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TRAJETÓRIA DE

HONRA
De Sargento a Brigadeiro

Uma vida de amor à


Força Aérea Brasileira
Walacir Cheriegate
Com a participação especial de

Diolásia de Lima Cheriegate

TRAJETÓRIA DE
HONRA
De Sargento a Brigadeiro

Uma vida de amor à


Força Aérea Brasileira

Action Editora
Homenagem
A meus queridos e saudosos pais, Francisco e Nair, que partiram muito cedo
desta existência, mas que dedicaram suas vidas à criação de quatro filhos e em
especial a mim, dedicando-me seu incondicional amor, tornando, assim, possível
que um dia eu escrevesse minha história de amor pela Força Aérea Brasileira.

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Dedicatória
Dedico esta obra a minha adorável esposa Diolásia, maior bênção de
minha vida. Com ela compartilhei a maior parte dos momentos de minha vida
profissional. E a meus abençoados filhos, Jeferson e Laíse, que emolduraram o
quadro de um feliz matrimônio.

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Menção Especial
A meus irmãos David, William e Sandra e seus cônjuges Solange, Kathy,
meu carinho e afeto.
A minha nora Sandra e ao meu genro Marcello, agradeço o enriquecimento
afetivo de nossa família.
A meus netos, Eduardo, Gustavo e Milena, sou grato pela renovação que
suas presenças representam para nossos corações.

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Destaque Profissional
Aos companheiros do azul, que Deus ilumine seus passos e que possam
sempre se orgulhar de pertencer à Força Aérea Brasileira.

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Talento Nato
Certa vez, um grupo de crianças brincava de definir as pessoas por uma palavra.
Esta é uma tarefa muito difícil, principalmente para pessoas como o senhor,
Maj. Brig. Walacir. Procurando no dicionário a palavra “talento”,
cujo significado é grande inteligência, aptidão, agudeza de espírito,
é a que mais se aproxima. Muito mais do que isso, a humildade
e a capacidade de despertar nas futuras gerações
o gosto pela ética e moral que o senhor possui
são características que farão sempre
a chama do talento brilhar.
Nós e as futuras gerações agradecemos.

Brigadeiro do Ar Nilson Prado Godoy – DIRMAB


Brigadeiro do Ar Ivo de Almeida Prado Xavier – DIRMAB
Coronel-Aviador Jorge Cruz de Souza e Mello – DIRMAB
Coronel-Aviador César Simões de Souza – PAMA RF
Coronel-Intendente Geraldo Carmo de Assis – DARJ
Coronel-Aviador Lucio Alves Angelo – PAMA AF
Coronel-Aviador Darcy Pereira Leite – PAMA SP
Coronel-Aviador Edgard de Oliveira Júnior – PAMA LS
Coronel-Aviador Jorge Luiz da Silva Pereira – PAMA GL
Coronel-Aviador Luiz Fernando Alves Ferreira – CAB SP
Tenente-Coronel Aviador Oswaldo Machado Carlos de Souza – PAMB RJ
Tenente-Coronel Aviador Isidoro Mekler – ILA

Rio de Janeiro, 23 de julho de 2003.

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Sumário

Berço familiar .......................................................................................... 19


Educação para a vida ............................................................................... 29
Chamamento para a aviação militar ......................................................... 38
Ninho das Águias ..................................................................................... 53
Enfim... piloto militar .............................................................................. 67
Momentos inesquecíveis ......................................................................... 73
AFA – o novo Ninho das Águias .............................................................. 82
Antessala do poder ................................................................................... 99
Momentos marcantes ............................................................................... 116
Base Aérea de Brasília ............................................................................ 135
A mulher na Força Aérea ......................................................................... 142
Comando do Corpo de Cadetes ............................................................... 149
Curso Superior de Comando e Estado Maior .......................................... 169
Comando do 5º Grupo de Aviação .......................................................... 172
Curso de Estratégia na Argentina ............................................................ 177
Assessoria Parlamentar no Congresso Nacional ..................................... 186
Chefia do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica ...................... 189
Comando da Base Aérea do Galeão ........................................................ 191
Curso de Política e Estratégia Aeroespaciais .......................................... 202
Chefia da Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa ............................ 204
Valorização do generalato ....................................................................... 217
Comando da Escola de Especialistas de Aeronáutica .............................. 219
Chefia do Subdepartamento de Operações do DAC ............................... 232
Direção da Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico .......................... 233
Convicções profissionais ........................................................................ 238
Despedida prematura .............................................................................. 242
Conclusão ............................................................................................... 248

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Apresentação
Meu prezado companheiro de turma na Força Aérea, ademais, dileto e
querido amigo, traz a lume o instigante livro de sua lavra, intitulado: Trajetória de
Honra – De Sargento a Brigadeiro – Uma vida de amor à Força Aérea Brasileira.
O compêndio retrata, de forma magistral e em rigorosa ordem cronológica
de acontecimentos, a vida e a obra desse notável e nobre colega, abnegado militar,
excelente administrador, exímio aviador, admirável cidadão, leal amigo e chefe
de família exemplar.
Sua rica, pujante e invejável biografia se traduz, em linhas gerais, num
verdadeiro testemunho de amor à querida FAB, representando um verdadeiro
exemplo a brasileiros de todas as épocas, constituindo, pelos fatos históricos
reportados, matéria de suma relevância para os pesquisadores e estudiosos da
historiografia aeronáutica brasileira.
Os relatos aqui contidos e abordados de forma encantadora, descritos em
linguagem escorreita, atraente e prazerosa, magnetiza e emociona o leitor da
primeira à última página, compelindo-o a percorrer, juntamente com o autor, os
meandros da vida desse modelar brasileiro, em que são expostos e retratados,
fidedignamente, momentos de apreensão, angústia, tristeza, felicidade, alegria
incontida e continuadas realizações vivenciados por Walacir e compartilhados,
de forma ativa e fecunda, com sua querida esposa, Diolásia, amiga e inseparável
companheira nessa fascinante e pródiga caminhada.
Sem sombra de dúvidas, podemos vaticinar que Trajetória de Honra, por
seu importante e rico conteúdo histórico, terá lugar de destaque nas bibliotecas
de nossa Aeronáutica e servirá de paradigma e elemento motivador àqueles que
estão ingressando na Força Aérea, especialmente aos cadetes, estagiários e alunos
de nossas escolas de formação e aperfeiçoamento.
Resta-me tecer loas a este magnífico e consistente trabalho e agradecer
ao nobre e querido amigo a subida honra e a grata satisfação em nos brindar
com o privilégio de poder elaborar a Apresentação desta obra de alto quilate e
de suma importância para o conhecimento de todos que o estimam e admiram
por suas imensas virtudes.

Manuel Cambeses Júnior


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Prefácio
Faz mais de 50 anos que a Força Aérea e eu nos conhecemos. Passei 43 anos
no serviço ativo de suas fileiras, e a relação de respeito, admiração e confiança
construída no decorrer desses anos me moveu a escrever essas memórias.
Compartilho com os que me honrarem com sua leitura um pouco de minha
história pessoal e a completa história de uma carreira profissional feliz, dedicada
a valores nos quais sempre acreditei.
Em 1° de agosto de 1960, a Escola de Especialistas, localizada em
Guaratinguetá, São Paulo, recebia um jovem de 18 anos, proveniente de Ponta
Grossa (PR), completamente desinformado de tudo o que dissesse respeito à vida
militar e que queria ser aviador. Era um jovem apaixonado por aviação e filmes de
combates aéreos que acreditava que, em breve, dali sairia piloto da Força Aérea.
Foi um choque para o jovem Walacir saber que a missão daquela escola
não era bem aquela que ele pensava que fosse. Ali se formavam profissionais
especializados em fazer as aeronaves da FAB voar, e não a formar seus pilotos.
No entanto, tão grande quanto seu desapontamento foi a rapidez com que se
reconheceu pertencendo àquela instituição. Sentiu que ali deveria permanecer.
Intuitivamente, percebeu que estava no lugar certo. E, então, ficou.
Em pouco tempo, um forte elo estabeleceu-se entre a Força Aérea e eu. A
sensação de pertencimento engrandeceu meu coração, tornando-me agradecido
por ter adentrado à FAB por aquela porta.
Como sargento, aprendi a valorizar o dia a dia e o trabalho dos que, como
sempre afirmei, constituem a espinha dorsal da Força. Com eles compartilhei
anseios, alegrias e apreensões. Vibramos juntos com sucessos, desde a vitória
de um time num campeonato de futebol de salão até apreensões motivadas por
fins políticos, como no caso do posicionamento oposto entre oficiais e graduados
quando do Movimento pela Legalidade, no Rio Grande do Sul.
Sentamo-nos nos mesmos bancos de sala de aula e no rancho de alunos
em Guaratinguetá. Comemos da mesma comida, sentindo saudades da comida
caseira; fizemos ordem unida, tiramos serviço, lavamos banheiros; vibramos
com os desfiles de 7 de setembro, em homenagem à pátria; nos solidarizamos
com infortúnios de colegas e nos alegramos com os sucessos deles... Quantas
histórias! Quanta solidariedade! Quantas lembranças!
Um ano e meio transcorreu e, formado sargento desenhista, fui designado
para servir no 1°/14° Grupo de Aviação, em Canoas, Unidade de Aviação de Caça,
onde jovens oficiais transpiravam vibração e entusiasmo pelo voo.

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Em 1963, a Força Aérea abriu concurso para a Escola de Aeronáutica,
permitindo a inscrição de candidatos que não tivessem cursado sua Escola
Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena, mas que tivesse concluído o
segundo grau. Lá estava eu entre os candidatos e, passo contínuo, adentrando
por outra porta, entendi que chegara a hora de materializar o sonho de me tornar
piloto militar.
Como oficial aviador, fiz do azul do céu da Força Aérea meu segundo lar.
Voei bastante. Dei muita instrução a cadetes. Começava meu dia com o voo da
madruga na Escola de Aeronáutica (EAER) no Campo dos Afonsos (RJ) e voava
até que o sol se punha, driblando sempre que possível o tempo reservado ao
almoço para poder voar um pouco mais. Quanto orgulho das 3,2 mil horas em
aeronaves de instrução de cadetes voadas em cinco anos! Quanta realização!
Como me gratifica a alma – e que serenidade sinto – olhar para trás, fazer
um apanhado de minha vida e sentir a tranquilidade de consciência daqueles
poucos privilegiados que desenvolveram uma atividade profissional que os fez
muito felizes. Emociono-me ao fazer esse balanço.
As dificuldades foram muitas, mas as compensações foram tantas e tão
maiores que me reservo o direito de pouco mencionar aborrecimentos. Foi tudo
cor-de-rosa? Não, claro que não! Eu vivi! E quando digo que vivi, quero dizer
que “combati o bom combate” e venci muitas dificuldades. Pela FAB e para a
FAB, sempre pensei grande e dei meu melhor; por isso, tanta coisa boa tenho a
recordar.
Estive à frente de sete comandos, entre eles o do Corpo de Cadetes na AFA
e o da Escola de Especialistas, aquela mesma escola – vejam como é o destino!
– que me recebeu em 1960. A vida tem seus segredos e suas mensagens são
dispostas a nossa compreensão à medida que o tempo outorga sua autorização.
Assim entendi a vida a partir de certa etapa de minha existência.
Ao evocar com enorme alegria essas lembranças, os convido para, juntos,
partilharmos, passo a passo, a jornada do sargento especialista em desenho até
major-brigadeiro do ar – uma carreira plena de idealismo e comprometimento.

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Introdução
Ao me decidir por escrever este livro, meu primeiro pensamento foi fazê-lo
oferecendo-o como oportunidade de reflexão aos jovens. Minha maior motivação
foi com eles dialogar, contando-lhes uma história verdadeira. É possível haver
alguns entre eles que se identifiquem com o ideal de voar ou de seguir uma
carreira em que seja exigido grande esforço para alcançar o objetivo almejado. E
aqui conto eu minha história.
Pensei nos jovens porque trabalhei com muitos grupos deles ao longo de
minha carreira. E, também, porque sempre me encantou acompanhar a vida e os
sonhos se renovando através do arrojo de seus verdes anos.
Neles, sempre me maravilhou a renovação do que existe por novas ideias,
pelo aperfeiçoamento do legado herdado dos que os antecederam, pela fé na vida
e nas causas pelas quais lutam e pela confiança no futuro. Quando me refiro aos
jovens, não me refiro tão somente aos cronologicamente jovens, mas, também,
aos muitos que encontrei em minha caminhada que jamais perderam a fé no que
faziam, que sempre encontraram meios de se renovarem, de se superarem, de
desempenharem melhor suas funções, que jamais perderam o elã, que souberam
construir um sentido para suas vidas. Admirei muitos, aprendendo um pouco com
cada um desses seres humanos.
A pretensão deste livro é muito simples. Apresento fatos de minha vida, na
intenção de transferir um pouco da experiência de alguém, cujo destino permitiu
que concretizasse seus objetivos por meio do estudo, do esforço, da crença em si
mesmo e do auxílio da mão amiga em momentos cruciais de dificuldades e em
momentos determinantes.
Conto como saí de Ponta Grossa (PR), minha cidade natal, que motivos me
levaram a isso, e apresento os caminhos por onde andei até chegar à parada que
esse mesmo destino me reservou.
Enche-me de satisfação o fato de que, no ano em que apresento este trabalho
à FAB, os primeiros jovens que tive a satisfação de comandar no Corpo de
Cadetes atingem o generalato. É a corrida de revezamento que prossegue com
outros corredores assumindo a posse dos bastões.
A esses se juntarão oficiais generais integrantes de mais cinco turmas que,
ao terem recebido as mesmas sementes, quis o destino que as pudessem converter
em brilhantes estrelas de brigadeiros. Na corrida de revezamento que prossegue,
passam a assumir posição concreta no compartilhamento de decisões que situarão
a FAB no século XXI.
Minha fé na vida e nos destinos da instituição se redobra.

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Capítulo 1

Berço familiar
Os imigrantes

E m meados do século XIX, começo do século XX, levas e levas de


imigrantes europeus chegaram ao Brasil, desembarcando, princi-
palmente, no Porto de Santos, no estado de São Paulo.
Às portas da abolição da escravatura e em seus entornos, nosso país era uma
afirmação de dias melhores, pelo aceno das magníficas oportunidades que ofere-
cia. Muitos foram os que apostaram no sonho e na esperança, voltaram seus olhos
para o outro La do do mundo e vieram “fazer a América”, como costumavam
dizer os italianos.
Ao proclamar o fim da escravatura, em 1888, o país abria larga frente de
trabalho, substituindo o braço escravo na lavoura cafeeira pela mão de obra de
imigrantes europeus. Fazendeiros priorizavam esses últimos em detrimento do
trabalho do escravo liberto, imunes ao infortúnio social que tal procedimento
viesse provocar.
Na Europa, um mundo em acelerado processo de transformação econômica
e social cedia espaço à mecanização do sistema de produção de bens, e o saber de
longos séculos se fazia obsoleto diante dos muitos avanços tecnológicos e cientí-
ficos que surgiam. A força braçal se tornava dispensável e substituível em muitos
setores. A sociedade europeia se transformava em grande velocidade e, com ela,
os costumes, as necessidades e as qualificações tão necessárias à inserção nos no-
vos horizontes que se abriam. O sistema de produção feudalista, de tão longa du-
ração, soçobrava diante de um capitalismo de rápidos e contundentes resultados.
E diante de tão intenso progresso, acreditava-se até que, a partir de certo ponto, a
fome do mundo se aproximasse do fim.
O desemprego era grande. Aliado ao desemprego, a desestabilização políti-
ca e social, provocada por conflitos, insurreições e guerras, completava o quadro
de fome, medo, miséria e doenças.
Apesar dos avanços, das transformações e da perspectiva do progresso que
beneficiaria a todos, a realidade crua que se apresentava aos deserdados da Revo-
lução Industrial e sobreviventes dos muitos conflitos era outra, e valeria a pena se
fazer ao mar e imigrar para o Brasil.
Navios lotados de pessoas empobrecidas e mal-arrumadas, exaustas pela
longa e cansativa travessia de um Oceano Atlântico interminável que, possi-
velmente, as separaria para sempre de seus berços, eram a prova de que eram
muitos os excluídos do miraculoso processo de transformação econômica e so-

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cial que avançava da Inglaterra e se espraiava tão célere quanto impiedoso para
outras regiões do continente.
No cenário de desalinho e pobreza que se exibia no Porto de Santos, famílias
e mais famílias formavam uma babel de pobres que, ao se lançarem corajosamen-
te rumo a uma terra desconhecida, traziam em suas bagagens a fé cristã como su-
porte espiritual, a confiança em sua força de trabalho como crédito a lhes garantir
o pão e a ardente aspiração de que, ao fincarem por aqui suas raízes, pudessem
criar seus filhos na paz e na abundância.
Ao partirem daquele porto para as áreas agrícolas do Sudeste e Sul do Bra-
sil, regiões de clima mais próximo ao de suas terras de origem, italianos, polo-
neses, russos e ingleses, entre outras nacionalidades, foram gradativamente se
acomodando em fazendas de café e cana-de-açúcar.
Os imigrantes europeus marcaram fortemente meu estado, o Paraná. Ali eles
não só araram o solo e nele lançaram as sementes do café, transformando a terra
roxa em riqueza. Ali eles contribuíram fortemente para a formação, o crescimento
e o progresso de uma nova sociedade, em cujo seio formou-se grande número de
novas famílias, entre as quais a minha.
Daqueles milhares de imigrantes europeus, italianos e ingleses gozam de
significativo destaque em minha vida, porque deles descendo respectivamente
por parte de pai e de mãe.

Avós paternos

Meus avós paternos – Alexandre e Olívia – eram italianos. Vieram para o


Brasil em navios e datas diferentes, acompanhando seus pais quando ainda na
primeira infância.
A presença deles foi muito marcante em minha meninice e deles recordo
com certa frequência. E, naturalmente, sempre que eles me vêm à mente, alguns
fatos se sobressaem a outros. Por exemplo, quando o vovô Alexandre me vem à
lembrança, recordo de seu “amor” pelo vinho, de seu jeito de falar, de descrever
as coisas e, principalmente, de seu recorrente relato sobre a travessia da Itália
para cá. Segundo ele, a viagem até o Porto de Santos durara em torno de um mês,
informação que deve ter ouvido de adultos, porque como criança ele não teria
tido a devida noção de tempo que lhe propiciasse tal registro.
Recordo que ele nos falava, a mim e aos outros netos ou ouvintes da
plateia, de uma grande tempestade que “quase afundara” o navio em alto-
mar. Esse terrível evento era descrito de forma teatral, evocando as profundas
emoções de uma criança que, em companhia de adultos, passara por uma
situação de assombroso pânico. Ao encenar tal terrível evento, fazia-o com
muita gesticulação, modulação de voz, caras, bocas, esbugalhar de olhos e todo

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o gestual que seria de se esperar de um autêntico napolitano. Ele evocava os
sons, as enormes ondas e dava muita ênfase ao deslocamento de utensílios,
vasilhames e bagagens que, por causa do forte balançar do navio, se desgarravam
dos locais onde deveriam estar posicionados, se movimentando prá lá e prá, em
destrambelhada desordem, fazendo imensa barulheira. Segundo ele, o barulho
era terrível. Ele enfatizava que tudo sacudia, tudo balançava, e o perigo de
o navio afundar enchia de pavor os indefesos passageiros. Todos enjoavam.
Enjoavam e rezavam. Enjoavam e rezavam muito. A essa altura da narrativa,
ele abaixava a cabeça e eu sentia que as recordações o comoviam. Seus olhos
brilhavam e se enchiam d’água. As lágrimas não caíam; enchiam seus globos
oculares que assim boiavam, aguardando passar o pico da emoção, qual seu
navio fizera em alto-mar, aguardando passar a tempestade.
Toda vez que ele recontava essa história, não tinha como eu, à noite, antes de
adormecer, deixar de pensar no pavor que crianças como ele deveriam ter sentido
durante o episódio. Ficava imaginando a impotência e a fragilidade daquelas
pessoas diante do perigo de uma situação sobre a qual não tinham o menor controle,
temendo por si e pelos seus, agarradas umas às outras, se segurando onde podiam,
assustadas e apavoradas diante da possibilidade de entrarem na mesma dança dos
utensílios soltos, no piso do navio, ou mesmo afundarem com ele.
Essa história não só marcara bastante meu avô, a julgar pela frequência com
que a repetia, como a mim também, porque é ela que primeiro me vem à mente
quando me recordo dele.
De minha avó Olívia, católica muito devota, de quem sempre lembro com
o terço nas mãos, rezando ave-marias e pais-nossos durante quase todo tempo
que tinha livre, recordo de sua zanga quando o vovô, irreverentemente, se referia
a Nossa Senhora, Mãe de Jesus, chamando-a de ‘porca madona’, um dos sinais
de que tinha tomado um vinhozinho a mais e queria irritá-la. Lembro-me da
severidade de seu olhar, reprovando-o por tamanha blasfêmia.
Dela também me recordo da prótese que usava, que substituía a perna que
perdera num acidente quando ainda bem jovem. Uma pilha de madeira lhe caíra
sobre o tal membro. Com os recursos médicos limitados da época, agravados
pela condição financeira precária, a solução não fora outra senão a amputação.
Eu achava aquela perna de madeira muito tosca, estranha, e não entendia
como a vovó, tida como “braba” pela família, se sujeitava ao desconforto – e
à humilhação, a meus olhos – de lavar os pés do vovô numa bacia, toda tarde
quando ele retornava de seu trabalho de jardineiro. Era complicado para ela se
agachar e tomar posição... Uma cena que não gosto muito de lembrar, mas que
não tenho o poder de esquecê-la.
Naquela altura, eu, uma criança, não atinava que “aquilo” fazia parte da
bagagem cultural que os italianos trouxeram de sua terra de origem. “Aquilo”

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não queria dizer que o vovô a estivesse humilhando, exigindo-lhe uma atitude
subserviente. Não! Provavelmente, as mulheres que antecederam à vovó
em sua família, na região de Módena, agiam daquela forma e ela repetia o
que aprendera, achando o ritual doméstico cotidiano perfeitamente natural.
Costume. Tradição.
Teria muito a lhes contar sobre o cotidiano com esses avós, com os
quais convivi do nascimento até quando faleceram em minha casa, em minha
adolescência. Mas por não ser essa a proposta deste livro, restrinjo-me a esses
poucos relatos a respeito deles.

Avós maternos

Meu avô Wallace era o 12º filho do casal de ingleses Frederick Samways
e Ada Sahara Gifford; ele de Broadmaine, Dorchester, e ela de West Knighton,
também Dorchester. Meus bisavós vieram da Inglaterra em 1872/73, de navio, do
Porto de Liverpool. Embarcaram com seis filhos e, aqui no Brasil, tiveram mais
sete. Fixaram residência em Curitiba, onde meu avô Wallace nasceu e onde seus
pais faleceram.
Vovô Wallace tinha hábitos marcadamente britânicos. E não poderia ser
diferente, dado seu berço. Sua mãe, Ada Sara, dava aula de inglês para os filhos e
para as crianças da redondeza, ao mesmo em tempo que lhes transmitia a cultura
da velha Inglaterra.
Meu avô Wallace era alegre, de temperamento equilibrado, metódico,
organizado, respeitoso e bom tocador de cavaquinho. Lembro-me de pequenos
detalhes de sua personalidade que me chamavam a atenção, apesar da pouca
idade. Por exemplo: aquele gentleman jamais assinaria um documento, a menos
que estivesse muito bem acomodado em uma cadeira, com os braços apoiados
sobre a mesa na qual se encontrasse o documento a ser assinado e soubesse
detalhadamente do que se tratava. E nada de pressa ou alvoroço. Tudo era feito
dentro de seus métodos.
Casou-se no ano de... com Maria Luíza, pertencente à família Fornazzari.
Ficou viúvo aos 40 anos, com cinco filhos, sendo a caçula deles minha mãe, com
2 anos. Assumira a missão de pai e mãe e, junto com sua filha Izulina, então com
10 anos, deram conta do recado de acabar de criar todos eles. Nunca se casou de
novo. Faleceu em nossa casa aos 75 anos, quando eu tinha 16, presumivelmente,
de um câncer no aparelho digestório.
Sua mulher Maria Luíza, com quem ficara casado por 16 anos, falecera muito
jovem. Ela era a quinta filha dos imigrantes italianos Luiz Fornazari (Milão) e
Antonia Sartori Fornazari (Pádua). Por ter falecido muito cedo – aos 35 anos,
vítima de varíola – praticamente nada sei a seu respeito, o que lamento bastante.

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Meus pais

Meu pai Francisco era o quinto filho do casal Alexandre Cheriegate e Olívia
Cheriegate. Casou-se com Nair Samways em 1941 e tiveram quatro filhos: eu, o
mais velho, David, William e Sandra Mara.
Quando eu tinha um mês de vida, meu pai incorporou-se ao 13° Regimento
de Infantaria do Exército Brasileiro, em Ponta Grossa. Fez parte de suas fileiras
por cerca de um ano e, por ser casado e ter um filho recém-nascido, foi dispensado
de ir à Segunda Guerra Mundial. Essa é a história que me foi contada.
Antes de se alistar como soldado, seu Chico exercera a função de alfaiate.
Presumo que exercera a função de auxiliar de algum alfaiate mais velho, pois,
pela idade, seria impossível ser titular em qualquer profissão.
Depois que deu baixa do Exército, retornou àquela atividade até que a vista
começou a fraquejar. Não sei precisar minha idade quando tal ocorrera, mas lembro-
me bem dele em seu ofício, muito meticuloso, pregando mangas em paletós e me
explicando detalhes que influenciavam no bom caimento de uma roupa.
Com a visão comprometida – com a vista “curta” – tornou-se jardineiro,
profissão de seu pai, o vovô Alexandre.

A infância

Nasci no dia 19 de março de 1942, na casa de meus avós paternos, na cidade


de Ponta Grossa, Paraná. Por ter nascido num sótão, costumo dizer que já “nasci
nos ares” e agora acrescento que, provavelmente, já nasci “um filho altivo dos
ares”, como consta em nosso Hino dos Aviadores.
Que pretensioso, não?
Meu nome era para ser Wallace, como o de meu avô materno, porém, alguém
no cartório onde me registraram trocou o “e” por “ir” e, em vez de Wallace,
me tornei Walacir. Achando pouco, o cartório trocou também a data de meu
nascimento: de 19 de março me passaram para 21.
Mas nessa troca de data saí ganhando duas vezes. Primeiro, porque
comemoro meu aniversário com a família no dia 19 e, com os amigos, no dia 21.
E, segundo, porque tenho dois santos protetores: São José, conhecido de todos
como protetor da família, e São Nicholas Von Flue, suíço que, segundo consta,
passou 21 anos sem se alimentar, sem comer nada, nadinha mesmo, só pela ação
direta da graça divina.
Interessante esse dado, não é? Viva a internet! Nela “pesquei” essa informação.
Nosso lar era muito simples, asseado e aconchegante. Minha mãe, Nair – de
temperamento alegre –, gostava de cantar enquanto se desincumbia de suas lides
domésticas e, segundo entendi à medida que fui crescendo, era uma verdadeira

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“acrobata financeira”: fazia render os parcos rendimentos de nossa família, não
permitindo atraso no pagamento dos compromissos domésticos mensais. Lembro-
me do sagrado dinheiro da conta de luz, que ela guardava embaixo do colchão,
juntando-o aos poucos, ao longo do mês, até que completasse a quantia da fatura.
Dona Nair desdobrava-se em múltiplas atividades, sem que eu jamais a
tivesse visto se queixar de cansaço ou reclamar da sorte. Era de um vigor e de um
entusiasmo contagiantes! Para ela não tinha “tempo ruim”. Na definição dos dias
atuais, era o que se poderia dizer uma pessoa empreendedora e proativa.
Dentre suas múltiplas atividades, me lembro das flores e verduras que
plantava no terreno de nosso quintal e que vendia à vizinhança. Quando chegava
o Dia de Finados, lá estavam as flores da dona Nair, entre elas as palmas-de-
santa-rita – brancas, cor-de-rosa, amarelas, alaranjadas – no maior viço, prontas
para serem colhidas. E, dessa venda, entrava mais um dinheirinho para as contas.
Ela e eu éramos muito companheiros; juntos, desenvolvíamos diversas
atividades do dia a dia, acrescentando-se as de buscar esterco nos arredores,
apanhar galhos de árvores secos para nosso fogão à lenha, estender roupa na
corda, arrancar os matos da horta e uma porção de coisas mais que, pela idade, eu
atuava como coadjuvante.
Da colheita de esterco para suas flores e horta, guardo a lembrança que,
de vez em quando, inadvertidamente, eu apanhava um “exemplar” ainda meio
fresco, sujando as mãos de cocô de vaca, fato que me enojava profundamente.
Ficava desesperado, correndo logo para casa para lavar as mãos.
Todo mês de dezembro, minha mãe, munida de escada, brocha e pincel,
pintava nossa casa para o Natal. Que disposição! Digo, todo mês de dezembro,
mas vamos aí tirar o dezembro de 1946, porque, nesse justo dezembro, no dia
25, nasceu meu irmão David Nataniel, nome dado por ter nascido no dia de Natal.
Costumo brincar, dizendo que o Davi nasceu “bem”, nasceu em casa própria,
na Rua Amazonas, 630, casa construída por meus pais. Isso mesmo! Pelos dois,
um de auxiliar do outro. Inicialmente, sala, quarto e cozinha, depois, expandida
em mais um cômodo para a chegada de mais um filho.
Do evento do nascimento de meu irmão, guardo a nítida lembrança das
várias latas de talco que o bebê Davi recebera de presente, todas enfileiradas no
alto do guarda-roupa do quarto. Lembro que eu sacudia o embrulho do presente
que as visitas traziam para ele e, pelo peso, formato e balançar do conteúdo dentro
da embalagem eu já “cantava”: mais um talco!
Pintar a casa para o Natal era atividade que fazia parte do calendário anual
de minha mãe e encerar a casa toda sexta-feira fazia parte da rotina semanal. Em
tal tarefa, David e eu desempenhávamos papel importante. Fazíamos uma boa
folia ao nos desincumbirmos da missão. Sentadinho sobre um pano macio, tendo
quase cinco anos a menos que eu, ele era por mim arrastado de um lado para outro

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pela casa, substituindo parte dos muitos vai e vens do escovão da dona Nair na
faina de dar lustre ao assoalho de tábua corrida.
Além do trabalho de meu pai e dos incrementos orçamentários advindos
das flores e verduras que minha mãe cultivava, tínhamos um pequeno empório,
construído quando eu era adolescente, cuja renda nos acrescia o montante mensal.
O bar, como o chamávamos, funcionava na parte da frente de casa e, além de secos
e molhados, nele também vendíamos bebida “no retalho”, ou seja, em doses.
Minha mãe cuidava de tudo, impondo “aquela linha” moral ao
estabelecimento, que, por vender bebida, precisava de alguém enérgico que
limitasse possíveis inconveniências de um ou outro freguês que passasse além do
limite da “pura leveza”. Quando tal acontecia, minha mãe nem chamava meu pai.
Agia ela mesma. Simplesmente, enxotava o engraçadinho sem pensar duas vezes.
Dona Nair sabia manter a ordem...
Tive a felicidade de ter pais muito carinhosos. O relacionamento com meu
pai Chico também era bastante próximo. Como recordo das noites frias do inverno
paranaense, em que ele, com seu pesado ferro a carvão de alfaiate, passava minha
cama para que eu a encontrasse quentinha ao deitar... É, seu Chico, que saudade!
Sempre que me sobrava tempo da escola, nós íamos trabalhar em “seus”
jardins. Eu o ajudava a regar as plantas, catar as folhas, arrancar as ervas daninhas,
semear, colocar em cestos os galhos podados, fazer canteiros transportando
pedrinhas e outras atividades mais, do dia a dia de um jardineiro. Juntos, ele
parecendo ter a mesma idade que eu, aguardávamos, com ansiedade, os lanches
que nos serviam à tarde, nas residências do pessoal onde trabalhava. Brincávamos
apostando, ou, melhor, procurando adivinhar, que tipo de bolo ou doce nos seria
oferecido em cada ocasião no lanche da tarde.
Meu pai era muito emotivo – traço de personalidade que dele herdei –,
espirituoso e muito rápido em fazer piadas e trocadilhos engraçados. Contava
anedotas como ninguém e adorava jogar truco, jogo de cartas muito apreciado
no Paraná. Era expert em trocar sinais com seu parceiro de jogo e trapacear nas
jogadas! Todos sabiam de suas manobras, mas ninguém dispensava sua presença,
pois, onde quer que estivesse, o ambiente sempre ficava leve e agradável.
Nosso lazer preferido era pescar. Costumávamos ir a um arroio, pequeno
afluente do Rio Tibagi, um bocado de chão além de nosso bairro. Certa vez,
após um dia de pescaria de poucos peixes, passamos por um “perrengue”:
fomos duplamente traídos. Primeiro, pelos peixes que não apareceram. Não
descobrimos onde se meteram; segundo, pela Darda, égua condutora de nossa
charrete que, aproveitando-se do laço frouxo com que a prendêramos a um
arbusto, soltara-se e se mandara. Fugira de fininho, sem a menor consideração
pelo infortúnio que sua má ação nos traria. Nada percebêramos, até quando,
desiludidos da pescaria que não dera em nada, decidíramos retornar para casa.

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E, aí, cadê a condutora de nosso transporte?! Nem sinal... Tivemos de voltar a
pé com uma porção de tralhas nas costas.
Lembro que a uma determinada altura do longo trajeto, meu pai exclamou:
“Walacir, se você quiser levar essas coisas para casa, que leve, porque eu vou
largar tudo isso aqui, agora.” E assim o fez.
Andamos uns seis quilômetros, parte dos quais subindo forte ladeira, até
chegarmos em casa, cansados, estropiados, como se diz no Paraná, para dar de
cara com a “distinta”, muito tranquila, saboreando seu banquete de capim...
Conto esse caso para exemplificar, como em certas ocasiões, meu pai se
colocava como alguém da minha idade. Imaginem?! Largar os apetrechos de
pesca, garrafas de água e café, toalhas, guardanapos, talheres, sanduíches que
sobraram do lanche e... tchau? Estava chateado e pronto!
Lembro-me também de um lance em que ele quase morrera do coração
de tanto susto. Não fazia muito tempo que tínhamos adquirido a tal Darda,
égua em cujo currículo constavam algumas vitórias no Hipódromo de Ponta
Grossa. Com sua destituição das domingueiras pistas de corrida, ela perdera
os aplausos no hipódromo, substituídos que foram por seu atrelamento a uma
charrete, cuja função era entregar, de casa em casa, as compras feitas por
nossos fregueses do empório.
Convenhamos: uma grande descida social e profissional! Pobre Darda...
Pois bem, aproveitando certa ocasião em que se encontrava à toa, montei-a
para dar uma voltinha em frente de casa. A danada disparou, tomando o rumo da
cidade e, apesar dos rogos, apelos e gritos desesperados de meu pai, se mandou
comigo agarrado à sua crina e que, de tão assustado, deveria estar da cor de um
papel em branco. Em seu “tiro”, só parara diante da casa do prefeito, próximo ao
centro da cidade.
Algum tempo após sua estacada, chegara meu pai que, temendo por mim,
viera correndo atrás, desesperado, botando o coração pela boca...
O assunto rendeu muitas análises em nosso bar e, segundo os entendidos,
Darda, por alguma razão, provavelmente relembrara os tempos em que granjeara
prêmios e fama em corridas, disparando com um jóquei às suas costas. Só que
daquela vez escolhera o jóquei errado e quase o matou de susto!

Brincadeiras e amigos de infância

No bairro de Vila Estrela, onde morávamos, crescemos juntos, em casas


muito próximas, quatro primos, todos praticamente da mesma idade: Vilson,
Vitor, Arinaldo e eu. A nós se juntavam amigos da vizinhança com quem nos
divertíamos bastante em atividades muito simples, como comer frutas no sítio da
vovó Olívia, catar pinhão e apanhar frutos silvestres nos campos e na mata, jogar

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futebol e bola de gude, empinar pipa, chutar água das poças formadas pela chuva,
confeccionar balões e buscar lenha para as fogueiras de São João e São Pedro.
São Pedro era o santo padroeiro do tio Pedro, pai do Vítor, e a fogueira com
a qual ele homenageava seu protetor requeria muita lenha; era uma festa nos
embrenharmos na mata à cata dos galhos secos de araucária e de outras árvores.
Mas, talvez, uma das atividades mais excitantes do grupo era mesmo caçar
passarinhos. Era uma marra abatê-los, atividade em que eu me sobressaía por ter
boa pontaria. Quando cadete, muitos anos depois, fiz parte de equipe de tiro com
arma longa numa competição esportiva entre as escolas militares.
Resgatei no tempo essa brincadeira de criança, porque, por meio dela,
vivi uma experiência que me trouxe, como saldo, importante posicionamento
perante a vida.
Guardo a forte lembrança do dia em que jurei nunca mais caçar passarinhos.
Estava brincando nas redondezas da casa da vovó Olívia, com meu bornal
de pelotes – bolinhas de argila cozidas no forno da olaria, onde o tio Chico
Kwiatkowski, marido da tia Lina, trabalhava –, quando avistei um pássaro no alto
de uma árvore. Apontei meu estilingue e zás! No instante seguinte, o bichinho
caíra a meus pés, agonizando. Lembro que o apanhei e, ao colocá-lo na palma da
mão, senti as últimas batidas de seu pequeno coração.
Ora, quantos passarinhos eu já tivera abatido antes, sem me incomodar
com a morte deles! Mas aquele me tocara fundo a sensibilidade e me abalara
seriamente. Fiquei com os olhos cheios d’água, arrependido de meu ato impensado
e inconsequente. Pedi perdão a Deus por haver tirado a vida de uma de suas
criaturas, sem motivo algum que não o de um divertimento tolo, e, ali mesmo,
com o coração destroçado, jurei jamais apontar meu estilingue para qualquer ser
vivo, ao longo da vida. A ideia de que, segundos atrás, aquele pássaro cantava
e voava feliz nos céus me arrasava. Fiquei muito triste mesmo. Essa imagem
permanece viva em minha mente, mesmo após meio século do fato ocorrido.
Cumpri a promessa e, inconscientemente, ao tornar-me adulto, a expandi,
tornando tal compromisso uma tônica em minha forma de proceder. Passados os
anos, compreendi que carregamos sempre conosco um bornal cheio de pelotes.
A diferença entre usá-los ou não e, com que finalidade, só depende de nossa
consciência, da finalidade que queiramos alcançar o alvo e do grau de sabedoria
que já tenhamos conseguido galgar na vida.
Para alguns, um episódio tolo acontecido com um garoto, numa
brincadeira tão comum, não mereceria sequer menção num relato como este,
mas não vejo assim. Cabe a todos nós a reflexão das consequências de nossos
atos – desde os mais simples – de consequências pessoais, até os de maior
repercussão, que envolvem o destino de outros, porque, simbolicamente, os
pelotes estão sempre ao alcance das mãos.

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De toda a patota com a qual convivi mais proximamente, aquele com quem
nunca perdi contato foi com o Vítor, filho do tio Pedro e da tia Angelina, irmã do
papai. Vítor é mais novo que eu quase dois meses; nascemos sob o mesmo teto –
relembrando a vocês –, na casa de nossos avós Alexandre e Olívia. A fama de que
ele fora um bebê calmo, quietinho, e eu um bebê chorão ficou como “mancha em
meu currículo”, fato que mexe com minha vaidade (vocês entendem que estou
brincando, não é?). Em minha defesa, me pergunto se já, naquela época, eu sentia
as dores de cabeça que me acompanham até hoje. Vai saber, hein?...
Pergunta para reflexão e possível absolvição. Deixo em aberto o júri...

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Capítulo 2

Educação para a vida


Curso primário

F ui alfabetizado aos 7 anos no Grupo Escolar Senador Correia, es-


tabelecimento de ensino pertencente à rede municipal de minha
cidade, cuja diretora na época era a senhora Alda dos Santos Rebonato. Minha
alfabetizadora e professora de primeiro ano no curso primário foi dona Jacira
Prestes Carneiro. Nesse tempo, não se chamava professora de tia. Era professora
ou “dona”. E a tratávamos por “senhora”, e não por “você”.
Às vezes, me pergunto: se é que essas duas mestras ainda se encontram
entre nós, como estarão e por onde será que andam? Mas apesar de não tê-las
esquecido, nunca busquei informações a respeito de sua existência. Triste erro,
mas assim é a vida...
Fiz o segundo ano numa escolinha particular perto de casa, cuja professora
era minha prima Diva, filha do tio Zeca, irmão mais velho de papai, de quem
guardo a lembrança do grande carinho que nos unia.
Ao término do ano, voltei para a escola pública onde fora alfabetizado, para
concluir os anos restantes do então curso primário.
O Grupo Escolar Senador Correia ficava longe de casa, e eu me transportava
até ele pedalando minha bicicleta. Nos dias de sol era uma beleza, ademais que
muitas crianças do bairro faziam o mesmo, o que nos permitia vencer as ladeiras
e apostar corrida para ver quem chegava primeiro. Mas em dias de chuva ou no
frio cortante de inverno, o percurso se fazia interminável de tanto desconforto.
O vento doía no rosto; nos dias de chuva era terrível. Pior, mesmo, era quando o
pneu da bicicleta furava e estava chovendo. Aí era trágico: empurrar a bicicleta,
equilibrar os livros, segurar o guarda chuva... Era “brabo”!
Ao me recordar das aulas, lembro que a matéria da qual mais gostava era
Aritmética e, mais adiante, Matemática. Vigorava o método de decorar a tabuada
e quem, quando arguido pela professora, não a tivesse na ponta da língua, levava
bolos de palmatória do aluno que soubesse responder às perguntas. Nessas ocasi-
ões, não havia complacência. O olhar da professora era sempre austero, rígido e
acusador. Graças a Deus, eu nunca levava bolos porque sempre sabia tudo, sem
que para isso fizesse esforço algum. Números e raciocínio lógico, desde cedo,
foram meu ponto forte.
Mas, certa vez, por pouco, não me dei mal. O jogo se virou contra mim, o
“sabichão”. A professora, que já não me lembro mais do nome, havia percebido
que eu tinha pena de bater nos colegas, quando esses não sabiam as perguntas da

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tabuada. Chamou-me a atenção e, para que todos a ouvissem, disse bem alto na
sala: “Walacir, se você não bater com força, quem vai levar os ‘bolos’ vai ser você!”
Opa! Por essa eu não esperava...
E, aí, tive que começar a bater com mais força nos colegas, fato que
me deixava absolutamente pesaroso, constrangido e desconfortável. Não me
comprazia com aquilo. Por mais que a ordem me justificasse perante mim
mesmo e perante os outros, tal procedimento “didático” me desagradava. Eu
ficava pensando quão maçante deveria ser estudar uma matéria da qual não se
gostasse e não achava certo que, por isso, tivesse uma criança de apanhar e
ser humilhada perante os outros.
Meu senso democrático de justiça me fazia rejeitar a situação. Mas con-
fesso que, bem escondido lá no íntimo, minha rejeição tinha um quê de au-
todefesa, pois o Português e, depois, idiomas em geral, por exemplo, nunca
foram meu forte. E eu pensava que se aquele método de levar bolos, por não
saber a tabuada toda na ponta da língua, se estendesse a essas matérias, eu
bem que passaria maus pedaços. E não haveria de gostar nem um pouco de
levar “bolos” nas mãos, não só pela dor física, mas pela humilhação de me
sentir exposto em minhas dificuldades.
No futuro, em que tive a oportunidade de exercer algum poder, nunca gostei
de atuar movido pelo prazer de humilhar, forçar, ameaçar ou coagir, infringindo
medo ou temor em terceiros. Sempre optei por dialogar, fazer compreender e
motivar ao ratificar ordem, respeito e disciplina.

Reflexões de um garoto

Aos poucos, observando daqui e dali, vivenciando essa ou aquela situa-


ção, tomando essa ou aquela decisão, eu começava a construir meu critério de
valores. Entre os fatos mais antigos do qual extraí lições, constava, em minha
lista de rejeição, aquele ritual do lava-pé da vovó Olívia. Nunca achei aquele
procedimento correto.
Depois, vieram as reflexões sobre os “bolos” de palmatória em sala de aula
para, no meio daquelas e de outras observações, que não cabe aqui abordar, virem
as situações relacionadas à honradez e retidão de caráter. Tanto minha família
como a escola eram absolutamente rígidas com relação a tais valores. Advém daí
uma reflexão sobre o valor do “ter”, que merece melhor explicação. Naquela épo-
ca, jamais passara pela minha cabeça ou pela cabeça de meus colegas – garanto
– se crianças como nós viveriam naquela cidade realidade mais confortável ou
abonada que a nossa para, baseados nisso, cobiçarmos o que não nos pertencia.
Encarávamos o quotidiano da forma como ele se apresentava, sem compara-
ções. Para minha geração, não havia essa de que a ou b tivesse a frustração como

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justificativa por ter se tornado assaltante pelo fato de lhe ter faltado, na infância
ou juventude, um tênis dessa ou daquela marca... Isso é coisa de agora. A pessoa
tinha de ser honrada nas pequenas e grandes coisas e ponto. Sem concessões.
O que nós sabíamos era que a realidade de nossos lares era difícil e que di-
ficílima, mas ponha dificílima nisso, tinha sido a realidade enfrentada por nossos
avós, em sua grande maioria imigrantes. Eles encararam suas dificuldades com
honradez, dignidade e muito trabalho. Nós éramos, afinal de contas, uns privi-
legiados que, se nos mantivéssemos corretos pela via do saber romperíamos o
círculo do trabalho braçal, encarado por eles e pela maioria de nossos pais.
Tínhamos como exemplo disso, em nossa família, o tio Zeca, o primeiro a
fazer de uma atividade intelectual seu meio de sobrevivência. Fora professor na
Escola Ferroviária e, em vista do acesso à melhor renda, fora o primeiro a possuir
carro – uma Rural Willys. Tio Zeca era “o letrado” dos Cheriegate, o conselheiro,
o sábio. Simples como um monge, uma das mais belas pessoas que conheci.
Foi muito gratificante fazer parte daquela geração de netos de imigrantes
que dera certo! Daquela geração, surgiram os professores, como meu primo
Vitor (o Vitão, filho do tio Zeca), que se formou advogado, e meu primo Vítor
Leal, que seguiu a carreira de magistrado; surgiram os políticos, como meu
irmão David, que foi deputado estadual no Paraná; formaram-se os engenhei-
ros, funcionários públicos, profissionais autônomos e muitos outros que con-
tribuíram de forma marcante na formação das gerações que vieram depois da
nossa. Temos muito orgulho de um passado sobre o qual há muito que contar,
sem manchas de caráter a nos envergonhar.

Educação religiosa

Por volta dos 8 anos, passei a frequentar a Igreja Presbiteriana, escolha de


minha mãe, que se preocupava com nossa formação religiosa e orientação espiri-
tual. Permaneci seguindo rigidamente as orientações preconizadas pela igreja por
muitos anos. Até hoje, sigo a maioria delas e agradeço a Deus por isso.
Lá pelos 22 anos, passei por séria crise espiritual, que me fizera repensar
certa rigidez de conceitos que, se não me afastavam, também não facilitavam
meu convívio com pessoas que pensassem ou tivessem atitudes e comportamen-
tos diferentes dos meus.
Depois de muito refletir e ponderar, decidi que faria certas adaptações: con-
tinuaria seguindo os ensinamentos da igreja desde que esses não me isolassem do
mundo, desde que me ajudassem a ser melhor dentro do grupo onde atuasse, mas
que não fizessem de mim um deslocado, “um estranho no ninho”. E mais, desde
que eu não sentisse que vivia muito mais em função de “morrer e ir para o céu”
do que para a convivência normal do dia a dia.

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É que, de tão rígido seguidor daquilo que introjetara na consciência como
a lei de Deus, eu me privava de muitas atividades próprias de minha idade por
julgar serem pecaminosas, passíveis de julgamento e de condenação às fornalhas
do inferno, para toda a eternidade. Que exagero de interpretação!
Entrei “num processo de abertura”. Deu certo. Permaneci, em essência,
igualzinho ao que sempre fui, cumprindo meus deveres, respeitando meus su-
periores, exercendo minha cidadania com senso de honestidade e justiça, sendo
leal a meus companheiros e, no fim, percebi que o exagerado tinha sido eu e que
cometera um sério “erro de halo”.
Minha mãe e minha tia Lina, aquela que ajudara a criar minha mãe e seus ir-
mãos, se preocuparam bastante ao saber que eu já não tinha a cabeça unicamente
nas atividades da igreja, mas, depois que constataram que “a ovelha” permanecia
no “aprisco”, se conformaram e nunca interferiram. Deixaram que eu seguisse
minhas escolhas, sem maiores cobranças que não as perguntas cheias de signifi-
cado oculto como: “Tem ido à igreja, Walacir?”

Adolescência

Nosso dia a dia tinha ritmos bem definidos: escola; trabalho doméstico;
ajuda a minha mãe; trabalho fora; ajuda a meu pai e brincadeiras com os primos
e amigos das redondezas.
Em muitas tardes de domingo, minha atividade se concentrava no estádio
do Guarani Esporte Clube, que ficava a uns cem metros de casa. Ali, com
um tabuleiro preso por uma tira que passava atravessada às minhas costas,
eu vendia balas e doces nas arquibancadas enquanto os times de futebol
disputavam suas partidas. Ainda me lembro do refrão com o qual apregoava
minhas mercadorias: “Olha o amendoim tor-ra-di-nho, a pa-ço-qui-nha... tem
também refrigerante ge-la-di-nho...”
De tão perto que o estádio ficava de casa, eu dava meus corridões e trazia
os tais refrigerantes para os fregueses, bem geladinhos mesmo, confirmando a
propaganda.
Naquela época, as garrafas eram de vidro, portanto, pesadas se
transportadas muitas de uma só vez, por isso, eu fazia minhas corridas para
apanhá-las à medida que os pedidos eram sendo feitos. Ainda não havia isopor,
de modo que eu as trazia direto da geladeira. O que não podia acontecer
era perder o comprador no próximo jogo, por usar de propaganda enganosa,
termo que não existia na época.
Lembro bem que os refrigerantes preferidos eram o guaraná Antártica e o
Wimi, refrigerante, cujo sabor se aproximava ao da soda limonada atual. Coca-
cola e Mirinda ficavam atrás na preferência de meus clientes, e não se vendia água

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nas arquibancadas, só refrigerante. Naqueles domingos, eu salvava uns trocados
que repassava a minha mãe.
Quando não ia ao estádio, íamos, minha mãe, meu irmão David e eu, à casa
da tia Lina, que morava no bairro de Olarias, longe de nossa casa. Enquanto
minha mãe e ela atualizavam a conversa, eu me divertia com meu primo Ari, dois
anos mais velho que eu. Ele sempre tinha uma novidade para me contar ou uma
brincadeira nova a me ensinar. Seu irmão Lucas, mais velho que ele dois anos,
portanto quatro acima de mim, era, a meus olhos, quase um “senhor”, o que fazia
diferença quanto aos interesses infantis.
Ari sempre me tratou como verdadeiro irmão, e a ele devo ter aprendido
andar de bicicleta. Hoje, rememorando a infância, admiro seu desprendimento,
pois ser instrutor em seu próprio “veículo”, expondo-o a tombos, amassados e
ralações, era muito para um garoto, cujo brinquedo e meio de transporte era,
naquele tempo, dadas as dificuldades financeiras dos pais, uma preciosidade.
Com ele, íamos juntos até a mata e a campina próximas a sua casa, onde
nos empanturrávamos de frutas silvestres, como amoras, araçás, guabirobas e
pitangas. Eu adorava esse tipo de passeio, pois sempre gostei da natureza.
Tia Lina preparava deliciosas cucas e pães em forma de trança, cujo
sabor e cheiro lembro como um dos mimos mais queridos da infância. Pena
que morássemos tão distantes uns dos outros, porque estarmos juntos era
uma festa para todos nós. Ela e sua família eram os únicos parentes do lado
de minha mãe de possível contato, pois, meu tio Álvaro – o mais velho dos
filhos do vovô Wallace e da vovó Maria Luíza – morava em Irati e o tio
Silvano, em Curitiba.

Cursos ginasial e científico

Fiz os quatro anos do então curso ginasial e os três do curso científico no


Colégio Estadual Regente Feijó. Nessa fase, eu já não fazia mais todo o percurso
de casa à escola de bicicleta. Fazia um trecho inicial a pé, um segundo, de ônibus
e outro novamente a pé.
Quando já era maior e calhava de voltar para casa à noite, a pé, me intrigava
por que as pessoas que passavam de carro não paravam e ofereciam carona. Não
só a mim, mas a tantos estudantes que, como eu, se deslocavam a pé, à noite,
muitas vezes num frio de rachar ou na chuva.
Eu pensava que, se um dia viesse a ter um carro, bem que pararia e oferece-
ria carona, principalmente aos estudantes, nem que fosse só por um trecho. Mas
que pararia, pararia!
Quanta boa intenção e quanta ingenuidade! Meu mundo, até aquela altura,
se limitava a uma pacata cidade de interior do Paraná onde, em seus horizontes, o

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nível de violência e, portanto, de segurança e confiança entre seus cidadãos eram
bem diferentes da realidade das grandes cidades brasileiras.
Quando cheguei a ter meu primeiro carro – aos 25 anos – já havia crescido
o suficiente para saber que a realidade era outra muito diferente e que ninguém
seria tão inocente a ponto de ficar parando o automóvel para oferecer carona a
quem não conhecesse, ainda por cima à noite.

O ponto repetido

Embora tenham se passado mais de 50 anos, guardo a lembrança de um fato


muito engraçado – e desonesto, até – ocorrido numa prova de Inglês do primeiro
ano do curso científico, em que a malandragem de alguns e, no meio desses, eu,
sobrepujou a ingenuidade de um professor. Como já afirmei, meu forte nunca foi
idiomas, portanto, se encontrasse algum atalho que me facilitasse a memorização
da matéria, corria atrás.
O fato que passo a relatar deu-se na prova final de Inglês. Era uma prova
oral na qual cada aluno sorteava um dos 20 pontos representados por 20 números
daqueles bloquinhos redondos de madeira do jogo de loto. A chamada era feita
por ordem alfabética. Assim que determinado ponto era sorteado, o aluno pegava
seu livro, lia a lição e a traduzia diante do professor. Como esse jamais imaginas-
se que tivéssemos a ideia de aprontar alguma esperteza, após sorteado o ponto, a
respectiva pedra era recolocada no saco, de modo que todos os alunos tivessem
chances iguais.
Logo os alunos de nomes cujas iniciais fossem um pouco além do A, B ou C
sacaram a correspondência entre o número da pedrinha e o ponto e de pronto cada um
elegeu a lição sobre a qual queria ser arguido. Ao chegar seu momento, o aluno levava
consigo, na mão meio aberta, meio fechada, a pedrinha correspondente ao ponto que
dominava, fingia que a retirava do saco do sorteio e pronto, notão garantido.
A terceira lição era a mais fácil, por isso, a mais “sorteada”. O professor
só dizia: “Outra vez a terceira!”. Era um pequeno conto no qual o Sol e o
vento disputavam a primazia de quem seria o mais forte. Segundo o relato da
tal história, lá do alto do céu, o Sol e o vento escolheram um homem que, ao
caminhar pela Terra, vestia um grosso capote para se proteger do frio. Ganha-
ria a aposta quem fizesse o homem tirar o tal capote. O vento soprou, soprou
forte, e quanto mais soprava mais o homem apertava o capote contra o corpo.
Chegou a vez do Sol que, muito esperto, focou seus raios tão quentes quanto
brilhantes sobre o caminhante e... ganhou a aposta! Não suportando o calorão,
o homem arrancou o capote.
Só uma explicação: o “golpe” da pedrinha extra só vingara porque os alunos
sabiam, de exames anteriores, que o professor delas se utilizava para o sorteio

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dos pontos e assim as traziam de casa. Na época, era muito comum a moçada
jogar Loto. As pedrinhas vinham junto com os cartões do jogo, num estojinho de
madeira. Quase toda criança tinha tal jogo.
A propósito, minha lição foi a de número três! E a nota, dez, pois eu deco-
rara a tradução.

O ganho

Para arrematar essa etapa de minha vida, quero dizer que estudei todos os
anos em escola pública, menos um, o segundo ano primário. A experiência me
fez ganhar muito, pois com ela aprendi a compartilhar na simplicidade. A escola
pública ratificou os valores de meu ambiente doméstico. Lá, além dos conheci-
mentos intelectuais, aprendi que ser correto e honesto é obrigação.
Devo esclarecer que, já naquela época, havia escolas particulares muito
boas, de ensino mais apurado e frequentadas por filhos de pessoas com mais pos-
ses que meus pais. Mas para o nível socioeconômico a que eu pertencia, acessá-
las seria inviável. O normal era mesmo a “escola do governo”, e, tanto eu como
meus colegas, dávamos graças a Deus por tê-la. Nunca nos sentimos menores por
frequentá-la, nem nos passava pela ideia outra alternativa.
Cada um apresentava um desempenho de acordo com seu grau de inteligên-
cia e dedicação aos estudos e, uns com mais sucesso, outros com menos, íamos
todos preparando o futuro.
Graças a Deus sempre tive destaque intelectual e de comportamento ao
longo dos anos na escola pública, sem, contudo, me julgar melhor que os
outros. Sempre fui ciente de minhas limitações e “corri muito atrás” para
superá-las. Quando os destaques aconteciam, eu sabia com precisão o que
aquele destaque havia me custado em horas de sono a menos, em privar-me
de empinar pipa com os amigos, de jogar bola, de me divertir, de ver filmes
no Cine Ópera etc.

Curso profissionalizante

Ainda no último ano do curso ginasial, aos 14 anos, fiz o que muitos jovens
em minha cidade faziam: busquei um curso profissionalizante para aprender um
ofício que, num futuro breve, pudesse me habilitar a um emprego. Naquela épo-
ca, não existia a cultura do vestibular e da carreira profissional, via faculdade.
Pelo menos em nossa classe social. Quem seguia o caminho da universidade, ter-
mo que não fazia parte de nosso vocabulário, eram os filhos de pessoas abastadas,
como os filhos de políticos, médicos, advogados ou engenheiros. Uma pequena e
reduzida meia dúzia de jovens, somente.

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Busquei formação na Escola Profissional Ferroviária Coronel Tibúrcio Ca-
valcanti, onde, após cursar três anos, me formei marceneiro-modelador. Além do
ofício, a passagem por aquela escola poderia me abrir portas para um possível
emprego na Rede Ferroviária como funcionário público, caminho seguido por
primos mais velhos, como o Ari, o Vitor e o Arinaldo, filhos do tio Zeca, e Lucas
e Ari, da tia Lina. Trabalhar na Rede Ferroviária Federal tinha uma série de vanta-
gens garantidas pelas Leis Trabalhistas do governo do Presidente Getúlio Vargas.
Essas leis garantiam aos trabalhadores direitos, como salário mínimo, regula-
mentação do número de horas da jornada de trabalho, férias remuneradas, não
demissão do emprego após 10 anos de trabalho e outras benesses raras na época.
Meu primo Vítor Leal, filho da tia Angelina – aquele que fora um bebê
“santinho, que não chorava” – e eu estudávamos juntos. Sempre fomos muito
companheiros, mesmo quando disputávamos as melhores notas. Ele estudava na
mecânica e eu, na marcenaria, área de que muito gostava pela habilidade manual
que tinha. Na marcenaria, eu só não gostava da poeira da serragem, tanto é que a
ela credito a “aquisição” de um processo alérgico – a asma – naquela época. Até
hoje, só de ver pó de serragem ou mesmo de pensar nele sinto a garganta trancar.
Ali, no curso da Escola Ferroviária, classifiquei-me em primeiro lugar e
fui escolhido orador de turma. Sentir o orgulho e a satisfação que esse destaque
acadêmico trouxera para meus pais me enchera o coração de felicidade. Lembro-
me de que preparei um discurso bonito, levando em conta minha idade, e que fui
bastante aplaudido. Passados os anos, ao encontrar tal discurso no fundo de uma
gaveta, fui relê-lo e aí então me dei conta de que, em momento algum, me referi
a meus colegas formandos. Não sei se na época alguém deu por isso ou se assim
era o uso. Só sei que nunca chegou comentário algum a respeito dessa falha até
meus ouvidos. O furo “passou batido”, como diria hoje. Mas achei curioso, para
não dizer lamentável, o lapso.
A fase do curso profissionalizante foi física e intelectualmente cansativa.
Frequentar dois cursos, o profissionalizante, de dia e o científico, à noite, com
provas e trabalhos durante três anos, foi puxado, mas dei conta. Minha jornada
diária era bem corrida, bicicleta para cima, bicicleta para baixo naquelas ladeiras,
com escolas muito longe umas das outras e minha casa longe das duas. Eu saía de
casa às 6h30 da matina para a instrução de Educação Física, retornava para fazer
algum trabalho escolar e, ao meio-dia, lá ia eu de novo, pedalando ou empurran-
do a bicicleta nas íngremes ladeiras para as aulas do curso profissionalizante. À
tardinha, voltava para um lanche rápido, deixava a bicicleta e iniciava a etapa que
concluiria às 23 horas.
Quantas vezes, ao regressar do colégio no alto inverno, tendo caminhado
um bom trecho a pé, chegava enregelado de frio em casa e me sentava ao lado do
fogão à lenha para me esquentar.

36
Quando tinha de preparar algum trabalho ou revisar o estudo para prova no
dia seguinte, normalmente, eu usava o estratagema de colocar os pés dentro de
uma bacia com água fria – sim, isso mesmo, água fria –, apesar do inverno, para
manter-me desperto.
Meus pais me esperavam acordados para um dedinho de prosa e para um
copo de Toddy quente com bolo.
Não me considero herói nem mártir pelo meu desempenho naqueles anos.
Com certeza, a “puxada” era a mesma para grande número de estudantes como
eu. A diferença é que, por levar o estudo muito a sério e ter fascínio por disputa
intelectual, eu tinha de me dedicar bastante para chegar na frente dos concorrentes.
Mas, já naquela época, pelos meus 16, 17 anos, sabia que queria mesmo era
ser aviador. Que ideia estapafúrdia, não? Que garoto para inventar novidades lu-
náticas?! Como tal ideia tomava espaço numa cabeça até então bem equilibrada?
Pois é... Eu queria ser aviador militar.
Eu sonhava com o impossível. Sonhava! Aquela aspiração contrariava qual-
quer lógica ou bom senso, dentro da realidade do meu dia a dia, e a inviabilidade
era bem próxima da total. Era um sonho! Sonho, no mais profundo sentido da
palavra.
Por essa época, nascera meu irmão William que, de imediato, ocupara por
inteiro nossos corações. Meu irmão David, então com 13 anos, e eu nos revezá-
vamos para permanecer perto dele o máximo que nosso tempo permitia. Nossa
paixão por aquele bebê nos fazia esquecer tudo. Quase tudo, pois eu não me des-
prendia da ideia de ser aviador da Força Aérea Brasileira, por isso, não relaxava,
ao contrário, me desdobrava nos estudos.

37
Capítulo 3

Chamamento para a aviação militar


“Alguns homens são chamados a caminhar em direção ao Sol, na luz dos seus
próprios raios, arrastando com eles aqueles que irão propagar as suas chamas.”
(Transcrição de pesquisa anônima)

O despertar

D esde muito antes de Ícaro que crianças e adultos se subjugam ao


fascínio de voar. Minha fascinação pela aviação e pelo voo surgiu
na adolescência, na década de ouro do Cinema, nos anos 1950. O mundo vivia o
período da Guerra Fria, e Hollywood produzia filmes e filmes de guerra, em que
era farto o número de emocionantes combates aéreos.
Foi aí, por meio dessas películas, que meu despertar aconteceu. Quando
se quer alguma coisa de verdade, corre-se atrás, e eu queria mesmo ser aviador
militar. Como o dinheiro era curto e o destinado ao lazer mais ainda, eu me
utilizava da manobra de economizar no lanche da escola e na compra de gibis
– revista em quadrinhos – durante a semana, para, assim, garantir a compra da
entrada nas matinês de domingo do Cine Ópera.
Ali tive a oportunidade de assistir a filmes como Inferno nos Céus, com
Cliff Robertson; O Ás dos Ases, com Jean-Paul Belmondo; O Dia D, com Robert
Taylor; Asas nas Trevas, também com Robert Taylor, entre vários outros. Os
heróis de minha geração foram os heróis desses filmes, e eu os acompanhava
na tela sem sequer piscar. Quando saía do cinema, voltava para casa revendo
as cenas e revivendo as emoções; chegava a sentir o coração pulando no peito,
tamanha a emoção.
E aqui faço uma volta ao passado mais ou menos recente, com relação
àqueles anos do adolescente que decidira ser piloto militar. Acredito que, a essa
altura deste relato, vocês que me leem estejam se perguntando se aquela promessa
de nunca mais “apontar meu estilingue e caçar passarinho” iria ser quebrada. Falo
em sentido figurado mas entendo que, possivelmente, vocês queiram me dizer:
“Como coordenar tal promessa se um daqueles aviões de combate que um dia
eu queria pilotar era arma infinitamente mais mortífera que qualquer estilingue
jamais seria?”
Boa pergunta, não é? Haviam pensado nessa dicotomia? Pois bem,
aquele garoto que sofrera tanto por ter abatido um passarinho continuava com
seus propósitos, só que crescera e descobrira que o mundo não imitava a vida
em Vila Estrela, pequeno bairro onde nascera e se criara; onde as pessoas se

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cumprimentavam, encomendavam as flores da dona Nair, compravam fiado no
empório, trabalhavam pesado, viviam em paz e, quem não vivia em paz, podia
até recorrer aos conselhos do tio Zeca, a fim de melhor se orientarem na vida etc.
O “piá” Walacir – como se chama “garoto” no Paraná – crescera e passara
a entender que, no mundo, havia inimigos que, num piscar de olhos, podiam
destruir famílias, invadir sua pátria e destruir seu país, igualzinho àquilo que via
nas películas do Cine Ópera.
E isso era muito forte! Uma suposta realidade daquelas, ele jamais
aceitaria! Já, naquela época, era profundamente patriota. Sirvam de testemunho
as paradas de 7 de setembro, em que seu coração quase saltava pela boca ao
acompanhar, com profundo fervor, o bumbo da escola em sua marcação “um
dois, feijão com arroz”, para que os estudantes desfilassem homenageando o
raiar da liberdade em sua pátria.
Não! Ele tinha de se preparar, de saber fazer aquelas piruetas no ar; ele tinha
de se tornar piloto militar e garantir seu ingresso no grupo dos que defenderiam
a paz, pela eficiência da defesa; se preciso fosse, ele daria a vida por essa causa.
Foi pensando dessa forma que internamente o questionamento foi resolvido.
E a vocês, convenceu a explicação? Pois foi a pura verdade!
Fiz da paz meu objetivo como militar e nunca me arrependi de seguir
minhas convicções. Ela foi e será sempre minha bandeira. Hasteada. Desfraldada.
Iluminada. Paz, concórdia e junção de esforços para o Bem.

O sinal que veio dos céus

A partida para a realização do intangível sonho se deu por uma dessas obras
que chamamos de acaso. Ou destino. Tenho até vontade de começar esse relato
dizendo, como nos contos de fada: “era uma vez um garoto que queria voar...”
Pois bem, era uma vez um garoto que brincava na rua, nas proximidades da
casa de seu tio Zeca, quando, de repente, ouviu um ronco de motor e o surgimento
de um pequeno avião no céu. Esse piá não era eu. Era meu primo Vilson, filho
do então falecido tio Victor, irmão do papai, um dos primos daquele grupinho de
convivência mais próxima ao qual me referi um pouco atrás. Firmando a vista no
trajeto daquele voo, fato raro em Ponta Grossa, ele viu que, da cabina daquele
avião, lançavam papéis sobre nosso bairro. Ficou curioso; queria saber de que
se tratava. Largou a brincadeira, largou os amigos e deitou a correr atrás de um
daqueles exemplares.
Ao alcançar um deles, viu que era propaganda de um curso por
correspondência que preparava candidatos para o concurso da Escola de
Especialistas de Aeronáutica (EEAR). A ideia passada pela propaganda era a de
que, no fim daquele curso preparatório, o aluno estaria capacitado a se matricular

39
naquela escola, saindo dali aviador militar. Pelo menos, foi isso o que ele deduzira
da rápida leitura.
Aviador, como aquele da ilustração!
“Ei!!!?”, meu primo parou de repente, pois tivera um estalo: “é isso mesmo
o que o Walacir quer!”
Fecho os olhos e o vejo direitinho chegando a minha casa com um dos tais
panfletos nas mãos, numa postura de quem carrega algo precioso: um troféu.
Um troféu que lhe custara uma boa corrida atrás de um papel que, ao pairar no
ar, dera uma porção de volteios, fizera fantásticas piruetas, impulsionado pelo
vento e que, enfim, pousara a seus pés. Depositara-se graciosamente, como que
oferecendo a grande chance para a realização do destino de alguém. O meu!
Causa-me profunda emoção voltar no tempo e, reconhecidamente, agradecer
a dedicação do gesto do Vilson. Tanto ele como os demais primos e amigos
sabiam de minha grande paixão por tudo que envolvesse aviões, daí a urgência e
o entusiasmo com que veio me trazer o tal panfleto.
E ao recebê-lo e verificar do que se tratava, meu coração quase saiu pela
boca! Meu sonho existia de verdade! Estava ali! Eu quase podia tocá-lo! Eu
poderia chegar até ele! Realizá-lo! Eu pulava de alegria agarrado àquele papel
ilustrado com a imagem de uma aeronave de caça, em perfil, em posição de ataque
ao solo, e com um piloto usando capacete de voo. Era tudo que eu queria ser!!!
Aquele episódio marcara a primeira grande emoção de uma cadeia de muitas
outras que me conduziriam à concretização de meu ideal e de meu destino.
O passo seguinte foi, com o apoio de meus pais, me inscrever no tal curso
preparatório, que era por correspondência. Apesar das apreensões de minha mãe
que, por achar a profissão “perigosa demais”, temia por me ver seguir tal carreira,
meti a cara nas apostilas, estudando com afinco.
As notícias das tragédias aéreas transmitidas pelo rádio não ajudavam.
Só faziam crescer a apreensão de todos. Porém, ninguém tinha como me
demover da ideia! Não tinha jeito, eu estava com ideia fixa: desenhava
aviões nos cadernos, recortava aviões das poucas revistas a que tinha acesso
e os pregava nas paredes do quarto. Acompanhava os acidentes transmitidos
pelo rádio, respirava aviões, voos, uma obsessão. Era deixar-me ir aonde a
vida me conduzisse. E assim foi.
Participei do concurso realizado na Escola de Oficiais Especialistas e
de Infantaria de Guarda (EOEIG), em Curitiba, e fui aprovado! E aí minha vida
mudou, mas mudou num vórtice vertiginoso. Foi como se, nos dias de hoje,
alguém acionasse a tecla forward na velocidade máxima de um eletroeletrônico,
como um reprodutor de DVD.
Aquela aprovação acionara nada mais, nada menos que a fantástica energia
que moveria a mola de meu futuro.

40
E, então, de uma hora para outra, praticamente sem um consistente preparo
emocional para uma separação tão profunda quanto repentina, lá se foi embora o
filho mais velho da dona Nair e do seu Chico para uma vida que nada tinha a ver
com a que tivera até então.

Despedida familiar

Meus pais foram muito dignos e fortes, alegraram-se com minha vitória e
abençoaram com todo amor minha partida. E lá fui eu, inocente como um garoto,
para um mundo completamente desconhecido, em direção a meu destino e para o
tão sonhado universo azul da Força Aérea.
Anos depois, chegado à maturidade, pude avaliar o quanto meus pais
sofreram com minha partida e como foram grandes, permitindo que eu
seguisse minhas escolhas! Até então, vivêramos num mundinho arrumado,
onde tudo que acontecia era previsível, um mundinho limitado às idas à
escola e à igreja aos domingos, à convivência com os irmãos e primos, às
visitas diárias aos avós e parentes, mas, tudo ali: ao redor, à mão; sob o
olhar cuidadoso e protetor não só deles, como de todos os mais velhos do
“clã”. Agora partiria eu, sabe lá para encontrar o quê, para estar em quais
companhias e para ser orientado sabe lá por quem...
Seus receios e temores são os mesmos de todos os pais quando, de repente,
se dão conta de que suas aves estão prontas para alçar voo e se perguntam,
angustiados, se lá na esquina tem alguém com estilingue e pelote em posição
com chance de abatê-los. Saberão se safar?
O que sabemos é que, só quando o tempo completa uma volta ao redor
da nossa vida e acompanhamos a partida de nossos filhos para suas escolhas,
é que temos a noção exata do sofrimento que nossa partida representou para
eles. Só então constatamos o que afirmara o poeta Gibran Kalil Gibran em
seu poema Teus Filhos: “Somos arcos de onde nossos filhos são lançados
como flechas vivas para o mundo.”
Mas a natureza é sábia, e os ciclos da vida apresentam lições de
sabedoria, na medida certa do que podemos suportar. Soubéssemos muito
jovens das apreensões e dos receios, das saudades e dos sacrifícios de nossos
pais, provavelmente, muitos de nós fraquejaríamos em nossos anseios,
apequenaríamos nossos sonhos, nos anularíamos em nossas realizações,
negaríamos o próprio destino.
E é por isso mesmo: pelo desconhecimento dos sacrifícios, das dores e das
saudades dos que são deixados para trás que a juventude vive o ímpeto e a pujança
desbravadora da etapa mais bela da vida. Em seu arrojo segue em frente. Cria o
progresso. Faz o mundo crescer, caminhar, evoluir, se transformar.

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A consciência da responsabilidade de liderar jovens

De meu episódio pessoal de partida aprendi uma lição muito especial: a


prestigiosa responsabilidade de, quando já mais maduro, receber a distinção de,
algumas vezes, comandar jovens.
Ao ser designado para tais missões, eu trazia a noção do bem precioso
que tinha sob minha responsabilidade: sabia que conduzi-los e ajudá-los a se
completarem como seres humanos queria dizer extrair-lhes o melhor de seus
múltiplos talentos. Eu sabia que, por trás da pujança e do vigor dos sonhos daqueles
meus jovens comandados, havia uma família para a qual eles representavam a
maior preciosidade. Eu sabia que conduzi-los no caminho da hombridade, da
correção, da disciplina militar, do comprometimento com suas responsabilidades
não me outorgava o direito de buscar o caminho curto e medíocre da ameaça ou
da punição, para dar sentido à minha autoridade como comandante.
Sabia que seria meu dever ouvi-los, aconselhá-los, guiá-los pela exortação
ao bem, ao certo e ao que era bom; sabia ser minha obrigação ajudá-los a serem
fortes. Fortes pelo caráter, pelo discernimento, pelas qualidades, pela autoestima
bem trabalhada. Sabia ser meu dever apontar-lhes os faróis que lhe iluminassem
o pedestal de homens completos. Completos perante si próprios, perante os seus
e perante a pátria, para a qual destinariam suas vidas.
Fui muito feliz em tais cargos e funções. Afirmar que fui feliz não quer
dizer que fui perfeito, que acertei sempre e em tudo. Não! Dizer que fui feliz
é dizer que sempre agi movido pela intenção correta do bem que poderia
veicular através desses comandados, do bem que poderia potencializar e
propagar por meio deles, fomentando o compromisso profissional com um
apurado senso ético de justiça, com o respeito para com a família e seus
valores, com a pátria, com o espírito de união... com a paz...

A porta de entrada para a FAB

Cheguei à Escola de Especialistas de Aeronáutica numa completa e total desin-


formação do que seria a vida na caserna. O único militar que tivera na família em nada
pudera me ajudar, meu pai, que servira por pouco tempo no Exército como soldado, fato
que já contei no começo destas memórias. Se do Exército ele nada sabia, imaginem da
Aeronáutica... E muitíssimo menos ainda da missão da Escola de Especialistas.
Meu trajeto foi: de Ponta Grossa até Curitiba, dali até São Paulo e de lá
até Guaratinguetá, tudo de ônibus. Para quem nunca saíra sozinho de casa, só
aquela “aventura” já me fazia um herói aos próprios olhos. Levara comigo
uma mala cheia de roupas, um enxoval. Que desinformação! Não sabia que
na caserna só usaria uniforme militar. Primeiro “fora”.

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Pelo desconhecimento do significado de posto, graduação ou hierarquia,
logo de cara, cometi uma gafe de proporção federal, ao me dirigir a um “fardado”,
na sala de oficial de serviço, chamando-o de sargento, quando esse era um tenente
em serviço de oficial de dia.
Mancada...
De fato, só o que eu sabia mesmo era que ali estava para estudar bastante,
fazer um curso e me formar piloto militar. Sair voando num avião como aquele
do panfleto, usando capacete parecido com o daquele aviador. Ah! Como seria
bacana. Estudar? Ora, disso eu gostava. Estudar muito? Isso não me assustava,
só me incentivava!
Meu curso começou no dia 1º de agosto de 1960, data oficial de minha
entrada na Força Aérea. Todo ano, rememoro essa data; ela me é muito cara
e significativa. Até hoje, me emociono ao revivê-la. E todo ano o desfilar de
imagens se repete.
Em bem pouco tempo, porém, compreendi que não me encontrava na escola
onde se formavam os pilotos, mas na escola onde eram preparados os profissio-
nais que propiciavam as condições para que os aviões voassem. Ali se formavam
os sargentos especialistas! Ou seja, a história não era bem daquela forma como
o Vilson e eu entendêramos ao ler aquele panfleto lançado do pequeno avião. E,
claro, entrei em conflito. E aí?! Que fazer, se o que eu queria era voar?
Soube, então, que, para minhas pretensões, minha porta de entrada na FAB
deveria ter sido pela Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), situada em
Barbacena, Minas Gerais, onde deveria ter cursado o segundo grau, na época, o
curso científico, adaptado às exigências militares.
Porém, ali na Escola de Especialistas, estava eu com o curso científico
completo, feito em Ponta Grossa, lembram?, tendo encarado aquelas dificuldades
que descrevi. Caso resolvesse fazer concurso para a EPCAR teria de repeti-lo.
Mas essa era outra história. Voltando ao ponto, e... aí? Minha cabeça girava,
e os pensamentos davam voltas. Ora eu achava que deveria voltar para a vida
civil, ora achava que deveria permanecer, porque, pensando bem, já estava
dentro da Força Aérea. Em pouco tempo, me formaria sargento, passando a
receber proventos bem superiores à renda de minha família. Deveria ficar porque
poderia ajudar minha família financeiramente – fato que já ocorria ao enviar-
lhes parte do que ganhava como aluno – e porque tinha gostado do ambiente de
companheirismo que encontrara ali, na caserna.
O conflito remoía na minha cabeça o tempo todo. E eu calado. Quieto.
Fui “acolhido”, digamos assim, primeiramente, por alunos oriundos do
Norte e do Nordeste, “bichos” como eu, que chegaram antes de mim à EEAR
e que tinham sido soldados ou cabos da Aeronáutica em outras unidades. Eles
ainda se vestiam como militares e, por terem experiência de vida na caserna, me

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ensinaram o bê-á-bá dos procedimentos básicos e essenciais. Foi com eles que
aprendi a fazer continência, identificar os postos e as graduações hierárquicas e
certas peculiaridades do dia a dia da vida militar.
Ainda me lembro das conversas no alojamento, antes de dormir, em que
eles me ensinavam o posicionamento correto da mão ao fazer o cumprimento de
continência.
Distantes de seus familiares, com chance de irem em casa somente nas
férias, esses alunos se uniam fortemente na intenção de sobreviver às saudades
dos seus e à falta dos amigos, de modo que a solidariedade, o companheirismo e
a generosidade eram muito presentes em seus atos. Gostei do ambiente; gostei do
“clima”, da ordem, da disciplina, da clareza das intenções.
Pesando prós e contras, tomei a decisão de ficar. Decisão tomada, ok! Vamos
esquecer o que ficou para trás! Mas permaneceria na escola impondo-me a condição
drástica de pertencer a uma especialidade que me mantivesse bem longe do voo.
Consciente de minha habilidade para o desenho técnico, escolhi fazer Desenho.
Mas o que é que se sabe mesmo da vida? O que eu estava longe de imaginar
é que o curso de sargento especialista não só me acrescentaria conhecimentos
e realizações, como me prepararia e propiciaria amadurecimento para decisões
maiores, num futuro breve, que eu jamais ousara apostar outra vez que fosse
possível. Mas isso já, já, eu conto...
Antes devo arrematar o assunto de como fui recebido na EEAR. Devo dizer
que guardo na memória as feições daqueles amigos. Devo dizer que, apesar de
passados mais de 50 anos, eles se fazem sempre presentes dada a importância
que lhes atribuo. Quem sabe não tivessem eles sido o que foram quando cheguei
tão por fora de tudo àquela escola e depois tão desiludido por dali não sair piloto,
seria bem possível que tivesse desistido da Aeronáutica e tomado outro rumo?
Um rumo que não seria o do meu destino.
Assim, filosofando, concluo que simplesmente eles e eu nos reconhecemos,
pois logo fizemos parte da mesma corrente, a corrente que une a missão dos que
fazem a Força Aérea.
Não me recordo mais de muitos de seus nomes, porém, o calor humano, a
fraternidade e a solidariedade que deles recebi fazem parte do acervo no qual me
baseio para sempre acreditar na bondade desinteressada do ser humano.
Para concluir essa reflexão, seria injusto, no entanto, se eu destacasse tão
somente o grupo de colegas do Norte e Nordeste, como inicialmente citei. Incluo
todos. A integração entre os demais, como os do Sul, os paulistas, mineiros e
cariocas, era também muito boa, tanto é que visitei pela primeira vez o Rio de
Janeiro a convite do colega Celso, do curso de desenho.
Ao mexer nesse meu baú de lembranças, pergunto-me, como faço de vez
em quando com relação à diretora Alda Ribonato e a professora Jacira, por onde

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andarão e que destinos tomaram esses companheiros. O Celso é um deles. Lembro,
agradecido, até hoje, o pequeno ventilador que ficara ligado a noite toda, pertinho
de nossas camas, por causa do calor intenso do Rio de Janeiro. Ventilador? Aquilo
para mim era novidade. Com o frio a que eu estava acostumado no Paraná, tal
eletrodoméstico estava muito mais para um supérfluo desconhecido do que para
algo imprescindível para um bom sono.
Resgato esses bons companheiros do álbum das lembranças de meu começo
na Força Aérea, enviando-lhes o melhor de minhas vibrações fraternas.

Dedicação aos estudos

Estudei muito durante aqueles três semestres na EEAR, apesar de ter o


curso científico em um universo cujo requisito era o do curso primário – nível de
escolaridade certamente insuficiente para aprovação e qualificação no concurso.
E lhes digo por quê. É que grande parte do conhecimento transmitido em sala
de aula era novo para mim. Era para os outros também, mas como sempre fui
fascinado por estudo e por disputa intelectual, tinha de estudar mesmo.
Em nossa rotina, nós, os alunos, preparávamos as lições à noite – das 19h
às 21h –, em sala de aula, em horário destinado ao estudo obrigatório. Mas logo
percebi que naquele horário não alcançaria o rendimento intelectual à altura de
meu nível de exigência. Concluí que melhor seria deitar o mais cedo que pudesse
para então acordar bem antes do toque de alvorada e, na quietude do dia que
amanhecia, meter a cara nos livros.
O que eu fazia, então? Solicitava ao aluno de plantão que me acordasse às
4 horas da manhã. Rapidinho e silenciosamente pulava da cama e, como naquele
horário não havia sala aberta na Divisão de Ensino, na maioria das vezes, eu
estudava embaixo de postes de luz, nas proximidades do Corpo de Alunos, o que
não era nada confortável no rigor do inverno de Guaratinguetá, nos idos de 1960
e 1961. Mas eu gostava mesmo de estudo e queria concluir o curso bem colocado.
Meu esforço foi compensado. Concluí a primeira série em primeiro lugar e,
por não ter apresentado contraindicação no exame psicotécnico, tive a chance de
escolher a especialidade que melhor me aprouvesse. Pelos motivos anteriormente
citados, escolhi Desenho e, assim, cursei o restante da grade curricular exigida
pela escola.
A solenidade de formatura da 136ª Turma de Especialistas foi realizada em 22
de dezembro de 1961. Comandava a EEAR o Brigadeiro do Ar Miguel Lampert.
Jamais poderia sonhar que 36 anos mais tarde ali estaria eu como brigadeiro
do ar, comandando aquela unidade de ensino, o Berço dos Especialistas.
Recebi as divisas de terceiro-sargento das mãos de meu emocionado e
saudoso pai Francisco, que fora à minha formatura, somente ele, provavelmente,

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dadas as restrições financeiras da família. Já não me lembro ao certo.
A classificação em primeiro lugar entre os 275 formandos permitiu-me
receber os seguintes prêmios:
• EEAR – entregue pelo ministro da Aeronáutica – Major Brigadeiro do Ar
Clóvis Monteiro Travassos;
• Prêmio Força Aérea Argentina; e
• Prêmio Força Aérea Chilena.

Escolhi e fui classificado no 1º/14º Grupo de Aviação, sediado na Base


Aérea de Canoas, RS. Escolhi tal unidade porque, como sulista, queria ficar mais
perto de minha família e de meu estado. E, como desenhista, bem longe do voo.
Mal sabia o que me esperava...

Esquadrão Pampa

Dê-se o nome de Poder Maior, Deus, Grande Arquiteto do Universo ou


Destino à força que me guiou na escolha de um esquadrão de caça para servir
como primeira unidade depois de formado sargento.
Pego de surpresa outra vez pelo desconhecimento do conteúdo de minha
escolha, de repente, me vi cara a cara com aquilo que procurei evitar ou, melhor,
fugir: o voo. Como num passe de mágica, estava eu ali num ambiente que
transpirava entusiasmo e vibração pela atividade aérea. O Esquadrão Pampa.
E aquele sonho de ser piloto militar retornou com toda intensidade.
Mas só se entrava para a Escola de Aeronáutica via EPCAR. Mesmo que,
agora, eu me dispusesse a fazer o caminho todo de volta e partir do zero, já teria
ultrapassado a idade limite estabelecida para a entrada naquela escola. O que
fazer?!
Já, já eu conto. Primeiro vamos a Canoas, onde me apresentei no final de
janeiro de 1962.
Minha chegada se deu numa fase politicamente sensível, logo após a
eclosão do movimento conhecido como Legalidade (1960), liderado pelo
governador gaúcho Leonel Brizola. Os oficiais se posicionaram politicamente
contra o movimento, ao contrário dos suboficiais e sargentos. Difícil admitir um
fato desses na vida militar, mas foi o que aconteceu. Os graduados apoiaram
maciçamente o incendiário governador, estabelecendo-se com a divergência de
opinião política, a quebra da unidade de pensamento entre o efetivo daquela
organização militar. Sentimentos de hostilidade, desconfiança e animosidade
passaram a nortear o relacionamento entre os dois grupos.
Para se ter ideia do nível de hostilidade entre eles, os suboficiais e sargentos
impediram a decolagem do esquadrão de caça, que se deslocaria para a Base

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Aérea de Cumbica, no auge da efervescência política. A decisão de deslocar
os aviões para São Paulo deveu-se ao julgamento dos oficiais de que aquelas
aeronaves não poderiam correr o risco de sofrer atos de sabotagem por possíveis
extremistas políticos seguidores de Brizola. Foi com base no conhecimento de tal
decisão superior que suboficiais e sargentos rebelados posicionaram barricadas
na pista, impedindo o deslocamento das aeronaves.
Havia informes (informações não confirmadas) de que as aeronaves de
caça do 1º/14º GAV poderiam atacar o Palácio Piratini, em Porto Alegre, sede do
governo estadual.
As decolagens não aconteceram, o deslocamento para São Paulo não se
efetuou e, para o bem de todos e a felicidade geral da FAB, atos de sabotagem
não se materializaram. Apesar de todas as dissensões, o amor à Força foi maior.
Impressionante o poder de uma liderança – no caso, a do governador Leonel
Brizola – capitaneando ânimos em momentos de tensão, quebrando a ordem, a
disciplina e o respeito às regras da hierarquia, tudo com vistas a seus interesses
políticos. Sua liderança causou, por algum tempo, grande estrago moral na tropa.
Haveria muito a contar, mas não é o caso estender-me sobre esse assunto, a
imprensa da época registrou tudo em detalhes.
Mas fato é que, ao chegar àquela unidade aérea, fazer uma rápida leitura da
situação e me dar conta do fosso entre aqueles brilhantes companheiros de farda,
registrei minhas impressões e fiquei “na minha”. Não tinha por que me meter
num impasse que não me dizia respeito. Meu lado era o da minha pátria.
O melhor é que a sorte ficou do meu lado naquele episódio, pois, por eu ter
me apresentado naquela Organização Militar (OM) após a eclosão do referido
movimento, fiquei resguardado da hostilidade reinante. A rixa era entre os que
já ali se encontravam. E, mais ainda, por pura boa vontade do destino, minha
mesa de desenhista ficava na Seção de Informações, justamente no local onde os
oficiais se encontravam nos intervalos de voos, permitindo, dessa forma, que a
aproximação entre eles e eu se desse naturalmente, pelo contato constante.
Eu sabia e sentia que aquele clima não tinha como perdurar, não tinha
lógica, nem sentido. Uns precisavam dos outros e havia forte comprometimento
profissional com a missão da Unidade, independentemente de posto ou
graduação. O 1º/14º Grupo de Aviação – 1°/14° GAV – era uma elite e aquele
clima de dissensão não teria como progredir e perdurar. Permaneci onde estava:
na “escuta”.
Decepções comprovadas e arrefecido o calor das paixões pelo movimento,
os ânimos foram se acalmando, o bom senso foi se restabelecendo e o esporte –
futebol – em conjunto, como vetor de reaproximação, encarregou-se de restaurar
a união entre os dois grupos. A paz retornou.
Quanto ao relacionamento e à aproximação com meus pares, muito me

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ajudou a decisão de ter-me voluntariado para fazer o Curso de Instrução Técnica
dos aviões TF-7 e F-8, junto com os colegas da área de mecânica. Meu interesse em
saber detalhes desses aviões era movido pela necessidade de conhecimentos que
me ajudassem nas possíveis solicitações em minhas atividades como desenhista.
Eu era o mais novo do grupo, o caçula, o “novinho”, recém-formado; conta-
va 20 anos e esse fato talvez tenha motivado a boa vontade em aceitarem aquele
jovem que, mesmo não fazendo parte do grupo da mecânica, demonstrava in-
teresse como se a ele pertencesse. Tão dedicado aquele jovem se mostrara que
acabara tirando a média mais alta daquele curso, ganhando com o feito uns bons
cascudos dos companheiros mais velhos. De brincadeira, claro!

Atleta herói

Lembro-me do dia em que, graças ao esporte, virei herói por alguns minutos.
Nas comemorações da Semana da Asa, era tradicional um torneio de futebol de
salão entre os sargentos dos diversos esquadrões e setores da Base Aérea de
Canoas. Fui convocado para o time do 1º/14º GAV. Durante o campeonato todo,
não joguei um minuto sequer, pois em nosso time só tinha feras.
No intervalo dos jogos, sem ter o que fazer e, para não ficarmos parados,
alguns reservas e eu ficávamos batendo pênaltis na quadra por pura distração.
Fazíamos assim em todas as partidas. Até que nosso time chegou à final, com uma
partida que terminara empatada, com o escore de empate mantido na prorrogação.
A decisão do campeonato seria por pênaltis. As torcidas ensandecidas
torciam tanto que parecia estar em jogo, no mínimo, a decisão de um campeonato
estadual. O nervosismo contagiava até os jogadores mais experientes. Com a
responsabilidade de decidir no tudo ou nada dos pênaltis, nenhum dos titulares
se “credenciara” para chutar os cinco pênaltis decisivos. Naquela época, apenas
um jogador cobrava todos os pênaltis. Para complicar, o primeiro time cobrava os
cinco previstos, sem a intercalação que acontece hoje. O efeito moral ocasionado
pelo possível acerto de todos os chutes era devastador...
Fui escalado para cobrar os cinco pênaltis, sem chance de não aceitar. E aí? O
frio na barriga quase me congelou, mas fui lá encarar a sorte. Ah! Sorte, me acuda!
O adversário acertou todos os cinco pênaltis. Fez os cinco gols. Nossa
torcida emudeceu. Nossos titulares viraram as costas para a quadra, nem queriam
ver o que contavam como certo que aquele “novinho” faria: total desastre.
Respirei fundo, buscando calma em algum canto do caldeirão de emoções
em que eu me havia tornado, e converti em gols o primeiro, segundo e o terceiro
chutes. O ambiente foi se alterando favoravelmente, com nossos titulares
estampando no semblante alguma esperança. Converti em gol, então, a quarta e a
quinta cobrança. Outra vez, os dois times, empatados!

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Nossa torcida levantou-se no estádio e a adrenalina foi às alturas! A partir
daquele momento, as cobranças se alternariam, como acontece pelas regras
atuais. E eis que o adversário chutou fora a primeira cobrança. Chegara minha
vez de cobrar. Meu coração disparou, o equilíbrio se foi e chutei na trave. Mas o
dia seria nosso. Ele errou a segunda cobrança e eu converti a minha em gol.
Foi a glória!!! Só me lembro da invasão do campo e das comemorações sem
fim daquele emocionante final de campeonato. Naquela noite, fui o herói!
Um episódio desses não dá para esquecer, não e? Tinha de lhes contar essa marra...
Permaneci naquela vibrante unidade aérea por dois anos: 1962 e 1963.
Naquele curto tempo, tive a singular oportunidade de registrar a vida como
graduado, experiência que me foi extremamente útil, mais adiante, quando
passei ao quadro de oficiais. Conheci a realidade de seu dia a dia como também
testemunhei a importância de seu trabalho, isoladamente ou em conjunto com o
dos oficiais especialistas, no cumprimento da missão da FAB.
Aprendi que para que uma organização desempenhe com sucesso a missão
que lhe cabe, faz-se mandatório contar com a soma das aptidões dos grupos
que a compõem. Se os grupos somam esforços, valorizam-se e respeitam-se
mutuamente, haverá sucesso. Caso contrário...
De meu posto de observação, no silêncio de minhas reflexões, a cada dia
eu sedimentava mais e mais a diferença entre temor e respeito; admiração e
imposição.

Debutando num caça noturno

Meu primeiro chefe, o 1º Tenente Aviador Oswaldo França Júnior, soubera


que eu nunca voara e que era louco por avião. Soubera que sequer num teco-teco
eu me introduzira. Prometeu-me um voo tão logo surgisse uma boa oportunidade.
Vivi dias de expectativa, de esperança e de apreensão que ele se esquecesse
da promessa. Certa tarde, próximo ao fim do expediente, ele me falou: “Walacir,
você quer voar hoje?” Quase pulei! Num misto de alegria e emoção, eu respon-
dera que sim e, na expectativa, fiquei sem saber como proceder quanto a me
preparar fisicamente para o tão esperado momento. O fato de fazer meu primeiro
voo num caça e à noite aumentava a emoção. Fiquei meio apatetado, não sabia
mesmo como proceder. Um colega, sargento, me disse: “Não coma antes de voar,
pois, você pode enjoar.” Outro colega me aconselhou o oposto: “Não voe com
a barriga vazia.” E aí? Optei pelo segundo conselho, receoso de pôr a perder o
mágico acontecimento pelo desconforto de voar sem me alimentar direito.
Meu début fora muito além do que imaginara em meus devaneios! O jovem
piloto, o 1º Tenente Jaeckel, auxiliou-me a vestir o macacão e a colocar o capacete
para realizar aquele voo de treinamento. Recordei que o capacete era similar ao

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daquele do folheto que me mostrara o caminho para a aviação militar. Lembro-me,
nos mínimos detalhes e com muita felicidade, daquele memorável voo. O piloto
parecia dialogar com o avião, um Gloster Meteor inglês TF-7. Quando na cabeceira
da pista, ele lhe falou que ali à frente havia 2.000 metros de pista só para que o “pas-
sarinho” voasse. Achei linda aquela cumplicidade. Senti-me como que em êxtase!
Àquele voo sucederam-se outros de TF-7 como puxador de biruta para treinamen-
to de tiro aéreo e em outros aviões, inclusive num SA-16 Albatroz, em treinamento de
amerissagem no Rio Guaíba. Com aqueles voos, meu sonho de ser piloto, alimentado
da adolescência à mocidade, explodiu, tomando conta de minha vida outra vez.

Anos de turbulência política

Durante os dois anos em que servi na Base Aérea de Canoas, vivíamos


sensíveis momentos políticos. Tivemos dezenas de prontidões, durante as quais
nenhum militar poderia se ausentar da unidade. Estávamos praticamente às vés-
peras do Movimento Revolucionário de 1964. Não sabíamos nada do que estava
acontecendo. Éramos completamente alheios à política, pelo menos aqueles que
me rodeavam. Política nunca era assunto de nossas conversas.
Certa feita, o comandante da base – Coronel Paulo Pereira Pinto – reuniu todo
o efetivo no auditório, desde o subcomandante até os soldados. Com muita ênfase,
nos descreveu a situação política do país e discorreu sobre os principais aspectos dos
fatos que estavam ocorrendo. Nós escutávamos tudo aquilo abismados e achamos
nosso comandante “o maior” quando afirmou estar ao lado do Presidente da Repúbli-
ca João Goulart desde que esse respeitasse a Constituição. Mas frisou que, se tal não
ocorresse, se houvesse desvio no cumprimento da Carta Magna que regia a Nação,
ele declinaria seu apoio. E a essa altura mais abismados ficamos quando ele nos falou
que seguiria em frente e que nós tomássemos a decisão que achássemos melhor.
A distância que separava um coronel de um terceiro-sargento novinho era
enorme e suas palavras soaram como um trovão em minha cabeça. Achei o co-
mandante o máximo. Um deus. Naquele momento, vi nele um líder. E que co-
ragem: peitaria o Presidente da República, o Comandante Supremo das Forças
Armadas, caso esse se desviasse do que mandava a Constituição Federal!
E aí, vai entender, caiu João Goulart e a carreira do comandante, que não só
parou como coronel como depois soube que fora cassado.
Fiquei perdido. Não entendi mais nada. Até hoje.

Concurso para a Escola de Aeronáutica

Enfim, a grande oportunidade! Pronto: chegara minha vez!


No ano de 1963, a Escola de Aeronáutica (EAER) abriu concurso para quem

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já tivesse o curso científico. Para atualizar os mais jovens: esse curso depois pas-
sara a se chamar segundo grau e hoje é o que se chama de ensino médio.
Caía, pelo menos naquele ano, a exigência do curso da EPCAR como único
meio de acesso à EAER. Pela idade, eu ainda poderia prestá-lo. Teria só que ser
aprovado nos exames intelectual e médico e estaria na escola certa para me for-
mar piloto militar. Mas como meter a cara nos estudos se, àquela altura, eu era
sargento desenhista de uma unidade aérea? Cadê tempo para me dedicar de corpo
e alma à preparação do tão sonhado concurso? Porque, além de aprovado, teria de
ser classificado, com uma boa média no concurso.
E então é que com grande afeto e infinita gratidão, me lembro do então 1º
Tenente Aviador Trompowsky, meu segundo chefe direto, que, ao saber de minha
admiração e paixão pelo voo e do sonho de ser piloto militar, chegou até mim e
com ênfase me disse que acima dele, hierarquicamente, estavam o Major Bins,
Comandante do Esquadrão, e seu irmão, o Capitão Bins, Operações do Esqua-
drão, a quem eu deveria pronta resposta a qualquer solicitação. Abaixo deles,
quem viesse pedir trabalhos de desenho ou que alongasse o expediente que eu
dissesse que estava “até aqui” de serviço. E brincou dizendo para que eu me “es-
condesse”, estudasse e passasse no concurso para a Escola de Aeronáutica.
Suas palavras mudaram minha vida!
Recebi incentivo de todos os lados. Desde meus pares sargentos, que achavam
que eu deveria fazer concurso para oficial por já ter o curso científico, até os jovens
pilotos do 1°/ 14° GAV, como também os irmãos Bins. A notícia se espalhara.
Assim foi feito. Cumpri bem a parte que me cabia como desenhista,
mas sem “esticar” o expediente previsto da unidade. Estudei bastante, fui
aprovado e me classifiquei!!!

Reflexos da decisão profissional

A aprovação para a Escola de Aeronáutica teve seu desdobramento afetivo. Eu


estava noivo, com móveis já comprados, guardados na casa da noiva, faltando apenas
marcar a data do casamento. Deu strike: a noiva não aceitou esperar os três anos de
curso na Escola de Aeronáutica e deu-me um ultimato, exigindo que escolhesse entre
ela ou a FAB. Respondi-lhe que escolhia um futuro melhor para nós.
Não convenceu. O noivado foi desfeito, os móveis, retirados de sua casa e
eu parti em busca do sonhado objetivo de ser piloto militar.

Surpresa no exame médico

Conforme o previsto, eu fora aprovado no exame médico preliminar, no


hospital da então 5ª Zona Aérea, em Canoas (RS). Qual não foi então a surpresa

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quando, ao prestar o exame médico final no Instituto de Seleção, Controle e Pes-
quisa (ISCP) – no Rio de Janeiro, recebi, em 7 de fevereiro de 1964, o seguinte
resultado da Junta Especial de Saúde: “julgado incapaz para o fim a que se desti-
na”, ou seja, para a pilotagem militar.
Imaginem o sofrimento! Eu “morria na praia”!
Inexperiente, acreditando que aquele resultado fosse irrevogável, não corri
atrás para rever o porquê daquela desaprovação, já que eu saíra aprovado no exa-
me preliminar de Canoas.
Imensamente triste e abatido, no fundo do poço, retornei à unidade para conti-
nuar minhas atividades profissionais como sargento. Eu me sentia um morto-vivo.
Mas por essas coincidências pouco explicadas e que reputamos como coisa
do destino, cruzei, certo dia, logo que retornei a Canoas, com um dos médicos
que participara da equipe responsável pelo exame médico preliminar a que me
submetera antes de ir para o Rio. Quando ele me viu ali na unidade, me olhou,
parou e demonstrou surpresa, posto ser época em que eu deveria estar na EAER,
e não ali, em Canoas. Perguntou-me o motivo e, ao ouvir a explicação de que
minha radiografia de pulmão havia registrado uma mancha, ficou intrigado e con-
duziu-me para uma nova bateria de exames.
Nenhuma anormalidade foi encontrada, e a chefia do hospital solicitou uma
Junta Superior de Saúde para mim. Voltei ao Rio para novos exames no ISCP.
Nada de anormal foi achado e o caso foi encerrado, ao chegarem à conclusão que
a tal radiografia que acusara anormalidade, possivelmente, fora trocada pela de
algum paciente portador de tuberculose.
Dessa forma e pela intercessão dos poderes do destino, fui julgado apto pela
Junta Superior de Saúde para a pilotagem militar em 18 de março de 1964, ou
seja, 39 dias após aquele laudo.
No dia seguinte, eu completaria 22 anos. Aquele fora um dos mais lindos
presentes que jamais ganhara em minha vida.

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Capítulo 4

Ninho das Águias


“Se sou diferente de você, ao invés de diminuí-lo, aumento-o.”
(Saint-Exupèry)

Cadete aviador

A partir de 25 de março de 1964, eu passaria a fazer parte do Corpo


de Cadetes da Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos, Rio
de Janeiro. Eu estava nos ares! Ou melhor, metáforas à parte, em breve eu, de
fato, estaria nos ares... como piloto militar!
Ao apresentar-me no Corpo de Cadetes, fardado de sargento – com as aulas
iniciadas há quase um mês –, tive uma recepção decepcionante. Fui recebido por
um oficial que, de forma rude, afirmou que o índice de desligamento durante o
curso de aviador era de 40%; que se fosse desligado, não poderia mais ser sargen-
to e que voltaria para a vida civil; e que, se ali permanecesse, minha remuneração
seria reduzida, pois a remuneração de cadete era inferior à de sargento. Exortou-
me a pensar muito bem antes de decidir-me e deu-me o prazo de 48 horas.
O tom de sua voz era intimidante e na hora pensei: trombeteiro do Apocalipse!!!
Perguntei-lhe se poderia decidir-me naquele momento. Muito irritado, o ofi-
cial esbravejou, perguntando, muito zangado, se eu era burro. E repetiu toda a ladai-
nha com a qual tentara intimidar-me só que em tom ainda mais desestimulante. Mas
eu não me deixei intimidar. Era tanta a convicção de que, tendo chegado até ali,
vencendo todos os percalços, me tornaria piloto militar, que já me via com as plati-
nas de Cadete do Ar. Reafirmei, então, minha decisão sem titubear: sim, quero ficar.
Daquele episódio extraí minha primeira lição na Escola de Aeronáutica: se
alçado algum dia a algum patamar de poder, jamais seria arrogante daquele jeito.

Um PQD

Os cadetes não oriundos da Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR),


independentemente de serem egressos de colégios militares, de escolas civis,
de outra força armada ou da própria Aeronáutica, como era meu caso, eram
chamados de paraquedistas’ ou simplesmente PQD. A “denominação” distinguia
os que já eram “da casa” dos que chegavam de fora e também deixava claro
que, de acordo com o julgamento dos que cursaram a EPCAR, nós, os recém-
chegados, tínhamos “saltado de paraquedas e aterrissado” diretamente no Ninho
das Águias, sem a experiência dos três anos de Barbacena.

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Nem preciso dizer que tais indivíduos, os paraquedistas, contavam com
um “mínimo minimorum” de boa vontade e simpatia dos oriundos da EPCAR e,
principalmente, dos cadetes veteranos da escola – segundo e terceiro anos.
Da parte daqueles que formavam o primeiro ano, como acontece em toda
adaptação, havia aquela de, em grupo ou individualmente, os jovens ficarem se
observando. Natural. Apesar de no início não haver “aquela” boa vontade para
com os PQD, a carga de “gracinhas” era bem menor se comparadas com as
proporcionadas pelos cadetes veteranos. Até porque havia um fio que nos unia
a todos: PQD ou não, nós éramos “bichos”! E “bichos” levavam trote, pacote
de brincadeiras sem graça, que eu, pelo atraso em iniciar o curso, não passei na
mesma ocasião que os companheiros da turma a qual ora passara a pertencer.

Um “sardete” entre os cadetes

Nós, o cadete Guimarães e eu, tínhamos a nosso favor um quinhão a mais no


pacote das gracinhas e brincadeiras sem propósito. Éramos “os estranhos no ninho”
por termos sido sargentos. Na realidade, estranhos mesmo eram meu despreparo,
a ingenuidade e a surpresa perante um preconceito que jamais pensara pudesse
suscitar naqueles jovens que, em breve, seriam meus companheiros e amigos para
o resto da vida. Não tinha como deixar de comparar aquela “acolhida” com a de
Guaratinguetá. No entanto, porém, agi da mesma forma que quando me apresentei
em Canoas e encontrei aquele clima hostil entre graduados e oficiais: “fiquei na
minha”. Tinha bastante em que pensar e muita matéria atrasada para correr atrás.
Por dentro, me sentia bastante desconfortável e, não vou negar, entristecido.
Realmente, um “estranho no ninho” – no tão sonhado Ninho das Águias –, mas
aguentei firme, procurando não “passar recibo”. Deixei o tempo correr, porque,
por experiência, sabia que ele acomodaria as coisas. E tudo que eu podia fazer era
aguardar e torcer para que ele trabalhasse a meu favor e ao de meu colega.
E com seu passar fui entendendo o porquê daquela barreira. Ouvindo um
pouco daqui e dali, captei que vários daqueles cadetes, incluindo os veteranos,
haviam passado por grosserias ou recebido punições de certos sargentos monitores
que lhes ministraram instrução militar nos anos de EPCAR. Por associação e
extensão, o Guimarães e eu, por termos sido sargentos, recebíamos parte do troco.
Chamavam-nos, pejorativamente, de “sardete”, neologismo nada prestigioso que
queria dizer metade sargento e metade cadete. Eu me fazia de surdo e desentendido
e fingia não me importar.
Afinal, eu estava agora na escola pela qual tanto lutara para chegar, ocupando
um lugar conquistado pelo meu esforço, pelo apoio de pessoas como o Tenente
Trompowsky e os irmãos Bins do 1°/14° GAV e pela felicidade de ter dado de
cara com aquele médico que se interessara por meu exame em Canoas.

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E, ali, na Escola da Aeronáutica, eu era oficial e, legitimamente, o cadete do
ar 64-139 e pronto! Estávamos conversados.

Ainda me lembro...

Lembro-me de algumas situações que hoje me fazem rir, malgrado os


constrangimentos pelos quais passei, na ocasião. Uma delas ocorreu logo
na chegada à escola. Era um domingo e lá estávamos, um aluno do Colégio
Militar de Porto Alegre e eu, fardado de sargento. Não me recordo mais
do nome do aluno, só me lembro de sua farda muito bem apresentada.
Estávamos juntos porque viéramos do Rio Grande do Sul para fazer o exame
médico no ISCP.
Ao chegar à escola, no Campo dos Afonsos, fomos recebidos por dois
cadetes veteranos do segundo ano que nos conduziram até o alojamento onde
ficaríamos hospedados. E ali, do nada, o veterano bradou: “Paga dez, sargento!
Paga dez!” No jargão militar, significa que aquele que recebeu a ordem de “pagar
dez” deve, imediatamente, fazer dez flexões ao solo, uma espécie de multa, de
castigo, de punição, de afirmação de poder de quem deu a ordem.
O jovem do colégio militar imediatamente jogou-se ao chão e começou a
fazer o que a mim fora ordenado. Eu, de minha parte, permaneci parado, em pé, e
retruquei: “Fardado como sargento eu não faço!” Perplexidade e ira seguiram-se
àquele não cumprimento da ordem de um veterano. Cooomo!!!??? Que audácia!!!
Eu não tinha noção da raiva e da surpresa que a recusa de “pagar dez”
desencadearia. Pela cara deles e pelos impropérios que ouvimos, parecia que o
céu e as estrelas cairiam a qualquer momento sobre nossas cabeças; na minha,
especialmente. O clima ficou tenso: um fio elétrico descascado exposto ao ar.
Mas que coisa, pensei eu. Mal pus os pés nesse lugar e já me vejo
envolvido em uma encrenca, na qual jamais pensei em me meter!? Logo eu
que sou de paz?!...
Mas apesar do mal-estar e do prenúncio de desforra no ar, não arredei pé de
minha atitude determinada. Não fiz as flexões.
Foi então que um veterano do terceiro ano, chamado pelo cadete do segundo
ano, surgiu não sei de onde para ouvir o relato de minha “indisciplina”. Do alto da
superioridade de quem se considerava confortável e legitimamente acomodado
no Ninho das Águias, frente àqueles meros aspirantes a ocupar um lugar tão
privilegiado, o recém-chegado, investido de toda sua “autoridade”, olhou-nos
como insignificantes criaturas.
Percebi que a situação iria se complicar se permanecesse muito sério.
E pensei rápido numa saída. Quem sabe, se tentasse alguma brincadeira...
Quanta ingenuidade!

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Lembrei-me das “tiradas” rápidas do papai, mas, que pena! Dei-me conta de
que não saíra a ele nisso.
Antes de armar qualquer gracejo, porém, aguardei as ordens do “deus do
Olimpo” que acabara de chegar Àquela altura, eu não tinha nenhuma dúvida de
que os três estavam se encrespando mesmo era para meu lado, e eu precisava tomar
alguma providência para me proteger. Foi então que o veterano do terceiro ano
muito sarcasticamente pronunciou-se: “Sargento, você sabe quantos pernilongos
há nesse alojamento à noite?”
Ao que respondi: “Não, não sei, mas posso contá-los hoje mesmo para
amanhã lhe dizer.”
Perplexidade de novo! Os três se entreolharam visivelmente surpresos
com tão inesperada resposta. Um deles, atônito, não se conteve e exclamou: –
Sargento, você está fod...!!!
Eu não podia imaginar o que viria depois, porque era visível que eu os
pegara de surpresa, desprevenidos. No ato, entendi que afrontara fortemente o
orgulho deles.
Mas, de repente, não sei o que se passou ou o que pensaram, só sei que, após
alguns comentários desagradáveis, deram-nos as costas e se retiraram. Ufa!
Não me lembro mais da cara do aluno do Colégio Militar. De minha parte,
suspirei aliviado e pensei que precisava tomar cuidado, porque poderia ser pego
desprevenido numa revanche. Mas nada aconteceu.
De outra feita, eu já fardado de cadete, passei por uma roda de veteranos
que batiam papo. Ao me avistarem, ordenaram: “Sardete, sobe na mesa e declama
uma poesia!”
Mais uma! Não sei por que a primeira poesia que me viera à mente, ao
contrário da inofensiva “batatinha quando nasce...” foi uma que eu recitara na
minha igreja, no Paraná, muito triste e trágica; trágica mesmo! Ela começava
assim: “Quando vi minha mãe morta, partindo para o além, eu só pude dizer a ela
na presença de alguém...”
À medida que saíam as primeiras lacrimejantes estrofes, o grupo foi ficando
sem graça e enraivecido, e um dos rapazes esbravejou: “Para! Para! Desaparece
daqui, bicho.”
E me deixaram em paz. Deduzi que poesias para recitar não me pediriam mais
e, se me pedissem, eu sacaria o “velório de mãe” que o resultado seria infalível.
Essas minhas duas “saídas” usadas como revides aos gracejos contra
minha digna origem de sargento aconteceram sem que eu tivesse muita noção
de seus efeitos. Posso mesmo dizer que saíram ingenuamente, guiadas por um
impulso de defesa.
E o tempo – sábio tempo – foi tratando de acomodar as coisas. O dia a dia de
contato tão próximo, como em sala de aula e nas demais atividades, com exigências

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iguais para todos, foram aplainando as diferenças lenta e gradativamente. Meu
entusiasmo pelo estudo me mantinha sempre bastante ocupado, cuidando do que me
competia, sem dar muita atenção às piadinhas que gradativamente foram rareando.
Com relação à minha turma, eu refletia que, afinal, a maioria constituía um
grupo coeso, cuja amizade vinha sedimentada por meio do convívio ao longo
dos três anos de Barbacena. Portanto, era só ter paciência que o entrosamento
viria. Agregamo-nos primeiramente os “paraquedistas”: Vale, Luís Carlos, Nava,
Ramos Pinto, Raad, Macedo e Aparecido. Depois, pela lei da empatia, os demais.
Uma vez mais, a prática de esportes coletivos foi ajudando a quebrar as
arestas, aproximando os “diferentes”, como aconteceu lá em Canoas. Com
o tempo, a diferenciação perdeu a força do estranhamento e a camaradagem
foi se construindo. Aos poucos, o círculo foi se tornando maior, fomos nos
juntando, descobrindo interesses em comum, afinidades. O ideal de voar e de nos
tornarmos pilotos militares forjou nossa união como turma. Pelo respeito e pela
amizade fomos nos tornando companheiros; entendemos que as diferenças nos
enriqueceriam e que as similaridades arredondariam nossos ângulos. Só tínhamos
a ganhar formando uma turma de verdade. Mas, friso, isso não ocorreu em um
mês, nem da noite para o dia. Mas o bom é que aconteceu de verdade.
E o que aconteceu àqueles três arrogantes cadetes que nos receberam
nos Afonsos, ao aluno do Colégio Militar e a mim? Nenhum dos três se
formou oficial aviador.
Lição: ser humilde mesmo quando se julgar em posição superior.

Primeiro voo solo – um momento mágico

Transcorria, ainda, o primeiro semestre de 1964, quando, simultaneamente


aos estudos acadêmicos, iniciamos nossa instrução aérea no avião Fokker T-21.
Ao vestir o macacão pela primeira vez como cadete, recordei-me daquele primeiro
voo que realizara num jato militar, em Canoas, com o Tenente Jaeckel.
Obrigado, tenente. Muito obrigado, amigo!
Agora eu passava pelo desafio de aprender a pilotar um “passarinho”.
Meu primeiro voo de instrução foi realizado com o 1º Tenente Aviador
Maurício no T-21- 0744, no dia 8 de abril daquele ano. Memorável data. Era a
primeira vez que voaria com a “bolacha” de nossa turma, um distintivo colocado
no macacão de voo intitulado Sai da Reta, um indiozinho estilizado ao lado do
avião Foker, idealizado e desenhado pelo colega de turma Vallim, que significava
um alerta: sai da frente de meu avião.
Mas meu experiente e dedicado instrutor era, na verdade, o então 1º Tenente
Aviador Fábio, que se tornara famoso pelos beliscões aplicados na perna direita
de seus alunos. Não, não era um ato de perversidade; ninguém ia para hospital por

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causa dos tais beliscões, nem lhe guardava mágoa por seus “métodos pedagógicos”,
apesar de não aprová-los. Logo entendemos que era sua veemente forma de nos
alertar para a correção da reta na pista de decolagem, algo muito sério e importante
que deveríamos aprender rápido. Praticamente ninguém escapava de sua manobra
“pedagógica”, pois, invariavelmente, todos nós, iniciantes, cometíamos o mesmo
erro: dávamos potência máxima para iniciar a corrida de decolagem e a aeronave,
graças à resultante da rotação da hélice, desviava-se para a esquerda, momento
em que “esquecíamos” de corrigir a posição com os pedais.
Além desses dois instrutores, recordo-me agradecido do 1° Tenente Aviador
de Castro, que me ensinou a decolar e pousar, principalmente. E igualmente
recordo-me com muito respeito e afeição do 1º Tenente Aviador Antonio Moreira
Neto, outro apaixonado pelo voo com quem conversava sobre aviação.
Tudo seguia na sequência previsível da instrução de voo, e meu rendimento
era bom. Eis que, entre aquelas práticas rotineiras com as quais eu estava me
familiarizando, se deu um sério revés e não fui aprovado no primeiro voo de
cheque (X1)! X1 é o termo com o qual denominamos, costumeiramente, os voos
com instrutor mais experiente realizados para verificar, na prática, se o aluno está
apto a “voar solo”, ou seja, voar sozinho.
A ansiedade gerada pela proximidade da realização do grande objetivo de
minha vida me boicotara! Infelizmente. Nem preciso descrever o desespero que
de mim tomara conta.
Porém, para minha felicidade, uma vez mais o destino veio em meu auxílio.
Dessa vez, colocara o 1º Tenente Aviador Luiz Rosa como checador – em termos
civis o equivalente a examinador – num segundo voo de cheque (X2). Recuperei
a tranquilidade, solei e o resto do curso transcorreu tranquilo.
Serei sempre muito agradecido ao Tenente Rosa, cuja serenidade devolveu-
me a autoconfiança e a tranquilidade necessárias para a ultrapassagem daquela
experiência determinante em minha escalada até o brevê de aviador. Se fracassasse
no X2, iria a conselho de voo e, quase com certeza, seria julgado inapto para a
pilotagem militar. Passo seguinte seria, então, desligado, voltando para a vida
civil. Tal como descrevera aquele “trombeteiro do apocalipse”.
Mas tanto empenho não poderia acabar assim, em nada, não acham?
O primeiro voo solo é e será, sem dúvida, um momento especial e
inesquecível na vida de qualquer aviador. Jamais me esquecerei daquele dia
26 de maio de 1964 e do Fokker T-21 0732. Vivi uma emoção muito intensa,
senti-me um vencedor.
Vilson, meu primo, solei! Solei, primo!!!
Novas e vibrantes emoções se sucederam àquele voo solo, principalmente ao
passar para a fase de voo de formatura solo, em que cada minuto e cada manobra
ofereciam uma experiência fascinante.

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Esses voos de formatura solo eram realizados com três aeronaves T-21. A
aeronave da frente, pilotada por um instrutor, o líder, e os dois “alas”, um à direita
e o outro à esquerda, ambos cadetes, voavam sem instrutor, sozinhos.
Em nosso vibrante estado de espírito, aquelas pequenas máquinas voadoras,
tão limitadas em recursos, tão frágeis e singelas, pareciam, aos nossos olhos,
verdadeiros aviões de combate.
Quatro décadas depois, precisamente no dia 26 de março de 2004, tomei
conhecimento do primeiro voo solo de uma mulher na Força Aérea Brasileira. A
cadete Fernanda Görtz solara um T25-Universal e, com seu feito, abriria as portas
para a realidade que tantas outras mulheres brasileiras gostariam de saber possível.
Fiquei imaginando sua emoção e a satisfação de seus instrutores e familiares.
Senti-me orgulhoso com o enriquecimento da Força Aérea, acrescentando a
presença da mulher em seu quadro de aviador.

Primeiro salto de paraquedas - preparação física e psicológica

Eu estava exausto, mas não a ponto de deixar de reagir ao que me dizia o


Capitão de Infantaria do Exército Fregapane quando bradava perguntando se eu
era uma criança ou um homem. Se eu era um fraco ou um forte. Ou se eu era
soldado raso ou cadete.
Aquele oficial com certeza percebera que eu estava em dificuldades, exausto
fisicamente, e que um incentivo, uma exortação ou desafio me ajudaria a completar
a série de exercícios. Daí, então, que, ao se jogar na minha frente na posição
de flexão, interpelando-me energicamente, numa contundência sem apelação,
me impulsionaria a atingir o alvo. Aquela forma enérgica não era fruto de um
exemplo distorcido de autoridade, à semelhança da exibida por aqueles veteranos
que me recepcionaram na EAER. Era incentivo, um incentivo à superação.
Meus colegas e eu nos encontrávamos em fase de treinamento para
a instrução de paraquedismo que se daria em breve, na Brigada de Infantaria
Paraquedista do Exército, em Marechal Hermes, bairro próximo ao Campo dos
Afonsos, no Rio de Janeiro. Naquela fase preparatória, o treinamento físico era
extenuante. E, naquele dia especialmente, eu achava que não teria forças sequer
para mais uma única flexão de braços. Mas o Capitão Fregapane estava ali, diante
de mim, inflexível, qual uma fera a espreitar sua presa, olhos atentos, alerta aos
que estavam prestes a fraquejar; de prontidão, implacável.
Ele me exortava, me atiçava e mexia com meus brios, me interpelando
daquele jeito. Cada frase que dizia era seguida de uma flexão, que era acompanhada
a duras penas por mim. Ao final da repetição de uma série de muitos brados, eu
mal conseguia acreditar que completara o treinamento, apesar de tê-lo ouvido
pronunciar o número 50 da 50ª flexão. A derradeira, a última, a saideira.

59
Ufa! Conseguira completar o treinamento físico para o primeiro salto de
paraquedas.
Penso que, depois daquela preparação física, passamos, todos nós, cadetes,
uma semana meio nos calços. À época, não nos ocorria a ajuda medicamentosa
de relaxantes musculares para nos aliviar das dores físicas. Não, ninguém ali era
frouxo, não! E estávamos todos muito motivados. O caso é que o treinamento foi
“pauleira” mesmo.
Encaramos o desconforto das dores na raça, de cara lisa, enquanto
elucubrávamos, um tanto assustados, sobre o que nos aguardava no primeiro salto.
O desconhecido sempre assombra, e nós bem que estávamos meio “cabreiros”;
cada um externava sua expectativa de um jeito.
As atitudes do Capitão Fregapane ficaram gravadas em minha memória
como exemplo de liderança, exemplo desde então incluído em meu arquivo.
Quando eu supunha estar “abatido”, ele soubera acionar a energia necessária,
de modo a não permitir que o vencedor que havia dentro de mim fraquejasse.
Alcancei a meta proposta, mas lhe devo o incentivo de alcançar sua realização.

A hora H

E o grande dia chegou!


Passado o receio dos primeiros momentos, em que saltamos da aeronave
nos sentindo soltos no ar, e passada a expectativa motivada pelo desconhecido,
o cansativo treinamento nada representara diante do instante mágico em que o
paraquedas se abrira pela primeira vez. E abrira-se para nós não só o paraquedas,
mas a plenitude de um horizonte que nos induzia à paz. Lá de cima, com a
imensidão azul do céu como teto sobre nossas cabeças, com o exuberante relevo
geográfico do Rio a nossos pés e com as nuvens soltas nos abraçando, parecia
que tudo na Terra era paz, que os homens eram felizes e que éramos os senhores
daquele mundo, pela magnificência do mágico momento que, privilegiadamente,
vivíamos. A natureza como testemunha singular daqueles solitários instantes
guardaria o segredo da medida imensurável de nosso deslumbramento.
Como cadete, minha turma e eu tivemos mais duas gratificantes oportunidades
de saltar de paraquedas. Ambas nos céus de Pirassununga, São Paulo.

Sobrevivência na selva

Tão marcante quanto o salto de paraquedas foi o exercício de sobrevivência


na selva, precisamente na Amazônia. A preparação teórica ficou a cargo do
PARASAR, que nos dividiu em grupos, cada um com cinco componentes. O
nosso – designado como Orion Caçador – foi integrado por Nava, Goyanna,

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Ramos Pinto, Luiz Carlos e eu. Cada um de nós trazia alguma experiência de
vida em sítio, fazenda ou chácara. Nava e Ramos Pinto tinham feito o Curso de
Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) do Exército , portanto, acampamento,
armação de barraca, busca de alimentos no mato, isso eles manjavam. Goyanna
era cozinheiro de mão cheia. Luiz Carlos e eu tínhamos horas e anos de vivência
em sítios. O Luiz nascera e se criara em fazenda e eu tinha o sítio da vovó Olívia,
mãe do papai, como referência.
Instruídos a caçar para sobreviver, nem me passara pela cabeça aquele
juramento do adolescente que jurou, com um pássaro agonizante nas mãos, que
nunca mais usaria de seus pelotes para abater indefesos seres vivos. Lembram?!
No caso, agora, os pelotes eram mais perigosos: eram tiros de arma de fogo. Na
situação em que, em breve, meus colegas e eu nos encontraríamos, tal juramento
teria por força das injunções que ficar, pelo menos temporariamente, descartado,
porque ali o motivo era muito sério, tratava-se de nossa sobrevivência. Mas a
verdade é que “passei batido” e nem me lembrei do juramento. Tampouco, o
quebrei. Vocês já saberão.
Decolamos de Pirassununga no dia 9 de abril de 1966 no C-47 2039 rumo
a Aragarças, nosso primeiro pouso e pernoite. Na manhã seguinte, olhos bem
abertos, corações batendo forte de curiosidade e excitação, sobrevoamos o estado
do Mato Grosso, na época sem a divisão atual. Do alto, nos deslumbramos com o
verde intenso da mata serrada. Natureza em tapetão a nossos pés.
Pousamos no Xingu, onde índios nos recepcionaram com olhos curiosos e
atitude pacífica, e, a partir daquele ponto, começava de verdade a tão aguardada
experiência. Ali tomamos o barco de nome Leonardo que logo começou a
navegar pelo Rio Kuluemi, que mais adiante se tornaria o Rio Xingu. Na tarde
de domingo, dia 10 de abril, nos encontramos no acampamento do PARASAR,
recebendo nosso kit de sobrevivência: uma barra de chocolate, outra de
bananada, meio quilo de sal, dois paraquedas – para o grupo – dois pedaços
de sabão, uma carabina e uma espingarda, além da recomendação de que as
guloseimas deveriam durar cinco dias e que, munidos das armas, fôssemos à
luta e nos virássemos por comida. Nessa hora, correu um frio na espinha, mas
a certeza da abundância de peixes nos rios e a quantidade de pássaros e caça,
além de frutos silvestres, nos tranquilizaram.
E lá fomos nós montar o acampamento na maior empolgação no local para
nós designado pelo PARASAR. Estávamos em cinco grupos, separados uns dos
outros por mais ou menos um quilômetro de distância. Luiz Carlos e Ramos Pinto
logo abriram o primeiro paraquedas e o amarraram como uma verdadeira barraca,
garantindo-nos abrigo para a primeira noite. No dia seguinte, abriram o segundo
paraquedas por cima do primeiro no intuito de preservar nosso conforto em caso
de chuva forte, o que aconteceu abundantemente naquela noite.

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O Goyanna foi logo juntando bastante lenha nos arredores e acendeu a
fogueira. A intenção era que a fogueira afastasse os animais que, com certeza,
por ali abundavam e contivesse os vorazes mosquitos que nos comiam vivos,
picando-nos por cima das roupas. Minha contribuição foi montar umas linhas
de pescar e sair em busca de peixes para o jantar, o que foi uma triste decepção.
Retornei muito murcho, sem um peixe sequer, e, naquela primeira noite, nosso
banquete foi uma caneca de café com quatro bolachas. Aliás, esqueci-me de
mencionar as bolachas presentes no kit que recebemos.
A primeira dormida foi uma inquietação só. Nossos sentidos se transformaram
em poderosos radares. Ouvíamos tudo. Desde os ruídos de folhas caindo até o saltar
dos peixes no rio, o piado de pássaros noturnos e o incessante cri-cri-cri dos grilos.
No dia seguinte, Nava e Ramos Pinto saíram para caçar e voltaram com dois
macacos, um tucano e outro pássaro, além de uns palmitos silvestres que, graças
ao talento de chef do Goyanna, se transformaram em banquete.
Saí umas vezes para caçar com nosso chef, mas confesso que nossas
incursões foram uma negação só. Deram em nada o rastejar no lusco-fusco do
amanhecer do dia, o se esconder por trás de touceiras espinhentas, a amolação de
abanar os insaciáveis mosquitos... Tudo zero sucesso. Numa dessas empreitadas,
senti fome de verdade pela primeira vez na vida, quando então passamos o dia
com dois tabletes de bananada, o dele e o meu. E os pássaros? Nós os ouvíamos
de longe. E a caça? Essa sabe Deus onde se escondeu. Todas as capivaras, veados,
tatus e uma porção de outros bichos mais que nos garantiriam viver por ali; se
existiam de verdade, com certeza, zombavam de nossa incompetência.
Certa noite, acordamos com um barulho que supusemos ser de um jacaré. O
Nava atirou duas vezes, na direção do som, mas sem êxito, e a fome acumulada
de alguns dias já nos cobrava boa dose de autocontrole. Na manhã seguinte,
recebemos a prazerosa e inesperada visita do PARASAR que passava pelos
grupos para verificar se havia alguém doente ou com dificuldades além das
previstas. Recebemos de presente – vejam bem: “de presente” – uma cabeça
de peixe. E, uma vez mais, as habilidades de nosso saudoso cozinheiro a
transformaram em sopa. Para render mais. Eu que até então dizia não gostar de
peixe, adorei. Comi que me lambuzei.
Enfim, durante os dias de acampamento, nenhum de nós pescou absolutamente
nada de futuro. Só o Nava conseguiu uns peixinhos mirrados. E olhe que até tripa
de macaco e restos de tucano usamos como iscas, mas os peixes nos esnobaram.
“Nem aí” para nós. “Era a época”... nos disseram para consolo.
No quinto dia, desfizemos nosso “doce lar” e rumamos para o acampamento
do PARASAR a bordo do barco Tucunaré, pilotado pelo índio Maraican em sua
segunda viagem por aquele labirinto de rios, igarapés, lagoas, riachos, folhagens,
lodaçais e galhadas de árvores debruçadas sobre as águas do Rio Kuluemi. Ficou

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registrado em nossa memória que, após umas seis horas de viagem e uma infinidade
de acelerações e desacelerações, o motor do Tucunaré não aguentou e parou.
Chegamos à margem de nosso destino na base do remo, atravessando um rio de
uns 400 metros de largura. Nosso temor era de que o barco virasse, pois éramos 25
cadetes mais um capitão a bordo, e os jacarés se aproveitassem de nossa situação
desvantajosa. Outro receio era que nosso guia se perdesse no esconde-esconde das
águas do trajeto. E era para recear mesmo – ali, não tinha uma juventude medrosa,
não! –, uma etapa da aventura foi noturna e o barco não tinha farol.
Mas depois de certo tempo, eis que surge uma réstia de luz dando por
finalizada a aventura na escuridão. Tocávamos o Porto do Posto Leonardo Villas
Boas, no Parque Nacional do Xingu.
Nosso índio piloto foi o grande herói do dia. Chegamos aonde queríamos e
a um pedaço de mundo diferente do que havíamos deixado para trás. Logo fomos
cercados pelos olhares curiosos de cerca de uns 150 índios das tribos Kalapalos
e Kuikurus.
Cláudio Villas Boas dirigia o posto. Com o grupo dele havia um médico, o Dr.
Santos, que dispensa comentários a respeito da importância da função que exercia.
E no posto a acolhida e o conforto mudaram! Cada cadete apanhou uma
rede e um cobertor e nos instalamos numa “choça”. Os índios nos olhavam, nos
tocavam, passavam a mão em nossas roupas, ficavam curiosos com os pelos que
os brancos tinham e diziam “amigo, tudo bom”.
Foi a primeira vez que dormi em rede. Dizer que dormi é até engraçado.
Tentei. Mas foi em vão, porque sempre dormi de barriga para baixo e “apanhei”
pela falta de know-how em dormir de lado, na diagonal da rede. E olhe que todos
nós merecíamos uma boa noite de sono, porque, após oito horas sentados em duro
banco do barco, aquelas acomodações bem que pareciam o paraíso, com exceção
dos pernilongos.
Bom, mas o certo é que a aurora chegou com um novo dia. Fomos despertados
pelos cochichos dos índios que nos inspecionavam admirados. Após um café
puro, partimos para uma marcha de 20 quilômetros, percorridos em quatro horas
de caminhada. Chegamos à aldeia da tribo dos Ialaipitys para conhecer o modus
vivendus de seus integrantes. Chamou-nos a atenção a diferença social entre os
sexos: a mulher desempenhava papel tão aquém do dos homens que até a altura da
rede era diferente. A deles era mais alta. Quando grávida, continuava trabalhando
enquanto o índio “repousava”.
Aprendemos nessa visita que aqueles nativos – pelo menos aqueles,
daquela cultura – tinham aversão a sangue. Caçavam com flechas em
cujas pontas havia veneno para que os bichos morressem de imediato, sem
sangramento, e até a rede utilizada por ocasião do parto era depois descartada,
não era usada para mais nada.

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Confirmamos o que nos fora ensinado nos bancos escolares, na infância, que
a mandioca era fundamental na alimentação deles.
Observamos, no interior das choças, um compartimento especial onde os
jovens futuros lutadores permaneciam por até dois ou três anos, em preparação.
Eles faziam uso de alimentação especial, passavam por “sangrias” nos braços,
no peito e nas costas, tudo no intuito de se tornarem robustos e fortes para as
futuras lutas.
Dessa tribo partimos para a aldeia dos índios Kalapalos, especialistas em
construção de redes, esteiras e artigos de penas. Caminhada de oito quilômetros.
A uns 300 metros da aldeia, tomamos banho numa grande lagoa e, segundo o
costume dos nativos, todos nus.
Após nos banquetearmos com nossa ração, trocamos calças, camisas,
camisetas, meias, sabão, velas, fósforo, lanterna, pilhas, linha para pescar, anzóis,
faca e outros itens por arcos, flechas, colares, brincos, cocares, enfeites, redes
etc. Como eles não tinham nosso senso de valor, desconheciam dinheiro e davam
valor a coisas de acordo com a necessidade de seu viver, as trocas se tornaram
motivo de risos depois, entre nós.
Resumindo, eles se pintavam com cores intensas para suas cerimônias e
mesmo no dia a dia; não tinham escrita e a comunicação era fonética e gestual.
Para os números, só tinham sons que enumeravam até cinco. Os casamentos
ocorriam cedo e os namorados mantinham relações sexuais antes do “contrato”.
Depois do casamento, o jovem índio passava a viver na oca da esposa.
Os chefes são enterrados em pé com seus pertences: rede, cocar, colar,
enfeites e muita pintura, além de comida e presentes. As viúvas e os viúvos
podiam se casar novamente.
Nosso avião de retorno chegou no domingo, dia 17. A saudade de tudo –
família, comida, chuveiro, cama, nossa civilização – era tão grande que nós,
cadetes, aplaudimos a chegada do C-47 2013, nosso salvador.
Após três etapas de viagem e 6h05 de voo, pousamos felizes e mais
experientes em nosso Ninho das Águias, em Pirassununga. Valeu. A experiência
foi boa demais, mas, ok.

Terceiro ano aviador – o voo solo de T-6

Até 1963, os três anos do curso de oficial aviador eram ministrados na


Escola de Aeronáutica no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro.
A partir de 1964, quando cheguei àquela escola, os dois primeiros anos
ali permaneceram, enquanto que o terceiro passou a receber instrução no
Destacamento Precursor da Academia da Força Aérea (DPAFA) no Campo
Fontenelle, em Pirassununga (SP).

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Renovadas emoções nos aguardavam nos céus de Pirassununga, pois, desde
que nos vimos diante da nova aeronave que iríamos voar – North American T-6 –,
nossos corações bateram mais forte, pois, em nosso julgamento, aquilo ali é que
era uma máquina! Imponente e respeitável máquina de voar.
Meu primeiro voo solo no T-6 1258, efetuado no dia 17 de abril de 1966, a
exemplo do que fora no Fokker T-21, foi uma experiência marcante e inesquecível
em minha vida de piloto militar. A emoção continuaria nos voos de esquadrilha
que, ao fazer acrobacias na ala do líder ou treinamento de “ataque ao solo” em
voo rasante, me ratificava a escolha da profissão que escolhera.

O mérito acadêmico

O quesito classificação acadêmica não me passava pela cabeça quando


ingressei na Escola de Aeronáutica. Apesar de me reconhecer incansável
competidor intelectual, sequer aventara a hipótese de competir com meus colegas,
pelo respeito ao elevado nível intelectual dos alunos da EPCAR. Meu primeiro
ano fora dedicado a fazer o melhor, mas sem pensar em classificação.
Tomei conhecimento de que o primeiro colocado da turma, o cadete 01 (zero
um), era o cadete Ono – que cursara a EPCAR –, e o fato não me provocara
nenhuma gana de competição. Não me “atiçara”. Até que, no fim do primeiro ano,
tive uma grande e agradável surpresa: minha média global ficara 47 centésimos
atrás da dele, ou seja, em segundo lugar. Pensei: epa!!! É páreo para mim e vou
correr atrás desse primeiro lugar.
No fim do segundo ano, diminuí a exata diferença que nos separava.
No entanto, somadas as médias dos dois anos anteriores, ficamos empatados.
Respeitando-se as regras que regiam o critério de antiguidade, ele continuou 01.
No terceiro ano, chegados a Pirassununga, o Ono “resolveu” estudar de
verdade. E digo a vocês: ele era de uma inteligência invejável. Era bom de
cabeça, mesmo.
Redobrei meus esforços. Praticamente, minha vida se resumia a estudar e
estudar. Vez por outra, ia a uma Igreja Evangélica e só. Na maioria dos fins de
semana, tomava a condução que levava o “cadetal” até o centro da cidade, descia
em uma das esquinas da praça central, comprava um sorvete ou um sanduíche,
cruzava a tal praça, apanhava a mesma condução de volta para a escola e
continuava estudando.
Faltando apenas duas provas para o fim do curso, o Japonês, como o Ono
era chamado pela turma, tinha alguns centésimos à minha frente na média. Como
a última das provas seria fácil e, provavelmente, ambos tiraríamos 10, a decisão
pelo primeiro lugar praticamente dependeria do resultado da penúltima prova,
marcada para uma segunda-feira.

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Àquela altura, já tínhamos até torcida.
O baile oficial de formatura de nossa turma seria realizado no Rio de
Janeiro, local de nossa formatura. Entretanto, no sábado que antecedeu àquela
segunda-feira da prova decisiva, tivemos um baile de despedida da sociedade
de Pirassununga. Lembro-me, como se fosse hoje, de um dos hangares do
Destacamento Precursor da Academia da Força Aérea especialmente decorado
para aquela noite festiva.
Pois, no auge da animação da festa, por volta da meia-noite, fui para o
alojamento dormir para acordar cedo e, bem descansado, encarar o que seria meu
último dia de estudos como cadete. Pela manhã, quando despertei, a cena era a de
um alojamento por inteiro adormecido, com roupas e fardas espalhadas por todos
os lados. Saí de mansinho para não despertar os “guerreiros” e fui para um local
silencioso estudar durante o domingo todo.
E valeu o esforço! Obtive o êxito desejado! Abri cinco centésimos de
diferença na média global e... bingo! Consegui o batalhado primeiro lugar. Sei o
que ele me custou em dedicação e renúncia.
Impossível descrever a satisfação pelo êxito daquela conquista!
Devo aqui, por uma questão de justiça, antes mesmo de levar em conta
a grande amizade que nos une, agradecer o companheirismo e permanente
incentivo do inseparável amigo, o cadete Geraldo Sérgio Ramos Pinto. Desde que
cheguei à escola, estudávamos sempre juntos, conversávamos, compartilhávamos
êxitos, apreensões e até músicas, como Maria Helena és tu, a minha inspiração...,
numa homenagem à sua então noiva Maria Helena. Sua fé inabalável de que eu
chegaria à primeira colocação era constante e imutável. Quantas vezes, já seguro
de que sabíamos a matéria, eu queria dar o estudo por encerrado, mas ele insistia,
dizendo: “Não Wala, vamos uma vez mais só para termos certeza.”
Obrigado, amigo. De coração, muito obrigado.
Ramos Pinto formou-se em oitavo lugar e permaneceu na Força Aérea até
o posto de capitão, quando, então, passou a voar na aviação civil, inicialmente
na empresa Transbrasil e, posteriormente, em empresas aéreas asiáticas, tendo
sido comandante de Boeing 747 – Jumbo – durante muitos anos. A vida deu
uma porção de voltas em torno de nós dois e nossas famílias, mas nossa amizade
permanece a de sempre. Nunca desfizemos o contato, nem nossas famílias.

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Capítulo 5

Enfim... piloto militar


Declaração de aspirante a oficial aviador

A solenidade de formatura, realizada no Campo dos Afonsos, foi o


coroamento de muita persistência, esforço, dedicação, renúncia e
estudo. Uma vez mais, sem presunção ou falsa modéstia, foi também o maior
presente que eu poderia oferecer a meus pais, meus três irmãos e a mim mesmo.
Digo meus três irmãos porque, no ano anterior – 1965 –, quando eu
contava 23 anos, nasceu minha irmãzinha Sandra Mara. Ali, agora presentes
no Campo dos Afonsos, eles assistiriam à entrega dos seguintes prêmios pela
minha primeira colocação na turma.
• Escola de Aeronáutica – espada de oficial entregue pelo Presidente Castelo Branco.
• EMFA – melhor classificado nas disciplinas de ensino teórico do CFOAV.
• Força Aérea Argentina – espada e brevê de Piloto honoris causa.
• Força Aérea Chilena – espada e brevê de Piloto honoris causa.
• Força Aérea Equatoriana – brevê de Piloto honoris causa.
• Força Aérea Portuguesa – brevê de Piloto honoris causa.
• Caixa Econômica Federal – financiamento para aquisição de casa própria.
• Forjas Taurus – revólver calibre 38.

O requisito de 200 horas de pilotagem

Declarados aspirantes a oficial aviador, todos os colegas de minha turma


ganhamos um valioso “presente”: permanecer no Rio e voarmos até completarmos
individualmente 200 horas de pilotagem. Esse “presente” deveu-se ao fato de
que, na apreciação das autoridades, estávamos nos formando aquém do número
de horas julgadas necessárias para nossa segurança e para os propósitos da Força.
Tivemos dois meses muito especiais, pois completamos a marca em
viagens de treinamento, despreocupados, já formados, sem aquela ameaça de
desligamento do curso que angustia o cadete aviador até praticamente as vésperas
de sua formatura. As viagens em voo de esquadrilha faziam com que a vida de
aspirante aviador fosse uma alegria só.

Seleção para caça

Normalmente, os cadetes aviadores concluíam a instrução aérea de


formatura voando em esquadrilha de quatro aviões. Esquadrilha, para os que não

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estão familiarizados com o termo, é composta por mais de dois aviões voando
juntos, em disposições espaciais variadas.
Por razões que desconhecemos, o Comando da Escola de Aeronáutica
naquele ano de 1966 decidiu que nossa instrução de voo de formatura se encerrasse
com o “voo de elemento”: um líder e um ala, apenas dois aviões.
Somente os cadetes pré-selecionados para possível indicação para o curso
de caça, como aspirantes a oficiais, prosseguiriam na instrução até completarem o
treinamento voando em esquadrilha de quatro aviões. Ao atingirem a proficiência
– voando solo – passariam então pela seleção final.
Fiquei no grupo dos pré-selecionados, portanto, passei a receber instrução
do voo de formatura com quatro aviões. Minha satisfação era imensa, afinal,
busquei a Força Aérea motivado pela aviação de caça.
Suspirei feliz quando, graças a Deus e ao meu vibrante instrutor de T-6, o
1º Tenente Carvalho Júnior – de saudosa memória –, alcancei as qualificações
exigidas. Assim, depois de declarado aspirante a oficial aviador e de ter
completado as 200 horas de voo de instrução, a próxima etapa seria, então, na
cidade de Fortaleza, onde o curso de caça seria ministrado.
Eu só conhecia o Nordeste pelo mapa geográfico, e a possibilidade de
morar por algum tempo numa capital sobre a qual só se ouvia falar muito bem
aumentava minha motivação. No grupo dos pré-selecionados, constavam pilotos
muito bons, outros excelentes e alguns excepcionais. Entre os excepcionais,
destaco o Sá, reconhecidamente tido como um ás pela turma e falecido muito
cedo como tenente, numa apresentação da Esquadrilha da Fumaça da qual fazia
parte. Depois dele e sem desmerecer qualquer um dos colegas, lembramos
e destacamos companheiros como o Ribeiro Junior e Soares Filho, que, anos
depois, comandaram a Esquadrilha da Fumaça; o Bukowitz, que comandou o
1º Grupo de Defesa Aérea; o Potengy, que comandou o 1º Grupo de Aviação de
Caça; o Fiche, Sérgio Martins, Lazzarini, Santa Clara, Rezende, Chaves e vários
outros que, com certeza, cometerei a injustiça não intencional de omitir.
Minha felicidade era completa, posso afirmar. Fui selecionado para a Caça.
Uau!!!! Tudo o que eu queria!!! Senti-me no sétimo céu, pairando com os anjos
de tanta felicidade.

O revés jamais pensado

Na antevéspera da tão esperada ida para Fortaleza, surgiu um informe no qual


dizia que cinco aspirantes entre os selecionados seriam cortados da lista. Imaginando
que o critério fosse o de antiguidade, lamentei pelos que seriam cortados, mas
quanto a mim mesmo, fiquei tranquilo. Não me passou pela cabeça, em momento
algum, estar entre os excluídos. Mas, para minha total surpresa, estava.

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Mas, meu Deus! Por quê? Por que tamanha felicidade tivera de durar tão
pouco? Logo agora que o arremate do sonho estava quase ao meu alcance? Tudo,
então, por água abaixo? De repente, do nada? Caí dos 100 para o zero. Por essa
eu não esperava...
Faltou-me o chão, já que o céu se fechara! O céu se fechara sem que o
destino me enviasse alguém, como ocorrera em 1964, ao “mandar” aquele médico
de Canoas cruzar meu caminho, quando me dirigia ao rancho, para o almoço.
Informaram-nos que o critério para o corte se baseara em dados de um
exame médico antigo. Não me convenci, tampouco ninguém nos procurara
para nos informar o porquê do abrupto corte. Fiquei desolado. Inconsolável.
Abatido. Abalado. Revoltado. Tudo, menos conformado, tudo, menos achar que
“era desígnio de Deus” Tudo, menos, achar “que essas coisas acontecem, e se
acontecem são para o nosso bem.”
Não deu. Mas... como não deu? Morrer na praia?!
Sofri vários anos por essa decepção. Nada me preenchia, nada me consolava.
Só com o tempo, só quando não tivera mais jeito, só quando não tinha mais
para o que ou para quem apelar, é que, com o amadurecimento que a frustração
me trouxera, fui me conformando e procurando tocar a vida, feliz outra vez.

O toque

Ei! Walacir, acorda! Sou o Vilson, teu primo! Tudo o que você queria era ser
piloto militar, não era? Pois, então, não deu para sair caçador, como aquele piloto
do voo picado, de capacete, aquele do panfleto, mas, ora, primo, acorda!!! Primo,
segue em frente! Vai fraquejar? Logo agora, depois de tanto esforço, tanta luta,
depois de tantas batalhas vencidas, de tantas vitórias conquistadas?!
Ok! Aquiesci com aquela voz de garoto na cabeça.
Mas como seria difícil achar conformação se, na realidade, não queria
achá-la. Não sei por quanto tempo fiquei, literalmente, “abatido”. Só sei que, de
mansinho, sem que, conscientemente, me desse conta, uma leva de pensamentos
foi surgindo, qual tenra relva ressurgindo num terreno calcinado, e a esfumaçada
esperança de ser feliz voando outras aeronaves que não as da caça foram
timidamente ocupando o vazio que se apossara de meu coração.
Muitos podem pensar: que drama! Quantos passaram por revezes
iguais ou piores sem tantas lamentações. Que “italianice”! E eu devolvo tal
desaprovação com muita serenidade, perguntando: “Você já desejou de verdade
alguma coisa em sua vida que não deu certo? Se desejou e não alcançou
porque a perdeu antes mesmo de consegui-la, ou por lhe terem tomado, ou
porque fraquejara, ou porque não dera sorte vai saber do sentimento que de
mim se apossara. Vai me entender.”

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Sem alternativa, aguardei o tempo, grande amigo e imutável detentor de
toda a sabedoria na terra; senhor de todas as respostas e expectador de todas as
nossas alegrias e sofrimentos, para me fazer aceitar aquilo que eu não só não
poderia entender, como muito menos mudar. Sempre fui tenaz, comprometido
e concentrado em meus objetivos. O que dependesse de mim teria todo meu
empenho. E eu fizera tudo. Só que a palavra final não dependera de mim. Não
foi fácil.
Dor parecida eu sentiria muitos anos adiante, mas disso tratarei depois,
no momento certo.

O estágio na terra potiguar

A aeronave de transporte, o C-54 de número 2409, pilotado pelo Coronel


J. Maria levou nossa turma do Rio de Janeiro para o Nordeste. Um grupo
ficaria em Natal, para o curso de transporte no 5º Grupo de Aviação (5º GAV),
e outro prosseguiria até Fortaleza, para o curso de caça no 1º/4º Grupo de
Aviação.
A duração do voo do Galeão para Natal foi de 7h25. Antes de a porta
daquela aeronave se fechar rumo à Fortaleza, me despedi dos companheiros
– os futuros caçadores – desejando-lhes sucesso e felicidade. Meu coração
sangrava, mas eu lhes desejava – com toda sinceridade e pureza de alma – que
eles fizessem tudo aquilo que o destino não autorizou que eu realizasse.
Nosso desembarque em Natal, em 9 de março de 1967, foi muito acolhedor,
apesar de meu espírito não estar nem um pouco receptivo a quaisquer boas-
vindas. Lembro-me de um calor muito forte, amenizado por uma agradável
brisa, a famosa brisa do Nordeste, com a qual eu ainda não tinha a menor
intimidade, mas que me agradava. Fomos recebidos pelo Tenente Fonseca,
um dos instrutores do 5º GAV.
Meu desconsolo e frustração eram tamanhos que, entristecido, dispensei
o deslocamento de ônibus, para ir caminhando, pensando, pensando... até o
Hotel de Trânsito, onde residiria pelos próximos nove meses de estágio.
Informei-me sobre a direção a tomar, e tome de andar pista afora no
sol quente. Andar, refletir, questionar. Por que, após tanto esforço e vencidos
tantos obstáculos, na hora H a porta se fechara? Assim, do nada, abruptamente,
sem me “preparar”? Por quê? Por quê? Fui andando e meditando. O destino
me devia explicações. Deus, também. Ingratamente, esquecera Sua mão
protetora que me trouxera até ali e, muito contrariado, fazia questão cerrada
de uma resposta que me convencesse.
E a resposta veio. Pelo menos assim é que entendi, em outubro desse ano
(1967), mas de outra forma que logo, logo contarei.

70
Solidão da nacele

Num certo sábado, quando fazia “hora de nacele” na aeronave Super Beech
TC-45T, vivi um momento de profunda tristeza. Ao ler no checklist a expressão
“não fume, use cintos”, olhei para o interior do avião e, ao ver as cadeiras de
passageiros, caí num pranto atormentado e sofrido. Onde estava aquela nacele
com o piloto com capacete naquele voo picado, aquela do panfleto que meu primo
trouxera até minha casa? O que foi feito de meu sonho? Lutara tanto...
Meu desencanto com o curso de piloto de transporte era grande. Eu não
queria, não tinha escolhido ser piloto naquela operacionalidade. Estava longe,
muito longe, de dar a volta por cima. Não adiantava me iludir. Foi então que levei
uma vigorosa sacudida, um sabão, uma bronca.
Na semana seguinte a esse fato, fui chamado à sala do Major Rosa Filho –
Oficial de Operações do 5º Grupo de Aviação –, que me disse ser piloto de caça,
de reconhecimento, de bombardeio e de transporte e que entendia minha decepção
por não estar realizando o curso que tanto desejara. Entretanto, como aspirante
mais antigo, como 01 da turma, eu tinha deveres e responsabilidades e que, se não
vestisse a camisa de piloto de transporte, poderia prejudicar-me na carreira.
A afirmação feita com vigor, com veemência, cara a cara, sem arrodeio ou
contemporização, chamou-me à responsabilidade, ao presente, à vida. A sacudida me
despertou! Reconheci que estava mesmo precisando dela; duro de admitir, mas a pura
verdade. Não tinha me dado conta, ensimesmado em minha frustração, de que estava
me anulando, me aceitando um coitadinho, um desprotegido da sorte, um perdedor.
Comecei por fazer as pazes com Deus, voltando a ser-Lhe agradecido. Fui
recobrando o ânimo, voltando a refletir com melhor senso e a ver as coisas sob
outro ângulo, levantando a cabeça. A partir daí, fui me encontrando. Se, afinal,
tudo que eu queria na vida era voar, ali estava eu pronto para isso.
Dali a alguns dias realizei meu primeiro voo de instrução no TC-45T – 2894,
tendo como instrutor o Capitão Assis. Fui descobrindo coisas interessantes, mas
na realidade, lá dentro mesmo, esse “fui descobrindo” foi acontecendo devagar,
muito mais no intelecto do que no coração, porém, reconhecia que minha
disposição interna mudara depois da conversa com o Major Rosa Filho.
Anos mais tarde, só porque não desisto facilmente de nada que quero e
do que está a meu alcance correr atrás, fiz dois requerimentos solicitando às
autoridades competentes autorização para realizar o curso de caça. Os dois foram
indeferidos. Finalmente, me rendi. Entendi que “o que não era para ser, não era
para ser”, como diz o dito popular, debalde o esforço e o desejo.
Resolvi ser feliz, esquecer e tocar a vida. Virar a página.
Consegui. Permaneci grande admirador da caça e fui em frente trilhando
outros caminhos que me proporcionaram muitas alegrias e realizações.

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Uma vez mais, nunca imaginaria que, 19 anos mais tarde, eu voltaria a Natal
para comandar aquele mesmo 5º Grupo de Aviação. Nosso bom Deus tem planos
que desconhecemos...

O estágio funcional

Na Base Aérea de Natal, além do curso de aviação de transporte, os aspi-


rantes faziam estágio em algumas sessões daquela organização. Junto com mais
quatro colegas, fui designado para estagiar na Sessão de Material do 5º GAV. Éra-
mos chefiados pelo Capitão Carlos Barbosa, cuja peculiaridade era a designação
de tarefas escritas em pequenas pranchetas. Cada estagiário tinha a sua.
Numa sexta-feira do mês de agosto daquele ano, já promovidos a 2° Tenente
e há cinco meses em Natal, nosso chefe viajou a serviço. Naquele dia, fazendo
alusão ao fato de então eu ocupar o lugar de mais antigo da seção, portanto, o
lugar do chefe ausente, meu colega de estágio Hélio Lima falou-me com seu jeito
brincalhão qual seria a tarefa que eu, como “chefinho”, queria que ele cumprisse
naquele fim de semana.
Parece que vejo a cena. Entrando no clima da brincadeira, por pura
molecagem, peguei sua prancheta de tarefas e escrevi: procurar uma namorada
para o “chefinho” que preencha os requisitos de ser bonita, preferencialmente
loira, inteligente, educada e universitária.
E esqueci o assunto.
No dia seguinte, mais precisamente num sábado, estava eu almoçando
no refeitório dos oficiais, quando entrou o Hélio Lima que me disse: “Tarefa
cumprida!” Que a moça preenchia os predicados exigidos pela tarefa. Fiz um
rápido esforço de memória até entender que história era aquela, pois, até já havia
me esquecido da tal brincadeira. Mas alguma coisa atiçou-me a curiosidade e me
interessei pelo assunto.
Fui atrás das informações. Fiquei sabendo que o tal ônibus a que meu amigo
se referia era o transporte de alunos, disponibilizado desde o tempo do Coronel
Salema para os estudantes, filhos do efetivo da unidade, residentes na própria
unidade e em Parnamirim.
Para resumir, fui conhecer a Diolásia em sua casa, pois me informei também
que seus “passeios” eram da faculdade para casa ou para a missa. Natal ganhou
outro significado para mim, pois, ao conhecê-la, senti que encontrara meu
“aeroporto seguro” e o caso teve o happy end que a maioria de vocês conhece.
Considero que encontrei em Natal uma das maiores bênçãos de minha vida.
Casamos em 1970.
E para mim mesmo expliquei e me confortei pelo fato de não ter ido para
Fortaleza fazer o curso de caça!

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Capítulo 6

Momentos inesquecíveis
“Todos gostam, alguns tentam, poucos conseguem, mas raros são os que
executam com perfeição.”
(Tenente Aviador Hugo Barreto Macedo)

Instrutor de voo – a grande realização profissional

A o término dos cursos de caça e de transporte, como 2º Tenentes,


toda a minha turma foi classificada na Escola de Aeronáutica para
ministrar instrução aérea para cadetes. Os que terminaram o curso de bimotor em
Natal foram designados para a instrução primária e básica na aeronave Fokker
T-21 no Campo dos Afonsos – Rio de Janeiro – e os que terminaram o curso de
caça em Fortaleza foram para Pirassununga (SP), a fim de ministrar instrução
avançada na aeronave North American T-6.
Sem nenhuma dúvida, iniciei ali, na então Escola de Aeronáutica, no Ninho
das Águias, no Rio de Janeiro, um dos períodos mais bonitos de minha vida de
oficial aviador. Jamais sonhei sentir tanta realização profissional quanto a que
experimentei ao iniciar jovens na pilotagem. Com eles, vivi intensamente mais de
cinco anos como instrutor de voo, sendo um ano na Cidade Maravilhosa e quatro
anos em Pirassununga. Foram anos de muita satisfação, repletos de alegrias, ex-
periências novas e marcantes, sustos, muita vibração e total dedicação à atividade
aérea. Emociona-me lembrar ainda hoje o primeiro voo que fiz como instrutor do
Cadete Ranier no Fokker T-21 – 0797.
A missão de iniciar jovens na pilotagem militar ofereceu-me a recompensa
da decepção de não ter feito o curso de caça como aspirara por tanto tempo. En-
tendi que a imensa satisfação que sentia todas as manhãs ao vestir meu macacão
de voo era prova de que multiplicara o objetivo que perseguira com tanto afinco,
transmitindo a outros jovens meu amor à Força Aérea e minha dedicação ao voo
a tantos deles. Serenei o espírito, senti-me em paz. Senti ter me encontrado.

Oficial subalterno do Corpo de Cadetes

Em paralelo à instrução aérea, quatro segundos-tenentes de nossa


turma: Samartino, Zé Américo, Macedo e eu fomos classificados no Corpo
de Cadetes (CCAER) juntamente com o Tenente Julio Cezar, ficando cada
um responsável por um quinto do efetivo de cadetes do primeiro ano do
curso de Aviador.

73
Ávido para voar, com muitos aviões disponíveis e com um bom número
de cadetes sem instrutor de voo, eu trabalhava à noite no CCAER resolvendo
os problemas do quotidiano com os cadetes, de modo a ganhar tempo para
voar mais durante o dia.
O Comandante do Corpo de Cadetes – Tenente Coronel Jorge José de
Carvalho –, por desconhecer tal estratagema, supusera que eu estivesse falhando
com minhas responsabilidades e passara a exigir que todos nós permanecêssemos
obrigatoriamente durante meio expediente no Corpo de Cadetes, quer ali
tivéssemos atividades a desempenhar ou não. Lamento e peço desculpas por não
recordar com segurança se os outros companheiros desse grupo agiam da mesma
forma que eu, quanto a trabalhar à noite, o que é muito provável.
Aquela ordem foi como uma morte para os “fominhas” de voo. Imagine-se
um lindo dia de céu azul, céu de brigadeiro, aviões roncando na pista, cadetes em
solo, aeronaves no chão por falta de instrutores, nós, instrutores, desesperados
por estar ali na linha de frente e tendo de ficar metade do dia no CCAER.
Nós até que trabalhávamos bem mais que os outros instrutores, e isso afirmo
sem vaidade ou espírito de exaltação, pois o fazíamos com prazer, contanto que
voássemos tanto quanto pudéssemos. Nossa jornada diária muitas vezes ia das
5h30 da manhã até as 21 ou 22 horas.
Certo dia, nosso comandante, o Tenente Coronel Carvalho, ao perceber que
não estávamos cumprindo a determinação de permanecermos meio expediente
no Corpo, convocou-nos à sua sala e nos disse que fôramos escolhidos, entre os
componentes da turma, quando ainda estávamos em Natal, para a honrosa função
de oficial subalterno do Corpo de Cadetes...
Com essa introdução envaidecedora teve início um eloquente “sabão”.
Por sua educação e cavalheirismo, falei-lhe o que sentíamos, de coração
aberto, na certeza de que ele nos compreenderia, pois que sempre fora muito
ponderado. Disse-lhe – olhem só que falta de jeito! – que o fato muito nos
envaidecia, porém, não nos convencia, porque não estávamos felizes, já que nos
sentíamos tolhidos de voar mais.
O ambiente ficou tenso. Nada de céu de brigadeiro. Densas nuvens fecharam
nosso céu. Como é de se imaginar, a reunião foi encerrada naquele ponto.
Reconheço que me faltou tato e que não fui elegante. Era muito grande a vontade
de estar sempre no ar, de não perder um minuto sequer.
Após minha colocação, Macedo e Zé Américo aquiesceram ao meu ponto
de vista, dizendo que com aquelas restrições ao voo não estavam satisfeitos em
trabalhar no Corpo de Cadetes.
Claro que o comandante ficou muito aborrecido com aquela sinceridade
inconveniente e pouco educada. Entendi, com o fato, que nem toda verdade pode ser
dita de forma direta, principalmente na vida militar. Mesmo que o interlocutor seja

74
alguém mais velho, mais antigo, equilibrado e experiente e que o julguemos à altura
de entender o que um subalterno mais jovem e afoito queira colocar, não se deve agir
com impulsividade; há que se ponderar e sempre ter em mente que a hierarquia não
permite colocações como aquela, principalmente em frente a subordinados.
Horas depois, fui chamado a sua sala para ouvir que estava destituído da
função. Que por minha frase “envaidece mas não convence” ficara convencido de
que eu não deveria permanecer onde estava.
Rapidamente minha mente se agitou, avisando-me que, em vista dessa
dispensa, eu poderia voar o dia inteiro, o que me deixou exultante. No entanto,
achei que não seria correto sair sem me explicar, sem expor como estava me
desincumbindo das tarefas que a mim haviam sido confiadas.
Perguntei se sua decisão era irrevogável, ao que me respondeu
afirmativamente. Então lhe disse que não comentara antes para não parecer
bajulador, mas que comparecia ao Corpo de Cadetes praticamente todas as noites,
quando resolvia os assuntos administrativos pendentes com os cadetes sob minha
responsabilidade. Disse-lhe que fazia com que todos eles cantassem as canções
previstas, ensinava-lhes a doutrina e os motivava para os desafios da vida militar.
Acrescentei que cumpria todas as tarefas como previsto e que preferia ficar em
minha sala somente quando o que ali tivesse a fazer não pudesse ser resolvido
após o expediente; preferia dar instrução aérea no tempo que assim me sobrasse.
Senti em seu semblante surpresa com meu relato. Pedi-lhe licença e me reti-
rei. Lamentei ter causado aborrecimento a um superior sempre tão polido, porém,
meu interesse maior mesmo era voar. Desempenharia qualquer outra função com
o maior prazer, independentemente do horário que precisasse executá-la, desde
que nenhuma me subtraísse as oportunidades de voar.
Fui direto vestir o macacão de voo, companheiro que estaria comigo diutur-
namente nos próximos cinco anos de instrução aos cadetes, e “voei” para a pista.
Jamais poderia imaginar que, 15 anos mais tarde, eu seria Comandante do
Corpo de Cadetes. Como nunca havia esquecido o ocorrido, minha primeira ação
de comando foi incentivar os oficiais aviadores que trabalhavam no CCAER a voar.

O pau de sebo

O fato de termos sido designados instrutores de voo pouco depois de nossa


promoção a segundo-tenente com apenas 300 horas totais de voo, nos impôs,
a nós da turma 66, um grande desafio. Em outras turmas, os jovens tenentes
primeiro se tornavam operacionais em algum tipo de aeronave para então
assumir a responsabilidade de instrutor de voo. Chegavam a essa função com
mais experiência. Nossa lacuna nesse sentido foi compensada pelo afinco, pela
seriedade e pela dedicação à instrução aérea aos cadetes, realizada nas aeronaves

75
Fokker T-21, no Campo dos Afonsos, e North American T-6, em Pirassununga,
a que já me referi. Os jovens instrutores procuravam voar muito para com isso
ganhar experiência.
Os que procuravam ser dos mais voados e que queriam concorrer ao pau
de sebo voavam do nascer ao pôr do sol. Para os que não conhecem o sentido
do termo “pau de sebo” no jargão aeronáutico, trata-se de competição entre os
pilotos para ver quem realiza mais horas de voo ao longo do ano, “subindo” ou
não na estimulante disputa. Valem horas de voo de instrução ou em esquadrões
operacionais. Quem aspirasse chegar ao alto do pau de sebo em 1968, ou seja,
ser o instrutor mais voado do ano, precisaria realizar – por vezes – até oito voos
de 40 minutos cada um por dia. Isso implicava dar os debriefings – comentários
e orientações – e fazer as fichas de avaliação dos voos à noite, substituindo os
almoços por sanduíches.
O procedimento de substituir o almoço por sanduíche, para com isso lograr
um tempo de voo a mais no dia, chegaria ao conhecimento do Comandante da
Escola, o Brigadeiro do Ar Geraldo Labarthe Lebre, que determinou que não só
comparecêssemos ao refeitório, como que a ele nos apresentássemos antes da
referida refeição. E como ordens são ordens, assim tivemos de proceder. Mas
era um sufoco! Almoçávamos correndo, no máximo em cinco minutos, nos
apresentávamos ao comandante e voltávamos em disparada para a linha de voo.
Qualquer esforço ou sacrifício valia a pena, pois o retorno que obtínhamos,
em termos de vibração e felicidade, era ímpar. A contagiante vibração dos cadetes,
os voos de esquadrilha e a sincronia entre homens e máquinas marcaram a todos
nós que vivemos aquela experiência.
No apoio de serviços de manutenção – suporte logístico – lá estavam,
permanentemente dedicados, oficiais, suboficiais, sargentos especialistas e
praças. Formávamos um time, um time obcecado por voo.

Instrução de voo na Cidade Maravilhosa

Voar nos céus da cidade mais bela do mundo não chegava a ser trabalho e,
sim, destacado privilégio. Abençoada atividade profissional que nos conferia, a
nós, instrutores de voo principalmente, distinção das maiores, pois, quer voando
nos primeiros raios de sol, quer voando nos últimos, a beleza da paisagem do Rio
de Janeiro nos extasiava.
Como instrutores, sobrevoávamos particularmente a Barra da Tijuca, região
pouco povoada até o fim da década de 1960. Após essa data, o gongo do progres-
so e do desenvolvimento soaria forte, acordando-a para o boom imobiliário, para
a urbanização e para as inevitáveis consequências prós e contras do desenvol-
vimento. Passaram a surgir, a partir de então e com incrível rapidez, edifícios e

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mais edifícios, ruas, avenidas, muito asfalto, mudanças no meio ambiente, com a
ameaça de extinção de rios, riachos, lagoas e manguezais.
A Barra da Tijuca, a bela semi-intocada, pagava seu preço à lufada de evo-
lução que se propagava. Em contrapartida, lhe era outorgada a honra de, ao se
transformar em importante polo de desenvolvimento urbano, financeiro, humano
e social, tornar-se o bairro-cidade que é hoje. Agregada aos outros bairros do Rio,
acrescenta formosura à cidade que permanece linda como sempre.
Naqueles idos de 1968, voávamos sobre uma natureza meio selvagem, meio
intocada, tendo a nossos pés o tapete verde das matas e restingas. Para todo lado,
as águas do mar e das lagoas e, acima de nossas aeronaves, o azul infinito do céu.
No jargão de hoje, “não era para qualquer um, não”, e tínhamos consciência dis-
so. Nós nos sentíamos uns ungidos reis da criação, pela oportunidade e destaque
que a profissão que escolhêramos nos oferecia.
Naturalmente que, movidos pela paixão e pelo arrojo próprio da mocidade, co-
metíamos excessos e até mesmo muitas indisciplinas de voo. Cada um de nossa turma
– e de outras também – tem muitos “causos” a contar: muita “bobeira” que fez, muita
ousadia sem propósito, muita chance que deu para o azar, amigos que se foram em
transgressões evitáveis, punições por indisciplina e por aí vão as lembranças.
Lembro-me de uma dessas indisciplinas, que aqui conto com a devida au-
torização do agente principal, meu colega de turma e especial amigo Manuel
Cambeses Júnior. Num rasante mais arrojado, diga-se, num baixíssimo rasante na
área de instrução, não é que o Tenente Cambeses bateu com a asa de sua aeronave
num cavalo...?! Já imaginaram como deveria estar baixo e em que fria se meteu?!
E com o agravante de estar com um cadete em instrução a bordo! Que risco...
Tão logo pousara e nos contara o acontecido, o espírito de corpo, aquela
rede de solidariedade que protege os afins, ainda mais um instrutor tão querido
pelos colegas e subalternos, como ele, funcionou de imediato procurando uma sa-
ída que remediasse a situação. Um amigo dos instrutores, o Tenente Especialista
em Aviões Bezerra, recolheu a aeronave com a asa avariada ao fundo de um dos
hangares de manutenção. Tal manobra pretendia diminuir a exposição do sinistro
para que o conserto fosse efetuado sem muitos olhares em volta. Mas não teve
jeito, o assunto foi passando de um para outro e o Cambeses foi chamado à pre-
sença do Brigadeiro Lebre, nosso comandante.
Nosso amigo e companheiro de turma Tenente Vallim, de destacada habili-
dade em desenho, empenhou-se em elaborar a representação do que teria sido a
cena da colisão, e esse tal desenho foi apresentado ao comandante como coadju-
vante nas explicações. Para nossa surpresa, após uma rápida análise, o Brigadeiro
Lebre, austero e rígido como ele só, falou: “Cambeses, lembre-se sempre de que
as vacas abaixam a cabeça, porém os cavalos as levantam”, numa velada alusão
ao inverso da imagem representada no desenho que tinha por fim forjar uma cena

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em que coubesse uma interpretação benevolente para o caso. Ou seja, naquela
representação, havia uma defasagem com relação ao que na realidade acontece
com aqueles dois animais quando estão assustados ou se alimentando.
Mas o que contava mesmo era que o Cambeses fosse inocentado, e tal aconte-
ceu. Obviamente, não fosse esse instrutor tão admirado e, em consequência, “peixe”
do Brig. Lebre, o rigor da punição teria sido grande. Por sorte, fora apenas advertido.
E... o que aconteceu ao cavalo? Não sabemos.

O fascínio dos balões

No mês de junho, ocasião das homenagens a Santo Antônio, São João e São
Pedro, os céus do Rio de Janeiro se enchiam de balões. Era uma festa de cores,
luzes e formatos que se estendia pelo mês de julho, também. Era lindo! E aquela
festança me reportava à infância em Ponta Grossa e às fogueiras e balões das
comemorações do aniversário do tio Pedro.
Como é o do conhecimento de todos, naquela época, soltar balão ainda não
era considerado crime ambiental, pela lei, de modo que, na falta de restrição le-
gal, o carioca liberava sua criatividade e, competindo com as estrelas, salpicava
os céus do Rio com seus etéreos e flutuantes balões.
Toda aquela geração dava pouquíssima importância ao perigo que eles repre-
sentavam não só para a aviação, como para o meio ambiente e para a cidade em
geral. Pois bem, era comum nós, instrutores, voltarmos do voo e relatarmos, cheios
de marra aos colegas, quantos deles tínhamos derrubado com a ponta da asa de
nossas aeronaves. Ninguém “estava nem aí” para o perigo que isso representava!
Imaginem só o binômio: balão aceso e tanque de combustível na asa! Lembro-me
sobremaneira de um voo em que derrubei mais de duas dezenas deles.
Graças a Deus que, além de brasileiro, naquela época era também instrutor
de voo no Campo dos Afonsos, nunca tomamos conhecimento de incidentes pro-
vocados por aquele tipo de “travessura” aérea. Nos idos dos anos 1960, ainda não
se dava a ênfase que depois passou a dar ao quesito segurança de voo. Somente
depois de perdermos muitos pilotos por bobeadas facilmente evitáveis, se mais
conscientes estivéssemos dos riscos, é que o assunto começou a ser tratado com
seriedade e cientificismo. Atualmente, a concepção entre os jovens aviadores é
outra bem diferente daquela do “meu tempo”, o que constitui significativo avanço
na consciência profissional.

O infeliz voo rasante

Mais para o fim do ano de 1968, o Ministro da Aeronáutica, Tenente Briga-


deiro Márcio de Souza e Melo, reuniu-se com outras autoridades na Base Aérea

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de Natal para estudar a viabilidade de ali se criar um Centro de Treinamento de
Oficiais da Reserva. Os alunos voariam a aeronave usada na instrução primária
da Escola de Aeronáutica, o Fokker T-21.
Nosso comandante, Brigadeiro Lebre, que participaria do referido encontro,
determinou que dois instrutores de voo se deslocassem em duas dessas aeronaves
do Rio de Janeiro até Natal, a fim de voar na vertical da base durante o evento. O
Tenente Wagner, colega de turma, e eu – um em cada aeronave – fomos os esco-
lhidos para tal missão.
Foi uma missão inesquecível, sobretudo pelas maravilhas que contemplamos ao
sobrevoar do litoral carioca até o litoral potiguar, como, também, pelas sanções disci-
plinares que recebemos por causa de nossos excessos. Inicialmente, voamos a 1.000
pés de altura, depois a 500 pés e, a maior parte da viagem, em voo a baixa altura sobre
a deslumbrante beleza das praias e dos imponentes coqueirais nordestinos.
Na manhã do regresso ao Rio, um sábado, após a decolagem de Natal, co-
metemos uma grave indisciplina de voo. Após alguns rasantes sobre áreas ha-
bitadas daquela capital e da cidade de Parnamirim, circulamos em curva para a
esquerda, dando rajadas de motor e balançando as asas sobre as residências de
nossas respectivas namoradas.
Ao pousarmos em Recife para reabastecimento, fomos informados pelo Ofi-
cial de Operações da Base, que estava a maior confusão em Natal, nas organiza-
ções militares da Aeronáutica, do Exército e da Marinha.
E, para completar, havíamos acionado o Plano de Reunião da Guarnição de
Natal, que previa “passagens baixas de aeronave, com rajadas de motor e balanço
de asas”. Olhamos um para a cara do outro e nos demos conta da besteira que
fizemos. Sabíamos que a barra ia pesar feio para nosso lado, que o que fizemos
não ficaria só na advertência, como no caso do incidente do cavalo do Cambeses.
Sabíamos que o Brigadeiro Lebre ia nos enquadrar pesado.
Prosseguimos a viagem, dessa vez preocupados. Ao pousarmos no Campo
dos Afonsos, o Brigadeiro Lebre nos aguardava. Imaginem o semblante! Sem
arrodeios e sem preâmbulos, apontando para mim, disparou que eu cumpriria oito
dias de prisão como oficial mais antigo e que o Tenente Wagner cumpriria quatro,
por desobedecerem às ordens em vigor.
Prisão! Constaria esse termo em nossas fichas! Em minha ficha! Prisão!
Custou-nos caro a indisciplina. Ficamos muito chateados, “engessados”,
sem defesa. Sabíamos que estávamos errados, que a punição era justa, que re-
almente nos excedemos, que nos empolgamos querendo “aparecer” para nossas
eleitas, porém, eu não me conformava de saber que minha vida profissional fica-
ria marcada por aquela punição. O Wagner, também. Ficha manchada!
Embora a tal punição não representasse mais que um trâmite burocrático de
uma escrita em minha ficha, pois eu podia voar do mesmo jeito, dar instrução,

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cumprir as atividades que normalmente cumpria no dia a dia de oficial aviador,
menos sair do quartel, é claro, o fato é que, ter incorrido em falta grave, merecido
uma avaliação negativa de meu comandante e saber que haveria registro da ocor-
rência em minhas alterações, me constrangia muito.
Uma vez mais, um puxão forte de orelha dado por alguém mais experiente me
chamou à realidade. Fiquei “pianinho”, evitando excessos. Numa autoavaliação,
caí em mim de que realmente estava indo longe demais. Não fazia muito tempo, um
colega de turma e amigo havia escrito para a Diolásia, sugerindo que ela tentasse
me frear, pois eu estava, há algum tempo, me expondo além da simples empolga-
ção. A chance era considerável de qualquer dia me acidentar seriamente.
Claro que fiquei irritado com aquela “intromissão”, mas tive de admitir que
partira de alguém que gostava bastante de mim e o fato ficou em meu arqui-
vo mental. Às vezes, quando sabemos que estamos errados, mas o que estamos
fazendo nos dá muito prazer, ficamos bravos com quem procura nos alertar do
perigo. Num momento inicial é assim, o bom senso só é ouvido depois, às vezes,
tarde demais. O fato é que, com a punição dada pelo comandante, aliada à “intro-
missão” de meu colega, tive de parar para pensar.
Aguardei o tempo certo e, após dez anos, como permite o regulamento,
requeri o cancelamento da punição constante em minha ficha de alterações. Para
os que não conhecem o termo, ficha de alterações é o registro das principais ati-
vidades de um militar ao longo de sua carreira. Nela constam, entre outras coisas,
elogios, advertências, punições, transferências etc.
Não sosseguei até que a oportunidade chegasse. Requerimento feito, apro-
vado a meu favor, finalmente, virei a página e sosseguei. Mas tive dez anos de
espera com “aquilo” na minha cabeça, remoendo.
Na época, eu servia em Brasília.

Uma perda irreparável

Quem já passou pela infinita tristeza de perder cedo sua mãe entende o que
reportarei agora.
Ainda 2º Tenente, aos 26 anos, perdi minha adorável mãe numa cirurgia
efetuada no Rio de Janeiro, no dia 9 de outubro de 1968. O destino me surpreendeu
de forma muito dolorosa. Não me permitira tempo hábil para recompensá-la
por tanta dedicação, tanto amor, tanto zelo, proporcionando-lhe uma vida mais
confortável e mais sossegada financeiramente. Logo ela que, tão altruísta e
magnânima, agradecia as remessas em dinheiro que lhe enviava para aliviar as
despesas domésticas dizendo: “Walacir, muito obrigada, mas viva sua vida, meu
filho. Nós vivemos a nossa e estamos bem, Deus não nos falta. Se precisar de
alguma coisa, lhe aviso. Viva sua vida.”

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Sabemos que, se a lei natural se fizer cumprir, teremos de enfrentar perdas
irreparáveis, como o falecimento de nossos pais. No entanto, essa certeza não
nos prepara e muito menos nos poupa da crueldade do sofrimento quando o triste
momento chega. E se somos surpreendidos por perda prematura, a dor é ainda
maior, suponho. O tempo para nos recompormos é muito mais longo. Foi assim
comigo e, nos dias que se seguiram à morte de minha mãe, eu achava que nunca
mais voltaria a sorrir na vida.
Sabemos todos nós que a vida não concede privilégios a ninguém e que a
dor, quando bate à porta, maltrata e machuca tão fundo que, de repente, até o
simples ato de respirar faz doer o peito. Em minha indescritível tristeza, o apoio
dos amigos foi fundamental. Uns me apoiaram mais emocionalmente, outros,
mais racionalmente, tomando à frente de iniciativas práticas e necessárias para as
quais eu não tinha cabeça. Ambos, indispensáveis. A solidariedade com que me
rodearam partiu de todos os lados, e reconheço que, não fosse por isso, a situação
teria sido muito mais dolorosa.
Escrevendo sobre esse assunto, sinto-me na obrigação, conquanto o que
agora expresso não queira traduzir peso ou algo forçado, de demonstrar minha
gratidão àqueles que estiveram presentes naqueles momentos tão difíceis e
que me ofereceram o mais nobre de suas boas qualidades. Evitarei mencionar
nomes, temeroso de cometer injustiças, citando uns e omitindo outros, porém,
os que lerem este relato saberão, com toda certeza, se identificar e se encaixar na
intensidade de meu agradecimento.
Agradeço à FAB, na pessoa de meu então comandante, Brigadeiro Lebre,
que pôs à disposição um C-47 para o traslado do corpo da eternamente querida
dona Nair até Ponta Grossa, Paraná, como vocês sabem, minha cidade natal.
Minha mãe se fora aos 48 anos. Além de mim, ficaram meu irmão Davi,
então com 21 anos, e dois irmãos pequenos, William, com 9, e Sandra Mara,
com apenas 3 anos.

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Capítulo 7

AFA – o novo Ninho das Águias


P ara recordar um pouco de história, reproduzo parte do texto que
trata da história da Escola de Aeronáutica, encontrada no site da
Academia da Força Aérea.
“Por meio do aviso número 16, de 23 de janeiro de 1942, foi designada uma
comissão de oficiais aviadores, com a finalidade de escolher um novo local, isento das
limitações do Campo dos Afonsos, para a construção da nova Escola de Aeronáutica.”
O local escolhido, por causa de suas “excepcionais características
topográficas”, foi uma área a leste da cidade de Pirassununga, no interior de São
Paulo. Ainda no decorrer da Segunda Guerra Mundial, deu-se início à construção
dos primeiros hangares. Duas comissões foram designadas para a elaboração do
projeto da nova escola, sendo uma delas, em 1949 e outra, em 17 de julho de
1956, que elaborou o projeto final que “deveria atender às duas fases: mudança
para Pirassununga do último ano do Curso de Formação de Oficiais Aviadores e,
posteriormente, mudança completa da escola”.
Em 17 de outubro de 1960, durante as comemorações da Semana da Asa e
na presença do Ministro da Aeronáutica, Tenente Brigadeiro do Ar Francisco de
Assis Corrêa de Mello, e do governador de São Paulo, Carlos Alberto Alves de
Carvalho Pinto, inaugurava-se o Destacamento Precursor de Aeronáutica cujo
primeiro comandante foi o Major Aviador Aloysio Lontra Netto.
Em abril daquele ano, a capital do país fora transferida para Brasília.
Em 10 de julho de 1969, a Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos,
passou a se chamar Academia da Força Aérea e o destacamento em Pirassununga
também mudou de nome, passando a se chamar Destacamento Precursor da
Academia da Força Aérea – DPAFA.
Em 1971, a Academia foi finalmente transferida para Pirassununga, tendo
como seu primeiro comandante o Brigadeiro Lebre.

Vibração constante nos céus

Em 1968, foi introduzida a primeira aeronave a jato na instrução aérea de


cadetes em Pirassununga – o T-37C –, comprado dos Estados Unidos da América.
Eu passara o ano de 1968 ministrando instrução primária no Campo dos Afonsos,
como já relatara. No fim desse ano, por necessidade funcional, alguns instrutores
– entre eles, eu – fomos transferidos para Pirassununga.
A instrução avançada, em aeronave mais complexa, me proporcionara enorme
realização profissional. Fui muito feliz nos anos de instrutor em Pirassununga. No

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fim de 1969, meu primeiro ano na instrução avançada, fui o primeiro no “pau de
sebo” e, nos quatro anos em que ali ministrei instrução, voei 2,5 mil horas naquela
saudosa máquina, fato que me tornou o instrutor mais voado da FAB em T-37 C, até
que ela foi retirada da instrução da AFA, substituída pelos T-27 Tucano, em 1981.
Os companheiros de turma Dias Filho e Macedo também voaram mais de 2
mil horas no T-37 C.
Nos céus de Pirassununga, a instrução aérea era dada com mais segurança. O
risco de colisão com aeronaves civis era quase zero, digamos, posto que o tráfego
aéreo nas áreas de instrução era constituído apenas pelas aeronaves da FAB.

Traslado de aeronaves dos Estados Unidos

A fim de substituir as aeronaves NA-T6 na instrução aérea avançada dos


cadetes, foram adquiridas aeronaves a jato birreatores novas, da fabricante
americana Cessna, designadas na FAB como T-37C. A aquisição inicial foi de 40
aeronaves, complementadas por mais 25, depois, quando da criação do Centro de
Formação de Pilotos Militares (CFPM) em Natal, RN.
As 65 aeronaves foram trasladadas voando de Wichita, Kansas, Estados
Unidos, sede da empresa fabricante, para Pirassununga, São Paulo, em esquadrilhas
apoiadas por avião de transporte que levava os pilotos, os mecânicos e o suprimento.
Uma das esquadrilhas do segundo lote foi composta por quatro aeronaves
e oito pilotos experientes: Major Ajax, comandante do Esquadrão de Instrução
Aérea e, na ocasião, líder de esquadrilha: Capitães Salles, Trindade e Lacerda
e os Tenentes Ono, Santa Clara, Luís Carlos e eu. Foi decidido que os quatro
pilotos com maior conhecimento de inglês deveriam ser distribuídos um em cada
aeronave. No avião líder, ficamos o Major Ajax, que tinha cartão de voo para
missão no exterior, e eu. Enquanto estivéssemos operando em aeródromos no
exterior, ele faria a comunicação rádio e eu pilotaria. Ao entrarmos no Brasil,
inverteríamos a posição. Assim foi feito.
O brifim inicial da missão foi dado no Rio de Janeiro pelo Brig. Bins –
o mesmo que tinha sido meu comandante no 1º/14º GAV, quando sargento,
em Canoas. A diretriz era clara: a missão previa 29 dias no exterior. Porém,
o traslado, em princípio, só deveria ser voado em condições visuais, sem
entrarmos em formação de nuvens, portanto, por injunções meteorológicas
poderia ultrapassar o prazo. O Brig. Bins ressaltou que as esquadrilhas anteriores
– mais de dez – tinham ultrapassado um mês no exterior, mas que tinha certeza
de que o Major Ajax e sua equipe conseguiriam cumprir o limite previsto.
Com certeza, ele sabia que o líder de nossa esquadrilha era destemido e
que aceitaria esse “desafio”, sendo o primeiro a conseguir cumprir a missão
em 29 dias de exterior.

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Em 3 de fevereiro de 1970, decolamos de Pirassununga numa aeronave
Búfalo, C-115 2353, sob o comando do Major Oscar. Após sete etapas e 29h05
voadas em quatro dias, pousamos em Wichita, nos Estados Unidos.
Após voos locais de experiência e aceitação das aeronaves, iniciamos
nosso traslado no dia 18 de fevereiro. Voamos 19h40 em 13 etapas no exterior
e 9h45 em seis etapas nacionais, totalizando 29h25 até o pouso no Ninho das
Águias, em Pirassununga.
Ao decolar de Kansas, pousamos nas bases aéreas americanas em Louisiana,
New Orleans, Moody e Homestead, na Flórida. Desfrutamos da beleza do Caribe,
como Bahamas, em Nassau, Gran Turk, Porto Rico e outras ilhas do Caribe. Passamos
pela Guiana, por Paramaribo, no Suriname, e Cayenne, na Guiana Francesa, até
pousarmos em Belém. Prosseguimos, pelo litoral brasileiro, até nosso destino.
Se tivesse nos ocorrido a ideia de registrar em um diário nossas impressões
de 42 anos atrás, certamente teríamos dados curiosos registrados sobre, por
exemplo, o encantamento com as pequenas compras nos Estados Unidos. Porque,
para vários de nós, aquele era o primeiro contato com as terras do Tio Sam. O
Major Ajax, que já conhecia “a praça”, era ultrarrápido. Após pouso em bases da
Força Aérea americana e, enquanto reabasteciam as aeronaves, dava um “pulo”
até os BX (Base Exchange) e lá íamos nós atrás dele, seguindo suas “dicas”
de compras. O Trindade se dirigia logo para o setor dos CDs, grande sucesso
tecnológico do momento no Brasil. O Salles, amante da pesca, se interessava
por artigos referente ao esporte e comprou uma vara de pescar. O Santa Clara
anotava os preços de artigos que lhe interessavam e, no último dia na cidade,
alugou um carro e fez um giro pelas lojas, comprando os artigos que queria. Luis
Carlos e eu compramos roupas e o Ono, sempre muito discreto, não lembro o
que adquiriu. Sei, ao certo, que todos nós compramos uma televisãozinha portátil
para acompanhar o Jornal Nacional em suas respectivas cozinhas ou para ver a
novela Selva de Pedra em seus aposentos.
Essas “comprinhas” – as pequenas –, por vezes, eram colocadas no
compartimento do nariz do avião, ao lado de rádios e outros equipamentos
de navegação. Detalhe: de acordo com a segurança exigida. Por causa desse
artifício de armazenamento, digamos, e pela pressa em decolarmos, pagamos
um lamentável vexame. Na corrida de decolagem da primeira base operacional
americana Barksdale Air Force Base – sede das famosas aeronaves B-52 –, abriu-
se o compartimento da aeronave líder e os objetos que estavam soltos foram
arremessados para fora. O líder e seu ala abortaram a decolagem, porém, os
dois aviões que decolavam logo em seguida não o fizeram e decolaram meio
desconfortáveis. A cena parecia surrealista: duas aeronaves alijando combustível
dos tanques de asa enquanto uma viatura percorria a pista colhendo nossos goods.
Meu Deus, que “mico”!

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Em outra oportunidade, também decorrente da corrida contra o tempo, o
tal prazo dos 29 dias, e, com isso, por causa da pressa, uma das aeronaves fez
um barulho muito esquisito durante a partida de um motor. Conforme previa a
doutrina, cortamos os motores dos quatro aviões para verificarmos qual a causa.
E qual era? Outro “mico”: da tal aeronave do barulho estranho não havia sido
retirado o bloqueio da entrada do motor.
Na última decolagem do Caribe, já praticamente vendo a fronteira do Brasil
bem ali, os graduados do avião de apoio tiveram permissão para pernoitar na
própria aeronave, já que decolaríamos – os quatro T-37C – na madruga e, também,
porque seus dólares tinham acabado. Quando chegamos à pista, verificamos que
as aeronaves ainda não tinham sido preparadas para o voo; permaneciam como
deixadas para o pernoite. Ao observarmos que a porta do Búfalo permanecia
fechada e que nenhum dos mecânicos transitava na pista, ficou decidido que não os
acordaríamos e, no silêncio possível, prepararíamos os aviões para o voo. Ao ser
dado o sinal e acionados – simultaneamente – os motores dos quatro T-37C, com
aquele inconfundível barulho metálico que rasgava os ares do amanhecer, foi um
corre-corre só, dos companheiros graduados, saltando do avião. Houve punição.
O desafio foi cumprido. Fomos os primeiros a cumprir a viagem nos 29 dias
de exterior. Para comemorar e, sem avisar por rádio ou por sinal convencional,
o Major Ajax iniciou a descida com a esquadrilha para pouso na Base Aérea de
Belém. Ao verificar que as demais aeronaves estavam na ala do líder, comandou
um looping, para surpresa dos demais pilotos. Era a celebração de uma viagem
bem-sucedida e a certeza de que nos aproximávamos de casa.

Esquadrão Coringa

Durante nosso período como instrutor de cadetes, foi criado o Esquadrão


Coringa, constituído por nove aeronaves T-37C. Nesse esquadrão só voavam
instrutores, e sua criação tinha por fim a manutenção do adestramento de pilotagem
desses instrutores, o aumento da motivação dos cadetes com a atividade aérea e o
abrilhantamento de solenidades realizadas na Academia. Inicialmente, o Coringa
foi liderado pelo Capitão Padilha, depois, substituído pelo companheiro de turma,
o Tenente Macedo. A primeira participação oficial do Esquadrão Coringa se deu
no dia 10 de julho de 1969, por ocasião da solenidade de entrega de espadins aos
cadetes daquele ano e em celebração à data em que a Escola de Aeronáutica se
transformaria em Academia da Força Aérea.
Normalmente, voávamos ao entardecer, após cumprir nossas missões com
os cadetes, e nosso treinamento era sempre muito vibrante. Minha posição era a
de número 6 – no meio do losango formado pelas nove aeronaves, a que eu mais
gostava e na qual me sentia mais confortável. Éramos todos muito motivados,

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aliás, transpirávamos entusiasmo pelo que fazíamos. Aquela atividade extra,
desenvolvida naqueles céus de majestosos e indescritíveis entardeceres, constituía
presente de valor inestimável. Naqueles céus forjaram-se amizades, admiração
recíproca, respeito profissional e companheirismo para toda a vida.
É de autoria de nosso líder, o Tenente Hugo Macedo, a afirmação: “Todos
gostam, alguns tentam, poucos conseguem, mas raros são os que executam todas
as manobras com perfeição!”
As emoções vividas nos quatro anos de Pirassununga, como instrutor
de T-37C, durante os quais tive o privilégio de integrar o Esquadrão Coringa,
constituem um dos arquivos mais nobres que guardo na lembrança de minha
carreira. As experiências e emoções foram incontáveis e únicas. Relembrarei
algumas que permanecem na lembrança, pela originalidade ou pelo inusitado.

Enjoo em voo

O uso da máscara de oxigênio em voo provocava enjoo em muitos cadetes,


por causa do cheiro da borracha com a qual era confeccionada. Alguns a usavam
ainda mesmo no solo, na intenção de se adaptarem ao cheiro forte e enjoativo.
Outros o faziam na tentativa de se adaptarem a respirar com aquele incômodo
objeto lhes tampando o rosto.
Alguns fatos curiosos surgiram em torno desse assunto, pois o enjoo
constante poderia levar o cadete ao desligamento do curso de aviador. Os cadetes
que enjoavam com frequência, além do acompanhamento médico e psicológico,
apelavam para qualquer manobra, promessa ou simpatia que os pudessem livrar
do incômodo e da consequente ameaça que isso representava.
Entre alguns fatos curiosos, está o de um aluno do Tenente Lazzarini,
companheiro muito querido de nossa turma, falecido prematuramente em
acidente aéreo, em Anápolis. Ele tinha um aluno considerado bom piloto, mas
que enjoava em todos os voos. O Lazzarini inventou uma história na intenção
de salvá-lo, afirmando que, como cadete, enjoara muito até se adaptar ao voo, e
oferecia ao aluno a “simpatia” da qual se utilizara para transpor aquela barreira.
Só que ele teria que jurar que não revelaria o segredo a ninguém, nem para a
mãe dele, ao que o cadete jurou firme cumprir o trato. E então o experiente
instrutor disse-lhe que, na manhã de seus voos, passava graxa de sapato preta
Nugget (era a que os cadetes, como seu aluno, usavam) atrás da orelha direita e
que punha o cachecol por cima para não aparecer a mancha preta. Disse também
que a graxa deveria ser passada com os dedos da mão direita, por ser a mão da
pilotagem do avião.
Com um “sim, senhor”, o aluno se retirou. No dia seguinte, o tal aluno voou
e fez várias séries de acrobacias sem enjoar. O Lazzarini nada comentou, mas,

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discretamente, no retorno do voo, deu uma olhadela naquele pescoço e viu a
graxa preta escorrendo na direção da nuca.
Pelo poder da sugestão, ficava garantida a formatura de mais um novo
aviador da Força Aérea.
A história inventada surtiu o efeito desejado. Valeu!

A vitória da força de vontade

Tive um cadete chamado Heronides que tinha relativa dificuldade para


pilotar o T-37C, apesar de ser muito dedicado e esforçado. Era comum vê-lo de
dia ou à noite na cabine do avião, nos hangares, preparando suas missões. Em
vista de suas dificuldades, variou o mínimo possível de instrutor, tendo voado
comigo grande parte do curso naquela aeronave. Entretanto, ao entrar na fase
de formatura, fui substituído por outro instrutor e, já próximo do fim do curso,
ele fez um voo perigoso: quase “escalonou” na linha das turbinas do avião líder,
tendo por isso ido a conselho de voo e sido desligado (escalonar é passar de um
lado para outro da aeronave à frente, sempre por baixo do líder).
Para que tal decisão fosse homologada, a ata do conselho seria levada para
a aprovação do Brig. Lebre, Comandante da Academia no Rio de Janeiro. Ele
não homologou a decisão do conselho e convocou a seu gabinete o então Major
Ajax, comandante do Esquadrão de Instrução Aérea, para mais explicações. Fui
designado para ir junto com ele, porque, embora não tivesse voado esquadrilha
com o Heronides, eu o conhecia muito bem.
O brigadeiro abriu a reunião dizendo que uma das duas coisas estava
errada: ou deveriam tê-lo desligado muito antes e não o fizeram ou não
deveriam desligá-lo no penúltimo voo do curso, como proposto. Após as
discussões, virou-se para mim e me perguntou qual minha opinião sobre o
desligamento daquele cadete.
Naquela época, final de 1969, a FAB se preparava para receber a aeronave
AT-26 Xavante. Respondi-lhe: “Brigadeiro, eu não consigo ver o Heronides
num voo ‘picado’(em grande ângulo inclinado para o solo) de Xavante, fazendo
emprego da aeronave num estande de tiro. Porém, se ele se formar e voar em
outros tipos de aeronave será um excelente oficial...”
Após ouvir mais detalhes do desempenho do cadete, nosso comandante
concluiu que todo o curso de formatura de cadete deveria ser repetido e que eu
deveria ser seu instrutor.
Regressando a Pirassununga, procurei o Cadete Heronides. Ele já estava em
trajes civis, pois, como de praxe, já havia devolvido o fardamento no processo
de desligamento. Ao perguntar-lhe como estava, respondeu-me, muito triste, que,
infelizmente, não tinha dado.

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Estava arrasado. Ele era tímido e seu coração estava moído; sua alma, sofrida.
Então, fazendo um ar de mistério, perguntei-lhe se não gostaria de voltar a
voar o T-37C. Como ele era muito humilde, manteve-se cabisbaixo e repetiu que
o sonho acabara. Então, perguntei-lhe: “Que tal repetir todo o curso de formatura,
tendo a mim como seu instrutor?”
Ele tomou um susto. Não existem palavras para descrever a expressão que
se estampou em seu rosto. Num misto de surpresa, alegria, confusão mental,
gratidão e muitos outros sentimentos, levantou a cabeça com a convicção de que
dessa vez venceria. Só de recordar me emociono, pois, era um cadete de muito
valor e muito esforçado, de quem eu muito gostava.
Na manhã seguinte, após um briefing detalhado, tendo o cuidado de deixá-
lo bem tranquilo, decolamos para um voo de elemento: apenas dois aviões. Eu
escolhera o Tenente Josino como líder e lhe pedi que liderasse no nível da primeira
missão de formatura, ou seja, o mais elementar possível, e que só aumentasse o
nível se eu lhe fizesse gesto positivo, sem que o aluno percebesse.
Como o Heronides já tinha voado dez missões de formatura e com meus
constantes incentivos, seu desempenho na missão foi quase bom. No táxi de
regresso ao estacionamento, bati firme em sua perna direita e bradei: “Dá-lhe,
Aspirante Heronides!!!” Ele compreendeu que eu apostava em sua formatura,
que ele venceria. E quase se ejetou de tanta felicidade!
Esse cadete se converteu num exemplo de dedicação total à instrução aérea.
Formou-se e foi um dos raros casos em que um oficial usou, continuamente, o
macacão de voo até o posto de tenente-coronel. Foi, inclusive, comandante do
Esquadrão de Busca e Salvamento – 2º/10º Grupo de Aviação – e foi operacional
na aeronave C-130 Hércules. Minha previsão com o Brig. Lebre se confirmara.
Ele hoje se encontra na reserva da Aeronáutica e uma forte amizade, misto de
admiração e confiança, nos une, razão pela qual recorri a minhas cadernetas de voo
para constatar que fizemos 46 voos juntos, nos quais voamos 82h10 e 114 pousos.
Ele representou, para mim, uma das maiores realizações como instrutor de voo.

No meio do temporal

São Pedro, por vezes, nos dava uns sustos danados com temporais
repentinos em plena realização da instrução aérea. Em tais situações, a torre de
controle ou o controle de área nos orientava para regressarmos à Academia e
pousarmos antes que o tempo piorasse. O que queria dizer: antes que os riscos
se tornassem maiores.
No dia 9 de outubro de 1969, quando realizávamos instrução de navegação
com cadetes, sem pouso, chamada de circuito fechado, em que apenas passávamos
sobre as cidades do interior paulista de Ribeirão Preto, Bauru e Piracicaba,

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regressando a Pirassununga, uma situação de risco nos alcançou. Estavam no ar,
realizando a mesma missão, diversos aviões espaçados entre si, em torno de cinco
minutos. Como a missão era para ser somente visual, não deveríamos entrar em
nuvens para não perdermos o contato visual com o solo.
Eis que fomos surpreendidos por uma deterioração rápida das condições
meteorológicas. Muitas aeronaves foram pegas antes que pudessem retornar a
Pirassununga. A situação piorou de forma tão rápida que o órgão de controle nos
transmitiu ordem de pousarmos em outros aeródromos e que lá pernoitássemos,
pois, pelo mesmo motivo, Pirassununga fechara o campo para pouso.
Por termos de nos desviar da rota, o Cadete Yoshioka, meu aluno naquele
voo, e eu buscamos por alternativas que nos mantivessem em condições visuais.
Baixamos, baixamos e baixamos... até próximo ao solo. A chuva forte impedia a
visualização da área, dificultada pelo fato de que a aeronave não tinha limpador
de para-brisas. Plantações, fábricas, indicações geográficas passavam rápido,
tão rápido, que não tínhamos tempo de identificá-las para saber onde estávamos.
Imagino hoje que os olhinhos apertados daquele educado e disciplinado japonês
nem piscassem, porque, como instrutor experiente, eu também nem piscava.
Adrenalina a mil, lá nas alturas, em luta pela sobrevivência.
Com o voo à baixa altura, perdêramos as referências do equipamento de
navegação e eu não tinha mais a noção precisa de nossa localização. Disse-lhe:
“Yoshioka, estamos ‘perdidos’ na navegação...” Acho que meu cadete, confiante
em seu instrutor, não acreditou muito na afirmação, pois, não senti nenhuma
reação dele, apesar da força da conjuntura.
Voávamos muito baixo e o combustível do jatinho ia embora muito rápido;
eu não desgrudava o olho do instrumento que indicava o nível de combustível. Se
tivéssemos uma pane seca, aí que não teria remédio, mesmo para nossa situação;
tudo estaria perdido.
Enquanto voávamos visual, no começo da missão, pilotara o aluno; ao
perceber a situação de perigo, assumi eu a pilotagem e lhe disse: “Vamos continuar
voando baixo e, se não tivermos certeza da direção que estamos tomando, quando
o combustível remanescente chegar a determinado nível, vamos nos ejetar.”
Repassamos os procedimentos para ejeção. Subiríamos ao nível máximo
possível, até quase o limite de acabar o combustível, para então efetuarmos o
procedimento com segurança: primeiro ejetaríamos a capota, em seguida, ele se
ejetaria, depois, eu. Era a doutrina a seguir.
O tempo corria. O marcador de combustível diminuía rapidamente, por causa
do voo à baixa altura; a chuva impiedosa dificultava muito as indicações; e nós
estávamos perto de nos darmos por vencidos... Foi então que “uma mão invisível”
surgiu do nada para nos acudir. Avistei uma estrada asfaltada. Passei a voar próximo
dela; pensei rápido que, se tivéssemos um trecho de estrada em linha reta, bem que

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poderíamos pousar nela. Se assim acontecesse, salvaríamos nossa aeronave. Desde
o começo da situação, eu procurava uma forma de salvá-la. Em caso de ejeção, a
perda da aeronave geralmente era total. Eu buscava uma solução para que isso não
acontecesse, pois, além do prejuízo material, havia o grande risco de ela cair em
local habitado. Eu não queria nem pensar nessa hipótese.
Todas essas ideias passavam por minha cabeça com a velocidade das estrelas
cadentes ao se deslocarem na escuridão da noite.
Chegamos a um trevo que se bifurcava e apresentava uma placa com
indicações de nomes de cidades. Mas como ler? A chuva não dava trégua mesmo.
Era tão intensa que não conseguimos ler nada na primeira passada. Fiz, então,
um giro de 360 graus, passando ao lado da tal placa com a velocidade mínima
segura. Só pude ler que a indicação para seguir em frente era de uma cidade com
nome bem pequeno. De um relance no mapa, deduzi que poderia ser Jaú, e para
lá seguimos. São Pedro foi mais camarada – em fração de segundos, o tempo
melhorou e, em poucos minutos, lemos no telhado de um galpão a salvadora
palavra JAÚ.
Dali para Bauru foi um “pulo”. Lá pernoitamos vestidos com nosso macacão
de voo e especialmente agradecidos a Deus por termos escapado ilesos.
No dia seguinte, ao regressarmos para a Academia, vimos que a chuva de
granizo amassara asas e fuselagem de várias aeronaves. Por sorte, a nossa não
sofrera avaria alguma, por termos conseguido evitar os granizos.
Yoshioka e eu vivemos momentos tensos, em que me valeu a grande
experiência como instrutor naquela aeronave. Eu que sempre gostei de chuva e
que, quando garoto, adorava dormir ouvindo o barulhinho dos pingos batendo
nas paredes de madeira de casa... Eu que sempre ficava todo feliz ao perceber
que cairia chuva forte, pois, com ela teria, brincadeira garantida, tanto de sair
com meus primos e amigos para chutar a água das poças e disputar para ver
quem conseguisse espirrar a água mais longe como a de fazer barquinhos de
papel e vê-los navegar nos pequenos “riachos” que se formavam embaixo de
nossas janelas... Eu que, até hoje, sinto paz quando aprecio a chuva, naquele dia,
vivi momentos difíceis que nada lembrava minha relação de criança com esse
elemento da natureza.

O tounneau tatu

Fato atípico ocorreu durante a visita de certa comitiva à Academia, em março


de 1970, quando participei de um voo de demonstração de quatro aeronaves T-37C,
cujo líder era o Capitão Padilha. Após as evoluções em formação – todos juntos –,
partimos para passagens baixas isoladas, complementadas por acrobacias. Eu era
o quarto avião da formação, sendo, portanto, o último a efetuar a passagem baixa.

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Quando entrei na reta final para efetuar a manobra, cometi um erro de
julgamento – velocidade versus altura – e efetuei um tounneau rápido de três
voltas. Como não tinha velocidade suficiente para tal, no fim do terceiro giro,
o nariz da aeronave ficou muito picado, para baixo. Para não me chocar com a
torre de controle e com os hangares, precisei “cabrar” violentamente (comandar
o levantamento do nariz do avião para subir). O instrumento marcador de G
registrou 7,3 (sete vezes a força da gravidade) e a manobra passou a se chamar
tounneau tatu e quase se converte em tragédia.
De imediato, percebi meu grande erro de avaliação e o enorme risco da
proeza. Aquele engano poderia ter custado as vidas de meu amigo Luiz Carlos, a
de militares e civis no solo e a minha.
Depois de nos safarmos do pior, falei para meu companheiro de nacele:
“Luizão, assuma a pilotagem que vai dar m...”. O que ele respondeu negativamente,
afirmando que, agora sim, é que eu deveria pilotar.
Foi quando ouvimos a voz do líder, Cap. Padilha, exclamando que não
gostara do quatro. Ou seja, não gostara de minha manobra malfeita. O “quatro”
era a nossa aeronave.
Ato contínuo, a torre de controle nos transmitia a mensagem para a
esquadrilha interromper a demonstração e pousar.
Cumprindo ordens superiores, fomos direto à sala do então Tenente-
Coronel Max Alvim. Ele caminhava profundamente irritado, de um lado para
outro da sala, indo e vindo na frente dos oito instrutores que participaram
daquele voo. Parou em minha frente e me “fuzilou”, perguntando por que tinha
que ser logo eu..
Ele gostava de mim, sobretudo, por minha dedicação à instrução aérea. O
Capitão Padilha quis interferir, dizendo que a responsabilidade era dele como
líder, quando foi advertido a se calar, porque a ele nada havia sido perguntado e
porque ali só falava ele, Max Alvim. E acrescentou que eu permaneceria afastado
do voo por 30 dias.
Bomba! E que bomba!
Aquela seria a pior punição que eu poderia receber. Pior que os oito dias
de prisão do Brigadeiro Lebre. Imediatamente, imaginei-me despencando da
posição número um do pau de sebo.
Mas eis que a amiga sorte veio uma vez mais em meu socorro: no primeiro
fim de semana, dois dias após a decisão do “castigo”, precisaram de um piloto
para prestar socorro a uma aeronave em pane fora de sede. Já nem me lembro da
localidade. Fui convocado, e a punição foi considerada cumprida.
Ufa!!!
A disputa para ser o instrutor mais voado do ano continuava, e eu me
mantinha no páreo. Na cabeça!

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A alegria contida

Outro fato interessante do tempo de instrutor em Pirassununga ocorreu certa


tarde de domingo, quando o Cadete Luiz Sérgio tocou a campainha de minha
casa, na rua D-9 da vila de oficiais. Muito franco, foi logo dizendo que sabia que
não devia fazer o que estava fazendo, que estava errado em vir perturbar-me em
casa, mas que estava desesperado e precisava me falar.
O Luiz Sérgio era muito espontâneo, muito ativo, confiante, direto...
Convidei-o para entrar e perguntei-lhe o que estava ocorrendo para estar
daquele jeito, com aparência tão preocupada.
Ele me expôs sem arrodeios a dificuldade de relacionamento com seu
instrutor, acrescentando, com convicção, que se não mudasse de instrutor seria,
com certeza, desligado. Disse que de tão angustiado, tão perturbado, até sonhava
com o bigode do instrutor...
Sua atitude fugia mesmo do previsto, mas entendi a intensidade de sua
angústia. Ele tinha um bom e dedicado instrutor – o Tenente Garrido – mas
havia dificuldade de comunicação entre ambos. Um instrutor introvertido e um
cadete muito extrovertido. Entendi que o caso seria rapidamente resolvido se
a comunicação entre eles fosse melhorada. Com a comunicação truncada, não
tinha mesmo como a instrução render. A chance de desligamento era realmente
considerável.
Quanta gente boa se perde nas Forças Armadas ou nas empresas, em geral,
por causa de “ruído” na comunicação...
Considerei corajosa a determinação do cadete em procurar ajuda. Respondi-
lhe que iria fazer um voo com ele, sem briefing (comentários antes do voo), apenas
queria ver o que significava o avião em suas mãos, ou seja, se ele conseguia
“vestir” o avião.
Na manhã seguinte, decolamos e logo senti que ele precisava mesmo era nada
mais do que tranquilidade para voar. Foi um voo especial, e voltei convencido de
que ele tinha pilotagem acima da média, mais do que suficiente para prosseguir no
curso. No debriefing – comentário após o voo – eu lhe disse: “Aviador, você sabe
que, como comandante de esquadrilha, não devo ter aluno fixo, porém, vamos
fazer um acordo: vou fazer mais alguns voos com você, mediante três condições:
primeira, você nunca mais vai entrar num bar da cidade para compartilhar cerveja
com algum instrutor – o que fazia normalmente, sem ser bajulador, mas essa
atitude desagradava seu instrutor –; segunda, não vai dar mais nenhuma risada
alta dentro desse hangar – ele era alegre, descontraído, brincalhão, autêntico, e
cumprir esse trato seria um verdadeiro sacrifício –; e terceira, no dia em que você
errar uma resposta a qualquer pergunta sobre emergência, eu não voo mais com
você. De acordo?” Com uma seriedade nunca vista, respondeu: “Afirmativo.”

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Conversei com seu instrutor e tudo se resolveu bem.
Ele terminou o curso com tranquilidade. Ao longo da carreira, tornou-se
operacional até em aeronave complexa, como o Hércules C-130, fazendo um
bom trabalho nas unidades aéreas por onde passou e como comandante da Base
Aérea de Cumbica.
Boas lembranças, amigo Luis Sérgio!

A vibrante Esquadrilha Castor

Antes de ser comandante da Esquadrilha Castor, ainda quando tenente fui


Oficial de Operações dessa esquadrilha, ou seja, fui o número dois do Capitão
Manhães. Entre minhas atribuições, uma delas era programar a escala de voo.
Cadete tal voando com instrutor tal; voo em tal horário etc. Lembro que, muitas
vezes, levantava no meio da noite para mudar a escala de voo do dia seguinte,
pois me ocorria que determinado cadete rendia melhor com instrutor tal ou que o
cadete x não deveria receber instrução com o instrutor y, porque o temperamento
desse interferia no rendimento daquele. Eu cuidava pelo melhor rendimento
do binômio instrutor-cadete para que nenhuma ficha rosa – abaixo da média –
ocorresse por pequenos senões, graças ao relacionamento humano.
O que estivesse a meu alcance detectar e influenciar positivamente era
feito. Eu sabia quão forte era a tensão dos cadetes até solar e procurava ajudá-
los silenciosamente. A lembrança do fiasco de meu primeiro xeque unicamente
por causa da tensão emocional ficara em minha mente; aquele insucesso quase
colocara a perder uma carreira de tanta realização. Abençoado instrutor Tenente
Rosa que me deu a tranquilidade necessária para que eu seguisse em frente.
Comandei a Esquadrilha Castor, aquela do cachecol vermelho, como capitão
novinho. A Castor tinha um dos mais vibrantes gritos de guerra, criado pelo Cadete
Pinto Machado, o Vicente. Fazer parte dela era um orgulho, comandá-la, então,
um privilégio. Nossos instrutores formavam um bom time. Fazia parte dele os
tenentes: Ramos, meu Oficial de Operações; Silveira, Fragoso, Esteves, Garrido,
Braga, Serpa, Rizzi, Paulo e Bissaco. A eles meu profundo respeito profissional,
minha amizade e a saudade dos que partiram prematuramente: Fragoso e Rizzi,
ambos queridos por todos nós.
Nossos cadetes participavam ativamente do espírito de vibração que nos
unia. Mas não posso deixar de destacar um cadete em especial: o Vicente Pinto
Machado. Esse era de um entusiasmo excepcional. Lá adiante, bem depois de
formado, voltou a ser instrutor da AFA, e creio que pertence a ele o recorde de
mais horas voadas em instrução na Academia.
Como já mencionei, a Diolásia e eu nos casamos em março de 1970, logo
após meu retorno dos Estados Unidos, em que, com mais sete instrutores, fomos

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trasladar para o Brasil uma esquadrilha de quatro aeronaves T-37C. Sempre contei
não só com sua compreensão, mas com sua vibração no tocante a meu devotamento
à carreira e, principalmente, à instrução. Lembro que, em minhas levantadas, à noite,
ela comentava, bem-humorada: “Quem é que não deve voar com quem dessa vez...?”
Desde que nos casamos, até quando fomos transferidos para Brasília, em
abril de 1973, ela praticamente não me viu no período diurno. Eu saía de casa
às 5h15 da manhã e só retornava à noitinha. Nossa obrigação como instrutor
era fazer dois voos diários de instrução de T-37C de 1h20 cada um, chamado de
duplo comando ou simplesmente duplo. Normalmente, eu fazia tudo para dar
quatro duplos diários, muitas vezes, encerrando o dia com um quinto voo de
esquadrilha de quatro aeronaves, aquela em que só voavam instrutores.
Nessa esquadrilha de instrutores, o líder era sempre o Capitão Macedo.
Sabendo que eu gostava de voar na posição “quatro”, principalmente na formação
chamada “diamante”, na qual os quatro aviões formam uma espécie de losango,
ele sempre me convidava para tal posição. Junto com outros companheiros de
turma, entre eles o Capitão Dias Filho e o Capitão Vallim, encerrávamos nosso
dia de atividade aérea com voo nessa esquadrilha. Esse voo complementava
nosso estoque diário de endorfina.
Quando a Diolásia me recebia no retorno à nossa casa, de cara ela sabia
quantos duplos eu dera naquele dia. A cara de cansado dizia tudo, principalmente se
fosse instrução de acrobacias. Muitas vezes adormecia enquanto assistia ao Jornal
Nacional. Na época, a novela das oito era Selva de Pedra, com Regina Duarte e
Francisco Cuoco. A novela era, para mim, programa de “altas horas da noite”.
Nem os fins de semana escapavam daquele meu afã aéreo. Sempre que o
oficial de operações do Esquadrão de Instrução Aérea, o Major Queiroz – de
saudosa memória –, precisava de piloto para prestar socorro a alguma aeronave
em pane fora de sede, me ligava e lá ia eu feliz da vida. Tanto que, quando o
telefone tocava no fim de semana, a Diolásia dizia: “Já sei. É o Queiroz!” E era.
Rememorando esses fatos, sinto-me feliz com as escolhas que fiz. Agradeço
a Deus pelas vezes que me puxou pelo macacão para que os exageros não me
levassem para o outro lado da vida antes da hora. Como meus companheiros, sei
que dei muita chance para que isso pudesse ocorrer. Olhando para trás e analisando
com a maturidade que a idade e a experiência me trouxeram, acredito que não
repetiria algumas coisas, que incorreria em menos exageros, que melhoraria umas
tantas coisas, mas, grosso modo, faria o resto igual.

Mil e 2 mil horas de T-37C

Quando completei mil horas de voo de T-37C, comemoramos o


acontecimento com um voo de esquadrão com nove aeronaves, pois era o primeiro

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a atingir a marca no Brasil. Ao regressarmos para o pouso, pouco antes do peel-
off – dispersão para pouso – o Ribeiro Júnior, futuro comandante da Esquadrilha
da Fumaça que estava comigo treinando-me para a posição nº 6 do Esquadrão
Coringa, balbuciando um ah!, abruptamente, assumiu a pilotagem, deu potência
máxima e abandonou a formação. Fez uma série de acrobacias isoladas a baixa
altura que, pelo ineditismo da atitude, parecia indicar que ele tinha perdido o
controle emocional ou havia “pirado” mas, como era um excepcional piloto,
respeitei-o, embora apreensivo com aquele comportamento.
Depois entendi que ele fez uso daquele estratagema para não me deixar
perguntar ou entender o que estava ocorrendo lá em baixo, no solo. Exímio piloto,
Ribeiro Júnior – o português – era um verdadeiro ás. Emociono-me ao falar sobre
ele. Nós nos gostávamos e nos admirávamos muito. Esteja na paz, amigo.
Ao nos aproximarmos do local de estacionamento, fui surpreendido por
todo o esquadrão reunido, com a presença de várias esposas, inclusive a minha,
com os instrutores à frente e nosso comandante do Destacamento Precursor da
Academia da Força Aérea (DPAFA), o saudoso e muito querido Coronel Osório,
que me entregou um troféu em que destacava o primeiro piloto brasileiro a atingir
mil horas de voo naquela aeronave.
Certo tempo depois, outro troféu foi-me entregue pelo mesmo motivo: o
primeiro piloto brasileiro a atingir 2 mil horas de voo em T-37C. O importante a
destacar é que essas outras mil horas foram voadas em apenas um ano e três me-
ses. Bons e saudosos tempos em que um tenente aviador podia voar tanto.

2,5 mil horas de voo e a despedida do T-37C

Quando completei 2,5 mil horas de voo de T-37C, no dia 22 de março de


1973, ou seja, num período de quatro anos de instrução, todos em Pirassununga,
o Esquadrão Coringa, voltou aos ares, dessa vez para meu voo de despedida da
Academia na aeronave T-37C 0883.
Uma vez mais afirmo que fui extremamente feliz nesses cinco anos como
instrutor de cadetes, mas reconheço que paguei um preço bem alto por essa felicidade,
usando como moeda a saúde. Passei por uma cirurgia de pólipo anal e sofri muito
com hérnias de disco, na região lombar, provavelmente consequência de muita tensão
nessa área, na execução de voos de acrobacia em que puxava muito “G” (onde a força
da gravidade era aumentada, às vezes, em cerca de quatro vezes, ou seja, 4 G).
Mesmo depois de operado, carreguei a cruz de intensas dores na coluna
ao longo de muitos anos. O sofrimento foi intenso e prolongado, quem sofre de
problemas na coluna entende com muita clareza do que falo.
Em meio a tantas dores, apelei para tudo: de alopatia a acupuntura, de
homeopatia a massagens, sangrias, garrafadas de curandeiros e, por fim, não

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tendo mais para quem apelar e desesperançado sobre o que fazer, fui parar em
Palmelo, Goiás, onde o médium João, aquele que recebia uma entidade chamada
doutor Ricardo, me curou. João morreu vítima de picadas de abelhas no final dos
anos 1980 ou começo dos 1990.
Que não se aborreçam ou me deem as costas os profissionais da área médica a
quem dedico a maior admiração e respeito. A Ciência tem operado milagres, mas,
acreditem vocês, riam, zombem ou admitam, foi lá em Palmelo que me livrei das
dores que tanto me atormentavam. Eu que não tinha, nem tenho, conhecimento
na área do Espiritismo, que tive formação presbiteriana e que, portanto, corria
de qualquer relato que envolvesse o sobrenatural, por achar que era “coisa de
satanás”; afirmo que fui curado em Palmelo.
Eu já tinha ouvido alguns relatos de casos contados pelo amigo Coronel
Humberto Falcão, que, à época – 1989 –, era nosso vizinho de porta na SQN
204, Bloco I, em Brasília, e, juntamente com sua esposa, Carmem, eram
amigos muito especiais.
No mesmo andar de nosso apartamento, morava o Coronel Caetano, que,
no sábado seguinte, iria a Palmelo se submeter a uma “cirurgia espiritual” de
vesícula. Como ele não poderia dirigir por várias horas após essa cirurgia,
convidou-me para irmos juntos, para eu dirigir seu carro no retorno.
Ao longo da viagem, após ouvir diversos relatos de casos de “milagres”
operados pelo “doutor Ricardo”, decidi fazer uma consulta quando lá chegássemos.
Enfrentei uma fila de centenas de pessoas – com os mais variados problemas e
idades –, com certa ansiedade e curiosidade pelo doutor e pela consulta. Frustração
inicial: quando ia enumerar alguns problemas de saúde e após uns 15 segundos
em sua frente, ele rascunhou uma frase – provavelmente em outra língua –, que
não entendi, entregou-me e dirigiu-se a outro paciente da fila.
Entreguei o bilhete a uma senhora ao lado – esposa do doutor – que me
traduziu os “garranchos”, dizendo-me: “Cirurgia de coluna” e complementou:
“Se quiser fazer em emergência, pode ser amanhã cedo.” E, então, lá fiquei para
uma cirurgia na coluna, que foi efetuada com corte real e bastante sangue, porém,
que não durou mais do que um minuto.
“Ressuscitei” para a vida!
Para se ter ideia da limitação física em que eu vivia, havia dias em que o
simples ato de escovar os dentes ou amarrar os cadarços do sapato me travava
os movimentos, me levando a dolorosas crises. Eu tomava medicamentos como
Voltaren, Profenid, Dorflex e Citoneurin injetável e outros mais que agora me
fogem à memória como quem toma água, sem obter alívio algum. Quando
entrava em uma farmácia, logo perguntava se havia surgido alguma medicação
forte, nova, que aliviasse dores de coluna e, caso positivo, já a comprava. Mas
praticamente nada me trazia alívio.

96
Por favor, não me recriminem pela automedicação, pois, nem sempre era
assim que eu agia; parte das vezes eu repetia mesmo eram as prescrições dos
médicos, somente.
Conduzido pela dor – e não pelo amor, nesse caso –, aprendi que não se pode
condenar ninguém por certas buscas alternativas. A experiência me mostrou que
são muitos os caminhos da verdade e da fé. Constatei que a verdade é mesmo
um diamante de incontáveis facetas. A seu tempo, pode, por cada um de nós, ser
reconhecida. Afinal, o que sabemos sobre ela? Sobre aquela verdade absoluta que
determina o que é certo e o que é errado? Passei a refletir mais sobre a afirmação
do dramaturgo inglês William Shakespeare quando diz que “há muito mais coisas
entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia não alcança”.
Não ironizo mais quando ouço que “a” ou “b” alcançou a cura de tal mazela
na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, na igreja do pastor João ou no centro
espírita X. Bati em muitas portas em meu sofrimento; encontrei muita boa
vontade, muita solidariedade, muita vontade de ajudar desinteressadamente. Não
faço, com tais afirmações, apologia ou negação aos avanços da Ciência; longe
disso. Só lhes conto com sinceridade o que comigo ocorreu.
Passei a respeitar mais o “abstrato” sem, contudo, querer com ele maior
contato. Não sou versado no tema. Mas uma coisa devo admitir: não sei como
me explicaria a dona Nair ou a tia Lina se essas viessem a saber que sua amada
“ovelha” afirmava ter sido curada da coluna em um “lugar de espiritismo”, pelas
mãos de um médium e pela atuação de um espírito chamado Dr. Ricardo. Seria
forte demais para elas... Vocês que me leem, não acham?
Mas volto a Pirassununga para encerrar essa etapa. Deixaria o Ninho das
Águias, a AFA, para servir em Brasília, no gabinete do Ministro da Aeronáutica,
o Brigadeiro Joelmir Campos de Araripe Macedo. O Capitão Padilha, aquele lí-
der de esquadrilha que dissera “não gostei do quatro” quando fiz o tounneau tatu
(lembram?), indicou-me para a função de ajudante de ordens do ministro com o
qual trabalhava, juntamente com o Leo, seu colega de turma.

Gravidez na estrada

Em março de 1973, a Diolásia estava no nono mês de gestação de nosso pri-


meiro filho. Às vésperas de nossa saída de Pirassununga, com o estresse da mu-
dança, teve um alarme falso e precisou passar a noite na Santa Casa de Misericór-
dia em observação, sob os cuidados do Dr. Arnaldo, obstetra muito conceituado
na cidade. Chegamos a “balançar” ante o convite do casal amigo e depois com-
padres Wagner Ramos e Guiomar para que ela permanecesse em Pirassununga,
preservando-se do risco da longa viagem de carro até Brasília. A confiança no Dr.
Arnaldo era enorme. Ele sabia disso, mas como homem de fé antes de homem da

97
ciência, não se deixou vencer pela vaidade e nos transmitiu muita paz, afirmando
que em Brasília nasciam bebês todo dia. E prosseguiu, afirmando que eles eram
muitos e que nasciam muito bem. E acrescentou que, se decidíssemos partir, que
fôssemos sob a proteção de Deus na certeza de que um bom médico nos assistiria.
E concluiu dizendo que lhe enviássemos a lembrancinha que sempre se oferecia
quando os bebês nasciam.
Tomamos a decisão de partir.
Pouco antes, fomos à cidade vizinha, Leme, e trocamos nosso automóvel,
um fuscão azul-pavão, por um Corcel vermelho, seminovo, para que a viagem
fosse feita com mais conforto. Hoje, mais que nunca, fico pensando na máxima
popular que diz que “Deus protege os inocentes”. Eu acrescentaria que os ingê-
nuos e ignorantes também. Imaginem que, para nos precaver do nascimento do
bebê durante a viagem, preparamos até um kit de emergência, com fraldas e afins,
e pegamos o endereço de uma prima de nosso amigo Tenente Silveira, obstetra
em Itumbiara, Goiás, e lá fomos nós rumo ao Planalto Central.
Quando penso...
No banco de trás do Corcel, o aquário com os peixes e a malinha do bebê,
que encarou muito bem a viagem. Os peixes também.
Onze dias depois de nossa chegada a Brasília, adiantado quase duas sema-
nas da data prevista, nascia nosso Jeferson, prematuro de peso, segundo o jul-
gamento da época, com 2,870 quilos. Nasceu no Hospital Distrital da L2, sob
os cuidados do Dr. Solon, indicação de nosso amigo Capitão Lacerda e de sua
esposa, Vera Lúcia.
Hoje, passados 39 anos, algumas vezes nos perguntamos se o esforço da
viagem não teria concorrido para a antecipação de seu nascimento. Se é que an-
tecipou. O certo é que, nos primeiros meses e anos, sua saúde foi frágil. Nada
de muito grave, coisas de crianças. Mas sempre foi sapeca e muito inteligente;
passava por cima dos contratempos.
Comemoramos nossa chegada a Brasília com um jantar no restaurante da
Torre de TV – na época, programa chique –, hoje Museu das Gemas. Dali se avis-
tava a Esplanada dos Ministérios, local onde eu trabalharia durante os próximos
seis anos.
Ainda me lembro da expressão de decepção do garçom que, ao se aproximar
com seu carrinho de bebidas e nos perguntar o que escolheríamos para acompa-
nhar nosso jantar, dissemos: soda limonada e água.

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Capítulo 8

Antessala do poder
Ajudante de ordens do Ministro Araripe Macedo

I ndicado pelos Capitães Padilha e Léo, fui convidado para a função


de ajudante de ordens do Ministro da Aeronáutica Joelmir Campos
de Araripe Macedo, em substituição ao Capitão Astor, promovido a major.
Ao trocar o macacão de voo pelo uniforme 5°A – túnica com quepe – com
alamar no braço esquerdo, senti o impacto do mundo novo no qual em tão
breve me inseriria. A começar pelo fardamento: passaria a usar diariamente o
uniforme 7°A – manga curta com quepe, internamente, ou o 5°A, externamente,
quando em companhia do ministro. Nada de puxar “G” – submeter o corpo
a uma aceleração da gravidade positiva ou negativa, acima ou abaixo de 1G
–, pois desempenharia missões que dispensariam tal recurso técnico. Nada de
almoçar às pressas, almoçar correndo ou até nem almoçar. Passaria a fazê-lo
certinho, no refeitório do gabinete.
O teor das conversas seria outro: assuntos mais abrangentes, mais globais,
tanto no tocante à Aeronáutica quanto no tocante ao país. Aquele mundo girava
em torno de assuntos maiores, em que uma novidade era substituída por outra
com rapidez; os horizontes eram mais largos. Pelos conhecimentos direcionados
a instrução de voo, madrugas, voo no Coringa, cadetes, solos, conselhos de voo,
peladas aos sábados na Fazenda de Aeronáutica – quando a coluna “autorizava”
– e desligamentos, a bagagem de instrutor da qual eu tanto me orgulhava dizia
pouco. Corri atrás, e em jornais e livros, procurei me inteirar de assuntos que não
me eram estranhos, mas que contavam com prioridade por não me fazerem falta
no desempenho das funções de onde eu vinha.
Foi grande a satisfação de passar a voar o jato executivo HS-125 do Grupo
de Transporte Especial (GTE), unidade aérea cuja missão era transportar as
autoridades federais. Outra satisfação foi passar a voar helicóptero, o Bell Jet
Ranger, e, muito interessante mesmo, foi participar das atividades da antessala do
ministro da Aeronáutica, respeitada autoridade que sempre esteve muito distante
de meu cotidiano.
Fazia parte de minhas novas funções acompanhar sua agenda, recebendo
e conduzindo as pessoas que seriam recebidas por ele, atentar-me a seu bem-
estar, distinguir o que era reservado ou sigiloso e, até certo grau, compartilhar
preocupações e pensamentos estratégicos que dissessem respeito à Força Aérea.
Grosso modo, era isso, além de acompanhá-lo em seus deslocamentos e nas
atividades profissionais do dia a dia de uma autoridade.

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Representatividade dos alamares

A nova função me apresentava a uma faceta da vida com a qual nunca havia
contatado. A do Poder. E, “antenado” com tudo a minha volta, na ânsia de aprender
rápido, de captar tudo que pudesse me ajudar para bem desempenhar meus novos
afazeres, comecei a observar mais de perto certas particularidades humanas.
Observei que nada como o poder, independentemente de sua dimensão, para
nos mostrar o interior de um ser humano.
Para os que chegam ao Poder, o problema é sério. Porque ou entendem que
de posse dele se apresenta a oportunidade de servir a muitos – como no caso
do Ministro Araripe Macedo – ou, ao contrário, alguns se agarram a ele pelas
benesses, pelo brilho social, pelas deferências que ele promove.
Voluntariamente ou não, esses últimos transformam-se em personagens,
independentemente da amplitude do poder que exerçam. Viram atores de uma
peça. Escravos de uma representação. E se esquecem de que o Poder não se fixa
em ninguém, que ele é fugaz. Esquecem que ele passa por um e por outro, mas
não pertence a ninguém e que nada o detém. Assim, passam os reis, os ditadores,
passam todos os que se julgam poderosos. E a conjunção abstrata, impalpável
e implacável que o faz deslocar-se, prossegue, malgrado a vontade de quem
persiste em detê-lo.
Com base nessas reflexões, presenciei cenas e atitudes que me causaram
orgulho por pertencer à mesma humanidade daqueles que mantinham a mente
voltada para o serviço; para o bem comum. Por outro lado, posto que o mundo é
uma mescla de homens e “homens”, presenciei cenas em que, por muito pouco,
pessoas se apequenavam.
Em relação a nós, ajudantes de ordens, verifiquei que éramos tratados com
consideração e cortesia por muitos que nos viam como o que realmente éramos:
auxiliares de uma autoridade. Por outros, éramos educadamente tratados, só pelo
tempo em que pudéssemos ser úteis a seus interesses.
Na simplicidade das funções que executávamos, não entrava em minha
cabeça a variedade de comportamento. Mas o mundo sempre havia sido daquela
forma. Que eu tirasse minhas lições e, nada de ficar elucubrando sobre um mundo
que não existia. Grandezas e mesquinharias sempre compuseram o claro e o
escuro desse mundo de personalidades. Nada era novo. Eu é que me encontrava
numa fase de “olhos para ver e ouvidos para ouvir”.
A função me privilegiava a posição de observador bem posicionado e focado
num variado laboratório de relacionamento humano. Por nosso posto de observação,
passavam vários patamares de hierarquia, e aquela vivência me enriqueceria bastante.
Digo-lhes que foram muito proveitosos as observações e o aprendizado. Só
não posso afirmar, no entanto, que tenha assimilado todas as lições das quais

100
necessitaria pela vida afora. Mas posso assegurar que o círculo dos que poderiam
me decepcionar se tornou menor. Daquela experiência retirei mais dados do
“como ser” e do “como não ser”. E o mais proveitoso foi que não me tornei um
desiludido, fixando-me em situações menores.
Minhas referências e apreço pela humanidade e pela Força à qual dedicava
meu idealismo permaneceu firme. Intacto. Só que mais maduro.
Por toda a experiência vivida na antessala do poder é que serei sempre muito
grato aos capitães Padilha e Leo que me indicaram para a função.
Foi muito gratificante trabalhar com a simplicidade, o comprometimento, a
inteligência e a capacidade de trabalho do Brigadeiro Araripe. Seus atributos me deixaram
indeléveis marcas de “como ser” em muitas situações de minha vida profissional.
Incluo nessas considerações – militar com características semelhantes às do
Ministro Araripe – o Brigadeiro Vespasiano, seu amigo e leal chefe de gabinete. Por
meio deles, testemunho a admiração que guardo às muitas outras autoridades que
conheci na época e que ofereceram seu melhor para o engrandecimento da Força.

O conflito do “tapetão”

Após sete meses na função de ajudante de ordens, me sobreveio um momento


de crise. Comparava o que eu produzia na AFA com o que julgava ter feito de útil
até aquele momento na função que então exercia.
Numa conversa amistosa com o assistente do chefe do gabinete do ministro,
o Major Medeiros, recebi uma grande mensagem para reflexão. Ele me disse que
fora encarregado de preencher minha ficha de conceito. Com a mais absoluta
franqueza e, também, inocência, respondi: “Posso ser franco, major? Tenho muita
apreensão quanto a isso.” Ao que ele me perguntou: “Por quê?” Mais franco ainda,
lhe respondi: “Aqui no gabinete não produzo 10% do que produzia na AFA.”
O Major Medeiros, com a experiência de vida que tinha na carreira e no
“tapetão”, chamou-me de “novinho” dizendo que eu tinha muito que aprender,
pois nem sempre carregar pedras era o mais importante.
Não entendi imediatamente a verdade daquele ensinamento. Interpretei até a
afirmação como se o trabalho do instrutor fosse de menor importância, e aquilo me
deixou desconfortável. Fiquei me lembrando das madrugas, dos voos noturnos, dos
briefings e debriefings, das alegrias com os cadetes solando, das tristezas com os
desligamentos... Imaginei os pilotos de combate em sua dedicação profissional, em
seu arrojo e comprometimento para com a pátria, sem limites de hora ou de dia no
desempenho de suas funções. E aquela frase me chegou como um soco no estômago.
Eu me perguntava: será que nada daquilo era importante? Claro que era e
havia muito respeito pelo trabalho daqueles profissionais. Eu é que precisava
aprender mais... Ainda estava muito “verde”.

101
A escolha de um capitão

Adentramos o ano de 1974, quando um novo governante militar – o General


Ernesto Geisel – assumiria a Presidência da República.
Na manhã do dia 13 de março, dois dias antes da mudança de governo, fui
chamado ao gabinete do Brigadeiro Vespasiano, que me apresentou uma relação
de três nomes, solicitando minha opinião a respeito daqueles oficiais, todos de
minha turma. Perguntei-lhe para qual função ao que fiquei sabendo que seria para
ajudante de ordens do Presidente Geisel.
Foi fácil responder, pois aqueles oficiais, excelentes profissionais, moderados,
inteligentes, corteses, apresentáveis, com certeza haveriam de representar muito
bem a Aeronáutica. Foi isso que falei ao Brigadeiro Vespasiano.
E a conversa se encerrou aí.

O último voo no gabinete do ministro

Logo em seguida, me dirigi para a Base Aérea de Brasília a fim de cumprir


uma missão do GTE, um voo até o Rio de Janeiro, um “bate-pronto”, ou seja,
viagem com regresso imediato. Ao retornar, algumas horas mais tarde, me
apresentei, como de praxe, ao nosso chefe imediato, o Tenente-Coronel Lobo,
secretário do Ministro Araripe, que, ao me receber, disse que eu estava atrasado!
Fiquei meio desarmado com suas palavras e lhe afirmei que viera direto
do aeroporto, sem me deter em nenhum lugar antes de me apresentar. Mas ele
insistia que eu estava atrasado.
Fiquei meio perdido, sem entender o porquê da insistência quanto ao tal atraso.
Por respeito me calei, mas fiquei meio por fora e sem jeito. Ora, se eu tinha vindo
direto do aeroporto e ali estava me apresentando, não poderia estar atrasado. Meu
raciocínio não saía disso. Aquele suposto atraso só poderia ser alguma coisa sobre
um assunto qualquer que eu não estivesse “pescando”; quem sabe, uma brincadeira?
Mas, em seguida, ele prosseguiu dizendo que eu não servia mais ali e que quem sabia
de minha vida era o Brigadeiro Vespasiano. Concluiu com um “Apresente-se a ele”.
Entendi menos ainda. Só sabia que não tinha feito nada de errado. Aí foi
que eu fiquei mesmo perturbado. Fui então ao Brigadeiro Vespasiano que, sem
introdução, foi logo perguntando o que eu estava fazendo ali. E, diante de minha
perplexidade, comentou que levara os nomes dos três oficiais ao ministro e que
ele decidira que o ajudante de ordens do Presidente Geisel seria eu, Walacir,
porque já estava pronto para a função.
Minha cabeça girou. Fiquei absolutamente surpreso, principalmente,
porque, em minha avaliação, pouco fizera para merecer tanto apreço e deferência
por parte do ministro. A hipótese de tamanha distinção jamais passara por minha

102
mente. Procurara desempenhar bem minhas funções, mas isso era obrigação, e a
ideia de um dia trocar a posição do alamar de um ombro para o outro – somente
na Presidência da República o alamar é usado no ombro direito – jamais tinha
passado por minha cabeça. Como um raio, cruzou minha memória a frase em que
eu afirmara ao Major Medeiros que “nessa função eu não produzia nem 10%...”
Fato consumado e, passada a surpresa inicial, fiquei muito contente e fui para
casa dar a boa notícia à Diolásia. Em seguida, fui ao Rio de Janeiro encomendar
uma farda de gala com o Euclydes. Euclydes era o grande nome entre os alfaiates
especializados em fardamento da Aeronáutica, na época. Eu sabia ser impossível
a confecção de um uniforme de gala, assim, de imediato, a “toque de caixa”,
em menos de dois dias, porém, sabia que ele daria um jeito. E deu. Com seu
conhecimento e prestígio, conseguiu-me um uniforme emprestado, que, adaptado
às pressas, chegou a Brasília em tempo hábil para a recepção do novo presidente,
no Palácio do Itamaraty.
Que salto! De macacão de voo a uniforme de gala que eu só sabia que
existia por foto.

Na Presidência da República

O General Ernesto Geisel era gaúcho de Bento Gonçalves, filho de imigrantes


alemães, o mais novo de cinco filhos. Aprovado por concurso, ingressara no
terceiro ano do Colégio Militar de Porto Alegre (1921), apesar de desaconselhado
a seguir carreira militar por causa da grave miopia da qual era portador.
Foi sempre primeiro de turma e estudante que, segundo consta, lia
compulsivamente. Adolescente, jovem, adulto e idoso de excelente memória.
Tenente que ocupara funções civis, como diretor-geral do Departamento de
Segurança Pública do Rio Grande do Norte (1931); secretário da Fazenda,
Agricultura e Obras Públicas da Paraíba (1932); superintendente geral da
Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, São Paulo (1955); chefe do
Gabinete Militar da Presidência da República e chefe da Secretaria Geral do
Conselho de Segurança Nacional no governo Castelo Branco (1964); ministro
do Superior Tribunal Militar (1967); presidente da Petrobras (1969); considerado
pelo empresariado nacional, internacional e mesmo por seus opositores políticos
como competente administrador público. Brilhante estrategista.
Ufa!!! Isso era só o comecinho do currículo do general com quem eu iria
trabalhar pelos próximos cinco anos e sobre quem não sabia absolutamente nada.
Candidato da Aliança Renovadora Nacional (Arena) e eleito pelo Congresso
Nacional como presidente da República Federativa do Brasil, Ernesto Geisel foi
empossado no dia 15 de março de 1974 como o 29° presidente do país; quarto
presidente do Regime Militar.

103
A transmissão da faixa presidencial do General Emílio Garrastazu Médici
para o General Geisel foi realizada – como era de praxe – no Palácio do Planalto.

Ajudante de ordens do Presidente Geisel

Como seu ajudante de ordens, a partir daquela data, passei a viver um período
ímpar de aprendizado e crescimento pessoal. De personalidade forte e caráter
admirável, sua presença impunha confiança, sua palavra determinava rumos, seu
pensamento claro expandia ideias, sua lealdade transpirava patriotismo. Essa foi
a impressão que me passou em nossos primeiros contatos e que só cresceu ao
longo dos cinco anos de convivência.
Pela proximidade com o chefe da nação, com seus ministros de estado,
autoridades federais, estaduais, diplomatas, empresários, políticos, pessoas
que faziam o Brasil, fui, aos poucos, aprendendo com fatos marcantes que
me permitiram ver a vida, meu país e o mundo sob uma visão mais ampliada
e diferente.
Aqueles anos foram tão proveitosos que até me levaram a compreender
a colocação do Major Medeiros, de que “nem sempre carregar pedras era o
mais importante”. Entendi que pensar grande, pensar em termos de Brasil,
era um desafio que requeria muita inteligência e preparo. Entendi que
missão, esforço, capacitação, comprometimento pouco construiriam sem
uma diretriz acertada, um pensamento correto, lúcido, ordenado, estratégico,
que impulsionasse o progresso e o desenvolvimento. Ali estava eu numa
posição privilegiada de aprendizado para observar como um chefe de nação
se desincumbiria de tal tarefa.

O gabinete pessoal

Quatro oficiais formavam o gabinete pessoal do presidente: dois do Exército,


um da Marinha e eu. No início do governo, os oficiais que o compunham eram:
Major André, do Exército, chefe da ajudância de ordens; Capitão Serpa, também
do Exército; Capitão-Tenente Spínola, da Marinha; e eu, ainda capitão, da
Aeronáutica.
A escala diária de jornada era a seguinte: um dos AJO acompanhava o
presidente durante as 24 horas do dia, inclusive, pernoitando no mesmo local do
chefe da nação; outro permanecia à disposição da primeira-dama, dona Lucy; um
terceiro respondia ao expediente normal, no gabinete da Presidência; e o quarto
ficava de folga. Nesse dia de folga, eu priorizava a atividade aérea: voos em
aeronaves do GTE – no helicóptero Jet Ranger e no avião presidencial BAC One-
Eleven, depois substituído pelo Boeing 737.

104
O convívio com a família Geisel

Rapidamente desenvolvi grande admiração pelo homem ético e verdadeiro,


então meu chefe, cuja família acompanhava seu perfil. Apesar de reservados, bem
depressa estabelecemos agradável vínculo de respeito e confiança que marcou
nosso relacionamento do começo ao fim da função, alongando-se nos anos pós-
governo, em que os visitava no Recanto dos Cinamomos, em Teresópolis, Rio de
Janeiro. Falo por mim e pelos colegas de gabinete.
Por mais discretos que fôssemos, imagino que não deveria ser fácil para eles a
onipresença de pessoas estranhas por quase todo tempo em suas vidas diárias. Durante
as refeições, ocasião em que as famílias ficam mais à vontade, trocando impressões
entre si, comentando fatos, falando trivialidades, sempre tinha alguém que não fazia
parte do clã presente. Coisas do poder que, em geral, ninguém se detém para pensar.
No lazer – que era pouco, mas existia –, nas compras, nas caminhadas...
Continuando com minhas reflexões sobre o Poder, eu matutava sobre as
restrições que ele impunha. Sempre quem está de fora só pensa nas benesses. Mas
quanta restrição...
Mas voltemos a falar do dia a dia com os Geisel. Todos eles eram muito
simples, arredios a badalações e futilidades; nada de ostentação ou arrogância
pela posição que ocupavam, nada de frivolidades ou ti-ti-ti. Não havia espaço
para pompas; o que havia era muito cuidado com os gastos, vigilância constante
em não dar margem a comentários de locupletação ou mordomia. O presidente,
vez por outra, nos dizia: “Ao terminar meu governo, haverá um julgamento.
Falem o quiser; não serei responsável pelo que disserem de mim. A única coisa
que jamais aceitarei é que me chamem de desonesto, de ladrão. Isso jamais!!!”
Seus hábitos alimentares acompanhavam-nos na simplicidade: carnes
magras, frutas, um churrasquinho vez por outra, frios, um vinho tinto; coisas ao
alcance de qualquer pessoa de classe média. Amália Lucy gostava de tudo que
tivesse chocolate. O presidente, por ter extirpado o baço e por ser disciplinadamente
espartano, era o mais comedido; tinha hábitos realmente frugais. Dona Lucy, a
modéstia em pessoa, acompanhava o marido em quase tudo, mas, como boa
descendente de alemães, abria exceção para as tortas de nozes.
Eu adorava um pudim de caramelo que, às vezes, aparecia como sobremesa.
Dele eu não me servia só uma vez, não! Eu o repetia e, ainda, o saboreava em meus
aposentos, graças à gentileza do pessoal da copa. O mesmo acontecia quando a
sobremesa era pudim de leite condensado. O pessoal da cozinha, sabendo que eu
adorava doces, me agradava com porções extras.
Acredito que, naquela pequena família, cada um tivesse absoluta noção do
papel que lhe cabia desempenhar. Cada um tinha naturalmente exato alcance da
transitoriedade do poder e da tolice de fazer dele uso no intuito de se sentir maior.

105
Sinto-me um privilegiado por aqueles cinco anos de convivência, único
AJO que ficou do primeiro ao último dia do governo; por nunca ter precisado
omitir fatos ou defender o presidente por essa ou aquela conduta. Ele era o que
era e, por suas qualidades, o admiro até hoje. Honrado. Competente. Devotado
ao trabalho. Comprometido com o país. Devoto aos valores de família. Apesar
de tê-lo conhecido como adulto, aos 32 anos, ele tornou-se um exemplo em
minha vida, alguém “que quando crescesse gostaria de ser”.

Perfil diferenciado

Durante o período do governo, por injunções, como cursos e promoções,


houve substituição de três colegas que compunham o gabinete pessoal, passando
a integrá-lo: Major Plínio e Capitão Parrini, do Exército e Capitão Tenente
Ralph, da Marinha. Apesar das substituições, manteve-se a tônica do trabalho e
do bom relacionamento entre nós.
Antes dessas trocas e com pouco tempo na função, percebi a diferença
de perfil dos oficiais das três Forças Armadas que serviam como ajudante de
ordens. Senti que cada Força enfatizava certos aspectos e que aquela unidade
de pensamento que eu julgava haver entre as instituições não era bem como eu
supunha. Divergíamos de opinião em muitos assuntos. Exemplo: Exército e
Marinha podiam e deveriam adquirir aviões? Naquela época, eu achava que não,
os outros, que sim, por isso e por aquilo. Constatei quão pouco conhecíamos
uns dos outros e que a dinâmica de cada Força tinha suas peculiaridades. Em
meu julgamento, faltava melhor comunicação, melhor entendimento para
que as Forças Armadas formassem um bloco mais coeso, com maior unidade
de pensamento, um verdadeiro time. O bloco coeso, com espírito de time,
realmente se formava quando o assunto era a pátria. A devoção ao Brasil essa
era incontestável.
Conheci oficiais brilhantes das três Forças. Citarei somente dois que
chegaram ao cargo de ministro de estado: o Coronel Gleuber Vieira, assessor
especial do presidente e depois ministro do Exército no governo do Presidente
Fernando Henrique Cardoso; e o Coronel Germano Arnoldi Pedroso, chefe da
segurança pessoal do presidente e depois ministro do Superior Tribunal Militar
(STM – 1998), entre outros.

Distanciamento civil das Forças Armadas

Uma das primeiras constatações que fiz na antessala do presidente foi a


de que pouquíssimas pessoas mostravam interesse pelos assuntos das Forças
Armadas. E olhem que vivia-se a época do regime militar, a tão apregoada

106
ditadura!, época em que, pelo que se transmitiria às gerações subsequentes, a
vida do país girava tão somente em torno da caserna e de perseguições políticas.
Eventuais perguntas de parte das autoridades que pela antessala transitavam
demonstravam muito mais educação e cortesia do que propriamente interesse
real. Era notório que assuntos inerentes às Forças Armadas só diziam respeito a
seus próprios representantes.

Observações de um capitão

O que guardei na memória sobre o período entre 1974 e 1979? O que


acontecia na sociedade brasileira? Injusto e falso afirmar, como alguns levam
a crer até hoje, que o governo só se incomodava em perseguir pessoas e que a
sociedade girava em torno disso. Vou relatar, sucintamente, alguns fatos que se
destacaram na vida do país naquele período.
Naqueles anos, o Carnaval do Rio de Janeiro mantivera-se maravilhosamente
o maior espetáculo da Terra, com a vitória do Salgueiro em 1974 e 1975, da
Beija-Flor em 1976, 1977 e 1978. No ano seguinte, foi a vez da Mocidade
Independente de Padre Miguel. Os festivais de música popular mobilizavam
o país, e artistas como Roberto Carlos, Jair Rodrigues, Elis Regina, Wilson
Simonal, Milton Nascimento, Ivan Lins, Maria Betânia e Baby Consuelo, entre
dezenas de outros artistas que brilharam e ficaram ou brilharam e sumiram.
Bandas como Rita Lee & Tutti Frutti, Mutantes, Secos e Molhados;
programas infantis como Popeye, Chapolim e Vila Sésamo; programas
humorísticos como Chico City e A grande família; filmes como Os trapalhões,
Dona Flor e seus dois maridos, O homem de seis milhões de dólares, O exorcista,
As panteras, Mulher maravilha, O incrível Hulk; e novelas como Fogo sobre
terra, Pecado capital, Escrava Isaura, Maria, Maria, Gabriela mobilizaram o
interesse dos brasileiros.
Quanto às novelas, dona Lucy se encaixava no rol das brasileiras que as
apreciavam; vez por outra, acompanhava alguma, especialmente as que eram
apresentadas antes do Jornal Nacional.
A estrela máxima da juventude era a discoteca, com seus decibéis
ensurdecedores e suas luzes piscantes; os voos de asa-delta eram a novidade
que encantava.
No “esporte das multidões”, o Internacional, do Rio Grande do Sul, foi
o primeiro tricampeão da história do futebol brasileiro – 1975, 1976 e 1979
–, com Falcão e Figueroa fazendo o delírio da torcida. Em 1978, o campeão
brasileiro foi o Guarani, de Campinas.
E jogava-se no bicho? Sim, jogava-se! Esse continuava, para a felicidade de
seus apostadores.

107
Destaques políticos

Em 1964, foi criado o Banco Nacional de Habitação, que, até sua extinção,
em 1986, no governo José Sarney, foi responsável pela construção de 4 milhões de
unidades habitacionais, em sua maioria agrupadas em conjuntos, os conhecidos
conjuntos do BNH.
O Brasil reatara relações diplomáticas com a República Popular da China,
algo muito produtivo para o país, isolando-se o fato de seu regime político seguir
a cartilha comunista. Ampliara-se a presença diplomática e comercial de nosso
país na África e na Ásia.
Construiu-se a Hidrelétrica de Itaipu e, em vista da crise mundial energética,
motivada pela alta do barril do petróleo pelos árabes, o Brasil saíra em campo
em busca de novas fontes de energia, com programas como o Pró-Álcool e o
Programa Nuclear.
No campo político, revogara-se o Ato Institucional número 5 e preparara-
se o caminho para que os brasileiros exilados retornassem à pátria, por meio
da concretização da ansiada Anistia Política pelo quinto presidente do período
militar, João Batista de Figueiredo.
Implantara-se o II Plano Nacional de Desenvolvimento – II PND –, com
o objetivo de resolver as questões estruturais do país. Denunciara-se o acordo
militar Brasil-Estados Unidos e abandonara-se o alinhamento comercial e militar
irrestrito com aquela superpotência por julgar que os interesses daquele país não
se encaixavam com os nossos.
Nas escolas, estudava-se a disciplina Educação Moral e Cívica, que
exaltava o valor da pátria; cantava-se o Hino Nacional e hasteava-se a bandeira.
Reforçavam-se valores e símbolos nacionais e conscientizavam-se os jovens do
quanto tinham de se orgulhar do país onde nasceram.
E o governo, como era exercido? Ah, o governo conduzia o país com o apoio
de uma parte da classe política e com outra parte, que lhe fazia declarada oposição.
Oposição tanto presente, no âmbito militar – alguns setores, principalmente do
Exército, a chamada “linha dura” – como entre os civis, por meio do Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), cuja estrela máxima fora o Deputado Federal
Ulysses Guimarães. Além do MDB que se contrapunha à Arena, a oposição tinha,
entre seus aliados, os movimentos estudantis, os sindicatos, a imprensa e a Igreja
Católica, essa última com representantes influentes como D. Evaristo Arns, de
São Paulo, D. Aloísio Lorscheider, arcebispo emérito da cidade de Aparecida
(SP), e D. Hélder Câmara, bispo de Olinda (PE).
A história que foi apresentada a meus filhos, a sua geração e às gerações
depois da deles foi a de um país engessado, unilateral. Toda a riqueza cultural e
exuberância de vida da época, aliada ao boom de uma sociedade, cuja “prima-

108
dona” já era a televisão há bastante tempo, faziam fervilhar um Brasil que ansiava
por crescer e aparecer. E foi o que aconteceu.
Aos jovens do período pós-ditadura não foi enfatizado que, entre 1947 e
1985, o mundo vivera um período em que duas nações polarizaram o poder: a
União Soviética e os Estados Unidos da América e que a disputa pelo poder era
ideológica. Os Estados Unidos defendiam a ordem mundial capitalista e a União
Soviética, o Socialismo. Não havia espaço para neutralidade nos demais países
do globo. Ou se estava de um lado ou de outro.
A agressividade imperialista da União Soviética, já de posse do Leste
Europeu, se debruçava cobiçosamente em direção à América Latina. Em 1960,
apossara-se de Cuba e, depois, da Nicarágua. Terreno fértil para discurso do tipo
“canto de sereia” não lhe faltava por toda a América Latina. Injustiça social, fome,
exploração humana, miséria, atraso, ignorância, inflação, corrupção política...
argumentos de sobra para uso na mobilização das massas por um pseudomundo
melhor. Muitos embarcaram com sinceridade na ideologia comunista, apostando
em dias mais justos e felizes. Outros tantos, mais esclarecidos, porém ávidos
de poder, taparam seus olhos às barbáries onde o regime comunista vingara e
fizeram das citações acima sua bandeira rumo à corrida ao poder.
Segundo O livro negro do comunismo, de Roberto Campos, “o comunismo
produziu quase 100 milhões de vítimas, em vários continentes, raças e culturas:
China (65 milhões de mortos); União Soviética (20 milhões); Coreia do Norte
(2 milhões); Camboja (2 milhões); África (1,7 milhão, distribuído entre Etiópia,
Angola e Moçambique); Afeganistão (1,5 milhão); Vietnã (1 milhão); Leste
Europeu (1 milhão); América Latina (150 mil entre Cuba, Nicarágua e Peru);
movimento comunista internacional e partidos comunistas no poder (10 mil).”
Fecharam os olhos e taparam os ouvidos à brutalidade da ideologia que defendiam
e que, por onde passava e se firmava, instalava indelével legado de dor.
Fazia-se premente que o Brasil tomasse uma posição. Teria de escolher o
lado: ou pró-comunismo, tendo a União Soviética como líder; ou pró-capitalismo,
sob a chancela dos americanos. Nosso país ficou com a segunda opção. O fato de
que o mundo dos anos 1960 já tinha conhecimento do que se passava por trás da
Cortina de Ferro agregou não só os militares, mas variados setores da sociedade
contrários à ideia de nos transformarmos em “satélites” russos.
Comento sucintamente esse assunto, pois tenho observado, ao longo desses
anos, que, mesmo filhos de militares, filhos daqueles que deixaram seus lares para
se recolher aos quartéis no cumprimento de seus deveres perante a pátria, pouco
sabem das dificuldades enfrentadas por suas famílias e pelo país naquela época.
Aquela criançada, hoje adultos, pais e mães de família, por exemplo, não
têm noção de quantos trabalharam com abnegação, honestidade e afinco para que
o Brasil seguisse adiante, buscando resolver suas diferenças no seio de seu povo

109
e por seus meios, negando-se ao engodo de ideologia importada e de ocupação
política e territorial para chegar a ser o que é hoje.
Lembro que o Presidente Geisel falava repetidamente da necessidade
de se devolver, o quanto antes, o poder aos civis e que lugar de militar era
na caserna. Mas para que tal acontecesse, fazia-se imperativo que a abertura
política se desse de maneira “ampla, lenta, gradual e segura”. E não negou
empenho para que isso acontecesse.
Segundo Roberto Campos, ministro do Planejamento do governo Castelo
Branco, o Brasil dos anos 1960 não tinha saída: ou encararia “anos de chumbo”
ou “rios de sangue”. Difícil escolha. Ficou com os “anos de chumbo”. Mas com
erros e acertos, com avanços e retrocessos, chegamos onde estamos; com chagas
a cicatrizar, com mortos a prantear, com sucessos a comemorar, como um país
que ainda tem muito a caminhar, crescer, se desenvolver, para tornar-se mais
justo, mais igual e cioso de sua soberania.

Correndo atrás

Aprendi que ler jornal e resumos da imprensa durante o expediente era


atividade obrigatória. Não era lazer! As autoridades governamentais, os políticos
e os empresários que compareciam às audiências e reuniões presidenciais e que,
portanto, dialogavam conosco, estavam normalmente dispostos a conversar com
os ajudantes de ordens desde que os assuntos abordados dissessem respeito a suas
áreas de atuação ou ao quotidiano nacional.
Uma vez mais e, em maior profundidade, senti na pele o déficit de uma boa
cultura geral. Busquei suprir meus vazios da melhor forma que pude, sabendo, no
entanto, que só alcançaria um tênue verniz em qualquer área que me propusesse,
por mais que me esforçasse. Pois, pelo fato de vir de outra formação intelectual,
jamais teria como um dia dialogar, por exemplo, sobre política internacional com
alguém do Itamaraty ou sobre economia com alguma autoridade preocupada
com o preço da soja, do petróleo, com as taxas de importação ou com cálculos
aprofundados de índices de inflação. Nem era o caso. Cada um no seu métier.
Conversar com o general Golbery da Costa e Silva, chefe da Casa Civil,
homem de enorme bagagem cultural, ou com o ministro da Justiça, Armando
Falcão; Mário Henrique Simonsen, da Fazenda; ou Azeredo da Silveira,
ministro das Relações Exteriores; requeria certo “jogo de cintura” para, ao
menos, camuflar o desconhecimento.
Aquele “novinho” que ganhara o campeonato de futebol de salão nos
pênaltis em Canoas (lembram?), observava que um assunto que rendia pouca
conversa na antessala do presidente era o futebol. Fato curioso, posto que, em
todas as épocas, tal assunto sempre fora empolgante. Praticamente só o General

110
Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, abordava o tema conosco. Podia até ser que
noutras sessões “a bola rolasse”, mas ali, na antessala da Presidência, não.
Os contatos das autoridades com os AJO eram normalmente muito rápidos.
Não eram realmente conversas; eram diálogos corteses que aconteciam enquanto
aguardavam audiência com o General Geisel. A distância hierárquica era grande,
e nos dávamos por satisfeitos por ouvi-los e aprendermos através de horizontes
tão mais largos e experiências tão maiores que as nossas. O mais tranquilo, porém,
era que nenhuma das autoridades que apresentei como exemplo se arvorava de
sabe-tudo ou buscasse palanque para sua superioridade cultural. O trato conosco
era sempre muito cordial, respeitoso e fidalgo.

Uma “enciclopédia viva”

Conversar com o General Geisel era receber aula. Sua cultura desenvolvida
e acumulada desde os tempos de Colégio Militar, período no qual diziam que ele
lia, em média, um livro por dia, era brilhante. A média de um livro por dia devia
ser exagero, obviamente, mas que lia muito isso ele lia, pois assim prosseguira
até aquela época. E como bom míope, o fazia sem o auxílio de óculos. Sua
memória era prodigiosa e seu raciocínio, muito lúcido e rápido. Fazia conexões
de ideias que nos causavam admiração. Discorria sobre qualquer assunto com a
segurança de quem absorveu muito das experiências pelas quais passou ou pelas
que simplesmente observou sem delas tomar parte diretamente.
O mais bonito é que não era arrogante em seu saber. Não se utilizava desse
saber para, no dia a dia, nos fazer menores se mostrando “o tal”. Conversava
naturalmente, com a consciência de que estava nos passando conhecimento –
justificado até mesmo pela diferença de idade –, mas sem se colocar em pedestal,
do tipo “admirem-me! Não sou mesmo brilhante?!”
Nas reuniões ministeriais, com políticos ou empresários, gostava de instigar
o debate e ouvir diferentes opiniões. Apesar de objetivo, não “atropelava”, sabia
ouvir. Depois de balizado, tomava sua decisão de forma sempre segura e, em
geral, incontestável. Sabia se posicionar e fazer valer sua autoridade. O General
Geisel sabia dar norte a seus subalternos e respondia por esse norte, assumindo
plena responsabilidade por suas ordens e instruções.
Certo dia, conversando com o amigo Ralph, ajudante de ordens da Marinha,
sobre como ele lidava com a defasagem de conhecimento quando conversava com
o presidente, durante, por exemplo, os deslocamentos entre o Palácio da Alvorada
e o Palácio do Planalto, ele disse que falava de trivialidades, de assuntos banais,
coisas como fatos ocorrido em alguma das viagens, sobre o tempo ou ainda sobre
se um dos pneus do carro estaria mais careca que o outro...
Achei que ele estava certo, era por aí mesmo... Falar de trivialidades era a

111
melhor maneira de desanuviar um pouco a cabeça de quem tinha de decidir sobre
tantos assuntos sérios no cotidiano.

Núcleo de comando

Seu núcleo próximo de comando era formado pelo General Golbery do Couto
e Silva, chefe da Casa Civil, exemplo arrematado de um workaholic; Humberto
Barreto, chefe da Assessoria de Imprensa e amigo pessoal; Coronel Moraes
Rego, assessor especial e, posteriormente como general, chefe do Gabinete
Militar; e o Professor Heitor de Aquino, secretário particular e controlador de
seus documentos pessoais e oficiais.
A esses somara-se o Tenente Coronel Gleuber, na Assessoria Especial, que
desempenhava funções no trato com os políticos e respondia por estudos de
problemas nacionais relevantes. Esse militar, o mais jovem do núcleo próximo
de comando, me causava grande admiração pela rara inteligência. Suas análises
eram brilhantemente fundamentadas e seus assessoramentos pareciam vir de
alguém muito mais vivido, com mais idade.
Ainda parte desse seleto grupo havia o ministro das Relações Exteriores, o
Embaixador Antônio Azeredo da Silveira, em cujo círculo imediato de trabalho
se incluíam o Ministro João Augusto de Médicis, tido como hábil negociador,
futuro representante do Brasil nas embaixadas de Varsóvia, Pequim e Santiago;
e o então Conselheiro Luiz Felipe Lampreia, que atingiu o cargo maior, o de
chanceler, no governo Fernando Henrique Cardoso, entre outros. O Conselheiro
Jorge Ribeiro complementava o grupo. Eu tinha maior contato com o Jorge, com
quem me identificava bastante na condução de alguns aspectos do cotidiano do
palácio. Considero um grande ganho pessoal ter convivido com aquele seleto
grupo de profissionais do Itamaraty.

Proteção ao chefe da nação

O General Geisel dispunha de um grupo, composto por militares e civis,


que fazia sua segurança pessoal. Dependendo do momento, essa segurança se
apresentava ostensiva, em outras, mais discreta.
Esses eram os principais militares do grupo a que me refiro: Coronel
Germano Arnoldi Pedroso, do Exército, chefe da segurança; Major Manoel,
Capitão Dante, Capitão Engelberg e Capitão Nelson – o Nelsão – da FAB.
Complementavam esse grupo outros que, embora não pertencessem
à segurança propriamente dita, estavam sempre próximos para apoio ao
presidente: Doutor Américo Mourão, também Coronel do Exército, chefe
do Serviço Médico; Conselheiro Jorge Ribeiro, chefe do Cerimonial da

112
Presidência; e os quatro ajudantes de ordem de nível hierárquico capitão
ou major. Os últimos constituíam o bastião mais próximo, os que ficavam
permanentemente ao alcance do presidente. Faziam as refeições junto com
a família, pernoitavam onde o presidente pernoitasse, permaneciam na
antessala de seu gabinete, controlando a agenda, atendendo telefonemas,
tomando providências, mediando contatos, recebendo seus auxiliares,
acompanhando-o em todos os seus deslocamentos, estando, enfim, sempre a
seu lado onde fosse.

Rotina presidencial

Às nove horas da manhã, um dos ajudantes de ordem, o que entraria de


serviço naquele dia, estava a postos, recebendo o chefe da nação para sua
jornada no Palácio do Planalto. Nos outros dias, no Palácio da Alvorada ou na
Granja do Riacho Fundo.
Oficialmente, o expediente ia das 9h às 12h e das 15h às 18h. Mas, na
verdade, a jornada de trabalho do presidente começava mais cedo e terminava
depois desses horários. Por dormir pouco, aproximadamente de quatro a cinco
horas por noite, o presidente Geisel começava a trabalhar bem antes do café
da manhã. Almoçava por volta do meio-dia e meia, fazia uma sesta de 15
minutos. Lia documentos até as 14 horas, quando retornava para o gabinete.
Jantava por volta das 19 horas, fazia uma horinha até o Jornal Nacional que,
naquela época, ia ao ar às 20 horas, depois do qual se recolhia aos aposentos
onde trabalhava mais um pouco, até a hora de dormir, que, em geral, se dava
após as 23 horas. Em média, ele trabalhava de 12 a 14 horas por dia. Nos fins
de semana, sua jornada era mais elástica, mas a “batida” era parecida.
O presidente quase sempre estava ocupado, pois, tinha muito que
ler; muito documento. Lia tudo que tivesse de assinar. Não assinava nada,
documento algum sem que se inteirasse completamente a que este se referia.
Guardada a enorme distância, tal comportamento me fazia lembrar de meu
avô Wallace, lembram? Lembram quando eu lhes contara que ele também
só assinaria um papel, um recibo, um documento, se soubesse muito bem o
conteúdo? Pois é...
Uma das grandes habilidades do General Geisel era saber dispor bem
do tempo. Seu trabalho rendia, tinha foco. Gostava de responsabilidades, de
pensar, analisar, agir, resolver, planejar, decidir. Sabia-se capaz e à altura
da responsabilidade de conduzir o país e, quando necessário, convocava
colaboradores para explicações.
Certa vez, contrariando seu perfil de workaholic e causando-me certa
surpresa, falou: “Como é que pode uma pessoa almejar ser presidente

113
da República?” Fiquei meio atônito com a pergunta, porque sempre o via
trabalhando com muita responsabilidade e satisfeito; nunca reclamava do
volume de trabalho ou das responsabilidades. Mas logo entendi: naquela
semana, a sobrecarga de problemas estava bem além da de costume. Apesar
de jamais se lamentar, naquele dia, emitira um desabafo, o único que eu
testemunharia em cinco anos na função.
Nunca presenciei acertos com essa ou aquela mídia sobre qualquer
assunto. Isso, não. Nunca! Até porque, para tais atribuições, havia o Setor
de Comunicação, responsável pela comunicação com a imprensa, que fazia,
quando achava pertinente, a triagem das notícias.
O presidente e sua família passavam os fins de semana na Granja do
Riacho Fundo, para a qual, muitas vezes, ele se deslocava de helicóptero. Nas
tardes de sábado ou domingo, após ler os jornais, ele analisava documentos e
dava sua caminhada com dona Lucy, acompanhado por um dos dois cães de
estimação. Seu lazer preferido era jogar buraco, o que, normalmente, fazia
com dona Lucy, sua filha Amália Lucy e Humberto Barreto, seu assessor de
imprensa. Quando faltava um elemento para completar o grupo, o ajudante de
ordens era convidado.
Amália Lucy e o pai eram parceiros constantes; ambos gostavam de
ganhar sempre e, se jogassem um contra o outro, acabavam se zangando, se
atritando. As contendas terminavam em paz sob a mediação de dona Lucy
e Humberto. Discussões típicas de jogo, como: “Você está prendendo a
carta que eu preciso para completar essa jogada. Assim, não dá!”, “Não, não
acredito que você tinha essa carta aí e não bateu para pegar o morto!” “Assim,
é melhor jogar sozinho.” “...Também, você não ajuda; ainda por cima dá essa
carta pra eles!” E o tom de voz ia subindo na razão direta da diferença de
pontos entre eles e a dupla opositora.
Além do joguinho de buraco, o general gostava de um bom Western,
daqueles que levantassem muita poeira. Filmes do John Wayne, apesar de não
serem novos, e os da série 007 eram capazes de fazê-lo dar trégua à leitura
dos documentos oficiais, à noite. Seus momentos de lazer eram poucos, como
já afirmei, e vê-lo alegre fazia bem a todos nós.
De vez em quando, o círculo mais imediato era convidado, com sua
família, para um churrasquinho, em geral, na Granja do Riacho Fundo. Nessa
ocasião, como era de se esperar, todos se mostravam mais relaxados; falava-
se de trabalho, mas assuntos variados também tinham vez.
O presidente praticamente não bebia; tomava um uisquezinho com gelo,
vez por outra, numa reunião social ou um vinho no jantar.
Pela proximidade, participávamos de suas preocupações domésticas e
familiares, como problemas de saúde e o corriqueiro vai e vem do dia a dia.

114
Uma coisa bonita de observar era a forma como ele e a família cuidavam de
seus idosos, no caso, os pais da dona Lucy e a irmã mais velha do presidente,
dona Amália. Dedicavam-lhes muita atenção e respeito. Às vezes, o presidente
contava sobre as dificuldades da família, cujos pais faleceram cedo, destacando
a garra com que essa sua única irmã, Amália, a mais velha dos cinco filhos
do casal imigrante alemão Augusto Guilherme e Lydia Beckman, acabara de
criá-los. Tia Amália, como era chamada, contava, naquela época, com apenas
seu salário de professora primária de cidade do interior do Rio Grande do Sul
para mantê-los e educá-los.

115
Capítulo 9

Momentos marcantes
Nova disputa intelectual

N o decurso da missão que cumpria na Presidência, realizei o


Curso da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais da Aeronáutica
(EAOAR), em 1975, de duração de quatro meses, em Cumbica, São Paulo.
Tão logo chegamos ao curso, formamos um grupo, os colegas Luiz Carlos,
Cambeses, Nava, Macedo e eu, e nos dedicamos aos estudos com afinco. Ao
chegarmos ao último mês do referido curso, a disputa pelo primeiro lugar
estava acirrada, e percebi que a avaliação que decidiria a classificação para o
primeiro lugar seria a apresentação oral da monografia. Discorri sobre o tema
Desenvolvimento Nacional e segui com rigor as orientações preconizadas em
sala de aulas. Preparei-me bastante para aquela apresentação e, contando com
o dedicado apoio daquele grupo de estudos para o manuseio dos auxílios
de instrução, lá fui eu apresentar minha monografia. Dependendo da nota,
estaria na disputa pela primeira colocação. Treinamos com muita seriedade e
dividimos as tarefas: um me informava sobre o tempo do qual dispunha; outro
acionava o filme de abertura do trabalho; outro passava as transparências;
outro apagava e acendia as luzes na hora certa e assim por diante. Um time. E
que solidariedade! Consegui o grau máximo: nota 10.
Naquela apresentação oral, estiveram presentes o comandante da EAOAR,
Coronel Maciel, os companheiros de minha turma e colegas de outras turmas que
fizeram o curso conosco.
A disputa do primeiro lugar estava basicamente entre o Capitão
Washington e eu. Nós sempre nos demos muito bem e sempre nos tivemos
em alto grau de consideração. Respeitávamos as conquistas intelectuais um
do outro e sabíamos do esforço, da dedicação, da lealdade e da honestidade
com que disputávamos esses destaques acadêmicos. Nos cumprimentos
pela apresentação e ao me abraçar ele me falou que, com aquela nota na
exposição oral, não dava para competir. Trocamos uma boa risada e senti
sinceridade em seu cumprimento.
Tal como ocorrera nos cursos da EEAR e da AFA, senti meu esforço
recompensado; recebi dois troféus: o de primeiro colocado no Curso de
Aperfeiçoamento e o de primeiro colocado na exposição oral dentre os 72
alunos participantes. Conquistara ali o terceiro primeiro lugar dos cursos da
FAB, o que me incentivaria, anos mais tarde, a tentar o mesmo desempenho
no Curso de Estado-Maior.

116
Batismo em solo europeu

Como falei um pouco atrás, como ajudante de ordens, eu também fazia parte
da equipe que pilotava a aeronave presidencial, na época o BAC One-Eleven
– VC-92. Fiz o curso de formação da aeronave no GTE, em Brasília mesmo, e
considero-a uma das mais delicadas e agradáveis aeronaves que pilotei.
O curso de simulador era ministrado em Dublin, capital da República da
Irlanda, local da fábrica daquele avião. Transcorria o ano de 1975. A disputa pelo
poder naquele país se mostrava intensa tendo, contudo, diminuído os casos de
ataque terrorista com bomba. Falava-se de luta entre católicos e protestantes, mas,
na realidade, o que se disputava mesmo era o poder, não as diferentes concepções
religiosas.
O terrorismo do Exército Republicano Irlandês, o IRA, atacava
inesperadamente e com violência, fazendo muitas vítimas. Quando se falava na
Irlanda, a primeira imagem que vinha à mente era a do terrorismo. Quando menos
se esperava, havia explosões em Londres, Dublin e Belfast. Antes de 1975, a
situação tinha sido muito séria. A partir daquele ano, porém, como falei, as coisas
estavam mais calmas, mas ainda assim havia receio de que a conturbação e a
violência retornassem a qualquer momento.
A Diolásia me acompanhou nessa viagem. Com minhas despesas cobertas
pela União, ficou accessível levá-la. Debutamos em solo europeu, no inverno,
usando capote emprestado da sogra do Aparecido e mais algumas peças de inverno
de amigos. Não tivemos problema algum no que se refere a segurança, e conhecer
o inverno europeu foi uma experiência interessante para nós, dos trópicos.
Nessa ocasião, passamos por Londres, e ainda me lembro do que a Diolásia
falou: “Eu moraria aqui por uns tempos, mesmo com esse frio, mesmo com esse
fog...” Nós nos encontrávamos, naquele momento, diante da catedral de Westminster,
a maior catedral católica romana da Inglaterra e do País de Gales. Mal sabia ela que,
quase 20 anos depois, moraríamos naquela cidade por dois anos...

Nova perda irreparável

Perdi meu pai em 31 de outubro de 1976, quando ele tinha apenas 56 anos,
vítima de um infarto fulminante. Seu Chico fumava duas carteiras de cigarro por
dia... Talvez tenha sido essa a causa.
Eu era major e estava de serviço. Era noite e eu estava no Palácio da Alvo-
rada. O telefone me despertara no meio do sono, deixando-me sobressaltado, mas
jamais pensei que, ao atendê-lo, ouvisse notícia de tal gravidade. Pensei que a
ligação fosse por algo relacionado ao trabalho, alguma alteração ou necessidade
da família a resolver.

117
A Diolásia recebera uma ligação de Ponta Grossa e, não tendo como esperar
para me transmitir a triste notícia, me chamou de imediato. Precisaríamos logo
cedo nos deslocar para Curitiba e de lá para Ponta Grossa para chegarmos a tem-
po de alcançar o sepultamento. Nessa época, meu irmão William, então com 17
anos, morava conosco.
Recorri ao amigo Major Serpa, ajudante de ordens do Exército, que me
substituiria na manhã seguinte, para antecipar a passagem de serviço. Em pouco
tempo, eu deixava o Alvorada para viver mais essa grande dor, outra vez abrupta-
mente, sem a oportunidade de me despedir, como ocorreu com minha mãe.
Seu Chico é lembrado até hoje por suas “tiradas” bem-humoradas, pela
rapidez com que fazia piada das coisas mais corriqueiras, pelas ocasiões em que
sua espirituosidade dava o tom. Lembro-me dele com carinho, pelo amor à na-
tureza e pelos muitos conhecimentos práticos que me passou de suas profissões
de alfaiate e jardineiro.
Lembro-me dele, ainda, pelas descrições que fazia das “puxadas” de terço
na casa da tia Catarina e que fazia todo mundo rir em casa. Ele sempre dizia que
se esforçava para chegar próximo do “amém” tanto nas Missas do Galo, na virada
do ano, como no terço na casa do irmão, tio Zeca, marido da referida tia.
O que mais me deixa feliz é que as imagens que dele me veem à mente são
sempre muito boas, alegres, felizes e amistosas. Dele nunca recebi um tapa ou
uma bronca: sempre conversávamos bastante. Depois que saí de casa, ganhei
status de “sabe-tudo”, pois era comigo que vinha se aconselhar.
As enternecedoras lembranças que guardo de meu pai, seu carinho e seu
zelo não se depositaram em meu coração apenas como carinho. Suas expressões
de afeto alicerçaram meu ser, tornando-me um adulto de infância rica de felicida-
de. E uma infância rica faz um homem rico ao longo da vida. Essa afirmação, que
não sei a quem pertence, sintetiza uma grande sabedoria. Pois é do manancial das
experiências da infância que o adulto encontra forças para encarar os trancos da
vida adulta. É a partir da infância que o adulto lê e interpreta a vida. Pelas lem-
branças que guardo dessa fase, considero-me um arquimilionário.
Obrigado, querido e saudoso pai. Obrigado, meu generoso Chico.

Oficial tropiê

Ainda servia na Presidência quando tomei conhecimento de que o Coronel


Osório, meu ex-comandante em Pirassununga, não havia sido promovido
a brigadeiro. Eu já tinha aprendido, por observação, uma porção de coisas da
dinâmica do poder, mas a não promoção do Coronel Osório me entristeceu bastante.
Fiquei decepcionado e muito intrigado com os parâmetros que determinavam o
critério de promoção de um oficial superior a oficial-general.

118
O Coronel Osório, pessoa cordata, dedicado comandante, respeitado líder
e querido por seus comandados, sempre participante dos eventos relacionados à
atividade aérea, não fora promovido a brigadeiro. Por quê? Ao perguntar a certo
Tenente Coronel da Aeronáutica, pessoa com quem tinha um bom relacionamento,
se ele sabia o porquê, ele comentou que o citado coronel era um tropiê. Que seu
perfil era o de comandante de tropa e, como tal, seu limite era mesmo o de coronel.
Fiquei perplexo e decepcionado com a cartilha do poder. Não entendi.
Faltou-me alcance, maturidade, intimidade com os meandros políticos da
instituição que eu tanto amava e que eliminara um militar de sua carreira justo
pelo “defeito” de saber conduzir homens pela cordialidade em vez de se fazer
temer. Então, na cartilha de ascensão da carreira, contaria ponto contra aquele
que, além de um bom desempenho de suas funções, priorizasse o lado humano
de seus comandados?
Em meu julgamento, era isso. Fiquei remoendo aquela reflexão... Os anos
se passaram e o tempo foi me mostrando que a vida era assim mesmo, apesar da
tristeza que isso muitas vezes causasse.
Relato esse caso porque ele me bateu muito forte e porque, com essas
lembranças, pretendo homenagear um ex-comandante que deixou saudades em
seus comandados do DPAFA.
Desde que o Coronel Osório foi para a reserva, só o encontrei uma vez,
no Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, onde, na época, se não me falha a
memória, desempenhava a função de superintendente. A Diolásia e eu guardamos
por ele e pela dona Norma, sua esposa, um enorme carinho. Asseguro que o casal,
pelo exemplo de família que transmitia, influenciou muito positivamente dezenas
de lares em formação nos idos anos 1970, em Pirassununga. Ali, a cada mês,
jovens oficiais, sargentos, cabos, taifeiros e suas “noivinhas” aumentavam o
número de famílias da comunidade. E, tal como na vida civil, assim também era
na vida militar: os mais velhos eram exemplo para os mais jovens. Mas essas e
outras qualidades não bastaram para sua promoção, uma pena... Que esse bondoso
homem receba, onde estiver, nossa admiração.

Viagem ao Japão

Antes de servir em Brasília, eu não sabia que existiam regras básicas


para que um chefe de Estado pudesse visitar outro país. Por causa desse meu
desconhecimento, que talvez seja o mesmo de algum jovem que, porventura, venha
a ler estas memórias, é que mencionarei dois tópicos fundamentais sobre o assunto.
O primeiro: para que um presidente, rei, rainha, ditador, primeiro-ministro
ou quem estiver respondendo como autoridade máxima de um país visite
oficialmente outro, é mandatório que haja um convite oficial do país anfitrião.

119
Segundo: essa visita é de serviço, uma visita em cuja agenda constem assuntos
justificáveis de interesse de ambas as nações. Portanto, nunca são ou serão visitas
de lazer, de turismo, de passeio.
Em se tratando do Presidente Geisel, visitar outro país queria dizer trabalhar e
trabalhar. Lembro-me de uma observação divulgada pela mídia, feita pelo Senador
Virgílio Távora, participante da comitiva brasileira ao Japão. Em comentário ao
enviado especial da revista Veja, Carlos Henrique Santos, ele dissera: “Quando
voltávamos ao hotel, pensando em descansar, depois de um dia de trabalho, o
presidente nos convidava para novas reuniões.” E era assim mesmo: não se perdia
tempo, extraía-se o melhor dele.
Outra coisa que aprendi com relação a viagens em que no transcurso
delas ocorriam assinaturas de acordos ou tratados, é que o entendimento e as
negociações que diziam respeito a esses acordos e tratados vinham, há muito,
sendo trabalhados pela diplomacia dos países interessados. Por exemplo,
para um leigo que vê pela televisão seu mandatário assinando um contrato
comercial com outro país, muitas vezes acredita que o entendimento se deu
por ocasião daquela visita, o que está longe de ser verdade. As assinaturas dos
mandatários constituem, na verdade, o coroamento de entendimentos muito
anteriores àquele encontro.
Fecho aqui esta explicação aos possíveis jovens leitores e lhes digo o que
quer dizer “escalão precursor” e “escalão avançado”. Escalão precursor é uma
equipe da Presidência que se desloca um mês antes da visita – refiro-me ao
governo Geisel –, a fim de elaborar um programa-tentativa, um roteiro de visita
em comum acordo com as autoridades do país anfitrião. E escalão avançado é a
equipe que se desloca para o país anfitrião uma semana antes, a fim de checar o
que fora combinado pelo escalão precursor, fazendo, então, “o ajuste fino”, como
se diz na gíria. Checar, por exemplo, as condições de segurança, hospedagem,
programação, cerimonial etc. A revisão de minutas de acordos ou texto de
declarações ficava sempre a cargo do Itamaraty e creio que assim continua.
Assim explicado, quero contar agora que participei da equipe que fez o
escalão avançado da visita ao Japão, em setembro de 1976. Cheguei, portanto,
a Tóquio uma semana antes da comitiva presidencial. Geograficamente, nos
deslocamos até o país mais distante do Brasil, com uma diferença de fuso horário
de 12 horas. Para me defender dos consequentes transtornos causados por essa
defasagem, segui o conselho do pessoal do Itamaraty, ingerindo um sonífero tão
logo nosso avião decolou do último aeroporto com destino ao Japão. “Apaguei”
até quase o pouso em Tóquio. Certo colega, por não ter seguido a sugestão,
passou pelo desconforto do chamado jet leg, tendo de fazer rol de lavanderia e
palavras cruzadas de madrugada, enquanto outros membros do grupo dormiam.
Que programão, para não dizer o contrário!

120
Ficamos hospedados no Hotel New Otani, na época, um dos maiores do
Oriente, com 65 andares, distribuídos em dois prédios, um de 40 e outro de
25 andares. De pronto, a pujança do hotel e o maciço de prédios da cidade
nos impressionaram. Como era de se esperar, de imediato, saltaram aos olhos
a grande diferença cultural que nos distinguia como povos. O Japão era outro
mundo. Outro mundo mesmo, em todos os sentidos.
Na visão de deslumbramento, que nos ocorre quando visitamos uma cidade
da qual gostamos logo de cara e onde achamos que ali, sim, a vida transcorre
perfeita, impressionou-nos a limpeza das ruas, o asseio dos locais públicos, a
educação, o comportamento das pessoas, o tratamento respeitoso dispensado aos
mais velhos, a disciplina no trânsito e muitas outras coisas positivas que agora
não me ocorrem. O que sei é que, ao longo dos sete dias de visita presidencial,
não tivemos decepção quanto a nossas primeiras impressões.
Com vistas a apresentar, de forma simpática, nossa cultura ao povo japonês, a
Rede Globo preparou um compacto levado ao ar pelo canal 8 de televisão, o canal
Fuji. Nele constavam cenas da novela Saramandaia, jogos de futebol, apresentações
do carnaval do Rio de Janeiro e – pasmem! – do jogo do bicho. Esse último recebeu
por lá a tradução de “loteria de animais”. Dessa forma, aspectos de nossa cultura e
de nosso jeito de ser foram apresentados aos sérios e disciplinados japoneses, o que
deve ter causado uma impressão agradável, pois, por onde nossa comitiva passava,
era cumprimentada com aquela delicadeza especial e própria dos nipônicos.
O compacto da TV Globo teve outra importante função: amenizar a
avalanche de notícias pouco elogiosas que inundavam o Japão a respeito do
Brasil. Exemplos de algumas delas: “Cuidado com os ‘trombadinhas’ de São
Paulo; são muito perigosos!” “Cuidado com os motoristas: eles desenvolvem
velocidade além do permitido – correm muito!” “Água? Nem pensar em tomar
direto das torneiras!” E outras notícias mais, que pouco nos recomendavam.
Na verdade, a imprensa japonesa não estava inventando nada, era aquilo
mesmo: trombadinhas aos montes, motoristas irresponsáveis que dirigiam acima
da velocidade, muitas vezes alcoolizados – mas isso não disseram – , água
contaminada... Há de se convir que notícias como estas não deixavam nosso
país nada “bem na fotografia”. O trabalho da Globo foi muito positivo. Atingiu
satisfatoriamente o objetivo, ajudando a substituir uma imagem “brucutu” por
outra mais simpática e civilizada, mesmo que, ainda hoje, tenhamos muito o que
caminhar em busca de um dia a dia mais civilizado.

Visita a Kioto

Tive a oportunidade de me deslocar de trem-bala como acompanhante


pessoal de dona Lucy, de Tóquio até Kioto, cidade que fora capital do Japão

121
por mais de mil anos. Kioto perdera seu status de capital em 1869, durante a
revolução Meiji, ocasião em que Tóquio a substituíra como sede do governo.
Apesar da mudança, Kioto manteve-se majestosa, envolvida por uma aura de
plenitude e serenidade que ninguém pode lhe subtrair. Ao longo dos anos, qual
paciente e orgulhosa dama, mantivera-se observadora dos fatos e do tempo; do
tempo, senhor da história.
Entre muitos detalhes, algo peculiar ficou gravado em minha mente na visita
ao Palácio Imperial: o esquema de segurança. Apesar de ele não se basear em
tecnologia eletrônica avançada, o que seria de se esperar em se tratando de um país de
ponta como o Japão, ninguém que adentrasse o palácio permaneceria despercebido.
Ao contato do mais delicado toque, as tábuas do assoalho rangiam, alertando os
responsáveis por sua segurança. Inconcebível alguém ali penetrar ocultamente.
Sistema de alerta mais simples e eficiente, impossível. Só os japoneses...
Vou me abster de mencionar meu encantamento com esse palácio, seus
jardins e arredores. Sintetizo minhas apreciações afirmando que todo o conjunto
encantava pela delicadeza e pela magia da beleza.
Para concluir, uma última observação. Durante o percurso de trem, observei
o mesmo que em Tóquio: todo cantinho de terra era cultivado. Se não havia cultivo
de lavoura, havia cultivo de plantas ornamentais, que formava encantadores
jardins de canteiros multicoloridos, que mais pareciam bordados.

Palácio Akasaka

A beleza e a majestade do Palácio Imperial, o Palácio Akasaka, localizado


no distrito do mesmo nome, em Tóquio, para onde parte do escalão avançado
se transferira ao juntar-se à comitiva oficial, foi um deslumbramento à parte.
Admiração é adjetivo inexpressivo diante do que sentimos.
O palácio, de estilo neobarroco, serviu como a residência do príncipe
herdeiro do Japão Nahurito. Sua arquitetura e seus jardins, e a delicadeza de
suas formas e detalhes, evocam a meticulosidade e a paciência do povo oriental.
A concepção da forma, da tessitura, o material usado e as cores nos deixaram
muito impressionados. Ali permanecemos hospedados durante toda a visita
presidencial, descobrindo, a cada dia, motivos para maior admiração. A partir de
1974, o Palácio passou a ser instalação do governo e acomodar visitantes ilustres
em sua estada no Japão.

Cerimônia do chá

Num dos dias, nosso presidente participou de um evento em que lhe foi
oferecido o chá em seu completo cerimonial. Lamentavelmente, nessa ocasião,

122
por não me encontrar de serviço com ele, não pude apreciar o requinte e o apuro
do ritual por completo.
Mas, fazendo parte do grupo dos membros da comitiva que fora conduzida a
um salão ao lado do de onde se encontrava o Presidente, nos foram servidos chá,
saquê e outros requintes culinários oferecidos por gueixas que executaram um belo
ritual. No entanto, não tenho a certeza de que tenhamos participado de cerimonial
idêntico ao do salão principal. Na ocasião não tive a curiosidade de saber, para
com isso acrescentar algo mais ao que presenciei. O que sei é que nos faltou
conhecimento para entender melhor o refinamento daquela rica cultura milenar, de
modo a apreciar com mais aproveitamento a linguagem de todos os gestos, silêncios,
utensílios, materiais, indumentária, música, instrumentos musicais, coreografia, e,
em razão disso, ficamos tão somente no encantamento estético.
Desconhecíamos – eu pelo menos – que a cerimônia do chá representava
uma antiquíssima tradição, basicamente um exercício mental, cuja finalidade era
atingir o wabi – calma e felicidade com profunda simplicidade. Os movimentos
do ritual são lentos, para propiciar a fundamental interiorização do objetivo –
o wabi – a ser atingido. Por não dispormos, como hoje, da internet para uma
pesquisa rápida, acompanhamos todo o desenrolar da cerimônia com curiosidade,
respeito, mas, confesso, pouco aproveitamento cultural.
Outro item da milenar cultura nipônica – a respeito do qual não tínhamos
suficiente conhecimento e, portanto, possuíamos uma visão distorcida e injusta
– eram as gueixas. Em decorrência do que vi, minha atitude para com elas se
modificou. Sabemos que em toda profissão existem profissionais e “profissionais”,
e entre as gueixas a situação não deve ser diferente. Mas pelo que presenciei,
curvei-me ante o requinte, a beleza e a solenidade do ritual que praticavam.
Com relação à tal cerimônia ritual, teve um lance engraçado com um colega
da comitiva. A certa altura da cerimônia, em que a gueixa oferecia uma dose de
saquê ao convidado e este, cortesmente, lhe retribuía, esse colega falou que logo,
logo, iria deixá-la de porre. Na linguagem de hoje, o amigo “se achava”.
Após duas ou três repetições – detalhes eu não lembro mais –, eis que nosso
colega constatou que seu know-how se limitava à cervejinha brasileira, de teor
alcoólico por volta dos 5%, e não à aguardente de arroz dos japoneses, cujo teor
de álcool beira os 20%. Provavelmente percebeu a tempo que, com aquele teor de
álcool, não seria aconselhável brincar, ainda mais quando se fazia parte de uma
comitiva presidencial. E o desafio parou por ali.

O regresso

Muitíssimo bem impressionados com a hospitalidade japonesa, com a visita


transcorrida sem incidentes e satisfeitos com os objetivos alcançados, retornamos

123
para nosso país, do qual já sentíamos muitas saudades. Retornamos para nosso
fuso horário, nossa cultura, nossos problemas e para a normalidade de nossas
atividades, enriquecidos pela imersão numa cultura tão mais antiga quanto
diferente da nossa.
Acho que não poderia ter havido expressão que melhor sintetizasse a
satisfação de tudo que fora obtido naquela viagem, como a do Ministro Reis
Velloso, do Planejamento. Ele disse: “Afinal, nós conseguimos fazer tudo que
esperávamos e mais alguma coisa.”
No âmbito pessoal, a alegria era enorme por estar de novo com a família.
Parecia que deixara esposa e filho há muito mais tempo do que realmente tinha
ocorrido. Duas semanas. Mas duas semanas em que vivi intensamente tanta coisa
diferente que era como se a vida daqui estivesse longe, com uma saudade enorme
no meio, fazendo ponte entre as duas.
Lembro que trouxera de presente, no colo, durante toda a viagem para que
não corresse o risco de sofrer dano, um lindo móbile colorido, do tipo carrossel,
movido a pilha, que encantava as crianças no consultório de odontopediatria da
Diolásia. Além do móbile, trouxera certa quantidade de material odontológico,
como agulhas descartáveis, limalha de prata e outros produtos, que já nem lembro
mais o quê. Foi uma festa!!!
Do período como ajudante de ordens do Presidente Geisel, a viagem ao
Japão foi a que mais me marcou. Até hoje, falo nela. Fiquei fã dos japoneses,
deles guardei as melhores impressões. Passei a dedicar-lhes especial deferência
por admirar seu respeito à cultura e aos valores ancestrais, sua determinação e
comprometimento e, como disse o Presidente Geisel ao agradecer o banquete
que lhe fora oferecido pelo governo anfitrião: “O Japão não é apenas uma grande
potência econômica. Sua maior riqueza é a disciplina ética de sua gente, sua
dedicação à pátria.”

Dividendos dessa viagem para o Brasil

Nas palavras do ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, os japoneses,


de quem descendia, tinham – e continuam tendo – uma forma muito peculiar para
negociações: tomam as decisões sem pressa, amparados num consenso de vários
escalões, cautelosos até dizer chega! Faz parte da cultura deles discutir sobre os
mínimos detalhes, pedir esclarecimentos, pedir dilatação de prazo para decidir e
deixar o tempo passar com a paciência oriental que conhecemos.
As conversações entre eles e nossos representantes se “arrastavam”,
enquanto as horas passavam. Em conversa, o ministro do Planejamento, Reis
Velloso, lembrara a seu colega Ueki que ele mesmo estivera no Japão, em 1971,
numa “estafante maratona de negociações” em que, em “menos de cinco dias,

124
fizemos mais de 50 conferências”. Vejam: 1971! Estávamos em 1976 e, nessa
viagem, é que se consumariam certos assuntos de sua área.
Mas o mais importante é que a comitiva retornou ao Brasil mais que satisfeita
com os resultados obtidos. Transcreverei um pequeno texto que encontrei na
internet, mas que, como relato histórico, merece ser registrado neste relato. Trata-
se de uma relação em que constam os principais ganhos daquela viagem.
• Fornecimento adicional de 250 milhões de toneladas de ferro às indústrias ja-
ponesas, nos próximos 20 anos, com valor estimado de 4,5 bilhões de dólares.
• Exportação de 6 milhões de toneladas de minério de ferro paletizado, num
prazo de 15 anos, no valor de 2,7 milhões de dólares.
• Exportação de 255 mil toneladas de celulose branqueada, no valor de 1 bi-
lhão de dólares, em 15 anos.
• Exportação de produtos agrícolas, especialmente soja, milho e açúcar, no
valor de 600 milhões de dólares.
• Constituição de uma joint-venture entre a empresa Vale do Rio Doce, hoje
Vale, e grupos japoneses, para a construção de uma usina metalúrgica capaz
de produzir 320 mil toneladas de alumínio, em 1981. Acréscimo meu: essa
usina estaria localizada no Pará.
• Construção da Usina de Tubarão, no Espírito Santo, capaz de produzir 3 mi-
lhões de toneladas de aço, ao custo de 1,9 bilhão de dólares.
• Crédito de 110 milhões de dólares à Usiminas para a compra de equipamen-
tos japoneses e expansão das instalações.
Além desses acordos comerciais, o Presidente Geisel inaugurou o sistema
de telefonia a grande distância – DDI Brasil-Japão.

Nasce nossa filha

Para nossa grande alegria, nasce no dia 28 de março de 1977, no Hospital


Santa Luzia, em Brasília, nossa filha, Laíse. Sua chegada foi uma alegria só! Já
muito felizes por termos o Jeferson, chegou nossa menina, o que aumentou nossa
felicidade familiar.
Por uma agradável coincidência, ela veio ao mundo, por sua livre e
espontânea vontade, justo no dia em que completávamos sete anos de casados.
Costumamos dizer que foi nosso maravilhoso presente de aniversário.
Constatamos com ela o que diziam os mais experientes, que criar o segundo
filho é “tranquilidade”; aprendemos bastante com o Jeferson, de modo que, com
ela, “tiramos de letra”.
De sua especial afeição, coleciono centenas de bilhetinhos que me escreveu
ao longo dos anos, sempre ilustrados com pequenos corações, pintados a lápis e
invariavelmente muito carinhosos.

125
Viagens nacionais

Na função de ajudante de ordens, visitei a maioria dos estados brasileiros.


Ora estava de piloto, transportando o presidente e sua comitiva, ora estava no
desempenho de minhas funções de AJO.
Por diversas vezes, estive sentado no banco da frente do carro presidencial,
ao lado do motorista. Nessas oportunidades recebia, pelo acompanhamento da
conversa que o presidente mantinha com seu anfitrião, governador, prefeito ou
quem fosse, grandes aulas de como governar. Assisti a verdadeiros interrogatórios
que buscavam esclarecimentos a respeito de projetos e soluções que estavam
sendo conduzidos pelo Executivo do município, do estado ou de qualquer outro
administrador público.
Quanto mais longos o trecho, como visitas a cidades do interior, mais
os anfitriões precisavam se preparar, pois, as perguntas, os comentários e os
questionamentos do presidente abrangiam todas as áreas da administração à qual
pertencesse aquele representante. Ele ia a fundo, querendo saber tudo, cobrando
eficiência e muita seriedade com o dinheiro público. Nada escapava à sua mente
privilegiada. Governadores, prefeitos ou quem fosse tinham de apresentar
resultados. Bons resultados.
Certa feita, estávamos em visita à Região Norte. O prefeito de certa cidade,
para mostrar eficiência, teve a infelicidade de, todo confiante, afirmar: “Presidente,
está vendo este lindo tomate? Vem do sul para nós. Esta fruta também!”
Acho que o cidadão se arrepende até hoje de ter pronunciado tal frase. O
presidente o encarou com um olhar zangado e lhe disse: “Prefeito, pois eu lhe
digo: que vergonha!!! Vocês têm água, têm solo, têm condições de plantar... Por
que essa dependência do sul quando poderiam muito bem ser autossuficientes!?
As pessoas que estavam em volta ficaram sem graça com o “fora” que o
presidente dera no empolgado prefeito. Realmente, ele se irritava muito e não
escondia seu aborrecimento quando verificava acomodação, falta de iniciativa, de
espírito de luta, de vontade de transformação. Com ele, a filosofia era mais para
ensinar a pescar do que dar o peixe, obviamente, mantendo o bom senso.
As muitas viagens pelo país que me proporcionaram maior contato com a
multiplicidade de seus problemas e a luta por soluções adequadas aumentaram
minha fé e amor por esse país continente, tão esplendidamente rico em sua
diversidade étnica e cultural.

Reunião secreta

Certo dia, presenciei um fato de muita relevância para o Brasil. Considero


mesmo que vivi um momento histórico.

126
Estávamos jantando no Palácio da Alvorada, o presidente, sua família e
eu, quando, então, o chefe entregou-me um bilhete e disse: “Walacir, autorize
a entrada desses três senhores da Petrobras. Teremos uma reunião sigilosa.
Esconda-se e a assista, porque vai ser muito importante...”
Improvisada uma mesa num pequeno auditório localizado no subsolo do
palácio, normalmente usado para projeção de filmes, fiquei oculto no local das
máquinas de projeção e ouvi as discussões. Sintetizando, a Petrobras acabara
de encontrar petróleo no mar, não tinha experiência em exploração marítima e
precisava agir rápido. Tinha-se que achar uma solução, e aquele encontro seria
para isso. O presidente deliberou que fossem mandados alguns engenheiros e
técnicos ao exterior o mais rápido possível para adquirir experiência naquilo que
seria a maior fonte de petróleo do Brasil, a exploração marítima.
Quando o assunto era energia, o General Geisel demonstrava preocupação.
Ele sabia que nosso país alcançaria o patamar de respeitável economia
mundial na razão direta de sua proficiência no setor energético. Que o país
seguia determinado rumo ao progresso acelerado e ao desenvolvimento. Mas
para que tal ritmo não sofresse interrupção, fazia-se urgente agir rápido. A
demanda por energia crescia, enquanto a crise do petróleo se alastrava pelo
mundo, solapando economias. O preço do óleo bruto só aumentava, e o dólar,
em disparada, endividava os países. O presidente estava ciente de que, ou
o país corria em busca de autosuficiência energética, ou ficaria para trás,
estagnado. Seu conhecimento como ex-presidente da Petrobras lhe garantia
cabedal para tomar decisões como aquela, na sigilosa e histórica reunião que
eu discretamente presenciara.
No ano de 2009, alardeou-se, com justo orgulho, a autossuficiência na
exploração e no refino de petróleo alcançada pelo Brasil. No entanto, o silêncio foi
completo a respeito de quando e de quem iniciou a escalada até que se chegasse a
tal sucesso. Nenhuma alusão foi feita às sementes lançadas e às decisões tomadas
há 30 anos no governo Geisel.

Fechamento do Congresso Nacional

O fechamento do Congresso é assunto que mexe com todos até hoje. O


que não é exposto e comentado é que, apesar do poder que, indubitavelmente, o
general-presidente detinha, esse não governava sozinho.
Engana-se quem atribui poder absoluto aos generais-presidentes do regime
militar. Equivoca-se quem acha que eles faziam e aconteciam à própria revelia,
sem ouvir a sociedade civil na pessoa de seus representantes políticos. O exercício
do poder, naquela época, era coadjuvado pela classe política, o que não quer dizer
que todas as tomadas de decisão estivessem de acordo com os interesses dela.

127
No caso do fechamento do Congresso Nacional, cai muito bem o provérbio
popular que diz: “Toma que o filho é teu.” Nenhuma autoridade política assumiu
um quinhãozinho sequer de envolvimento com o assunto. Jamais, também, o
Presidente Geisel fez a menor questão de dividir tal responsabilidade com alguém
ou com alguma classe. Pelo certo ou pelo errado, tomou a decisão que acreditava
beneficiar mais o país naquele momento. O resto fica por conta do julgamento da
história.
É importante destacar que, durante o período do fechamento do Congresso,
em 1977, no período de quase um ano, o presidente continuou recebendo
políticos com quem sempre mantivera contato, como o Senador Petrônio Portella,
presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional.

Políticos mais próximos

Entre os políticos mais chegados ao General Geisel constavam o Senador


Petrônio Portella,; Armando Falcão, ministro da Justiça; Antônio Aureliano
Chaves de Mendonça, governador de Minas Gerais de março de 1975 a julho
de 1978 e vice-presidente da República no governo do General Figueiredo; Ney
Braga, ministro da Educação; Marco Antônio de Oliveira Maciel, governador de
Pernambuco em 1979 e vice-presidente da República no governo do Presidente
Fernando Henrique Cardoso de 1995 a 2003; e Antônio Carlos Magalhães,
governador da Bahia de 1970 a 1975, presidente da Eletrobras em 1975 e
novamente governador por mais dois mandatos, de 1979 a 1983 e de 1991 a 1994
Em seu projeto político, o presidente aventava a hipótese de, caso chegasse
a hora de devolver o governo aos civis, ainda em seu mandato, um dos nomes
que ele poderia indicar seria o do Senador Petrônio Portella. Lamentavelmente,
a morte levou esse amigo e colaborador antes que a volta ao estado de direito
ocorresse no país.

Queda do ministro do Exército

A demissão do ministro do Exército, o General Sílvio Frota, em 12 de


outubro de 1977, teve grande repercussão no país. Consta que o General Frota
fazia parte da chamada “linha dura” do governo, cujas ideias se mostravam
contrárias às intenções do Presidente Geisel de promover o retorno do país à
normalidade democrática, por meio de uma distensão política lenta, gradual e
segura que permitisse devolver o poder aos civis.
O fato que colocou os dois generais em rumo de colisão foi a convocação a
Brasília, por parte do General Frota, dos generais do Alto-Comando do Exército
que serviam fora da capital federal.

128
Ciente da convocação, o Presidente Geisel utilizou seus reconhecidos dotes
de estrategista e antecipou-se aos fatos. Telefonou para os mesmos generais
convidando-os para um encontro no Palácio do Planalto tão logo pousassem
no aeroporto de Brasília. Pelo planejamento do Ministro Frota, esses oficiais
generais seriam recebidos, no aeroporto, por elementos de seu gabinete, que os
acompanhariam ao Forte Apache, local onde o ministro os aguardava. Mas a
sequência não foi bem essa...
Como eu estava de serviço, ao fazer a ligação para o General Argus Lima
– comandante do IV Exército, sediado em Recife –, informei ao presidente que
o general estava a bordo de uma aeronave comercial que taxiava do terminal de
passageiros para a cabeceira, Ao que ele determinou: “Mande a aeronave voltar
ao terminal e ele telefonar para mim”.
Geisel telefonou para os demais comandantes de Exército, convidando-os
para que viessem do Aeroporto de Brasília diretamente para o Palácio do Planalto.
Os emissários do ministro do Exército, que receberiam os convidados no
terminal do aeroporto, constataram que os oficiais enviados pelo presidente
esperavam por esses generais ao pé da escada dos respectivos aviões que os
traziam e de lá os conduziram direto para o Palácio do Planalto.
Esvaziava-se, assim, a tal reunião convocada pelo ministro do Exército e,
com isso, quebrara-se o pouco de relação de confiança que ainda restava entre
eles. Caíram, naquela ocasião, outros oficiais considerados aliados ao ministro e
pertencentes à linha dura do Exército.
A distensão política permaneceria no rumo traçado pelo governo.

Pelada interforças

Nas tardes de sábado, o chefe da Casa Militar, General Hugo Abreu, ex-
comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista, sediada no Rio de Janeiro,
juntava um grupo de oficiais para jogar futebol de salão na quadra de sua
residência na Península dos Ministros. Normalmente, o número de participantes
era por volta de 15, o suficiente para formar três times. Sempre que eu não estava
de serviço nem voando, participava dessas peladas. Havia uma ordem que deveria
ser cumprida à risca: não falar em trabalho nem em política, apenas jogar futebol
de salão, preferencialmente, com o time do general ganhando, o que nem sempre
acontecia.
Éramos todos muito bem recebidos por sua hospitaleira família. O ambiente
era agradável e todos procuravam seguir as determinações prepostas. Assim corria
o tempo, até que o General Hugo Abreu foi substituído no cargo. Motivo? Consta
que pertencia ao grupo mais rígido, aquele do qual fazia parte o General Frota e
que discordava da escolha do General Figueiredo para suceder o General Geisel.

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No episódio de sua demissão, recebi a incumbência de lhe entregar pessoalmente
um documento sigiloso. Subi ao quarto andar, apresentei-me ao general, até então
companheiro de quadra de futebol, e, apesar de sentir-me desconfortável, entreguei-
lhe o documento. Ele procurou amenizar a situação, dizendo-me: “Walacir, não se
preocupe, deve ser a carta de minha demissão.” E era!

Desenvoltura de Paulo Maluf

Um fato interessante ocorrera quando da escolha dos nomes para indicação


à eleição – indireta – para governadores que iriam trabalhar na gestão do sucessor
do Presidente Geisel, o General João Batista de Figueiredo. Praticamente houve
concordância em todos os estados entre o presidente em exercício e o futuro, com
exceção de dois estados: Rio Grande do Sul e São Paulo. Geisel escolhera o nome
de José Augusto Amaral de Souza para o governo gaúcho e Figueiredo escolhera
Laudo Natel para o governo paulista.
Amaral de Souza teve seu nome aprovado e homologado pela Assembleia
Legislativa gaúcha e o processo de indicação terminou aí e tudo ficou bem.
Porém, em São Paulo, houve desdobramento. Por meio de uma manobra política,
o nome de Laudo Natel foi substituído pelo de Paulo Maluf, então aprovado e
homologado pela Assembleia Legislativa como governador do estado de São
Paulo. Logicamente, houve grande contrariedade no Palácio do Planalto, porém,
respeitou-se a vontade dos representantes do povo paulista na escolha de seu
governador.
O Cerimonial da Presidência organizou a visita dos novos governadores
ao presidente em exercício e ao General Figueiredo, que assumiria o cargo
em breve. De acordo com a formalidade e a solenidade que a situação exigia,
os cumprimentos foram se sucedendo sem que nenhum político tivesse maior
destaque. Nenhum, menos o futuro governador de São Paulo.
Paulo Maluf foi o último a ser agendado e, no dia de sua apresentação, todos
queriam vê-lo. Sua presença causou grande frisson não só nos repórteres que se
acotovelavam no terceiro andar, como entre os altos graduados que encontraram
um jeito de aguardar sua chegada à antessala presidencial. Ninguém queria perder
por nada um encontro político tão marcante. De minha parte, achei ótimo estar de
serviço naquele dia e assistir a tudo em seus detalhes. A curiosidade era uma só:
como se portaria Maluf, sabedor de que seu nome não fora indicado por nenhum
dos dois generais e que o Planalto não “fazia gosto” por sua escolha.
Pois bem, chegado o esperado momento, o veterano político apresentou-
se de forma impecável: adentrou o gabinete do Presidente Geisel já com a mão
estendida para os cumprimentos, com aquele seu largo sorriso, efusivo, atencioso
e absolutamente seguro de si. Demonstrando completo desembaraço, disse que

130
tinha muita honra em cumprimentá-lo e que gostaria de contar, a partir de sua
assunção ao Governo de São Paulo, não só com um amigo em Teresópolis – onde
o general iria fixar residência –, mas como um conselheiro de seu governo!
Acrescentou que trouxera sua esposa, Sílvia, de São Paulo com a única
intenção de cumprimentar dona Lucy, mas que, por entender o quanto era ocupada
e por não querer incomodá-la em seus afazeres, lhe pedia permissão para que “a
Sílvia” ligasse para ela do hotel onde estava hospedada.
Terminado o expediente, fomos para o Palácio da Alvorada e, enquanto
esperávamos o elevador, perguntei: “E aí, presidente, o que o senhor achou do
governador Paulo Maluf?
Ele olhou para um lado, para o outro, para se certificar de que estávamos
sem testemunhas, e respondeu: “Tem tudo para fazer um ótimo governo: é jovem,
inteligente e ambicioso...”

Aconteceu numa partida de buraco

Numa certa quinta-feira em que eu estava de serviço, estávamos jantando no


Palácio da Alvorada, quando Amália Lucy perguntou ao pai:
– O senhor tem muito documento para ler hoje à noite?
– Tenho, por quê? – Respondeu o presidente.
– Se não tivesse, poderíamos jogar um buraquinho – falou Amália.
Numa rara exceção, respondeu:
– Está bem. Jogamos uma partida e, depois, eu trabalho um pouco mais.

Na falta do quarto parceiro, fui convidado. Dona Lucy, com seu bom
senso, ofereceu a seguinte sugestão:
– Ernesto, o Walacir tem sorte, acho melhor ele ser seu parceiro.
– Negativo, minha parceira sempre foi e sempre será a minha filha.
– Está bem – disse dona Lucy. – Depois não vá se arrepender.
Parecia que ela estava intuindo alguma coisa.
Eu ouvi tudo calado, quieto.
Após o Jornal Nacional, iniciamos a partida de 3 mil pontos. Eu estava com
muita sorte naquele noite. Foi um tal de bater e pegar o morto.... Pai e filha foram
ficando para trás na contagem de pontos. O ambiente foi se tornando tenso, e
começaram a discutir. Os decibéis foram subindo. Discussões típicas de jogo em
que os parceiros não admitem perder e, por isso, vão pondo a culpa um no outro...
O tom foi ficando zangado.
Pensei que, com a sorte que estava naquele dia, com coringas em minhas
mãos constantemente, meu futuro como ajudante de ordens poderia balançar,
já que o chefe não admitia perder, e nós estávamos com tudo para disparar

131
na frente. Continuamos, dona Lucy e eu, ganhando, mas com larga diferença.
Permanecíamos calados, bem quietinhos, sem dar um pio. O general podia ter
os maiores aborrecimentos de governo, mas nada superava a ira que dele se
apoderava se terminasse uma partida de buraco no “capote”, ou seja, com o
vencedor cruzando 3 mil pontos e a dupla dele não atingindo nem 1.500. Pois foi
o que aconteceu, e o tal capote foi impiedoso...
Os ânimos foram ficando à flor da pele. Fazer o quê? Perderam a primeira
partida.
– Vamos à outra partida – disse ele.
Como sempre, muito apaziguadora, dona Lucy sugeriu:
– Ernesto, vamos trocar de parceiro, jogue com o Walacir...
– Não e não – disse ele.
E eu quieto. Nem piscava.
Mal teve início o segundo jogo e lá vieram, de cara, quatro coringas para,
logo em seguida, eu comprar um quinto do baralho. Então, colocando meu
pescoço na guilhotina, perguntei bem baixinho:
– Dona Lucy, quanto vale uma canastra de coringas?
Aí foi demais!
Parecia que ribombara um trovão quando o presidente exclamou:
– Mil pontos. Poooor queeeê?
– Por nada, presidente. Só uma pergunta.
Chegou minha vez e baixei um joguinho de três coringas, para ver se minha parceira
teria algum. A tensão diminuiu quando o jogo passou por dona Lucy e ela comentou:
– Ih, parceiro! Não posso ajudar, pois, não tenho nenhum coringa.
Mas a sorte estava mesmo do meu lado. Consegui bater para pegar o
morto sem fazer uso dos outros dois coringas que tinha na mão, acrescentando-
os àqueles três que havia baixado antes, ou seja, ficara com um jogo de cinco
coringas. Grande chance de fazermos uma canastra de coringas, principalmente
porque eu receberia 11 cartas novas do morto. Naquele momento, não se ouvia
sequer o som de um eventual mosquito. A atmosfera estava tensa.
“Tá danado!”, pensei, antes de ver as cartas do morto. Que noite
impressionante! E aí, vi que saíra com mais dois coringas... Para aliviar a tensão,
não baixei nenhum. Dona Lucy também não acrescentara nenhum. Claro, estavam
quase todos comigo, aquela noite...
Na rodada seguinte, abaixei-os completando a canastra de mil pontos. Pra
quê?! O general ficou irritadíssimo. Zangou-se mesmo, empurrou as cartas e se
retirou muito chateado.
Naquele momento, eu brincava dentro de mim mesmo, dizendo: “E aí,
Walacir, como fica a situação? Vai permanecer na função ou ‘perdeu o pescoço’
por causa de uma partida de buraco?”

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Mas como obviamente tudo não passava de um divertimento fugaz, continuei
em minha função mas, a partir daquele dia, passei a ser o parceiro de seu Ernesto
quando, eventualmente, faltava um quarto jogador. A história se espalhou e virou
motivo de muito riso; todos queriam saber do clima por mim criado com a sorte
sem limites naquela noite. Passada a zanga, até o presidente contava o caso,
achando engraçado o ocorrido.
Completei os cinco anos de ajudante de ordens a serviço de um dos
personagens da história do nosso país que reputo como um farol. A firmeza de
caráter, o brilho de sua inteligência e o comprometimento com a nação brasileira
fizeram-no ímpar não só em meu julgamento mas, também, no daqueles que com
ele trabalharam.
Só se conhece o caráter de alguém quando se convive com essa pessoa, em
proximidade, inclusive na privacidade de seu lar. Tive a satisfação de viver essa
oportunidade. Trabalhar com o General Geisel me fez maior. Maior não só pelo
que aprendi em sua companhia, mas por testemunhar a integridade de suas ações.
Nunca o vi mentir, se omitir, falsear uma verdade ou ser desonesto fosse em que
situação fosse.
Nunca nos aborrecemos um com o outro, tivemos momentos, sim, de
preocupação. Principalmente, por motivo de saúde entre os familiares ou por
ocorrências políticas e turbulências sociais. Compartilhamos muitos silêncios,
“engolimos” juntos incompreensões, julgamentos... Mas a têmpera daquele
caráter era forjada no forno da retidão e da honestidade. Era uma rocha. Não se
abatia: tinha preparo.
Era austero, decente. Era Gente com “g” maiúsculo. Gente a quem se podia
admirar sem medo de surpresas. Não fazia teatro. Era o que era. Tenho certeza de
que a admiração que lhe dedico jamais será substituída.
Presidente Geisel, meu período na função de AJO foi considerado “tempo
de serviço relevante”. Só não consigo avaliar o quanto recebi por um serviço que
tanto me honrou. Grande homem!
Saudades, presidente!

Geisel: “Eu estava começando a morrer”

Terminado o governo, o general e sua família retiraram-se para Teresópolis,


para uma casa que construíram, denominada Recanto dos Cinamomos. Voltaram
à vida tranquila de família, com dona Lucy se dedicando a suas tortas e seus
afazeres; Amália Lucy continuou executando suas atividades de funcionária
pública e o chefe da família descansou do período em que fora chefe da nação.
Dona Amália, irmã mais velha do presidente, estava em idade avançada e com
a saúde bem precária. A família cuidava dela com muito desvelo, e parte das

133
atenções ficava por conta de seus problemas de saúde.
Vários amigos visitavam-nos nos fins de semana, entre eles minha família
e eu.
Decorridos alguns meses, o presidente aceitou trabalhar para uma empresa
multinacional, a Nordeste Química S.A., Norquisa. Achei estranho. Numa das
visitas, perguntei:
– General, o senhor deixou o governo com a marca de um grande estadista.
Com esse trabalho, o senhor não arranha sua imagem?
Ao que me respondeu:
– Walacir, sabe por que eu o aceitei? Porque eu estava começando a morrer.
Após um semestre de descanso, arrumando minha biblioteca e fazendo minhas
leituras, comecei a ficar ocioso. Como você sabe, não preciso mais que cinco
horas de sono por noite. Além disso, sempre trabalhei muito, estou com boa saúde
física e perfeita disposição mental, por isso, voltei a trabalhar. Ainda tenho muito
a oferecer ao Brasil.
Guardei aquele comentário para minhas reflexões futuras. Passados mais ou
menos 30 anos entendi a profundidade de nossa conversa e o que ele sentia.

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Capítulo 10

Base Aérea de Brasília


Transportando autoridades

T erminado o período de presidência, o Major Nelson e eu fomos


classificados no Grupo de Transporte Especial (GTE) um dos
esquadrões aéreos da Base Aérea de Brasília. O Major Nelson – Nelsão, como
era amistosamente chamado – trabalhara cinco anos na equipe de segurança
do presidente Geisel.
Lamentavelmente, não fomos recebidos, em nossa nova unidade, da forma
como geralmente ocorre, o que nos surpreendeu e nos causou estranheza. Sentimo-
nos desconfortáveis. Porém, não entendendo muito bem o porquê da frieza, já que
sempre procuráramos somar esforços quando em missões que envolviam aquela
unidade aérea e a presidência, mergulhamos em nossos novos afazeres em vez
de gastar tempo com especulações. Em nossa autocrítica, nada tínhamos a nos
recriminar, portanto, “bola pra frente”. Foi a melhor coisa que fizemos.
Fui designado Oficial de Treinamento do GTE, encarregado da instrução
terrestre e aérea dos pilotos e mecânicos que voavam com as altas autoridades do
país, em diferentes tipos de aeronave.
Agi como agira em Canoas e na EAER. Tinha muito o que fazer e a esses
afazeres me dedicava. Com o tempo, o relacionamento foi melhorando, até ficar
normal. Nada como o tempo, torno a afirmar.

Um comandante humano

Antes que eu completasse um ano no GTE, assumiu o comando da Base


Aérea de Brasília o Coronel Cláudio Paixão de Azambuja, que me convidou
para a função de comandante do Esquadrão de Comando da Base, uma espécie
de assistente do comandante. Fiquei surpreso com o convite, pois, nunca houvera
sequer cumprimentado aquele coronel até o momento de seu convite. Falei-lhe isso,
porém, ele sorriu, balançou a cabeça e disse que eu estava esquecendo o fato de que
ele estava vindo da Comissão de Promoção de Oficiais e que sabia tudo sobre mim.
Mais uma vez eu trabalharia com um superior de quem nada sabia a respeito.
Fui, consequentemente, transferido do GTE, que, como disse, era sediado
nas instalações da Base Aérea de Brasília, para a unidade desse mesmo nome.
Assumi atribuições como a coordenação de todas as solenidades da
organização, que eram muitas: escrevia as minutas de ordens do dia do comandante
e participava de todas as atividades que envolvessem sua presença.

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O Coronel Azambuja foi, desde nosso primeiro contato, agradável e gentil.
Verifiquei ao longo da convivência que assim o era com os demais subalternos.
Não era só comigo que era educado. Destaco esse aspecto de sua personalidade
pela satisfação de ter trabalhado com um comandante que tratava com cortesia
seus auxiliares, característica que sempre apreciei nas pessoas e, mais ainda,
naquelas que ocupavam postos de comando.
Trabalhamos juntos por dois anos, quando, então, no dia 23 de outubro de
1981, após a solenidade comemorativa do Dia do Aviador naquela base, o Tenente
Brigadeiro Délio Jardim de Matos, Ministro da Aeronáutica, me comunicou que
eu seria designado para a função de subcomandante do Centro de Instrução de
Graduados da Aeronáutica (CIGAR), em Belo Horizonte.
Lógico que, pela boa educação, o ministro, com certeza, já havia avisado ao
Coronel Azambuja sua decisão de me levar para outra organização. Na ocasião, o
Ministro Délio me tocou no braço e disse: “Venha aqui, Walacir.” E me levou até
um canto do palanque. Pensei: “O que será que fiz?” Pelo preâmbulo, imaginei:
“Transferência! Ou para Cachimbo ou Paris”, pensei.
Cachimbo é até hoje uma pequena organização da Aeronáutica utilizada
como campo de provas de engenhos bélicos e de treinamento operacional de
aeronaves militares. Mas nem era Paris, nem Cachimbo e, sim, Belo Horizonte,
onde deveria me apresentar no começo de janeiro de 1982. O resto eu conto mais
adiante.
A partir daí, começaram as providências para deixar a função, concluindo,
dessa forma, meu período com o Coronel Azambuja.
Ele foi promovido a brigadeiro do ar, em 1982, quando, então, me desloquei
de Belo Horizonte, junto com a Diolásia, para lhe dar um abraço, em Brasília.
Mas eu que vim lhe prestar uma homenagem, fui surpreendido: ganhei dele um
presente que me tocou fundo o coração.
Enquanto os amigos comemoravam sua promoção na sala de seu apartamento
na Superquadra Sul 110, meu ex-comandante chamou-me à parte em seu
escritório e, na presença de sua esposa, dona Luíza, e da Diolásia, entregou-me
suas insígnias de coronel, de ouro, para que eu as usasse quando fosse promovido
a tal posto. Por nunca ter esquecido esse momento é que aqui o registro.
Lembro-me de que, na ocasião, ele pousou a mão amigavelmente em meu
ombro e me disse que ele havia conquistado uma estrela e que a outra eu o havia
ajudado a conquistar. E frisou que eu o ajudara muito!!!
Juro. Fiquei atônito. Muito surpreso mesmo. Olhei-o pasmo com o que
ouvira. Como?! Imaginem em que poderia eu, um simples major, tê-lo ajudado
tanto!? Em que eu poderia tê-lo influenciado assim, a ponto de me tornar
colaborador ativo na aquisição de sua segunda estrela de brigadeiro? Bondade,
pura bondade; só ele mesmo...

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Anos depois, quando a oportunidade se fez, usei suas insígnias de coronel,
ostentando-as com muito orgulho e satisfação, lembrando, com grande afeto,
aquele ser humano de interior tão bonito. Ele foi um dos poucos comandantes
que encontrei ao longo da carreira capaz de agradecer a seus subalternos sempre
que solenidades ou acontecimentos do dia a dia saíam bem. Por duas vezes, fui
surpreendido por ele ao me apresentar minhas fichas de conceito – anos de 1980
e 1981 –, em que me concedera o grau “excepcional”, grau máximo e raramente
utilizado.
São essas as lembranças que guardo do Coronel Azambuja. Ele foi outro
bom exemplo em minha vida profissional. Um dos que agradecia com humildade,
olhando-nos de frente.

Acidente evitável

No ano de 1981, então servindo na Base Aérea de Brasília, tive a


oportunidade de fazer o curso do Viscount (VC-90), antiga aeronave que servira
a alguns presidentes da República, entre eles o Presidente Costa e Silva. Naquela
aeronave, sofri um acidente em Fortaleza.
O mencionado acidente se deu durante uma corrida de decolagem de
experiência, procedimento que tinha por finalidade testar o funcionamento da
bequilha – roda da frente – da aeronave.
Saímos de Brasília – tripulação e eu como primeiro piloto – com a missão de
trazer certo número de passageiros até a capital federal. No pouso, em Fortaleza,
verificamos uma trepidação anormal da bequilha. O procedimento padrão seria
solicitar apoio a Brasília para sanar a pane e aguardar, pernoitando em Fortaleza.
Em reunião com os experientes mecânicos daquela aeronave, resolvemos fazer
um teste antes de falar com Brasília. Participei desse teste como primeiro piloto,
efetuando a corrida de decolagem somente com a tripulação a bordo.
Nada de passageiro nessa operação. Começamos bem, mas, em seguida,
a bequilha não suportou o esforço do teste, trepidou e se rompeu. O nariz da
aeronave foi baixando até o solo; os motores e as hélices idem... Um triste
monumento! A aeronave ficou impossibilitada de qualquer deslocamento.
Arrependi-me e culpei-me até a alma pela infeliz ideia do teste. Ninguém se
machucou, mas, que mancada! E que prejuízo!
É que, por erro de cálculo, e na melhor das intenções, muitas vezes, uma
situação facilmente contornável nos leva a outra de proporções que nos fogem
ao alcance. Foi o que me aconteceu. De tanto me preocupar com a ética e com
a conduta honesta, busquei, naquela tentativa, o meio de evitar um pernoite fora
de sede. Não queria que julgassem que eu forçara um pernoite por interesse na
indenização de uma diária. Quanta severidade, meu Deus, por coisa tão pequena!

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A ocorrência causou-me grande aborrecimento pessoal. Fiquei muito
chateado durante um bom tempo. Incidentes, acidentes e erros de julgamento
podem acontecer a qualquer pessoa, mas quando ocorre conosco, sempre
achamos que poderíamos tê-los evitado. E esse teria sido o caso, não estivesse eu
tão preocupado com o julgamento alheio. Acabei mais exposto...
Mas nada como as coisas que não dão certo para nos ensinar muitas outras.
A FAB recuperou a aeronave e, tempos depois, voltou a voar.

Chocante enforcamento

Nem gostaria de recordar fato tão triste. Gostaria que já tivesse se apagado da
lembrança, mas, de tempos em tempos, ele volta à mente. Como nestas memórias
me propus a relatar o que me aconteceu de bom e de ruim, o que presenciei de
proveitoso e de desagradável, é que relato esse ocorrido.
Numa determinada noite, durante o comando do Coronel Azambuja, o
taifeiro que atendia às autoridades em trânsito pela base foi flagrado, pela equipe
da Seção de Informações, furtando material destinado à estação de autoridades.
Recebeu ordem de prisão como mandava o regulamento, mas não foi de imediato
recolhido ao xadrez por estar designado para atender ao ministro da Educação,
Ney Braga, bem cedo na manhã seguinte. Recebeu autorização para pernoitar
no alojamento daquela estação, ciente de que, após atender o ministro, seria
recolhido ao xadrez da base.
Na manhã seguinte, ele não apareceu. Procura daqui, procura dali, depois
de algumas buscas, foi encontrado enforcado no quarto onde pernoitara. Foi
horrível! Ficamos todos consternados. Uma jovem vida se fora por motivos, sabe
lá Deus quais, já que, por uma ordem de prisão, uma pessoa sã não se mata.
Como em geral acontece aos suicidas, o jovem deixou uma carta para sua família,
da qual tomamos conhecimento. O triste acontecimento trouxe grande desgaste
emocional para todos nós e muito trabalho na área de Justiça para o Comando da
Base. Nunca mais quero ser presenciar fato semelhante.

“Abençoando” o papa

O Cel. Azambuja, católico de missa aos domingos e comunhão, me


designara para coordenar o cerimonial de recepção ao Papa João Paulo II em sua
primeira visita ao Brasil, em 30 de junho de 1980. O papa entraria por Brasília,
precisamente pela Base Aérea, e retornaria ao Vaticano, partindo de Manaus. Os
preparativos para sua chegada foram coordenados pelo Itamaraty e pelo comando
da Base Aérea. A segurança pessoal do sumo pontífice no interior da Base Aérea
ficou a cargo do Major Ruben e sua equipe, sem nenhum incidente.

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A aguardada visita foi um acontecimento que mobilizou o país. Começou
pela Capital Federal e se propagou pelo território nacional afora. As maiores
autoridades, a imprensa, dezenas de seguranças, familiares de autoridades e
de militares estiveram presentes na Base Aérea e nas ruas de Brasília numa
festa religiosa jamais antes vista no Planalto Central.
Da Base Aérea, primeiro pouso no Brasil, o Papa João Paulo II seguiu
no papamóvel para a Esplanada dos Ministérios, onde celebraria a primeira
missa em solo brasileiro. Ao longo de todo o trajeto, o povo o ovacionava.
Após seus compromissos em Brasília, seguiria, no dia seguinte, para
o Rio de Janeiro, onde cumpriria outra agenda de compromissos. Em sua
despedida na Base Aérea, deu-se um fato curioso. Estavam as autoridades
devidamente postadas no pátio de estacionamento para a cerimônia de
despedidas. No interior da Estação de Autoridades estavam apenas nosso
chanceler, Ministro Ramiro Elísio Saraiva Guerreiro; o chefe do Cerimonial
do Itamaraty, Embaixador Fragoso, e alguns auxiliares do sumo pontífice,
quando fui chamado pelo Conselheiro Jorge Ribeiro, chefe do Cerimonial
da Presidência, para cumprimentar o papa. Agradeci a gentileza e declinei
do convite em respeito ao presumível cansaço de uma pessoa com idade
muito além da minha, submetido a longa viagem, exaustivos cumprimentos
e tantos protocolos. Porém, houve insistência no convite e fui levado ao
encontro do pontífice.
Feita nossa apresentação pelo companheiro do Itamaraty, o papa olhou-
me com aquela intensidade que parecia tocar a alma e... ficou calado. Seu
olhar transbordava fraternidade e ternura. Segurou minhas mãos entre as suas
num gesto de pastor e continuou em solene silêncio. E não falava nada. E
nada. E nada... Uma energia! Uma força interior! E o tempo passando... E
eu preocupado com o cerimonial de despedida, que deveria se efetuar logo
em seguida, com as autoridades que o estavam esperando fora da Sala de
Autoridades, no local de embarque. Mas pela sensação de paz que aquela
situação trazia, minha vontade era que o tempo parasse.
Foi então que, após algum tempo, tomei a iniciativa e lhe disse:
– Papa, que Deus o abençoe!
Num tom muito afetuoso, ele respondeu num português carregado:
– Muito obrigado, muito obrigado.
Pronto! Abençoei o papa. Abençoei João Paulo II, o João de Deus.
A serenidade daquela criatura me abraçou a alma e me tocou fundo. Eu,
que não sou católico, fiquei com a sensação de ter contatado um ente superior.
Um ser muito além e muito acima das mesquinharias do dia a dia desse nosso
planeta Terra. Alguém ciente da extraordinária responsabilidade de conduzir
almas além da dimensão de um credo.

139
Beijo papal na pista

Movido pela emoção e pelo lastro de solene harmonia deixado pelo papa, o
Coronel Azambuja nos incumbiu de uma missão, à primeira vista, muito simples:
cortar um pedaço de cerca de 30 centímetros do pátio de estacionamento, local
do primeiro beijo do pontífice no solo brasileiro.
Sua pretensão era fazer um pequeno monumento para o salão de honra do
prédio do comando. Para desempenhar a tarefa de fazer o recorte no chão da
pista, foi contratada uma pequena empresa, portanto, mais barata, para executar
o serviço. Foi aí que veio a surpresa: a tarefa não seria tão fácil de ser executada
quanto parecia.
O papa beijara o concreto justamente no local onde estacionavam
as grandes aeronaves. E esse tinha mais de meio metro de espessura! A
empresa gastou mais de 20 pequenas serras para cortar o local assinalado a
giz. Finalmente, pedaço de concreto recortado, beijo do papa materializado,
mandou-se confeccionar uma pequena cruz dourada, que depois foi fixada
sobre um pequeno monumento elaborado para esse fim, que foi colocado no
salão nobre do prédio do comando.

Reencontro com João Paulo II

Quase 20 anos depois, tive a oportunidade de ter outro contato pessoal com
o João Paulo II, no Vaticano. Eu já era brigadeiro e estava na Itália a serviço.
Em visita a nossa embaixada, em Roma, o Coronel aviador Dias, adido
aeronáutico, perguntou-me se eu não gostaria de cumprimentar, outra vez, o
Papa João Paulo II. Dessa vez, aceitei na hora.
Foi uma agradável coincidência estar em Roma numa quarta-feira, dia em
que o papa recebia visitas externas. Na ocasião, ele fazia uma alocução em diversas
línguas, num auditório onde cabiam mais de mil pessoas, em geral repleto. Os
convidados especiais ocupavam as duas primeiras fileiras e, depois da alocução,
se dirigiam até o papa para um cumprimento pessoal. Ficamos, Diolásia e eu,
na primeira fileira graças ao prestígio de nossos diplomatas do Itamaraty. Nosso
embaixador junto à Santa Sé em 2001 foi Marco César Meira Naslausky.
Ao cumprimentá-lo, relembrei-lhe o fato ocorrido anos atrás, no Brasil,
mas claro que o fiz só para falar alguma coisa, pois seria praticamente impossível
que tivesse registrado o fato. Ele não demonstrou lembrar, mas nos disse – em
português – que amava muito o Brasil.
Acreditei em suas palavras; senti sinceridade no que afirmava. E, afinal,
ele fora recebido com tanto carinho pelos brasileiros à época de sua visita, em
1980, que não tinha como não ter guardado uma boa imagem de nosso país.

140
Apesar de saber que o motivo básico de sua vinda ao Brasil teria sido tentar
conter o crescimento do movimento evangélico aqui, que estava exercendo forte
influência sobre as ovelhas do aprisco do Catolicismo, continuei acreditando
que, após aquela calorosa recepção, seu interesse teria transposto o contorno
estritamente religioso, que ficara marca afetiva entre ele e os brasileiros. Uma
coisa não invalidava a outra. Acho que meu julgamento estava certo.
Sua presença bem que deu uma sacudida no rebanho.
Dessa vez, no Vaticano, como da outra, em Brasília, me senti muito tocado
por sua energia.

Condecorações

Por vários motivos, como ter servido no gabinete do Ministro Araripe e,


depois, na Presidência da República, recebi, até o posto de major, 18 condeco-
rações. Mandei dourar todas elas na Randall, loja especializada, no Centro do
Rio de Janeiro, e guardei-as com o zelo que sempre dediquei às peças de meu
fardamento. Gostava de todas, e o fato de ter sido agraciado tão prematuramente
com aqueles destaques não me fazia sentir melhor que ninguém. Tinha consciên-
cia de que várias delas representavam injunções da função que exercia no dado
momento da outorga.
Certa vez, o Presidente Geisel me disse:
– Você é apenas major e tem muitas condecorações.
Ao que respondi:
– Presidente, para mim, a que tem mais valor é esta, a Medalha do Mérito
Santos Dumont.
– E por que motivo você a valoriza mais que as outras?
– É que a recebi por ser dos instrutores de cadetes mais voados...
Agradecia a Deus a oportunidade de ter sido agraciado, pois sentia satisfação
ao olhá-las, já que me destacavam pelas funções que desempenhara. Dediquei-as
a minha família. Praticamente nunca cheguei a usá-las todas de uma vez, pois,
em meu julgamento, seria prova de exibicionismo. Na maioria das solenidades,
usava apenas três delas, sempre com muita honra.
Aqueles destaques diziam respeito prioritariamente a mim e aos meus, dis-
pensando exposições.
Hoje, junto com outras mais que recebi no decorrer de minha carreira pro-
fissional, elas ornamentam a parte frontal de uma estante, em nossa sala de estar.
São lembranças materiais queridas, cada uma delas com sua história.

141
Capítulo 11

A mulher na Força Aérea


Decisão ministerial

N aquele 23 de outubro de 1981, no palanque das autoridades, o Mi-


nistro Délio assim continuou sua conversa comigo:
– Tenho uma missão especial para você. Estamos criando o Corpo Feminino
na Aeronáutica e estou preocupado com a implantação de graduados. Quero que
você seja o subcomandante do Coronel Sperry...
Nunca mas, nunquinha mesmo, me passara pela cabeça que, ao ser
transferido, tivesse que partir tão rápido para a unidade seguinte. No caso, eu
precisaria estar em Belo Horizonte no começo de janeiro. Se, por um lado, me
sentia honrado com a escolha pessoal do Ministro Délio, por outro, pensava nas
consequências para a carreira da Diolásia.
Transferências faziam parte de minha vida profissional, sabíamos disso, mas
eu lamentava que essa tivesse se dado de forma tão imediata. Sempre que ela e
eu conversávamos a respeito de transferência, concluíamos que o melhor a fazer
seria viver o presente, desviando a atenção de uma evidência que não dependeria
de nós fazer chegar, afastar ou influir. Quando a hora chegasse, agiríamos da
melhor forma. E a hora chegou.
Quando a hora chegou, pensamos: e se a transferência fosse para Paris?
Iríamos todos juntos? Sim, claro que iríamos. E se fosse para Cachimbo, também?
Sim, também! Então, iríamos juntos para Belo Horizonte, não víamos sentido
que fosse diferente. Sim, porque não nos passava pela cabeça que eu partisse de
Brasília e a família ficasse.
Dessa forma, no comecinho de janeiro de 1982, a empresa Transportes Fink
S.A. encaixotou nossa mudança, inclusive o equipo odontológico da Diolásia
(com pagamento particular) e lá fomos nós rumo às alterosas.
Tchau, Brasília!

A mulher veste o azul

A Marinha foi a primeira organização militar a receber representantes do


sexo feminino em suas fileiras. Dois anos depois – 1982 – a Aeronáutica fazia o
mesmo.
A FAB apostava na certeza do quanto a mulher brasileira seria capaz de
acrescentar a sua missão, por meio de sua inteligência, sensibilidade e capacita-
ção específica em áreas como serviço médico e administrativo.

142
Para esse fim, criara o Centro de Instrução de Graduados da Aeronáutica
(CIGAR) no antigo Destacamento de Base Aérea, em Belo Horizonte (MG).
As instalações da unidade, que, até então, tinham acomodado militares do
sexo masculino, tiveram que, em tempo recorde, se modificar para receber o
contingente feminino que, muito em breve, adentraria os portões da Força para
um estágio de adaptação à vida militar que duraria em torno de cinco meses.

Contato com meu novo comandante

Como eu não conhecia meu futuro comandante, o Coronel Guilherme


Sarmento Sperry, telefonei-lhe dias depois da conversa com o Ministro Délio
e marcamos uma visita em seu apartamento, no Rio de Janeiro. Recebeu-me
fraternalmente, com sua peculiar fidalguia, e, durante nossa conversa, falou, de
forma meio brincalhona e meio séria, que chegara à conclusão de que estava
com a “bola murcha”, porque estava terminando o Curso Superior de Comando,
seus companheiros de turma estavam sendo designados para comandos de bases
aéreas e outras importantes funções, enquanto ele, coronel antigo, estava sendo
designado para um destacamento comandado por um tenente-coronel...
Encantou-me sua sinceridade! Um desabafo feito assim, a um desconhecido
companheiro de farda, um major... Senti ali que iríamos nos entender muito bem,
achei-o verdadeiro.
Arrumei motivação onde não havia, pois eu também não estava lá muito
estimulado, e disse-lhe:
– Não, coronel, estão elevando o comando para esse posto porque o
escolheram para implantar o Corpo Feminino de Graduados. Com certeza, para
uma função de tanta responsabilidade, teria de ser alguém especial, alguém muito
bem escolhido.
Disse essa frase por um impulso do coração.
Mas como já dizia Saint-Exupèry, que “o coração tem razões que a própria
razão desconhece”, minha profecia de amador estava correta. Ele era mesmo a
pessoa certa. Seu comando foi muito bem-sucedido e a implantação do Corpo
Feminino foi um sucesso.
Lembro que ele me dizia, com aquele seu jeito de chamar todo mundo de
“meu velho”: “Meu velho, eu sou o comandante e, como tal, nessa função, posso
mandar beijinhos. Tu, como subcomandante, arrumas a casa...”
Saí de BH, como já mencionei, depois de 11 meses. Seu comando foi tão
bom que foi prorrogado, tendo permanecido três anos no cargo.
Certa vez, em um jantar em sua residência, lhe disse: “Daqui, o senhor sairá
para uma adidância, quem sabe na Europa.” Disse aquilo do nada, brincando. E
colou. Não deu outra. Após aquele comando, foi designado adido no Reino Unido.

143
Elas chegaram...

As 152 alunas concursadas e selecionadas em todo o território nacional


chegaram ao CIGAR no segundo semestre de 1981. Entre as muitas decisões
acertadas do Coronel Sperry, a de solicitar a colaboração da Polícia Militar de
Minas Gerais, cujo Corpo Feminino havia sido implantado já há alguns anos,
foi uma das mais apropriadas. A Polícia cedeu cinco sargentos de seu quadro
feminino que atuaram como interface entre as recém-chegadas e o comandante
do Corpo Major Custódio e, entre esse, e o comando.
Reuniões sucessivas abrangiam detalhes nunca antes imaginados, porque
não só as instalações físicas tinham de ser adaptadas para as novas hóspedes
como nós, do sexo masculino, precisávamos nos adaptar psicologicamente a
elas também. E aspectos como instrução militar, disciplina, cobrança e exigência
da vida na caserna passaram por pequenos acertos em respeito ao compasso
feminino.
As alunas deram um colorido especial à unidade, cujo ritmo de trabalho
intensificou-se. Elas eram a novidade da FAB naquele ano! Despertavam a
curiosidade de todos os que por nossa unidade transitavam. Só se falava do
assunto nas “aerovias”. E a pergunta era a mesma: será que vai dar certo?
E deu! Em 2008, tive a satisfação de estar presente às comemorações do
Jubileu de Prata dessas pioneiras. Além de reviver lembranças, tive o prazer de
rever o Brigadeiro Sperry, o Major Brigadeiro Custódio, o Coronel Conrado e
vários outros companheiros da época.

Transparência feminina

No começo, nós, homens e superiores hierárquicos, não sabíamos muito


bem que tratamento dispensar às jovens recém-chegadas à caserna. No intuito de
encontrar a forma educada e correta de nos comunicarmos, começamos “cheios
de tato”. Em pouco tempo, verificamos que o tratamento por elas esperado e
preferido era aquele incisivo, direto, sem rodeios; com objetividade e muita
franqueza.
Certa vez, quando elas ainda usavam trajes civis na instrução, um dos
sargentos instrutores verificou que uma delas estava sem sutiã e que outras
apresentavam indumentária não condizente com a caserna. O instrutor arrodeou
o assunto, constrangido de falar a palavra “sutiã”, e disse:
– O comparecimento à instrução deve ser feito com todas as peças de roupa,
superiores e inferiores.
Na mesma hora, uma aluna pediu licença ao monitor e sugeriu:
– Sargento, por que o senhor fala de forma indireta? Diga que não pode

144
comparecer à instrução com blusa transparente ou sem sutiã, diga que quem
estiver menstruada avise para ficar na sombra etc.
O sargento ficou todo sem graça com o aparte, mas aprendeu a lição.
As alunas eram disciplinadas, quase não davam alterações, eram organizadas e
faziam questão de ganhar 10 em tudo. Lembro-me de um dia em que fui fazer inspeção
nos alojamentos delas. Estava quase tudo impecável. Ao término da inspeção, falei:
“Ok. Quase tudo em perfeita ordem: alojamento ‘A’ nota 9 e alojamento ‘B’ nota 10.”
De imediato, uma aluna perguntou:
– Com licença, senhor, pode explicar o motivo pelo qual nosso alojamento
não tirou nota 10?
Ao que respondi:
– Encontrei esse grampo de cabelo em cima do armário de uma das alunas.
– Deve ser da “fulana”. Ela sempre faz isso – indicou sem pestanejar.
Acusação assim, tão “na bucha” me surpreendeu. É que elas eram mais
espontâneas que os homens, queriam tudo certinho e não admitiam que, por um
pequeno e humano descuido, o 10 lhes escapasse na avaliação do item “ordem”
do referido alojamento.
Numa coisa elas eram iguaiszinhas aos homens ou até melhores: na
competição intelectual. As que estavam na disputa dos primeiros lugares
estudavam até altas horas da madrugada, sábados, domingos e feriados.

Ala presidencial feminina

Entre os vários fatos curiosos ocorridos com a primeira turma, um merece


destaque. Estava prevista uma visita do Presidente Figueiredo a Minas Gerais,
que transitaria por Belo Horizonte. Fui ao Coronel Sperry e sugeri substituir a
ala de soldados da Polícia da Aeronáutica (PA), normalmente prevista para o
desembarque presidencial, por uma ala feminina.
– Você está querendo me colocar na fogueira, Walacir? – Falou-me em tom
de brincadeira.
– Pelo contrário, quem sabe com essa ala o senhor seja designado para adido
aeronáutico numa boa embaixada?
Pedi permissão para sondar as autoridades em Brasília e, depois de tal
sondagem, ele, um tanto cauteloso, autorizou-me. Telefonei para o Coronel Ely,
irmão do Ministro Délio, que trabalhava no Gabinete Militar da Presidência.
Muito brincalhão, ele me disse:
– Walacir, que ideia genial, meu irmão. O Ministro Délio vai adorar e o
Presidente Figueiredo mais ainda.
Pedi ao Major Custódio, comandante do Corpo de Alunas, que selecionasse
16 alunas e as treinasse para a ala ao presidente. Na manhã do desembarque, fui

145
ao Corpo de Alunas inspecionar o grupo e disse: “Está bom, mas pode melho-
rar. Cinco minutos a mais de espelho para retoque no visual.” Voltaram mais
arrumadas, quepe bonito, camisa de manga comprida, gravata e luvas. Quando a
aeronave presidencial cortou os motores, as alunas se deslocaram garbosamente,
formando a ala.
O Presidente Figueiredo foi tomado de surpresa – ou, pelo menos se disse
surpreso –. Desceu a escada do avião e passou pelo interior da ala, literalmente
satisfeito, olhando para ambos os lados. O Ministro Délio, então, estava incontido
de satisfação. Ele era “o pai do Corpo Feminino” e era a primeira vez que via as
alunas.
Ao ser recebido pelo Coronel Sperry, o presidente falou:
– Parabéns, coronel, gostei muito da ala feminina!
E voltando-se para o ministro da Marinha, acrescentou:
– Há anos que a Marinha tem Corpo Feminino e nunca me fizeram uma ala...
Com o ministro do Exército, ele brincou:
– E vocês, de nosso Exército, que nem mulheres têm na tropa. A Aeronáutica
está de parabéns!

Garbo da mulher militar

Na manhã seguinte, estava previsto que a comitiva presidencial trocasse


de roupa no Hotel de Trânsito dos Oficiais para, em seguida, embarcar numa
aeronave Búfalo para viagem e visitas ao interior do estado de Minas Gerais, em
traje esporte. Pensei e propus a nosso comandante uma rápida demonstração de
ordem unida enquanto o Presidente Figueiredo tomasse seu cafezinho em pé, na
varanda do Cassino dos Oficiais.
– Walacir, ganhamos de 1 x 0. É melhor não darmos outra chance.
Ao que respondi:
– Quem sabe fazendo 2 x 0 o senhor é promovido a brigadeiro após a missão
no exterior.
O Coronel Sperry dava espaço para que pudéssemos brincar.
Pedi, então, ao Major Custódio que selecionasse cerca de 50 alunas. Ele
deveria escolher as que melhor marchassem e treiná-las para a manhã seguinte.
O Custódio tinha boa liderança e sabia conduzir suas comandadas, motivando-
as muito bem. Eu sabia que podia confiar que daria tudo certo. Só não sei o
que pensaram as comandadas. Mas devem ter gostado, quem não gosta de ser
apreciado? E elas foram e souberam disso.
Montada a estratégia, aguardamos o presidente trocar de roupa, e, quando
apareceu, – ele me conhecia dos tempos do Presidente Geisel, quando ele era
chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) – perguntou-me:

146
– Walacir, como está o desempenho das alunas?
Ao que respondi:
– General, o senhor não gostaria de tomar o cafezinho no saguão externo?
Assim, apreciaria a instrução de ordem unida que elas estão recebendo agora...
Na realidade, naquele horário, todas as alunas deveriam estar em sala de
aula! Dei um sinal, que foi repassado discretamente, e o grupamento feminino
surgiu marchando com muito garbo e cantando o Hino dos Aviadores. Depois de
passarem pelo presidente, fizeram a reversão e seguiram dando o Grito de Guerra,
o que deixou os ministros e a comitiva extasiados.
Ao chegarem à pista, na qual as autoridades os aguardavam, nosso
comandante foi outra vez cumprimentado.
O placar estava confirmado: 2 x 0.

Reconhecimento do mérito

Coincidentemente, minhas brincadeiras de adivinho quanto aos rumos da


carreira do Coronel Sperry se confirmaram. Ao deixar o comando de BH, ele
não só foi designado adido aeronáutico no Reino Unido como foi promovido a
brigadeiro, reconhecimento de seus múltiplos méritos ao longo de uma carreira
profissional de êxito.
Sempre que nos encontramos, motivo de muita satisfação, às vezes,
relembramos pequenas coisas da época em que trabalhamos juntos e fomos
vizinhos na Vila dos Oficiais de Belo Horizonte, localizada no interior daquela
organização militar.

Convite vibrante

Eu estava há apenas cinco meses no CIGAR quando recebi um telefonema


do Brigadeiro José Pessoa, comandante da Academia da Força Aérea:
– Walacir, você foi o primeiro de turma, instrutor da AFA durante vários
anos, é bem conceituado... por isso, estou lhe convidando para ser o comandante
do Corpo de Cadetes.
Que surpresa!!! Eu jamais sonhara com aquela função, ainda por cima sendo
eu major e a função, de tenente-coronel. Impossível haver convite que me fizesse
mais feliz que aquele! Porém, por lealdade a meu comandante, informei-o de que
estava em BH para acompanhar o Coronel Sperry em seus dois anos de comando
e que estávamos apenas na metade do primeiro ano. Informei-o, também, que
minha transferência para BH tinha sido decisão pessoal do Ministro Délio.
– Esses problemas são meus – disse o Brigadeiro Pessoa. – Só quero saber
se você aceita o convite.

147
Após conversar com o meu comandante, aceitei o convite.

Onze meses depois...

Por essa razão, nossa permanência na capital mineira foi de apenas 11


meses. Rumamos para Pirassununga, São Paulo. Nós e o consultório da Diolásia,
que não chegara a ser desencaixotado.
A experiência de participar da implantação do Corpo Feminino foi marcante;
foi diferente de tudo o que o horizonte da caserna até então poderia me apresentar
como possível. O contato com aquelas jovens, apesar de curto e não tão próximo,
por eu desempenhar a função de subcomandante, deixou-me lembranças muito
positivas; acrescentou-me uma experiência da qual lancei mão anos mais tarde,
quando comandei a Escola de Especialistas da Aeronáutica. Por coincidência,
também participei da entrada da mulher naquela escola.
Do breve período, guardo lembranças muito agradáveis e variadas e de meu
comandante Coronel Sperry, a lembrança de um gentleman.

148
Capítulo 12

Comando do Corpo de Cadetes


Momentos marcantes da carreira

R
reiro de 1983.
ecém-promovido ao posto de tenente-coronel, assumi o cargo de
comandante do Corpo de Cadetes da Aeronáutica em 28 de feve-

A experiência como instrutor de voo me fazia acreditar no anseio de formar


um time em que valores como confiança, conjunção de objetivos e transparência
de propósitos unissem todos nós. Apostaria na motivação e na liderança, na co-
municação persuasiva e na iniciativa, no empreendedorismo e na autoconfiança;
na determinação, na credibilidade pessoal e na flexibilidade com bom senso.
Foi com esse espírito entusiasmado que recebi o comando do Corpo de Ca-
detes da Aeronáutica do Coronel Delcio numa solenidade militar impecável em
que se sobressaiu a marcialidade de seus jovens comandados.
Compareceram autoridades civis e militares previstas para tais solenidades,
além do tio Zeca, do primo Vítor Leal e de sua esposa, Odete, vindos de Ponta
Grossa, e do casal Aldir e Dulce, tios da Diolásia, que vieram de São Paulo espe-
cialmente para o evento. Imaginem minha satisfação!
Na busca do rumo certo, me utilizei do método investigativo da pesquisa
anônima. Queria sentir o que ia na alma daquela juventude. A pesquisa consistia
em perguntas simples sobre o dia a dia do cadete, sua rotina, anseios, pontos de
concordância e divergência, problemas e, no fim, um espaço livre para que apre-
sentassem sugestões ou escrevessem o que quisessem. Após a leitura das mais de
900 fichas dessa pesquisa, delineei o perfil do campo a trabalhar e defini as ações.
Procurei dar todo apoio e incentivar um programa que já encontrei implan-
tado: o de liderança. Tal programa enfatizava o desenvolvimento de atributos de
liderança daqueles jovens, os futuros oficiais da Força Aérea.

Ousadia e vibração

Nossa equipe era composta de 21 oficiais. Faziam parte desse grupo o


Major José Roberto, meu adjunto, com a experiência de cinco anos no Corpo, e
quatro majores comandantes de esquadrão: Mendonça, Garó, Gama e Sobrinho,
auxiliados por oficiais mais modernos, de níveis hierárquicos capitão e tenente.
De posse do resultado da pesquisa, reuni os cinco oficiais superiores e
apresentei-lhes minhas considerações. Mostrei-lhes que pretendia implantar uma
série de mudanças para tornar mais ameno e agradável o cotidiano dos cadetes.

149
Em alguns pequenos aspectos menos amarrados às normas que vigoravam há um
bom tempo, pelo simples fato de terem sempre existido, mas que já não faziam
sentido e que poderiam ser revisadas.
Pretendia atender a anseios que julgasse razoáveis. Nada de extraordinário,
nada fora do senso da racionalidade, coisas simples, para começar. Por exemplo:
permitir que um cadete fosse até o posto médico sem a necessidade de aguardar
por mais outros três que também precisassem daquele serviço, para, então, irem
marchando até o hospital; permitir que o cadete permanecesse mais três ou quatro
minutos na cama, após o toque de Alvorada, sem que isso redundasse na anotação
de seu nome como descumpridor das normas.
De acordo com meu raciocínio, se não havia pia para todos ao mesmo tempo,
por que ter de se levantar ao primeiro toque e ficar de pé só por ficar, aguardando
a vez? Que os colegas se organizassem quanto à sequência de utilização dessas
pias e pronto. O que importava era o resultado. Todos prontos na hora prevista.
Cito somente esses exemplos, muito simples, banais até, para não me
alongar, mas para situar que mudanças foram aquelas. Na realidade, dei ênfase
à já implantada filosofia da “disciplina consciente”, que nada mais era que o
cumprimento de obrigações preestabelecidas sem a necessidade de fiscalização,
e dei mais destaque à atuação da Cadeia de Comando, exercitando a liderança de
seus componentes.
Inspirada na Academia da Força Aérea dos Estados Unidos e adaptada a
nossa realidade pelo então companheiro de turma, o Tenente Cutrim, em sua
passagem pelo Corpo de Cadetes, a Cadeia de Comando fora implantada pelo
Major Glaser – poucos anos atrás – quando no comando do Corpo. Representava
um importante treinamento de responsabilidade e liderança. Desde que tomei
conhecimento de sua existência, passei a admirar a iniciativa e a tê-la em alta
consideração.
O Estado-Maior da Cadeia de Comando era composto por oito cadetes do
quarto ano: o aviador 01 (líder do Corpo de Cadetes); o aviador 02 (vice-líder do
Corpo); o intendente 01; o infante 01 e os quatro líderes de esquadrão, escolhidos
por seu perfil e pela especificidade de cada esquadrão. O trabalho que realizavam
era auxiliado pelos líderes de esquadrilha – um do quarto ano para cada turma de
aula do segundo ano – e pelos líderes de elemento – um do terceiro ano para cada
quatro cadetes do primeiro ano. Normalmente, o líder do quarto esquadrão era
indicado pelos próprios cadetes veteranos, pois liderar os companheiros de turma
era um desafio especial.
Minha intenção, ao implantar as primeiras mudanças, era testar o nível de
disciplina consciente e avaliar se poderia prosseguir com outras mudanças mais
significativas ou recuar. Ao enumerar as modificações pretendidas, o Major José
Roberto comentou:

150
– Sinceramente, chefe?! Acho que isso não é uma pequena abertura, talvez
seja grande demais. Quem sabe, talvez essas mudanças pudessem ser introduzidas
mais lentamente.
Ao que respondi:
– Confio que vai dar tudo certo, mas se não acontecer como penso, terei
humildade para voltar atrás.
Numa tarde de sexta-feira, reuni todo o efetivo de cadetes no cinema da
Academia e falei sobre as adaptações e modificações que pretendíamos implantar,
externando minha inquietação a respeito dos fatores que os desmotivavam, sobre
os quais tomara conhecimento através da pesquisa. Comuniquei-lhes a pretensão
de fazer outras alterações no intuito de lhes facilitar o dia a dia, mas que só as faria
quando tivesse a certeza de poder contar 100% com eles, os maiores interessados.
Falei-lhes que nosso maior objetivo era vê-los mais vibrantes, motivados e felizes
em pertencer à Força Aérea.
À medida que a exposição fluía e as mudanças eram anunciadas, senti mudar
a “química” do auditório. A plateia mostrou-se inquieta e, de forma discreta,
começaram os comentários com os colegas do lado. Silenciosa e positiva agitação
se propagava como uma onda, e senti o acerto da iniciativa. Eles pareciam não
acreditar nas mudanças que estavam sendo anunciadas. Senti no ar a aceitação. A
alegria. A satisfação. Tive fé no que pretendia fazer. Era apostar no melhor para
todos!
No fim daquela reunião, usei da atmosfera de otimismo para chamá-los a
vibrar pela Força, dizendo-lhes:
– Se algum cadete neste auditório ainda tem amor à Força Aérea, que fique
de pé!
A resposta a essa conclamação superou tudo que eu pensasse poder acontecer.
Mal acabara de falar, parecia que um comando invisível tocara a todos, pois,
simultaneamente, ficaram de pé. Dava a impressão de que uma mola invisível os
ejetara dos assentos! Foi impressionante a cena. Aproveitando, provoquei-lhes a
emoção:
– Muito bem, mas para que eu tenha a certeza de que vocês vibram mesmo
em ser cadetes, quero que cantem a canção Bandeirantes do Ar com aquele
entusiasmo.
Com impressionante rapidez, o Cadete Ballatore, Líder do Corpo de Cadetes,
saltou para a plataforma, levantou os braços e comandou:
– 1, 2, 3... – E iniciou o canto.
Eles cantaram com tanta motivação que até pareciam querer ser ouvidos por
toda a FAB. Tentei cantar com eles, mas fiquei muito emocionado. O momento
foi tão marcante que só de rememorá-lo a emoção toma conta de mim.
No fim do canto, sem que ninguém os tivesse comandado, os veteranos do

151
quarto ano deram seu vibrante grito de guerra, seguidos pelos gritos de guerra
dos três outros esquadrões. Naquele momento, senti que se estabelecia um forte
elo entre nós. Que as coisas dariam certo e que, junto com a equipe de oficiais
e demais colaboradores, poderíamos realizar um comando muito proveitoso,
formando profissionais que, no futuro, influenciariam a Força de forma muito
positiva. E assim foi.
Hoje, quando encontro os jovens daquela época, todos já com muitos fios
brancos na cabeça, outros com poucos cabelos, alguns já avôs, tendo comandado
unidades aéreas, bases aéreas ou outras organizações, alguns, inclusive, já tendo
atingido o generalato, sinto júbilo, emoção, orgulho, intensa alegria e uma felicidade
plena de ter cumprido com meu dever perante eles, a Força Aérea e o Brasil.
E a alegria continua quando penso que aqueles mais de 900 cadetes, somados
a outros 250 que chegaram no ano seguinte, totalizando mais de mil jovens, estão
hoje espalhados por nosso país ou no exterior, quer como militares, quer como
civis, praticando ações no dia a dia de suas unidades ou empresas, embasados na
formação moral e intelectual dos anos de Academia, dos quais, por um ou dois
anos, estivemos juntos.
O Comando do Corpo de Cadetes desfila em minha memória numa infindável
sucessão de imagens. Elas se compõem, em sua grande maioria, de lembranças
muito boas, lembranças que confirmam a semeadura em solo fértil.

Reflexão de conduta

Ao relembrar esse solo fértil, não tem como deixar de vir à minha mente o
episódio do uso do telefone público, o azul, fixado na área do Corpo. A história
foi a seguinte:
Certa vez, convoquei o Estado-Maior dos Cadetes e dei-lhe uma missão
a ser cumprida em 24 horas: descobrir quem estava utilizando “gatilho” para
telefonemas DDD, utilizando-se do serviço sem pagar. Tínhamos recebido um
documento da Companhia Telefônica que informava que o telefone azul – o
orelhão da época – havia sido utilizado para mais de 200 ligações interurbanas
num mês e apenas três fichas foram encontradas dentro do aparelho.
Alguns minutos depois de determinar a missão, os integrantes da Cadeia de
Comando voltaram a minha sala cabisbaixos e conflitados. O Cadete Naumann,
de saudosa memória, com a voz embargada, falou:
– Coronel, não temos mais moral para integrar a Cadeia de Comando, porque
todos nós também telefonamos com gatilho, sem ficha.
Fiquei alguns instantes em silêncio, enquanto, internamente aplaudia sua
franqueza e a de seus companheiros. Aquela postura demonstrava que as aulas de
doutrinamento moral atestavam efeitos positivos.

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– Está bem – respondi. – O telefone azul será retirado, e quando os cadetes
tiverem maturidade para seu uso, será reinstalado.
No mês seguinte, autorizei que voltasse a funcionar. Com fichas e sem
gatilho, e não tivemos mais problemas.
Essa lembrança e muitas outras enriquecem meu acervo e me orgulham.
Coisas tão simples, hão de pensar, mas para um educador, aquele que é correto
nas pequenas coisas tem condições para sê-lo nas grandes. Nunca o contrário.
Em minhas memórias, porém, também existem imagens tristes, como
quando algum cadete se acidentava ou ia a Conselho de Voo sem que tivéssemos
como recuperá-lo. Nessas situações, sempre me vinha a pergunta: fizemos tudo
por esse cadete?
Presenciar o choro e a tristeza de um jovem cheio de ideal, arrumando as
malas para voltar à vida civil, se despedindo dos companheiros e da Academia,
me comovia muito.
Se o desligamento se dava por inabilidade para o voo militar, doía,
mas sabíamos que possivelmente estaríamos salvando uma vida, ou várias,
quem sabe. Mas quando este se dava por outras causas, por “bobeadas”, por
exemplo, tudo que gostaríamos de fazer era oferecer mais chances, tentar
mais um pouco: mais horas de treinamento, quem sabe, a troca de instrutor
ou apoiá-lo na solução de problemas familiares ou de saúde que tivessem
prejudicado no rendimento em voo. Tudo, enfim, que fosse possível para que
alcançasse com segurança o ideal de voar.
Durante os dois anos de comando à frente do Corpo, participei de 81
Conselhos de Voo e, desde que o cadete tivesse um bom desempenho acadêmico
ou militar, eu me valia da experiência daquelas minhas mais de 3 mil horas de
instrução de voo e o defendia em busca de uma chance a mais.
Graças a Deus, no decorrer dos dois anos de comando, não tivemos acidente
fatal, quer aéreo, quer automobilístico. Os acidentes automobilísticos aconteciam
nos deslocamentos de feriados mais prolongados; o que nos causava apreensões
e muitos sustos. Bastava que o telefone tocasse fora de hora, que não dava outra,
era acidente na estrada. E haja adrenalina até que se soubesse de todo ocorrido e
se pudesse prestar socorro.
As lembranças com a família também foram marcantes. Minha filha Laíse
lembra até hoje da casa do Tarzan que, um dia, o tio “Lamulier”, no caso, o
amigo coronel Lamounier, prometera ajudar a construir no bambuzal atrás de
casa. O Lamounier era um daqueles adultos que gostava de puxar conversa com
criança e, minha filha e ele, quando se encontravam ao longo da rua D-20, sempre
paravam para altos bate-papos que, depois, ambos vinham me contar.
Apesar de feliz, minha saúde me cobrou por certos exageros de um passado
próximo. Sofri intensamente com problemas de coluna. Apelava para tudo: rezas,

153
massagens, medicamentos, infiltrações na coluna, simpatias, tudo, enfim, que
pudesse aliviar as intensas dores. E não torçam os narizes aqueles que nunca
sentiram na pele os tormentos infligidos por hérnias de disco. Aliás, acho que
me esqueci de mencionar que, na época em que fui AJO do General Geisel, fui
operado no Rio pelo Dr. Paulo Niemayer. Lamentavelmente, fiquei no percentual
dos que apresentam melhoras iniciais e que, depois, voltam a sofrer com o
problema.
Mas como tudo que é ruim a gente procura minimizar e esquecer para viver
melhor, quando falamos em “Pira”, a maioria das lembranças é de coisas boas
e momentos agradáveis. Ficaram daquela época amizades, respeito pela missão
da Academia e saudade de uma convivência muito fraterna. Uma saudade que
permanece em minha família e, acredito, que nas dos demais companheiros, pois,
fora as pequenas disputas e aborrecimentos miúdos, próprios do contato humano
no dia a dia, havia solidariedade, alegria, ajuda mútua e a sensação de trabalhar
na construção de uma causa que nos orgulhava.

Código de Honra dos cadetes da Aeronáutica

Alguns dias antes de assumir o Comando do Corpo, vi que operários


retiravam as letras que formavam o Código de Honra do Cadete, localizado numa
parede próxima à sala do comandante do CCAER.
A cena ficou martelando em minha mente, pois o Código de Honra do
Cadete, composto pelas palavras “Coragem, Lealdade, Honra, Dever e Pátria”,
continha em si uma força de exortação tão efetiva que, a meu ver, não poderia ser
retirado do local em que estava exposto.
Apesar de ainda não conhecer os cadetes de perto, julguei que o fato
possivelmente iria entristecê-los. Sondando daqui e dali, vim a confirmar minha
suposição. Sim, eles não gostaram da retirada do código de honra.
Pensei: esse código precisa voltar a ficar exposto! E uma de minhas primeiras
providências foi viabilizar seu retorno.
Perguntei a alguns oficiais mais próximos sobre o motivo da retirada do
código, mas ninguém me deu uma resposta completa a respeito da questão.
O tempo foi passando, outras coisas foram ocupando minha mente, mas não
me esqueci de dar prioridade à reconstituição do código. Não houve objeção
por parte do comandante da Academia, e o código foi restabelecido num
monumento construído próximo à sala do Cadete de Dia, por onde sempre
transitavam os cadetes.
O pequeno monumento foi reerguido com dinheiro dos próprios cadetes.
Numa das reuniões semanais, abordei o assunto, acrescentando que não tínhamos
verba para pôr em prática nossa intenção nem outras pequenas iniciativas.

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Solicitei-lhes uma contribuição mensal no valor equivalente a uma Coca-Cola
média para criar um fundo para pequenas despesas, com que todos concordaram.
Com a quantia recolhida, além do código de honra, construímos um
monumento com uma cúpula de acrílico no interior do qual foi colocado um
espadim – o símbolo do cadete da Aeronáutica –, que passou a ornamentar a frente
da sala do Cadete de Dia ao Corpo de Cadetes, e mandamos pintar, no alto de um
dos prédios, no pátio de formatura, local da parada diária, uma frase extraída da
pesquisa de opinião. A frase era: “Orgulho-me de ser cadete e pertencer à Força
Aérea Brasileira.”
A missão de materializar essas ideias – e outras – ficaram a cargo do então
Tenente Ornelas, um dos dedicados e vibrantes oficiais do Corpo de Cadetes,
anos depois ajudante de ordens do Presidente José Sarney.

Presença constante

Pela satisfação que isso me trazia e por julgar importante a presença física e
a força moral do comandante do Corpo, procurei estar presente em todo evento,
treinamento ou reunião que achasse pertinente ou necessário estar, não importando
se ocorresse de dia ou de noite, em dia de semana ou feriado. Onde julgasse que
a presença do comandante pudesse acrescentar algo, lá estava eu.
Se um esquadrão fazia treinamento noturno na mata, por exemplo,
acontecimento que causava ansiedade, euforia, contrariedade, contratempo,
curiosidade ou tudo isso junto, eu procurava acompanhar de perto a evolução
das manobras e o desempenho dos cadetes. No regresso, pela manhã, lhes dirigia
a palavra, explicando o porquê daqueles exercícios para a vida profissional. Se
o regresso se desse de madrugada, ia até os alojamentos, onde os encontrava
literalmente “desmaiados” de tão cansados; fardamento e botas com lama... Mas,
mesmo assim, ia lá conversar com eles. Gostava de ouvi-los. E, confesso, que
aprendia bastante com seus relatos ou apreciações.
Eu entendia que a presença do comandante conferia-lhes a certeza de que
estávamos juntos e que aqueles exercícios tinham sentido para todos nós.
Num desses treinamentos, ficou a amarga lembrança de grave acidente
ocorrido com um cadete panamenho, que, ao ter a infelicidade de lesionar a
coluna num exercício, tornou-se paraplégico. Até hoje, lembro-me do fato com
muita tristeza. Na época, fiquei mesmo muito abalado.

Chamamento ao exemplo

Em praticamente todas as sextas-feiras, os cadetes eram reunidos no cinema


para um encontro comigo e com os demais oficiais do CCAER. Nessas reuniões,

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eram tratados assuntos referentes à semana, avisos, eram dadas recomendações,
fazíamos doutrinamento moral e projetávamos filmes de aviação. Nesses contatos,
eu os exortava à superação, partindo sempre de exemplos simples ou de pequenas
ações do cotidiano. Incentivava-os a pensar, raciocinar e agir baseados na justiça,
no bom senso e no compromisso com o bem comum.
Apesar de saber que estavam atentos ao relógio, ligados no ônibus com destino
ao Rio de Janeiro ou outras localidades, ansiosos pela folga do fim de semana,
havia, nessas reuniões, interesse e participação. Bem verdade que, por se tratar de
uma reunião logo após o almoço, de vez em quando, eu observava um ou outro
cabecear, ensaiando um cochilo. Para esses casos, ficou estabelecido que o cadete
que deixasse o colega do lado cochilar teria sua saída de fim de semana sustada e,
juntos, permaneceriam na Academia. Desde que essa regra foi estabelecida, eu só
via lá de cima do palco as cotoveladas... E acabaram-se os cochilos.
Numa dessas reuniões, compareci visivelmente contrariado. É que, em
visita às dependências da Divisão de Ensino, para verificar pessoalmente como se
encontravam as instalações com o objetivo de melhorá-las, constatei que os banheiros
estavam um horror! Piores que aqueles banheiros de rodoviária de interior, lá dos
cafundós: cheios de inscrições pornográficas, xingamentos, desenhos obscenos,
marcas nas paredes, portas com pedaços arrancados, uma imundície total!
Aquilo não poderia continuar daquela forma. O estado de um banheiro
público ou semipúblico, de uma instituição, de um departamento ou mesmo
de um banheiro doméstico qualquer, reflete o nível de educação de quem dele
faz uso. Isso seria assunto pertinente a um comandante? Em meu julgamento,
sim. Um comandante de jovens é, antes de qualquer coisa, um educador, um
condutor. Sua força moral e funcional, por meio do chamamento certo, tem o
poder de mudar atitudes e comportamentos que outros, num nível de hierarquia
mais abaixo, provavelmente não tenham. E eu não queria que nossos cadetes
continuassem com um tipo de comportamento que os rebaixassem.
Dirigi-me a eles naquela tarde afirmando que aquele não era o nível de
educação que eu supunha que tivessem. Falei-lhes: “Vocês, futuros oficiais da
Força Aérea, têm de ter atitudes dignas e exemplares. Estou estarrecido com o
que vi. E não se trata de dizer que o desastre que vi pertence a turmas anteriores,
turmas que já nem estão mais aqui na AFA. Coisas que nos banheiros estão
escritas são recentes, há xingamento de esquadrão ‘A’ contra esquadrão ‘B’,
menção a instrutores, colegas e outras deselegâncias mais, porém, coisas atuais,
de agora, deste ano.” E concluí: “Informei ao Coronel Lamounier, chefe da
Divisão de Ensino, que vamos providenciar a pintura dos banheiros.” Fiz pausa e
prossegui: “Se um dia, em meu comando, eu encontrar uma frase sequer escrita
naquelas portas ou paredes, todos os cadetes estarão ‘convidados’ a permanecer
na Academia durante todo um fim de semana.”

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O chamamento surtiu efeito. A pintura foi restaurada e, até onde registro, os
banheiros permaneceram decentes.
De vez em quando, chamadas de atenção como essa que acabo de mencionar,
se faziam necessárias. Fazia parte do “pacote educação”. Uma sacudida, por
deselegante ou desagradável que fosse o assunto, surtia um bom efeito. O mais
importante é que aqueles jovens cadetes sabiam o quanto por eles eu me sentia
responsável e o quanto queria que tirassem o melhor dos anos de AFA para que
tivessem sucesso em suas vidas.
Certo dia, soube que tinham me dado o apelido de “Brubacker”, personagem
de um dos filmes do ator Robert Redford que, na época, fazia sucesso. Brubacker
fora designado diretor de uma grande prisão e implantara uma série de mudanças
que os detentos, de tanto que o aprovaram, o tornaram herói.
Que criatividade... Nem de longe tal comparação era pertinente, mas o que
valia é que o apelido significava que os cadetes se sentiam mais satisfeitos após
alguns pequenos ajustes que vínhamos implantando. Brubacker dirigia uma
prisão, eu comandava futuros oficiais da Força Aérea, não queria jamais que a
escola que os formava viesse, de longe sequer, a lembrar ou parecer, em qualquer
aspecto que fosse, como uma prisão. Aqueles cadetes sabiam disso! Entendi que
tomaram emprestado do filme apenas o perfil positivo do personagem Brubacker
para expressar que se sentiam mais felizes com as mudanças que estávamos
implantando. Eles sabiam que nossa pretensão e objetivo era fazer com que,
naquela instituição de ensino, reinassem disciplina, respeito e boa formação
moral e profissional. Eles sabiam que era grande nosso orgulho em participar da
formação de homens comprometidos com um ideal.
Obrigado, cadetes.

Visita proveitosa para os cadetes

O Major Brigadeiro Menezes, comandante da AFA no período de março de


1979 a abril de 1981, portanto, anterior a minha chegada, criou alguns clubes,
entre eles o de voo a Vela, de Aeromodelismo, de Tiro, e apoiou clubes já
existentes, direcionados aos interesses dos cadetes.
Algum tempo depois, já como diretor do Departamento de Ensino da
Aeronáutica (DIRENS), esteve em visita à AFA e aos clubes. Junto com o Brigadeiro
Pessoa, tive a satisfação de acompanhá-lo a locais que se dispôs a rever.
Num momento que julguei favorável, disse-lhe, com certa dose de
expectativa: “Brigadeiro, os cadetes lhe são muito agradecidos pelos clubes
criados em seu comando. Eles gostariam de homenageá-lo com um busto no pátio
do Corpo de Cadetes.” Fiz uma pequena pausa e continuei: “Só faltam ser criados
o clube de paraquedismo e o clube de ultraleve...”

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Rápido de raciocínio, como era (e é, até hoje), disse:
– Um clube de paraquedismo é mais difícil, mas o de ultraleve, vamos
providenciar já!
Voltando-se para o comandante, disse-lhe: “Oh! Pessoa, vamos criar um
novo clube para os cadetes! Chegando ao Rio, vou mandar meu ultraleve e vou
pedir outros para o ministro.”
Não deu outra. Não só mandou seu ultraleve como fez um documento
circunstanciado ao ministro da Aeronáutica em que solicitou outros ultraleves.
Em pouco tempo, chegaram à AFA mais seis unidades, tornando realidade o
sonhado clube.
O fato provocou muita excitação entre os cadetes. Sentiram-se prestigiados
e incentivados, principalmente aqueles que permaneciam na Academia nos fins
de semana.
Foi uma visita que trouxe valioso presente, visita cujo coração pulsava junto
com a ânsia de voar daqueles jovens.

O voo do ministro

No dia da inauguração do novo clube, o Ministro Délio compareceu à


Academia e fez o voo inaugural num dos ultraleves. No retorno, diante de mais
de 900 cadetes, chamou-me e disse:
– Walacir, como está a motivação dos cadetes com o novo clube?
Sabendo que ele estava acompanhado de um vendedor de ultraleves, com
uma proposta de 20 aeronaves na mão, respondi:
– Ministro, o Corpo de Cadetes está vibrando, porém, estamos com um
problema. Ao responder a uma pesquisa de opinião, 91% dos cadetes, ou seja,
mais de 800, afirmaram que gostariam de entrar para o clube. Quase todos querem
voar ultraleve.
Poucos meses depois, chegaram mais 20 novos ultraleves. Ficamos todos
radiantes. Valeu a pena ter lançado a semente!
Os cadetes vibraram tão intensamente que, a partir de então, passaram a
dividir com o clube de voo a vela o local onde passavam grande parte do tempo
nos fins de semana.
Quanto vale o poder em mãos de pessoas com boa vontade e atitudes que
promovam avanços! Quanto bem e quanta transformação podem advir de mentes
progressistas. Embora possa parecer hoje uma coisa banal, a fundação de um
clube de ultraleve, naquela época, na AFA, trouxe grandes benefícios àqueles
jovens cadetes. Além do ganho pelo exercício social do pertencimento a um
clube, teve o ganho técnico pelo exercício de pilotagem da máquina e a quebra
da monotonia dos fins de semana de quem tinha de passá-los na caserna, sem

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um laser sequer. O Brigadeiro Délio e o Brigadeiro Menezes proporcionaram
renovada motivação para aquela juventude ávida por experiências.

Devo informar ou não? Devo!

Percebi que os instrutores de voo passavam por uma fase de desmotivação


com relação à instrução aérea. O ambiente era muito diferente daquele de grande
vibração que minha turma e eu vivenciáramos na AFA como instrutores de voo. Tal
fato me inquietou bastante, pois, se os instrutores se encontravam desmotivados,
de onde tirariam vibração para passar para seus alunos?
Pedi autorização a meu grande amigo Coronel Lamounier, ao qual era
subordinada a Subdivisão de Instrução de Voo, com seus dois Esquadrões de Instrução
Aérea dos cadetes, para efetuar uma pesquisa de opinião anônima com os oficiais
aviadores da Academia. Eu estava me metendo em assunto que não fazia parte de
minha alçada, porém, em interesse do bom proveito dos cadetes fui em frente.
Aplicada a pesquisa, fiquei muito preocupado com as informações colhidas.
O problema era maior do que eu pensara. Os comentários, feitos em tom de
desabafo, eram muito fortes e críticos. O descontentamento era grande e alguém
precisava levar o assunto ao comandante.
Elaborei um documento manuscrito e o entreguei ao Brigadeiro Pessoa,
sugerindo-lhe que o lesse em sua residência. Na introdução desse documento,
escrevi: “Dirijo-me a Vossa Excelência com o objetivo de assegurar o absoluto
sigilo das informações prestadas abaixo. Na qualidade de seu assessor direto
e tomando conhecimento da desmotivação de muitos instrutores de voo, achei
de meu dever levantar dados que lhe dessem ciência e pudessem ajudar esse
Comando a encontrar solução para o problema. Solicitei permissão ao Chefe
da DE e realizei uma pesquisa, cujos pontos principais estão listados abaixo,
complementados com 50 sugestões extraídas dessas mesmas fichas da pesquisa.”
Eu estava ciente de que meu gesto poderia ser interpretado como ousado.
Afinal, ninguém me incumbira de fazer pesquisa nenhuma, e o assunto não
era, repito, de minha alçada. Literalmente, eu estava me expondo, pondo meu
pescoço na guilhotina, pois o comandante poderia se zangar. A causa, no entanto,
era nobre, e minhas intenções eram as melhores. Tinha tudo a ver com o que eu
acreditava e pregava, de que nada se faz sozinho e de que temos que nos dar as
mãos, como manda a filosofia de um time comprometido com a vitória.
Na manhã seguinte, o Brigadeiro Pessoa chamou-me a seu gabinete, acendeu
a luz vermelha e, visivelmente aborrecido, perguntou-me aonde eu queria chegar
com aquilo.
– Você diz aqui...
Eu estava muito calmo. Disse-lhe que nada do que estava escrito ali era

159
opinião minha, todo o texto estava entre aspas e eu havia feito apenas um
sumário do que os oficiais tentavam – anonimamente – dizer a seu comandante.
Passado o momento inicial de contrariedade, o brigadeiro se convenceu de que
meu intuito era colaborar. Depois de conversarmos e debatermos vários pontos,
com comentários positivos e sugestão de ações a serem tomadas, ele chamou seu
assistente e determinou que fosse imediatamente interrompida a instrução aérea
nos dois esquadrões e que uma reunião com todos os instrutores de voo fosse
convocada.
Deu-se um fato inédito: as duas torres de controle chamando para pouso
todas as aeronaves em instrução. Pedi autorização ao brigadeiro para participar
da reunião e sugeri que seria muito importante que destacasse o quanto a atuação
dos instrutores de voo era fundamental para a missão da Academia.
A reunião foi excelente. Ele começou valorizando a função dos instrutores
e comentou alguns dos tópicos mais importantes da pesquisa – sem fazer alusão
a ela. Tomou algumas decisões que contribuiriam para aumentar a motivação dos
instrutores de voo, principalmente, dos capitães e tenentes, grupo que se mostrara
mais desmotivado.
Ufa!!! Suspirei aliviado. Fiz o que achava que deveria ser feito, apesar
do risco de ser destituído da função que desempenhava com tanto gosto. Levei
muitos anos com a dúvida se esse procedimento teria afetado minha ficha de
conceito. Tive de esperar até ser promovido a brigadeiro, quando, a partir de tal
posto, podemos tomar conhecimento de nossas fichas. Foi então que tive o prazer
de saber que meu conceito tinha sido excelente, ou seja, o grau mais alto daquela
época. O Brigadeiro Pessoa fora justo e imparcial.

A liderança que se transformou

No fim de meu primeiro ano de comando, reuni um grupo de cinco cadetes


para uma conversa particular em minha sala de reunião. Esse encontro se justi-
ficava pela conduta militar, digamos, inquietante daqueles citados cadetes que,
com certeza, seriam aprovados no fim do ano letivo para o quarto ano. Preocupa-
va-nos a influência que vinham exercendo, ao longo dos três anos de curso, sobre
os companheiros de turma e a que poderiam exercer, como veteranos, sobre os
mais modernos. O ponto era fazê-los mudar de atitude, mostrando-lhes o valor da
liderança para o bem.
Esse encontro formal deu-se apenas entre eles e eu, sem testemunhas.
Após os primeiros cumprimentos, convidei-os a tomar assento. Percebi que
estavam todos visivelmente inquietos, intrigados, estampando em seus semblan-
tes a expectativa do por que de estarem ali sem saber o que lhes iria acontecer.
Muito tranquilo, comecei:

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– Existe algum fator que seja comum a todos vocês? – Perguntei-lhes.
Meio constrangido, um do grupo respondeu.
– Creio que é a disciplina...
– Por quê? Vocês se sentem culpados e, por isso, apreensivos? – Fez-se
silêncio.
– Vocês não acham que o militarismo tem aspectos sem sentido, algumas
vezes, sem razão lógica? – perguntei-lhes.
Não houve resposta, apenas se entreolharam.
– Vamos pensar. Por que os cadetes têm de se levantar de imediato de suas
camas tão logo ouçam o toque da corneta? Por que, após esse toque, têm de per-
manecer de pé esperando vagar uma pia para sua higiene pessoal? Por que todos
têm de vestir roupas iguais? Por que têm de marchar até o rancho para tomar suas
refeições? Por que têm de marchar, batendo firmes os pés no asfalto escaldante?
Por que têm de fazer dezenas de continências ao longo do dia? Por que só podem
sair da Academia se autorizados? Por que as luzes dos alojamentos têm de ser
apagadas ao toque de silêncio...?
Silêncio. Após um leve balançar de cabeça, um deles afirmou:
– É, coronel, pelo que vemos, o senhor pensa como nós.
Então, complementei:
– Será que isso tudo tem uma explicação convincente, uma razão de ser?
Mais silêncio. Ninguém piscava. Podia se ouvir um mosquito que passasse
voando.
Sintetizando, fiz, então, uma série de colocações, tomando como base uma
boa formação militar, prosseguindo pelo exercício do oficialato, por suas eventu-
ais atuações como piloto de combate, no emprego de aeronaves, mostrando-lhes
situações em que seriam fundamentais a disciplina, o respeito à hierarquia militar
e o reflexo condicionado de seguir guias e líderes, tanto em voo quanto no solo.
Mostrei-lhes que, para um dia exercerem o mando, tinham primeiro de ter apren-
dido a obedecer. Destaquei a importância que teriam como cadetes do quarto ano
e a responsabilidade de conduzir os cadetes mais jovens.
Dei uma paradinha, quando fui interrompido por um deles:
– Comandante, o senhor me convenceu – ao que foi acompanhado pelos
demais com um balançar de cabeças em sinal positivo – retornarei das férias mais
imbuído desse sentimento para ser um bom veterano.
– Fico satisfeito. Entretanto, se você não der alteração, fardar-se bem e cum-
prir com suas obrigações, para mim, não terá mudado o mais importante.
Meio desestimulado, perguntou-me:
– O que devo fazer, então?
– Todos vocês aqui sabem que são líderes e que arrastam com vocês muitos
colegas de turma...

161
Ao que um deles exclamou:
– Não sabíamos que tínhamos essa força toda!
– Têm força, sim, porém, muitas vezes, essa força é usada de forma negati-
va; parem para pensar e vejam que vocês atuam como líderes negativos, critican-
do, ponderando, se rebelando... Vocês só terão mudado convincentemente se usa-
rem essa liderança para conduzir os companheiros para o bem, para a agregação...
Vieram as férias de fim de ano. E lá se foram não só aqueles jovens, como
todos os demais cadetes, para suas respectivas origens. Fiquei aguardando o re-
torno deles, com ênfase na torcida de que aquela nossa conversa trouxesse bons
resultados.
E deu!
Qual não foi minha satisfação ao verificar que incorporaram a responsa-
bilidade de bons veteranos e se transformaram em líderes confiáveis. Passamos
a contar com eles no trabalho de líderes do segundo ano e, ao longo de todo o
quarto ano, mantiveram um comportamento digno de merecida aprovação, sem
sofre quaisquer punições.
Relato esse fato como testemunho de uma das mais gratificantes experiên-
cias no comando do Corpo. E a gratificação maior foi presenciar a formatura de
todos eles quando foram declarados aspirantes a oficial.

O importante papel da educação

No começo destas memórias, referi-me à educação como o portal pelo qual


atravessei limitações que me conduziram a uma vida maior do que aquela que
minha família de origem alcançara. Ao exercer a função de comandante de mais
de 900 jovens, entendi que o que melhor poderiam fazer por eles era investir,
incentivar e acreditar em todas as vias que os conduzissem ao enriquecimento e
aprimoramento.
Ao me referir à educação, não me atenho tão somente a sua vertente inte-
lectual. Penso nela como um todo, como um conjunto de ferramentas que pos-
sibilitem ao ser humano atingir o status de cidadão. Cidadão como célula de um
corpo social, cidadão como veículo de estabilidade e também de transformação
da sociedade em que atua, cidadão que, quer no exercício da carreira militar,
quer na vida civil, acrescente, construa, faça a diferença por meio de suas ações
e comportamento.
Dessa forma, fiz da educação minha bússola, apontando seu norte para seto-
res em que pudesse melhor atuar, como o doutrinamento; o exercício da autorida-
de sem autoritarismo; o diálogo; a preservação da ordem pelo diálogo e entendi-
mento; e, acima de tudo, pelo respeito àqueles jovem que buscavam, numa escola
de formação da Aeronáutica, a realização de um ideal.

162
Confiei que, com lastro numa boa educação, sinônimo de formação ade-
quada, qualidades como liderança, criatividade, justiça e bom senso irromperiam
naturalmente do potencial daquela selecionada mocidade.
Nunca acreditei no mando autoritário, do tipo “obedeçam porque quero as-
sim e porque aqui sou eu que mando” como meio de alcançar o melhor do ser
humano. Via, sim, no autoritarismo gratuito, as sementes de comportamento re-
voltado, traição, desagregação, nunca de construção, união, espírito de corpo, tão
fundamentais para os que seguem a carreira militar.
Não nego com essas colocações o papel educativo da punição; desde que
aplicada após a falência de outros meios educativos. E sempre defendi critérios
como justiça, bom senso e proporcionalidade para sua aplicação.
É fato que educar sempre foi mais difícil que punir; pela demanda de tempo,
inteligência, acompanhamento e confiança nos resultados. Em minhas reflexões,
tendo como base o comportamento daqueles jovens cadetes e o que a Força Aérea
esperava deles, sempre optei pelo diálogo, esclarecimento e conscientização. Foi
a forma que elegi para reforçar comportamentos, estabelecer mudanças pertinen-
tes e formar bons colaboradores.
Por várias vezes observei que atos de desobediência e rebeldia aconteciam
única e simplesmente motivados pelo pouco entendimento de certos porquês e
pela falta de rumo. O relato anterior vem a exemplificar o que agora afirmo.
Pensando dessa forma é que, não só na Academia, mas, por onde passei,
sempre optei pelo diálogo franco, pois a verdade e a franqueza – com educação
– nunca me assustaram.
Com certeza, me enganei algumas vezes, apostando em qualidades latentes
em que pouca chance havia de que vingassem, no entanto, a margem de acerto
mostrou-me que valeu a pena agir como agi. Enfrentei momentos difíceis. Tomar
decisões nem sempre foi fácil. Houve situações em que me senti no fio da nava-
lha, torcendo para não cometer injustiça, para que tudo desse certo, para não estar
enganado em minhas escolhas, para não prejudicar ao invés de melhorar.
Contar marra, tendo como respaldo o poder, sempre foi, para mim, coisa
menor. Nunca foi minha linha de ação. E quer acertando, quer me enganando, não
me arrependo da maioria das escolhas que fiz.

NAVAMAER

É a competição esportiva mais importante entre cadetes das três escolas de


formação de oficiais de carreira das Forças Armadas do Brasil: Escola Naval,
Academia Militar das Agulhas Negras e Academia da Força Aérea. Cada ano,
o evento era sediado numa das escolas/academias. Vivenciei de perto a XVIII
NAVAMAER, realizada em nossa Academia. Nesse ano, como comandante

163
do Corpo de Cadetes, acompanhei os longos treinamentos individuais e em
equipes. A Academia transformou-se num só corpo – valendo aí o trocadilho:
vibrávamos todos, torcíamos, sofríamos e comemorávamos juntos, intensamente.
Respirávamos e sonhávamos NAVAMAER. E quando digo Academia, incluo
nossas famílias.
A desvantagem dos cadetes da Aeronáutica e da Marinha em relação aos
cadetes do Exército era grande, pois eles eram bem mais numerosos, quase o
dobro de nosso efetivo. Por isso, dávamos o maior valor a qualquer destaque que
nossos cadetes alcançassem. Com relação à Escola Naval, havia mais equilíbrio
entre eles e nós, dado o efetivo ser praticamente igual.
Para aumentar a valorização de qualquer sucesso, nossos cadetes aviadores
conviviam com a constante ameaça de desligamento por causa do voo,
preocupação que os jovens do Exército ou da Marinha não tinham naquela época.
Eles obrigatoriamente tinham de se desdobrar, superando limites no desempenho
do voo, nas obrigações acadêmicas e nos treinamentos intensivos requeridos pelo
esporte. Mesmo os cadetes do primeiro ano, aqueles que ainda não recebiam
instrução aérea, não se sentiam isentos da ameaça do fantasma do desligamento,
mesmo que bem mais adiante. Assim, preparar-se para a competição com a
dedicação necessária, nem pensar! Impossível!
Normalmente, o Exército ganhava a maioria das competições e,
consequentemente, o título de campeão da NAVAMAER. Aeronáutica e Marinha
não se conformavam, e a rivalidade era enorme. As duas Forças menores se uniam
na torcida contra o ‘cadetal’ do Exército, mas, a superioridade deles fazia com que
amargássemos desagradáveis derrotas. Aeronáutica e Marinha faziam cálculos
mirabolantes, agarrando-se a esperanças infundadas de vitória no cômputo geral,
apesar de cientes de empates e derrotas. Era incrível.
Sentíamos enorme orgulho de nossos jovens atletas e os apoiávamos em
tudo que estivesse a nosso alcance, pois tenacidade, persistência, disciplina e
dedicação eram qualidades que tinham de sobra. Quando venciam em alguma
modalidade, a festa era grande e o sabor da vitória, maior.
Meu filho Jeferson lembra ainda hoje que foi mascote da Turma Falcão, do
Maj. Sobrinho, em 1984. Tinha então 11 anos. Como ele, as outras crianças e
adolescentes da vila se misturavam à torcida dos cadetes, e o complicado era tirá-
los da cama no dia seguinte para irem cedo à escola.
Em uma dessas competições, perdi a cabeça e dei umas pisadas num
periquito ou papagaio que os ‘meninos, os cadetes’ fabricaram com camisetas,
para representar o time verde, dos jovens atletas do Exército. Hoje acho graça
do fato e penso como o clima de competição nos tira do prumo. Imaginem só:
o comandante “atacando” um mascote de pano? O que aconteceu foi que, na
ocasião, “meus jovens” estavam apanhando! E aquilo era demais para quem os

164
viu treinar, se dedicar, se esforçar e tudo fazer para se superarem. Mas reconheço
que não devia ter-me deixado levar pela paixão.
Lembro-me de que, numa competição de polo aquático, o Brigadeiro Pessoa,
sentado no espaço reservado às autoridades, ‘plotara’ o tal objeto a que me referi
“voando” sobre as arquibancadas do estádio, no meio da torcida. Um alvoroço. O
danado do periquito – ou papagaio – já não lembro ao certo – passava de mão em
mão numa velocidade incrível, levando sopapos de todos e sendo jogado de um
lado ao outro de nossa torcida.
Fiquei preocupado que uma possível desaprovação por parte dele viesse
a pôr água na fervura daquela diversão. O comandante era bem rígido em se
tratando de comportamento e poderia achar que a moçada estivesse se exaltando.
Chamei o Major Garó e disse-lhe: “Suma com aquele boneco que está causando
tanto alvoroço na torcida. O comandante está acompanhando a movimentação e,
antes que a brincadeira redunde em repreensão, sequestre-o.”
Uma pena! Cometi enorme erro de avaliação.
No dia seguinte, o brigadeiro comentou, pela manhã, com alguns oficiais,
num misto de satisfação pela travessura e de admiração pela ideia:
– Como os cadetes são criativos! Que ideia genial, vejam só! Fizeram
aquele boneco, ou passarinho... E ria se lembrando dos volteios do “bicho”
pelas arquibancadas.
É... Lamentei ter interrompido o divertimento. Mas o que acontecia é que
ocorrências fora do script, via de regra, desagradavam-no bastante, e o ambiente
ficava com tanta “energia estática” que, por qualquer pisada em falso, alguém
poderia ser repreendido. Preferi prevenir.

O vibrante e inesquecível momento

A carga de emoção em solenidades militares, como as de encerramento de


competições da NAVAMAER, era, em geral, muito intensa. Nessas oportunidades,
sentimentos represados, como a tristeza pelas derrotas ou o pesar diante da
impotência de sobrepujar o adversário, muitas vezes por pouco, por falta apenas
de um empurrãozinho de sorte, afloravam e transbordavam. Em contraponto, as
alegrias pelas conquistas, pelas suadas vitórias, também marcavam sua presença,
juntando-se ao cadinho de sentimentos.
Lembranças de superação, de dedicação aos treinamentos em detrimento do
sono, do descanso, do fim de semana em casa, do encontro com a namorada, do
abandono temporário dos estudos acadêmicos ou da chance de uma nota melhor
passavam como num filme em que fosse acionado o botão de “avançar”. Por isso,
nessas ocasiões, risos e lágrimas se misturavam, lavando a alma, preparando-a
para a NAVAMAER do ano seguinte.

165
Fui designado coordenador do Cerimonial de Abertura e Encerramento
da NAVAMAER de 1983 e, com base nos elogios recebidos das delegações
visitantes, de oficiais de variadas funções e de muitos atletas, ficamos felizes, nós
da equipe, por considerar que a grande competição esportiva entre os cadetes das
três armas tivesse alcançado o sucesso esperado.
A solenidade de encerramento, realizada no campo de futebol da Academia,
contou, como coroamento, com as emocionantes acrobacias da Esquadrilha da
Fumaça que, como diz a moçada de hoje, quando ela surge nos céus “não tem pra
ninguém”. É nosso maior orgulho.
Depois das premiações, dos discursos e dos agradecimentos, houve o desfile
individual das escolas, seguido de outro desfile formado por um bloco único
de todos os atletas que, ao chegarem ao fim do campo e se confraternizarem,
definiam o encerramento do evento.
Inesperadamente, após o desfile final, um grupo de atletas da AFA se
destacou e se encaminhou em direção à arquibancada, na qual se encontravam
autoridades, convidados e familiares. A princípio, ficamos intrigados com aquela
movimentação para, em seguida, “não entendermos mais nada”.
Um dos atletas acercou-se de mim e convidou-me para ir até o grupo que se
aproximara. E eis que me levantaram no ar, me conduziram até os demais atletas
e, assim, juntos, demos uma volta olímpica no campo.
Tudo aconteceu muito rápido, de forma tão inesperada e tão ‘sem tocar
preparar’ que fiquei sem ação, perdido em profundos sentimentos. Só me lembro
de ter-me virado para trás e gritado: “Vamos cantar o Hino dos Aviadores!”
Aquela volta olímpica, com um tenente-coronel fardado erguido nos ares,
seguro por um grupo de cadetes, seguido por mais de 150 atletas, foi, sem dúvida,
um dos momentos mais expressivos de minha vida na Academia, na FAB e em
minha vida. De tão significativo e, por tê-lo guardado com tanto carinho, é que
aqui o relato como prova das lembranças do acervo da Força Aérea de que jamais
vou me esquecer.

Escolha para paraninfo

Em 28 de junho de 1984, o Brigadeiro Pessoa foi sucedido no comando da


Academia pelo Brigadeiro Pinheiro.
Daí a alguns meses, haveria a formatura de mais uma turma. Os futuros
aspirantes, como de praxe, se reuniram e, entre eles, sem que nenhum superior
participasse, escolheram o paraninfo da turma. Habitualmente, essa escolha
recaía em alguma autoridade que, na ótica dos formandos, tivesse com eles um
bom vínculo emocional e contribuído para sua formação profissional ou que, pelo
perfil, fosse algum referencial a ser seguido por eles próprios, quando oficiais.

166
Estava eu no gabinete do Comando do Corpo, no último trimestre de
1984, quando o Major Gama me informou que integrantes da Turma Mosquito,
comandados pelo Major Garó e que em breve seriam declarados aspirantes a
oficial, tinham se reunido e haviam escolhido meu nome para ser o paraninfo
de sua turma. Fiquei muito surpreso! Uma inédita e agradável surpresa, diga-se,
mas que, de imediato, me chamou à responsabilidade quanto à repercussão que a
escolha de um tenente-coronel para paraninfo poderia acarretar.
Passado o primeiro momento, respondi-lhe com sincera preocupação:
– Não, não posso, ou melhor, apesar da imensa honra que tal homenagem
representa, não devo aceitar ser paraninfo. Pois tal fato poderá trazer
constrangimentos. Gama, peço-lhe que agradeça aos cadetes por mim e lhes
transmita que fiquei profundamente feliz com a escolha, mas que não ficaria bem
aceitar. Reitere que, normalmente, a escolha recai sobre algum oficial-general.
Sobre alguém bem mais graduado. Alguém com maior representação na Força.
Gama assim o fez. Explicou-lhes as possíveis implicações e a sensibilidade
que a situação poderia lhes trazer. Eles eram soberanos na escolha e ninguém
poderia interferir na decisão que tomassem. Em seguida, a turma se reuniu para a
decisão final e definiram que:
– Ou o Tenente Coronel Walacir será nosso paraninfo ou não teremos
nenhum!
Aceitei o convite e nunca encontrei palavras para descrever a alegria e a
honra que me propiciou.
Na inauguração da placa de bronze com o nome dos componentes dessa
turma, em que constava meu nome como paraninfo, a emoção, de tão intensa,
fixou-se em meu coração no álbum de minhas mais queridas recordações.
E aqui cabe uma rápida justificativa ou explicação. Uma coisa é a vaidade
humana, com seus truques sorrateiros que encobrem com falsa humildade um
júbilo. Outra é a felicidade de, no fim de um trabalho de dedicação e paixão,
sentir-se festejado com a compreensão dos propósitos desse trabalho. E a mais
importante de todas e a maior recompensa: ter sido agraciado com o maior dos
presentes, elos de amizade. Elos que me acompanham e que aquecem um emotivo
coração.
Obrigado, Turma Mosquito – aspirantes de 1984!

O pulsar do coração dos cadetes

Muitos anos depois de me despedir dos cadetes, fiz uma pesquisa anônima
com oficiais superiores do Curso de Estado-Maior da ECEMAR, a quem proferiria
uma palestra sobre o tema Chefia e Liderança. Colhi nas palavras anônimas de
um major a seguinte mensagem:

167
“O nome de V. Exa. ficou marcado para sempre nos corações e nas mentes
de várias gerações que passaram por nossa gloriosa Academia da Força Aérea.
Brigadeiro, continue seguindo para águas mais profundas e conte sempre com os
sinceros amigos da Turma Falcão!”

Obrigado, amigos. Muito obrigado.

Assim, concluí meu trabalho como comandante do Corpo de Cadetes pelo


período de dois anos. Chegou a hora de mais uma mudança. Dessa vez, para o Rio
de Janeiro, para fazer mais um curso de carreira, dessa vez na Escola de Comando
e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).

168
Capítulo 13

Curso Superior de Comando e


Estado-Maior
Decepcionante ano acadêmico

C onfesso que o Curso Superior de Comando e de Estado-Maior, realizado


em 1985, não me trouxe a satisfação e o retorno que esperava.
Sempre afirmei que meus sucessos acadêmicos se deram muito mais em
razão de dedicação, esforço e disciplina do que por uma inteligência especialmente
privilegiada. Como aspirava pela primeira colocação, dei meu melhor, uma vez
mais, no sentido de alcançar tal objetivo. Reativamos o mesmo grupo de estudos
da EAOAR – Luis Carlos, Cambeses, Macedo, Nava e eu – e não tinha sábado
ou domingo que não estivéssemos estudando no auditório do 3º Esquadrão de
Transporte Aéreo (ETA), na Base Aérea do Galeão.
Vieram as primeiras provas e com elas a indignação entre os alunos,
decorrente de questões novas, em nosso julgamento mal formuladas. A nosso ver,
aquelas questões davam margem a erros. O fato foi tão marcante que chegou ao
conhecimento do ministro da Aeronáutica, o Tenente Brigadeiro Délio.
Na correção de determinada prova, quatro de minhas respostas foram
julgadas erradas, ficando minha nota em 8,4. Eu sabia que, com aquela nota,
jamais conseguiria disputar o primeiro lugar do curso e estaria, com certeza, fora
do páreo. Sem me conformar, pedi revisão das quatro questões. Todas elas eram
descritivas. Argumentei com todos os dados de que dispunha, na certeza de que a
avaliação seria reconsiderada.
Jamais imaginaria receber um zero redondo em todas elas! Pois foi o que
aconteceu. Fui infeliz em fazer um comentário em voz alta, afirmando que iria
até o papa a fim de recuperar aqueles pontos que eu julgava serem meus; meu
comentário foi levado até o chefe da avaliação, o Coronel Oliveira, de forma
distorcida. O tom do comentário chegou a seus ouvidos como se o tivesse proferido
de forma afrontosa, indisciplinada. Disseram-lhe que eu ameaçara levar o assunto
ao comandante da ECEMAR se a revisão não redundasse no que eu queria. Ao
ouvir isso, o chefe da avaliação sentiu-se desafiado e falou (com razão):
– Ah é?! Mantenha o zero nas quatro questões.
Naquele momento, senti que estaria definitivamente alijado da disputa pela
primeira colocação.
Fiquei muito aborrecido, desmotivado e intrigado com resultado tão
intransigente. No calor do descontentamento, senti-me injustiçado e, pior,

169
arrependido de ter me dedicado tanto, estudado tanto, privado a família de minha
presença à noite e nos fins de semana, só estudando, estudando.
Lembro-me muito bem de uma noite em que interrompi o estudo e “joguei
tudo para o alto” ao perceber um papelzinho colocado por baixo da porta do
cômodo onde estava estudando. O tal papelzinho era um bilhete afetuoso de
minha filha Laíse, na época com 8 anos , no qual estava escrito: “Pai, sei que você
precisa estudar muito, mas só queria lhe desejar boa-noite e dar um beijo antes de
dormir.” Aquilo me partiu o coração. Senti-me péssimo. Culpei-me terrivelmente
por essa minha obsessão por estudo, classificação, compromisso arraigado de
sempre dar meu melhor, dessa cobrança de não fraquejar, como se ainda fosse
aquele jovem que sabia ter de batalhar sério se quisesse realizar o sonho de ir para
a Academia e se tornar piloto militar.
Mas a verdade tem força! Alguns meses depois – do nada – tomei
conhecimento do que julguei uma traição, qual seja, a forma como o assunto
tinha sido exposto ao chefe da Subdivisão de Avaliação. Mas aí, meu amigo:
“Inês já era morta...”
No dia em que saiu a classificação, fui até o primeiro colocado, Tenente
Coronel Paião, que cumprimentei, dizendo: “Parabéns! Valorizo muito o seu
primeiro lugar; saiba que estudei bastante.”
Minha média final foi 9,56 – a maior entre os integrantes de minha turma
que realizavam o curso comigo – mas, no cômputo geral, quarto lugar entre
os 110 alunos. Encerrava-se ali o desejo de obter o quarto primeiro lugar em
cursos de carreira.
Por que conto isso? Porque, da mesma forma que contei com sinceridade,
sem o intuito de me mostrar o tal ou de me pavonear com as alegrias e
homenagens que recebi em alguns momentos da carreira, conto também essa
decepção. Conto porque o fato me marcou e me doeu muito. Senti-me traído
por uma tremenda má-fé, por pura irresponsabilidade e pela maldade humana.
Ainda se houvesse animosidade no ar, até daria para entender. Mas nada havia. A
distorção foi mesmo só para barrar meu anseio e por uma atitude inconsequente
de um companheiro de Força.
E se nem Jesus Cristo escapou de traição, por que eu, Walacir, guardadas
as siderais distâncias, não passaria por uma punhalada também? Porém, afinal,
qual o problema de eu querer ser o número um mais uma vez, se fazia minha
parte para alcançar tal objetivo, estudando e cumprindo com minhas obrigações,
competindo limpo?
Tomei o acontecido como lição, procurando ser mais vigilante daí em
diante. Relembrei, com muita satisfação, do quanto batalhara pelos cadetes que
iam a Conselho de Voo, na Academia, sempre muito atento para que decisões
precipitadas não fossem tomadas ou injustiças não fossem cometidas por se

170
basearem em informações não confirmadas. Sempre fui cioso na prática da justiça
e da verdade, talvez por isso esse fato tenha me aborrecido tanto e – olhem só! –,
passados tantos anos, eu ainda o remoo. Com certeza, permanece no “escaninho
dos aborrecimentos”.
Independentemente da frustração, permaneci firme fazendo o que sempre
fiz: continuei estudando, não relaxei. Mantive o ajuste. Apesar de desgostoso,
segui em frente. A página foi virada, mas a marca ficou.
Lá bem mais adiante retomo esse momento a fim de justificar outro. Sigamos.

A honra de um convite operacional

Durante a realização do curso da ECEMAR, recebi um telefonema do


Coronel Paulo Pinto, então subcomandante do Centro de Aplicações Táticas e
Recompletamento de Equipagens (CATRE), que me convidava para comandar o
5º Grupo de Aviação, sediado naquela organização militar (OM), em Natal.
Ponderei que aceitar o convite seria uma honra e uma realização profissional,
entretanto, eu concluíra o comando do Corpo de Cadetes há poucos meses e
julgava que a oportunidade de um novo comando poderia ser transferida a outro
companheiro de turma.
Ele usou a mesma frase do Brig. Pessoa, naquele ano de 1982, quando me
ligou em Belo Horizonte.
– Esse problema é meu, só quero saber se você aceita.
Aceitei!

171
Capítulo 14

Comando do 5º Grupo de Aviação


Desafios do comando de unidade aérea

O 5º Grupo de Aviação, sediado na Base Aérea de Natal (BANT),


abrigava dois esquadrões de instrução: um de transporte – o 1º/5º
GAV – e um de caça – o 2°/5º GAV.
Posto que a história dá suas voltas, lá estaria eu no comando de uma unidade
aérea – o 5° GAV – sob a qual se subordinava um esquadrão de caça, para o qual eu
fora preterido como aspirante e cujo assunto já me alonguei demais nestas memórias.
A BANT, por sua posição estratégica, fora de capital importância no papel
desempenhado pelo Brasil na Segunda Guerra Mundial. Em consideração à tal
relevância, citarei aqui alguns dados de sua história.
Fora criada no governo do Presidente Getúlio Vargas, em 2 de março de
1942, e ativada em 7 de agosto do mesmo ano, pelo Decreto-lei 4.142. Era
ministro da Aeronáutica, na época, o Senador Salgado Filho, primeiro ministro
do jovem ministério criado em 20 de janeiro de 1941.
A BANT abrigara, inicialmente, várias “unidades de caça, bombardeio e
patrulha, dentre elas, o 2º Grupo de Caça, com os Curtiss P-40. O setor oeste da
base pertencia à FAB, enquanto o setor leste era ocupado pelos norte-americanos”.
Os americanos não só realizavam missões de patrulha no Atlântico Sul,
a partir da recém-criada base, como faziam desse local “ponto de passagem
obrigatório das aeronaves aliadas que se destinavam ao Teatro de Operações da
África e Europa”. Por esse motivo, o setor leste, o dos americanos, recebera o
nome de Trampolim da Vitória, nome que se estendeu à cidade de Parnamirim,
onde, na realidade, precisamente, se situavam os dois setores. Após o término do
conflito, o Trampolim da Vitória passou a pertencer à FAB.
Meu sogro Dionísio, que fora soldado e atuara como mecânico naquela base
aérea na época dos americanos, conta que aeronaves de bombardeio e de patrulha
decolavam sem parar, diuturnamente, por vezes com mais de 400 decolagens e
pousos de aeronaves num só período de 24 horas.
O Professor e Filósofo Francisco Martins de Souza, vice-presidente da
Academia Brasileira de Filosofia, conta que o maior movimento de aeronaves na
Base de Natal – onde ele foi soldado na mesma época que meu sogro – ocorreu
antes de junho de 1944, com a operação que mudou os rumos da guerra, o Dia D.
Segundo ele, as aeronaves americanas pousavam em Natal e dali, aproveitando a
menor distância até Dacar, no Senegal, África, alcançavam o teatro de operações
da guerra via Mar Mediterrâneo, chegando à Itália e, a partir daí, Alemanha.

172
Os americanos se utilizavam do chamado estreito do Atlântico, posto que a
guerra também se desenrolou no Atlântico Sul, e a base em Natal era fundamental
como apoio para as operações estratégicas.
O 5° GAV foi criado em 24 de março de 1947, com aeronaves doadas pelos
norte-americanos, dois anos após a Segunda Guerra Mundial e, desde então, ficou
sediado naquela base.
O Coronel Paulo Pinto, caçador apaixonado pela história da BANT, efetuou
grande pesquisa a respeito de sua implementação e missão. Tempos depois, o
Coronel Camazano fizera o mesmo com o 5° GAV – sua pesquisa resultou na
História do 5º Grupo de Aviação, de1947 a 2006.
Por ocasião de minha transferência para Natal, a base aérea se encontrava
desativada desde 15 de setembro de 1968 e em seu lugar funcionava o Comando Aéreo
de Treinamento (CATRE). Como complementação histórica, a BANT voltou a ser
ativada em 12 de março de 1989 de modo transitório, posto que, em 27 de dezembro
de 1990, fora novamente desativada, sendo, dessa vez, substituída pela mesma sigla
CATRE, mas com outro significado: Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento
de Equipagens. Em 1° de janeiro de 2002, o CATRE é desativado, voltando a ser
denominada Base Aérea de Natal (BANT) que assim se mantém até nossos dias.
Mas agora voltemos à minha chegada àquela unidade. Há algum tempo,
Natal amargava o fardo de alto número de acidentes aéreos fatais. Para bem
dizer, não só aéreos, mas também terrestres. Aeronaves, carros e motos pareciam
competir sinistramente no número de vítimas.
Uma de minhas preocupações, talvez a maior, ao assumir o comando do 5°
GAV, no dia 20 de janeiro de 1986, era sobre o que fazer para reverter tal quadro.
Depois de algumas reflexões, uma ideia me ocorreu. Aplicaria um chamamento,
do tipo tratamento de choque, logo na primeira reunião com os aspirantes, já que
pertencia a esse grupo o maior número de vítimas.
Em minha mensagem inicial, falei aos cerca de 120 oficiais aviadores –
instrutores e aspirantes – reunidos no auditório no Grupo de Instrução Técnica
Especializada (GITE):
– Meu mais intenso desejo para os próximos dois anos em que vamos
trabalhar juntos (período do comando) é não passar pela tristeza de ir ao enterro
de nenhum de vocês, seja por acidente terrestre ou aéreo.
Silêncio...
Prossegui na mensagem, abordando outros assuntos, mas senti que o começo
foi um choque. Ninguém esperava uma bomba daquelas, assim do nada, de saída,
em nosso primeiro contato.
A afirmação dramática talvez os tenha feito pensar, pois ou por pura sorte,
mais cuidado, muita reza ou mesmo milagre, em dois anos de intensa atividade de
instrução, não perdemos ninguém por acidente, tampouco em acidente terrestre.

173
O problema de acidente em Natal era mesmo muito sério. E, pensando bem,
dava para entender, mas não para justificar a conjunção de fatores que levava a
isso. Juventude, liberdade e ousadia, em minha opinião, estavam em primeiro
plano. Os jovens aspirantes se encontravam naquela fase da vida em que não se
pensa em vulnerabilidade, muito menos em finitude. O que menos lhes ocupava
a mente era a possibilidade de um acidente fatal. Com isso, grandes chances para
o azar eram oferecidas. Foi assim conosco, aspirantes 66, assim foi nas gerações
anteriores, nas subsequentes e continuaria sendo, não tivesse entrado o fator
“conscientização” para quebrar o círculo vicioso. Eis o porquê de meu trágico
chamamento naquele nosso primeiro contato.
As duas turmas de aspirantes a oficial que tive a satisfação de comandar
em Natal pertenciam àquelas turmas sob meu comando no Corpo de Cadetes há
apenas um e dois anos, em Pirassununga. Éramos bem conhecidos, e elos fortes
de confiança, respeito e amizade nos uniam.
Lamentavelmente, a satisfação não pôde ser completa como gostaríamos. A
situação era outra e, no começo, não nos déramos conta disso. Após um “toque”
dado por um oficial, entendi que precisava recuar um pouco em meu contato com
eles. Foi muito difícil fazê-lo, e sei que muitos não entenderam o porquê daquela
atitude, na época – nem eu podia lhes explicar – mas, consciente das razões, não
tive com agir de outra maneira.
O afastamento que me fora sugerido baseava-se no fato de que minha
proximidade com aqueles jovens aspirantes dificultava o exercício da liderança
de seus comandantes imediatos, os comandantes dos esquadrões e seus auxiliares.
Compreendi e acatei a sugestão. Jamais atrapalharia a execução dos trabalhos.
Meu interesse era de que todas as funções fossem bem desempenhadas, atingindo-
se metas e objetivos.
Mas os alicerces de amizade, confiança e respeito plantados lá atrás
permaneceram. Sempre que algum deles ia a conselho, aquela conversa olho no
olho tão necessária para o entendimento dos motivos do não rendimento em voo
se externava.
Para encerrar, contarei um fato ocorrido num Conselho Operacional do Curso
de Caça de certo aspirante. Esse jovem fora mal em voo e recebera a avaliação
“deficiente” de seu instrutor. No relato exposto durante o conselho constava que
o aspirante de tão aborrecido que ficara com a avaliação “deficiente” dera um
soco na parede, na sala do debriefing, onde tomara ciência do grau deficiente, e,
de tão forte que fora o impacto, fraturara a mão. Não ficara claro se o ato fora
na presença do instrutor ou não. De qualquer modo, o fato determinante era que
um jovem com comportamento tão descontrolado e temperamental estaria muito
aquém das qualidades requeridas para um caçador. Era um desequilibrado: diante
de uma situação adversa, se rebelara. Nada mais justo que fosse a conselho para,

174
em seguida, ser desligado. Ok? Ok. Nesse momento, me veio à mente o perfil
daquele ex-cadete e lancei a pergunta: “Alguém presenciou o soco na parede?”
Ninguém no conselho sabia ao certo se alguém presenciara o ato. “Sabia-se” que
tal fato ocorrera, e que, no corre-corre do dia a dia, tomou-se tal versão como
verdadeira e só. Foi quando apresentei a versão dos fatos, colhida e baseada no
lastro de confiança que deve existir entre comandante e comandado e na checagem
de informação em busca da verdade. O que ocorrera foi que o aspirante passava
por séria crise pessoal familiar e, ao chegar em sua residência, em Natal – vejam
bem: não foi na sala do debriefing, foi em Natal, a cerca de 20 km da base –,
preocupado e chateado pelo insucesso no voo, batera e travara a porta do carro
com a chave dentro. Num impulso, dera um soco na parede da garage, ato que
acarretara a fratura da mão.
Com que distorção esse fato chegara ao conselho! “Alguém”,
irresponsavelmente, levianamente, maldosamente, lançara a história de forma
distorcida pelas “aerovias”, e o estrago estava quase a se consumar.
Escaldado com o que me acontecera na ECEMAR, sabendo que a decisão
do conselho seria muito importante para a vida profissional do aspirante e, como
afirmei, conhecendo-o da AFA, procurei esclarecer a versão “da mão fraturada”.
Creio que o fiz mais por intuição do que pela razão, posto que, pelos muitos
afazeres da função que exercia, seria impossível averiguar caso por caso dos
aspirantes que iam a conselho. Além do mais, nem haveria razão para isso,
pois os conselhos eram procedimentos muito sérios e seus participantes, muito
conscientes de suas responsabilidades e das consequências de suas decisões.
O fato que acabo de contar, à primeira vista, aparentava mesmo uma situação
de inadequação para o voo de caça e uma grave indisciplina.
Mas, nesse caso, a sorte esteve a favor daquele jovem, pelo menos naquele
momento. Lembram que contei bem lá atrás da sorte de ter me encontrado com
aquele médico que participou de minha Junta de Saúde na Base Aérea de Canoas,
quando então sargento aprovado para o curso na Academia fora desligado no
exame médico do Rio e que fora ele minha salvação? Pois bem, muitas vezes
a sorte faz das suas, salvando alguém de apuros. Agora ela vinha em socorro
daquele aspirante.
Diante do esclarecimento do fato, não houve desligamento. Apesar das
dificuldades de voo, o que pesava muito na decisão daquele caso era a história
da fratura da mão. Não me recordo precisamente o que ocorreu após minha saída
do comando, mas sei que, naquele momento de decisão de vida, valeram-me a
verdade e o compromisso com a justiça. E a intuição!
O rumo daquele citado conselho talvez tivesse sido outro não tivesse em
meu arquivo as lições que aprendera com a distorção do comentário que me
prejudicara na ECEMAR. Como disse: prometi a mim mesmo ficar mais atento

175
às informações que me chegavam aos ouvidos. Com absoluta certeza, devo ter
deixado de passar o “antivírus” em uma grande quantidade delas, porém em
muitas outras, não. Lamento pelas que deixei passar...

Enfim... pilotando um avião de caça

Entre as muitas situações vividas no CATRE, destaco o voo solo de AT-26


Xavante e a participação na instrução com tiro aéreo, tendo como instrutor o
Major Lobo – Comandante do 2º/5º GAv. Revivi a imagem daquele piloto com
capacete, num voo picado, aquele do panfleto, lembram? O que me “chamara”
para a Aeronáutica. A oportunidade por tantas vezes sonhada, enfim, chegara.
Chegara e a vivi com o entusiasmo e a emoção de quem realiza um sonho juvenil
aos 45 anos.
Esse voo completaria uma lacuna, aquela da Caça. Ele trazia em si boa carga
de simbolismo que, com a maturidade que alcançara, me permitia compreender
que um longo ciclo se encerrava. Fui para o briefing me transportando há 28 anos,
mas com a serenidade que a experiência me proporcionara como legado aos 45.
Com aquele voo se estabelecia de vez o “estado de graça” entre minhas
aspirações de juventude e tudo o que se passou até que eu ali chegasse, como
comandante de uma das importantes unidades aéreas da FAB. Eu já pertencia
a uma etapa de compromisso com um grupo maior; a fase em que só voar, voar
e voar passara. Passara o tempo de instrutor, expandira-se a noção de serviço à
causa da Força Aérea.
E, mais uma vez, refleti sobre o poder do tempo em nossas vidas. Percebi
que serenara o ardor do arrojo, e a intrepidez cedera espaço a um maior equilíbrio
quanto às aspirações.
Em Natal, tive a satisfação de testemunhar a implantação das aeronaves
Tucano, em substituição aos Bandeirantes, feita pelo Major Luiz Fernandes –
comandante do 1º/5º GAV-. Tal substituição trouxe aos aspirantes aviadores a
oportunidade de se tornarem, todos, pilotos de combate.
Após dois anos, tempo estabelecido para a duração do comando, passei
o cargo para o Tenente Coronel Vergara. Fui classificado no Comando Geral
do Ar, em Brasília.
Deixamos o CATRE numa ensolarada manhã de domingo, a bordo de um
Bandeirante, recebendo, com o coração apertado, a homenagem da escolta de
dois Xavantes. O balançar de suas asas nos saudava, desejando-nos boa sorte
em nosso novo destino.

176
Capítulo 15

Curso de Estratégia na Argentina


C hegamos à tarde, naquele domingo, em Brasília, e nos instalamos
provisoriamente no Cassino de Oficiais. Na manhã seguinte, se-
gunda-feira, partimos em busca de colégio para as crianças e outras providências
referentes a nossa instalação no bloco F da Superquadra Sul 110.
Nossa mudança chegou de Natal na quarta-feira e, como acontece com todo
mundo, pusemo-nos a trabalhar para que, em pouco tempo, estivéssemos outra
vez em nosso lar. Afinal, as aulas do Colégio Militar, onde o Jeferson iria estu-
dar, começariam em breve, e as aulas da Laíse, no Colégio Marista, já haviam
começado.
Foi então que, em meio à bagunça que reinava no apartamento, recebi um
telefonema do William, meu colega de turma, para avisar que o Comandante
Geral do Ar, Tenente Brigadeiro Rosa Filho, o mesmo que me dera aquela “sacu-
dida” em Natal quando eu era aspirante, queria falar comigo.
Abandonando martelo, chave de fenda e parafusos, fui me apresentar ao
brigadeiro no dia seguinte.
– Você é um traidor!! Não disse que queria servir aqui? – Disse-me ele com
aquele seu jeito brincalhão de falar.
– Queria, fui classificado e me apresento no COMGAR na próxima semana,
brigadeiro.
Ele me interrompeu dizendo:
– Tudo foi mudado, quem sabe de sua vida é o Brigadeiro Murilo. Apresen-
te-se a ele no Gabinete do Ministro e boa sorte.
Ao receber-me no Gabinete do Ministro da Aeronáutica (GABAER), o
Major Brigadeiro Murilo me disse que, há algum tempo, guardava meu nome
“na prateleira” para alguma missão especial que surgisse. Disse-me que o
Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA) recebera uma vaga para o Curso de
Estratégia da Escola Superior de Guerra da Argentina, atribuindo-a ao Ministério
da Aeronáutica. Ninguém conhecia o curso, porque era a primeira vez que abriam
vaga para estrangeiro. E acrescentou que eu fora o escolhido. Que não era convite,
era missão a cumprir, que tinha que estudar muito e que eu estava atrasado, pois
o curso começaria dali a duas semanas.
Telefonei para minha casa para cancelar a ida da Laíse à escola e, em meia
hora, dei-lhes pessoalmente a notícia.
– Vocês querem morar um ano na Argentina?
Laíse, com apenas 11 anos, exclamou:
– Não preciso ir à aula hoje?!!!!!

177
Ao responder-lhe que não, jogou os cadernos para o alto e gritou de
satisfação: “Ooooba!.”
A partir dali, foi uma corrida só. Não tínhamos ideia de que uma ida ao
exterior demandasse tantas providências. E para que a emoção da corrida contra
o tempo fosse ainda maior, tínhamos o Carnaval no meio dessas duas semanas,
quando os órgãos públicos não funcionavam.
Foi uma gincana correr atrás de tradutor juramentado para passar para o
castelhano os currículos das crianças e da Diolásia, mas tudo foi feito com muita
motivação, pois a novidade e o entusiasmo de morar em outro país e conhecer
outra cultura eram enormes.
Consciente da responsabilidade, aliás, responsabilidade é pouco: obrigação
de bem representar a Força Aérea e o Brasil, fui à Escola Superior de Guerra, no
Rio, em busca de trabalhos sobre temas que eventualmente pudessem embasar
trabalhos que tivesse de realizar. Levei cópias de alguns comigo, porém, não
cheguei a usar nenhum. As exigências lá eram outras.
Havia, nessa época, uma linha do Correio Aéreo Nacional (CAN) que fa-
zia viagens para a América do Sul e dava apoio às adidâncias e a nosso pessoal
sediados nessa parte das Américas. Conseguimos vaga num dos AVROS que fa-
ziam essas linhas, e Diolásia e eu fomos até Buenos Aires providenciar moradia
e colégio para as crianças.
Na chegada a essa cidade, recebemos especial apoio do colega de turma Te-
nente Coronel Macedo – líder do Esquadrão Coringa na Academia, lembram? –
que lá chegara algum tempo antes de nós, para realizar o Curso de Estado-Maior
na Força Aérea Argentina. Ele e sua esposa, Josélia, nos receberam com muito
carinho e foram incansáveis em nos ajudar, passando-nos tudo que já haviam
aprendido do “como morar em Buenos Aires”. Acompanharam a gente desde a
“via sacra” para alugar apartamento até a compra de carro, passando pela compra
de uniforme para as crianças e pelas facilitações do dia a dia.
Menciono, também com gratidão, o apoio do Coronel Ary, então adido aero-
náutico, e de sua esposa, Clarita. Ele nos recebeu no Aeroporto de Ezeiza e ali mes-
mo nos traçou um perfil da situação política e da vida na Argentina. Nunca esqueço
a solicitude com que apanhou nossa bagagem e a conduziu ao automóvel que nos
levaria até nosso apartamento, empurrando um daqueles carrinhos de aeroporto.
Ele, o adido aeronáutico, meu superior hierárquico...
Os filhos do Coronel Ary, do Macedo e nossos filhos estudaram no mes-
mo colégio, o Colégio Lincoln Hall, no bairro Cabildo, onde se situava nosso
apartamento.
O ensino na Argentina se diferenciava do ensino no Brasil por privilegiar
a área de humanas. A meninada tinha de correr atrás do prejuízo, principal-
mente, em disciplinas como História e Geografia da Argentina, a respeito das

178
quais, naturalmente, não sabiam um “a” sequer. Aritmética ou Matemática
não representava problema para eles, e o tempo que lhes sobrava por causa
disso era, em consequência, ocupado pelo estudo de Literatura, pela partici-
pação nas aulas de teatro, pela visitação de museus e exposições de arte, pela
leitura e pelo estudo do idioma.
Um fator muito positivo é que havia correspondência de currículo, de modo
que prosseguiram nas mesmas séries que cursariam no Brasil. Com o Jeferson
foi tudo automático, sem problemas. Mas com nossa filha Laíse, fincaram pé na
exigência de um teste de ditado. Se aprovada, ok; senão, voltaria uma série. Com
meu fluente portunhol, argumentei que nem seria necessário perder tempo com
o tal do ditado, pois ela não teria a menor chance de aprovação. Mas dei minha
palavra, assumindo a responsabilidade por seu rendimento, garantindo-lhes que
ela acompanharia as matérias como as outras crianças, em pouco tempo.
Não teve jeito. Não consegui convencer a direção do colégio, e ela teve de
se submeter ao tal teste. Conto isso porque foi muito engraçado e até hoje rimos
do que aconteceu. Acompanhei-a no dia, dando-lhe força e apoio. Eu sabia que
seria “aquela água”...
Ao sair da sala de exame, ela me abraçou e disse:
– Pai, não entendi nada do que falaram, mas uma coisa achei muito estranho
nessa língua...
– O que foi, minha filha?
– É que não usam pontuação. Durante o ditado, repetiram muito a palavra
“coma”. A professora disse essa palavra muuuuuitas vezes. E eu escrevi “coma”
todas as vezes que ela falou, porque ao menos essa palavra eu sabia escrever.
Poucos dias depois de começadas as aulas, é que ela veio a descobrir que
a tal “coma” significava vírgula em castelhano. Rimos muito com essa tal de
“coma”.
Castelhano. Nada de espanhol. Quando, algumas vezes, mencionávamos
que eles falavam espanhol, éramos corrigidos de imediato: castelhano. Nós fala-
mos castelhano, afirmavam.
Como estrangeiros, nosso olhar corria para coisas e fatos diferentes de nossa
cultura. Registro aqui algumas como ilustração e o faço tendo como base o ano de
1988. Por exemplo: nas quitandas, não se podia tocar nas frutas para escolhê-las.
O quitandeiro era quem as colocava dentro dos sacos de compras e acabou. Nada
de você meter a mão e escolher a fruta que mais lhe aprouvesse comprar. Nega-
tivo! Eles davam bronca mesmo. E como eram chegados a uma bronca. Quando
diziam: “No, no, no, no”, faziam-no com veemência. A gente ficava sem graça
pelo jeito como falavam; parecia até que estávamos incorrendo numa falta grave.
Outro registro: não entendíamos o porquê de tantas trancas nas portas e por-
tarias e de tantos cuidados com a segurança, pois se comparada com a situação

179
do Brasil, achávamos tudo muito calmo, respeitoso e seguro. Não entendíamos a
apreensão e os perigos que eles identificavam para agirem daquela forma. Quan-
do saíamos, mesmo à noite, para algum programa, não nos sentíamos ameaçados;
sentíamo-nos seguros. Por que, então, aquela quantidade toda de trancas?
Intrigados, um dia perguntamos a um amigo “da terra” o porquê e aí é que
tivemos a explicação. Até nos envergonhamos por nosso alheamento histórico.
Esse colega nos explicou que o procedimento de viverem trancando tudo ainda
era reflexo dos anos de terror pelo qual o povo argentino passara, na época da
ditadura militar, em que, segundo eles, muita gente fora sequestrada, levada de
dentro de suas casas, inclusive crianças. Em muitos casos, nunca mais se ouviu
falar a respeito ou se soube do paradeiro.
Ahnnnnn...
Uma coisa que nos chamou a atenção e que demoramos a entender o signifi-
cado foi a presença de garrafas PET cheias de água sobre o teto de automóveis. Co-
mentávamos entre nós e não chegávamos a um entendimento do que seria aquilo.
Até que um dos meninos, não lembro mais quem, descobriu, por intermé-
dio de um coleguinha de aula, que quando uma garrafa PET, cheia de água, se
encontrava posicionada sobre um automóvel, queria dizer que aquele automóvel
estava à venda.
Simples. Muito simples. Mas vai adivinhar! Para nós o procedimento chega-
va a ser engraçado, porém, “cada terra com seu uso...’”
Chamava-nos a atenção também o fato de levarem uma porção de cachorros
de variadas raças e tamanhos, presos por correias, para passear, conduzidos por
um só guardador. Esses guardadores caminhavam com um número x de cães se-
guros numa das mãos e outros tantos na outra. Friso que me refiro ao ano de 1988,
agora no Brasil presenciamos isso. Antes, nunca chegamos a ver. Falo por mim e
minha família. Para nós, era novidade aquele procedimento.
Comportamento estranho para nós mesmo era o fato de as pessoas tomarem
sol nos parques e nas praças de roupa de praia. Maiô, biquíni, shorts ou blusas aber-
tas, saias levantadas, sem que ninguém as abordasse desrespeitosamente por isso.
Se o tempo esquentava, os parques se enchiam de pessoas em busca de sol.
As argentinas eram loucas por um bronzeado e, na falta de sol, apelavam para o
bronzeamento artificial, com lâmpadas.
Mas tanto pelo clima como pelos hábitos, costumes, cultura ou busca de
uma identidade cultural, eleita como superior, o que percebíamos que os argen-
tinos gostavam mesmo era de se sentirem europeus. E isso se refletia até nos
uniformes de colégio das crianças, similares aos usados nas escolas da Europa.
Um assunto que sentíamos que eles estavam um passo a nossa frente era no
que se referia à preservação da natureza. Quando aqui mal se falava em ecologia,
eles lá já se mostravam bem familiarizados com o assunto. E investiam na cons-

180
cientização da preservação e do respeito à natureza. De cara, aquilo nos tocou
muito positivamente.
Os argentinos liam bastante. Em ônibus, no metrô ou nos parques, víamos
sempre as pessoas com livro nas mãos. Isso sem falar na religiosa leitura do jor-
nal diante de uma xicrinha de café, nas calçadas dos cafés ou dentro deles, tendo
como acompanhamento um biscoitinho redondo amanteigado.
Mais ainda: falar de pátria e futebol era querer ouvir que a Argentina era el
mejor país del mundo, chamamento de um dos canais de televisão. No futebol,
indubitavelmente, eles eram “os feras”. Assim se achavam.
Futebol era devoção doentia. Mesmo hoje, para nossos hermanos, Mara-
dona foi melhor que Pelé, e o mundo é que se enganou concedendo a honraria
de atleta do século a nosso jogador. Mesmo reconhecendo o envolvimento de
Maradona com a droga, coisa que lamentamos pelo desperdício de genialidade,
os argentinos o consideram o melhor de todos os tempos. Ou será que o melhor
agora é o Messi?
Certo dia, a Seleção Brasileira de Futebol se apresentou em Buenos Aires
para uma partida contra a Argentina, pelo Campeonato Sul-Americano de Júnior,
no Estádio River Plate. Meu filho e eu fomos assistir a esse jogo, que foi à noite.
Por desconhecermos o estádio, entramos e assistimos ao jogo, simplesmente, no
meio da fanática torcida argentina. E como torciam, berravam e se esgoelavam!
Ganhamos de 2 x 1 e, apesar de ostentarmos a bandeira brasileira, não sofre-
mos ameaças, nem fomos desacatados. Se xingaram nossas mães, não “passamos
recibo” e nos fizemos de desentendidos. Ou melhor, nem entendemos mesmo.
Saltava-nos à vista que o patriotismo deles, que continua e que não vai mudar,
era exacerbadíssimo. Um ponto sensível era falar na Guerra das Malvinas. Melhor
evitar o tema. Eram revoltados com o Presidente Galtieri por tê-los metido numa
encrenca sem tamanho, numa guerra desproporcional, sem condições de vencê-la.
E afirmavam com veemência: noutra, entraremos para ganhar. Eu, com o olhar de-
sapaixonado de um estrangeiro, pensava: ganhar o quê e como, meu Deus?!
Fomos bem tratados na Argentina. O pessoal do curso formava um grupo
amistoso. Ao todo, éramos 18 alunos, dos quais nove eram militares: dois de cada
Força deles, dois peruanos e eu.
A Argentina de 1988 era muito amiga dos peruanos; ao contrário da riva-
lidade com os chilenos. Com estes, havia ou tinha a ver com antigas dissensões
quanto a questões de fronteira. Eram ressentidos, também, com o que julgavam
falta de solidariedade, quando do conflito com a Inglaterra, pelas Malvinas. Ali-
ás, segundo eles, o que houve não foi somente falta de solidariedade. O Chile
oferecera apoio mesmo à Inglaterra, permitindo que os aviões de sua majestade,
Elizabeth II, e da Dama de Ferro, Margareth Thatcher, pousassem e fossem rea-
bastecidos em bases chilenas.

181
Os militares se sentiam meio constrangidos de falar sobre o assunto Malvi-
nas. Porém, de vez em quando, o assunto vinha à baila. E eles soltavam o verbo.
Diziam que, enquanto os soldados morriam de frio para combater os ingleses,
sem preparo militar, sem roupa adequada, sem armamento à altura, sem logística
adequada e até sem alimentação, em Buenos Aires se dançava tango, e o General
Lepoldo Galtieri fazia comícios e pronunciamentos, desviando a atenção do povo
das reais condições econômicas e sociais do país.
Mas voltando a falar sobre o Curso de Estratégia, a motivação do curso foi
dada pelo coordenador, Coronel do Exército Domênico, com as seguintes pala-
vras: “Cada um beberá de acordo com sua sede de conhecimento.” E assim foi.
Nossas aulas eram à noite, tínhamos o dia todo livre destinado a pesquisar
nas diversas bibliotecas que nos foram disponibilizadas. Como eu era daqueles
que tinha sede, corri atrás desde o segundo dia.
Expositores, palestrantes e coordenadores de grupo de estudos tinham nível
intelectual bem elevado, boa cultura geral e se esforçavam para que o objetivo
maior do curso, o de “preparar estrategistas para assessoramento de alto nível
na área de defesa nacional”, fosse alcançado. Estudamos, entre outros temas, as
políticas de defesa dos Estados Unidos, da União Soviética, da Alemanha, da
França, da Inglaterra, do Japão, do Chile e de outros países.
Para meu trabalho de fim de curso, foi-me designado apresentar uma
investigación, espécie de monografia sobre a eficácia da Política de Defesa da
França. Exigiu-me, além de muita pesquisa, uma dose grande de dedicação e
perseverança. É que a maioria das fontes de estudo era em Francês, idioma que
eu não dominava nada, fora oui e merci. Traduzia os textos, então, do francês para
o português e desse para o castelhano. A defesa oral do trabalho tinha de ser feita
em castelhano e, na oportunidade, improvisei o melhor que pude meu “portunhol”.
Para a apresentação oral, convidei nosso adido, o Coronel Ary, o Tenente
Coronel Macedo e meu filho Jeferson. E aconteceu uma coisa muito engraçada
no desenrolar dessa apresentação. Comecei no meu bom “portunhol” mas, lá
pelas tantas, percebi que meu filho fazia uns sinais que eu não entendia o porquê.
Percebi o Coronel Ary com expressão meio preocupada e eu também não sabia
porquê. Julgava estar me saindo bem, me fazendo entender, apesar dos sinais
que eu não decodificava. A certa altura meu filho falou: “Pai, você está falando
português. Volta para o castelhano!”
Foi então que caiu a ficha... Como diríamos no Brasil: “Mancada,
comandante...”
O interessante foi a tolerância dos assistentes. Não sei há quanto tempo eu
passara para o “automático” do português. Mas o fato me serviu para entender
que ou meu português era mais inteligível para eles que o “portunhol” com o qual
me expressava ou eles estavam mesmo sendo educados com o brasileño.

182
A disputa intelectual foi dura. O nível e o profissionalismo, tanto dos mi-
litares quanto dos civis, que trabalhavam em funções de assessoria da Defesa
Nacional, órgãos de inteligência, Congresso Nacional, Presidência da República
e outros, eram muito elevados. Era o que se esperava de um curso em que havia
estrangeiros. Sabíamos que o primeiro lugar deveria ser atribuído a um aluno ar-
gentino, fato que realmente ocorreu. Com muito mérito e justiça, o Comandante
Oulton, brilhante oficial da Marinha, combatente na Guerra das Malvinas, foi o
primeiro colocado. Fiquei em segundo lugar, com média final 9,58, e me senti
compensado por meus esforços.
Durante o curso, participei – como ouvinte – do 1º Curso de História Militar
Argentina e do Seminário de Processo de Tomada de Decisões Estratégicas do
Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas daquele país, que muito me acres-
centaram em conhecimento.

Movimento dos Caras Pintadas

A Argentina que nos recebeu era, na época, governada pelo Presidente Raúl
Alfonsin, primeiro presidente eleito por via democrática após o fim da ditadura
militar (de 1976 a 1983), que tanto luto, dor e ressentimento deixaram na consci-
ência do povo argentino.
O Presidente Alfonsin, idealizador do Mercosul, tivera de encarar grandes
problemas que vieram a enfraquecê-lo politicamente, como uma hiperinflação e
várias revoltas militares.
Tão logo assumira o governo, em 1983, Alfonsin autorizara a prisão de lí-
deres militares responsáveis pela morte ou desaparecimento de mais de 30 mil
pessoas no período em que o país fora submetido à ditadura militar. Sua atuação
contra esses militares e a imensa quantidade de processos contra a classe pro-
vocaram rebeliões e, numa delas, na dos caras pintadas, liderada pelo Tenente
Coronel Aldo Rico, estávamos naquele país.
O fato fora amplamente divulgado pela imprensa brasileira, e os familiares
que conseguiram contato telefônico conosco – uma façanha, pois a comunicação
naquele país naquela época era muito precária em comparação com as nossas – se
mostravam muito ansiosos e preocupados.
De nossa parte, permanecemos em casa, televisão ligada, acompanhando os
acontecimentos que não demoraram muito para se acalmar. Pelo menos foi o que
achamos. Não chegamos a recear por nada em termos de nossa segurança ou pela
de nossos amigos.
Mas o clima de constante turbulência social, com muitas greves, arruaças e
conturbação da ordem pública, intranquilizava todo mundo. E achávamos muito
desagradável quando a situação parecia fugir ao controle.

183
Alguns passeios

Em avião da Força Aérea Argentina, fomos, nós quatro até Ushuaia, no


extremo sul da Patagônia, última cidade do continente sul-americano. Por não
termos experiência do que acontecia num inverno rigoroso como o daquela cidade
tão lá na pontinha do mapa da América do Sul, ficamos boquiabertos quando nos
disseram que o rio que víamos a nossa frente virava pista de patinação quando a
temperatura caía, congelando toda a água.
Estivemos em Bariloche, segundo a história, antigo reduto de nazistas no
pós-guerra e uma das estações de esqui mais conhecidas da América do Sul.
Visitamos essa graciosa cidade no auge das férias de julho, e o idioma que mais
ouvíamos nas ruas, ruelas e pista de esqui era o nosso, com sotaque paulista. Uma
festa, Bariloche. Inesquecível!
Conhecemos os glaciares de Perito Moreno e Upsala, esse último um dos
locais onde os pilotos da Força Aérea treinavam pousos e decolagens no gelo. O
azul dos glaciares nos encantou profundamente. Majestosos, aqueles glaciares!
Nesses passeios, nós quatro estivemos juntos, mas, no mais marcante deles,
só eu participei. Foi a visita à Antártica.
Tive, graças ao empenho do Coronel Ary, o privilégio de conhecer a
Antártida Argentina a bordo de um C-130 da FAB, com tripulação mista das duas
Forças Aéreas irmãs. A aeronave passaria por Buenos Aires e ali embarcamos,
militares argentinos e eu.
A visita à Antártica Argentina, precisamente à Base de Marambio, foi uma
experiência fascinante. Algumas horas somente na base e inesquecíveis lições de
humanidade me marcaram para o resto da vida.
Vou procurar resumir o que ouvi a respeito das pessoas que desempenhavam
a missão científica naquela base. Lembrem-se de que me refiro ao ano de 1988.
Regra básica: só seria permitido participar da missão científica quem fosse
voluntário. O salário tinha equivalência de três vezes o normal, fator de grande
atração, porém, mesmo assim, a meu ver, a missão era de sacrifício. Naquela
época, o único contato dos militares com seus familiares em terra era via rádio de
uso militar. Um isolamento! Uma solidão!
No verão, o efetivo era de 120 pessoas, reduzido a um terço durante o
inverno, época do ano em que todo apoio só era possível por via aérea, uma vez
que os navios não podiam navegar no mar congelado durante os meses daquela
estação.
A lição de humanidade tão marcante que disse ter recebido, apesar do pouco
tempo que passei com aquele grupo em Marambio, deveu-se ao sentimento
de solidariedade de que ali tomei conhecimento. Tanto entre os componentes
do grupo argentino, como destes para com outros grupos de pesquisadores,

184
independentemente de nacionalidade. Explicaram-nos que, diante de uma
situação de risco, um aviso era transmitido de imediato às outras bases e, de
pronto, o objetivo número um de todas elas era prestar apoio, auxiliar em buscas
ou providenciar o que fosse necessário para solucionar o problema. Senti que ali,
pelos riscos que corriam e pela fragilidade em que se encontravam, a consciência
do valor da vida era maior.
Com um clima impiedosamente hostil, os homens sabiam que precisavam
se dar as mãos a fim de garantir a sobrevivência. Entendiam que os valores mais
importantes passavam longe das querelas políticas dos governantes de suas
respectivas nações, de suas ideologias e de seus sentimentos de separatismo.
Terminado meu curso, retornamos para o Brasil em janeiro de 1989, 11 me-
ses após nossa partida. Retornamos com uma visão melhor do povo argentino,
entendendo um pouco mais de sua cultura, de suas dificuldades e de seus desafios.
O mais proveitoso de tudo foi que entendemos que, estejam onde estiverem os
homens, com eles estarão seus anseios e paixões; o que muda são as contingên-
cias que lhe darão margem à expressão.
Quero dizer com isso que passei a sentir los hermanos de forma mais frater-
na, olhando para eles como “gente como nós”, que anseia pelas mesmas coisas
que nós, e que aquele ranço que por eles sentia, em vista de, em cursos anteriores,
no Brasil, serem eles tidos como nossos mais possíveis inimigos numa imaginá-
ria guerra, era coisa a ser dissipada. As suposições eram infundadas, não havia
sustentação, nem sentido.
Nós quatro voltamos com horizontes mais alargados. A Diolásia fez cursos
rápidos em sua especialidade – odontopediatria – e os meninos trouxeram
conhecimento do idioma do qual se utilizam nas empresas em que trabalham. As
imagens dos passeios que fizemos juntos nos fins de semana ou nas férias de meio
do ano permanecem nos unindo num laço forte de carinho.
Com a sensação de que bem representei a FAB e nosso país, afirmo que foi
muito bom, que aqueles 11 meses valeram por tudo, mas que bom estar em casa
outra vez. Digo em casa, no Brasil.

185
Capítulo 16

Assessoria Parlamentar no
Congresso Nacional
V oltamos para Brasília, onde fui classificado no Centro de Informações
de Segurança da Aeronáutica (CISA).
Ao me apresentar naquela organização, fui redirecionado e encaminhado ao
então ministro da Aeronáutica, Tenente Brigadeiro Moreira Lima, que me disse:
– Walacir, sei que você aplicaria melhor os conhecimentos do curso que
fez na Argentina em outras funções na FAB, porém, no intuito de reforçar a
Assessoria Parlamentar, quero você no Congresso Nacional.
– Sim, senhor – respondi.
E, então, no dia 11 de janeiro de 1989, comecei a trabalhar naquela instituição.

Assessoria Parlamentar do ministro da Aeronáutica

Fui recebido pelo Coronel Josino, chefe da Assessoria Parlamentar, cuja sigla
interna correspondia à sigla do Gabinete do Ministro, seguida do número sete
(GM-7), com uma espectral frieza. Voltávamos a nos encontrar para trabalharmos
juntos 17 anos depois daquela repetição de instrução de voo de formatura com o
cadete Heronides, lembram?
– Walacir, estou sozinho nessa função há alguns anos, não preciso e não pedi
auxiliares. Sou centralizador, portanto, conquiste seu espaço.
Meio atordoado com a franqueza e com a absoluta frieza da recepção,
coloquei mãos à obra. Não era a primeira vez que passava por aquela situação, e
já sabia muito bem da receita de como me sair dessas enrascadas.
E aí o jogo virou: nunca poderia imaginar um “casamento” profissional tão
perfeito nem a sinergia que ocorreu entre o Josino e eu. Raramente ficávamos no
gabinete do ministro. Desempenhávamos nossas funções quase que integralmente
no Congresso Nacional, acompanhando e defendendo assuntos de interesse da
Aeronáutica, interagindo com senadores e deputados dos diversos partidos e
trocando a farda pelo terno.

O “grande circo”

Introduzindo-me no Congresso, o Josino comentou que aquilo ali era um


grande circo. Que ali eu encontraria os mais variados tipos de atores, só não
encontraria nenhum bobo. E prosseguiu dizendo que a grande fortaleza dos

186
senadores e deputados era saber que nada de importante aconteceria no país sem
que passasse pela aprovação do Congresso.
Como assessor parlamentar, participei de um encontro de quatro parlamentares
de partidos diferentes, que foram debater com os alunos da ECEMAR. Durante
o almoço, tive a oportunidade de me sentar ao lado do então Deputado Federal
César Maia. Perguntei-lhe se o Brasil tinha solução e, se tivesse, qual seria, diante
dos graves problemas nacionais. Ele me respondeu que a solução era votar, votar
e votar, não existindo outra solução. Falou-me que os eleitores teriam que depurar
os políticos que pudessem contribuir para a solução dos problemas, quer em nível
federal, estadual ou municipal.
Hoje, mais maduro, penso: como se o povo realmente escolhesse através do
voto! O povo, isso sim, vota naqueles que os “grandes” escolherem para serem
votados. Mas como dizia o Presidente Geisel, “Antes assim; a democracia é a
menos pior das formas de governo”.
Nesse ano de 1989, o mundo mudou de era: caíra o mundo de Berlim. Na
época, o Brasil já tinha restaurado por completo o estado democrático de direito.
A nação vivia uma democracia plena. Desde então, temos votado e votado.
Continuamos apostando num país melhor e mais justo. Continuaremos votando
e votando. Depurando.

Membros do Alto-Comando no Congresso

Numa determinada tarde, o Josino me disse:


– Walacir, isto aqui está muito calmo para meu gosto. Bole alguma atividade
interessante para movimentar um pouco.
Pensei e respondi:
– Que tal levarmos alguns tenentes-brigadeiros para falar na Comissão de
Defesa da Câmara dos Deputados?
– Brilhante ideia – respondeu.
– Isso vai dar uns quatro meses de agitação. Vamos propor ao ministro.
A ideia vingou. Por três vezes se apresentaram no Congresso membros do
Alto-Comando, expondo sobre suas áreas de atuação. O fato foi muito bom para a
imagem da FAB. Na realidade, grande parte dos parlamentares pouco sabia sobre
a missão de nossas Forças Armadas. Não creio que tenham se interessado muito
pelo assunto, mas diminuiu um pouco o desconhecimento.
As apresentações dos membros do Alto-Comando tiveram como
desdobramento viagens de visita a organizações da FAB, o que projetou a realidade
operacional da Força. Participei de duas dessas visitas. Em uma, acompanhei
os parlamentares até a Base Aérea de Canoas (RS), onde conheceram a missão
de defesa aérea do sul do Brasil feita por aeronaves F-5, seguida de visita ao

187
II Centro Integrado de Defesa e Controle do Espaço Aéreo (CINDACTA). Em
outra, a visita foi à base de Lançamento de Foguetes de Alcântara, no Maranhão.
Em ambas, sentimos que os parlamentares até que se interessaram pela missão
da FAB e que realmente pouco sabiam sobre nossa realidade, não fazendo
mistério desse desconhecimento para nós. Nas visitas, entre outros assuntos, os
parlamentares tomaram ciência dos baixos salários dos dedicados profissionais
daquelas unidades e, por extensão, dos demais funcionários que ali atuavam,
porém, o que ouviram fizeram-no por educação, a questão não passou disso.
Morreu aí, até porque o assunto salário é de iniciativa do Poder Executivo.
Creio que continuamos, hoje, como estávamos naquela época e como sempre
fomos. Água e óleo de uma mesma sociedade: não nos misturamos, precisamos
uns dos outros, mas não temos como base a reciprocidade da confiança. Não somos
melhores ou piores e longe estamos de ser perfeitos, mas nossa missão é muito
clara: o forte compromisso com a pátria. Esse compromisso, lamentavelmente,
não consta em certas profissões.
Durante o período de um ano em que trabalhei no Congresso, constatei que
havia quatro níveis de interesses entre a maioria dos parlamentares. Digo maioria
somente para não generalizar. Em quarto e mais baixo plano, estava o interesse
nacional; em terceiro, o interesse do partido em nível nacional; em segundo plano,
o interesse do partido em nível regional e, acima de tudo e em primeiríssimo
plano, o interesse particular. Ou seja, o que fosse bom para o parlamentar, poderia
ser bom para o partido e até para o Brasil.
Como em todo segmento social, existem bons e dedicados servidores, que
dão sua contribuição à melhoria de nossa sociedade, apesar dos escândalos, da
corrupção e de tudo que fica a desejar. Sou grande defensor das instituições
democráticas e do governo do país nas mãos dos civis. Militares devem ficar na
caserna, no cumprimento de sua missão; sempre vigilantes. E ponto final.

188
Capítulo 17

Chefia do Centro de Comunicação


Social da Aeronáutica
Batismo de fogo

A inda na GM-7 recebi um informe de que possivelmente desempe-


nharia um mandato-tampão de alguns meses na Chefia do Centro
de Comunicação Social da Aeronáutica (CECOMSAER), cargo que seria ocupa-
do futuramente pelo Brigadeiro Nogueira, quando de seu retorno de missão nos
Estados Unidos. O informe se confirmou e, realmente, ocupei aquela chefia.
E como as coisas, às vezes, acontecem muito rapidamente, quase que de
imediato me vi apresentado à equipe com a qual iria trabalhar. Lembro que o
Major Telles Ribeiro, daquele Centro, colocou o pessoal do efetivo no auditório
e apresentou-me como o novo chefe a ser designado.
O batismo de fogo não tardou...

Denúncia de tortura em Anápolis

Na tarde do dia seguinte – uma sexta-feira – recebi um telefonema do Telles,


em que dizia que havia uma “bomba”, que seria veiculada por uma importante
revista semanal, para explodir no colo da Aeronáutica, cujo título seria: “Tortura
em Anápolis”. Eram cerca de 19 horas e o repórter aguardaria até as 22 horas para
eventual defesa da Aeronáutica. Telefonei para o Ministro Sócrates, fazendo alusão
à minha possível designação para o CECOMSAER, o que ele confirmou, e falei-lhe
sobre o que estava para acontecer. Depois de me ouvir, determinou que o Telles e eu
fôssemos ao apartamento onde ele estava e que levássemos o repórter junto.
Fomos até o ministro e expusemos, com mais detalhes, o assunto. Depois
chegou o repórter da revista Veja e a conversa transcorreu em ambiente sério,
preocupante, pois falar em tortura é sempre assunto doloroso e sensível, e o
nome da FAB estava no meio. No meio, não. O assunto era todo com a FAB.
O lamentável incidente se dera dentro de uma de suas unidades de elite, a Base
Aérea de Anápolis, sede das aeronaves Mirage de Defesa Aérea.
Não teve jeito e a reportagem foi publicada, trazendo reverberação
para a Força. Uma coisa, pelo menos, se salvou. É que a matéria afirmava
que a alta administração da Aeronáutica não sabia de nada a respeito do
ocorrido, vindo a tomar ciência pelo repórter que levantara a matéria. E isso
era a mais pura verdade.

189
Lamentamos muito o fato em todos os sentidos. O estrago na imagem da
instituição foi grande. O comando daquela base estava nas mãos do Coronel
Gildo. Esse foi destituído e, fato mais lamentável ainda, é que sua carreira se
encerrou ali, com aquele episódio. Como comandante, ele respondia por tudo que
acontecesse em sua unidade, mesmo que fatos se dessem sem sua permissão ou
conhecimento. O comandante é sempre o responsável!
Às vezes, a sorte apronta umas puxadas de tapete... Assim foi com o Coronel
Gildo, o que muito lamentei, pois era um oficial muito conceituado.

190
Capítulo 18

Comando da Base Aérea do


Galeão
O desafio de liderar 2.400 homens na Ilha do Governador

P or ocasião das indicações para comando de base aérea, eu sabia


que, pela antiguidade, alguns dos indicados seriam de minha tur-
ma. Aguardei torcendo para que meu nome fosse escolhido para a Base Aérea de
Brasília, mas não foi o que aconteceu.
Fui indicado para comandar a Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro.
Soube da indicação, por telefone, pelo Coronel Miranda, meu novo chefe na As-
sessoria Parlamentar que, gentilmente, ligara para o hotel onde eu estava hospe-
dado com minha família em Caldas Novas. Ali permaneceríamos por uma sema-
na, de férias.
Pela primeira vez ensaiei um “não quero”, apesar de saber que indicação
para comando de base era decisão de autoridades superiores, portanto, não tinha
de “chiar”, e sim, me sentir considerado. Agradecido pela deferência. Honrado.
Mas mesmo com a razão me avisando que assim deveria agir, fiquei meio
desapontado; acreditara mais do que supunha que permaneceria na Capital Fede-
ral. Nossa vida estava tão organizadinha, tão estruturada: as crianças muito bem
em suas escolas, a Diolásia clinicando e eu ciente de que, se continuasse naquela
cidade, teria como continuar sendo útil à Força Aérea.
É que o Rio nos assustava. Esse era um dos motivos para desejarmos per-
manecer em Brasília.
Em vista disso, pedi ao Coronel Miranda para interferir numa possível rever-
são de meu nome para comandar outra base, noutra localidade. Até sugeri nomes
de colegas de turma, como alternativa ao meu, para a Base do Galeão. Lembro
que falei do Cambeses, na época subcomandante daquela base, e do Samartino,
que servira por vários anos na Base Aérea dos Afonsos. Ambos tinham grande
conhecimento das Unidades Aéreas sediadas no Galeão e já residiam no Rio.
Para ele, externei meu desagrado, meus senões, minhas reticências. Ele me
ouviu num silêncio amistoso; compreensivo. Entendia minhas razões. E o que
fez ele? E foi aí que sua postura de chefe cresceu em minha apreciação. Nunca
esqueci o fato. Ele silenciou. Guardou o que ouviu. Poderia ter me prejudicado
se tivesse de pronto levado o assunto ao Ministro Sócrates, que, com justa ra-
zão, não só me cortaria da indicação para aquele cargo de destaque, como ficaria
decepcionado com minha atitude como militar. Tampouco o Coronel Miranda

191
comentou o assunto pelas “aerovias”, o que me fez lembrar do inverso, naquele
incidente na ECEMAR...
No dia seguinte, me retornou, dizendo:
– Walacir, não deu. Ao tentar abordar o assunto com o chefe de gabinete
do Ministro Sócrates, o Major Brigadeiro Rebello, ele logo me atalhou dizendo
que não era convite e que seu nome fora indicação pessoal do ministro e que era
missão a cumprir.
Fiquei até meio sem graça. Eu que sempre tivera em mente que para onde a
FAB me mandasse era minha obrigação ir, sem pestanejar! Com esse telefonema,
senti-me duplamente privilegiado. Primeiro, por ter merecido a atenção pessoal
do ministro e, segundo, por ser a Base Aérea do Galeão, uma das bases mais
importantes da Força Aérea. Mas eu não tinha como me enganar: aquela transfe-
rência seria recebida “como missão a cumprir”.
Mantive a elegância, polidamente, mas sem entusiasmo. Deixei correr o
tempo até que a indicação realmente se concretizasse e fui tocando o dia a dia.
Como não sabemos mesmo nada sobre o destino! Quantas vezes desejamos
com ardor uma coisa sem a menor noção de suas consequências. Para melhor ou não.
Assim ocorreu comigo, quando fui para o Rio. Mais adiante contarei...
Homologada a designação, pus-me a providenciar a mudança, de modo que,
no comecinho de janeiro de 1991, com nosso Passat abarrotado de coisas, meu
filho Jeferson e eu nos pusemos na estrada, a tempo de alcançar o exame de
vestibular para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou para a Uni-
versidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Nada de Universidade de Brasília
(UnB), para a qual se preparara naqueles dois anos e como acontece até hoje a
tantos filhos de militares.
E aqui eu retorno àquela reflexão sobre o desconhecimento do desenrolar de
nosso destino. Como eu poderia supor que o ganho em experiência que a missão
de comandar a Base Aérea do Galeão me traria, se transformasse em referência
para comandos futuros? E, mais, como imaginar que dali a 12 anos escolheria
a tão “temida” cidade do Rio de Janeiro para residir em definitivo, após minha
saída da FAB? Mais uma vez, são as voltas que a vida dá. E os segredos que o
tempo nos ensina a entender.
Recebi o comando da Base Aérea do Galeão do Coronel Claro, companheiro
do tempo em que fui aspirante em Natal, época em que ele fora instrutor de voo
de nossa turma. Transcorria o ano de 1991, e o presidente do Brasil era Fernan-
do Collor de Mello. Leonel Brizola governava o estado e Saturnino Braga era o
prefeito da cidade. A Mocidade Independente de Padre Miguel seria a primeira
colocada no desfile das escolas de samba; o Flamengo, o campeão carioca de fu-
tebol e o São Paulo Futebol Clube venceria o Campeonato Brasileiro de Futebol.
As facilidades que encontramos no cotidiano da cidade se emparelhavam às

192
suas dificuldades e, acima de tudo, o Rio de Janeiro, parodiando o samba Jorge
Ben, continuava lindo.
Sem percebermos, minha família e eu fomos, aos poucos, nos apaixonando
pela cidade, que, afinal, nos recebera tão bem em 1985, quando fiz o curso na
ECEMAR.
Os desafios começaram a ser identificados, e a certeza que eram muitos logo
se confirmou. A vida nunca fora isso, e muito menos seria em um comando de
base aérea. A certeza que eu tinha era que trabalho e desafio nunca me assusta-
ram, que estava pronto para cumprir aquela missão e que, pensando bem, já me
sentia empolgado.
Que virada!!!
Sim, porque, alguns dias depois de concretizada a indicação de meu nome
para o comando, resolvemos, minha família e eu, olhar a situação de forma positi-
va. Refletimos: se tanta gente mora no Rio de Janeiro e, se daquela cidade não quer
sair por nada no mundo, é sinal e prova de que muita coisa boa tem por lá. Sendo
assim, nada de apreensão; chega de lenga-lenga, vamos descobrir as coisas boas!
Foi assim, então, que, com alto-astral, encaramos a nova adaptação.

Dificuldades a granel

Por ser o Rio de Janeiro a sala de visitas do país e a Base do Galeão o lo-
cal por onde transitava grande número de autoridades nacionais e estrangeiras, a
cada dia vivia-se uma situação diferente. As dificuldades decorrentes de apoiar
as quatro unidades aéreas situadas naquela Base, somadas à responsabilidade de
comandar 2.400 homens, eram consideráveis.
Lembro-me de um dia em especial. Foi um dia “daqueles”, em que os pro-
blemas pipocavam por todos os lados. Na ocasião, falei para o Major Mendonça,
comandante do Esquadrão de Comando (EC), que no momento despachava co-
migo, que no dia em que alguém aparecer naquela porta – a da sala do comando
– trazendo-me uma notícia que não seja problema, prometo comemorar!
Encontrei a unidade em condições bem deterioradas. Os alojamentos do
Batalhão de Infantaria (BINFA), os banheiros, o rancho, a garagem, as viaturas,
tudo estava muito desgastado e envelhecido. Carente de reformas urgentes.
Resolvi fazer uma inspeção detalhada dos locais considerados mais críticos. Fiz-
me acompanhar de um sargento fotógrafo para o registro daquelas imagens e
posterior organização de um álbum, material que me forneceria provas quando
fosse recorrer a fundos extras para a base.
Saliento que, ao contar esse fato, não o faço motivado pela vaidade tola
de procurar realçar as providências tomadas no intuito de implantar melhorias
que elegi pertinentes. Fazer o melhor era obrigação; para isso fora designado.

193
Por onde passei, frisei que cada comandante procura sempre dar o melhor para
sua unidade e para o engrandecimento da Força. E sempre salientei, também, que
cada comandante, ao lidar com os apertados orçamentos, vive a famosa situação da
“colcha curta” que, ao cobrir os pés, descobre a cabeça. Com isso, ficara clara minha
opinião de que cabia ao gestor à frente do esquadrão, unidade ou base estabelecer as
prioridades de acordo com os critérios de urgência do momento. E, obviamente, a
definição das prioridades seria na razão direta dos recursos disponíveis.
Voltemos ao álbum. Sabendo que o Ministro Sócrates despacharia no Rio,
numa data logo após a montagem do tal álbum, liguei para seu assistente e disse
que meu comandante não estava ciente, que eu não estava autorizado, mas que
precisaria de uma audiência de uns 15 minutos com o ministro.
Eu tinha consciência de que o ministro só me receberia caso levasse em
consideração o fato de que fora ele mesmo que me designara para aquele cargo
e que o faria em deferência ao conhecimento que iniciamos em Brasília. Porque
o certo mesmo seria comunicar-me primeiro com o Major Brigadeiro Elislande,
comandante do Terceiro Comando Aéreo Regional (III COMAR) ao qual eu era
subordinado. Mas o sentimento de urgência fizera-me ousar e quebrar as regras
da hierarquia.
O Ministro Sócrates me recebeu e, depois de esboçar a situação, apresentei-
lhe o álbum. Ao chegar à quarta folha, ele me interrompeu e disse:
– Chega. Pode marcar uma visita que quero ver essas coisas pessoalmente...
Não demorou muito para que a promessa se concretizasse. Mas depois de
meia hora de visita, interrompeu tudo e falou:
– Chega, não quero ver mais nada! Diga-me do quanto você precisa para
passar essa unidade a limpo; sem luxo, mas para deixá-la decente.
Acrescentei que precisávamos também de viaturas para duas das unidades
aéreas sediadas na base com o que ele também concordou.
– Está bem, quero que inclua as viaturas e priorize uma reforma na Pérgula
de Autoridades e sua ampliação. Pressenti que se priorizasse a reforma do local
por onde transitavam as autoridades – a Pérgula – antes de qualquer melhoramento
dos locais mais precários da base, seria muito provável que a atitude desse ensejo
a comentários e descontentamentos por parte de meus comandados. Resolvi
alertar o Ministro Sócrates sobre o fato. Assim falei:
– Vamos providenciar, ministro, porém, há um ponto sensível que gostaria
de lhe expor. É bem possível que o Comando da base fique mal perante a tropa se
priorizarmos de imediato a reforma da Pérgula.
– Por quê? O que você sugere?
Propus iniciarmos a reforma pelos alojamentos dos sargentos e dos soldados
que, realmente, estavam em estado muito crítico. Assim foi. Minha equipe de
auxiliares e eu atiramo-nos ao planejamento e cálculo da reforma e, já na semana

194
seguinte, enviei a estimativa de custos para o gabinete do Ministro Sócrates, que
não cortou nada do que lhe foi apresentado.
O planejamento logo foi posto em prática, e as obras foram iniciadas,
trazendo uma lufada de ânimo e entusiasmo à tropa. Mais ou menos oito meses
depois, as obras estavam concluídas, com exceção do rancho (refeitório), cuja
firma, lamentavelmente, faliu. Claro que muito mais teria de ser feito para passar
mesmo a unidade “a limpo”, porém, de acordo com as possibilidades, o que deu
para ser feito foi efetivamente realizado.

Preocupações com o tráfico de drogas

Dada à proximidade da Base Aérea do Galeão com favelas e em virtude de


jovens dessas comunidades servirem como soldados na tropa, havia um constante
estado de alerta por parte da Seção de Inteligência com relação ao uso e possível
tráfico de drogas dentro da unidade. Essa seção era chefiada pelo Major Celso,
que se preocupava com esse assunto.
Não que o fato da presença de jovens provenientes dessas comunidades na
tropa fosse necessariamente um fator determinante nesse sentido. Porém, sabia-
se que era nos morros que a ação do tráfico era comprovadamente mais efetiva.
O serviço de inteligência da base estava orientado para trabalhar no âmbito
interno da organização, ou seja, do portão da guarda para dentro. O que alguém
fizesse fora do ambiente de trabalho não nos dizia respeito, a menos que o
comportamento ou a ação do militar viesse a desabonar a imagem da FAB.
Certo dia fui notificado de uma briga entre um cabo e um taifeiro, e mandei
abrir uma sindicância, como de praxe. Fiz uma escolha pessoal e designei o
Capitão Edgard como sindicante, orientando-o a reportar-se diretamente a mim
sempre que surgisse um fato relevante na investigação.
Em apenas uma semana de sindicância, Edgard entrou na sala do comando
com um rolo de cartolina debaixo do braço, dizendo que não havia encontrado
indícios de uso de droga na briga entre o cabo e o taifeiro, porém, que havia
descoberto casos de homossexualismo na tropa.
Ele ouvira 60 militares e, com base nesses depoimentos, elaborou um
organograma com cerca de oito militares homossexuais assumidos, entre eles sete
praças e um oficial subalterno. No topo da pirâmide figurava um soldado de 1ª classe.
A sindicância desdobrou-se em dois Inquéritos Policiais Militares (IPM),
um para o oficial e outro para as praças. Os militares que haviam admitido
homossexualismo no decorrer da sindicância negaram tudo durante os inquéritos,
possivelmente orientados por seus advogados.
Fiz o que era minha obrigação, e o caso passou às instâncias competentes.
Fiquei somente um ano no comando da Base Aérea do Galeão, mas nesse

195
período foram abertos seis inquéritos e 55 sindicâncias, razões pelas quais fui
aconselhado a reforçar minha segurança pessoal e a de minha família.
Passei o comando para o Coronel Diegues no dia 24 de janeiro de 1992
– exatamente um ano depois de minha assunção ao cargo –, e o desenrolar dos
fatos na Justiça prosseguiu em seu comando. Meu dever estava cumprido e outras
obrigações me aguardavam.
Passados alguns anos, o Superior Tribunal Militar condenou todos os
militares envolvidos a penas diversas. A condenação serviria como desestímulo
a desvios de conduta como aquelas descobertas nas investigações, a respeito das
quais o regulamento militar era claro.

O surpreendente governador Brizola

As tensões que tantas sindicâncias e IPMs provocavam eram contrabalançadas


por uma parte muito interessante do cargo: a da recepção de autoridades em
trânsito pela unidade. Nessas ocasiões, eu podia me aproximar e dialogar com
pessoas às quais, em condições normais, não teria acesso. Das rápidas conversas,
por várias vezes, conseguíamos benefícios para a base.
Como previa o protocolo diplomático, sempre que o presidente da República
desembarcasse num dos estados da federação, o governador daquele estado deveria
estar presente em seu desembarque, recebendo-o e apresentando as boas-vindas.
Numa das ocasiões em que o Presidente Collor viera ao Rio, ao desembarcar
na Base Aérea do Galeão, a região da Baía de Guanabara, em frente à base,
exalava um mau cheiro quase insuportável. O Brizola, com aquela voz pausada e
em tom amigável, perguntou:
– Co-ro-nel, que mau cheiro é esse?
Eu sabia que o desagradável cheiro vinha do refluxo da baía, cujas marolas
quebravam próximo à frente do portão principal da base, mas tinha conhecimento
também que um cano de esgoto rompido próximo à Sala do Comando, nas
proximidades do portão de entrada, contribuía para piorar as coisas.
Por várias vezes, havíamos pedido ajuda a alguns setores da administração
municipal e estadual, inclusive à Companhia Estadual de Águas e Esgotos do
Rio de Janeiro (CEDAE) sem nunca termos conseguido nada além do que
promessas não cumpridas.
Falei a verdade ao governador, contando os motivos do mau cheiro, mas dando
um peso bem maior ao problema do esgoto do que na realidade este representava.
Inclusive contei-lhe que fiquei muito constrangido, dias atrás, pois tínhamos recebido
o chanceler da Alemanha, Helmut Kohl, em condições idênticas às daquele dia.
Com aquele seu jeito gaúcho de falar, me disse: “Mas como, coronel?!
Como é que o senhor tem um problema desses e nunca me pediu nada?!”

196
Nossa conversa foi interrompida pela chegada do presidente. Brizola o
recebeu, decolaram de helicóptero em visita à cidade e, na volta, estando eu certo
de que ele já havia se esquecido do problema do mau cheiro, falou: “Coronel,
deixe comigo que vou resolver seu problema.”
Comecei a acreditar em sua promessa.
Na noite daquela sexta-feira, tivemos um compromisso, minha esposa e
eu, e, ao retornarmos para casa – morávamos numa residência dentro da base –,
dei um giro pela unidade, como sempre fazia quando voltava à noite de algum
lugar. Gostava de verificar se estava tudo em ordem. Depara-mo-nos com três
viaturas grandes da CEDAE, além de uma equipe de operários sob o comando
de um engenheiro. Uma agitação que não consegui entender de imediato. Ao
me aproximar do local, o oficial de dia me relatou que aquele pessoal estava a
serviço, por determinação do governador, para solucionar o problema do esgoto.
Meu queixo caiu!!! Aquela ideia que tinha do político Leonel Brizola, do líder
incendiário, agressivo, de língua afiada e que, com certeza, não morria de amores
por militares, teve de ser reconsiderada naquele momento. O homem não era só
aquilo, não! A lembrança que eu tinha dele datava da época de sargento novinho,
quando cheguei ao Rio Grande do Sul, logo após a Campanha da Legalidade
liderada por ele quando governador, na posse de João Goulart. Lembram?
A operação de recuperação da rede de esgoto da base foi muito trabalhosa
e durou um bom tempo. Os engenheiros nos pediram mapa da rede, mas, que
mapas? Não tínhamos nada de substancial nesse sentido. Foram encontradas umas
plantas antigas e, a partir delas, os responsáveis pela tarefa deram lá seu jeito. No
fim, chegaram aonde precisavam chegar e concluíram que a base tinha vários
quilômetros a mais de rede de esgoto do que se supunha. Depois de trabalhar por
cerca de dois meses, a equipe sumiu, sem concluir o trabalho. Pra quê???!!!
Eis que aparece outra vez o governador para receber o presidente e me
pergunta como ficou a obra. Disse-lhe que o pessoal havia trabalhado arduamente
e que lamentava que o finalzinho tivesse ficado sem conclusão. Ele se alarmou:
– Mas, co-ro-nel, como é possível!?
Dali mesmo gritou para um dos secretários de estado que o acompanhava
e lhe relatou contrariado o fato. Com certeza, alguma orelha foi puxada, porque
logo recebi um telefonema de um de seus assessores e a obra foi completada.
Ganhou a base!

O temido Presidente Collor

Lembro que, por várias vezes, recebi o Presidente Fernando Collor. Numa
dessas oportunidades, perguntei-lhe se, ao assumir a Presidência da República,
ele fazia ideia de que o país estivesse em situação tão difícil. Ele disse que não e

197
completou com alguns comentários. De outra feita, perguntei-lhe se, na opinião
dele, o Brasil conseguiria dar seu salto rumo ao progresso, sem perda de tempo.
Ele respondeu que acreditava no potencial do país, mas que os entraves eram
muito grandes. Ao perguntar que entraves seriam esses, ele citou um, o que julgava
de maior vulto, a ganância de “nosso empresariado”. A classe de empresários,
segundo sua apreciação, não fazia concessões quanto ao grande percentual de
lucro, ao mesmo tempo em que apresentava uma curta consciência social.
Quando o Presidente Collor chegava à Pérgula, eu observava que seus
assessores lhe guardavam uma distância respeitosa, para não dizer temerosa ou
assustada. Algumas vezes, até mesmo sobressaltada. Sua postura não permitia
aproximação. Era cada um em seu lugar, cada um em suas funções e nada de
intimidade, mesmo que fossem ministros de seu governo.
Lembro-me de sua visita à Espanha, quando passara pelo Rio para embarcar
em uma aeronave da Varig. De seu gabinete veio o pedido para gravarmos o
Jornal Nacional, já que estaria no avião justo no horário em que o programa
estaria sendo apresentado. Não lembro que notícia ele queria ver. Sei somente que
o Major Mendonça fizera a gravação em sua casa e providenciamos a televisão e
o videocassete para que assistisse ao programa.
Lembro que seu assessor de imprensa aproximou-se do local onde ele estava
sentado e falou-lhe algo em voz baixa. Ele não moveu um músculo da face; não
lhe deu a menor atenção; era como se ninguém tivesse se aproximado dele. Devia
ser muito difícil trabalhar com ele.
Certa feita, modificamos a posição da passarela vermelha por onde Sua
Excelência caminhava até a Sala de Autoridades. Pra quê??? Vi a hora em que o
pessoal de sua assessoria teria um ataque de nervos no temor que a autoridade se
aborrecesse.
Mas apesar dessas impressões, sempre busquei entabular alguma conversa
com ele no intuito de marcar presença como comandante da Base Aérea do Galeão
que o recebia e recepcionava. E apesar de sua austeridade, foi sempre cortês. Não
tenho do que me queixar, para ser justo.

A distante primeira-dama presidencial

Agora, a primeira-dama, a senhora Rosane Collor, era um caso à parte. Quando


vinha acompanhada pelo marido, nos cumprimentava friamente, desatenta, mas
cumprimentava. Quando vinha sem ele, na companhia de sua secretária, a senhora
Eunícia, sequer nos olhava. Estendia a mão, como que cumprindo uma obrigação
que a aborrecia, e não tomava conhecimento de nossa presença. Sua atenção era
voltada para a aparência pessoal. E para rir junto com seu séquito. Lembro que,
numa oportunidade, ficamos ao pé da escada, dona Neuza Brizola, primeira-

198
dama do estado, e eu, esperando sua descida da aeronave, por mais ou menos 20
minutos, sem que a senhora Rosane se dignasse descer ou que mandasse sequer
um aviso de quando o faria.
Depois de certo tempo e de muitos fins de semana interrompidos para vestir
a farda e ir recebê-la, liguei para o Coronel Carneiro, comandante da Base Aérea
de Brasília, e lhe disse:
– Carneiro, não sei como você procede aí com relação à primeira-dama,
mas, aqui no Rio, a partir de agora, quem vai recepcioná-la será o oficial de
permanência. Cansei.
Não sei se por ser muito jovem e ainda não ter maturidade suficiente para o
desempenho da função de uma primeira dama..., o fato é que, em meu julgamento,
ela deixava a desejar quanto a corresponder à cortesia de ser bem recebida pela
Força Aérea e não atentar para o fato.
Sempre me considerei disciplinado e paciente, mas, nesse caso, cansei
mesmo. E, a partir daquela data, deixei com o oficial de permanência sua recepção.
Óbvio que, para ela, não fazia a menor diferença, já para mim, fazia muita.

A simpatia dos príncipes ingleses

Com toda certeza, a visita que mais me marcou e acho que à maioria dos
que estiveram envolvidos no evento foi a passagem da Princesa Diana pela
Base Aérea do Galeão. Ela era encantadora. Uma suavidade. Passava um quê de
humildade que cativava. E era linda.
Por não ser autoridade constituída, posto que princesa, de acordo com o
cerimonial, não tinha direito a honras militares. Demos nosso “jeitinho brasileiro”
para bem recepcioná-la. Colocamos uma passarela vermelha para seu trânsito entre
uma ala formada por Policiais da Aeronáutica (PA), porém, sem toque de corneta.
Detalhe importante: os Príncipes de Gales chegaram ao Rio em dias
diferentes e, logicamente, em aeronaves distintas. Cada um cumpriu seu programa
de visitas ao país. Um fato que marcou: em seu retorno ao Reino Unido, depois
de passar pela tal passarela vermelha, a princesa perguntou-me, num tom tão
suave que parecia que pedia um dos maiores favores do mundo, se poderia tirar
uma foto com os batedores da Polícia Militar (PM) que haviam feito sua escolta
nos deslocamentos pelo Rio. Foi um lance de sensibilidade, muito possivelmente
“soprado” por seu cerimonial, mas que encantou. Após a foto, apertou as mãos,
um a um, dos motociclistas que, obviamente, se derreteram com o gesto.
A lembrança da Princesa Diana é guardada por mim com saudade. Fiquei seu fã.
A passagem do Príncipe Charles pela Base foi feita, como mencionei, em
outro dia, e com ele adotamos o mesmo procedimento. Ele demonstrou muita
classe, atenção e alto trato para conosco. Tendo viajado por todo o mundo desde

199
pequeno, demonstrava uma tranquilidade tão grande a ponto de, durante o trajeto
pela passarela, apontar para o pátio de estacionamento e, num tom amável e
simpático, perguntar se aquelas aeronaves britânicas, os C-91 Avro, ainda eram
úteis à Força Aérea Brasileira. Comentou que alguns países africanos também
delas faziam uso.
A grande responsabilidade, as inúmeras providências, os procedimentos,
as minúcias e a rigidez do cerimonial britânico nada representaram diante do
carisma do “casal real”, mas, na verdade, a grande estrela era a Princesa Diana.
Passados alguns dias, recebemos uma carta de agradecimento da Embaixada
do Reino Unido, acompanhada de foto ampliada da princesa com os motociclistas,
em que pedia que a encaminhássemos ao comandante daquela unidade.
Outra experiência marcante foi receber o Presidente Nelson Mandela, um
líder expoente que dedicou sua vida ao povo sul-africano.
Entre muitas autoridades que passaram pela Base Aérea do Galeão, destaco
o Primeiro Ministro da Malásia, Mahtair Mohamed, em junho de 1991.

Encerrando o comando

Devo afirmar que a constante boa vontade e o apoio do Ministro Sócrates e


de seu gabinete foram fundamentais para o êxito de meu comando.
Outros apoios, como é o caso do Brigadeiro Pettersen, então chefe da
Subsecretaria de Finanças da Secretaria de Economia e Finanças da Aeronáutica
(SEFA) – foram de extraordinária representação. Lembro que, no fim de 1991,
ele me ligou e disse:
– Walacir, tenho aqui e posso te disponibilizar créditos não utilizados por
outras organizações, desde que você possa empenhá-los até o fim do ano. Diga-
me de quanto precisa.
Sabedor de que essas situações normalmente ocorriam no fim do exercício
financeiro, de pronto aceitei a oferta, recebendo o valor que podíamos utilizar até
a data-limite para empenho.
O amigo Brigadeiro Pettersen fazia parte do 1°/14° – Esquadrão Pampa
–, aquele esquadrão de caça onde fui me “esconder” logo depois de formado
sargento, estão lembrados?
Tive a sorte de, mais uma vez, ter como equipe um grupo de auxiliares
em quem pude confiar e com quem pude compartilhar êxitos e problemas. Não
mencionarei nomes pelo receio de cometer a injustiça de deixar passar algum, no
entanto, tenho certeza de que esses amigos têm noção do quanto os aprecio e o
quanto lhes sou agradecido.
Como já disse, do comando previsto para duração de dois anos fiquei um
ano somente. O motivo não poderia ter sido mais gratificante. Quando completava

200
oito meses no cargo, precisamente numa noite de sexta-feira de setembro de
1991, o telefone tocou em casa e, ao atender, percebi que era o Major Brigadeiro
Rebello, chefe de gabinete do Ministro Sócrates.
– Walacir, você está sentado? Se não estiver, então se sente. O Ministro
Sócrates resolveu interromper seu comando para que você possa fazer o Curso de
Política e Estratégia Aeroespaciais (CEPEA), pois vai designá-lo, após o curso,
para chefiar a Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa, ou seja, você vai
trabalhar dois anos em Londres. Surpreso?
Muito mais que isso! Jubiloso e profundamente agradecido por mais essa
distinção e pela confiança por parte do Brigadeiro Sócrates.
Obrigado, Coronel Miranda, que soube ser discreto: um chefe! Entenderam?
Para os que não têm conhecimento dos regulamentos e das normas
administrativas da caserna, um oficial superior, no meu caso coronel, precisa,
obrigatoriamente, completar os cursos estipulados ao longo da carreira em um
número estabelecido de anos. Só com esses cursos concluídos o coronel poderá
concorrer à seleção ao generalato. Em meu caso, se eu fosse para a Inglaterra
sem o CPEA concluído, ou interromperia a missão de dois anos na metade e
retornaria para realizá-lo, ou, como foi decidido pelas autoridades: interromper-
se-ia o comando para que o curso fosse feito.
Lembro que, na noite em que recebemos a notícia, minha esposa e eu
mal dormimos de tanta surpresa, alegria e ansiedade. Mal dormimos, também,
pensando que, até que pudéssemos cruzar o oceano e pisar no solo europeu, um
longo ano teria de transcorrer. Muita água por baixo da ponte poderia correr a
nosso favor ou contra.

201
Capítulo 19

Curso de Política e Estratégia


Aeroespaciais
D esocupamos o imóvel privativo do comando da Base Aérea e nos
mudamos para um apartamento na Vila dos Oficiais do Galeão,
na Praia Belo Jardim, situada na altura da Praça do Avião. A vila já era nossa
conhecida. Nela havíamos morado por 11 meses em 1985. Os prédios de
apartamentos, todos de frente para a baía, eram destinados a oficiais, alunos e
estagiários dos cursos da ECEMAR
Quem teve a oportunidade de morar em um deles, com certeza, guarda
na memória o privilégio de ter vivido, um dia, em um cartão-postal. Porque a
paisagem é linda. Quer de dia, quer de noite, com sol ou com chuva, com lua,
estrelas ou na ausência delas, o cenário é sempre uma pintura.
Só lamentávamos a impropriedade da água para banho, mas como já dizia a
raposa do Pequeno Príncipe, de Saint Exupéry, “nada é perfeito”. Porém, apesar
da poluição, aves, como garças-brancas e mergulhões, se exibiam diante de nós
em voos rasantes e pousos perfeitos, acrescentando graça e encanto àquele pedaço
do Rio de Janeiro.
O Curso de Política e Estratégia Aeroespaciais (CPEA) do ano de 1992
contou com a participação de 30 coronéis. Boa parte deles já sabia seu destino
pós-curso, de modo que, somando-se a isso o fato de não haver corrida por
classificação intelectual, o ambiente era descontraído e bastante cordial. Faziam
parte da grade curricular aulas, palestras, trabalhos e visitas a alguns estados e a
bases – brasileira e chilena – na Antártica.
Nos estados visitados – Rio Grande do Sul, Ceará e Bahia – assistimos a
palestras ministradas por seus governadores, respectivamente: Alceu Collares,
Ciro Gomes e Antônio Carlos Magalhães.
O governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, foi até nós, na Universidade
da Força Aérea (UNIFA), no Campo dos Afonsos, proferir sua palestra. Para um
político que passara por cassação, seu gesto demonstrou muita autoconfiança.
Admirei-o por isso.
O debate com ele foi até engraçado. Esperto como era e querendo “vender
seu peixe” para qualquer pergunta que fosse feita e sobre qualquer assunto, sua
resposta sempre se direcionava para o Centro Integrado de Educação Pública
(CIEP), criado em sua administração pelo antropólogo e educador Darcy Ribeiro
e que era a “menina de seus olhos”. Não era para menos, o projeto era bom, muito
bom mesmo. Pena que, propositalmente, deixaram-no morrer. Não lhe deram

202
continuidade nos governos subsequentes. Política miúda.
No fim do encontro, ele nos disse: “Os senhores já imaginaram os generais,
os coronéis que passam para a reserva com grande experiência acumulada,
administrando cada um deles um CIEP?”
Sorrisos pela audiência toda.
Ainda hoje tenho gravado nos ouvidos aquele seu jeito pausado de falar. Um
grande orador!
Creio que a visita às bases chilena e brasileira na Antártida foi para todos
um dos pontos altos do curso. Para mim, voltar àquela parte do globo foi uma
oportunidade empolgante, pois, desde minha primeira visita, aquela por ocasião
do curso na Argentina, tornei-me um apaixonado pelos intermináveis maciços
brancos e azuis de suas magníficas geleiras.
Concluído o CPEA, em dezembro, ficou-nos, além da satisfação do ganho
intelectual, o enriquecimento da convivência com companheiros que, por
injunções, como a de pertencerem a turmas variadas e de terem seguido caminhos
distintos dentro da FAB, não estabelecêramos, até então, maior contato. Foi o ano
mais tranquilo de minha carreira.

203
Capítulo 20

Chefia da Comissão Aeronáutica


Brasileira na Europa
Rumo ao exterior

F inalmente, chegou o grande dia! Dois de janeiro de 1993! Planejamos


nossa ida para a Inglaterra via Estados Unidos. Queríamos visitar
meu irmão e sua família, em Los Angeles, e adquirir indumentária adequada
ao inverno da Europa, que encararíamos em seu auge logo na chegada em solo
europeu.
Fomos muito bem recebidos nos Estados Unidos, dado o apoio dos
companheiros da FAB que ali se encontravam em missão. Chefiava a Comissão
Aeronáutica em Washington (CABW) o Coronel Aviador Caminha, que nos
recebeu para um jantar em sua residência. Também ali se encontrava em missão
o Coronel Bastos, de quem jamais esqueceremos a paciência e a boa vontade
com que nos acompanhou na “via sacra” pelos shoppings na busca por artigos de
inverno. Bastos e Suely, igualmente, nos receberam em casa.
Vimos na TV a posse de Bill Clinton como o 42° presidente dos Estados
Unidos da América, no dia 20 de janeiro de 1993, em Washington. Lembro-
me do frio intenso, das pessoas encapotadas e do clima de alto patriotismo dos
americanos.
Dias antes de deixarmos nosso país, um sórdido crime sacudira o Brasil.
Falo do crime praticado pelo ator Guilherme de Pádua e sua mulher, Paula
Tomás, que acabou com a vida da atriz Daniela Peres, filha da novelista Glória
Peres, da Rede Globo. Tanto Daniela como Guilherme atuavam na novela Corpo
e Alma, no horário nobre da referida emissora, quando o crime se deu. A tragédia
que paralisou os brasileiros por sua brutalidade extrapolou as fronteiras do país
e virou manchete nos Estados Unidos e no Reino Unido. A triste história se
manteve em primeiro plano na mídia por um bom tempo, constrangendo a nós
todos, brasileiros, por onde passávamos.
Desde que soubera de minha indicação para a Comissão Aeronáutica
Brasileira na Europa (CABE) procurei informações com oficiais que passaram
pela mesma experiência ou por experiência parecida. Queria saber sobre hábitos,
costumes, clima, cultura e o dia a dia num continente com características tão
distintas do nosso. Algumas informações nos foram de grande utilidade,
principalmente na fase de adaptação; outras não corresponderam à realidade
e, depois de algum tempo, passamos a relativizá-las. Junto com as corretas

204
informações, percebemos, também, certa dose de “pagação de mistério”.
Concluímos que alguns supervalorizavam suas experiências, que outros “sofreram
no exterior” e que ainda outros viveram bem a experiência.
Em dada ocasião, o Brigadeiro Sócrates nos contou sobre uma visita que
fizera a um oficial em missão de dois anos no exterior, cuja família marcava com
um xis num calendário os dias que faltavam para seu retorno a uma pequena
capital de nosso país. Para ele, uma atitude fora de concepção. Pois é...
Em outra situação, dessa vez com o Brigadeiro Murillo, perguntei-lhe como
era viver em Washington, local em que, na época, ele se encontrava em missão.
Ele me respondeu que, no começo, era aquele deslumbramento, aquele querer
ver tudo, comparar, aprender, dominar a cultura, o idioma... Depois, era ir ao
supermercado, à farmácia, ao médico, ler os jornais, estar a par das notícias,
cumprir uma rotina como a que tínhamos no Brasil, tudo muito parecido na
maioria dos aspectos.
Grande verdade!
A gente se leva para qualquer lugar aonde vá e recebe na devida medida do
quanto estiver pronto para “se” acrescentar.

Abraço acolhedor

Diolásia, Laíse e eu chegamos a Londres na manhã de 22 de janeiro de 1993,


positivamente ansiosos, olhos atentos a tudo, radar ligado, prontos para viver
bem as experiências que nos fossem oferecidas. Nosso filho Jeferson ficara no
Brasil e só se juntaria a nós em março.
Fomos recebidos no aeroporto de Heathrow pelos oficiais da CABE e suas
esposas. Dali a alguns dias eu substituiria o Coronel Chagas que se achava em
trânsito, viajando. O Tenente Coronel Sabino, então chefe interino, e sua esposa,
Zélia, fizeram as honras da casa. Aliás, não apenas nos receberam no aeroporto,
como repetiram a postura do o Coronel Ary, em Buenos Aires, em 1988, passando-
nos informações muito proveitosas e pertinentes sobre como viver no Reino
Unido. O casal nos “apresentou” a Londres.

A missão e a equipe

Assumi a chefia da CABE na ensolarada – acreditem! – manhã do dia 1º


de fevereiro de 1993. A solenidade de transmissão de cargo foi presidida pelo
embaixador do Brasil em Londres, Paulo de Tarso Flecha de Lima, e pelo recém-
assumido adido aeronáutico no Reino Unido, na época, o Coronel Juniti Saito.
A CABE, para os que não conhecem sua missão, centraliza as aquisições de
material e serviços em países europeus, asiáticos e africanos destinados à Força

205
Aérea Brasileira. Muitas dessas aquisições eram – e são – efetuadas por meio
de contratos internacionais, fato que nos levava a transações, em média, em 13
moedas diferentes. Naquela época, não havia ainda o euro.
A SEFA nos enviava quantitativo em dólar, que depositávamos e
aplicávamos em nossos bancos brasileiros, resgatando numerários de acordo com
as necessidades das despesas. Mantínhamos contato constante com os gerentes
de nossos bancos, para comparar vantagens para aplicarmos da melhor forma
possível nossos fundos financeiros, razão pela qual desenvolvemos amizade com
tais gerentes e suas famílias.
À época, os bancos brasileiros presentes na praça de Londres eram: Banco do
Brasil, cujo gerente era o senhor Luis Carlos Alvarenga; Banco Real e o Banespa.
A estrutura organizacional da CABE manteve-se a mesma da época do
Coronel Chagas. Seus auxiliares diretos eram o Coronel Aviador Sabino, Tenente
Coronel Aviador Burnier, Tenente Coronel Intendente Floriano e o Major
Intendente Lino, que foram substituídos ao longo de minha missão pelo Coronel
Aviador Almeida Prado, Tenente Coronel Aviador Lozano, Tenente Coronel
Intendente Barreto e Tenente Coronel Intendente Salum. Esses eram auxiliados
por 35 funcionários: 34 civis e um ex-militar da Aeronáutica, o suboficial Lopes.
O Lopes, apelidado carinhosamente de Véio por seu chefe direto, o Burnier, era
uma unanimidade: gozava da admiração e do respeito de todos pela dedicação
à CABE. Começava seu expediente sempre antes dos outros funcionários, pela
honra, dizia ele, de hastear nossa bandeira na parte frontal do prédio e de cuidar
das plantas, funções que executava voluntariamente.
Seria injusto deixar de mencionar o nome de vários colaboradores civis
nestas memórias. Na tentativa de minimizar grandes injustiças, limitar-me-ei a
listar alguns – e olhem que é dificílimo fazer o que me proponho. Por meio destes,
cumprimento e agradeço aos demais funcionários pela eficiência e dedicação à
causa da FAB em solo de Sua Majestade, a rainha Elizabeth II. São eles: senhora
Rose Meyre Johson, secretária do chefe da CABE; os motoristas Manoel, de
saudosa memória, e Miranda, culto português sempre pronto a nos passar valiosas
informações culturais; Ralph, José Carlos e a senhora Marta Wright. Meu respeito
a todos.
Era bom estar em Londres, morando numa casa bem situada, nas
proximidades da Oxford Street, importante rua de comércio. Era bom poder
usufruir da cultura do Primeiro Mundo, visitando museus, galerias de arte,
frequentando concertos, apresentações de teatro e viajar nos feriados para locais
os quais nunca pensáramos antes existir. Era muito agradável poder caminhar nos
bem tratados parques, com uma tranquilidade, incomparavelmente maior que a
daqui do Brasil e era extraordinariamente bom poder dispensar a chegada do final
do mês para verificar se a conta bancária estava ok. Mantínhamos a mesma forma

206
de viver que tínhamos no Brasil e o salário cobria bem satisfatoriamente nossas
despesas domésticas, viagens, lazer e cursos.
A parte menos agradável do cargo, vamos colocar assim, dizia respeito
à organização da variedade de contratos da FAB com os funcionários civis; à
implantação do sistema de informática, que se arrastava há algum tempo, o que
muito aborrecia as autoridades da SEFA; à atualização das prestações de conta que
também se arrastava; e às dissensões do dia a dia, causadas, muitas delas, pelos
diferentes tipos de contrato que regiam a prestação de serviço dos funcionários.
Passados alguns meses, finalmente, conseguimos a tão sonhada autonomia no
Setor de Processamento de Dados da Comissão. O fato propiciou o encerramento
do contrato da CABE com a empresa prestadora de serviços de informática, da
qual dependia há quase 20 anos. O foco nesse objetivo me fora destacadamente
recomendado pelo Brigadeiro Pettersen, da SEFA. Com essa autonomia, a FAB
passou a economizar uma boa quantia anual em dólar. Uma grande despesa a
menos!
Ainda no período de 1993/1994, efetuou-se necessária reforma nas
instalações gerais da comissão e foram revistos alguns daqueles contratos sobre
os quais comentei anteriormente, dos funcionários civis. Para esse fim, a comissão
contratara os serviços de assessoramento de um escritório de advocacia local, o
que não evitou preocupações e os aborrecimentos.

O ganho intelectual da família

Nossa vida doméstica, graças a Deus, transcorreu tranquila. No tocante à


educação de nossos filhos, acredito termos alcançado o melhor proveito, dentro
das possibilidades. Nosso filho Jeferson fez matérias na área das exatas na Open
University – ele cursava engenharia na UFRJ – e frequentou o Kensington College
of Business, onde cursou business administration. Esse curso, sugerido numa
visita que o Coronel Amorim nos fez, lhe abriu portas para, depois de formado
em engenharia, trabalhar na Unilever, em São Paulo.
Nossa filha Laíse fez o primeiro e o segundo ano do ensino médio por
correspondência, pelo Colégio Anglo-Americano. Confesso que a experiência
foi cansativa e desmotivante – uma chatice! –, mas não havia outra saída. Seria
um contrassenso vê-la se atrasar por dois anos em seus estudos no Brasil, por
frequentar tão somente a escola pública inglesa que, apesar de lhe acrescentar
conhecimento e propiciar relacionamento com jovens de sua idade, não
correspondia às demandas pelas quais passaria quando voltasse para o Brasil.
O material didático do Anglo-Americano era fraco, chegava muitas vezes
em cima do prazo para a devolução das tarefas e era muito caro pelo que oferecia.
Todos nós, de casa, nos lembramos de seu último trabalho. Foi um acontecimento!

207
Ela nos chamou até seu quarto, juntou todas as apostilas e, num gesto de suprema
libertação, jogou-as para cima, promovendo uma “chuva de saber” sobre sua
cabeça. O gesto, com direito à tão seleta plateia, nos libertava também. Que
alívio! Até celebramos.
Ao chegar ao Rio e voltar a estudar na Escola Modelar Cambaúba, na Ilha
do Governador, onde cursara os dois últimos anos antes de nossa ida para a
Europa, ela viveu o sufoco de um terceiro ano do ensino médio em que alguns
professores assim diziam: “Essa matéria, nós invertemos a ordem de apresentá-
la; nós a abordaríamos agora no terceiro ano, mas já a vimos quando estudamos o
tema ‘x’, no ano passado, vocês se recordam, não é? Portanto, não vamos voltar
ao que já estudamos...”
E, aí? E agora, José? Era correr atrás do prejuízo, pois aquele seria o ano
do vestibular, ano por si só já muito estressante para qualquer aluno. E para sua
família também!
Mas o que aconteceu com nossa filha, com toda certeza, acontece e continuará
acontecendo, de uma forma ou de outra, com outros jovens que estudaram fora,
por terem de acompanhar os pais em missões. No fim, nada “do outro mundo”;
só um pouco mais de dificuldades, de longe sobrepujadas pelos ganhos culturais
adquiridos nas experiências diversas.
Uma das experiências muito boas do período em Londres foi o agradável
relacionamento com a comunidade brasileira, sobretudo com os gerentes de
bancos nacionais do Brasil lá sediados, como já mencionei, e com os integrantes
da comissão similar a nossa, da Marinha do Brasil. Falo o mesmo a respeito da
nossa embaixada e das adidâncias das três Forças.
O trato sempre elegante e cordial entre nosso adido, o Coronel Saito, e a CABE
teve um enorme peso no equilíbrio com que nossa missão foi desempenhada.
Guardamos agradáveis lembranças do contato entre nossas famílias nos encontros
sociais e, sobretudo, na harmonia funcional. Havia, em síntese, consistente
entendimento e segura base de solidariedade entre os membros da comissão, suas
famílias, a adidância e demais companheiros da comunidade brasileira.

Viagem relâmpago a Moscou

Em 1994, segundo ano em Londres, recebi um telefonema do Coronel Mon-


tgomeri, subchefe da Aeronáutica do Gabinete Militar da Presidência da Repú-
blica, consultando-me sobre a disponibilidade de estar em Moscou em 48 horas
para uma missão. Afirmei que sim, e ele me descreveu as tarefas a serem desin-
cumbidas naquela capital.
O motivo daquele telefonema é que haveria a possibilidade de um pouso técni-
co do avião do Presidente da República Itamar Franco, na capital russa, quando de

208
sua visita próxima à China. Tal solicitação, assim tão “a toque de caixa”, deveu-se
ao fato do curto tempo hábil, de um ‘escalão avançado’ para levantar dados, como:
condições e procedimentos de navegação, reabastecimento de aeronave, local de
estacionamento da mesma, taxas a pagar, recepção à autoridade e demais proce-
dimentos inerentes à passagem de um chefe de estado estrangeiro por outro país.
Ok, missão a cumprir, vamos lá!
Dava-me confiança a experiência adquirida nas inúmeras viagens precurso-
ras das quais participara como ajudante de ordens do Presidente Geisel.
Visto diplomático autorizado, foi só arrumar a mala e me mandar para o
aeroporto. Rapidamente a Diolásia providenciou alguns alimentos brasileiros não
perecíveis, que tínhamos em nossa dispensa, embalando tudo numa caixa, no pro-
pósito de presentear os patrícios home-sick em missão na Rússia.
E, então, munido de doce de caju e goiaba, café, feijão-preto, alguns biscoi-
tos, farinha de mandioca, bombons Sonho de Valsa e outras coisas mais de que já
nem lembro com exatidão, embarquei para Moscou.
Quando o avião procedente de Londres estacionou no Aeroporto Domedovo,
adentrou na aeronave uma senhora alta, a meus olhos com perfil de agente da
KGB, falou um nome que identifiquei como o meu e, educadamente, convidou-
me a acompanhá-la. A tal senhora deveria ter poder, pois, por onde passávamos,
as portas iam se abrindo; logo percebi que sua presença impunha muito respeito.
Conduziu-me a uma sala e falou-me para aguardar. Achei estranho, mas tudo
bem. E tome de esperar...
Depois de um bom tempo, ouvi uma pessoa falar em espanhol – animei-me
com aquele som, para mim, naquela situação, elevado à posição de “familiar” – e
lhe solicitei ajuda para telefonar para nossa embaixada, pois, até então, ninguém
me explicara o porquê de minha permanência ali, daquela espera e muito menos
o motivo pelo qual fora separado dos demais passageiros.
Ao conseguir contato, informaram-me que dois representantes de nossa
embaixada me aguardavam na área de desembarque há cerca de duas horas, sem
que tivessem a menor notícia de meu paradeiro. Quando falei onde me encontrava,
meu interlocutor, do outro lado da linha, demonstrou grande surpresa. “Como?!!!”
Não conseguia acreditar que eu estivesse em tal recinto. Ele exclamou: “Você
deve estar na sala VIP! Normalmente, levamos mais de um mês para nosso
embaixador poder usá-la!”
Então pensei: onde é que eu vim me meter?! E por que, meu Deus?! Pois,
o que poderia ser uma situação de privilégio, destinada a altos cargos – que
não era meu caso –, para mim já estava se configurando como uma situação
desconfortável e preocupante.
Mas mantive o “ajuste”. Permaneci onde estava, aguardando que alguém
viesse a meu encontro. E o tempo continuou passando... E eu já estava sentindo

209
fome... Como havia uma minilanchonete no local, tentei comprar um salgado.
Em vão, pois, ao perguntar se aceitavam cartão de crédito, um atendente balançou
a cabeça negativamente e com veemência; ao mostrar uma nota de dólar, outro
gesto negativo. E a fome foi aumentando...
Por mais que refletisse, não compreendia o porquê de tanta demora. Até que
trouxeram minha bagagem! Aquela caixa de papelão, dentro da qual estavam
o café, o feijão-preto, os bombons e o restante das coisas que eu trouxera para
o pessoal de nossa embaixada, não se apresentava simplesmente aberta: estava
escancarada e toda remexida. Aí, então, compreendi tudo... Na realidade, eu até
esperava que fossem revistar aquele volume; até brincara com a hipótese, enquanto
a Diolásia empacotava as coisas, acomodando tudo muito organizadinho dentro
daquela caixa. Mas no decorrer da viagem, esqueci o fato. E mesmo que o tivesse
lembrado, nunca iria imaginar que uma inspeção se estendesse por tanto tempo.
Bom, afinal, com a tal caixa toda destrambelhada a bordo, apareceram os
acompanhantes que me levaram até nossa embaixada, local de minha permanência
na próxima semana.
No dia seguinte, participei de uma reunião com mais de 20 pessoas de
diversos órgãos do governo. Com a ajuda de um intérprete, vim a entender as
deferências recebidas, como o fato de eu ter sido conduzido à sala VIP e da
atitude respeitosa com que me tratavam naquela reunião, com os assessores do
governo. Os russos me tomaram por alta autoridade do governo brasileiro. Menos
ruim. Pior se achassem o contrário. Mesmo assim, o episódio da caixa “foi mal”.
E eu ainda pensava no incidente.

Impressões da capital soviética

Moscou me surpreendeu. Achei-a triste, meio deprimente, um tanto


decadente. Vi muito jovem bebendo nas ruas e nas estações de metrô. Vi senhoras
idosas conduzindo “um” pão embaixo do braço, oferecendo-o à venda; um
pão somente! Vi outras idosas escondendo cachorrinhos dentro de suas blusas,
também os oferecendo à venda, e vivi a dificuldade de comprar até cartão-postal
e selo. Lembrem-se: falo do ano de 1994.
Na embaixada, alertaram-me: não tente fazer lanche na rua. Se for sair e
demorar, leve comida, pois aqui é diferente.
Claro que qualquer turista tem muito com o que se chocar ao visitar, por
exemplo, uma metrópole como o Rio de Janeiro, com o grande número de
mendigos dormindo nas calçadas, com menores cheirando cola, assaltando
transeuntes à luz do dia, na cara de todos; com a prostituição de adolescentes
correndo solta e com muitas outras terríveis mazelas sociais. Porém, e aí está
o motivo da surpresa: eu não esperava ver o que vi, na capital de um país que

210
saiu à frente nas pesquisas científicas espaciais, que colocou o primeiro homem
em órbita da Terra, apregoou as maravilhas do comunismo e que, durante tanto
tempo, amedrontou o mundo com seu poderio bélico. Não! Aquela realidade
social não “batia”!
Porém, justiça seja feita: teve o lado bonito! Fiquei, como todo visitante,
deslumbrado com o Kremlin. Literalmente, maravilhei-me! Como Nancy Reagan
se admirou em sua visita à então União Soviética. Como ela, entendi porque,
naquele país, houve uma revolução tão sangrenta justificando a luta por um pouco
de igualdade social. Aquele luxo era estonteante demais. O requinte era também
demais. Exponencial! Arte? Igualmente demais! Magnífico! Lembrei-me do
filme Doutor Jivago...
Mas a meu embevecimento com o Kremlin se contrapôs a observação do
ácido ressentimento das poucas pessoas que contatei e que me afirmaram ser o
pensamento geral do povo: eles detestavam seus governantes. O próprio intérprete
que me acompanhara na reunião com pessoas graduadas do governo me falara
que sua maior alegria seria presenciar uma invasão de marines americanos à
Rússia. Teste para ver minha reação? Não sei.
O que esse russo me contou, com muito desencanto e amargura, é que
sua mãe, tendo trabalhado como professora a vida inteira para o governo, se
aposentara com proventos correspondentes a cem dólares por mês, o que longe
estava de cobrir suas despesas. A citada senhora morava na Sibéria. Porque na
Sibéria, não sei. O que sei é que falar em Sibéria me soa até hoje como castigo,
deportação, local para onde são mandados os dissidentes do regime. Mas acho
que esse não era o caso da tal senhora. Afinal, nem todo mundo que vivia ou vive
na Sibéria era ou é dissidente político. Como diz o Jô Soares: “Menos, menos...”
O que guardei daquele russo que falava tão bem o português e que trabalhava
em nossa embaixada foi a tristeza de um ser humano profundamente desiludido e
preocupado com sua pátria.
Uma vez mais, repito: meu assombro ficava por conta dos motivos que citei
anteriormente. Não esperava um nível de descontentamento nem uma situação
social tão incômoda como a que vi em se tratando de uma grande potência.
Potência bélica. Depois entendi. Com absoluta certeza, teríamos casos bem piores
aqui no Brasil, porém, aqui, vivíamos no terceiro mundo! Em minha apreciação, a
situação social de um país que por tanto tempo disputara com os Estados Unidos
a supremacia mundial não poderia se apresentar daquela forma, digo, com aquela
gravidade. Mas, enfim, o desconhecimento histórico era meu. A Rússia passava
por uma crise financeira seriíssima e uma coisa arrasta muitas outras.
Mas voltando à história do ressentimento russo contra o governo, me lembrei
de uma conversa relatada por alguém, que já nem lembro quem, mas que é verdadeira
e da qual recordo com precisão. Durante um voo espacial, aí por volta de 1989

211
ou 1990, certa nave russa teve problemas no espaço com o fechamento de uma
porta, pondo em risco, não só a missão, mas a sobrevivência de seus astronautas.
O mundo acompanhou a agonia do conserto daquela avaria, que, afinal, teve bom
desfecho. A pessoa que me contou esse diálogo tinha algum contato com um senhor
russo ou ucraniano, daqueles lados, e, contente pelo êxito do conserto, felicitou o tal
cidadão pelo sucesso do feito. Para sua surpresa, não percebeu satisfação alguma
no semblante do tal cidadão pelos cumprimentos. Pelo contrário. Com aquele jeito
direto e meio duro dos eslavos, o tal senhor falou:
– Desculpe, mas não há o que comemorar. Enquanto o povo passa fome, o
governo procura exibir-se ao mundo. Quer passar a ideia de que somos um país rico.
Grande parte do orçamento vai para o programa espacial. Sequer sapatos sabemos
fazer bem-feito, e ainda querem exportar carros... (Ele se referia aos veículos russos
Lada que estavam entrando no Brasil. O que foi um fiasco, diga-se.)
Havia muita dor em suas palavras, e a conversa sobre o assunto se encerrou
aí. Ou seja, a história do descontentamento era antiga.
Ainda em Moscou, um fato tocante me surpreendeu, dessa vez positivamente,
o que comprovou uma vez mais que a natureza humana é a mesma em qualquer
parte do planeta, o que muda são as contingências de sua expressão.
À época em que embarquei para a Rússia, fazia pouquíssimo tempo
da morte – 1° de maio de 1994 – de nosso querido e saudoso piloto Airton
Senna, no circuito de Imola, na Itália. O acontecimento que chocou o mundo
e o fez chorar teve sua repercussão também em Moscou, capital de um
país que não sediava e, não tenho certeza, acho que nem transmitia ao vivo
pela TV as corridas do Campeonato Mundial de Fórmula I. Apesar do hiato
tecnológico, nosso herói automobilístico granjeara a simpatia de muitos
admiradores naquele país.
Não era segredo para o mundo que o dia a dia dos russos estava muito difícil,
até angustiante, pela baixa renda e escassez de víveres. Pois bem, segundo um
funcionário de nossa embaixada, por ocasião do falecimento de Senna, os russos
trouxeram muitas oferendas em forma de flores e comida e as depositava numa
pequena área externa coberta do prédio de nossa embaixada, que ficou lotada.
E por que agiram assim? A explicação é que, de acordo com suas crenças
sobre a vida pós-morte, o espírito precisa se alimentar durante certo tempo até
chegar a hora de sua partida definitiva para o outro lado do mundo.
Tudo bem. Entendido esse aspecto, respeitada a crença, a cultura deles,
mas, em qualquer lugar, flores e comida custam dinheiro! E custam caro!
Gastar dinheiro para homenagear um ídolo estrangeiro, num momento de tanta
dificuldade financeira!?
Fiquei bobo com a demonstração de carinho, respeito e preocupação com o
destino do ídolo brasileiro.

212
Só mesmo aquele fio de sentimento que sobrepuja nacionalidade, etnia, religião,
crença, cultura, só mesmo aquele elo que une os homens em sua transcendência
justificaria expressão como aquela. E como o que é interno do ser humano me
faz pensar e me toca profundamente, fechei minhas reflexões sobre aquele fato,
afirmando para mim mesmo o que já sabia: que os homens vivem as mesmas
emoções, se rejubilam com as mesmas alegrias, choram as mesmas tristezas, se
debatem pelas mesmas preocupações. São heróis, são anjos e se superam cada um
em seu cotidiano, anonimamente, externando sua essência e crença no bem, apesar
e acima das exceções e dos regimes políticos sob os quais vivem.
Essa breve viagem a Moscou, capital da extinta União Soviética (1991), me
convenceu, de uma vez por todas, que a humanidade é uma só e que gente é gente
em qualquer parte do planeta. Todos com as mesmas aspirações, buscando o
melhor para suas famílias, buscando melhores condições de vida e... descontentes
com seus governos.
Voltei da Rússia depois de ter atingido os objetivos que me fizeram ir até lá.
A possível escala do presidente Itamar em Moscou não aconteceu, mas a missão
me acrescentou bastante.
Ao retornar para Londres, soube, por companheiros de nossa embaixada,
que a morte de Airton Senna também repercutira bastante no Reino Unido.
Fora grande o afluxo de pessoas a nossa embaixada que depositaram flores na
entrada do prédio e deixaram cartas com mensagens de condolências, além da
manifestação de pêsames na rua aos brasileiros, numa demonstração de pesar e
solidariedade ao povo do verde e amarelo. Tido como um povo frio, os ingleses
também expressaram sua comoção.

Pertinho de retornar, um assalto

Por volta de um mês antes de nosso retorno, fomos assaltados. Assaltados,


pela primeira vez na vida, minha esposa e eu. E onde?! Lá, no Primeiro Mundo. E
essa é a maior lembrança que fizemos questão de deixar afundar no Rio Tâmisa.
Era véspera de ano-novo e retornávamos para casa, a Diolásia e eu, com
algumas pequenas compras, conversando justamente sobre a tranquilidade de
andar pelas ruas da cidade onde John Major era primeiro-ministro sem aquele
estresse de ter de olhar para os lados todo tempo, temendo algum assalto.
Exaltávamos a segurança urbana daquele país...
Pra quê? Foi só falar!
Praticamente em frente a nossa casa, fomos assaltados por dois jovens
ingleses de origem árabe. A Diolásia percebeu que eles caminhavam a uns 20
passos atrás de nós e, num lampejo de intuição, falou apressadamente:
– Segure a bolsa... Há dois rapazes...

213
E não deu para continuar, pois um já a segurava pelo pescoço e a levava ao
chão – sem lhe causar dano, bom frisar –, enquanto o outro se embolava comigo
na calçada, tentando agarrar minha bolsa que, num reflexo, eu a trouxera junto
ao peito. Ele levou a melhor. Arrebentou a alça da bolsa e saiu correndo em
disparada. Levantei-me num salto e saí em seu encalço. Não sei como consegui
correr tanto, estando de botas.
No momento do assalto, um táxi passava pelo local e o taxista, ao
presenciar a cena e verificar que uma old lady – palavras do taxista –,
a Diolásia e seus cabelos brancos, estava sendo atacada, seguiu os dois
assaltantes. Nosso vizinho que, naquele momento, lavava seu carro, fez o
mesmo, me alcançando e oferecendo-me carona na corrida em perseguição
aos delinquentes. O taxista se comunicou com a polícia e, para azar deles, um
dos assaltantes fez sinal para que aquele mesmo táxi parasse.
Na Inglaterra é costume primeiro comunicar ao motorista o destino da
corrida antes de entrar no veículo. Era assim, as coisas mudam, não sei se
agora o procedimento permanece. Falo baseado na época que por lá vivi. Um
dos assaltantes entrou no táxi, enquanto o outro se aproximou do motorista
pelo lado de fora para informar o destino. E ali mesmo foi agarrado pelo
pescoço. O que já estava dentro do veículo, ao perceber a cena, se mandou.
Cheguei em seguida e recuperei minha bolsa, que estava sob a blusa dele;
ele se debatia tentando se libertar da “gravata” do motorista. Dei sorte de a
bolsa estar com este, porque o outro não foi pego, escapou mesmo. A polícia
em seguida chegou e se encarregou do resto. Tudo durou alguns minutos. O
assaltante capturado foi a julgamento algum tempo depois. Pegou um ano e
meio de prisão. Acabei com pena dele, tão jovem, numa cidade com tantas
oportunidades de trabalho, ficar com o nome marcado.
Por não querer apavorar os amigos da CABE, acionar nossa embaixada em
Londres, nem me tornar “celebridade” por meio de um fato tão desagradável,
só contei o caso para o Coronel Sabino, meu auxiliar mais próximo, pedindo-
lhe reserva sobre o assunto.
Por que lhes conto isso? Porque nos surpreendemos com a solidariedade
e o sentimento de indignação do taxista perante a violência pela qual passava
aquela old lady, pessoa que ele jamais vira, que não contratara seus serviços e
que se encontrava numa rua, a Hyde Park Street, por onde ele transitava naquele
momento por um dos acasos da vida. Também porque nos surpreendemos com
a atitude de nosso vizinho, com quem nunca trocáramos uma palavra, além
dos formais cumprimentos quando raramente nos cruzávamos na calçada.
Admiramos a confiança dessas pessoas em sua polícia: nenhum deles temeu
se expor. Foram todos à delegacia comigo testemunhar e depois foram ao
julgamento como testemunhas.

214
Vi no episódio a diferença de enfoque, a diferença de educação; a indignação
pelo que é errado e, como consequência, a reação.

Retorno ao solo pátrio

Como aconteceu com a missão na Argentina, a missão no Reino Unido nos


marcou bastante. O ganho cultural foi considerável, principalmente para nossos
filhos, em fase de formação intelectual. Credito às duas experiências fora do país
a fluência que adquiriram nos dois idiomas, que lhes abriu portas para o mercado
de trabalho depois de formados.
Retornamos três vezes a Londres. A satisfação é sempre muito grande e o
interesse, inesgotável. Amigos ficaram por lá; amigos voltaram para cá e amigos
estão por esse mundo afora. Fazemos parte de suas lembranças da mesma forma
que eles fazem parte das nossas. Alguns partiram para o outro lado da vida,
deixando-nos grande saudade. Nesse grupo, encontram-se o Manuel, português,
motorista do chefe da comissão, sempre pronto para tudo, a qualquer hora, e a
Suzana, funcionária da área técnica, em cujo lar fomos recebidos por mais de
uma vez.
Alguns funcionários já não fazem mais parte da CABE, ou porque saíram
para outras empresas, ou porque se aposentaram. Alguns ainda lá permanecem,
como a Rose, a Marta, o Ralph, o José Carlos, o Miranda e outros tantos amigos.
A bagagem das boas recordações permanece conosco, vez por outra,
revividas e comentadas. As poucas lembranças desagradáveis, procuramos deixar
afundar no Rio Tâmisa, como já disse. Estas fazem o contraponto da vida, mas
nelas procuramos não nos deter.
Quanto à Princesa Diana, cuja postura social e delicadeza tanto me encantou
quando de sua visita ao Brasil, não consegui revê-la, senão pela televisão. Até em
um evento do qual participamos, nos jardins do Palácio de Buckingham, e no qual
se encontravam os principais membros da família real ela não estivera presente.
Lamentei não ter podido cumprimentá-la, pessoalmente, outra vez.

O convite bem-vindo

Pouco tempo antes do término da missão, fui agradavelmente surpreendido


por um telefonema do Major-brigadeiro Kawanami, então diretor da Diretoria de
Material Aeronáutico (DIRMA):
– Walacir, você tem algum impedimento em servir no Rio?
Ao que respondi:
– Brigadeiro, após dois anos na Europa, não posso ter impedimento para
qualquer missão em localidade alguma. Estou pronto.

215
– Muito bem, então vamos classificá-lo na DIRMA.
Ao comunicar o convite em casa, éramos a família mais feliz do mundo por
voltar ao Rio.
Como o mundo dá voltas!!! Lembram de nossa postura em Brasília, em
1990, por termos de vir para o Rio?! Pois é...
Concluindo: passei o cargo de chefe da CABE ao Coronel Azambuja em 1º
de fevereiro de 1995.
Retornamos tão felizes em 1995 quanto, com esse mesmo estado de espírito,
partimos em 1993. Valeu por tudo que a experiência nos trouxe, valeu por todas
as vivências, experiências e acréscimos.

No Rio – em casa

Voltamos a residir na Vila dos Oficiais do Galeão, na Ilha do Governador,


nossa velha conhecida.
Entre 3 de abril de 1995 e 30 de junho de 1997 servi na DIRMA. Depois de
quatro meses servindo como coronel nas funções de subdiretor de administração
e subdiretor de suprimento daquela organização, fui promovido ao posto de
brigadeiro.

216
Capítulo 21

Valorização do generalato
“Grandes líderes são experts em motivação. Eles entendem o que faz o coração de sua
equipe bater mais forte e agem transformando esse conhecimento em atos motivadores.”
(Autor desconhecido)

O peso das novas platinas

A o receber as divisas de brigadeiro do ar, numa cerimônia


interna no auditório da DIRMA, afirmei: “...Continuarei meu
trabalho dando o melhor de mim para valorizar o generalato; entretanto,
sinto um verdadeiro peso nas costas para corresponder e não decepcionar os
oficiais mais jovens que foram meus cadetes na AFA ou meus aspirantes no
5º GAV e tantos outros que têm esperanças em mim.”
A nova função me permitiu vivenciar a estrutura da logística mais de
perto; conhecer mais profundamente seus reais problemas, seu dia a dia, seu
compromisso em propiciar aeronaves aptas para o voo. Passei a valorizar
mais, por entender melhor, o trabalho dos que labutavam na área, ciente
de que da eficiência de seus desempenhos, é que a missão das unidades
operacionais da Força Aérea, razão de ser de nossa existência como Força,
poderia ser alcançada.

Expectativa de comando

No intervalo de uma reunião dos oficiais generais do Comando Geral de


Apoio, realizada no Parque de Material Aeronáutico do Galeão (PAMA GL), co-
nhecida como REDOGAP, o Tenente-Brigadeiro Souza perguntou-me:
– Walacir, é verdade que você foi instrutor de voo de cadetes por vários anos
e foi comandante do Corpo de Cadetes?
Respondi afirmativamente e ele complementou:
– Você gostaria de comandar a AFA?
– Brigadeiro, esse comando é a maior realização de um oficial-general e um
sonho que tenho.
Poucos meses depois, ele me disse:
– O Ministro Lobo soube que você foi aluno da Escola de Especialistas,
onde se formou como sargento, classificado em primeiro lugar. Ele disse que
não abre mão de você comandar aquela escola. Se eu fosse você, começaria
a vibrar com a ideia.

217
O sonho da Academia se desfazia e pensei silenciosamente: “Na AFA, tão
logo assumisse o comando, eu abriria muitas frentes de trabalho, mas o que é que
eu vou fazer na EEAR?”
Uma vez mais, mal sabia...

218
Capítulo 22

Comando da Escola de
Especialistas de Aeronáutica
As origens

P ara atender às necessidades do Ministério da Aeronáutica, bem


como às demandas decorrentes da Segunda Guerra Mundial, foram
criadas duas escolas para a formação de mecânicos, radiotelegrafistas de terra, de
voo e de outras especialidades. A Escola de Especialistas da Aeronáutica, no Rio
de Janeiro, em 1941, que absorveu os encargos da Escola de Aviação Naval e da
Escola de Aviação Militar do Exército, e a Escola Técnica de Aviação, em São
Paulo, em 1944.
Posteriormente, essas duas organizações de ensino foram extintas e suas
missões absorvidas pelo novo centro de formação, criado em 15 de março de
1950, a Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR), com sede na cidade de
Guaratinguetá, no interior de São Paulo.
A partir de então, a recém-criada EEAR passou a funcionar numa área
cedida pelo governo daquele estado, em local onde, por vários anos, funcionara a
Escola Prática de Agricultura e Pecuária.
Era para lá que eu estava sendo designado, desconhecendo por completo o
fato de que ali viveria momentos muito felizes e marcantes de minha vida e de
minha carreira profissional.

Liderando 3.100 homens em Unidade Escola

A EEAR, que comandei com mais de 3 mil homens, ministrava cursos


técnicos, divididos em 24 especialidades, que formavam em média 800 sargentos
especialistas por ano, constituindo-se no maior complexo de ensino técnico do
Comando da Aeronáutica.
Seu comando me foi transferido, na manhã do dia 30 de julho de 1997,
pelo Brigadeiro Edilberto Sirotheau Corrêa. Em seu comando, foram priorizados,
entre muitas outras ações, a recuperação das instalações físicas daquela unidade e
o destaque do nome e da missão da EEAR no contexto da FAB.
A EEAR formava controladores de voo, mecânicos de aeronaves,
meteorologistas, especialistas em suprimento, eletricistas, pessoal da área de
administração, desenhistas, guarda e segurança, fotógrafos, especialistas em
eletrônica, protéticos etc., missão que cumpria com dedicação, rigor e orgulho.
No entanto, apesar da relevância de seu trabalho, ela não usufruía, dentro da
FAB, da projeção que seus méritos a fazia merecedora. De olho em tal realidade,
o Brigadeiro Sirotheau dedicou-se com determinação ao esforço de destacá-la,
tornando-a prestigiada, esforço que contaria com todo meu empenho em continuar.

219
Em seu discurso de passagem de comando, fui apresentado à tropa como
alguém que conhecia de perto a realidade daqueles que iria comandar, pela
singular característica de que fora um daqueles jovens alunos: 1.242 futuros
sargentos e 167 futuros cabos.
Enquanto o comandante lia seu discurso, o filme de minha vida resgatava as
imagens de um jovem que, com a cabeça repleta de sonhos e uma mala cheia de
roupas numa das mãos, adentrava o portão da guarda, do Berço dos Especialistas,
num dia frio de inverno, em julho de 1960. A sucessão dos fatos, seu encadeamento
e o rumo que a vida tomara surgiam em minha mente, num rewind vertiginoso.
Terminado o discurso, chegara o momento do desfile da tropa e do canto da
Canção do Especialista. E aí, então, relembrei, emocionado, as inúmeras vezes em
que, como aqueles jovens, eu também desfilara, cantando, cheio de entusiasmo e
pleno de patriotismo, aquela bela canção. O momento foi de catarse. Na fugacidade
de um lampejo, compreendi a afirmação do Brigadeiro Lobo, ao comentar o porquê
de minha designação, uma escolha pessoal sua para aquele cargo:
– Ao assumir a escola, o Walacir saberá o porquê da escolha; entenderá o
porquê de estar ali.
Realmente, naqueles momentos de reconstituição do passado, eu sentia que
comando mais certo para mim, dentro da Força Aérea, não poderia haver, naquela
etapa de minha carreira.
Alongo-me no relato dessa solenidade, normalmente um ato tão pomposo
quanto formal, pela intensa carga de emoção, que me trouxera de volta 37 anos
de existência em alguns minutos. A mala cheia de roupas que não chegara a usar
fora descartada há muito tempo, porém, os sonhos – ah! os sonhos – muitos
foram realizados, outros ganharam dimensão maior, dimensão que eu gostaria de
compartilhar no trabalho com aquela juventude.

Ouvindo a intuição

Naquela mesma tarde de 30 de julho, já comandante, portanto, tive a intuição


de, informalmente, visitar algumas áreas de minha nova unidade. A escola estava
uma tranquilidade só. Tudo quieto, em harmonia com a natureza, em vista do
expediente festivo – meio – como de praxe, quando há solenidade de passagem
de comando ou formatura de alunos.
Vesti um agasalho e saí a pé, apreciando a beleza das azaleias que
ornamentavam a entrada da residência que ora ocupava e o espelho das águas
da lagoa, que, ao refletir as nuvens do céu e as folhagens das árvores, me trazia
lembranças das pescarias com meu querido Chico.
Quanto daria para tê-lo ali comigo...
Caminhei até o rancho dos alunos, entrei pelos fundos, pela cozinha, e o

220
que vi me causou péssima impressão. Como podiam aqueles taifeiros e soldados
prepararem, em média, 3.400 refeições diárias num local de instalações físicas,
maquinário e apoio tão precários? Como podiam começar bem uma jornada de
trabalho utilizando-se de vestiários e banheiros naquele estado de deterioração?
Acompanhado por um deles, a quem solicitei papel e caneta, comecei a anotar
as necessidades que julgava mais urgentes. Em seguida, me encaminhei para os
alojamentos dos soldados do Batalhão de Infantaria (BINFA), para o xadrez e,
depois, para os alojamentos dos alunos. A impressão só piorava. A cada visita, se
ampliava mais o quadro de carências, e os desafios iam aumentando.
Diante das evidências, concluí que a escola, fisicamente, estacionara; parara
no tempo. Pouco mudara desde a época em que ali me formara sargento desenhista
há 35 anos.
Fechada minha apreciação, antes mesmo da última visita, eu já me via
recorrendo às diretorias, com as quais meu antecessor tinha conseguido apoio
financeiro para as restaurações que conseguiu fazer. Tudo o que eu queria era agir
rápido, arregaçar as mangas, por “mãos à obra” e melhorar o que pudesse. Parece
até que adivinhava que não completaria os dois anos de comando para os quais
fora designado. Mas não nos adiantemos.
À noite, reuni os oficiais do Corpo de Alunos para me inteirar de suas
dificuldades e do que pensavam seus comandados, os alunos. Ainda naquela
mesma noite, dirigi-me a eles no pátio do Corpo de Alunos para o primeiro contato
direto. Disse-lhes que “‘os alunos são a razão de ser desta escola e, em função
deles, devem trabalhar todos os setores da organização”. Afirmei-lhes que “os
suboficiais e sargentos especialistas constituem a espinha dorsal da Força Aérea,
posto serem eles os responsáveis pelas múltiplas funções que permitem que a
atividade fim – o voo – aconteça”. Dirigi-me aos alunos do Curso de Formação
de Cabos (CFC) que participavam da mesma formatura exaltando a importância
de suas atuações no somatório da missão da FAB.
Senti que, naquele primeiro contato, dávamos início à construção dos pilares
de uma relação de confiança e apreço bilateral, sentimento que permeou os 20
meses que fiquei à frente daquela organização.

Contato com oficiais e graduados da unidade

Na manhã seguinte, reuni os oficiais no auditório da unidade para dizer-


lhes a que vim. Falei-lhes de meu anseio de formar um time pautado em ideias
harmônicas, sem destaque para personalismos, competições fúteis entre seus
integrantes ou estrelismos. Meu propósito seria focar na formação de novas
turmas de sargento para as fileiras da FAB e que, portanto, todo o nosso empenho e
prioridade seriam voltados para esse objetivo. Por esse motivo, desenvolveríamos

221
ações que promovessem o bem-estar comum, a união e o engrandecimento da
missão da escola, com vistas aos objetivos maiores da Força. Afirmei-lhes que a
porta do comando estaria sempre aberta, acessível a sugestões, que, se julgadas
pertinentes, teriam todo meu apoio. Frisei-lhes que teríamos muito trabalho e
desafios pela frente, mas que nada seria exaustivo se nos déssemos as mãos e
trabalhássemos em conjunto. Por fim, falei-lhes que, sem mágoa ou ressentimento,
acataria eventuais pedidos de transferência, em função de discordâncias ou
inabilitações na comunhão da tônica exposta.
Senti no ar uma resposta positiva que me deixou esperançoso e entusiasmado.
A impressão de concordância aumentou-me o ânimo, e acreditei que, juntos,
colheríamos bons resultados. Depois, reuni os suboficiais e sargentos e fiz o mesmo.
Igualmente, percebi que estabelecíamos um bom contato e que, juntos, poderíamos
muito. Os dois anos por mim vividos como sargento me foram muito úteis.
Não me enganei!

Uma vez mais, a pesquisa anônima

De acordo com o raciocínio de que “comandar é consolidar vontades” e


que autoridade se impõe com conquista e apreço, em lugar de pura e simples
imposição de força hierárquica, uma vez mais, lancei mão da pesquisa anônima
para melhor conhecer problemas, aspirações, anseios, reivindicações, sugestões,
dados, enfim, que me propiciassem estabelecer prioridades.
O universo pesquisado foi de cerca de 300 suboficiais e sargentos e 1.700
alunos. Li pessoalmente a montanha de fichas e tabulei os dados ao longo de
quatro meses de leitura noturna e nos finais de semana. Propus-me a executar
todo o trabalho, na certeza de assim melhor captar o tom das colocações; não
me interessavam tão somente mapas ou esquemas frios com curvas ou números
elaborados por competentes auxiliares. Com base nos resultados, estabeleci os
critérios de prioridades que julguei pertinentes.

A explicação que acalmou ânimos

Quando afirmo que li todas as fichas da pesquisa com a finalidade de


captar os sentimentos que iam na tropa, lembro de um desabafo que menciono
para exemplificar essa colocação. Numa das fichas, certo aluno externou seu
aborrecimento por ter de acordar mais cedo para lavar banheiro, fazer faxina nos
dormitórios, nas salas de aula e nos pavilhões de instrução. Percebi claramente
que aquele aluno expunha um sentimento que deveria estar muito forte entre eles.
Fiquei até imaginando o vigor das reclamações. Ele dizia que não fora para lavar
banheiro e fazer faxina que estudara tanto para ser aprovado em um concurso e

222
servir à Força Aérea. Computei aquele desabafo. Ele estava certo... Mas aquele
descontentamento deveria ser trabalhado, e eles mereciam um esclarecimento.
Aguardei um momento oportuno. Em geral, eu me utilizava das formaturas
do meio dia, no pátio do Corpo de Alunos, para “dar meus recados”. Numa
delas, abordei o assunto, dizendo que concordava plenamente com o aluno que
comentara na pesquisa, sua decepção por ter de lavar banheiros, já que “entrara
na Força Aérea para estudar, e não para desempenhar trabalho de serviçal”.
Com esse preâmbulo, os semblantes claramente transpareceram a interrogação:
“Aonde o comandante quer chegar com essa introdução?” Uma concordância
dessas vinda logo do comandante, que não só tinha o poder de reforçar a ordem
da faxina como o de desconsiderar o desabafo!? O que viria depois? Punição?
“Puxão de orelha?”
Fiz uma breve pausa e expliquei-lhes que a verba que a Aeronáutica recebia
do Governo Federal e, consequentemente, a “fatia” destinada à escola não
era suficiente para a contratação de uma empresa que desempenhasse aquelas
funções em todos os locais da unidade, cobrindo por completo suas necessidades.
Portanto, eu agradecia a compreensão de todos que, como eu, há muitos anos,
quando na posição deles, também desempenhei funções tão simples.
Falei-lhes que havia lavado muito banheiro naquela mesma escola, que
fizera muita faxina e que o desempenho de funções tão simples não me diminuiu
em nada. Disse-lhes que, como pessoa oriunda de classe pobre eu desempenhara
muitas dessas funções em minha própria casa, fato que me ensinara humildade.
Falei-lhes que ao longo da vida, por muitas vezes já lançara mão dessa qualidade
para encarar percalços, ganhar fôlego, reagir e vencer. Com certeza, aquelas
pequenas e simples ações tinham alicerçado minha paciência e perseverança. Eu
os convidava a refletir.
Silêncio. Todo mundo quieto, imóvel, pensando. Senti que entenderam “o recado”.

Em busca de recursos financeiros

Na esperança de angariar apoio financeiro e técnico, desloquei-me até o Rio


e visitei a Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo (DEPV), a Comissão para
Coordenação do Projeto do Sistema de Vigilância da Amazônia (CCSIVAM), a
Diretoria de Material Bélico (DIRMAB) e a Diretoria de Material Aeronáutico
(DIRMA) última unidade onde servira e que, por volta de uns dois anos e
meio, estaria retornando na qualidade de diretor. Todas as organizações citadas
ofereceram apoio financeiro à escola.
Acrescente-se a isso o apoio técnico e de planejamento da Diretoria de
Engenharia (DIRENG) e de material e fardamento da Diretoria de Intendência
(DIRINT), feliz iniciativa estabelecida no comando do Brigadeiro Sirotheau, mais

223
os recursos com a arrecadação das taxas de inscrição dos candidatos aos concursos
e de outras fontes, foi-nos possível realizar cerca de 120 obras no período de
pouco mais de um ano e meio em que permaneci no Berço dos Especialistas.
Obras maiores, obras menores, obras pequenas; umas concluídas até minha saída
do comando, outras deixadas em andamento. Aos poucos, a escola ia mudando.
Outros comandantes dariam sequência ao muito que faltava...

Reflorestamento

Para dar continuidade ao projeto União de Fragmentos Isolados da Mata


Atlântica, foram plantadas 26 mil mudas de árvores autóctones – nativas –, com
o objetivo de reconstituir parte da mata ciliar numa determinada área da escola.
O projeto tinha como meta reconstituir a flora, trazer de volta a fauna e restaurar,
com a continuidade, o microclima da região. Um belo projeto. Realmente,
apaixonante. Até comovente! Acompanhar como a natureza correspondia ao
esforço dos pesquisadores, fazendo brotar nos arredores das mudas algumas
outras mudinhas era animador.
Os guaratinguetaenses, a exemplo do que comentei a respeito dos argentinos,
eram bastante engajados e comprometidos com tudo o que dizia respeito à natureza
e à sua preservação. Todo projeto que tivesse como base esse tema contava, de
imediato, com a simpatia deles. Continuamos o trabalho de paisagismo e jardinagem
e envidamos esforços na recuperação de várias lagoas da unidade.
Nossos meios não eram suficientes, mas contávamos com o apoio de vários
segmentos da sociedade. Recebíamos apoio da Prefeitura Municipal, de universidades
do Vale do Paraíba etc., de modo que, de mudas a caminhões, de pesquisadores a
voluntários, de empresas públicas a entidades privadas, a ajuda chegava.
O trabalho de paisagismo e jardinagem da escola tinha a liderança do Professor
Fernando Celso Wendling Ananias. Ele e sua equipe de soldados, todos voluntários,
criavam, cuidavam e tratavam dos jardins e estavam sempre envolvidos em
melhorias, acrescentando beleza e encanto à harmoniosa paisagem da escola.
Na intenção de marcar sua passagem pela EEAR, cada turma de alunos
também se engajava nos cuidados com o meio ambiente. Elas eram motivadas a
assumir tarefas, nas imediações do Corpo, como plantar árvores, criar e manter
pequenas praças, cuidar dos jardins, criar passarelas verdes, pequenos trabalhos
que, no conjunto, beneficiava a muitos, deixando marcas.

Sete de Setembro em Guaratinguetá

Menos de 40 dias após minha chegada a Guaratinguetá, tivemos as


comemorações pelos 175 anos da Independência do Brasil. O desfile cívico da

224
cidade mobilizava suas autoridades civis, militares e eclesiásticas, bem como
escolas, entidades, agremiações, o público que comparecia em massa e nossa
escola, que, garbosamente, participava, desfilando com sua banda de música e
seu Corpo de Alunos.
De volta ao passado, não tinha como eu não lembrar do tempo em que
passava dias a cortar papel de seda verde e amarelo para enfeitar minha bicicleta,
naquele capricho, para semelhante evento em minha cidade natal. Tampouco
deixava de lembrar que, há 37 anos, eu ali também desfilara, fazendo parte, como
aluno, da escola.
Passados todos aqueles anos, eu estava de volta, comandando uma
organização de ensino da Força Aérea, tendo a honra de convidar o prefeito, Dr.
Francisco Carlos dos Santos, para, juntos, passarmos em revista a tropa da EEAR.
Ambos, ele e eu, vivíamos um momento de grande satisfação, que guardaríamos
em nossas recordações. Era a primeira vez que a população da “Terra das
Garças Brancas”, cidade que tão bem recebia seus hóspedes da Força Aérea, via
seu prefeito passando por tal experiência. Uma prova do merecido apreço ao
representante da cidade que marcara não só minha vida, mas a de milhares de
brasileiros, acolhidos, em sua maioria, nos verdes anos de juventude em busca da
realização de um ideal nas asas da Aeronáutica.

Com quatro meses de comando, a primeira formatura

Uma coisa era presenciar a formatura de uma turma de sargentos especialistas


como convidado. Outra, bem diferente, era estar de dentro, participando
diretamente de sua organização, acompanhando com orgulho a revoada dos
pássaros para fora de seu “Ninho” ou, melhor, de seu “Berço”, o “Berço dos
Especialistas”.
Naquela festa, tudo tinha de dar certo. Da recepção às autoridades convidadas
e aos familiares dos formandos; da perfeita formação do sabre alado, símbolo da
Aeronáutica, e das divisas de terceiro-sargento, patente dos formandos, ao desfile
da tropa; do tempo, que deveria colaborar com um Sol brilhante, ao sobrevoo das
aeronaves que passavam baixo, numa reverência aos donos da festa. E por que
tudo isso? Porque aqueles formandos viveriam um momento único, o momento
mágico que os unia, pela última vez, ali na EEAR. Viviam o coroamento de
muitos esforços, inclusive, os esforços de suas famílias.
Nessa primeira formatura da Turma Verde recebi uma homenagem muito
marcante. No fim da solenidade e após o tradicional gesto de jogar os quepes para o
alto, os novos sargentos, olhando para o mezanino, onde se encontravam os oficiais
generais e demais autoridades, num gesto típico de torcida esportiva, levantaram e
abaixaram os braços, bradando em coro: “Ultracomandante, ultracomandante...”

225
A aclamação se repetia e nem eu, nem ninguém entendíamos nada. Perguntei
a um auxiliar que me explicou, então, se tratar de uma homenagem dirigida a
mim. Segundo ele – decerto ouvira algum zum-zum –, em agradecimento às
mudanças efetuadas, naquele comando, que facilitaram o dia a dia da turma
e dos demais alunos.
Conto o fato destituído do intuito de fazê-lo por exaltação pessoal. Primeiro,
pelo despropósito do que seria um certificado de vaidade tola; segundo, porque,
em sã consciência, o que conseguimos realizar, durante aquele período, o fizemos
juntos. Friso: juntos! Nada realizei sozinho. Nada fiz que não correspondesse
àquela mensagem em que “disse a que vim”, aos vários segmentos da tropa, logo
em minha chegada. Nada se passou além do pretendido e conclamado. Afinal,
não fiz nada além das atribuições inerentes a um comandante desejoso de acertar
e de promover o bem-estar de seus comandados. Nada além do que considerava
minha absoluta obrigação.
Mas fiquei agradecido àquela espontânea homenagem, que guardo com
carinho no coração.
Obrigado Turma 206 - Verde 96!

Esbarrando em dificuldades

Com base no levantamento das necessidades de equipamentos de informática


para a instrução dos alunos, verifiquei a urgente necessidade do reforço de mais
117 computadores. Remeti documento, com anexo explicativo em que justificava
a necessidade do pedido, ao Departamento de Ensino da Aeronáutica (DEPENS),
em Brasília. Suponho que o documento tenha chegado em momento inoportuno,
porque o pedido não foi aprovado. Lamentei bastante. O fato me entristeceu.
Fiquei sabendo que, anos atrás – não sei exatamente quando – a escola
recebera cem computadores, o que, provavelmente, levara o Tenente Brigadeiro
Castilho a supor que todas as necessidades dos alunos ainda estivessem sendo
supridas por ela.
Os 117 computadores solicitados, explicava o anexo do ofício, seriam assim
distribuídos: 116 se destinariam à instrução dos alunos e um seria disponibilizado
para o comando. Naquele justo momento, o comando utilizava um micro
cedido por uma faculdade local, uma situação constrangedora! Falo dos anos de
1997/1998, em que micros e computadores não eram tão facilmente acessíveis
como hoje. Tendo me certificado de que as explicações não convenceram, solicitei
a meu amigo Brigadeiro Sirotheau, vice-diretor do DEPENS, o arquivamento do
ofício. Avaliei a situação e, na certeza de que, se insistisse, criaria resistência a
outras solicitações que a escola fizesse, preferi sair em busca dos tão necessários
computadores em outras fontes.

226
Sinceramente, não esperava aquele “não”, pois, que, mesmo que a escola
recebesse todos os computadores solicitados, muitos ainda faltariam para que
o almejado padrão de preparo acadêmico dos alunos alcançasse o patamar que
sabíamos que lhes seria cobrado no desempenho de suas futuras funções na FAB.
Corri atrás por outros caminhos. Haveríamos de conseguir aqueles
computadores em outros locais. E conseguimos.
Dias depois do ocorrido, encontrei o Brigadeiro Bellon, presidente da
CCSIVAM. Conversa vai, conversa vem, nada comentei sobre o assunto, porém,
lhe disse que os sargentos de administração estavam sendo formados usando
máquinas de datilografia em vez de computadores. Ele ficou boquiaberto!
Sensibilizado, disponibilizou-me suporte financeiro para a aquisição de 50
computadores, atitude que seria seguida por titulares de outras diretorias.
Até da Petrobras conseguimos apoio. Ao todo, chegaram às salas de
aula mais de 200 microcomputadores. Ficamos satisfeitíssimos. Ganharia a
Força Aérea, que receberia graduados mais bem formados e tecnologicamente
mais atualizados.
Conto esse fato para ilustrar como, muitas vezes, uma boa intenção pode
esbarrar numa resistência contra a qual nada se pode fazer, além de lamentar e
partir em busca de alternativas.
Desde que absolutamente certo do bem que certas ações possam trazer, um
comandante não pode desanimar. Com criatividade, coragem e a crença de que
outras fontes existem, o fundamental é perseverar e correr atrás.

A mulher aluna e futura sargento

1998 foi o ano de implantação do Estágio de Adaptação à Graduação de Sar-


gento (EAGS), com participação feminina, na EEAR. O estágio de cerca de cinco
meses, em regime de internato, consistia em proporcionar capacitação militar
a profissionais com formação técnica completa, oriundos da vida civil, aprova-
dos em concurso público, que preenchessem as necessidades requeridas a alguns
quadros da FAB. As áreas técnicas requeridas naquele ano em que as mulheres
poderiam participar eram: eletricidade, eletrônica, administração e enfermagem.
Pela experiência vivida quando subcomandante em Belo Horizonte, em
1982, ano da implantação do Corpo Feminino na FAB, eu sabia que a decisão
das autoridades superiores da Força tinha tudo para ser um sucesso. Em minha
memória ficara o registro do perfil da mulher militar da Força Aérea: guerreira,
orgulhosa de sua farda, comprometida com suas funções e, dentro dos limites das
exigências castrenses, espontânea.
A primeira formatura mista do EAGS foi marcante. O amanhecer daquele
dia fora muito original, muito diferente de todas as alvoradas comemorativas

227
desde a fundação da EEAR. Minha esposa e eu fomos despertados por uma “zo-
adeira danada”: barulho de latas, batendo; de bumbo, uma barulheira! Os res-
ponsáveis pela “arte” era um grupo misto de formandos, uns 30 alunos mais ou
menos. Eles partiram do Corpo de Alunos para a residência do comandante, digo,
nossa residência, para nos fazerem uma alvorada festiva. Pulamos da cama, nos
arrumamos rapidinho e, já de dentro de casa, ouvimos um coro que entoava os
seguintes versos: “Brigadeiro, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!”
A cena era engraçadíssima. Autorizei a aproximação do grupo, pois queria
testemunhar de perto aquele fato inédito na FAB. Embora predominasse a
presença feminina, o grupo, como já disse, era misto, com os homens se postando
mais atrás. A maioria vestia curiosos trajes.
O Tenente Brigadeiro Castilho, diretor-geral do DEPENS, nosso hóspede,
que chegara na véspera para presidir a formatura, também se levantara para ver
que “algazarra” era aquela na casa do comandante. Ao abrirmos a porta de nossa
residência, chegando à varanda, nos encontramos e olhamos um para o outro meio
pasmos. Nunca vou esquecer sua expressão ao receber a apresentação de uma das
alunas. O visual dela era carnavalesco: vestia uma espécie de saiote confeccionado
com plástico preto, desses de saco de lixo, uma camiseta espalhafatosa, sandálias
havaianas, cabelos com enfeites multicoloridos e, para completar o visual, o
rosto pintado com corações de diferentes cores. Com muita segurança, a aluna
fez continência à autoridade e falou: “Apresento-me a Vossa Excelência e, em
nome da turma, agradeço a honra de sua presença em nossa formatura.” Depois
se dirigiu a mim. Desembaraço total, falando sem pestanejar. A ele só restou
rir e aceitar a espontaneidade, só possível por vir de uma aluna que, em poucas
horas, seria graduada sargento. O nome dessa aluna era Ivone. Minha esposa e eu
nunca a esquecemos. E como o mundo gira, proporcionando muitos agradáveis
momentos, eis que, em 2007, nos reencontramos no Hospital de Força Aérea do
Galeão. Minha esposa a reconheceu, e, óbvio, ela a nós. Eu estava naquela unidade
de saúde para um pernoite, sob cuidados médicos. Naquele momento, vivíamos
realidades diferentes: ela em seu plantão de enfermeira; eu, como paciente. De
volta à formatura dessa primeira turma mista, tudo transcorreu como previsto, de
acordo com as exigências castrenses, com o tom de grande entusiasmo.

Mudança repentina

No comando da escola há 18 meses, recebi do Tenente Brigadeiro Castilho


a agradável notícia de que meu comando seria prolongado por alguns meses além
dos dois anos previstos. “Walacir, você completará dois anos de comando em
agosto, porém, o Ministro Lobo já concordou em prolongar seu comando até
dezembro, para que você possa acompanhar mais duas turmas até a formatura.”

228
Essas duas turmas seriam uma do Curso de Formação de Sargentos (CFS) e outra
do Estágio de Adaptação à Graduação de Sargentos (EAGS).
A informação me deixara muito contente, pois, nesse tempo extra, concluiria
algumas obras em andamento, iniciaria algumas outras e acompanharia mais duas
turmas até a formatura.
Mas a alegria durou pouco...
Duas semanas depois daquela informação, fui transferido para o
Departamento de Aviação Civil (DAC), no Rio de Janeiro, sem tocar preparar.
Segundo o Brigadeiro Castilho, em julho, ou seja, três meses depois, eu
entenderia o porquê daquele repentino remanejamento. Lamentavelmente, até
hoje aguardo esse entendimento. Continuo nas conjecturas: razões políticas,
promoções, não promoções... nada, porém, com clareza. Suposições.
Vivi a saída abrupta de uma unidade que eu tanto amava e onde usufruía de
um relacionamento tão producente como um luto. Não foi fácil me desligar. Digo
até que foi a função que senti mais dificuldade de deixar para trás. Até hoje sou
afetivamente muito ligado à escola e à cidade de Guaratinguetá, apesar de não
termos tido oportunidade de estar presentes aos eventos tanto quanto gostaríamos,
sobretudo por causa de meus compromissos na Fundação SDTP, onde trabalho.
Lamentavelmente, não cheguei a completar os dois anos de comando para
os quais fora designado. Porém, nos 19 meses que estive à frente do Berço dos
Especialistas, senti ter exercido um dos cargos no qual fui mais útil à Aeronáutica.
Orgulho-me profundamente de ter dedicado meu melhor na formação das
várias turmas que concluíram seus cursos durante aquele período, orgulho que
continuou na formação das outras turmas que prosseguiram à época em que passei
o comando para meu sucessor, o Brigadeiro José Montgomery Melo Rebouças.
A exemplo do que acontece com os ex-cadetes da AFA que comandei,
é intensa a alegria quando encontro os cabos, sargentos e até oficiais daquela
época pelas unidades do país. De todos recebo especial consideração e respeito.
O carinho e a atenção que me dispensam, a garbosa continência com que me
cumprimentam, a alegria que estampam no semblante, as fotos que me solicitam
para tirarmos, os fatos que rememoram e todas as demonstrações que expressam
apreço e satisfação pelo que construímos e pelo que sonhamos me fazem sentir
uma pessoa muito realizada.

Medalha Frei Galvão e Cidadão Honorário

No fim de meu comando, fui agraciado pelo Governo Municipal com a


primeira medalha Frei Galvão. Alguns meses depois, tive a honra de retornar
à cidade para receber o título de Cidadão Honorário Guaratinguetaense, em
solenidade na Câmara Municipal, em 17 de agosto de 2000.

229
Duas distinções que muito me honram e me ligam com laços fortes àquela
cidade.

Tocante despedida

Toda despedida é triste. Despedida é ruptura, é perda, é afastamento. Um


militar sabe que está sempre partindo, que suas raízes são voláteis. Porém, existem
partidas e... “partidas”. Vivi dias de muito pesar ao deixar aquele comando. Mas,
enfim, todo ciclo se fecha, e ordens existem para serem cumpridas. Um militar
tem de ter a disciplina de acatar as determinações de seus superiores hierárquicos
sem arguições. Era seguir em frente.
A Solenidade de Passagem de Comando ao Brigadeiro Montgomery, na
manhã de 13 de abril de 1999, encerraria minha estada em Guaratinguetá. Tudo
acontecera como previsto, menos a homenagem que jamais imaginaria receber.
Ao deixar nossa residência, rumo ao aeroporto, em um jipe sem capota,
fomos surpreendidos por duas alas formadas pelos alunos, posicionados dos dois
lados da rua, desde a residência até o portão da guarda – mais de 1 quilômetro –
como se fora uma passagem em revista à tropa. Uma homenagem inesquecível.
À medida que íamos passando, os 1.700 alunos iam fazendo continência e eu
respondendo, muito emocionado.
Ao chegarmos ao portão principal da escola, o comandante do Corpo
de Alunos, Tenente Coronel J. Carlos, nos aguardava com seus oficiais e
alguns alunos, numa representação dos quatro esquadrões, em nome dos
quais me entregaram quatro troféus, cada um com o símbolo do respectivo
esquadrão.
Depois de mais aquele acréscimo de emoção, cruzamos o portão do Berço
dos Especialistas em direção ao aeroporto, de onde partiríamos, de Bandeirante,
para o Rio. Considerando as fortes emoções, procuramos nos recompor. Adentra-
mos o pátio de estacionamento, mas nova surpresa nos aguardava. O subcoman-
dante e grande amigo, Coronel Renílson, leal companheiro daquela jornada, lá se
encontrava com representantes de todas as áreas da Divisão de Ensino, além do
Capitão Molinari, secretário do comando, amigos civis da cidade, vários oficiais,
sargentos, cabos e alguns soldados. Despedi-me de todos, agradecendo o quadro
que recebera, ornado com múltiplas fotos de pessoal da Divisão de Ensino (DE)
com a seguinte dedicatória:
“Antes de tua partida, meu amigo, leva, nesta lembrança, a voz de teu
‘Berço’ e a gratidão de minh’alma especialista: Comandante, ‘Avante ao Ar’!
És nossa canção. Irás, ficando, Brigadeiro. Com tua ‘obra sem par’, renascerás,
sempre no meu coração.”
Sem espaço para viver mais emoção, enfim decolamos.

230
E enquanto o Bandeirante balançava suas asas num aceno de despedida a
Guará, nós nos mantínhamos calados, mudos, quietos, doídos, vivendo todas as
demonstrações de carinho e apreço que recebêramos naquele período de comando.
Foi, então, que nos demos conta do último gesto de delicadeza da alma
guaratinguetaense: sabendo de “meu fraco” por doces, os taifeiros nos prepararam
umas caixas de lanche repleta deles e de salgadinhos reservados do coquetel da
passagem de comando.

Missão cumprida

Não pensem, os senhores que participam do retorno às memórias do que vivi


naquele comando na EEAR, que o que escrevo é algo inadmissível no ambiente
castrense e que o que compartilho o faço com grande dose de exagero. Não! Foi
tudo muito natural. Com certeza, acionamos a força que conduz a muitos acertos
e, com essa mesma certeza, cometemos enganos, pelos quais me responsabilizo.
Encerrar este capítulo sobre aquela experiência requer esforço de vontade.
Foi um época muito rica, muito intensa e de muita proximidade com os
comandados, suas famílias, seus problemas, suas vidas. Foram muitos os grupos
e setores com quem interagimos, minha esposa e eu. Cada grupo e cada setor
nos acrescentaram bastante; compartilhamos muitas coisas; nos demos as mãos;
nos unimos; buscamos os mesmos objetivos: uma harmoniosa convivência no
trabalho, nos lares e na comunidade, de modo a oferecer, em conjunto, nosso
melhor à Força Aérea. O que me traz grande alegria, quando penso em Guará, é a
certeza de que vivemos, juntos, a sinceridade dos bons propósitos. Essa foi minha
maior satisfação.
Minha família e eu guardamos saudades que nunca se apagarão.

231
Capítulo 23

Chefia do Subdepartamento de
Operações do DAC
A ssim fui recebido no Departamento de Aviação Civil (DAC) pelo
Tenente Brigadeiro Oliveira, na época o seu diretor-geral:
– Desculpe-me, Walacir, eu sei que você estava muito feliz na Escola de
Especialistas, porém, eu precisava de alguém e esse alguém é você.
– Estou pronto, brigadeiro. Será um prazer trabalhar com o senhor.
Falei com sinceridade. Ele fora o chefe da Subdivisão de Avaliação quando
fiz a ECEMAR. Foi ele que mandou me dar zero naquelas questões que me
impossibilitaram disputar o primeiro lugar. Mas não lhe guardei mágoa pelo
episódio, sei que fora mal assessorado. Ele era uma pessoa prática, equilibrada,
sem rompantes de estrelismos, e permitia que seus comandados desempenhassem
suas responsabilidades livres de amarrações. Fora conduzido àquele tipo de
reação pela forma como tomara conhecimento dos fatos.
Eu nunca havia servido no DAC nem em outros elos do Sistema de Aviação
Civil e ali me encontrava para assumir a chefia do Subdepartamento de Operações.
Assumi a função ciente do deficit de conhecimento. Sabia que deveria adquiri-
lo “para ontem”. No desempenho desse cargo, muito me ajudou a presença, do
Coronel Bittencourt como adjunto, que acumulava, além de grande conhecimento
na área, a habilidade de bem assessorar e se comunicar com representantes de
empresas e órgãos civis.
Permaneci na função por volta de um ano, de 13 de abril de 1999 a 6 de
abril de 2000. Então, depois de ter servido em 15 organizações diferentes, fui
designado para a então Diretoria de Material Aeronáutico, unidade na qual servira
ao voltar da CABE, em 3 de abril de 1995.

232
Capítulo 24

Direção da Diretoria de Material


Aeronáutico e Bélico
A última missão na Força Aérea

A ssumi o cargo de diretor de material aeronáutico no dia 6 de abril


de 2000. A DIRMA tinha como missão dar suporte logístico às
aeronaves do acervo da FAB, na época em número de 735. Permaneci no cargo
pouco mais de três anos e tive a satisfação de ter na equipe oficiais generais como
Brigadeiros Chaves, Hortênsio, Godoy, Montechiari, Aloise, Almeida Prado e
Souza e Melo, aos quais rendo minha gratidão e respeito profissional.
À DIRMA subordinavam-se 12 organizações: seis Parques de Material
Aeronáutico: Galeão (RJ), Afonsos (RJ), São Paulo (SP), Recife (PE), Lagoa
Santa (MG) e Belém (PA), este fechado antes do término de meu comando por
determinação superior. Igualmente subordinadas a essa diretoria, havia três
comissões aeronáuticas responsáveis pela aquisição de material aeronáutico e
de serviços, bem como pela administração de contratos e outras atividades de
interesse do Comando da Aeronáutica (COMAER). Eram elas: a Comissão
Aeronáutica Brasileira em Washington (CABW), que atua basicamente nos
Estados Unidos e no Canadá; a Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa
(CABE) e a Comissão Aeronáutica de São Paulo (CABSP).
A CABSP, idealizada e criada pelo Brigadeiro Kawanami em 10 de maio
de 1982, absorvia as atividades da Comissão de Nacionalização de Material
Aeronáutico, cujos trabalhos foram iniciados em 1977. Essa comissão foi
substituída pelo Centro Logístico da Aeronáutica, que comemorou, em 2008, os
31 anos de nacionalização, fator de importância estratégica para a FAB.
Além dos parques e das comissões, igualmente subordinavam-se àquela
diretoria o Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro (DARJ), responsável
pelo transporte terrestre de suprimentos para os parques e as organizações
da Aeronáutica, e o Instituto de Logística da Aeronáutica (ILA),responsável
pelos cursos de capacitação e treinamento de oficiais e graduados que atuam
na área logística. Os cursos ministrados pelo ILA atendiam em média a mil
militares por ano.
Ao todo, o comando da DIRMA respondia por um efetivo de 6.400 homens.
Fui auxiliado nessa tarefa por comandantes e chefes, como os Coronéis e Tenentes
Coronéis Couto, Azevedo, Duque Estrada, Lozano, Joel, Simões, Eduardo,
Ângelo, Darcy, Edgard, Barros, Tarcísio, Josué, Da Silva, Machado, Luiz

233
Fernando e Meckler, além de outros companheiros, cuja dedicação à logística
muito acrescentaram à Força Aérea.

Reativação da DIRMAB

Devo esclarecer que assumi o cargo de diretor da DIRMA em abril de 2000


e, pouco mais de três anos depois, concluí-o como diretor da Diretoria de Material
Aeronáutico e Bélico (DIRMAB). É que nesse ínterim houve mudança em sua
denominação, em vista da desativação da Diretoria de Material Bélico, comandada
pelo Brigadeiro Rolla. O gerenciamento da diretoria extinta passou a ser exercido
pela DIRMA e seu efetivo foi distribuído por algumas organizações da logística.
Tal decisão sensibilizou negativamente alguns pioneiros da FAB, bem como
muitos elementos da ativa que, entendendo a importância da área bélica para uma
Força Aérea, defendiam que ela fosse representada por uma subdiretoria, ao menos.
Algum tempo se passou e, ainda em meu comando, um fato importante
aconteceu. Fui procurado por um grupo de coronéis, estagiários do Curso de
Política e Estratégia Aeroespaciais, incumbidos de apresentar um estudo para
o aprimoramento da estrutura gerencial da logística. No decorrer da conversa,
os referidos coronéis destacaram que, segundo informações recebidas, havia
frustração de muitos militares da ativa e da reserva com a baixa prioridade dada à
importante área do material bélico para o cumprimento da missão da Força Aérea
e que, atualmente, nem uma subdiretoria existia para seu gerenciamento. Um dos
membros do grupo me perguntou:
– Qual é sua opinião sobre a reativação da Diretoria de Material Bélico?
Ao que respondi:
– Concordo que nunca deveria ter sido desativada e, sim, prestigiada ainda mais,
porém, no momento atual, não adianta fazer essa proposição, pois não será acatada.
– Por que motivo não seria aceita essa proposta?
Ao que complementei:
– Quem desativou a DIRMAB continua no mesmo cargo e daria parecer contrário.
Sentiram-se desestimulados e um deles complementou?
– Então o senhor não vislumbra uma solução para reativação dessa diretoria?
– Sim.
Ficaram surpresos com minha resposta.
– Querem reativar a DIRMAB? É fácil, basta desativar a DIRMA.
Sem entender minha sugestão:
– Mas como isso seria possível?
Quando concluí:
– Alterando seu nome para Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico, ou
seja, DIRMAB.

234
Os dias se passaram e essa proposta foi aprovada.
No grande universo de atribuições, de cobranças de superiores, de
preocupações com o apoio logístico em geral, tanto de material aéreo quanto de
material bélico, contei com total dedicação de oficiais, graduados e civis.
Se listasse centenas de nomes, ainda assim pecaria pela omissão de muitos.
Por isso, faço minha especial homenagem a todos aqueles que, indistintamente,
trabalharam a meu lado com denodo, eficiência, lealdade e todas as demais
virtudes de um militar. Sintetizo meus cumprimentos e reconhecimento pelo Major
Siqueira, meu assistente até o último instante na Força, símbolo de capacidade
profissional, dinamismo, dedicação, eficiência, sensibilidade, lealdade e grande
amor à Força Aérea.
Lamentavelmente, esse leal militar já não faz parte do serviço ativo da FAB.
No entanto, continua brilhando na vida civil, contribuindo, com sua experiência e
eficiência, para a prosperidade da empresa para a qual trabalha.

Homenagens especiais

No decorrer do exercício do cargo de diretor da DIRMAB, recebi


homenagens que agora cito em consideração aos que estiveram à frente de tão
honrosas iniciativas.
• Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica (CIAAR) como paraninfo
da Turma de Oficiais Especialistas.
• Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais da Aeronáutica – homenagem dos
capitães do Curso de Aperfeiçoamento no 56º Ágape a Ícaro. Transcrevo, a
seguir, parte do discurso proferido pelo orador da turma:

“Major Brigadeiro Walacir, dirijo-me a V. Exa., na qualidade de represen-


tante da Turma CAP 1/2002 e de nosso querido Casarão do Saber, para vos render
uma singela homenagem por seus longos anos de exclusiva dedicação à nossa
Força Aérea Brasileira.
Vossa indicação para ser homenageado por nossa turma é, também, a certeza
de nossa confiança.
Confiança em vosso espírito dinâmico e reformista, que não se contenta em
contornar os obstáculos, mas está sempre na busca de ultrapassá-los.
Confiança em vossa simplicidade e honestidade em liderar homens e mulheres
na condução e alcance dos objetivos maiores da nossa Força, desprezando os
aspectos pessoais que envaidecem o ego e nada somam ao objetivo principal.
Confiança no militar mais antigo que, ciente de sua condição, exercita sua
liderança por saber que a vida militar precisa de mais de líderes do que de chefes,
servindo de exemplo para os mais modernos.

235
E, principalmente, confiança no oficial-general que, decorridos mais de 40
anos de efetivos serviços prestados à Força Aérea Brasileira, ao longo dos quais
presenciou exemplos bons e ruins, soube conservar dentro de si apenas o que viu
de melhor, alimentando o espírito jovial de um verdadeiro e eterno capitão – que,
por concepção, existe para capitanear as ações, liderando pessoas.
E com esse espírito de capitão muito bem guardado dentro de si, mantendo
acesa a chama do idealismo, da dedicação e da vibração com a Força, o senhor
reavivou em todos nós, capitães do CAP 1/2002, aquele orgulho de servir a nosso
país nas asas de um povo soberano.
Portanto, em nome do comandante da EAOAR, do corpo docente desta
escola e dos integrantes da Turma CAP 1/2002, gostaria de externar nossa alegria
por vossa presença entre nós e dizer-vos do orgulho que temos em vos render esta
homenagem no dia de hoje.
Seja feliz, Major Brigadeiro Walacir, com a certeza de que vossa vida
e vossos ensinamentos são rumos que todos nós utilizaremos como linhas
mestras de conduta em nossas próprias vidas, a fim de que nossa querida
Força Aérea Brasileira possa perpetuar-se na repetição de vossos exemplos de
profissionalismo.”
Alex Orçay Reis – Capitão Intendente da Aeronáutica

• Escola de Especialistas da Aeronáutica – paraninfo da 214ª turma de sargen-


tos – Turma Fera Azul 2000 – com a seguinte mensagem:

“Comprazemo-nos em ter V. Exa. como paraninfo de nossa turma, uma vez


que suas passagens pelo Berço dos Especialistas marcaram a história desta escola.
Como aluno – dando os primeiros passos para uma inestimável carreira
militar – destacou-se entre seus pares, consagrando-se aluno 01 de sua turma.
Em consonância com a ilustre passagem pelo Corpo de Alunos da EEAR, V. Exa.
brilhou também no céu de Pirassununga, no comando do Corpo de Cadetes da
AFA.
Decorridos anos de intrépidos voos, retornou a esta organização militar para
comandá-la com o espírito do aluno que fora outrora. Fez muito pelo crescimento
e engrandecimento desta instituição de ensino. Dessa forma, causa-nos regozijo
saber que temos V. Exa. como paraninfo da 214ª Turma de Sargentos Especialistas.
Com muito apreço, Turma Fera Azul 2000.”

Posteriormente, seria incluído nas seguintes ordens:


• Base Aérea de Brasília – Planalto Honorário;
• Esquadrilha da Fumaça – Fumaça Honorário;
• Corpo de Cadetes da Aeronáutica – Ordem do Espadim da AFA;

236
• 1º Grupo de Defesa Aérea – Jaguar Honorário;
• 2º/3º Grupo de Aviação – Grifo Honorário;
• 3º/10º Grupo de Aviação – Leão Honorário;
• 1º/16º Grupo de Aviação – Adelphi Honorário;
• III CINDACTA – Gavião Honorário;
• 1º/6º Grupo de Aviação – Carcará Honorário.

Com muita honra e orgulho profissional, recebi a informação de que fui


escolhido para Paraninfo da Turma ASGARD “o reino dos deuses” da AFA,
integrada por 180 cadetes aviadores, infantes e intendentes, que deverão ser
declarados Aspirantes a Oficial da Aeronáutica em 6 de dezembro de 2012.
Obrigado, Esquadrão ASGARD.

237
Capítulo 25

Convicções profissionais
A credito que a conduta de um ser humano seja a contínua resultante
da ética que norteia sua vida. Em se tratando do militar, sua con-
duta expressa o caráter, a hombridade, a seriedade, o comprometimento e a trans-
parência com que desempenha suas funções, tendo em vista o que dele esperam
seus pares, superiores e subordinados. Pensando dessa forma, pautei minha vida
na Força Aérea na constante busca do equilíbrio, da justiça, do comprometimento
e da dedicação a qualquer missão que me fosse confiada.
Tive a oportunidade de comandar, por algumas vezes e, entendendo por
comandar o mesmo que administrar, busquei descobrir e utilizar os talentos de
meus então subordinados, procurando com eles compartilhar ideias no intuito de
somar esforços.
Ao longo dos 43 anos de serviço ativo, sedimentei algumas convicções
baseadas em experiências do dia a dia, estudos sobre gerenciamento de pessoas e
liderança, os quais ora sintetizo.
• Persegui sempre os objetivos de valorização do homem e do espírito de
equipe. Confirmei quão grande é o retorno quando se investe nos profissionais,
através de cursos, estágios ou treinamentos e, principalmente, quando se tem
consideração para com os subordinados, independentemente de sua posição
na hierarquia da Força.
• Confirmei que “o caráter está por trás do sucesso de bons líderes”, aqueles
capazes de conduzir pessoas, porque a transparência de suas intenções
permite que não só “suas palavras convençam, mas que seu exemplo arraste
seguidores”.
• Constatei que o profissionalismo e a personalidade dos homens e das mulheres
de uma organização devem ser calcados no espírito que une um time, no
entusiasmo e na motivação.
• Observei que é pelo exemplo que se granjeia o respeito no subordinado. Seu
apoio é consequência. “Você não pode esperar o melhor de cada subordinado
se você, como chefe, não der sempre o melhor de si.”
• Procurei consolidar as múltiplas facetas da liderança, priorizando sempre nossos
recursos humanos, por entender que eles são a maior riqueza da Força Aérea:
militares, civis, homens, mulheres, oficiais, graduados ou praças, independentemente
do quadro aos quais pertençam, formam os pilares desse patrimônio.
• Senti que qualidades como equilíbrio e serenidade são fundamentais para
um chefe ou comandante; controle emocional faz parte da conduta que um
subordinado espera de seu comandante.

238
• Defendi a ideia de que quanto mais se sobe hierarquicamente, mais se pode
e se deve servir.
• Valorizei os comandantes de OM subordinadas, deixando-os exercer a
plenitude de seus cargos, seguros de que contavam com meu apoio na
retaguarda.
• Lamentei constatar ser possível desempenhar funções agradando e
transmitindo a imagem de eficiência a superiores e ignorando qualidades
como cortesia, respeito e bom trato aos seres humanos em volta.
• Orgulhei-me de bem usar minhas platinas, procurando fazer o bem, ajudando
pessoas e resolvendo problemas. Em sã consciência, jamais as usei para
constranger ou humilhar quem quer que fosse. Se, em alguma ocasião, pequei
nesse sentido, que me perdoem os atingidos.
• Ratifiquei que nem hierarquia, verbas para orçamentos ou funções fazem
líderes. Ela nasce no fundo do coração de alguns poucos chefes. Essa
liderança é decorrente de idealismo e comprometimento.
• Confirmei, acima de tudo, que é possível amar ao próximo, sendo um militar,
independentemente do poder hierárquico, porque antes e acima desse poder
se encontra o ser humano com suas qualidades como tal.

Chefia e liderança

Em tempos de guerra, é fundamental a busca de líderes que conduzam à


vitória. Líderes capazes de mobilizar e liberar emoções profundas que levem a
matar ou a morrer em nome de uma causa.
Em tempos de paz, o que se busca em um líder é a força mobilizadora que
construa pontes em direção da ordem, do presente e do futuro; dos bons rumos da
sociedade e da pátria. Busca-se em líderes a visão de futuro.
Sempre acreditei ser possível o exercício da liderança do homem da guerra
– o militar – em tempos de paz. Pensando assim é que, quando na Academia,
comandando os futuros oficiais da Força, dei muita ênfase a um dos chamamentos
exposto em um mural, no qual estava escrito: “A missão da Academia da Força
Aérea é formar verdadeiros líderes para uma moderna Força Aeroespacial.”
Já naquela época eu acreditava que, se tivéssemos a consciência de preparar
e incentivar a liderança existente naqueles jovens, direcionando suas energias
para as sãs competições e ensinando-lhes o valor do esforço conjunto e agregador,
teríamos no futuro uma Força mais bem preparada para encarar os desafios do fim
de século e da nova ordem que despontava nos horizontes do mundo.
Nós que formávamos a geração dos futuros condutores pressentíamos que os
desafios seriam muitos, que a tônica deveria ser outra, renovada, aprimorada. Não
acreditávamos mais na explosão de grandes guerras, mas no pipocar de conflitos

239
de configurações diferentes. Quando me refiro a conflitos, não faço menção
só aos conflitos armados, mas os que adviriam no bojo das transformações
que começavam a se fazer presentes na sociedade, na família, nas convicções
religiosas e... na caserna.
Sim, na caserna. Eu já sentia o salto de mentalidade entre minha turma
e a daqueles “garotos” na AFA. Eu já percebia que o “obedeça porque sou
mais antigo” continuava funcionando, porém, não mais com o vigor e o poder
de anos atrás. A juventude não buscava a quem obedecer, mas a quem seguir.
Comandando aqueles jovens, eu já verificava que esclarecimento, “jogo aberto”,
conversa franca e conscientização surtiam efeito duradouros; geravam confiança,
estabeleciam reciprocidade.
Apostei nessas observações o máximo que pude, sem abrir mão do respeito
à hierarquia e à obediência, ciente de que, num futuro próximo, a Força haveria de
se modernizar para acompanhar o ritmo da evolução, adaptando-se às demandas
da liderança em tempos de paz.
Os anos se passaram... Pelas funções que desempenhei e pelos cargos
que ocupei ao longo da carreira, procurei observar se meu pensamento seguia
o rumo certo, correndo em busca de adaptações no compasso das mudanças
que se faziam presentes.

Liderança de oficiais generais

Quando meu chefe imediato, o Tenente Brigadeiro do Ar Luiz Carlos da


Silva Bueno, foi confirmado para exercer o cargo de comandante da Aeronáutica,
movido pelas melhores intenções, perguntei-lhe: “Posso lhe dar uma sugestão?”
Ao responder que sim, disse-lhe: “Que o senhor tente fazer com que os oficiais
generais da FAB formem um verdadeiro time, que tenham uma unidade de
pensamento, que haja verdadeiramente um espírito de corpo.”
Para que tal intento se tornasse possível, seria essencial que os oficiais-
generais mais antigos tivessem abertura suficiente para ouvir e acatar novas
ideias e assessoramentos dos subordinados, quer fossem esses oficiais
generais ou não.
Eu tinha a esperança de que os oficiais-generais promovidos, por serem
reconhecidamente escolhidos entre os melhores de suas turmas, comprometidos
com a missão da Força Aérea e formarem um grande e eficiente time de brigadeiros
de todos os quadros, vivenciassem esse espírito de equipe. E, em consequência,
tal como numa reação em cadeia, tal espírito haveria de refletir nos comandantes
de bases aéreas, diretores de organizações, nos comandantes de unidades aéreas
e demais oficiais em função de comando, chefia ou direção, oficiais superiores,
chegando até os menos graduados.

240
Dessa forma, todos saberiam qual a direção do ‘norte’ da Força, quais seus
objetivos, que pensamentos deveriam ser transmitidos a seus subordinados etc.
Com isso, a tropa ganharia maior coesão.

Surpresa e decepção

Sempre entendi como honrosa responsabilidade contribuir com meu saber e


experiência para a formação das gerações que prosseguiriam na condução da FAB.
Isso era feito por meio das referidas palestras, sempre tentando motivar os jovens
oficiais a oferecerem seu melhor dentro da carreira que escolheram. Bom número
de palestras que ministrei foi durante o comando do Tenente Brigadeiro do Ar
Carlos de Almeida Baptista. Esse nobre ministro e comandante da Aeronáutica
deixou marcas de respeito e admiração, por sua postura sempre atenta à solução
de problemas e aos melhoramentos possíveis para a instituição, como recursos
extraorçamentários para a recuperação operacional da Força Aérea.
De janeiro de 2003 a fevereiro de 2007, vivi um período de “luto
profissional”. Por razões que até hoje desconheço, permaneci, durante esses
quatro anos, impossibilitado de ministrar as referidas palestras. Segundo me
foi transmitido na época, por “determinação superior”. Que “determinação
superior” era essa, nunca entendi, posto sempre incentivar com minhas ideias
o melhor para a Força.
O fato me causou muita tristeza. Sofri, porém nada tendo a fazer, per-
maneci firme em minha dignidade, sabendo, por experiência, que o tempo me
faria justiça. No decorrer daqueles quatro anos, gratificou-me o fato de ser
procurado em minha residência por alguns grupos ou por oficiais isolados que
buscavam ouvir o que me fora impedido de falar na plataforma das escolas.
Ou seja, “chefia e liderança”.
O vínculo de respeito e confiança estabelecido e mantido ao longo dos anos
com meus subordinados nunca sofreu interrupção. E tal comprovação me aque-
ceu a alma naqueles anos difíceis.
Com a assunção ao cargo de comandante da Aeronáutica pelo Tenente
Brigadeiro do Ar Juniti Saito, voltei a transmitir minhas mensagens de otimismo
e amor a nossa Força em nossas escolas: EPCAR, AFA, EAOAR e ECEMAR,
algumas bases aéreas e outras organizações.

241
Capítulo 26

Despedida prematura
Despedida do serviço ativo

A Solenidade de Passagem de Direção da DIRMAB ao Major


Brigadeiro do Ar Paulo Roberto Rohring de Brito, realizada no
dia 1º de agosto de 2003, foi cercada de intensa emoção, pois eu encerrava minha
missão nas fileiras da FAB e nos céus de nossa pátria.
Durante esse período de serviço ativo, tive o privilégio de pilotar 18 tipos
de aeronave. Voei 7.500 horas, das quais mais de 3 mil horas em aeronaves de
instrução de cadetes. À frente da tropa com a qual tanto me identificava, diante
dos comandantes de dez organizações subordinadas, perante os amigos que ali
me prestigiavam e em perfeita harmonia com meus familiares, efetuei a leitura de
minha mensagem de despedida do serviço ativo da Aeronáutica.
Naquele ato, eu arrematava, com muito sofrimento, tristeza e muita garra,
uma vida de intenso amor ao ideal de servir à Força Aérea Brasileira.
Eis a mensagem:
Completo, exatamente hoje, 43 anos de trabalho na Força Aérea,
todos vivenciados e regidos pelo mais puro ideal de bem servir à pátria,
respeitando e valorizando o ser humano, verdadeiro patrimônio e riqueza
de uma nação soberana.
Ao ser informado da abrupta interrupção de minha carreira, senti
na alma a mais profunda dor e, jamais, em dicionário algum, seja em
que idioma for, existirão palavras que possam representar a dimensão da
avassaladora tristeza que invadiu meu ser.
No entanto, e para meu conforto e felicidade, o tempo de me entregar
à prostração foi muito curto, pois que, de imediato, a solidariedade e o
apoio de meus comandados, ex-comandados, companheiros da ativa,
da reserva, de dentro e de fora de nosso país, de amigos de diversas
áreas, civis e militares, vieram a meu encontro, ratificando a certeza de
que combati o bom combate – segundo palavras de São Paulo – como
soldado, como profissional e como homem, oferecendo o melhor de mim
em cada momento dessa longa jornada.
Infelizmente, não tenho respostas para as centenas de indagações
que me fazem de todas as partes. Por que fui excluído?
Esses amigos e companheiros, ao tomarem conhecimento de
minha, considerada pela grande maioria, prematura exclusão do serviço
ativo das fileiras da Força, revelaram-se – por meio de mensagens

242
escritas e eletrônicas ou contatos pessoais – perplexos, sentidos, tristes,
decepcionados, surpresos e descrentes. Alguns se sentiram comovidos,
amargurados, frustrados e até mesmo injustiçados junto comigo;
outros, desapontados, pesarosos, desiludidos, desesperançados... sem
referência... sem norte.
O coro uníssono, formado por esses incontáveis companheiros,
fez-me crer que valeu a pena semear no coração dos mais jovens as
sementes do entusiasmo, da esperança, do amor ao próximo, do orgulho
de vestir nossa farda azul, pois, o germinar dessas sementes constitui hoje
o manancial de forças e incentivo para que a luta pelo engrandecimento
de nossa Força prossiga, sejam quais forem as dificuldades.
Valeu a pena, valeu a pena, sim, tudo o que foi plantado! E orgulho-
me desse semear! Orgulho-me do denodo com que executei o trabalho
que me cabia.
Orgulho-me das 3.400 horas de voo em aeronaves de instrução de
cadetes, quer no Campo dos Afonsos, quer no Campo Fontenelle, em
Pirassununga, ou em qualquer outro ponto nos céus de nosso tão vasto
e amado Brasil.
Meu peito se enche de alegria e satisfação ao relembrar as passagens
pelas 16 unidades para as quais fui designado para servir, porquanto,
sempre busquei desempenhar qualquer missão sem contrapartida ou
contestação.
Mesmo tendo servido no gabinete de três ministros da
Aeronáutica – Araripe Macedo, Sócrates Monteiro e Moreira Lima – e
no gabinete do Presidente Ernesto Geisel, nunca perdi a humildade
nem a serenidade.
Jamais escolhi entre essa ou aquela tarefa, já que, além de considerar
qualquer uma delas igualmente relevante, meus pensamentos sempre
estiveram, incontestavelmente, voltados para a transcendência do que
se pode realizar, quando os horizontes podem ser divisados além do aqui
e do agora.
A paz de consciência que hoje vivencio só é possível fazer-se ecoar,
plenamente, naqueles cujas almas foram oferecidas altruisticamente, por
inteiro, a um grande ideal.
A Força Aérea não representou para mim apenas uma carreira ou –
o que já não seria pouco – tão somente a realização de um ideal; ela se
fundiu a meu ser como o sopro da própria vida, tamanha minha devoção.
Assim vivi e, assim, tive a justa aspiração de prosseguir na
carreira. Aspiração essa em que não cabiam caprichos pessoais ou
mesquinhas vaidades.

243
Hoje, após dias de reflexão, antevejo um porvir diferente, despido de
fronteiras, baseado na convicção de que há sempre um lugar reservado
para os que querem e podem ser úteis ao aprimoramento e à construção
do bem comum.
Parto, pois, para um amanhã de cabeça erguida, certo de que
nada tenho que reconsiderar em minha conduta, posto que continuarei
balizando-a de acordo com princípios de lealdade, justiça e verdade.
Como fruto de minhas reflexões, gostaria de deixar algumas mensagens:

Aos suboficiais, sargentos, praças e civis,


Por dois anos, usei, com muito orgulho, as divisas de terceiro-sargento.
Ao ser acolhido na FAB, através do Berço dos Especialistas, recebi
ensinamentos que contribuíram para a solidificação de meu caráter e que
balizaram minha vida profissional.
Que os suboficiais e sargentos, independentemente de especialidade,
acreditem e muito se orgulhem do indispensável trabalho que executam,
posto que constituem a expressão da verdadeira ‘alma da Força Aérea’.
São vocês que, agindo em conjunto com os civis e demais praças,
formam a grande engrenagem que move a máquina operacional de
nossa instituição.

Aos jovens tenentes, capitães e oficiais superiores,


Que a chama ardente do idealismo jamais arrefeça em seus
corações. Movidos pelo poder da esperança em dias melhores,
trabalhem incansavelmente na recuperação operacional de nossa Força
e, principalmente, na defesa de seus valores.
Lembrem-se de que, apesar das adversidades e muito além dos
interesses transitórios e conjunturais, está o azul dos uniformes que tanto
honramos.
Creiam: seremos fortes, se unidos; respeitados, se honrados;
valorizados pela sociedade se lhe inspirarmos confiança.
Acreditem que vale a pena uma vida de dedicação profissional.
Os homens, com suas limitações, seus desejos de glória pequena,
lutando por alguns minutos de fama, passam. A História está aí para
testemunhar. Os ideais, entretanto, florescem, frutificam e se multiplicam
pela força da grandeza e da verdade neles contidos.
Exercitem a liderança, conscientes de que liderança não se impõe,
conquista-se! E essa conquista só é passível de ser alcançada por meio
da demonstração de integridade de caráter, transparência profissional,
honestidade de propósitos, nobreza de espírito e devoção ao trabalho.

244
Aos majores-brigadeiros, brigadeiros e futuros oficiais-generais,
Procurem dar o melhor de si e o melhor de sua inteligência, na busca
permanente do que for melhor para a FAB.
Busquem transpor os obstáculos ou as eventuais incompreensões
que surgirem; ponham sempre, e acima de tudo, o nome e o prestígio da
instituição. Pensem grande.
Utilizem-se da disciplina intelectual e reservem suficiente coragem
moral para rejeitar quaisquer atos que, eventualmente, possam macular
a sagrada imagem de nossa querida Força Aérea.
Valorizem a inteligência de seus subordinados, utilizando com
sabedoria seus potenciais, virtudes e dedicação profissional em prol
do aperfeiçoamento da Força, pois, para os grandes pelo espírito,
tudo que é grandioso em seus subordinados vem a somar, nunca a
ameaçar.
Cumpram o solene juramento feito perante a Bandeira
Nacional, tratando com bondade seus subordinados, respeitando-os,
independentemente de sua posição hierárquica.
Sejam verdadeiros e íntegros, pois esse é o elo que une os
comandados a seus comandantes. Que não haja espaço para a falsidade
no dia a dia de suas funções. Estejam atentos para não utilizarem o
poder das platinas contra os mais fracos e indefesos. A força moral do
bom exemplo haverá de lhes propiciar, sem alarde, o imprescindível e
saudável respeito que precisarão receber da tropa.
Lembrem-se: as Forças Armadas precisarão sempre de mais
líderes, e a carência destes as tornam mais fracas e vulneráveis, na
indelegável missão de defender nossa pátria e respeitar esse povo digno
e trabalhador.
Que seus olhos e ouvidos estejam atentos para aprender, mesmo
diante de exemplos pouco edificadores. Não se amesquinhem, invejando
ou sentindo-se ameaçados pelo brilho ou liderança desse ou daquele
subordinado. Orgulhem-se ao identificá-lo e o incentivem, canalizando
suas qualidades para o bem da instituição.
Lembre-se sempre de que, por mais que se tente, nunca alguém
conseguirá apagar a chama nem ofuscar o brilho de um verdadeiro líder,
daquele líder capaz de sentir o pulsar dos corações de seus liderados e
no qual a tropa sabe que pode confiar e segui-lo aonde for.
Aos companheiros de turma que prosseguem a jornada,

Felicito-os pela seleção e promoção ao último posto da carreira. Que


Deus ilumine seus passos, suas atitudes e suas iniciativas.

245
Em suas mãos e nas ações dos oficiais-generais que os sucederem,
deposito toda a minha esperança e o sonho de ver uma Força Aérea cada
vez mais vibrante, mais coesa e eficaz.
Busquem construir forte unidade de pensamento entre os oficiais-
generais para maior fortalecimento da instituição. Somente com a unificação
de pensamento e despojados de vaidades e interesses pessoais, será
possível a consolidação de uma Força Aérea grandiosa e respeitada.

Aos tenentes-brigadeiros,
Meu respeito disciplinar e profissional.

A todos os amigos que continuam na ativa,


Deixo-lhes um sonho que gostaria de tê-lo podido realizar: o sonho
de ver, nos portões de entrada das organizações do Comando da
Aeronáutica, tal como ocorre hoje em todas as organizações da logística
no País, inscrita, em letras de grande destaque, as três palavras que nos
são sagradas: FORÇA AÉREA BRASILEIRA. E que acima delas tremule,
dia e noite, nossa majestosa Bandeira Nacional, pois nós só temos uma
pátria para defender, uma Força Aérea para amar e uma farda para honrar.
Dentro de alguns minutos, usarei minha espada pela última vez
e farei minha última continência perante a tropa. De cabeça erguida,
apresentarei meu adeus ao serviço ativo das fileiras da Força que tanto
amo e a quem servi com a inteireza de minha vida, fazendo de meu
devotamento a fonte de meu maior júbilo.
Outras missões, com certeza, me aguardam, pois a vida aqui não se
encerra, o trabalho prossegue e só Deus, em Sua infinita sabedoria, tem
consciência plena dos propósitos de cada um.

A minha adorável esposa Diolásia,


Em cuja inteligência, sabedoria, meiguice e compreensão sempre
encontrei uma aliada. Para essa cativante criatura, que sonhou meus sonhos,
viveu minhas alegrias, aliviou-me as tristezas e foi, incansavelmente, meu
bastião protetor, para ela, pela beleza de seu caráter e nobreza de sua
alma, do fundo do meu coração, uma miríade de estrelas ainda seria muito
pouco para expressar meu carinho e eterna gratidão.

Aos meus queridos filhos Jeferson e Laíse,


Coroamento de uma vida conjugal extremamente feliz, todo orgulho
de um pai agradecido ao Criador por ter-me abençoado com vocês, meus
filhos, que fulguram em minha vida quais cintilantes cometas luminosos.

246
Por tudo que recebi da FAB, enquanto estive no serviço ativo, e por
toda a demonstração de apreço e solidariedade recebida nesses dias que
antecederam a esse momento de despedida, meu eterno reconhecimento
e minha imensurável gratidão.
Muito obrigado! E que Deus abençoe a todos os integrantes de nos-
sa muito querida Força Aérea Brasileira.

247
Capítulo 27

Conclusão
“Não queremos viver de passado, mas queremos que o passado faça parte do
nosso futuro, dando consistência e coerência ao que somos.”
Anthony Leahy

A saudade que sempre me acompanhará

E stamos no segundo semestre de 2012. Há muito completei o trabalho


dessas memórias, porém, só agora chegou o momento de arrematá-
las e compartilhá-las. Muita coisa aconteceu desde aquele 1º de agosto de 2003.
Durante um bom tempo vivi a intensa tristeza de não mais vestir o azul da
Força Aérea. Senti muita falta de tudo que fazia, senti muita falta dos comanda-
dos, do som da banda de música marcando a cadência dos passos da tropa, do
convívio com aqueles que compartilhavam das mesmas ideias. Doía-me não mais
poder contribuir para a construção diária da Força, oferecendo-lhe meu trabalho,
experiência e dedicação.
Vali-me de decisões práticas que me ajudassem a seguir em frente. Comecei por
primeiro distribuir a maior parte de meu fardamento entre companheiros que vestiam
meu número. Guardei algumas peças, como o capacete de voo usado na instrução
do T-37C, em Pirassununga, e outro que recebi quando de minha despedida da FAB,
homenagem do Parque de Lagoa Santa, cujo comandante era o Coronel Edgard. A
Diolásia insistiu e me convenceu a guardar um 5ºA completo e o 1º uniforme, o de
gala, que – como ela dizia – lembrava os bons momentos do Dia do Aviador. E, vocês
vão rir, mas vou contar: guardei e ainda calço as meias pretas. Elas eram muitas e
acompanham o par de sapatos pretos que uso em determinadas situações.
Separamos um cômodo em nosso apartamento que chamo de “o quarto da Força
Aérea”. Lá estão as maquetes dos aviões – pendurados no teto –, os troféus, as placas
e toda a minha vida na FAB. Faz-me um bem enorme sentir-me rodeado de lembran-
ças que tornam presente um passado que me é muito caro. Sempre que alguém da
FAB me visita, convido-o a compartilhar de tais recordações. Em geral, em algum
troféu, foto, quadro, placa ou bandeira de comando tal visitante se vê representado.
Jamais escondi dos amigos meus sentimentos e nunca me senti menor por
externá-los. Ninguém está pronto para encarar rupturas e, para mim, não ter sido
promovido ao último posto da carreira foi uma abrupta ruptura. Não nego nada,
nem omito. Abro-lhes o coração ao falar dos momentos finais da carreira que
tanta alegria me trouxe.
Com o passar dos meses, fui descobrindo outros interesses, desenvolven-
do outras atividades; a força interna que sempre me impulsionou a “combater o
bom combate”, que nunca me deixou esmorecer, jamais me abandonou. Fui me

248
organizando internamente, fui me restaurando. E hoje a vida é outra. Já me refiz
e sou útil na atividade que atualmente desenvolvo, querendo a sorte que ainda me
dedique aos interesses de um segmento da Força Aérea.

Se promovido tivesse sido

Guardei comigo a aspiração de que se fosse promovido ao posto de tenente-


brigadeiro, exerceria o cargo de diretor do Departamento de Ensino. Naqueles
idos de 2003, eu entendia que passávamos por um momento premente e decisivo
de renovação, e correr atrás de tal objetivo já não seria uma questão de escolha,
mas uma exigência. Ou, melhor, nos preparávamos e nos inseríamos no contexto
do Brasil do século XXI ou correríamos sério risco de nos vermos tão preteridos
como defasados, obsoletos e questionados sobre nossa utilidade. Eu me preocu-
pava com o espaço que a Força Aérea ocuparia na sociedade dali para frente.

Gratidão sincera

A presença de dois oficiais-generais da reserva na solenidade de minha


despedida da FAB transmitiu, com muita força e fé, o que senti que os amigos
civis e militares, ali presentes ou registrados em pensamento, gostariam de me
repassar ao olhar o futuro.
A primeira foi a do Tenente Brigadeiro do Ar Rodolfo Becker Reifschneider,
militar a quem reputo um dos mais altos graus de honradez e dedicação à Força.
Minha admiração por esse digno militar vem da época em que exerceu a função
de chefe da Divisão de Ensino da Escola de Aeronáutica e eu era cadete.
A segunda, foi a do Tenente Brigadeiro do Ar Nelson de Souza Taveira que,
naquela manhã de 1º de agosto de 2003, dia de minha despedida da FAB, se des-
locara de Brasília a fim de estar presente àquele momento. Ele sabia de minha
comoção e, sem aviso, surpreendeu-me com sua presença. Fiquei muito toca-
do, pois sempre admirei sua brilhante inteligência, polidez no trato, correção de
conduta e profissionalismo exemplar. Seu gesto me deu força e crédito para que
permanecesse firme. Se aquelas duas pessoas a quem eu tanto admirava estavam
ali presentes, é porque uma mensagem forte me traziam.
Foram muitos os que vieram de outras unidades para prestigiar minha des-
pedida da FAB. Para ninguém era segredo meu angustiado estado de espírito.
Sintetizo os agradecimentos aos que vieram de outras cidades, tal como o
fez o Major Falcão, que não só compareceu à solenidade como trouxe consigo os
oficiais que realizavam o curso no ILA e que se deslocaram de São Paulo para o
Rio de Janeiro muito cedo daquela manhã. Afirmo-lhes quão importante foi o ca-
lor humano que uniu nossos sentimentos naqueles momentos de tanta comoção.
Agradeço a todos a companhia que me fizeram, a solidariedade, a homena-
gem que sua presença representou.

249
Agradeço à Força Aérea que nunca me deixou, à Força Aérea que sempre
me prestigiou e que, em horas difíceis, se fez presente por meio de cartões, men-
sagens, telefonemas, cartas, e-mails, convites, visitas, encontros e homenagens.
Em 2007, voltei a ministrar as palestras sobre Chefia e Liderança e, com
isso, restabeleci contato mais direto com aqueles que prosseguiam na missão
de bem honrar a FAB. Já não conto mais o número de palestras que proferi ao
longo desses anos. Já me perdi na conta dos convites que recebi para come-
morações diversas.
Menciono tudo isso com o peito pleno de saudável orgulho. Não tenho como
medir e agradecer a altura, o carinho, a consideração e o respeito que recebo aon-
de vou, dos diversos setores da Força.
Aproveito o momento para agradecer aos amigos que muito direta e concre-
tamente me apoiaram e incentivaram a trilhar outros caminhos. Em especial des-
taque agradeço a meu companheiro de turma Silvio Potengy, que me introduziu
na vida civil por meio de uma colocação na empresa de tecnologia da informação
e-Dablio, onde trabalhei durante o ano de 2005. Seu gesto merece meu eterno
apreço e ele sabe por quê.
Agradeço também ao Major Brigadeiro Washington que me convidou para
fazer parte da Fundação Serviços de Defesa e Tecnologia de Processos (FSDTP),
com fortes laços com o Departamento de Controle do Espaço Aéreo e, portanto,
com a FAB, onde trabalho atualmente.
Agradeço a Deus a felicidade que me proporcionou com a chegada de meu
primeiro neto, Eduardo, em 2006, e do segundo neto, Gustavo, em 2009, filhos
do casal Jeferson e Sandra. Em dezembro de 2010, chegou nossa netinha, Milena,
filha da Laíse e do Marcello. A presença deles povoa meu universo e me enrique-
ce de sonhos e projetos.
Meus filhos Jeferson e Laíse sempre me cobriram de atenção e carinho, jun-
tamente com seus respectivos pares, Sandra e Marcello, e estar com eles é uma
bênção. Reconheço que hoje tenho mais tempo para eles.
Para minha esposa, Diolásia, não há palavras que possam definir meu agra-
decimento, pois sua dedicação, zelo e companheirismo sempre me rodearam.
Nem sempre foi preciso sequer um olhar. Nossos pensamentos se conectavam no
espaço e me alcançavam, trazendo-me paz e inspiração. Ela conhece minha alma
como ninguém; por isso, é coautora destas memórias.

Despedidas marcantes

Entre as várias homenagens de despedida, todas muito tocantes e plenas


de conteúdo afetivo e emocional, duas pretendo, nesse momento, ressaltar pela
agradável surpresa e pelo inesperado das homenagens.
A primeira, cronologicamente, foi um jantar na residência do Comandante
José Affonso, proprietário da Líder Táxi Aéreo, na Barra da Tijuca. Esse nobre

250
amigo deslocou-se de Belo Horizonte especialmente para tal evento, cujos convi-
dados, a seu pedido, foram por mim sugeridos. Foi um encontro bastante íntimo,
com pouquíssimos casais, organizado por seu diretor da Base Rio, Fernando Al-
berto dos Santos, e esposa, senhora Regina Lúcia de Barros Santos, com quem até
hoje mantemos contato muito cordial. São pessoas que nos fazem bem encontrar
e estar em contato.
Outra despedida, essa com a presença de muitos amigos, organizada pelo di-
leto amigo e companheiro de turma Manuel Cambeses, sob o esquema de adesão,
aconteceu numa churrascaria da Barra da Tijuca – a Churrascaria Tourão – numa
noite de julho de 2003.
Essas duas iniciativas me tocaram profundamente, de modo que sou imen-
samente agradecido tanto aos quem tomaram a iniciativa como aos que estiveram
presentes, dedicando-me consideração, tempo e apreço.
Ao final de três anos e quatro meses na direção da DIRMAB, despedi-me
das organizações subordinadas no Brasil. Esses últimos e marcantes encontros
ocorreram nos cinco parques de material aeronáutico: Afonsos, Galeão, Lagoa
Santa, Recife e São Paulo; no Parque de Material Bélico do Rio de Janeiro, no
Instituto de Logística da Aeronáutica, na Comissão Aeronáutica de São Paulo e
no Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro.
Dirigi minhas emocionadas palavras de despedida à tropa e recebi as mais
carinhosas homenagens e mensagens que tocaram fundo meu coração, como a do
PAMA AF, que terminou com a tocante frase:
“Se até o Cruzeiro do Sul ele não chegou, foi porque lugar mais alto estava-
lhe reservado: os nossos corações.”

Reencontro com ex-cadetes.

Temos sido convidados e, dentro do possível, comparecido a várias come-


morações de turma. Vez por outra nos encontramos em Barbacena, Brasília, Pi-
rassununga ou aqui no Rio de Janeiro. Estar com os amigos que conhecemos tão
jovens é uma festa para nossos corações. Digo “nossos” porque a Diolásia vestiu
com muita fé a “camisa” de tudo que vivi na Força Aérea e, sempre que pertinen-
te, me acompanha, compartilhando essas alegrias.
Numa das comemorações de turma em Barbacena, em 2006 – Turma Tu-
cano –, falei aos jovens coronéis sobre a necessidade do preparo do amanhã.
Falei-lhes que, em breve, alguns seriam selecionados para missões no exterior e,
mais adiante, para o generalato; que alguns prosseguiriam na carreira por certo
tempo, outros por mais; que alguns deixariam a FAB pela não seleção para o
CEPEA; que alguns exultariam de alegria por certos acontecimentos, enquanto
outros viveriam momentos de mágoa, dor, ressentimento, tristeza e decepção.
Que procurassem se manter unidos como turma, que buscassem outras ativida-
des, que servissem aonde fossem, que fizessem a diferença... Que mantivessem

251
seus laços familiares muito fortes, pois é nela, em nossa família, que está nosso
bastião de invulnerabilidade. É ela que nos acolhe quando a vida profissional
não segue o rumo que acreditávamos pudesse seguir. Quando os sonhos se vão,
é com a família que alicerçamos outros sonhos, objetivos e metas. Porque a vida,
independentemente dos acontecimentos, segue seu ritmo e continua sem se deter.
Falei-lhes um pouco de meu presente: durmo cedo, acordo às 5 horas, faço
meu alongamento, passo os olhos no primeiro caderno do jornal O Globo, deslo-
co-me no ônibus do condomínio até o Centro da cidade, num percurso que dura
em média 1 hora, e trabalho ao longo o dia inteiro com a satisfação de sempre.
Retorno por volta das 17 horas; dou minha caminhada de mais ou menos uma
hora. O que resta do dia passo com a família.
Afirmei àqueles jovens coronéis que usufruo de imensa paz de espírito, pois
nunca traí meu foro íntimo. Vivo em harmonia comigo mesmo, com minha fa-
mília e com meus semelhantes. Reclino, toda noite, a cabeça no travesseiro na
certeza de que, em sã consciência, nunca persegui, boicotei, humilhei ou usei
alguém em prol de interesses pessoais ou vaidades tolas.
Tudo isso lhes falei, pois senti, em muitos, o interesse em saber como estava
o presente de seu ex-comandante. Agradeci-lhes o fraterno interesse, inclusive
pela minha saúde, pois o tremor nas mãos aumentara e vários perceberam. Falei-
lhes que se tratava do efeito colateral de uma medicação que tomo para prevenir
as crises de enxaqueca.
Os problemas com a coluna se foram, mas as enxaquecas... Para ser justo,
até que melhoraram, mas é cíclico. Há época em que não me dão sossego.

Enfim, o fecho

Agradeço ao destino por tudo que passei nessa caminhada de 43 anos na


FAB. Vivi tristezas, amarguei decepções, enganei-me algumas vezes, porém, as
alegrias e realizações foram de tal monta que superaram incomensuravelmen-
te qualquer percalço dessa bela caminhada. Tal julgamento me firma a inabalá-
vel certeza de que repetiria tudo que vivi tantas vezes quanto as que me fossem
concedidas repetir. Afirmo-lhes que não sei o que faria diferente, pois, quer nos
percalços, quer nas satisfações, mesmo não entendendo de pronto o que os acon-
tecimentos representavam, além das emoções do momento, vivi com muito ide-
alismo e comprometimento, que me permitiram viver uma Trajetória de Honra.
Nós somos o que somos com virtudes e defeitos, erros e acertos, portanto,
sei que não mudaria muito em minhas ações e comportamento. Com isso, tenho
algumas certezas que considero inabaláveis: manter-me-ia leal a meus superiores
e zeloso com meus subalternos; voaria tanto quanto voei, dando os quatro “du-
plos” diários de T-37C, permanecendo em média cinco horas diárias nos céus de
Pirassununga, em instrução aérea a cadetes, tal como no ano em que voei 920
horas; acordaria para os voos na madruga com o mesmo entusiasmo, indepen-

252
dentemente de enxaqueca, hérnia de disco, desconforto das hemorroidas e outros
achaques. Seria tão apaixonadamente dedicado ao trabalho, às missões que me
fossem confiadas e, com muita convicção, tão honesto quanto fui.
Sei que colocaria, outra vez, os interesses da instituição acima de qualquer
interesse pessoal. E sei que desempenharia funções e cargos aonde quer que fosse
mandado desempenhá-los. Procuraria seguir os passos dos muitos superiores a
quem admirei e desprezaria com profunda segurança qualidades desagradáveis e
mesquinhas de alguns pouquíssimos.
Vivendo êxitos e percalços, aliás, como qualquer pessoa, me fiz maior como
ser humano ao longo desses 70 anos de vida; adquiri certa sabedoria por meio
das múltiplas experiências e pelo exercício da observação; exercitei qualidades,
refleti bastante... Graças a Deus, jamais me afastei de princípios que sempre me
foram caros, como também não fiz concessões que me apequenassem a meus
olhos, aos olhos de meus afetos ou daqueles a quem admiro. Agi como achei que
deveria agir; fiz o que achei ser certo fazer.
No momento em que torno públicas memórias que me são tão caras, vivo
a profunda satisfação de ver atingir o generalato os primeiros cadetes a quem
comandei no Corpo de Cadetes. A eles juntar-se-ão outros novos oficiais generais
integrantes das cinco turmas que comandei, turmas em cujos verdes anos foram
lançadas as sementes de compromisso para com a instituição e com a pátria. Que
brilhem suas estrelas!
Sinto confiança no futuro da Força, sinto esperança de que sábias decisões
bem situarão a FAB no século XXI, essa FAB que sempre amei e que continuarei
amando com intensa paixão.
Por fim, reitero o pensamento que sempre foi referência para minha vida
profissional:

Nós só temos uma Pátria para defender,

Uma Força Aérea para amar e

Uma Farda para honrar.

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C449t
 
Cheriegate, Walacir 
    Trajetória de honra : de sargento a brigadeiro : uma vida de amor à Força Aérea
Brasileira / Walacir Cheriegate, Diolásia de Lima Cheriegate ; [coordenador Carlos
Lorch]. - Rio de Janeiro : Action, 2012. 
    290 p. : il. 
 
    Apêndice
    ISBN 978-85-85654-37-5
 
    1. Cheriegate, Walacir  2. Homens - Brasil - Biografia 3. Brasil. Força Aérea
Brasileira.  4. Aeronáutica  5. Aviões - Pilotagem. I. Cheriegate, Diolásia de Lima  I.
Título.

12-8328.                                                                 CDD: 920.71


                                                                                 CDU: 929-055.1

13.11.12   22.11.12                                                                                                 040708

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1911 - Bisavô materno Luiz Fornazari. 1870 - Bisavó materna Antonia.

1911 - Avó materna Maria Luiza

I
1870 - Bisavós Frederic Samways e Ada Sahara, pais do avô Wallace.

1911 - Avô materno Wallace Samways.

II
1940 - Avós paternos Alexandre e Olívia Cheriegate.

1941 - Meus pais Francisco e Nair.

III
1948 - Torcida mirim do Guarani Esporte Clube (segundo da esquerda para a direita).

1949 - Primeiro ano do Grupo Escolar Senador Correia (irmão David de suspen-
sório a minha frente e primo Vilson atrás de mim).

IV
1956 - Formatura do curso ginasial do Colégio Regente Feijó.

1958 - Time de voleibol da Escola Profissional Ferroviária Tiburcio Cavalcanti


(primeiro da esquerda abaixado).

V
1958 - Formatura da Escola Profissional Ferroviária Tiburcio Cavalcanti, junto com
os primos Arinaldo e Vitor, na última fila (terceiro e oitavo da esquerda para a direita).

1961 - Formatura como terceiro-sargento na Escola de Especialistas de Aeronáutica.

VI
1961 - Meu pai, Francisco, na solenidade de formatura da EEAR.

1962 - Aeronaves Gloster Meteor do 1º/14º GAV.

VII
1964 - Entrega de brevê e espadim no primeiro ano do Curso de Formação de
Oficial Aviador no Campo dos Afonsos.

1964 - 1o ano do Curso de Aviador no 1965 - Cadete do segundo ano aviador


Campo dos Afonsos, com o Cadete Aderson no Campo dos Afonsos, RJ.

VIII
1966 - Cadete do terceiro ano aviador na nacele da aeronave NA T-6.

1966 - Cadete do terceiro ano aviador no Campo Fontenelle em Pirassununga, SP.

IX
1966 - Cadete Ramos Pinto e eu na Escola de Aeronáutica.

1966 - Recebimento da espada de oficial do Presidente Castelo Branco.

X
1966 - Pais e irmãos na Solenidade de Entrega da Espada de Oficial.

1969 - Nacele da aeronave T37-C.

XI
1969 - Tenente Luiz Carlos e eu na Academia da Força Aérea.

1972 - Logo da Academia da Força 1972 - Capacete de comandante da


Aérea - Ninho das Águias. Esquadrilha Castor.

XII
1973 - Ajudante de ordem do 1975 - Ernesto Geisel, presidente
Ministro Araripe Macedo. da República, esposa e filha.

1976 - Ajudante de ordens jun-


to ao brasão da Presidência 1976 - Embarque na Base
da República. Aérea de Brasília.

XIII
1976 - Mesa de trabalho no Palácio do Planalto.

1976 - Desembarque em Paris com recepção do presidente da França,


Giscard d’Estaing.

XIV
1976 - Recepção no Palácio Akasaka, em Tókio, durante viagem presidencial
ao Japão. Presidente Geisel com Cel Pedrozo, Maj Serpa e eu.

1976 - Cumprimentos de Natal por oficiais no Palácio do Planalto.

XV
1978 - Momento raro de descontração do Presidente Geisel.

1979 - Presidente Geisel com ajudantes de ordens: Capitão de Corveta Ralph,


Major Plínio, Major Walacir e Major Parrini.

XVI
1982 - Passagem em revista ao Corpo de Alunas do CIGAR.

1982 - Solenidade de Assunção do Comando do Corpo de Cadetes: primos Vitor e


Odete, tio Zeca, irmã Sandra Mara, Diolásia, Jeferson e Laíse.

XVII
1983 - Parada diária do Corpo de Cadetes.

1983 - Revista ao Corpo de Cadetes pelo Presidente João Figueiredo.

XVIII
1984 - Revista ao Corpo de Cadetes pelo Ministro Délio Jardim de Matos.

1984 - Comandante da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos - USAFA.

XIX
1986 - 3.400 horas em aeronaves de instrução de cadetes.

1986 - Passagem de comando do 5º Grupo de Aviação ao Tenente-Coronel Vergara.

XX
1987 - Major Brigadeiro Elislande - entrega da Ordem do Mérito Aeronáutico.

1991 - Princesa Diana em sua passagem pela Base Aérea do Galeão.

XXI
1991 - Príncipe Charles em sua passagem pela Base Aérea do Galeão.

1991 - Fernando Collor de Mello - presidente da República.

XXII
1991 - Nelson Mandela - presidente da África do Sul.

1991 - Helmut Kohl - chanceler da Alemanha.

XXIII
1993 - Chegada em Londres para a assunção do cargo de chefe da CABE: CMG
Flavio, Cel Saito, Ten Cel Sabino, Ten Cel Burnier, esposas e familiares.

1994 - Visita à Praça Vermelha durante missão da CABE em Moscou.

XXIV
1994 - Itamar Franco - presidente da República em exercício.

1998 - Passagem em revista à tropa da EEAR, no desfile de 7 de setembro, acom-


panhado pelo Dr. Francisco Carlos, prefeito de Guaratinguetá.

XXV
1998 - Passeio ecológico na EEAR liderado pelo Professor Celso, coordenador do
Projeto de Reflorestamento e Paisagismo da EEAER.

1998 - Flagrante de fim de semana na EEAR.

XXVI
1997 - Inauguração do quadro de turma do Curso de Formação de Sargentos em
homenagem à Esquadrilha da Fumaça. Brig Sirotheau e pilotos do EDA.

1998 - Formatura do Curso de Formação de Sargentos da EEAR.

XXVII
2000 - Título de Cidadão Guaratinguetaense recebido em solenidade na
Câmara Municipal.

2001 - Paraninfo da 214ª Turma de Especialistas da Aeronáutica.

XXVIII
2001 - Apresentação ao Presidente Fernando Henrique Cardoso na promoção a
oficial-general.

2001 - Papa João Paulo II no Vaticano.

XXIX
2002 - Recebimento de medalha das mãos do Presidente Luis Inácio Lula da Silva.

2006 - Encontro da Turma de 1961 - Sai da Reta - na volta às origens na EPCAR.

XXX
2003 - Minha família: Diolásia, Jeferson e Laíse.

2001 - Voo na aeronave de caça A-1 com o Major Felipe.

XXXI
2003 - Passagem de direção da DIRMAB ao Major Brigadeiro Britto (1/8/2003),
último dia no serviço ativo.

2003 - Organizações da Aeronáutica onde servi.

XXXII
1998 - Aluno, cadete e brigadeiro.

2002 - Major Brigadeiro do Ar.

XXXIII
2012 - Sala “Força Aérea Brasileira” num dos aposentos de meu apartamento.

2012 - Sala “Força Aérea Brasileira” num dos aposentos de meu apartamento.

XXXIV
2003 - Saudade da Força Aérea.

XXXV
2012 - Comemoração dos 70 anos em Las Vegas.

2012 - Las Vegas.

XXXVI