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Para os Professores

Resumo do livro da parte geral do concurso - A escola e o conhecimento


Resumo do livro da parte geral do concurso para docentes da rede estadual de São
Paulo (2013):
CORTELLA, Mário Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e
políticos. 14. ed., São Pau-lo, Cortez, 2011.

VISÃO GERAL
O livro tem o objetivo de demonstrar que o conhecimento é uma construção cultural e
que a escola tem um comprometimento político, de caráter ao mesmo tempo conservador
e inovador. Inicia com uma visão sobre o conhecimento para a seguir rebater a ideia
de que o conhecimento seja uma “descoberta”. Em continuação, volta sua atenção para
a escola e suas práticas, enfatizando o sentido social do trabalho pedagógico e
acenando com a possibilidade do conhecimento como ferramenta da liberdade e do
poder de convivência entre iguais.

Introdução – em nenhum momento da história republicana a frase “A educação está em


crise” deixou de ser dita, pois não atingimos ainda patamares mínimos de uma
justiça social
compatível com a riqueza produzida pelo país e usufruída por uma minoria. A crise é
de todos os setores sociais, mas a da educação tem raízes específicas: confronto
entre ensino confessional e laico; conteúdos e metodologias; novas ideologias;
democratização do acesso; gestão democrática; educação geral versus formação
especial; educação de jovens e adultos; escolaridade reduzida; público versus
privado; baixa qualidade de ensino; despreparo dos educadores; movimentos
corporativos ineficientes; evasão e retenção escolar.
1. Gênese recente de uma antiga crise e atuação dos educadores - A urbanização dos
últimos 30 anos trouxe para as cidades uma demanda sem precedentes por serviços
públicos. No entanto, o modelo econômico pós-64 privilegiou a produção capitalista
industrial, direcionando os investimentos para a infra-estrutura e, com a ausência
de investimentos sociais, houve uma demanda explosiva na Educação, a depauperação
do instrumental didático-pedagógico, a entrada de educadores sem a formação
apropriada, a diminuição salarial, a imposição de um modelo de formação
profissional e compulsória e centralização dos recursos orçamentários.
2. Educação brasileira, epistemologia e política: por que repensar fundamentos
dessa articulação ? É preciso pensar uma nova qualidade para uma nova escola, numa
sociedade que elegeu a educação como um direito objetivo da cidadania e por isso
rever a ligação entre Educação, Epistemologia e Política. A democratização do
acesso e a permanência devem ser encaradas como sinal de qualidade social: a
qualidade em educação passa, necessariamente, pela quantidade. A formação do
educador precisa abranger o aspecto técnico em uma área do saber, a dimensão
pedagógica do ensino, a democratização da relação professor-aluno/entre instâncias
dirigentes/comunidades e a democratização do saber. Em resumo, são três pólos: uma
sólida base científica, a formação crítica de cidadania e solidariedade de classe
social. A escola pública, aí, deixa de ser um local onde o trabalhador simplesmente
aprende o seu cotidiano profissional para ser uma nova perspectiva de realidade
social. Há a necessidade de uma reorientação curricular que parta da realidade,
para superá-la e usar os conhecimentos como ferramenta da mudança.

Capítulo 1 – Humanidade, Cultura e Conhecimento (p. 21-54)


Atuar em educação é lidar com formação e informação; é trabalhar com o conhecimento
e que, embora se privilegie o extremamente recente (historicamente falando)
científico, abrange também o estético, o religioso, o afetivo.
1. O que significa ser humano ? desde Aristóteles (o homem é um animal racional) e
Platão (um bípede implume), passando por Fernando Pessoa (um cadáver adiado),
muitas foram as definições que procuraram capturar a essencialidade da natureza
humana. O que há de comum é que todas tentam identificar o humano e dar a este uma
identidade, uma definição (finis = fronteira). A indagação sobre a razão de sermos
e nossa origem e destino (o sentido
2/10 da existência) é um tema presente em toda a História. A resposta, porém,
parece cada vez mais longe, o que é uma das características do conhecimento (é
impossível esgotá-lo ou “só sei que nada sei” – Sócrates). Essa premissa nos leva a
pensar o conhecimento como algo a ser revelado, uma descoberta. De forma
caricatural, podemos responder à questão quem sou eu assim: sou um indivíduo entre
outros 5,5 bilhões, pertencente a uma única espécie entre outras 30 milhões
diferentes, vivendo em um planetinha, que gira em torno de uma estrelinha entre
outras 100 bilhões, que compõem uma mera galáxia em meio a outras 100 bilhões,
presente em um dos universos existentes, cilíndrico e que se expande há 15 bilhões
de anos... Era menos instável viver na Idade Média, quando tudo estava em “ordem”:
a Terra no centro do Universo, o Homem no centro da Terra, a Alma no centro do
Homem e Deus no centro da Alma. Foram os 500 anos mais recentes que nos
“descentralizaram”, com Copérnico, Galileu, Darwin, Freud e outros. Afinal o que é,
para nós, a vida, senão o intervalo entre nascer e morrer ? Essa constatação nos
torna únicos: o homem é o único animal que sabe que vai morrer e, por isso, não é
de estranhar a sensação de angústia de muitos. Albert Camus já explicava que o
homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. Porque não faz sentido, nós o
construímos.
2. Um passeio pelas nossas origens. Nosso estágio atual é fruto de uma evolução
singular: em relação ao meio ambiente, não somos especialistas em nada, nossa
estrutura orgânica é débil e frágil, pouca força física, pouca velocidade de
deslocamento, a pele é pouco resistente ao clima e agressões, não nadamos bem e não
voamos, não resistimos mais do que alguns dias sem água e alimento, nossa infância
é muito demorada e temos que ser cuidados por longo tempo. Num planeta de extremos
como o nosso, se vivêssemos apenas do nosso “equipamento natural”, seríamos muitos
menos e habitaríamos uns poucos locais. Por não sermos especializados, tornamo-nos
um animal que teve que se fazer, se construir e construir o próprio ambiente. Ainda
com base numa teoria da evolução, ao descer das árvores, nossos ancestrais
hominídeos tiveram de adaptar-se: uma postura ereta (que libera as mãos, aumenta a
velocidade e permite ver de mais longe os perigos), o uso do polegar opositor
(habilidade de preensão) e a expansão do volume da massa encefálica (e um córtex
integrador que equilibra a necessidade de sangue na parte superior do corpo pela
posição ereta). Foi uma maturação lenta que nos obrigou a permanecer mais tempo
sendo cuidados e convivendo com os adultos da espécie. Com a criação de um ambiente
próprio, nos tornamos um “produzido produtor do que o produz”, um ambiente humano
por nós produzido e no qual somos produzidos, ao qual chamamos cultura.
3. Cultura: o mundo humano. Adaptar-se significa estar recluso a uma posição
específica; é conformar-se (aceitar e ocupar a forma), submeter-se, por isso, ao
ter de buscar tudo que precisamos, romper a acomodação e enfrentar a realidade
passa a ser uma questão de necessidade, não de liberdade. Que ferramenta temos? Não
é a racionalidade, pois não basta pensar para que as coisas aconteçam. Nossa
interferência no mundo se dá pela ação transformadora consciente, ou seja, uma
capacidade de agir intencionalmente em busca de uma mudança no ambiente que nos
favoreça. A isso se chama trabalho ou práxis e seu fruto chama-se cultura: o
conjunto dos resultados da ação do humano sobre o mundo por intermédio do trabalho.
Assim, nenhum ser humano é desprovido de cultura, pois nela somos socialmente
formados: o homem não nasce humano mas torna-se humano na vida social e histórica
da cultura, um processo de humanização. Começa a cultura, começa o homem; começa o
homem, começa a cultura. Os resultados são de duas ordens: as idéias e as coisas,
ambas duplas e a partir de necessidades diversas: os produtos materiais têm uma
idealização (é preciso pensá-las antes) e os produtos ideais tem uma materialidade
(partem da realidade). Porque nos são úteis, as chamamos bens, é necessário
reproduzi-los e, para isso, criamos outros bens: há então bens de consumo e bens de
produção. O mais importante bem de produção é o Humano e, nele, a Cultura, que, por
não ter transmissão genética (não se nasce sabendo), precisa ser recriada e
superada. Outro bem de produção básico é o conhecimento (o entendimento,
averiguação e interpretação sobre a realidade) e a educação é o veículo que o
transporta.
4. Conhecimentos e valores: fronteiras da não-neutralidade. Manter-se vivo é
intenção de todo ser vivo, mas, para o ser humano, só sobreviver com base nos
conhecimentos é
3/10 insuficiente: é preciso que a vida valha a pena, e, para isso, a cultura tem
produtos ideais como os valores, que dão sentido (significado e direção) e
estabelecem uma ordem e um posicionamento no mundo. Constituem uma moldura que
abrange uma visão de mundo (compreensão da realidade), uma informação (que dê forma
aos conhecimentos) e conceitos (entendimentos). Entretanto, valores, conhecimentos
e conceitos (e pré-conceitos) devem mudar porque ser humano é ser capaz de ser
diferente. O significado dessas referências não é do mesmo modo para todos, sempre,
pois é moldado pela cultura, pela sociedade e pela história dessa cultura, ou seja,
todo símbolo (conhecimentos e valores) é relativo e não pode ser examinado por si
só. Embora a individualidade gere um ponto de vista particular sobre isso tudo, a
construção é coletiva, o que implica em uma vida política onde se negocia, produz e
conquista significado. Por isso a produção dos valores não é neutra, dependente do
poder de quem possui. A posição de predominância social significa, então, ter seus
valores e conhecimentos difundidos e aceitos pela maioria como se fossem próprios
ou universais, seja por imposição ou convencimento. O canal de conservação e
inovação são as inst