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Volume Especial - Bem-estar Animal ISSN 1517-6770.

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Antropomorfismo: definições, histórico e impacto em cães de


companhia
Stella Arnt Rosa¹*, Rita Leal Paixão² & Guilherme Marques Soares³

¹Programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. *E-mail
para correspondência: stellaarnt@gmail.com.
²Departamento de Fisiologia e Farmacologia, Instituto Biomédico, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.
E-mail: rita_paixao@uol.com.br.
³Curso de Medicina Veterinária, Universidade Severino Sombra, Vassouras, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: gsoaresvet@gmail.com.

Abstract. Anthropomorphism: definitions, history and effect on pet-dogs. Anthropomorphism, the attribution of
human mental qualities to nonhuman beigns, is very common when people relate to animals, objects and divine entities.
Anthropomorphism is an almost universal trait among companion animal caretakers, which highlights it´s importance
regarding animal behavior and welfare. Despite the relevance and wide rage of research about this topic, to this point
researchers were not able to reach an agreement about it´s impact on the pet-human relationship, and it´s influence
on the development of behavior problems in dogs. This paper reviews the current definitions, the anthropomorphism
concept’s development, and different points of view about it´s effects on dog behavior, welfare and relationship with
tutors.

Keywords: animal welfare, canine behavior, dog, human-animal relationship.

Resumo. O antropomorfismo, a atribuição de qualidades mentais humanas a seres não humanos, é um fenômeno
típico das relações que as pessoas desenvolvem com animais, objetos e divindades. O antropomorfismo possui grande
importância para seres humanos e animais de estimação, devido a alta frequência com que ocorre entre tutores, e
por seu impacto em potencial no comportamento e bem-estar dos animais de companhia. Apesar da importância do
antropomorfismo e da grande quantidade de pesquisas relacionadas ao tema, não existe um consenso a respeito do seu
impacto sobre o relacionamento entre os seres humanos e animais de estimação, e sua influência no desenvolvimento
de problemas comportamentais em cães. Este trabalho é uma revisão de literatura sobre antropomorfismo, abordando
definições utilizadas atualmente, o histórico do surgimento do termo, e os argumentos que defendem impactos positivos
e negativos do antropomorfismo no comportamento e bem-estar de cães de companhia e seu relacionamento com os
tutores.

Palavras-chave: bem-estar animal, cão, comportamento animal, humanização, interação humano-animal.

Introdução lares com cães de estimação, com o passar dos


anos. Historicamente, o cão era tido como um
O cão doméstico conquistou um papel animal de trabalho ou um bem material. Hoje,
importante no contexto familiar atual, o que cada vez mais é visto como membro da família, e
pode ser constatado pelo número crescente de vem adquirindo papel de destaque na rede de

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relacionamentos humanos (Albert & Bulcroft, antropomorfismo (Burghardt, 1985; Voith et


1988; Greenebaum, 2004; Soares, 2010; Voith al., 1992; Bekoff, 2000; Serpell, 2002; Horowitz,
et al., 1992), sendo um possível fator para a 2009; Betterfield et al., 2012). Enquanto
melhoria na qualidade de vida das pessoas. isso, pesquisadores têm tentado analisar uma
Além dos benefícios psicológicos, conviver com conexão entre antropomorfismo e problemas
animais de estimação também tem influência para a relação entre humanos e animais de
positiva sobre a saúde, melhorando parâmetros estimação, ou para o comportamento e bem-
fisiológicos como a pressão arterial e frequência estar destes, porém até o presente momento
cardíaca (Duvall & Pychyl, 2008). nenhum consenso foi estabelecido (O’farrell,
Antropomorfismo é a atribuição de 1997; Voith et al., 1992). Apesar da grande
características ou comportamentos humanos variedade de trabalhos, nota-se que não se pode
a animais não-humanos, deuses ou objetos concluir se o antropomorfismo deve ou não ser
(Soanes & Stevenson, 2005). A prática do desencorajado como medida preventiva ou de
antropomorfismo direcionado a animais não tratamento para problemas de comportamento
humanos é muito comum entre tutores de cães em cães, ou em seu relacionamento com seus
e vem se tornado mais frequente nos últimos tutores.
anos (Duvall & Pychyl, 2008). Tradicionalmente, Em virtude da sua alta frequência
profissionais envolvidos com treinamento e e a possibilidade de estar envolvido
comportamento de cães afirmavam que o no desenvolvimento de problemas de
antropomorfismo poderia ter consequências comportamento, é fundamental conhecer
negativas, levando ao desenvolvimento as características do antropomorfismo, e
de comportamentos problemáticos como
principalmente suas consequências positivas e
agressividade, desobediência, etc (Voith et
negativas para o bem-estar tanto de humanos
al., 1992). O antropomorfismo passou então a
quanto de animais de companhia. Conhecendo
ser censurado, como forma de prevenção ou
melhor este fenômeno, poderemos elaborar
tratamento de problemas comportamentais,
estratégias para minimizar problemas
entretanto, evidências científicas comprovando
relacionados ao mesmo, contribuindo para uma
a relação entre antropomorfismo e problemas
melhor qualidade de vida tanto do animal de
comportamentais são escassas (Voith et al.,
estimação quanto do tutor.
1992).
Definição de antropomorfismo
A hipótese do antropomorfismo
como causa de problemas comportamentais Antropomorfismo é a atribuição de
em cães tem sido questionada, e alguns características ou comportamentos humanos a
autores destacam aspectos positivos do animais não humanos, deuses ou objetos (Soanes

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& Stevenson, 2005). Este fenômeno é universal açúcares, sal, gordura animal ou preservativos
nas relações que o ser humano desenvolve com artificiais. Ainda, comprar artigos para o cão
outros animais, objetos, eventos naturais e seria uma forma de reforçar seu status como
personagens divinos (Duvall & Pychyl, 2008). membro da família. Canais de televisão voltados
para animais não humanos, levar o animal ao
Na literatura encontram-se vários
psicólogo canino, levar o cão para passar o dia
exemplos definidos como antropomorfismo.
em creches caninas, e passear com o cão em
Segundo serpell (2002), dar alimentos e
carrinhos de bebê, contratar um passeador para
bebidas culturalmente considerados específicos
que o cão não fique sozinho quando a família
para humanos ao animal (por exemplo: bolo,
viaja, incluir cães em testamentos, comprar
refrigerante), dar nomes humanos, comemorar
roupas para o cão, e estabelecimentos exclusivos
aniversários, levar a médicos especialistas
para cães foram considerados exemplos de
quando ficam doentes, vivenciar o luto dos
antropomorfismo (Greenebaum, 2004).
mesmos e enterrar em cemitérios para pets
com rituais semelhantes a humanos, vestir Voith e colaboladores (1992)
os pets com roupas, coloca-los em creches utilizaram um questionário para detectar o
durante o dia, custear transplantes renais e antropomorfismo. Nesse questionário, foram
outros procedimentos veterinários avançados consideradas atitudes para mimar o cão: dormir
e caros, considerar pets semelhantes a filhos, na cama com um membro da família, ser
e contar mais com o pet para afeição do que permitido ao cão subir na mobília, dar comida da
seus filhos e cônjuge, são todos exemplos de mesa ao cão durante uma refeição, compartilhar
antropomorfismo. petiscos com o cão (sem considerar a refeição
principal), levar o cão ao realizar afazeres diários,
No trabalho sobre antropomorfismo
levar o cão ao sair de casa por uma noite ou mais;
de greenebaum (2004), estudou-se um
e foram consideradas atitudes antropomórficas:
estabelecimento definido como uma confeitaria
comemorar o aniversário do cão, falar com o cão
dirigida exclusivamente para cães, que
sobre problemas e eventos importantes.
promove um evento chamado Yappy hour. Os
frequentadores deste estabelecimento relataram Topál e colaboladores (1997) também
perceber os cães como filhos, e eles mesmos, empregaram um questionário para detectar
como pais. A autora destacou a humanização antropomorfismo. As perguntas adotadas para
dos pets através da observação da ascensão do identificar antropomorfismos foram: permitir ou
pet ao status de membro da família ou filho, de não que o cão suba na cama, a forma e frequência
uma confeitaria que produz guloseimas tão boas de brincadeiras com o cão, a frequência e motivo
como se fossem para humanos, só que para para levar o cão para passear, a frequência com
cães, com ingredientes naturais e integrais, sem que conversa com o cão e os assuntos abordados,

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a frequência da compra de presentes para o cão, da casa.


a comemoração do aniversário do cão, o que a
Histórico do conceito de antropomorfismo
pessoa acha do cão, o quanto o cão é obediente,
o quanto o cão é esperto na opinião do tutor, Em 1871, Darwin publicou o texto “A
com que facilidade o tutor ensina comandos ao descendência do homem e seleção em relação
cão, quais tipos de habilidades cognitivas o tutor ao sexo”, no qual apontou diversas semelhanças
acredita que o cão tem, o quanto o cão entende a entre as mentes de seres humanos e animais
linguagem humana na opinião do tutor, o quanto não humanos. Para ele, humanos e os outros
o cão se identifica com as emoções do tutor, a animais compartilham várias emoções, intuições
comparação da capacidade mental do cão com e instintos, e a diferença está no grau e não no
uma criança de qual idade na opinião do tutor. tipo das habilidades mentais. Nas principais
Enquanto isso, Hecht e colaboladores (2012) e obras de Darwin, inclusive em seu trabalho sobre
Horowitz (2009), consideram antropomorfismo a teoria da evolução, é frequente a atribuição de
a atribuição de culpa a cães surpreendidos qualidades mentais humanas aos animais não
realizando uma ação proibida. humanos (Darwin, 1859, 1871, 1872).

O trabalho de Albert & Bulcroft (1988) Antes da divulgação das ideias de Darwin,
ressaltou que tutores estão dispostos a arcar predominava a visão cartesiana de que os
com altos gastos financeiros para a manutenção animais não humanos eram seres autômatos,
de animais de estimação, e considerou governados por meros reflexos e desprovidos de
antropomorfismo a disposição para custear qualquer estado mental (Wynne, 2007a). Darwin
procedimentos veterinários caros, considerar é considerado o primeiro cientista a estudar as
emoções em animais não humanos, e introduziu
a presença de um animal de estimação na casa
o conceito da continuidade psicológica entre os
fundamental para a constituição de uma família,
animais humanos e os demais. Isto possibilitou
deixar sua opinião sobre outra pessoa ser afetada
a emergência do estudo do comportamento
pelo modo como ela trata os seus animais de
animal (Boakes, 1984; Bekoff, 2000). O principal
estimação, levar o animal não humano durante
sucessor de Darwin, Romanes, que publicou
visitas a outras pessoas, acreditar que animais
o texto “Inteligência Animal” em 1883, foi o
de estimação têm os mesmos direitos que as
fundador oficial da ciência da psicologia animal
pessoas, comemorar aniversários do pet, ter
(Watanabe, 2007; Wynne, 2007a).
fotos do pet na carteira ou em porta-retratos em
casa ou no trabalho, acreditar que o seu animal Inicialmente, o termo antropomorfismo
de estimação é mais leal do que outras pessoas não foi criado dentro de um contexto biológico
de sua vida, achar que o animal faz parte da ou etológico, e sim religioso. O primeiro a
família, e o animal ter acesso a todos os cômodos utilizá-lo foi Xenófanes, no século VI a.C., sob

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a definição de “atribuição da forma humana de um debate a respeito da sua utilização nos


a divindades” (Lesher, 2001; Wynne, 2005, campos da psicologia, etologia e biologia.
2007a). Somente muitos séculos após, próximo à
Debate atual sobre o antropomorfismo no
publicação do texto “A origem das espécies”, de
campo da pesquisa
Darwin, ocorreu pela primeira vez o emprego do
termo antropomorfismo em relação aos animais Wynne, pesquisador nas áreas de
não humanos por George Henry Lewes. Em seu análises comportamentais, cognição comparada
livro, Seaside Studies (1858), Lewes considerou e psicologia experimental da Universidade da
antropomórficas as tentativas de descrever a Florida, condena a prática do antropomorfismo, e
visão de animais como moluscos (Wynne, 2005, afirma que qualquer atribuição mental a animais
2007a). não humanos deve ser feita com extrema cautela
(Wynne, 2004). Ele caracteriza o antropomorfismo
Após a publicação dos trabalhos de
como uma forma de mentalismo (Wynne, 2005,
Darwin e Romanes, ampliou-se a aplicação do
2007a). Na psicologia, mentalismo é definido
termo “antropomorfismo” para descrever a
como uma “doutrina segundo a qual, para além
atribuição de qualidades mentais humanas a
dos fenômenos físicos e fisiológicos, há também
animais não humanos, e com o tempo a utilização
fenômenos espirituais ou mentais que podem ser
do antropomorfismo desta forma tornou-se cada
estudados através da introspecção” (Dicionário
vez mais comum (Wynne, 2005).
Da Língua Portuguesa: Acordo Ortográfico,
Histórico do debate sobre o antropomorfismo 2014).

Com a disseminação da prática do Enquanto uma forma de mentalismo,


antropomorfismo iniciou-se uma controvérsia o antropomorfismo é abstrato e não pode ser
sobre o assunto. Enquanto Darwin e Romanes mensurado ou comprovado por meios concretos.
acreditavam na continuidade psicológica entre Por esse motivo, não é uma ferramenta válida
homens e os outros animais, Lewes condenava para a geração de hipóteses testáveis, não se
a prática do antropomorfismo, pois considerava adequando aos moldes objetivos da ciência
um equívoco tentar interpretar as ações dos moderna (Wynne, 2004, 2005, 2007a, 2007b).
animais através de analogias à natureza humana
O hábito de utilizar o antropomorfismo
(Wynne, 2007a).
leva o pesquisador a se precipitar, dando
Desde então e até os dias atuais, prioridade a conclusões mentalistas, em oposição
cientistas e filósofos de várias partes do mundo a analisar cientificamente o comportamento
discutem sobre os pontos positivos e negativos (Wynne, 2007b). Esta tendência ocorre, pois
destas atribuições. Atualmente na comunidade tentar explicar comportamentos complexos
científica, o antropomorfismo é tema central utilizando apenas termos descritivos pode ser

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extremamente complicado. Porém, recorrer pesquisador não despreza a empatia, porém


ao antropomorfismo como uma explicação leva em consideração múltiplos dados científicos
mais simples leva a falsas interpretações, e de comprovados e concretos para a formulação inicial
fato impede o verdadeiro entendimento do de uma pergunta de pesquisa. A incorporação
comportamento do animal (Wynne, 2004, 2005, de conhecimentos acerca da ecologia, biologia,
2007b). fisiologia e comportamento do animal minimizam
as chances de interpretações equivocadas. O
Burghardt e colaboladores
produto seria uma hipótese testável, que possa
(1990) reconhecem os riscos da prática do
ser incorporada ao modelo objetivo requerido
antropomorfismo no âmbito científico, e
pela ciência (Burghardt, 2004, 1985, 2009).
concordam que o pensamento antropomórfico
pode levar a interpretações incorretas do O preconceito contra o antropomorfismo
comportamento, ofuscando o verdadeiro estado não deve impedir o estudo do comportamento
mental, motivação e reais necessidades do animal. e emoções dos animais não humanos. Segundo
Porém, a ausência total de antropomorfismo Bekoff (2000), muitos cientistas argumentam
também pode ser prejudicial. Recorrer à intuição que, devido ao fato de emoções serem
ao elaborar perguntas de pesquisa é uma etapa experiências privadas, é impossível saber
importante no desenvolvimento de ensaios exatamente o que os animais sentem ou quais
científicos. Abster-se totalmente desse recurso, emoções justificam seus comportamentos,
com o objetivo de evitar o antropomorfismo assim, o estudo das emoções dos animais não
a qualquer custo, resulta em uma ciência humanos seria impossível, e o antropomorfismo
monótona e improdutiva (Burghardt, 1985). seria uma tentativa inútil para tal. Porém, para
Quando a atribuição antropomórfica é realizada Bekoff, o receio do antropomorfismo tem
de forma meticulosa e racional, pode constituir atrasado muito as pesquisas nessa área, e não
uma ferramenta útil para o desenvolvimento de deve ser uma desculpa para ignorar o estudo dos
hipóteses científicas. Sendo assim, foi proposto sentimentos dos animais não humanos. Devemos
o conceito de “antropomorfismo crítico” utilizar todos os meios possíveis, através de
(Burghardt, 1985; Burghardt et al., 1990). pesquisas comparativas, evolutivas, etológicas,
neurobiológicas e endócrinas, para entender
Antropomorfismo crítico pode ser
melhor sobre os outros animais.
definido como a atribuição de características
ou comportamentos humanos a animais não Utilizar a linguagem antropomórfica
humanos de uma forma criteriosa, ao contrário facilita a comunicação na hora de descrever os
da forma livre e não fundamentada que comportamentos dos animais, pois utilizar termos
ocorre frequentemente (Burghardt, 1985). antropomórficos facilita o entendimento do
Ao empregar o antropomorfismo crítico, o comportamento que o animal está manifestando.

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É importante ter em mente que descrever um relacionado à repreensão pelo tutor do que à
animal como feliz ou triste não garante que o que desobediência. Segundo esta autora, atribuir
o animal está sentindo seja realmente felicidade ao cão uma compreensão do conceito de culpa
ou tristeza da mesma forma como os animais influencia diretamente o seu relacionamento
humanos sentem. Apesar disso, a linguagem com o tutor, pois pode gerar expectativas sobre o
antropomórfica não precisa necessariamente animal e frustrações para o tutor.
ser descartada, e podemos utilizá-la ao mesmo
O antropomorfismo pode ainda gerar
tempo que tentamos considerar o ponto
consequências anatômicas com efeito negativo
de vista do animal, o que seria chamado de
direto na saúde do cão. Muitas raças foram
antropomorfismo biocêntrico (Bekoff, 2000). desenvolvidas para apresentar determinadas
Debate atual sobre a inlfuência do características anatômicas atrativas a seres
antropomorfismo no comportamento e humanos. Por exemplo, a conformação anatômica
bem-estar de cães de companhia de cães braquicefálicos (focinho curto e olhos
posicionados mais frontalmente no crânio)
Muitos pesquisadores na área da é mais próxima à imagem humana quando
etologia clínica discutem a respeito do impacto comparada com a de cães de focinho mais longo
do antropomorfismo no relacionamento e olhos nas laterais do crânio (Serpell, 2002).
entre ser humano e seu cão de estimação. Esse fato leva algumas pessoas a preferirem os
Tradicionalmente, o antropomorfismo é apontado cães braquicefálicos. Quando isso ocorre, diz-
como responsável pelo desenvolvimento de se que as raças braquicefálicas possuem um
problemas comportamentais em cães (O’farrell, maior apelo antropomórfico. Porém, algumas
1997), e diversos trabalhos destacam aspectos das características responsáveis pelo apelo
negativos do mesmo. antropomórfico são prejudiciais aos cães, como
no caso da síndrome do cão braquicefálico,
O´Farrel (1997) observou uma correlação
resultante do achatamento do crânio (Serpell,
positiva entre o envolvimento antropomórfico
2002). Além disso, a “seleção antropomórfica”
de tutores e a ocorrência de agressividade
pode ter levado à criação de linhagens de cães
direcionada a pessoas por seus cães. Horowitz
extremamente dependentes emocionalmente,
(2009) argumenta que o antropomorfismo pode
gerando problemas comportamentais como a
ter um impacto negativo quando os tutores
ansiedade de separação (Serpell, 2002).
interpretam (de forma antropomórfica) que o
cão apresenta um “olhar culpado” após realizar Em contrapartida, diversos trabalhos
uma ação proibida. Em seu experimento, a citam aspectos positivos do antropomorfismo.
autora demonstrou que essas atribuições Voith e colaboladores (1992) argumentam
foram equivocadas, pois o comportamento que não há evidências científicas suficientes
interpretado como “olhar culpado” estava mais

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para afirmar que o antropomorfismo pode antropomórficos manifestaram uma maior


gerar problemas comportamentais. Os disposição para ajudar animais em situações
mesmos analisaram a relação entre atitudes difíceis ou perigosas, além de uma atitude mais
antropomórficas e problemas de comportamento, positiva com relação aos direitos dos animais,
e observaram que cães “tratados como gente”, bem-estar animal e vegetarianismo/veganismo
“mimados” ou vistos de maneira antropomórfica (Butterfield et al., 2012). O antropomorfismo
não tiveram maior probabilidade de apresentar facilitou a adoção de cães, ao exibirem
comportamentos problemáticos como expressões faciais que aumentassem sua
agressividade, comportamentos destrutivos (de aparência neonatal, a qual é preferencialmente
mobília e objetos), desobediência aos tutores,
selecionada por humanos (Waller et al., 2013), e
fobias, dentre outros.
está relacionado à atribuição de um maior valor
Semelhantemente ao que foi exposto por moral e interesse aos animais não humanos
Horowitz, (2009), Hecht e colaboladores (2012) (Waytz et al., 2014). Estes estudos demonstram
também verificaram que as atribuições de “olhar que o antropomorfismo pode ter um impacto
culpado” foram equivocadas, por outro lado, benéfico para o bem-estar animal.
tiveram uma consequência favorável aos cães.
O suporte social é um fator de grande
Quando os tutores acreditavam que seus cães
impacto no bem-estar de pessoas. Suporte
pareciam culpados após realizar um ato proibido,
os repreendiam com menor intensidade. Mesmo social é tradicionalmente definido como apoio
que interpretado incorretamente como culpa, o emocional ou material, oferecido a um indivíduo
comportamento poderia ter atuado como fator por outras pessoas, instituições religiosas ou
pacificador, importante em espécies sociais na grupos de apoio, que resulta em conforto,
resolução de conflitos. ajudando-o a lidar com uma variedade de fatores
estressantes biológicos, psicológicos ou sociais
Apesar da sua relação com deformidades
(Vandenbos, 2007). Atualmente assume-se que
anatômicas, o antropomorfismo é responsável
o suporte social pode ser oferecido também por
pela formação e manutenção do laço entre uma
animais de estimação (Duvall & Pychyl, 2008).
pessoa e o seu animal de estimação, e sem o
Em um experimento com 730 tutores, 98%
antropomorfismo, essa relação não faria sentido.
consideraram seu cão um membro da família
Diante da vasta distribuição de cães por todo o
(Voith et al., 1992). Acredita-se que uma das
mundo, o antropomorfismo conferiu aos cães de
companhia uma importante vantagem evolutiva razões para isso seja o suporte social oferecido
(Serpell, 2002). pelos cães (Duvall & Pychyl, 2008).

Pessoas induzidas a terem pensamentos A relação entre antropomorfismo,

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Antropomorfismo em cães de companhia .161

suporte social e estresse foi analisada, e foi Referências bibliográficas


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(Duvall & Pychyl, 2008). Além disso, as pessoas Bekoff, M. 2000. Animal Emotions: Exploring
que praticavam mais antropomorfismo relataram Passionate Natures. BioScience 50(10):
receber níveis maiores de suporte social de 861-870.
seus cães (Duvall & Pychyl, 2008). Dessa
Boakes, R. 1984. From Darwin to behaviorism:
forma, concluíram que as pessoas que recebem
psychology and the minds of animals.
menos suporte social de familiares têm uma
Cambridge, Cambridge University Press,
maior tendência a antropomorfizar seus cães,
296 p.
e possivelmente, receber dos mesmos suporte
social (Duvall & Pychyl, 2008). Burghardt, G.2004. Ground rules for dealing
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Conclusão
15.
A partir da literatura consultada nota-
Burghardt, G. M. 1985. Animal awareness. Cur-
se que não há padronização na definição
rent perceptions and historical perspec-
do antropomorfismo. Diferentes autores tive. The American psychologist 40(8):
utilizam métodos diversos de classificação 905-919.
e questionários não validados para a sua
detecção. Até o momento, não há um consenso Burghardt, G. M. 2009. Ethics and animal con-
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a respeito do impacto do antropomorfismo
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como esse fenômeno ocorre, e principalmente, Mangy mutt or furry friend? Anthropomor-
que permitam uma classificação padronizada, phism promotes animal welfare. Journal
questionários validados para a sua detecção, of Experimental Social Psychology 48(4):
possibilitando o estudo das consequências do 957-960.
antropomorfismo.

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