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Singularidade e formação (Bildung) em

Schopenhauer como educador de Nietzsche*

José Fernandes Weber


Universidade Estadual de Londrina

Resumo

A partir do escrito Schopenhauer como educador, buscar-se-á


explicitar a dimensão modelar de Schopenhauer, tanto para a consti-
tuição do ideal de filósofo e pensador que Nietzsche cria para si,
quanto para a edificação da sua teoria da formação (Bildung). Isso
será dado, num primeiro momento, pela apresentação do pendor crí-
tico do pensamento schopenhaueriano e da sua insubmissão às ten-
dências filosóficas e culturais do seu tempo; num segundo momento,
pela elucidação da especificidade da teoria nietzschiana do
autoconhecimento e da sua concepção da singularidade, com o que
se revelará sua teoria do fundamento metafísico da natureza, que o
leva a conceber o filósofo, o artista e o santo como os tipos singula-
res por excelência nos quais a natureza justifica os seus esforços e
supera a mera necessidade. Essas tipologias revelam as tarefas que a
educação deve, ao juízo de Nietzsche, perseguir se não quiser se tor-
nar mero abstracionismo ou mera aderência acrítica ao mundo: jamais
condescender aos modismos culturais; não separar pensamento e vida
com o que se diz, também, que teoria e prática não estão separadas;
incorporar a singularidade como aquilo que a educação promove; e,
por fim, eleger a autossuperação como a tarefa mais imperiosa para a
constituição do humano no seu sentido mais pleno.

Palavras-chave
Correspondência:
José Fernandes Weber
Rua Paranaguá, 803, apto 54
Singularidade — Formação (Bildung) — Schopenhauer — Nietzsche.
86020-030 – Londrina – PR
e-mail: jweber@uel.br

* Este artigo resulta da pesquisa de-


senvolvida no Projeto de Pesquisa
“Bildung (Formação, Cultivo) e
Modernidade: entre Filosofia, Educa-
ção e Artes” (n. 9051), financiado pela
Fundação Araucária – Paraná (FAP) e
também do “Estágio de Doutorando no
Exterior” (SWE), concedida pela CA-
PES, realizado entre maio de 2004 e
fevereiro de 2005 na Universidade
Nova de Lisboa (UNL) sob orientação
do Prof. Dr. António Marques.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.35, n.2, p. 251-264, maio/ago. 2009 251
Singularity and formation (Bildung) in Schopenhauer
as educator of Nietzsche*

José Fernandes Weber


Universidade Estadual de Londrina

Abstract

Based on Nietzsche’s Schopenhauer as Educator, the text seeks to


unveil Schopenhauer’s model dimension both in the
constitution of the ideal of philosopher and thinker that
Nietzsche creates to himself, and in the construction of his
theory of formation (Bildung). The objective of the article is
pursued firstly through the presentation of the critical
disposition of the Schopenhauerian thinking and of his refusal to
conform to the philosophical and cultural tendencies of his
time; then, in a second movement, the text elucidates the
specificity of the Nietzschean theory of self-knowledge, and of
his concept of singularity, which reveal his theory of the
metaphysical ground of nature, leading him to envision the
philosopher, the artist, and the saint as the singular types par
excellence, in which nature justifies her efforts and goes beyond
mere necessity. These typologies reveal the tasks that education,
in Nietzsche’s view, must engage in if it is to avoid becoming
mere abstractionism or noncritical acceptance of the world: to
never condescend to cultural fashions; not to separate thinking
and life, meaning also that theory and practice go together; to
incorporate singularity as that which education promotes; and,
Contact: lastly, to elect going beyond oneself as the most imperative task
José Fernandes Weber
Rua Paranaguá, 803, apto 54
in the constitution of the human being in its fullest sense.
86020-030 – Londrina – PR
e-mail: jweber@uel.br Keywords

Singularity — Formation (Bildung) — Schopenhauer — Nietzsche.


*This article resulted from the study
developed within the Research Project
“Bildung (Formação, Cultivo) e
Modernidade: entre Filosofia, Educa-
ção e Artes” [Bildung (Formation,
Cultivation) and Modernity: between
Philosophy, Education, and Arts] (n.
9051) sponsored by Fundação
Araucária – Paraná (FAP) and also by
the “Doctorate Sojourn Abroad” (SWE)
granted by CAPES during the period of
May 2004 and February 2005 at the
Universidade Nova de Lisboa (UNL)
under the supervision of Professor
António Marques.

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Supondo que os seres humanos sejam sin- da cultura alemã — objeto específico de discussão
gulares, não seria fazer pouco da singularidade das conferências sobre os estabelecimentos de en-
humana pretender que sua formação estivesse sino alemães — permite identificar um melancóli-
balizada pelo princípio do desenvolvimento médio co e renitente eco, quase inaudível da outrora
das suas faculdades? Não é justamente esse o sonora Grécia, que também se tornou decadente,
princípio das instituições educativas, dos estabele- tal qual a Alemanha contemporânea de Nietzsche.
cimentos de ensino? A padronização do ritmo do Entretanto, será que os alemães jamais abandona-
ensino tende inevitavelmente a isso. No entanto, rão o sonho de reconquistar o “autêntico espírito
considerando as possibilidades do ensino institu- grego”? Todavia, após o abandono do projeto de
cionalizado, não seria a padronização uma carac- renascimento do espírito trágico na Alemanha —
terística benéfica? Afinal, ao garantir a um núme- sonho acalentado em sua primeira grande obra, O
ro maior de pessoas o acesso aos rudimentos nascimento da tragédia —, quem faz Nietzsche
básicos, ela deixa o espaço para a diferenciação ser almejar um modelo de formação superior já não
decidida pelo imponderável, pelas aglomerações são mais os gregos, e sim o velho solitário de
casuais, pela constituição individual, pelo gênio de Frankfurt: Arthur Schopenhauer.
cada um. Ou seja, como o singular não ocorre por Assim, tendo como referência o escrito
si só, independentemente do mundo, a padroniza- Schopenhauer como educador , buscar-se-á
ção dos estabelecimentos de ensino não negaria explicitar a dimensão modelar de Schopenhauer,
necessariamente a singularidade, realçando-a, por tanto para a constituição do ideal de filósofo e
contraste, quando ela eclode. pensador que Nietzsche cria para si, quanto para
A oposição entre o individual e o coletivo, a edificação da sua teoria da formação (Bildung).
entre o singular e o padronizado, é uma das po- Isso será dado, num primeiro momento, pela
laridades mais características da modernidade. Da apresentação do pendor crítico do pensamento
teoria política, passando pelas teorias morais e schopenhaueriano e da sua insubmissão às ten-
epistemológicas, até a inserção nas discussões dências filosóficas e culturais do seu tempo;
estéticas, essa polaridade marcou também, e con- num segundo momento, pela elucidação da
tinua marcando, os discursos sobre a formação. especificidade da teoria nietzschiana do conhe-
Os textos Sobre o futuro dos nossos estabeleci- cimento, do autoconhecimento e da sua concep-
mentos de ensino1 e Schopenhauer como educa- ção da singularidade, com o que se revelará sua
dor , de Friedrich Nietzsche, representam dois teoria do fundamento metafísico da natureza,
momentos privilegiados, tanto para a análise que o leva a conceber o filósofo, o artista e o
daquela contraposição no plano mais específico santo como os tipos singulares por excelência
da formação filosófica, quanto da instauração de nos quais a natureza justifica os seus esforços e
um movimento de fuga por meio do qual se supera a mera necessidade.
mostra a impossibilidade de interpretar o singu-
lar como sinônimo de individual, pura e simples- O que nos ensinaria um mestre
mente. O singular é muito mais do que o indivi- que não aprenderíamos por nós
dual. Os tipos pedagógicos do artista, do santo e próprios?
do filósofo, apresentados por Nietzsche em
Schopenhauer como educador, permitem explicitar Um mestre é absolutamente indispensá-
a distinção entre o singular e o individual, com o vel? Em que sentido um mestre é fundamental?
que se põe em evidência a raiz metafísica da te-
oria nietzschiana do gênio filosófico, elemento de- 1. Texto das cinco conferências proferidas por Nietzsche na Universidade
cisivo da sua teoria da formação da singularidade, de Basileia em 1872, em que o autor critica as tendências da educação
alemã do seu tempo, fazendo uma ampla reflexão sobre o significado, as
o também chamado unicum. A referência ao tema peculiaridades e a importância da educação ( Erziehung) e da formação
da decadência dos estabelecimentos de ensino e ( Bildung). A esse respeito, ver WEBER, 2008.

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Se as conferências acerca dos estabelecimentos Mais do que seu pensamento, o que
de ensino alemães são enfáticas em realçar a educa é o homem-filósofo Schopenhauer. Essa
imagem de uma instituição exigente, pautada ideia ou noção é decisiva para a compreensão
nos princípios da autoridade e da obediência, da teoria nietzschiana da formação do gênio
em Schopenhauer como educador , essa ima- no período posterior a O nascimento da tragé-
gem será aprofundada por meio da apresenta- dia e anterior a Humano, demasiado humano .
ção da experiência com um mestre a tal ponto No entanto, não seria exato concluir que a filo-
exigente que se torna desarticulador, responsá- sofia schopenhaueriana não tenha exercido influ-
vel por uma profunda crise que levará o indi- ência nesse momento de seu pensamento. Nor-
víduo a assumir a tarefa da autoformação. Para malmente se restringe a influência do pensamento
Nietzsche, encontrar a obra de Schopenhauer de Schopenhauer sobre Nietzsche à sua primeira
representou um acontecimento após o qual o obra, NT. Entretanto, em Schopenhauer como
fundamental encontrava-se, senão transforma- educador, é possível verificar que a influência
do, pelo menos em crise. Aqui cabe mostrar a persiste, apesar de todo o movimento de crítica
importância do homem-filósofo Schopenhauer no e recusa de alguns dos princípios da filosofia
“devir filósofo” de Nietzsche, mais do que apresen- schopenhaueriana, movimento crítico facilmente
tar e discutir as teses da filosofia schopenhaueriana. verificável nos escritos relativos ao período e que
Ele será um exemplo incontornável para Nietzsche, foram publicados postumamente por ocasião da
não tanto pela sua filosofia, pelas suas ideias — em edição completa das obras de Nietzsche. A refe-
relação às quais este, desde o início, manteve uma rência ao tema da propensão metafísica da na-
posição de aceitação, e também de recusa, de tureza, central em Schopenhauer como educa-
crítica —, mas pela forma peculiar de tornar-se e dor, é um tema schopenhaueriano, assim como
manter-se filósofo à margem da filosofia oficial do a referência ao filósofo, ao artista e ao santo
Estado prussiano e à margem da indiferença e do como aqueles que justificam a natureza. Embora
silêncio dos seus contemporâneos. Além disso, o o tema da superioridade do gênio criador seja
texto sobre Schopenhauer permite esclarecer al- romântico, a maneira como Nietzsche o empre-
gumas das teses das conferências sobre os es- ga segue a interpretação schopenhaueriana. Em
tabelecimentos de ensino, aprofundadas pela suma, o fato de ele valorizar sobremaneira o
apresentação e pelo desenvolvimento da tese devir-filósofo de Schopenhauer, não significa
do fundamento metafísico da formação do que este, com suas teorias, tenha sido comple-
gênio filosófico, bem como apontar para algu- tamente preterido. Isso apenas acontecerá al-
mas mudanças significativas. guns anos mais tarde.
“Schopenhauer, um pessimista, educa- Schopenhauer ocupará uma posição de
dor? Isso já é demais”, diriam as boas almas destaque, juntamente com Wagner, num projeto
educadas na religião ou no humanismo. Por que Nietzsche desenvolveu naquele período.
qual razão agravar a gravidade da vida? O que Imediatamente após a publicação de O nascimen-
se ganharia com o realce dos aspectos sombri- to da tragédia, Nietzsche concebeu um projeto de
os da existência? Absolutamente nada. E seria crítica da cultura alemã, denominado de Conside-
necessário insistir no fato de que o tão malfalado rações Extemporâneas (CE). Embora projetasse
pessimismo schopenhaueriano não se reduz a inicialmente um número bastante grande de es-
uma descrição literal das atrocidades do mundo. critos, restringiu-se à publicação de quatro ensai-
Fosse isso, não seria filosofia, seria, no máximo, os: David Strauss, o crente e o escritor (I), Dos
jornal da manhã ou diário popular. Além do que, benefícios e das desvantagens da história para
Nietzsche o mostrará em sua imagem do mestre, a vida (II), Schopenhauer como educador (III)
não é o seu pessimismo que educa, e sim sua e Richard Wagner em Bayreuth (IV). A
dureza e fortaleza. extemporaneidade das quatro Considerações —

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e quiçá de todo o pensamento nietzschiano — Além disso, o desespero da verdade afe-
repousa na luta “contra o seu tempo”. Referin- tou-o como a todos os que foram tocados
do-se a CE II, e por extensão a todas as outras, profundamente pela filosofia kantiana. Contu-
Nietzsche assim se expressou: “Se esta conside- do, não cedeu ao ceticismo. A crítica, tanto do
ração é extemporânea, é porque eu considero realismo escolástico quanto do essencialismo,
como um mal, como uma deficiência, como uma do racionalismo e do empirismo, levou, ao
carência, uma coisa que o tempo presente glorifi- menos em uma interpretação bastante peculi-
ca, a sua cultura histórica” (Prefácio). Submeter a ar na Alemanha, a uma espécie radical de ce-
uma crítica radical os objetos de orgulho e ticismo em que o suicídio parecia ser uma al-
autossatisfação, do amor próprio da cultura alemã: ternativa viável. Esse foi o famoso caso de
esse era o objetivo das Extemporâneas. Daí o tom Kleist que, em uma carta à irmã, dizia ter sido
de disputa, crítica e ironia empregada nesses tex- jogado em uma profunda crise após a leitura da
tos. Aliás, nesse sentido, não seria despropositado Crítica da razão pura . E, embora este tenha
dizer que as conferências de Basileia representam cometido suicídio por não suportar continuar
um primeiro esboço das Extemporâneas. Assim, o vivendo num mundo do qual foram solapadas
texto sobre Schopenhauer representará o as certezas — consequência, ao juízo dele, da
contraponto mais radical à autossatisfação dos crítica kantiana, juízo e ato endossado por
alemães, um contraponto, porém, não mera- muitos outros —, Schopenhauer encontra na
mente negativo, pois, insiste Nietzsche, filosofia de Kant um pensamento que, a despei-
Schopenhauer educa. to da dificuldade e da força de pensamento
Essa convicção é expressa ao longo de que exige do leitor, dá na mesma medida em
todo o texto em que Schopenhauer é caracte- que exige e com a mesma força e proporção.
rizado como sendo um pessimista afirmativo 2. Nietzsche (2004) faz aqui uma nova interpre-
E, embora possa parecer estranho, a imagem tação curiosa: diz que o pensamento kantiano
deste, em Schopenhauer como educador, é a de fecunda apenas a homens robustos, que são
um tipo afirmativo, que legisla não apenas completos “no sofrimento e no desejo, e não
sobre a sua vida, mas também sobre o seu simples máquinas de pensar” (p. 155). Quer
pensamento, enfrentando a tudo e a todos. dizer, aquilo que levaria outros ao fundo forta-
Além disso, como indivíduo, ele se mantém leceu a Schopenhauer. Por quê? Porque ele era
numa atitude de fortaleza a despeito do mun- um homem robusto, não um erudito ou um
do e dos perigos que acometem a cada ho- artista delicado.
mem. No caso do gênio, contudo, a realidade Por fim, na nostalgia, ele teve o seu
assola-o de forma mais violenta. A solidão, o adversário mais forte, mais difícil de ser supe-
desespero da verdade e a nostalgia foram os rado, pois, como pensa Nietzsche (2004), a sua
perigos aos quais Schopenhauer esteve expos- constituição o dispunha para tal.
to, mas aos quais não sucumbiu.
A crer na caracterização de Nietzsche, Todo homem encontra normalmente em si
Schopenhauer foi um solitário que sacrificou a um limite dos seus dons, assim como do seu
promessa de felicidade coletiva para salvaguar- querer moral, e este limite o enche de nostal-
dar a integridade da sua filosofia e do seu ser.
O filósofo solitário não deixou abater sobre si 2. Um amplo campo de investigação poderia ser aberto caso se relaci-
a maldição segundo a qual “há sempre, em onasse o juízo, contido em Schopenhauer como educador , sobre
Schopenhauer como sendo o de um tipo afirmativo, com os temas do Amor
toda solidão, uma culpa secreta” (Nietzsche, Fati e da Vontade de Poder, característicos de sua filosofia tardia. Isso,
2004, p. 153). Não se sentia culpado e via na entretanto, exigiria o tratamento de um conjunto de temas e problemas,
cujo desenvolvimento não pode ser incorporado ao presente artigo, pois
solidão a única forma de vida compatível com remete, inclusive, a questões que não possuem relação alguma com os
o espírito filosófico. objetivos aqui propostos.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.35, n.2, p. 251-264, maio/ago. 2009 255
gia e melancolia [...]. Ora, a natureza de Assim, chegamos ao estágio em que, após
Schopenhauer envolvia uma dualidade estra- indicado brevemente os motivos pelos quais
nha e extremamente perigosa [...]. Assim, ele Schopenhauer é modelar, podemos apresentar as
sabia que tinha uma parte do seu ser satisfei- teses do texto de Nietzsche. Vamos apresentá-las
ta e cumprida, sem desejo, certa da força que em forma de tópicos para dar o destaque que
possuía — assim, consciente de ser uma reali- merecem e realçar sua visibilidade:
zação vencedora, carregava sua vocação com
grandeza e dignidade. Uma nostalgia impetu- 1. Os seres humanos são naturalmente pre-
osa vivia na outra metade do seu ser. Com- guiçosos;
preendemos isto ao ouvi-lo dizer que ele se 2. A natureza é aristocrática, e a cultura tam-
afastava com um olhar pesaroso de um retra- bém deve sê-la;
to de Rancé, o grande fundador da Ordem 3. A educação deve libertar3;
dos Trapistas, murmurando estas palavras: 4. A cultura possui uma significação metafísica.
‘Eis aí a obra da Graça’. Pois o gênio aspira Assim, deve-se, por meio dela, possibilitar a cri-
cada vez mais a santidade que, a partir do ação do filósofo, do artista e do santo, que são
seu posto de observação, ele viu mais longe e aqueles que justificam a natureza no seu perpé-
mais claro do que qualquer outro homem, lá tuo desperdício de seres. A cultura completa a
onde o conhecimento e o ser se reconciliam, natureza, pois ela vem em auxílio da physis e
lá onde dominam a paz e a negação do que- corrige suas loucuras (Nietzsche, 2004);
rer, e até esta outra margem da qual falam os 5. Cada ser humano é único.
hindus. (p. 158-159)
A tipologia pedagógica do
A despeito dessa tendência, Schopenhauer Unicum: o filósofo, o artista e o
não sucumbiu à negação, atitude pela qual se santo
torna exemplar: afinal, superar a força que o ar-
rastava, a partir de si, para a negação, represen- Se o homem é único — “ein Unicum”
tou sua mais difícil tarefa. Com isso, ele perma- (Nietzsche, 2004) —, se habita a consciência da
neceu filósofo no sentido mais forte do termo, sua singularidade, como explicar que algo como
pois o movimento de negação passou a ocupar o rebanho seja possível, seja a regra, e a singu-
um lugar central em sua filosofia. Quer dizer, a laridade, exceção? Que o homem, a despeito da
negação, como princípio metafísico, tornou-se sua incontornável solidão, encontre no conví-
elemento central do seu pensamento filosófico. E vio com os outros um espaço para a constitui-
tudo isso, pensa Nietzsche, de forma robusta, viril, ção e a formação do seu si próprio, não deve-
sem concessões a uma atitude subjetiva lamuriante ria levá-lo a abdicar de si, se é que alguma vez
ou a um relativismo fraco. tenha chegado a ser possuidor da presença de
Após mostrar como Schopenhauer se si. É inevitável que a imagem do humano os-
defendeu vigorosamente desses três perigos, cile entre uma besta coletiva inconsciente e um
vencendo-os, Nietzsche (2004) afirma: solitário criminoso fugitivo? A pergunta que
preside o texto sobre Schopenhauer e que tam-
Estes três perigos constitutivos que amea-
çam Schopenhauer também nos ameaçam a 3. A tese do caráter libertário da educação vincula o texto Schopenhauer
todos [...]. Para a maioria das pessoas, há como educador ao texto Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de
ensino, em que a formação é caracterizada como aquilo que possibilita ao
aí algo de insuportável, porque, como já homem tomar sobre si o seu próprio destino, como o que cria ao homem
disse, elas são preguiçosas e porque a esta o desejo pela insubmissão. Além disso, o texto sobre Schopenhauer tam-
bém pode ser visto como uma primeira aparição, embora tímida e apenas
unicidade se liga toda uma cadeia de tor- insinuada, do tema do espírito livre, figura central nas reflexões de Nietzsche
mentos e fardos. (p. 159) a partir de Humano, demasiado humano. A esse respeito, ver Weber, 2008.

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bém se insinua nas conferências de Basileia é: concretizar, mas que nunca se efetiva. Todavia,
Por que é tão difícil ao homem manter-se na essa atitude de cuidadosa reserva, se não de
presença de si sem se evadir com a ajuda de desconfiança, frente ao poder de emancipação
algum narcótico para o corpo ou para a alma? da razão por meio do processo formativo do
Singularidade, autenticidade e honestidade são homem — independente da forma como é con-
formas e modos de ser que dificilmente anda- cebido —, não é algo novo. Ela pode ser sur-
rão juntos. Por quê? Schopenhauer como edu- preendida num dos textos mais esclarecedores
cador pretende responder a essas perguntas. sobre o significado do conhecimento e da
educação para os iluministas, que é A refutação
Ao ser perguntado que natureza encontrou de Helvetius, escrito de Denis Diderot (1994).
nos homens em todos os lugares, o viajante Segundo esse autor, a teoria de Helvetius pode
que viu muitos países e povos e vários con- ser resumida na seguinte frase: “E educação
tinentes respondeu: eles têm uma propensão tudo faz” (p. 841), ao que ele objeta: “A edu-
à preguiça. Alguns acharão que ele teria res- cação faz muito” (p. 841), mas não tudo. Quer
pondido com mais justeza e razão: todos dizer, apesar da existência de certo otimismo
são timoratos. Eles se escondem atrás de contido na crença iluminista acerca dos pode-
costumes e opiniões. No fundo, todo homem res do conhecimento e da educação — otimis-
sabe muito bem que não se vive no mundo mo que faz Helvetius (1989) afirmar que a
senão uma vez, na condição de um único educação tudo faz; que leva Locke (1986) a
[als ein Unicum], e que nenhum acaso, por dizer que “[...] é possível afirmar que de todos
mais estranho que seja, combinará pela se- os homens que encontramos nove décimos são
gunda vez uma multiplicidade tão diversa o que são, bons ou maus, devido a educação
neste todo único que se é [Einerlei]: ele o que receberam” (p. 31); e que faz Kant (1995)
sabe, mas esconde isso como se tivesse declarar que “[...] é perfeitamente possível que
peso de consciência — por quê? Por medo um público a si mesmo se esclareça. Mais ain-
do próximo que exige esta convenção e da, é quase inevitável, se para tal lhe for dada
nela se oculta. Mas o que obriga o indiví- liberdade” (p. 12) —, também é possível identi-
duo a temer seu vizinho, a pensar e agir ficar nos autores iluministas uma percepção clara
como animal de rebanho e a não se alegrar a respeito dos limites e das dificuldades do es-
consigo próprio? Em alguns muito raros, clarecimento. Diderot sabia quão poderosa era a
talvez o pudor. Mas na maioria dos indivídu- ignorância, quão forte o obscurantismo. E Kant
os, é a indolência, o comodismo, em suma, (1995), na mesma resposta a pergunta: o que é
esta propensão à preguiça da qual falava o o esclarecimento?, após ter declarado que era
viajante. Ele tem razão: os homens são ain- quase inevitável que um povo se esclarecesse,
da mais preguiçosos do que timoratos e te- desde que lhe fosse concedida a liberdade, afir-
mem antes de mais nada os aborrecimentos ma: “Por conseguinte, um público só muito len-
que lhes seriam impostos por uma honesti- tamente pode chegar à ilustração” (p. 13).
dade e uma nudez absolutas. (p. 138) Se é assim, a que se referiria a suposta
ingenuidade iluminista, já que os próprios
Poucos são os textos em que fica ex- iluministas foram os primeiros a perceber as difi-
presso, de maneira tão clara e contundente, o culdades para o esclarecimento? A grande diferen-
anti-iluminismo de Nietzsche. “O homem é pre- ça entre o iluminismo moderno e Nietzsche resi-
guiçoso” — mais tarde ele dirá: “O homem é de na concepção de natureza humana: para o
cruel”. Frente a essa constatação, todo o pro- filósofo, o homem é preguiçoso. Isso não quer
jeto iluminista parecerá uma ingênua carta de dizer que o homem não seja laborioso, industri-
boas intenções cuja vigência sempre está por se oso. Quem o negaria? Aliás, Hölderlin, autor de

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.35, n.2, p. 251-264, maio/ago. 2009 257
grande importância para Nietzsche, numa car- pontes, cria engenhosas máquinas a ponto de
ta dirigida ao irmão Karl, datada de 4 de junho a tecnologia entrar em confronto com sua na-
de 1799, torna célebre a imagem segundo a tureza ou em auxiliar no seu aperfeiçoamento,
qual o labor e a transformação das condições em suma, se o homem é laborioso em tudo o
da vida é uma pulsão humana fundamental. Diz mais, quando, porém, o assunto é empenhar-se
Hölderlin (1994): em responder a pergunta “Quem sou?”, ele
mostra a lei incontornável do seu ser: a pregui-
Por que eles não vivem como o selvagem na ça. Portanto, afirmar que o início do texto sobre
floresta, na suficiência, no limite do solo e da Schopenhauer possui uma tendência anti-
alimentação que se encontra imediatamente iluminista implica em apontar para uma matriz
ao seu redor, numa coesão com a natureza tal teórica em que o aperfeiçoamento intelectual e
como a criança no peito da mãe? Assim não moral parece como algo, se não impossível, ao
haveria desassossego, fadiga, lamento, noites menos improvável.
de insônia e somente pouca doença e pouca Como atestar a razoabilidade desse argu-
discórdia. Isso, no entanto, seria tão antina- mento? Parece ser possível fazê-lo por meio da
tural para o homem como é antinatural para apresentação de duas séries de argumentos aces-
o animal os artifícios que o homem ensina. sórios que afirmam: “a verdade possui uma fun-
Promover a vida, precipitar e aprimorar o ção social, não epistemológica, ontológica, lógi-
movimento de plenificação da natureza, ide- ca ou moral” e “os homens são covardes”. Sobre
alizar o que encontra diante de si, eis a a verdade e a mentira no sentido extramoral,
pulsão que mais caracteriza e distingue o datado de 1873, é um escrito em que tais teses
homem e de onde surgem todas as suas artes são apresentadas.
e ocupações, todos os seus erros e sofrimen- De onde provém a crença na verdade?
tos. Por que existem jardins e campos? Por- Por que preferimos a verdade à mentira, se é
que o homem queria algo melhor do que en- que a preferimos? Para Nietzsche (1988):
controu. Por que existe comércio, navegação,
cidades, estados, em todo o seu turbilhão, A verdade aparece como uma necessidade
em tudo o que possuem de bom e de ruim? social: é depois aplicada a tudo por uma
Porque o homem queria algo melhor do que metástase, mesmo quando não é necessária
encontrou. Por que existe ciência, arte e reli- [...]. Com a sociedade nasce a necessidade
gião? Porque o homem queria algo melhor da veracidade, senão o homem vive em
do que encontrou. (p. 127-128) eternos véus. A fundação de Estados susci-
ta a veracidade. (p. 473)
Se o homem quer algo melhor do que
aquilo que ele encontra, como, então, susten- A vida em sociedade exige a uniformiza-
tar a tese de Schopenhauer, endossada por ção dos comportamentos e dos valores. Esse
Nietzsche, da preguiça humana congênita fren- procedimento de uniformização social — susten-
te ao incansável engenho humano? tado na ideia de justiça, princípio norteador do
Ocorre que, segundo Nietzsche, a enge- direito — segue um procedimento análogo ao da
nhosidade é sintoma e resultado da evasão do formação da linguagem, a fixação arbitrária do
homem de si. Por isso, o labor humano não ates- não idêntico (Nietzsche, 1997). A linguagem,
ta a busca humana pelo autoconhecimento, pela construída a partir da relação dos homens com
elucidação do que significa existir nesse momen- as coisas, é totalmente metafórica:
to preciso do tempo e do espaço, das implicações
em possuir uma língua específica e ter uma he- Acreditamos saber algo das coisas mesmas,
rança cultural determinada. Se o homem constrói se falamos de árvores, cores, neve e flores,

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e, no entanto, não possuímos nada mais do um sentido restrito semelhante que o ho-
que metáforas das coisas, que de nenhum mem quer somente a verdade: deseja as
modo correspondem às entidades de ori- consequências da verdade que são agradá-
gem. (p. 219-220) veis e conservam a vida: diante do conhe-
cimento puro e sem consequências ele é
Tal insuficiência, além de atestar a impo- indiferente, diante das verdades talvez per-
tência de nosso intelecto, por outro lado, atesta niciosas e destrutivas ele tem disposição
a indiferença das coisas em relação ao homem. até mesmo hostil. (p. 218)
Nesse abismo intransponível entre as coisas, o
mundo e o homem (este como conhecedor do A determinação do grau de significação
mundo — “sujeito do conhecimento” — e na do conhecimento não está relacionada com a
fissura irremediável aberta entre homem e verdade em si, e sim com o prejuízo ou o ganho
mundo), Nietzsche inseriu a sua reflexão sobre dela decorrentes. Essa é a razão pela qual o
a linguagem — esta como metáfora de entida- tema da covardia aparece associado à pregui-
des que não conhecemos — e sobre o homem ça. Afinal, além da disposição natural para
em estado de sociedade. colocar-se ao abrigo das exigências que um
Segundo ele, em consonância com empenho consigo próprio criaria, o homem, por
Schopenhauer, por necessidade e tédio, o ho- vaidade ou por simples necessidade de sobre-
mem deseja viver em sociedade, em rebanho. vivência, dificilmente pode prescindir do con-
Para tanto, acordou um pacto em que se uti- vívio com o outro. É por essa razão que tememos
lizava de signos resultantes de um processo o vizinho, como sugerido por Nietzsche no início
arbitrário de nomeação. Se a base de sustenta- do texto sobre Schopenhauer. Indispor-se com o
ção do pacto é esse conjunto de códigos arbi- próximo, com a comunidade, poderia implicar na
trariamente “arranjados”, designações como sua ruína social. Assim, tanto a força da coerção
Justiça, Verdade e Bem não passam de palavras social sobre o indivíduo quanto a sua covardia, as-
que repousam no vazio, visto que não há sen- sociados à sua preguiça, são fortes condicionantes,
tido originário. O seu valor é criado obedecen- criadores de inautenticidade, também chamada por
do às “pressões” do instante. No momento de Nietzsche de falta de estilo. Robert Musil (1989),
instituição da vida social, tornou-se necessário em seu livro O homem sem qualidades, descreve a
acordar o sentido de bem e de justiça, pois a mescla de estilos desta maneira:
sua manutenção dependia disso. Ou seja, aquilo
que é denominado “verdade” é apenas o resul- Para ser exato, as abóbadas de sustentação
tado de um processo arbitrário, decorrente das eram do século XVII, o parque e o andar su-
necessidades da manutenção da vida social. perior pareciam do século XVIII, as fachadas
Afinal, por que desejamos a verdade? E tinham sido renovadas e um pouco prejudi-
quando a desejamos, o que nela desejamos? Há um cadas no século XIX; portanto o todo estava
condicionamento pelo qual o homem preferiria a um tanto confuso, como em retratos foto-
verdade à mentira, o que o tornaria um ser veraz por grafados uns por cima dos outros; mas aca-
natureza? De acordo com Nietzsche (1997), ba-se parando ali, infalivelmente, e dizendo:
Ah! E quando aquela coisa alva, graciosa e
[...] os homens, nisso, não procuram tanto bela estava de janelas abertas, avistavam-se
evitar serem enganados, quanto serem pre- as paredes de livros, nobres e silenciosas, da
judicados pelo engano: o que odeiam, casa de um homem de cultura. (p. 11)
mesmo nesse nível, no fundo não é a ilu-
são, mas as consequências nocivas, hostis O homem inautêntico, como Nietzsche o
de certas espécies de ilusões. É também em concebe, expressa uma situação de carência

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mais crônica do que aquele relatado por Musil, somos, as nossas amizades e os nossos
pois não possui sequer a força para aglomerar ódios, o nosso olhar e o estreitar da nossa
em torno de si ou em si a distinção que esti- mão, a nossa memória e o nosso esqueci-
los alheios poderiam conferir. Que não seja mento, os nosso livros e os traços da nossa
peculiar o estilo da construção relatado por pena? (Nietzsche, 2004, p. 141)
Musil (1989) não impede o suspiro de admira-
ção dos que passam. Por quê? Porque os gran- Obscura, velada, penosa, perigosa e des-
des estilos dos séculos XVII e XVIII estavam lá necessária é a tarefa do autoconhecimento tal
representados. Ocorre que, diz ele, o século XIX qual a compreende a tradição. Obscura e vela-
é aquele que renova, mas que também prejudica da, pois não se encontra jamais o substrato úl-
a construção. Quer dizer, o século XIX, além de não timo, o elemento final, no qual se identificaria,
possuir estilo próprio, também não possui o poder de uma vez por todas, a essência humana; pe-
de bem aglomerar o que já existe. Em Nietzsche, nosa e perigosa, pois as descidas às profundezas
Schopenhauer aparecerá como aquele que, em levam à criação de fantasmas e virtualidades que
virtude da força da sua personalidade e do seu acabam por tomar forma e se apoderam do
estilo, seja da escrita, seja da vida, representará um corpo; e desnecessária, pois qual a razão para
banho frio, revigorante, à confusão e à fraqueza do buscar no interior obscuro e velado aquilo que
estilo jornalístico do seu tempo. está na nossa frente? Autoconhecimento será, a
No entanto, apesar disso tudo, permane- partir de então, tarefa da águia, não mais da
ce em Nietzsche um iluminismo mitigado. Ele toupeira. A exterioridade como espaço para a
possui uma relação de proximidade, mas também tarefa do autoconhecimento cria não apenas
de crítica, com o tema do autoconhecimento, uma nova geografia, mas uma nova relação do
matriz de tantos humanismos e práticas religio- homem com o espaço, o mundo e o próprio
sas de interiorização e de penitência. Teria corpo. O nome que Nietzsche dará a essa inver-
Nietzsche se descuidado, dado um passo em são será imanência.
falso, permanecendo aquém inclusive do ilumi- Se a pressão exercida pelo juízo do pró-
nismo moderno que ele tanto criticou? A não ser ximo afasta o homem da busca pelo sentido do
que autoconhecimento já não tenha mais nada seu ser, dada sua covardia, que no texto sobre
a ver com as práticas seculares de auscultação Schopenhauer é visto como algo negativo, a
da interioridade. Pergunta-se ele: partir de Humano, demasiado humano, a aná-
lise detalhada desse procedimento, porém, em
Mas como nos encontrar a nós mesmos? um novo registro, será uma importante aliada
Como o homem pode se conhecer? Trata- na tarefa de crítica da metafísica e da moral,
se de algo obscuro e velado; e se a lebre pois será por meio da descoberta da força
tem sete peles, o homem pode bem se des- vinculante da moralidade dos costumes que ele
pojar setenta vezes das sete peles, mas nem mostrará a ilusão dos valores absolutos como a
assim poderia dizer: “Ah! Por fim, eis o que verdade e o bem.
tu és verdadeiramente, não há mais invólu- Se na alteração do espaço de gestação
cro”. É também uma empresa penosa e pe- das práticas de autoconhecimento ocorre uma
rigosa cavar assim em si mesmo e descer à alteração decisiva — afinal, não apenas nosso
força, pelo caminho mais curto, aos poços interior, mas tudo dá testemunho do nosso ser
do próprio ser. Com que facilidade, então, —, Schopenhauer representará para Nietzsche
ele se arrisca a se ferir, tão gravemente que uma transformação fundamental na sua teoria
nenhum médico poderia curá-lo. E, além da formação, a saber: a formação da humani-
disso, por que seria isto necessário, se tudo dade, do homem, dará lugar gradativamente ao
carrega consigo o testemunho daquilo que tema da formação de si. Isso não quer dizer

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que Nietzsche se transforme em um mero se-ia especializada e obtusa para todas as outras
cultuador do individualismo e do egoísmo, e dimensões; se, porém, concedesse a mesma im-
sim que a tônica das suas reflexões recairá portância a cada um dos elementos, criaria um ser
sobre o caso particular. A regra que pode ser superficial. Frente a essas duas tendências da
extraída dessa transformação parece ser: os educação alemã do seu tempo, Nietsche (2004)
experimentos formativos, educativos e morais descreve a influência que teria o educador filósofo
que queres fazer com os outros, faça-os con- que ele desejava encontrar.
sigo próprio, em si próprio.
O que deve ser a educação a partir des- Este educador filósofo com quem eu so-
sa transformação? Segundo Nietzsche (2004), a nhava poderia, não se deve duvidar, não
educação deve libertar. somente descobrir a força central, mas tam-
bém impedir que ela agisse de maneira
Ninguém pode construir no teu lugar a destrutiva com relação às outras forças; eu
ponte que te seria preciso tu mesmo trans- imaginava que sua tarefa educativa consis-
por no fluxo da vida — ninguém, exceto tu. tiria principalmente em transformar todo
Certamente, existem as veredas e as pontes homem num sistema solar e planetário que
e os semideuses inumeráveis que se oferece- me revelasse a vida, e em descobrir a lei
rão para te levar para o outro lado do rio, da sua mecânica superior. (p. 143)
mas somente na medida em que te vendes-
ses inteiramente: tu te colocarias como pe- Conjuntamente ao equacionamento das
nhor e te perderias. Há no mundo um único tendências várias e dos pontos fortes de cada ser,
caminho sobre o qual ninguém, exceto tu, o homem educado pelo exemplo de Schopenhauer
poderia trilhar. (p. 140-141) seria um ser forte, duro, autêntico. Seria também,
por essa característica, um homem raro, e sua ra-
Apesar de possuírem muitos pontos em ridade não decorre apenas da dificuldade em se
comum, como se revelam agora distintas as manter à altura das exigências que ele impõe. Tem
concepções de formação e educação presentes a ver, sobretudo, com o fato de que os tipos que
nas conferências da Basileia e no texto sobre emergem do pensamento schopenhaueriano, e dos
Schopenhauer, não se pode esquecer a diferen- quais Nietzsche se apossa, são tipos ideais, partes
ça de contexto: enquanto Nietzsche se refere de uma metafísica da natureza e da cultura. Esses
às instituições nas conferências, no texto sobre tipos são: o filósofo, o artista e o santo.
Schopenhauer, ele se refere ao grande crítico Além de todas as razões já apresentadas,
da burocracia institucional. Apesar disso, nem por qual razão Nietzsche (2004) afirma que
mesmo essa diferença de contexto pode diminuir Schopenhauer foi “[...] para nós homens profa-
o abismo entre as duas concepções, e não pode- nos, homens seculares no sentido próprio do
ria ser de outra forma. Um texto sobre o tema termo, o primeiro mestre filosófico” (p. 171)?
Schopenhauer como educador deveria eleger a Primeiramente, porque ele é o primeiro filósofo
libertação e a autorresponsabilização pelos própri- ateu confesso na Alemanha; em segundo lugar,
os atos como princípios da educação, o que o porque ele assume, num mundo sem Deus e sem
texto das conferências da Basileia somente podia a providência, o sofrimento voluntário da vera-
aceitar parcialmente. A libertação é um dos requi- cidade; e, por fim, porque ele desenvolve uma
sitos para a formação da personalidade autêntica. teoria que compreende metafisicamente a natu-
Qual deveria ser a tarefa da educação: reza e a cultura, desde os seres mais ínfimos até
descobrir e cultivar o ponto forte de cada um ou os superiores, como uma escada não em direção
relacionar harmonicamente todas as forças entre ao aperfeiçoamento moral, mas como uma esca-
si? Se desenvolvesse apenas o ponto forte, tornar- da negativa de privação e negação da vontade.

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Entretanto, no texto sobre Schopenhauer, afetar a todos, e mesmo estas poucas pessoas
Nietzsche (2004) não se apropria do aspecto ne- não são afetadas pela força que o filósofo e
gativo desse pensamento, da parte dessa filosofia o artista deram a seu projétil [...]. A natureza
que afirma que a vontade é o princípio metafísico é má economista, suas despesas são bem
do mundo e que, dada sua negatividade plena, sua maiores do que as receitas que ela consegue.
falta total de objetivo, o mais sensato a fazer se- (Nietzsche, 2004, p. 201-202)
ria negá-la. Ele opta por utilizar a teoria do gênio
— em que falará sobre o filósofo, o artista e o Em termos schopenhauerianos, poder-
santo —, pois lhe será possível, então, não apenas se-ia dizer que o filósofo, o artista e o santo
falar da negação da vontade, mas também explo- são aqueles em que a Vontade já não impera de
rar a metafísica da natureza e da cultura. Se forma plena. Eles são os que, como já dito
Nietzsche focasse sua atenção exclusivamente na anteriormente, vêm em auxílio da physis e cor-
teoria schopenhaueriana da vontade, não poderia rigem sua loucura e seu desperdício (Nietzsche,
referir-se ao “novo ciclo de deveres” (p. 175) que 2004). Embora se insinue a negatividade como
devem ser extraídos da teoria do gênio. substrato dessa teoria, o que importa a
Essa teoria afirma que o filósofo, o artis- Nietzsche não é chamar a atenção para a
ta e o santo são os homens verdadeiros, pois negatividade, mas realçar o aspecto extraordi-
são aqueles que transcenderam a animalidade nário desses três tipos, reforçando aquilo que
da forma mais soberana possível e que apare- neles é exemplar: a força necessária para sua
cem como as figuras por meio das quais a vitória sobre a natureza, sobre a vontade, que
natureza se justifica frente a si mesma. representará não uma negação pura e simples
da physis, mas sim uma transfiguração, uma
A natureza se quer sempre de utilidade co- justificação metafísica da natureza, também
mum, mas ela não pretende encontrar para exemplar para a cultura. Para Schopenhauer, por
esse fim os meios e os procedimentos melho- meio do conhecimento (filósofo), da contem-
res e mais capazes: essa é a sua grande dor e plação estética (artista) e da quietude ascética
essa é a razão porque ela é melancólica. Que, (santo), é possível chegar à suspensão da ba-
ao engendrar o filósofo e o artista, ela quises- nalidade do mundo, das ocupações ordinárias.
se tornar a existência inteligível e significativa Já para Nietzsche, desse movimento de suspen-
para os homens, isto é certo, pois ela aspira a são, é possível extrair um aspecto afirmativo e
sua própria redenção; mas quanta incerteza, ativo que é a impugnação das modas culturais
quanta fraqueza e quanta insignificância no e educacionais, transformando essa interdição
efeito que ela alcança, o mais das vezes, com em afirmação. A transformação do sentido da
os filósofos e os artistas! Como é raro que teoria schopenhaueriana possui estreita relação
ela produza desde então um efeito apenas com o movimento por meio do qual Nietzsche
que fosse! [...] o comportamento da natureza recupera, do texto de Schopenhauer, os elemen-
tem toda uma aparência de desperdício, po- tos que lhe permitem construir sua teoria dos
rém, não o desperdício de uma exuberância tipos formativos e pedagógicos afirmativos. O
criminosa, mas o da inexperiência [...]. Ela se gênio filosófico, o artista e o santo de Nietzsche
comporta com tanta prodigalidade no domí- não possuem a mesma finalidade desses tipos em
nio da cultura quanto nas plantas e sementes Schopenhauer. Para aquele, interessa realçar o
[...]. O artista e o filósofo testemunham contra que há neles de extraordinário, o que neles ates-
o sentido prático da natureza na escolha dos ta a força imperiosa de vitória sobre o banal,
seus meios ainda que estes sejam a mais ex- sobre a moda e a padronização, ou seja, o que
celente prova da sabedoria dos seus fins. Eles neles há de afirmativo. Ao seu juízo nesse pe-
só afetam poucas pessoas, quando deveriam ríodo, Schopenhauer foi esse tipo afirmativo. Ele

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era o único que podia libertar4 o juízo, liberan- terizada como meramente “conceitual”, “teóri-
do o homem da submissão à natureza e à vul- ca”, não é necessariamente um inimigo a ser
garidade dos modismos, fossem elas quais fos- combatido. Se assim for, ainda resta mostrar
sem, inclusive os filosóficos. como, no caso do texto em questão, da teoria
se pode passar não à prática, e sim, para uti-
Conclusão lizar a terminologia nietzschiana, à vivência.
Segundo Nietzsche, a filosofia expressa
O que poderíamos esperar de um filóso- vivências e, portanto, desde o início, ela é
fo quando trata da educação? No caso de afecção, não havendo mais defesa para a sus-
Nietzsche, nossas expectativas seriam frustradas tentação de uma separação abrupta entre teo-
caso esperássemos regulamentações para os es- ria e prática. Nesse particular, Schopenhauer
tabelecimentos de ensino. Tanto mais porque, revela a Nietzsche um caso singular: embora
em Schopenhauer como educador, Nietzsche tenha produzido uma filosofia com uma termi-
toma “o caso Schopenhauer” como exemplo nologia platônica e kantiana, altamente abstra-
revelador da má consciência da cultura alemã ta, ele foi também um dos grandes prosadores
— em geral, mas também a filosófica — do seu da língua alemã. Ele educa, pois cria a consci-
tempo: o silêncio em torno de Schopenhauer ência para a necessidade do cuidado com a
revela a Nietzsche a fraqueza dos alemães em língua, mas o faz a partir da reflexão sobre as
assumir o desafio schopenhaueriano de inter- vivências humanas, não por meio da análise
pretar e viver a vida a partir do prisma da Von- conceitual. Assim, ensina-nos a ler melhor, a
tade, da Pulsão. Portanto, nesse texto, o autor escrever melhor, a pensar melhor, de uma forma
já não se preocupa mais em pensar os estabe- simples, genuína. Ele cria a necessidade de topar
lecimentos de ensino, tarefa já cumprida nas com o desafio de pensar a particularidade do
conferências sobre os estabelecimentos de en- estilo de cada um, seja na escrita, no pensamen-
sino em 1872. to ou na vida, e isso é altamente educativo, ao
Como, então, sustentar as reflexões de menos para quem abrigar em si tal desafio.
Nietzsche sobre a educação neste texto para Nietzsche, à sua maneira, reinstaura um dos
quem se interessa por educação se elas não modos próprios de ser dos filósofos gregos, que
oferecem respostas práticas pelas quais tanto era o de não admitir hiato entre vida e pensamen-
almejam os interessados, justamente para resol- to. Ser educado pela filosofia passou a significar:
ver os problemas dessa área? ser educado para e pela vida. O pensamento não
Na Pedagogia, não há prática efetiva é inimigo da vida, é sim uma das suas manifesta-
sem uma concepção geral sobre a prática que, ções. Com isso, ele inova em filosofia, criando uma
em última instância, se revela como teoria do nova maneira de escrever e pensar, que ele próprio
agir pedagógico. A teoria pode preceder ou define como “uma arte da suspeita”. Suspeitar é
suceder a prática: ora sendo um princípio que educativo já que exige atenção e criatividade.
se segue e se tenta aplicar ao quotidiano pe- Entretanto, o que mais se destaca no
dagógico, ora sendo um conjunto de princípi- texto de Nietzsche sobre Schopenhauer, e que
os aos quais se chega pela análise. Embora não
seja indiferente a ordem a que se faz referên- 4. A partir de Humano, demasiado humano, o Espírito livre, como figura
conceitual ou categoria formativa e pedagógica, exercerá uma explícita
cia — pois ela implicará em consequências po- crítica ao pessimismo schopenhaueriano, implicando no abandono da filo-
líticas e ideológicas —, importa aqui apenas sofia e do homem Schopenhauer. A crítica à metafísica e à moral, marca
distintiva do pensamento de Nietzsche a partir de então, implicará na crí-
realçar que a teoria sempre está presente, ja- tica da metafísica schopenhaueriana dos tipos superiores (o filósofo, o
mais sendo um corpo estranho. Portanto, a artista e o santo). O Espírito livre zombará do misticismo daquela metafísica
da natureza, mostrando a fraqueza daquelas tipologias. O banho frio e
teoria, por si só, não é um obstáculo à educa- revigorante já não será mais dado pelo contato com Schopenhauer, mas
ção e à pedagogia, e a filosofia, que é carac- sim pela proximidade com a ciência, a psicologia e a história.

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por isso figura como argumento conclusivo neo, além de outros, é claro –, parece ser o
deste texto, é a exigência constante e imperi- desafio mais alto que este texto impõe. Mais
osa da autossuperação como uma das máximas alto e, por essa razão, mais difícil, interminável.
fundamentais para a formação do homem. Não Entretanto, quem tem consciência do que é a
estar contente consigo próprio como se é, sem vida não se espantará, pois já sabe que a for-
condescender à preguiça ou ao narcisismo — mação e a educação são uma atividade inter-
modos próprios de ser do homem contemporâ- minável e também intransferível.

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Recebido em 20.05.08
Aprovado em 17.03.09

José Fernandes Weber, doutor pela Faculdade de Educação da UNICAMP, é professor titular (Adjunto A) do Departamento
de Filosofia e do curso de Mestrado em Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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