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Revisional PISM- autores- Bocage:

1- Contexto:
Bocage viveu numa época de crise evidente. A economia era frágil, o ouro do Brasil esvaía-se no luxo
desenfreado da Corte, o erário público era delapidado pelas despesas abissais da marinha e do exército. As amplas
e radicais reformas encetadas pelo Marquês de Pombal foram sistematicamente subvertidas. O povo indigente
gemia a sua impotência.
Em França, vivia-se um período extremamente conturbado. A revolução tinha varrido a nobreza, Luís XVI e
Maria Antonieta foram decapitados e os ventos que apregoavam os ideais de Liberdade, igualdade e fraternidade
faziam-se ouvir com fragor. Os centros de convívio lisboeta eram palco de subversão, discutia-se acesamente nos
cafés e nos botequins as vicissitudes da revolução francesa, criticava-se abertamente o poder e a situação política
nacional, imprimiam-se "papéis sediciosos", aguardava-se com ansiedade os livros revolucionários que chegavam a
Portugal pelos portos de Setúbal e de Lisboa.
Em 1790, Bocage regressa a Portugal na sequência de uma estada agitada pelo Oriente. Para trás ficara
uma experiência marcante em contacto com culturas díspares como a brasileira, a moçambicana, a indiana, a
chinesa e a macaense. Os ideais de solidariedade social implícitos na revolução que se consolidava em França
exerciam sobre ele um apelo inelutável.
Bocage, para além da poesia lírica, compôs poemas de carácter satírico contemplando pessoas do regime,
tipos sociais e o clero, facto que não agradou obviamente ao poder. Poemas como "Liberdade, onde estás? Quem
de demora?", "Liberdade querida e suspirada", "Pavorosa Ilusão da Eternidade" ou um outro em que faz
explicitamente o louvor de Napoleão, paradigma da revolução francesa, e a crítica do Papa conduziram-no à
prisão, por crime de lesa-majestade. No Limoeiro, vivendo em condições infra-humanas, moveu as suas influências
e beneficiou da amizade do ministro José de Seabra da Silva e da sua popularidade. Três meses mais tarde, era
entregue à Inquisição, já sem o poder discricionário que outrora tivera, sob a acusação de impiedade.
Pouco durou esta reclusão. Mais uma vez o seu carisma e o seu reconhecido talento prevaleceram. Porém,
a saga de Bocage com a Inquisição reacendeu-se em 1802, tendo sido aberto novo processo por denúncia feita por
Maria Theodora Severiana Lobo que o acusava de pertencer à Maçonaria. Por falta de provas e provavelmente
devido à saúde fragilizada do escritor, o referido processo, que pode ser consultado na Torre do Tombo, foi
arquivado. Um último aspecto é digno de menção: a censura perseguiu Bocage durante toda a sua vida. Muitos
versos foram cortados, outros ostensivamente alterados, poemas houve que só postumamente viram a luz do dia.
Compreende-se plenamente o seu anseio desesperado: "Liberdade, onde estás? Quem te demora?"

2- Poesia Lírica:
A poesia lírica de Bocage apresenta duas vertentes principais: uma, luminosa, etérea, em que o poeta se
entrega inebriado à evocação da beleza das suas amadas (Marília, Jónia, Armia, Anarda, Anália), expressando
lapidarmente a sua vivência amorosa torrencial: "Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido / De ti só trago cheia,
oh Jónia, a mente; / Do mais e de mim ando esquecido."; outra, nocturna, pessimista, depressiva em que
manifesta a incomensurável dor que o tolhe, devido à indiferença, à traição, à ingratidão ou à "tirania" de Nise,
Armia, Flérida ou Alcina.
Estas assimetrias são um lugar-comum na obra de Bocage, plena de contrários. São ainda o corolário do
seu temperamento arrebatado e emotivo. A dialéctica está bem patente nos seus versos: "Travam-se gosto e dor;
sossego e lida... / É lei da Natureza, é lei da Sorte / Que seja o mal e o bem matiz da vida!"
Na sua poética prevalece a segunda vertente mencionada, o sofrimento, o "horror", as "trevas", facto que o faz,
com frequência, ansiar pela sepultura, "refúgio me promete a amiga Morte", como afirma nomeadamente.
A relação que tem com as mulheres é também melindrosa, precária. O ciúme "infernal" rouba-lhe o sono,
acentua-lhe a depressão.
Bocage considera que a desventura que o oprime é fruto de um destino inexorável, irreversível, contra o
qual nada pode fazer. A "Fortuna", a "Sorte", o "Fado", no seu entender, marcaram-no indelevelmente para o
sofrimento atroz, como se depreende dos seguintes versos: "Chorei debalde minha negra sina", "em sanguíneo
carácter foi marcado / pelos Destinos meu primeiro instante".
Outro aspecto relevante a ponderar na avaliação da poesia de Bocage é a dialéctica razão/sentimento.
Com efeito, existe um conflito aberto entre a exuberância do amor, também físico, a sua entrega total, e a

Profª Luciene Fernandes Loures


contenção e a frieza do racional: "Razão, de que me serve o teu socorro? / Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
/ Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro", ou ainda quando escreve "contra os sentidos a razão murmura".
Bocage viveu num período de transição, conturbado, em convulsão. A sua obra espelha essa instabilidade.
Por um lado, reflecte as influências da cultura clássica, cultivando os seus géneros, fazendo apelo à mitologia,
utilizando vocabulário genuíno; por outro lado, é um pré-romântico pois liberta-se das teias da razão, extravasa
com intensidade tudo o que lhe vai na alma, torrencialmente expressa os seus sentimentos, faz a apologia da
solidão.

3- Poesia Satírica (anedótica):


É bem conhecido o carácter irreverente de Bocage. Com efeito, da sua pena contundente saíram sátiras
impiedosas, críticas ao modelo de sociedade, ao governo, aos poderosos de uma maneira geral. O novo –
riquismo, a mediocridade, as convenções sociais, o clero, os médicos, os avarentos e os literatos, entre outros,
também foram objecto da sua observação rigorosa e da sua crítica corrosiva.
Recorde-se que a anemia e a estagnação que caracterizavam a sociedade portuguesa de finais do século
XVIII eram um espartilho para uma personalidade que estava muito para além da mentalidade da época.
Coexistiam em Bocage a sensibilidade extrema, a ousadia aberta, a percepção aguda da realidade, a emotividade
exuberante e o imenso talento. Estes atributos, aliados a um repentismo fulminante e à sua permanente
insatisfação relativamente aos valores dominantes e a determinados tabus, fizeram com que entrasse em rota de
colisão com o poder, tendo sido preso por crime, de lesa majestade e, pouco depois, entregue às malhas
mutiladoras da Inquisição. O objectivo era a sua "reeducação". Ao fim de poucos meses, foi libertado pois o perigo
de converter alguns frades aos seus ideais era cada vez mais real...
Poder-se-á defender a tese de que Bocage incarnou o inconsciente colectivo do povo português. Ele
consubstanciou a voz do povo oprimido mas crítico que compensava com o riso, com a caricatura e com o ridículo
a sua legítima insatisfação.
A filosofia de vida de Bocage – crítico, ousado, irreverente, boémio, popular, espontâneo – propiciou-lhe
uma auréola notável e consequentemente uma legião de admiradores. Comprova-o o facto de a sua personalidade
ter sido incensada em mais de cem poemas da autoria de contemporâneos que tiveram o privilégio de com ele
conviver.
Em contraponto e como corolário da sua frontalidade, registe-se que, obviamente, não foram poucos os
seus detractores que acintosamente o atacaram em sátiras e polémicas que Bocage ia também ciosa e
apaixonadamente alimentando.
Tendo em consideração que o povo português encarou Bocage como se de filho seu se tratasse, houve a
tendência natural para lhe atribuir a participação activa em ocorrências cómicas, satíricas ou brejeiras. Dir-se-ia
que o seu aval tornaria as situações mais credíveis e humorísticas.
Os trinta livros de anedotas apresentados nesta exposição pouco têm a ver com Bocage. Pelo menos nada
há escrito do seu punho de carácter anedótico. A tradição oral encarregou-se de ir perpetuando todo este acervo,
como se fosse da sua autoria. Resta-nos apenas a filosofia subjacente a muitos destes livros, essa sim Bocageana,
como muitos dos seus amigos - Pato Moniz, D. Gastão da Câmara Coutinho, Bingre, entre outros –
testemunharam.
É bem verdade que Bocage foi a consciência crítica do povo, como já foi referido. Mas não é menos
verdade que houve editores que, para ganharem dinheiro facilmente, instrumentalizaram o seu nome, optando
pelo primarismo e pela obscenidade. Confundiram talvez conscientemente erotismo com pornografia,
sensualidade com boçalidade, ironia subtil com sarcasmo.
O primeiro livro de anedotas atribuídas a Bocage de que há notícia remonta ao princípio do presente século e está
directamente relacionado com a liberalização da sociedade portuguesa e com a comemoração do centenário do
falecimento do escritor em 1905. A partir desta data, inúmeras edições foram vindo a lume.

Retirado de: http://purl.pt/1276/1/liberdade.html

Profª Luciene Fernandes Loures


Questões sobre o autor:
01. Assinale a incorreta sobre Bocage:

a) Foi fundador da Escola Arcádia Lusitana, em 1756, e pertenceu à Nova Arcádia, mas rompeu com as duas
agremiações.
b) À semelhança de Camões, teve vida atribulada: viveu no Oriente, conheceu a miséria e a prisão.
c) À semelhança de Gregório de Matos, notabilizou-se como poeta satírico e como poeta lírico.
d) A lírica bocagiana evoluiu do Arcadismo convencional para o egocentrismo pré-romântico.
e) A tensão entre o racionalismo neoclássico e o individualismo pré-romântico é um dos eixos temáticos de sua
obra.

02. Bocage só não escreveu:

a) poesia satírica e obscena;


b) poesia lírica bucólica;
c) poesia lírica reflexiva;
d) poesia encomiástica e de circunstância;
e) poesia épica.

03. (FUVEST) Bocage foi:

a) o poeta mais representativo do Arcadismo em Portugal;


b) o poeta mais representativo do Arcadismo no Brasil;
c) um poeta pré-romântico;
d) o escritor-chave para a compreensão do movimento barroco;
e) um cronista medieval.

04. (MACKENZIE) Sobre Bocage, é incorreto afirmar que:

a) como poeta satírico, ironizou contemporâneos seus, o clero, a nobreza decadente;

b) houve, notada inclusive por ele mesmo em um famoso soneto, uma série de semelhanças entre sua vida e a de
Camões;

c) em sua obra lírica, o Arcadismo interessou apenas como postura, aparência, pois, no fundo, o poeta foi um pré-
romântico;

d) como abriu mão totalmente dos valores neoclássicos, desprezou o apuro formal, o bucolismo e a postura
pastoril;

e) o subjetivismo, a confidência de sua vida interior, a confissão foram elementos freqüentes em sua obra lírica.

05. (FUVEST) De Bocage, pode-se dizer que:

a) passou a maior parte de sua vida no Brasil;

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b) é o expoente máximo da poesia portuguesa do século XVIII;
c) foi grande cultor do soneto barroco;
d) escreveu contos eróticos;
e) representa a poesia parnasiana em Portugal.

06. (MACKENZIE) Sobre a obra de Bocage, é correto afirmar que:

a) seus sonetos contêm o mais alto sopro de seu talento lírico, sendo considerado um dos maiores sonetistas da
língua;
b) basicamente se faz de anedotas, todas se aproximando da obscenidade grosseira;
c) a sátira ocupa o lugar de maior importância em seu desenvolvimento;
d) pode ser colocada como ponto máximo da poesia romântica portuguesa;
e) não supera regras e as coerções literárias ligadas ao movimento arcádico.

07. (CESEP - PE)

I - "O momento ideológico, na literatura do Setecentos, traduz a crítica da burguesia culta, ilustrada, aos abusos
da nobreza e do clero."

II - "O momento poético, na literatura do Setecentos, nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a
natureza e os afetos comuns do homem".

III - "Façamos, sim, façamos doce amada / Os nossos breves dias mais ditosos." Estes versos desenvolvem o tema
do carpe diem.

a) só a proposição I é correta;
b) só a proposição II é correta;
c) só a proposição III é correta;
d) são corretas somente as proposições I e II;
e) todas as proposições são corretas.

08. Movimento estético que gravita em torno de três diretrizes, Natureza, Verdade e Razão, buscando fazer da
literatura a "expressão racional da natureza para, assim, manifestar a verdade". Trata-se do:

a) Barroco
b) Romantismo
c) Simbolismo
d) Neoclassicismo
e) Modernismo

09.
"O poeta que não seguir aos Antigos perderá de todo o norte, e não poderá jamais alcançar
aquela força, energia e majestade que nos retratam o famoso e angélico semblante da Natureza.
Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão; e o confessa
todo o mundo literário."

O texto acima, de autoria de Correia Galvão, um dos fundadores da Arcádia Lusitana, define propostas do
neoclassicismo que:

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a) serão integralmente respeitadas por Bocage;
b) contradizem os ideais clássicos;
c) serão retomadas e adaptadas, no século XIX, pelo Parnasianismo;
d) propõem a valorização do subjetivismo e da originalidade;
e) se incompatibilizam com a tradição renascentista.

10. Sobre Bocage, assinale a informação incorreta:

a) Além de produzir poesia culta, foi poeta popular e exímio improvisador.

b) Sob a linguagem grosseira, mas sempre divertida, com que representa situações escabrosas, revela-se, muitas
vezes, um moralismo bastante convencional, machista e preconceituoso.

c) A capacidade de representar o traço caricatural e ridículo de situações e pessoas, aliada à versificação fluente e
precisa, à linguagem próxima da oralidade, fazem-nos rir, até nas passagens vulgares, mesmo quando discordamos
da visão distorcida e encobertamente moralista.

d) Os alvos privilegiados de sua sátira foram os mulatos e os mestiços das colônias orientais. É contra eles que
mostra a presunção de superioridade do branco europeu, o racismo e o preconceito.

e) A sátira bocagiana é superior à sua produção lírica, além de ser muito mais popular, autêntica e original.

Profª Luciene Fernandes Loures