painters of Pernambuco · mapping


out the vernacular graphics’, included in the edict of Fundo Pernambucano
de Incentivo à cultura 2010-2011. The layout was created by Corisco
Design using Cartaz Popular®, Din and Titillium fonts. The offset printing
was by Gráfica Santa Marta with couche matt 150g/m2 paper.
1.000 copies were printed.

Saiba mais sobre o projeto:

www.designvernacular.com.br/abridoresdeletras
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