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O Legado de Humboldt

Tradução de Salvato Telles de Menezes

à QUETZAL serpente emplumada I Saul Bellow


Título: O Legado de Humboldt

Título original: Humboldt's Gift

Autor: Saul Bellow

Tradução: Salvato Telles de Menezes

Revisão: João Assis Gomes

Proieto gráfico original: RPVP Designers

Design da capa: Rui Rodrigues · Quetzal Editores

Fotografia da capa: © Bettmann/Corbis

Pré-impressão: Fotocompográfica

Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda.

Unidade Industrial da Maia

© 2012 Quetzal Editores


[Todos os direitos para a publicação desta obra em língua

portuguesa, execro Brasil, reservados por Quetzal Editores]

HUMBOLDT'S GIFT

© 1973, 1974, 1975, The Estate of Saul Bellow

Ali rights reserved

ISBN: 978-989-722-003-6

Depósito legal: 339 601/12

Quetzal Editores

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1500-499 Lisboa PORTUGAL

q uetza I @q uetzaled i tores. pt

Tel. 21 7626000 • Fax 21 7625400

Edição segundo as regras do Novo Acordo

Ortográfico da Língua Portuguesa


0 LIVRO DE BALA DAS PUBLICA D O por Von Humboldt fleisher nos

anos 30 foi um êxito imediato . Humboldt era aquilo de que toda


a gente tinha estado à espera . Posso dizer-vos que, no Midwest, eu ti­
nha de facto estado à espera com ansiedade. Um escritor vanguardis­
ta, o primeiro de uma nova geração, era um homem bonito, loiro,
grande, sério, divertido e muito culto. O tipo tinha tudo o que é preci­
so. Todos os j ornais publicaram resenhas críticas do livro . A fotogra­
fia dele apareceu na Time sem insultos e na Newsweek com elogios.
Li Harlequin Ballads com muito entusiasmo . Era estudante da Uni­
versidade de Wisconsin e pensava exclusivamente em literatura noite
e dia. Humboldt revelou-me novas maneiras de fazer as coisas. Eu es­
tava em êxtase. Invej ava-lhe a sorte, o talento e a fama, e em maio
parti para a costa leste a fim de me encontrar com ele, de me aproxi­
mar dele, se fosse possível. A viagem no autocarro da Greyhound, que
seguiu o itinerário que passa por Scranton, durou cerca de cinquenta
horas. Não teve importância nenhuma. As j anelas do autocarro es­
tavam abertas. Nunca tinha visto montanhas a sério até essa altura .
As árvores deitavam rebentos. Era como a Pastoral de Beethoven. No
meu íntimo, sentia-me lavado pela verdura . E Manhattan também me
pareceu um sítio magnífico. Aluguei um quarto a três dólares por se­
mana e arranj ei tra balho como vendedor ao domicílio da empresa
Fuller Brushes. Estava entusiasmado com tudo. Tendo escrito uma
carta de admiração a Humboldt, fui convidado a visitá-lo em Green­
wich Village para falar de literatura e ideias. Vivia na Rua Bedford,
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perto do Chumley's. Primeiro ofereceu uma bica e depois serviu-me


gim na mesma chávena.
- Tens ar de ser um tipo muito simpático, Charlie - disse ele. ­
Talvez sej as um pouco malicioso, não ? Receio que estej as a caminho
de uma calvície prematura . E tens uns olhos grandes, bonitos e emoti­
vos. Mas não duvido de que gostas de literatura, e isso é que importa .
Possuis sensibilidade.
Foi dos primeiros a utilizar esta palavra. Sensibilidade tornou-se
mais tarde um grande êxito . Humboldt foi muito amável . Apresen­
tou-me a muita gente de Village e arranjou maneira de eu publicar re­
senhas críticas de livros. Gostei sempre dele.
O êxito de Humboldt durou cerca de dez anos. No final dos anos
40 começou a afundar-se. No início dos anos 5 0 tornei-me eu famo­
so. E até ganhei um monte de dinheiro . Ah, o dinheiro, o dinheiro !
Humboldt atirou-me isso à cara . Nos últimos anos de vida, quando
não estava demasiado deprimido para falar ou fechado no manicó­
mio, andava por Nova Iorque a dizer o pior possível de mim e do
meu << milhão de dólares >> .
- Consideremos o caso de Charlie Citrine. Veio de Madison, no
Wisconsin, e bateu-me à porta. Agora tem um milhão de dólares. Que
género de escritor ou intelectual consegue ganhar tanta massa . . . um
Keynes ? Está bem. Keynes, uma figura mundial. Um génio da econo­
mia, um príncipe em Bloomsbury - dizia Humboldt. - Casado com
uma bailarina russa . O dinheiro aparece normalmente. Mas quem
raio é Citrine para ficar tão rico ? Já fomos grandes amigos - precisa­
va . - Mas há qualquer coisa perversa nesse tipo. Depois de ganhar
essa massa toda, por que raio se foi esconder no meio do mato ? Por
que foi para Chicago ? Tem medo de ser encontrado.
Sempre que tinha a cabeça suficientemente desanuviada, usava os
seus dotes para me atacar. E trabalhava bem.
E o dinheiro não era coisa que me preocupasse. Oh, meu Deus,
nada disso, o que eu queria era fazer o bem. Dava a vida para fazer
qualquer coisa de bom. E essa sensibilidade para o bem remontava ao
meu peculiar e precoce sentido da existência . . . enraizava-se nas pro­
fundezas vidradas da vida e procurava, exaltada e desesperadamente,
um sentido; eu era alguém com uma consciência muito aguda de véus
pintados, de Maya, de abóbadas com vitrais multicoloridos manchando
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a radiosa brancura da eternidade, estremecendo na intensa inanição 1 ,


etc. Estava doido por coisas assim. E Humboldt sabia disso, mas nos
últimos anos mostrava-se incapaz de sentir qualquer tipo de afeto por
mim. Doente e emocionalmente ferido, não me dava a mínima folga .
Apenas sublinhava a contradição entre os véus pintados e o dinheiro.
Mas toda aquela massa que consegui ganhar veio por si só. O capita­
lismo fez-me ganhá-la por obscuras e cómicas razões muito s u a s .
O responsável foi o mundo. Ontem li um artigo no The Wall Street
Journal sobre a melancolia da afluência: << Nos cinco milhões de anos
de História escrita do Homem nunca tantos foram tão ricos . » As
mentes que foram formadas por milénios de escassez estão distorci­
das. O coração não aguenta este género de mudanças. Às vezes nega­
-se, pura e simplesmente, a aceitá-las.
Nos anos 20, os rapazes de Chicago procuravam tesouros quando
começava o degelo de março. Ao longo dos passeios acumulavam-se
montes de neve suj a e, quando derretiam, a água escorria entrançada
e reluzente para os esgotos, deixando à vista preciosos despoj os: tam­
pas de garrafas, engrenagens de máquinas e moedas de cêntimo com
a cabeça de índio. E na primavera passada, já quase ancião, apercebi­
-me de que tinha saído do passeio e seguia o lancil à procura . À pro­
cura de quê ? O que estava a fazer ? E se encontrasse uma moeda de
dez cêntimos ? E se encontrasse uma de cinquenta ? Como seria ? Não
sei por que razão a alma da criança regressara, mas ali estava . Tudo
estava a derreter. O gelo, a discrição, a maturidade. O que diria Hum­
boldt a este respeito ?
Quando me chegavam aos ouvidos os comentários mordazes que
ele fazia a meu respeito, muitas vezes concordava com eles.
- Deram um Prémio Pulitzer a Citrine por causa do livro que es­
creveu sobre Wilson e Tumulty. O Pulitzer é um prémio para anj i­
nhos . . . para pintainhos. Não passa de um galardão publicitário de
j ornal de pacoti l h a , atr i b u ído por patifes e analfa beto s . A pessoa
transforma-se num anúncio a m b ul ante do Pul itzer, de modo que
mesmo quando bate a bota as primeiras palavras da notícia necroló­
gica são << Falece vencedor do Prémio Pulitzer » .
E tinha razão, pensava eu.
- E o Charlie ganhou dois Pulitzer. O primeiro foi atri buído
àquela peça piegas. A que lhe fez ganhar uma fortuna na Broadway.

1 Estas imagens poéticas são extraídas da obra de Percy B. Shelley. (N. do T.)
JO SAU L B E L LOW

Mais os direitos para o cinema. Chegou a receber uma percentagem


dos lucros ! E não digo que me tenha realmente plagiado, mas roubou­
-me algumas coisas . . . a minha personalidade. Construiu o seu herói
com base na minha personalidade.
Mesmo nesta matéria, por mais descabelado que possa parecer,
talvez tivesse alguma razão.
Era um conversador maravilhoso, um génio do monólogo e um
improvisador febril e incontrolável, um caluniador inigualável. Ser de­
negrido por Humboldt era efetivamente uma espécie de privilégio. Era
como ser o sujeito de um retrato com dois narizes de Picasso ou uma
galinha estripada de Soutine. O dinheiro inspirava-o sempre. Adorava
fa lar dos ricos. Educado nos tabloides de Nova Iorque, costumava
mencionar os escândalos dourados do p a s s a d o . Peaches e D a ddy
Browning. Harry Thaw e Evelyn Nesbitt, mais a era do jazz, Scott
Fitzgerald e os super-ricos. Conhecia de ginjeira as herdeiras de Henry
James. Houve ocasiões em que urdiu cómicos planos para fazer fortu­
na. Mas a verdadeira riqueza dele era literária . Tinha lido muitos mi­
lhares de livros. Dizia que a História era um pesadelo durante o qual
tentava conseguir uma noite descansada . A insónia tornou-o mais eru­
dito. De madrugada lia grossos volumes - Marx e Sombart, Toyn­
bee, Rostovtzeff, Freud. Quando falava de opulência era capaz de
comparar o luxus romano com as riquezas dos protestantes america­
nos. Sem muitas delongas chegava à questão dos j udeus - os j udeus
de chapéu de seda de Joyce no exterior da Bourse. E acabava com
a máscara mortuária, ou crânio dourado, de Agamémnon, desenterra­
da por Schliemann. Humboldt sabia realmente falar.
O pai, um imigrante j udeu húngaro, tinha estado com a cavalaria
de Pershing em Chihuahua, perseguindo Pancho Villa num México de
putas e cavalos ( muito diferente do meu pai, um homenzinho galante
que repelia coisas dessas ) . O velho de Humboldt tinha mergulhado na
América . Humboldt falava de botas, cornetas e bivaques. Depois che­
gariam as limusinas, os hotéis de luxo, os palácios na Florida . O pai
tinha vivido em Chicago durante o boom. Trabalhava no negócio do
imobiliário e tinha uma suíte no Edgewater Beach Hotel. No verão
mandava vir o filho. Humboldt também conhecia Chicago. Nos tem­
pos de Hack Wilson e Woody English, os Fleisher tinham um camarote
em Wrigley Field. Iam ao j ogo num Pierce-Arrow ou num Hispano­
-Suiza ( Humboldt era louco por carros ) . E lá estavam as encantadoras
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT II

raparigas de John Held, J r . , deslum brantes, que usavam soquetes .


E uísque e gângsteres e os bancos da Rua La Salle, lúgubres sob as
suas colunas, com o dinheiro do caminho de ferro, da carne de porco
e dos lavradores guardado em cofres-forte s . Essa Chicago era-me
completamente desconhecida quando cheguei de Appleton. Eu j ogava
beisebol infantil com miúdos polacos debaixo das linhas férreas eleva­
das do El. Humboldt comia bolo de chocolate com cobertura de mel
e coco no Henrici's. Eu nunca entrei no Henrici's.
Uma vez tive a oportunidade de ver a mãe de Humboldt no escuro
apartamento da Avenida West Side onde vivia. Tinha a cara do filho.
Era uma mulher gorda, de lábios grossos, que, envolta num roupão,
não a briu a boca. O ca belo dela era branco, encaracolado, fij iano.
A melanina concentrava-se-lhe nas costas das mãos e nas manchas do
rosto, umas manchas tão grandes como os olhos, mais escuras do que
a cara que cobriam. Humboldt inclinou-se para fa lar com ela, mas
a mãe não lhe deu qualquer resposta, tendo-se limitado a olhar para
o o u tro l a d o c o m uma expre s s ã o de p r o fundo agravo fem i n i n o .
Quando saímos do edifício, Humboldt estava triste e disse:
- Deixava-me ir a Chicago mas tinha de espiar o meu pai, copiar
os extratos bancários e números de conta e anotar os nomes das putas
dele. Queria processá-lo. Está louca, como pudeste ver. Mas depois
ele perdeu tudo no estoiro da Bolsa . Morreu de ataque cardíaco na
Florida.
Era este o pano de fundo daquelas baladas espirituosas e alegres.
Era um maníaco-depressivo ( segundo o seu próprio diagnóstico ) . Pos­
suía uma coleção de o b ra s de Freud e l i a revistas de psiqu iatria .
Quando se lê Psicopatologia da Vida Quotidiana fica-se a saber que
a vida quotidiana é psicopatologia . Humboldt estava de acordo com
isto. Costumava citar-me um excerto do Rei Lear: << Nas cidades, mo­
tins; nos países, discórdia; nos palácios, traição; e os laços entre pais
e filhos rompem-se . . . » Punha muita ênfase em << pais e filhos » . << Desor­
dens ruinosas perseguem-nos inquietantemente até às nossas campas. »
E foi até aí que foi perseguido por desordens ruinosas há sete
anos. Agora que estão a ser publicadas novas antologias desci à cave
da Brentano para lhes dar uma vista de olhos. Os poemas de Hum­
boldt tinham sido suprimidos . Aqueles sacanas - os diretores de
agências funerárias literárias e os políticos que organizavam estas cole­
tâneas - não consideravam o antiquado Humboldt digno de menção.
12 S A U L B E L LOW

Assim, todos os seus pensamentos, escritos e sentimentos não conta­


vam para nada; todas as incursões que ele fez do outro lado das li­
nhas, para trazer alguma beleza no regresso, não valeram de nada,
a não ser para o desgastar. Morreu num hotel sórdido perto de Times
Square. Eu, um tipo diferente de escritor, continuei a chorá-lo na mi­
nha prosperidade em Chicago.
A nobre ideia de ser um poeta americano certamente fazia Hum­
boldt sentir-se às vezes um bicho raro, um rapaz, um cómico, um
idiota. Vivíamos como boémios e estudantes universitários num am­
biente de divertimento e j ogos. Talvez a América não precisasse de ar­
te e de milagres interiores. Já tinha demasiados no exterior. Os EUA
eram uma grande, muito grande, operação. Quanto maior ela era,
menores éramos nós. Por isso Humboldt comportava-se como um ex­
cêntrico e um tipo cómico. Mas de vez em quando punha de lado
a excentricidade e dedicava-se a pensar. Tentava fazer isso com luci­
dez afastando-se deste mundo americano (eu também tentava fazer
o mesmo ). Percebia que ele refletia sobre o que deve ser feito entre en ­
tão e agora, entre o nascimento e a morte, para responder a determi­
nadas grandes questões. Essas meditações não o tornaram mais são de
espírito. Experimentou as drogas e o álcool. Acabou por ser suj eito
a muitas sessões de tratamento por meio de eletrochoques. Tratava-se,
tanto quanto ele pensava, de Humboldt contra a loucura. E a loucura
era infinitamente mais forte.
As coisas também não me estavam a correr bem quando Hum­
boldt interveio a partir da cova, por assim dizer, e provocou uma mu­
dança fundamental na minha vida. Apesar das disputas que nos ti­
nham separado e dos quinze anos de afastamento, deixou-me uma
coisa em testamento. Recebi um legado.

Era um grande animador de reuniões, mas estava a perder o juízo.


A sua patologia só poderia passar despercebida a quem se ria com de­
masiada intensidade para prestar atenção. Humboldt, aquele homem
grandiloquente, imprevisível e atraente, de rosto largo e alourado,
aquele homem encantador e desenvolto, profundamente inquieto e a
quem eu me sentia tão ligado, viveu com paixão, até ao fim, o proble­
ma do Êxito. Como é natural, morreu no Fracasso. Que outra conse­
quência pode resultar de escrever esses substantivos com maiúsculas?
Pela minha parte, sempre procurei ter poucas palavras sagradas. Em
Ü LEGADO DE H U M B O L DT

minha opinião, Humboldt havia organizado uma lista excessivamente


longa : Poesia, Beleza, Amor, Terra Devastada, Alienação, Política,
História, Inconsciente. E, é claro, Maníaco e Depressivo, sempre com
maiúsculas. Segundo ele, o grande Maníaco-depressivo da América fo­
ra Lincoln. E Churchill, com aquilo a que chamava os seus estados de
espírito de Cão Preto, era um caso clássico de Depressão Maníaca.
- Como eu, Charlie - disse Humboldt. - Mas pensa: se a Ener­
gia é Deleite e se a Exuberância é Beleza, o Maníaco-depressivo sabe
mais so bre Deleite e Beleza do que qualquer outra pessoa . Quem
é que pode ter tanta Energia e Exuberância como ele ? Talvez sej a a
estratégia da psique para aumentar a Depressão. Freud não disse que
a Felicidade era apenas remissão da Dor ? Por isso quanto maior for
a Dor, tanto maior será a Felicidade. Só que tudo isto tem uma ori­
gem anterior, e a Psique causa Dor de propósito. Aliás, a Humanida­
de é aturdida pela Exuberância e pela Beleza de certos indivíduos.
Quando um Maníaco-depressivo consegue livrar-se das suas Fúrias,
é irresistível . Captura a Hi stória . Creio que o agravamento do seu
estado é uma técnica secreta do Inconsciente. Quanto a os grandes
homens e reis serem escravos da História, penso que Tolstói estava
muito equivocado. Não te deixes enganar, os reis são os doentes mais
sublimes . O s heróis Maníaco-depressivos arrastam a Humanidade
para os seus próprios ciclos e exaltam toda a gente.
O pobre Humboldt não impôs os seus ciclos durante muito tem­
p o . Nunca se tornou o centro radioso da sua époc a . A Depressão
aferrou-se a ele irremediavelmente. Os períodos de mania e poesia ter­
minaram . Três décadas após Harlequin Ballads o tornarem famoso
morreu com um ataque cardíaco numa pensão rasca na Rua Quaren­
ta, na zona oeste, uma dessas ramificações do bairro Bowery na mid­
town. Deu-se o caso de eu estar em Nova Iorque nessa noite. Estava
lá em Negócios - isto é, por razão nenhuma digna de registo. Ne­
nhuns desses Negócios eram de facto dignos. Afastado de toda a gen­
te, Humboldt estava a viver num sítio chamado Ilscombe. Mais tarde
fui lá dar uma olhadela . Era um dos lugares onde a Segurança Social
albergava idosos. Morreu numa noite de calor asfixiante. Nem sequer
no Plaza me sentia confortável . O monóxido de carbono era espesso.
Os aparelhos de ar condicionado vibravam e gotej avam sobre os tran­
seuntes. Uma noite má. E no 727, quando voava de regresso a Chica­
go na manhã seguinte, abri o Times e encontrei o obituário de Hum­
boldt.
5AUL BELLOW

Sabia que Humboldt devia estar quase a morrer porque o havia


visto na rua dois meses antes e trazia os sinais da morte nele todo.
Não me viu. Tinha engordado e o seu aspeto era acinzentado, enfer­
miço, poeirento ; tinha comprado um pretze/1 que estava a comer.
O almoço dele. Escondido atrás de um carro estacionado, fiquei a ob­
servá -lo. Não me aproximei dele. Pareceu-me impossível abordá-lo.
Desta vez os meus Negócios na zona leste eram legítimos e não anda­
va no encalço de nenhuma gaj a mas a preparar um artigo para uma
revista . Nessa manhã tinha sobrevoado Nova Iorque num cortej o de
helicópteros da Guarda Costeira com os senadores Javits e Robert
Kennedy. Depois participei num almoço político em Central Park no
Tavern on the Green, onde as celebridades ficam encantadas por se
encontrarem entre os seus pares . Eu estava, segundo me disseram,
<< em grande forma » . Ou tenho bom aspeto, ou pareço de rastos. Mas
nessa manhã sabia que estava com um ótimo aspeto . Além disso,
tinha dinheiro nos bolsos e tinha estado a ver montras na Avenida
Madison . Se me agradasse uma gravata Cardin ou Hermes, podia
comprá-la sem perguntar o preço. Não tinha barriga, vestia calções
interiores de algodão Sea Island que custam oito dólares o par. Inscre­
vera-me num ginásio de Chicago e, com um esforço de idoso, manti­
nha-me em boa forma. Praticava um jogo rápido e duro com uma bo­
la de paddle, uma variante de squash. Por isso, como poderia dirigir­
-me a Humboldt ? Era demasiado. Enquanto sobrevoava Manhattan
de helicóptero, contemplando Nova Iorque como se viaj asse num bar­
co de casco de vidro por cima de um recife tropical, Humboldt devia
estar a procurar entre as suas garrafas uma gota de sumo para mistu­
rar com o seu gim matinal.
Depois da morte de Humboldt dediquei-me ainda mais à prática
da cultura física . No último Dia de Ação de Graças escapei a um as­
saltante em Chicago. Saiu subitamente de uma ruela escura, mas ga­
nhei-lhe. Foi por puro reflexo: dei um salto para o lado e afastei-me
a correr a toda a velocidade pelo meio da rua. Em criança nunca fui
grande corredor. Como era possível que, cinquentão, me sentisse ins­
pirado a fazer correrias e fosse capaz de grandes arranques em veloci­
dade ? Mais tarde, à noite, gabei-me:
- Ainda consigo ganhar a um drogado nos cem metros.

1 Espécie de biscoito salgado. (N. d o T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

E diante de quem estava eu a gabar-me da potência das minhas


pernas ? De uma j ovem chamada Renata. Estávamos deitados. Contei­
-lhe como tinha arrancado:
- Corri com toda a gana. Voei.
E ela respondeu-me, como se fosse uma deixa (ah, a cortesia, a gen­
tileza destas belas jovens) :
- Estás e m grande forma, Charlie. Não é s u m tipo grande mas és
forte, sólido e também elegante.
Acariciou-me as costas nuas. Com que então o meu amigo Hum­
boldt havia-nos deixado de vez. Provavelmente os seus próprios ossos
tinham-se desfeito no cemitério. Talvez já não houvesse nada na cam­
pa dele a não ser alguns grumos de fuligem. Mas Charlie Citrine ain­
da andava por cá, ganhando corridas a delinquentes furiosos nas ruas
de Chicago, e Charlie Citrine estava em belíssima forma, na cama
com uma amiga voluptuosa. Este Citrine era até capaz de realizar um
certo exercício de ioga e tinha aprendido a fazer o pino para aliviar as
dores que sentia no pescoço artrítico. Sobre o meu baixo colesterol
estava Renata devidamente informada. Também lhe retransmitia os
comentários do médico so bre a minha próstata surpreendentemente
j uvenil e o meu eletrocardiograma perfeitamente normal. Assim refor­
çada a minha ilusão e idiotice por estes informes médicos de que tanto
me orgulhava, abraçava Renata, com os seus grandes seios, em cima
deste colchão Posturepedic. Ela fita va-me com olhos apaixonados
e submissos. Eu inalava a sua deliciosa humidade, participando pes­
soalmente do triunfo da civilização americana (tingida agora pelas co­
res orientais do Império). Mas num qualquer canto fantasmático do
passeio marítimo de Atlantic City do meu cérebro via um Citrine dife­
rente, este na fronteira da senilidade, com as costas curvadas, e débil.
Sim, muito débil, sentado numa cadeira de rodas que alguém empur­
rava perto das ondazinhas salgadas, ondas que eram tão escanzeladas
como eu. E quem estava a empurrar a minha cadeira ? Era Renata, a
Renata que tinha conquistado nas guerras da Felicidade com um veloz
avanço blindado à Patton ? Não, Renata era uma rapariga estupenda,
mas não conseguia imaginá-la a empurrar a minha cadeira de rodas.
Renata ? Não. Impossível.
Em Chicago, Humboldt tornou-se um dos mortos com significa­
do. Eu passava demasiado tempo a pensar e a comungar com mortos.
16 SAUL BELLOW

Aliás, o meu nome estava ligado ao dele porque, à medida que o pas­
sado ia ficando para trá s, os anos 40 começaram a adquirir valor
para a s pessoas que fa bricavam tapeçarias cultura i s multicolores,
e correu a informação de que em Chicago vivia ainda um tipo que ti­
nha sido amigo de Von Humboldt Fleisher, um homem chamado
Charlie Citrine . Pessoas que estavam a escrever livros e artigos, ou
a redigir teses académicas, mandavam-me cartas ou apanhavam um
avião para vir falar comigo sobre ele. E devo acrescentar que, em Chi­
cago, Humboldt era um tema natural de reflexão . Localizada na ex­
trem idade sul dos Grandes Lagos - vinte por cento das reservas
mundiais de água doce -, a cidade de Chicago, com a sua gigantesca
vida nas ruas, continha em si todo o problema da poesia e da vida in­
terior da América . Aqui era possível olhar para esse género de temas
como se estivessem a ser contemplados através de uma espécie de
transparência de água doce.
- Como se explica, senhor Citrine, a ascensão e queda de Von
Humboldt Fleisher?
-Jovens, que pretendeis fazer com os dados so bre Humboldt:
publicar artigos e dar um empurrão às vossas carreiras? Isso é capita­
lismo puro e duro.
Pensava em Humboldt com mais seriedade e pesar do que possa
transparecer neste relato . Não amava muitas pessoas. Não podia dar­
-me ao luxo de perder uma que fosse. Um sinal infalível de amor era
o facto de sonhar com Humboldt frequentemente. Sempre que o via
comovia-me e chorava no sono. Uma vez sonhei que nos encontrámos
no Whelan's Drugstore, no cruzamento da Sexta com a O itava, em
Greenwich Village. Não era o homem destroçado, plúmbeo e inchado
que havia visto na Rua Quarenta e Seis mas ainda o Humboldt corpu­
lento e normal da meia-idade. Estávamos sentados num bar onde não
serviam bebidas alcoólicas, a beber uma Coca- Cola. Desatei a chorar.
Disse-lhe:
- Onde é que tens estado ? Julguei que tivesses morrido ?
Ele estava com ar muito ameno, sereno e parecia sumamente satis-
feito. Disse:
- Agora compreendo tudo.
- Tudo ? O que é tudo ?
Mas limitou-se a responder:
- Tudo.
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT I7

Não consegui arrancar-lhe mais nada e chorei de felicidade. Foi


um daqueles sonhos que se têm quando a alma não está bem. A mi­
nha personalidade em estado de vigília está longe de ser saudável.
Nunca receberei uma medalha pelo meu carácter. E todas essas coisas
devem ser perfeitamente claras para os mortos. Já abandonaram em
definitivo a problemática, mundana e nebulosa esfera humana. Tenho
o pressentimento de que em vida olhamos para fora a partir do ego,
o nosso centro. Na morte situamo-nos na periferia e olhamos para
o interior. Vemos os nossos velhos amigos no Whelan's ainda a lutar
com a pesada carga do individualismo e animamo-los dando-lhes
a entender que quando chegar a sua vez de entrarem na eternidade,
também começarão a abarcar e fazer por fim uma ideia do que acon­
teceu. Como nada disto é minimamente científico, receamos pensá-lo.
Está bem, tentarei resumir: aos vinte e dois anos, Von Humboldt
Fleisher publicou o seu primeiro livro de baladas. Poderia pensar-se
que o filho de imigrantes neuróticos da Rua Oitenta e Nove e de West
End - o pai excêntrico perseguindo Pancho Villa e, na fotografia que
Humboldt me mostrou, com a cabeça coberta por um cabelo tão en­
caracolado que o barrete militar lhe descaía; a mãe, membro de uma
dessas famílias j udaicas típicas, à Potash e à Perlmutter, férteis, cho­
carreiras e interessadas em beisebol e negócios, detentora de uma bele­
za de tez morena ao princípio e depois mulher silenciosa, lúgubre e
demente -, que um rapaz assim seria desaj eitado, que a sua sintaxe
seria inaceitável para fastidiosos críticos não-j udeus que eram os guar­
diães do Modelo Protestante e da Tradição Refinada. Nada disso. As
baladas eram puras, musicais, engenhosas, luminosas e humanistas.
Penso que eram platónicas. Digo platónicas no sentido de uma perfei­
ção original a que todos os seres humanos aspiram regressar. Sim, as
palavras de Humboldt eram impecáveis. A América refinada não pre­
cisava de preocupar-se. Estava em estado de grave excitação: esperava
que o Anticristo saísse dos bairros de lata. Mas quem apareceu foi este
Humboldt Fleisher, com uma oferenda de amor. Portava-se como um
cavalheiro. Era encantador. De modo que foi calorosamente recebido.
Conrad Aiken elogiou-o, T.S. Eliot comentou favoravelmente os seus
poemas e mesmo Yvor Winters lhe dedicou palavras amáveis. Quanto
a mim, pedi trinta dólares emprestados e parti entusiasmado para
Nova Iorque a fim de trocar ideias com ele na Rua Bedford. Isto foi
em 193 8 . Atravessámos o Hudson no ferry da Rua Christopher para
irmos comer amêij oas em Hoboken e conversar sobre os problemas
18 SAUL BELLOW

da poesia moderna. O que quero dizer é que Humboldt me deu uma


lição. Teria Santayana razão ? Seria bárbara a poesia moderna ? Os
poetas modernos tinham ao seu dispor material mais maravilhoso do
que Homero e Dante. Careciam apenas de uma capacidade de ideali­
zação saudável e estável. Ser cristão era uma impossibilidade, ser pa­
gão igualmente. Isso deixava-nos como j á sabemos.
Tinha vindo para ouvir que as grandes coisas podiam ser verda­
deiras. Foi isto que me disse no ferry da Rua Christopher. Tinham de
ser feitos gestos maravilhosos e Humboldt fazia-os. D isse-me que os
poetas tinham de descobrir a forma de escapar à América pragmática.
Despej ou-me isso em cima nesse dia. E ali estava eu, extasiado, tendo­
-me levantado como um simples vendedor da Fuller Brushes, com um
sufocante fato de lã, uma peça de roupa usada de Julius . As calças es­
tavam-me largas na cintura e a camisa fazia balões dos lados porque
o meu irmão Julius tinha uma grande peitaça. Limpava o suor com
um lenço que tinha um << J » bordado.
Hum boldt começava a ganhar peso. Tinha os ombros pesados,
mas continuava estreito na cintura . Mais tarde desenvolveu uma bar­
riga proeminente, como Babe Ruth. As pernas não lhe paravam quie­
tas e os pés faziam movimentos nervosos. Por baixo, uma comédia in­
quieta; por cima, dignidade e ares principescos, um certo encanto
meio maluco. Uma baleia que tivesse vindo à superfície j unto do nos­
so barco observar-nos-ia da mesma maneira que ele nos observava
com olhos cinzentos e muito afastados. Era simultaneamente delicado
e tosco, pesado mas também leve e a cara era ao mesmo tempo pálida
e morena. O cabelo castanho dourado erguia-se ondulante sobre a ca­
beça dele: duas cristas claras e um veio escuro. Tinha uma cicatriz na
testa . Em criança batera com a ca beça na lâmina de um patim, que
lhe abrira a carne até ao osso. Os lábios pálidos eram salientes e a bo­
ca estava repleta de dentes com ar imaturo, como dentes de leite .
Consumia os cigarros até à última faúlha e salpicava a gravata e o ca­
saco com queimaduras.
O tema daquela tarde foi o Êxito. Eu vinha das berças e ele estava
a dar-me informações. Seria eu capaz de imaginar, disse-me, o que
significava pasmar a Village com poemas e depois continuar com en­
saios críticos na Partisan e na Southern Review? Tinha muito para me
dizer sobre modernismo, simbolismo, Yeats, Rilke, Eliot. E era um
grande bebedor. Havia também imensas raparigas. Além disso, Nova
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 19

Iorque era nessa altura uma cidade muito russa, de modo que havia
Rússia por todo o lado. Constituía um exemplo, como disse Lionel
Abel, de metrópole que desej ava pertencer a outro país. Nova Iorque
sonhava deixar a América do Norte e integrar-se na Rússia soviética.
Na sua conversa Humboldt passava com toda a naturalidade de Babe
Ruth a Rosa Luxemburgo, Béla Kun e Lénine. Ali, naquele instante,
apercebi-me de que se não lesse Trótski de imediato não seria consi­
derado um conversador interessante . Humboldt falou-me de Zino­
viev, de Kamenev, de Bukharin, do Instituto Smolni, dos engenheiros
de Chátki, dos j u lgamentos de Moscovo, do livro de Sydney Hook
From Hegel to Marx, de O Estado e a Revolução, de Lénine. Na ver­
dade, comparou-se a Lénine.
- Sei como Lénine se sentia em outubro quando exclamou em ale­
mão « Es schwindelt! » . Não se referia a que toda a gente estivesse
schwindling mas, na outra aceção do termo, a de que aquilo lhe causa­
va vertigens. Lénine, apesar de ser duro, sentia-se como uma j ovenzi­
nha a dançar a valsa. Eu também . O êxito causa-me vertigens, Char­
lie. As minhas ideias não me deixam dormir. Deito-me sem beber
nada e o quarto anda à roda. Vai acontecer o mesmo contigo. Digo-te
isto para te preparar - disse.
Quando dava elogios, fazia-o com uma habilidade maravilhosa.
Incrivelmente exaltado, eu parecia tímido. É claro que me encon­
trava num estado de intensa preparação para arrasar toda a gente .
Todas as manhãs, na reunião de motivação da equipa de vendas da
Fuller Brushes, dizíamos todos em uníssono: << Sinto-me maravilhosa­
mente, e o senhor ? » E a verdade é que me sentia maravilhosamente .
Nem precisava de fingir. Não seria possível sentir mais impaciência e
entusiasmo: impaciente para cumprimentar donas de casa, impaciente
para entrar em casa e ver as cozinhas delas, impaciente para ouvir as
histórias e queixas delas. A hipocondria veemente das j udias era uma
novidade para mim. Estava ansioso por ouvi-las falar dos seus tumores
e pernas inchadas. Queria que me falassem do casamento, do parto,
do dinheiro, da doença e da morte . Sim, procurava catalogá-las en­
quanto bebia café nas cozinhas delas. Eram pequeno-burguesas, assas­
sinas de maridos, trepadoras sociais, histéricas, e por aí adiante. Mas
de pouco me servia este ceticismo analítico. Sentia demasiado entusias­
mo. De modo que vendia ansiosamente as minhas escovas de porta
a porta e com a mesma ansiedade ia à noite para o Village onde ouvia
20 5AUL BELLOW

os conversadores mais requintados de Nova Iorque: Schapiro, Hook,


Rahv, Huggins e Gumbein. Esmagado pela eloquência deles, ali ficava
como um gato numa sala de concertos. Mas Humboldt era o melhor.
Era pura e simplesmente o Mozart da conversa.
No ferry Humboldt disse:
- Triunfei demasiado j ovem. Estou metido em sarilhos.
E arrancou. Perorou sobre Freud, Heine, Wagner, Goethe em Itá­
lia, o falecido irmão de Lénine, a roupa de Wild Bill Hickock, os New
York Giants, Ring Lardner a dissertar sobre ópera, Swinburne sobre
flagelação e John D. Rockefeller sobre religião. No meio de todas es­
tas variações, o tema principal era sempre engenhosa e vivamente re­
cuperado. Nessa tarde as ruas mostravam-se de um cinzento-escuro,
mas o convés do ferry havia adquirido uma tonalidade cinzenta bri­
lhante . Humboldt tinha um ar simultaneamente desalinhado e gran­
dioso, a mente dele ondulava como água e as ondas de cabelo louro
que se erguiam na sua cabeça; a cara, com aqueles olhos cinzentos tão
afastados, estava branca e tensa, tinha as mãos enfiadas nos bolsos
e os pés, com botas de polo, muito j untos.
Se Scott Fitzgerald tivesse sido protestante, disse Humboldt, o Êxi­
to não o teria afligido tanto . Olha para o Rockefeller pai, esse sabia
manipular o Êxito: disse muito simplesmente que Deus lhe tinha dado
toda aquela massa . É claro que isso era gestão de bens. Isso era calvi­
nismo. Uma vez que tivesse referido o calvinismo, Humboldt era ca­
paz de avançar para a questão da Graça e da Depravação. Da Depra­
vação seguia para Henry Adams, que disse que dentro de algumas
décadas o progresso mecânico acabaria por nos partir as espinhas,
e de Henry Adams saltou para o tema da eminência numa era de re­
voluções, misturas de raças e massas, e daqui virou-se para Tocquevil­
le, Horatio Alger e Ruggles of Red Gap.1 Humboldt, doido varrido
por cinema, lia a revista Screen Gossip . Tinha recordações pessoais
de Mae Murray como uma deusa de lantej oulas no cenário do Loew's
a convidar rapazes a visitá-la na Califórnia.
- Foi protagonista de The Queen of Tasmania e Circe the En­
chantress, mas acabou na miséria, num asilo. E que me dizes . . . como
é que se chama aquele que se suicidou no hospital ? Pegou num garfo
e espetou-o no coração com a aj uda do tacão do sapato, pobre tipo !

1 Personagem do filme ( 1 93 5 ) com o mesmo título, de Leo McCarey. (N. do T.)


0 LEGADO DE H U M B O LDT 21

Isto era triste. Mas pouco me importava quanta gente tinha mor­
dido o pó. Sentia-me extraordinariamente feliz. Nunca tinha visitado
a casa de um poeta, nunca tinha bebido gim puro, nunca tinha comido
amêij oas ao vapor, nunca tinha cheirado o mar. Nunca tinha ouvido
comentários como aqueles sobre os negócios, sobre a sua capacidade
de petrificar a alma . Humboldt falava com uma facilidade prodigiosa
dos maravilhosos e a bomináveis ricos. Era necessário contemplá-los
sob o escudo protetor da arte . O seu monólogo era um oratório em
que só ele cantava e tocava. Subiu um pouco mais o nível da conversa
e começou a dissertar sobre Espinosa e como a mente se deleitava ali­
mentando-se de coisas eternas e infinitas. Este era Humboldt o estu­
dante a quem o grande Morris R. Cohen havia dado a nota máxima .
Duvido que tivesse falado desta maneira a alguém que não fosse o ra­
paz vindo das berças. Mas depois de falar de Espinosa, Humboldt
ficou um pouco deprimido e disse:
- Há muita gente à espera de que eu escorregue. Tenho um mi­
lhão de inimigos.
- Tens ? Mas porquê ?
- Não me parece que tenhas lido nada sobre a Sociedade Canibal
dos Índios Kwakiutl - disse o erudito Humboldt. - Quando o can­
didato executa a dança de iniciação entra num estado de frenesim
e come carne humana. Mas se cometer um erro ritual, a populaça des­
pedaça-o .
- Mas por que razão há de a poesia criar-te um milhão de ini­
migos ?
Respondeu-me que era uma boa pergunta, mas era óbvio que não
pensava isso. Ficou com um ar soturno e baixou a voz - clique -
como se tivesse uma nota de latão no seu brilhante teclado. Carregou
na tecla.
- Posso achar que estou a fazer uma oferenda diante do altar,
mas eles não veem a coisa assim.
Não, a minha pergunta não tinha sido muito feliz, porque o facto
de a ter feito revelava que não conhecia o Mal, e se não conhecia
o Mal a minha admiração não tinha valor. Perdoou-me porque eu era
um rapaz. Mas quando ouvi aquele clique metálico percebi que tinha
de aprender a defender-me. Ele tinha aberto a torneira do meu afeto
e da minha admiração, que escorria a uma velocidade perigosa. Esta
hemorragia de ansiedade debilitar-me-ia e quando estivesse fraco e in­
defeso, levaria pancada. E por isso pensei: ah ah ! quer que me aj uste
22 5 A U L B E L LOW

a ele ao milímetro, que me submeta. lntimidar-me-á. É melhor estar


atento.
Na sufocante noite em que alcancei o meu êxito, Humboldt orga­
nizou um piquete diante do Belasco Theatre. Ele tinha acabado de ser
corrido do Bellevue. Um enorme anúncio, Von Trenck de Charles Ci­
trine, brilhava por cima da rua. Tinha milhares de lâmpadas. Cheguei,
de smok ing, e lá estava Humbo ldt, com uma seita de compinchas
e acólitos. Saí do táxi com uma amiga que me acompanhava e fui en­
volvido no passeio pelo alvoroço. Havia agentes da polícia a controlar
a multidão . Os colegas de Humboldt gritavam e causavam distúrbios
e ele carregava um cartaz como se fosse uma cruz. Em letras corridas,
mercurocromo em algodão, estava escrito: << O Autor desta Peça é um
Traidor. >> A polícia obrigou os manifestantes a recuar e Humboldt e
eu não nos encontrámos cara a cara. Queria que o prendessem ? , per­
guntou-me o assistente do produtor.
- Não - respondi, magoado, a tremer. - Já fui protegé dele.
Éramos amigos, filho da puta maluco. Deixem-no ir.
Demmie Vonghel, a senhora que me acompanhava, disse:
- Homem bom! É isso, Charlie, és um homem bom !
Von Trenck aguentou-se oito meses em cena nos palcos da Broad­
way. O p ú b l ico dedicou-me a sua atenção durante quase um ano
e não lhe ensinei nada .

Regressemos à verdadeira morte de Humboldt: morreu no Ilscom­


be, do outro lado da esquina do Belasco. Na última noite de vida, tal
como a reconstituí, estava sentado na cama naquele lugar sórdido,
provavelmente a ler. Os livros que ele tinha no quarto eram os poe­
mas de Yeats e a Fenomenologia de Hegel. Além destes autores visio­
nários, lia o Daily News e o Post. Estava a par do desporto e da vida
noturna, do jet set e das atividades da família Kennedy, do preço dos
carros em segunda mão e dos anúncios de emprego. Apesar da sua
falta de saúde, conservava os interesses normais dos americanos. Ora
às três da manhã - perto do fim já não dormia muito - decidiu ir
despej ar o lixo e sofreu um ataque de coração no elevador. Quando a
dor o atingiu, parece que caiu contra o painel de comando e carregou
nos botões, incluindo o do alarme. Soaram campainhas, a porta abriu­
-se e ele saiu a cambalear para o corredor, onde tombou, espalhando
Ü LEGADO DE H U M B O LDT 23

a s latas, a s borras d e café e a s garrafas que tinha n o caixote d o lixo.


Tentando desesperadamente meter ar nos pulmões, rasgou a camisa.
Quando os agentes da polícia apareceram para levar o morto para
o hospital, Humboldt tinha o peito nu. No hospital não o aceitaram,
de modo que foi levado para a morgue. Na morgue não havia leitores
de poesia moderna. O nome Von Humboldt Fleisher não significava
nada . Portanto, ficou lá, mais um abandonado.
Não há muito tempo fui visitar o tio dele, Waldemar, em Coney
Island. O velho apostador estava num lar para idosos. Disse-me:
- Os polícias roubaram o Humboldt. Levaram-lhe o relógio e a
massa, para não falar da caneta de tinta permanente. Sempre escreveu
com uma verdadeira caneta . Não escrevia poemas com uma esfero­
gráfica.
- De certeza que tinha dinheiro com ele ?
- Nunca saía de casa sem levar pelo menos cem dólares no bolso.
Devias saber como ele era com o dinheiro. Tenho saudades do rapaz.
E que saudades !
Sentia exatamente o mesmo que Waldemar. Afetava-me mais a
morte de Humboldt do que a ideia da minha . Ele tornara-se alguém
que iríamos chorar e de quem teríamos saudades. Humboldt assumiu
essa espécie de fardo e fez transparecer no seu rosto os sentimentos
humanos mais importantes e profundos. Nunca se esquece uma cara
como a dele. Mas com que finalidade tinha sido criada ?
Recentemente, na primavera passada, voltei a pensar nisto em cir­
cunstâncias estra n has . Seguia num comboio francês com Renata,
numa viagem que, como muitas viagens, não precisava nem queria fa­
zer. Renata apontou para a paisagem e comentou:
- Não é lindo ?
Olhei e dei-lhe razão. Aquilo era realmente lindo. Mas eu tinha
visto a Beleza muitas vezes e por isso fechei os olhos. Rej eitei os ído­
los de gesso das Aparências. Como toda a gente, tinha sido treinado
para ver estes ídolos e estava farto da tirania deles. Cheguei a pensar:
o véu pintado j á não é o que era . A maldita coisa está a ficar puída .
Como uma toalha de rolo numa retrete mexicana de homens. Estava
a pensar na força das abstrações coletivas, e assim por diante. Aspira­
mos mais do que nunca à vivacidade radiosa do amor sem limites, e
os ídolos estéreis frustram cada vez mais os nossos anseios. Um mundo
SAUL BELLOW

de categorias esvaziado de espiritualidade espera o retorno da vida.


Pensava-se que Humboldt seria um instrumento deste renascimento .
Esta missão ou vocação estava refletida na cara dele. A esperança de
uma nova beleza. A promessa, o segredo da beleza.
Nos Estados Unidos, diga-se de passagem, este tipo de coisa dá às
pessoas um ar muito estrangeirado.
Era lógico que Renata chamasse a minha atenção para o Belo. Re­
nata participava pessoalmente dele, estava ligada à Beleza.
Sej a como for, a cara de Humboldt mostrava claramente que ele
sabia o que era necessário fazer. Contudo também mostrava que não
havia conseguido fazê-lo. E também ele chamava a minha atenção pa­
ra as paisagens. No final dos anos 40, Kathleen e ele, recém-casados,
mudaram de Greenwich Village para uma Nova Jérsia rural, e quan­
do os fui visitar todo ele era terra, árvores, flores, laranj as, sol, Paraí­
so, Atlântida, Radamanto . Falava de William Blake em Felpham e no
Paraíso de Milton, menosprezando a cidade. A cidade era repugnante.
Para seguir o fio da intrincada conversa era indispensável conhecer as
suas leituras básicas. Eu sabia quais eram: Timeu, de Platão, Proust
sobre Combray, Virgílio sobre a agricultura, Marvell sobre j ardina­
gem, a poesia caribenha de Wallace Stevens e muito mais. Uma das
razões por que Humboldt e eu nos sentíamos tão próximos residia no
facto de eu estar interessado em fazer o curso completo.
Portanto, Humboldt e Kathleen viviam numa c a s a de campo .
Humboldt, várias vezes por semana, vinha à cidade em negócios - ne­
gócios poéticos. Estava no apogeu do seu prestígio, mas não das suas
capacidades. Que eu soubesse, acumulava quatro sinecuras. Talvez
houvesse mais. Considerando que era normal viver com quinze dóla­
res por semana, não tinha maneira de calcular as necessidades e os ga­
nhos d e l e . Era d i screto m a s in s in uava receber grandes q u a n t i a s .
E agora conseguira s e r escolhido p a r a su bstituir, durante um a n o ,
o Professor Martin Sewell em Princeton. Sewell estava de saída para
D a m a sc o ao a brigo de u m programa Fullbright a fim de proferir
umas conferências sobre Henry James. Era substituído pelo amigo
Humboldt. O curso precisava de um assistente e Humboldt recomen­
dou-me. Tirando o máximo proveito das oportunidades que me fo­
ram concedidas pelo desenvolvimento cultural do pós-guerra, escrevi
quilómetros de recensões críticas para The New Republic e o Times.
Humboldt disse:
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

- Sewell leu os teus textos. Acha que és bastante bom. Tu pareces


uma pessoa agradável e inofensiva com esses olhos negros de ingénuo
e as tuas maneiras provincianas. O velho quer avaliar-te.
- Avaliar-me ? Anda sempre tão bêbedo que não consegue termi­
nar as frases.
- Como já disse, pareces um ingénuo simpático, até que alguém
fira as tuas suscetibilidades. Não sej as tão orgulhoso. É uma mera for­
malidade. Já está tudo combinado.
<< Ingénuo >> era um dos termos pej orativos de Humboldt. Possuin­
do um conhecimento profundo da literatura psicológica, era capaz de
interpretar os meus atos. O meu ar sonhador e a minha falta de mun­
danidade não o enganavam um minuto que fosse. Conhecia a subti­
leza e a ambição, conhecia a agressão e a morte . O nível da conversa
dele era o mais elevado que conseguia atingir e quando nos dirigíamos
para o campo no Buick em segunda mão, Humboldt exercitava a sua
verve à medida que atravessávamos os terrenos cultivados - a doen­
ça napoleónica, Julien Sorel, o jeune ambitieux1 de Balzac, o retrato
de Luís Bonaparte feito por Marx, o Indivíduo Histórico-mundial de
Hegel. O Indivíduo Histórico-mundial, o intérprete do Espírito, o guia
misterioso que impunha à Humanidade a tarefa de compreendê-lo,
etc . , era um dos temas prediletos de Humboldt. Estes tópicos eram
bastante comuns no Village, mas Humboldt, quando os debatia, em­
prestava-lhes uma inventividade peculiar e uma energia m aníac a .
Transmitia-lhes ainda a sua paixão pela complexidade e pelos duplos
sentidos finneganianos.
- E na América - disse - esse indivíduo hegeliano viria prova­
velmente do lado esquerdo. Talvez nascido em Appleton, no Wiscon­
sin, como Harry Houdini ou Charlie Citrine.
- Porquê eu ? Comigo estás a perder o teu tempo.
Naquela altura estava aborrecido com Humboldt. Numa noite, no
campo, havia dito à minha amiga Demmie Vonghel para ter cuidado
comigo, largando ao j antar:
- Tens de te precaver com o Charlie. Sei como agem as raparigas
do teu género. Confiam demasiado num homem. O Charlie é um au­
têntico demónio.
Horrorizado com as suas próprias palavras, levantou-se brusca­
mente da mesa e saiu de casa a correr. Ouvimos os seus passos pesados

1 Em fra ncês no original: «Jovem ambicioso. » (N. do T.)


SAUL BELLOW

no empedrado d a estrada rural à s escura s . Demmie e e u ficámos


à mesa mais algum tempo com Kathleen. Por fim, Kathleen disse:
- Ele adora-te, Charlie. Mas anda incomodado com qualquer
coisa . Desconfia que tens uma missão ... um segredo qualquer. . . e que
as pessoas como tu não são propriamente de confiança. E gosta da
Demmie. Pensa que está a protegê-la. Mas nem sequer tem nada de
pessoal. Não estás magoado, pois não ?
- Magoado com Humboldt ? É demasiado fantástico para que se
fique magoado com ele. Especialmente como protetor de donzelas.
Demmie parecia divertid a . E qualquer j ovem mulher aprovaria
tanta solicitude. Mais tarde perguntou-me daquela maneira brusca
que era a sua:
- Que história é essa sobre uma missão?
- Tolices.
- Mas uma vez fa laste-me em qualquer coisa, Charlie. O u é o
Humboldt que anda a inventar coisas ?
- O que eu disse foi que às vezes tinha uma sensação estranha,
como se me tivessem posto um selo a fim de ser remetido pelo correio
para um endereço importante. Pode dar-se o caso de eu conter infor­
mação pouco habitual. Mas tudo isto é simples parvoíce.
Demmie - o nome completo dela era Anna Dempster Vonghel -
ensinava Latim na Escola Washington Irving, situada a leste da Union
Square, e residia na Rua Barrow.
- Em Delaware há um canto holandês - informou Demmie. - E é
de lá que os Vonghel são originários.
Tinha sido mandada para fora quando terminara o ensino secun­
dário, estudara os clássicos em Bryn Mawr, mas também fora uma
delinquente j uvenil e aos quinze anos fizera parte de um bando de la­
drões de carros.
- Como nos amamos, tens o direito de saber - disse ela. - Te­
nho ficha na polícia: roubo de tampões de jantes, marij uana, delitos
sexuais, carros roubados, perseguições policiais, acidentes, interna­
mentos hospitalares, agentes de liberdade condicional, enfim, tudo e
mais alguma coisa . Também sei cerca de três mil versículos bíblicos.
Criada no fogo do inferno e na danação.
O pai dela, um milionário das berças, passeava de Cadillac cuspin­
do pela janela .
Ü LEGA D O DE H U M B O L DT 27

- Lava o s dentes com detergente. Paga o dízimo à igrej a. Conduz


o autocarro da escola ao domingo. O último dos velhos fundamenta­
listas. Só que lá há montes deles - disse ela.
Demmie tinha olhos azuis com uma esclerótica muito límpida e
um nariz arrebitado que nos confrontava de forma tão expressiva
e insistente como os olhos. O tamanho dos dentes da frente mantinha­
-lhe a boca ligeiramente aberta. Na cabeça longa e elegante crescia um
cabelo dourado que ela dividia exatamente ao meio, como cortinados
numa grande casa arrumada. O rosto dela era daqueles que podiam
ser vistos numa grande carroça há coisa de um século: um rosto de
pioneiro, muito branco. Mas foram as pernas que me atraíram. Eram
extraordinárias. E essas pernas maravilhosas tinham um defeito exci­
tante - os j oelhos tocavam-se e os pés eram virados para fora, de
modo que quando caminhava depressa a tensa seda das meias produ­
zia um leve roçagar. Num beberete, situação em que a conheci, mal
percebia o que estava a dizer, já que murmurava as palavras daquela
maneira quase incompreensível, entredentes, que era moda na costa
leste . Contudo, era uma perfeita camponesa, a filha do lavrador,
e pronunciava a s palavras de forma simples e clara. Por volta das
duas da madrugada os pesadelos acordavam-na com regularidade.
O cristianismo dela era do tipo delirante. Tinha espíritos impuros pa­
ra expelir. Temia o inferno. Gemia a dormir. Depois sentava-se a so­
luçar. Meio a dormir, eu tentava acalmá-la e animá-la.
- O inferno não existe, Demmie.
- Eu sei que o inferno existe. O inferno existe . . . existe mesmo!
- Pousa a cabeça no meu braço. Adormece.
Num domingo de setembro de 1952, Humboldt veio buscar-me
em frente do edifício de apartamentos onde morava Demmie, na Rua
Barrow, perto do Teatro Cherry Lane. Muito diferente do j ovem poe­
ta com quem tinha ido comer ostras a Hoboken, Humboldt mostra­
va-se agora gordo e pesado. A alegre Demmie gritou-me da escada de
incêndio do terceiro andar, onde criava begónias - de manhã não
havia qualquer sinal de pesadelos:
- Charlie, aí vem o Humboldt no chaço dele.
Vinha a toda a velocidade pela Rua Barrow, o primeiro poeta na
América com travões hidráulicos, dizia. Dominava-o uma mística au­
tomobilística, mas não sabia estacionar. Pus-me a observá-lo enquan­
to tentava recuar para um espaço disponível. De acordo com a minha
SAUL BELLOW

teoria, a maneira como as pessoas estacionavam tinha muito que ver


com a imagem íntima que faziam delas próprias e revelava como esta­
vam as suas costas. Humboldt bateu duas vezes com a roda traseira
no lancil e acabou por desistir, desligando o motor. Então saiu do car­
ro, com um casaco desportivo aos quadrados e botas de poJo com
atacadores, batendo a porta que parecia ter duas j ardas de compri­
mento. Cumprimentou-me sem falar, mantendo unidos os lábios gros­
sos. Os olhos cinzentos pareciam ainda mais afastados um do outro
do que habitualmente - a baleia emersa ao lado do bote. O rosto
atraente tinha engordado e envelhecera. Era sumptuoso, era búdico,
mas não era tranquilo. Pela minha parte estava vestido para a formal
entrevista professoral, bastante cintado, embrulhado e abotoado. Sen­
tia-me como um guarda-chuva . Demmie encarregara-se do meu aspe­
to. Engomara a minha camisa, escolhera a minha gravata e penteara
o cabelo preto que eu tinha nessa altura . Desci. E ali estávamos, dian­
te do edifício de tij olo, com os caixotes do lixo, os passeios estraga­
dos, as escadas de incêndio, e Demmie a acenar lá do alto, enquanto
o terrier dela ladrava à j anela.
- Tenham um bom-dia !
- Porque não vem Demmie connosco ? A Kathleen está a contar
com ela.
- Tem de corrigir os testes de Latim. Preparar as aulas - respon­
di-lhe.
- Se é assim tão conscienciosa, pode fazer isso no campo. Levo-a
ao primeiro comboio.
- Não vai aceitar. Além disso, os teus gatos não iam gostar do
cão dela.
Humboldt não insistiu. Adorava os seus gatos.
Assim, a partir do presente, vej o dois bonecos esquisitos no banco
dianteiro do barulhento chaço. Este Buick estava todo enlameado e
parecia um veículo militar saído das linhas da Flandres. As rodas es­
tavam desalinhadas, os grandes pneus rodavam excentricamente. Hum­
boldt guiava depressa, aproveitando o facto de as estradas se encontra­
rem vazias ao domingo . Era um péssimo condutor, fazendo curvas
à esquerda pelo lado direito, acelerando, para depois travar e parar co­
lado ao carro da frente. Eu desaprovava. É claro que eu estava muito
mais à vontade com carros, mas seria absurdo fazer comparações, visto
que quem conduzia era Humboldt e não um motorista profissional.
o L E G A D O DE H U M B O L DT 29

Guiava c o m o corpo curvado sobre o volante, tinha tremuras infantis


nas mãos e nos pés e apertava a boquilha entre os dentes. Estava agi­
tado, falando sem parar, dizendo piadas, provocando, informando e
incomodando-me. Não pregara olho na noite anterior. Parecia doen­
te. Era óbvio que bebia e se enfrascava em comprimidos, muitos com­
primidos. Trazia o Merck Manual na pasta. Tinha uma encadernação
preta, como a Bíblia, e ele consultava-o com frequência, havendo al­
guns farmacêuticos que aceitavam aviar-lhe o que quer i a . Isto era
uma coisa que tinha em comum com Demmie. Ela também era uma
consumidora de comprimidos sem receita médica.
O carro martelava o pavimento, avançando a alta velocidade para
o Túnel Holland. Junto à corpulenta forma de Humboldt, este gigante
da arte da condução, no lugar da frente forrado com um luxo piroso,
eu apreciava as ideias e ilusões que o acompanhavam. Andava sempre
acompanhado por um enxame, uma monstruosidade, de noções. Fala­
va das alterações nos pântanos de Jérsia, mesmo no seu tempo, com
estradas, esgotos, fá bricas, e que maravilha seria um B uick como
aquele, com travões hidráulicos e direção assistida, cinquenta anos
ante s . Imagine-se Henry James a conduzir, ou Walt Whitman, ou
Mallarmé. Tínhamos arrancado: debatia máquinas, luxo, comando,
capitalismo, tecnologia, Mammon, Orfeu e poesia, as riquezas do co­
ração humano, a América, a civilização mundial. A tarefa dele era dar
sentido a isto e muito mais. O carro atravessou o túnel a roncar e a
guinchar, acabando por sair para um sol brilhante. As altas chaminés,
uma artilharia de imundice, disparavam silenciosamente para o céu de
domingo belas explosões de fumo. O cheiro ácido das refinarias pe­
netrava nos nossos pulmões como um aguilhão. Os j uncos eram tão
castanhos como sopa de cebola. Petroleiros que rumavam ao mar en­
tupiam os canais, o vento bramava, as nuvens imensas eram brancas.
Ao longe, as vivendas amontoadas pareciam uma futura necrópole.
Sob o pálido sol que iluminava as ruas, os vivos iam à igrej a. Por efei­
to da pressão das botas de polo de Humboldt o carburador tossia, os
pneus desalinhados matraqueavam rapidamente as lajes da autoestra­
da. As raj adas de vento eram tão fortes que faziam tremer o pesado
B uick . Precipitámo-nos pela Pulaski Skyway, enquanto as listas de
sombra das vigas se abatiam sobre nós através do para-brisas vibran­
te. No assento de trás havia livros, garrafas, latas de cervej a e sacos
30 SAUL BELLOW

de papel - lembro-me de Les Amours ]aunes, de Tristan Corbiere,


com uma capa amarela, The Police Gazette, cor de rosa, com fotogra­
fias de polícias vulgares e raparigas pecaminosas.
A casa de Humboldt ficava nas traseiras rurais de Jérsia, perto da
fronteira com a Pensilvânia. Esta região marginal só servia para cria­
ção de galinhas. As vias de acesso não estavam asfaltadas, p � lo que
avançávamos no meio de nuvens de poeira. Roseiras silvestres batiam
no Roadmaster, enquanto saltávamos sobre molas gigantes ao longo
de terrenos baldios onde havia pedregulhos brancos. O silenciador de­
feituoso do tubo de escape fazia tanto barulho que embora o carro
ocupasse toda a estrada não era necessário buzinar. Anunciávamos
a nossa aproximação. Humboldt gritou:
- Cá está a nossa casa !
Deu uma guin a d a . Passámos por cima de um monte de terra .
A frente do Buick empinou-se e mergulhou no mato. Buzinou, a pensar
nos gatos, mas os gatos escapuliram-se e puseram-se a salvo no teto do
barracão que se tinha afundado sob a neve do inverno passado.
Kathleen estava à nossa espera no quintal, imponente, pálida e lin­
da. O rosto dela, no vocabulário feminino do elogio, tinha << ossos ma­
ravilhosos » . Mas era pálida, não tinha adquirido a cor da vida no
campo. Humboldt disse que ela raramente saía de casa. Ficava dentro
de casa a ler. Este lugar era exatamente como a Rua Bedford, só que
o bairro de lata das redondezas era rural. Kathleen estava contente
por me ver, e apertou-me a mão com afeto. Disse:
- Bem-vindo, Charlie. O brigada por teres vindo. Mas onde está
a Demmie ? Não pôde vir ? Que pena.
Então acendeu-se uma luz branca na minha cabeça . Houve uma
iluminação de estranha clareza . Vi nitidamente a posição em que
Humboldt colocara Kathleen e traduzi isso em palavras: Fica aí. Não
te mexas. Não te meneies. A minha felicidade pode ser peculiar, mas
uma vez feliz também te farei feliz, mais feliz do que alguma vez so­
nhaste poder ser. A partir do momento em que eu estej a satisfeito, as
bênçãos dessa satisfação estender-se-ão a toda a Humanidade. Não
era esta, pensei, a mensagem do poder moderno ? Esta era a voz do ti­
rano louco a falar, com desej os peculiares para consumar, em função
dos quais todos devem ficar imóveis. Percebi isso logo. Depois pensei
que Kathleen deveria ter secretas razões femininas para aceitar aquilo.
Ü LEGADO DE H U M B O L DT 31

Esperava-se que eu também concordasse e, de outra maneira, também


ficasse imóvel. Humboldt tinha planos para mim além de Princeton.
Quando não era um poeta, era um intriguista compulsivo. Eu era es­
pecialmente suscetível à influência dele. Só há pouco comecei a com­
preender porquê. Mas fascinava-me continuamente. Tudo o que fazia
me parecia maravilhoso. Dava a ideia de que Kathleen sabia disso e es­
tava a esboçar um sorriso quando saí do carro. Pisei a relva esmagada.
- Respira este ar - disse Humboldt. - Diferente da Rua Bed­
ford, hein ? - E depois citou: - << Este castelo está num lugar agradá­
vel. » E ainda: << O hálito divino é sedutor aqui. >> 1
Começámos então a j ogar futebol. Ele e Kathleen estavam sempre
a j ogar. Por isso é que a relva estava toda esmagada. Kathleen passava
a maior parte do dia a ler. Para perceber de que falava o marido pre­
cisava de se atualizar, dizia, sobre James, Proust, Edith Wharton, Karl
Marx, Freud, etc.
- Tenho de fazer uma cena para obrigá-la a sair de casa e j ogar
um bocado de futebol - disse Humboldt.
Os passes dele eram muito bons - lançamentos fortes, com uma
espiral precisa. A voz dela arrastava-se enquanto corria de pernas ao
léu para agarrar a bola contra o peito . A bola em voo abanava como
um rabo de pato. Voava por baixo das árvores, por cima das cordas
de roupa . Depois da prisão do carro, com a roupa da entrevista, sen­
tia-me contente por participar no j ogo. Humboldt corria de maneira
pesada e desengonçada . Com as suas camisolas, Humboldt e Kathleen
pareciam dois j ogadores inexperientes: altos, loiros, enchumaçados .
Humboldt disse:
- Olha o Charlie, salta como Nij inski.
Parecia-me tanto com Nij inski, quanto a casa dele com o castelo
de Macbeth. O cruzamento de estradas tinha desgastado parte do pe­
queno monte onde assentava a casa, que começava a inclinar-se. Com
o tempo teriam de a escorar. Ou de processar o condado, disse Hum­
boldt. Processaria qualquer um. Os vizinhos criavam galinhas nesta
terra miserável. Havia bardanas, cardos, carvalhos anões, candelárias,
buracos de terra calcificada, charcos esbranquiçados por todo o lado.

1 Macbeth, Ato 1, Cena 6 . (N. do T.)


32 SAUL BELLOW

Tudo estava depauperado. Os próprios arbustos pareciam carentes da


Segurança Social. No terreno em frente as galinhas estavam roucas
- lembravam mulheres imigrantes - e as arvorezinhas - carvalhos-
-anões, sumagres, ailantos - eram insignificantes, empoeiradas, pare-
ciam órfãs. As folhas outonais estavam a desfazer-se em pó e havia no
ar uma agradável fragrância de folhas em decomposição. Era um ar
vazio mas saudável . À medida que o Sol se punha, a paisagem parecia
um plano em sépia de um velho filme. Crepúsculo. Uma esteira ver­
melha estendendo-se desde a remota Pensilvânia, o ruído dos choca­
lhos das ovelhas, os cães nos quintais castanhos. Tinha aprendido em
Chicago a valorizar um ambiente tão despoj ado como este. Em Chi­
cago convertemo-nos em conhecedores do quase-nada. Com olhar
límpido, contemplei aquela paisagem clara . Apreciei melhor o suma­
gre vermelho, as pedras brancas, o tom ferruginoso das ervas, a orla
verde do monte por cima da encruzilhada.
Era mais do que apreço. Já era apego . Mesmo amor. Provavel­
mente a influência de um poeta contribuíra para que os meus senti­
mentos em relação a este lugar se desenvolvessem tão rapidamente .
Não me refiro ao privilégio de ser admitido na vida literária, embora
isso tivesse pesado alguma coisa. Não, a influência era esta : um dos
temas de Humboldt era o perene sentimento humano de que havia
um mundo original, um mundo-lar, que se perdera . Às vezes falava
da Poesia como a caridosa ilha Ellis, onde um grupo de estrangeiros
iniciara a sua naturalização, e deste planeta como se fosse uma imita­
ção tocante mas pouco humanizada desse mundo-lar. Falava da nossa
espécie como se fosse composta por náufragos. Mas o bom e estranho
Humboldt, pensei (e eu era bastante estranho à minha maneira ) , acei­
tou agora o repto dos reptos. Era preciso ter a confiança de um génio
para viajar diariamente por este território, para se deslocar entre Ne­
nhures, Nova Jérsia e o mundo-lar da nossa gloriosa origem. Por que
razão tornava aquele louco filho da puta as coisas ainda mais difíceis
para si ? Deve ter comprado este buraco num momento de loucura .
Mas neste momento, enquanto corria pelo meio das ervas para apa­
nhar a bola que voava a abanar por cima das cordas de roupa ao lus­
co-fusco, sentia-me realmente feliz. Pensei: talvez ele consiga dar
a volta . É possível que, estando perdida, uma pessoa se deva perder
ainda mais; estando atrasada para um encontro, talvez sej a melhor
que uma pessoa caminhe mais devagar, como aconselhava um dos
meus escritores russos prediletos.
o L E G A D O DE H U M B O LDT 33

Estava totalmente enganado. Não se tratava de qualquer repto,


e ele nem sequer tentava dar a volta a nada.
Quando ficou demasiado escuro para continuar o j ogo fomos para
dentro de casa. Esta era Greenwich Village no campo. Mobilada com
obj etos vindos de loj as de segunda mão, liquidações, quermesses de
igrej a, parecia ter como alicerces livros e papéis. Ficámos na sala a be­
ber copos de geleia. Kathleen - robusta, loira, lânguida, de pele agra­
dável e seios volumosos - sorria simpaticamente, mas passava a
maior parte do tempo silenciosa. As mulheres fazem coisas maravi­
lhosas pelos maridos. Amava um poeta-rei e permitia que ele a manti­
vesse cativa no campo. Beberricava cervej a Pabst em lata . A sala tinha
um pé-direito baixo. Marido e mulher eram corpulentos. Estavam
sentados ao lado um do outro no sofá Castro. As paredes não eram
suficientemente grandes para conterem as sombras deles . Transborda­
vam para o teto. O papel de parede era cor de rosa - o cor de rosa
da roupa interior feminina ou do creme de chocolate - com um en­
trelaçado de rosas. Onde a chaminé do fogão entrara na parede esta­
va agora uma tampa de amianto com cercadura dourada. Os gatos,
ariscos, aproximaram-se e espreitaram pela janela . Humboldt e Kath­
leen revezavam-se dando-lhes entrada. As janelas tinham pernos anti­
quados que era preciso puxar. Kathleen, para a bri-las, apoiava os
seios no vidro, levantava-as com as mãos nas extremidades e um im­
pulso do busto. Os gatos entravam com o pelo eriçado devido à eletri­
cidade estática da noite.
Poeta, pensador, alcoólatra, consumidor de pílulas, génio, manía­
co-depressivo, intriguista complicado, história de êxito, Humboldt es­
crevera outrora poemas de grande subtileza e beleza , mas que havia
ele feito ultimamente ? Tinha proferido as palavras e cantos grandio­
sos que tinha dentro de si ? Não. Poemas não escritos estavam a matá­
-lo. Retirara-se para este lugar que às vezes lhe lembrava a Arcádia
e, outras, o inferno. Ouvia os comentários degradantes que eram feitos
a seu respeito por detratores - outros escritores e intelectuais. Torna­
va-se cada vez mais malicioso, mas parecia não ter em conta o que di­
zia dos outros, como os caluniava. Cismava e intrigava extraordina­
riamente . Estava a converter-se num dos grandes solitários. E não
nascera para ser solitário. Era uma criatura social, devia ter uma vida
mais ativa . Os projetos e intrigas dele evidenciavam esse facto.
34 S A U L B E L LOW

Nessa época andava entusiasmado com Adiai Stevenson. Pensava


que se Adiai pudesse derrotar Ike nas eleições de novembro, a Cultura
entraria em Washington.
- Agora que a América é uma potência mundial, o filistinismo ter­
minou. Não só terminou como é politicamente perigoso - dizia. -
Se Stevenson ganhar, a literatura ganha . . . ganharemos nós, Charlie.
Stevenson lê os meus poemas.
- Como é que sabes ?
- Não te posso dizer, mas tenho os meus contactos. Stevenson
leva as minhas baladas para todos os lugares que percorre em cam­
panha . Os intelectuais estão a ganhar peso neste país. A democracia
começa finalmente a criar uma civilização nos Estados Unidos. Por isso
Kathleen e eu deixámos a Village.
Tinha-se tornado um proprietário. Ao instalar-se no interior, a vi­
ver entre campónios, pensava que estava a entrar no coração da Amé­
rica. Pelo menos era esta a desculpa dele. Porque havia outros moti­
vos para a mudança - ciúme, ilusões sexuais. Contara-me certa vez
uma história longa e complicada. O pai de Kathleen havia tentado se­
pará-los. Antes de se casarem, o velho tinha-a levado e vendido a um
dos Rockefellers.
- Um dia desapareceu - disse Humboldt. - Informou-me que
ia à padaria e esteve um ano desaparecida. Contratei um detetive par­
ticular, mas podes imaginar que tipo de segurança os Rockefellers,
com os seus bilhões, devem ter. Há túneis por baixo da Park Avenue.
- Qual dos Rockefellers a comprou?
- Comprou é o termo certo - disse Humboldt. - Foi vendida
pelo pai. Nunca mais te rias quando leres artigos sobre escravatura
branca nos suplementos dominicais.
- Imagino que deve ter sido contra a vontade dela.
- Ela é muito dócil. Vês bem como se assemelha a uma pomba.
Cem por cento obediente àquele velho noj ento . Ele disse-lhe << Vai >> ,
e ela foi. Talvez tenha sido um verdadeiro prazer para ela, tendo o pai
apenas permitido . . .
Masoquismo, é claro. Fazia parte d o Jogo d a Psique, que Hum­
boldt estudara com os seus mestres modernos, um j ogo muito mais
subtil e rico do que qualquer brincadeira de salão patenteada. Uma
vez no campo, Humboldt deitava-se no sofá a ler Proust, magicando
sobre os motivos de Albertine. Raramente permitia a Kathleen ir ao
mercado sem ele. Escondera a chave do carro e mantinha-a cativa.
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 35

Ainda era um homem bem-parecido, e Kathleen adorava-o. Con­


tudo, no campo exacerbavam-se os terrores j udaicos de Humboldt.
Ele era um oriental, ela uma donzela cristã, o que o apavorava . Re­
ceava que o KKK queimasse uma cruz no quintal ou a atirasse pela ja­
nela, enquanto estivesse a ler Proust no sofá Castro ou a inventar um
escândalo. Kathleen contou-me que ele espreitava por baixo do capô
do Buick à procura de bombas. Várias vezes tentou obrigar-me a con­
fessar que eu tinha terrores idênticos em relação a Demmie Vonghel.
Um fazendeiro vizinho vendera-lhe madeira verde . Soltava fumo
na pequena lareira diante da qual nos sentáramos depois do j antar.
Na mesa encontrava-se o esqueleto do peru que destroçáramos. O vi­
nho e a cerveja desapareciam rapidamente . Havia um bolo de café
Ann Page e gelado de castanha que se derretia. Um ligeiro cheiro a es­
goto provinha da j anela e os cilindros de gás Skell pareciam obuses
prateados. Humboldt estava a dizer que Stevenson era um homem
realmente culto, o primeiro desde Woodrow Wilson. Mas nesse aspe­
to Wilson era inferior tanto a Stevenson como a Abraham Lincoln.
Lincoln conhecia bem Shakespeare e nos momentos de crise da sua
vida citava-o. << Não há nada de sério na mortalidade, é tudo uma brin­
cadeira » . . . << Duncan jaz no seu túmulo; depois da febre espasmódica
da vida, repousa » . Eram estas as premonições de Lincoln no momen­
to em que Lee estava prestes a render-se. Os pioneiros não tinham
medo de poesia. Foram os Grandes Negócios, com o seu medo da fe­
minilidade, e o clero de eunucos, rendido a uma masculinidade vulgar,
que transformaram arte e a religião numa mariquice. Stevenson com­
preendeu isso. A acreditar em Humboldt (o que não era o meu caso ) ,
Stevenson era o homem magnânimo d e Aristóteles. N a sua administra­
ção os membros do Gabinete citariam Yeats e Joyce. Os novos chefes
do Estado-Maior conheceriam Tucídides. Humboldt seria consultado
sobre os discursos relativos ao Estado da União . Seria o Goethe do
novo Governo e ergueria Weimar em Washington.
- Podes começar a pensar no que gostarias de fazer, Charlie. Que
te parece a Biblioteca do Congresso ?
Kathleen anunciou:
- Vão passar um filme muito bom no << Última Sessão » . Um velho
filme de Bela Lugosi.
Percebeu que Humboldt estava muito excitado. Não dormiria nes­
sa noite.
S A U L B E L LOW

Muito bem. Ligámos o televisor no canal que passava o filme de


terror. Bela Lugosi era um cientista louco que havia inventado carne
sintética. Aplicava-a a si próprio, criando uma máscara pavorosa, e
invadia os quartos de lindas donzelas que guinchavam e desmaiavam.
Kathleen, ainda mais fa bulosa do que os cientistas, mais bonita do
que qualquer daquelas mulheres, assistia com um meio sorriso de de­
satenção. Kathleen era sonâmbula. Humboldt tinha-a rodeado de toda
a crise da Cultura Oci denta l . Adormecera . Que mais podia fazer ?
Compreendo estas décadas de sono. É um assunto que conheço bem.
Entretanto, Humboldt não nos deixava ir para a cama. Tomou Amytal
para anular a Benzedrina, e, ainda por cima, pôs-se a beber gim.
Saí e fui passear ao frio. A luz que vinha da casa de campo ilumi­
nava sulcos e quebradas, sobre a emaranhada coroa de cenouras bra­
vas e ambrósias que co bria a estrada. Cães, talvez raposas, ganiam,
estrelas brilhavam intensamente. Os espectros do filme noturno assus­
tavam através das j anelas, o cientista louco enfrentava a polícia num
tiroteio, o la boratório explodia, e ele morria em chamas com a carne
sintética a derreter-se na sua cara .
Demmie devia estar a ass istir ao mesmo filme na Rua Barrow.
Não tinha insónias. Detestava dormir e preferia filmes de terror a pe­
sadelos. Quando tinha de se deitar, Demmie ficava sempre inquieta .
Víamos as notícias das dez, passeávamos o cão e j ogávamos gamão
e fazíamos paciências. Depois sentávamo-nos na cama e víamos Lon
Chaney lançar facas com os pés.
Não me havia esquecido de que Humboldt tentara tornar-se em
protetor de Demmie, mas já não lhe guardava rancor por isso. Logo
que voltassem a encontrar-se, Demmie e Humboldt começariam a fa­
lar de velhos filmes e novos comprimidos. Ao discutirem Dexamil da
forma tão apaixonada e conhecedora como faziam, eu ficava irreme­
diavelmente de fora. Mas agradava-me que tivessem tantas coisas em
comum.
- É um homem fantástico - dizia Demmie.
E Humboldt dizia de Demmie:
- Esta rapariga conhece a fundo a sua farmacopeia. É excecional.
- Porém, como lhe era impossível não encontrar defeitos, acrescen-
tou: - Precisa de se libertar de algumas coisas.
- Tretas. Que coisas? Ela já foi delinquente juvenil.
- Não chega - disse Humboldt. - Se a vida não for embriagan-
te, não é nada. Ou se arde, ou se apodrece. Os Estados Unidos são
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 37

um país romântico. Charlie, se queres permanecer lúcido, tens de ser


um inconformista e experimentar tudo. - Baixou então a voz e falou
a olhar para o chão: - Parece-te que a Kathleen tem um ar selvagem ?
Mas deixou que o pai a raptasse e vendesse ao Rockefeller . . .
- Ainda não sei qual dos Rockefellers a comprou.
- Eu não faria planos em relação a Demmie, Charlie. Essa rapari-
ga ainda tem de deitar muito sofrimento para trás das costas.
Estava a intrometer-se, só a intrometer-se. No entanto levei aquilo
a peito. Porque na verdade Demmie vivia atormentada. Algumas mu­
lheres choravam tão suavemente como uma fonte a pingar no jardim.
Demmie chorava com paixão, como só uma mulher que acredita no
pecado pode chorar. Quando chorava , não só se sentia pena dela,
como se respeitava a sua força de carácter.
Humboldt e eu passámos metade da noite à conversa . Kathleen
emprestou-me uma camisola; s abia que Humboldt mal dormiria,
e talvez tenha aproveitado a minha visita para descansar um pouco,
prevendo uma semana inteira de noites maníacas sem nenhuma visita
que a aliviasse.
Como prefácio a esta Noite de Conversa com Von Hum boldt
Fleisher ( porque foi uma espécie de recital), gostaria de oferecer uma
sucinta declaração histórica : houve uma época (começo da Era Mo­
derna ) em que, aparentemente, a vida perdeu a capacidade de se or­
ganizar. Tinha de ser organizada . Os intelectuais fizeram disso o seu
objetivo. Digamos que, do tempo de Maquiavel ao nosso, esta reorga­
nização tem sido o único, o grande, o esplendoroso, o tenta dor, o
enganador e desastroso proj eto . Um homem como Humboldt, inspi­
rado, a stuto, louco, exultava com a desco berta de que a atividade
humana, imensa e infinitamente variada, tinha de ser dirigida por pes­
soas excecionais. Ele era uma pessoa excecional e, assim, um candida­
to suscetível de exercer o poder. E porque não ? Uns leves acessos de
lucidez deixavam ver com clareza porque não e conferiam alguma co­
micidade às ambições dele. Enquanto nos ríssemos, estava tudo bem.
Na época, eu próprio era um candidato em potência. Também via
grandes oportunidades, cenas de vitória ideológica e triunfo pessoal.
Agora algumas coisas sobre a conversa de Humboldt. Como era
realmente a conversa do poeta ?
Quando começava a falar, Humboldt parecia um pensador equili­
brado, embora não fosse exatamente a imagem da sanidade mental.
SAU L B E L L O W

Eu também adorava falar e competia com ele o mais que podia. Du­
rante algum tempo era um concerto a dois, mas depois o banj o e a
trompeta expulsavam-me do palco. Raciocinando, formulando, deba­
tendo, fazendo descobertas, a voz de Humboldt erguia-se, engasgava­
-se, voltava a subir; a boca escancarava-se e formavam-se manchas
negras sob os olhos, que pareciam turvar-se. Com os braços caídos,
o peito imenso, as calças por baixo da barriga, presas por um cinto
demasiado comprido cuj a ponta pendia solta, passava da exposição
ao recitativo, do recitativo subia vertiginosamente à ária, e nas suas
costas tocava uma orquestra de intimações, virtudes, amor à sua arte,
veneração aos grandes homens, mas também de suspeição e falsidade.
Diante nos nossos olhos, o homem recitava e cantava-se a si próprio,
entrando e saindo da loucura.
Começou a falar do lugar que teriam a arte e a cultura na primeira
administração de Stevenson - sobre o seu papel, o nosso papel, por­
que iríamos trabalhar j untos. Avançou logo com uma apreciação de
Eisenhower. Eisenhower não tinha coragem política. Vej a-se o que
permitiu a Joe McCarthy e ao senador Jenner dizerem sobre o general
Marshall. Não tinha tomates. Mas era brilhante em logística e rela­
ções públicas, além de não ser parvo nenhum. Aj ustava-se ao arquéti­
po perfeito de oficial do exército : descontraído, j ogador de brídege,
gostava de mulheres e lia romances do Oeste de Zane Grey. Se as pes­
soas quisessem um Governo descontraído, se tivessem recuperado su­
ficientemente da Depressão e agora quisessem umas férias da guerra,
se se sentissem suficientemente fortes para sobreviver sem gente do
New Deal e prósperas o bastante para mostrar ingratidão, votariam
em Ike, o tipo de príncipe que poderia ser pedido por catálogo da
Sears Roebuck . Talvez j á estivessem fartas de grandes personalidades
como FOR e de homens enérgicos como Truman. Mas não queria su­
bestimar a América . Stevenson talvez conseguisse lá chegar. Veríamos
então até onde a arte poderia chegar numa sociedade progressista, se
era compatível com o progresso social. Entretanto, após ter mencio­
nado Roosevelt, Humboldt insinuou que FOR talvez tivesse tido algu­
ma responsabilidade na morte de Bronson Cutting. O avião do senador
Cutting despenhara-se quando ele regressava do seu estado natal, de­
pois de uma recontagem de votos. Como tinha acontecido ? Talvez
]. Edgar Hoover estivesse envolvido. Hoover mantinha o seu poder fa­
zendo o trabalho suj o dos Presidentes. Lembremo-nos de como tentou
prej udicar Burton K. Wheeler, de Montana. Daí Humboldt passava
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 39

para a vida sexual de Roosevelt. De Roosevelt e J . Edgar Hoover para


Lénine e Dzerj inski do GPU. Depois voltava a Sej anus e às origens da
polícia secreta do Império Romano. A seguir falava das teorias literá­
rias de Trótski e do peso imenso da grande arte no comboio de carga
da Revolução . Regressava então a Ike e à vida em tempo de paz dos
soldados profissionais nos anos 3 0 . O hábito de beber dos militares.
Churchill e a garrafa. Confabulações confidenciais para proteger do
escândalo os famosos. Medidas de segurança nos prostíbulos masculi­
nos de Nova Iorque. Alcoolismo e homossexualidade. A vida conjugal
e doméstica dos pederastas. Proust e Charlus. A situação anormal do
exército alemão antes de 1 9 14. Noite alta, Humboldt leu histórias mi­
litares e memórias de guerra. Conhecia Wheeler-Bennett, Chester Wil­
mot, Liddell Hart, os generais de Hitler. Também conhecia Walter
Winchell, Earl Wilson, Leonard Lyons e Red Smith, e passava facil­
mente dos tabloides para o general Rommel e deste para John Donne
e T. S. Eliot. Parecia conhecer factos estranhos sobre Eliot de que mais
ninguém tinha ouvido falar. Destilava intriga, alucinações e teoria lite­
rária. A distorção era inerente, sim, a toda poesia. Mas qual aparecera
primeiro ? E este discurso desabava em cima de mim, em parte privilé­
gio, em parte sofrimento, com ilustrações tiradas dos clássicos, com
citações de Einstein e Zsa Zsa Gabar, com referências ao socialismo
polaco, às táticas de futebol de George Halas, aos motivos secretos de
Arnold Toynbee e (de algum modo) ao negócio de carros usados. Ra­
pazes ricos, rapazes pobres, rapazes j udeus e gentios, coristas, prosti­
tuição e religião, velhos ricos, novos-ricos, clubes para cavalheiros,
Back Bay, Newport, Washington Square, Henry Adams, Henry Ja­
mes, Henry Ford, S. João da Cruz, Dante, Ezra Pound, Dostoiévski,
Marilyn Monroe e Joe D i Maggio, Gertrude Stein e Alice, Freud e Fe­
renczi . Fazia sempre a mesma o bservação so bre Ferencz i : nada se
afasta mais do instinto que o racionalismo, portanto, segundo Feren­
czi, o racionalismo representa o apogeu da loucura. Como prova, ve­
j a-se como Newton enlouquece u ! Chegado a este ponto, Humboldt
geralmente falava de Antonin Artaud. Artaud, o dramaturgo, convi­
dou os intelectuais mais brilhantes de Paris para uma palestra. Quan­
do estavam todos reunidos, não houve palestra nenhum a . Artaud
subiu ao palco e gritou como um animal selvagem.
- Abriu a boca e gritou - disse Humboldt. - Gritos horrendos.
Os intelectuais de Paris permaneciam sentados e amedrontados. Para
S A U L B E L LOW

eles foi um ato delicioso. Porquê ? Como artista, Artaud era um sacer­
dote fracassado . Os sacerdotes fracassados especializam-se em blasfé­
mias. E blasfémias são dirigidas a uma comunidade de crentes. Neste
caso, que tipo de crença ? Crença apenas no intelecto, que um Ferenczi
acusou agora de loucura . Mas qual o sentido de tudo isto num âmbi­
to mais vasto ? Significa que a única arte que pode interessar aos in­
telectuais é a arte que celebra a primazia de ideias. Os artistas devem
interessar aos intelectuais, a nova classe . Por isso é que o estado da
cultura e a História da cultura se converteram em tema da arte. Tam­
bém é por isso que uma sofisticada assistência de franceses ouve res­
peitosamente os gritos de Artaud. Para eles, o único propósito da arte
é sugerir ideias e discurso. As pessoas educadas dos países modernos
não passam de uma ralé pensante que se encontra na fase que Marx
denominou como acumulação primitiva. A sua tarefa é a de reduzir
obras-primas a tratados. A gritaria de Artaud é u m ato intelectual.
Trata-se, em primeiro lugar, de um ataque à << religião da arte >> do sé­
culo XIX, que a religião do discurso quer substituir . . .
- E t u podes verificar, Charlie - continuou Humboldt após mais
algumas explicações -, como é importante para a administração de
Stevenson ter um conselheiro cultural como eu, alguém que entenda
todo este processo universal. Nem mais nem menos.
Por cima de nós, Kathleen preparava-se para se deitar. O nosso teto
era o chão dela . O soalho não estava alcatifado e era possível ouvir
todos os movimentos. Quase a invej ava. Começava a tremer de frio
e teria gostado de me enfiar debaixo dos cobertores. Mas Humboldt
estava a dizer que nos encontrávamos apenas a quinze minutos de
Trenton e a duas horas de Washington de comboio. Chegaria lá num
instante. Confessou que Stevenson já havia entrado em contacto com
ele para combinar um encontro. Humboldt pediu-me que o aj udasse
a preparar algumas notas para esse encontro, de modo que estivemos
a discutir o assunto até às três da manhã. Fui depois para o meu quar­
to, enquanto Humboldt bebia um último copo de gim.
No dia seguinte, ainda estava a todo o vapor. Ficava tonto só de
ouvir tanta análise minuciosa e ter tanta História Universal descarre­
gada em cima da minha cabeça durante o pequeno-almoço. Ele não
tinha pregado olho .
Para se acalmar foi correr. Pisava a terra com os seus sapatos an­
draj osos. Coberto de poeira até à cintura, os braços rentes ao peito,
o L E G A D O DE H U M B O LDT 41

desceu a estrada. Dava a impressão de estar a afundar-se sob os suma­


gres e os carvalhos-anões, entre erva alta, cardos, asclépias, bexigas­
-de-lobo. Quando regressou tinha as calças pej adas de espinhos. Tam­
b é m p a r a c o r r e r t i n h a um t e x t o . Q u a n d o J o n a t h a n S w i ft e r a
secretário d e Sir Wm. Temple corria vários quilómetros todos o s dias
para aliviar a tensão. Pensamentos demasiado ricos, emoções muito
densas, necessidades expressivas inefáveis ? Uma corrida caía bem.
E dessa maneira, também se eliminava o gim suando.
Levou-me a dar um passeio e os gatos acompanharam-nos pelas
folhas secas e arbustos. Praticavam saltos. Atacavam as teias de ara­
nha que havia no chão. Com longas caudas, corriam aos saltos para
as árvores, onde afiavam as garras. Humboldt gostava muito deles.
O ar da manhã estava impregnado com qualquer coisa muito agradá­
vel. Humboldt entrou em casa, fez a barba e depois dirigimo-nos, no
Buick fatal, para Princeton.
O meu emprego estava garantido. Almoçámos com Sewell - um
alcoólico de rosto macilento, que inclinava o corpo para trás e mur­
murava frases de maneira incompreensível . No restaurante francês,
queria bisbilhotar com Humboldt sobre Nova Iorque e Cambridge.
Sewell, um verdadeiro cosmopolita ( segundo sua própria opinião ) ,
nunca tinha ido ao estrangeiro. Humboldt também n ã o conhecia a
Europa .
- Se quisesses ir, meu velho - disse Sewell -, podíamos tratar
disso.
- Ainda não me sinto preparado - respondeu Humboldt. Ti­
nha medo de ser raptado por ex-nazis ou por agentes do GPU.
E quando me acompanhou ao comboio, Humboldt disse:
- Não te disse que a entrevista não passava de uma formalida­
de ? Sewell e eu conhecemo-nos há anos. Chegámos a escrever um so­
bre o outro, Sewell e e u . Mas nunca houve réstia de inimizade. Só
me pergunto por que razão está Damasco interessada em Henry Ja­
mes. Esta temporada deverá ser muito agradável para nós, Charlie .
E caso tenha de ir para Washington, sei que posso contar contigo
para gerires as coisas por cá.
- Damasco ! - exclamei. - Entre esses árabes, Sewell será o xe­
que da Apatia.
O pálido Humboldt abriu a boca . Os dentes pequenos deixaram
escapar uma risada quase inaudível .
SAUL BELLOW

Nessa altura, não passava de um aprendiz e de um ator de segun­


da, e Sewell tratou-me como tal. Suponho que tenha visto um j ovem
sensível, simpático, mas descuidado, com grandes olhos sonolentos,
um pouco gordo, e com uma certa relutância ( que transparecia no seu
olhar) a deixar-se entusiasmar com os projetos dos outros. O facto de
ele não ter sabido dar-me valor deixou-me irritado. Mas essas humi­
lhações enchiam-me sempre de uma certa energia . E se mais tarde
consegui acumular uma série formidável de credenciais, foi porque
soube fazer bom uso desses desaires. Vinguei-me progredindo . Desse
ponto de vista, devia muito a Sewell e, anos mais tarde, ao ler nos j or­
nais de Chicago que tinha morrido, cometi uma ingratidão ao dizer,
bebericando um uísque, o que ocasionalmente dizia nessas ocasiões:
a morte é boa para algumas pessoas. Lembrei-me então da piada que
dissera a Humboldt a caminho de Princeton Dinkey, estação que per­
mitia fazer a ligação com a principal. As pessoas morrem e os comen­
tários mal-intencionados que eu disse sobre elas voltam-se contra mim
e não me largam. Mas quanto a essa apatia ? Paulo de Tarso acordou
no caminho de Damasco, mas Sewell de Princeton dormiria ainda
mais· profundamente lá. Era esse o sentido malicioso do meu comentá­
rio. Confesso lamentar agora ter dito tal coisa. Em relação à minha
entrevista, deveria acrescentar que foi um erro deixar que Demmie
Vonghel me mandasse de facto cinzento antracite, de colarinho a bo­
toado, gravata de malha e sapatos cordovan castanhos: um genuíno
princetoniano.
De qualquer modo, não foi muito depois de eu ter lido o obituário
de Sewell no Daily News de Chicago, encostado no balcão da cozi­
nha, às quatro da tarde, com um copo de uísque na mão e a mordis­
car um bocado de arenque de esca beche, que Humboldt, morto há
cinco ou seis anos, reentrou na minha vida. Apareceu de forma inespe­
rada . Não vou ser muito preciso sobre a data em que isso aconteceu.
Nessa altura o tempo não era coisa que me preocupasse muito, um
sintoma da minha crescente absorção em assuntos mais complicados.

E agora, o presente. Um aspeto diverso da vida - completamente


contemporâneo.
Foi em Chicago, e não há muito tempo pelo calendário, que saí de
casa uma manhã de dezembro para me i r encontrar com Murra,
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 43

o meu contabilista, e quando cheguei à rua verifiquei que o meu Merce­


des-Benz tinha sido vandalizado durante a noite. Não estou a falar de
simples amolgaduras e riscos causados por um condutor descuidado ou
bêbedo que tivesse fugido sem deixar um bilhete no para-brisas. Quero
dizer que o carro estava todo amolgado, j ulgo que a pancadas de taco
de beisebol. Um carro de elite como este, que já não era novo mas cus­
tara perto de 1 8 mil dólares há três anos, fora danificado com uma fe­
rocidade difícil de entender - de entender, diga-se, mesmo de um pon­
to de vista estético, porque estes coupés da Mercedes são lindíssimos,
sobretudo os cinzento-prateados. O meu querido amigo George Swie­
bel dissera até uma vez, em tom de ressentida admiração:
- Matar j udeus e fa bricar máquinas é a única coisa que os ale­
mães sabem realmente fazer.
O ataque a este carro foi duro para mim também num sentido so­
ciológico, visto que sempre disse que conhecia a minha Chicago e
estava convencido de que os desordeiros respeitavam igualmente os
automóveis bonitos. Recentemente, um carro tinha sido afundado no
lago de Washington Park, com um homem preso no porta-bagagens
de onde tentara escapar utilizando as ferramentas dos pneus. Era ób­
vio que se tratava da vítima de assaltantes que haviam decidido afo­
gá-lo para se livrarem de uma testemunha. Mas recordo-me de ter
pensado que o carro era um simples Chevrolet. Nunca teriam feito
uma coisa dessas a um Mercedes 280-SL. Disse uma vez à minha ami­
ga Renata que eu poderia ser esfaqueado ou agredido a pontapé nu­
ma plataforma da estação Illinois Central, mas que nunca tocariam
no meu carro.
De maneira que nessa manhã fui apagado do mapa como psicólo­
go urbano. Tive de reconhecer que não fora psicologia alguma mas
mera presunção, ou talvez feitiçaria protetora. Sabia que aquilo de
que se precisava numa grande cidade americana era de um grosso cin­
turão de desafeto, uma massa crítica de indiferença. As teorias tam­
bém podiam ser úteis na concretização dessa massa protetora. Fosse
como fosse, a ideia era evitar problemas. Agora, porém, o inferno da
imbecilidade atingira-me em cheio. O meu elegante carro, aquela res­
plandecente terrina prateada motorizada que não devia ter comprado
- uma pessoa como eu, nem sempre suficientemente lúcida para
guiar este tesouro -, tinha sido mutilado . D e uma ponta à outra !
O delicado tej adilho com o teta de abrir, os guarda-lamas, o capô, o
porta-bagagens, as portas, os fechos, os faróis, o requintado emblema
44 S A U L BELLOW

da grelha do radiador - tudo fora batido e amolgado. Os vidros in­


quebráveis das j anelas tinham resistido, mas pareciam co bertos de
cuspidelas . Ao longo do para-brisas serpenteavam as gretas brancas
das rachas. Era como se tivesse sofrido uma espécie de hemorragia in­
terna cristalina . Horrorizado, estive quase a desfalecer. Pareceu-me
que ia desmaiar.
Alguém tratara o meu carro como as ratazanas fazem, segundo
ouvi dizer, quando correm aos milhares pelos armazéns, rebentando
sacos de farinha sem razão aparente . Senti uma dilaceração idêntica
no coração. O carro vinha de uma época em que os meus rendimen­
tos superavam os cem mil dólares . Essa quantia atraíra a atenção do
Fisco, que passara a examinar anualmente tudo o que eu recebia. Ti­
nha saído de casa nessa manhã para me encontrar com William Mur­
ra, o aperaltado, maravilhoso e insinuante especialista, o contabilista
diplomado que já em duas ocasiões me defendera contra o Governo
Federal. Embora os meus rendimentos tivessem caído para o seu nível
mais baixo em muitos anos, os agentes do Fisco ainda não me haviam
largado.
Devo reconhecer que comprei o Mercedes 2 8 0-LS por causa da
minha amiga Renata . Quando viu o Dodge utilitário que eu conduzia
quando nos conhecemos, exclamou:
- Que raio de carro é este ? Nem parece de um homem famoso .
Deve haver algum engano.
Tentei explicar-lhe que era demasiado vulnerável à influência de
coisas e pessoas para conduzir um carro de dezoito mil dólares. Tem
de se estar à altura de uma máquina tão grandiosa e, por consequên­
cia, ao volante deixava de se ser quem se era. Mas Renata rejeitou essa
ideia, afirmando que eu não sabia gastar dinheiro, que me desvalori­
zava, que desperdiçava as potencialidades oferecidas pelo meu êxito,
do qual, aliás, tinha medo. Sendo de profissão decoradora de interio­
res, a elegância e uma certa ostentação eram naturais nela. De repente
percebi . Mergulhei no que apelidei de << estado de espírito à moda de
António e Cleópatra » . Que Roma se derreta no Tibre. Que o mundo
saiba que um casal compenetrado pode percorrer as ruas de Chicago
num Mercedes prateado, com o motor a palpitar como um brinquedo
mágico e mais subtil do que um Swiss A ccutron - não, um Aude­
mars Piguet, com asas de borboleta peruanas engastadas ! Por outras
palavras, deixara que o carro se tornasse uma extensão do meu pró­
prio ser ( da sua faceta louca e vaidosa ) , de maneira que um ataque
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 45

contra ele era um ataque contra mim. Foi um momento muito fértil
em reações.
Como pudera acontecer uma coisa daquelas numa via pública ?
O barulho devia ter sido mais forte do que o de um tiroteio. É claro
que as lições de tática de guerrilha na selva eram aplicadas em todas
as grandes cidades do mundo . Explodiam bombas em Milão e Lon­
dres . Contudo, o bairro de Chicago onde morava era relativamente
calmo. Tinha estacionado do outro lado da esquina do meu arranha­
-céus, numa travessa lateral. Como é que o porteiro não havia ouvido
o estrondo no silêncio da noite ? Não, as pessoas tendem a encolher-se
debaixo das cobertas quando há distúrbios. Se ouvem tiros de pistola,
dizem umas às outras que se trata de ruídos de tubo de escape. Quan­
to ao porteiro noturno, costuma fechar o prédio à uma da manhã
e lavar o chão. Muda de roupa na cave, vestindo um fato de sarj a cin­
zento empapado em suor. Quando se entra no corredor tarde na noite
sente-se o cheiro da mistura de sabão em pó e do almíscar da sarj a
(como de peras podres ) . Não, os criminosos que amolgaram o meu
carro não teriam tido problemas com o porteiro . Logo que o carro­
-patrulha tivesse passado, sabendo que só voltaria dali a quinze minu­
tos, saltaram do esconderij o e caíram sobre o meu carro com cacetes,
bastões ou martelos.
Sabia muito bem quem era o responsável. Tinha sido avisado vá­
rias vezes. A altas horas da noite o telefone tocava frequentemente .
Ensonado, sem ter ainda recuperado por completo a consciência, pe­
gava no aparelho e antes de conseguir encostá-lo ao ouvido, já ouvia
o meu interlocutor aos berros:
- Citrine ! Ei, Citrine !
- Sim ? Sim, sou o Citrine. Diga.
- Meu filho da puta. Hás de pagar-mas. Olha o que me estás a
fazer.
- A fazer-te ?
- S im, a m i m ! Vai-te foder. O cheque que cancelaste era para
mim. Resolve isso, Citrine. Trata desse maldito cheque. Não me obri­
gues a fazer alguma coisa .
- Estava ferrado no sono . . .
- Se eu não estava a dormir, por que razão havias t u d e estar ?
- Estou a ver se acordo, senhor. . .
5 A U L B E L LOW

- Nada de nomes ! A única coisa de que temos de falar é de um


cheque cancelado. Nada de nomes ! Quatrocentos e cinquenta dólares.
É esse o tema da nossa conversa.
Estas ameaças de bandido no meio da noite contra mim ( precisa­
mente contra mim ) , que sou uma alma simples e, segundo me parecia,
de uma inocência quase cómica - fizeram-me rir. A minha maneira
de rir tem sido frequentemente comentada. Diverte as pessoas bem­
-humoradas. As outras ofendem-se.
- Não te rias - disse o meu interlocutor noturno . - Para com
isso. Não é um som normal. Aliás, de quem pensas que te estás a rir ?
Ouve, Citrine, perdeste esse dinheiro num j ogo de póquer. Podes argu­
mentar que foi um serão em família, ou que estavas bêbedo, mas isso é
uma desculpa de mau pagador. Aceitei o teu cheque e não te vou ofere­
cer a face para que a esbofeteies.
- Sabes por que razão cancelei o pagamento. Tu e o teu parceiro
estavam a fazer batota .
- Viste ?
- O dono da casa viu. George Swiebel j ura que vos viu a mostrar
as cartas um ao outro.
- E porque não reclamou logo, esse imbecil ? Podia mandar-nos
sair do j ogo.
- Pode ter ficado com medo de vos confrontar.
- O quê, ter medo, aquele diabo saudável, de cara com tão boas
cores ? Por amor de Deus, parece uma maçã, a caminhar nove quiló­
metros todos os dias, mais as vitaminas que vi no armário dos remé­
dios. Havia sete, oito pessoas no j ogo . Podiam ter-nos corrido a mur­
ro. O teu amigo é um cobardolas.
- Bem - disse eu -, não foi uma noite agradável. Eu estava bas­
tante tocado, embora tu não acredites. Ninguém estava a agir racional­
mente . Toda a gente estava meio descontrolada. Sejamos razoáveis.
- O quê ? Tenho de receber a informação do meu banco a respei­
to do cancelamento do teu cheque, que foi como um coice, e ainda
queres que sej a razoável ? Achas que sou idiota ? Foi uma estupidez da
tua parte começares a falar de educação e faculdades. Reparei no teu
olhar quando disse o nome da vacaria onde me formei.
- O que é que isto tem que ver com faculdades ?
Ü LEGADO DE H U M B O LDT 47

- Não percebes o que me estás a fazer? Escreveste aquelas coisas


todas. Estás no Quem É Quem. Mas és tão burro que não compreen­
des nada.
- É-me difícil compreender o que quer que sej a às duas da ma­
nhã. Não nos podíamos encontrar de dia, quando as minhas ideias es­
tiverem mais claras?
- Nem mais uma palavra. A conversa acabou.
Contudo, disse isto muitas vezes. Rinaldo Canta bile deve ter-me
feito umas dez chamadas deste género. O fa lecido Von Humboldt
Fleisher também havia utilizado as qualidades dramáticas da noite para
intimidar e aborrecer as pessoas.
George Swiebel tinha-me dito para cancelar o cheque. A nossa
amizade vinha dos tempos do liceu e, para mim, esses amigos perten­
ciam a uma categoria sagrada. Fora muitas vezes aconselhado a ter
cuidado no que dizia respeito à tremenda debilidade ou dependência
quanto a antigas relações. Outrora ator, George abandonara o palco
há dezenas de anos para se tornar empresário. Era um homem de
compleição sólida e de tez rosada . Não havia nada de dócil nas suas
maneiras, no modo como se vestia, no seu estilo pessoal. Durante anos
fora o meu a utonomeado especialista em assuntos do submundo.
Mantinha-me informado a respeito de criminosos, prostitutas, corri­
das, chantagem aos comerciantes, drogas, políticos e manobras da
Mafia. Tendo trabalhado em rádio, televisão e imprensa escrita, pos­
suía uma rede incrivelmente vasta de contactos, « do pútrido ao pu­
ro >> , conforme dizia. E eu ocupava um lugar proeminente entre os pu­
r o s . Não é que pretendesse i s s o . D igo-o apenas para explicar
a consideração que George tinha por mim.
- Perdeste esse dinheiro à mesa da minha cozinha, por isso é bom
que me ouças - disse ele. - Esses sacanas estavam a fazer batota.
- Então devias ter-me avisado na altura. Assim, o Cantabile tem
razão.
- Não tem nada, e é um zé-ninguém. Se te devesse três dólares,
terias de persegui-lo para que tos pagasse. Além disso, estava com
uma dose das fortes.
- Não reparei.
- Não reparaste em nada . Tentei alertar-te uma dúzia de vezes.
- Não dei conta. Não me lembro . . .
SAUL BELLOW

- O Cantabile esteve a levar-te à certa o tempo todo. Esteve sem­


pre a distrair-te. Fumava marij uana. Falava sobre arte, cultura, psicolo­
gia e o Clube do Livro do Mês, gabando-se de ter uma mulher culta.
Tu apostavas em todas as mãos que te calhavam. E discutias aberta­
mente todos os assuntos que te tinha dito para não mencionares.
- George, estes telefonemas noturnos estão a deixar-me exausto.
Vou pagar. Porque não ? Pago a toda a gente. Tenho de me livrar deste
maluco.
- Não pagues ! - Ator consumado, George aprendera a engros­
sar a voz teatralmente, a fazer brilhar os olhos, a parecer surpreso e a
conseguir efeitos de surpresa. Gritou: - Charlie, escuta-me !
- Mas estou a lidar com um gângster.
- Já não existe nenhum Cantabile nos negócios escuros. Foram
todos expulsos há vários anos. Contei-te . . .
- Então consegue fazer uma excelente imitação. À s duas d a ma­
nhã. Estou convencido de que se trata de um verdadeiro bandido.
- Deve ter visto O Padrinho ou coisa assim e deixou crescer um
bigode à italiana. Não passa de um rapaz gabarola e confundido, um
marginal. Não os devia ter deixado entrar na minha casa, nem a ele
nem ao primo. E agora esquece. Estavam a brincar aos gângsteres e a
fazer batota . Tentei impedir que lhe passasses o cheque. Depois man­
dei-te cancelar o pagamento. Não vou permitir que cedas. Seja como
for, o assunto, acredita em mim, está acabado.
Deixei-me convencer. Não podia desafiar a opinião de George .
Agora, Canta bile tinha escavacado o meu carro com tudo que tinha
à mão. Fiquei sem pinga de sangue quando vi o que fizera . Recuei até
me encostar ao edifício. Saíra uma noite para me divertir com gente
vulgar e caíra numa loucura infernal.
Gente vulgar não era uma expressão minha . O que estava a ouvir
era efetivamente a voz da minha ex-mulher. Era Denise quem usava
termos como << de baixa extração >> e << gente vulgar>> . O destino do meu
po bre Mercedes ter- lhe-ia dado uma enorme satisfação. Estávamos
praticamente em guerra, e ela possuía uma personalidade intensamen­
te marcia l . Denise odiava minha namorada, Renata . Identificava-a,
acertadamente, com o carro. E a bominava George Swiebel. George,
todavia, tinha de Denise uma ideia bastante complexa. Dizia que ela
possuía uma grande beleza que não era inteiramente humana. É certo
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 49

que o s enormes olhos radiais cor d e ametista d e Denise, combinados


com a testa estreita e os dentes afiados e sibilinos, apoiavam esta in­
terpretação. É refinada mas terrivelmente feroz. O realista George não
é totalmente isento de mitos, em especial no que diz respeito a mulhe­
res. É adepto de Jung e proclamava essa filiação com grosseria. É do­
tado de sentimentos elevados que o deixavam frustrado porque bu­
liam com o seu coração, fazendo-o reagir com violência. Em qualquer
caso, Denise teria rido de pura felicidade ao ver o carro destruído.
E eu ? Poderia pensar-se que, pelo facto de estar divorciado, havia es­
capado ao conj ugal << Eu bem te avisei » . Mas não, ali estava eu, con­
vocando-o por minha conta e risco.
Porque Denise não se cansava de falar comigo sobre mim. D izia
cmsas como:
- Não consigo acreditar que sej as assim. O homem que teve to­
das essas ideias maravilhosas, o autor de todos esses livros, respeitado
por académicos e intelectuais do mundo inteiro. Às vezes tenho de me
perguntar: << É este o meu marido ? O homem que eu conheço ? >> Fizeste
conferências nas grandes universidades da costa leste, recebeste subsí­
dios, bolsas de estudo e honrarias. De Gaulle concedeu-te a Legião de
Honra e Kennedy convidou-nos para a Casa Branca. Tiveste um êxito
teatral na Broadway. E agora que raio é que pensas que estás a fazer ?
Chicago ! Perdes tempo com esses teus antigos colegas de Chicago,
com anormais. É uma forma de suicídio mental, um desej o de morte.
Já n ã o te relacionas com pessoas verdadeiramente interessantes,
arquitetos, psiquiatras ou professores universitários. Tentei organizar
a vida à tua medida quando insististe em regressar. Não pensei em
mim. Não quiseste Londres, Paris ou Nova Iorque, tinhas de voltar
para isto . . . este lugar ascoroso, feio, vulgar e perigoso. Porque, no
fundo, ainda és um miúdo do bairro de lata . O teu coração pertence
às sarjetas da zona oeste. Consumi-me a tentar ser uma boa anfitriã . . .
Havia uma grande dose d e verdade e m tudo isto . A minha velha
mãe teria dito as seguintes palavras a Denise: << Edel, gebildet, gelas­
sem> - porque Denise era uma pessoa da alta sociedade. Crescera em
Highland Park, estudara na Universidade de Vassar. O pai, j uiz fede­
ral, também viera das sarj etas da zona oeste, em Chicago . O pai dele
tinha sido capitão numa esquadra, sob as ordens de Morris Eller, nos
S A U L B E L LOW

dias tempestuosos de Big Bill Thompson. A mãe de Denise casara com


o j uiz quando ele não passava de um miúdo, o mero filho de um polí­
tico corrupto, e endireitou-o, curando-o da sua vulgaridade. Denise
havia acalentado a esperança de fazer o mesmo comigo. Contudo, por
mais estranho que pareça a herança paternal era nela mais forte do
que a maternal. Nos dias em que se mostrava ríspida e dura, era o ve­
lho capitão de esquadra e político corrupto, o avô, que transparecia
na sua voz tensa e aguda . Talvez fosse por causa destes antecedentes
que detestava George tão visceralmente.
- Não o tragas cá a casa - dizia. - Não suporto ver o traseiro
dele no meu sofá, os pés dele no tapete. - E acrescentava: - És como
esses puros-sangues de corrida que precisam de uma cabra no estábulo
para acalmar os nervos. George Swiebel é o teu bode.
- É um bom amigo meu, um velho amigo.
- A fraqueza que revelas pelos teus antigos colegas é incrível . So-
fres de nostalgie de la boue 1 . Costumas ir com ele às putas?
Tentei dar-lhe uma resposta condigna. Mas a verdade é que queria
que o conflito azedasse e decidi provocar Denise. Convidei uma vez
George a j antar em nossa casa na noite de folga da empregada. As
noites de folga da empregada angustiavam Denise. As tarefas domés­
ticas eram-lhe insuportáveis. Detestava ser obrigada a cozinhar. Que­
ria ir a um restaurante, mas respondi que não me apetecia j antar fora.
De modo que, às seis da tarde, misturou apressadamente carne picada
e tomate, feij ão e piripíri em pó. Eu disse a George:
- Fica e come o nosso chi/i con carne esta noite . Podemos abrir
umas garrafas de cervej a .
Denise fez-me sinal para i r à cozinha.
- Não vou passar por isto - disse.
Estava belicosa e estridente. A voz dela era clara, vibrante, minu­
ciosamente articulada - os crescentes harpej as da histeria.
- Oh, calma, Denise, ainda vais fazer com que te ouça . - Baixei
a voz e disse-lhe: - Vá lá, deixa o George provar o teu chi/i con carne.
- Não dá para todos. É só um quarto de quilo de hambúrguer.
Mas a questão não é essa. A questão é que eu não quero servi-lo.

1 Em francês no original: « Nostalgia da lama » , i . e., atração pela baixeza, pelo


que é degradante. (N. do T.)
Ü LEGADO DE H U M B O L DT

Ri-me. Em parte por vergonha . Habitualmente sou um barítono


baixo, quase baixo profundo, mas sob o efeito de certos tipos de pro­
vocação a minha voz perde-se em registos mais agudos, quase alcan­
çando a frequência do guincho de morcego.
- Q ue guincharia - escarneceu D e n i s e . - Mostras o que és
quando te ris assim. Nasceste numa carvoaria e foste criado numa
gaiola de papagaios.
Os grandes olhos cor de violeta eram implacáveis.
- Muito bem - respondi.
Levei George ao Pump Room, onde comemos shashlik flambé,
servidos por mouros de turbante.
- Não quero intrometer-me no teu casamento, mas notei que dei­
xaste de respirar - comentou George.
George acredita que pode falar em nome da natureza . A natureza,
o instinto, o coração, guiam-no. É biocêntrico . Contemplá-lo enquan­
to fricciona com azeite os músculos vigorosos, o tronco romano à Ben
Hur e os braços é uma lição de respeito pelo organismo. Para termi­
nar, bebe um bom gole do gargalo da garrafa. O azeite é o Sol e o an­
tigo Mediterrâneo . Não há nada melhor para os intestinos, o cabelo,
a pele. George tem o seu corpo em alta conta . É um sacerdote do inte­
rior das narinas, dos globos oculares, dos pés.
- Essa mulher provoca-te falta de ar. Parece que estás a ficar asfi­
xiado. Os teus tecidos não recebem oxigénio suficiente. Ainda vais ter
cancro por causa dela.
- Oh ! - exclamei. - Pode muito bem dar-se o caso de pensar
que está a propiciar-me as bênçãos de um casamento americano. Crê­
-se que os americanos genuínos devem sofrer às mãos das mulheres.
E a s mulheres à s mãos d o s m a r i d o s . Como a senhora e o senhor
Abraham Lincoln. É a clássica mágoa norte-americana, e um filho de
imigrantes como eu deveria estar grato . Para um j udeu é um avanço
na escala social.
Sim, Denise teria ficado radia nte ao tomar conhecimento desta
atrocidade. Tinha visto Renata a conduzir o Mercedes prateado a toda
a velocidade.
- E tu, no assento ao lado, a ficares tão careca como uma bola de
bilhar, ainda que penteies o cabelo de lado para cobrir a cabeça, e de
dentes arreganhados. Essa gaj a gorda deve dar-te motivos para rir. -
Do insulto Denise avançava para a profecia: - A tua vida intelectual
está a secar. Estás a sacrificá-la às tuas necessidades eróticas ( se é esse
S A U L B E L LOW

o termo exato para descrever o que se passa ) . Depois do sexo, falam


de quê ? Bom, escreveste uns livros, escreveste uma peça de teatro de
muito êxito, mas que parece ter sido meio plagiada. Juntaste-te a gen­
te como Von Humboldt Fleisher. Meteu-se-te na cabeça que eras uma
espécie de artista. Mas nós sabemos que não, não é verdade ? O que tu
realmente desej as é livrar-te de todos, desligares -te e seguir as tuas
próprias convicções. Só tu e o teu coração incompreendido, Charlie.
És incapaz de manter uma relação séria, por isso te livraste de mim
e das crianças. Agora arranj aste essa vagabunda gorda que não usa
sutiã e mostra as tetas a toda a gente. Deixaste-te rodear por j udeus
ignorantes e desordeiros . O teu orgulho e o teu pretensiosismo fize­
ram-te perder a cabeça . Não há ninguém suficientemente bom para
ti . . . Eu podia ter-te ajudado. Agora j á é tarde !
Não ia discutir com Denise. Sentia uma certa pena dela. D izia
que eu estava a viver mal. Dava-lhe razão. Achava que eu não estava
em plena posse das minhas faculdades mentais e seria uma completa
l o u c u r a negar i s s o . O m e u ú l t i m o l i v r o , Some A m ericans, 1 c o m
o subtítulo The Sense o f Being i n the USA, 2 acabou rapidamente nos
saldos. Os editores tinham-me implorado que não o publicasse. Pro­
puseram-me esquecer uma dívida de vinte mil dólares se o deixasse
na gaveta . Mas agora estava a escrever, perversamente, uma segunda
parte . A minha vida era caótica .
Contudo, era fiel a alguma coisa . Tinha uma ideia.
- Por que raio é que me trouxeste para Chicago ? - perguntou
Denise. - Às vezes penso que só fizeste isso porque os teus mortos
estão cá enterrados. Foi essa a razão ? A terra onde os meus pais j u­
deus morreram ? E arrastaste-me para o teu cemitério para poderes
participar no hino ? Para quê ? Tudo porque tens a ilusão de que és
uma pessoa maravilhosa e nobre. Não passas de uma treta !
Estas inj úrias faziam melhor a Denise do que vitaminas. Quanto
a mim, acho que certos tipos de incompreensão contêm várias suges­
tões úteis. Mas a minha resposta final a Denise, embora silenciosa, era
sempre a mesma. A despeito da sua inteligência, ela não tinha servido
à minha ideia. Desse ponto de vista, Renata era melhor mulher - me­
lhor para mim.

1 Alguns Americanos. (N. do T.)

2 O Sentido da Existência nos E UA . (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 53

Renata proibira-me de guiar um Dart. Tentei negociar com o ven­


dedor um Mercedes 250-C em segunda mão, mas no concessionário,
Renata - excitada, rubicunda, cheirosa, grande - pousara a mão no
capô prateado e dissera :
- Este, o coupé.
O toque da palma da mão dela era sensual. O que estava a fazer
ao carro senti-o em mim.

Agora, porém, tinha de fazer alguma coisa em relação aos estra­


gos. Dirigi-me para o átrio à procura do porteiro, Roland - o esque­
lético, negro, idoso e mal barbeado Roland. Porque Roland Stiles,
a menos que estivesse enganado ( o que era muito provável) - estava
do meu lado. Nas minhas fantasias de morte solitária, era Roland que
via no meu quarto a encher um saco de viagem com algumas coisas
antes de chamar a polícia. Fazia isso com autorização minha. Precisa­
va sobretudo da minha máquina de barbear elétrica. A cara dele, ab­
solutamente preta, estava salpicada de bexigas e espinhas. Fazer a bar­
ba com uma lâmina devia ser-lhe quase impossível .
Roland, com o uniforme azul elétrico, estava perturbado. Tinha
visto o carro destroçado quando regressara ao trabalho de manhã,
mas disse:
- Não me senti com coragem para o informar, senhor Citrine. ­
Outros moradores a caminho do trabalho também tinham visto . Sa­
biam, é claro, a quem pertencia. - É uma verdadeira sacanice - conti­
nuou Roland com ar muito sério, inclinando a cara magra e franzindo
a boca e o bigode.
Muito vivo, estava sempre a brincar comigo a propósito das belas
mulheres que me visitavam.
- Vêm de Volkswagen e Cadillac, bicicleta e moto, táxis e a pé.
Perguntam a que horas saiu e quando volta, e deixam bilhetes. Vêm
e vêm e voltam a vir. O senhor é um mulherengo. Aposto que muitos
maridos gostariam de o conhecer.
Mas a brincadeira acabara . Roland não tinha sido negro durante
sessenta anos em vão. Conhecia bem o inferno dos imbecis. Eu tinha
perdido a imunidade que me tornava tão divertido.
- A coisa é séria - disse ele.
54 S A U L B E L LOW

Murmurou qualquer coisa sobre << Miss Universo >> . Chamava Miss
Universo a Renata. Às vezes ela pagava-lhe para que entretivesse o fi­
lho dela no átrio do edifício. A criança brincava com embrulhos en­
quanto a mãe estava deitada na minha cama . Não era coisa que me
agradasse mas não se pode ser um amante ridículo sem arcar com to­
das as consequências.
- E agora ?
Roland fez um gesto com as mãos abertas e, encolhendo os om­
bros, e sugeriu:
- Chame a polícia.
Sim, era preciso apresentar queixa por escrito, nem que fosse ape­
nas por causa do seguro. A companhia de seguros consideraria o caso
bastante estranho.
- Bom, mande parar o carro-patrulha quando passar na rua . Es­
ses inúteis têm de ver esta desgraça - disse eu. - E depois diga-lhes
que subam.
Dei-lhe um dólar pelo incómodo. Era a minha gorjeta habitual.
E agora o fluxo de malevolência tinha de ser invertido.
Ainda estava a abrir a porta do meu apartamento quando ouvi to-
car o telefone. Era Cantabile.
- Que tal, espertalhão.
- Louco ! - disse. - Vandalismo ! - Destruir um carro . . .
- Viste o carro . . . Viste o que m e obrigaste a fazer ! - gritou.
O tom de voz era forçado, mas mesmo assim era assustador.
- Como ? Estás a deitar as culpas para cima de mim ?
- Avisei-te.
- Fui eu que te fiz amolgar aquele lindíssimo automóvel ?
- Nem mais. Sim, tu . Sem dúvida. Pensas que não tenho senti-
mentos ? Não imaginas o que sinto perante um carro desses. És estúpi­
do. A culpa é toda tua . - Tentei responder mas ele abafou-me a voz
aos gritos : - O b rigaste-me a fazer isso ! O brigaste-me ! Pois bem,
a noite passada foi só o começo.
- O que é que isso quer dizer ?
- Se não me pagares, ficas logo a saber.
- Que género de ameaça é essa ? Isto já está a ultrapassar as mar-
cas. Referes-te às minhas filhas ?
- Não vou recorrer uma agência de cobranças. Não sabes no que
te meteste. Nem quem eu sou. Acorda !
O L E G A D O DE H u M B O LDT 55

Eu dizia frequentemente << Acorda » a mim próprio e muitas pes­


soas também me haviam gritado << Acorda, acorda ! » . Como se tivesse
uma dúzia de olhos e os mantivesse teimosamente fechados. << Tens
olhos e não vês. » Isto, é claro, era uma verdade incontestável.
Cantabile ainda estava a falar. Ouvi-o dizer:
- Ora, vai perguntar ao George Swiebel o que deves fazer . Ele
aconselhou-te. Foi ele, afinal, quem deu cabo do teu carro.
- Vamos acabar com isto. Quero chegar a um acordo.
- Nada de acordos. Paga . Anula as instruções que deste ao ban-
co. É o valor integral. E quero receber em dinheiro. Nada de ordens
de pagamento, nada de cheques à ordem, acaba de vez com esta por­
ra. Em dinheiro. Ligo-te mais tarde para marcar um encontro. Quero
ver-te.
- Quando ?
- Não tens de te preocupar com isso. Fica perto do telefone até
eu te ligar.
Logo a seguir ouvi o interminável e universal ruído eletrónico do
telefone a desligar. Fiquei desesperado. Tinha de contar o que aconte­
cera. Precisava de me aconselhar.
Um sinal evidente de angústi a : números de telefone giravam na
minha cabeça - prefixos de zona, algarismos. Precisava de telefonar
a alguém. A primeira pessoa a quem telefonei foi George Swiebel,
é claro; tinha de lhe contar o que acontecera . E avisá-lo. Cantabile
também podia atacá-lo. Mas George havia saído com uma equipa de
trabalho. Tinha ido fazer uma base de betão algures, disse-me Sharon,
a secretária dele. George, antes de se tornar construtor, fora, como já
referi, atar. Começara a trabalhar no Federal Theater. Mais tarde foi
locutor de rádio. Depois trabalhou em televisão e em Hollywood. En­
tre homens de negócios gabava-se da sua experiência na indústria do
espetáculo. Conhecia Ibsen e Brecht, e ia com frequência de avião
a Minneapolis para ver peças no Guthrie Theater . Na zona sul de
Chicago associavam-no a boémia e artes, a criatividade, a imaginação.
E era um homem cheio de vida, generoso, aberto. Um bom tipo. Cria­
va laços fortes com as outras pessoas. Basta ver a secretária dele, a pe­
quena Sharon. Era uma rapariga da província, baixa, com uma cara
esquisita, que se parecia com a Mammy Y okum 1 da banda desenhada.

1 Personagem de uma célebre banda desenhada norte-americana da autoria de


AI Capp. (N. do T.)
SAU L B E L LOW

Mas George era para ela como um irmão, um médico, um confessor:


da sua tri b o . Digamos que ela tinha revistado toda a zona sul de
Chicago e só encontrara um homem: George Swiebel. Quando falei
com ela tive a suficiente presença de espírito para disfarçar, porque
se lhe contasse até que ponto as coisas estavam feias, Sharon não da­
ria o recado a George . O dia normal de George, segundo ele e os
seus viam a coisa, era uma sucessão de crises . A tarefa de Sharon era
protegê-lo.
- Diga ao George que me telefone - pedi-lhe.
Desliguei a pensar na mentalidade de crise dos Estados Unidos,
herança dos velhos tempos da fronteira, etc. Pensava nessas coisas por
força do hábito. O facto de alguém ter a alma desfeita não quer dizer
que deixe de analisar estes fenómenos.
Reprimia o meu verdadeiro desej o, que era gritar. Reconhecia que
tinha de me recompor sem aj uda de ninguém. Não telefonei a Renata.
Renata não era a pessoa indicada para dar consolo ao telefone. É pre­
ciso recebê-lo pessoalmente.
Agora só me restava esperar pela chamada de Cantabile. Bem como
pela polícia. Tinha de explicar a Murra, o contabilista, que não pode­
ria encontrar-me com ele. Cobraria na mesma, como os psiquiatras
e outros especialistas. Nessa tarde era para levar as minhas filhas Lish
e Mary à aula de piano. Porque, de acordo com aquilo que a Gul­
bransen Piano Co. costumava anunciar nos muros de tijolo de Chica­
go, << As crianças ricas tornam-se pobres sem uma educação musical >> .
E as minhas filhas tinham um pai rico. Seria um desastre se cresces­
sem sem serem capazes de tocar Für Elise1 e Frohlicher Landmann2•
Tinha de recuperar a calma. Tentando obter estabilidade emocio­
nal, fiz o único exercício de ioga que sei. Tirei os trocos e as chaves
dos bolsos, descalcei os sapatos coloquei-me em posição, estiquei os
dedos dos pés e, com um impulso, fiquei de cabeça para baixo. A má­
quina mais maravilhosa - o meu Mercedes 280 prateado -, a minha
pedra precio sa, a minha oferenda de amor, estava estropiada rua.
Nem dois mil dólares de trabalho braçal chegariam para restaurar
a suavidade original da sua pele metálica . Os faróis estavam partidos

1 Peça musical de Beethoven . (N. do T.)

2 Peça musical de Robert Schumann. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 57

e cegos. Não tive coragem de experimentar as portas, que podiam es­


tar encravadas. Procurei concentrar-me em sentimentos de ódio e fú­
ria - vingança, vingança ! Mas isso não me levava a parte nenhuma.
Só conseguia ver o funcionário alemão do stand, com a comprida
bata branca à dentista, explicando-me que as peças tinham de ser im­
portadas. E eu, amparando firmemente a cabeça quase calva com as
mãos, como se estivesse desesperado, com os dedos entrelaçados, sus­
tentava no ar as pernas trémulas e doloridas, enquanto tufos de cabe­
lo pendiam desgrenhados e o tapete persa verde ondulava por baixo
de mim. Tinha o coração ferido . Estava desolado. A beleza do tapete
era um dos meus consolos. Tornara-me muito apegado a tapetes e este
era uma verdadeira obra de arte . O verde era macio e tinha matizes
de grande subtileza. O vermelho era uma dessas surpresas que pare­
cem brotar diretamente do coração. Stribling, o meu perito em tapetes
do centro da cidade, disse-me que podia vendê-lo por muito mais di­
nheiro do que aquele que pagara por ele. Aliás, tudo aquilo que não
fosse produzido em série estava a ser altamente valorizado. Stribling
era um homem obeso, uma excelente pessoa, que tinha cavalos mas
estava demasiado pesado para os poder montar. Poucas pessoas, ao
que parecia, conseguiam fazer coisas que valessem a pena nos dias
que corriam. Vej a-se o meu caso. Não podia ser sério, envolvendo-me
daquela maneira naquela história grotesca com um Mercedes e margi­
nais. Enquanto estava de cabeça para baixo vi com clareza (como não
poderia deixar de ver ! ) que por detrás daquela situação ridícula havia
igualmente uma espécie de impulso especulativo, pois uma das teorias
mais em voga no mundo moderno sustenta que, para alcançar realiza­
ção pessoal, é necessário aceitar a deformidade e o absurdo do nosso
ser mais profundo (e sabemos que existe ! ) . Ser-se corrigido pela humi­
lhante verdade que o Inconsciente contém. Não acreditava nessa teo­
ria, mas isso não queria dizer que não me afetasse. Possuía um talento
especial para o absurdo, e não se pode desperdiçar nenhum talento .
Estava a pensar que nunca conseguiria um cêntimo da companhia
de seguros com uma reclamação tão estranha . E tinha aceitado todos
os tipos de cobertura que me propuseram, mas nalguma parte do con­
trato, em letra minúscula, certamente estariam as habituais cláusulas
manhosas. Nos tempos de Nixon as grandes empresas tinham-se em­
briagado de imunidade. As velhas e boas virtudes burguesas desapare­
ceram para sempre, sem sequer se manterem como mera fachada.
S A U L B E L LOW

Foi George quem me ensinou esta posição de cabeça para baixo.


Alertou-me para o facto de estar a desleixar-me com o meu corpo. Já
há vários anos que me chamava a atenção para as primeiras rugas no
pescoço, para o meu a speto pálido, para a minha fa lta de fôlego .
Quando se atinge a meia-idade - dizia -, é preciso tomar uma deci­
são antes que a parede abdominal fique flácida, as coxas emagreçam
e enfraqueçam, o peito se torne efeminado. Havia uma maneira de en­
velhecer fisicamente digna. George cuidava disso com zelo especial.
Imediatamente após a operação à bexiga, saltou da cama e fez cin­
quenta flexões; era o seu próprio naturopata . O resultado desse esfor­
ço foi uma peritonite que durante dois dias nos levou a pensar que es­
taria às portas da morte . Mas os problemas de saúde parecem estimu­
lá-lo e tem os seus próprios remédios para tudo. Recentemente con­
tou-me:
- Anteontem acordei com um inchaço debaixo do braço.
- Foste ao médico ?
- Não. Atei-o com fio dental. Apertei bem, com bastante força . . .
- O que é que aconteceu ?
- O ntem, quando o examinei, tinha inchado tanto que parecia
um ovo . Mas nem assim chamei médico. Que se lixem ! Peguei em
mais fio dental e apertei-o ainda mais. E agora está curado, o inchaço
desapareceu . Queres ver ?
Foi quando lhe falei da artrite que tinha no pescoço que me reco­
mendou que fizesse o pino. Embora lhe tivesse mostrado as palmas
das mãos esticadas e risse às gargalhadas (como uma das caricaturas
de sapo em Visión Burlesca de Goya - a criatura com cadeados e fer­
rolhos), segui o conselho dele. Pratiquei e acabei por aprender a fazer
o pino, e curei as dores no pescoço. Mais tarde, quando tive uma re­
tenção de urina, pedi a George que me desse um remédio:
- É a próstata . Começas, paras, depois pinga outra vez, arde um
bocado, sentes-te humilhado ?
- Tal e qual.
- Não te preocupes. Quando estiveres a fazer o pino, aperta as ná-
degas. Mete-as para dentro como se estivesses a chupar as bochechas.
- Por que raio tenho de fazer isso quando estou de cabeça para
baixo ? Já me estou a sentir como o velho Father William ' .

1 Personagem d e u m poema integrado e m Alice no País das Maravilhas que,


apesar da idade, ainda faz o pino. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 59

Mas ele mostrou-se inflexível e disse:


- De cabeça para baixo.
Mais uma vez o método funcionou . A retenção de urina desapa­
receu. As outras pessoas podem ver George como um empreiteiro de
cara vermelha, forte e bem-humorado; eu vej o uma pessoa hermética;
eu vej o uma figura do baralho Tarot. Agora estava de ca beça para
baixo e invocava-o. Quando estou desesperado, é sempre a primeira
pessoa a quem telefono. Cheguei a uma idade em que é possível ver os
impulsos neuróticos a apoderarem-se de nós. Pouco posso fazer quan­
do a extrema necessidade de aj uda se apodera de mim. Estou na bor­
da de um charco psíquico e sei que, se lançarem migalhas à água,
a minha carpa começará a nadar. Como o mundo exterior, temos os
nossos próprios fenómenos interiores. Houve uma época em que acre­
ditei que a atitude mais civilizada era construir-lhes um parque e um
jardim, para conservar esses traços, essas peculiaridades, como se fos­
sem pássaros, peixes e flores.
Contudo, o facto de só poder contar comigo era horrível. Esperar
que as campainhas soem é um tormento. A tensão despedaça o cora­
ção. Mas a verdade é que fazer o pino aliviou-me. Voltei a respirar.
Ainda que, de cabeça para baixo, visse dois grandes círculos muito
brilhantes à minha frente . Apareciam-me ocasionalmente durante os
exercícios. Estando de cabeça para baixo, é evidente que se tem a im­
pressão de estar a sofrer uma hemorragia cerebral. Um médico que se
opõe ao pino disse-me que uma galinha colocada de patas para o ar
morreria em sete ou oito minutos. Mas isso seria obviamente causado
pelo pânico. A ave fica cheia de medo. Acho que os círculos brilhan­
tes são causados pela pressão sobre a córnea. O peso do corpo, fazen­
do pressão so bre o crânio, acaba por a baular a córnea produzindo
a ilusão de ver dois grandes círculos diáfanos. É como ver a eternida­
de. Coisa para a qual, acreditem, estava preparado neste dia.
Atrás de mim vislum brava a estante e quando aliviei a cabeça
apoiando mais peso nos antebraços, os círculos transparentes desapa­
receram levando com eles as sombras da hemorragia fatal. Em com­
pensação, vi fil a s e mais fil a s dos meus próprios livro s . Tinha-os
empilhado no fundo dos armários, mas Renata pusera-os à vista para
os exibir. Prefiro, no entanto, quando estou de ca beça para baixo,
ver o céu e as nuvens. É divertido observar as nuvens de pernas para
6o S A U L B E L LOW

o ar. Mas agora estava a olhar para os títulos que me tinham propor­
cionado dinheiro, fama, prémios: a minha peça, Von Trenck, em mui­
tas edições e línguas, e alguns exemplares do meu livro preferido,
o fracasso Some Americans: The Sense of Being in the USA. Enquanto
Von Trenck se manteve em cartaz chegou a render-me cerca de oito
mil dólares por semana. O Governo, que até então não manifestara
o menor interesse pela minha pessoa, reclamou imediatamente setenta
por cento em resultado do seu esforço criativo. Mas supunha-se que
isto não me afetaria . Entrega-se a César o que é de César. Pelo menos
sabia -se que era o que se devia fazer. O dinheiro pertencia a César.
E havia Radix malorum est cupiditas. 1 Também sabia tudo isso.
Sabia tudo o que devia saber, mas nada do que realmente precisa­
va de saber. Tinha desbaratado o dinheiro todo. Foi muito educativo,
é claro, e a educação tornou-se a grande e universal recompensa ame­
ricana. Chegou a substituir o castigo nas penitenciárias federais. To­
das as grandes prisões são hoje em dia um florescente seminário. Os
tigres da cólera cruzaram-se com os cavalos da instrução2, originando
um híbrido que nem no Apocalipse foi sonhado. Para não me alargar
muito sobre a questão, digamos que tinha perdido a maior parte do
dinheiro que Humboldt me atirava à cara ter acumulado. Logo que
apareceu, o dinheiro interpôs-se entre nós. Cobrou um cheque de vá­
rios milhares de dólares . Não contestei. Não queria recorrer à j ustiça.
Humboldt teria adorado envolver-se num processo j udicial. Estava
sempre disposto a litigar. Mas o cheque cobrado estava efetivamente
assinado por mim e ser-me-ia difícil explicar isso em tribunal. Aliás,
os tribunais aterrorizam-me. Detestava mortalmente j uízes, advoga­
dos, oficiais de j ustiça, estenógrafos, os bancos, as madeiras trabalha­
das, os tapetes e mesmo os copos de água. Além disso, encontrava-me
na América do Sul quando o cheque foi cobrado. Por essa altura, de­
pois de sair do Bellevue, Humboldt levava uma vida desenfreada em
Nova Iorque. Não havia ninguém que conseguisse contê-lo. Kathleen
tinha-se escondido. A velha e enlo uquecida mãe estava num asilo.

1 Segundo algumas traduções, A raiz d e todos o s males é o afã do dinheiro » , se­


«

gundo outras, mais genéricas, A avareza é a causa de todos os vícios>> (Timóteo, 6,


«

1 0 ) . A citação encontra-se também no Prólogo de << Pardoner's Tale >> de The Canter­
bury Tales ( Contos de Cantuária), de Geoffrey Chaucer, a que mais adiante o narra­
dor voltará. (N. do T.)
2 Citação de Proverbs of Hell, de William Blake. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 6r

O seu tio Waldemar era uma dessas pessoas que nunca deixam de ser
crianças, para quem não há quaisquer responsabilidades. Humboldt
saltava e corria por Nova Iorque como um louco. Talvez, de uma for­
ma vaga, estivesse consciente da diversão que proporcionava ao públi­
co mais culto que dizia mexericos sobre o seu colapso mental. Os es­
critores freneticamente desesperados, condenados e loucos, bem como
os pintores suicidas, têm um grande valor dramático e social. E nessa
época, Humboldt era um Fracasso irremediável, enquanto eu encarna­
va o Êxito acabado de atingir. O Êxito desconcertava-me. Enchia-me
de culpa e vergonha . A peça representada todas as noites no Belasco
não era a que eu havia escrito. Eu só tinha fornecido alguns elementos
a partir dos quais o encenador recortara, modelara, alinhavara e cose­
ra o seu próprio Von Trenck.
Melancolicamente, disse para os meus botões que, afinal de con­
tas, a Broadway faz fronteira com o bairro das loj as de roupa e funde­
-se com ele.

A polícia tem uma maneira muito própria de tocar à campainha .


Fazem-no como bestas. É claro que estamos a entrar numa etapa in­
teiramente nova da história do conhecimento humano. Os polícias re­
cebem aulas de psicologia e têm alguma sensibilidade para a comédia
da vida urbana. Os dois homens corpulentos que pisavam o meu ta­
pete persa traziam armas, cassetetes, algemas, balas, walkie-talkies.
Um caso tão insólito como aquele - um Mercedes destruído em ple­
na rua - divertia-os. Aquele par de gigantes negros tresandava a car­
ro-patrulha, trazia o cheiro de espaços fechados. A quinquilharia deles
tilintava; os quadris e a barriga eram volumosos e sobressaíam.
- Nunca vi um massacre assim de um automóvel - disse um de­
les. - O senhor deve ter problemas com gente realmente má.
Estava a sondar-me, largando insinuações. Na realidade, não que­
ria ouvir falar da Mafia, nem de prestamistas ou confrontos entre
bandos. Nem uma única palavra . Mas era demasiado evidente . Eu
não parecia um marginal mas podia sê-lo. Até polícias tinham visto
The Godfather, French Connection, The Valachi Papers 1 e outros

1 O Padrinho, de F . F . Coppola; Os Incorruptíveis contra a Droga, de William

Friedkin; O Caso Valachi, de Terence Young. (N. do T.)


5 A U L B E L LOW

filmes de tiroteios e perseguições. Mesmo eu, como qualquer natural


de Chicago, sentia-me atraído por estas histórias de quadrilhas e disse:
- Não sei de nada .
Fiz-me de tonto e acho que isso agradou ao polícia.
- Deixa o carro na rua ? - perguntou um deles; tinha músculos
salientes e uma cara enorme e flácida. - Sem garagem própria, eu só
compraria uma chocolateira . - Reparou então na minha medalha,
que Renata mandara emoldurar, e perguntou-me: - Esteve na Coreia ?
- Não - respondi -, foi-me dada pelo Governo francês. É a Le­
gião de Honra . Sou cavaleiro, chevalier. O embaixador francês entre­
gou-ma .
Nessa ocasião, Humboldt tinha-me mandado um dos seus bilhe­
tes-postais anónimos: « Covileiro! O teu nome é agora lesão!» 1
Ele andara, durante vários anos, inebriado com Finnegans Wake.
Lembrei-me das nossas inúmeras discussões a propósito das conceções
linguísticas de Joyce, da paixão do poeta por impregnar o idioma com
música e sentido, dos perigos que pendem so bre todas as obras da
imaginação, da beleza submergindo-se em a bismos de esquecimento
tão profundos como as fendas no gelo da Antártida, de Blake e da Vi­
são contra Locke e a tabula rasa. Assim que os polícias saíram, pus­
-me a recordar, com o coração cheio de mágoa, as admiráveis conver­
sas que Humboldt e eu costumávamos ter. Divina, incompreensível
Humanidade !
- O melhor é resolver a situação - aconselhou-me um dos polí­
cias, em voz baixa e amável.
O grande corp an z il negro moveu-se em direção ao e l e v a d o r .
O Covileiro inclinou-se educadamente. Os olhos doíam-me c o m u m
desamparado desej o d e socorro.

1 <<Shoveleer! Your name is now lesionf>> , no original. Jogo de palavras à manei­


ra de Finnegans Wake, de James Joyce, obra na qual são utilizados distintos recur­
sos: semelhanças fonéticas ( a do chevalier francês com o neologismo shoveleer; a de
légion e lesion ) ; palavras inventadas com diversos sentidos possíveis: Shoveleer re­
mete em princípio para shoveler (o que usa uma p á ) , mas também pode ser lido co­
mo u m composto de shovel (pá) e leer ( olhar ou sorriso impudico) e até como uma
piscadela de olho a Finnegans Wake, onde aparece o termo <<shovel/er>> (com o su­
posto significado de « intrometido » ou << caminhante enfastiado » ) ; e referências cul­
turais mais ou menos distorcidas: << Your name is now lesio n » remete para o bíblico
<<My name is legion >> ( Marcos, 5,1 0). Citrine voltará a utilizar a palavra <<Shoveleer>>
como arremedo irónico de chevalier. Covileiro surge assim da mistura de covil com
coveiro.
o L E G A D O DE H U M B O L DT

Sim, a medalha recordava-me Humboldt. Sim, quando Napoleão


dava aos intelectuais franceses faixas com estrelas e outras quinqui­
lharias, sabia o que estava a fazer. Levou uma batelada de eruditos
com ele até ao Egito . Largou-os lá. Descobriram a pedra de Roseta .
Desde o tempo de Richelieu, ou mesmo antes, os franceses têm sido
grandes em matéria de cultura . Mas nunca ninguém apanhou De
Gaulle com um desses ridículos berloques. Tinha demasiado amor­
-próprio. Os homens que compraram Manhattan aos índios também
não eram dados a missangas. Teria ficado feliz se pudesse ter dado
esta medalha de ouro a Humboldt. Os alemães quiseram condecorá­
-lo. Foi convidado a fazer conferências na Universidade Livre de Ber­
lim, em 1 952. Não quis ir. Tinha medo de ser sequestrado pela GPU
ou pelo NKVD . Colaborara durante bastante tempo com a Partisan
Review e, como antiestalinista proeminente, receava que os russos
tentassem raptá-lo para o matar.
- Aliás, se passasse um ano na Alemanha só teria uma coisa na
cabeça - asseverou em público (eu era o único ouvinte ) . - Durante
doze meses seria um judeu e nada mais. Não me posso dar ao luxo de
gastar um ano inteiro nisso.
Mas creio que há uma e x p l i c a ç ã o m e l h o r : ele estava a gozar
à grande fazendo-se passar por louco em Nova Iorque. Consultava psi­
quiatras e fazia cenas. Inventou um amante para Kathleen e depois ten­
tou assassiná-lo. Escavacou o Buick Roadmaster. Acusou-me de rou­
bar a sua personalidade para compor a personagem de Von Trenck.
Levantou da minha conta um cheque de seis mil setecentos e sessenta
e três dólares e cinquenta e oito cêntimos para comprar um 0/dsmobi­
le, entre outras coisas. Sej a como for, não queria ir à Alemanha, um
país onde ninguém seria capaz de acompanhar a sua conversa.
Ele soube mais tarde pelos j ornais que me tinham feito Covileiro.
Haviam-me dito que estava a viver com uma deslumbrante j ovem ne­
gra que estudava trompa na Juilliard School . Mas quando o vi pela
última vez na Rua Quarenta e Seis, percebi que estava demasiado gas­
to para viver com quem quer que fosse. Estava destruído - não pos­
so deixar de repetir isto . O fato cinzento que trazia estava-lhe dema­
siado grande e movia-se desajeitadamente dentro dele. A cara era de
um cinzento mortal, o cinzento de East River. A cabeça parecia inva­
dida por lagartas que lhe tivessem acampado nos cabelos. Não obs­
tante, devia tê-lo abordado para lhe falar. Devia ter-me aproximado
SAUL BELLOW

e não ficar escondido atrás dos carros estacionados. Mas como pode­
ria ter feito isso ? Tinha tomado o pequeno-almoço no Edwardian
Room do Plaza, servido por criados de libré. Depois andara de heli­
cóptero com Javits e Bobby Kennedy. Cirandava por Nova Iorque
como uma libelinha, usando um casaco debruado com um alegre ver­
de psicadélico . Vestido a rigor como Sugar Ray Robinson 1 • Só que
não tinha espírito combativo e quando vi que o meu velho e querido
amigo era um homem morto afastei-me. Fui para o aeroporto de La
Guardia e apanhei um 72 7 de regresso a Chicago. Sentei-me angustia­
do no avião e pus-me a beber uísque com gelo, dominado pelo terror,
por ideias de Destino e outras tretas humanistas - compaixão . Tinha
dobrado a esquina e desaparecido na Sexta Avenida. Tremiam-me as
pernas e rilhava os dentes. Disse de mim para mim: Adeus Humboldt.
Ver-nos-emos no outro mundo. E dois meses depois, no Hotel Ilscom­
be, entretanto demolido, saiu do quarto às três da noite com a lata de
lixo e morreu no corredor.
Num beberete no Village, na década de 40, ouvi uma bela rapari­
ga dizer a Humboldt:
- Sabes o que é que tu pareces ? Pareces uma personagem saída de
uma pintura.
Não era estranho que mulheres que sonhavam com o amor imagi­
nassem Humboldt, com vinte anos, a sair de uma obra-prima renas­
centista ou impressionista. Mas o retrato estampado na coluna necro­
lógica do Times era assustador. Abri o j ornal numa manhã e lá estava
Humboldt, arruinado, a cinzento e preto, uma calamitosa cara de j or­
nal que olhava para mim do território da morte. Nesse dia também
estava a voar de Nova Iorque para Chicago - a adej ar de um lado
para o outro, nem sempre sabendo porquê. Fui à retrete e tranquei­
-me lá dentro . As pessoas batiam à porta, mas eu estava a chorar
e não saí.

A verdade é que Cantabile não me fez esperar muito tempo. Tele­


fonou-me pouco antes do meio-dia. Talvez estivesse a ficar com fome.
Lembrei-me de que não sei quem em Paris, no final do século X I X ,

1 Célebre pugilista norte-americano que gostava de se vestir com elegância exa­

gerada. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O L DT

costumava ver Verlaine, bêbedo e balofo, a bater violentamente com


a bengala no passeio quando ia almoçar; e pouco depois via o grande
matemático Poincaré, impecavelmente vestido e seguindo a sua desco­
munal testa, a descrever curvas com os dedos, também a caminho do
almoço. A hora do almoço é a hora do almoço, tanto faz que se sej a
poeta, matemático ou gângster. Cantabile disse:
- Muito bem, cretino de merda, encontramo-nos a seguir ao almo­
ço. Traz a massa. Mais nada. Não dês mais nenhum passo em falso.
- Não saberia o que fazer nem como - retorqui.
- Isso é verdade, a não ser que andes a tramar alguma coisa com
o George Swiebel. Vem sozinho.
- Claro. Nunca me ocorreu . . .
- Bem, estás avisado, de modo que o melhor é que não te ocorra
nada. Sozinho, e traz notas novas. Vai ao banco e saca dinheiro lim­
po. Nove notas de cinquenta . Novas. Não quero ver nódoas de gor­
dura nesses dólares. E dá-te por feliz por não te fazer engolir a merda
do teu cheque.
Que fascista ! Mas talvez estivesse apenas a animar-se ou a arengar
a si próprio, para manter um certo nível de selvaj aria. Por agora, con­
tudo, o meu único obj etivo era livrar-me dele mostrando submissão
e concordância.
- Como queiras - respondi. - Onde é que devo levar o dinheiro ?
- Aos Banhos Russos, da Rua Division.
- Essa espelunca ? Por amor de Deus !
- Apresenta-te à uma e quarenta e cinco e espera por mim à por-
ta . Sozinho !
Respondi :
- Muito bem.
Mas ele não se incomodou a esperar pela minha concordânci a .
Ouvi d e novo o sinal da rede telefónica . Comparei este zunido inter­
minável com o nível de angústia da alma que se afasta.
Tinha de pôr-me em movimento. E não podia esperar que Renata
me aj udasse. Renata, que nesse dia estava a trabalhar, assistia a um
leilão. Ficaria bastante aborrecida se telefonasse para a leiloeira para
lhe pedir que me levasse ao Northwest Side. Era uma mulher bela
e prestável, tinha seios maravilhosos, mas levava a mal certos deslizes
e irritava-se facilmente. Bom, teria de arranj ar maneira de tratar do
66 SAUL BELLOW

assunto. Talvez ainda fosse possível levar o Mercedes ao concessioná­


rio . Talvez não houvesse necessidade de reboque. E depois era só en­
contrar um táxi ou chamar o serviço de limusinas ou alugar um carro.
Não iria de autocarro . Encontram-se muitos bêbedos e viciados em
heroína armados nos autocarros e comboios. Mas não, um momento !
Primeiro tinha de telefonar a Murra e depois ir a correr ao banco.
E também tinha de explicar que não podia levar Lish e Mary à aula
de piano. Isto, sobretudo, deixava-me apreensivo, porque ainda sinto
algum medo de Denise. Ela exerce ainda um certo poder sobre mim.
Denise dava muita importância a estas aulas. Mas como ela dava im­
portância a tudo, para ela tudo era sério e vital. Todas as questões
psicológicas que diziam respeito às crianças eram apresentadas com
grande intensidade. Os problemas do desenvolvimento infantil eram
desesperados, terríveis, mortais. Se as crianças fossem afetadas negati­
vamente a culpa era minha. Abandonara-as no momento mais perigo­
so da História da Civilização para me juntar a Renata .
- Essa puta com mamas descomunais - era assim que Denise lhe
costumava chamar.
Falava sempre da bela Renata como se fosse uma gaja dura e gros­
seira. A intenção dos seus epítetos, ao que parecia, era fazer de Rena­
ta um homem e de mim uma mulher.
Denise, como a minha riqueza, remonta aos tempos do Belasco
Theater. A personagem de Trenck era interpretada por Murphy Ver­
viger, uma estrela que tinha um verdadeiro séquito à sua disposição
( um camareiro, um agente de imprensa, um moço de recados ) . Deni­
se, que vivia com Verviger no St. Moritz, apresentava-se diariamente
com os restantes assistentes, trazendo o texto da peça. Vestia uma
espécie de fato-macaco de veludo cor de ameixa e usava os cabelos
soltos. Esbelta, elegante, um pouco lisa de peito, ombros altos, espa­
daúda como uma antiga cadeira de cozinha, tinha grandes olhos cor
de violeta, a tez de uma cor maravilhosamente matizada e um miste­
rioso e quase impercetível buço que também lhe aparecia no nariz.
Devido ao calor de agosto as grandes portas entre os bastidores esta­
vam abertas para as ruelas de cimento e a luz do dia que penetrava
por elas punha a nu a espantosa decadência e deterioração do luxo
antigo. O Belasco parecia uma bandej a dourada coberta de merengue
encardido. Verviger, cujo rosto se mostrava profundamente vincado
ao redor da boca, era corpulento e musculoso. Parecia um instrutor
0 L E G A D O DE H U M B O L DT

de esqui. Dava a impressão de estar a ser consumido por uma ideia de


intenso refinamento. A cabeça, em forma de barretina, era uma rocha
imponente, sólida, arrogante, coberta de espesso musgo. Denise tirava
notas do ensaio. Escrevia com tremenda concentração, como se fosse
a aluna mais brilhante da turma e os colegas estivessem a tentar alcan­
çá-la . Quando vinha fazer uma pergunta, encostava o texto ao peito
e falava comigo num estado de crise operática. A sua própria voz pa­
recia eriçar-lhe os cabelos e arregalar-lhe os olhos assombrosos:
- O Verviger quer saber como gostarias que ele pronunciasse esta
palavra - perguntou-me, escrevendo com letra de imprensa << F I N I ­
TO >> . - Mandou-me dizer que pode pronunciar fin-ito ou fi-nito ou

finito. Não aceita a minha opinião: fini-ito!


- Para quê tanta complicação ? - respondi. - É-me indiferente
a forma como a pronunciar.
Achei melhor não acrescentar que era Verviger quem me exaspera­
va. Tinha interpretado erradamente a peça de uma ponta à outra. Tal­
vez estivesse a ir bem no St. Moritz. Isso não me dizia respeito nessa
altura . Fui para casa e falei à minha amiga Demmie Vonghel sobre
a beleza deslumbrante e agressiva que encontrara no Belasco, a namo­
rada de Verviger.
Bom, dez anos depois Denise e eu éramos marido e mulher. E o
Presidente e a Senhora Kennedy convidaram-nos para um serão cultu­
ral de gala na Casa Branca. Denise consultou vinte ou trinta mulheres
sobre vestidos, sapatos e luvas. Como era muito inteligente, punha-se
sempre a par dos problemas nacionais e internacionais no cabeleirei­
ro. Tinha um cabelo pesado que usava ao alto . Não era fácil saber
quando tinha ido ao cabeleireiro mas pela conversa ao jantar eu con­
seguia sempre adivinhar se fora à tarde, visto que era uma leitora rá­
pida e informava-se debaixo do secador sobre os mais ínfimos porme­
nores das crises mundiais.
- És capaz de imaginar o que o Kruschtchov fez em Viena ? -
perguntava .
Assim, no salão de beleza, para preparar a visita à Casa Branca,
leu de fio a pavio a Time, a Newsweek e a U.S. News and World Re­
port. Durante o voo para Washington, passámos em revista a Baía
dos Porcos e a Crise dos Mísseis e o caso Diem. A intensidade nervosa
é orgânica . Depois do j antar assenhoreou-se do Presidente e falou-lhe
em privado. Vi como o acantonava no Salão Vermelho . Sabia que es­
tava a passar por cima do emaranhado de linhas que separavam os
68 SAU L B E L LOW

seus próprios problemas - e todos eram terríveis ! - dos desastres


e perplexidades da política mundial. Tudo fazia parte de uma única
e indivisível crise. Sabia que estava a dizer:
- Senhor Presidente, o que é que poderá ser feito a este respeito ?
Bem, lisonj eamo-nos uns aos outros com tudo o que temos à mão.
Ri-me sozinho ao vê-los j untos. Mas JFK sabia tomar conta de si pró­
prio e adorava mulheres bonitas. Suspeitava que ele também lia a U.S.
News and World Report e que provavelmente a sua informação não
seria melhor do que a de Denise. Ela teria dado uma excelente secre­
tária de Estado, se descobrissem a maneira de a tirar da cama antes
das onze da manhã . Porque é maravilhosa. E uma genuína beldade.
E muito mais dada a litigar que Humboldt Fleisher. Este, basicamente,
limitava-se a ameaçar. Mas desde que nos divorciámos, tenho sido en­
redado por ela em processos ruinosos e intermináveis. Raras vezes
o mundo deve ter visto uma litigante tão agressiva, insidiosa e hábil
como Denise. Da Casa Branca recordo especialmente a impressionan­
te altivez de Charles Lindbergh, as lamúrias de Edmund Wilson sobre
o facto de o Governo o ter reduzido à pobreza, a música de hotel das
montanhas Catskill tocada pela banda dos fuzileiros navais e o Sr. Tate
a marcar o compasso com os dedos no joelho de uma senhora .
Um dos grandes motivos de queixa de Denise era que eu não lhe
permitia levar esse tipo de vida . O grande capitão Citrine, que outrora
rebentara as fivelas da armadura em heroicas lides, dedicava-se agora
a saciar a lascívia da cigana Renata e, gagá como estava, comprara
um luxuoso Mercedes-Benz. Quando ia buscar Lish e Mary, Denise
recomendava-me que verificasse se o carro estava bem arej ado. Não
queria que cheirasse a Renata . As pontas de cigarro manchadas com
o batom dela deviam ser retiradas do cinzeiro. Uma vez saíra de casa
só para fazer isso. Disse-me que não podia haver lenços de papel su­
jos de sabe Deus o quê.
Apreen sivo, marquei o número de Denise. Tive sorte, atendeu
a empregada e eu disse-lhe:
- Não posso ir buscar as crianças hoj e . O carro está com pro­
blemas.
Quando cheguei à rua, descobri que, com dificuldade, podia en­
trar no Mercedes e, embora o para-brisas estivesse danificado, pare­
ceu-me que seria capaz de o guiar se a polícia não me mandasse pa­
rar. Experimentei-o indo ao banco, onde fiz o levantamento de notas
0 L E G A D O DE H U M B O LDT

novas. Entregaram-mas num sobrescrito de plástico. Sem dobrar este


pacote, coloquei-o junto da minha carteira. A seguir liguei de uma ca­
bina telefónica e fiz a marcação no concessionário Mercedes. Já não
se pode aparecer na oficina sem hora marcada, como nos velhos tem­
pos da mecânica . E, a inda da cabina, tentei novamente fa lar com
George Swiebel. Se não me engano, eu tinha dito, durante o j ogo de
cartas, que George gostava de ir, com o velho pai, aos Banhos na Rua
Division, perto do que antes fora a Rua Robey. Provavelmente, Can­
tabile esperava apanhar George lá.

Quando era miúdo, também eu ia aos Banhos Russos com o meu


pai. Esse velho estabelecimento está ali há uma eternidade, mais quen­
te do que os trópicos e a apodrecer docemente . Na cave, homens la­
mentavam-se nas pranchas amolecidas pelo vapor, enquanto eram
vigorosamente massaj ados com escovas de folhas de carvalho ensa­
boadas em baldes de salmoura . As colunas de madeira eram lenta­
mente desgastadas por uma maravilhosa decadência que as amolecia
e acastanhava . Pareciam pele de castor no meio do vapor dourado .
Talvez Cantabile esperasse armar ali uma cilada a George, quando es­
te estivesse nu. Haveria outro motivo para marcar um encontro na­
quele lugar ? Poderia dar-lhe uma sova ou um tiro. Porque havia eu de
dar com a língua nos dentes ?
Disse à secretária de George:
- Sharon ? O George ainda não voltou ? Então ouça. Diga-lhe que
não vá hoje ao schwitz da Rua Division. Não! É coisa séria.
George dizia de Sharon:
- Adora situações de emergência.
Era compreensível. Dois anos antes, um tipo completamente des­
conhecido tinha-lhe cortado o pescoço. Esse negro desconhecido inva­
dira o escritório de George, na zona sul de Chicago, com uma nava­
lha aberta . Fê-la deslizar pela garganta de Sharon como um virtuoso
e desapareceu para sempre.
- O sangue j orrava como uma cascata - disse George.
Enrolou-lhe uma toalha no pescoço e levou-a a toda a pressa para
o hospital. George também gostava de situações de emergência. Anda­
va sempre à procura de coisas genuínas, << honestas >> , << da terra >> , pri­
mordiais. Quando via sangue, uma substância vital, sabia o que devia
fazer. Mas é claro que também era um teórico : um primitivista . Este
S A U L B E L LOW

homem rubicundo, musculoso, de mãos rudes, com olhos castanhos


humanamente compreensivos, não é estúpido a não ser quando pro­
clama as suas ideias. Faz isso de forma ruidosa, feroz. Nessas ocasiões
limito-me a sorrir porque conheço a sua bondade. Cuida dos pais en­
velhecidos, das irmãs, da ex-mulher e dos filhos crescidos. Denuncia
os cultos, mas a verdade é que gosta de cultura . Passa dias inteiros
a tentar ler livros difíceis, aplicando-se a fundo. Embora sem grandes
resultados. E quando o apresento a intelectuais como o meu erudito
amigo Durnwald, grita, fustiga-os, diz palavrões e fica com a cara ver­
melha. Bem, é um desses momentos curioso da história da consciência
humana em que a mente desperta universalmente e nasce a democra­
cia, uma era de perturbação e confusão ideológica, o fenómeno capi­
tal dos tempos atuais. Humboldt, pueril, amara a vida do espírito e eu
partilhava o entusiasmo dele. Porém, os intelectuais que encontramos
são outra coisa . Eu não me aj ustava ao beau monde intelectual de
Chicago . Denise convidava pessoas importantes em todas as ativida­
des para a nossa casa de Kenwood para conversar sobre po lítica
e economia, raça, psicologia, sexo, crime. Embora servisse as bebidas
e risse bastante, não era propriamente cordial e hospitaleiro. Não era
sequer amigável.
- Tu desprezas estas pessoas - recriminava-me Denise, furiosa.
- A única exceção é Durnwald, esse decrépito . - A acusação era
verdadei ra . Gostaria de humilhá-los a todos. D e facto, esse era um
dos meus sonhos mais caros, um das minhas esperanças mais acalen­
tadas. Aquela gente era contrária à Verdade, ao Bem, ao Belo. Nega­
va a luz.
- És um pretensioso - dizia ela.
Esta afirmação era pouco exata . Mas efetivamente não queria ter
nada que ver com aqueles sacanas - advogados, congressistas, psi­
quiatras, professores de sociologia, clérigos e tipos ligados à arte ( na
maioria proprietários de galerias ) - que ela convidava .
- Tens de conviver com gente real - disse-me George mais tar­
de. - Denise rodeou-te de farsantes e agora, dia sim, dia não, estás
sozinho com toneladas de livros e papéis naquele apartamento e juro­
-te que vais acabar por enlouquecer.
- Não é bem assim - discordei. - Tenho-te a ti e ao Alec Szath-
mar e ao meu amigo Richard Durnwald. E também Renata. E as pes­
soas do Downtown Club.
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 71

- Grande coisa vai fazer por ti esse Durnwald. É o professor dos


professores. Não mostra interesse por ninguém. Só sabe o que leu ou
ouviu dizer. Quando tento conversar com ele é como se estivesse a j o­
gar pingue-pongue com o campeão chinês. Sirvo, ele rebate e acabou
tudo ! Tenho de servir outra vez e não tardo a ficar sem bolas .
Atacava sempre Durnwald com dureza. Havia uma certa rivalida­
de. Sabia até que eu me encontrava ligado a Dick Durnwald. Na brutal
Chicago, Durnwald, a quem admirava e chegava a adorar, era o único
homem com quem trocava ideias. Mas ele estivera durante seis meses
na Universidade de Edimburgo a dar aulas sobre Comte, Durkheim,
Tonnies, Weber e gente que tal.
- Essas tretas abstratas são veneno para uma pessoa como tu ­
disse George. - Vou apresentar-te a uns tipos da zona sul. - Come­
çou a gritar: - És muito exclusivista, vais acabar ressequido.
- Com certeza - respondi.
E deste modo a fatídica partida de póquer foi organizada à minha
volta . Mas os participantes sabiam que tinham sido convidados na
qualidade de companhia de baixo nível. Atualmente todas as pessoas
estão muito cientes da categoria social a que pertencem. Teria sido
óbvio para eles que eu era um tipo intelectual, mesmo se George não
me tivesse apresentado como tal, alardeando que o meu nome apare­
cia em livros de referência e fora armado cavaleiro pelo Governo fran­
cês. E depois ? Não chegava aos calcanhares de Dick Cavett, uma ver­
dadeira celebridade . Não passava de mais um tonto com instrução
e George estava a exibir-me a eles e a exibi-los a mim. Era gentileza de­
les perdoarem-me este grande exercício de relações públicas. George ti­
nha-me levado para que saboreasse as reais qualidades americanas de­
les, as suas peculiaridades. Mas eles enriqueceram o serão com uma
ironia muito própria e inverteram a situação de tal maneira que as mi­
nhas particularidades acabaram por ser muito mais conspícuas.
- À medida que o j ogo avançava, eles gostavam cada vez mais de
ti - disse-me George . - Acharam que eras bastante humano. Além
disso, estava lá o Rinaldo Cantabile. Ele e o primo mostravam as car­
tas um ao outro e tu estavas tão bêbedo que não deste por nada.
- Quer dizer que não passei de um vencedor por contraste.
- Pensei que vencedor por contraste fosse o termo que usas para
os casais. Gostas de uma senhora porque ela tem um marido, um ver­
dadeiro chato, que a faz parecer boa.
- É uma maneira de falar, só isso.
5AUL BELLOW

Não sou um grande j ogador de póquer. Aliás, estava mais interes­


sado nos j ogadores. Um era um lituano que alugava smokings; outro,
um j ovem polaco que estudava informática. Havia um detetive à pai­
sana do Departamento de Homicídios. Ao meu lado estava sentado
um agente funerário siciliano-americano e por último havia Rinaldo
Cantabile e o primo Emil. Estes dois, segundo George, tinham estra­
gado a festa . Emil era um bandido de pacotilha, nascido para torcer
braços e arremessar tijolos contra montras. Devia ter tomado parte na
vandalização do meu carro . Rinaldo era extremamente bem-parecido,
com um bigode preto e espesso tão macio como pele de marta, e ves­
tia com elegância. Fazia bluff como um louco, falava muito alto, batia
na mesa com os nós dos dedos e simulava ser um ignorante convicto.
No entanto não parava de discursar sobre Robert Ardrey, o imperati­
vo territorial, a paleontologia no desfiladeiro de Olduvai e as opiniões
de Konrad Lorenz. Disse em voz alta e tom desabrido que a sua culta
mulher ia deixando livros em todo o lado. O livro de Ardrey tinha-o
encontrado na casa de banho. Só Deus sabe porque somos atraídos
para os outros e acabamos por nos ligar a eles. Proust, um autor que
me fora dado a conhecer por Humboldt, sobre cuj a obra me deu uma
instrução intensiva, dizia sentir-se frequentemente atraído por pessoas
cuj as caras tinham qualquer coisa de sebe de espinheiro em flor. Mas
a flor de Rinaldo não era o espinheiro. O lírio-d'água branco aj usta­
va-se-lhe melhor. Tinha o nariz particularmente branco, e as largas
narinas, inevitavelmente escuras, lembravam-me um oboé quando se
dilatavam. As pessoas vistas tão claramente exercem um estranho po­
der sobre mim. Mas não sei o que ocorreu primeiro, se a atração ou
a observação de perto. Quando me sinto crasso, obtuso, com a sensi­
bilidade ferida, uma perceção refinada, que surj a subitamente, tem
enorme influência.
Sentámo-nos a uma mesa de pé de galo e enquanto as cartas novas
voavam e dançavam, George pôs os j ogadores a falar. Era o empresá­
rio e os outros faziam-lhe a vontade. O detetive de Homicídios falou
dos assassínios nas ruas.
- Está tudo mudado, agora matam o filho da mãe se não tem um
dólar no bolso e matam-no na mesma se lhes dá cinquenta . E eu digo­
-lhes: << Ca brões, vocês matam por dinheiro ? Por dinheiro ? A coisa
mais barata que há no mundo. Matei muito mais tipos que vocês mas
foi na guerra . »
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 73

O homem dos smokings estava d e luto pela namorada, uma tele­


fonista da secção de anúncios no Sun Times. Falava com um sotaque
lituano e parecia latir; gracej ava, gabava-se, mas também se mostrava
melancólico. Enquanto contava a sua própria história, afundou-se em
profunda tristeza e quase desatou a chorar. À segunda-feira recolhia
os smokings alugados. Depois do fim de semana, contou ele, os smo­
kings apareciam manchados de molho, sopa, uísque e esperma, << de
tudo o que possam imaginar » . À terça ia na sua carrinha a uma espe­
lunca perto do Loop1 onde a roupa ficava de molho em tinas com de­
tergente . Depois passava a tarde com uma amiga . Ah, nem conse­
guiam chegar à cama, tão esfomeados estavam. Atiravam-se para
o chão.
- Ela era uma boa rapariga de família. O meu género de pessoa.
Mas fazia tudo. Explicava-lhe como era e ela fazia. Sem perguntas.
- E só se encontrava com ela às terças, nunca a levou a j a ntar,
nunca a foi visitar a casa ? - perguntei.
- Ia para casa às cinco por causa da velha mãe, para fazer o j an­
tar. Juro que nem sabia o apelido dela. Durante vinte anos só soube
o número de telefone dela.
- Mas amava-a. Porque não casou com ela ?
Pareceu espantado; olhou para os outros j ogadores como se dis­
sesse: O que é que se passa com este tipo ? Depois respondeu:
- Como ? Casar com uma gaj a tarada por sexo que fornica em
quartos de hotel ?
Enquanto todos riam, o agente funerário siciliano explicou-me na­
quele tom usado para contar os factos da vida a palermas cultos:
- O uça, professor, n ã o se devem misturar as c o i s a s . A nossa
mulher não é para isso. E quando se tem um pé torto, deve arranj ar­
-se um sapato torto. E quando se encontra o tamanho certo, deixa-se
estar.
- Sej a como for, o meu amor está na tumba.
Fico sempre feliz quando aprendo alguma coisa, agradeço que me
ensinem, aceito bem que me corrijam, se me é permitido dizer isto.
Pode ser que evite o confronto, mas sei reconhecer quando há amiza­
de verdadeira . Estávamos sentados com uísque, fichas e charutos
numa cozinha da zona sul de Chicago invadida pela negra emanação
das siderurgias e refinarias, sob emaranhados de cabos de alta tensão.

1 O centro h istórico e comercial de Chicago. (N. do T.)


74 S A U L B E L LOW

Muitas vezes reparo nos singulares vestígios naturais que há nesta


área ocupada pela indústria pesada . Carpas e peixes-gatos ainda vi­
vem nos charcos que tresandam a gasolina. Mulheres negras pescam­
-nos usando miolo de pão como isca . Marmotas e coelhos são avista­
dos não muito longe das lixeiras. Melros de asas vermelhas com as
suas ombreiras voam como porteiros fardados sobre os espadanais.
Algumas flores subsistem.
Grato por aquele serão de companhia humana, deixei-me levar.
Perdi quase seiscentos dólares, contando com o cheque de Cantabile.
Mas estou tão habituado a que me tirem dinheiro que nem me impor­
tei. Tinha sentido uma grande satisfação nessa noite, bebendo, rindo
bastante e conversando. Conversei e conversei. É evidente que discorri
sobre os meus interesses e proj etas com bastante pormenor, e mais
tarde contaram-me que tinha sido o único que não se apercebeu do
que estava a acontecer. O s outros j ogadores a b a ndonaram o j ogo
quando descobriram que os primos Cantabile estavam a fazer batota.
Mostravam as cartas, manipulavam o baralho e apropriavam-se do
bolo todo.
- Não se vão safar assim na minha própria casa - gritou George
num dos seus teatrais assamos de irracionalidade.
- Mas o Rinaldo é perigoso.
- O Rinaldo não passa de um rufião ! - gritou.

Era possível que o fosse, mas nos tempos de Capone os Cantabiles


tinham sido do pioria. Nessa época, o mundo inteiro associava Chica­
go a sangue: havia matadouros e havia guerras de quadrilhas. Na hie­
rarquia de sangue da cidade, os Cantabiles ocupavam um nível inter­
médio. Trabalhavam para a Mafia, guiavam caminhões carregados de
uísque, espancavam e liquidavam pessoas a tiro . Eram assassinos e vi­
garistas de segunda. Mas nos anos 40 um tio Canta bile meio idiota
que era membro do corpo de polícia de Chicago fez abater a desgraça
sobre a família. Embebedou-se num bar e dois rufiões engraçadinhos
tiraram-lhe as armas e decidiram divertir-se à custa dele. Obrigaram­
-no arrastar-se de barriga para baixo, a engolir a suj idade e a serradu­
ra do pavimento, acabando a dar-lhe pontapés no rabo. Depois de
o terem atormentado e humilhado, e enquanto continuava prostrado,
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 75

a chorar de raiva, foram-se embora satisfeitos, deitando as pistolas


para o chão. Foi o grande erro deles. O velho perseguiu-os e abateu-os
a tiro na rua . Desde aí, disse George, ninguém mais levou os Cantabi­
les a sério. O velho Ralph ( Chupista ) Cantabile, que cumpria uma pe­
na de prisão perpétua em Joliet, arruinara o bom nome da família
j unto da Mafia por ter assassinado dois adolescentes. Era por isso que
Rinaldo não podia dar-se ao luxo de ser menosprezado por uma pes­
soa como eu, conhecida em Chicago, que perdera dinheiro numa par­
tida de pôquer e depois cancelara o cheque . Talvez Rinaldo, ou Ro­
nald, não fosse ninguém no mundo do crime, mas causara estragos
terríveis ao meu Mercedes. Quem poderia dizer se a raiva dele, natural
ou forj ada, não era a de um verdadeiro bandido ? O que estava claro
é que se tratava de um desses tipos suscetíveis e orgulhosos que causam
muitos problemas porque levam demasiado a peito, com paixão, ques­
tões íntimas de escasso interesse para qualquer pessoa sensata.
Não estava tão fora da realidade que não me perguntasse se, com
pessoa sensata, não estaria a referir-me a mim próprio. De regresso do
banco fiz a barba e reparei que a minha cara, que era propensa à jo­
vialidade, que expressava a premissa metafísica da amabilidade uni­
versal, que declarava que o aparecimento do género humano neste
mundo era, de um modo geral, altamente satisfatório, pois bem, re­
parei que essa cara, cheia de pressupostos decorrentes da democracia
capitalista, estava deprimida, contraída pela infelicidade, lúgubre, de­
masiado desagradável para ser barbeada. Era eu a pessoa sensata su­
pramencionada ?
Realizei uns quantos trabalhos impessoais. Um pouco de ontogé­
nese e filogénese sobre mim próprio. Recapitulação : a família chama­
va-se Tsitrine e provinha de Kiev. O apelido fora anglicizado em Ellis
Island. Nasci em Appleton, Wisconsin, de onde também era natural
Harry Houdini, com quem acreditava ter algumas afinidades. Fui
criado no bairro polaco de Chicago, frequentei a Escola Secundária
Chopin, passei o oitavo ano na enfermaria de um sanatório para tu­
berculosos . Pessoas de bom coração doavam pilhas de histórias aos
quadradinhos coloridas ao sanatório. Amontoavam-nas ao lado das
camas. As crianças seguiam as aventuras de Slim Jim e Boob McNutt.
Além disso, lia a Bíblia, dia e noite. Só era permitida uma visita por
semana e os meus pais revezavam-se. A minha mãe com o peito co­
berto de sarj a verde, com grandes olhos, nariz reto, pálida de ansieda­
de - a força dos sentimentos impedia-a de respirar -, e o meu pai,
SAUL BELLOW

o batalhador imigrante e desesperado, vindo do frio gélido, com o ca­


saco saturado de fumo de cigarro. As crianças sofriam hemorragias de
noite, sufocavam no sangue e acabavam por morrer. Pela manhã era
necessário enfrentar a branca geometria das camas acabadas de fazer.
Tornei-me muito pensativo nesse lugar e creio que as minhas afeções
pulmonares deram origem a uma desordem emocional, de modo que
às vezes me sentia, e ainda me sinto, intoxicado pela ansiedade: uma
congestão de ternos impulsos à mistura com febre e tonturas impetuo­
sas. Devido à tuberculose, relacionei respiração com alegria, e devido
ao aspeto sombrio do pavilhão relacionei alegria com luz, e devido
à minha irracionalidade relacionei a luz das paredes com a minha luz
interior. Segundo parecia, tinha-me convertido no típico crente de
Aleluia e Glória. Aliás ( para terminar), a América é um país didático
cujos habitantes oferecem sempre as suas experiências pessoais como
uma lição que pode ser útil aos outros, na expectativa de que os ani­
me e lhes faça bem, à maneira de um plano intensivo de relações pú­
blicas pessoais. Há ocasiões em que encaro isto como idealismo. Mas
noutras parece-me simples delírio. Com toda a gente do lado do Bem,
como é que se pratica o Mal ? Quando Humboldt me chamava ingé­
nuo, não estaria a referir-se a isso ? Ao cristalizar muitos males em si
mesmo, pobre tipo, morreu como exemplo, e o legado dele foi uma
interrogação dirigida aos outros. A própria questão da morte, que
Walt Whitman considerava ser a questão das questões.
Em qualquer caso, não me importava absolutamente nada o aspe­
to que tivesse no espel h o . Via como os precipitados angélicas se
condensavam em hipocrisia, especialmente ao redor da minha boca.
Acabei de fazer a barba pelo tato e só voltei a abrir os olhos quando
comecei a vestir-me. Escolhi um fato e uma gravata discretos . Não
queria provocar Cantabile com roupa espalhafatosa.
Não tive de esperar muito pelo elevador. Tinha passado a hora ca­
nina no meu prédio. Durante essas horas de passear os cães era escusa­
do, o melhor era utilizar as escadas. Dirigi-me para o carro amolgado
que, só de manutenção, me custava mil e quinhentos dólares por ano.
O ar da rua era desagradável. Estávamos em vésperas do Natal, num
dezembro sombrio, e um vento acastanhado, mais gás do que ar, atra­
vessava o lago vindo dos grandes complexos petrolíferos e siderúrgicos
da zona sul de Chicago, de Hammond e Gary, em Indiana. Entrei no
carro e arranquei, ligando o rádio. Quando comecei a ouvir a música,
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 77

desej ei que houvesse mais interruptores porque, por qualquer razão,


me pareceu que não havia os suficientes. As emissoras culturais em
FM o ferec i a m concertos natalícios de Core l l i , Bach e Palestrina
- Musica Antiqua, dirigida pelo falecido Greenberg, com Cohen na
viola de gamba e Levi no clavicórdio. Interpretavam piedosas e belas
cantatas com instrumentos antigos enquanto eu tentava enxergar pelo
para-brisas destroçado por Canta bile. Levava as notas de cinquenta
dólares novinhas em folha num embrulho ao lado dos óculos, da car­
teira e do lenço. Ainda não tinha decidido qual a ordem que devia se­
guir. Nunca decido esse tipo coisas, espero que me venham a ser reve­
ladas e, em Outer Drive, ocorreu-me passar pelo Downtown Club.
A minha mente estava num dos seus estados de Chicago . Como pode­
rei explicar este fenómeno ? Quando num estado de espírito de Chica­
go necessito infinitamente de qualquer coisa, o meu coração dilata-se,
sinto uma ansiedade dilacerante . A parte sensível da alma quer ex­
pressar-se. Há alguns dos sintomas de uma sobredose de cafeína. Ao
mesmo tempo, sinto-me como se fosse um instrumento de forças exte­
riores. Estão a usar-me como exemplo do erro humano ou como uma
mera sombra de futuros desej os. Continuei a guiar. O lago enorme
e pálido estendia-se adiante. A leste via-se um branco céu siberiano e a
Praça McCormick, que p arecia um porta-aviões ancorado na mar­
gem. A vida tinha desaparecido da relva, que adquirira uma cor ama­
relada invernal. Os motoristas desviavam-se e colocavam-se ao meu
lado para observar o Mercedes tão inacreditavelmente mutilado.
Queria falar com Vito Langobardi no Downtown Club, para sa­
ber a sua opinião, se é que a tinha, sobre Rinaldo Cantabile. Vito era
um peixe graúdo do mundo do crime, um compincha do fa lecido
Murray, o Camelo e dos Battaglias. Jogávamos muitas vezes paddle
ball j untos; gostava de Lango bardi . Gostava até muito dele e acho
que ele sentia alguma simpatia por mim. Era uma figura importantís­
sima do submundo, ocupando um posto tão alto na organização que
se tornara mais refinado, um cavalheiro, e apenas falávamos de sapa­
tos e camisas. Entre os membros do clube só ele e eu usávamos cami­
sas feitas por medida com presilhas para a gravata por baixo do cola­
rinho. Estávamos, de certa maneira, unidos por essas presilhas. Como
numa tribo selvagem sobre a qual li uma vez, em que, após a infância,
irmã e irmão não podem voltar a ver-se até ao limiar da velhice devido
a um terrível tabu sobre o incesto, e quando subitamente a proibição
SAUL BELLOW

termina . . . não, o símile não se aplica . Mas eu havia conhecido muitos


rapazes violentos na escola, rapazes terríveis cuj a vida adulta era in­
teiramente distinta da minha, e agora podíamos falar de pescarias na
Florida e camisas com presilhas feitas por medida ou dos problemas
do doberman de Langobardi. Depois dos jogos, na democracia nudis­
ta do vestiário, socializávamos bebendo sumo de frutas e conversáva­
mos sobre filmes para adultos.
- Nunca os vej o - disse. - Que aconteceria se houvesse uma
rusga da polícia à sala de cinema e me prendessem ? Que diriam os
j ornais ?
Para se ter classe basta possuir alguns milhões de dólares, e Vito,
com os milhões que havia arrecadado, era de qualidade superior. Dei­
xava a conversa áspera para os seus corretores e advogados . No cam­
po, vacilava um pouco quando corria, porque não tinha os músculos
da barriga da perna muito desenvolvidos, uma deficiência também
habitual nas crianças nervosas. Mas o j ogo dele era subtil. Vencia-me
sempre porque sabia exatamente o que eu estava a fazer nas suas cos­
tas. Sentia-me ligado a Vito.
Racquet ou paddle ball, em que fui introduzido por George Swie­
bel, é um j ogo extremamente rápido e causador de lesões. Choca-se
com os outros j ogadores e tropeça-se nas paredes. Recebem-se panca­
das da raq uete do nosso adversário que está de costas ou leva-se na
cara com a nossa própria raquete. O j ogo custou-me um dente da
frente, que eu próprio arranquei, e tive de pôr uma ponte e uma co­
roa. Na infância era uma miúdo fraco, tuberculoso, depois tornei-me
mais forte, a seguir desleixei-me e, por fim, George obrigou-me a re­
cuperar o tónus muscular. Nalgumas manhãs acordo quase tolhido,
incapaz de endireitar as costas quando me levanto da cama, mas ao
meio-dia estou no campo a j ogar, saltando, atirando-me ao chão com
toda a força para evitar bolas perdidas, esticando as pernas e rodo­
piando como um bailarino russo. Mas não sou um bom j ogador. En­
volvo-me demasiado no j ogo, exagero. Deixo-me possuir por um in­
controlável frenesim competitivo. E depois, enquanto bato a bola com
força, estou continuamente a pensar << Dança, dança, dança ! >> , persua­
dido de que o domínio do j ogo depende da dança . Mas os gângsteres
e os homens de negócios, ao transplantar o seu estilo profissional para
estes j ogos, dançam melhor do que eu e ganham-me . D igo a mim
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 79

mesmo que, quando conseguir atingir clareza mental e espiritual e for


capaz de transpô-la para o j ogo, ninguém conseguirá fazer-me som­
bra . Ninguém. Vencerei toda gente . Entretanto, apesar do nebuloso
estado de espírito que me impede de ganhar, j ogo com violência por­
que fico desesperado se não fizer exercício de forma intensa. Verda­
deira mente desesperado. De vez em quando, um dos j ogadores de
meia-idade tomba. Transportados a toda a pressa para o hospital, al­
guns nunca mais voltam. Langobardi e eu j ogávamos à << degola » (três
participantes) com um homem chamado Hildenfisch que sucumbiu
a um ataque do coração. Demos conta de que Hildenfisch arquej ava.
M a i s tarde tinha ido descansar para a s auna e alguém s a i u de lá
a gritar:
- O Hildenfisch desmaiou.
Quando os empregados negros o estenderam no chão, urinou-se.
Eu sabia o que significava essa perda de controlo do esfíncter. Man­
dou-se buscar o equipamento mecânico de reanimação, mas ninguém
soube pô-lo a funcionar.
Às vezes, quando levava o j ogo demasiado a sério, Scottie, o moni­
tor, mandava-me parar.
- Pare e olhe para si, Charlie. Está roxo.
No espelho parecia medonho, a escorrer suor, escuro, preto, o co­
ração aos saltos. Sentia-me ligeiramente surdo. As trompas de Eustá­
quio ! Fiz meu próprio diagnóstico . Devido à pressão sanguínea, as
trompas estavam a estoirar.
- Ande até que passe - disse Scottie.
Percorri para cima e para baixo a parte do tapete que ficara para
sempre ligada ao pobre Hildenfisch, o irritadiço e inferior Hildenfisch.
Diante da morte, não era melhor do que ele. Uma vez em que exage­
rei no campo e estava deitado no divã de plástico vermelho a arque­
j a r, Langobardi aproximou-se e olhou para m i m . Quando estava
a meditar, enviesava os olhos. Um olho parecia cruzar-se com o ou­
tro, como a mão de um pianista.
- Porque exagera, Charlie ? - perguntou-me. - Na nossa idade
basta um j ogo curto. Vê-me j ogar mais do que uma vez ? Um dia des­
tes dá-lhe uma coisa . Lembre-se do Hildenfisch.
Sim. Dar-me uma coisa . Exato. Podia fazer um mau lance de da­
dos. Era preciso acabar com aquela história de provocar a morte. Fi­
quei sensibilizado com a preocupação de Langobardi. Seria, contudo,
8o SAUL BELLOW

solicitude pessoal? As mortes em ginásios davam má fama e dois ata­


ques cardíacos seguidos tornavam o clube um lugar tenebroso . Mes­
mo assim Vito desej ava fazer o que pudesse por mim. Havia poucas
coisas substantivas que pudéssemos contar um ao outro. Observava-o
às vezes, quando falava ao telefone. A seu modo, era um executivo
americano. O elegante Langobardi vestia muito melhor do que qual­
quer presidente de conselho de administração. Até as mangas do casa­
co eram habilmente debruadas e as costas do colete eram de um mate­
rial de primeira qualidade. Os telefonemas chegavam em nome de
Finch, o engraxador <<Johnny Finch, Johnny Finch, telefone, extensão
cinco » , e Langobardi atendia. Era viril, tinha poder. Em voz baixa,
dava instruções, ditava regras, tomava decisões, provavelmente impu­
nha castigos. Mas poderia dizer-me alguma coisa séri a ? E poderia eu
contar-lhe o que me passava pela cabeça ? Poderia dizer-lhe que na­
quela manhã tinha estado a ler a Fenomenologia de Hegel, as páginas
sobre liberdade e morte ? Poderia dizer-lhe que estivera a refletir sobre
a história da consciência humana, concentrando-me particularmente
na questão do tédio ? Poderia dizer-lhe que estivera durante os últimos
anos preocupado com esse tema e que o discutira com o falecido poe­
ta Von Humboldt Fleisher ? Nunca. Nem com astrofísicos, professores
de economia ou de paleontologia era possível discutir esses assuntos.
Havia coisas belas e comoventes em Chicago, mas a cultura não era
uma delas. O que tínhamos era uma cidade inculta no entanto im­
pregnada de Mente . Mente sem cultura era o que havia, não é ver­
dade ? Que lhes parece ? É uma definição precisa. E eu havia aceitado
essa situação há muito tempo.
Os olhos de Langobardi davam a impressão de ter a capacidade
periscópica de observar o outro lado da esquina.
- Não sej a tonto, Charlie. Faça como eu.
Tinha-lhe agradecido sinceramente aquele interesse atencioso.
- Estou a tentar - respondi.
Por isso hoje estacionei sob as frias colunas das traseiras do clube.
Depois subi no elevador e saí na barbearia. Vi-me no meio da habi­
tual cena de gente atarefada, com os três barbeiros: o grande sueco de
cabelo pintado, o siciliano, sempre o mesmo ( nem sequer barbeado ) ,
e o j aponês. Todos apresentavam o mesmo penteado bouffant, todos
usavam casacos amarelos com botões dourados por cima de camisas
de mangas curtas. Os três usavam secadores de cabelo com pontas
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

azuis e ajeitavam o cabelo de três fregueses. Entrei no clube pela casa


de banho, onde as lâmpadas brilhavam sobre os lavatórios, e Finch,
o verdadeiro· Johnny Finch, enchia os mictórios com montes de cubos
de gelo. Langobardi, pássaro madrugador, já lá estava. Ultimamente
dera-lhe para usar o cabelo com uma pequena franj a, como um coad­
j utor de uma igreja rural inglesa. Estava sentado nu, dando uma vista
de olhos ao Wall Street ]ournal, e dirigiu-me um breve sorriso. E ago­
ra ? Podia lançar-me num novo tipo de relacionamento com Lango­
bardi, puxar uma cadeira e sentar-me com OS' cotovelos nos j oelhos,
olhando-o nos olhos e expondo o meu íntimo no calor de um impul­
so ? Com os olhos arregalados pela dúvida, em confidência, podia di­
zer: << Vito, preciso de aj uda >> ou << Vito, o Rinaldo Cantabile é um tipo
perigoso ? >> , O meu coração batia com força - como acontecera déca­
das atrás, quando estive prestes a propor casamento a uma mulher.
Langobardi havia-me feito pequenos favores de tempos a tempos, re­
servando mesas em restaurantes onde isso era difícil. Mas fazer per­
guntas sobre Cantabile seria uma consulta profissional. Não se faziam
coisas desse género no clube. Numa dada ocasião, Vito dera uma re­
primenda a Alphonse, um dos massagistas, por me ter feito uma per­
gunta sobre livros.
- Não chateies o homem, AI. O Charlie não vem cá para falar so­
bre o seu ofício. Estamos todos aqui para nos esquecermos do nosso
trabalho.
Quando contei isto a Renata, ela disse:
- Estou a ver que se dão bem um com o outro.
Mas naquele instante compreendi que Langobardi e eu tínhamos
u m tipo de relação do mesmo modo que o Empire State tem um
sótão.
- Quer j ogar uma partida rápida ? - perguntou.
- Não, Vito, vim apanhar uma coisa ao meu cacifo .
Às apalpadelas como sempre, e r a o que eu estava a p e n s a r e n ­
quanto voltava para o Mercedes amolgado. Era uma coisa muito mi­
nha. A ansiedade do costume. Procurava ajuda. Ansiava encontrar al­
guém que fizesse a via-sacra comigo . Igualzinho ao meu pai. E onde
estava o meu pai ? O meu pai estava no cemitério.
SAUL BELLOW

No concessionário Mercedes, o distinto funcionário técnico, de


bata branca, mostrou-se naturalmente curioso, mas recusei responder
a perguntas.
- Não sei como aconteceu, Fritz. Encontrei-o neste estado. Con­
serte-o. Não quero ver a conta . Envie-a à Continental Illinois. Há de
ser a seguradora a pagar.
Fritz fazia-se pagar como um neurocirurgião.
Apanhei um táxi na rua. O motorista tinha um aspeto selvagem
e uma imensa ca beleira afro que parecia um arbusto dos j ardins de
Versalhes. O banco traseiro tinha uma camada de cinza de cigarro
em cima e cheirava a taberna . Estávamos separados por um plástico
à prova de bala. Deu rapidamente a volta e zarpou em direção a oeste
pela Rua Division. Não via grande coisa por causa do plástico man­
chado e da ca beleira afro mas na verdade não precisava porque co­
nhecia aquilo tudo de cor e salteado. Grandes áreas de Chicago estão
a fi car em ruínas e a desmoronar-se . Algumas s ã o reconstruíd a s ,
outras ficam como estão. É como num cenário cinematográfico: cons­
truir, derrubar, construir outra vez. A Rua Division, onde se localiza­
va o velho edifício dos Banhos, era antigamente polaca mas hoje em
dia é quase inteiramente porto-riquenha . Nos tempos dos polacos, as
pequenas casas de tijolo estavam pintadas de vermelho vivo, castanho
e verde suave. As pequenas parcelas de relva eram protegidas por tu­
bos de ferro. Sempre pensei que deveria haver cidades do Báltico com
idêntico aspeto . Gdynia, por exemplo, com a diferença de que a pra­
daria de Illinois irrompia nos terrenos devolutos e os tufos redondos
de arbustos rolavam pelas ruas. Essas bolas de arbustos são muito
melancólicas.
Nos velhos tempos das carroças de gelo e de carvão, os donos des­
sas casas costumavam cortar ao meio as caldeiras velhas para as colo­
carem em cima da relva e as encherem de flores. As corpulentas mu­
lheres polacas de toucas com fitas saíam na primavera com latas de
Sapolio e pintavam essas caldeiras transformadas em vasos, que fica­
vam a brilhar, prateadas, contra o vermelho berrante do tij olo. A fi­
leira dupla de rebites sobressaía como tatuagens em relevo de tribos
africanas. As mulheres criavam gerânios, cravinas e outras flores poei­
rentas de pouca categoria . Tinha mostrado isso tudo a Humboldt
Fleisher há alguns anos. Viera a Chicago para fazer uma leitura de
poemas seus para a revista Poetry e pediu-me que desse uma volta
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

com ele pela cidade. Éramos amigos íntimos nessa época . Eu tinha re­
gressado à cidade para ver o meu pai e dar os últimos retoques no meu
livro New Deal Personalities na Biblioteca Newberry. Levei Humboldt
no E! até aos matadouros. Viu o Loop. Fomos até à margem do lago
e ouvimos as sirenes. Uivavam melancolicamente sobre a água agoi­
renta, mortiça, fresca, sedosa e cor de lilás . Mas Humboldt sentiu-se
particularmente atraído pelo velho ba irro . Os rebites das caldeiras
prateadas e os resplandecentes gerânios polacos seduziram-no . Pálido
e comovido, pôs-se a escutar o ruído das rodas de patins sobre o ci­
mento quebradiço. Também sou sensível à fealdade urbana. Também
partilhava o espírito moderno que apelava à redenção daquela vulga­
ridade, daquele lixo e daquela desdita, por meio da arte e da poesia,
por meio do poder superior da alma.
Mary, a minha filha de oito anos, tinha percebido isso a meu res­
peito . Conhece a minha fraqueza pela ontogénese e pela filogénese,
e está sempre a pedir para que lhe conte que espécie de vida era a mi­
nha nessa época.
- Tínhamos fogões a carvão - conto-lhe. - O fogão da cozinha
era preto, com cromados . . . enorme. O fogão de sala tinha uma cúpu­
la, como uma igrej inha, e nós podíamos olhar para o fogo através da
janela de folha de mica . Era eu que tinha de trazer para casa o balde
de carvão e despej ar as cinzas . . .
- Que roupa é que o pai usava ?
- Um gorro militar a imitar couro com orelheiras de pele de coe-
lho, botas de cano alto com uma bainha para uma navalha enferruj a­
da, meias pretas compridas e calções de golfe. Por baixo, ceroulas de
lã que me deixavam cotão no umbigo e por toda a parte.
- E que mais ? - queria saber a minha filha mais nova. Lish, que
tem dez anos, sai à mãe e portanto não se interessa por este tipo de
informação. Mas Mary é menos bonita, ainda que para mim sej a mais
atraente (mais parecida com o pai ) . É reservada e ávida. Mente e rou­
ba mais do que a maioria das rapariguinhas, e isso também lhe dá al­
gum encanto. Esconde chicletes e chocolates com engenho comovedor.
Costumo encontrar rebuçados escondidos nos estofos ou nos meus ar­
quivos. Percebeu que não consulto o meu material de pesquisa com
frequência . Lisonj eia-me e abraça-me precocemente . E quer que lhe
conte coisas sobre os velhos tempos. Tem os seus próprios desígnios
quando evoca e manipula as minhas emoções. Mas o Papá está intei­
ramente disposto a manifestar os sentimentos do passado. De facto,
SAUL BELLOW

devo transmiti-los. Porque tenho planos para Mary. Oh, nada tão de­
finido como planos, provavelmente . Tenho a impressão de que sou
capaz de impregnar a mente da minha filha com o meu espírito de
modo a que ela possa mais tarde continuar o trabalho, caso eu estej a
demasiado velho, fraco ou idiota para o prosseguir. Ela sozinha, ou
talvez ela e o marido . Com um pouco de sorte . Preocupo-me com
a rapariga . Numa gaveta trancada da minha escrivaninha guardo ano­
tações e memorandos para ela, muitos deles escritos sob a influência
do álcool. Prometi a mim mesmo revê-los e censurá-los um dia, antes
que a morte me apanhe em contrapé no campo de racquet-ball ou no
colchão anatómico desta ou daquela Renata . Mary vai ser sem dúvida
uma mulher intel igente . Interpreta Für Elise muito melhor do que
Lish. Sente a música . Contudo, o meu coração sente muitas vezes in­
quietação por Mary. Há de ser uma j ovem esguia, de nariz reto, que
sente a música . E, pessoalmente, prefiro as mulheres roliças, com be­
los seios. Por isso já sentia pena dela . Quanto ao projeto ou propósito
que desej o que ela prossiga, trata-se de uma versão muito pessoal da
Comédia Intelectual da mente moderna. Ninguém pode realizá-lo so­
zinho com a abrangência necessária . Nos finais do século XIX, os am­
plos romances da Comédia de Balzac já estavam reduzidos a contos
por Tchékhov na sua Comédia Humana russa. Hoje em dia, é ainda
menos possível ser a brangente . Nunca tinha pensado numa obra de
ficção mas num tipo diferente de conceção inventiva. Diferente tam­
bém de Adventures of Ideas, de Whitehead . . . Não é este o momento
propício para explicar isso. Fosse o que fosse, concebi-o quando era
ainda um j ovem . Na realidade, foi Humboldt que, ao emprestar-me
o livro de Valéry, me sugeriu essa ideia. Valéry escreveu a respeito de
Leonardo: << Cet Apollon me ravissait au plus haut degré de moi-mê­
me. >> Também eu me senti arrebatado com efeitos permanentes - tal­
vez transportado para além dos meus limites intelectuais. Mas Valéry
tinha acrescentado uma nota à margem: << Trouve avant de chercher. »
Este encontrar antes de procurar era o meu dom especial. Se é que ti­
nha algum dom.
Porém, a minha filhinha dizia-me com a letal precisão do instinto:
- Conte-me o que a avó costumava fazer. Era bonita ?
- Acho que era muito bonita . Não me pareço com ela. E sabia
cozinhar, fazer pão, lavar e passar roupa e preparar conservas que
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

guardava em latas. Sabia ler a sina nas cartas e cantar arrebatadoras


canções russas. Ela e o meu pai revezavam-se a visitar-me no sanató­
rio, um cada semana. Em fevereiro, o gelado de baunilha que me tra­
ziam era tão duro que podia ser cortado com uma faca . E que mais . . .
ah, sim, e m casa, quando m e caía u m dente, ela atirava-o para trás do
fogão e pedia a um ratito que me trouxesse um melhor. E vê lá tu que
dentes aqueles malvados ratos me impingiram.
- O pai gostava da sua mãe ?
Invadiu-me um sentimento veemente e angustiado. Esqueci-me de
que estava a conversar com uma criança e disse:
- Oh, amava-os a todos imenso, de uma maneira quase anormal.
Estava dilacerado pelo amor que senti a . Até ao fundo do coração.
Costumava chorar no sanatório porque podia nunca mais voltar a casa
nem vê-los. Tenho a certeza de que nunca souberam até que ponto eu
os amava, Mary. Tinha uma febre tuberculosa, mas também uma fe­
bre de amor. Era uma criança apaixonada e mórbida. Na escola esta­
va sempre apaixonado. Em casa, se era o primeiro a acordar de ma­
nhã, sofria porque os outros ainda estavam a dormir. Queria acordá­
-los para que aquela coisa maravilhosa pudesse continuar. Também
amava Menasha, o nosso hóspede, e o meu irmão, o teu tio Julius.
Te rei de pôr de lado estes pormenores emocionais.
Naquele momento, a minha preocupação era dinheiro, cheques,
bandidos e automóveis.
E vinha-me à ca beça outro cheque. Tinha-me sido remetido pelo
meu amigo Thaxter, que H uggins acusara de ser agente da CIA.
A questão é que Thaxter e eu estávamos a preparar-nos para lançar
uma revista, The Ark . Estávamos prontos. Publicaríamos coisas mara­
vilhosas - páginas das minhas imaginativas reflexões sobre um Mun­
do transformado pela Mente, por exemplo. Mas entretanto Thaxter
falhara o pagamento de um empréstimo.
É uma longa história, e prefiro não entrar nela neste momento .
Por duas razões. Uma é que gosto muito de Thaxter, sej a qual for
o seu comportamento . A outra é que, na verdade, penso demasiado
em dinheiro. E não é bom tentar escamotear isso. É um facto e é reles .
Antes, quando descrevi como George tinha salvado a vida de Sharon
no dia em que lhe cortaram o pescoço, referi-me ao sangue como uma
s u b stância vita l . Bem, o dinheiro também é uma s u bstância vita l .
Thaxter devia liquidar u m a parte do empréstimo. Falido grandilo­
quente, passara-me um cheque so bre o seu banco italiano, o Banco
86 SAUL BELLOW

Ambrosiano de Milão. Porquê o Banco ? E porquê Milão ? Mas tudo


o que Thaxter fazia era fora do comum. Tivera uma educação transa­
tlântica e sentia-se em casa tanto em França como na Califórnia. Não
era possível mencionar uma região, por mais remota que fosse, em
que Thaxter não tivesse um tio, ou interesses numa mina, ou um ve­
lho château ou vil/a. Com os seus hábitos exóticos, Thaxter era outra
das minhas dores de cabeça. Mas não conseguia resistir-lhe. Contudo,
também isso teria de esperar. Só uma coisa ainda: Thaxter queria que
as pessoas acreditassem que tinha sido agente da CIA. Era um rumor
magnífico e ele fez todos os possíveis para o propagar. Servia para au­
mentar o seu lado misterioso, e o mistério era uma das suas pequenas
farsas. Era inofensivo e até encantador. Chegava a ser filantrópico,
como o charme é . . . até certo ponto . O charme tem sempre qualquer
coisa de manobra obscura .
O táxi parou à frente dos Banhos vinte minutos mais cedo, mas eu
não queria ficar a cirandar por ali e por isso, através das aberturas do
plástico à prova de bala, disse ao condutor:
- Continue, siga para oeste. Guie devagar porque quero dar uma
vista de olhos à zona.
O taxista ouviu-me e concordou com um movimento da cabelei­
ra afro. Era uma espécie de enorme dente-de-leão negro, cheio de se­
mentes, inchado, com as brandas espigas sobressaindo em todas as
direções.
Durante os últimos seis meses haviam destruído mais alguns dos
lugares conhecidos do bairro . Era uma coisa a que não deveria dar
muita importância . Não sei explicar porque me incomodou tanto .
Mas eu estava nervoso. Quase me pareceu que me podia ouvir me­
xendo-me e batendo as asas no banco de trás, como um pássaro que
percorresse os mangueirais da sua j uventude, transformados agora em
cemitérios de carros. Nervoso e irritado, observava o exterior pelas ja­
nelas imundas . Um quarteirão inteiro tinha desaparecido. O Restau­
rante Húngaro Lovi's tinha sido arrasado, bem como o salão de bi­
lhar Ben's, a velha garagem de tij olo e a Agência Funerária Gratch's,
que se havia encarregado do funeral dos meus pais. Neste lugar não
era concedido nenhum intervalo pitoresco à eternidade. As ruínas do
passado tinham sido arrasadas com escavadoras, recolhidas, carrega­
das em camiões e utilizadas como enchimento. Novas vigas de aço es­
tavam a ser erguidas. A kielbasa polaca já não estava pendurada nas
o L E G A D O DE H U M B O L DT

montras dos talhos. Os enchidos da carnicería 1 eram das Caraíbas,


enrugados e roxos. Os velhos letreiros das loj as tinham desaparecido.
Os novos diziam << HOY. MUDANZAS. IGLESIA >> 2 .
- Continue para oeste - disse ao taxista. - Passe o parque e de­
pois vire à direita em Kedzie.
A velha avenida era agora uma ruína a desmoronar-se, à espera
dos encarregados da demoliçã o . Pelos enormes buracos podia ver
o interior de apartamentos onde tinha dormido, comido, estudado
e beij ado miúdas. Seria necessário que uma pessoa se odiasse para
permanecer indiferente a tanta destruição, ou, pior, para se regozij ar
com a destruição do espaço desses sentimentos de classe média, para
se alegrar com o facto de a História ter reduzido tudo a escombros.
Com efeito, conheço tipos duros que são assim. São produzidos pelo
próprio bairro . Informadores da polícia metafísico-histórica contra
gente como eu, cujos corações sangram perante a destruição do passa­
do. Mas tinha ido lá para me sentir melancólico, para ficar triste com
os muros e j anelas destroçados, as portas desaparecidas, os materiais
escavacados e os cabos telefónicos arrancados e vendidos como refugo.
Mais propriamente, tinha vindo ver se a casa em que vivera Naomi
Lutz ainda estava de pé. Não estava . Senti-me muito em baixo.
Na minha muito sentimental adolescência, havia amado Naomi
Lutz. Creio que era a mais bela e mais perfeita rapariga que alguma
vez vi; adorava-a, e o amor fez-me exteriorizar as minhas particulari­
dades mais íntimas. O pai era um respeitável pedicuro . Dava-se ares
de grande médico, parecia doutor dos pés à ca beça . A mãe era uma
boa mulher, negligente, estouvada, bastante pusilânime, mas com
grandes olhos brilhantes e românticos. Noite após noite, eu tinha de
j ogar rummy com o Dr. Lutz, e aos domingos aj udava-o a lavar e a
dar brilho ao seu Auburn. Mas isso não era um problema. Enquanto
amei Naomi Lutz senti-me a salvo na vida. Os seus fenómenos conci­
liavam-se, faziam sentido. A morte era afinal de contas uma parte
aceitável da equação. Tinha o meu próprio Lake Country, o parque,
onde passeava com o meu Platão, o meu Wordsworth, o meu Swin­
burne e Un Coeur Simple3 das edições da Modem Library. Mesmo no

1 Em espanhol no original: «Talho . » (N. do T.)


2 Em espanhol no original : << Hoj e . Mudanças. Igrej a . » (N. do T.)
3 Conto de Gustave Flaubert incluído em Três Contos. Em francês no original .

(N. d o T.)
88 SA U L B E LLOW

inverno Naomi e eu acariciávamo-nos atrás do roseiral. Entre os ra­


mos gelados, eu aquecia-me dentro do seu casaco de pele de texugo.
Havia uma deliciosa mistura de cheiro de pele de texugo e fragrância
de donzel a . Respirávamos a geada e beij ávamo-nos. Até conhecer
Demmie Vonghel, muitos anos depois, não amei ninguém como amei
Naomi Lutz. Mas Naomi casou-se com um prestamista enquanto eu
estava em Madison, Wisconsin, a ler poesia e a estudar bilhar no Bar
Rathskeller. Esse homem também negociava em máquinas de escritó­
rio em segunda mão e tinha imenso dinheiro. Eu era demasiado jovem
para pagar a Naomi as despesas que ela fazia no Field's e no Saks,
e creio, aliás, que a assustavam as responsabilidades e encargos men­
tais que advinham do facto de ser mulher de um intelectual. Passara
o tempo a falar dos meus livros da Modem Library, de poesia e His­
tória, e ela temia desapontar-me. Foi o que me disse. Respondi-lhe
que se uma lágrima era uma coisa intelectual, muito mais intelectual
era o amor puro. Eu não precisava de nenhum suplemento cognitivo.
Mas ela limitou-se a uma expressão de perplexidade. Foi este tipo de
conversa que me fez perdê - l a . Nem sequer me procurou quando
o marido perdeu todo o dinheiro e a deixou. Era um desportista, um
j ogador. Acabou por ter de se esconder porque uns mafiosos lhe an­
davam no encalço. Creio mesmo que lhe partiram os tornozelos. Fosse
como fosse, mudou de nome e caminhou ou coxeou para o Sudoeste.
Naomi vendeu a elegante casa de Winnetka e mudou-se para o Parque
Marquette, onde a família tinha uma casa. Arranjou um emprego na
secção de roupa de cama do Field's.
Enquanto o táxi voltava à Rua Division, estabeleci um paralelismo
bastante forçado entre os problemas do marido de Naomi com a Ma­
fia e os meus . Ele também tinha feito borrada. Não pude deixar de
pensar como poderia ter sido ditosa a minha vida se a tivesse partilha­
do com Naomi Lutz. Quinze mil noites a braçando-a e teria rido da
solidão e do tédio da sepultura. Não teria tido necessidade de biblio­
grafia, pastas de ações da Bolsa ou medalhas da Legião de Honra.
De modo que voltámos a atravessar o que se tinha transformado
num bairro de lata tropical das Índias Ocidentais, que lembrava as
zonas de San Juan perto das lagoas borbulhantes e saturadas de chei­
ro a tripas cozidas. Havia o mesmo reboco rachado, vidros estilhaça­
dos, lixo nas ruas, os mesmos letreiros toscamente escritos a giz azul
nas lojas.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

Porém, os Banhos Russos, onde me devia encontrar com Rinal­


do, Canta bile, permaneciam razoavelmente intactos . Também fun­
cionavam como hotel proletário o u pensão . O segundo andar fora
sempre ocupado por envelhecidos tra balhadores, sol itários avós
ucranianos, motoristas de elétrico aposentados, um pasteleiro famo­
so pelos seus merengues que tivera de se reformar porque sofria de
artrite nas mãos. Conhecia aquele lugar desde a infância. O meu pai,
como o velho Sr. Swiebel, havia acreditado que era saudável, benéfi­
co para o sangue, ser esfregado com folhas de carvalho demolhadas
em velhos baldes de salmoura. Ainda existe gente tão retrógrada co­
mo eles, resistente à modernidade, arrastando os pés. Como Menasha,
o nosso hóspede, um físico amador ( embora desej asse acima de tudo
ser tenor dramático e até recebeu lições de canto: tinha tra balhado
na Brunswick Phonograph como operador de prensa de perfuração ) ,
me explicou u m a vez, os seres humanos podiam influenciar a rota­
ção da Terra . De que maneira ? Pois bem, se a espécie humana intei­
ra, num dado momento, se pusesse a arrastar os pés, o movimento
de revolução do Planeta efetivamente abrandaria. Isto poderia igual­
mente afetar a lua e as marés. É claro que o tema que realmente inte­
ressava a Menasha não era a física mas a concórdia ou a unidade.
Acho que alguns, por estupidez, e outros, por perversidade, arrasta­
riam os pés no sentido errado. Contudo, os velhos dos Banhos pare­
cem estar inconscientemente empenhados numa tentativa coletiva de
resistir à História.
Esses frequentadores dos banhos de vapor da Rua Division não
eram nada parecidos com as pessoas presunçosas e bem vestidas do
centro da cidade. Até o velho Feldstein, pedalando na Exercycle no
Downtown Club aos oitenta anos, estaria deslocado na Rua D ivi­
sion. Há quarenta anos Feldstein era um borguista, um esbanj ador,
um valdevinas da Rua Rush. A despeito de sua idade, é um homem
do seu tempo, enquanto os clientes dos Banhos Russos estão molda­
dos à moda antig a . Têm nádegas cheias e peitos gordos tão ama­
relentos como soro de leite . Apoiam-se em pernas grossas como
colunas, atacadas por uma espécie de verdete ou por manchas azula­
das, como alguns queij os, que sobem dos tornozelos. Depois do ba­
nho de vapor, estes velhotes comem enormes nacos de pão e arenque
salgado ou grandes fatias ovais de salame e bifes em sangue, e bebem
SAUL BELLOW

schnapps 1 • Poderiam derrubar muros com os seus rij os e nutridos ven­


tres. Aqui as coisas são muito elementares. Sente-se que estas pessoas
quase têm consciência da sua obsolescência, de que fazem parte de
uma linha de evolução abandonada pela natureza e pela cultura . As­
sim, nas sobreaquecidas caves, todos estes trogloditas eslavos, estes
demónios dos bosques, com postas de gordura pendentes e pernas de
pedra e líquen, deixam-se cozer e despej am baldes de água gelada na
cabeça . No andar de cima, no ecrã de televisão do átrio, peralvilhos
e gajas sorridentes mantêm conversas engenhosas ou saltitam para
cima e para baixo . Ninguém lhes presta atenção. Mickey, que tem
a concessão da comida, frita grossas fatias de carne e panquecas de
batata e, com umas facas enormes, retalha repolhos para salada e cor­
ta toranjas em gomos ( para serem comidos à mão ) . Os velhos corpu­
lentos, que saem do calor sufocante enrolados em lençóis, têm um
apetite voraz. Em baixo, Franush, o funcionário, produz vapor dei­
tando água nas pedras em brasa. Estas formam uma pilha, como se
fossem munições romanas . Para evitar que lhe ferva o cérebro, Fra­
nush usa um chapéu de feltro molhado com aba rasgada. Fora isso,
está nu. Desliza como uma salamandra vermelha, segurando uma
vara para fazer girar o fecho da fornalha, que está muito quente para
que se lhe possa tocar, e então, de gatas, com os testículos a baloiçar
com um comprido tendão e o ânus limpo bem à mostra, retrocede
e procura às apalpadelas o balde. Atira a água lá para dentro e as
grandes pedras faíscam e chiam. Nem sequer nos Cárpatos deve haver
uma aldeia em que estas práticas subsistam.
Fiel a este lugar, o Pai Swiebel, Myron, frequentava-o todos os
dias da sua existência. Trazia arenque, pão de centeio integral com
manteiga, cebolas cruas e bourbon. Guiava um Plymouth embora não
tivesse carta de condução. Via bastante bem em linha reta, mas tinha
cataratas em ambos os olhos, de modo que roçava por vários carros
e provocava muitos estragos no estacionamento.
Entrei para fazer um reconhecimento . Estava um pouco ansioso
por causa de George, cujos conselhos me meteram neste aperto . Mas
já sabia de antemão que eram maus conselhos . Por que razão os se­
gui ? Porque elevara a voz em tom autoritário ? Porque se gabara de

1 Em alemão no original: << Aguardente. >> (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 9I

ser um entendido em assuntos do submundo e deixei que vendesse


o seu peixe ? A verdade é que eu não havia usado o meu melhor dis­
cernimento. Mas agora estava alerta e acreditava ser capaz de mani­
pular Cantabile. Pensava que Cantabile já descarregara a raiva no car­
ro e que a dívida estava mais que paga.
Perguntei ao concessionário do restaurante, Mickey, que estava
rodeado de fumo atrás do balcão a grelhar grossos bifes e a fritar ce­
bolas:
- O George j á veio ? Sabes se o pai espera que ele venha ?
Pensava que se George estivesse lá era improvável que Canta bile
irrompesse vestido nos banhos para o agredir, dar-lhe uma sova ou
pontapeá-lo. É claro que Cantabile era uma incógnita . Não era possí­
vel antecipar o que poderia fazer. Quer movido pela raiva quer por
frio calculismo.
- O George não está . O velho está na sala de vapor.
- Bem. Está à espera do filho ?
- Não. O George esteve cá no domingo, portanto hoj e não vem.
Só vem com o pai uma vez por semana.
- Ótimo. Excelente !
Com a compleição de um segurança de espaços de diversão notur­
na, Mickey tem braços enormes e o lábio torcido e usa um avental
amarrado bem alto, logo abaixo dos sovacos. D urante a Depressão
viu-se forçado a dormir em parques e o chão frio causou-lhe uma pa­
ralisia parcial da face, o que leva a pensar que está a zombar ou a es­
carnecer. Uma impressão enganadora . É uma pessoa honesta, gentil
e pacífica . Um apreciador de música que compra a assinatura para
a temporada na Lyric Opera .
- Há muito que não te via, Charlie. Vai ter com o velhote; ficará
contente com a tua companhia .
Mas voltei rapidamente a sair, passando pela receção/caixa com as
pequenas gavetas de aço onde os clientes guardavam os seus pertences
de valor. Ultrapassei a coluna serpenteante da barbearia e, quando
cheguei ao passeio com o chão co berto por uma camada de vidros
partidos tão densa como uma galáxia estrelada, um Thunderbird
branco parou diante da salsicharia porto-riquenha que havia do outro
lado da rua e Ronald Cantabile abriu a porta do carro e saiu. Mais do
que sair deveria dizer que brotou. Vi que estava absolutamente impe­
cável. Vestindo um sobretudo de mangas raglã castanho que condizia
92 S A U L B E LLOW

com o chapéu e botas de pelica castanho-amareladas, era um homem


alto e bem-parecido. Já lhe tinha notado o bigode escuro e farto no
j ogo de póquer. Lembrava pelo macio de animal. Todavia, sob a cre­
pitante elegância do vestuário havia uma tensão, um ímpeto desespe­
rado, de modo que, por assim dizer, o homem brotava em raiva do
pescoço para cima . Embora estivesse do outro lado da rua, era possí­
vel perceber que estava lívido de fúria. Fizera por exaltar-se para me
intimidar, foi o que pensei. Mas também notei que dava passos pouco
habituais. Os pés moviam-se de uma maneira estranha . Carros e ca­
miões passavam entre nós, impedindo-o de atravessar a rua. Por bai­
xo dos veículos consegui ver que tentava fintá-los. As botas eram re­
quintadas. Na primeira aberta que o trânsito lhe concedeu, Cantabile
abriu o casaco de mangas raglã. Usava um magnífico cinturão largo .
Mas não era por certo o cinturão o que queria exibir. Ao lado da five­
la, despontava uma coisa . Pousou-lhe a mão em cima . Queria que eu
soubesse que estava armado. O trânsito reiniciou-se e Cantabile ficou
a saltitar, lançando-me olhares de ferocidade por cima do tej adilho
dos automóveis. Num ato de tensão extrema, mal o último camião
passou, gritou na minha direção:
- Estás sozinho?
- Estou. Estou sozinho.
Ergueu-se esticando os ombros com uma peculiar intensidade.
- Tens alguém escondido por aí?
- Não. Estou sozinho. Não há mais ninguém.
Abriu a porta e tirou dois tacos de beisebol do chão. Com um em
cada mão, encaminhou-se para mim. Uma furgoneta interpôs-se entre
nós. Naquele momento só era possível ver-lhe as botas que se mo­
viam com rapidez. Pensei: j á percebeu que venho pagar. Para quê dar­
-me uma sova ? Deve saber que não posso fazer nada contra ele. Já ti­
nha deixado claras as suas intenções com o que fizera ao carro. E vi
a arma dele. Devo desatar a correr ? Desde a minha descoberta, no
Dia de Ação de Graças, de que ainda era capaz de correr, parecia es­
tranhamente disposto a tirar partido dessa aptidão. A velocidade era
um de meus recursos. Algumas pessoas são mais rápidas do que, para
seu próprio bem, lhes conviria, como Asahel no Livro de Samuel.
Ocorreu-me ainda que podia lançar-me pelas escadas dos Banhos aci­
ma e refugiar-me j unto do rececionista, onde estavam as caixas de aço.
o L E G A D O DE H U M B O LDT 93

Podia agachar-me e pedir a o rececionista que entregasse os quatrocen­


tos e cinquenta dólares a Cantabile pelo guiché. Conhecia razoavel­
mente bem o rececionista . Mas nunca me deixaria entrar. Não podia .
Eu não tinha ficado em depósito . Numa ocasião havia-se referido
a esta circunstância especial quando estávamos a conversar. Mas cus­
tava-me a acreditar que Cantabile me fosse agredir. Pelo menos não
faria isso na rua. Não enquanto eu estivesse à espera de cabeça baixa .
E nesse preciso instante lembrei-me das pesquisas de Konrad Lorenz
sobre lobos. O lobo vencido oferecia a garganta e o vencedor a boca­
nhava-o mas não mordia . De modo que inclinei a cabeça . Sim, mas
maldita memória! O que é que Lorenz disse a seguir ? Que a Humani­
dade era diferente, mas sob que aspeto ? Bolas! Não era capaz de me
lembrar. O meu cérebro estava a desintegrar-se. No dia anterior, na
casa de banho, tinha sido incapaz de encontrar a palavra que designa­
va o isolamento dos contagiosos e angustiei-me. Pensei, a quem devo
telefonar para falar nisto ? Estava a perder a cabeça . E então levantei­
-me e agarrei-me ao lavatório até que piedosamente a palavra << qua­
rentena >> me acudiu ao espírito . Sim, quarentena, mas estava a perder
o controlo . Levo estas coisas muito a sério . A memória do meu pai
também lhe falhou na velhice. Por isso, estava abalado. Não cheguei
a lembrar-me de qual era a diferença entre o Homem e as outras espé­
cies, como a dos lobos. Talvez o lapso fosse desculpável numa situa­
ção como aquela. Mas também servia para demonstrar como, naque­
les tempos, andava a ler descuidadamente. Essa falta de atenção e de
memória não pressagiava nada de bom.
Logo que p a s s o u a última leva de carros, Cantabile começou
a avançar a largas passadas com os dois tacos como fosse atirar-se
a mim de imediato. Mas gritei:
- Pelo amor de Deus, Cantabile !
Estacou. Levantei as mãos com as palmas à vista. Então atirou um
dos tacos para dentro do Thunderbird e encaminhou-se para mim
com o outro.
Gritei-lhe outra vez:
- Trouxe o dinheiro. Não é preciso rebentar-me os miolos.
- Estás armado?
- Não.
- Vem até aqui - exigiu.
Comecei a atravessar obedientemente a rua. Mandou-me parar
a me10.
94 S A U L B E L LOW

- Estás bem aí - disse.


Fiquei no meio do intenso trânsito: os carros buzinavam e os con­
dutores exasperados abriam as janelas, furiosos. Cantabile arremessou
o segundo taco para dentro do T-bird e depois correu para mim, agar­
rando-me com rudeza . Tratava-me como se fosse merecedor da pena
máxima. Estendi-lhe o dinheiro, que lhe ofereci ali mesmo. Mas nem se
dignou a olhar para ele. Furioso, empurrou-me para o passeio e a se­
guir, passando pelas colunas serpenteantes vermelhas, azuis e brancas
da barbearia, até às escadas dos Banhos. Entrámos, passámos diante do
guichê, do rececionista e chegámos ao corredor imundo.
- Continua, continua - disse Cantabile.
- Aonde queres ir?
- À retrete. Onde é ?
- Não queres a massa ?
- Eu disse retrete ! Retrete !
Só então compreendi: os intestinos dele estavam a apertá-lo, uma
cólica súbita, precisava de ir à casa de banho, e eu tinha de ir com ele.
Não ia permitir que esperasse por ele na rua .
- Está bem - disse eu. - Calma, que j á mostro o caminho.
Seguiu-me através do vestiário. A retrete não tinha porta . Só os re­
servados individuais têm. Indiquei-lhe que seguisse em frente e dispu­
nha-me a sentar-me num dos bancos do vestiário contíguo quando me
deu um forte empurrão no ombro e me obrigou a avançar. Estas re­
tretes são o que os Banhos têm de pior. Os caloríferos emitem um ca­
lor seco que aturde. Os azulej os nunca são lavados nem desinfetados.
Um fedor quente e seco a urina invade-nos os olhos como vapores de
cebola .
- Meu Deus! - exclamou Cantabile. Comigo ainda à sua frente,
a briu a porta do reservado com um pontapé . - Entra primeiro ­
disse.
- Os dois ?
- Depressa.
- Só há lugar para um.
Sacou do revólver com força e agitou a coronha diante da minha
cara .
- Queres levar com isto nos dentes ? - O denso velo negro do bi­
gode expandiu-se ao mesmo tempo que se distendiam os lábios no
rosto alterado. As sobrancelhas uniam-se no alto do nariz como o pu­
nho de uma grande adaga. - Vai para o canto !
Ü LEGADO DE H U M B O LDT 95

Bateu a porta com violência e, ofegante, despiu-se. Atirou-me


o sobretudo e o chapéu para os braços, embora houvesse um cabide.
Havia também uma peça metálica na qual nunca tinha reparado: pre­
gado à porta, um acessório de latão com o rótulo Charuto, um toque
de classe dos velhos tempos. Sentou-se e segurou a arma entre as pal­
mas, com as mãos entre os j oelhos, enquanto fechava e abria os olhos
desmesuradamente.
Numa situação como esta sou capaz de me abstrair para me pôr
a refletir sobre a condição humana em geral. É evidente que Cantabile
queria humilhar-me. Por eu ser um chevalier da Légion d'honneur?
Não que soubesse realmente isso. Mas estava perfeitamente a par de
que eu era, como se dizia em Chicago, um Cérebro, um homem de
cultura ou de mérito intelectual . Era essa a razão pela qual me via
obrigado a ouvir os bramidos das tripas dele a esvaziarem-se e a chei­
rar o fedor que largava ? Talvez as alucinações selvagens e monstruo­
sas de me rebentar com os miolos lhe tivessem soltado os intestinos.
A Humanidade está repleta de invenções nervosas deste género e co­
mecei a pensar ( para me distrair) em todos os volumes sobre o com­
portamento dos símios que tinha lido no passado, de Kohler, Yerkes
e Zuckermann, de Marais sobre os babuínos e de Schaller sobre os
gorilas, e do rico repertório de sensibilidades víscera-emocionais do
ramo dos antropoides. Era até possível que fosse uma pessoa mais li­
mitada do que um tipo como Canta bile apesar da minha dedicação
ao mundo das realizações intelectuais. Porque nunca me teria ocorri­
do descarregar a minha ira em cima de outro ser humano daquela
maneira. Isto podia ser um indício de que o talento vital e a imagina­
ção natural dele eram mais férteis e pródigos do que os meus. Deste
modo, adotando um pensamento positivo, fiquei tranquilamente à es­
pera enquanto ele permanecia agachado, com as sobrancelhas carre­
gadas como adagas. Era um homem atraente e elegante, com ca belo
naturalmente ondulado. Usava-o cortado tão rente que se podia ver a
raiz das ondas e eu fixei-me na marcada contração do couro cabeludo
naquele momento de tensão. Queria infligir-me um castigo, mas o
único resultado era tornar-nos mais íntimos.
Quando se ergueu, limpou-se, endireitou as pontas da camisa, aper­
tando as calças com a larga fivela oval e voltou a guardar a arma (tinha
a esperança de que estivesse travada ), como estava a dizer, quando en­
fiou nas calças as fraldas da camisa e afivelou o cinto elegante à altura
SAUL BELLOW

dos quadris, entalando nele a pistola, carregando o autoclismo com


a bota pontiaguda e macia - era excessivamente afetado para carre­
gar na alavanca com a mão -, disse:
- Meu Deus, se apanhar chatos aqui . . . - como se aquilo fosse
culpa minha. Era indubitavelmente um tipo violento e implacável que
arranj ava culpados para tudo. Acrescentou: - Não sabes como detes­
tei ter-me sentado aqui. Estes velhos devem mij ar nas tampas das sa­
nitas. - Também isto me foi debitado. A seguir perguntou: - Quem
é o dono desta choldra ?
Ora ali estava uma pergunta fascinante. Nunca me tinha ocorrido
colocá-la. Os Banhos eram antiquíssimos, como as Pirâmides do Egito
e os Jardins de Assurbanípal. Era como água à procura do seu nível
ou como a força da gravidade. Mas quem, de facto, era o seu proprie­
tário?
- Nunca ouvi falar de um proprietário - respondi . - Ao que
sei, é de um grupo da Colúmbia Britânica.
- Não te armes em esperto . Gosta mesmo de te armar em esperti­
nho . Perguntei só por perguntar. Encarrego-me de descobrir quem é .
Para abrir a torneira utilizou u m pedaço d e papel higiénico. Lavou
as mãos sem sabão, porque a gerência não o fornecia. Mostrei-lhe ou­
tra vez a s nove notas de cinquenta dólares. Nem sequer para elas
olhou. Disse:
- Tenho as mãos molhadas.
Não quis usar a toalha de rolo. Tenho de convir que estava tão
suj a e gordurosa que causava asco, embora houvesse alguma origina­
lidade na imundície. Estendi-lhe o meu lenço mas ignorou - o . Não
queria que a sua raiva abrandasse. Abrindo bem os dedos, sacudiu as
mãos para as tentar secar. Enoj ado com a suj idade do lugar, disse:
- E é a isto que chamam Banhos ?
- Bom - retorqui -, os banhos são no andar de baixo.
Em baixo havia duas longas filas de chuveiros que iam até às pesa­
das portas de madeira da sala de vapor. E também uma pequena tina
para o banho frio de imersão . A água era mudada uma vez por ano
e, quanto a mim, assemelhava-se ao habitat natural dos crocodilos.
Cantabile dirigiu-se a passos largos para o balcão do bar e eu se­
gui-o. Secou as mãos com guardanapos de papel que arrancou com
gestos irritados do suporte metálico. Amarfanhou os delicados papéis
estampados e atirou-os para o chão. Voltou-se para Mickey e disse-lhe:
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 97

- Por que raio é que não há sabão e toalhas na retrete ? Por que
razão não lavam aquela merda ? Nem desinfetante há.
Mickey era uma pessoa muito afável e respondeu:
- Ah não ? Joe é que se encarrega disso. Compro-lhe Top ]oh
e Liso/. - Disse a Joe: - Deixaste de pôr naftalina lá ?
Joe era negro e velho, e não respondeu. Estava encostado à cadeira
de engraxador com pedestais de latão, as pernas para cima e os pés
imóveis ( reminiscência dos meus próprios pés e pernas quando fazia
o exercício de ioga ) . Joe estava ali para nos lembrar a todos de algu­
mas considerações remotas e importantes e não respondia a nenhuma
pergunta profana.
- Pois meu rapaz a partir de agora é a mim que vais comprar
tudo - disse Canta bile. - Desinfetante, sabão líquido, toalhas de
p a p e l , t u d o . Chamo-me Canta b i l e . Tenho uma loj a de produtos
de limpeza na Avenida Clybourne.
Tirou do bolso uma comprida carteira de pele de avestruz muito
manuseada e lançou vários cartões comerciais para cima do balcão.
- Não sou o patrão - disse Mickey. - Sou apenas o concessio-
nário do restaurante.
Mas pegou num cartão com deferência.
- Pois é melhor que tenha notícias vossas.
- Darei conta disso à gerência. Fica no centro da cidade.
- Mickey, quem é o dono dos Banhos ? - perguntei.
- Só conheço a gerência, no centro.
Seria curioso, pensei, se no fim de contas os Banhos pertencessem
à Mafia.
- O George Swiebel está cá ? - perguntou Cantabile.
- Não.
- Bom, quero deixar-lhe um recado.
- Vou-lhe arranjar uma coisa onde possa escrever - disse Mickey.
- Nã o vou escrever nada. D iz-lhe que é um cretino de merd a .
Diz-lhe que fui e u que disse.
Mickey, que tinha posto os óculos para procurar um pedaço de
papel, voltou para nós os quatro olhos como se dissesse que aquilo
não era assunto dele, que se limitava a tratar de salada de repolho
cru, de bifes e peixe de água doce. Cantabile não perguntou pelo ve­
lho Myron, que estava na sala de vapor.
SAUL BELLOW

Saímos. O tempo tinha subitamente clareado. Não conseguia deci­


dir se o tempo nublado se adaptava melhor ao meio ambiente do que
o céu claro. O ar estava frio, a luz límpida e as sombras projetadas pe­
los prédios escurecidos dividiam os passeios.
- Bem, agora deixe que lhe dê o dinheiro. Trouxe notas novas. Isto
deve pôr um ponto final na questão, senhor Cantabile.
- O quê, não querias mais nada ? Achas que é assim tão fácil ? ­
disse Rinaldo.
- Bem, peço desculpa. Não devia ter acontecido . Lamento muito.
- Lamentas! O que tu lamentas é teres o carro desfeito. Mandaste
cancelar um cheque, Citrine. Toda a gente comentou. Toda a gente
sabe. Achas que posso permitir uma coisa dessas ?
- Senhor Cantabile, quem é que s a b e . . . quem é toda a gente ?
O que é assim tão sério ? Eu cometi um erro.
- Um erro ? Chimpanzé da merda . . .
- Está bem, fui estúpido.
- O teu amigo George diz-te que canceles um cheque e tu obede-
ces. Aceitas todos os conselhos que esse asno te dá ? Por que razão
é que ele não nos apanhou, ao Emil e a mim, em flagrante ? Primeiro
convence-te a fazer esta burrice de não pagar e depois tu, ele, o canga­
lheiro, o tipo dos smokings e os outros palermas espalham o mexerico
de que Ronald Cantabile é um lorpa. Homem, não serias capaz de le­
var a tua avante. Não percebes isso ?
- Sim, agora percebo.
- Não, não sei se perce bes. Estive a o bservar-te durante o j ogo
e não te entendo . Quando é que vais fazer alguma coisa sabendo
o que estás a fazer?
Pronunciou as últimas palavras lentamente, acentuando-as com
veemência e atirando-mas à cara . Então deitou a mão ao casaco, que
eu ainda segurava, o magnífico raglã castanho com grandes botões.
Circe devia ter tido botões como aqueles na sua caixa de costur a .
Eram realmente muito bonitos, como botões de um tesouro oriental.
A última vez que tinha visto uma peça de vestuário parecida com
aquela era usada pelo falecido coronel McCormick. Nessa altura tinha
eu cerca de doze anos. A limusina dele tinha estacionado diante da Tri­
bune Tower e dois homens atarracados saíram. Cada um empunhava
Ü L E G A D O DE H u M B O L DT 99

duas pistolas, agacharam-se e deram u m a volta no passeio. Então,


naquele cenário de quatro armas, o coronel saiu do carro vestido um
sobretudo cor de tabaco como o de Cantabile e um chapéu de abas
retorcidas com uma penugem áspera e brilhante . O vento era forte,
o ar cristalino e o chapéu brilhava como um canteiro de urtigas.
- Acha que não sei o que estou a fazer, senhor Cantabile ?
- Não sabes não. Serias incapaz até de encontrar o cu com ambas
as mãos.
Bem, talvez pudesse ter razão . Mas pelo menos eu não estava a
crucificar ninguém. Aparentemente a vida não era para mim o que era
para os outros . Por qualquer razão indecifrável, ela era diferente para
eles e por isso eu não era o melhor árbitro dos seus desej os e preocupa­
ções. Consciente disto, cedia a esses desej os mais do que seria razoável.
Cedi à experiência em matéria de marginalidade de George. E agora
curvava-me diante de Cantabile. O meu único recurso era tentar lem­
brar-me de coisas úteis extraídas das minhas leituras etológicas sobre
ratos, gansos, barbos e moscas. Para que servem tantas leituras se não
podem ser utilizadas em caso de apuros ? Só desej ava ter algum pro­
veito intelectual.
- Bom, e quanto a estas notas de cinquenta dólares ? - perguntei.
- Já te digo quando estiver pronto para as arrecadar - respon-
deu. - Não gostaste do que aconteceu ao teu carro, pois não ?
- É uma bela máquina. Foi uma verdadeira crueldade o que lhe
fizeram.
Ao que parecia, os tacos com que me ameaçara eram os mesmos
que tinha utilizado no Mercedes e provavelmente havia mais armas de
assalto no banco traseiro do Thunderbird. Fez-me entrar naquele car­
ro escandaloso Tinha assentos desportivos, de couro, tão vermelhos
como sangue derramado, e um imenso painel de instrumentos. Arran­
cou a toda velocidade, como um corredor ilegal adolescente, e os
pneus chiaram.
No carro, comecei a ter uma impressão levemente distinta dele.
Visto de perfil, o nariz dele terminava numa espécie de bolbo branco,
intensa e anormalmente branco . Lembrava um bocado de gesso com
rugas escuras. Os olhos eram maiores do que deveriam ser, talvez ar­
tificialmente dilatados. A boca era larga, com um lábio inferior nervo­
so onde havia a sugestão de um esforço antigo para parecer adulto.
1 00 S A U L B E L LOW

Os grandes pés e os olhos escuros também insinuavam que aspirava


a um ideal e que a obtenção parcial - ou a não obtenção - desse
ideal era para ele uma forte con trariedade. As minhas suspeita s eram
de que o ideal podia ser instável.
- Quem é que combateu no Vietname ? O senhor ou o seu primo
Emil ?
Estávamos a circular para leste na Rua Division. Agarrava o vo­
lante com ambas as mãos como se fosse um martelo pneumático para
levantar o asfalto.
- O quê ? O Emil no exército ? Esse rapaz ? Nunca ! Deram-no como
psicologicamente incapaz, é praticamente doido. Não, a maior batalha
que Emil viu foram os distúrbios de mil novecentos e sessenta e oito
diante do Hilton. Deixou-se levar e nem sequer sabia de que lado esta­
va. Não, eu é que estive no Vietname. Os meus pais mandaram-me para
aquele repelente colégio católico perto de Saint Louis sobre o qual falei
no jogo de póquer, mas fugi e alistei-me. Isso foi há bastante tempo.
- Entrou em combate ?
- Vou-te contar o que queres ouvir. Roubei um camião-cisterna
de gasolina . . . o camião, o reboque e o resto . Vendi-o a uns tipos do
mercado negro . Fui apanhado, mas a minha família fez um acordo .
Com a ajuda do senador Dirksen. Só apanhei oito meses de cadeia.
Tinha antecedentes por mérito próprio . E queria que eu soubesse
que era um genuíno Cantabile, um dos que remontavam aos anos 20
e não um Tio << Chupista >> qualquer. Uma prisão militar - tinha pedi­
gree criminal, o que lhe permitia meter medo com as suas próprias
credenciais. Por outro lado, era óbvio que os Canta biles pertenciam
a uma espécie inferior de criminosos, como testemunhava a loj a de
desinfetantes de casa de banho na Avenida Clybourne. Talvez tives­
sem também uma ou duas casas de câmbio - a s casas de câmbio
eram geralmente propriedade de ex-criminosos de segunda. Ou no ra­
mo da exterminação de pragas, outra das suas atividades habituais.
Era óbvio que Cantabile j ogava nas divisões inferiores. Talvez nem se­
quer j ogasse em nenhuma . Como cidadão de Chicago, eu sabia algu­
ma coisa sobre estas coisas. Um verdadeiro chefe contratava quem lhe
tratasse destes assuntos. Nenhum Vito Langobardi andaria com tacos
de beisebol no assento traseiro do carro . Um Langobardi ia à Suíça
praticar desportos de inverno. Até o cão dele viajava em primeira
classe. Há muitas décadas que nenhum Langobardi participava direta­
mente em qualquer ato de violência. Não, este nervoso e ambicioso
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 101

Cantabile de alma turva estava do lado de fora a tentar entrar. Per­


tencia àquele género de empresários inaceitáveis que a Divisão de Sa­
neamento retirava dos esgotos depois de três meses de decomposição.
De vez em quando, algumas destas pessoas eram encontradas nos
porta-bagagens de automóveis estacionados no aeroporto . O peso do
cadáver na parte de trás era contrabalançado com um pequeno bloco
de cimento colocado no motor.
No cruzamento seguinte Rinaldo passou deliberadamente um sinal
vermelho. Avançou o para-choques do carro e os outros condutores
acobardaram-se. Era um tipo elegante, vistoso. Os assentos do T-bird
eram forrados de couro macio - tão macio, tão carmesim ! Usava
o tipo de luvas que era comprado por cavaleiros no Abercrombie &
Fitch. Na via rápida virou à direita, acelerou na rampa e integrou-se
no trânsito caótico. Vários carros travaram a fundo atrás de nós. Ou­
via uma estação de rádio de rock . Reconheci o perfume de Cantabile:
Canoe. Uma vez, no Natal, uma cega chamada Muriel tinha-me ofe­
recido um frasco.
Na esquálida retrete dos Banhos Russos, quando ele tinha arriado
as calças e eu estava a pensar nos símios de Zuckermann no Jardim
Zoológico de Londres, ficara perfeitamente claro que o que se estava
a passar ali tinha que ver com o talento plástico e histriónico da cria­
tura humana . Por outras palavras, eu estava a participar numa dra­
matização. Contudo, se ele tivesse disparado a arma que segurava en­
tre os j oelhos, a imagem dos Cantabiles não teria melhorado. Rinaldo
ter-se-ia parecido demasiado com o tio maluco que desgraçara a famí­
lia. Isso, pensei, era a questão.

Estaria com medo de Cantabile ? É claro que não. Não sei o que
ele pensava, mas eu tinha as ideias perfeitamente claras. Absorto na
tarefa de determinar o que é um ser humano, continuei com o j ogo.
Cantabile devia j ulgar que estava a maltratar um homem passivo. De
maneira nenhuma. Eu era um homem ativo em qualquer situação. No
jogo de póquer tive um vislumbre visionário de quem era este Canta­
bile. É evidente que nessa noite eu estava bastante bebido, para não
dizer completamente bêbedo, mas vi o gume do espírito dele a elevar­
-se, nas suas costas. Assim, quando Cantabile gritava e ameaçava, não
me preocupava em fazer finca-pé no meu amor-próprio . << Ninguém
I02 S A U L B E L LOW

trata o Charlie Citrine desta maneira; vou à polícia >> , e assim por
diante. Não, a polícia não tinha nada para me mostrar. Cantabile ha­
via-me causado uma forte e peculiar impressão.
O que é um ser humano . . . Tive sempre uma perceção muito estra­
nha a este respeito . Embora não tivesse de viver no país dos cavalos,
como o Dr. Gulliver, a minha perceção da Humanidade já era bastan­
te particular sem necessidade de viaj ar. Em boa verdade viajei não
para procurar excentricidades no estrangeiro mas para me afastar de­
las. Também me senti atraído pelos idealistas filosóficos porque tinha
a certeza absoluta de que isto não podia ser a coisa. Platão, no Mito
de Er1 , confirmou-me que esta não era a primeira vez que passava por
aqui. Todos havíamos estado aqui antes e voltado. Existia outro lu­
gar. Talvez um homem como eu tenha renascido com imperfeições.
Supõe-se que a alma sej a selada pelo esquecimento antes de retornar
à vida terrena. Seria possível que meu olvido fosse ligeiramente defei­
tuoso. Nunca fui um platónico confesso. Nunca consegui acreditar
que se pudesse reencarnar num pássaro ou num peixe. Nenhuma
alma que tivesse sido humana poderia estar encerrada no corpo de
uma aranha. No meu caso ( que suspeito não ser assim tão raro ) pode
ter havido um esq uecimento incompleto da vida pura da alma, de
modo que a condição mineral da reencarnação parecesse anormal
e desde a mais tenra idade desconcertava-me que os olhos se moves­
sem nas caras, os narizes respirassem, as peles suassem, os cabelos
crescessem, ou coisas do género, e tudo isso me parecia cómico. Às
vezes, este desconcerto era ofensivo para as pessoas que tinham nascido
em total olvido da sua imortalidade.
Isto leva-me a recordar e a contar um maravilhoso dia de primave­
ra e um meio-dia repleto das mais densas e silenciosas nuvens bran­
cas, nuvens que formavam figuras de touros, animais gigantescos e
dragões. Estamos em Appleton, Wisconsin, e eu sou adulto e, em cima
de uma caixa, tento ver, da rua, o interior do quarto onde nasci em
1 9 1 8 . Provavelmente também lá fui concebido e destinado pela sabedo­
ria divina a aparecer no mundo como fulano de tal, com estes e aqueles
traços ( C . Citrine, Prémio Pul itzer, Legião de Honra, pai de Lish e
Mary, marido de A, amante de B, uma pessoa séria e um tanto excên­
trica ) . E por que razão estava esta pessoa empoleirada numa caixa,

1 Platão, A República, Livro X . (N. do T.)


o L E G A D O DE H U M B O L DT 1 03

parcialmente oculta pelos esguios ramos e folhas lustrosas de um lilás


em flor? E sem pedir autorização à dona da casa ? Tinha batido à por­
ta e tocado à campainha mas n i nguém respondera . E agora tinha
o marido atrás de mim. Era dono de uma bomba de gasolina. Disse­
-lhe quem era. Ao princípio mostrou-se pouco recetivo . Mas expli­
quei-lhe que tinha nascido ali e perguntei-lhe, dando-lhe nomes, por
antigos vizinhos. Lembrava-se dos Saunders ? Bem, eram primos dele.
Isto livrou-me de um soco no nariz por estar a bisbilhotar. Não podia
dizer: << Estou em cima desta caixa, no meio destes lilases, tentando re­
solver o enigma do Homem e não para ver a sua roliça mulher de cal­
cinhas . » Que era, na verdade, o que estava a ver. O nascimento é dor
( uma dor que pode ser contrariada pela intercessão ) mas, no quarto
em que nasci, contemplava, com íntimo pesar, uma mulher velha e
gorda de calcinhas. Com grande presença de espírito, fingiu não ter
visto a minha cara atrás do cortinado, saiu lentamente do quarto e te­
lefonou ao marido, que veio a correr da bomba de gasolina e me apa­
nhou em flagrante, pondo as mãos gordurosas no meu requintado fato
cinzento (estava no auge do meu período de elegância). Mas consegui
explicar que estava em Appleton para preparar um artigo sobre Harry
Houdini, também natural da terra - como já mencionei obsessiva­
mente - e senti um súbito desej o de olhar para o quarto onde havia
nascido.
- Pois o que conseguiu foi dar uma vista de olhos à patroa.
Não ficou aborrecido. Acho que compreendeu . Estes assuntos do
espírito são ampla e instantaneamente captados. Exceto, é claro, por
pessoas que estão entrincheiradas em posições mu ito fortificadas,
adversários mentais treinados para resistir àquilo que todos nascem
sabendo.
Logo que vi Rinaldo Cantabile à mesa da cozinha de George Swie­
bel, soube que havia uma ligação natural entre nós.

Estava a ser levado para o Playboy Club. Rinaldo era sócio. Afas­
tou-se rapidamente do supercarro, o Bechstein dos automóveis, entre­
gando-o ao rapaz do estacionamento. A coelhinha do bengaleiro co­
nhec i a - o . Pela sua atitude no c l u b e , comecei a compreender que
a minha tarefa era retratar-me publicamente . Os Cantabiles tinham
sido desafiados. Talvez Rinaldo fosse obrigado, por um conselho de
família, a reparar os danos feitos ao seu bom mau nome. E a reparação
1 04 SAUL BELLOW

da sua reputação ia-lhe custar um dia - um dia inteiro. E havia tan­


tas necessidades prementes, e eu já tinha tido tantas dores de cabeça
.
que podia j ustificadamente implorar ao destino que me desse um sal­
vo-conduto. Tinha razões de bastante peso.
- A malta está cá ?
Entregou o sobretudo e eu fiz o mesmo. Entrámos na opulência,
na penumbra, no tapete grosso do bar, onde as garrafas brilhavam e
sensuais formas femininas iam e vinham à luz ambarina. Levou-me
pelo braço até o elevador e subimos imediatamente até ao último
andar.
- Vamos ver umas pessoas - disse Cantabile. - Quando te fizer
sinal, pagas-me e pedes desculpa .
Detivemo-nos diante de uma mesa.
- Bill, queria apresentar-te o Charlie Citrine - disse Ronald a Bill.
- Ei, Mike, este é o Ronald Cantabile - disse Bill imediatamente.
O resto foi: Ei, como está ? , sente-se, que vai beber ?
Bill era-me desconhecido, mas Mike era Mike Schneiderman, o co­
lunista social. Homem corpulento, pesado, forte, bronzeado, tacitur­
no, ar cansado, tinha o cabelo cortado rente, uns botões de punho tão
grandes como os olhos e uma gravata de brocado de seda que lhe
pendia do pescoço como um penduricalho. Parecia arrogante, sono­
lento e enrugado, como aqueles índios de Oklahoma que enriquece­
ram graças ao petróleo. Bebia um old-fashioned1 e segurava um cha­
ruto . O ofício dele consistia em sentar-se com pessoas em bares e
restaurantes. Eu era demasiado volátil para um tra balho sedentário
daquele género e não conseguia entender como era feito. Mas, na ver­
dade, também não compreendia o trabalho de escritório ou de funcio­
nário ou qualquer dessas ocupações rotineiras e que mantêm as pessoas
confinadas. Muitos americanos descreviam-se como artistas ou intelec­
tuais mas deviam limitar-se a dizer que eram incapazes de fazer esses
trabalhos. Discuti muitas vezes esse tema com Von Humboldt Fleisher
e também, ocasionalmente, com Gumbein, o crítico de arte. O traba­
lho de estar sentado com as pessoas para descobrir o que era interes­
sante também não parecia aj ustar-se a alguém como Schneiderman.
Em certos momentos dava a impressão de estar ausente, quase doente.

1 Cocktail de uísque, bitters, açúcar e frutos. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O L D T 105

Conhecia-me, naturalmente, pois tinha aparecido uma vez no progra­


ma de televisão dele, e disse:
- Olá, Charlie. - Depois disse a Bill: - Não conheces o Charlie ?
É uma pessoa famosa que vive incógnita em Chicago.
Começava a apreciar o que Rinaldo havia feito. Tinha tido um
trabalhão para arranj ar este encontro, puxando muitos cordelinhos.
Este Bill, um contacto dele, talvez devesse um favor aos Cantabiles
e tinha-se prestado a convocar Mike Schneiderman, o colunista. Havia
compromissos por todos os lados. A contabilidade necessária a articu­
lá-los devia ser muito intrincada e apercebi-me de que Bill não estava
satisfeito. Bill tinha um ar de Cosa Nostra. Havia qualquer coisa de
adulterado no nariz dele. Era extremamente curvo nas narinas e era
imponente mas também vulnerável. Um nariz grosseiro. Num contex­
to diferente, tê-lo-ia tomado por um violinista que se desgostara com
a música e se dedicara ao negócio do álcoo l . Acabava de voltar de
Acapulco e tinha a pele bronzeada, mas não estava propriamente a
vender saúde e bem-estar. Não dava a mínima importância a Rinaldo;
parecia tratá-lo com desprezo. A minha simpatia, naquele momento,
era toda para Cantabile. Esforçara-se por organizar o que deveria ter
sido um encontro admirável e animado, digno da Renascença, e eu
era o único a apreciá-lo. Cantabile queria sair na coluna de Mike.
Mike, evidentemente, estava habituado a este tipo de pretensões. Os
potenciais felizardos estavam sempre atrás dele e eu suspeitava que
havia muita negociata nos bastidores, quid pro quo. Dava-se a Mike
um bom mexerico e ele imprimia o nosso nome a negrito . A Coelhi­
nha tomou nota do que queríamos. Até ao queixo era arrebatadora .
Acima, tudo traduzia ansiedade comercial. A minha atenção dividia-se
entre o suave rego do busto e a expressão de dificuldade comercial
que tinha estampada no rosto.
Estávamos num dos recantos mais encantadores de Chicago. En­
tretive-me a pensar no cenári o . A vista da margem do lago era es­
plêndida. Não conseguia vê-la mas conhecia-a bem e sentia o seu
efeito : a estrada luminosa que acompanhava o resplandecente vazio
dourado do lago Michigan. O homem subj ugara o vazio desta terra .
Mas em troca o vazio ripostara com alguns golpes. E ali estávamos,
sentado no meio dos prazeres da riqueza e do poder, com raparigas
bonitas e bebidas, fatos à medida, e os homens usavam j oias e per­
fume. Schneiderman estava à espera, com todo o seu ceticismo, de
ro6 S A U L B E L LOW

alguma coisa que pudesse utilizar na coluna. No contexto adequado,


eu seria bom material. As pessoas de Chicago impressionavam-se com
o facto de me levarem a sério noutros lugares. De vez em quando, te­
nho sido convidado para festas por gente arrivista e culturalmente
ambiciosa e experimentei o fado de ser um símbolo . Algumas mulhe­
res diziam-me:
- Não, não podes ser o Charles Citrine !
Muitos anfitriões deliciam-se com o contraste que ofereço. É que
pareço um homem que pensa a fundo mas sem chegar ao fim. A mi­
nha cara não está à altura dos astutos rostos urbanos deles. E são so­
bretudo as mulheres que não conseguem dissimular o desapontamen­
to quando veem o aspeto que tem realmente o famoso Sr. Citrine.
Serviram-nos o uísque. Bebi avidamente o meu scotch duplo e,
como fico expansivo num instante, desatei a rir. Ninguém me acom­
panhou. O feio Bill perguntou:
- Qual é a graça ?
- Bom, acabei de me lembrar que aprendi a nadar mesmo ali em
baixo, na Rua Oak, antes de terem erguido estes arranha-céus todos,
o orgulho arquitetónico das Relações Públicas de Chicago - disse. -
Naquele tempo era a Costa do Ouro e vínhamos dos nossos bairros
pobres no elétrico. O que partia de Division só ia até Wells. Eu tra­
zia uma sacola engordurada cheia de sanduíches . A minha mãe tinha­
-me comprado um fato de banho de rapariga num saldo. Tinha uma
saiinha com uma bainha com as cores do arco-íris. Sentia-me mortifi­
cado e tentei tingi-lo com tinta da China. Os polícias costumavam
empurrar-nos com os cassetetes nas costelas para que atravessássemos
rapidamente o Drive. Agora estou aqui, a beber uísque . . .
Cantabile deu-me u m pontapé por baixo da mesa, deixando-me
uma marca de poeira nas calças. Franziu o cenho até ao couro cabelu­
do, enrugando-se por baixo dos caracóis curtos, e o nariz ficou bran­
co como cera .
- Por falar nisso, Ronald . . . - disse, estendendo-lhe as notas. -
Estou a dever-lhe dinheiro.
- Que dinheiro ?
- O dinheiro que me ganhou naquele j ogo de pôquer. . . há algum
tempo. Acho que se esqueceu. Quatrocentos e cinquenta dólares.
- Não sei de que é que estás a falar - retorquiu Rinaldo Canta­
bile. - Que j ogo de pôquer ?
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT ! 07

- Não se lembra ? Estávamos a j ogar no apartamento de George


Swiebel.
- Desde quando os tipos livrescos j ogam póquer ? - quis saber
Mike Schneiderman.
- Não tem nada de estranho. Também somos humanos . Sempre
se j ogou póquer na Casa Branca . É perfeitamente respeitável. O Presi­
dente Harding j ogava. E também se j ogou durante o New Deal. Mor­
genthau, Roosevelt e outros.
- Fala como se fosse um tipo da zona oeste de Chicago - co­
mentou Bill.
- Escola Chopin, entre Rice e Western - disse eu.
- Bom, guarda o dinheiro, Charlie - disse Cantabile. - Agora
estamos a beber, não é a altura de fazer negócios. Pagas depois.
- Porque não agora, enquanto me lembro e tenho o dinheiro na
mão ? Sabe, tinha-me esquecido por completo e a noite passada acor­
dei com esta ideia na cabeça: << Esqueci-me de pagar a dívida a Rinal­
do. » Meu Deus, podia ter rebentado os miolos.
- Está bem, está bem, Charlie! - disse Cantabile com violência.
Arrancou-me as notas das mãos e meteu-as no bolso sem sequer
as contar, lançando-me um olhar de extrema irritação, um olhar in­
cendiário. Porquê ? Não via qualquer motivo. A única coisa que sabia
era que Mike Schneiderman tinha poder suficiente para meter o nome
de qualquer pessoa no j ornal e quando se aparece no j ornal é porque
não se viveu em vão. Deixávamos de ser criaturas de duas pernas, fu­
gazmente vistas na Rua Clark, conspurcando a eternidade com atos
e pensamentos asquerosos. Tornávamo-nos . . .
- Que andas a fazer agora, Charlie ? - perguntou Mike Schnei­
derman. - Talvez outra peça ? Um filme ? - Dirigiu-se a Bill: - Sa­
bias que o Charlie é um tipo muito famoso ? Fizeram um filme esplên­
dido da peça de grande êxito que teve na Broadway. Escreveu uma
data de coisas.
- Tive o meu momento de glória na Broadway - disse. - Nun­
ca mais serei capaz de o repetir. Por isso, para quê tentar?
- Já me lembro . Alguém me disse que estavas prestes a publicar
uma espécie de revista cultural. Quando é que sai ? Posso fazer-te pu­
blicidade.
Mas Cantabile lançou-me um olhar furioso e disse:
- Temos de nos ir embora.
108 SAUL BELLOW

- Terei o maior gosto em telefonar-te logo que tiver notícias -


disse olhando com ar cúmplice para Cantabile.
Mas ele já se tinha afastado. Segui-o e, no elevador, interpelou-me:
- Que raio se passa contigo ?
- Não sei o que possa ter feito de mal.
- Disseste que querias rebentar os miolos e sabes perfeitamente,
meu imbecil, que o cunhado de Mike Schneiderman deu um tiro nos
miolos há dois meses.
- Não me digas !
- Não é possível que não tenhas lido nos j ornais . . . Aquela confu-
são toda sobre as obrigações falsas, os papéis forj ados que deu como
garantia .
- Ah, esse, está a falar do Goldhammer, o tipo que imprimia os
seus próprios certificados, o falsificador !
- Tu sabias, não negues - disse Cantabile. - Fizeste de propó­
sito, para me deixar mal e arruinar os meus planos.
- Não, j uro-te que n ã o . Rebentar os miolos ? Isso é um lugar-
-comum.
- Não é neste caso. Tu sabias - repetiu com violência -, tu sa-
bias. Sabias que o cunhado dele se tinha suicidado.
- Não relacionei um com o outro. Deve ter sido um lapso freudia­
no. Sem qualquer intenção.
- Estás sempre a fingir que nunca sabes o que estás a fazer. Supo­
nho que também não sabias quem era aquele sujeito narigudo.
- O Bill ?
- Si m ! O Bill é Bill Lakin, o banqueiro que foi acusado com o
Goldhammer. Foi ele quem ficou com as obrigações falsas como ga­
rantia.
- E por que razão foi acusado ? Foi o Goldhammer quem lhe
deu as obrigações.
- Porquê, meu cabeça de pintassilgo ? Será que n ã o entendes
o que lês nos j ornais ? Porque comprou as obrigações da Lekatride a
Goldhammer por uma ninharia, quando valiam cerca de seis dóla­
res . Ou será que também não ouviste falar de Kerner? De todos esses
grandes j úris, de todos esses j ulgamentos ? Mas tu não te preocupas
com as coisas que levam as outras pessoas a suicidar-se. És desdenho­
so e arrogante, Citrine. Desprezas-nos.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 1 09

- A quem se refere esse nós ?


- Nós ! Os habitantes do mundo . . . - disse Cantabile.
Falava furiosamente . Não era o momento propício para discutir.
Tinha de respeitá-lo e temê-lo. Se pensasse que não tinha medo dele,
podia entender isso como uma provocação . Não digo que me desse
um tiro, mas uma tareia era bem possível, talvez até uma perna parti­
da. Quando estávamos a sair do Playboy Club, voltou a pôr-me o di­
nheiro nas mãos.
- É para fazer tudo outra vez ?
Não deu qualquer explicação . Ficou parado, com a cabeça inclina­
da para diante numa atitude de irritação, até que trouxeram o Thun­
derbird. Tive de entrar no carro uma vez mais.
A nossa paragem seguinte foi no Edifício Hancock, onde subimos
a um ponto do 60.0 ou do 70.0 andar. Parecia um apartamento parti­
cular mas também possuía qualquer coisa de escritório . Via-se que
havia sido mobilado por um decorador, com obj etos de plástico pre­
tensamente artísticos pendurados nas paredes, formas geométricas do
tipo trompe l'oeil que tanto fascinam os homens de negócios, gente
particularmente vulnerável aos vigaristas do mundo da arte. O cava­
lheiro que lá morava era idoso, vestia um casaco desportivo castanho
com fios dourados e uma camisa às riscas cobria-lhe a indisciplinada
barriga. Tinha o cabelo branco penteado para trás na cabeça estreita.
Nas mãos viam-se grandes manchas hepáticas. Sob os olhos e à volta
do nariz o aspeto da pele não era nada bom. Quando se sentou no
sofá baixo que, a j ulgar pelo modo como se afundava, estava rechea­
do de penas, os mocassins de crocodilo enterraram-se profundamente
no tapete de pelo comprido cor de marfim. A pressão do ventre fazia
ressaltar a forma do pénis contra a coxa . O nariz comprido, a boca
entreaberta e a papada não destoavam de todo aquele ar de veludo,
do casaco de fio dourado, do brocado, do cetim, da pele de crocodilo
e dos obj etos trompe l'oeil. Pela conversa, concluí que se dedicava às
j oias e que fazia negócio com o submundo. Talvez também fosse re­
cetador - como poderia saber ? Rinaldo Cantabile e a mulher come­
moravam dentro em pouco o aniversário de casamento e ele queria
comprar uma pulseira . Um criado j aponês trouxe bebidas. Não sou
grande be bedor, mas neste dia, compreensivelmente, apetecia-me
e bebi outro Black Label duplo. Do arranha-céus podia contemplar-se
o panorama de Chicago nessa breve tarde de dezembro. Um pôr do
I IO SAUL BELLOW

sol desgastado derramava uma luz alaranjada sobre os contornos es­


curos da cidade, so bre os braços do rio e a s negras estruturas das
pontes. O lago, em tons ametista, dourados e prateados, j á estava pre­
parado para receber a capa invernal de gelo que o cobriria. Deu-se o
caso de pensar que, se Sócrates tinha razão, se não se pode aprender
nada com as árvores, se só os homens que encontramos no nosso ca­
minho podem ensinar-nos alguma coisa sobre nós mesmos, então
devia estar bastante enfastiado para optar por prestar atenção à pai­
sagem em vez de ouvir os meus companheiros humanos . Era eviden­
te que não tinha estômago para companheiros humanos. A fim de
mitigar a inquietude e o peso do coração, divagava sobre a água . Só­
crates ter-me-ia dado má nota. Dava a ideia de que era capaz de estar
mais facilmente em sintonia com o que interessava à sensibilidade de
Wordsworth: as árvores, as flores, a água . Mas eram a arquitetura, a
engenharia, a eletricidade e a tecnologia que me tinham levado àquele
64." andar. A Escandinávia tinha-me posto aquele copo na mão, a Es­
cócia tinha-o enchido de uísque e eu estava ali sentado a recordar al­
gumas coisas maravilhosas sobre o Sol, a saber: que a luz de outras es­
trelas, ao penetrar no campo gravitacional do Sol, é forçada a curvar.
O Sol vestia um xale feito dessa luz universal . Era isto que Einstein,
enquanto refletia sobre as coisas, havia previsto. E as observações rea­
lizadas por Arthur Eddington durante um eclipse comprovaram isso.
Encontrar antes de procurar.
Entretanto, o telefone não parava de tocar e nenhuma das chama­
das parecia ser local . Eram todas de Las Vegas, Miami, Los Angeles
e Nova Iorque.
- Manda o teu rapaz à Tiffany e descobre quanto é que te pedem
por um artigo como esse - dizia o nosso anfitrião.
Ouvi-o depois falar de j oias de família e de um príncipe indiano
que tentava vender um lote completo nos Estados Unidos e andava
à procura de ofertas.
Aproveita ndo uma interrupção, enquanto Canta bile se distraía
a observar uma bandej a de diamantes ( aquelas pedras brancas pare­
ceram-me repugnantes), o velho dirigiu-se a mim:
- Conheço-o de qualquer sítio, não é verdade ?
- É - respondi . - Creio que é da banheira de hidromassagem
do Downtown Health Club.
- Oh, sim, claro, conheci-o com aquele advogado. O que se farta
de falar.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT III

- Szathmar ?
- Alec Szathmar.
Cantabile, sem deixar de observar diamantes nem desviar o olhar
do fulgor da bandej a de veludo, interveio :
- Conheço esse filho da puta do Szathmar. Diz q u e é um velho
amigo teu, Charlie.
- É verdade - replique i . - Andámos j untos na escola com o
George Swiebel.
- Isso deve ter sido na idade da pedra lascada - replicou Can­
tabile.
Sim, tinha-me encontrado com aquele cavalheiro idoso no escal­
dante banho químico do ginásio. A banheira de hidromassagem bor­
bulhante onde toda a gente se enfiava para suar e mexericar sobre
desporto, impostos, programas de televisão, best-sellers ou conversar
amigavelmente sobre Acapulco e as contas bancárias numeradas nas
ilhas Caimão . O que não sabia é que aquele velho recetador possuía
uma daquelas infames cabanas perto da piscina para a qual convida­
va rapariguinhas para fazerem a sesta com ele. Houve várias queixas
e algum escândalo por causa disso . É claro que não era da conta de
ninguém o que acontecia atrás das cortinas fechadas das cabanas, mas
alguns velhos, efusivos e exibicionistas, tinham sido vistos a acariciar
as suas bonequitas no solário. Um deles tinha tirado a dentadura pos­
tiça para dar beij os voluptuosos a uma rapariga . Tinha lido uma carta
muito interessante sobre esse tema no Tribune. Uma professora de
História aposentada que morava num dos andares mais altos do edifí­
cio do clube, escrevera uma carta na qual dizia que Tibério - a ve­
lhota estava a exibir-se -, Tibério, dizia eu, nas grutas de Capri, não
chegava aos calcanhares daqueles libertinos grotescos. Mas que im­
portava àqueles velhos, curtidos em negócios turvos ou nas manobras
políticas do Primeiro Círculo Eleitora l, mestres-escolas indignadas
e alusões clássicas. Se tinham ido ver o Satyricon de Fellini ao Woods
Theater não era porque lhes interessasse a Roma imperial mas para
adquirir novos conhecimentos so bre sexo. Até eu já vira alguns da­
queles velhos excêntricos e barrigudos no solário agarrados aos seios
de prostitutas adolescente s . Ocorreu-me que o criado j aponês era
também um praticante de j udo ou karatê, como nos filmes de 007,
pois havia muitos obj etos de valor naquele apartamento . Quando
Rinaldo disse que gostaria de ver alguns relógios A ccutron, o tipo
II2 5 A U L B E LLOW

trouxe algumas dúzias, todos achatados como hóstias. Podiam ou não


ter sido roubados. A minha imaginação ardente não podia ser consi­
derada fiável neste caso. Confesso que me emocionavam estes agita­
dos fluxos de criminalidade. Senti como nascia e crescia a necessidade
de rir, sinal persistente da minha propensão pelo sensacional, do meu
anseio - tão americano, tão de Chicago (e também tão pessoa l ) -
pelas emoções fortes, pelas incongruências e extremismos. Sabia que
o roubo de objetos caros era um grande negócio em Chicago. Dizia-se
que se se conhecesse um daqueles tipos super-ricos, como Faginl, que
viviam em arranha-céus, era possível obter artigos de luxo por metade
do preço. Os roubos eram realizados por drogados, que eram recom­
pensados com doses de heroína. Também se dizia que a polícia estava
subornada para evitar que os comerciantes fizessem demasiado baru­
lho. De qualquer modo, havia sempre o seguro. E também havia a fa­
mosa << depreciaçã o » , ou perdas a n u a i s , apresentada às Finanç a s .
Quando s e cresceu em Chicago n ã o é difícil acreditar na veracidade
dessas informações sobre corrupção. Chegavam a satisfazer certas ne­
cessidades. Harmonizavam-se com a imagem da sociedade que Chicago
transmitia. Ninguém podia dar-se ao luxo de ser ingénuo.
Enquanto estava sentado nos estofos macios a beber o meu uísque
com gelo, tentei avaliar, item por item, tudo aquilo que Cantabile ves­
tia - chapéu, sobretudo, fato, botas ( estas podiam ser de bezerro por
nascer), as luvas de montar -, e fiz um esforço para imaginar como
obtivera estes artigos, através de canais criminosos, do Field' s , do
Saks da Quinta Avenida e do Abercrombie & Fitch. Tanto quanto
pude perceber, não era levado muito a sério pelo velho recetador.
Rinaldo ficou interessado por um dos relógios e colocou-o no pul­
so. Atirou o velho ao j aponês, que o agarrou no ar. Achei que estava
na hora de largar a minha deixa e disse:
- Oh, a propósito, Ronald, devo-lhe alguma massa daquela noite .
- De quê ? - perguntou Cantabile.
- Do j ogo de póquer em casa do George Swiebel. Parece-me que
se esqueceu disso.
- Oh, conheço esse tal Swiebel, um tipo cheio de músculos. É um
companheiro formidável - disse o velho cavalheiro. - E há que re­
conhecer que sabe preparar uma excelente bouillabaisse.

1 Personagem de Oliver Twist, de Charles D ickens. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 113

- Persuadi o Ronald e o primo Emil a entrar nesse j ogo - disse


eu. - Na verdade a culpa foi minha . Aliás, o Ronald limpou-nos
a todos. O Ronald é um dos grandes do póquer. Acabei o j ogo a per­
der mais ou menos seiscentos dólares e teve de aceitar o meu docu­
mento de dívida . . . Tenho aqui a massa, Ronald, e é melhor que lha dê
enquanto ainda nos lembramos ambos.
- Muito bem.
Cantabile, uma vez mais sem olhar, amarfanhou as notas no bolso
do colete. A interpretação dele era melhor do que a minha, embora eu
estivesse a dar o máximo. Mas a verdade é que estava do lado honesto
da transação, o da afronta. Tinha o direito de estar zangado e isso era
uma grande vantagem.
Quando saímos do edifício, disse-lhe:
- Não foi perfeito ?
- Perfeito ? Ah, sim. Perfeito ! - respondeu em voz alta e com as-
pereza .
Era evidente que não estava preparado para me libertar. Ainda não.
- Creio que aquele velho pelicano vai pôr a correr por aí que já
lhe paguei. Não era essa a ideia ? - E acrescentei quase só para mim:
- Gostava de saber quem faz calças como aquelas que o velho tinha.
Só a braguilha devia medir noventa centímetros de comprimento .
Mas Cantabile ainda estava a alimentar a sua ira.
- Meu Deus ! - exclamou.
Não gostei nada da maneira como olhava para mim por baixo das
sobrancelhas direitas como estiletes.
- Bom, então isto arruma a questão. Posso apanhar um táxi -
disse eu.
Cantabile segurou-me pela manga.
- Espera - disse.
Eu não sabia o que devia realmente fazer. Aliás, ele estava arma­
do. Durante muito tempo também pensei comprar uma arma, sendo
Chicago o que é. Mas nunca me concederiam uma licença. Cantabile,
sem licença, tinha pistola. O que dava uma ideia das diferenças que
nos separavam. Só Deus sabia o que essas diferenças poderiam causar.
- Não estás a divertir-te comigo esta tarde ? - perguntou Canta­
bile. Sorriu.
1 14 SAUL BELLOW

A tentativa que fiz para me rir falhou. O globus hystericus inter­


pôs-se. Tinha a garganta pegajosa.
- Entra, Charlie.
Sentei-me outra vez no pequeno assento vermelho ( o couro flexível
e aromático continua a recordar-me sangue, sangue pulmonar) e pro­
curei atabalhoadamente o cinto de segurança - nunca se consegue
encontrar à primeira aquelas malditas fivelas.
- Deixa lá a merda do cinto. A viagem é curta .
Esta informação tranquilizou-me um pouco. Estávamos na Aveni­
da Michigan dirigindo-nos para sul. Parámos perto de um arranha­
-céus em construção, uma estrutura acéfala que se projetava nas altu­
ras, enxameada de luzes. Sob a incipiente obscuridade, que se fechava
com a rapidez de dezembro sobre o ainda fúlgido ocidente, o Sol pare­
ceu saltar, como uma raposa de pelo eriçado, para se ocultar atrás do
horizonte . Só restava um resplendor crepuscular avermelhado. Vi-o
entre os pilares que sustentam o E!. À medida que a imponente estru­
tura do arranha-céus inacabado se tornava negra, o seu interior vazio
enchia-se de milhares de pontos elétricos que lembravam borbulhas
de champanhe . O prédio, uma vez terminado, nunca seria tão belo
como naquele momento . Saímos do carro fechando as portas com
força e eu segui Cantabile por cima de umas pilhas de pranchas pos­
tas para permitir a passagem dos camiões até à obra. Parecia conhecer
bem o lugar. Talvez tivesse clientes entre os operários. Se andasse
a emprestar dinheiro. Ainda que, pensando bem, se fosse um agiota
não viria aqui depois de escurecer arriscando-se a ser atirado de uma
viga abaixo por um daqueles tipos duros. Devem ser temerários. Pelo
menos, bebem e gastam dinheiro de uma forma bastante desprendida.
Agrada-me que estes trepadores de andaimes pintem os nomes das
namoradas em vigas inacessíveis. D o chão, frequentemente, desco­
bre-se uma D O NNA ou uma SUE . Calculo que aos domingos trazem
as amadas para lhes apontarem as demonstrações de amor a duzen­
tos e quarenta metros de altura . De vez em quando, caem e morrem.
Mas Cantabile tinha trazido capacetes. Pusemo-los na cabeça. Tinha
organizado tudo de antemão. Disse que era aparentado com alguém
da equipa de supervisão. Mencionou também que fazia muitos negó­
cios nas imediações . Disse que tinha relações com o empreiteiro e o
arquiteto. Contava todas estas coisas mais depressa do que eu as con­
seguia assimilar. Sej a como for, subimos num dos grandes elevadores
abertos: para cima, para cima.
o L E G A D O DE H U M B O LDT II5

Como poderei descrever os meus sentimentos ? Medo, nervosismo,


apreço, satisfação - sim, apreciava a ingenuidade dele. Parecia-me,
no entanto, que estávamos a subir demais, a ir longe demais. Onde
estávamos ? Que botão tinha apertado ? À luz do dia, havia parado
muitas vezes para admirar os grupos de guindastes, semelhantes a
louva-a-deus, pintados de cor de laranj a . As lâmpadas minúsculas,
que do chão pareciam tão densas, estavam muito afastadas umas das
outras aqui em cima . Não sabia até onde tínhamos subido, mas era
bastante alto. Tínhamos à nossa volta a luz que aquela hora do dia
ainda tinha para dar, metálica e glacial, penetrante, com o vento a
chiar nos quadrados vazios de uma ferrugem cor de sangue e a bater
nas lonas pendentes. A oriente, a água parecia violentamente rígida,
gelada, arranhada, como um planalto de pedra sólida; e na outra dire­
ção via-se uma extraordinária efusão de cores na zona baixa do hori­
zonte, o último brilho, a contribuição dos venenos industriais para a
beleza do anoitecer de Chicago . Saímos. Cerca de dez operários que
estavam à espera entraram imediatamente no elevador. Apeteceu-me
gritar-lhes: << Esperem ! >> Desceram em grupo, deixando-nos em lado
nenhum. Cantabile parecia saber para onde ia, mas não me inspirava
a menor confiança. Era capaz de simular qualquer coisa.
- Vamos - disse.
Segui-o, mas avançava devagar. Esperou por mim. Cá em cima,
no quinquagésimo ou sexagésimo andar, havia resguardos contra os
quais batia com violência o vento. O s meus olhos saltavam de um
lado para o outro. Agarrei-me a uma viga e ele disse-me:
- Anda lá, avozinha, mexe-te, meu cancelador de cheques.
- As solas dos meus sapatos são de couro - respondi. - Escor-
regam.
- É bom que não te acovardes.
- Pois daqui não passo - disse eu.
Abracei-me à viga. Não sairia dali.
Na realidade aquele sítio já o satisfazia .
- O lha - disse ele - quero que vej as a importância que dou
à tua massa. Estás a ver ?
Ergueu uma nota de cinquenta dólares, apoiou as costas numa
viga de aço e, tirando as elegantes luvas de equitação, começou a do­
brar o dinheiro . Inicialmente não percebi. Depois sim. Estava a fazer
116 SAUL BELLOW

um aviãozinho de papel. Arregaçando as mangas raglã, lançou cuida­


dosamente o aviãozinho com dois dedos. Observei-o enquanto plana­
va velozmente entre as lâmpadas pendentes, impulsionado pelo vento
a favor, até penetrar na atmosfera de aço, cada vez mais escura à me­
dida que se descia. Na Avenida Michigan já tinham sido colocados os
enfeites de Natal, estendendo minúsculas bolhas de vidro de árvore
em árvore . Agitavam-se lá em baixo como células sob um micros­
cópio.
A minha preocupação principal naquele momento era encontrar
maneira de sair dali. Embora os j ornais minimizem este género de coi­
sas, há sempre pessoas que caem. Contudo, apesar de amedrontada e
atormentada, a minha alma, amante das sensações fortes, sentia-se
gratificada . E sabia que era preciso muito para me sentir gratificado.
O nível de exigência da minha alma subira demasiado. Tenho de bai­
xá-lo novamente. Sabia que tinha de mudar tudo.
Cantabile pôs a voar mais algumas notas de cinquenta . Minús­
culos aviões de papel . Origâmi (a minha mente sa bedora, mantendo
vivo o seu incansável pedantismo - a minha mente lexical a belhu­
da ! ) , a arte j aponesa de dobrar papel. Creio que no ano anterior se
re alizou um congresso internacional de fanáticos construtores de
aviões de papel. Parecia-me pelo menos que tinha sido no ano passa­
do. Esses fanáticos eram engenheiros e matemáticos.
As notas verdes de Cantabile afastavam-se pelos ares como tenti­
lhões, andorinhas e borboletas, exibindo todas elas a efígie de Ulysses
S. Grant. Levavam uma fortuna crepuscular às pessoas que caminha­
vam lá em baixo nas ruas.
- Vou guardar as duas últimas - disse Cantabile. - Para pagar
as nossas bebidas e o nosso jantar.
- Se conseguir chegar lá abaixo com vida.
- Portaste-te muito bem. Vamos, segue à frente, recua.
- Estes tacões de couro são terrivelmente traiçoeiros. Há uns dias
pisei um pedaço de papel encerado na rua e caí. Talvez sej a melhor
descalçar os sapatos.
- Não sej as louco. Caminha na ponta dos pés.
Se não se estivesse preocupado com a possibilidade de cair, o espa­
ço disponível para andar era perfeitamente adequado . Arrastei-me pa­
ra a frente, lutando contra a paralisia que me afetava as barrigas das
o L E G A D O DE H U M B O LDT 117

pernas e as coxa s . Quando por fim alcancei a última viga, a minha


cara suava mais do que o vento conseguia secar. Pareceu-me que Can­
tabile tinha estado a caminhar muito colado aos meus calcanhares.
Alguns operários que estavam à espera do elevador j ulgaram certa­
mente que éramos do sindicato ou funcionários do arquiteto. Já era
de noite e o hemisfério estava congelado até ao golfo. Quando chegá­
mos ao solo sentei-me com prazer no Thunderbird. Cantabile retirou
o capacete dele e o meu. Virou o volante e ligou o motor. Tinha che­
gado a altura de me deixar ir embora. Já lhe tinha pedido desculpas
mais do que suficientes.
Mas arrancou outra vez e acelerou rapidamente até ao semáforo
seguinte. A minha cabeça foi empurrada para trás por cima do encos­
to, ficando na posição que se adota para estancar uma hemorragia
nasal. Não sabia onde estávamos exatamente.
- Olha, Rinaldo - disse, começando a tratá-lo por tu. - Já tens
o que querias. Destruíste o meu carro, andaste comigo de um lado
para o outro todo o santo dia e acabaste de me pregar o maior susto
da minha vida. Muito bem, já percebi que não era o dinheiro que te
incomodava . Vamos atirar o que sobrou para o cano de esgoto para
que possa voltar para casa de uma vez por todas.
- Cansaste-te de mim?
- Foi um dia inteiro de expiação.
- Já viste o suficiente desses não-sei-como-se-chamam ? Aprendi
algumas palavras novas contigo no j ogo de póquer.
- Que palavras ?
- Proles - disse ele. - Lumps. Lumpenproletariat. 1 Deste-nos
uma pequena aula sobre Karl Marx.
- Deus meu, dei espetáculo, não dei ? Estava completamente desa­
tinado. Não sei o que me deu ?
- Querias conviver com a ralé e os criminosos. Estavas a fazer
uma visita ao mundo do crime, Charlie, e divertiste-te à grande a jo­
gar às cartas connosco, imbecis e marginais.
- Estou a perceber. Insultei-vos.
- Mais ou menos. Mas de vez em quando dizias coisas interessan-
tes sobre a ordem social e até que ponto a classe média estava obcecada

1 Na teoria marxista, estrato do proletariado sem consciência de classe. (N. do T.)


II8 S A U L B E L LOW

com o Lumpenproletariat. O s outros não faziam a menor ideia do


que estavas a falar.
Cantabile falava comigo em tom moderado pela primeira vez nesse
dia. Endireitei-me e contemplei as luzes noturnas refletidas no rio, que
fluía à nossa direita, e o Merchandise Mart decorado para o Natal. Es­
távamos a dirigir-nos para o velho restaurante Gene e Georgetti's, que
estava situado na saída do El. Estacionámos entre outros carros de
luxo sinistros e entrámos no prédio velho e descolorido, onde - viva a
opulenta intimidade ! - o estrondo da música que saía da juke-box se
abateu sobre nós como uma onda do Pacífico. O balcão, para gente
importante, estava cheio de pessoas que tomavam bebidas: adminis­
tradores de empresas com as suas atraentes companhias. O magnífico
espelho estava povoado de garrafas e lembrava uma fotografia de gru­
po de licenciados celestiais.
- Giulio, uma mesa tranquila - disse Rinaldo ao empregado - e
não queremos ficar sentados perto da casa de banho.
- No andar de cima, senhor Cantabile ?
- Porque não ? - disse eu.
Estava nervoso e não queria ficar à espera de mesa perto do bal­
cão. Aliás, isso prolongaria a noite . Canta bile olhou-me fixamente
como se fosse dizer « Quem pediu a tua opinião ? >> , mas acabou por
concordar:
- Está bem, lá em cima . E duas garrafas de Piper Heidsieck .
- É para já, senhor Cantabile.
Nos tempos de Capone, os bandidos fingiam travar batalhas com
garrafas de champanhe nos banquete s . Sacudiam as garrafas para
cima e para baixo e acertavam uns nos outros com rolhas e espuman­
te, todos em traje de rigor, como uma matança de brincadeira.
- Agora quero contar-te uma coisa - disse Rinaldo Cantabi­
le. - E é um assunto que não tem nada que ver com o que se passou
até agora . Sou casado, como sabes.
- Sim, lembro-me.
- Com uma mulher maravilhosa, bonita e inteligente.
- Referiste-te à tua mulher na zona sul. Naquela noite . . . Têm
filhos ? O que é que ela faz ?
- Não é uma dona d e casa, amigo, e é melhor que isso fique cla­
ro. Achas que me casaria com uma gorda qualquer que passasse o dia
a cirandar pela casa de rolos no cabelo e a ver televisão ? Trata-se de
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 1 19

uma mulher a sério, com miolos, com conhecimentos. Dá aulas na Fa­


culdade de Mundelein e está a preparar uma tese de doutoramento .
Sabes onde ?
- Não.
- Em Radcliffe, Harvard.
- Isto é ótimo - disse eu.
Bebi a taça de champanhe e voltei a enchê-la.
- Não mudes de assunto tão depressa. Pergunta-me qual é o tema.
Da tese.
- Muito bem, qual é ?
- Está a escrever sobre aquele poeta que era teu amigo.
- Estás a brincar comigo. Von Humboldt Fleisher ? E como é que
sabes que foi meu amigo ? Já sei. Falei dele em casa do George. Nessa
noite deviam ter-me trancado num armário.
- Não era preciso termos feito batota , Charlie. Tu não sabias
o que estavas a fazer. Fala ste como um miúdo de nove anos sobre
ações j udiciais, advogados, contabilistas, maus investimentos e a revis­
ta que ias publicar. .. Um verdadeiro derrotado, era a impressão que
davas. Disseste que irias começar a gastar o teu dinheiro a realizar as
tuas próprias ideias.
- Não costumo discutir essas coisas com estranhos. Chicago deve
estar a causar-me loucura ártica.
- Agora, ouve. Tenho muito orgulho na minha mulher. A família
dela é família rica, da alta sociedade . . . - A gabarolice dá às pessoas
uma cor excelente, como j á tinha observado, e as faces de Canta bile
brilhavam. Continuou: - Deves estar a perguntar-te por que razão
arranj ou ela um marido como eu.
- Não, não - murmurei, embora a pergunta fosse perfeitamente
natural.
A verdade é que não era propriamente novidade para mim que ra­
parigas muito instruídas se sentissem atraídas por patifes, criminosos
e lunáticos, e que estes patifes e etc. se interessassem por cultura, pelas
coisas do espírito. Diderot e Dostoiévski já nos tinham familiarizado
com estes casos.
- Quero que ela faça o doutoramento - disse Cantabile. - Com­
preendes? Faço questão nisso. E foste amigo desse tal Fleisher. Vais dar
informações à Lucy.
- Espera aí. . .
1 20 5 A U L B E L LO W

- Olha bem para isto.


Estendeu-me um sobrescrito, pus os óculos e passei os olhos pelo
documento que continha . Estava assinado Lucy Wilkins Cantabile e a
letra era a de uma estudante universitária modelar, educada, minucio­
sa, extremamente organizada, com os habituais circunlóquios acadé­
micos: três laudas a um espaço, carregadas de perguntas - perguntas
dolorosas. O marido observava-me atentamente enquanto eu lia.
- Bom, o que é que pensas dela ?
- Excecional - respondi. Aquilo estava a levar-me ao desespe-
ro. - O que é que pretendem de mim ?
- Resposta s . Informação. Queremos que escrevas as respostas.
Qual é a tua opinião sobre o proj eto dela?
- Acho que os mortos devem servir para ganharmos a vida.
- Não brinques comigo, Charlie. Não gostei da piada.
- Pouco me importa - respondi. - O pobre Humboldt, meu
querido amigo, era um grande espírito que foi destruído por. .. Esque­
ce. Ser doutorado é uma coisa muito bonita, mas não quero entrar
nisso. Aliás, nunca respondo a questionários. Os idiotas abusam de
nós com os seus documentos. Não suporto essas coisas.
- Estás a chamar idiota à minha mulher ?
- Ainda não tive o prazer de a conhecer.
- Vou deixar passar isso em claro. Dei-te um pontapé na barriga
com a história do Mercedes e tenho feito gato-sapato de ti. Mas não
voltes a fazer comentários desagradáveis sobre a minha mulher.
- Há coisas que não faço. Esta é uma delas. Não vou escrever ne-
nhumas respostas. Levaria semanas.
- Ouve !
- Não chego a esse ponto.
- Só um momento !
- Não me chateies mais. Vai para o raio que te parta .
- Está bem, acalma-te. Algumas coisas são sagradas. Compreen-
do. Mas podemos encontrar uma solução. Ouvi-te durante o j ogo de
póquer e sei que estás cheio de problemas. Faz-te falta alguém firme
e de espírito prático que te resolva as coisas. Tenho pensado bastante
no assunto e tenho muitas ideias para ti. Podemos fazer um negócio.
- Não, não quero fazer nenhum negóci o . Estou farto . Dói-me
a alma e quero voltar para casa.
- Vamos comer um bife e acabar o vinho. Precisas de comer car­
ne vermelha. Está cansado. Vais fazer o que te peço.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT I2I

- Não, não vou.


- Toma nota do que queremos, Giulio - disse ele.

Gostava de saber porque é que sou tão leal em relação aos mor­
tos . Quando ouço dizer que alguém morreu, costumo dizer com os
meus botões que devia continuar o tra balho dessa pessoa, concluir
a sua obra. E isso, é claro, não posso fazer. Mas descobri que começa­
va a assumir algumas das suas características. Com o tempo, por exem­
plo, apercebi-me de que estava a comportar-me de maneira absurda,
como Von Humboldt Fleisher. Em breve tornou-se-me evidente que
ele tinha atuado como meu agente. Eu, uma pessoa bastante serena,
tinha levado Humboldt a manifestar-se desaforadamente em meu
nome, satisfazendo alguns dos meus próprios desej os. Isso explicava
a minha predileção por certos indivíduos: Humboldt, George Swiebel
ou mesmo alguém como Cantabile. Esta espécie de delegação psicoló­
gica poderia ter origem no Governo representativo . Contudo, quando
um amigo com talentos expressivos morria, as tarefas delegadas volta­
vam para mim. E como eu também era o delegado expressivo de ou­
tras pessoas, isso acabava por se converter num verdadeiro inferno.
Continuar a obra de Humboldt? Humboldt tinha querido envol­
ver o mundo num resplendor, mas não teve material suficiente. A ten­
tativa dele acabou na barriga; mais abaixo estava pendurada a peluda
nudez que conhecemos tão bem. Era um homem adorável e generoso
que tinha um coração de ouro. No entanto, a bondade dele era do
tipo que hoj e em dia as pessoas consideram antiquada. O resplendor
que lhe interessava era um resplendor antigo e já escasseava . O que
nós queríamos era um fulgor inteiramente novo.
E agora Cantabile e sua mulher doutoranda andavam atrás de
mim para que recordasse os bons tempos, para sempre perdidos, do
Village, com os seus intelectuais, poetas, fracassados, suicidas e casos
de amor. Não me interessava nada. Ainda não tinha formado uma
opinião sobre a Sra . Cantabile, mas considerava Rinaldo um membro
da nova ralé cerebral daquela sociedade de espertalhões em que se
movia, e, além disso, naquele momento não me sentia disposto a dar
o braço a torcer. Não é que me importasse dar informações a investi­
gadores honestos ou até a j ovens interesseiros, mas estava ocupado,
angustiada e dolorosamente ocupado - pessoal e impessoalmente
1 22 SAUL BELLOW

ocupado: pessoalmente, com Renata e Denise, e com Murra, o conta­


bilista, e os advogados e o j uiz, e uma série de vicissitudes emocionais;
impessoalmente, participando na vida do meu país, da Civilização
Ocidental e da sociedade global ( uma mistura de realidade e ficção ) .
Como diretor d e uma importante revista, The Ark, que provavelmen­
te nunca chegaria a ser publicada, estava sempre a pensar em depoi­
mentos que deviam ser feitos e verdades para as quais o mundo devia
ser alertado. O mundo, identificado através de séries de datas ( 1 78 9
- 1 9 1 4 - 1 9 1 7 - 1 93 9 ) e palavras-chave ( Revolução, Tecnologia,
Ciência e assim por diante ) , era outra causa do meu excesso de ocu­
pações. São devidas obrigações a essas datas e palavras. Tudo se apre­
sentava tão momentoso, avassalador e trágico que, no fim, o que eu
realmente queria era deitar-me e dormir. Tive sempre uma facilidade
excecional em adormecer. Olho para fotografias tiradas em alguns
dos momentos mais terríveis da Humanidade e vej o que tinha ainda
muito cabelo, que era j ovem e atraente. Trago um fato assertoado dos
anos 30 ou 4 0 , fumo cachimbo, estou debaixo de uma árvore, de
mãos dadas com uma bela e roliça rapariga . . . e estou a dormir em pé,
completamente passado. D ormitei durante muitas crises ( enquanto
milhões morriam ) .
Tudo isto tinha uma importância tremenda. Para começar, devo
também admitir que voltei para Chicago com a secreta intenção de es­
crever uma obra capita l . Esta minha letargia está relacionada com
esse proj eto - havia-me ocorrido a ideia de escrever sobre a persis­
tente guerra entre sono e vigília que decorre na natureza humana.
O meu tema, nos anos finais da era Eisenhower, era o tédio. Chicago
era o lugar ideal para escrever meu ensaio magistral: O Tédio. Na tos­
ca e descarnada Chicago era possível examinar o espírito humano sob
o efeito do regime industri a l . Se a lguém aparecesse a propor uma
nova visão da Fé, do Amor e da Esperança, gostaria de saber a quem
a estava a oferecer - teria de compreender que espécie de intenso so­
frimento é esse a que chamamos tédio. Pretendia fazer com o tédio
aquilo que Malthus, Adam Smith e John Stuart Mill ou D urkheim
haviam feito com a população, a riqueza ou a divisão do tra balho.
A História e o temperamento tinham-me colocado numa situação pe­
culiar, e eu ia transformar isso numa vantagem. Afinal, não tinha lido
impunemente os grandes especialistas modernos em tédio, como era
o caso de Stendhal, Kierkegaard e Baudelaire. Há anos que trabalhava
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 1 23

com afinco nesse ensaio. A dificuldade radicava no facto de que tanta


quantidade de material acabava por me asfixiar, como a um mineiro
as emanações de gás. Não tinha intenções de parar. Dizia a mim mes­
mo que até Rip Van Winkle só havia dormido vinte anos. Eu decidi­
do a converter o tempo perdido em fonte de inspiração. De modo que
continuei a fazer um intenso trabalho intelectual em Chicago, fiz-me
sócio de um ginásio onde j ogava paddle com corretores e cavalheiros­
-marginais no meu esforço para intensificar os poderes da consciência.
Entã o, um dia, o meu respeitado amigo D urnwald mencionou, em
tom de brincadeira, que o famoso mas incompreendido Dr. Rudolf
Steiner tinha muito que dizer so bre os aspetos mais profundos do
sono. Os livros de Steiner, que comecei a ler deitado, fizeram-me ter
vontade de me levantar. Argumentava ele que entre a conceção de um
ato e a sua execução através da vontade havia um vazio ocupado pelo
sono. Podia ser breve mas era profundo . Porque uma das almas do
Homem era uma alma adormecida. Neste aspeto, os seres humanos
assemelhavam-se às plantas, cuja existência inteira é sono . Isto cau­
sou-me uma impressão profunda. A verdade sobre o sono só podia ser
entendida segundo a perspetiva de um espírito imortal. Nunca duvidei
de que tinha essa coisa. Porém, tinha chegado a essa conclusão dema­
siado cedo. Guardei essa certeza para mim. Estas crenças silenciadas
também pressionam o cérebro e mergulham as pessoas no reino vege­
tal . Hesitei, inclusivamente, em mencionar o espírito a um homem de
cultura como D urnwald. É claro que ele não levava Steiner a sério.
D urnwald era um homem de idade avançada mas ainda forte; aver­
melhado, atarracado e calvo, um solteirão de hábitos excêntricos, mas
boa pessoa. Tinha modos bruscos, imperiosos, rudes, intimidatórios
até, mas se me repreendia com agressividade era porque gostava de
mim . . . caso contrário não se teria dado ao trabalho. Grande erudito,
uma das pessoas mais cultas do mundo, era racionalista . Não um ra­
cionalista de vistas estreitas. Não obstante, não podia conversar com
ele sobre os poderes de um espírito separado do corpo. Nem queria
ouvir falar disso. Estava a gracej ar quando se referira a Steiner. Eu
não, mas também não queria passar por tolo.
Tinha começado a pensar em profundidade acerca do esp írito
imortal. Contudo, noite após noite, sonhava que me tinha convertido
no melhor j ogador do clube, um demónio da raquete, que a minha ré­
plica roçava a parede à esquerda do campo e a bola morria no canto:
1 24 5 A U L B E L LOW

havia um toque muito inglês nesta j ogada. Sonhava que vencia os me­
lhores j ogadores - todos aqueles tipos rápidos, magros e cabeludos
que, na realidade, evitavam j ogar comigo porque eu era um desastre.
Ficava tremendamente dececionado com as frívolas preocupações que
esses sonhos revelavam. Até os meus sonhos estavam adormecidos.
E o dinheiro ? O dinheiro é necessário para proteção de quem dorme.
Gastar causa insónia . À medida que se limpa a membrana interna que
nubla a vista e se ascende a uma consciência superior, deveria ser ne­
cessário menos dinheiro .
Mas nem sequer em tais circunstâncias (e j á devia ser claro o que
entendo por circunstâncias: Renata, Denise, crianças, tribunais, advo­
gados, Wall Street, sono, morte, metafísica, carma, a presença do Uni­
verso em nós, o nosso ser presente no próprio Universo) havia deixado
de pensar em Humboldt, um querido amigo oculto na noite intermi­
nável da morte, um companheiro de uma ( quase ) existência anterior,
amado mas morto . Às vezes imaginava que poderia voltar a vê-lo na
próxima vida, juntamente com a minha mãe e o meu pai. E também
Demmie Vonghel. Demmie era um dos mortos mais importantes; lem­
brava-me dela todos os dias. Mas não esperava que Humboldt se me
apresentasse como em vida, guiando a mais de cento e cinquenta qui­
lómetros o seu Buick esburacado . Primeiro ri-me. Depois guinchei.
Estava paralisado . Caía-me em c im a. S u focava-me com louvore s .
O legado d e Humboldt erradicava muitos problemas imediatos.
O papel desempenhado por Ronald e Lucy Cantabile não tem na­
da que ver com isto.
Caros amigos, embora estivesse prestes a sair da cidade e tivesse
muitos assuntos para tratar, decidi suspender todas as atividades prá­
ticas durante uma manhã. Tomei essa decisão para aliviar a tensão
nervosa. Tinha estado a praticar alguns exercícios de meditação reco­
mendados por Rudolf Steiner em Knowledge of the Higher Worlds
and Its A ttainment1 • Ainda não conseguira nada de especial, mas
a minha alma j á tinha muitos anos, tinha sido muito maculada e mal­
tratada e era preciso ser paciente. Como sempre, havia forçado dema­
siado a nota e lembrei-me uma vez mais daquele maravilhoso conse­
lho dado por um pensador francês: Trouve avant de chercher . . . era de
Valéry . O u talvez de Picasso. Há ocasiões em que o melhor que se
tem a fazer é ficar deitado.

1 Como A lcançar o Conhecimento dos Mundos Superiores. (N. do T.)


Ü LEGADO DE H U M B O LDT 125

Por isso, na manhã seguinte à minha j ornada com Cantabile, resol­


vi tirar uma folga . O tempo estava bom, o céu claro. Abri as cortinas
estampadas que impediam a visão dos pormenores de Chicago e deixei
entrar o sol brilhante e o azul intenso ( que, de tão caridosos, brilhavam
e coroavam inclusive uma cidade como esta ) . Bem-disposto, recuperei
os papéis relativos a Humboldt. Empilhei cadernos, cartas, diários e
manuscritos na mesa do café e no aquecedor coberto atrás do sofá .
Depois deitei-me, suspirando, e descalcei o s sapatos. Coloquei por bai­
xo da cabeça uma almofada bordada à mão por uma jovem ( que vida
mais cheia de mulheres a minha. Ah, que século este, perturbado pelo
sexo ! ) , uma tal Menina Doris Scheldt, filha do antroposofista que con­
sultava de vez em quando. Tinha-me dado este presente de Natal feito
à mão no ano anterior. Pequena e adorável, inteligente, com um perfil
surpreendentemente duro para uma j ovem tão bonita, gostava de usar
vestidos antiquados que a faziam parecer-se com Lillian Gish ou Mary
Pickford. No entanto, o calçado dela era provocante, extravagante. No
meu vocabulário particular, ela era uma pequena no/i me tangerine.1
Desejava e não desejava ser tocada. Também sabia muito sobre antro­
posofia e passámos muito tempo j untos no ano passado, quando Re­
nata e eu nos separámos. Eu sentava-me na sua cadeira de baloiço de
madeira torneada, ela apoiava as minúsculas botas de couro numa
banqueta e bordava esta almofada verde-rubra, tão verde como erva
fresca e tão rubra como brasas ardentes. Conversávamos, etc. Foi um
relacionamento agradável, mas acabou. Renata e eu reconciliámo-nos.
Isto é uma digressão para explicar por que razão decidi escolher
Von Humboldt Fleisher para tema de meditação naquela manhã. Su­
postamente, esta meditação servia para fortalecer a vontade. Depois,
revigorada pouco a pouco por tais exercícios, a vontade poderia tor­
nar-se um órgão de perceção .
Um bilhete-postal amarrotado c a i u ao chão: era um d o s últimos
que Humboldt me tinha enviado. Li aqueles rabiscos fantasmáticos
que pareciam um gráfico esmaecido da aurora boreal:

«Mice hide when hawks are high;


Hawks shy from airplanes;
Planes dread the ack-ack-ack;

1 Jogo de palavras com a expressão latina da Vulgata (João, 20, 1 1 ) << no/i me

tangere>> ( não me toques) e tangerine ( tangerina ) , com significado e intenção dedu­


zíveis do texto. (N. do T.)
! 26 S A U L B E L LOW

Each one fears somebody.


Only the heedless lions
Under the Booloo tree
Snooze in each other's arms
After their lunch of blood -
I cal/ that living good! » 1

Há oito ou nove anos, ao ler este poema, pensei: pobre Humboldt,


os médicos com os tratamentos de eletrochoques acabaram por lobo­
tomizá-lo, por arruiná-lo. Mas agora leio-o como uma mensagem
e não como um poema . A imaginação não deve enfraquecer - era
esta a mensagem de Humboldt. É preciso reafirmar que a arte mani­
festa os poderes íntimos da natureza . Para a faculdade redentora da
imaginação, o sono era sono e a vigília verdadeira vigília. Era o que
Humboldt me parecia estar a dizer agora . E se era assim, Humboldt
nunca estivera tão lúcido nem tinha sido tão coraj oso como no final
da sua vida. E eu tinha fugido dele na Rua Quarenta e Seis, precisa­
mente quando mais tinha para me dizer. Havia passado essa manhã,
como j á contei, muito bem vestido e a girar elipticamente sobre a ci­
dade de Nova Iorque num helicóptero da Guarda Costeira, com dois
senadores dos Estados Unidos, o presidente da Câmara e altos funcio­
nários de Washington e Albany, bem como com j ornalistas de primei­
ra ordem, todos enfiados em grossos coletes salva-vidas, cada um com
uma faca embainhada. (Nunca consegui recuperar dessas facas.) E de­
pois, a seguir ao almoço em Central Park ( sou obrigado a contar isto
outra vez ) , saí e avistei Humboldt, um homem moribundo que comia
um pretzel no passeio, com o pó da sepultura a salpicar-lhe já a cara.
Afastei-me a toda a pressa. Foi um desses momentos euforicamente
dolorosos em que não consegui refrear-me. Tive de desatar a correr.
Disse:
- Oh, rapaz, adeus. Vemo-nos no outro mundo !
Tinha concluído que j á não havia nada a fazer por ele neste mun­
do. Mas seria verdade ? Agora o postal amarrotado fazia-me reconsi­
derar. Fiquei com a impressão de que tinha pecado contra Humboldt.

1 Os ratos escondem-se quando os falcões voam; I Os falcões evitam os aviões; I


I Os aviões temem o fogo antiaéreo; I Toda a gente teme alguém. I Só os desatentos
leões I Sob a árvore de Booloo I dormitam nos braços uns dos outros I Após o seu
festim de sangue. I Chamo a isso viver bem! (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 1 27

Deitado no sofá de penas de ganso para meditar, comecei a sentir-me


mal sob o peso da vergonha e da autocrítica, a enrubescer e a suar. Ti­
rei a almofada de Doris Scheldt de trás da cabeça e limpei a cara com
ela. Uma vez mais, vi que estava a esconder-me atrás dos carros esta­
cionados na Quarenta e Seis. E vi Humboldt, como um arbusto cober­
to de lagartas de cima a baixo, a definhar. Aturdiu-me a imagem do
meu velho companheiro a morrer e fugi, voltei ao Plaza e telefonei
para o gabinete do senador Kennedy para dizer que tinha sido subita­
mente chamado a Chicago e que regressaria a Washington na semana
seguinte. Apanhei um táxi para o La Guardia e apanhei o primeiro
avião com destino ao aeroporto O'Hare. Recordava sistematicamente
aquele dia porque fora medonho. Duas bebidas, o máximo permitido
no voo, de nada me serviram - de nada ! Quando aterrámos, bebi
várias doses duplas de Jack Daniel's no bar do aeroporto, para re­
cuperar as forças. Estava uma noite muito quente. Telefonei a Denise
e disse-lhe:
- Voltei.
- Regressaste muito antes do previsto . Aconteceu alguma coisa,
Charlie ?
- Tive uma experiência terrível - respondi.
- Onde está o senador ?
- Ficou em Nova Iorque. Voltarei a Washington dentro de um ou
dois dias.
- Bem, então vem para casa.
A Life tinha-me encomendado um artigo sobre Robert Kennedy.
Passara cinco dias com o senador, ou perto dele, sentado num sofá do
Edifício do Senado, a observá-lo. Era, sob todos os pontos de vista,
uma ideia singular, mas o senador permitira que me colasse a ele e até
parecia gostar de mim. Digo << parecia >> porque fazia parte das suas ta­
refas dar essa impressão a um j ornalista que se propusesse escrever
a seu respeito. Eu também gostava dele, talvez contrariando uma ava­
liação criteriosa. A maneira como olhava para as pessoas era esquisita.
Os olhos dele eram tão azuis como o vácuo e pele das pálpebras des­
caía um pouco, como se tivesse uma dobra a mais. Depois da viagem
de helicóptero fomos do aeroporto de La Guardia até ao Bronx numa
limusina, e lá ia eu com ele. O calor era infernal no Bronx, mas está­
vamos numa espécie de cabine de cristal. Kennedy queria estar conti­
nuamente a receber informações. Não se cansava de fazer perguntas
a todas as pessoas do grupo. De mim queria informações históricas:
!28 SAUL BELLOW

- O que é que devo saber sobre William Jennings Bryan?


Ou:
- Fale-me de H. L. Mencken.
Ouvia tudo o que lhe dizia com uma espécie de brilho íntimo que
nada me dizia so bre o que pensava nem se utilizaria aqueles dados.
Parámos num parque infantil no Harlem. A comitiva era composta
por dois Cadillacs, motociclistas da polícia, guarda-costas e unidades
móveis de televisão. Um terreno baldio entre dois edifícios de aparta­
mentos tinha sido vedado, pavimentado, guarnecido de escorregas e
caixas de arei a . O diretor do parque, com cabeleira afro, dashiki1
e missangas, recebeu os dois senadores. As câmaras estavam coloca­
das por cima das nossas cabeças, apoiadas em tripés. O diretor negro,
radiante, cerimonioso, segurava uma bola de básquete no meio dos
dois senadores. Abriu-se uma clareira nas pessoas. O esbelto senador
Kennedy, descuidadamente elegante, fez dois lançamentos. Ao falhar,
abanou a cabeça avermelhada e castanha, com o cabelo penteado
para cima, sorriu. O senador Javits não podia dar-se ao luxo de falhar.
Corpulento e calvo, também sorria, mas fez pontaria ao cesto com
cuidado, encostou a bola ao peito e concentrou-se voluntariosamente
no obj etivo. Fez dois lançamentos . A bola não fez um arco. Voou di­
reita ao aro e entrou . Ho uve aplausos. Que vexame, que canseira
acompanhar o ritmo de Bobby. Mas o senador republicano saiu-se
bastante bem.
E era a isto que Denise queria que dedicasse o meu tempo. Fora
ela quem organizara aquilo tudo, telefonando para a Life, supervisio­
nando todas as condições.
- Vem para casa - disse. Mas não estava contente, pois agora
não me queria em Chicago.
Era uma casa grandiosa em Kenwood, na zona sul, onde ricos j u­
deus alemães tinham construído mansões vitoriano-eduardianas no
início do século. Quando os magnates das vendas à cobrança e outros
ricaços saíram daquela zona, instalaram-se lá professores universitá­
rios, psiquiatras, advogados e negros muçulmanos. Uma vez que me
empenhara em regressar à cidade para ser o Malthus do tédio, Denise
tinha comprado a Mansão Kahnheim. Fê-lo, sob protesto, dizendo:
- Porquê Chicago ? Podemos viver onde quisermos, não é verda­
de ? Meu Deus !

1 Túnica africana. (N. do T.)


o L E G A D O DE H U M B O LDT 1 29

Estava a pensar numa casa em Georgetown , o u em Roma, ou


Londres SW3 . Mas eu era muito obstinado, e Denise disse que espera­
va que não fosse o sinal de uma iminente depressão nervosa . O pai
dela, j uiz federal, era um j urista muito astuto. Sabia que ela o ia visi­
tar frequentemente ao centro da cidade para o consultar sobre pro­
priedades, posse conj unta e direitos das viúvas no estado de Illinois.
Aconselhou-nos a comprar a casa do coronel Kahnheim. Diariamente,
ao pequeno-almoço, Denise perguntava-me quando pensava fazer tes­
tamento.
Já era de noite, e ela estava à minha espera no nosso quarto . De­
testo ar condicionado. Impedira Denise de o instalar. A temperatura
rondava os trinta e tal graus centígrados, e nas noites quentes os habi­
tantes de Chicago sentem o corpo e alma da cidade. Os currais ti­
nham desaparecido, Chicago já não era uma cidade-matadouro, mas
os antigos odores revivem no calor noturno. Os quilómetros de vias­
-férreas que corriam ao longo das ruas estiveram ·no passado ocupa­
das por vagões de gado vermelhos que transportavam os animais mal­
cheirosos, a mugir, à espera de serem encerrados nos currais. Esse
antigo fedor ainda assombrava a cidade. Às vezes regressa, ressumando
do solo a bandonado, para nos recordar a todos que Chicago deteve
outrora a primazia mundial em tecnologia açougueira e que milhares
de milhões de cabeças de gado ali tinham morrido . E naquela noite as
j anelas estavam escancaradas e voltava o cheiro familiar, variegado
e deprimente da carne, do sebo, do sangue seco, dos ossos pulveriza­
dos, do couro, do sabão, dos nacos fumados e do pelo queimado .
A velha Chicago respirava novamente através de folhas e redes. Ouvia
os carros de bombeiros e o alarido histérico e penetrante das ambu­
lâncias. Nos bairros de lata negros dos arredores, os incêndios de ori­
gem criminosa disparam no verão, um sintoma, diz-se, de psicopato­
logia. Embora a atração pelas chamas também tenha qualquer coisa
de religioso. Contudo, Denise estava sentada na cama, a pentear a ca­
beleira rápida e vigorosamente. Sobre o lago cintilavam as metalúrgi­
cas. A luz dos candeeiros revelava a fuligem depositada nas folhas de
hera que cobriam o muro. A seca chegara mais cedo naquele ano.
Nessa noite, Chicago ofegava: as grandes máquinas urbanas estavam
em funcionamento, os edifícios de apartamentos ardiam em Oakwood
com enormes línguas de fogo, as sirenas uivavam fatidicamente, os
I}O S A U L B E L LO W

carros de bombeiros, as ambulâncias, as viaturas policiais - uma at­


mosfera de enlouquecer, de facadas, uma noite de estupros e assassí­
nios, com milhares de bocas de incêndio a bertas a j orrar água pelas
duas saídas. Os engenheiros ficavam estarrecidos ao ver descer o nível
da água do lago Michigan à medida que aquelas toneladas de água
eram derramadas. Bandos de rapazolas cirandavam pelas ruas com
pistolas e navalhas. E - ai, ai - este frágil e pesaroso Sr. Charlie Ci­
trine tinha acabado de ver o seu velho amigo, um homem morto a co­
mer um pretzel em Nova Iorque, de modo que deixara pendurados a
Life e a Guarda Costeira, os helicópteros e dois senadores para regres­
sar a toda a velocidade a casa à procura de consolo. Com essa inten­
ção, a mulher desnudara-se e estava a pentear a densíssima cabeleira .
O s enormes olhos cinzentos e vio leta dela revelavam impaciênci a ;
à ternura d e l a misturava-se irritação. Inquiria, tacitamente, quanto
tempo ficaria estendido de meias na chaise longue, com o coração fe­
rido e dominado por uma sensibilidade obsoleta . Pessoa nervosa e crí­
tica , Denise achava que eu tinha sentimentos aberrantes e mórbidos
em relação à dor, e que perante a morte era pré-moderno ou barroco.
Declarava muitas vezes que eu havia regressado a Chicago porque os
meus pais estavam enterrados cá. Às vezes, dizia com repentina pers­
picácia:
- Ah, cá está a treta do cemitério !
E costumava ter razão . Até eu começava a ouvir o monótono ar­
rastar de cadeias repercutindo na minha voz baixa . O amor era o re­
médio para estes estados de espírito fúnebres. E ali estava Denise, im­
paciente mas submissa, nua e sentada na cama, e eu nem sequer tinha
tirado a gravata . Sei que esta mágoa pode levar à loucura . E Denise
ficava esgotada quando tinha de me apoiar emociona lmente . Não
concedia muita importância às minhas emoções.
- Oh, estás outra vez na mesma. Tens de esquecer todas essas
porcarias trágicas. Fala com um psiquiatra. Porque estás aferrado ao
passado e sempre a lamentar a morte deste ou daquele ? - sublinhava
Denise, com um súbito brilho no rosto, sinal inequívoco de que, com
a sua perspicácia, tinha acertado no alvo.
Eu derramava lágrimas pelos meus mortos . . . mas também revolvia
as campas deles com a minha pá. Porque escrevia biografias e os mor­
tos eram o meu ganha-pão. Os mortos tinham servido para que obti­
vesse a condecoração francesa e entrasse na Casa Branc a . (A perda
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 131

dos nossos contactos com a Casa Branca, após a morte de JFK foi
uma das mais amargas humilhações de Denise . ) Não me interpretem
mal, sei que o amor e as reprimendas andam muitas vezes j unto s .
Durnwald também fazia isso comigo. Pois Deus castiga a quem ama.
Tudo tinha que ver com o afeto. Quando voltei para casa deprimido
por causa de Humboldt, ela estava preparada para me consolar. Mas
Denise tinha uma língua muito afiada . ( Chamava-lhe às vezes Dona
Rabugenta. ) É claro que a minha tristeza, o facto de estar ali sentado
com o coração destroçado, era uma provocação para ela que, aliás,
suspeitava que eu nunca terminaria o artigo para a Life. Também
tinha razão quanto a isso.
Se a morte me afetava tanto, por que razão não fazia nada a esse
respeito ? Essa infinita sensibilidade era horrível. Era esta a opinião de
Denise. Também estava de acordo com ela nisso.
- Então sentes-te mal por causa do teu amigo Humboldt! - dis­
se ela. - Mas como é que não o foste visita r ? Tiveste mais do que
tempo para fazer isso. E porque não lhe falaste hoj e ?
Perguntas difíceis, muito inteligentes. Não m e dava qualquer esca­
patória.
- Suponho que poderia ter-lhe dito : << Humboldt, sou eu, o Char­
lie. Vamos comer um almoço a sério ? O Blue Ribbon é logo a seguir
à esquina . » Mas acho que lhe podia provocar um ataque. Há dois
anos tentou dar uma martelada numa secretária do decano, acusando­
-a de lhe encher a cama com revistas de mulheres nuas. Uma espécie
de trama erótica contra ele. Tiveram de prendê-lo outra vez. O pobre
homem está louco. E de nada serve regressar a São Julião1 ou abraçar
leprosos.
- Quem falou em leprosos ? Estás sempre a pensar em coisas que
não passam pela cabeça de mais ninguém.

1 Alusão à lenda medieval de São Julião, o Hospitaleiro que, após assassinar os

pais, se redimiu abraçando um leproso (que, segundo diversas versões, era Jesu s ) .
Esta lenda foi recriada p o r Flau bert no conto homónimo incluído em Três Contos,
a última obra concluída pelo a utor francês. O comentário não é demasiado extem­
porâneo: Denise não parece estar muito a par das leituras prévias de Citrine nem
de Humboldt, que Bellow vai deixando cair - de passagem - ao longo do roman­
ce, entre as quais estão os outros dois contos do volume de Flau bert ( « Um Coração
Simples » e << Herodíade» ) . (N. do T.)
S A U L B E L LOW

- Muito bem, tens razão, mas a verdade é que tinha um aspeto re­
pelente e eu estava vestido a rigor. E conto-te uma coincidência curiosa.
Esta manhã, no helicóptero, sentei-me ao lado do doutor Longstaff.
De modo que, naturalmente, pensei no Humboldt. O Longstaff é que
lhe prometeu uma bolsa muito significativa da Fundação Belisha . Foi
quando ainda estávamos em Princeton. Nunca te falei dessa desgraça ?
- Não me parece.
- Pois lembrei-me de tudo.
- O Longstaff continua b o n ito e e legante ? Deve estar velho .
Aposto que estiveste a importuná-lo com os velhos tempos.
- É verdade, lembrei-lhe.
- Bem me parecia. Calculo que foste desagradável.
- O passado nunca é desagradável para quem sabe que está ple-
namente justificado.
- Gostava de saber o que andava o Longstaff a fazer no meio
dessa gente de Washington.
- A recolher fundos para as suas obras filantrópicas, espero eu.

Começou deste modo a minha meditação no sofá verde. De todos


os métodos de meditação recomendados na literatura, era deste novo
que mais gostava. Sentava-me com frequência, ao cair da tarde, re­
cordando todas as coisas que haviam acontecido, com minucioso
pormenor, tudo o que tinha visto, feito e dito. Era capaz de reviver
todo o d i a , revendo-me de costas ou de lado, fisicamente igual a
qualquer outra pessoa. Se tivesse comprado uma gardénia para Re­
nata numa florista, era capaz de recordar que pagara setenta e cinco
cêntimos por ela. Via a serrilha das três moedas prateadas de vinte e
cinco. Via a lapela do casaco de Renata, a cabeça branca do comprido
alfinete. Lembrava-me até de que o alfinete ficara duas vezes preso no
tecido, e também do rosto intensamente feminino de Renata, do olhar
atento e satisfeito que lançara à flor e do seu perfume. Se era isto
o que a transcendência requeria, então era como comer pão j á masti­
gado, podia fazer isso para sempre, voltando ao princípio dos tempos.
Assim, deitado no sofá, passava mentalmente em revista o obituário
do Times.
O Times mostrava-se muito afetado com a morte de Humboldt
e concedia-lhe duas colunas. A fotografia era grande. Porque, afinal
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 133

de contas, Humboldt tinha feito aquilo que os poetas na crassa Amé­


rica devem fazer. Perseguira a ruína e a morte com maior afinco do
que aquele que tinha aplicado a perseguir mulheres. Desperdiçou ta­
lento e saúde e por fim alcançou o lar, a sepultura, num declive poei­
rento . Cavou a sua própria cova . Pois . Edgar Allan Poe, recolhido
numa sarj eta em Baltimore, fez o mesmo. E Hart Crane, que saltou
borda fora. E Jarrell, que caiu à frente de um carro . E o pobre John
Berryman, que se atirou d e uma ponte. Alguma razão haverá para
que este tipo de atrocidade sej a particularmente apreciado pela Amé­
rica dos negócios e da tecnologia. A nação orgulha-se dos seus poetas
morto s . Sente uma espantosa satisfação perante o testemunho dos
poetas de que os EUA são um país demasiado duro, demasiado gran­
de, demasiado agreste, de que a realidade americana é uma coisa
avassaladora. E ser poeta é uma coisa escolar, de saias, de igrej a .
A debilidade das forças espirituais é comprovada pela infantilidade,
loucura, embriaguez e desespero destes mártires. Orfeu movia pedras
e árvores. Mas um poeta não sabe realizar uma histerectomia ou en­
viar um veículo para lá do sistema solar. Milagre e força há muito
que deixaram de lhe ser inerentes. É por isso que os poetas são ama­
dos, mas isso acontece pura e simplesmente porque não podem reali­
zar-se aqui. Existem para iluminar a monstruosidade da terrível con­
fusão e j ustificar o cinismo dos que dizem: << Mesmo que não fosse um
corrupto, um filho da puta insensível, um tarado, um ladrão e um
abutre, também não poderia atingir o meu ideal. Olhem para estes
homens bons, ternos e moles, os melhores de nós. Sucumbiram, po­
bres loucos . » É assim, meditava eu, que se regozijam esses canibais,
triunfadores, amargurados e descarados . Esta era a atitude refletida
no retrato de Humboldt que o Times tinha escolhido p ublicar. Era
uma dessas imagens que transmitem uma maj estade louca e pútrida:
arrepiante, sombria, um olhar feroz com lábios cerra dos, faces tu­
mefactas ou escrofulosas, testa cheia de cicatrizes e um olhar infantil
raivoso e desolado . Este era o Humboldt das conspirações, golpes de
Estado, acusações, assomos de cólera, o Humboldt do Hospital Bel­
levue, o Humboldt das ações j udiciais. Porque Humboldt adorava
ações j udiciais. Tinha o dom da palavra. Muitas vezes ameaçou pro­
cessar-me.
Sim, o obituário era horroroso. O recorte estava entre os papéis
que me rodeavam, mas não queria vê-lo. Lembrava-me, palavra por
1 34 S A U L B E L LOW

palavra, daquilo que o Times dissera. Dissera, no seu estilo de brinque­


do de folha cheio de curvas e contracurvas que Von Humboldt Fleisher
tinha tido primícias brilhantes. Nascera no Upper West Side, em Nova
Iorque. Com vinte e dois anos impusera um novo estilo na poesia nor­
te-americana . Elogiado por Conrad Aiken ( que uma vez tivera de cha­
mar a polícia para o expulsar da sua casa ) e admirado por T. S. Eliot
(sobre quem, quando perdia a cabeça, espalhava o escândalo sexual
mais improvável e escabros o ) , o Sr. Fleisher foi também crítico, en­
saísta , ficcionista, professor, eminente intelectual e um habitual par­
ticipante em salões literários . Os íntimos elogiavam a sua conversa.
Era efetivamente um grande conversador e tinha graça.
Neste momento abandonei a meditação e voltei a mim. O Sol ain­
da estava deslumbrante, o azul do céu era invernal, de uma altivez
emersoniana, mas sentia-me malvado . A quantidade de coisas desa­
gradáveis que tinha para dizer era apenas comparável à intensidade
da saturação azul glacial do céu. Muito bem, Humboldt, triunfaste na
Cultura Americana da mesma maneira que Hart Schaffner & Marx
triunfaram com capas e trajes; ou o general Sarnoff nas comunica­
ções; ou Bernard Baruch num banco de j ardim. Da mesma maneira
que, segundo o Dr. Johnson, os cães triunfam sobre as patas traseiras
e as damas no púlpito, superando curiosamente os seus limites natu­
rais. Orfeu, o Filho de Greenhorn, apresentou-se em Greenwich Villa­
ge com as suas baladas. Amava a literatura, a conversa e a discussão
intelectual, amava a História do Pensamento . Era um j ovem bonito,
afável e corpulento que criou uma combinação muito pessoal de sim­
bolismo e linguagem coloquial. Nessa mescla entravam Yeats, Apolli­
naire, Lénine, Freud, Morris R. Cohen, Gertrude Stein, estatísticas de
beisebol e mexericos de Hollywood. Pôs Coney Island no Egeu e asso­
ciou Buffalo Bill a Rasputine. E queria j untar, como forças equipará­
veis, o S acramento da Arte e a América Industrial. Nascido ( como
afirmava insistentemente ) numa gare do metropolitano em Columbus
Circle, quando a mãe começou os trabalhos de parto na composição,
pretendeu ser um artista sublime, um homem de possessão platónica,
de feitiços e estados visionários. Recebeu uma educação Naturalista
e Racionalista no City College de Nova Iorque, facto que não era fácil
de conciliar com o sentimento órfico. Mas todos os seus desejos eram
contraditórios. Queria ser cósmica e magicamente expressivo e coe­
rente, queria ser capaz de dizer qualquer coisa; e também queria ser
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT !35

sensato, filosófico, encontrar o denominador comum de ciência e


poesia, provar que a imaginação era tão poderosa como as máquinas,
libertar e abençoar o género humano. Acontece, todavia, que desej a­
va igualmente ser rico e famoso. E havia, é claro, as raparigas. O pró­
prio Freud acreditava que se perseguia a fama por amor às raparigas.
Mas as raparigas também perseguiam alguma coisa. Humboldt dizia:
- Andam sempre à procura do real. Foram sistematicamente en­
ganadas por farsantes, de modo que agora, suplicantes, anseiam en­
contrar o que é verdadeiro e regozij am-se quando aparece . É por isso
que amam os poetas. É esta a verdade sobre as mulheres.
Humboldt era o real, como é óbvio. Mas pouco a pouco deixou
de ser um j ovem atraente e o príncipe dos conversadores . Engordou,
a cara congestionou-se-lhe. Um ar de desapontamento e dúvida surgiu
por baixo dos seus olhos.
Círculos castanhos começaram a aprofundar-se aí e as faces dele
adquiriram uma espécie de palidez magoada. A isto o reduziu o seu
« frenético ofício » . Porque sempre havia dito que a poesia era um dos
ofícios frenéticos em que o êxito depende da opinião que se faz de si
mesmo. Quem tiver uma elevada ideia de si mesmo, consegue vencer;
perdendo-se a autoestima, está-se arruinado. Por essa razão vai sendo
desenvolvido um complexo de perseguição, porque as pessoas que fa­
lam mal de alguém estão a matá-lo. Sabendo isso ou, pelo menos, in­
tuindo-o, os críticos e intelectuais têm-no à sua mercê. Goste-se ou
não, foi-se arrastado para uma luta pelo poder. E a arte de Humboldt
começou a definhar à medida que aumentava o seu delírio. As rapa­
rigas eram muito importantes para ele. Continuaram a considerá-lo
o representante do real muito depois de ele se ter apercebido de que já
não lhe restava nada de real e de que estava a abusar da paciência
delas . Consumia mais comprimidos, bebia mais gim. A insanidade e
a depressão levaram-no ao manicómio. Entrava e saía de lá. Ganhava
a vida como professor de Inglês no meio do mato. Aí era uma grande
figura literária. Nos outros lugares, segundo as suas próprias pala­
vras, era um zé-ninguém. Mas eis que morreu e recomeçaram a dizer
bem dele. Tinha sempre valorizado a preeminência e o Times era
o máximo. Depois de ter perdido o talento e a cabeça, depois de ter
entrado em decadência e ter morrido na ruína, subiu novamente no
índice Dow Jones cultural e desfrutou durante algum tempo o prestí­
gio de um fracasso significativo.
136 S A U L B E L LOW

* �:- �t. *

A eleição de Eisenhower, em 1 952, foi, para Humboldt, um desas­


tre pessoal. Encontrou-se comigo na manhã seguinte, num estado de
forte depressão. A imensa cara loura exibia uma incrível tristeza . Le­
vou-me para o seu escritório, o de Sewell, que estava atafulhado de li­
vros - eu tinha-me instalado no quarto contíguo. Apoiando-se na pe­
quena escrivaninha, em cima da qual estava a berto o Times com os
resultados eleitorais, pegou num cigarro, mas as mãos crispavam-se­
-lhe em desespero. O cinzeiro, uma latinha de café Savarin, já estava
cheio. Não se tratava apenas de as suas esperanças se terem frustrado
nem de que a evolução cultural da América tivesse sido subitamente
interrompida. Humboldt estava assustado.
- Que vamos fazer agora ? - perguntou.
- De momento, teremos de deixar passar o tempo - respondi. -
Quem sabe se a próxima Administração não nos vai abrir as portas
da Casa Branca.
Humboldt não estava para conversas ligeiras nessa manhã .
- Mas pensa por uns momentos - disse eu. - Tu és editor de
poesia da Arcturus, estás na direção da Hildebrand & Company, és
conselheiro remunerado da Fundação Belisha e professor em Princeton.
Tens um contrato para fazer um livro de texto sobre poesia moderna.
Kathleen contou-me que, mesmo que vivesses cento e cinquenta anos,
nunca seria capaz de pagar todos os adiantamentos que os editores te
fizeram.
- Não terias inveja, Charlie, se soubesses como é difícil a minha si­
tuação. Dou a impressão de ganhar uma fortuna, mas é tudo uma ilu­
são. Estou em perigo. Tu, sem qualquer perspetiva à vista, encontras-te
numa posição mais segura. E agora dá-se esta catástrofe política.
Percebi que tinha medo dos vizinhos do campo. Nos seus pesade­
los, queimavam-lhe a casa, andava aos tiros com eles, que acabavam
por linchá-lo e raptar-lhe a mulher.
- Que vamos fazer agora ? Qual será nosso próximo passo ? - per­
guntou-me.
Estas perguntas foram feitas apenas para introduzir o plano que
tinha em mente.
- O nosso próximo passo ?
o L E G A D O DE H U M B O LDT 137

- Ou saímos dos Estados Unidos durante este mandato ou cava­


mos trincheiras.
- Podíamos pedir asilo a Harry Truman no Missouri.
- Não gozes comigo, Charlie. Recebi um convite da Universidade
Livre de Berlim para ensinar Literatura Norte-Americana.
- Acho ótimo.
- Não, não ! - apressou-se a replicar. - A Alemanha é perigosa.
Não me arriscaria a ir para a Alemanha.
- Então só nos resta cavar trincheiras. Onde é que pensas come­
çar a escavar?
- Eu disse << nÓs » . A situação é de grande insegurança. Se tivesses
um pingo de sensibilidade sentirias o mesmo. Julgas que por seres um
menino bonito, esperto e de olhos grandes ninguém te vai fazer mal ?
Humboldt começou então a atacar Sewell.
- O Sewell não passa de uma ratazana.
- Pensava que eram velhos amigos.
- Conhecer alguém dura nte m u ito tempo n ã o é sinónimo de
amizade. Gostas dele ? Recebeu-te. Foi condescendente, presumido,
tratou-te como lixo. Nem sequer falou contigo, só comigo. Isso cus­
tou-me .
- Mas não disseste nada.
- Não quis que ficasses aborrecido com ele logo no começo e te
zangasses, que começasses a tra balhar ressentido. Achas que é um
bom crítico ?
- Pode o surdo afinar pianos ?
- Mas é astucioso. É um homem astucioso, embora de maneira
suj a . Não o subestimes. E é duro na luta corpo a corpo. Ser professor
universitário sem sequer ter uma licenciatura em Arte . . . fala por si.
O pai dele não passava de um pescador de lagostas. A mãe era lava­
deira. Lavava os colarinhos de Kittredge em Cambridge e arranj ou fa­
cilidades na biblioteca para o fi lho. Entrou em Harvard como um
franganote e saiu como um titã . Agora é um cavalheiro WASP1 e rei­
na sobre nós. Tu e eu elevámos o estatuto dele. Anda com dois j udeus
como um magnate ou um príncipe.
- Porque me queres virar contra o Sewell ?

1 WASP: White, A nglo-saxon, Protestant - Branco, Anglo-saxão, Protestante,


forma de definir a tradicional classe dirigente norte-americana. (N. do T.)
q8 S A U L B E LLOW

- És demasiado orgulhoso para te sentires ofendido . Ainda és


mais presunçoso do que o Sewell. Acho que psicologicamente pode­
rias ser um desses AxeJl que só se interessam pela inspiração vinda do
íntimo, sem relação com o mundo real. O mundo real não importa
para coisíssima nenhuma - disse Humboldt com raiva . - Deixas
aos pobres-diabos como eu o trabalho de pensar em assuntos como
dinheiro, estatuto social, êxito, fracasso, problemas sociais e política.
Não ligas peva a essas coisas.
- Se for verdade, que mal é que tem ?
- O mal está em me deixares atolado nessas responsabilidades
não poéticas. Recostas-te, descansado como um rei, e deixas que to­
dos esses problemas humanos sigam o seu curso. As moscas nunca
pousam em Jesus. Charlie, tu não te sentes ligado a nada, nem a um
espaço nem a um tempo, nem aos gentios nem aos j udeus. D iz-me lá
se te sentes ligado a alguma cois a ? Os outros que enfrentem os nos­
sos problemas . Tu és livre ! O Sewell cheirou-te mal. Tratou-te com
displicência e tu fica ste a b orrec ido com ele, não negues. Mas não
consegues prestar atenção. Abstrais-te sempre pensando num destino
cósmico. Diz-me, o que é essa grande coisa em que estás sempre a tra­
balhar ?
Continuava deitado no sofá de veludo da cor de brócolos, afunda­
do na meditação naquela gélida e soberba manhã azul de dezembro.
As caldeiras do aquecimento centra l do grande edifício de Chicago
emitiam um ruidoso zumbido. Podia passar sem isso. Mas também
estava grato à engenharia moderna. Na imaginação ainda via Hum­
boldt no gabinete de Princeton, e a minha concentração era intensa.
- Vai direito ao assunto - disse-lhe.
Parecia ter a boca seca mas não havia nada que se pudesse beber.
Os comprimidos fazem sede. Em vez disso, continuou a fumar e disse:
- Tu e eu somos amigos. O Sewell trouxe-me para cá. E eu trou­
xe-te a ti.
- Estou-te grato. Mas tu não lhe estás grato.

1 Personagem que dá o título ao poema em prosa de Villiers de l 'Isle-Adam.


Trata-se de um esteta que se isola do mundo numa torre de marfim. Edmund Wil­
son recupera o nome no seu célebre livro sobre o movimento simbolista : Axe/'s
Castle: A Study in the Imaginative Literature of 1 8 70- 1 93 0 . (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT !39

- Porque é um filho da puta .


- Talvez.
Não me incomodava que insultassem Sewell . Tinha-me desconsi­
derado. Mas com o cabelo ralo, o bigode de cereal ressequido, a cara
de bêbedo, as subtilezas à Prufrock, a suposta elegância de dedos entre­
laçados e pernas cruzadas, com os ininteligíveis resmungos sobre litera­
tura, não era um inimigo perigoso. Embora parecesse estar a tentar
conter Humboldt, a verdade é que adorava a maneira como arrasava
Sewell. A exuberância amalucada e cruel de Humboldt quando estava
com a corda toda satisfazia, indubitavelmente, um dos meus apetites
mais embaraçosos.
- O Sewell está a aproveitar-se de nós - disse Humboldt.
- O que é que te leva a pensar isso ?
- Quando ele voltar, vamos ser despedidos.
- Mas sempre soube que o nosso contrato era por um ano.
- Ah, quer dizer que não te importas de ser tratado como um
carro de aluguer da Hertz, como uma cama de beliche ou um penico
de criança ? - perguntou Humboldt.
Por baixo do tecido escocês do colete, largo como uma manta, as
costas dele começaram a curvar-se ( um sinal familiar) . Essa acumula­
ção de força de bisonte nas costas não augurava nada de bom. A ex­
pressão de perigo foi-se materializando à volta da boca e dos olhos,
e as duas cristas de cabelo pareciam mais altas do que o habitual. On­
das radiantes pálidas e quentes apareceram-lhe na cara . Umas pom­
bas, de penas cinzentas e cor de creme, passeavam com as suas garras
rubras nos peitoris de arenito . Humboldt não gostava delas. Via-as
como pombas de Princeton, pombas de Sewell. Arrulhavam para Se­
well. Às vezes, Humboldt chegava a dar a ideia de que as considerava
como agentes e espiões dele. Afinal de contas, tratava-se do gabinete
de Sewell e Humboldt estava sentado à escrivaninha dele. Os livros
que cobriam a s paredes pertenciam a Sewell. Há algum tempo que
Humboldt andava a metê-los em caixas. A fastara uma coleção de
Toynbee e colocara em lugar dela os seus próprios livros de Rilke
e Kafka. Abaixo Toynbee; abaixo Sewell também.
- Tu e eu somos dispensáveis, Charlie - disse Humboldt. - Por­
quê ? Já te digo: somos judeus, judeus sujos, j udas. Aqui, em Princeton,
não representamos nenhuma ameaça para Sewell.
5AUL BELLOW

Lembrei-me de que me havia detido a pensar naquele comentário


de sobrolho franzido.
- Temo não ter ainda compreendido o que pretendes - disse.
- Então tenta pensar em ti mesmo como se te chamasses Sheeny
Solomon Levi. Não há qualquer perigo em empossar Sheeny Solomon
e ir para D a masco durante um ano dar aulas sobre The Spoils o(
Poynton. No regresso, tem-se a distinguida cátedra à espera. Nem tu
nem eu somos uma ameaça.
- Mas eu não quero ser uma ameaça para ele. E porque é que
Sewell havia de preocupar-se com ameaças ?
- Porque está em guerra com estes velhos, com todos estes tipos
de suíças, estes crápulas gentis à Hamilton Wright Mabie, que nunca
o aceitaram. Ele não sabe grego nem anglo-saxão. Para eles, não pas­
sa de um piolhoso arrivista .
- E depois ? É um autodidata . Sob esse ponto de vista, tem a mi­
nha simpatia.
- É um corrupto, um filho da puta, que nos desdenhou. Sinto-me
ridículo quando ando na rua. Em Princeton, tu e eu somos Moe e Joe,
uma dupla de variedades iídiche. Somos uma piada: Abie Kabibble &
Companhia. É impensável que possamos tornar-nos membros da co­
munidade de Princeton.
- A quem é que faz falta essa comunidade ?
- Ninguém confia nesse pequeno velhaco. Falta-lhe a qualidade
humana . A pessoa que melhor o conhece, a mulher. .. quando o aban­
donou, até os passarinhos levou. Tu bem viste todas aquelas gaiolas.
Nem uma única gaiola vazia quis que lho pudesse recordar.
- Estás a dizer que ela se foi embora com os pássaros pousados
na cabeça e nos braços ? Vá lá, Humboldt, o que é que tu queres ?
- Quero que te sintas tão ofendido como eu e não atires tudo
para cima de mim. Porque será que não sentes indignação, Charlie ?
Ah, não tu és um verdadeiro americano. Estás cheio de gratidão. És
um estrangeiro. Conservas a gratidão típica do imigrante j udeu que­
-beij a-o-chão-de-Ellis-Island . És também um produto da Grande De­
pressão. Nunca pensaste que poderias vir a ter um emprego, com um
escritório e uma mesa e até gavetas só para ti. Parece-te tão divertido
que não consegues parar de rir. És um ratinho iídiche nestas grandes
mansões cristãs. E és simultaneamente demasiado arrogante para que
olhes para os outros.
0 L E G A D O DE H U M B O LDT

- Essas guerrinhas de sociedade não me interessam, Humboldt.


E não nos devemos esquecer de todas as barbaridades que disseste so­
bre os j udeus instalados nas grandes universidades. E na semana pas­
sada ainda estavas de acordo com Tolstói: chegou a altura de nos re­
cusarmos a entrar na História e a participar na comédia da História,
no mau j ogo social.
Não valia a pena discutir. Tolstói ? Tolstói tinha sido o tema de
conversa da semana passada. O rosto grande, inteligente e transtorna­
do de Humboldt havia adquirido um tom incandescente que delatava
turbulentas e ocultas emoções e perturbações mentais. Senti pena de
nós, de ambos, de todos, estranhos organismos debaixo do sol. Gran­
des mentes em convívio demasiado estreito com almas exaltadas. E al­
mas banidas, ainda por cima, ansiando pelo seu mundo origi n a l .
Todo o ser vivo chora a perda d o seu mundo-lar.
Afundado na almofada do meu sofá verde, estava tudo claro para
mim. Ah, como era a existência ! Como era o ser humano !
A compaixão que sentia pelos a bsurdos de Humboldt levou-me
a cooperar com ele.
- Passaste a noite toda acordado a pensar - disse eu.
Replicou-me, com uma ênfase que lhe era alheia:
- Charlie, confias em mim, não é verdade ?
- Meu Deus, Humboldt ! Confio porventura na corrente do Gol-
fo ? Tenho obrigação de confiar em ti ?
- Sabes como me sinto chegado a ti. Entrelaçado. Irmão e irmão.
- Não precisas de me amolecer. Desembucha, Humboldt, pelo
amor de Deus !
A secretária parecia pequena Tinha sido fabricada para pessoas
mais diminutas. A parte superior do tronco dele transbordava. Pare­
cia um três-quartos profissional de futebol americano ao lado de um
carrinho de bebé. Os dedos de unhas roídas seguravam um cigarro
aceso.
- Em primeiro lugar, vamos conseguir que me nomeiem.
- Queres ser professor em Princeton ?
- Uma cátedra de Literatura Moderna. É isso que eu quero. E tu
vais aj udar-me. De modo a que quando Sewell voltar j á me encontra­
rá instalado. Vitaliciamente. O Governo americano mandou-o des­
lumbrar e maltratar os pobres sírios com The Spoils of Poynton. Bem,
S A U L B E L LOW

depois de passar um ano a beber e a resmungar longas frases regressa­


rá e descobrirá que os velhos salafrários que nem as horas lhe diriam
me fizeram catedrático. Que te parece?
- Nada de especial. E foi isso que te fez ficar acordado a noite
passada ?
- Puxa pela imaginação, Charlie. Estás excessivamente descansa­
do. Capta o insulto . Irrita-te. Ele contratou-te como limpador de es­
carradeiras. Tens de cortar os últimos laços com as virtudes da velha
moral de escravo que ainda te ligam à classe média. Vou inculcar em
ti um pouco de dureza, um pouco de ferro .
- De ferro ? Este vai ser o teu quinto emprego, que eu saiba. Su­
ponhamos que eu sou um tipo duro . . . o que é que eu ganho com isto ?
Onde é que entro eu?
- Charlie ! - tentou sorrir, mas não consegu i u . - Tenho um
plano.
- Eu sei que tens. És como aquele tipo, de cuj o nome não lem­
bro, que não conseguia beber uma taça de chá sem recorrer a um es­
tratagema . Como Alexander Pope.
Humboldt pareceu tomar a comparação como elogio e riu entre­
dentes, em silêncio.
- Eis o que tens de fazer - disse. - Vais ter com o Ricketts e di­
zes: << O Humboldt é uma pessoa muito distinta : poeta, erudito, crítico,
professor e editor. Tem renome internacional e já assegurou um lugar
na História da Literatura norte-americana » . . . E tudo isto é verdade,
diga-se de passagem. E acrescentas : << E esta é a oportunidade dele,
professor Ricketts . Sei que Humboldt está farto de viver como um
boémio, sem rei nem roque. O mundo literário move-se com grande
rapidez. A vanguarda não passa de uma recordação . Chegou a altura
de Humboldt ter uma vida mais digna e estável. Está casado. Sei que
admira Princeton, adora estar cá, e se lhe fizer uma proposta estou
certo de que a terá em consideração . Creio que sou capaz de o con­
vencer a aceitar, já que me desagradaria que se perdesse esta oportuni­
dade. Princeton teve Einstein e Panofsky. Mas o ponto fraco reside na
criação literária. A tendência atual é ter artistas no campus. Amherst
tem Robert Frost. Não se deixem ficar para trás. Deitem a mão ao
Fleisher. Não o deixem ir embora porque depois só vão arranj ar inte­
lectuais de terceira. >>
- Não vou mencionar nem Einstein nem Panofsky. Começarei
logo com Moisés e os profetas . Que plano tão bem urdido ! O Ike
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 143

deve ter-te inspirado. É a isto que chamo vil astúcia de nobres pensa­
mentos.
Humboldt não achou graça. Tinha os olhos avermelhados. Havia
passado a noite acordado. Primeiro tinha estado a ver os resultados
eleitorais. A seguir cirandara pela casa e pelo quintal, imerso em de­
sespero, a pensar naquilo que iria fazer. Depois pôs-se a planear este
golpe. Fina lmente, em estado de grande inspiração, tinha-se metido
no B uick , com a panela do escape rota, para guiar com estampidos
atroadores pelos estradões rurais, fazendo o largo e comprido carro
derrapar perigosamente nas curvas. Por sorte para elas, as marmotas
já haviam começado a hibernar. Sei que personagens lhe povoavam os
pensamentos: Walpole, o Conde Mosca, Disraeli, Lénine. Ao mesmo
tempo, meditava, com perfeição intemporal, na vida eterna. Ezequiel
e Platão não estavam ausentes. O homem era nobre. Mas também fer­
via, e a loucura convertia-o em vil e divertido. Com torpeza e a cara
inchada de cansaço, tirou um frasco de remédio da pasta, pôs alguns
comprimidos na palma da mão e engoliu-os. Tranquilizantes, prova­
velmente . Ou talvez anfetaminas para se estimular. Engoliu-as sem
água . Automedicava-se. Como Demmie Vonghel, que se trancava no
quarto de banho e tomava muitas pílulas.
- De modo que vais falar com o Ricketts - disse Humboldt.
- Julgava que não passasse de um testa de ferro.
- É verdade. É um bufo . Mas a velha guarda não pode passar
sem ele. Se formos mais espertos do que ele, os outros terão de confir­
mar o que ele disser.
- Mas por que raio há de o Ricketts levar em consideração o que
eu lhe disser ?
- Porque, meu caro, andei a espalhar que a tua peça vai ser leva­
da à cena .
- Fizeste isso ?
- No próximo ano, na Broadway. Consideram-te um dramaturgo
de êxito.
- Mas por que diabo fizeste isso ? Vou parecer um impostor.
- Não, não vais. Faremos que sej a uma realidade. Dei ao Ric-
ketts o teu último ensaio na Kenyon para que o lesse. Acha que tens
futuro. E comigo não precisas de fingir. Conheço-te. Adoras intrigas
e travessuras. Vê-se na tua cara . . . Já se te veem os dentes. Além disso,
não se trata apenas de uma intriga .
1 44 S A U L B E L LOW

- O quê ? Feitiçaria! Uma porra de sortilégio!


- Não é sortilégio nenhum. É ajuda mútua.
- Não me venhas com essas tretas.
- Primeiro eu, depois tu - replicou.
Recordo perfeitamente que a minha voz subiu uns decibéis . Gritei:
- O quê ! - Depois ri e disse: - Também vais fazer de mim um
catedrático de Princeton ? Achas que consigo aguentar uma vida intei­
ra de bebedeiras, tédio, nulidades e baj ulices ? Acabas de perder Was­
hington por maioria esmagadora, mas não demoraste nada a confor­
mar-te com esta caixinha de música académica. Obrigado, prefiro ser
infeliz pelos meus próprios meios. Ao fim de dois anos estarás farto
destes privilégios de gentios.
Humboldt abanou as mãos diante da minha cara .
- Não envenenes o meu pensamento. Que língua de prata tu tens,
Charlie. Não digas essas coisas. Prefiro esperar que aconteçam. Infeta­
rão o meu futuro.
Calei-me e pus-me a refletir sobre aquela proposta singular. De­
pois olhei para Humboldt. Tinha a mente devotada a uma estranha
e trabalhosa tarefa. Inchava e pulsava de maneira estranha, dolorosa­
mente. Tentou desanuviar a situação com o seu riso ofegante e quase
silencioso . Mal se conseguia ouvir a sua respiração.
- Não estarás a mentir ao Ricketts - disse. - Onde é que arran-
j ariam alguém como eu ?
- Está bem, Humboldt. É difícil responder a essa pergunta.
- Bem, sou um dos homens de letras mais destacados deste país.
- Sem dúvida, na tua melhor forma.
- Deviam fazer alguma coisa por mim. Especialmente nesta altu-
ra, com o Ike na presidência, quando as trevas se abatem sobre o nos­
so país.
- Mas por que razão há de ser isto ?
- Bem, com toda a franqueza, Charlie, ultimamente tenho anda-
do descentrado. Tenho de recuperar um estado de espírito que me
permita voltar a escrever poesia. Mas onde para o meu equilíbrio? Te­
nho demasiadas angústias. Deixam-me esgotado. O mundo continua
a intrometer-se. Tenho de recuperar o antigo encantamento. Sinto-me
como se vivesse num subúrbio da realidade, a andar de um lado para
o outro. Isto tem de acabar. Tenho de me centrar. Estou aqui - ( aqui
na Terra, queria ele dizer) - para fazer alguma coisa, alguma coisa
que sej a boa.
Ü L E G A D O D E H U M B O LDT 145

- Eu sei, Humboldt. Mas esse a q u i de que fal a s também não


é Princeton, e toda a gente está à espera do que é bom.
Com os olhos ainda mais avermelhados, Humboldt disse:
- Eu sei que tu gostas de mim, Charlie.
- É verdade. Mas basta dizer isso uma vez.
- Tens razão. Embora também sej a um irmão para ti. A Kathleen
sabe disso. É óbvio que nos estimamos, incluindo Demmie Vonghel.
Faz-me a vontade, Charlie. Não importa que possa parecer ridículo.
Faz-me este favor, Charlie, é importante. Telefone ao Ricketts e diz­
-lhe que queres falar com ele.
- Está bem. Assim farei.
Humboldt pousou as mãos na pequena secretária amarela de Sewell
e atirou-se para trás na cadeira com tanta força que os rodízios de aço
gemeram. As melenas do cabelo confundiam-se com o fumo do cigar­
ro. Baixou a cabeça . Estava a examinar-me como se tivesse acabado
de emergir de muitas braças de profundidade.
- Tens conta bancária, Charlie ? Onde é que guardas o dinheiro.
- Que dinheiro ?
- Não tens conta ?
- No Chase Manhattan. Cerca de doze dólares.
- O meu banco é o Corn Exchange - disse. - Onde tens o livro
de cheques ?
- Na gabardina.
- Mostra-mo.
Tirei do bolso da gabardina as folhas verdes esvoaçantes, dobra­
das nas bordas.
- Afinal só tenho oito dólares de saldo - disse eu.
Então Humboldt meteu a mão no bolso do casaco de xadrez, ti­
rou o seu próprio livro de cheques e destapou uma das suas muitas
canetas. Trazia sempre com ele um molho de esferográficas e canetas
de tinta permanente.
- Que estás a fazer, Humboldt ?
- Estou a dar-te carte blanche para sacares dinheiro da minha
conta . Vou assinar um cheque em branco em teu nome e tu fazes
o mesmo rem relação a mim. Sem data, sem indicar a importância,
apenas « Pa g u e - s e a Von H u m b o l d t F l e i s h e r >> . Senta-te, C h a r l i e ,
e preenche o teu .
- Mas para quê isto tudo ? Não me agrada. Gostava d e perceber
o que está a acontecer.
J46 S A U L B E L LOW

- Com oito dólares na tua conta, que importância tem ?


- Não é pelo dinheiro . . .
Humboldt estava muito emocionado.
- Exatamente, não se trata disso - disse. - É essa a questã o .
Quando estiveres e m dificuldades, só precisas d e preencher o cheque
com a quantia necessária e descontá-lo. O mesmo se aplica a mim. Fa­
remos um j uramento, como amigos e irmãos, de nunca nos aprovei­
tarmos disso. Que reservaremos o cheque para uma emergência extre­
ma. Quando falei em a uxílio mútuo não me levaste a sério. Agora
percebeste.
Apoiou-se na mesa com todo o seu peso e numa letra diminuta
preencheu o cheque em meu nome com uma mão forte e trémula.
O meu autocontrolo também não era muito melhor. Parecia que
tinha o braço dominado pelos nervos, estremecendo ao assinar. De­
pois Humboldt, imenso, delicado e manchado, ergueu-se da cadeira
giratória e entregou-me o cheque do Corn Exchange.
- Não, não te limites a enfiá-lo no bolso - disse. - Quero ver-te
a guardá-lo. É perigoso . Quer dizer, é valioso.
A seguir apertámos as mãos - as quatro. Humboldt declarou:
- Isto faz de nós irmãos de sangue. Firmámos um pacto. Isto é
um verdadeiro pacto.
Um ano depois tive um êxito na Broadway, ele preencheu o meu
cheque em branco e descontou-o. Declarou que eu o havia traído, que
eu, seu irmão de sangue, tinha quebrado um pacto sagrado, que an­
dava a conspirar com Kathleen, que lhe pusera a polícia no encalço
e que o havia enganado. Tinham-no enfiado numa camisa de forças
e trancaram-no no Bellevue, e isso também era culpa minha. E por isso
merecia ser castigado. Impusera-me uma multa. Sacou seis mil sete­
centos e sessenta e três dólares e cinquenta e oito cêntimos da minha
conta no Chase Manhattan.
Quanto ao cheque que me tinha dado, meti-o numa gaveta debai­
xo de umas camisas. Desapareceu ao fim de poucas semanas e nunca
maiS O VI.

Neste ponto, a meditação tornou-se um transe penoso. Porquê ?


Devido às invetivas e denúncias de Humboldt que agora me voltavam
Ü L E G A D O DE H U M B O L D T 1 47

à lembrança, j untamente com distrações furiosas e ansiedades tortu­


rantes, tão cerradas como fogo antiaéreo. Porque continuava ali deita­
do ? Tinha de me preparar para voar para Milão ! Estava previsto que
fosse a Itália com Renata. Natal em Milão ! E tinha de estar presente
numa audiência com o j uiz Urbanovich, conferenciando primeiro com
Forrest Tomchek, o advogado que me representava na ação movida
por Denise para ficar com todos os meus cêntimos. Também tinha de
discutir com Murra, o contabilista, a ação interposta pelo Fisco con­
tra mim. E até Pierre Thaxter, que vinha da Califórnia, devia conver­
sar comigo a respeito de The Ark - na verdade para explicar por que
razão tinha sido correto deixar sem pagar aquele empréstimo por cuj o
ressarcimento eu era responsável - e abrir a sua alma, contribuindo
dessa forma para que eu também abrisse a minha. Quem era eu para
mostrar uma alma reservada ? Ficava pendente a questão do Merce­
des: vendê-lo ou pagar o arranj o ? Estava quase decidido a entregá-lo
para sucata . Quanto a Ronald Cantabile, que se autoproclamava re­
presentante do novo espírito, sabia que poderia aparecer a qualquer
momento.
Apesar de tudo, fui capaz de resistir a essa importuna investida de
distrações. Reprimi o impulso de me levantar do sofá como se fosse
uma tentação má. Deixei-me ficar onde estava, enterrado no enchi­
mento do sofá - que tantas vidas de gansos tinha custado - e conti­
nuei a pensar em Humboldt. Os exercícios para fortalecimento da
vontade que tinha estado a praticar não foram nenhuma perda de
tempo. Via de regra, usava plantas como tema: ora uma roseira espe­
cial convocada do passado, ora a anatomia vegeta l . Comprei u m
enorme livro de botânica da autoria de u m a mulher chamada Esau
e mergulhei no estudo da morfologia, dos protoplastos e das substân­
cias ergastídeas, para que os meus exercícios pudessem ter um conteú­
do real. Não queria ser um desses ociosos visionários ocasionais.
Sewell, um antissemita ? Tolice. Dava j eito a Humboldt apor-lhe
esse labéu. Quanto a sermos irmãos de sangue e a fazer pactos, isso já
era bastante mais genuíno. Sermos irmãos de sangue dramatizava um
desej o real. Mas não totalmente sincero . Tentei recordar as nossas
intermináveis consultas e reuniões antes de i r falar com Ricketts .
Por fim, disse a Humboldt:
- Basta. Sei o que tenho de fazer. Nem mais uma palavra.
SAUL BELLOW

Demmie Vonghel também colaborou. Achava que Humboldt era


muito engraçado. Na manhã da entrevista encarregou-se de que eu
fosse corretamente vestido e levou-me de táxi a Penn Station.
Esta manhã, em Chicago, descobri que podia recordar Ricketts
sem a menor dificuldade. Era um homem de aspeto j uvenil mas de ca­
belo branco, que lhe nascia a meio da testa e trazia cortado à escovi­
nha. Corpulento, forte, de pescoço vermelho, era uma espécie de belo
carregador de mobília . Anos depois do fim da guerra, aquele tipo ma­
ciço e amável ainda se mantinha fiel à gíria da caserna . Sem muito jei­
to para brincadeiras, com calças de flanela antracite, tentou ser infor­
mal comigo.
- Constou-me que vocês, meus rapazes, estão a dar-se muito bem
no curso do Sewell, o que é porreiro .
- Ah, devias ter ouvido o Humboldt a falar de << Sailing to Byzan­
tium >> 1 .
- É o que toda a gente diz. Não pude assistir. Tarefas administra­
tivas . Uma pena . E tu, Charlie, como estás ?
- A adorar cada minuto que passa.
- Formidáve l . Sem descuidar a tua própria produção, espero .
O Humboldt contou-me que uma peça tua vai ser estreada na Broad­
way no próximo ano.
- Ele está adiantado em demasia.
- Ah, é um grande homem. Tem sido ótimo para todos nós. Para
mim, sobretudo, no meu primeiro ano como presidente do conselho.
- Ah, sim ?
- Claro, é o meu batismo de fogo . Estou muito feliz por vos ter
aos dois aqui. A propósito, pareces muito feliz.
- Em geral, sinto-me feliz. Há quem considere isso um defeito .
Uma mulher bêbeda perguntou-me, na semana passada, qual era
o meu problema . Disse-me que eu era do tipo heimischer compulsivo.
- A sério ? Nunca ouvi essa expressão.
- Também era nova para mim. Depois disse-me que, do ponto de
vista existencial, não estava no caminho certo . E a última coisa que
lhe ouvi foi: << Aparentemente está a atravessar um período excelente,
mas a vida vai esmagá-lo como uma lata de cervej a vazia. >>

1 Poema de W. B. Yeats. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 1 49

S o b o cabelo curto, os olhos d e Ricketts mostraram u m lampejo


de vergonha . Talvez também se sentisse atingido pelo meu bom hu­
mor. A verdade é que só pretendia que a entrevista se tornasse mais
fácil. Mas comecei a perceber que Ricketts não estava a sentir-se bem.
Apercebera-se de que o tinha procurado para lhe causar problemas.
Por que motivo estava eu ali ? Que espécie de visita era aquela ? Tor­
nava-se evidente que eu era emissário de Humboldt. Trazia um reca­
do, e um recado de Humboldt só podia significar complicações.
Com pena de Ricketts, fiz meu papel o mais rapidamente possível.
Humboldt e eu éramos amigos, e era grande privilégio para mim estar
com ele tanto tempo ali. Oh, Humboldt ! Sábio, generoso, talentoso
Humboldt! Poeta, crítico, erudito, professor, editor, original. . .
Ansioso por m e aj udar, Ricketts disse:
- É pura e simplesmente um génio.
- Obrigado. Essa palavra condensa tudo o que ele é. Bem, era isto
que te queria dizer. O Humboldt não seria capaz de o dizer ele mesmo.
É exclusivamente ideia minha. Estou aqui só de passagem, mas seria
um erro não manter o Humboldt. Não devias deixá-lo ir-se embora .
- É uma ideia .
- Há coisas que só os poetas podem dizer a respeito da poesia.
- Sim, Dryden, Coleridge, Poe. Mas porque se deixaria o Hum-
boldt prender a um lugar universitário ?
- Não é assim que o Humboldt v ê a s coisas. Acho que sente ne­
cessidade de uma comunidade intelectua l . Imagina como pode ser
avassaladora a grande estrutura social do país para homens com a
inspiração dele. Ir para onde, é essa a questão. Ora bem, a tendência
atual é que as universidades contratem poetas, e esta também o fará,
mais cedo ou mais tarde. Eis a oportunidade de conseguir o melhor.
Aprofundando ao máximo a minha meditação, tentando recordar
todos os pormenores por mais ínfimos que fossem, vi novamente o ar
de Humboldt enquanto me instruía sobre a melhor maneira de con­
vencer Ricketts. A cara dele, esboçando um sorriso persuasivo de abó­
bora, aproximou-se tanto da minha que senti a calidez febril que res­
sumava das suas faces.
- Tens muito jeito para este tipo de incumbência. Sei que tens ­
disse ele. Quereria com isto dizer que me considerava um intrometido
S A U L B E L LOW

nato ? - Um homem como o Ricketts não tem uma posição de desta­


que dentro da instituição protestante. Não é talhado para cargos im­
portantes: presidente de empresa ou de conselho de administração,
muito menos de grandes bancos, nem membro do Comité Nacional
Republicano, nem do Estado-Maior, nem do Comité do Orçamen­
to, nem da Reserva Federal. Ser um catedrático da maneira que ele é
significa ser o irmão tonto . O u talvez a irm ã . Tomam conta deles.
O Ricketts é provavelmente um membro do Centutry Club. Ótimo
para ensinar The Ancient Mariner a j ovens Firestones ou Fords . Hu­
manista, erudito, chefe de escoteiros, simpático mas tolo.
Talvez Humboldt tivesse razão. Percebi logo que Ricketts era in­
capaz de medir forças comigo. Dava a impressão de que até os since­
ros olhos castanhos lhe doíam. Esperou que me desse por satisfeito
e concluísse a entrevista . Não queria encostá-lo à parede mas atrás
de mim estava Humboldt. E porque Humboldt não dormiu na noite
em que Ike foi eleito, porque estava drogado com comprimidos e
álcool, ou intoxicado com resíduos metabólicos, porque a sua psique
já não se temperava pelo sono, porque tinha renunciado aos seus
dons, porque carecia de vigor espiritual ou era demasiado frágil para
enfrentar o poder antipoético dos EUA, eu tivera de vir até ali para
atormentar Ricketts . Tive pena de Ricketts . E não me parecia que
Princeton fosse aquela grande coisa que Humboldt pensava. Entre
a barulhenta Newark e a sórdida Trenton, Princeton era um santuá­
rio, um j ardim zoológico, uma estância termal, com o seu próprio
pouca-terra-pouca -terra, olmos e bonitas j a ulas verdes . Parecia-se
com outro lugar que haveria de visitar mais tarde como turista : um
balneário sérvio chamado Vrnatchka Banj a . Mas talvez a importân­
cia de Princeton residisse no que não era. Não era fábrica nem gran­
de armazém, não era escritório de grande empresa nem departamen­
to da administração pública, não era o mundo do trabalho rotineiro .
Quando se conseguia evitar esse mundo do trabalho rotineiro, era-se
um intelectual ou um artista . Demasiado inquieto, agitado e vibran­
te, demasiado louco para permanecer sentado a uma secretária oito
horas por dia, era preciso ter-se uma instituição, uma instituição
supenor.
- Uma cátedra de poesia para o Humboldt - disse.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

- Uma cátedra de poesia ! Uma cátedra ! Oh que ideia genial! -


exclamou Ricketts. - Encantar-nos-ia. Falo por todos nós. Votaría­
mos todos a favor. O único obstáculo é o dinheiro ! Se tivéssemos
dinheiro suficiente ! Charlie, somos mesmo pobres. Além disso, esta
empresa, como qualquer outra, tem o seu próprio quadro.
- Quadro ? Traduz lá isso, se fazes favor.
- Uma cátedra como essa teria de ser criada. É uma grande com-
plicação.
- E como é que se cria uma cátedra ?
- Geralmente através de uma dotação especial. Quinze ou vinte
mil dólares anuais, durante cerca de vinte anos. Meio milhão de dó­
lares, contando com a aposentação. Não dispomos desse dinheiro,
Charlie. Meu D e u s , nem s a b e s como gostaríamos d e contratar o
Humboldt. Fico com o coração despedaçado.
Ricketts estava extraordinariamente animado. Observadora minu­
ciosa, a minha memória recordou, sem que lho tivesse solicitado,
o friso branco do seu vigoroso cabelo curto, os olhos castanhos de ce­
rej a madura, a vivacidade da sua expressão e as alegres faces arredon­
dadas.
Quando apertámos as mãos para nos despedirmos, pensei que ti­
nha acabado tudo. Ricketts, depois de se ter livrado de nós, estava
exultantemente amistoso.
- Se tivéssemos o dinheiro ! - continuava a dizer.
E embora Humboldt estivesse à espera angustiado, reservei um mi­
nuto para respirar o ar fresco. Parei debaixo de um arco de arenito,
sobre as lajes desgastadas pelo tempo, enquanto os esquilos, mendi­
gando como sempre, se aproximavam de mim vindos de todos os la­
dos, atravessando os quadriláteros polidos, os maravilhosos cami­
nhos. Estava um dia frio e brumoso, o sol pálido e louro de novembro
envolvia os ramos com círculos de luz. O rosto de Demmie Vonghel
tinha uma palidez alourada semelhante. Nessa manhã, envolta no seu
casaco de fazenda com gola de marta, com os seus j oelhos sublimes
e sensuais muito j untos, os pés pontiagudos de uma princesa, as nari­
nas dilatadas oferecendo-se quase tão emocionalmente como os olhos,
respirando com alguma ansiedade, tinha-me beij ado aproximando do
meu o rosto cálido e, apertando as minhas faces com as mãos enluva­
das, disse:
- Vais tratar do assunto como deve ser, Charlie. Como deve ser.
S A U L B E L LO W

Tínhamo-nos despedido na Peno Station nessa manhã . O táxi es­


perara por ela.
Não acreditava que Humboldt concordasse com a ideia de que ha­
via tratado do assunto como devia.
Todavia, estava redondamente enganado. Quando espreitei para
dentro do gabinete dele mandou sair os alunos. Mantinha-os num es­
tado de exaltação pela literatura. Andavam sempre a rondar por ali,
esperando no corredor com os seus manuscritos.
- Meus senhores - anunciou -, surgiu uma coisa. As entrevistas
estão canceladas . . . adiadas uma hora . A das onze para as doze. A das
duas e meia para as três e meia.
Entrei. Fechou a porta do gabinete quente, cheio de fumo e abar-
rotado de livros.
- Então ? - perguntou.
- Não tem dinheiro.
- Não disse que não ?
- És famoso, gosta de ti, admira-te, quer que tu fiques, mas não
pode criar uma cátedra sem dinheiro.
- Foi isso que ele disse ?
- Exatamente.
- Então acho que o tenho na mão! Charlie, tenho-o na mão! Con-
seguimos!
- Como é que o tens na mão ? Como é que conseguimos ?
- Porque . . . ah-ah ! Desculpou-se com o orçamento . Não disse:
<< Não há a menor hipótese >> , nem << Em nenhuma circunstância » , nem
<< Sai daqui para fora >> .
Humboldt ria-se com aquele riso silencioso e arquej ante, entre os
minúsculos dentes, envolto num lençol de fumo. Quando fazia isto
parecia a Mamã Gansa dos contos infantis . A vaca saltava por cima
da Lua . O cãozinho ria ao ver tanta alegria.
- O capitalismo monopolista tem tratado os homens criativos
como se fossem ratazanas. Bem, essa fase da história está a acabar. . .
- Não percebia como é que aquilo podia ser relevante, o u mesmo
verdadeiro. - Vamos conseguir um lugar ao sol.
- Então diz-me como.
- Explico mais tarde. Mas tu estiveste em grande.
Humboldt tinha começado a arrumar coisas, encher a pasta, como
fazia nos momentos decisivos. Desapertando as fivelas, atirou para
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 153

trás a aba mole e começou a retirar alguns livros, manuscritos e fras­


cos de comprimidos. Fazia estranhos movimentos com os pés, como
se os gatos lhe estivessem a arranhar as virolas das calça s . Voltou
a encher com outros livros e papéis a pasta de couro gasto . Tirou
o chapéu de abas largas do cabide. Como um herói do cinema mudo
que levasse a sua invenção para a grande cidade, partia para Nova
Iorque.
- Deixa uma mensagem aos rapazes. Volto amanhã - disse ele.
Caminhámos j untos até ao comboio mas não disse mais nada. Sal­
tou para a antiquada carruagem Dinkey. Abanou os dedos para mim
através da j anela suj a . E partiu.
Podia ter regressado a Nova Iorque com ele, porque só tinha vin­
do a Princeton para a entrevista com Ricketts. Mas ele era um Manía­
co e o melhor era deixá-lo à vontade.

De modo que eu, Citrine, confortável, de meia-idade, estendido


num sofá, com meias de caxemira (considerando que os pés dos en­
terrados murchavam e se desfaziam como folhas de tabaco - os pés
de Humboldt), reconstruía a maneira como o meu resoluto e inspira­
do companheiro havia começado a inclinar-se e acabara por cair.
O seu talento tinha-se deteriorado. E agora eu tinha de pensar no que
fazer com o talento hoj e em dia, nesta época. Como impedir que a le­
pra corroa as almas. Em certo sentido, pensava que isso me cabia
a mtm.
Meditava com todas as minhas forças. Reconstituí mentalmente os
passos de Humboldt. la a fumar no comboio. Via-o a atravessar rapi­
damente e com ar de maníaco o colossal vestíbulo da Penn Station
com a poeirenta cúpula de vidro de uma só cor. E depois via-o a apa­
nhar um táxi, embora, habitualmente, usasse o metropolitano. Mas
naquele dia cada movimento era inusitado, sem precedentes. Isto de­
via-se ao facto de não poder contar com a razão. Perdia e recuperava
a razão em ciclos cada vez mais curtos, e um dia ou outro perdê-la-ia
definitivamente. E que faria então ? Se a perda fosse irreversível, Kath­
leen e ele precisariam de muito dinheiro. Além disso, segundo me ha­
via dito, pode ficar-se gagá numa cátedra de Princeton, e quem daria
por isso ? Ah, pobre Humboldt! Podia ter sido . . . não, foi um homem
muito refinado !
1 54 S A U L B E L LO W

Vivia um momento de exaltação. A ideia dele era ir diretamente


para o top o . Quando lá chegou, esse espírito manchado, foi com­
preendido. Humboldt foi recebido com interesse e consideração.
Wilmoore Longstaff, o famoso Longstaff, arquiduque da alta cul­
tura na América, era o homem com quem Humboldt se ia encontrar.
Longstaff tinha sido nomeado responsável máximo da recém-criada
Fundação Belisha . A Belisha era m a i s rica d o que a Carnegie e a
Rockefeller, e Longstaff dispunha de centenas de milhões para gastar
em ciência e ensino, em artes e obras sociais. Humboldt já tinha uma
sinecura da Fundação, graças a seu bom amigo Hildebrand. Hilde­
brand, editor boémio de poetas vanguardistas, também ele poeta, era
o mecenas de Humboldt. Tinha-o descoberto no City College de No­
va Iorque, admirava a obra dele, adorava a conversa dele, protegia-o,
mantinha-o na folha de pagamento de Hildebrand & Co. como edi­
tor. Isto fazia Humboldt baixar a voz quando o caluniava .
- Rouba os cegos, Charlie. Quando a Associação de Cegos envia
lápis pelo correio, Hildebrand fica com os lápis oferecidos. Nunca
doa um cêntimo.
- Ricos sovinas é o que não falta - lembrei-me de lhe ter dito.
- Sim, mas ele vai demasiado longe. Experimenta jantar em casa
dele. Morres de fome. E porque pensas que Longstaff contratou Hil­
debrand por trinta mil dólares para planear um programa para escri­
tores ? Foi por minha causa. Se se é uma Fundação não se trata direta­
mente com po eta s , vai-se ter com o homem que tem um estábulo
cheio de poetas . Assim sou eu que faço o tra balho todo e só recebo
oito mil dólares.
- Oito mil dólares por um trabalho em part-time não me parece
nada mal, não achas?
- Charlie, é mesquinho da tua parte atirares-me à cara essa mora­
lismo de pacotilha . D igo-te que sou um po bre-diabo e tu achas que
sou um privilegiado, dando a entender que és mais pobre-diabo do
que eu. O Hildebrand saca de mim tudo o que pode. Nunca lê um
original. Está sempre num cruzeiro ou a esquiar em Sun Valley. Sem
o meu parecer, publicaria papel higiénico. Livrei-o de ser um milioná­
rio ignorante. Conseguiu a Gertrude Stein por meu intermédio. E tam­
bém o Eliot. Graças a mim, pode oferecer coisas a Longstaff. Mas eu
estou absolutamente proibido de falar com o Longstaff.
o L E G A D O DE H U M B O LDT 155

- Não!
- Si m ! É como te digo - disse Humboldt. - O Longstaff tem
um elevador privativo. Ninguém dos andares inferiores consegue che­
gar ao dele, que é o último. Vej o-o vir e ir à distância, mas deram-me
instruções para me manter longe dele.
Anos m a i s tarde, e u , Citrine, sentei-me ao l a d o de Wilmoore
Longstaff naquele helicóptero da Guarda Costeira. Já era velho nessa
época, estava acabado, despoj ado de toda glóri a . Tinha-o visto nos
seus bons tempos, quando parecia um astro de cinema, um general de
cinco estrelas, o príncipe de Maquiavel, o homem de grande espírito
de Aristóteles. Longstaff havia combatido a tecnocracia e a plutocra­
cia de clássicos em punho. Tinha obrigado algumas das pessoas mais
poderosas do país a discutir Platão e Hobbes. Conseguira que presi­
dentes de companhias aéreas, presidentes de empresas e governadores
da Bolsas de Valores representassem Antígona nas salas de reuniões.
A verdade, contudo, é a verdade, e Longstaff foi, sob muitos aspetos,
um homem de primeira categoria. Notável educador, chegou a ser no­
bre. A vida dele talvez tivesse sido mais fácil se a sua aparência pes­
soal fosse menos impressionante.
Sej a como for, Humboldt fez uma j ogada audaciosa, exatamente
como todos tínhamos visto fazer nos velhos filmes de ambiciosos
triunfadores. Entro u , sem autorizaç ã o , n o elevador privativo de
Longstaff e carregou no botã o . Materializando-se enorme e delica­
do no gab inete do último andar, disse o nome à rececionista . Não,
não tinha audiência marcada (eu via-lhe o sol nas faces, na roupa
manchada - estava a brilhar como brilha no ar mais puro das alturas
dos arranha-céus), mas era Von Humboldt Fleisher. O nome era sufi­
ciente. Longstaff mandou-o entrar. Ficou muito contente por vê-lo. Isto
foi-me contado por Longstaff durante o voo, e acreditei nele. Estáva­
mos sentados no helicóptero, envoltos num daqueles coletes salva-vidas
cor de laranj a insuflados, armados com aquelas facas compridas. Para
quê as facas ? Talvez para enfrentar tubarões se alguém caísse à água
da baía.
- Li as baladas dele - disse-me Longstaff. - Concluí que pos­
suía um grande talento .
É claro que eu sabia que, para Longstaff, Paraíso Perdido era o úl­
timo verdadeiro poema escrito em inglês. Longstaff era um fanático da
5 A U L B E L LOW

grandiosidade. O que queria dar a entender era que Humboldt lhe


parecia indubitavelmente um poeta e um homem encantador. E tinha
razão. No gabinete de Longstaff, Humboldt, deve ter estado prestes
a desfalecer, cheio de malícia e candura , possuído de uma energia
neurótica, com manchas diante dos olhos e palpitações no coração.
Estava ali para persuadir Longstaff, bater em Sewell, superar Ricketts,
lixar Hildebrand e enganar o destino. Naquele momento parecia-se
com o canalizador da Roto-Rooter que vem desentupir o s c a n o s .
Contudo, estava destinado a assumir u m a cátedra em Princeton. Ike
fora eleito e Stevenson derrotado, mas Humboldt fazia acrobacias
para entrar em gabinetes no último andar e ir mais além.
Longstaff também andava pelas alturas. Massacrava os membros
da administração com Platão, Aristóteles e Aquino: tinha-os enfeitiça­
do. E, provavelmente, tinha velhas contas a aj ustar com Princeton,
um baluarte da educação oficial, contra o qual apontava o seu letal
lança-chamas. Sabia através dos Diaries de Ickes1 que Longstaff corte­
j ara Franklin Delano Roosevelt. Desej ava o lugar de Wallace na lista
da candidatura presidencial e mais tarde quis o de Truman. Sonhava
ser Vice-Presidente e Presidente . Roosevelt dera-lhe corda, deixara-o
na expectativa, mas nunca lhe concedera nenhuma distinção especial.
Assim era Roosevelt. Nisso simpatizava com Longstaff ( um homem
ambicioso, um déspota, um czar, no meu entender) .
Por isso, enquanto o helicóptero girava para lá e para cá sobre
Nova Iorque, estudei aquele velho e belo Dr. Longstaff, tentando
compreender de que maneira teria encarado Humboldt. Em Hum­
boldt, Longstaff viu provavelmente um Caliban2 americano, instável
e vociferante, escrevendo odes em papel oleoso de peixaria . Porque
Longstaff não tinha sensibilidade para a literatura. No entanto, ficou
deliciado quando Humboldt lhe explicou que queria que a Fundação
Belisha contribuísse com os fundos para criar uma cátedra para ele
em Princeton.

1 Harold Ickes ( 1 8 74 - 1 9 5 3 ) , influente político progressista que fez parte da A d ­


ministração de Franklin D . Roosevelt. O s s e u s Diários foram publicados postuma­
mente em 1 95 3 . Manteve sérias divergências com outros membros da Administra­
ção, como Harry Hopkins, sobre quem Citrine escreve u m l ivro. (N. do T.)
2 O escravo disforme de The Tempest (A Tempestade) , de W. Shakespeare.
(N. do T.)
o L E G A D O DE H U M B O LDT I 57

- Com certeza ! - exclamou Longstaff. - É isso mesmo !


Chamou a secretária pelo intercomunicador e ditou-lhe uma carta.
Naquele preciso momento, Wilmoore Longstaff comprometeu a Fun­
dação a fazer uma generosa doação. Pouco depois, Humboldt, pal­
pitante, tinha na mão uma cópia assinada da carta, e ele e Longstaff
beberam martínis a contemplar Manhattan do sexagésimo andar,
e conversaram sobre a imagética das aves em Dante.
Quando saiu o gabinete de Longstaff, Humboldt voou de táxi para
o centro da cidade a fim de visitar uma certa Ginnie no Village, uma
rapariga de Bennington que Demmie Vonghel e eu lhe tínhamos apre­
sentado. Bateu à porta e disse:
- Sou o Von Humboldt Fleisher. Tenho de te ver.
Mal entrou no vestíbulo começou a fazer-lhe propostas indecentes.
- Perseguiu-me pelo apartamento todo - contaria Ginnie mais
tarde. - Era de rir à gargalhada. Mas estava muito preocupada com
a possibilidade de pisarmos os cãezinhos.
A cadela dachshund dela aca bara de ter uma ninha d a . Ginnie
fechou-se na casa de banho. Humboldt desatou a gritar:
- Não sabes o que perdes. Sou um poeta. Tenho uma piça muito
grande.
E Ginnie contou a Demmie:
- Estava a rir de tal maneira que não poderia ter feito nada.
Quando o interroguei sobre o incidente, Humboldt respondeu-me:
- Senti que tinha de celebrar, e pensava que as raparigas de Ben-
nington eram loucas por poetas. Que pena essa Ginnie. É muito boni­
ta, mas é mel congelado, se entendes o que quero dizer. Os doces ge­
lados não são bons para barrar.
- Foste a outro lugar ?
- D esisti do a l ívio erótic o . Mas dei umas voltas e vi imensas
pessoas.
- E mostrastes-lhes a carta do Longstaff?
- Claro.
Fosse como fosse, o plano funcionou. Princeton não podia recusar
o presente da Belisha . Ricketts foi vencido em todas as frentes . Hum­
boldt foi nomeado. O Times e o Herald Tribune deram a notícia. Du­
rante dois ou três meses as coisas andaram mais macias do que veludo
ou caxemira. Os novos colegas de Humboldt deram beberetes e janta­
res em honra dele. E Humboldt, nesse momento de glória, não se es­
queceu de que éramos irmãos de sangue. Dizia quase diariamente:
S A U L B E L LOW

- Charlie, hoj e tive uma ideia brilhante a teu respeito. Para o pa-
pel principal da tua peça . . . Victor McLaglen é um fascista, claro. Não
podes contratá-lo. Mas . . . vou falar com Orson Welles em teu nome . . .
Mas e m fevereiro os membros d o conselho d e administração de
Longstaff rebelaram-se. Suponho que já estavam pelos cabelos e deci­
diram defender a honra do capital monopolista norte-americ a n o .
O orçamento proposto p o r Longstaff foi rejeitado e foi obrigado a de­
mitir-se. Não o puseram na rua de mãos vazias. Recebeu algum di­
nheiro, qualquer coisa como vinte milhões, para constituir uma pe­
quena fundação que lhe pertencesse. Mas a verdade é que lhe tinham
aplicado a machadada final. A doação para a cátedra de Humboldt
era um diminuto item do orçamento rejeitado. Quando Longstaff caiu,
Humboldt caiu com ele.
- Charlie - disse, quando finalmente se sentiu capaz de conver­
sar a esse respeito -, foi exatamente o tipo de experiência que o meu
pai teve quando ficou sem dinheiro com o boom da Florida. Um ano
mais e teríamos triunfado. Cheguei a interrogar-me, matutei bastante
nisso, se o Longstaff sabia, quando enviou a carta, que estava prestes
a ser despachado . . .
- Não acredito - respondi. - O Longstaff é sem dúvida malicio­
so, mas não tem nada de mesquinho.
A gente de Princeton portou-se bem e ofereceu-se para remediar
a coisa de forma cavalheiresca . Ricketts disse:
- Agora és um dos nossos. Hum, sabes isso, não sabes ? Não te
preocupes, havemos de arranj ar o dinheiro para a tua cátedra num sí­
tio qualquer.
Mas Humboldt apresentou a demissão. Depois, em março, numa
estrada secundária de Nova Jérsia, tentou atropelar Kathleen com
o Buick . Ela teve de saltar para uma vala a fim de salvar a vida.

Neste ponto tenho de dizer, quase em forma de depoimento, sem


discussão, que não acredito que a minha primeira existência tenha
principiado com o meu nascimento. Nem a de Humboldt. Nem a de
ninguém. Por razões estéticas, mas não só, não posso aceitar a conce­
ção da morte assumida pela maioria das pessoas e que também adotei
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 1 59

durante quase toda a minha vida; por razões estéticas, portanto, sou
obrigado a negar que uma c o is a tão extraordinária como a alma
humana possa apagar-se para sempre. Não, os mortos estão à nossa
volta, excluídos do mundo pela nossa denegação metafísica da sua
existência. Quando os milhares de milhões que somos dormem à noi­
te nos nossos respetivos hemisférios, os mortos aproximam-se de nós.
As nossas ideias devem servir-lhes de alimento. Somos os seus campos
de cereais. Mas somos estéreis e eles morrem de fome. Contudo, não
se enganem, os mortos observam-nos, observam-nos nesta Terra, que
é a nossa escola de liberdade. No próximo reino, onde as coisas são
mais claras, a clareza carcome a liberdade. Na Terra somos livres pre­
cisamente devido à confusão, ao erro, às admiráveis limitações, e tam­
bém devido à beleza, à maldade e à cegueira . Tudo isto vem sempre
acompanhado pela bênção da liberdade . É isto que tenho para dizer
agora a esse respeito, pois estou com pressa, estou sob pressão . . . tan­
tos são os assuntos que tenho de tratar!
Enquanto meditava so bre Humboldt, a campainha do vestíbulo
tocou. Tenho um pequeno vestíbulo escuro onde aperto um botão
e obtenho gritos abafados através intercomunicador da rua . Era Ro­
land Stiles, o porteiro. As minhas maneiras e os meus hábitos de vida
divertem-no imenso . Era um velho negro, esquelético e espirituoso.
Estava, por assim dizer, nas semifinais da vida. E eu também, na sua
opinião. Mas, por algum estranho motivo de homem branco, não me
parecia que assim fosse e continuava a viver como se ainda não tivesse
chegado a hora de pensar na morte.
- Atenda o telefone, senhor Citrine. Está a ouvir ? A sua amiga
número um está a tentar contactá-lo.
Ontem destruíram-me o carro. Hoje a minha bela amante não con­
seguia entrar em contacto comigo. Para ele, eu era tão divertido como
o circo. À noite, a mulher de Stiles desfrutava mais com as histórias
que ele lhe contava a meu respeita que a ver televisão. Disse-me ele.
Liguei a Renata e disse:
- O que é que se passa ?
- O que é que se passa ? Deus do céu ! Liguei-te umas dez vezes.
Tens de estar com o j uiz Urbanovich à uma e meia . O teu advogado
também tem tentado falar contigo . Depois telefonou ao Szathmar
que, por sua vez, me telefonou a mim.
1 60 SAUL BELLOW

- À uma e meia ! Mudaram a hora para me tentar lixar ! Ignora­


ram-me durante vários meses e agora avisam-me com duas horas de
antecedência . . . Raios os parta m ! - O meu espírito começou a dar
saltos. - Bolas, como odeio esses farsantes da treta.
- Talvez consigas resolver o assunto de uma vez por todas. Hoje.
- Como ? Já cedi cinco vezes. Sempre que aceito, Denise e o tipo
dela aumentam as exigências.
- Ainda bem que dentro de uns dias vou tirar-te daqui. Tens an­
dado a atrasar a coisa porque não queres ir, mas acredita que me vais
agradecer, Charlie, quando estivermos de novo na Europa.
- O Forrest Tomchek nem sequer teve tempo de discutir o caso
comigo. E é este o advogado que Szathmar me recomendou . . .
- Ora bem, Charlie, como é que vais até a o centro d a cidade sem
carro ? Estou surpreendida com o facto de Denise não ter tentado con­
vencer-te a dares-lhe boleia até ao tribunal.
- Irei de táxi.
- Eu tenho de levar a Fannie Sunderland ao Mart, para ver pela
décima vez a cobertura para uma merda de sofá . - Renata riu-se,
mas revelava uma paciência fora do comum com os clientes. - Te­
nho de tratar disso antes de partirmos para a Europa. Apanhamos-te
à uma em ponto. Espero que estej as pronto, Charlie.
Há muito tempo li um livro chamado Ils Ne M 'auront Pas ( Não
Me Apanharão) e em certas ocasiões costumo sussurrar: <<Ils ne m 'au­
ront pas. >> Fiz o mesmo agora, determinado a acabar os meus exercí­
cios de contemplação ou recordação espiritual (cujo objetivo era pe­
netrar nas profundezas da alma e reconhecer as relações entre o eu
e as forças divina s ) . Deitei-me outra vez no sofá . Deitar-me não era
coisa de somenos em termos de liberdade. Estou apenas a ser factual
a este respeito . Eram onze e um quarto; se descontasse cinco minutos
para um simples iogurte e outros cinco para fazer a barba, sobravam­
-me ainda duas horas para continuar a pensar em Humboldt. E era
o momento mais apropriado para o fazer.

Ora bem, Hum boldt tentou atropelar Kathleen. Voltavam para


casa depois de uma receção em Princeton; ele conduzia com a mão es­
querda e dava-lhe socos com a direita . Num semáforo intermitente,
perto de uma loja de bebidas alcoólicas, ela abriu a porta e correu para
a loj a, os pés apenas cobertos pelas meias ( tinha perdido os sapatos
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT r6r

em Princeton) . Ele perseguiu-a no Buick . Kathleen saltou para uma


vala e o carro foi bater numa árvore. Os agentes da polícia estadual ti­
veram de ser chamados para o desencarcerar porque as portas haviam
ficado trancadas com a colisão.
Sej a como for, os membros do conselho de administração da Fun­
dação tinham-se revoltado contra Longstaff e a cátedra de poesia vo­
latilizara-se. Mais tarde Kathleen contou-me que Humboldt lhe escon­
dera esse facto dela durante todo o dia. Pousou o auscultador e, com
a barriga de lutador de sumo, foi arrastando os pés até à cozinha e en­
cheu um grande boião de compota com gim. De pé ao lado do imun­
do lava-loiça, de sapatos de ténis, bebeu o gim como se fosse leite.
- Quem era ? - perguntou Kathleen.
- O Ricketts.
- O que é que queria ?
- Nada. Simples rotina - disse Humboldt.
<< Ficou com uma cor esquisita debaixo dos olhos depois de beber
aquele gim todo >> , contou-me Kathleen. << Uma espécie de púrpura le­
vemente esverdeada . Às vezes nota-se essa coloração no coração das
alcachofras. >>
Pouco depois, na mesma manhã, parece que teve uma nova con­
versa com Ricketts. Foi quando este lhe disse que Princeton não falta­
ria à palavra dada. Haviam de arranj ar o dinheiro. Mas isto colocaria
Ricketts numa posição de superioridade moral. Um poeta não podia
permitir que um burocrata o sobrepuj asse. Humboldt fechou-se no es­
critório com a garrafa de gim e passou o resto do dia a fazer rascu­
nhos de uma carta de demissão.
Nessa noite, na estrada, a caminho de uma festa na casa dos Lit­
tlewood, começou a importunar Kathleen. Porque deixara que o pai
a vendesse a Rockefeller ? Sim, de acordo, o velho parecia ser um tipo
afável, uma antiguidade boémia de Paris, um membro do grupo da
Closerie des Lilas1 ; mas era de facto um delinquente internacional, um
D r . Moriarty, um Lúcifer, um chulo, não tinha por acaso tenta do
manter relações sexuais com a própria filha ? Bem, e como fora a coisa
com Rockefeller ? O pénis dele excitava-a mais ? Os milhões também
a penetravam ? Rockefeller tinha de roubar a mulher de um poeta para

1 Célebre brasserie parisiense, lugar de encontro de intelectuais e artistas.


(N. do T.)
5AUL BELLOW

ficar com tesão? Assim iam no Buick, derrapando no cascalho e dan­


do estouros no meio de nuvens de pó. Humboldt começou a berrar
que a grande encenação de paz e amor dela não conseguia iludi-lo. Sa­
bia tudo a respeito dessas coisas. E, de um ponto de vista livresco,
realmente sabia bastante. Conhecia os ciúmes do rei Leontes em Con­
to de Inverno 1• Conhecia Mario Praz. E Proust: ratazanas engaioladas
torturadas até à morte, Charlus açoitado por um porteiro assassino,
um bruto saído de um matadouro com um chicote de pregos.
- Conheço muito bem todo esse lixo luxurioso - disse. - E sei
que a farsa tem de ser interpretada com uma cara serena como a tua .
Sei tudo sobre essas coisas masoquistas femininas. Percebo perfeita­
mente o que te excita e sei que me estás a usar!
Entretanto chegaram a casa dos Littlewood. Demmie e eu já lá es­
távamos. Kathleen estava lívida . Era como se tivesse coberto a cara de
pó. Humboldt entrou em silêncio. Não falava . Era, na verdade, a sua
última noite como professor titular da cátedra de poesia de Princeton
patrocinada pela Fundação Belisha. No dia seguinte a notícia seria co­
nhecida. Talvez já fosse. Ricketts comportara-se com toda a correção,
mas não tinha sido capaz de resistir à tentação de contar a toda a gen­
te. Embora Littlewood parecesse não saber de nada. Fazia tudo para
que a festa fosse um êxito. Tinhas as faces vermelhas e alegres. Pare­
cia aquele Mr. Tomato com cartola dos anúncios de sumos de fruta .
Tinha cabelos ondulados e maneiras elegantes e mundanas. Quando
agarrava a mão de uma senhora, as pessoas interrogavam-se so bre
o que iria fazer com ela. Littlewood era um mau rapaz da alta socie­
dade, fi lho lascivo de u m ministro da Igrej a . Conhecia Londres e
Ro m a . Conhecia sobretudo o fa moso Bar Shepheard ' s , no Cairo,
onde ganhara o hábito de se expressar na gíria do exército britânico .
Os dentes dele estavam encantadora e amigavelmente afastados. Gos­
tava de sorrir e costumava imitar Rudy Vallee em todas as festas. Para
animar Humboldt e Kathleen pu-lo a cantar « <' m Just a Vagabond
Lover >> . Não correu bem.
Eu estava presente na cozinha quando Kathleen cometeu um erro
grave. Enquanto segurando a bebida e um cigarro por acender, meteu
a mão no bolso de um homem à procura de fósforos. Não se tratava
de um estranho, conhecíamo-lo bem, chamava-se Eubanks, um com­
positor negro . A mulher do compositor estava sentada ao seu lado.

1 The Winter's Tale, peça de W. Shakespeare. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O L DT

Kathleen começava a recuperar o bom humor e estava levemente


bêbeda . Mas no preciso momento em que tirava os fósforos do bolso
de Eubanks entrou Humboldt. Vi-o aproximar-se. Primeiro deixou de
respirar. Depois agarrou Kathleen com uma violência tremenda. Tor­
ceu-lhe o braço atrás das costas e fê-la sair da cozinha para o pátio.
Coisas destas não eram incomuns nas festas de Littlewood e os outros
decidiram olhar para o lado, mas Demmie e eu corremos para a jane­
la. Humboldt estava a dar murros no estômago de Kathleen, que se
dobrou com dores. A seguir arrastou-a pelos cabelos para o Buick .
Como havia um carro estacionado atrá s, não podia recuar. Subiu
para o relvado galgando o caminho, batendo com a panela de escape
na borda do passeio. Encontrei-a lá na manhã seguinte e parecia-se
com a carapaça de um inseto gigante, cheia de escamas de ferrugem,
da qual saía um tubo. Também encontrei os sapatos de Kathleen com
os saltos enterrados na neve. Estava um nevoeiro denso e havia gelo,
um frio suj o, arbustos vidrados, uma cor lívida nos ramos dos olmos,
a neve de março recortada de fuligem.
E agora recordava que o resto daquela noite tinha sido uma dor
de cabeça porque Demmie e eu estávamos convidados para pernoitar
e quando a festa acabou Littlewood chamou-me à parte e propôs-me,
de homem para homem, que fizéssemos uma troca.
- Uma partilha de mulheres como os esquimós. Que me dizes de
fazermos um j oguinho ? - perguntou. - Uma festinha íntima.
- Obrigado, mas não, não está frio suficiente para que façamos de
esquimós.
- Estás a recusar em nome dos doi s ? Nem sequer perguntas à
Demmie ?
- Irritava-se e batia-me. Talvez queiras perguntar-lhe tu. Não
imaginas a força de um soco dela. Parece uma rapariga moderna, ele­
gante, mas na verdade é uma provinciana simples e decente.
Tinha as minhas razões para lhe dar uma resposta tão gentil. Éra­
mos hóspedes dele nessa noite. Não me apetecia sair dali às duas da
madrugada para me sentar na sala de espera da estação ferroviária .
Merecedor das minhas oito horas d e esquecimento, e decidido a gozá­
-las, deixei-me cair na cama do estúdio cheio de fumo pelo qual a fes­
ta rodopiara . Mas Demmie já tinha vestido a camisa de noite e era
uma pessoa diferente . Uma hora antes, com um vestido de chiffon
negro, o cabelo comprido e louro penteado para cima e preso com
SAU L B E L LOW

uma travessa, era uma j ovem de boas maneiras. Humboldt, quando


recuperava o equilíbrio mental, gostava de nomear as categorias so­
ciais importantes da América, e Demmie pertencia a todas elas.
- Ela é pura Main Line1 • Escolas quakers, Bryn Mawr. Classe ge­
nuína - dizia Humboldt.
Demmie estivera a conversar com Littlewood, cuja especialidade
era Plauto, sobre a tradução do latim e o Novo Testamento grego. Eu
não amava menos a filha de fazendeiro que havia em Demmie do que
a rapariga da alta sociedade. Agora estava sentada na cama . Tinha os
dedos grandes dos pés deformados por sapatos ordinários. As grandes
clavículas formavam concavidade s . A irmã e ela, em crianças, com
uma compleição parecida, enchiam de água essas concavidades e fa­
ziam corridas.
Qualquer coisa lhe servia para afastar o sono. Demmie tomava
comprimidos mas tinha verdadeiro pavor de adormecer. Disse que es­
tava com uma radícula na unha e sentou-se na cama para a limar
e começou a mover a lâmina longa e flexível em ziguezague . Subita­
mente desperta, olhou para mim, com as pernas cruzadas, exibindo os
joelhos redondos e um naco da coxa . Nessa posição exalava o típico
cheiro salgado da fêmea, o fundo bacteriano do amor profundo.
- A Kathleen não devia ter tirado os fósforos do bolso de Eu­
banks. Espero que o Humboldt não a tenha aleij ado, mas ela não de­
via ter feito aquilo.
- Mas o Eubanks é um velho amigo.
- Velho amigo do Humboldt ? Conhecido de longa data, só isso.
Não é a mesma coisa . Quando uma mulher enfia a mão no bolso de
um homem isso quer dizer alguma coisa . E nós vimo-la fazer isso . . .
Não responsabilizo inteiramente o Humboldt.
Demmie era quase sempre assim. Quando me aprontava a fechar
os olhos, farto da minha consciência e do meu eu funcional, Demmie
queria conversar. A essa hora preferia tópicos excitantes: doença, ho­
micídio, suicídio, castigo eterno e fogo do inferno. Ficava em estado de

1 Zona rica e elegante do Sudeste do estado da Pensilvânia, perto de Filadélfia,


onde estão situadas várias universidades de grande prestígio, como Bryn Mawr,
que Demmie frequento u . O nome ( " Linha Principa l >> ) deve-se à linha do caminho
de ferro que, desde os finais do século XIX, liga Filadélfia a Chicago. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

grande nervosismo . O cabelo eriçava-se-lhe, os olhos afundavam-se


em pânico e os dedos deformados dos pés retorciam-se em todas as
direções . Depois pousava as grandes mãos so bre os pequenos seios.
Às vezes, com os lábios a tremer como a um bebé, começava a emitir
uns ruídos infantis pré-verbais. Eram já três horas da manhã e pare­
cia-me ouvir os depravados Littlewoods a fazer das suas no quarto por
cima de nós, talvez para que fizéssemos uma ideia do que estávamos
a perder. O que seria, provavelmente, imaginação minha.
Fosse como fosse, ergui-me e tirei a lima de unhas das mãos de
Demmie, aconchegando-a sob o cobertor. Tinha a boca aberta numa
expressão de ingenuidade quando me entregou a lima. Fi-la deitar­
-se mas ela estava perturbada . Era fácil perceber isso. Ao recostar a
cabeça no travesseiro, de perfil, abriu-se um olho enorme, bonito e in­
fantil.
- Toca a dormir - disse eu.
Fechou o olho. O sono que se apossou dela foi instantâneo e pare­
cia profundo.
Não tardei a ouvir, porém, o que esperava ouvir: a sua voz notur­
na. Era uma voz grave, rouca e profunda, quase masculina. Gemeu.
Pronunciou palavras entrecortadas. Fazia isto quase todas as noites.
A voz expressava o seu terror perante este lugar estra nho, a Terra ,
e perante esta estranha condição, o Ser. Sofrendo e gemendo, tentava
fugir daquilo. Era a Demmie primordial que havia por detrás da filha
do fazendeiro, por detrás da professora, por detrás da elegante ama­
zona da Main Line, por detrás da latinista, da consumada bebedora
de coquetéis vestida de chiffon negro, com nariz arrebitado, e da con­
versadora mundana . Escutei-a pensativo. Deixei-a continuar durante
mais algum tempo, tentando perceber. Compadecia-me dela e amava­
-a. Mas depois pus fim àquilo. Beijei-a. Ela sabia de quem se tratava.
Apertou os dedos dos pés contra as minhas canelas e abraçou-me com
vigorosos braços femininos.
- Amo-te - gritou com a mesma voz profunda mas de olhos
completamente fechados.
Creio que nunca chegou verdadeiramente a acordar.

Em maio, quando terminou o período letivo em Princeton, Hum­


boldt e eu encontrámo-nos, como irmãos de sangue, pela última vez.
1 66 SA U L B E L LOW

Com a mesma concentrada intensidade que o azul do imenso céu


de dezembro, que entrava pela j anela atrás de mim com distorções
térmicas do sol, permanecia deitado no meu sofá de Chicago e via no­
vamente tudo o que tinha acontecido. O coração ressente-se deste gé­
nero de recordações. Um pensamento: Que tristeza, todo este absurdo
humano que nos afasta da grande verdade. Mas talvez possa aceder
a ela de uma vez por todas fazendo o que estou a fazer.
Muito bem, a Broadway era a palavra de ordem nessa época . Eu
tinha um produtor, um encenador e um agente. Aos olhos de Hum­
boldt, fazia parte do mundo do teatro. Havia atrizes que diziam << que­
-i-do >> e nos beijavam quando nos encontrávamos. Também havia
uma caricatura minha feita por Hirschfeld para o Times. Humboldt
considerava que grande parte disto se devia à sua intervenção. Ao le­
var-me para Princeton pusera-me a j ogar na primeira divisão. Por in­
termédio dele conheci pessoas do requintado mundo universitário
americano que me seriam úteis. Além disso, estava convencido de que
eu tinha construído o meu herói prussiano, Von Trenck, inspirando­
-me nele.
- Tem cuidado, Charlie - disse-me. - Não te deixes levar pelo
fascínio da Broadway e pelo lado comercial.
Humboldt e Kathleen vieram inesperadamente ver-me no Buick
consertado. Eu estava num chalé no litoral de Connecticut, ao fundo
da estrada que passava pelo de Lampton, o encenador, revendo o meu
texto sob orientação dele - escrevendo a peça que ele queria, porque
era isso e não outra coisa o que eu estava a fazer. Demmie vinha pas­
sar comigo os fins de semana mas os Fleisher chegaram numa quarta­
-feira, quando estava sozinho . Humboldt acabara de dar uma confe­
rência em Yale e estavam de regresso a casa. Sentámo-nos na pequena
cozinha de pedra, bebemos café e gim, como se fosse uma reunião de
velhos amigos. Humboldt andava a << portar-se bem >> , mostrando-se
sério e a rtic u l a d o . Tinha estado a ler De A nima e vinha cheio de
ideias sobre as origens do pensamento. Apercebi-me, contudo, de que
não perdia Kathleen de vista em nenhum momento. Ela era obrigada
a contar-lhe cada passo que dava : << Vou só buscar o meu casaco de
lã . >> Até para ir ao quarto de banho lhe pedia autorização. Além dis­
so, parecia que a tinha esmurrado num olho. Ela permanecia sentada
na cadeira, encolhida e silenciosa, com os braços e as longas pernas
cruzados, mas era evidente que tinha um olho negro. Por fim, o pró­
prio Humboldt referiu-se a isso.
o L E G A D O DE H U M B O L DT

- Não fui eu desta vez - disse. - Podes não acreditar, Charlie,


mas a Kathleen bateu com a cara no painel de instrumentos quando
tive de fazer uma travagem súbita. Um idiota ao volante de um ca­
mião saiu inesperadamente de uma estrada lateral e tive de travar a
fundo.
Talvez não lhe tivesse batido, mas mantinha-a sob constante vigi­
lância; vigiava-a como um polícia que escoltasse um prisioneiro de
uma cela para outra. Passou o tempo a mudar a posição da cadeira
enquanto dissertava sobre De Anima para garantir que não trocáva­
mos olhares. Fazia-o com tamanho descaramento que quase nos senti­
mos tentados a enganá-lo. E fizemo-lo. Arranjámos, no final, maneira
de trocar algumas palavras perto da corda de secar roupa, no j ardim.
Ela tinha lavado as meias e saído para as pendurar. Humboldt, prova­
velmente, estava a satisfazer uma necessidade natural.
- Bateu-te ou não ?
- Não. Caí contra o painel de instrumentos. Mas é um inferno,
Charlie. Pior do que nunca .
A corda da roupa era velha, de um cinzento-escuro . Tinha-se des­
feito e deixado à mostra o interior esbranquiçado.
- Diz que ando metida com um crítico, um tipo j ovem, sem im­
portância e completamente inocente que se chama Magnasco. Muito
simpático, mas por amor de Deus ! E estou cansada de que me trate
como uma ninfomaníaca e que me diga como abro as pernas em es­
cadas de incêndio ou de pé, em vestiários, sempre que tenho essa
possibilidade. E em Yale obrigou-me a sentar no estrado durante a
conferência. Depois acusou-me de ter estado a mostrar as pernas. Nas
estações de serviço mete-se na casa de banho das senhoras comigo.
Não posso voltar a Nova Jérsia com ele.
- Que pensas fazer? - perguntou o ansioso, preocupado e pesa­
roso Citrine.
- Amanhã, quando voltarmos a Nova Iorque, vou desaparecer.
Amo-o mas não consigo aguentar mais. Estou a contar-te isto para
que estej as preparado, porque gostam um do outro e vais ter de o aju­
dar. Ainda tem algum dinheiro . O Hildebrand demitiu-o mas ele obte­
ve uma bolsa Guggenheim. Sabias ?
- Nem sequer sabia que a tinha pedido.
- Oh, mete-se em tudo . . . Agora está a observar-nos da cozinha .
r68 5AUL BELLOW

Lá estava de facto Humboldt empurrando para fora a rede aco­


breada da porta exterior, como uma estranha captura de um pescador.
- Boa sorte.
Ao voltar para a casa, as pernas dela foram fortemente fustigadas
pelas ervas de maio. O gato passeava nas faixas sucessivas de sol e
sombra dos arbustos. A corda da roupa exibia a essência da sua alma,
e as meias de Kathleen, penduradas na extremidade mais larga da cor­
da, adquiriram um matiz de insinuante lascívia. Foi essa a impressão
que causou em Humboldt. Veio direito a mim, que estava ao lado da
corda da roupa, e ordenou-me que lhe dissesse de que é que tínhamos
estado a falar.
- Deixa-me em paz, está bem, Humboldt ? Não me metas neste
superdrama neurótico.
Estava assustado com a antevisão do que se poderia passar. Que­
ria que se fossem embora, que entrassem no Buick (mais do que nun­
ca um carro da tropa coberto de lama ) e desaparecessem dali, deixan­
do-me resolver os meus problemas com Trenck, com a tirania de
Lampton e o límpido litoral atlântico.
Mas ficaram. Humboldt não dormiu. O chão de madeira das esca­
das das traseiras estalou a noite toda sob o seu peso. A torneira deitou
água e a porta do frigorífico fechou-se com estrondo . Quando entrei
na cozinha na manhã seguinte dei com a garrafa de gim Beefeater que
eles me tinham oferecido vazia em cima da mesa. Os algodões dos
frascos de comprimidos dele estavam espalhados pela cozinha, como
excrementos de coelho.
A s s i m , Kathleen d e s a p a receu no Restaura nte Rocco, n a Rua
Thompson, e Humboldt entrou em transe. Disse que ela tinha fugido
com Magnasco, que Magnasco a mantinha escondida no quarto dele,
no Hotel Earle. Arranj ou uma pistola vá lá saber-se onde e martelou
a porta do quarto de Magnasco com o punho da arma até escavacar
a madeira. Magnasco ligou para a receção, que, por sua vez, chamou
a polícia e Humboldt fugiu. Mas no dia seguinte atacou Magnasco na
Sexta Avenida, diante do Howard Johnson's. Um grupo de lésbicas
vestidas de estivadores socorreu o jovem. Tinham estado a comer gela­
dos, e saíram do estabelecimento, interromperam a luta e imobilizaram
Humboldt prendendo-lhe as mãos atrás das costa s . Era uma tarde
a brasadora, e as mulheres presas no centro de detenção da Avenida
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

Greenwich guinchavam e atiravam rolos de papel higiénico pelas jane­


las abertas.
Humboldt telefonou-me para a casa de campo.
- Charlie, onde está a Kathleen? - perguntou-me.
- Não sei.
- Acho que sabes, Charlie. Vi-a a falar contigo.
- Mas ela não me disse.
Desligou. Depois telefonou-me Magnasco.
- Senhor Citrine ? O seu amigo vai acabar por me aleij ar. Vou
apresentar queixa .
- A coisa está assim tão mal ?
- O senhor sabe como é, as pessoas descontrolam-se, e depois
onde é que a coisa vai parar? Quero dizer, onde é que vou eu parar ?
Estou a telefonar-lhe porque ele me faz ameaças em seu nome. Diz
que o senhor, que é irmão de sangue dele, me baterá, caso ele não
consiga.
- Nunca lhe poria as mãos em cima - disse eu. - Porque não
sai da cidade durante algum tempo ?
- Sair daqui ? - exclamou Magnasco. - Acabei de chegar. Vin­
do de Yale.
Compreendi. Estava a tentar abrir caminho, tinha-se preparado
durante muito tempo para a sua carreira.
- Estou à experiência no Trib como crítico literário.
- Sei como é. Tenho uma peça que vai estrear na Broadway.
A primeira .
Quando mais tarde conheci Magnasco, vi que era um homem obe­
so, de cara redonda, j ovem apenas em anos de calendário, sério, im­
perturbável, nascido para fazer carreira nos meios culturais nova-ior­
qumos.
- Não deixarei que ele me ponha daqui para fora - disse-me. -
Vou pedir uma providência cautelar contra ele.
- Bem, e precisa da minha autorização ? - perguntei.
- Não me tornará propriamente popular em Nova Iorque fazer
isso a um poeta .
Mais tarde contei a Demmie:
- O Magnasco tem medo de ficar malvisto no mundo cultural
nova-iorquino se meter a polícia na história.
1 70 S A U L B E L LOW

Sendo uma lamurienta noturna, uma temente do inferno e uma


consumidora de comprimidos, Demmie era também um espírito mui­
to prático, com um talento especial para a supervisão e programação.
Quando entrava na sua fase ativa, protegendo-me e dominando-me,
eu costumava pensar que deveria ter sido um generalíssimo de bone­
cas na infância.
- E em tudo aquilo que te diga respeito - dizia-me - sou uma
mãe tigre e uma genuína Fúria . Já há quase um mês que não pões
a vista em cima de Humboldt, não é assim ? Quer manter-se afastado.
Isso quer dizer que começa a atribuir-te a culpa do que se passou. Po­
bre Humboldt, perdeu por completo a cabeça ! Temos de o ajudar.
Se continua a atacar esse rapaz, o Magnasco, acabará por ser preso.
Se a polícia o meter no Bellevue, ficas com a obrigação de o tirar de lá
pagando a fiança. Teremos de conseguir que recupere a sobriedade,
dar-lhe tranquilidade, acalmá-lo. O melhor lugar é Payne Whitney .
Olha, Charlie, o Albert, primo da Ginnie, é o médico encarregado das
admissões em Payne Whitney. O Bellevue é um inferno. Teríamos de
arranj ar dinheiro e transferi-lo para Payne Whitney. Talvez pudésse­
mos arranj ar-lhe uma bolsa ou coisa do género.
Discutiu o assunto com Albert, primo de Ginnie, e, em meu nome,
telefonou a diversas pessoas e angariou dinheiro para Humboldt, en­
carregando-se de tudo porque eu estava ocupado com Von Trenck .
Tínhamos regressado do Connecticut e íamos ensaiar no Belasc o .
A eficiente Demmie não tardou a recolher cerca d e três m i l dólares. Só
Hildebrand contribuiu com dois mil, mas ainda estava irritado com
Humboldt. Especificou com toda a clareza que o dinheiro devia ser
apenas aplicado em tratamentos psiquiátricos e necessidades premen­
tes . Um advogado da Quinta Avenida, Simkin, ficou com o dinheiro
em depósito . Hildebrand sabia, e depois ficámos a saber todos nós,
que Humboldt havia contratado um detetive particular, um homem
chamado Scaccia, e que esse Scaccia já tinha ficado com a maior parte
da bolsa concedida a Humboldt pela Guggenheim. A própria Kath­
leen tinha feito uma coisa inusitada. Abandonou logo Nova Iorque
e foi para o Nevada a fim de pedir o divórcio. Mas Scaccia continuava
a dizer a Hum boldt que ela ainda estava em Nova Iorque, levando
uma vida de orgias. Humboldt imaginou então um novo e sensaciona­
lista escândalo proustiano no qual participaria, desta vez, um círculo
de pervertidos constituído por corretores da Wall Street. Se conseguisse
surpreendê-la em flagrante, ficaria com a « propriedade >> , a cabana de
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 171

Nova Jérsia, avaliada em cerca de oito mil dólares, mas com uma hi­
poteca de cinco, segundo me havia dito Orlando Huggins. Orlando
era um desses boémios radicais que sabia de dinheiro. Na vanguarda
nova-iorquina toda a gente sabia muito de dinheiro.
O verão passou depressa. Os ensaios começaram em agosto . As
noites eram quentes, tensas e cansativas. Já me levantava cansado to­
das as manhãs e Demmie servia-me várias chávenas de café ao peque­
no-almoço, com uma série de bons conselhos so bre o teatro, Hum­
boldt e a atitude perante da vida . O pequeno terrier branco, Cato,
pedia côdeas rangendo os dentes enquanto recuava saltitando nas pa­
tas traseiras. Pensava que também teria preferido dormir o dia inteiro
na almofada dele, perto da j anela, ao lado das begónias de Demmie,
em vez de perder o meu tempo na sordidez antiga do Belasco a ouvir
atares deprimentes. Começava a odiar o teatro, os sentimentos perver­
samente dilatados pelo histrionismo, todos os gestos gastos, os abra­
ços, as lágrimas e as súplicas. Além disso, Von Trenck já não era uma
peça da minha autoria . Pertencia àquele Harold Lampton de olhos
esbugalhados, para quem, submissamente, eu tinha escrito novos diá­
logos nos camarins. Os atares dele eram uma pandilha de incompe­
tentes. Todo o talento de Nova Iorque parecia estar concentrado no
melodrama interpretado pelo febril e delirante Humboldt. Amigos
e admiradores constituíam o seu p ú blico no White Horse da Rua
Hudson. Aí pronunciava conferências e grasnava protestos. Também
se dedicava a consultar advogados e um ou dois psiquiatras.
Tinha a impressão de que Demmie era capaz de compreender
Humboldt melhor do que eu porque também tomava comprimidos
misteriosos. ( Se bem que houvesse outras afinidades . ) Criança obesa,
Demmie, aos catorze anos, pesava mais de cento e vinte quilos. Mos­
trou-me fotografias, mas só com dificuldade acreditei no que estava
a ver. Receitaram-lhe injeções de hormonas e comprimidos, e tornara­
-se esbelta . A avaliar pela sua visível exoftalmia, devem ter-lhe dado
tiroxina . Pensava que os seus lindos seios se tinham desfigurado pela
rápida perda de peso . As rugas insignificantes que os sulcavam eram
motivo de desgosto para ela. Às vezes chorava :
- Deram-me cabo das maminhas com aqueles malditos remédios.
- Ainda recebia embrulhos em papel pardo enviados pela Drogaria
Mount Coptic. - Mas continuo atraente.
É claro que s i m . O cabelo arruivado era como se soltasse luz.
Umas vezes penteava-o para o lado, outras usava franj a, dependendo
172 S A U L B E LLOW

do que tivesse feito com as unhas ao seu couro cabeludo. Costumava


arranhar-se. O rosto podia ser circular, como o de uma criança, ou
descarnado, como o de uma pioneira. Umas vezes lembrava uma bele­
za de Van der Weyden, outras Mortimer Snerd 1 e outras ainda uma
corista de Ziegfeld. Ficava muito excitado, repito, com o roçar leve
e macio, quando ela andava depressa, dos joelhos metidos para dentro.
Acho que se fosse um gafanhoto esse ruído far-me-ia saltar cordilhei­
ras. Quando Demmie cobria o rosto e o delicado nariz arrebitado com
uma espessa maquilhagem, os grandes olhos, mais claros e móveis em
virtude da quantidade de pó, revelavam duas coisas: que possuía um
coração sincero e que era uma sofredora dinâmica. Não foram poucas
as vezes que tive de ir a correr até à Rua Barrow para apanhar um
táxi e levar Demmie às Urgências do St. Vincent. Numa ocasião,
quando apanhava banhos de sol no telhado, apanhou uma insolação
e entrou em delírio. Noutra ocasião, ao cortar carne de vitela, deu um
golpe no polegar até ao osso. Foi deitar o lixo no incinerador e uma
língua de fogo que saiu pelo tubo aberto chamuscou-a. Como rapari­
ga bem-comportada, preparava as aulas de Latim para cada período
letivo, guardava os cachecóis e as luvas em caixas etiquetadas e esfre­
gava a casa com sabão. Como rapariga malcomportada, bebia uísque,
tinha ataques de histeria e andava na companhia de ladrões e malfei­
tores. Acariciava-me como uma princesa encantada ou dava-me mur­
ros nas costelas como um vaqueiro . Nos dias de calor punha-se nua
para encerar o soalho de j oelhos. Então ficavam a descoberto grandes
tendões, braços magricelas e pés desgastados. E quando era visto por
trás, o órgão que eu em contexto distinto, adorava e me parecia tão
pequeno, delicado, intrincado e carregado de deliciosas dificuldades
de acesso, sobressaía como um membro primitivo. Mas depois de en­
cerar, uma tarefa que lhe provocava ondas de suor, sentava-se com as
belas pernas recobertas por um manto azul a beber um martíni. O pai
Vonghel, um fundamentalista, era proprietário da Mount Coptic. Era
um homem violento . Demmie tinha uma cicatriz na ca beça que lhe
fora causada quando o pai a empurrara contra um aquecedor e outra
no rosto devido a um cesto de papéis que ele lhe arremessara - o la­
toeiro tivera de cortar o cesto para a libertar. De modo que sabia os
evangelhos de cor, tinha sido uma estrela do hóquei em campo, sabia

1 Boneco pouco elegante, quase disforme, do ventríloquo Edgar Bergen, muito

apreciado a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 173

domar cavalos do Oeste e escrevia encantadores recados pueris em


papel Tiffany. No entanto, quando tomava uma colherada do seu cre­
me de baunilha favorito, voltava a ser a menina gorda que tinha sido.
Sa boreava a so bremesa com a ponta da língua , a boca aberta e os
grandes olhos azuis de neblina marinha estival em êxtase, de maneira
que se sobressaltava quando eu dizia:
- Engole o creme.
Ao final da tarde j ogávamos gamão, traduzíamos Lucrécio e ela
explicava-me Platão.
- As pessoas ganham fama pelas suas virtudes. Mas ele vê ... Que
outra coisa se pode ser senão virtuoso ? Não há mais nada.
A l g u m tempo antes d o D i a d o Tra b a l h o 1 , H u m b o ldt voltou
a ameaçar Magnasco, este foi à polícia e convenceu um polícia à pai­
sana a acompanhá-lo ao hotel. Esperaram no vestíbulo. Depois irrom­
peu Humboldt e atirou-se a Magnasco. O polícia interpôs-se e Hum­
boldt disse:
- Agente, este homem tem a minha mulher no quarto dele.
A coisa mais razoável era proceder a uma busca. Subiram os três.
Humboldt revistou todos os armários, procurou a camisola dela de­
baixo dos travesseiros, passou a mão por baixo do forro de papel das
gavetas. Não havia nada. Nada.
O polícia à paisana disse:
- Então, onde é que ela está ? Foi o senhor que escavacou esta
porta com o punho da pistola ?
- Não tenho pistola nenhuma - replicou Humboldt. - Se qui­
ser, pode revistar-me. - Levantou os braços e acrescentou: - Pode ir
ao meu quarto para verificar. Venha.
Mas quando chegaram à Rua Greenwich, Humboldt meteu a cha­
ve na fechadura e disse:
- Não pode entrar . - Ergueu a voz: - Tem um mandado de
busca ?
Rodou rapidamente a chave, entrou, bateu a p o rta com força
e aferrolhou-se.
Foi então que Magnasco apresentou queixa ou solicitou uma pro­
vidência cautelar - não sei ao certo -, e numa noite brumosa e sufo­
cante a polícia foi prender Humboldt. Resistiu como um touro. Tam­
bém se debateu na esquadra . Uma ca beça ungida rolou pelo chão

1 Primeira segunda-feira de setembro. (N. do T.)


1 74 SAUL BELLOW

imundo . Meteram-no numa camisa de forças ? Magnasco j urou que


não. Mas houve algema s , e Humboldt choro u . Teve uma diarreia
a caminho do Bellevue e ficou detido toda a noite na mais completa
imundície.
Magnasco fez constar que ele e eu tínhamos decidido agir de co­
mum acordo para evitar que Humboldt cometesse um crime. Todos
disseram então que o responsável era Charles Citrine, protegido e ir­
mão de sangue de Humboldt. De repente vi-me rodeado de detratores
e inimigos, gente que desconhecia.
E dir-lhes-ei como vi isso a partir da decadência elegante e da de­
testável escuridão do Teatro Belasco. Imaginei Humboldt a chicotear
o seu tiro de mulas, de pé na carroça enlouquecida, como um pionei­
ro em busca de terras no Oklahoma. Corria para aquele território de
excessos a fim de reclamar os seus direitos de propriedade . Essa rei­
vindicação era uma miragem do seu coração inflamado e trémulo.
Não quis, com isto, dizer que o poeta não está no seu juízo perfei­
to . . . Chamem a polícia, e que se lixem os clichés. Não, sofri quando
a polícia o prendeu, fiquei angustiado. O que é que queria afinal di­
zer ? Talvez uma coisa assim: suponhamos que a polícia subj ugou
o poeta no chão, o meteu numa camisa de forças ou algemou, o levou
à força numa ramona como se fo sse um cão raivoso, para chegar
todo sujo e ser trancado fora de si ! Era isso a arte contra a América ?
Para mim, o Bellevue era como o Bowery: oferecia um testemunho ne­
gativo. A brutal Wall Street simbolizava o poder, e o Bowery, tão per­
to dela, era o símbolo acusador da fraqueza. O mesmo podia ser dito
do Bellevue, lugar onde vão parar os po bres e os lixados da vida .
E também de Payne Whitney, onde ficam os a bandonados com di­
nheiro . E os poetas, como os bêbedos, os inadaptados ou os psico­
patas, como os desgraçados, sej am pobres ou ricos, afundavam-se na
fraqueza . . . Tratava-se disso ? De não possuir máquinas, de não poder
t r a n s fo r m a r c o n h e c i m e n t o s c o m p a r á v e i s a o s d a B o e i n g , Sperry
Rand, IBM ou RCA ? Será que um poema pode apanhar uma pessoa
em Chicago e deixá-la em Nova Iorque duas horas depois ? Ou efe­
tuar os cálculos de um lançamento espacial ? Não tem esses poderes.
E só existe interesse onde existe poder. Nos tempos antigos a poesia
era uma força, o poeta tinha poder real no mundo material. É claro
que, nessa altura, o mundo material era outra coisa . Que interesse,
contudo, podia Humboldt despertar agora ? Atirou-se para a fraqueza
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 175

e tornou-se o herói da desgraça. Submeteu-se ao monopólio do poder


e do interesse usufruídos pelo dinheiro, pela política, pelas leis, pelo
racionalismo e pela tecnologia, porque foi incapaz de encontrar a coisa
que viria a seguir, a coisa nova, a coisa necessária de que os poetas se
deveriam ocupar. Em vez disso, fez uma coisa que já havia sido feita.
Arranj ou uma pistola, como Verlaine, e foi atrás de Magnasco.
Telefonou-me do Bellevue para o Teatro Belasco. Ouvi a sua voz
trémula, enraivecida mas acelerada. Gritou-me:
- Charlie, sabes onde estou, não sabes ? Muito bem, Charlie, isto
não é literatura. É a vida.
No teatro, eu vivia no mundo da ilusão, ao passo que ele, Hum­
boldt, tinha rebentado - era isso ?
Mas não, em vez de ser um poeta ele não passava da imagem de
um poeta . Estava a representar The Agony of the American A rtist.
E nem sequer era Humboldt, eram os Estados Unidos que tinham
a deixa:
- Cidadãos americanos, escutai-me. Se abandonardes o materia­
lismo e os afazeres normais da vida, acabareis no Bellevue como este
pobre tolo.
Humboldt andava a promover sessões de tribunal e a fazer cenas
de loucura no Bellevue. Censurava-me a bertamente . Os amantes de
escândalos regozij avam-se sempre que o meu nome era mencionado.
Um dia, Scaccia, o detetive privado, apresentou-se no Belasco com
um bilhete de Humboldt. Queria o dinheiro que eu tinha recolhido
para ele e queria-o já. Assim, o Sr. Scaccia e eu ficámos frente a frente
na húmida e lúgubre viela de cimento ao lado da porta de acesso ao
palco. O Sr. Scaccia trazia sandálias e peúgas de seda brancas, muito
suj as. Nos cantos da boca tinha um depósito de suj idade.
- Os fundos estão à guarda de um advogado, o doutor Simkin,
da Quinta Avenida. Só podem ser usados em despesas médicas - dis­
se-lhe.
- Está a referir-se a despesas psiquiátricas . Acha que o senhor
Fleisher não está no seu juízo perfeito ?
- Não me compete fazer diagnósticos. Diga ao Humboldt que fale
com o Simkin.
- Estamos a falar de um homem genial. Quem diz que um génio
precisa de tratamento ?
- Já leu os poemas dele ? - perguntei.
5AUL BELLOW

- Pode apostar que sim. Não aceito que me rebaixe. É amigo dele,
creio eu ? O homem adora-o. Ainda gosta muito de si. O senhor gosta
dele ?
- E onde é que o senhor entra nisto ?
- Fui contratado por ele. Eu, por um cliente, faço qualquer coisa.
Se não lhe desse o dinheiro, regressaria ao Bellevue para dizer
a Humboldt que eu achava que ele estava louco. Senti vontade de ma­
tar Scaccia naquele corredor escuro. A j ustiça natural estava do meu
lado. Podia deitar as mãos ao pescoço daquele chantagista e estrangu­
lá-lo. Oh, seria um verdadeiro prazer ! E quem poderia recriminar-me ?
Um ímpeto desse sentimento assassino fez-me baixar os olhos com
falsa modéstia.
- O senhor Fleisher terá de explicar ao Simkin o que pretende fa­
zer com o dinheiro - disse eu. - A coleta não foi feita para si.
Depois daquela conversa recebi uma série de chamadas de Hum­
boldt.
- Os polícias meteram-me numa camisa de forças. Tiveste algu­
ma coisa que ver com isso ? Tu que és meu irmão de sangue ? Também
me maltrataram, Thomas Hobbes de merda !
Compreendi a referência . Queria dizer que eu só me interessava
pelo poder.
- Só estou a tentar aj udar-te - respondi.
Desligou. O telefone voltou a tocar de imediato.
- Onde está a Kathleen ? - perguntou.
- Não sei.
- Ela conversou contigo junto à corda da roupa. Tu sabes onde ela
está . Ouve-me, boneco, andas a meter a mão no dinheiro. É meu. Que­
res enfiar-me na cadeia para sempre com os homenzinhos de branco ?
- Tens de te acalmar, mais nada.
Voltou a telefonar nesse dia, quando a tarde estava cinzenta e aba­
fad a . Eu estava a comer uma sanduíche de atum húmida e desfeita
com sabor a lata no restaurante grego que havia à frente do teatro,
quando me mandaram chamar ao telefone. Atendi no camarim do
atar principal.
- Falei com um advogado - gritou-me Humboldt. - Estou dis­
posto a processar-te por causa do dinheiro. És um vigarista. Um trai­
dor, um mentiroso, um impostor, um j udas. Mandaste-me engaiolar
enquanto essa puta da Kathleen anda de orgia em orgia. Vou acusar­
-te de peculato.
O L E G A D O DE H u M B O LDT 1 77

- Humboldt, e u s ó aj udei a angariar esse dinheiro. Não o tenho.


Não está nas minhas mãos.
- Diz-me onde está a Kathleen e retirarei a queixa.
- Não me disse para onde ia.
- Quebraste o j uramento que fizeste, Citrine. E agora queres afas-
tar-me. Tens inveja de mim, sempre tiveste. Vou mandar-te para a ca­
deia, se puder. Quero que saibas como se sente uma pessoa quando
é detida pela polícia e a metem numa camisa de forças.
Então, bam ! , desligou e eu deixei-me ficar sentado, a suar, no ca­
marim sujo do protagonista, com o gosto a podre da salada de atum
a vir-me à boca e um sabor que parecia de ptomaína 1 vegetal , com
cãibras e uma dor muito intensa nas costelas. Os atores estavam a ex­
perimentar o guarda-roupa nesse dia e passavam diante da porta em
cuecas, vestidos e com chapéus de três bicos. Teria gostado de aj udar,
mas sentia-me como um sobrevivente de um exploração ao Ártico,
enfiado num barco pequenino, um Amundsen a pedir socorro a navios
que navegavam na linha do horizonte mas afinal eram ice bergue s .
Trenck e o tenente Schell passaram com as s u a s espadas e perucas .
Não eram eles que me podiam dizer que não era u m mentiroso, u m
impostor, u m j udas. Não podia dizer-lhes o que achava estar a passar­
-se comigo, ou sej a, que era vítima de uma ilusão, talvez uma ilusão
maravilhosa ou apenas fruto de preguiça, a ilusão de que por meio de
uma inspirada levitação podia elevar-me e avançar rapidamente em
direção à verdade. Direto à verdade. Porque era demasiado arrogante
para me importar com o que dissessem o marxismo, o freudismo,
o modernismo, a vanguarda ou qualquer outra das coisas que Hum­
boldt, como j udeu culto, levava tão a sério.
- Vou vê-lo ao hospital - disse a Demmie.
- Não vás . É a pior coisa que podes fazer.
- Mas olha o estado em que ele está . Tenho de ir, Demmie.
- Não to permito . Vai atacar-te . Não s uportaria que tivesses
de brigar com ele, Charlie. Vai bater-te, é duas vezes mais corpulento do
que tu, está louco e é forte. Aliás, não quero que nada te perturbe en­
quanto estás a ensaiar a peça. Ouve - a voz tornou-se mais grave -,
tomarei conta do assunto. Eu é que o vou ver. E ficas proibido de ir.

1 Toxina produzida por fermentação ou ação de bactérias sobre ácidos que ge­
ralmente é encontrada em cadáveres e substâncias em decomposição. (N. do T.)
S A U L B E L LOW

Acabou por não ir. Havia imensa gente em cena naquele momen­
t o . O drama do Bellevue atraía multidões do Greenwich Vill age
e Morningside Heights . Eram comparáveis aos habitantes de Was­
hington que saíssem em carruagens para assistir à batalha de Bull
Run e depois impedissem a passagem das tropas da União. A partir
do momento em que deixei de ser irmão de sangue dele, o gago e bar­
budo Orlando Huggins tornou-se o amigo mais chegado de Hum­
boldt. Huggins conseguiu que o soltassem. Então Humboldt foi para
o Hospital Mount Sinai e pediu que o internassem. Seguindo as mi­
nhas instruções, o advogado Simkin pagou uma semana adiantada do
tratamento particular. No entanto, Humboldt abandonou o hospital
um dia depois de ter sido internado e embolsou o saldo não utilizado
de cerca de oitocentos dólares. Com uma parte desse dinheiro pagou
os honorários de Scaccia . Começou depois a processar Kathleen, Mag­
nasco, o Departamento de Polícia e o Bellevue. Continuou a ameaçar­
-me mas não chegou a apresentar qualquer queixa contra mim. Estava
à espera de ver se Von Trenck faria dinheiro.
Eu ainda estava num nível primário da minha compreensão do
que era o dinheiro. Não sabia que havia muita gente, pessoas persis­
tentes, engenhosas e apaixonadas para quem era perfeitamente óbvio
que lhes cabia deter o dinheiro dos outros. Humboldt estava convicto
de que havia riqueza no mundo - não a dele - sobre a qual tinha
um direito so berano e que estava destinada a acabar nas suas mãos.
Dissera-me uma vez que estava em vias de ganhar um grande proces­
so, um processo de um milhão de dólares.
- Com um milhão de dólares - disse - serei livre para me con-
centrar unicamente na poesia.
- Como vais conseguir isso ?
- Alguém me prej udicará.
- No valor de um milhão de dólares ?
- Se estou obcecado por dinheiro, como não devia acontecer com
um poeta, é por uma razão - tinha-me explicado Humboldt. -
É que, apesar de tudo, somos americanos. Que espécie de americano
seria eu se fosse um ingénuo em matéria de dinheiro, é o que te per­
gunto ? As coisas têm de ser combinadas como Wallace Stevens as
combinava. Quem é que disse que << O dinheiro é a raiz do mal » ? Não
foi o Buleiro ? Pois o Buleiro é o ser mais malvado que há na obra de
Chaucer. Não, eu concordo com Horace Walpole. Walpole dizia que
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 1 79

e r a natural q u e homens livres pensassem em dinheiro . Porquê ? Por­


que dinheiro é liberdade, eis a razão.
Nos bons tempos tínhamos mantido conversas esplêndidas como
esta, apenas ligeiramente ensombradas por um toque de depressão
maníaca e paranoia. Mas agora a luz escurecera e a obscuridade tor­
nara-se trevas.
Ainda recostado, bem acomodado no meu sofá almofadado, reca­
pitulei todas essas semanas espetaculares.
Humboldt montou uma ruidosa manifestação contra Von Trenck
mas a peça foi um êxito. Para estar mais perto do Belasco e da minha
celebridade, aluguei uma suíte no St. Regis. Os elevadores art nou­
veau tinham portas douradas. Demmie ensinava Virgílio. Kathleen j o­
gava blackjack no Nevada. Humboldt tinha regressado ao seu posto
de comando na White House Tavern . Aí realizava exercícios literá­
rios, artísticos, eróticos e filosóficos até altas horas da noite. Cunhou
um novo epigrama que chegou aos meus ouvidos na zona alta da ci­
dade: << Nunca toquei numa folha de parreira que não se transformas­
se numa etiqueta com o preço marcado . » Isto deu-me alguma espe­
rança. Ainda parecia capaz de um bom gracej o. Dava a impressão de
que estava a regressar à normalidade.
Mas não. Todos os dias Humboldt fazia a barba descuidadamen­
te, bebia café, ingeria comprimidos, estudava os seus apontamentos
e ia ao centro consultar os advogados. Tinha montes de advogados
- colecionava advogados e psicanalistas. O obj etivo das suas visitas
a estes últimos não era o tratamento. O que queria era conversar, ex­
pressar-se. O ambiente teórico dos consultórios estimulava-o. Quanto
aos advogados, fazia-os preparar papéis e discutir estratégias. Não é
frequente que advogados se encontrem com escritores. Como é que
um advogado pode estar a par do que se passa ? Um poeta famoso
telefona para marcar uma reunião. Vem recomendado por alguém.
Todo o escritório se emociona, as dactilógrafas maquilham-se . Então
chega o poeta, corpulento e doente mas ainda elegante, pálido, com
aspeto de pessoa ferida, tremendamente agitado, à sua maneira tími­
do, com trej eitos e tremores impressionantemente leves para um ho­
mem tão grande . Mesmo sentado, tem tremores nas pernas, todo
o corpo vibra . Ao princípio a voz dele parece vir de outro mundo.
Quando tenta sorrir, apenas consegue esboçar uma careta . Estranhos
dentes pequenos e manchados esforçam-se por reprimir os tremores
r 8o S A U L BELLOW

dos lábios. Ainda que robusto, grande como um pugilista, é também


uma planta delicada, um Ariel 1 , etc. Seria incapaz de fechar o punho
para esmurrar alguém. A agressividade não condiz com ele. E conta
uma história - poderia pensar-se que se trata do pai de Hamlet:
fraude, impostura, incumprimento de promessas; por fim, enquanto
dormia no j a rdim, alguém veio sorrateiramente com um fra sco na
mão para tentar derramar uma coisa qualquer no ouvido dele. Come­
ça por recusar identificar os falsos amigos e potenciais assassinos. São
a penas X e Y. Depois, refere-se a << Esta pessoa ,, . « <a com esta pes­
soa X >> , diz. Na sua inocência, entrou em acordos, trocou promessas
com X, que acabou por se mostrar um Cláudio2• Disse que sim a
tudo. Assinou um documento sem o ler sobre a posse conj unta da casa
de Nova Jérsia . Estava também desapontado com um irmão de sangue
que se havia transformado num delator. Shakespeare tinha razão: não
há arte que permita descobrir a construção da alma num rosto3: era
um cavalheiro em quem eu depositava uma confiança a bsoluta. Mas
agora , recuperado do choque, quer processar o dito cavalheiro . Pro­
cessar os outros é uma das preocupações fundamentais do ser huma­
no. E tinha toda a razão no caso de Citrine: Citrine apossara-se do di­
nheiro dele. Mas a única coisa que quer é uma j usta compensação .
E resiste, ou parece resistir, à fúria crescente. Esse tal Citrine é um ra­
paz enganosamente aprumado. Mas Jacob Boehme estava enganado :
o exterior não é o interior visível. Humboldt diz que está a lutar pela
decência. O pai não tinha amigos, ele não tem amigos: assim é a ma­
téria humana . A fidelidade é coisa de fonógrafos. Mas contenhamo­
-nos. Nem todos se transformam em ratazanas venenosas que se mor­
dem umas às outras.
- Não quero fazer mal a esse filho da puta . Só pretendo justiça.
Justiça ! O que ele queria eram as tripas do cavalheiro num saco de
compras.
Sim, perdia muito tempo com advogados e médicos. Médicos e ad­
vogados sabiam dar mais valor ao drama das inj ustiças e ao drama da

1 O invisível génio do ar em The Tempest, de W. Shakespeare. (N. do T.)


2 Usurpador e fratricida rei da Dinamarca de quem Hamlet se quer vingar.
(N. do T.)
3 Macbeth, Ato I, Cena IV. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 181

doença. Já não queria ser poeta . O simbolismo, a sua escola, estava


ultrapassado. Não, naquela ocasião era um intérprete que estava a ser
real. D e regresso à experiência direta . Ao vasto mundo. Fim à arte
como substituto da vida real . Processos j udiciais e psicanálise eram
rea1s.
Quanto aos advogados e psicanalistas, a verdade é que estavam
encantados com ele: não porque representasse o mundo real mas por
ser poeta . Não pagava - deitava fora as contas. Mas essas pessoas,
que sentiam curiosidade pelo génio (tinham aprendido a dar-lhe valor
através dos livros de Freud ou de filmes como Moulin Rouge1 ou The
Moon and Sixpence2), estavam sedentas de cultura . Ouviam-no delei­
tadas quando desfiava a sua história de infelicidade e perseguição .
Cuspia suj idade, propagava escândalos e utilizava metáforas podero­
sas. Que combinação: fama, coscuvilhice, mentira, imundície e inven­
ção poética !
Mesmo nesses momentos, o arguto Humboldt sabia o valor que
lhe era atribuído no mundo profissional nova-iorquino. Intermináveis
corre i a s de tra nsmissão de doenças e litígi os despej avam clientes
e doentes naqueles escritórios e consultórios do centro como se fossem
vulgares batatas de Long Island. Aqueles tubérculos mortiços moíam
o coração dos psicanalistas com aborrecidos problemas de personali­
dade. Então, de repente, chegou Humboldt. Oh, Humboldt ! Não se
tratava de uma batata : era uma papaia, um limão, um maracuj á . Era
belo, profundo, eloquente, cheiroso, original - mesmo que apresen­
tasse um ar de mágoa, olheiras, e estivesse meio destruído. E que re­
pertório, que mudanças de estilo e de ritmo . No início mostrava-se
pacífico . . . tímid o . Depois tornava-se pueril, confiado, entrava em
confidências. Afirmava saber o que maridos e mulheres dizem quando
brigam, essas altercações tão importantes para eles e tão cansativas pa­
ra os outros. As pessoas faziam hum-hum e olhavam para o teta quan­
do essas coisas começavam. Americanos ! Com as suas ideias estúpidas
sobre o amor e as suas tragédias domésticas. Como é que era possí­
vel continuar a ouvi-los depois da pior das guerras e da mais radical

1 Moulin Rouge ( 1 9 5 2 ) , de John Huston, com José Ferrer, Colette Marchand

e Zsa Zsa Gabor, sobre a vida de Toulouse-La utrec. (N. do T.)


2 Mesmo assim Elas A mavam-no ( 1 942 ) , de Albert Lewin, baseado no conheci­
do romance de Somerset Maugham, com George Sanders, Herbert Marshall e Do­
ris D udley, sobre a vida de Gauguin. (N. do T.)
182 5 A U L B E L LOW

das revoluções, da destruição, dos campos de extermínio, da terra em­


papada em sangue e do fumo dos fornos crematórios que pairava ain­
da nos ares da Europa ? Que importância tinham os problemas pes­
soais dos americanos ? Sofriam de verdade ? O mundo inteiro olhava
para os rostos dos americanos e dizia : << Não me venham com a histó­
ria de que essa gente alegre e próspera está a sofrer ! » No entanto,
a abundância democrática tem dificuldades específicas. A América era
a experiência de Deus. Muitas das velhas penas da Humanidade ti­
nham desaparecido, o que tornava a s novas dores mais peculiares
e misteriosas. A América não gostava de valores especiais. Detestava
as pessoas que representavam esses valores. E contudo, sem esses va­
lores especiais . . . não sei se me entendem, dizia Humboldt. A antiga
grandeza da Humanidade foi gerada na escassez. Mas que podemos
esperar da abundância ? Em Wagner, o gigante Fafnir - ou é um dra­
gão ? - dorme sobre um anel mágico. Quer isto dizer que a América
está a dormir e a sonhar com a j ustiça igualitária e com o amor ? Sej a
como for, não estou aqui para discutir os adolescentes mitos de amor
americanos . Era assim que Humboldt se expressava. No entanto,
prosseguia, gostava que ouvissem isto. E então começava a narrar
no seu estilo original . Descrevia e enfeitava intrincados argumentos.
Trazia à colação Milton para falar do divórcio e John Stuart Mill
para se referir às mulhere s . Depois vinha a revelação, a confiss ã o .
E então acusava, fulminava, gaguej ava, chamej ava, berrava . Atraves­
sava o Universo à velocidade da luz. Tirava radiografias dos factos
verdadeiros . Fraqueza , mentiras, tra ição, perversões vergonhosas,
luxúria desbragada, os vícios de certos milionários ( citava nomes ) .
A verdade ! E todo um melodrama de impureza, com mamilos de cor
púrpura eretos, dentes à mostra, uivos, ej aculaçõe s ! Os advogados
tinham ouvido milhares de vezes esta história, mas queriam ouvi-la de
novo, da boca de um homem de génio. Tornara-se por acaso pornó­
grafo deles ?
Ah, Humboldt tinha sido grande ! Atraente, brioso, otimista, enge­
nhoso, elétrico, nobre. Estar na sua companhia fazia as pessoas senti­
rem a doçura da vida . Costumávamos discutir os assuntos mais eleva­
dos: o que D iotima disse a Sócrates sobre o amor, o que Espinosa
queria dizer com amor dei intellectualis. Conversar com ele dava vida,
nutria. Mas já então considerava, quando o ouvia mencionar pessoas
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT

que tinham sido suas amigas, que era apenas uma questão de tempo
até também eu ser posto de lado. Ele não tinha velhos amigos, só ex­
-amigos. Podia tornar-se um homem terrível, que mudava de opinião
sobre os outros sem aviso prévio. Quando isso acontecia, era como se
se estivesse a ser colhido por um comboio expresso num túnel. A úni­
ca coisa que se podia fazer era ficar colado às paredes ou deitado en­
tre os carris, a rezar.
Para meditar e ir alêm das aparências é preciso ter sossego . Não
me sentia sossegado depois deste resumo da vida de Humboldt, mas
lembrei-me de uma coisa que ele gostava de mencionar quando estava
de bom humor e acabávamos de jantar, com uma confusão de pratos
e garrafas entre nós. O falecido filósofo Morris R. Cohen, do City
College de Nova Iorque, fora questionado por um estudante no curso
de Metafísica :
- Professor Cohen, como posso saber que existo ?
O velho e sagaz professor retorquiu:
- Quem está a fazer a pergunta ?
Apliquei isto a mim mesmo. Depois de penetrar tão profundamen­
te no carácter e na carreira de Humboldt, era conveniente que dirigis­
se um olhar mais atento sobre mim e que não me limitasse a j ulgar
um morto que já não podia alterar nada, e me pusesse à altura dele,
mortal com mortal, se é que entendem o que quero dizer. O que que­
ro dizer é que o amei. Muito bem, então, Von Trenck foi um êxito
( morro de vergonha ) e eu converti-me numa celebridade . Nesse mo­
mento Humboldt era apenas um sans-culotte louco, bêbedo, envol­
vido em protestos públicos brandindo cartazes pintados com mer­
curocromo, enquanto uns companheiros maliciosos o incitavam . No
White Horse da Rua Hudson, Humboldt impunha-se sem o menor es­
forço . Mas o nome que aparecia nos j ornais, o nome que Humboldt,
sufocado de invej a, via na coluna de Leonard Lyons era o de Citrine.
Era a minha vez de ser famoso e ganhar dinheiro, receber montes de
cartas, ser reconhecido por pessoas influentes e convidado a jantar no
Sardi's, ter encontros em gabinetes almofadados com mulheres que
se perfumavam com almíscar, comprar cuecas de algodão Sea Island
e malas de couro, viver com a excitação intolerável de sentir-me vin­
gado. (Tinha razão desde o princípio ! ) Experimentei a sensação da
alta voltagem da publicidade. Era como se pegasse num cabo elétrico
S A U L B E L LOW

que seria fatal para pessoas comuns, como as cascavéis apanhadas


à mão pelos campónios em estado de exaltação religiosa.
Demmie Vonghel, que me preparara desde o início para isto, con­
tinuava a orientar-me, atuando como treinadora, empresária, cozi­
nheira, a m a nte e capataz. Tinha pedido uma redução do horário
e mesmo assim estava muito ocupada. Não me deixava ir ver Hum­
boldt ao Bellevue. Discutíamos por causa disso. Ela precisava de algu­
ma aj uda com todas as coisas que tinha entre mãos e considerou que
seria boa ideia que eu consultasse também um psiquiatra.
- Dar esse ar de tranquilidade quando sei que te estás a desfazer
e a morrer de nervosismo, não é nada bom.
Mandou-me a um homem chamado Ellenbogen, também uma ce­
lebridade, que aparecia em muitos programas de televisão e era autor
de livros que defendiam a li berdade sexual . O rosto seco, comprido
e descarnado de Ellenbogen apresentava grandes rugas nervosas, faces
vermelhas e dentes que lembravam os do cavalo a relinchar de Guer­
nica de Picasso. O método dele era atingir duramente o doente para
o libertar. A racionalidade do prazer era o martelo ideológico dele.
Era um tipo rude, rude à maneira de Nova Iorque, mas sorria e expli­
cava com ênfase nova-iorquina o sentido de tudo. A nossa vida é bre­
ve e devemos compensar a brevidade do tempo humano com uma fre­
quente e intensa satisfação sexual. Nunca se irritava, nunca se sentia
ofendido, repudiava a cólera e a agressividade, a submissão imposta
pela consciência, etc . Todas essas coisas eram prej udiciais à cópula.
Figuras de bronze representando pares amorosos mantinham os seus
livros direitos. O ar do consultório era rarefeito . Os apainelamentos
eram escuros e sentia-se a comodidade do couro grosso. Durante as
sessões ficava deitado, apoiava os pés descalços numa almofada, com
a comprida mão metida dentro das calças. Estaria a acariciar as par­
tes ? Completamente relaxado, soltava uma data de gases que se dis­
solviam e impregnavam aquela atmosfera viciada. Fosse como fosse,
as plantas estavam viçosas.
Deu-me o seguinte sermão:
- O senhor é um homem ansioso e dominado por sentimentos
de culpa . Depressivo . Uma formiga que anseia ser gafanhoto . Não
é capaz de suportar o êxito . Melancolia, diria eu, salpicada de aces­
sos de humor. As mulheres devem andar atrás de si. Quem me dera ter
as suas oportunidades. Atrizes. Bem, dê às mulheres a oportunidade de
o L E G A D O DE H U M B O L DT r8s

lhe darem prazer, é exatamente isso que desej a m . Para elas, o ato
em si é muito menos importante do que o momento de ternura .
Talvez para aumentar a minha autoconfiança contou-me algumas
das suas maravilhosas experiências pessoais. Uma sulista que o tinha
visto na televisão veio imediatamente ao Norte para se deitar com ele,
e quando conseguiu os seus intentos disse com um suspiro de luxúria:
- Quando te vi na televisão percebi que serias bom. E és bom.
Ellenbogen não achou muita graça a Demmie Vonghel quando lhe
contei como se comportava. Respirou com força e disse:
- Isso é mau, é um mau caso. Pobre rapariga . Aposto que faz
tudo para casar. Desenvolvimento imaturo. Uma rapariga linda. Que
pesava cento e trinta quilos aos treze anos. Uma dessas personalidades
muito sôfregas. Tirânicas. Vai engoli-lo.
Demmie ignorava que me tinha atirado para as mãos do inimigo.
Repetia todos os dias:
- Temos de casar, Charlie.
E planeava um grande casamento pela igrej a . A fundamentalista
Demmie tornara-se episcopaliana em Nova Iorque. Conversava comi­
go sobre vestidos de noiva e véus, lírios, acompanhantes, fotógrafos,
participações de casamento com impressão em relevo e fraques. Como
padrinho e dama de honor queria os Littlewoods . Nunca lhe havia
contado nada sobre a proposta que Littlewood me fizera em Prince­
too de fazer uma festinha íntima à maneira dos esquimós, dizendo:
- Podemos ter um bom espetáculo, Charlie.
Se lhe tivesse contado, Demmie teria ficado mais vexada do que
chocada com Littlewood. Entretanto, já se tinha adaptado a Nova
Iorque. A milagrosa sobrevivência do bem era o tema da vida dela.
Navegações arriscadas, monstros atraídos pelo seu infinito magnetis­
mo feminino - encantamentos, feitiços, orações, proteção divina
garantida pela força interior e pela pureza do coração: era assim que
via o mundo. O inferno soprava pelos vãos das portas para os pés
dela quando passava, mas conseguia seguir ilesa . Continuava a rece­
ber c a i x a s de c o m p r i m i d o s e n v i a d a s p e l a fa r m á c i a da s u a terra
natal. O paquete da Sétima Avenida vinha cada vez mais frequente­
mente com garrafas de ]ohnnie Walker Black Label. Ela só bebia do
melhor. Afinal de contas, era uma herdeira. A Mount Coptic perten­
cia ao pai dela . Era uma princesa fundamentalista que gostava de
r86 SAUL BELLOW

beber. Depois de alguns copos, Demmie tornava-se mais esplendoro­


sa, mais imponente, os olhos dela convertiam-se em grandes círculos
a z u l a d o s , o amor era m a i s forte . Resmungava a o estilo de Louis
Armstrong: << You are mah man . >> E depois acrescentava com toda
a seriedade :
- Amo -te de todo o meu coraçã o . Que nenhum outro homem
pense em tocar-me.
E cerrava o punho, que ficava surpreendentemente grande.
As tentativas de lhe tocar eram, contudo, ba stante frequentes.
O dentista dela, enquanto tra balhava numa obturação, pegou-lhe na
mão e colocou-a no que lhe pareceu ser o braço da cadeira . Não era
nada disso. Era o membro ereto dele. O médico dela acabou um exa­
me beij ando-a com violência em todos os pontos que conseguiu al­
cançar.
- Não posso dizer que censuro o homem por se empolgar, Dem­
mie. Tens um rabo de se lhe tirar o chapéu.
- Dei-lhe um murro no pescoço - respondeu.
Num dia quente, quando o aparelho de ar condicionado estava es­
tragado, o psiquiatra disse-lhe:
- Porque não tira a roupa, Miss Vonghel ?
Um anfitrião milionário de Long Island falou com ela pelo respira­
douro das casas de banho:
- Preciso de ti. Dá-me o teu cor. .. - disse-lhe com voz sufocada,
agonizante: - D á-me ! Estou a morrer. . . Salva-me, salva-me . . . Sal­
va-me !
Era um homem forte, robusto e alegre que pilotava o seu próprio
avtao.
Fantasias sexuais tinham distorcido o pensamento de pessoas que
estavam sob j uramento, que eram virtualmente sacerdotes. Estaria al­
guém inclinado a crer que neurose, crime e catástrofe eram o destino
da Humanidade neste século infame ? Demmie, com a sua inocência,
beleza e virtude, retirava montes de provas do ambiente que sustenta­
vam essa teoria. Um estranho demonismo revelou-se-lhe. Mas ela não
se intimidou. Disse-me que em matéria de sexo não receava nada.
- E têm tentado fazer-me experimentar tudo.
Acreditei.
o L E G A D O DE H U M B O LDT

O Dr. Ellenbogen garantiu-me que ela representava um risco do


ponto de vista matrimonial. Não achou graça à s anedotas que lhe
contei sobre os pais de Demmie. Os Vonghels tinham feito uma ex­
cursão de autocarro à Terra Santa; a obesa Mãe Vonghels levou os
próprios potes de manteiga de amendoim e o Papá as suas latas de
pêssego em calda E/berta. A Mãe espremeu-se para entrar no túmulo
de Lázaro, mas depois não conseguiu sair. Tiveram de chamar uns
árabes para a libertar. Apesar das advertências de Ellenbogen, delicia­
va-me com as esquisitices de Demmie e da família. Quando sofria, as
fundas órbitas dos olhos enchiam-se-lhe de lágrimas e apertava con­
vulsivamente o dedo médio da mão esquerda com os outros dedos.
Sentia uma forte atração por camas de doentes, hospitais, cancros ter­
minais e funerais. Mas a bondade dela era legítima e intensa . Compra­
va-me selos dos correios e bilhetes para os transportes públicos, cozi­
nhava-me fatias de vitela e panelas de paella, forrava as gavetas da
minha cómoda com papel de seda, guardava o meu cachecol com bo­
las de naftalina. Era incapaz de fazer operações aritméticas elementa­
res mas conseguia consertar máquinas complicadas. Guiada pelo ins­
tinto, mexia nos cabos coloridos e nas válvulas do rádio e punha-o
a funcionar. Raramente deixava de transmitir programas de música
popularucha e serviços religiosos de todo o país. Recebia de casa The
Upper R oam, A Devotional Cuide for Family and Individual Use1 ,
com o correspondente Pensamento d o Mês: << A Força Renovadora de
Cristo. >> Ou << Leia e medite: Habacuc, 2:2-4 >> . Eu próprio lia esta pu­
blicação. O Cântico dos Cânticos, 8 : 7: << As muitas águas não podem
apagar o amor, nem os rios afogá-lo . >> Eu amava as suas articulações
desaj eitadas, a sua grande ca beça de cabelos dourados. Sentávamo­
-nos na Rua Barrow a j ogar gin rummy. Pegou nas cartas e baralhou-
-as resmungando.
- Vais ficar limpo, meu trouxa.
Batia as cartas na mesa e gritava :
- Gin! Podes contar!
Tinha os j oelhos afastados.
- É a visão panorâmica de Shangri-La que me distrai das cartas,
Demmie - disse-lhe.

1 Revista de índole ético-re l igiosa . (N. do T.)


r88 S A U L B E L LOW

Jogávamos também paciências a dois e às damas chinesas. Levava­


-me a loj as de j oalharia antiga . Adorava broches e anéis antigos, so­
bretudo porque tinham sido usados por damas que já haviam morri­
do, mas o que mais desej ava, evidentemente, era um anel de noivado.
Não fazia segredo disso.
- Compra este anel, Charlie. Assim poderei mostrar à minha fa­
mília que entre nós está tudo a correr pelo melhor.
- Nunca hão de gostar de mim, por mais que te cubra de j oias ­
respondi.
- É verdade. Trepariam pelas paredes. O teu fardo de pecados
é pesado. Não se impressionariam com a Broadway. Escreves coisas
que não têm valor para eles. Só a Bíblia é verdadeira. Mas o Papá vai
fazer uma viagem à América do Sul para passar o Natal na sua Mis­
são. Aquela a que faz grandes doações, no interior da Colômbia, per­
to da fronteira com a Venezuela . Vou com ele e contar-lhe-ei que va­
mos casar.
- Ah, não vás, Demmie.
- Na selva, com selvagens por todo lado, parecer-lhe -ás mais
normal - disse ela.
- Diz-lhe o que estou a ganhar. O dinheiro deveria facilitar tudo.
- disse-lhe. - Mas não quero que vás. A tua mãe também vai ?
- Não, desta vez não. Não seria capaz d e suportar isso. Não, fica
em Mount Coptic para poder dar uma festa de Natal às crianças que
estão no hospital. Eles é que se vão lamentar.
Estas reflexões pretendiam, teoricamente, proporcionar-me tran­
quilidade. Para ver além das aparências é preciso cultivar uma calma
a bsol uta . E naquele momento não me sentia muito calmo. A densa
sombra de um avião a j ato que tinha levantado voo do aeroporto de
Midway atravessou o quarto, fazendo-me recordar a morte de Demmie
Vonghe l . Pouco antes do Natal, no ano do meu êxito, ela e o Pai
Vonghel morreram num desastre de avião na América do Sul. Demmie
levava o meu álbum de recortes da Broadway. Talvez estivesse a mos­
trá-lo ao pai quando houve o desastre. Nunca se soube exatamente
onde aconteceu - um ponto qualquer nas imediações do rio Orenoco.
Passei vários meses na selva à procura dela .
Foi nessa época que Humboldt descontou o cheque de irmão de
sangue que lhe tinha dado. Seis mil setecentos e sessenta e três dólares
e cinquenta e oito cêntimos eram uma quantia considerável. Porém,
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

o que importava não era o dinheiro. Achava que Humboldt devia ter
respeitado o meu luto. Pensei: Que momento escolheu para dar este
passo ! Como pôde fazer isto ! Que se lixe o dinheiro . Mas lê os j or­
nais. Sabe que ela morreu!

Ainda deitado, assaltou-me a mágoa da perda. De novo ! Não era


isto que procurava quando me deite i . E senti-me realmente grato
quando uma pancada ruidosa na porta me fez levantar. Era Cantabile
quem batia, forçando a entrada no meu santuário. Fiquei aborrecido
com o velho Roland Stiles. Pagava-lhe para impedir a entrada de in­
trusos e pessoas desagradáveis enquanto estivesse a meditar, mas não
se encontrava no seu posto na portaria. Antes do Natal, os inquilinos
precisavam de aj uda por causa das árvores e coisas assim. Certamente
estava a ser muito requisitado.
Cantabile vinha acompanhado por uma j ovem.
- A tua mulher, suponho.
- Não te ponhas a adivinhar. Não é a minha mulher. Apresento-
-te a Polly Palomino. Uma amiga . Amiga de família, quer dizer. Foi
companheira de quarto de Lucy no Woman's College de Greensboro.
Antes de Radcliffe.
De tez muito branca, sem sutiã, Polly entrou na zona iluminada
e começou a cirandar pela sala de estar. Era uma ruiva natural. Tam­
bém não usava meias (em dezembro, em Chicago ), o vestido era cur­
tíssimo e caminhava sobre sapatos de plataforma com solas grossís­
simas. Os homens de minha geração nunca chegaram a habituar-se
à força, ao tamanho e à beleza das pernas femininas, que antigamente
estavam sempre tapadas.
Cantabile e Polly examinaram o meu apartamento. Ele passou as
mãos pela mobília, ela curvou-se para apreciar o tapete, virando um
canto para ver a marca. Sim, era um Kirman legítimo. Depois começou
a observar os quadros. Cantabile sentou-se no sofá de veludo e disse:
- A isto chamo eu luxo de bordel.
- Não te ponhas muito à vontade. Tenho de ir ao tribunal.
- A ex-mulher de Charlie não se cansa de o processar - explicou
Cantabile a Polly.
- Porquê ?
- Por tudo. Não lhe deste já bastante, Charlie ?
- Bastante mesmo.
S A U L B E L LOW

- É tími d o . Tem vergonha de dizer quanto - disse Cantabile


a Polly.
- Ao que parece contei ao Rinaldo toda a história da minha vida
durante um j ogo de póquer - disse eu a Polly.
- A Polly já sabe. Contei-lhe tudo o que se passou ontem. A ver­
dade é que contaste a maior parte depois do j ogo de póquer. - Vol­
tou-se para Polly: - O Charlie estava demasiado bêbedo para guiar
o seu Mercedes 280-SL, de modo que o levei a casa e o Emil trouxe o
T-bird. Contaste-me muitas coisas mesmo, Charlie. Onde é que arran­
jas estes palitos de penas de ganso tão raros ? Estão espalhados por to­
do o lado. Parece que ficas muito neurótico com migalhas entre os
dentes.
- Mandam-mos de Londres.
- Como as meias de caxemira e o sabão de barba Floris ?
Sim, eu devia ter estado muito ansioso por falar. Tinha dado inú­
meras informações a Cantabile e, aliás, ele tinha feito pesquisas por
sua conta e risco com a óbvia intenção de se relacionar comigo.
- Como é que deixas a ex-mulher perseguir-te desta maneira ?
E tens um advogado que é um figurão. O Forrest Tomchek . Como
vês, andei a fazer perguntas por aí. O Tomchek é de primeira catego­
ria no ramo do divórcio. É ele que trata dos divórcios dos grandes
empresários. Mas tu não és ninguém para ele. Foi o teu amigo Szath­
mar quem te indicou esse cretino, não é verdade ? E quem é o advoga­
do da tua mulher?
- Um tipo chamado Maxie Pinsker.
- Eh lá ! O Pinsker, esse j udeu devorador de marido s ! Escolheu
o pior que existe. Vai esquartej ar-te o fígado e cozinhá-lo com ovo
e cebola . Que diabo, Charlie ! Esta parte da tua vida é repugnante. Re­
cusas prestar atenção aos teus próprios interesses. Deixas que as pes­
soas abusem de ti. A começar pelos teus amigos. Sei umas coisinhas
a respeito do teu amigo Szathmar. Ninguém te convida para j antar,
convidam Szathmar porque conta coisas bastante desagradáveis a teu
respeito . Dá informações confidenciais sobre ti aos colunistas de me­
xericos. Passa o dia a lamber o cu do Schneiderman, que anda sempre
a rastej ar de modo que é preciso estar metido numa toca para lá che­
gar com a língua . O Tomchek há de dar-lhe uma parte dos honorá­
rios que te cobra. E este vai vender-te ao canibal do Pinsker. O Pins­
ker vai colocar-te numa bandej a diante do j uiz. O j uiz vai entregar-te
à tua mulher. .. como é que se chama ?
0 L E G A D O DE H U M B O L DT

- Denise - disse, prestimoso como sempre.


- Esfola-te e dá a tua pele à Denise para que a pendure na toca .
Bem, Polly, achas que o Charlie se assemelha ao Charlie que tu imagi­
naste ?
É claro que Cantabile se mostrava incapaz de controlar a euforia
que o dominava . Na noite anterior tivera de contar a alguém o que
havia feito . A s s i m como Hum boldt, depois do êxito o btido com
Longstaff, tinha corrido para o Village para se atirar a Ginnie, também
Cantabile se tinha metido no Thunderbird para ir logo passar a noite
com Polly e comemorar o seu triunfo e a minha humilhação. Isto fez­
-me pensar na força tremenda que tem, nos democráticos Estados
Unidos, a ânsia de ser interessante. É por isso que os americanos não
conseguem guardar segredos. D urante a Segunda Guerra Mundial
éramos o desespero dos ingleses porque não conseguíamos ficar de
boca calada . Felizmente os alemães não acreditaram que pudéssemos
ser tão tagarelas. Achavam que estávamos deliberadamente a transmi­
tir informações falsas. E tudo isto se deve à nossa necessidade de de­
monstrar que não somos tão chatos como parecemos, que andamos
pelo mundo com elegância dispondo de informações confidenciais. De
modo que disse de mim para mim: Muito bem, fica eufórico, meu fi­
lho da puta de bigodinho de seda. Alardeia o que me fizeste e ao 2 80-
-SL. Hei de aj ustar contas contigo. Ao mesmo tempo, estava contente
pelo facto de Renata me tirar dali, obrigando-me a ir outra vez ao es­
trangeiro. Renata tinha razão. Porque era óbvio que Cantabile estava
a planear o nosso futuro . Não tinha a certeza de ser capaz de me de­
fender sozinho desse ataque singular.
Polly ponderava como responder à pergunta de Cantabile, e este,
pálido e elegante, perscrutava-me quase com afeto. Com o casaco ra­
glã ainda abotoado e o chapéu na cabeça, as magníficas botas apoia­
das na minha mesinha de café de laca chinesa, Cantabile, sem ter feito
a barba, parecia cansado e satisfeito . Não estava no seu melhor mo­
mento, cheirava mal, voava nas alturas.
- Acho que o senhor Citrine é ainda um homem atraente - disse
Polly.
- Muito obrigado, querida menina.
- Deve ter sido, sim. Delgado mas resistente, com grandes olhos
orientais e provavelmente uma piça grossa. Agora é uma beleza fana­
da - disse Cantabile. - Sei que isso está a dar cabo dele. Está a per­
der a firmeza das linhas dos maxilares. Repara na papada e nas rugas
S A U L B E L LOW

do pescoço. As narinas aumentam de tamanho e parecem estar com


fome, e têm cãs. É também sinal de velhice nos cães beagles e nos ca­
valos, ficam com a zona ao redor do focinho mais esbranquiçada. Oh,
é um animal fora do comum. Um bicho raro. Como o último flamin­
go cor de rosa. Devia ficar sob proteção numa reserva nacional. E é
um sacaninha sensual. Já dormiu com tudo que existe debaixo do sol.
Além disso, tremendamente vaidoso. O Charlie e o compincha George
correm e treinam como um par de j ovens atletas. Fazem o pino, to­
mam vitamina E j ogam racquet-ball. Embora me tenham dito que és
um nabo no court, Charlie.
- É um pouco tarde para ir aos Jogos Olímpicos .
- Leva uma vida sedentária e precisa de fazer exercício - disse
Polly.
Tinha um nariz levemente adunco, assim como aquele cabelo rui­
vo, viçoso e resplandecente . Atraía-me cada vez mais, de uma maneira
desinteressada, apenas devido às suas qualidades humanas.
- O principal motivo de tanto exercício é que tem uma amante
j ovem, e as jovens, a menos que tenham um extraordinário sentido de
humor, não gostam de ser abraçadas por barrigudos.
- Faço exercício porque tenho uma artrite no pescoço - expli­
quei a Polly. - Ou fazia. À medida que envelheço a minha cabeça pa­
rece ficar mais pesada e o meu pescoço mais fraco.
A tensão concentrava-se essencialmente no alto . No cesto da gá­
vea a partir do qual o homem autónomo moderno vigia . Mas é claro
que Cantabile tinha razão. Eu era vaidoso e ainda não tinha chegado
à idade da renúncia. Fosse lá isso o que fosse. Contudo não era exclu­
sivamente vaidade. A falta de exercício punha-me doente. Tinha al­
bergado a esperança de que, à medida que fosse envelhecendo, tivesse
menos energia disponível para as minhas neuroses. Tolstói pensava
que as pessoas tinham problemas porque comiam carne, bebiam vodca
e café e fumavam charutos . Sobrecarregadas de calorias e estimulan­
tes, sem fazer nenhum tra balho útil, entregavam-se aos prazeres da
carne e a outros pecados . Neste ponto, lembrava-me sempre de que
Hitler tinha sido vegetariano, portanto não era necessariamente a
carne que se devia censurar. A energia do espírito, mais provavelmen­
te, ou uma alma corrompida, talvez até o carma - pagando, nesta
vida, a maldade de uma existência anterior. Segundo Steiner, que eu
andava a ler em profundidade, o espírito aprende com a resistência
O L E G A D O DE H u M B O LDT 193

- o corpo material resiste e opõe-se-lhe. Neste processo o corpo des­


gasta-se. Mas a minha deterioração física não me tinha compensado
em nada. Vendo-me com as minhas filhas pequenas, pessoas parvas
perguntavam-me às vezes se eram minhas netas. A mim ! Era incrível !
E apercebia-me de que estava a adquirir o a speto de um troféu de
caça mal embalsamado ou de um espécime em extinção, que eu sem­
pre associava à velhice, e isso horrorizava-me. E também me aperce­
bia, pelas fotografias, de que já não era o homem que tinha sido. Devia
ter podido dizer:
- Sim, talvez de facto pareça prestes a desfazer-me, mas deviam
ver o meu balancete espiritual.
Mas por ora não estava em condições de dizer isso. O meu aspeto
era melhor do que o dos mortos, é claro, mas às vezes é à justa .
- Bem, obrigado pela visita, senhora Palomino - disse. - Mas
terá de me desculpar. Vem uma pessoa buscar-me e ainda não fiz
a barba nem almocei.
- Como é que fazes a barba, com lâmina ou máquina elétrica ?
- Remington.
- A única máquina elétrica boa é a A bercrombie & Fitch . Acho
que também vou fazer a barba. E o que é que temos para o almoço ?
- Vou comer um iogurte. Mas não tenho mais.
- Acabámos de almoçar. Iogurte nat� ral ? Juntas-lhe alguma coi-
sa ? Que tal um ovo cozido ? A Polly pode cozer-te um. Polly, vai para
a cozinha e prepara um ovo para o Charlie. Como disseste que te ias
deslocar até ao centro ?
- Vem uma pessoa buscar-me.
- Não fiques transtornado por causa do Mercedes. Ofereço-te
três 280-SL. És demasiado homem para aceitar que um simples carro
se intrometa entre nós. As coisas vão mudar. Olha, porque não nos
encontramos depois da sessão no tribunal para irmos tomar uma be­
bida ? Vais precisar. Aliás, deves conversar mais. Ouves demais. E isso
não é bom.
Acomodou-se ainda mais visivelmente, apoiando os dois braços
nas costas arredondadas do sofá, como se quisesse mostrar que não
era um homem que eu pudesse escorraçar. Também queria deixar
transparecer a sensação de intimidade luxuriosa de que desfrutava
com a bonita e completamente satisfeita Polly. Mas eu tinha as mi­
nhas dúvidas a esse respeito.
1 94 SAUL BELLOW

- Este tipo de vida é muito mau para ti - disse ele. - Tenho vis­
to tipos que saem da solitária e conheço os sintomas. Porque vives na
zona sul, rodeado pelos bairros de lata ? É porque tens amigos inte­
lectuais no Midway? Falaste-me daquele professor Richard qualquer
COISa . . .
- Durnwald.
- Esse mesmo. Mas também contaste que um tarado te perseguiu
pelo meio da rua . Devias alugar um apartamento na zona norte, num
edifício com segurança e garagem subterrânea . Ou será que moras
aqui por causa das mulheres dos professores? As damas do Hyde Park
não são difíceis de sacar. - Depois acrescentou : - Ao menos tens
uma pistola, não ?
- Não, não tenho.
- Meu Deus, eis outro exemplo do que quero dizer. Todas as
pessoas como tu são demasiado brandas perante a realidade. É como
Fort Dearborn, não entendes ? E só os peles-vermelhas é que têm ar­
mas e machados de guerra . Não leste o caso do motorista de táxi
a quem, na semana passada, destroçaram a cara com um tiro de caça­
deira ? Vão leva um ano a reconstruir-lha com várias operações de ci­
rurgia plástica. Não sentes vontade de te vingar quando ouves uma
coisa destas ? Ou será que já não ligas a coisa nenhuma ? Se é assim,
não sei como podes ter uma vida sexual capaz. Não me digas que não
gostavas de escaqueirar o animal que te atacou, que não gostavas
de parar de correr para te virares e meter-lhe um balázio nos cornos.
Se te der uma pistola, és capaz de anda com ela ? Não ? Os Cristas li­
berais como tu são nojentos . Vai para o centro hoje e vai ser o mesmo
com esse Forrest Tomchek e esse Canibal Pinsker. Vão comer-te vivo.
Mas dizes a ti mesmo que são uns tipos grosseiros, ao passo que tu
tens classe. Queres uma pistola ? - Meteu a rápida mão dentro do
raglã: - Aqui está uma pistola.
Tinha um fraco por tipos como Cantabile. Não era por acaso que
o Barão Von Trenck do meu êxito na Broadway, origem do dinheiro
da adaptação cinematográfica - o odor a sangue que atraiu os tuba­
rões de Chicago que estavam à minha espera no centro da cidade -,
também fora efusivo, exu berante, impulsivo, destruidor e casmurro .
Este tipo de homem, o impulsivo-casmurro, andava agora a deitar-se
com a classe média. Rinaldo estava a censurar a minha decadência.
Os meus instintos danificados. Não pensava defender-me. As ideias
dele provavelmente remontavam a Sorel ( atas de exaltada violência de
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 195

ideólogos dedicados com a intenção de chocar a burguesia e regenerar


os seus nervos agónicos ) . Embora Cantabile não fizesse a menor ideia
de quem era Sarei, essas teorias circulavam e encontravam as pessoas
que as corporizavam - piratas aéreos, sequestradores, terroristas po­
líticos que assassinam reféns e disparam contra multidões, os Arafats
sobre quem lemos nos j ornais e vemos na televisão. Cantabile, à sua
maneira, estava a manifestar essas tendências em Chicago, exaltando
selvaticamente um princípio humano - embora não soubesse qual.
Pela minha parte, também não sabia. Porque é que não me agradava
ter relações com pessoas do meu próprio nível intelectual ? Ficava, em
vez disso, fascinado com os tipos espalhafatosos e convencidos . Da­
vam-me qualquer coisa. Taivez fosse em parte um fenómeno próprio
da sociedade capitalista moderna com a sua prática de conceder liber­
dade pessoal a toda a gente, disposta a compreender e até subsidiar ini­
migos mortais da classe dominante, conforme diz Schumpeter; uma
sociedade que compreendia o sofrimento verdadeiro ou simulado, dis­
posta a aceitar as deformações e fardos dos temperamentos singulares.
É verdade que as pessoas acreditavam que o facto de serem pacientes
com criminosos e psicopatas lhes dava uma certa distinção mora l .
Compreender ! Adoramos ser compreensivos, ter compaixão ! E l á es­
tava eu. E quanto às massas, milhões de pessoas que tinham nascido
na pobreza tinham agora casas e eletrodomésticos, bem como outros
utensílios e comodidades, aguentando a turbulência social esconden­
do-se e aferrando-se aos bens materiais. Tinham os corações cheios de
ira, mas conformavam-se com a desordem e não se organizavam em
bandos nas ruas. Aceitavam todos os a busos, esperando obstinada­
mente que passassem. Nada de assumir riscos. Na aparência, eu parti­
lhava essa condição. Mas não percebia que vantagem teria em andar
aos tiros . Como se conseguisse escapar às minhas perplexidades a tiro
- sendo a principal o meu próprio carácter!
Cantabile investira muita ousadia e engenho na minha pessoa
e agora parecia convencido de que nunca nos separaríamos . Também
queria que lhe desse um empurrão para cima, que o conduzisse a coi­
sas mais elevadas. Tinha atingido o nível alcançado por vaga bundos,
vigaristas, mendigos e criminosos na França, no século xvm, a etapa
do homem criativo intelectual e do teórico. Talvez pensasse ser o so­
brinho de Rameau 1 ou mesmo Jean Genet. Não me parecia que fosse

1 Alusão a Le Neveu de Rameau ( 1 72 6 ) , obra-prima de Diderot. (N. do T.)


S A U L B E L LOW

este o futuro que nos esperava. E não queria tomar parte nisso. Ao
criar Von Trenck, é claro que contribuíra com meu quinhão. No << Últi­
ma Sessão » , ainda era possível ver com frequência Von Trenck a ba­
ter-se em duelo, a fugir da prisão, a seduzir mulheres, a mentir e a di­
zer fanfarronadas, a tentar atear fogo à mansão do cunhado. Sim, eu
dera o meu contributo. Também podia acontecer que fizesse insinua­
ções contínuas sobre o meu renovado interesse em coisas mais eleva­
das, so bre o meu desej o de progredir espiritualmente, de modo que
era perfeitamente legítimo que Cantabile me pedisse para lhe explicar
algumas dessas coisas, que as partilhasse com ele, que pelo menos lhe
desse uma pista. Estava ali, assim me disse, para ser útil. Estava ansio­
so por me aj udar.
- Posso meter-te num bom negócio - disse.
Começou a descrever algumas das empresas dele . Tinha dinheiro
investido nisto e naquilo. Era presidente de uma companhia de voos
freta dos, talvez uma daquelas que tinham deixado em dificuldades
milhares de pessoas na Europa, no verão anterior. Também tinha um
pequeno negócio ilegal que providenciava a prática de abortos e pu­
nha anúncios nos j ornais das faculdades do país inteiro como um
amigo desinteressado. << Telefone-nos se ocorrer esta desgraça. Propor­
cionamos aconselhamento e ajuda gratuitamente. >> E em grande medi­
da era assim, disse Canta bile. Não cobravam nada mas os médicos
pagavam-lhe uma percentagem dos seus honorários. Era um negócio
como outro qualquer.
Polly não parecia incomodada com aquilo. Pensei que era dema­
siado boa para Canta bile. Mas em todos os pares há um elemento
que ganha por contraste. Percebia-se que Polly lhe achava graça, com
a sua tez clara, o seu cabelo ruivo e as suas pernas esplêndidas. Era
por isso que estava com ele. Divertia-a a sério. Pela sua parte, Canta­
bile levava-me a admirá-la. Também se vangloriava da boa educação
da mulher - do que tinha conseguido - e exibia-me a Polly. Tinha
orgulho em todos nós.
- O bserva a boca do Charlie - disse a Polly. - Vais ver que se
mexe mesmo quando não está a falar. É porque está a pensar. Passa
o tempo a pensar. Olha, j á te mostro o que quero dizer. - Agarrou
n u m l i v r o , o m a i o r q u e e s t a v a em c i m a da m e s a . - Pega n e s te
0 L E G A D O DE H U M B O L DT 1 97

monstro : The Hastings Encyclopedia of Religion and Ethics1 Meu • • •

Deus, que raio é isto ! Vá, Charlie, explica-nos o que estavas a ler
aqui ?
- Estava a consultar alguns dados sobre Orígenes de Alexandria.
Na opinião de Orígenes, a Bíblia não podia ser uma simples coletânea
de lendas. Estariam Adão e Eva realmente escondidos debaixo de uma
árvore enquanto Deus passeava pelo Éden na frescura matinal ? Os
anjos subiam e desciam realmente escadas ? Teria Satanás levado Jesus
até ao cume de uma alta montanha para o tentar ? É claro que todas
estas lendas devem ter um sentido mais profundo. Que significa dizer
<< Deus passeava » ? Deus tem pés ? Foi aqui que intervieram os pensa­
dores e . . .
- Basta, isso j á chega. E o que é que diz este livro, The Triumph
of the Therapeutic2 ?
Por razões pessoais, não me importava ser posto à prova daquela
forma. De facto lia muitíssimo. Mas sabia o que estava a ler ? É o que
iríamos ver. Fechei os olhos e recitei:
- Diz que os psicoterapeutas podem converter-se nos novos guias
espirituais da Humanidade. Um desastre. Goethe temia que o mundo
moderno acabasse por se transformar num hospital. Com todos os ci­
dadãos doentes . O mesmo se afirma em Knock3 de Jules Romains. É a
hipocondria uma invenção da profissão médica ? De acordo com este
autor, quando a cultura é incapaz de fazer frente à sensação de vazio
e de pânico à qual todo o homem está predisposto (e ele diz mesmo
<< predisposto >> ) , outros agentes avançam para nos remendar com tera­
pia, com cola ou slogans, ou cuspo, ou como aquele crítico de arte
chamado Gumbein diz: os pobres-diabos são reciclados no sofá. Esta
conceção é ainda mais pessimista do que a do Grande Inquisidor de
D ostoiévski, que disse: a Humanidade é frágil, precisa de pão, não
pode suportar a liberdade mas requer milagres, mistério e autoridade.
Uma predisposição natural para os sentimentos de vazio e pânico
é pior do que isto. Muito pior. O que isto significa é que os seres hu­
manos são loucos. A última instituição que controlou esta insanidade
( segundo este raciocínio) foi a Igrej a . . .

1 Enciclopédia Hastings da Religião e da Ética. (N. do T.)

2 Obra do sociólogo e crítico cultural de formação freudiana Philip Rieff.


(N. do T.}
3 Knock ou Le triomphe de la médicine ( 1 92 3 ) , comédia em três atas. (N. do T.)
SAUL BELLOW

Cantabile interrompeu-me de novo.


- Polly, estás a ver o que te dizia. E este, Between Death and Re­
birth 1 ?
- Steiner ? U m livro fa scinante so bre a j ornada d a alma após
transpor os umbrais da morte. Diferente do mito de Platão . . .
- Ei, aguenta a í - disse Cantabile, e apontou para Polly: - A úni­
ca coisa que precisas de fazer é perguntar, que ele responde. Não te
parece um bom número para um clube noturno ? Podemos metê-lo no
Mister Kelly's.
Polly desviou para mim os seus grandes olhos castanho-averme­
lhados e disse:
- Ele não ia nessa conversa.
- Depende dos murros que lhe aplicarem hoj e lá .no centro. Char-
lie, tive outra ideia quando me dirigia para cá. Podíamos fazer grava­
ções tuas a ler alguns dos teus ensaios e artigos para depois alugar as
fitas às escolas e universidades. Sacavas umas massas com isso. Como
aquele artigo sobre Bob Kennedy que li, na Esquire, em Leavenworth.
E aquela coisa chamada << Homenagem a Harry Houdini >> . Mas não
<< Üs Grandes Chatos do Mundo Moderno » . Não consegui lê-lo até
ao fim.
- Bem, não desaustines, Cantabile - disse eu.
Sabia perfeitamente que na Chicago dos negócios era uma de­
monstração irrefutável de afeto quando alguém queria meter-nos num
plano para ganhar dinheiro . Contudo, no estado de espírito em que
me encontrava não podia controlar Canta bile, nem interpretar nem
adequar o rumo do espírito dele, que se derramava por todos os lados.
Sendo um homem altamente excitável, naquele hospital goethiano era
um cidadão doente. Talvez nem eu estivesse em grande forma. Ocor­
reu-me que, no dia anterior, Cantabile me tinha feito subir às alturas,
não para me tentar, diga-se, mas para lançar pelos ares as minhas no­
tas de cinquenta dólares. Não estaria a enfrentar agora um desafio da
imaginação . . . quer dizer, como conseguiria manter-se à altura daquele
ato ? Contudo, parecia convencido de que os acontecimentos da véspe­
ra nos tinham unido num vínculo quase místico. Havia palavras gregas
para definir isso: philia, agape e assim por diante ( tinha ouvido um

1 Tradução em língua inglesa de parte da série de dez palestras de Rudolf Stei­


ner intitulada em alemão Das Lehen Zwischen dem Tode und der Neuen Gehurt
Im Verhaeltnis Zu Den Kosmischen Tatsachen. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 199

famoso teólogo, Tillich, the Toilerl , expor o s seus diversos significa­


dos, de modo que nunca mais fiquei com ideias claras a esse respeito ) .
O que quero dizer é que a philia, neste momento particular d a evolu­
ção da Humanidade, manifestava-se nas ideias publicitárias e tran­
sações comerciais norte-americanas. A esta noção acrescentei nas
margens o meu próprio bordado . Desenvolvi, de maneira bastante
profusa, os motivos das pessoas.
O l h e i para o relógi o . Renata levaria a i n d a q u a renta minutos
a chegar. Viria cheirosa, maquilhada de fresco e até maj estosa com
um dos seus grandes chapéus moles . Não queria que Cantabile a co­
nhecesse. E, diga-se de passagem, também não me parecia boa ideia
que ela o conhecesse a ele. Quando Renata olhava para um homem
que a interessava tinha uma maneira vagarosa de desviar o olhar. Não
é que isso tivesse grande significado . Era apenas fruto da educação
que recebera. Aprendera todos os seus encantos com a mãe, a Seiio­
ra2. Embora ache que, quando alguém nasce com olhos tão bonitos,
descobre os próprios métodos. No sistema de comunicação feminino
de Renata a piedade e o fervor eram importantes. A questão principal,
contudo, era que Cantabile veria um velho com uma rapariga e pode­
ria tentar, como é costume dizer, tirar partido disso.
Quero deixar bem claro, no entanto, que falo como uma pessoa
que só tardiamente recebeu ou teve experiência da luz. Não quero
dizer << A luz » mas uma espécie de luz-no-ser, um termo que se torna
difícil precisar, nomeadamente numa narrativa como esta, em que
tantos objetos, ações e fenómenos irritantes, erróneos, estúpidos e ilu­
sórios ocupam o primeiro plano. E essa luz, apesar de não ter sido
descrita , era agora um elemento real que fazia parte de mim, como
o próprio sopro da vida. Tinha-a vivenciado apenas fugazmente, mas
tinha permanecido em mim o tempo suficiente para se tornar convin­
cente e produzir um tipo perfeitamente irracional de alegria. Além
disso, o histérico e o grotesco que existiam em mim, para não falar do
abusivo, do inj usto, daquela loucura em que, com frequência, tinha

1 Tillich, o Laborioso, em tradução aproximada, é a alcunha dada a Paul Tillich

( 1 8 8 6 - 1 9 6 5 ) , teólogo germano-americano que, após ter fugido ao nazismo, ensinou


na Universidade de Chicago. (N. do T.)
2 Em castelhano no original. (N. do T.)
200 5AUL BELLOW

participado ativa e voluntariamente, do doloroso ... tudo isso havia en­


contrado agora um contraste. Digo << agora » mas a verdade é que sabia
há muito tempo o que era esta luz. Só que parecia ter-me esquecido de
que nos primeiros dez anos de vida conhecia essa luz e até sabia como
inalá-la. Mas esse talento precoce, ou dom, ou inspiração, abandonado
em função da maturidade ou do realismo (aspetos práticos, autopre­
servação, luta pela sobrevivência ) , regressava com intensidade. Talvez
a natureza vã da vulgar autopreservação tenha acabado por se revelar
demasiado simples para ser denegada. Preservação para quê ?
De momento Cantabile e Polly não estavam a prestar-me grande
atenção. Ele estava a explicar-lhe a conveniência de criar uma peque­
na empresa para proteger os meus rendimentos. Falava de << planea­
mento de bens >> , fazendo uma careta . Em Espanha, as mulheres da
classe operária dão uma pancada com três dedos no rosto e fazem
uma careta para denotar grande ironia. Cantabile esboçava uma care­
ta idêntica. Era uma questão de defender os bens do assédio inimigo:
Denise e o seu advogado, o Canibal Pinsker, e talvez até o próprio j uiz
Urbanovich.
- O s meus informadores dizem-me que o j uiz está do lado da
senhora . Como é que sabemos que não foi subornado ? Há uma data
de belas negociatas nas encruzilhadas. Há outra coisa no condado de
Cook ? Charlie, já pensaste em mudar para as ilhas Caimão ? É a nova
Suíça, sabes ? Eu já não poria o meu dinheiro em bancos suíços . De­
pois de conseguirem o que querem de nós nesta détente, os russos vão
avançar para a Europa. E sabes o que vai acontecer ao dinheiro depo­
sitado na Suíça ? Toda essa massa vietnamita, iraniana, dos coronéis
gregos e do petróleo árabe ? Não, compra um apartamento com ar
condicionado nas Caimão. Arranj a um fornecimento de desodorizante
para os sovacos e sê feliz.
- E onde está a massa para tudo isso ? - perguntou Polly. - Será
que ele a tem ?
- Isso não sei. Mas se não tem dinheiro porque é que está a ser
esfolado lá no centro ? Sem anestesia ? Posso arranj ar-te bons negócios,
Charlie. Alguns contratos para vender e comprar bens com data e pre­
ço prefixados. Tenho tudo preparado.
- Sim, no papel . Se é que esse tipo, o Stronson, é honesto - disse
Polly.
- O que é que estás a insinuar? O Stronson ? É um multimilionário.
Não viste a mansão dele em Kenilworth ? Não reparaste no diploma
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 201

e m Marketing d a Harvard Business School que tinha n a parede ? Além


disso, tem feito negócios com a Mafia e sabes como esses rapazes se
ofendem quando são enganados. Basta a presença deles para o manter
na linha. Mas ainda por cima é completamente legítimo. Está na Mid
America Commodity Exchange. Duplicou os vinte mil que lhe dei há
cinco meses. Vou trazer-te o material promocional da empresa dele.
Sej a como for, o Charlie só tem de levantar a mão para ganhar uma
data de massa. Não te esqueças que já teve um êxito na Broadway
e um filme com grande bilheteira. Por que razão não há de repetir
isso ? Vê estes papéis espalhados por toda parte . Estes manuscritos
e esta treta toda podem vir a valer muito. Queres apostar como há,
provavelmente, uma mina de ouro aqui ? Por exemplo, sei que tu e o
teu amigo Von Humboldt uma vez escreveram um argumento cine­
matográfico.
- Quem te contou isso ?
- A minha mulher investigadora.
Ri com vontade, bastante alto. Um argumento cinematográfico !
- Lembras-te disso ? - perguntou Cantabile.
- Sim, lembro. Como foi que a tua mulher ouviu falar nisso ? Foi
a Kathleen ?
- Senhora Tigler no Nevada. A Lucy está no Nevada a entrevistá-
-la. Já está há uma semana hospedada no rancho da senhora Tigler.
Dirige-o sozinha .
- Porquê, onde está o Tigler ? Abandonou-a ?
- Abandonou-a definitivamente. Morreu.
- Morreu ? Então enviuvou. Pobre Kathleen. Pobre mulher, não
tem sorte. Tenho muita pena dela.
- Ela também gosta muito de ti. A Lucy contou-lhe que eu te co­
nhecia e ela mandou-te lembranças. Tens alguma mensagem para ela ?
A Lucy e eu falamos ao telefone todos os dias.
- Como é que o Tigler morreu ?
- Apanhou um tiro num acidente de caça .
- Não me surpreende. Era um grande desportista . Tinha sido va-
quetro.
- E um chato ?
- É possível.
- Quer dizer que o conheceste pessoa lmente . Não tens muita
pena, pois não ? A única coisa que disseste foi pobre Kathleen. Bom,
e quanto a esse filme que escreveste com Fleisher?
202 S A U L B E L LOW

- Oh, sim, conta-nos - disse Polly. - Era sobre o quê ? Duas ca­
beças como as vossas colaborando . . . Uau !
- Era uma tontice . Sem interesse. Em Princeton divertíamo-nos
assim. Uma palhaçada.
- Ficaste com uma cópia ? Deves ser a última pessoa com compe­
tência para saber o que ele poderá valer comercialmente - disse Can­
tabile.
- Comercialmente ? O tempo das vacas gordas em Hollywood já
acabou. Já não se pagam aqueles honorários fantásticos.
- Deixa a meu cargo esse aspeto da questão - disse Cantabi­
le. - Se tivermos uma coisa com valor real, sei como a hei de promo­
ver: realizador, estrela, financiamento, a engrenagem tod a . Não te
esqueças de que tens um bom historial e o nome de Fleisher ainda não
está esquecido de todo. Vamos publicar a tese da Lucy e isso permiti­
rá recuperá-lo.
- Mas qual era a história ? - perguntou Polly, cheirosa, nariz
curvo, pernas ociosas.
- Tenho de ir fazer a barba . E preciso de almoçar. Tenho de ir ao
tribunal. Estou à espera de um amigo californiano.
- Quem é ? - perguntou Cantabile.
- Chama-se Pierre Thaxter. Somos ambos editores de uma revista
chamada The Ark . Sej a como for, não é ninguém que te possa inte­
ressar.
Contudo, era na verdade do interesse dele, porque era um demó­
nio, um agente da discórdia. A tarefa dele consistia em fazer ruído,
desviar-me do meu caminho, dar-me indicações erradas e afundar-me
em terrenos pantanosos.
- Bom, fala um pouco do filme - disse Cantabile.
- Vou tentar. Só para comprovar que a minha memória é boa.
A história começava com Amundsen, o explorador polar, e Umberto
Nobile. Na época de Mussolini, Nobile era um oficial da força aé­
rea, engenheiro, comandante de dirigível, um homem coraj oso. Nos
anos 20, ele e Amundsen chefiaram uma expedição ao Palo Norte
e foram de avião da Noruega a Seattle. Mas eram rivais e acabaram
por se odiar. Na expedição seguinte, com o apoio de Mussolini, No­
bile foi sozinho. Só que o seu dirigível despenhou-se no Ártico e a tri­
pulação dispersou-se pelos blocos de gelo. Quando Amundsen soube,
gritou: << O meu camarada Umberto Nobile >> , que detestava, não nos
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 20 3

esqueçamos, << caiu ao mar. Tenho de ir resgatá-lo >> . Fretou um aero­


plano francês e encheu-o de equipamentos. O piloto preveniu-o de que
estava demasiado carregado e não levantaria voo . Como Sir Patrick
Spens, lembro-me de ter dito a Humboldt.
- Qual Spens?
- É apenas um poema - disse Polly a Cantabile. - E o Amund-
sen foi o tipo que ganhou à expedição de Scott e chegou em primeiro
lugar ao Palo Sul.
Encantado por ter uma boneca instruída a informá-lo, Cantabile
adotou o ar patrício de quem tem ao seu dispor lacaios e << ratos de bi­
blioteca >> para lhe dar as mais insignificantes informações históricas
de que tenha necessidade.
- O piloto francês preveniu-o, mas Amundsen disse: << Não pre­
tenda ensinar-me como se dirige uma expedição de salvamento. >> De
modo que o avião levantou voo mas despenhou-se no mar. Morreram
todos.
- É esse o filme ? E os tipos que estavam no gelo ?
- Os homens no gelo enviaram mensagens de rádio que foram
captadas pelos russos. Um navio quebra-gelos chamado Krassin foi
buscá -los. Navegou pelo meio dos blocos de gelo e salvou dois ho­
mens, um italiano e um sueco. Houve um terceiro sobrevivente, mas
onde estava ? As explicações dadas pelos homens resgatados inspira­
ram dúvidas e suspeitou-se que o italiano tinha praticado canibalismo.
O médico russo que estava a bordo do Krassin fez-lhe uma lavagem
ao estômago e identificou tecido humano ao microscópio. Bem, foi
um escândalo tremendo . Uma vasilha com o conteúdo do estômago
do tipo foi exibida na Praça Vermelha com um enorme cartaz: << Eis
como os cães fascistas, imperialistas e capitalistas se devoram uns aos
outros. Só o proletariado sabe o que são os valores da moral, da fra­
ternidade e do autossacrifício ! >>
- Que raio de filme poderia ser feito com isso ? - disse Cantabi­
le. - Até agora é uma ideia completamente parva.
- Foi o que te disse.
- Sim, mas agora estás irritado comigo, vê-se na tua cara . Achas
que sou um atrasado mental. Não sou artista e não estou em condi­
ções de dar opinião.
- Isto é só o pano de fundo - disse. - O filme, como Humboldt
e eu o imaginámos, começa numa aldeia siciliana . O canibal, ao qual
2 04 SAU L B E L L O W

Humboldt e eu demos o nome de Signor Caldofreddo, é agora um


velho bondoso que vende gelados, as crianças adoram-no e tem uma
filha única que é uma beleza, um amor. Aqui ninguém se lembra da
expedição Nobile. Mas aparece um j ornalista dinamarquês que vem
entrevistar o velho. Está a escrever um livro sobre o salvamento efe­
tuado pelo Krassin. O velho encontra-se com ele em segredo e diz-lhe:
« Deixe-me em paz. Sou vegetariano há cinquenta anos. Fabrico gela­
dos. Sou um velho. Não me desgrace agora . Arranje outro assunto .
A vida está cheia de situações histéricas. Não tem necessidade da mi­
nha. Senhor, deixa que o teu servo morra em paz. >>
- Quer dizer, então, que a parte do Amundsen e do Nobile gira
à volta disso ? - perguntou Polly.
- Humbo ldt admirava Preston Sturges. Gostava muito de The
Miracle of Morgan 's Creek 1 e também de The Great McGinty2, com
Brian Donlevy e Akim Tamiroff, e a ideia dele era encaixar na história
Mussolini, Estaline, Hitler e até o Papa.
- O Papa ? - perguntou Cantabile.
- O Papa tinha dado ao Nobile uma grande cruz para que a dei-
xasse no Polo Norte. E nós olhávamos para o filme como um vaude­
ville, uma farsa, mas com elementos de Édipo em Colono. Os pecado­
res violentos e grandiosos adquirem propriedades mágicas na velhice
e, q u a n d o chega o momento da morte, têm o poder de a bençoar
e amaldiçoar.
- Se a intenção é ter graça, o melhor é deixar o Papa de fora -
disse Cantabile.
- Encurra lado, o velho Caldofreddo enfurece-se. Tenta matar
o j ornalista. Solta uma rocha de um barranco. Mas é assaltado por
uma brusca mudança de sentimentos, atira-se para cima da pedra
e faz tudo para a deter até que o carro do j ornalista passe na estrada
que fica por baixo. Depois Caldofreddo faz soar a sua corneta de ven­
dedor de gelados na praça da terra , convoca toda a gente e faz uma
confissão pública. A chorar, conta-lhes que é um canibal . . .

1 Papá por acaso ( 1 9 4 4 ) é uma notável e ousada comédia d e Preston Sturges,


com Eddie Bracken e Betty Hutton. (N. do T.)
2 O Tirano da Cidade ( 1 94 0 ) , comédia política de Preston Sturges, com Brian
Donlevy, Muriel Angelus e Akim Tamiroff. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 20 5

- O que atinge a relação amorosa da filha, suponho - disse Polly.


- Muito pelo contrário - retorqui. - O povo efetua uma reu-
nião pública . O j ovem namorado da filha diz: << Pensem naquilo que
os nossos antepassados comiam. Como símios, mamíferos inferiores,
peixes. Pensem no que os animais têm comido desde o princípio dos
tempos. Devemos-lhes a nossa existência . »
- Não, não m e parece que uma história dessas possa dar muito
dinheiro - disse Cantabile.
Disse que tinha chegado a altura de fazer a barba e eles acompa­
nharam-me até à casa de banho.
- Não - repetiu Canta bile. - Não me parece boa. Mas tens
uma cópia ?
Tinha ligado a máquina de barbear elétrica, mas Cantabile tirou­
-ma das mãos. Disse a Polly:
- Nã o te sente s . Vai preparar o ovo cozido para o almoço do
Charlie. Toca a andar, vai para a cozinha . - Depois acrescentou: ­
Vou fazer a barba em primeiro lugar. Não gosto de usar a máquina
quando está quente. A temperatura de quem a usou antes incomoda­
-me. - Começou a passar a máquina brilhante para cima e para bai­
xo, esticando a pele e torcendo a cara . - Ela vai preparar o teu almo­
ço. É bonita, não é? O que é que achas?
- Uma rapariga de cair para o lado. E também dá sinais de inteli­
gência. Vej o, pela mão esquerda, que é casada.
- Sim, com um tipo que faz anúncios para a televisão. Passa a
vida a trabalhar, nunca está em casa . Encontro-me muitas vezes com
a Polly. Todas as manhãs, quando Lucy sai para o trabalho no Mun­
delein, a Polly vai lá ter a casa e fica na cama comigo . Sei que isto te
causa uma má impressão. Mas não me enganas, ficaste todo entu­
siasmado quando a viste, e tens estado a tentar impressioná-la, exi­
bindo-te. Um esforçozinho extra . Uma coisa que não fazes quando
estás entre homens.
- Admito que gosto de brilhar na presença de senhoras.
Levantou o queixo para chegar ao pescoço com a lâmina da má-
quina. O bolbo do seu nariz pálido ficou recortado no escuro.
- Gostavas de ter um arranj inho com a Polly ? - perguntou.
- Eu ? É uma pergunta abstrata ?
- Nada abstrata. Fazes coisas por mim, faço coisas por ti. Ontem
rebentei o teu carro e arrastei-te comigo pela cidade. Mas agora esta­
mos numa situação diferente. Consta que tens uma bonita namorada.
206 S A U L BELLOW

Mas não me interessa saber quem é, o que possa saber. Comparada


com a Polly, não passa de uma aprendiza . A Polly faz as outras pare­
cerem doentes.
- Nesse caso, tenho de te agradecer.
- Isso significa que não queres. Estás a recusar. Toma a máquina,
j á acabei. - Pôs-me a pequena máquina quente nas mãos, com um
gesto brusco. Afastou-se do lavatório e apoiou-se contra a parede da
casa de banho com os braços cruzados e um pé a descansar em cima
do outro. Acrescentou: - Farias melhor em não me repelir.
- Porquê ?
A cara dele, normalmente descolorida, adquiriu uma lividez colé­
rica. Mas respondeu:
- Há coisas que nós os três podemos fazer j untos. Tu deitas-te de
costas. Ela põe-se em cima de ti e, ao mesmo tempo, faz-me um tra­
balhinho a mim.
- Não entremos em pormenores porcos. Aca ba com isso. Nem
sequer consigo visualizar uma coisa dessas.
- Não te ponhas a armar comigo. Não te faças de esperto - ex­
plicou outra vez: - Coloco-me na cabeceira da cama, de pé. Tu estás
deitado. A Polly sente-se em cima de ti e inclina-se para mim.
- Acaba com essas propostas indecorosas. Não quero participar
nos teus circos sexuais.
Lançou-me um olhar assassino, mas isso pouco me importou. Ha­
via uma data de pessoas além dele na fila de sugadores de sangue
e assassinos: Denise e Pinsker, Tomchek e o tribunal, as Finanças.
- Não és nenhum puritano - resmungou Cantabile, mal-humo­
rado . Mas, apercebendo-se do meu estado de espírito, mudou de as­
sunto:
- O teu amigo George Swiebel falou, durante o j ogo de póquer, de
uma mina de berílio na África Oriental. . . que coisa é essa, o berílio ?
- É necessário para as ligas pesadas das naves espaciais. O Geor­
ge diz que tem amigos no Quénia . . .
- Ah, então tem contactos com o s pretinhos d a selva . Aposto que
todos o adoram. É tão natural, tão saudável, tão humano . . . Aposto
que é um piolhoso homem de negócios. Safavas-te muito melhor com
o Stronson e a compra e venda a prazo de matérias-primas. Esse é que
é um tipo realmente esperto. Sei que não acreditas, mas estou a tentar
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 207

aj udar-te. Vão dar cabo de ti no tribunal. Não tens nenhumas pou­


panças escondidas ? Não podes ser assim tão tonto. Não arranj aste
um testa de ferro algures ?
- Nunca me passou pela cabeça .
- Queres fazer-me crer que não tens nada na cabeça a não ser an-
jos a subirem escadarias e espíritos imortais, mas pelo modo como vi­
ves isso não pode ser verdade. Em primeiro lugar, andas sempre im­
pecável. Conheço o teu alfaiate. Depois és um velho devasso . . .
- Falei sobre o espírito imortal naquela noite ?
- Claro que sim, com os diabos ! Disseste que a alma, depois de
atravessar as portas da morte, estou a citar-te, se desprende e volta
a olhar para o mundo. Charlie, esta manhã tive uma ideia a teu res­
peito . . . Fecha a porta . Vamos, fecha-a. Agora ouve, podíamos simular
o rapto de uma das tuas filhas. Pagas o resgate e eu deposito-te o di­
nheiro nas ilhas Caimão.
- Passa-me agora a tua arma - disse-lhe.
Entregou-me e eu apontei-lha.
- Podes ter a certeza de que a usarei se tentares alguma coisa des­
se género.
- Baixa a Magnum. Foi só uma ideia. Não leves tudo tão a peito.
Tirei as balas e lancei-as para o caixote, devolvendo-lhe depois
a pistola. Que ele me fizesse propostas destas era, tinha de o reconhe­
cer, culpa minha. A arbitrariedade pode tornar-se o animal de estima­
ção da racionalidade. Cantabile parecia aperceber-se de que era o meu
arbitrário animal de estimação. Em certo sentido, comportava-se como
tal. Talvez fosse melhor ser um arbitrário animal de estimação do que
um mero tonto. Mas seria eu tão racional ?
- A ideia do rapto é demasiado espalhafatosa - disse ele. -
Bem, que me dizes de chegarmos até ao j u i z ? Afinal de contas, um
juiz de círculo tem de ir às urnas para ser reeleito. Os juízes também
estão metidos na política, como convém que saibas. Há uns tipos na
Organização que os tiram e os põem nas listas de votos. Por trinta ou
quarenta mil, o tipo certo dará um toque ao j uiz Urbanovich.
Soprei para limpar os pelos enfiados na cabeça metálica da má-
quma.
- Também não te agrada esta ideia ?
- Não.
- Talvez os outros j á tenham ido ter com ele. Porque hás de ar-
mar em cavalheiro ? É uma espécie de paralisia. Completamente irreal.
208 S A U L B E L LOW

Acho que onde ficavas bem era numa vitrina do Field Museum. Deves
ter parado de evoluir na infância . Se te dissesse << Faz a liquidação e sai
deste país » , respondias o quê ?
- Dizia-te que não sairia dos Estados Unidos só por causa do di­
nheiro.
- Muito bem. Tu não és nenhum Vesco 1 • Amas o teu país. Pois
então não estás em condições de ter esse dinheiro . Talvez os outros
tenham razão quando to querem tirar. Pessoas como o Presidente fin­
gem que são americanos honestos e limpos saídos do Saturday Eve­
ning Post2• Foram escoteiros, distribuíram j ornais ao amanhecer. Mas
eram falsos . O verdadeiro americano é um tipo esquisito como tu, um
intelectual j udeu da zona oeste de Chicago. Tu é que devias estar na
Casa Branca.
- Sinto-me inclinado a concordar.
- Adorarias estar sob a proteção dos serviços secretos. - Canta-
bile abriu a porta da casa de banho para controlar os movimentos de
Polly. Não estava a ouvir às escondidas. Fechou de novo a porta e dis­
se, com voz quase inaudível: - Podíamos contratar alguém para tratar
da tua mulher. Não quer guerra ? Pois façamos-lhe a vontade. Podia
ser um acidente de carro . Podia morrer na rua. Podia ser empurrada
para debaixo de um comboio, arrastada para um beco e apunhalada.
As ruas estão cheias de malucos que andam por aí a matar mulheres
a torto e a direito, portanto quem iria descobrir ? Ela está a dar cabo de
ti . . . bom, que tal se fosse ela a morrer ? Sei que vais dizer não e achas
que isto é uma piada . . . O Louco Cantabile, um brincalhão.
- Mais valia que estivesses a brincar.
- Só estou a lembrar-te de que estás em Chicago.
- Noventa e oito por cento de pesadelo, sim, e ainda achas que
devia arredondar a percentagem até aos cem ? Só posso admitir que
estej as a gozar comigo. Tenho pena que a Polly não te estej a a ouvir.
Muito bem, agradeço o teu grande interesse pelo meu bem-estar. Mas

1 Referência a Robert Vesco ( Detroit, 1 935-2007), financeiro norte-americano

que passou várias dezenas de anos fora dos EUA por acusações de enganar investi­
dores, praticar fra udes fiscais e outros delitos económicos. Após u m périplo pelas
Baamas e pela Costa Rica, acabou por ser acolhido em Cuba, onde residiu até mor­
rer. (N. do T.)
2 Alusão ao caso Watergate, que envolveu uma rede de espionagem política
montada pela Administração Nixon. Robert Vesco também esteve, ainda que indi­
retamente, implicado neste caso. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 209

não me faças mais sugestões. E que não te passe pela cabeça apresen­
tares-te com um horrível presente de Natal, Cantabile. Tu esforças-te
por transmitir uma impressão de dinamismo. Não me faças mais pro­
postas criminosas, compreendes ? Se volto a ouvir mais algum sussur­
ro desse género, chamo a Brigada de Homicídios.
- Descansa. Não vou mexer um dedo. Limitei-me a apresentar-te
uma ampla gama de opções. Ajuda muito vê-las de uma ponta à ou­
tra . Ilumina as ideias. Sabes que ela vai ficar doida de contentamento
quando tu morreres, meu tratante.
- Isso é coisa que não sei - respondi.
Estava a mentir. Ela própria mo tinha dito. De facto, merecia estar
a ter esta conversa. Tinha-a procurado. Tinha traçado e aberto cami­
nho por entre a Humanidade experimentando desapontamento atrás
de desapontamento . E em que consistia o meu desapontamento ? Ti­
nha, ou j ulgara ter, necessidades e perceções de natureza shakespea­
riana . Mas a verdade é que só atingia essas alturas muito esporadica­
mente. Assim, encontrava-me agora a perscrutar os olhos sonhadores
de um Cantabile. Ah, a minha vida superior! Quando era j ovem acre­
ditava que ser intelectual me garantia uma vida superior. Nisto, Hum­
boldt e eu éramos extraordinariamente parecidos. Ele também teria
amado e respeitado o conhecimento, a razão, o poder analítico de um
homem como Richard D urnwald. Para D urnwald, a única vida au­
daz, apaixonada e viril era a do pensamento. Eu tivera essa opinião,
mas já não pensava assim. Havia decidido ouvir a voz da minha pró­
pria mente falando do meu interior, das minhas próprias profundezas,
e essa voz dizia-me que havia o meu corpo, na realidade, e que havia
também eu. Através do corpo estava ligado à natureza, mas nem todo
o meu ser estava contido nele.
D e v i d o a este género d e raciocínio enco ntra v a - m e agora s o b
o olhar fixo d e Cantabile, que m e examinava . Tinha u m a r carinhoso,
preocupado, ameaçador, punitivo e até letal.
- Havia, alguns anos atrás, um miúdo nas histórias aos quadradi­
nhos chamado Desperate Ambrose - disse-lhe. - Não é do teu tem­
po. Não queiras armar em Desperate Ambrose comigo. Deixa-me sair
daqui.
- Um momento. E quanto à tese da Lucy ?
- Amaldiçoada seja.
- Regressa do Nevada dentro de poucos dias.
210 S A U L B E L LOW

Não respondi. Dentro de poucos dias estaria a salvo no estrangei­


ro . . . longe deste lunático, embora, muito provavelmente, no meio de
outros.
- Só mais uma coisa - disse ele. - Podes meter-te com a Polly,
mas só por meu intermédio. Apenas. Não tentes por conta própria.
- Podes ficar tranquilo - respondi.
Permaneceu na casa de banho. Suponho que estava a recolher as
balas do caixote.
Polly tinha o iogurte e o ovo prontos.
- Vou dar-te um conselho - disse ela. - Não te metas no mer-
cado de matérias-primas. Ele até a camisa está a perder.
- E ele sabe ?
- O que é que te parece ? - respondeu.
- Então se calhar está à procura de novos investidores para fazer
um negócio que lhe permita recuperar uma parte das perdas ?
- Isso não sei. Está para lá da minha compreensão . É uma pessoa
muito complicada . Que linda medalha é essa que tens na parede ?
- É a minha condecoração francesa, emoldurada pela minha na­
morada. É decoradora de interiores. Na verdade, a medalha é uma es­
pécie de imitação. As condecorações importantes são vermelhas e não
verde s . Deram-me o mesmo tipo de medalha que é concedido aos
criadores de porcos e às pessoas que aperfeiçoam os contentores do
lixo. Um francês disse-me no ano passado que a minha fita verde deve
ser a categoria mais baixa da Legião de Honra . Na realidade, ele nun­
ca havia visto uma faixa verde anteriormente . Achava que podia ser
do Mérite Agricole.
- Não parece que tenho sido muito amável da parte dele dizer-te
isso - comentou Polly.

Renata foi pontual, e deixou o motor do velho Pontiac amarelo ao


ralenti, pronto para arrancar. Apertei a mão de Polly e disse a Can­
tabile:
- Até à próxima.
Não os apresentei a Renata . Tentaram vê-la, mas entrei no carro,
bati a porta e disse:
- Arranca !
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 2I I

Arrancou. A copa do enorme chapéu de Renata roçava no teto do


carro. Era de feltro cor de ametista e à moda do século xvm , como se
pode ver nos quadros de Frans Hals. O cabelo comprido tombava-lhe
sobre as costas. Preferia que o usasse numa banana deixando à mos­
tra o contorno do pescoço.
- Quem eram os teus amigos e para quê tanta pressa ?
- Era Cantabile, o que rebentou o meu carro.
- Esse ? Gostava de o conhecer. Aquela era a mulher dele ?
- Não, a mulher está fora da cidade.
- Vi-vos na entrada do prédio . A mulher é uma bra s a . E ele é
bem-parecido .
- Estavam doidos para te conhecer . . . Tentaram ver-te bem pela
janela .
- Por que razão ficaste tão perturbado ?
- Acabou de se me oferecer para afastar de vez Denise da minha
vida .
Renata, a rir, exclamou:
- 0 quê ?
- Um assassino a soldo, um especialista, aquilo que eles chamam
<< contrato » .
- Devia estar a gozar contigo.
- Também acho. Por outro lado, o meu 2 8 0-SL continua na ofi-
cma.
- Não é que Denise não merecesse - disse Renata .
- É uma praga irritante, é verdade, e sempre me divertiu ler que
o velho Karamazov veio para a rua quando soube que a mulher tinha
morrido, gritando : << A ca bra morreu ! » Mas Denise - disse Citrine,
o conferencista - é uma personalidade cómica e não trágica. Aliás,
não haveria de morrer só para me dar prazer. Mais importantes são
as miúdas, que precisam da mãe. De qualquer modo, é uma idiotice
ouvir as pessoas dizerem matar, esfolar, assassinar, morrer. .. não fa­
zem a menor ideia do que estão a falar. Não há uma única pessoa em
cada dez mil que compreenda o que há de mais básico na morte.
- O que é que te parece que vai acontecer hoje na reunião ?
- Ora, é sempre a mesma coisa . Vão atirar-se todos a mim como
mafiosos, como costumávamos dizer no liceu. Representarei a digni­
dade humana e eles far-me-ão pagar por isso.
212 SAUL BELLOW

- E estás obrigado a representar o papel da dignidade ? Aferras-te


a isso e eles divertem-se todos à grande. Se conseguisses encontrar ma­
neira de dar cabo deles, seria bestial. . . Olha, ali está a minha cliente,
na esquina . Não parece um segurança de uma boite? Não é preciso
que tomes parte na conversa, bem basta que me massacre e me cha­
teie a mim. Desliga e dedica-te a meditar. Se não escolher hoj e o teci­
do, corto-lhe o pescoço.
Imensa e perfumada, em seda preta e branca , com um padrão às
bolinhas a cobrir-lhe o busto ( que pude vislumbrar e vislumbrei) , Fan­
nie Sunderland entrou no carro. Passei para o lugar de trás, dizendo­
-lhe que tivesse cuidado com o buraco no chão do carro, tapado com
um bocado de lata . As amostras pesadíssimas com que andava o ex­
-marido de Renata, caixeiro-viajante, tinham dado cabo do metal do
Pontiac.
- Infelizmente - disse Renata -, o nosso Mercedes está para re­
paração na oficina.
Os pré-requisitos para cumprir a disciplina mental (da qual j á sentia
os efeitos positivos ) que andava agora a praticar, eram a estabilidade,
o equilíbrio e a tranquilidade. Pensei: « Tranquilidade, tranquilidade >> .
Como dizia no campo de racquet-ball, repeti mentalmente: << Dança,
dança, dança ! >> E a coisa resultava sempre. A vontade é um elo que liga
a alma ao mundo concreto. Por meio da vontade, a alma liberta-se da
distração e dos meros sonhos. Mas quando Renata me disse para des­
ligar e meditar, fê-lo com um toque de malícia . Estava a meter-se co­
migo por causa de Doris, a filha do Dr. Scheldt, o antroposofista que
me tinha dado aulas. Renata tinha imensos ciúmes de Doris.
- Essa cabrazinha ! - gritava. - Sei que andava doida por ir pa­
ra a cama contigo.
Mas isto era por culpa da própria Renata, ou sej a, resultado das
suas próprias ações . Ela e a mãe, a Sefíora, tinham decidido que eu
precisava de uma lição. Bateram-me com a porta na cara . Uma noite,
convidado por Renata, fui j antar ao apartamento dela e não me dei­
xaram entrar. Estava alguém com ela. Durante vários meses senti-me
demasiado deprimido para estar sozinho. Instalei-me no apartamento
de George Swiebel e passei a dormir no sofá. De noite, despertava e
soerguia-me de repente com um grito convulsivo, acordando às vezes
George, que vinha ter comigo e acendia a luz, com o pijama amarro­
tado que deixava destapadas as pernas musculosas. Fez uma vez esta
declaração ponderada:
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 213

- Um cinquentão que se deixa ir abaixo e é capaz de chorar por


uma rapariga merece o meu respeito.
- Oh, raios me parta m ! Estás a falar de quê ? Sou um imbecil.
É uma vergonha continuar assim.
Renata tinha-se j untado a um homem chamado Flonzaley . . .
Mas estou a avançar depressa demais. Estava sentado atrás daque­
las duas senhoras perfumadas e tagarelas. Virámos para a Rua Qua­
renta e Sete, fronteira entre a Kenwood dos ricos e a Oakwood dos
pobres, passando pela taberna fechada que perdera a licença por cau­
sa de um tipo que tinha levado vinte punhaladas devido a uma disputa
por oito dólares. Era a esta gente que Cantabile se referia quando fa­
lava de << tarados >> . Onde estava a vítima ? Enterrada. Quem era ? Nin­
guém sabia. E agora outras pessoas olhavam com ar distraído quando
passavam de carro por lá, pensando ainda num << Eu >> , e no passado
e no devir desse << Eu >> . Se nisso houvesse apenas um egoísmo alegre,
alguma ilusão de que o destino estava a ser ludibriado, a anulação da
realidade do túmulo, talvez nem valesse a pena. Todavia, isso ainda se
1a ver.
George Swiebel, aquele cultor da vitalidade, pensava que seria ma­
ravilhoso que um homem entrado em anos mantivesse uma vida eró­
tica e sentimental ativa e fluente . Não estava de acordo. Mas quando
Renata me telefonou, a chorar, e confessou que nunca estivera interes­
sada no tal Flonzaley, que me queria de volta, disse << Oh, obrigado,
meu Deus, obrigado ! >> e voltei a correr para ela. Foi este o fim da Me­
nina Doris Scheldt, a quem estivera muito ligado. Porém, estar ligado
não bastava. Eu era um homem perturbado por ninfas, uma pessoa
de anseios veementes. Talvez estes anseios não fossem especificamente
por ninfas. Mas fosse como fosse uma mulher como Renata desperta­
va-os . Havia mulheres que a criticavam. Algumas diziam que ela era
grosseira . Talvez fosse, mas também era magnífica. E não se deve es­
quecer o estranho ângulo ou a estranha inclinação que os raios do
amor devem ter para penetrar num coração como o meu. Do j ogo de
pôquer em casa de George Swiebel, onde bebi e falei tanto, trouxe
uma ideia útil: um pé fora do vulgar requer um sapato fora do vulgar.
Se, além de fora do vulgar, se é meticuloso, bem, é mesmo preciso ter
as coisas feitas por medida. E ainda há pés vulgares? Quero com isto
dizer que se pôs tanta ênfase no erótico que todas as excentricidades da
alma acabaram por recair no pé. Os efeitos produzem tais distorções,
214 SAU L B E L LOW

a carne adota formas tão floreadas que já nada se aj usta. Essa defor­
midade suplantou o amor e o amor é uma força que não nos pode
deixar em paz. Não pode porque devemos a nossa existência a atos de
amor realizados antes de nós, porque o amor é uma dívida permanen­
te da alma. Esta é a situação tal como a via. A interpretação dada por
Renata , que tinha qualquer coisa de astróloga, era que o meu signo
devia ser responsabilizado pelos meus problemas. Ela nunca havia
conhecido um nativo de Gémeos tão dividido, retorcido e ferido, tão
incapaz de encontrar o equilíbrio.
- Não te rias quando falo das estrelas. Sei que para ti não passo
de uma provinciana bonita mas ingénua, uma tolinha . O que tu gos­
tavas é que eu fosse a miúda do Kama Sutra dos teus sonhos.
Mas não me tinha estado a rir dela. Só sorri porque ainda não ti­
nha lido uma explicação da personalidade dos nativos de Gémeos nos
livros de astrologia de Renata que não fosse perfeitamente correta .
Um livro, em particular, tinha-me impressionado: definia os nativos
de Gémeos como um moinho mental de sentimentos, em que a alma
é estraçalhada e triturada. Quanto a ser a minha miúda do Kama Su­
tra, na verdade era uma mulher encantadora, ainda o digo, mas de
maneira nenhuma se sentia confortável em matéria de sexo . Havia
ocasiões em que ficava triste e silenciosa, e falava das suas << aflições >> .
Partíamos para a Europa na sexta-feira, a nossa segunda viagem neste
ano. Havia sérias razões pessoais para estas fugas até à Europa. E se
fosse incapaz de oferecer compreensão madura a uma mulher j ovem,
o que teria eu para lhe oferecer ? O certo é que acabei por me interes­
sar sinceramente pelos problemas dela e creio que a compreendia ple­
namente.
Contudo, era forçado, por mero realismo, a ver as coisas como os
outros as viam: um velho devasso inquieto levava uma flausina inte­
resseira à Europa para passar um bom bocado. Como se isto fosse
pouco, para completar a imagem clássica, havia a velha mãe ardilosa,
a Seõora, que ensinava espanhol comercial numa escola de secretaria­
do na Rua State. A Seõora era uma pessoa de certo encanto, uma des­
s a s mulheres que prosperam no Midwest p o r serem estrangeiras
e amalucadas. A beleza de Renata não tinha sido herdada dela. E de
um ponto de vista biológico ou evolutivo, Renata era perfeita . Como
um leopardo ou um cavalo de corridas, era o << nobre animal >> (consul­
te-se Santayana, The Sense of Beauty ) . O misterioso pai ( e as nossas
idas à Europa tinham como finalidade descobrir quem era ) deve ter
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 21 5

sido um daqueles fortalhaços dos velhos tempos que dobravam barras


de ferro, puxavam locomotivas com os dentes ou aguentavam às cos­
tas vinte pessoas em cima de um estrado, uma grande figura de ho­
mem, um modelo de Rodin. Creio que a Seiíora era, na verdade, hún­
gara . Quando contava histórias de família, não me custava imaginar
que as transpunha dos Balcãs para Espanha . Estava convencido de
que a compreendia e, para esse convencimento, tinha um estranho
motivo : era o facto de que sabia como funcionava a máquina de cos­
tura Singer da minha mãe. Aos dez anos tinha-a desmontado e voltado
a montar. Pressionava-se o pedal de ferro forj ado. Este fazia mover a
suave roldana e a agulha subia e descia . Levantava-se uma pequena
placa de aço e descobria-se as pequenas e intricadas peças que solta­
vam um cheiro a óleo lubrificante. A Seiíora era, para mim, uma pes­
soa com peças intricadas que rescendia levemente a óleo. Era, no con­
j unto, uma comparação positiva . Mas faltavam-lhe alguns elementos
na cabeça . A agulha subia e descia, havia fio na bobina, mas a costura
não se consumava .
A principal reivindicação de sanidade mental da Seiíora fundava­
-se na maternidade. Tinha muitos planos para Renata. Eram extrava­
gantes na versão mais ambiciosa, mas os mais à mão de semear eram
bastante práticos. Havia investido consideravelmente na educação
de Renata. Deve ter gasto uma fortuna em ortodontia. Os resultados
tinham sido os mais compensadores possíveis: era um privilégio ver
Renata abrir a boca e, quando se divertia à minha custa e se ria des­
lumbrantemente, ficava siderado de admiração. A única coisa que
a minha mãe conseguia fazer pelos meus dentes nos velhos tempos de
ignorância era envolver numa flanela uma tampa do fogão de carvão
ou pôr trigo-sarraceno quente e seco numa bolsa de tabaco Buli Dur­
ham para me encostar à cara quando tinha dor de dentes. Daí o meu
respeito por aqueles dentes lindos. Além disso, para uma rapariga ro­
busta, Renata possuía uma voz fina. Quando ria, ventilava todo o seu
ser - até ao útero, suponho. Usava o cabelo preso no alto da cabeça
com fitas de seda, mostrando o contorno de um magnífico e gracioso
pescoço feminino, e caminhava - e como caminhava ! Não admirava
que a mãe não quisesse que ela perdesse tempo comigo, com a minha
papada e a minha condecoração francesa. Mas uma vez que Renata
tinha um fraquinho por mim, porque não montar casa ? A Seiíora
estava a favor. Renata aproximava-se dos trinta, estava divorciada, ti­
nha um filho encantador chamado Roger, de quem eu gostava muito.
216 SAU L BELLOW

A velha (como, quem diria, Cantabile ) insistia comigo para que com­
prasse um apartamento num condomínio nas proximidades da zona
norte. Não se incluía nestas propostas.
- Preciso de privacidade. Tenho os meus affaires de coeur1 • Mas
- dizia a Seõora - Roger devia viver num lar onde haj a uma figura
masculina.
Renata e a Seõora colecionavam notícias sobre os casamentos en­
tre novos e velhos. Mandavam-me recortes sobre maridos velhos e en­
trevistas com as noivas. Num único ano perderam Steichen, Picasso
e Casais. Mas ainda tinham Chaplin, o senador Thurmond e o juiz
Douglas. Das colunas sobre sexo do News, a Seõora até os comentá­
rios científicos sobre a vida sexual dos velhos recortava. E até George
Swiebel disse:
- Talvez sej a bom para ti . A Renata quer assentar. Já andou por
muito lado e viu muita coisa . Está satisfeita . Está preparada.
- Bem, é verdade que não é uma daquelas pequenas noli me tan­
gerines - disse eu.
- É uma boa cozinheira . É viva . Tem plantas e tralha e as luzes
estão acesas e a cozinha está a fumegar e ouve-se música gentia. Der­
rete-se por ti ? Fica húmida quando lhe tocas ? Mantém-te afastado
dessas ressequidas tipas intelectuais. Tenho de ser muito direto conti­
go, caso contrário, encolhes-te . Serás novamente enganado por uma
mulher que afirme partilhar as tuas preocupações intelectuais ou com­
preender as tuas mais altas aspirações. Esse tipo de mulher já encur­
tou a tua vida . Outra dose matar-te-á ! Em todo caso, sei que te queres
juntar com a Renata .
É claro que sim! É-me muito difícil não a elogiar. Guiava o Pon­
tiac com o chapéu e casaco de peles, uma perna esticada coberta por
collants com la ntej oulas que tinha comprado numa loj a de artigos
para teatro. Os eflúvios que emanavam do corpo dela afetavam inclu­
sivamente as peles dos animais que tinham servido para confecionar
o casaco que vestia. Não só lhe cobriam o corpo, mas também lá con­
tinuavam, vivos, a tentar qualquer coisa . Havia aí uma certa seme­
lhança comigo. Eu também estava a tentar alguma coisa. Sim, ansiava
fazer a coisa com Renata. Ela aj udava-me a consumar o meu ciclo ter­
reno. Tinha os seus momentos de irracionalidade, mas também era

1 Em francês no original: « Namoros. >> (N. do T.)


Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 217

generosa. É verdade que, como artista carnal, tinha tanto de desalen­


tadora como de excitante, porque, pensando nela como material de
casamento, interrogava-me onde teria ela aprendido tudo isso e se ti­
nha definitivamente feito o doutoramento . Aliás, o nosso relaciona­
mento inspirava-me ideias vulgares e indignas. Um oftalmologista ti­
nha-me dito no Downtown Club que uma simples incisão poderia
eliminar as bolsas debaixo dos olhos.
- Trata-se de uma hérnia de um desses músculos mais minúscu­
los - disse o Dr. Klosterman, descrevendo a operação de cirurgia plás­
tica e mostrando como a pele devia ser cortada e franzida para baixo.
Acrescentou que eu tinha bastante cabelo na nuca que podia ser
transplantado para cima . O senador Proxmire já havia feito isso e du­
rante algum tempo fora obrigado a usar um turbante na bancada do
Senado. Tinha requerido uma dedução, que o Fisco não concedera ,
mas podia tentar-se outra vez. Considerei estas sugestões mas imedia­
tamente me apercebi de que devia pôr fim àquela loucura ! Devia con­
centrar a minha atenção nas grandes e terríveis questões que me ha­
viam perseguido durante décadas. Além disso, embora fosse possível
fazer alguma coisa à fachada de uma pessoa, o que é que poderia ser
feito às traseiras? Mesmo que me arranj assem os olhos empapuçados
e o cabelo, não havia ainda o problema da nuca ? Estava a experimen­
tar um sobretudo aos quadrados no Sack's não há muito tempo e, ao
ver-me no espelho triplo, notei que estava cheio de rugas, que havia
rugas no espaço entre as minhas orelhas.
Mesmo assim comprei o sobretudo, instado por Renata, trazia-o
hoj e vestido. Quando saí do carro à frente do edifício do condado,
a gigantesca Sra. Sunderland disse:
- Ena, que sobretudo mais espalhafatoso !

Renata e eu tínhamo-nos conhecido neste arranha-céus, o novo


edifício público do condado, enquanto cumpríamos a função de mem­
bros de j úri.
Havia, contudo, uma ligação anterior e indireta entre nós. O pai
de George Swiebel, o velho Myron, conhecia Gaylord Koffritz, ex-ma­
rido de Renata . Tinham-se encontrado em circunstâncias pouco co­
muns nos Banhos Russos da Rua Division. George contara-me.
218 S A U L B E L LOW

O pai de George era uma pessoa simples e modesta. A única coisa


que desej ava era viver para sempre. George herdou dele o seu vitalis­
mo. Recebeu-o de Myron, que o possuía numa versão mais primitiva .
Myron sustentava que a sua longevidade se devia ao calor e ao vapor,
ao pão preto, à cebola crua, ao bourbon, ao uísque, ao arenque, à lin­
guiça, às cartas, ao bilhar, às corridas de cavalos e às mulheres.
Ora, na sala de vapor, com bancadas de madeira, pedras ciciantes
e baldes de água gelada, a distorção visual era considerável. Se se visse
pelas costas uma figura esguia de nádegas pequenas poder-se-ia pensar
que se tratava de uma criança, mas ali não havia crianças, e, ao vê-la
de frente, descobria-se um velho encolhido e rosado. O Pai Swiebel,
de barba feita e visto por detrás como um miúdo, encontrou-se com
um homem barbudo no meio do vapor, e, por causa da barba relu­
zente, julgou que ele era muito mais velho . No entanto, o homem an­
dava pelos trinta e poucos anos e era de forte compleição. Sentaram­
-se juntos nos cavaletes de madeira, dois corpos cobertos de gotas de
humidade, e o Pai Swiebel disse:
- O que é que fazes na vida ?
O homem de barba estava pouco disposto a dizer o que fa zi a .
O Pai Swiebel insistiu com ele para que falasse. Foi u m erro . Era, na
gíria demencial das pessoas cultas, contra o << ethos » do lugar. Ali,
como no Downtown Club, não se falava de negócios. George gostava
de dizer que os banhos de vapor eram o último refúgio na floresta em
chamas, onde os animais hostis observavam uma trégua e a lei das
presas e das garras estava suspens a . Temo que tenha retirado esta
comparação de Walt Disney. O aspeto que fazia questão em recordar­
-me é o de que não estava certo que alguém se ocupasse de negócios
ou fizesse ofertas comerciais enquanto se tomavam banhos de vapor.
O Pai Swiebel foi responsável pela situação e assim o reconheceu.
- O tipo das barbas não queria conversar. Puxei por ele. Por isso,
tive o que merecia.
Num lugar em que os homens estão tão nus como os trogloditas
das cavernas do Adriático da Idade da Pedra e se sentam j untos,
a pingar e enrubescidos, como o pôr do sol através da névoa, e, como
no caso vertente, um tem uma barba cerrada, castanha e cintilante,
e os olhares se cruzam no meio de ondas de suor e vapor, é muito
possível que se fale de coisas estranhas. Acontecia que o desconhecido
era um caixeiro-viaj ante que vendia criptas, campas e mausoléus.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 219

Quando o Pai Swiebel ouviu tal coisa, tentou recuar. Mas já era dema­
siado tarde. Com as sobrancelhas franzidas, os dentes brancos e lábios
expressivos rodeados pela densa barba, o homem disse:
- Já tratou do seu último repouso ? Tem uma parcela de família ?
Já tomou as providências necessárias ? Não ? E porque não ? Pode dar­
-se ao luxo de tanta negligência ? Sabe como o vão enterrar ? Impres­
sionante ! Já alguém lhe falou das condições dos novos cemitérios ?
Pois não passam de bairros de lata . A morte merece dignidade. A ex­
ploração é tremenda . É uma das maiores fraudes imobiliárias que
existem. Enganam toda a gente . Nunca dão as medidas estipuladas
por lei. Vai j azer encolhido para todo o sempre. A falta de respeito
é atroz. Mas j á sabe como é a política . . . e as negociatas. Grandes e pe­
quenos, andam todos a sacar. Um dia destes haverá uma investigação
j udicial e rebentará o escândalo. Muita gente irá parar à cadeia . Po­
rém, será demasiado tarde para os mortos. Ninguém vai abrir túmu­
los para enterrar outra vez os mortos. De modo que continuará a ja­
zer na sua tumba tapado com uma diminuta mortalha. Com os pés de
fora. Como os miúdos nos acampamentos de verão. E lá vai ficar,
com centenas de milhares de corpos, numa morada definitiva aplana­
da, de j oelhos levanta dos. Será que não tem direito a j azer com as
pernas esticadas ? E nesses cemitérios nem sequer uma lápide é permi­
tida . Terá de se contentar com uma placa de latão com o nome e as
datas. Depois vêm as máquinas que aparam a relva . Costumam usar
aquelas que têm lâminas múltiplas. É como estar enterrado num cam­
po de golfe público. As lâminas riscam as letras de latão, que depressa
ficam apagadas. E então deixará de poder ser localizado. Os seus fi­
lhos não conseguem encontrar o sítio. Está perdido para sempre . . .
- Pare ! - gritou Myron, mas o homem continuou:
- Num mausoléu é muito diferente . Não custa tanto como se
pensa . Estes novos modelos são pré-fa bricados, mas são cópias dos
melhores, a começar pelos túmulos etruscos, passando por Bernini
e acabando na art nouveau de Louis Sullivan . As pessoas agora an­
dam loucas com a art nouveau. Pagam fortunas por um candeeiro
Tiffany ou por um lustre. Comparativamente, um túmulo art nouveau
pré-fabricado sai barato. E assim uma pessoa distingue-se da multidão.
Está no que é seu. Ninguém quer ficar encerrado para toda a eternida­
de no meio de um engarrafamento de trânsito numa autoestrada ou
numa enchente do metropolitano.
220 S A U L BELLOW

O Pai Swiebel disse que Koffritz lhe pareceu um homem muito


sincero e que, no meio do vapor, era apenas uma cara barbuda simpá­
tica, respeitosa e preocupada: um perito, um especialista, uma pessoa
razoável e sensata . Porém, as insinuações eram devastadoras. A ima­
gem também me afetou a mim: a morte a bulir sob caminhos despidos
de árvores, o latão reluzente das placas de nomes sem nomes. Aquele
Koffritz, com sua dia bólica poesia de vendedor, conseguira apertar
o coração do Pai Swiebel. E também o meu. Porque quando me con­
taram a história, a morte causava-me uma angústia intensa. Nem se­
quer assistia a funerais. Não conseguia suportar a visão de um ataúde
fechado e a ideia de ser enfiado numa caixa cuj a tampa estava apara­
fusada deixava-me histérico. Esta angústia agravou-se quando li uma
reportagem sobre uns miúdos de Chicago que haviam encontrado um
monte de esquifes vazios perto do forno crematório de um cemitério.
Levaram-nos para um lago e usaram-nos como barcos. Estavam a ler
lvanhoe na escola e por isso, servindo-se de paus, terçaram armas,
como se fossem cavaleiro s . Um dos rapazes virou o ataúde e ficou
preso no forro de seda . Os outros foram em socorro dele e salvaram­
-no. Mas ficou-me no pensamento a imagem de uma fileira de esqui­
fes forrados de grosso tafetá cor de rosa e de cetim verde-claro, todos
escancarados como as fauces de um crocodilo. Via-me deitado a sufo­
car e apodrecer sob o peso de argila e de pedras - não, sob o peso de
areia: Chicago está edificada sobre praias e pântanos da Idade do Ge­
lo ( Pleistoceno Superior ) . Para me tranquilizar, tentei transformar
a angústia num tema intelectual sério . Creio que me desembaracei
razoavelmente bem: cheguei à conclusão de que o problema da morte
é o problema burguês por excelênc i a , estando relacionado com a
prosperidade material e a conceção da vida como uma coisa confortá­
vel e aprazível; e também refleti sobre aquilo que Max Weber escre­
veu a respeito da conceção moderna da vida como uma série sucessiva
e infinita de segmentos, todos lucrativos, vantajosos e << agradáveis >> ,
incapaz de proporcionar a sensação de ciclo vital, de maneira que não
se possa morrer << cheio de anos >> . Contudo, estes instruídos exercícios
intelectuais não me livraram da obsessão da morte . De modo que só
pude concluir que era muito burguês ficar neurótico com a possibili­
dade de sufocar na tumba. E estava furioso com Edgar Allan Poe por
ter escrito com tanta precisão a esse respeito. As suas histórias de cata­
lepsia e enterramento em vida envenenaram a minha infância, e ainda
me angustiavam. Nem sequer suportava tapar a cara com o lençol ou ter
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 221

o s pés aconchegados durante a noite. Passei muito tempo a imaginar


como estar morto. Ser sepultado no mar poderia ser a resposta.
As amostras que tinham esburacado o Pontiac de Renata eram,
portanto, maquetas de criptas e túmulos. Quando a conheci, não só
havia estado a cismar na morte (valeria a pena ter um tabique de ma­
deira no túmulo, uma espécie de piso superior do ataúde para evitar
o peso asfixiante direto ? ) , mas também tinha desenvolvido uma nova
extravagância. Nas idas à Rua La Salle para tratar dos meus assuntos,
subindo e descendo em velozes elevadores, sempre que sentia uma tra­
vagem e a porta estava prestes a abrir-se, o meu coração falava. Por
vontade própria. Exclamava : << Ü meu Destino ! >> Era como se estivesse
à espera de que houvesse uma mulher de outro lado. << Por fim ! Tu ! >>
Ao tornar-me consciente deste fenómeno humilhante e ansioso do ele­
vador, tentei fazer o que devia e sair daquela situação com uma certa
dose de maturidade. Cheguei a tentar ser científico. Todavia, a ciên­
cia, quando acontecem coisas destas, só serve para afirmar uma vez
mais que deve haver uma necessidade natural para que ocorram. Mas
esta sensatez não levava a lado nenhum. Que poderia j ustificar a sen­
satez, se, como acreditava, tinha esperado muitos milhares de anos
para que Deus enviasse a minha alma para esta Terra ? Aqui, neste
mundo, supunha-se que devia captar uma palavra mais clara e verda­
deira antes de regressar ao outro, quando findassem os meus dias hu­
manos. Temia regressar de mãos vazias. Ser sensato não servia abso­
lutamente de nada para mitigar o medo de perder o barco. Qualquer
pessoa é capaz de entender isso.
Chamado a exercer as funções de j urado, resmunguei inicialmente
pensando que era uma perda de tempo. Mas depois tornei-me um ju­
rado feliz e cumpridor. Sair de casa todas as manhãs como os outros
era uma bênção. Com um distintivo de aço numerado, sentava-me
alegremente com centenas de outras pessoas na sala do j úri, nos anda­
res mais altos do novo arranha-céus do condado, um cidadão no
meio de outros cidadãos. As paredes de vidro e as vigas de aço de cor
de ameixa e avermelhadas eram muito elegantes - o céu imenso,
o espaço regulado, os distantes cilindros dos tanques de armazena­
gem, as casas dos bairros de lata de cor alaranj ada - frágeis, longín­
quas, imundas -, o verde do rio cingido por pontes negras. Enquanto
contemplava a paisagem da sala dos j urados comecei a ter Ideias. Le­
vei livros e papéis para o centro ( para que não fosse uma completa
222 5 A U L B E L LOW

perda de temp o ) . Pela primeira vez li com atenção as cartas que


o meu colega Pierre Thaxter me tinha estado a enviar da Califórnia.
Não sou um leitor muito cuidadoso de cartas, e as cartas de Thax­
ter eram muito compridas. Escrevia-as e ditava-as no seu laranj al per­
to de Palo Alto, onde se sentava a meditar numa cadeira de lona. Usa­
va um capote preto de carabineiro, andava descalço, bebia Pepsi- Co­
la , tinha oito ou dez fi lhos, devia dinheiro a toda gente e era um
estadista cultura l . As mulheres que o adoravam tratavam-no como
um génio, acreditavam em tudo que lhes dizia, dactilografavam-lhe os
manuscritos, pariam os filhos dele, levavam-lhe Pepsi-Cola. Ao ler os
seus volumosos memorandos que tinham como assunto o primeiro
número de The Ark (em fase de planificação há três anos, e os custos
eram espantoso s ) , apercebi-me de que me andava a pressionar para
que concluísse uma série de estudos sobre << Grandes Chatos do Mun­
do Moderno » . Não parava de sugerir perspetivas de abordagem pos­
síveis. Alguns tipos eram óbvios, é claro - chatos políticos, filosófi­
cos, ideológicos, pedagógicos, terapêuticos -, mas havia outros que
era costume passar por alto, por exemplo os chatos inovadores. Con­
tudo, tinha vindo a perder o interesse pelas categorias e naquela altura
preocupava-me apenas com os aspetos gerais e teóricos do projeto.
Passei bons bocados, no grande salão do j úri, a examinar as mi­
nhas notas sobre o tédio. Vi que tinha evitado o problema da defini­
ção. Ainda bem. Não queria enredar-me em questões teológicas sobre
a accidia e o tedium vitae. Apenas considerava necessário dizer que,
desde os primórdios, a Humanidade havia experimentado estados de
tédio, mas que ninguém tinha a bordado a questão em profundidade
como tema por direito próprio. Nos tempos modernos o tema havia
sido tratado sob a designação de anomie ou Alienação, como um efei­
to das condições de tra balho capitalistas, como um resultado do nive­
lamento criado pela Sociedade Massificada, como uma consequência
da diminuição da fé religiosa ou do gradual esgotamento dos elemen­
tos carismáticos ou proféticos, ou do esquecimento a que foram vota­
dos os poderes Inconscientes, ou do incremento da Racionalização na
sociedade tecnológica, ou do aumento de burocracia . Parecia-me, no
entanto, que se poderia começar por esta convicção do mundo mo­
derno - ou se arde ou se apodrece . Isto está relacionado com a des­
coberta do velho Binet, o psicólogo, segundo o qual as pessoas histé­
ricas têm cinquenta vezes mais energia, perseverança, capacidade de
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 223

atuação, acuidade das faculdades e criatividade durante os acessos de


histeria do que nos períodos normais. Ou, de acordo com William Ja­
mes, os seres humanos só vivem a sério quando atingem o limite das
suas energias. Uma coisa parecida com Wille zur Macht1 • Suponha­
mos então que começamos com a proposição de que o tédio é uma es­
pécie de dor causada por forças insólitas, a dor de potencialidades
e talentos desperdiçados, e é acompanhado por expectativas de uma
utilização máxima de potencialidades. ( Nestas ocasiões mentais pro­
curo evitar cair no estilo social-científico. ) Nada do que existe satis­
faz a expectativa em estado puro, e esta pureza de expectativa é uma
grande fonte de tédio. As pessoas que possuem muitas aptidões, que
vivem intensamente a sexualidade, que são ricas em ideias e em inven­
tiva, todas as que são altamente dotadas, veem-se empurradas duran­
te décadas para vias secundárias enfadonhas - banidas, exiladas,
presas em galinheiros. A imaginação tem até tentado superar estes im­
pedimentos forçando o próprio tédio a ser fonte de interesse. Devo es­
ta visão a Von Humboldt Fleisher, que me mostrou de que modo foi
isso feito por James Joyce, mas qualquer pessoa que leia livros pode
facilmente descobri-la sozinha . A literatura francesa moderna está
particularmente preocupada com o tema do tédio. Stendhal mencio­
nou-o em todas as suas páginas, Flaubert dedicou-lhe livros inteiros
e Baudelaire foi seu principal poeta. Qual o motivo desta peculiar sen­
sibilidade francesa ? Poderá dever-se ao facto de que o ancien régime,
temendo outra Fronda2, tenha criado uma corte que esvaziou de ta­
lento as províncias ? Fora do centro, onde prosperavam as artes, a filo­
sofia, a ciência, as boas maneiras e conversa, não havia nada . Com
Luís XIV, as classes aristocráticas desfrutavam de uma sociedade refi­
nada e, pelo menos, as pessoas não sentiam a necessidade de viver em
solidão. Excêntricos como Rousseau tornaram atraente a solidão, mas
as pessoas sensatas concordavam que ela era, efetivamente, terrível.
Assim, no século xvm , estar preso começou a adquirir o significado
moderno. Pense-se com que frequência Manon e Des Grieux estive­
ram na prisão. E Mirabeau, e o meu amigalhaço Von Trenck e, é cla­
ro, o Marquês de Sade. O futuro intelectual da Europa foi determina­
do por pessoas impregnadas de tédio, pelos escritos de prisioneiros.

1 A Vontade de Poder, de Nietzsche. (N. do T.)


2 Rebelião contra o cardeal Mazarino, chefe do Governo francês durante a me­
noridade de Luís XIV. (N. do T.)
224 S A U L B E L LOW

Depois, em 1 78 9, foram os j ovens vindos das berças - advogados,


escrevinhadores e oradores provincianos - que assaltaram e captu­
raram o centro de interesse. O tédio exerceu mais influência sobre
a revolução política moderna que a j ustiça. Em 1 9 1 7, aquele chato do
Lénine, que escreveu tantos panfletos e cartas aborrecidos sobre ques­
tões de organização, foi, fugazmente, todo paixão, todo interesse re­
fulgente. A revolução russa prometeu à Humanidade uma vida de per­
manente interesse. Quando Trótski falava de revolução permanente,
queria na verdade dizer interesse permanente . Nos seus primeiros
tempos, a revolução foi obra da inspiração. Os trabalhadores, os cam­
p o n e s e s e os s o l d a d o s v i v i a m n u m estado de excitação e p o e si a .
Quando essa curta e brilhante fase terminou, seguiu-se o quê ? A so­
ciedade mais chata da História . Relaxamento, mesquinhez, estupi­
dez, bens banais, edifícios tediosos, desconforto tedioso, supervisão te­
diosa, imprensa estúpida, educação cinzenta, burocracia enfadonha,
trabalhos forçados, presença perpétua da polícia, presença penal, te­
diosos congressos do partido, etc. O que se tornou permanente foi a der­
rota do interesse.
Que coisa poderia ser mais enfadonha do que os longos j antares
oferecidos por Estaline, de acordo com a descrição de Dj ilas ? Até eu,
uma pessoa curtida no tédio pelos meus anos em Chicago, marinado,
m itridatado 1 pelos Estados Unidos, fiquei horrorizado com a des­
crição que Dj ilas faz daqueles banquetes de doze pratos que dura­
vam toda a noite. Os convivas bebiam e comiam, comiam e bebiam,
e depois, por volta das duas da madrugada, tinham de se sentar para
assistir a um western. Doía-lhes o traseiro. O terror paralisava-lhes os
corações. Estaline, enquanto conversava e gracejava, ia selecionando
mentalmente aqueles que seriam castigados, ao passo que estes, cien­
tes daquilo que os aguardava, de que seriam fuzilados em breve, mas­
tigavam, sopravam e engoliam.
Por outras palavras, que seria do tédio moderno sem o terror ? Um
dos documentos mais chatos de todos os tempos é o grosso volume
de Hitler Conversas à Mesa . Também ele obrigava as pessoas a ver
filmes, a comer pastéis e a tomar café com Schlag, enquanto ele as
aborrecia discursando, teorizando, expondo as suas ideias. Todos os
presentes morriam de medo e asco, sem sequer se atreverem a ir à casa

1 Referência a Mitrídates III, rei do Ponto ( século III a . C . ) , que teria, segundo
a lenda, criado um processo de se tornar imune a venenos. (N. do T.)
o L E G A D O DE H U M B O L DT 225

de banho. Esta combinação de poder e tédio nunca foi adequadamen­


te estudada. O tédio é um instrumento de controlo social. O poder é o
poder de impor o tédio, de obrigar à estase, de combinar esta estase
com a angústia. O verdadeiro tédio, o tédio mais profundo, é sempre
temperado pelo terror e pela morte.
Porém, havia questões ainda mais profundas. Por exemplo, a His­
tória do Universo seria muito enfadonha se a tentássemos considerar
em termos das circunstâncias normais da experiência humana. Todo
esse tempo sem ocorrências! Gases e mais gases, calor e partículas de
matéria , marés e ventos solares, essa lenta evolução sigilosa, passo
a passo, acidentes químicos: eras inteiras nas quais quase nada aconte­
ce, mares sem vida, apenas alguns cristais, alguns compostos de pro­
teínas a desenvolverem-se. A lentidão da evolução é tão irritante que
se torna insuportável contemplá-la . Os torpes erros que se veem em
fósseis de museu. Como puderam esses ossos rastej ar, caminhar, cor­
rer ? É agónico pensar nesse tentear das espécies - toda essas vacila­
ções, esse lento rastej ar pelos pântanos, essa mastigação, depredação
e reprodução, essa lentidão fastidiosa com que se iam desenvolvendo
tecidos, órgãos e membros. A que acresce, mais à frente, o tédio da
irrupção das espécies superiores e finalmente da Humanidade, a vida
estúpida das florestas paleolíticas, a muito longa incubação da inte­
ligência , a morosidade das invenções, a estultícia das eras de vida
camponesa . Tudo isto é interessante unicamente contemplado em re­
trospetiva, em pensamento. Ninguém conseguiria suportar uma expe­
riência assim. A exigência atual é a de um rápido movimento de avan­
ço, um resumo, uma vida à velocidade do pensamento mais intenso.
Quanto mais nos aproximamos, graças à tecnologia, da fase de reali­
zação instantâ nea, da satisfação dos eternos desej os e fanta sias do
Homem, da abolição do tempo e do espaço, tanto mais agudo se tor­
na o problema do tédio. O ser humano, cada vez mais oprimido pelas
peculiares condições da sua existência - uma única vez para cada
um, uma única vida por cliente -, tem de pensar no aborrecimento
da morte. Oh aquelas eternidades da não-existência ! Para as pessoas
que anseiam por um interesse e por uma diversidade sem fim, oh
como será a borrecida a morte ! Jazer no túmulo, num determinado
lugar, que pavoroso !
É verdade que Sócrates tentou tra nquilizar-nos . Disse que havia
apenas duas possibilidades. Ou a alma é imortal ou, após a morte, as
coisas seriam tão vazias como eram antes de termos nascido. Mas
226 5AUL BELLOW

nem isto é reconfortante. Sej a como for, é natural que a teologia e a


filosofia tenham encarado a questão com o maior interesse. Devem­
-nos não serem a borrecidas. Mas nem sempre cumpriram adequada­
mente essa obrigação. Contudo, Kierkegaard não é um chato. Pensei
estudar a contri buição teórica dele no meu magistral ensaio. A seu
ver, a primazia do ético sobre o estético era necessária para restabele­
cer o equilíbrio. Mas já chega disto. Podia observar em mim mesmo
as seguintes fontes de tédio: 1) a falta de uma conexão pessoal com
o mundo exterior. Comentei atrás que na primavera passada, quando
viaj ava de comboio por França, tinha olhado pela j anela e pensado
que o véu de Maia 1 estava a ficar mais fino. E porquê ? Eu não via
o que tinha diante de mim mas tão-somente o que toda a gente vê sob
uma diretiva comum. Deste modo fica implícito que a nossa mundivi­
dência esgotou a natureza . A regra desta visão é que eu, um suj eito,
vej o os fenómenos, o mundo dos obj etos. Estes, no entanto, não são
necessariamente obj etos em si, pelo menos como a racionalidade mo­
derna os define. Porque em espírito, diz Steiner, um homem pode sair
de si mesmo e deixar que as coisas lhe falem, que lhe falem daquilo
que tem sentido não só para ele mas também para elas. Assim, o Sol,
a Lua e as estrelas poderão falar aos que não são astrónomos a des­
peito da ignorância científica destes. De facto, já é tempo que isso
aconteça. A ignorância científica não devia deixar ninguém prisionei­
ro no mais baixo e enfadonho sector do ser, proibido de estabelecer
uma relação independente com a criação como um todo. Os instruí­
dos fa lam de um mundo desencantado (e aborrecido ) . Só que não é
o mundo que se mostra desencantado mas a minha própria ca beça .
O mundo não pode ser desencantado. 2) Para mim, o ego consciente
de si é a sede do aborrecimento . Esta crescente autoconsciência do­
lorosa, opressora e incontrolável é a única rival das forças sociais
e políticas que regem a minha vida ( negócios, poderes burocrático­
-tecnológicos, o Estado ) . Está-se envolvido num grande movimento
organizado da vida e tem-se um único eu, independentemente cons­
ciente, orgulhoso do seu isolamento e da sua imunidade absoluta, da
sua estabilidade e da sua capacidade de permanecer indiferente a tudo
- aos sofrimentos alheios, à sociedade, à política, ao caos do mundo
exterior. Em certo sentido, isso não interessa nada . Solicita-se que se

1 Deusa da primavera entre os romanos, a quem era dedicado o mês de maio.

(N. do T.)
o L E G A D O DE H U M B O LDT 2 27

preocupe, frequentemente insiste-se para que o faça, mas a maldição


da despreocupação radica nessa consciência dolorosamente livre. Está
livre de ligações a crenças e a outras almas. Cosmologias, sistemas
éticos ? Podem saltar-se às dúzias . Porque ser plenamente consciente
de si mesmo como indivíduo também significa estar separado do res­
to. É o reino de Hamlet, esse espaço infinito numa casca de noz, de
<< palavras, palavras, palavras >> , de « a Dinamarca é uma prisão>> .

Estas eram algumas das ideias que Thaxter queria que eu desen­
volvesse. No entanto, encontrava-me numa situação demasiado ins­
tável. la várias vezes por semana ao centro para consultar os meus
advogados e discutir os meus problemas. Diziam-me que a minha
situação era complicada. As notícias eram cada vez piores. Subia nos
elevadores procurando a redenção numa forma feminina sempre que
a porta se abria . Uma pessoa nas minhas condições devia trancar-se
no quarto e, se não tivesse a força de carácter para seguir o conselho
de Pascal e permanecer imóvel, era bom que atirasse a chave pela ja­
nela. Então abriu-se a porta giratória do edifício do condado e vi Re­
nata Koffritz. Também tinha um distintivo de aço numerado . Éramos
ambos contribuintes, eleitores e cidadãos. Mas, oh que cidadãos !
E onde estava a voz que dizia « Ü meu Destino ! >> ? Estava silenciosa .
Era ela a tal ? Era sem dúvida feminina dos pés à cabeça, suave e ma­
ravilhosamente pesada, com minissaia e sapatos infantis amarrados
com uma tira . Pensei: valha-me Deus. Pensei : é melhor pensar duas
vezes. Pensei ainda: na tua idade um budista j á estaria a pensar em
desaparecer para sempre na floresta . Mas foi inútil. Podia não ser
o Destino que eu procurava, todavia era um Destino . Ela até sabia
o meu nome.
- Deve ser o senhor Citrine - disse.
No ano anterior tinha recebido um prémio do Zig-Zag Club, uma
associação cultural de Chicago formada por executivos bancários
e corretores da Bolsa . Não fu i convidado a tornar-me membro . No
entanto, recebi uma placa comemorativa pelo livro que tinha escrito
sobre Harry Hopkins' e a minha fotografia apareceu no Daily News.
Talvez a tivesse visto. Mas disse:

1 Harry Hopkins ( 1 8 9 0 - 1 946 ), um dos assessores mais próximos de F. D . Roo­

sevelt. Personalidade cinzenta que foi o organizador de grande parte das políticas
sociais do New Deal. (N. do T.)
228 S A U L BELLOW

- O seu amigo, o senhor Szathmar, é o advogado que está a tra­


tar da minha ação de divórcio e pensou que nos deveríamos conhecer.
Ah, tinha-me apanhado. Com que rapidez me informou de que es­
tava a divorciar-se. Aqueles olhos compassivos e amorosos já estavam
a enviar mensagens de amor e de depravação ao rapaz de Chicago
malcomportado que havia na minha alma. Uma rajada de malária se­
xual da velha zona oeste abateu-se sobre mim.
- O senhor Szathmar é-lhe muito dedicado. Adora-o. Quase fe­
cha os olhos e assume um ar poético quando fala de si. E como é um
homem tão vigoroso ninguém espera essa atitude. Falou-me do seu
amor que se despenhou na selva. E também do seu primeiro romance
amoroso . . . com a filha do médico.
- Naomi Lutz.
- É um nome divertido.
- De facto é, não é ?
Era verdade que o meu amigo d e infância Szathmar gostava muito
de mim, mas também gostava de desempenhar o papel de casamentei­
ro ou, pelo menos, de alcoviteiro. Tinha a paixão de arranj ar ligações
amorosas. Do ponto de vista profissional, isso era-lhe útil, visto que
lhe permitia estabelecer laços fortes com muitos clientes . Em casos
especiais, encarregava-se de todos os pormenores práticos: o aluguer
do apartamento da amante, o carro, as contas bancárias, as faturas do
dentista . Chegava a ocupar-se de tentativas de suicídio. Ou funerais.
A sua verdadeira vocação não era o Direito mas organizar as vidas dos
outros. E nós os dois, amigos de infância, manter-nos-íamos lúbricos
até ao fim dos nossos dias se continuasse a fazer das suas. Todavia, fa­
zia tudo com decoro. Fazia tudo com filosofia, poesia, ideologia . Fazia
citações, punha discos, teorizava sobre as mulheres. Tentava manter-se
atualizado com a brusca mudança da gíria erótica das sucessivas gera­
ções. Acabaríamos, deste modo, as nossas vidas como velhos gaiteiros
decrépitos a perseguir canas saídas de uma farsa de Goldoni ? Ou como
o barão Hulot d ' Ervy, de Balzac, cuja mulher, no leito de agonia,
ouve o velho fazer propostas à donzela ?
Há alguns anos, Alec Szathmar, sob o efeito de uma grande tensão
nervosa nas caves do First National Bank, sofreu um ataque cardíaco.
Eu adorava esse louco. Fiquei extraordinariamente preocupado com
ele. Quando saiu da unidade de cuidados intensivos, fui logo visitá-lo
e descobri que já tinha recuperado o vigor sexual. Parece que é isso
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 229

que acontece depois de um ataque do coração. Sob a imponente cabe­


leira branca, que, à última moda, lhe cobria as faces, os olhos som­
brios dilataram-se-lhe mal uma enfermeira entrou no quarto, embora
ainda tivesse o rosto cor de púrpura. O meu velho amigo, que estava
agora mais corpulento, maciço, não parava quieto na cama. Mexeu­
-se, livrou-se dos lençóis e exibiu-se como se fosse por fastidioso aca­
so. Se lhe estava a fazer uma visita por compaixão, não precisava da
minha ma ldita compaixão. Tinha os olhos severos e vigilantes. Por
fim disse-lhe:
- Vá, Alec, acaba com o espetáculo. Sabe muito bem ao que me
refiro . . . deixa de destapar as partes baixas sempre que uma pobre ve­
lha vem passar o esfregão debaixo da cama.
Olhou-me furioso.
- O quê ? Não sej as estúpido ! - retorquiu.
- Como queiras. Deixa de puxar a bata para cima .
O s maus exemplos podem ser instrutivos - permitem refinar
o gosto e pensar: << Pobre velho Alec, a exibir-se desta maneira . Graças
a Deus é coisa que não se passa comigo. » E no entanto ali estava eu,
na bancada do j úri, com uma ereção por Renata . Estava excitado,
divertido, ligeiramente mortificado. Diante de nós decorria um caso
de acidentes pessoais. Se tivesse sido honesto, devia ter ido falar com
o j uiz para lhe pedir que me desobrigasse daquela tarefa. << Meritíssi­
mo j uiz, não consigo concentrar-me no j u lgamento por causa desta
deslumbrante j urada que está sentada ao meu lado. Lamento estar
a comportar-me como um adolescente . . . » (Pena ! Sentia-me no sétimo
céu . ) Aliás, o caso era um desses processos fraudulentos de indemni­
zação contra uma companhia de seguros intentado por uma passagei­
ra envolvida numa colisão de táxis . Os meus assuntos pessoais eram
bem mais importantes. O j ulgamento não passava de música de fun­
do. Eu media o tempo em pulsações metronómicas.
Dois andares a baixo, eu era acusado numa ação intentada para
me despoj ar de todo o meu dinheiro. Podia pensar-se que isto me po­
ria sóbrio. De maneira nenhuma !
D urante o intervalo do almoço, fui rapidamente à Rua La Salle
para pedir informações a Alec Szathmar sobre aquela rapariga admi­
rável. Enquanto avançava a toda a pressa pelo meio da multidão de
Chicago senti que perdia a força, que os cordéis ficavam lassos, que
a minha vontade esmorecia. Mas que podia fazer sozinho contra uma
força que dominava o mundo inteiro ?
230 SAUL BELLOW

No escritório de Alec respirava-se um ar refinado, quase harvar­


diano, embora ele tivesse tirado o curso no horário pós-laboral. A de­
coração era soberba . Coleções de volumes de códigos penais e casos
cíveis, uma atmosfera de alta j urisprudência, fotografias dos j uízes
Holmes e Learned Hand. Antes da Grande Depressão, Alec tinha sido
um menino rico . Não era verdadeiramente rico, só dentro dos parâ­
metros do bairro. Mas eu conhecia meninos ricos. Estudara meninos
ricos da mais a lta sociedade - como, por exemplo, Bob Kennedy.
Von Humboldt Fleisher, que sempre dissera tê-lo sido, nunca o fora,
ao passo que Alec Szathmar, que o fora, dizia a toda a gente que de
facto era poeta . E assim o provara, na universidade, pela posse. Pos­
suía as obras de Eliot, Pound e Yeats. Sabia de cor << Prufrock » 1, que
se tornou um dos seus trunfos. Mas a Depressão atingiu duramente os
Szathmars e Alec não obteve a instrução apurada que o velho, afeiçoa­
do e tortuoso pai esperava dar-lhe. Contudo, assim como na infância
tivera bicicletas, conj untos de química, espingardas de pressão de ar,
floretes, raquetes de ténis, luvas de boxe, patins e guitarras havaianas,
Alec possuía agora o mais moderno equipamento da IBM, telefones
para conferência, computadores de mesa, relógios de pulso digitais,
fotocopiadoras, gravadores e centenas de grossos livros de Direito.
Depois do problema coronário, em vez de emagrecer, como seria
normal, engordara. Sempre conservador na maneira de vestir, tentava
dissimular a volumoso corpo com casacos de trespasse. De modo que
parecia um tordo gigante. O rosto exageradamente humano desta ave
ficava emoldurado por umas rebeldes suíças brancas. Os olhos casta­
nhos, que destilavam amor e amizade, não eram, contudo, particular­
mente honestos. Uma das observações de Jung aj udou-me a perceber
Szathm ar. Algumas mentes, dizia Jung, pertencem a períodos mais
primitivos da História. Entre os nossos contemporâneos há babilónios
e cartagineses ou pessoas da Idade Médi a . Para mim, Szathmar era
um cavaleiro do século xv m , um seguidor de Pandour von Trenck,
primo do meu afortunado Von Trenck. As faces carnudas e trigueiras,
o nariz romano, as espessas patilhas, o peito amplo, os quadris largos,
os pés bem proporcionados e a covinha viril do queixo atraíam as
mulheres. Saber por quem se sentirão atraídas as mulheres é um mis­
tério insondável. Mas, é claro, a corrida tem de continuar. Sej a como
for , lá estava Szathmar à minha espera . Acomodado na c a d e i r a ,

1 The Lave Song of}. A/fred Prufrock , poema d e T . S . Eliot. (N. d o T.)
O L E G A D O DE H u M B O LDT 23 I

a posição que adotava sugeria uma certa torpeza no ato sexual, mas
também a constância infatigável do ginete montando belas damas. Ti­
nha os braços cruzados, como os do Balzac de Rodin. Infelizmente,
ainda tinha um aspeto bastante enfermiço. Nesses tempos quase todas
as pessoas que viviam no centro me pareciam um pouco doentes.
- Alec, quem é a Renata Koffritz ? Informa-me.
Szathmar sentia um interesse caloroso pelos seus clientes, especial­
mente quando se tratava de mulheres atraentes. Conquistavam a sim­
patia dele, além de orientação psicanalítica, conselhos práticos e mes­
mo umas fumaças de arte e filosofia. E informou-me: filha única; mãe
meio maluca; nenhum pai conhecido; fugiu para o México com o pro­
fessor de Arte do liceu; obrigada a regressar; fugiu mais tarde para
Berkeley; encontrada num daqueles grupos de terapia de carícias da
Califórnia; casada com Koffritz, um caixeiro-viaj ante cuj o negócio
eram Jazigos e campas . . .
- Espera a í . Já o viste ? U m tipo alto ? Barba castanha ? Ora, é o
homem que apresentou a sua mercadoria ao velho Myron nos Banhos
Russos da Rua Division !
Szathmar não se mostrou impressionado com a coincidência.
- É o exemplar mais perfeito que me apareceu a contratar os
meus serviços como advogado de casos de divórcio. Tem um filho pe­
queno que é um encanto . Pensei em ti . Podes ter bastante animação
com essa mulher.
- Tu já tiveste ?
- O quê ? Sou advogado dela.
- Não te armes em moralista . Se não te atiraste a ela é porque
ainda não pagou a prestação inicial.
- Sei o que pensas da minha profissão. Para ti tudo o que sej a ne­
gócio é uma fraude.
- Desde que a Denise entrou em pé de guerra, tenho visto carra­
das de negócios. Bem me tramaste com o Forrest T omchek, um dos
maiores nomes do ramo. Foi como pôr confetti à frente de um aspira­
dor gigantesco.
Brutalmente irritado, Szathmar exclamou:
- Treta s ! - Fingiu soprar para o lado. - Idiota, estúpido, tive
de pedir ao Tomchek que aceitasse o caso. Só o aceitou para fazer um
favor a um colega . Um homem como ele! Nem para adorno do aquá­
rio te queri a . Muitos banqueiros e presidentes de empresas ainda
23 2 S A U L B E L LOW

estão à espera de vez, meu imbecil. O Tomchek ! OTomchek pertence


a uma família de grandes figuras do Direito . E foi um dos mais bri­
lhantes pilotos de caças no Pacífico.
- Também é um vigarista e um incompetente. A Denise é mil ve­
zes mais esperta do que ele. Estudou os documentos e entalou-o num
ápice. Nem sequer se deu ao trabalho de dar uma vista de olhos pelos
títulos para ver quem legalmente possuía o quê. Não me venhas com
a léria da dignidade dos homens do D ireito, amigo ! Mas acabemos
com as recriminações. Fala-me da miúda.
Levantou-se da cadeira . Estive na Casa Branca, sentei-me na ca­
deira do Presidente na Sala Oval e posso afiançar que o couro da de
Szathmar é de muito melhor qualidade. As fotografias emolduradas
do pai e do avô recordaram-me os velhos tempos na zona oeste de
Chicago . Afinal de contas, o meu afeto por Szathmar era de tipo fa­
miliar.
- Escolhi-a para ti mal entrou por essa porta . Nunca me esqueço
de ti, Charlie. A tua vida não tem sido feliz.
- Não exageres.
- Infeliz - insistiu. - Talento e superioridade desperdiçados,
obstinado como o diabo, perverso, orgulhoso e sempre a desprezar
tudo. Todos os teus contactos em Nova Iorque, Washington, Paris,
Londres e Roma, todas as tuas realizações, a tua habilidade com as
palavras, a tua sorte ... porque tu tens tido sorte. O que poderia eu ter
feito com isso ! E logo tinhas de te casar com aquela alcoviteira j udia
da zona oeste, de uma família de políticos de bairro, de j ogadores de
taberna, de fufas de pastelaria e de inspetores de esgotos. Essa miúda
pretensiosa de V assar! Só porque falava como se estivesse a escrever
um artigo, tu andavas mortinho por arranjar alguém que te compreen­
desse e com quem pudesses conversar e ela era culta. E eu que gosto de
ti, que sempre gostei de ti, meu idiota filho da puta, eu que tenho este
grande afeto por ti desde os teus dez anos e que fico acordado de noite
a pensar: como é que vou salvar o Charlie agora; proteger o dinheiro
dele; arranj ar forma de ele escapar ao Fisco; garantir-lhe a melhor de­
fe sa legal; apresentar-lhe boas m ulheres . Mas tu, meu tonto, meu
atrasado mental, nem sequer sabes o que significa um afeto assim.
Devo dizer que gostava de observar Szathmar quando entrava nes­
ta onda . Enquanto me dava a música toda, os olhos dele desviavam-se
para a esquerda onde não estava ninguém. Se estivesse lá alguém,
o L E G A D O DE H U M B O LDT 23 3

uma testemunha imparcial, teria dado razão ao indignado Szathmar.


A querida mãe dele também tinha este hábito. Também clamava por
j ustiça desta maneira ultraj ada diante de um espaço vazio, com as
mãos sobre o peito. O peito de Szathmar continha um grande cora­
ção, sincero e viril, enquanto o meu não, apenas uma espécie de miú­
dos de galinha - era assim que ele via as coisas . Via-se como uma
pessoa de vitalidade heroica, madura, sábia, pagã, numa palavra, um
tritão. Mas os seus verdadeiros pensamentos concentravam-se exclusi­
vamente em saltar para cima de mulheres, em intrometer-se onde pu­
desse e em todas as artimanhas sujas que denominava liberdade se­
xual. Contudo, também tinha de pensar em garantir a massa no fim
do mês. As despesas dele eram grandes. Como combinar estas necessi­
dades tão diversas, eis a questão. Disse-me uma vez:
- Já estava envolvido na revolução sexual muito antes de alguém
ter ouvido falar disso.
Mas tenho de dizer mais qualquer coisa . Tinha vergonha de nós
dois. Quem era eu para menosprezar Szathmar. Todas as leituras que
tive a oportunidade de fazer ensinaram-me uma ou duas coisas. Com­
preendo algum do esforço da classe média, que anda há dois séculos
a tentar apresentar boa aparência, preservar certa inocência encanta­
dora - a inocência de Clarissa a defender-se da lascívia de Lovelace 1 •
Sem esperança ! Pior ainda é a descoberta de que se tem estado a expe­
rienciar sentimentos dignos de postais de felicitações, com as fitas da
virtude da classe média atadas num laço ao redor do coração. Este ti­
po de abominável inocência americana é cordialmente detestado no
mundo inteiro, que o pressentiu já em Woodrow Wilson em 1 9 1 9 .
N a escola aprendemos a honra, a bondade e a cortesia dos escoteiros;
estranhos fantasmas da gentileza vitoriana ainda assombram os cora­
ções das crianças de Chicago que agora andam pelos cinquenta ou
sessenta anos. Isto era patente na crença de Szathmar na sua própria
generosidade e grandeza de alma, e também no meu agradecimento
a Deus por nunca ser tão vulgar como ele. Como expiação, deixei que
continuasse a denunciar-me. Porém, quando me pareceu que já tinha
falado demais, disse-lhe:
- Como vais de saúde ?

1 Referência ao romance epistolar Clarissa ar The History of a Young Lady, de


Samuel Richardson, em que a j ovem e ingénua Clarissa se vê assediada pelo perver­
so Lovelace, do qual foge sem deixar de se sentir atraída por ele. (N. do T.)
234 S A U L BELLOW

Não gostou. Não admitia ter doenças.


- Estou ótimo - respondeu. - Não precisavas vir a correr até
aqui para me perguntares isso. Só tenho de perder uns quilos.
- Enquanto melhoras, aproveita para aparar as patilhas. Fazem-
-te parecer o vilão de um velho western. Um desses tipos que vendiam
armas e aguardente aos peles-vermelhas.
- Está bem, Charlie. Não passo de um aspirante a promíscuo se­
xual . Um mulherengo decadente, enquanto tu só pensas em coisas ele­
vadas. Tu és nobre. Eu sou um réptil. Mas queres ou não informar-te
sobre a miúda ?
- De facto quero.
- Não te deves recriminar por isso. Pelo menos é um sinal de
vida, e tu não tens assim tanto s . Quase tinha perdido a esperança
quando recusaste a Felícia, aquela que tinha um belo par de tetas. Era
uma bela mulher de meia-idade e ter-te-ia ficado muito grata . O mari­
do é um femeeiro de marca. Ela adorava-te. Ter-te-ia feito feliz até ao
final dos seus dias desde que a tratasses bem. Era uma boa dona de
casa e uma mãe decente que teria cuidado de ti dos pés à cabeça: lava­
va, cozinhava, fazia pão, ia às compras e até pagava as suas contas.
Além disso, era boa na cama . Teria ficado calada por ser casada . Per­
feita . Mas para ti não passou de outra das minhas ideias vulgares. -
Olhou-me com irritação. Depois continuou: - Muito bem, vou arran­
jar as coisas com esta rapariga . Convida-a a ir tomar uma bebida con­
tigo à Palmer House amanhã. Eu encarrego-me dos pormenores.
Se eu era suscetível à malária sexual da zona oeste, Szathmar era
incapaz de resistir à febre organizativa. O único intuito dele agora era
conseguir que Renata e eu nos metêssemos numa cama onde ele pu­
desse estar presente em espírito . Talvez esperasse que acabássemos
por formar um trio . Como Canta bile, às vezes sugeria combinações
fantásticas.
- Ouve - disse. - Durante o dia podes conseguir um quarto de
hotel pagando aquilo que eles chamam << preço de conferência >> . Vou
reservar um em teu nome. Tenho dinheiro teu na minha posse e posso
usá-lo para pagar a fatura .
- Se a ideia é tomar uma bebida, como é que sabes que chegare­
mos ao ponto de precisar de um quarto ?
- Só depende de ti. O barman terá a chave do quarto . Passa-lhe
uma nota de cinco dólares e ele dá-te um sobrescrito.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 23 5

- O sobrescrito estará em nome de quem ?


- Não no imaculado nome de Citrine, hein?
- Que tal o nome de Crawley ?
- O nosso velho professor de Latim. O velho Crawley ! Est avis in
dextra melior quam quattuor extra. 1
De modo que no dia seguinte Renata e eu fomos tomar uma bebi­
da ao escuro bar subterrâneo. Prometi a mim mesmo que esta seria
em definitivo a minha última estupidez. Apresentei a mim mesmo
uma j ustificação para o meu comportamento com a maior inteligência
de que fui capaz: que não podíamos fugir à História, e que isto era
o que a História estava a fazer a toda gente. A História tinha decreta­
do que os homens e as mulheres deviam conhecer-se por meio destes
abraços. Ia descobrir se Renata era ou não o meu Destino, se nela mo­
rava a verdadeira anima j unguiana. Podia revelar-se muito diferente
do que eu tinha imaginado. Mas só um contacto sexual me diria isso,
porque as mulheres têm efeitos especiais sobre mim e, quando não me
fazem entrar em êxtase, põem-me doente. Não havia meio-termo.
Nesse dia húmido e sombrio, o El de Wabash gotej ava, mas Re­
nata compensou o mau tempo. Trazia um impermeável às riscas ver­
melhas, brancas e pretas, um desenho de Rothko. Com essa resplan­
decente c o bertura r i j a s e n to u - s e , sem se d e s a b o t o a r , n o e s c u r o
compartimento reservado do bar. U m grande chapéu d e abas dobra­
das completava o vestuário dela. O batom com cheiro a banana que
lhe coloria os bonitos lábios combinava com o vermelho de Rothko .
Os seus comentários faziam pouco sentido, m a s a verdade é q u e não
falava muito. Ria-se com vontade e não tardou a ficar bastante pálida.
Uma vela colocada num copo de fundo arredondado embrulhado nu­
ma espécie de rede de pesca emitia uma luz mortiça. O rosto dela não
demorou muito a acomodar-se, afundando-se no plástico abotoado
e elegante do impermeável, e arredondou-se. Custava a crer que o tipo
de rapariga descrito por Szathmar - tão pronta para a ação, tão ex­
periente - engolisse quatro martínis e que o rosto se lhe pusesse tão
branco, mais branco do que a Lua às três da madrugada. A ponto de

1 Ditado latino que corresponde a << Mais vale um pássaro na mão que dois
a voar>> . Em tradução l iteral : << Melhor uma ave [na mão] direita que quatro fora
[dela ] . >> (N. do T.)
SAU L B E L L O W

inicialmente me interrogar se não estaria a fingir timidez por cortesia


para com um homem de uma geração mais velha, mas no seu belo rosto
surgiu um suor frio de gim e deu-me a impressão de estar a pedir-me
que fizesse alguma coisa. Em tudo aquilo que tinha ocorrido até àque­
le momento havia uma nota de déjà vu, porque eu já havia passado
por situações idênticas várias vezes. A única diferença é que neste caso
me sentia compreensivo e até com desej o de proteger esta mulher com
sua inesperada fragilidade. Julguei compreender sem grandes dificul­
dades porque estava naquele bar escuro e subterrâneo. As condições
eram bastante duras. Ninguém podia avançar sem amor. Porque não ?
Era incapaz de superar esta crença . Talvez uma estupidez. Essa neces­
sidade de amor (de um modo geral ) era um extraordinário aborreci­
mento . Se a l g u m a vez se v i e s s e a s a ber q u e eu tinha s u s s urrado
<< O meu Destino ! » quando se abriam as portas do elevador, a Legião

de Honra podia, com toda a razão, exigir a devolução da sua meda­


lha . E a interpretação mais construtiva que pude arranjar na ocasião
foi de índole platónica, a de que Eros estava a servir-se dos meus dese­
j os para me livrar da posição horrível em que me encontrava e guiar­
-me em direção à sabedoria . Era uma ideia bonita, com classe, mas
não me parecia que tivesse um grama de verdade ( para começar era
possível que já não houvesse assim tanto Eras ) . O grande nome, se
é que precisava de um, se é que algum poder so brenatural se preo­
cupava comigo, não era Eras, antes seria Arimã, o principal potenta­
do das trevas. Seja como for, já tinha chegado a altura de tirar Renata
daquela espelunca.
Dirigi-me para o balcão e debrucei-me sobre ele. Interpus-me entre
as pessoas que estavam a beber. Num dia normal teria descrito estas
pessoas como viciados em bares e borrachos, mas naquele momento
os olhos deles pareciam-me tão grandes como vigias de navio e derra­
mavam uma luz moral. O barman aproximou-se de mim. Eu levava
uma nota de cinco dólares dobrada entre os dedos da mão esquerda.
Szathmar tinha-me explicado com todos os pormenores como devia
proceder. Perguntei ao barman se tinha um sobrescrito em nome de
Crawley. Deitou logo a mão aos cinco dólares. Tinha aquele ar atento
que só é possível encontrar nas cidades grandes.
- Vejamos - disse -, que sobrescrito é esse ?
- Deixaram-no em nome de Crawley.
- Não tenho nenhum Crawley.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 23 7

- Deve estar aí. Vej a outra vez, se não se importa.


Procurou outra vez entre os sobrescritos. Todos continham chaves
de quartos.
- Qual é o seu primeiro nome, amigo ? Dê-me outra pista.
Incomodado, disse em voz baixa :
- Charles.
- Assim está melhor. Se calhar é este aqui: C-1-T-R-1-N-E?
- Por amor de Deus, sei como se soletra - respondi debilmente
mas furibundo. Murmurei: - Aquele babuíno estúpido do Szathmar.
Nunca fez nada direito na vida . E eu . . . ainda a depender dele para ar­
ranj ar programas !
Naquele preciso momento tive a impressão de que alguém tentava
chamar a minha atenção atrás de mim e dei meia-volta . Vi uma mu­
lher de meia-idade a sorrir. Era óbvio que me conhecia e estava con­
tentíssima por me ver. Tratava-se de uma senhora robusta e de aspeto
gentil, com nariz achatado e busto saliente. Estava à espera que a re­
conhecesse, mas ao mesmo tempo confessava tacitamente que os anos
a tinham mudado. Mas estaria assim tão mudada ?
- Sim ? - perguntei.
- Estou a ver que não me reconheces. Mas tu continuas a ser
o mesmo Charlie de sempre.
- Nunca percebi por que razão os bares hão de ser tão escuros -
disse eu.
- Mas Charlie, sou a Naomi, a tua namorada da escola.
- Naomi Lutz !
- Que alegria ver-te, Charlie.
- Como é que vieste parar ao bar deste hotel ?
Uma mulher sozinha num bar é, em geral, uma puta . Naomi era
demasiado velha para isso. Aliás, era inconcebível que Naomi, que
tinha sido minha namorada aos quinze, tivesse dado numa gaj a de
hotel.
- Não, não - disse ela. - O Papá está aqui. Já volta . Venho
com ele à cidade. Tenho de o tirar da casa de saúde pelo menos uma
vez por semana para tomar uma bebida . Lembra-te de que ele sempre
adorou vir ao Loop.
- O velho doutor Lutz . . . quem haveria de dizer !
- Sim, ainda vivo. Mas muito velho. E ele e eu estivemos a obser-
var-te enquanto conversavas com aquela coisinha linda no reservado.
5AUL BELLOW

Desculpa, Charlie, mas a maneira como os homens continuam a ser


é uma inj ustiça para mulheres. Esplêndido para ti. O Papá estava a di­
zer que não devia ter interferido no nosso namoro de infância .
- Fui mais que teu namorado - retorqui. - Amava-te de todo
o meu coração. - Ao dizer isto estava consciente de que tinha trazido
uma mulher ao bar e estava a fazer uma declaração de amor a outra .
Contudo, esta era a verdade, ainda que involuntária e espontânea .
- Tenho pensado várias vezes, Naomi, que perdi totalmente minha
personalidade por não ter podido viver contigo . A nossa separação
distorceu-me por completo, tornou-me ambicioso, astuto, complexo,
estúpido e vingativo. Se tivesse podido ter-te nos braços todas as noi­
tes, desde os quinze anos, nunca teria tido medo da morte.
- Oh Charlie, vai pregar para outra freguesia. Sempre tiveste imen­
so jeito para falar. Mas também eras chato. Tiveste montes e montes de
mulheres. Viu-se no modo como te comportaste no reservado.
- Ah, sim, << pregar para outra freguesia » .
Fiquei-lhe grato por ter utilizado aquela velha gíria . Em primeiro
lugar, moderou a minha efusividade, que não teria levado a lado ne­
nhum. Depois, livrou-me do peso de outra impressão que se tinha
apoderado de mim na obscuridade do bar. Suponho que tinha que ver
com a ideia de que, pouco depois da morte, quando o corpo sem vida
começa a decompor-se para voltar a ser um agregado de minera is,
a alma desperta para sua nova existência, e um instante após a morte
esperava encontrar-me num lugar escuro semelhante a este bar. Onde
todos aqueles que alguma vez se amaram possam reencontrar-se, etc.
E esta era a minha impressão naquele bar. Com a chave do « q uarto
de conferência » na mão, os elos da cadeia a tilintar, sabia que devia
voltar para j unto de Renata . Se continuasse a beber martínis ficaria
demasiado entornada para se pôr de pé sozinha e sair do reservado.
Mas naquelas circunstâncias também tinha de esperar pelo Dr. Lutz.
E lá vinha ele da casa de banho dos homens, muito débil e calvo, de
nariz chato como a filha. O estilo Babbitt1 dos anos 20 tinha-se esfu­
mado e transformado numa urbanidade fora de moda. Sempre nos
exigira que o tratássemos com estranha cortesia, porque, embora nun­
ca tivesse sido realmente médico, mas apenas um pedicuro ( tinha

1 Personagem que dá títu lo ao romance ( 1 922) de Sinclair Lewis, arquétipo da


classe média: conformista e conservador. (N. do T.)
O L E G A D O DE H u M B O LDT 23 9

consultório no centro e também em casa ) , insistia em ser tratado pelo


título de Doutor e ficava furioso quando alguém o tratava apenas por
Sr. Lutz. Deslumbrado com a ideia de ser um médico, cuidava de
doenças de muitos tipos até ao j oelho . Se tratava de pés, porque não
havia de fazer o mesmo a perna s ? Recordei-me de que uma vez me
pediu para o aj udar a aplicar uma espécie de gelatina púrpura - que
ele próprio preparara - nas horríveis chagas que afetavam as pernas
de uma mulher que tra balhava na fábrica National Biscuit. Segurei­
-lhe a jarra e os instrumentos. Lutz, enquanto cobria os orifícios, não
parava de falar como um curandeiro. Eu gostava daquela mulher por­
que trazia sempre ao Doutor uma caixa de sapatos cheia de bolos de
chocolate e bombons recheados. Ao lembrar-me disto, vieram-me ao
céu da boca palpitações da doçura do chocolate. E vi-me a ler Hera­
dias, sentado em êxtase na cadeira de tratamentos do Dr. Lutz, en­
quanto uma tempestade de neve enegrecia o minúsculo consultório
pintado de branco de clínica . Comovido com a decapitação de João,
o Batista, entrei no quarto de Naomi . Estivemos sozinhos durante
a borrasca. Tirei-lhe o morno pijama azul aveludado e contemplei-a
nua. Estas eram as lembranças que me apertavam o coração. Naomi
não era um corpo estranho para mim. Era só isso. Não havia nada
em Naomi que me fosse desconhecido. Os meus sentimentos por ela
chegavam ao interior das suas células, até às moléculas que, sendo de­
la, continham todas as suas propriedades. Como tinha concebido
Naomi sem traços de alteridade, dada a minha paixão por ela, fui
aprisionado pelo velho Dr. Lutz numa relação Jacob-Labão. Tinha de
o aj udar a lavar o Auburn, um carro azul-celeste com pneus de faixa
branca. Molhava-o com a mangueira e esfregava-o com um pedaço de
camurça enquanto o Doutor, em calções de golfe de linho branco,
permanecia ao meu lado a fumar um charuto Cremo.
- Oh, Charlie Citrine, tenho a certeza de que j á viste muita coisa
- disse o ancião. A voz dele ainda era lírica, aguda e bastante frívola .
Nunca tinha sido capaz de transmitir a sensação de estar a dizer algu­
ma coisa substantiva . - Apesar de ser um republicano à moda de
Coolidge e Hoover, senti orgulho quando os Kennedy te convidaram
para ires à Casa Branca.
- Andas com aquela rapariga ? - perguntou Naomi.
- Para falar com franqueza, ainda não sei. E tu, Naomi, o que
é feito de ti ?
S A U L B E L LOW

- O meu casamento não correu nada bem e o meu marido desa­


pareceu. Julguei que sou besses . Sej a como for, criei dois filhos . Por
acaso não leste nenhum artigo do meu filho no Southwest Township
Herald ?
- Não. E também não saberia que era da autoria do teu filho.
- Escreveu sobre a maneira de deixar as drogas, baseando-se na
sua experiência pessoal. Gostava muito de saber a tua opinião sobre
os escritos dele. A minha filha é uma doçura, mas o rapaz é um pro­
blema .
- E tu, minha querida Naomi ?
- Já não faço grande coisa. Tenho um namorado. Parte do dia
ajudo os alunos da escola secundária a atravessar a rua.
Fiquei com a ideia de que o velho Dr. Lutz não ouvira nada disto.
- É uma pena - disse.
- Estás a falar de nós ? Não, não é. Tu e a tua vida intelectual te-
riam sido uma tensão insuportável para mim. Do que mais gosto é de
desporto. Adoro ver futebol na televisão. É uma emoção quando con­
seguimos bilhete para o Soldier's Field ou para um j ogo de hóquei no
gelo . Jantamos cedo no Como lnn, apanhamos o a utocarro para
o Stadium e, garanto-te, vou com a esperança de os ver lutar em cima
do gelo e berro quando fazem saltar os dentes uns dos outros. Receio
não passar de uma mulher comum.
Quando Naomi dizia « comum >> e o Dr. Lutz << republicano >> que­
riam dizer que se tinham incorporado na grande massa norte-ameri­
cana e nela tinham encontrado alegria e satisfação. Ter sido pedicuro
no Loop durante os anos 30 enchia o velho de contentamento. A filha
transmitia uma mensagem idêntica. Estavam satisfeitos um com o ou­
tro e consigo mesmos e sentiam-se felizes por serem parecidos. Só eu,
por razões misteriosas um inadaptado, me interpunha entre eles com
a minha chave. É claro que aquilo que me doía era a minha descon­
formidade. Era um velho amigo, mas não integralmente americano.
- Tenho de ir - disse eu.
- Talvez possamos encontrar-nos para beber uma cervej a , não
achas? Gostava de ter ver - sugeriu Naomi. - Ninguém como tu pa­
ra me aconselhar sobre o Louie. Não tens filhos hippies, pois não ? -
E enqua nto eu tomava nota do número do telefone dela, acrescen­
tou: - Oh, Papá, olha para o caderno impecável em que ele escreve.
Todas as coisas do Charlie são elegantíssimas. Estás a tornar-te um
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

velho muito bonito. Mas não és o género de homem a que uma mu­
lher se prenda.
Sem que deixassem de me observar, regressei ao reservado e levan­
tei Renata . Pus o chapéu e o sobretudo e fiz de conta que íamos sair
do bar. Senti o desagrado de toda a gente.
O quarto a preço de conferência era precisamente o que libertinos
e adúlteros merecem. Não muito maior do que uma arrecadação, dava
para a coluna de ventilação. Renata deixou-se tombar numa cadeira
e pediu mais dois martínis ao serviço de quarto . Corri o cortinado,
não para obter uma maior privacidade - não havia j anelas à fren­
te - nem como ardil de sedutor mas tão-só porque detesto olhar para
colunas de ventilação. Junto à parede havia um sofá-cama tapado
com uma colcha de chenille verde. Mal vi este obj eto, percebi que me
derrotaria. Tinha a certeza de que nunca seria capaz de abri-lo. Uma
vez intuído, este desafio não me sairia da cabeça. Tinha de enfrentá-lo
imediatamente. As almofadas trapezoidais de espuma de borracha
não pesavam nada. Afastei-as e retirei a colcha . Os lençóis estavam
imaculados. Aj oelhei-me e tateei sob a armação do sofá à procura de
uma alavanca. Renata observava-me em silêncio enquanto a cara se
me contraía e enrubescia. Mantive-me agachado, a puxar, furi oso
com os fabricantes que faziam aqueles trastes e com a gerência do ho­
tel por roubar o dinheiro dos conferencistas da tarde e crucificá-los
em espírito .
- Esta coisa é como um teste de quociente de inteligência - res-
munguei.
- Sim ?
- Vou desistir. Não consigo abrir esta coisa.
- E então? Esquece.
Havia lugar apenas para uma pessoa naquela cama tão estreita .
No entanto, para falar a verdade, não tinha vontade de me deitar.
Renata foi à casa de banho. Havia duas cadeiras. Sentei-me na
poltrona, que tinha orelhas. Entre os meus sapatos havia um quadra­
do de tapete colonial americano com franjas. O sangue sussurrava ao
circular por cima dos meus tímpanos. Um empregado com mau aspe­
to trouxe os martínis. Guardou a gorjeta de um dólar sem dizer obri­
gado. Então Renata saiu da casa de banho, com o impermeável bri­
lhante ainda todo abotoado. Sentou-se no sofá-cama, deu um gole no
martíni e apagou-se. Tentei ouvir os batimentos do coração dela através
do plástico. Não teria problemas cardíacos, pois não ? Suponhamos que
5AUL BELLOW

fosse sério. Devia chamar uma ambulância ? Senti-lhe o pulso, olhan­


do estupidamente para o meu relógio, sem contar as pulsações . Para
comparar, apertei o meu próprio pulso. Não consegui coordenar os
resultados. O pulso dela não parecia pior do que o meu. Inconsciente
como estava, o ritmo cardíaco dela até parecia melhor. Estava coberta
de suor e fria ao tato. Enxuguei-lhe o suor frio com uma ponta do
lençol e procurei imaginar o que faria George Swiebel, meu conselhei­
ro em assuntos de saúde, numa emergência como esta . Sabia exata­
mente o que ele faria - esticar as pernas, tirar os sapatos e desabo­
toar o casaco para facilitar a respiração. Foi o que fiz.
Debaixo do impermeável Renata estava completamente nua. Ti­
nha ido à casa de banho para tirar a roupa. Depois de abrir o botão
de cima devia ter parado, mas não o fiz. É claro que tinha observado
Renata e tentado adivinhar como seria . As minhas generosas estimati­
vas estavam muito aquém da realidade. Não tinha esperado que tudo
fosse tão amplo e perfeito . Na bancada do j úri, havia notado que
o primeiro nó dos dedos dela era carnudo e inchava ligeiramente an­
tes de estreita r. As minhas conj eturas eram de que as lindas coxas
também deviam engrossar, j untando-se depois, em harmonia com os
nós dos dedos. Descobri que era exatamente o caso, e senti-me mais
como um ama nte de arte do que como um sedutor. A minha fugaz
impressão, porque não a deixei descoberta durante muito tempo, foi
a de que cada tecido era perfeito e cada fibra de velo resplandecente.
O corpo dela exalava um intenso odor feminino. Depois de a ter visto
bem, a botoei-lhe o impermeável por puro respeito . Voltei a pôr tudo
no sítio o melhor que soube. A seguir abri a j anela. Infelizmente isso
dissipou o seu maravilhoso odor, mas ela precisava de ar fresco. Fui
buscar as roupas dela à casa de banho e metia-as na sua grande bolsa,
assegurando-me de que não perdesse o distintivo de membro do j úri.
Depois, com o sobretudo vestido, o chapéu e as luvas na mão, fiquei
à espera que voltasse a si.
Repetimos as mesmas coisas incessantemente, de uma maneira
aterradoramente predizível. Em vista disso, podemos ser perdoados
por desej armos, pelo menos, associar-nos à beleza .

E agora - com o casaco de pele e o magnífico, macio, versátil


e flexível chapéu cor de ametista , o ventre e as coxas co bertos por
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 24 3

uma capa de seda - Renata despej ou-me à frente ao edifício do con­


dado. E ela e a sua cliente, a avantaj ada senhora de ar imponente com
um vestido de seda às bolinhas, disseram:
- Ciao, até logo.
E ali estava o belo arranha-céus de vidro avermelhado e a insigni­
ficante escultura de Picasso, com as escoras e o metal laminado, sem
asas, sem vitória, apenas um símbolo, uma lembrança, apenas a ideia
de uma obra de arte. Muito semelhante, pensei, às outras ideias e lem­
branças com as quais vivemos - já não há maçãs mas a ideia, a re­
construção, feita pelo pomólogo, do que foi uma maçã; já não há ge­
lados mas a ideia, a reminiscência de uma coisa deliciosa fa bricada
agora com substitutivos, amido, glucose e outros produtos químicos;
já não há sexo mas a ideia, ou a lembrança, dele; e o mesmo sucede
com o amor, a fé, o pensamento, e assim por diante. Com este tema
na cabeça, subi num elevador para ver o que queria de mim o tribu­
nal, com os seus espectros de equidade e j ustiça. Quando a porta do
elevador se abriu, abriu-se apenas, nenhuma voz disse << O meu Desti­
no! » . Ou Renata conseguira satisfazer esse desej o ou a voz ficara tão
desalentada que desistira de falar.
Saí e vi o meu advogado, Forrest Tomchek, e o sócio mais novo,
Billy Srole, à espera no fim do amplo, luminoso e cinzento corredor
vazio diante do gabinete do juiz Urbanovich - dois tratantes com um
ar de honestidade. De acordo com Szathmar ( que nem sequer era ca­
paz de recordar um nome tão simples como Crawley) , o meu advoga­
do era o maior talento j urídico de Chicago.
- Se é assim, por que razão não me sinto seguro com Tomchek ?
- Porque és hipercrítico, nervoso e parvo de todo - retorquiu
Szathmar. - Nesta área do D ireito ninguém é mais respeitado e in­
fluente do que ele. O Tomchek é um dos homens mais poderosos dos
meios j udiciais. Em matéria de divórcio e execução de sentenças de se­
paração todos os advogados são como um clube. Substituem-se uns
aos outros, jogam golfe, viajam j untos para Acapulco. Por trás dos bas­
tidores, ele explica aos outros como é que as coisas devem ser feitas.
Compreendes ? Isso inclui os honorários, as consequências fiscais. Tudo.
- Queres dizer que vão investigar as minhas declarações de im­
postos e tudo o resto para decidirem como me hão de cortar aos bo­
cadinhos.
244 SAUL BELLOW

- Meu Deus ! - disse Szathmar. - Fica com a tua opinião sobre


os advogados só para ti .
Estava profundamente ofendido, furioso mesmo, pelo desrespeito
que eu mostrava em relação à sua profissão. Mas concordava com ele
que devia reservar os meus sentimentos . Fiz todos os esforços que es­
tavam ao meu alcance para tratar Tomchek com simpatia e deferência,
mas não me saí muito bem. Quanto mais tentava, cedendo às exigên­
cias de Tomchek, dizendo as coisas certas, tanto mais ele desconfiava
e sentia antipatia por mim. Marcava a pontuação. No fim, como sa­
bia, teria de pagar um preço alto, uns honorários enormes. Eis, por­
tanto, Tomchek. Com Billy Srole, o sócio, ao lado. Sócio é uma pala­
vra esplêndida, uma categoria esplêndida. Srole era gorducho, pálido,
tinha uma atitude muito profissional. Usava o cabelo comprido e man­
tinha-o ondulado acariciando-o com a grossa e branca palma da mão,
puxando-o para trás das orelhas. Os dedos curvavam-se-lhe para cima
nas extremidades. Era um agressor. O refinamento dele era o de um
agressor. Conheço bem essa gente.
- Que tal ? - perguntei.
Tomchek pôs-me o braço por cima dos ombros e mantivemos
uma curta e confusa conversa.
- Nada com que tenhamos de nos preocupar - disse Tomchek.
- O Urbanovich arranj ou inesperadamente tempo para se reunir com
ambas as partes.
- Quer resolver as coisas - disse-me Srole. - Tem muito orgu­
lho no seu historial de negociador.
- Olhe, Charlie - disse Tomchek . - Eis a tática usada por Ur­
banovich: primeira prega um susto. Mostra até que ponto pode criar
dificuldades, de forma a empurrá-lo a si para um acordo. Não entre
em pânico. Legalmente, conseguimos pô-lo numa boa posição.
Reparei nas rugas severas e saudáveis da cara escanhoada de Tom­
chek. O hálito dele era acidamente viril. Exalava um cheiro que eu as­
sociava aos travões dos elétricos antigos, ao metabolismo e às hormo­
nas masculinas.
- Não, não vou ceder mais terreno - repliquei. - Não nos leva
a lado nenhum. Se lhe fizer concessões, ela apresentará novas exigên­
cias. Desde a proclamação da Declaração de Emancipação tem havido
neste país uma batalha secreta para restaurar a escravatura por outros
meios.
o L E G A D O DE H U M B O LDT 24 5

Era este tipo de comentário que levava Tomchek e Srole a descon­


fiarem de mim.
- Está bem, estique a corda e aguente-a - disse Srole. - E deixe
o resto por nossa conta . A Denise tem-se mostrado inflexível com
o seu próprio advogado. O Pinsker não quer complicações. Só está in­
teressado no dinheiro que lhe toca . Não gosta desta situação. Está
a receber assessoria legal por outro lado, através desse Schwirner.
Desrespeitando por completo a ética profissional.
- D etesto o Schwirner ! Filho da puta ! - exclamou Tomchek
com violência. - Se conseguisse provar que anda a comer a queixosa
e a interferir no meu caso, arrumava-o. Fá-lo-ia responder perante
a Comissão de Ética .
- O Tomates de Borracha Schwirner ainda anda metido com
a mulher do Charlie ? - indagou Srole. - Pensei que tinha acabado
de se casar.
- E importa alguma coisa que se tenha casado ? Não deixou de se
encontrar em motéis com essa gaj a maluca. Ela saca-lhe ideias estraté­
gicas na cama e depois enche os ouvidos do Pinsker com elas. O Pins­
ker está confundido. Como eu gostava de apanhar o Schwirner !
Não fiz nenhum comentário e fingi que não estava a ouvir o que
diziam. Tomchek queria convencer-me a contratar um detetive priva­
do para arranj ar coisas com que pudesse entalar Schwirner. Lembrei­
-me de Von Humboldt Fleisher e Scaccia, o detetive particular. Não
queria ter nada com isso.
- Conto convosco para controlar o Pinsker - disse. - Não dei­
xem que me estripe.
- O quê, no gabinete do j uiz ? Ele vai comportar-se corretamente.
Pode dar cabo de si no banco das testemunhas, mas numa conferência
com o j uiz é outra coisa .
- É um animal - disse eu.
Não replicaram.
- É um monstro, um canibal.
Estas minhas palavras causaram uma impressão desagradáve l .
Tomchek e Srole, assim com Szathmar, eram muito suscetíveis quanto
à profissão. Tomchek permaneceu em silêncio. Cabia a Srole, o sócio,
o lacaio, tratar destas coisas com o capcioso Citrine. Brando, distante,
Srole disse:
- Pinsker é um homem muito duro . Um opositor duro . Um lu­
tador.
5 A U L B E L LOW

Muito bem, não admitiam que eu criticasse advogados . Pinsker


pertencia ao clube. Afinal, quem era eu? Uma ténue figura transitória,
excêntrica e desdenhosa. Detestavam o meu estilo. Odiavam-no. E por
que razão haveriam de gostar ? De repente vi as coisas sob o ponto de
vista deles . E fiquei extremamente satisfeito . Na verdade, tudo se es­
clareceu. Talvez estas repentinas iluminações fossem a consequência
das mudanças metafísicas por que estava a passar. Influenciado por
Steiner, raramente pensava na morte com o antigo temor. Já não revi­
via o túmulo sufocante nem tinha medo de uma eternidade de tédio.
Ao invés, sentia com frequência uma leveza e uma paz inesperadas,
como se estivesse a pedalar numa bicicleta flutuante que seguia de­
pressa por entre as estrelas. De vez em quando olhava para mim pró­
prio com estimula nte obj etividade, via-me, literalmente, como um
obj eto entre obj etos no universo físico. Um dia esse obj eto deixaria de
se mover e, quando o corpo entrasse em colapso, a alma Iibertar-se-ia,
pura e simplesmente. Assim, para falar outra vez de advogados, ali es­
tava eu entre eles, três egos desnudados, três criaturas que pertenciam
ao degrau mais baixo do cálculo e da racionalidade modernos . No
passado, o eu tinha tido ornamentos, o traje do estatuto social, de no­
breza ou de inferioridade, e cada um tinha o seu porte, a sua fisiono­
mia, vestia o agasalho adequado. Agora já não existiam vestimentas
e era eu despoj ado com eu despojado a arderem de modo intolerável
e a causar terror. Eu via isso agora, num la mpej o de obj etividade.
Senti-me extasiado.
De qualquer modo, quem era eu para esta gente ? Um bicho raro,
uma curiosidade . Para dar ares de importante, Szathmar havia dito
maravilhas sobre mim, atri buiu-me um valor excessivo, e as outras
pessoas irritaram-se porque lhes disse que me procurassem nos livros
de referência para lerem o que lá vinha a respeito dos meus prémios,
das minhas medalhas e dos meus galardões Zig-Zag. Martelou-as com
isso, disse-lhes que deviam sentir orgulho em terem um cliente como
eu, pelo que, é óbvio, me detestavam antes de me conhecerem. A quin­
ta-essência dos preconceitos deles foi expressa uma vez pelo próprio
Szathmar, quando perdeu a paciência e gritou:
- Não passas de um cretino com uma caneta ! - Estava tão irri­
tado que se excedeu e berrou ainda mais alto: - Com ou sem caneta,
és um cretino !
Mas não me ofendi. Achei que se tratava de um epíteto divertido
e ri-me . Se as palavras forem usadas adequadamente, podiam dizer
O LEGADO DE H u M B O L DT 24 7

o que quisessem de mim. Contudo, sabia com exatidão quais os senti­


mentos que havia despertado a Tomchek e Srole. Da parte deles, ins­
piravam-me um pensamento insólito. É que a História tinha criado
uma coisa nova nos EUA, a saber: falsidade com amor-próprio ou du­
plicidade com honra. A América tinha sempre sido um país íntegro
e moral, um modelo para o mundo inteiro, de modo que havia liqui­
dado a própria ideia de hipocrisia e esforçava-se por viver com esse
novo imperativo de sinceridade; e estava a realizar um trabalho im­
pressionante. Bastava olhar para Tomchek e Srole: pertenciam a uma
profissão prestigiosa e ilustre; essa profissão tinha os seus próprios pa­
drões elevados e tudo era perfeito até aparecer um impossível exem­
plar exótico como eu, que nem sequer era capaz de manter a mulher
na linha, um idiota com queda para entrançar frases e disseminar a
ideia de que havia alguma coisa que estava mal. Desprendia um velho
cheiro acusador. Era , se entendem o que quero dizer, inteiramente
não-histórico da minha parte. Era essa a razão que levava Billy Srole
a lançar-me um olhar turvo de esguelha, como se estivesse divertido
com todas as coisas que me podia fazer, legalmente ou quase, se algu­
ma vez saísse da linha. Cuidado ! Moer-me-ia, cortar-me-ia aos peda­
cinhos com o seu cutelo j urídico. Os olhos de Tomchek, ao contrário
dos de Srole, não precisavam de nenhuma película porque as suas
opiniões mais profundas nunca afloravam nos olhos dele. E eu estava
inteiramente à mercê deste temível par. Na verdade, isso fazia parte
do meu êxtase. Era esplêndido. Tomchek e Srole eram precisamente
aquilo que eu merecia . Nada mais j usto do que pagar um preço por
ter sido tão ingénuo e esperar proteção dos menos puros, de pessoas
que se sentiam inteiramente à vontade no mundo tombado. Um mun­
do do qual me desvinculava, deixando-o para os outros; Humboldt
havia usado o seu prestígio de poeta quando j á não era senão um ma­
luco com ideias desca beladas . E eu andava a fazer mais ou menos
o mesmo, porque era, de facto, demasiado astuto para reclamar seme­
lhante espiritualidade. Creio que a palavra certa é ins incero . Mas
Tomchek e Srole endireitar-me-iam. Para isso contavam com a cola­
boração de Denise, Pinsker, Urbanovich e um elenco de milhares.
- Gostava de saber porque está com ar tão divertido - pergun­
tou-me Srole.
- É uma coisa em que estava a pensar.
- Sorte a sua, ter pensamentos tão agradáveis.
SAU L BELLOW

- Mas quando é que entramos ? - perguntei.


- Quando a outra parte sair.
- O h, quer dizer que a Denise e o Pinsker estão neste momento
a falar com o Urbanovich ? Então, acho que vou descansar na sala do
tribunal. . . Começam a doer-me os pés.
Uma dose de Tomchek e Srole já era demais. Não ia ficar ali de pé
a conversar com eles até sermos chamados. A minha consciência não
os aguentava muito mais tempo. Cansavam-me depressa.
Recuperei as forças sentando-me num banco de madeira. Não ti­
nha nenhum livro para ler, pelo que aproveitei a oportunidade para
uma breve meditação. O objeto que escolhi para meditar foi um bos­
que coberto de rosas. Evocava com frequência esse bosque, mas às ve­
zes apresentava-se sem ser chamado. Era uma mata densa, que estava
sobrecarregada de minúsculas rosas vermelho-escuras e folhas per­
feitas e frescas . De modo que, para começar, pensei << rosa >> ; << rosa » ,
nada mais. Visualizei o s ramos, a s raízes, a penugem áspera dos re­
bentos novos que endurecia até se tornar espinhos, além de toda
a botânica que era capaz de recordar: floema, xilema, câmbio, cloro­
plastos, solo, sol, água, química, esforçando-me por me projetar no
interior da própria planta e imaginar de que maneira o seu verde san­
gue produzia uma flor vermelha. Ah, mas os botões de rosa eram
sempre vermelhos antes de se tornarem verdes . Recordava-me com
minúcia da ordem em espiral interior das pétalas de rosa, a débil flor
esbranquiçada sobre o fundo vermelho e o vagaroso desabrochar que
revelava o centro de germinação. Concentrei todas as faculdades da
alma nessa imagem e mergulhei-a nas flores. Vi então, ao lado destas
flores, uma figura humana de pé. A planta, garantia Steiner, expressa­
va as leis puras e desapaixonadas do crescimento, mas o ser humano,
que aspirava a uma maior perfeição, assumia a carga mais pesada:
instintos, desej os, emoções. Deste modo, um bosque era uma vida
adormecida . Mas a Humanidade assumia o risco das paixões. O desa­
fio consistia em as capacidades mais elevadas da alma purificarem es­
sas paixões. Uma vez purificadas, podiam renascer numa forma mais
refinada. O vermelho do sangue era um símbolo desse processo de de­
puração. Mas mesmo que isso não ocorresse dessa forma, contemplar
rosas deixava-me sempre num estado de beatitude.
Passado algum tempo contemplei outra coisa . Visualizei um anti­
go candeeiro de Chicago, de ferro preto, dos de há quarenta anos,
daqueles que tinham um tampo como um chapéu de toureiro ou um
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 249

címbalo. Era d e noite, agora, e havia uma tempestade d e neve. E u era


miúdo e estava a olhar pela j anela do meu quarto. Naquele temporal
de inverno, o vento e a neve a batiam-se so bre o candeeiro de ferro
e as rosas rodopiavam sob a luz. Steiner recomendava a contemplação
de uma cruz envolta em rosas, mas talvez devido à minha origem ju­
daica preferia um candeeiro. O obj eto não importava, desde que se
saísse do mundo sensível. Quando se conseguia sair dele, podia sentir­
-se que despertavam partes da alma que sempre tinham estado ador­
mecidas.
Já tinha feito bastante progresso no exercício quando Denise saiu
d o g a b i nete do j u i z e atrave s s o u a p orta giratória para se j untar
a mim.
Esta mulher, mãe das minhas filhas, apesar dos problemas que
me causava, costumava recordar-me uma coisa que Samuel Johnson
havia dito sobre as mulheres bonitas: podiam ser tontas, podiam ser
perversas, mas a beleza, por si só, já era muito estimável . Denise era,
desse modo, muito estimável. Tinha uns grandes olhos cor de violeta
e um nariz fino. A pele, levemente penugenta - era possível ver essa
penugem sob luz direta . Recolhia o cabelo no alto da ca beça e isso
dava-lhe demasiado peso. Se não fosse linda, ninguém notaria essa
desproporção. O mero facto de não se aperceber do efeito pesado da
ca beleira parecia às vezes provar que estava meio transtornada. No
tribunal, embora tivesse sido ela a arrastar-me para lá com a sua ação
j udicial, estava sempre a querer mostrar-se simpática. E como neste
dia se mostrava particularmente agradável, calculei que a entrevista
com Urbanovich tivesse sido frutuosa. O facto de me dar pontapés
como a um cão libertava o seu afeto. Porque gostava de mim.
- Ah, estás à espera ? - disse-me.
A voz dela soou aguda e alta, um pouco desafinada, mas também
combativa. Na guerra, os fracos nunca sabem com que força os estão
a ferir. Ainda que, é claro, ela não fosse fraca. A força da ordem so­
cial estava do lado dela. Mas sentia-se sempre fraca, era uma mulher
oprimida. Levantar-se da cama para fazer o pequeno-almoço era qua­
se tudo o que podia enfrentar. Apanhar um táxi para o cabeleireiro
era também muito penoso. A bela cabeça era um fardo pesado para
o não menos belo pescoço . Sentou-se, portanto, ao meu lado, suspi­
rando. Há algum tempo que não ia ao salão de beleza. Quando o ca­
beleireiro lhe a l igeirava o pente a d o , o s o l h o s dela não pareciam
S A U L BE LLOW

tu podes esbanjar o teu dinheiro com gente pior do que o Thaxter,


bem sei. Pelo menos esse tem algum nível. Levou-nos a Wimbledon
em grande estilo. Lembras-te ? Com uma cesta . Cheia de champanhe
e arenque fumado do Harrods. Tanto quanto sei, era a CIA que o fi­
nanciava nesses tempos. Por que não há de a CIA financiar The Ark ?
- Porquê a CIA ?
- Li o teu folheto . Pareceu-me que era precisamente o tipo de re-
vista intelectual que a CIA poderia usar no estrangeiro para fazer pro­
paganda . Imagina-te como uma espécie de estadista cultural.
- Tudo o que quis dizer no folheto foi que os Estados Unidos
não tinham que lutar contra a escassez e que todos nos sentíamos cul­
pados perante pessoas que ainda lutavam por pão e liberdade à moda
antiga, as velhas questões elementares. Não estávamos a morrer de
fome, não éramos massacrados pela polícia, internados em hospícios
por causa de nossas ideias, presos, deportados, transformados em tra­
balhadores escravos mandados para a morte em campos de concentra­
ção. Fomos poupados aos holocaustos e às noites de terror. Com as
nossas vantagens teríamos de estar a formular as novas questões bási­
cas que a Humanidade se deveria colocar. Mas em vez disso estamos a
dormir. Limitamo-nos a dormir e a continuar a dormir, e a comer,
a brincar, a preocupar-nos com trivialidades e a dormir outra vez.
- Quando te dá para a solenidade, transformas-te num desordei­
ro, Charlie. E agora interessas-te por misticismo, além de manteres es­
sa gorda, além de te tornares um atleta, além de te vestires como um
peralvilho: tudo sintomas de declínio físico e mental. Na verdade, te­
nho pena. Não só porque sou a mãe das tuas filhas, mas também por­
que no passado tiveste cabeça e talento. Talvez pudesses ter continua­
do a ser produtivo se os Kennedy fossem vivos. O tipo de atividade
deles manter-te-ia responsável e mentalmente são.
- Falas como o falecido Humboldt. Seria o Czar da Cultura se
Stevenson tivesse vencido as eleições.
- Ainda não se foi o velho complexo de inferioridade em relação
ao Humboldt. Manténs isso. Foi o teu último amigo sério.
Nestas conversas, que tinham sempre um lado de irrealidade, De­
nise acreditava que se mostrava preocupada, solícita, mesmo afetuos� .
O facto de ter acabado de entrar no gabinete do juiz para me preparar
outra armadilha era irrelevante. A seu ver, éramos como a Inglaterra
Ü LEGADO D E H U M B O LDT 253

e a França, queridos inimigos. Para ela, a nossa relação era especial,


permitia conversas inteligentes.
- Têm-me falado do doutor Scheldt, esse teu guru antroposofista.
Dizem que é muito gentil e agradável. Mas a filha dele é uma verda­
deira beldadezinha. E também uma pequena oportunista . Também
quer que te cases com ela. És um repto terrível para aquelas mulheres
que têm sonhos de glória contigo . Mas podes sempre esconder-te
atrás da pobre Demmie Vonghel.
Denise atingia-me com as munições que acumulava diariamente
na ca beça e no coração. Contudo, as informações eram, mais uma
vez, corretas. Como Renata e a velha Sefiora, a Menina Scheldt tam­
bém falava em casamentos entre j ovens e velhos, na felicidade e criati­
vidade dos últimos anos de Picasso, de Casais, de Charlie Chaplin
e do j uiz Douglas.
- A Renata não quer que sej as um místico, não é assim ?
- A Renata não se intromete nisso. Não sou um místico. Aliás,
não vej o por que razão << mÍstico » deva ser uma palavra tão terrível.
Não quer dizer muito mais que a palavra << religião >> , que algumas pes­
soas ainda pronunciam com respeito . Que diz a religião ? Diz que há
uma coisa nos seres humanos que está além do corpo e do cérebro,
e que temos meios de conhecer esse além que nem é o organismo nem
os sentidos. Sempre acreditei nisso. A minha angústia talvez provenha
do facto de ignorar as minhas próprias intuições metafísicas. Frequen­
tei a faculdade, portanto conheço as respostas da cultura . Faz-me um
exame sobre a visão científica do mundo e verá s que obtenho boas
notas. Mas tudo isso não passa de uma coisa mental.
- É s um excêntrico nato, Charlie. Quando disseste que ias escrever
aquele livro sobre o tédio, pensei: cá está ele ! Agora, sem mim, estás
a degenerar rapidamente. À s vezes acho que podias ser interditado ou
internado num manicómio. Porque não regressas ao livro sobre Was­
hington nos anos sessenta ? O material que publicaste em revistas era
bom. Contaste-me muitas coisas que nunca foram publicadas. Se per­
deste as notas, podia recordar-tas. Ainda te posso endireitar, Charlie.
- Achas que sim ?
- Compreendo os erros que ambos cometemos. O teu modo de
vida é demasiado grotesco . . . todas essas raparigas, o desporto e as via­
gens, e agora a antroposofia . O teu amigo D urnwald anda irritado
contigo. E sei que o teu irmão Julius está preocupado. Olha, Charlie,
254 SA U L BELLOW

porque não casas comigo outra vez ? Como recém-casados, podíamos


cancelar o processo. Devíamos voltar a j untar-nos.
- É uma proposta séria ?
- É o que as raparigas desej am acima de tudo . Pensa nisso. Não
estás a ter uma vida feliz. Estás em má forma. Eu estaria a correr um
risco. - Pôs-se de pé e abriu a bolsa . - Aqui tens umas cartas que
vieram para o endereço antigo.
Olhei para o carimbo do correio.
- Já têm vários meses. Podias ter-mas entregue antes, Denise.
- Que diferença faz ? Já recebes correspondência a mais. Não res-
pondes à maioria, e de que te serve ?
- Abriste esta e voltaste a fechá-la. É da viúva do Humboldt.
- Da Kathleen ? Já estavam divorciados muitos anos antes de ele
ter morrido. Sej a como for, aí vem o teu génio da jurisprudência.
Tomchek e Srole entraram na sala e, pelo outro lado, apareceu
o Canibal Pinsker com um extravagante fato amarelo brilhante, de
malha dupla, um grande lenço também amarelo ao pescoço, que lhe
caía sobre a camisa como uma omeleta de queij o, e sapatos castanhos
de dois tons. Tinha uma cabeça brutalmente cabeluda. Grisalho, tinha
o porte de um velho pugilista profissional. Perguntei-me o que poderia
ter sido numa encarnação anterior. E também me interroguei so bre
todos nós.

Afinal, não tivemos de nos reunir com Denise e Pinsker, apenas


com o j uiz. Tomchek, Srole e eu entrámos no gabinete dele. O j uiz Ur­
banovich, croata ou talvez sérvio, era um homem roliço e calvo, um
gordito de cara chata . Mas era cordial, era muito civilizado. Ofere­
ceu-nos uma chávena de café. Atribuí a sua cordialidade ao Departa­
mento de Fiscalização Judicial.
- Não, obrigado - respondi.
- Fizemos até agora cinco sessões no tribunal - começou Urba-
novich. - Este litígio é prej udicial para ambas as partes, embora não
o sej a para os advogados, é claro . Estar no banco das testemunhas
é uma tortura para uma pessoa sensível e criativa como o senhor Ci­
trine . . . - O j uiz tencionava fazer-me sentir a carga irónica das suas
palavras. A sensibilidade num habitante adulto de Chicago, se fosse
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 255

autêntica, era uma forma patológica curável, mas um homem cuj os


ganhos ultrapassavam os duzentos mil dólares nos seus melhores anos
podia estar a fingir sensibilidade. As atitudes com sensibilidade não
fazem tanto dinheiro. - Não é agradável - prosseguiu o Juiz Urba­
novich - ser interrogado pelo senhor Pinsker. Pertence à linha dura.
Não é capaz de pronunciar os títulos das suas obras, ou os nomes das
companhias francesas, italianas ou mesmo inglesas com as quais o se­
nhor mantém relações. Aliás, o senhor não gosta do alfaiate dele, nem
do gosto dele em matéria de camisas e gravatas . . .
E m suma, era péssimo ter este imbecil feio e violento d o Pinsker
a atacar-me, mas se eu permanecesse irredutível o j uiz soltá-lo-ia .
- Três, quatro, cinco vezes diferentes negociámos com a senhora
Citrine - disse Tomchek.
- As vossas propostas não eram suficientemente boas.
- Meritíssimo j uiz, a senhora Citrine j á recebeu avultadas quantias
- disse eu. - Por mais que ofereçamos, ela nunca está satisfeita. Se eu
capitular, garante-me que não voltarei ao tribunal no próximo ano ?
- Não, mas posso tentar. Posso determinar que sej a res judicata1•
O seu problema, senhor Citrine, é sua comprovada capacidade de ga­
nhar grandes quantias.
- Ultimamente não tem sido assim.
- Só porque o senhor está incomodado com o litígio. Se lhe puser
fim, livro-o desse fardo e deixará de haver limites para o que o senhor
possa conseguir. Agradecer-me-á . . .
- Meritíssimo j uiz, sou antiquado e talvez até obsoleto. Nunca
aprendi os métodos de produção em série.
- Não se enerve, senhor Citrine. Confiamos em si. Temos lido os
seus artigos na Look e na Life.
- Mas a Life e a Look saíram do mercado. Também se tornaram
obsoletas.
- Temos as suas declarações de impostos. Contam uma história
diferente.
- No entanto - disse Tomchek -, em termos de uma estimativa
fiável de negócio, como pode o meu cliente comprometer-se a pro­
duzir ?

1 Res judicata ( Coisa j u lgada ) : modalidade j urídica que admite o fim de uma
ação desde que se considere j ulgada a causa, sej a por acordo das partes, sej a por
aceitação dos seus termos antes da sentença do j u iz. (N. do T.)
S A U L BELLOW

- Aconteça o que acontecer, é impensável que o senhor Citrine fi­


que abaixo do escalão fiscal dos cinquenta por cento - disse Urbano­
vich. - Deste modo, se pagar trinta mil dólares por ano à senhora
Citrine, isso só lhe vai custar efetivamente quinze mil. Até a filha mais
nova atingir a maioridade.
- Quer dizer, nos próximos catorze anos, ou até que chegue aos
setenta, terei de ganhar cem mil dólares por ano. Não posso deixar de
achar graça a isso, meritíssimo j uiz. Ah, ah! Não creio que o meu cé­
rebro sej a suficientemente forte e é a minha única fonte de rendimen­
tos . Há quem tenha terras , arrendamentos, existências, depósitos,
mais-valias, medidas para manter os preços, deduções sobre ativos,
subsídios federais. Não tenho nenhum desses benefícios.
- Ah, mas o senhor é uma pessoa esperta, senhor Citrine. Isso
é evidente mesmo em Chicago. Portanto, não há necessidade de abor­
dar este caso como se fosse uma situação especia l . Na partilha de
bens feita por decisão j udicial a senhora Citrine recebeu menos de me­
tade e alega que os registos estavam falsificados. O senhor é um pou­
co sonhador e provavelmente descurou o assunto. Talvez os registos
tenham sido falsificados por outros. Não obstante, o senhor é respon­
sável perante a lei.
- Negamos que tenha havido qualquer fraude - disse Srole.
- Bem, não creio que a questão principal neste momento sej a
a fraude - disse o j uiz, fazendo com as mãos abertas um gesto de
quem quer despachar o assunto. É óbvio que era do signo astrológico
Peixes. Os botões de punho dele eram uns minúsculos peixes cuj as ca­
beças e caudas estavam entrelaçadas. - Quanto à reduzida produtivi­
dade do senhor Citrine nos últimos anos, pode tratar-se de um ato de­
li berado para prej udicar a queixosa. Ou talvez estej a numa fase de
transição intelectu a l . - Percebia-se que o j u iz estava a passar um
bom bocado. Era visível que não gostava de Tomchek, o Estadista do
Divórcio, e sabia, como eu, que Srole não passava de um servo, além
de se estar a divertir à minha custa. - Sou compreensivo em relação
aos problemas dos intelectuais e sei que podem ter preocupações espe­
ciais que não são lucrativas. Mas também sei que Maharishi se tor­
nou milionário ensinando as pessoas a dobrarem a língua para além
do palato até conseguirem tocar com a ponta os próprios seios parana­
sais. Muitas ideias são comerciais, vendáveis, e talvez as suas preocupa­
ções especiais sejam mais lucrativas do que o senhor imagina - disse.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 257

A antroposofia estava a produzir efeitos precisos. Não podia levar


aquilo muito a sério. Um ar de outro mundo matizava tudo e a pouco
e pouco o meu espírito parecia dissociar-se do meu corpo. Deixava­
-me e saía pela j anela para flutuar por um breve instante sobre a pra­
ça municipal. Ou as rosas da meditação começavam a refulgir na mi­
nha cabeça, florescendo num verde orva lhado. Mas o j u i z estava
a dar-me uma lição, propondo-me uma reinterpretação do século xx

- não fosse eu esquecer-me -, e decidindo como devia viver o resto


da minha vida . Segundo ele, era preciso que deixasse de ser um arte­
são à moda antiga e adotasse os métodos da manufatura sem alma
( Ruskin) . Tomchek e Srole, em extremos opostos da secretária, aceita­
vam e aplaudiam no seu íntimo esta visão. Não disseram quase nada .
Sentindo-me abandonado, vexado, disse:
- A ser assim, trata-se de cerca de meio milhão de dólares a mais.
E, mesmo que ela volte a casar, quer um rendimento garantido de dez
mil dólares ?
- Exatamente.
- E o senhor Pinsker pede honorários de trinta mil dólares, dez
mil para cada mês que gastou no caso ?
- Até é razoável - disse o j uiz. - Parece-me que o senhor não
tem sido muito prej udicado em matéria de honorários.
- Nã o ultrapassam os quinhentos dólares por hora . Acho que
é isso que o meu tempo vale, sobretudo quando tenho de fazer uma
coisa que não me agrada - repliquei.
- Senhor Citrine - disse-me o j uiz -, o senhor tem tido uma vida
mais ou menos boémia. Agora que j á experimentou o casamento,
a família, as instituições da classe média, quer abandoná-las. Mas não
podemos permitir que encare essas coisas de ânimo leve.
De súbito, o meu distanciamento acabou e vi-me num estado de
grande nervosismo. Compreendi que tipo de emoções tinham dilace­
rado o coração de Humboldt quando o agarraram, ataram e levaram
para o Bellevue. O homem de talento lutou com polícias e enfermei­
ros. E, enfrentando a ordem social, também tivera de lutar para repri­
mir a sua aspiração shakespeariana, a aspiração por um discurso apai­
xonado . A isso se tinha de resistir. Podia ter gritado. Podia ter sido
eloquente e comovedor. Mas e se acabasse como Lear a interpelar as
filhas ou como Shylock a censurar os cristãos ? Não adiantaria nada
SAU L BELLOW

proferir palavras incendiárias. As filhas e os cristãos compreendiam.


Tomchek, Srole e o j uiz, não. Suponhamos, por exemplo, que me pu­
nha a perorar sobre a moralidade, sobre a carne e o sangue, e a j ustiça
e o mal, e sobre o que era ser eu, Charlie Citrine ? Não era isto um tri­
bunal de equidade, um foro de consciênci a ? E não tinha tenta do,
à minha confusa maneira, trazer algum bem ao mundo ? Sim, e apesar
de ter perseguido uma meta tão alta, que não consegui alcançar, j us­
tamente agora que estava a envelhecer, a enfraquecer, a perder o alen­
to, a duvidar da minha resistência e até da minha sanidade mental,
queriam obrigar-me a suportar um fardo ainda mais pesado durante
a última década, ou fosse lá o que fosse, que me restava de vida. De­
nise não tinha razão quando dizia que eu largava pela boca fora tudo
o que me vinha à cabeça . Não senhor. Cruzei os braços sobre o peito
e mantive-me de boca fechada, arriscando-me a ter um ataque de co­
ração por conter a língua. Aliás, em termos de sofrimento, encontra­
va-me numa posição de nível médio ou talvez baixo. Portanto, por
respeito em relação ao verdadeiro sofrimento, fiquei de bico calado.
Desviei os meus pensamentos para uma linha diferente. Pelo menos
tentei. Interroguei-me sobre o que me teria escrito Kathleen Fleisher
Tigler.
Eram tipos muito duros. Prestavam-me atenção apenas por causa
dos meus bens mundanos. Se não fosse por isso, já estaria atrás das
grades de aço da prisão do condado. Quanto a Denise, essa maravi­
lhosa lunática de grandes olhos cor de violeta, fino nariz penugento,
voz estridente e marcial - suponhamos que lhe oferecia todo o meu
dinheiro: não serviria de nada, exigiria sempre mais. E o juiz ? Era um
cidadão de Chicago, e um político, e o negócio dele era aplicar a jus­
tiça com equanimidade de acordo com a lei. Um governo de leis ?
O que havia era um governo de advogados. Mas não, não, inflamar
o coração e incendiar as palavras só agravaria a situação. Não, nesta
altura o importante era o silêncio, a firmeza e o silêncio . Não abriria
a boca. Uma rosa, ou uma coisa que resplandecia como uma rosa, ir­
rompeu por sua conta e risco e agitou-se um instante no meu crânio,
e senti que a minha decisão era aprovada.
O juiz começou a bombardear-me a sério.
- Tenho conhecimento de que o senhor Citrine tem saído do país
com frequência e tem a intenção de viaj ar novamente.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 259

- É a primeira vez que ouço isso - disse Tomchek. - Vai a al­


gum lado ?
- No Natal - respondi. - Há alguma razão para que não pos­
sa ir?
- Nenhuma - disse o j uiz -, desde que não queira fugir à justi­
ça. A queixosa e o senhor Pinsker insinuaram que o senhor Citrine
pretende abandonar definitivamente o país. Dizem que não renovou
o contrato de arrendamento do apartamento e que está a vender a sua
valiosa coleção de tapetes orientais. Assumo que não há contas nume­
radas na Suíça . Mas o que é que o impede de levar a sua cabeça, que
é o seu principal património, para a Irlanda ou a Espanha, países que
não têm acordos de extradição com o nosso ?
- Há alguma prova disso, meritíssimo j uiz? - indaguei.
Os advogados começaram a discutir o assunto entre eles e pergun­
tei-me como teria Denise ficado a saber da minha viagem ao estran­
geiro. Certamente que Renata tinha contado tudo à Seiíora e esta,
que, para garantir o j antar, cantava por toda a Chicago, precisava de
números interessantes para cantar. Se não tivesse nada interessante
para contar à mesa, morria. No entanto, também era possível que
a rede de espionagem de Denise tivesse contactos na Agência de Via­
gens Poliakoff's.
- Dá a ideia que estes voos frequentes à Europa obedecem a um
propósito.
O j uiz Urbanovich, com a mão na válvula, não parava de aumen­
tar a temperatura. O seu olhar afável dizia com veemência: << Cuida­
do ! >> E de repente Chicago deixou de ser a minha cidade. Estava total­
mente irreconhecível . Imaginava simp lesmente que tinha crescido
aqui, que conhecia o lugar, que aqui era conhecido. Em Chicago, os
meus anseios eram uma tontice, o meu ponto de vista, uma ideologia
estranha, e percebi o que o j uiz me estava a dizer. Era que eu tinha
evitado todos os Canibais Pinskers e que me tinha livrado de reali­
dades desagradáveis. Ele, Urbanovich, homem tão esperto como
eu, com tanta sensibilidade e melhor aparência, calvo ou não, fora
obrigado a pagar integralmente as suas dívidas sociais, j ogando golfe
com todos os Pinskers, almoçando com eles. Tivera de suportar tudo
isso, como homem e cidadão, ao passo que eu tinha liberdade de an­
dar para cima e para baixo de elevador à espera que um ser querido
2 60 S A U L B E LLOW

- << O meu Destino ! » - me sorrisse da próxima vez que a porta se


abrisse. Eles já me dariam o meu Destino.
- A queixosa pediu uma ordem de ne exeat. Estou a considerar
se não devia estabelecer uma fiança - disse Urbanovich. - Digamos
duzentos mil.
Indignado, T omchek disse:
- Sem nenhuma prova de que o meu cliente vai fugir ?
- É uma pessoa muito distraída, meritíssimo - disse Srole. -
Esquecer-se de assinar um contrato de arrendamento é um equívoco
perfeitamente normal.
- Se o senhor Citrine fosse dono duma pequena loja de venda
a retalho, de uma pequena fábrica, se exercesse uma profissão ou ti­
vesse um cargo numa instituição - disse Urbanovich - não se colo­
caria a hipótese de uma fuga repentina.
Observava-me, especulativamente, com uma terrível ligeireza nos
olhos redondos.
- O Citrine é natural de Chicago, uma personalidade desta cida­
de - argumentou Tomchek.
- Sei que desapareceu muito dinheiro este ano. Não sei se não
deveria usar a palavra esbanjar. .. o dinheiro é dele. - Urbanovich
consultou um memorando. - Grandes perdas num projeto editorial
denominado The Ark . Um colega seu, o senhor Thaxter. .. com pesa­
das dívidas.
- Está a insinuar que não são perdas legítimas e que ele anda
a desviar dinheiro ? Isso não passa de suspeitas e alegações da senhora
Citrine - disse Tomchek. - O tribunal entende que são factos ?
- Esta nossa conversa é feita em privado, dentro das quatro pare­
des do meu gabinete, mais nada - disse o j uiz. - Contudo, tendo em
vista o facto indiscutível de que tanto dinheiro bateu as asas de repen­
te, acho que o senhor Citrine deve apresentar-me um extrato do esta­
do atual das suas finanças para o caso de eu ter fixar uma fiança .
Não vai recusar, pois não, senhor Citrine ?
Oh mau, muito mau ! Será que Cantabile tem razão, afinal de con­
tas ? - atropelá-la com um camião, matar a cabra .
- Terei de me sentar com o meu contabilista, meritíssimo j uiz­
respondi.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 261

- O senhor tem um ar de quem está a ser perseguido. Espero que


compreenda que sou imparcial, que devo ser j usto com ambas as par­
tes. - Quando o j uiz sorria, alguns músculos que pessoas mais toscas
nunca desenvolvem tornavam-se visíveis. Era interessante. Que inten­
ção teria originalmente a natureza ao criar esses músculos ? - Pes­
soalmente, não creio que pretenda fugir. A senhora Citrine reconhece
que é um pai muito afetuoso. Aliás, as pessoas ficam desesperadas
e podem tomar atitudes precipitadas.
Queria dar-me a entender que a minhas relações com Renata não
eram secretas.
- Espero q u e o senhor d o utor j u i z , a senho ra Citrine e o se­
nhor Pinsker me deixem ficar com alguma coisa com que viver.
Depois, nós os três, o grupo da parte acusada, estávamos outra
vez no corredor de pedra muito polida, salpicada de pintas cinzento­
-claras, e Srole disse:
- Charles, tal como previmos: é a técnica dele. Agora é suposto
que estej a aterrorizado e nos peça para que cheguemos a um acordo
que os impeça de o retalhar e esquartej ar.
- Bem, está a funcionar - respondi. Desej ei ver-me fora daquele
edifício público, com os seus inúmeros recantos, e entrar noutra vida,
para nunca mais ser visto. - Estou apavorado - acrescentei. - Es­
tou mais do que pronto para chegar a um acordo.
- Sim, mas não pode. Ela não vai aceitar - disse Tomchek -, li­
mitar-se-á a fingir. Não quer ouvir falar de acordos. Vem nos livros,
e todos os psicanalistas com quem discuti o assunto me disseram
a mesma coisa : castração, é disso que se trata quando uma mulher
anda atrás do dinheiro.
- Não percebo bem por que razão o Urbanovich está tão dispos­
to a aj udá-la .
- Para ele, isto é tudo muito divertido - disse Srole. - Tenho
essa impressão muitas vezes.
- E no final, a maior parte do dinheiro será aplicada a pagar as
custas - disse eu. - Pergunto-me às vezes se não seria melhor desis­
tir e fazer voto de pobreza . . .
Porém isto era uma teorização ociosa. Sim, podia renunciar à mi­
nha pequena fortuna e viver e morrer num quarto de hotel como
Humboldt. Estava mais bem preparado do que ele para levar uma vi­
da intelectual, visto não ser um maníaco-depressivo, e até me poderia
convir. Só que não me conviria totalmente. Porque então deixaria de
5 A U L BELLOW

haver Renatas, vida erótica e as angústias excitantes associadas a essa


vida, que eram talvez ainda mais importantes para mim do que o pró­
prio sexo. Não era propriamente de um voto de pobreza que Renata
andava à procura.
- A fiança, a fiança é que é o problema . É um golpe baixo - dis­
se eu. - Na verdade, acho que deveriam ter levantado mais objeções.
Dar luta .
- Dar luta como ? - disse Srole. - É tudo bluff. Não tem qual­
quer fundamento . Esqueceu-se de assinar um contrato de arrenda­
mento . Tem feito viagens à Europa . Podem ser viagens de carácter
profissional. Mas diga-me como é que essa mulher pode estar a par de
todos os seus passos ?
Tinha a certeza de que a Sra. Da Cintra, da agência de viagens,
a do turbante de caxemira estampado, dera as informações a Denise
porque Renata fora grosseira, ou mesmo arrogante, com ela. Quanto
ao conhecimento que Denise revelava dos meus passos, tinha-me
ocorrido uma analogia. No ano passado, levei as minhas filhas a um
acampamento do Velho Oeste e visitámos o lago dos castores. Ao lon­
go da margem, os Serviços Florestais haviam colocado cartazes com a
descrição do ciclo vital dos castores. Estes não tinham consciência disso
e continuavam a roer, a fazer diques, a comer e a procriar. O meu caso
era muito parecido. Para Denise, de acordo com o italiano mozartia­
no que tanto apreciava, Tutto tutto già si sa. Tudo, tudo sobre mim
já se sabia.
Apercebi-me naquele instante de que tinha ofendido Tomchek ao
criticar a sua maneira de tratar a questão da fiança . Não, pior ainda,
tinha-o encoleriza d o . Contudo, para não a fetar as relações com
o cliente, descarregou a irritação em Denise:
- Como foi capaz de casar com uma cabra tão ordinária ! - dis­
se. - Onde diabo tinha a cabeça ! É tido como um homem inteligente.
E se uma mulher como ela decide chateá-lo até à morte, o que é que
espera que um par de advogados possa fazer ?
Perdido o fôlego com tanta exasperação, não conseguiu dizer mais
nada mas meteu com violência a pasta debaixo do braço e foi-se em­
bora. A minha vontade é que Srole também se fosse, mas ele sentia-se
obrigado a explicar-me a solidez da minha situação j urídica (graças
a ele ) . Ficou à minha frente, repetindo que Urbanovich não podia
mandar apreender o meu dinheiro. Não tinha poderes para tanto.
Ü L E G A D O D E H U M B O L DT

- Mas se acontecer o pior e lhe impuser uma fiança, conheço um


tipo que lhe pode fazer uma magnífica oferta em obrigações munici­
pais isentas de impostos, de modo a que não perca os rendimentos do
dinheiro congelado.
- É bem pensado - repliquei.
Para me escapar, fui à casa de banho dos homens. Como me se­
guiu até lá, tive de entrar num dos reservados para, finalmente, me
ver livre dele e poder ler a carta de Kathleen.

Como era de esperar, Kathleen informava-me da morte do seu se­


gundo marido, Frank Tigler, num acidente de caça. Conhecia-o bem,
porque tinha sido hóspede no rancho para turistas dele durante as seis
semanas que estive em Nevada para me habilitar ao divórcio. Era um
lugar solitário, decadente, abandonado por Deus na margem do lago
Volcano. As minhas relações com Tigler foram memoráveis . Tinha
mesmo o direito de reivindicar que me devia a vida, porque quando
caiu de um barco atirei-me à água para o salvar. Salvar ? O aconteci­
mento em causa nunca pareceu merecer essa descrição. Mas ele era
um desses vaqueiros que não sabiam nadar, um aleij ado quando não
estava a cavalo. Em terra firme, com botas e chapéu de abas largas,
parecia sofrer de um problema nos j oelhos, e quando caiu à água - a
coraj osa cara bronzeada com so brancelhas ruivas eriçadas, as per­
nas encurvadas pelo hábito de montar - lancei-me logo atrás dele
porque a água não era o seu elemento. Era o exemplo mais típico de
homem de terra firme . Mas porque estávamos num barco ? Porque
Tigler adorava pescar. Não é que fosse um pescador, antes alguém
que estava sempre disposto a fazer alguma coisa a troco de nada .
E era primavera e os latimeria abundavam. Os latimeria, uma antigui­
dade biológica aparentada com os celacantos do oceano Í ndico, viviam
no lago Volcano, vindo à tona, de grandes profundidades, para deso­
var. Muitas pessoas, na maioria índios, arpoavam-nos. Eram uns pei­
xes pouco elegantes, de aspeto estranho, fósseis vivos. Eram postos
a secar ao sol e empestavam a aldeia índia. As águas do lago Volcano
podem ser descritas como « cristalinas >> e << voltaicas >> . Quando Tigler
caiu, temi que não o voltasse a ver; os índios tinham-me contado que
o lago tinha quilómetros de profundidade e que os corpos raramente
eram recuperados. De modo que me lancei à água, e o frio era arre­
piante. Empurrei Tigler para dentro do barco. Não confessou que não
SAUL BELLOW

sabia nadar. De facto, não confessou nada, não disse nada, limitou-se
a agarrar no arpão para apanhar o chapéu que estava a flutuar. As
botas de vaqueiro estavam cheias de água. Não me agradeceu nem eu
lhe pedi que o fizesse. Tratou-se de um incidente entre dois homens.
Quer dizer, calculei que seria o silêncio másculo do Oeste. Por certo
que os índios tê-lo-iam deixado afogar-se. Não querem que os ho­
mens brancos andem de barco no lago, dominados pela febre de al­
guma-coisa-a-troco-de-nada, e capturassem os seus latimeria. Aliás,
detestavam Tigler por baixar artifici a lmente os preços e aldrabar,
e porque deixava que os seus cavalos pastassem por todo o lado. Como
se isso fosse pouco, e tinha sido o próprio Tigler quem mo dissera, os
peles-vermelhas não interferiam na morte, parecendo apenas deixá­
-la seguir o seu curso. Uma vez, contou-me, estava presente quando
um índio chamado Winemucca foi atingido a tiro diante da estação
dos correios. Ninguém chamou o médico. O homem tinha-se esvaído
em sangue na rua até morrer, enquanto homens, mulheres e crianças,
sentados nos bancos e nos seus velhos automóveis, observavam em
silêncio . Mas neste momento, nos andares mais altos do edifício do
condado, podia ver a figura de vaqueiro do falecido Tigler como se es­
tivesse esculpida em bronze, rodopiando sem parar na água eletri­
zante e gelada, e então vi-me também a mim, que tinha aprendido
a nadar em Chicago, num pequeno tanque de água clorada, a ir atrás
dele como uma lontra.
Pela carta de Kathleen fiquei a saber que morrera em combate .
<< Dois tipos de Mill Valley, Califórnia, queriam caçar veados com bes­
tas >> , escrevia Kathleen . << Frank era o guia e levou-os para o monte .
Ho uve uma altercação com o guarda-florestal . Acho que chegaste
a conhecê-lo, um índio chamado Tony Calico, veterano da Guerra da
Core i a . Um dos caçadores tinha a ntecedentes crimina i s . O p o bre
Frank, como sabes, gostava de andar um pouco à margem da lei.
Neste caso não estava a cometer nenhuma ilegalidade, mas ainda an­
dava lá perto. Havia caçadeiras no Land Rover. Não quero entrar em
pormenores, é-me demasiado doloroso. Frank não disparou mas foi
o único a ser atingido. Morreu, esvaído em sangue, antes de Tony
o conseguir levar para o hospital. >>
<< Foi um golpe muito duro para mim, Charlie >> , continuava ela.
<< Estivemos casados doze anos, como sabes. Sej a como for, para não
me alongar demasiado, houve um grande funeral. Vieram criadores
o L E G A D O DE H U M B O L D T

de cavalos de três estados e sócios de Las Vegas e Reno. Era muito


querido. >>
Sabia que Tigler tinha sido cavaleiro de rodeios e domador de po­
tros, que tinha recebido muitos prémios e granjeado um certo reco­
nhecimento no mundo da criação de cavalos, mas duvidava que fosse
apreciado por alguém a não ser Kathleen e a sua velha mãe. Os lucros
do rancho para turistas eram aplicados por inteiro em cavalos de cor­
rida . Alguns deles estavam registados com documentos falsos, dado
que os seus progenitores tinham sido expulsos do circuito de corridas
por estarem dopados ou ilegalmente medicados . As normas de con­
trolo hereditário eram muito rigorosas. Tigler via-se constrangido
a contorná-las com documentos forj ados. Assim, andava de hipódro­
mo em hipódromo e deixava Kathleen a cuidar do negócio. O negócio,
diga-se, era pouco, mas ele tirava tudo o que podia dos rendimentos
para comprar forragem e atrelados. As cabanas dos hóspedes empena­
vam e caíam. Lembravam-me a decadente criação de frangos de Hum­
boldt. Kathleen encontrava-se exatamente no mesmo dilema no Neva­
da. O destino - destino interior - era demasiado poderoso para ela.
Tigler tinha-a posto a gerir o rancho e dissera-lhe que não pagasse nada
a não ser as faturas indispensáveis dos cavalos, e estas só no caso
de o pagamento lhe ser exigido com violência.
Estava cheio de problemas, mas a dupla solidão de Kathleen - pri­
meiro na Nova Jérsia, depois no Oeste - deixou-me profundamente
comovido. Apoiei-me no tabique da retrete do edifício do condado
tentando obter melhor luz de cima sobre a carta, que tinha sido dacti­
lografada com uma fita gasta . << Sei que estimavas Tigler, Charlie. Pas­
saram bons bocados a pescar trutas e a j ogar póquer. Foi assim que
conseguiste esquecer os teus problemas. >>
Isso era verdade, embora tivesse ficado furioso quando pesquei
a primeira truta. Estávamos a pescar ao corrico no barco dele e o isco
também era dele, de modo que me disse que a truta lhe pertencia. Fez
uma cena e eu acabei por atirar o peixe para o colo dele. O cenário era
sobrenatural . Não se tratava de uma zona de pesca - rochas nuas,
nenhuma árvore, pungentes artemísias bravas e poeira de antracite
que se elevava e flutuava quando passava um camião.
No entanto, Kathleen não me escrevia para falar de Tigler mas
porque Orlando Huggins andava à minha procura. Humboldt tinha-me
deixado uma coisa. Huggins era o testamenteiro dele. Huggins, aquele
266 S A U L BELLOW

velho playboy esquerdista, era um homem decente, no fundo uma


pessoa honrada. Também apreciara Humboldt. Depois de este me ter
denunciado publicamente como fa lso irmão de sangue, chamaram
Huggins para que pusesse ordem nalguns dos assuntos de Humboldt.
Apressou-se a deitar mãos à tarefa . Mais tarde, Humboldt acusou-o
de estar a enganá-lo e também ameaçou processá-lo. Porém, era evi­
dente que o cérebro de Humboldt se desanuviara no final . Identificara
os amigos verdadeiros, nomeando Huggins administrador dos seus
bens. Kathleen e eu não fomos esquecidos no seu testamento . Nunca
me disse quanto tinha recebido dele, mas Humboldt não tinha grande
coisa para legar. Kathleen mencionou, todavia, que Huggins lhe havia
entregado uma carta póstuma de Humboldt. << Falava do amor e das
oportunidades que tinha perdido » , escrevia Kathleen. <<Mencionava os
velhos amigos, Demmie e tu, e os bons tempos no Village e no campo. »
Não consigo imaginar o que poderia tornar esses tempos tão bons.
D uvido que Humboldt tenha passado um único dia bom em toda
a vida . Entre altos e baixos e turvas vertigens de mania e depressão, ti­
vera momentos positivos. Talvez não os suficientes para lhe darem
duas horas consecutivas de tranquilidade. Mas Humboldt podia ter
atraído Kathleen por razões que, por imaturidade, me escapavam há
vinte e cinco anos. Ela era uma mulher de grande valor, cujos senti­
mentos íntimos não eram visíveis porque a sua maneira de estar no
mundo era muito silenciosa . Quanto a Humboldt, tinha certa nobreza
até nos momentos de loucura . A verdade é que se mantinha fiel a algu­
mas grandes coisas. Lembro-me do brilho dos seus olhos quando bai­
xou a voz para pronunciar a palavra << reacender>> t , dita por um tipo
que estava prestes a cometer um assassínio, ou quando repetia as pala­
vras de Cleópatra : << Tenho anseios imortais dentro de mim. >>2 Aquele
homem amava profundamente a arte. E nós amávamo-lo por esse moti­
vo. Até quando a decadência tomou conta dele, havia espaços incorrup­
tíveis em Humboldt que não apodreceram. Contudo, j ulgo que queria
que Kathleen o protegesse quando entrava naqueles estados de espíri­
to em que os poetas têm de entrar. Estes estados de elevação onírica,

1 Refere-se a Otelo que, a u m passo de « extinguir» a luz de Desdémona, se in­

terroga onde estará << aquele fogo de Prometeu que reacenderá ( relume ) >> a morta
iminente ( Othello, Ato V, Cena II): << I know not where is that Promethean heat I
I That can thy light relume. » (N. do T.)
2 Anthony and Cleopatra (António e Cleópatra ) . Ato V, Cena II. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

sempre na mira da artilharia antiaérea da crítica americana, eram o que


ele desej ava que Kathleen preservasse. O feitiço. Ela fez o melhor que
pôde para o ajudar com esse feitiço. Mas ele nunca conseguiu acumular
feitiço ou material onírico suficientes para se agasalhar. Não o tapavam.
No entanto, eu vira o que Kathleen tentara fazer e admirava-a por isso.
A carta continuava. Relembrava as nossas longas conversas debai­
xo das árvores no Rancho Tigler. Acho que lhe falei de Denise, preo­
cupado em j ustificar-me. Recordo as árvores a que se referia, alguns
bordos 1 e choupos. Tigler fazia propaganda do alegre encanto do ho­
tel, mas as tábuas descoloridas dos antigos barracões dos trabalha­
dores estavam rachadas e caíam e a piscina estava cheia de fendas e
coberta de folhas e sujidade. As vedações tinham tombado e as éguas
de Tigler trotavam livremente por cima como belas matronas nuas.
Kathleen vestia calças de algodão grosso e a camisa aos quadrados
dela tinha sido lavada tantas vezes que parecia ectoplasma. Lembro­
-me de Tigler acocorado, a pintar outra vez os chamarizes em forma
de pato . Naquela ocasião estava calado porque alguém, irritado por
não lhe ter sido paga uma fatura, lhe tinha partido o maxilar, que fo­
ra suturado com grampos de arame. Aliás, nessa semana os diversos
serviços tinham-lhe sido cortados, os hóspedes tiritavam de frio e não
havia água. Tigler dizia que era o Oeste de que os turistas realmente
gostavam. Não estavam ali para ser apaparicados. Queriam dureza
e dificuldades. Mas Kathleen disse-me:
- Só vou conseguir aguentar isto mais um ou dois dias.
Felizmente apareceu uma produtora cinematográfica que estava
a preparar um filme sobre as hordas mongóis e Tigler foi contratado
como especialista em cavalos. Recrutou índios para que vestissem trajes
asiáticos acolchoados e galopassem soltando gritos estridentes e fazen­
do acrobacias . Foi uma coisa muito importante para o lago Volcano.
O padre Edmundo, ministro episcopaliano que na j uventude tinha sido
estrela do cinema mudo, além de ser um homem muito atraente, reivin­
dicou para si o crédito por esses rendimentos inesperados. Vestia, no
púlpito, magníficos négligés antigos. Os índios eram grandes cinéfilos.
Murmuravam que as roupas do sacerdote lhe haviam sido oferecidas
por Marion Davies ou Gloria Swanson. O padre Edmundo afirmava
que fora ele próprio, através dos seus contactos em Hollywood, quem
convencera a produtora a vir para o lago Vulcano. Fosse como fosse,

1 Á rvore da família das aceráceas (Acer saccharinum ) . (N. do T.)


268 SAUL BELLOW

Kathleen conheceu gente do cinema. Refiro-me a isto porque, na carta,


me falava na hipótese de vender o rancho e mandar a mãe de Tigler
para casa de umas pessoas de Tungsten City enquanto ela procurava
um emprego na indústria cinematográfica. As pessoas que se encon­
tram em situações de transição interessam-se frequentemente pelo
cinem a . O u é isso, ou começam a fa lar na possibilidade de voltar
a frequentar a universidade para obter um diploma. Deve haver vinte
milhões de americanos que sonham voltar à universidade. Até Renata
não parava de dizer que se queria inscrever em De Paul .
Regressei à sala do tribunal para ir buscar o meu sobretudo juvenil
de xadrez amarelado, pensando no que poderia fazer para arranj ar di­
nheiro se Urbanovich me impusesse a fiança . Que grande cabrão me
tinha saído este juiz careca croata-americano. Não conhecia as crian­
ças, nem Denise, nem a mim, portanto que direito tinha de me extor­
quir dinheiro ganho com o esforço e a febre do meu pensamento nas
peculiares operações do meu cérebro ? ! Oh sim, eu também sabia ser
magnânimo em matéria de dinheiro. Sim, que ficassem com tudo !
E podia preencher um questionário psicológico com o s melhores
deles, certo de estar entre os 10% mais magnânimos. Mas Humboldt
- neste dia andava às voltas com Humboldt - costumava acusar-me
de tentar passar a vida nos pisos superiores do edifício da consciência
superior. A consciência superior, dizia Humboldt em tom didático,
era « inocente, inconsciente de qualquer mal em si mesma >> . Quando
se pretendia viver inteiramente num estado de consciência superior,
ser puramente racional, via-se a maldade apenas nos outros, nunca
em si mesmo. Partindo desta constatação, Humboldt continuava a in­
sistir que no inconsciente, no núcleo irracional das coisas, o dinheiro
era uma substância vital, como o sangue ou os fluidos que banham
os tecidos do cérebro. Visto que falava sempre com tanta seriedade
do relevante significado do dinheiro, quem sabe se não me teria devol­
vido os meus seis mil setecentos e sessenta e tantos dólares nas suas
últimas vontades testamentárias ? Claro que não, como poderia fazer
isso ? Morrera na miséria, num pardieiro. Além disso, com seis mil dó­
lares não iria muito longe agora . Szathmar, sozinho, devia-me mais.
Tinha-lhe emprestado dinheiro para comprar um apartamento . De­
pois havia Thaxter. Este, ao não pagar uma dívida, custara-me cin­
quenta ações da IBM que tinham servido de garantia . Após muitas
o L E G A D O DE H U M B O L DT

cartas de advertência, o banco, com gestos e pedidos de desculpas éti­


cos, quase a chorar ao ver-me tão cruelmente aguilhoado por um ami­
go cúmplice, apossou-se das ações. Thaxter comentou que se tratava
de perdas dedutíveis nos impostos. Ambos, Thaxter e Szathmar, cos­
tumavam consolar-me com esse comentário. Apelando, inclusive, para
a dignidade e os valores a bsolutos . ( Não era eu que aspirava a ser
magnânimo, e não era a amizade muito mais importante do que o di­
nheiro ? ) Toda a gente me deixava sem um chavo . E agora, que fazer?
Devia aos editores perto de setenta mil dólares recebidos como adian­
tamento por livros que estava demasiado bloqueado para escrever. Ti­
nha perdido por completo o interesse por eles. Podia vender os meus
tapetes orientais. Dissera a Renata que estava farto deles, e ela conhe­
cia um negociante arménio que estava disposto vendê-los à comissão.
Era uma boa altura, agora que as divisas estrangeiras estavam no
auge do seu valor e os magnatas persas do petróleo j á não queriam tra­
balhar nos teares. Compradores alemães, j aponeses e mesmo árabes
percorriam o Midwest à procura de tapetes que pudessem comprar.
Quanto ao Mercedes, talvez fosse melhor desfazer-me dele. Ficava
sempre muito abalado quando era obrigado a preocupar-me com di­
nheiro. Sentia-me como um operário a cair de um andaime ou um la­
vador de j anelas suspenso nas alturas com as correias de segurança
por baixo dos braços. Sentia uma opressão no peito e parecia estar
com falta de oxigénio. À s vezes pensava se devia guardar uma botij a
de oxigénio no armário da roupa para aqueles momentos de aflição .
É claro q ue devia ter aberto u m a conta numerada num banco suíço.
Como era possível que, tendo passado a maior parte da minha vida
em Chicago, não tivesse pensado em arranj ar um testa de ferro ?
E agora, o que é que podia vender ? Thaxter estava a analisar dois ar­
tigos meus: uma reminiscência da Washington de Kennedy (que já pa­
recia tão remota como a fundação da Ordem dos Capuchinhos) e ou­
tro da série inacabada dos << Grandes Chatos do Mundo Moderno » .
Daí não sacaria qualquer dinheiro. Era excelente, mas quem quereria
publicar um estudo sério sobre chatos ?
Estava quase disposto a considerar o proj eto de George Swiebel
para extrair berílio em Á frica. Tinha zombado desse plano quando
George me fez a proposta, mas havia ideias mais loucas que se tinham
tornado êxitos comerciais e nenhum homem alguma vez soube qual
2 70 SAU L B E L L O W

a forma que o seu gato de Dick Whittington pode adotar1 • Um ho­


mem chamado Ezekiel Kamuttu, guia de George no desfiladeiro de
Olduvai durante uma viagem que lá fizera dois anos antes, afirmava
ser o proprietário de uma montanha de berílio e pedras semipreciosas.
Debaixo da cama de George estava naquele momento uma exótica saca
de serapi lheira cheia de estranhos minerai s . George tinha-me dado
uma peúga cheia desses minerais e pediu que os passasse a Ben Isvol­
sky, um dos nossos colegas de escola que se tornara geólogo, para que
os analisasse no Field Museum. O sensato Ben disse-nos que eram au­
tênticos. Perdeu logo o ar académico e começou a fazer-me perguntas
de carácter comercial. Seríamos capazes de fornecer aquelas pedras
em quantidades suficientes para serem comercializáveis com regulari­
dade ? Com que maquinaria? E como conseguir entrar e sair da selva ?
E quem era esse Kamuttu ? Kamuttu, disse George, daria a vida por
ele. Tinha-o convidado a casar com uma mulher da família dele. Que­
ria vender-lhe a irmã.
- Mas - disse eu a Ben - já conheces o complexo de compa­
nheiro inseparável de que o George sofre. Bebeu uns copos com os
nativos, que perceberam logo como era um tipo genuíno com um co­
ração maior do que o Mississípi. E é verdade. Mas como podemos sa­
ber se o tal Kamuttu não é um trapaceiro ? Se calhar roubou as amos­
tras de berílio. Ou talvez estej a maluco. Não há escassez de doidos
neste mundo.
Conhecendo os problemas domésticos de Isvolsky, compreendi
porque tinha o sonho de governar-se com minerais.
- O suficiente para me afastar de Winnetka durante algum tempo
- disse-me. Depois acrescentou: - Muito bem, Charlie, sei o que es-
tás a pensar. Quando voltares cá, vou ter de te mostrar os pássaros.
Referia-se à esplêndida coleção de aves do museu, acumulada du­
rante décadas e guardada em gavetas de arquivo. Os imensos labo­
ratórios e oficinas atrás dos bastidores, os barracões, depósitos e ca­
ves eram infinitamente mais fascinantes do que as salas de exposição

1 Conto tradicional inglês, vagamente baseado num mayor de Londres do início

do século xv. Embora haja muitas versões, a linha narrativa básica é a de que Dick
Whittington, um órfão londrino muito pobre, deixa a cidade com o seu gato - ou
vende-o -, o felino acaba em Á frica e, graças à sua habilidade como caçador de
ratos, faz de Dick um homem riquíssimo. (N. do T.)
o L E G A D O DE H U M B O LDT 271

do museu. Os pássaros lá guardados estavam flácidos, tinham as pa­


tas etiquetadas. Queria sobretudo ver os colibris, milhares e milhares
de pequenos corpos, alguns não maiores do que a ponta de um dedo,
variedades infinitas, todos minuciosamente salpicados com um Lou­
vre completo de cores iridescentes. Portanto, Ben levou-me novamente
a observá-los. Tinha grandes bochechas e o cabelo crespo como lã,
uma tez fe i a mas u m rosto agra d á ve l . Os t e s o u r o s do m u s e u j á
o aborreciam e disse:
- Se esse Kamuttu tem de facto uma montanha de berílio devía­
mos ir lá e deitar-lhe a mão.
- Em breve parto para a Europa.
- Ó timo. O George e eu podemos apanhar-te lá. Seguiremos j un-
tos para Nairobi.
Estes pensamentos sobre berílio e tapetes orientais mostravam até
que ponto eu estava nervoso e sem senso prático. Quando me encon­
trava neste estado, só havia um homem no mundo capaz de me aju­
dar: o meu pragmático irmão Julius, empresário do ramo imobiliário
em Corpus Christi, Texas. Amava o meu corpulento e j á envelhecido
irmão. Talvez ele também me amasse. Por princípio, Julius não era fa­
vorável a laços familiares fortes. Possivelmente considerava o amor
fraterno como uma via aberta para a exploração. Os meus sentimen­
tos em relação a ele eram vívidos, de uma intensidade quase histérica,
e não podia censurá-lo por tentar resistir. Desejava ser um homem do
seu tempo dos pés à cabeça, e tinha esquecido, ou tentara esquecer,
o passado. Sem ajuda, segundo dizia, não se lembrava de coisa alguma.
Pela minha parte, não conseguia esquecer-me de nada. Dizia-me com
frequência:
- Herdaste a excelente memória do nosso pai. E antes dele havia
o outro sacana, o velho dele. O nosso avô era um dos dez tipos de Pa­
le1 que sabia de cor o Talmude babilónico . Serviu-lhe de muito. Eu
nem sei o que é. Mas é daí que vem a tua memória.
Porém, a admiração não era isenta . Não creio que me estivesse
sempre grato por me recordar de tudo tão bem. Estava convencido de

1 Pale era a zona ocidental da Rússia - que também compreendia partes da Li­

tuânia, da Bielorrússia, da Polónia e da Ucrânia atuais - onde os j udeus estavam


autorizados a residir. Essa autorização foi eliminada em 1917, de modo que muitos
j udeus emigraram de Pale para os EUA. (N. do T.)
SAUL BELLOW

que, sem memória, a existência estava metafisicamente ferida, danifi­


cada . E não podia conceber que o meu próprio irmão, o insubstituível
Julius, tivesse pressupostos metafísicas diferentes dos meus. Portanto,
quando lhe falava sobre o passado, ele dizia-me:
- É mesmo assim ? Tens a certeza ? Pois não me lembro de nada,
nem sequer do aspeto da Mamã; e era o preferido dela.
- Tens de te lembrar do aspeto dela. Como poderias esquecê-la ?
Não acredito - disse-lhe.
À s vezes, os meus sentimentos familiares atormentavam o meu
corpulento irmão. Julgava-me um imbecil. Ele, um mago do dinheiro,
construía centros comerciais, condomínios, motéis, e contribuía de
maneira visível para a transformação da sua região do Texas . Não me
recusaria a sua ajuda. Mas era uma suposição puramente teórica por­
que, embora a ideia de aj uda estivesse continuamente no ar entre nós,
nunca lhe tinha, de facto, pedido nada. Na realidade tinha muitas re­
servas quanto a fazer-lhe um pedido desse género . Era, por assim di­
zer, simplesmente obcecado, dominado pela necessidade de o fazer.
Enquanto pegava no sobretudo, o oficial de j ustiça de Urbanovich
aproximou-se de mim e tirou um pedaço de papel do bolso do colete.
- Telefonaram do escritório do Tomchek para lhe dar um reca­
do - disse. - Há um tipo com um nome estrangeiro . . . será Pierre ? ­
perguntou o velho.
- Pierre Thaxter ?
- Escrevi o que me disseram. Quer que o senhor se encontre com
ele às três no Instituto de Arte. Também passou por cá um casal à sua
procura . Um homem de bigode. A rapariga tinha o cabelo ruivo e usa­
va mmtssata .
- Cantabile - disse eu.
- Não deixou o nome.
Já eram duas e meia. Tinham acontecido muitas coisas em pouco
tempo. Fui ao Stop and Shop e comprei esturj ão e pãezinhos frescos,
além de chá Twining's e a excecional compota de laranj a amarga
Cooper's. Se Thaxter passasse a noite na minha casa, queria brindá-lo
com o pequeno-almoço a que estava habituado. Recebia-me sempre
muito bem. Orgulhava-se da sua mesa e dizia-me em francês o que me
estava a oferecer. Não comia simples tomates mas salade de tomates,
nem pão com manteiga mas tartines, e assim sucessivamente: bouilli,
brulé, farei, fumé, e vinhos excelentes. Comprava nas melhores loj as
Ü L E G A D O D E H U M B O L DT 273

e nunca me pusera à frente nada de comer ou beber que não fosse sa­
boroso.
Na verdade a minha expectativa em relação à visita de Thaxter era
grande. Era sempre agradável vê-lo. Talvez albergasse mesmo a ilusão
de lhe poder abrir o meu coração oprimido, embora soubesse perfeita­
mente que não. Chegaria como um vendaval da Califórnia, com o ca­
belo comprido como um cortesão da época dos Stuarts e, sob a capa
de carabineiro, vestido com um elegante fato de passeio de veludo
azul feito em King's Road. O chapéu de abas largas tinha sido com­
prado numa loj a para negros que se vestem de acordo com as últimas
tendências da moda. No pescoço usava fios aparentemente valiosos
e também uma peça de seda, cheia de nós, suj a mas requintadamente
tingida. As botas castanho-claras, que lhe chegavam aos tornozelos,
eram engenhosamente forradas de lona e de ambos os lados tinham
uma engenhosa fleur-de-lis de couro. Tinha o nariz muito deformado,
a cara escura chamejava e quando lhe via os olhos de leopardo dava
vivas secretos. Havia uma razão para que, quando o oficial de j ustiça
me disse que estava em Chicago, eu fosse logo gastar cinco dólares
em esturj ão. Gostava imenso de Thaxter. Mas a grande pergunta era:
saberia ou não o que andava a fazer ? Numa palavra, era um vigaris­
ta ? Esta era uma pergunta a que um homem arguto seria capaz de
responder, mas eu não. Renata, quando me deu a honra de me tratar
como futuro marido, disse-me várias vezes :
- Não esbanjes mais dinheiro com o Thaxter. Charme ? Tem mui­
to. Talento ? Montes. Mas é um meliante.
- Isso não é verdade.
- O quê ? Mostra um pouco de amor-próprio, Charlie, não engu-
las todo o que te contam. Aquela treta toda do Registo SociaP ?
- Oh, é isso ! Pois, mas as pessoas têm de se vangloriar. Morrem
se não puderem dizer coisas boas de si próprias. As coisas boas têm
de ser contadas. Devias ser mais generosa.
- Muito bem, pensa então no guarda-roupa especial dele. O úni­
co guarda-chuva com classe é aquele que tem o cabo naturalmente
curvo. Não se pode comprar um guarda-chuva com um cabo manufa­
turado dobrado a vapor. Pelo amor de Deus, j á começa a ser de mais.

1 Uma espécie de A lmanaque de Gotha das figuras proeminentes, dos ncos

e poderosos das cidades norte-americanas. (N. do T.)


27 4 5 A U L BELLOW

E ainda há a adega de vinhos especiais, a pasta especial que só pode


ser comprada numa loj a de Londres, a cama com um colchão de água
especial e lençóis de cetim especiais, onde estava deitado em Palo Alto,
com uma namorada especial, para ver a Taça Davis numa televisão
a cores especial. Sem falar de um palerma especial chamado Charlie
Citrine que financia tudo. O tipo vive em permanente delírio.
A conversa anterior ocorrera quando Thaxter me telefonou para
dizer que estava a caminho de Nova Iorque com o objetivo de embar­
car no France e que faria uma paragem em Chicago para falar sobre
The Ark .
- Vai à Europa fazer o quê ? - perguntou Renata.
- Bom, ele é um jornalista de categoria, como sabes.
- E porque viaj a um j ornalista de tanta categoria na primeira
classe do France? São cinco dias. Pode perder esse tempo todo ?
- Deve ser isso.
- E nós vamos em turística - comentou Renata.
- Sim, mas ele tem um primo que é diretor da companhia france-
sa. Um primo da mãe. Nunca pagam. A velha dá-se com todos os plu­
tocratas deste mundo. Apresenta-lhes as filhas debutantes.
- É uma pena que não saque a esses plutocratas cinquenta ações
de qualquer coisa . Os ricos conhecem estes parasitas. Como é que pu­
deste fazer uma coisa tão idiota ?
- A verdade é que o banco podia ter esperado m ais uns d i a s .
O cheque dele era sobre o Banco Ambrosiano, d e Milão.
- Como é que os italianos entraram nisso ? Disse-te que o dinhei­
ro da família estava em Bruxelas.
- Não, em França . A parte dele na herança da tia estava no Cré­
dit Lyonnais.
- Primeiro, prega-te um calote e depois dá-te desculpas esfarrapa­
das que repetes em toda a parte. Todas essas grandes relações europeias
tirou-as ele dos velhos filmes de Hitchcock . E agora ele vem a Chi­
cago . . . e que faz ? Manda a secretária telefonar-te, porque marcar
um número ou responder a uma chamada não é digno dele. Mas tu
atendes pessoalmente e a rapariga diz, << Aguarde um momento, o se­
nhor Thaxter já vai falar>> , e ficas à espera, com o auscultador no ou­
vido. E tudo isto, note-se, é pago por ti . E então informa-te que vem,
mas só depois te poderá dizer quando.
Até aqui era tudo verdade. Nem por sombras tinha contado a Re­
nata tudo sobre Thaxter. Também havia listas negras, escândalos em
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 27 5

clubes de campo e rumores de furtos. O gosto do meu amigo em ma­


téria de problemas era antiquado. Já não havia estouvados, a não ser
que alguém como Thaxter, por puro amor às coisas antigas, revivesse
esse género. Mas eu também achava que havia qualquer coisa profun­
da em jogo e que as excentricidades de Thaxter acabariam por revelar
um propósito especial do espírito . Sabia que era arriscado servir de
fiador porque o tinha visto fazer o mesmo a outras pessoas. Mas não
a mim, pensava . Tem de haver uma exceção. Assim, apostei na imu­
nidade e perdi . Era um amigo querido. Gostava muito de Thaxter.
Também sabia que era o último homem do mundo que ele desej aria
prej udicar. Todavia, no final, foi o que aconteceu. Tinha ficado sem
ninguém a quem pudesse fazer mal. E como não lhe restava mais nin­
guém, tratava-se de amizade versus os princípios que regiam a sua vida.
Aliás, agora podia considerar-me uma espécie de patrono da forma de
arte de Thaxter. Essas coisas têm um preço.
Tinha acabado de perder a casa na zona da Baía, com piscina e o
campo de ténis, o laranj a l que mandara plantar, o j ardim, o M G ,
a carrinha e a adega.
Em setembro passado apanhei um voo para a Califórnia a fim de
saber por que razão a nossa revista, The A rk, não tinha saído . Foi
uma visita maravilhosa, agradável e a fetuosa. Fomos inspecionar
a propriedade ao sol da Califórnia. Nessa altura eu começava a desen­
volver um novo sentimento cosmológico em relação ao Sol. Pensava
que era, em parte, o nosso Criador. Que havia um aspeto solar nos
nossos espíritos. Que a luz subia do nosso interior para ir ao encontro
da luz solar. Que esta luz solar não era apenas uma glória exterior re­
velada aos nossos obscuros sentidos e que aquilo que a luz era para
os olhos, o pensamento era para o espírito . Assim, ali estávamos. Um
dia feliz e abençoado. O céu oferecia-nos o seu calor azul, morno e vi­
brante, e as laranj as pendiam à nossa volta . Thaxter trazia a sua rou­
pa de passeio preferida, a capa preta, e os dedos dos pés descalços es­
tavam comprimidos como figos de Esmirna. Estavam agora a plantar
rosas e recomendou-me que não conversasse com o jardineiro ucra­
mano .
- Foi guarda de um campo de concentração e continua a ser um
antissemita incontrolável. Não quero que fique frenético.
Deste modo fiquei a saber que naquele lugar lindo se misturavam
seres demoníacos, seres idiotas e seres afetuosos. Alguns dos filhos
5 A U L B E L LO W

mais recentes de Thaxter, louros e inocentes, brincavam, sem que nin­


guém os controlasse, com facas perigosas e recipientes de pesticidas
venenosos. Ninguém se magoava. O almoço era uma grande produ­
ção, servido ao lado da piscina cintilante, com duas qualidades de vi­
nho servidas por ele com melancólica dignidade e profundo conheci­
mento, d e c a p a e c a c h i m b o c u r v o , retorc e n d o os d e d o s d o s p é s
descalços . A j ovem mulher, d e u m a beleza enigmática, encarregava­
-se de todos os preparativos e presidia à refeição com espírito prático
mas sempre em segundo plano. Mostrava-se encantada com a vida que
levava, e não havia dinheiro nenhum, nem um cêntimo. A bomba de
gasolina da esquina recusara aceitar um cheque dele no valor de cinco
dólares. Tive de pagar com o meu cartão de crédito. E, nos bastido­
res, a jovem mulher mantinha à distância os credores: a gente do clu­
be de ténis, da piscina, dos vinhos, do automóvel, do piano de cauda
e do banco.
The Ark ia ser editada com um novo equipamento da IBM, sem
ter de recorrer a compositores caros. Nunca houve um país que desse
ao seu povo tantos brinquedos para se entreter nem que mandasse
pessoas tão talentosas para os recantos mais remotos da ociosidade,
o mais perto possível das fronteiras do sofrimento . Thaxter estava
a construir uma ala na casa para aloj ar The Ark. A nossa revista tinha
de ter as suas próprias instalações para não interferir na sua vida pri­
vada . Recrutou alguns estudantes universitários, em regime Tom Sa­
wyer, para cavar as fundações. Visitou de MG vários estaleiros de
obras para que os operários lhe dessem sugestões de construção e, de
passagem, surripiou chapas de contraplacado . Recusei-me a financiar
esta ampliação.
- Prevej o que a tua casa acabe por deslizar para dentro deste bu­
raco - disse-lhe. - Tens a certeza de que estás a cumprir as normas
de construção ?
Mas Thaxter tinha aquela predisposição para tentar tudo que dis­
tingue os marechais de campo e os ditadores: << Lançaremos vinte mil
homens neste sector e, se perdermos mais de metade, adoraremos outra
estratégia . >>
Í amos publicar textos brilhantes em The Ark. Onde encontraría­
mos esse brilhantismo ? Sa bíamos que devia andar por aí. Seria um
insu lto a uma nação civilizada e à Humanidade imaginar que não
existi a . Era necessário fa zer os possíveis para restaurar o crédito
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 277

e a autoridade da arte, a seriedade d o pensamento, a integridade d a


cultura e a dignidade do estilo. Renata, que sem autorização minha
devia dar uma olhadela às minhas contas bancárias, parecia saber
quanto dinheiro eu gastava como patrono das artes.
- Quem é que precisa de The Ark, Charlie, e quem são esses ani­
mais que vais salvar? Tu não és um verdadeiro idealista, estás cheio
de hostilidade . . . O que tu estás é mortinho por ter uma revista que te
permita atacar e insultar a torto e direito um monte de gente. A arro­
gância de Thaxter não é nada em comparação com a tua. Deixas que
ele pense que está a levar a sua avante, mas a verdade é que tu és mui­
to mais arrogante do que ele.
- Sej a como for, o meu dinheiro está a acabar. Prefiro gastá-lo
nesse . . .
- Não é gastar, é esbanjar - disse ela. - Porque raio é que finan­
cias esse aldrabão da Califórnia ?
- Porque é melhor d o que dá-lo aos advogados e a o Governo.
- Quando começas a falar da The A rk deixo de te perceber. De
uma vez por todas, responde claramente, porquê ?
Estava-lhe grato por me te colocado esse desafio. Para auxiliar
a minha concentração, fechei os olhos e respondi:
- As ideias dos últimos séculos estão gastas.
- E és tu que o dizes ? ! É isso o que quero dizer quando te chamo
arrogante - interrompeu Renata.
- Garanto-te que estão gastas. Ideias sociais, teorias políticas e fi­
losóficas, ideias literárias (pobre Humboldt! ) , sexuais e, suspeito, mes­
mo científicas.
- Que sabes de todas essas coisas, Charlie ? Deves estar com uma
febre cerebral.
- Quando as massas mundiais atingem a consciência, tomam es­
sas ideias esgotadas por novas. Como saberiam distingui-las ? E as salas
de estar do povo estão cobertas de papel com estas projeções.
- O tema é demasiado sério para fazer j ogos de palavras.
- Estou a falar a sério . As coisas primordiais, as coisas mais ne-
cessárias à vida, estão em retrocesso, recuaram. As pessoas estão lite­
ralmente a morrer disso, perdem toda a vida pessoal, e o ser interior
de milhões, muitos milhões, desapareceu . É compreensível que em
muitos lugares do mundo não haja esperança devido à fome ou às di­
taduras policiais, mas aqui, no mundo livre, que desculpa temos ? Sob
SAU L B E L L O W

a pressão da crise pública, a esfera privada cede, rende-se. Admito que


esta esfera se tenha tornado tão repulsiva que estamos contentes por
nos livrarmos dela. Todavia, aceitamos os males que se lhe atribuem
e enchemos as nossas vidas com as chamadas << questões públicas » .
E o que é que ouvimos quando se fala dessas questões ? As ideias fali­
das de três séculos. De qualquer modo, o fim do indivíduo, que todos
parecem detestar e desprezar, pressupõe que a nossa destruição exte­
rior, as nossas superbombas, sej am supérfluas. Quero dizer com isto
que se existem apenas mentes estúpidas e corpos sem cérebro, não ha­
verá nada de sério para aniquilar. Nos cargos mais altos do Governo
há décadas que não se vê nenhum ser humano, em nenhum país do
mundo. A Humanidade deve recuperar os seus poderes criativos, re­
cuperar um pensamento vivo e um ser real, recusar de uma vez por
todas insultos à alma, e fazê-lo o mais rapidamente possível. Ou en­
tão . . . E foi aí que um homem como Humboldt, fiel a ideias fracassa­
das, desperdiçou sua poesia e perdeu o barco.
- Mas ele enlouqueceu. Não podes atribuir-lhe toda a culpa. Não
cheguei a conhecê-lo mas às vezes parece-me que és demasiado severo
quando o atacas. Sei - acrescentou - que pensas que levou até ao
fim a vida horrível de poeta da maneira que a classe média esperava
e aprovava . Mas ninguém se te compara. O Thaxter não passa da tua
mascote privada. Não está ao nível que esperas dele.
É claro que tinha razão. Thaxter estava sempre a dizer:
- Do que precisamos é de uma declaração especial.
Acreditava que eu tinha uma escondida na manga.
Disse-lhe:
- Estás a referir-te a algo como uma reverência à vida 1, ou yogis
e comissários2 • Tens queda por esses assuntos terríveis. Darias tudo
para ser um Malraux e falar sobre o Ocidente3 • Que se passa contigo
e essas ideias seminais? As grandes declarações são meras tretas. A de­
sordem veio para ficar.

1 Uma das recomendações vitalistas e cheias de esperança do filósofo, teólogo

e músico Albert Schweitzer, Prémio Nobel da Paz em 195 2 . (N. do T.)


2 Referência ao ensaio de Arthur Koestler The Yogi and the Comissar, que abor­

da os arquétipos do ativismo social: o que valoriza os fins e mudanças individuais


(o yogi) e o que privilegia os meios e a transformação do sistema socioeconómico
(o comissário ) . (N. do T.)
3 André Malraux, A Tentação do Ocidente. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 279

E assim é - rica, desconcertante, moribunda e variada. Quanto


ao esforço para se ser fora do comum, já tudo era bastante estranho.
Pierre Thaxter era absolutamente louco por Cultura . Era classi­
cista, com uma boa formação em grego e latim dada pelos frades.
Aprendera francês com uma governanta, além de ter estudado essa
língua na universidade. Também tinha aprendido árabe sozinho, lia
livros esotéricos e esperava assombrar toda gente publicando artigos
em revistas eruditas da Finlândia ou da Turquia. Falava com particu­
lar respeito de Panofsky ou Momigliano. Via-se como Burton da Ará­
bia ou T. E. Lawrence. À s vezes era um génio retórico do tipo do Ba­
rão Corvo, arruinado até à sordidez em Veneza, a escrever coisas
esquisitas e apaixonadas, raras e notáveis. Não podia admitir deixar
de lado o que quer que fosse. Tocava Stravinski ao piano, conhecia
a fundo os Ballets Russos. Era uma autoridade em Matisse e Monet.
Tinha opiniões sobre zigurates e Le Corbusier. Podia dizer, e frequen­
temente fazia isso, que tipos de artigos comprar e onde. Era a isso que
Renata se referia . Nenhuma pasta digna desse nome, por exemplo,
podia ser fechada por cima, as fivelas tinham de estar na parte lateral.
Tinha a mania das pastas e dos guarda-chuvas. Havia plantações em
Marrocos onde cresciam os cabos adequados aos guarda-chuvas .
E para culminar, Thaxter descrevia-se como tolstoiano. Pressionado,
acabaria por dizer que era cristão, pacifista e anarquista e confessar
a sua fé na simplicidade e na pureza do coração. É claro que gostava
muito dele. Como poderia não gostar ? Aliás, a febre que afligia aque­
la pobre cabeça convertia-o no editor de revista ideal devido à diversi­
dade de interesses e a curiosidade cultural que o caracterizavam. Era
um excelente j ornalista, facto amplamente reconhecido. Trabalhara
em boas revistas. Todas tinham acabado por despedi-lo. Precisava de
um editor paciente e engenhoso que lhe atribuísse as tarefas mais
apropriadas.
Estava à minha espera entre os leões diante do Instituto, exata­
mente como previra que estaria vestido: a capa e o fato de veludo azul
e as botas com lona dos lados. A única mudança era no cabelo, que
agora usava ao estilo D iretório, 1 as pontas a cair-lhe sobre a testa .

1 Período pós-revolucionário em França ( 1 79 5 - 1 79 9 ) , forma de governo em vi­

gor desde a dissolução da Convenção até ao golpe de Estado do 1 8 brumário do


ano VIII ( 9 - 1 1 - 1 79 9 ) . (N. do T.)
280 SAU L B E L L O W

O frio avermelhava-lhe a cara . A boca era larga, cor de amora, a es­


tatura imponente, verruga s , o nariz torto e os olhos de leopardo.
Os nossos encontros eram sempre felizes e caíamos nos braços um do
outro.
- Meu velho, como está s ? Um dos vossos dias bons de Chicago.
O ar frio faz-me falta na Califórnia. Formidável, não é ? Bem, pode­
mos começar com alguns desses maravilhosos Monets.
Deixámos a pasta, o guarda-chuva, o esturj ão, os pães e a compo­
ta no vestiário. Paguei dois dólares de entrada e subimos à sala onde
está a coleção dos impressionistas. Havia uma paisagem invernal no­
rueguesa de Monet que íamos sempre ver em primeiro lugar: uma casa,
uma ponte e neve que caía. Através da cortina de neve aparecia o rosa
da casa e a sensação de frio era deliciosa. O peso da neve, do inverno,
era aligeirado sem esforço nenhum pela espantosa força da luz. Con­
templando esta luz rósea, nevada, pura e crepuscular, Thaxter assen­
tou o pince-nez no osso imponente e retorcido do nariz com um cla­
rão de vidro e prata e a cor da cara dele ficou mais intens a . Sabia
o que estava a fazer. Com esta pintura, a visita começava no tom cor­
reto. Ainda que, familiarizado com a amplitude dos seus pensamen­
tos, estivesse convencido de que também estava a pensar como podia
ser roubada do museu uma obra-prima como aquela, e que lhe vi­
nham à cabeça, rapidamente, vinte ousados planos de furtos de obras
de arte, de Dublin a Denver, com os correspondentes carros para a
fuga e recetadores. Talvez até sonhasse com algum multimilionário
fanático por Monet que tivesse construído um santuário secreto num
a brigo subterrâneo de betão e estivesse disposto a pagar um montão
de dinheiro por aquela paisagem. Thaxter ansiava por oportunidades
( e u também, diga-se ) . Mas constituía um enigma para mim. Tanto
podia ser bondoso como brutal, e decidir qual desses tipos de homem
era revelava-se um tormento . Naquele momento deixou cair o falso
p in ce-nez e voltou-se para mim com a cara rubicunda e morena,
o olhar felino mais intenso do que nunca, melancólico, quase estrábico.
- Antes que as loj as fechem - disse -, tenho de fazer uma coisa
no Loop. Vamos embora . Não consigo assimilar mais nada depois de
ver este quadro.
Assim, pegámos nas nossas coisas e saímos pela porta giratória.
No Edifício Mallers havia um negociante chamado Bartelstein que
vendia facas e garfos de peixe antigos. Thaxter queria um conjunto.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

- Há uma controvérsia a respeito das qualidades da prata - dis­


se resolutamente. - Diz-se que o peixe comido com talheres de prata
ganha um sabor desagradável. Mas eu continuo a acreditar na prata.
Porquê facas de peixe ? E como ia pagar, e para quem ? O banco ti­
nha-lhe movido uma ação de despejo da casa de Palo Alto, mas pare­
cia que nunca ficava sem recursos. De vez em quando falava de ou­
tras casas que possuía, uma nos Alpes italianos, outra na Bretanha.
- O Edifício Mallers ? - perguntei.
- Esse Bartelstein tem fama mundial. A minha mãe conhece-o.
Precisa das facas para um dos seus clientes do Registo Social.
Nesse momento, Cantabile e Polly aproximaram-se de nós, ambos
exalando o vapor de dezembro, e vi o Thunderbird branco estaciona­
do j unto do passeio, em ponto morto, com as portas abertas e os es­
tofos vermelho sangue. Cantabile sorria, mas o seu sorriso era pouco
natural, não se parecia com uma expressão de prazer. Talvez fosse
uma reação à capa de Thaxter, ao chapéu, ao calçado excêntrico e
à cara avermelhada. Eu também sentia a cara enrubescida. Por seu
lado, Cantabile estava muito pálido. Aspirava o ar como se o estivesse
a roubar. Denotava ansiedade e mau humor. O Thunderbird, sem dei­
xar de soltar fumo, começava a congestionar o trânsito. Como tinha
estado parte do dia imerso na vida de Humboldt e como este, por sua
vez, tinha estado imerso em T. S. Eliot, pensei, como ele teria feito,
na hora violeta quando o motor humano aguarda como um táxi à es­
pera, a palpitar1 • Mas afastei isso da minha cabeça. O momento re­
queria toda a minha atenção. Fiz umas apresentações rápidas à direita
e à esquerda:
- A senhora Palomino, o senhor Thaxter. . . e Cantabile.
- Vá, depressa, entrem no carro - disse Cantabile, um homem
habituado a que lhe obedecessem.
Eu não estava pelos aj ustes.
- Não - repliquei. - Temos muito de que falar e prefiro andar
dois quarteirões até ao Edifício Mallers do que ficar engarrafado no
trânsito contigo.
- Por amor de Deus, entra no carro.
Tinha-se inclinado para mim. Mas pronunciou estas palavras tão
alto que se endireitou.

1 Citação quase integral dos versos 2 1 5 a 217 d e The Waste Land : «At the violet

hour [ . . . ] when the human engine waits I Like a taxi throbbing waiting. » (N. do T.)
5AUL BELLOW

Polly ergueu o rosto afável. Estava a gostar daquilo. O seu cabelo


liso, de textura j aponesa mas muito vermelho e cortado em cascata,
sobressaía, grosso e uniforme, sobre o casaco loden verde . As faces
agradáveis indicavam que as relações sexuais com ela também seriam
agradáveis: um encontro gratificante, um êxito. Por que razão certos
homens sabiam como encontrar mulheres que os satisfizessem e fos­
sem satisfeitas por eles com naturalidade ? Até eu era capaz de as iden­
tificar pelas faces e pelos sorrisos, mas apenas depois de as ter encon­
trado, é claro. Entretanto, caíam flocos de neve do grande espaço
cinzento invisível que se estendia sobre os arranha-céus, e uma espécie
de trovão amortecido soou atrás de nós. Podia ter sido um estrondo
sónico ou o ruído de um j ato por cima do lago, porque trovão signifi­
ca calor e o frio mordia as nossas caras avermelhadas. E nesse cinzen­
to crepuscular cada vez mais intenso, a superfície do lago tinha adqui­
rido um tom nacarado; a fímbria de gelo polar da margem tinha-se
formado cedo este inverno, e era branca, de um branco sujo , mas
branca. Quanto a beleza natural, Chicago tinha algumas coisas para
exibir, apesar do facto de o destino histórico global a ter condenado
a ser um espaço material tosco, de aspeto tosco, de solo tosco. O pro­
blema é que não podia deter-me a apreciar essa água nacarada, com
a sua orla ártica nem o ar cinzento saturado de neve enquanto estes
Cantabiles estivessem a fazer das suas, empurrando-me na direção do
Thunderbird e gesticulando com as mais finas luvas de caçador de ra­
posas. Todavia, uma pessoa vai a um concerto para ficar a sós com os
seus pensamentos com o delicado fundo da música de câmara, e era
possível fazer um uso semelhante de um Cantabile. Um homem como
eu, que havia passado anos calado a esmiuçar o seu íntimo com dolo­
rosa persistência, pensando se o futuro humano dependia das suas ex­
plorações espirituais, frustrado por completo em todos os seus esforços
para a lcançar um entendimento com os representantes do intelecto
moderno a quem tentara compreender, e decidido, por fim, a seguir os
fios do espírito que descobrira no seu íntimo para ver onde o pode­
riam guiar, encontrava um estímulo muito especial num tipo como
Cantabile.
- Vamos ! - gritou.
- Nã o . O senhor Thaxter e eu temos de tratar dos nossos pró-
prios assuntos.
- Oh, há tempo para isso, muito tempo - disse Thaxter.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

- E as facas de peixe ? Parece que deixaste de repente de estar in­


teressado nas facas de peixe - disse eu a Thaxter.
A voz de Cantabile saiu-lhe da boca entrecortada e aguda de tanta
exasperação .
- Estou a tentar fazer-te um favor, Charlie ! Quinze minutos do
teu tempo é mais que suficiente, e depois deixo-os no Edifício Mallers
para que possam comprar essas facas de merda. Como é que te correu
a coisa no tri bunal, companheiro ? Sei como foi ! Têm lá uma caixa
cheia de belas e lindas garrafas à espera do teu sangue. Já pareces san­
grado. Estás com um ar incrivelmente fatigado. Envelheceste dez anos
desde a hora do a l m o ç o . M a s e u tenho a so lução que te co nvém
e posso prová-lo. Charlie, dez mil hoj e tornar-se-ão quinze na quinta­
-feira . . . ou então deixarei que me batas na cabeça com o taco que usei
para escavacar o teu Mercedes. O Stronson está à nossa espera . Preci­
sa urgentemente de dinheiro.
- Não quero ter nada que ver com isso. Não empresto dinheiro
a j uros - retorqui.
- Não sej as estúpido. Temos de andar depressa.
Olhei de relance para Polly. Tinha-me prevenido contra Cantabile
e Stronson e consultei-a em silêncio. O sorriso dela confirmava a ad­
vertência que me fizera. Mas estava a divertir-se à grande com a deter­
minação de Cantabile em fazer-nos entrar no Thunderbird, em nos
sentar à força nos estofos de couro vermelho do carro aberto e palpi­
tante. Parecia um rapto. Estávamos no amplo passeio diante do Insti­
tuto e os amantes das crónicas do crime poderiam dizer que o célebre
Dion O'Banion costumava conduzir o seu Bugatti a mais de cem qui­
lómetros por hora naquele preciso ponto em que nos encontrávamos
enquanto os peões fugiam. Na verdade, cheguei a mencionar esse fac­
to a Thaxter. Para onde quer que fosse, Thaxter queria experimentar
o típico, a essência. E estava entusiasmado por estar a viver a essência
de Chicago. Com um sorriso, disse:
- Se não formos à loj a do Bartelstein agora, podemos passar por
lá amanhã de manhã no caminho para o aeroporto .
- Poli - disse Cantabile -, toma conta do volante. Estou a ver
o carro-patrulha.
Os autocarros estavam a tentar passar sem tocar no Thunderbird
estacionado. Havia um engarrafamento de trânsito. A polícia já tinha
acendido as luzes azuis na Rua Van Buren . Thaxter entrou no carro
a seguir a e eu disse a Cantabile:
5AUL BELLOW

- Ronald, vai-te embora. Deixa-me em paz.


Lançou-me um olhar a berta e terrivelmente revelador. Vi uma
mente que lutava com complicações tão densas como as minhas, em­
bora noutra e distante divisão.
- Não queria - disse -, mas obrigas-me a torcer-te o braço .
- O s dedos dele, co bertos pelas luvas de cavaleiro, muito j ustas,
agarraram-me pela manga. - O teu velho amigo Alec Szathmar está
metido numa embrulhada, ou poderá estar . . . é contigo.
- Por quê ? Como ?
- Já te conto . Há uma j ovem bonita . . . o marido dela é um ho-
mem meu . . . e ela é cleptomaníaca. Foi apanhada a roubar um casaco
de caxemira no Field ' s . E o Szathmar é o advogado dela, percebes ?
Fui eu que o recomendei. Foi ao tribunal dizer ao j uiz que não a pren­
desse, que ela precisava de receber tratamento psiquiátrico e que ele
se encarregaria de que assim fosse. Com base nisso, o tribunal não
a prendeu, deixando-a sob a custódia dele. Então o Szathmar levou
a cliente diretamente para um motel e despiu-a, mas ela fugiu antes
que ele a conseguisse comer. Quando se escapou estava apenas cober­
ta com aquela tira de papel que as mulheres da limpeza põem no tam­
po da sanita. Há testemunhas que cheguem. Mas trata-se de uma boa
rapariga. Não entra em motéis. O único defeito dela é roubar. Por ti,
estou a conter o marido.
- Tudo o que me contas, Cantabile, é absurdo, cada vez mais ab­
surdo . O Szathmar pode portar-se como um parvo, mas não é um
monstro.
- Muito bem, vou soltar o marido. Achas que o teu compincha
não vai ser expulso da Ordem? Pois vai mesmo, porra.
- Inventaste essa história toda por qualquer razão tonta - disse.
- Se tivesses conhecimento de alguma coisa que pudesses usar contra
o Szathmar, já o estarias a chantagear.
- Pois bem, fica na tua, não cooperes, vou trucidar e liquidar de
vez esse filho da puta.
- Não me interessa.
- Não é preciso que mo digas. Sabes o que és? Um isolacionista,
só isso. Não queres saber das outras pessoas.
Toda a gente está sempre a dizer quais são os meus defeitos, en­
quanto fico calado e quieto, com grandes olhos esfomeados, acredi­
tando em tudo e sentindo-me ofendido com tudo . Sem estabilidade
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

metafísica um homem como eu é o São Sebastião da crítica . Estranho


é que mantenha a tranquilidade. Como agora, agarrado pela manga
do meu sobretudo aos quadrados, com Cantabile a soltar intrigas
e j uízos contra mim de dentro do seu nariz branco . Todavia, para
mim o que conta não é ver-me explicitamente denegrido em todas es­
sas situações mas de que modo me aproveito delas para extrair infor­
mações ocultas. A última parecia indicar que eu era, por inclinação,
o tipo de pessoa que precisava de ideias microcósmicas-macrocósmi­
cas, ou, dito de outra maneira, que precisava de acreditar que todas
as coisas que ocorrem no homem têm um significado universal. Esta
crença aquecia o ambiente ao meu redor e fazia brotar as doces folhas
lustrosas e as laranj as que pendiam nos pomares onde o eu impoluto
entrava em virginal e grata comunhão com o seu Criador, e assim por
diante. Era possível que este fosse o único meio de que dispunha para
ser o meu verdadeiro eu. Mas naquele momento estávamos no passeio
largo e glacial, no Bulevar Michigan, com o Instituto de Arte atrás de
nós e à nossa frente todas as luzes coloridas do trânsito de Natal e as
fachadas brancas da Peoples Gas e de outras empresas.
- Seja eu o que for, Cantabile, o meu amigo e eu não iremos con­
tigo . - Corri em direção ao Thunderbird para tentar impedir que
Thaxter entrasse. Já estava envolto na capa e a afundar-se nos estofos
macios. Parecia encantado. Meti a cabeça no carro e disse: - Sai daí.
Nós vamos a pé.
Mas Canta bile empurrou-me para dentro, ao lado de Thaxter .
Pôs-me as mãos no rabo e impeliu-me. Depois empurrou para trás
o banco da frente para me impedir de sair. A seguir fechou a porta do
carro com estrondo e disse:
- Arranca, Polly.
Polly obedeceu.
- Mas que raio pensas que estás a fazer, empurrando-me e reten-
do-me aqui dentro ? - perguntei.
- Temos os chuis em cima de nós. Não havia tempo para discutir.
- E isto não passa de um rapto - repliquei.
Mal pronunciei a palavra << rapto >> o meu coração encheu-se de um
sentimento infantil de terrível injúria. Mas Thaxter riu-se exultante,
abrindo a boca enorme, e pestanejou com os olhos brilhantes.
- Hi-hi, não leves isto tão a sério, Charlie. É um momento muito
divertido. Desfruta.
286 5 A U L BELLOW

Thaxter não podia sentir-se mais feliz. Estava a ter uma receção
à maneira de Chicago. A cidade fazia jus à sua reputação exibindo-se
para ele. Apercebendo-me disso, fiquei um pouco mais calmo. Acho
que realmente gosto muito de receber os meus amigos. Pois não tinha
comprado esturj ão, pães frescos e compota quando o oficial de justiça
disse que Thaxter estava na cidade ? Ainda tinha na mão o saco da
Stop and Shop.
O trânsito era intenso, mas a destreza de Polly ao volante era ex­
traordinária. Enfiou o Thunderbird branco na faixa da esquerda sem
tocar no travão, sem um solavanco, numa demonstração de destemi­
da competência : uma condutora magnífica.
O irrequieto Cantabile voltou-se para trás para nos encarar e dis­
se-me:
- Olha para o que tenho aqui. Um dos primeiros exemplares do
próximo matutino. Comprei-o a um tipo na gráfica . Custou uma for­
tuna . Queres saber uma coisa ? Tu e eu aparecemos na coluna do Mi­
ke Schneiderman. Ouve - começou a ler: - << Charlie Citrine, o Che­
vrolet da Legião Francesa e escriba de Chicago, autor da fita Von
Trenck, pagou uma dívida de j ogo a uma figura do submundo no
Playboy Club. É melhor que vás frequentar um seminário de póquer
na universidade, Charles. >> Que me dizes, Charlie ? É uma pena que
o Mike não estej a a par de todos os factos a respeito do teu carro, do
arranha-céus e de tudo o resto. Então, o que é que achas ?
- O que é que acho ? Detesto a palavra autor. E também quero
sair na Avenida Wabash.
Chicago era mais suportável se não se lessem os jornais. Tínhamos
virado para oeste na Rua Madison e passado sob a estrutura negra
do El.
- Não pares, Polly - disse Cantabile.
Seguimos na direção das iluminações de Natal da Rua State, com
os Pais Natal e as renas. O único elemento de estabilidade naquele lu­
gar e naquele momento era a magnífica condução de Polly.
- Conta-me essa história do Mercedes - pediu Thaxter. - O que
é que aconteceu ? E que coisa é essa do arranha-céus, senhor Cantabile ?
Essa figura do submundo do Playboy Club é o senhor ?
- Os bem informados saberão - disse Cantabile. - Charlie, quan­
to te vão levar pela reparação do teu carro ? Levaste-o ao concessioná­
rio ? Espero que não te metas com esses especialistas da gatunagem.
Ü L E G A D O DE H U M B O LD T

Quatrocentos dólares por dia por um mecânico de segunda categoria.


Que vigaristas! Conheço uma oficina boa e barata.
- Obrigado - respondi.
- Não te ponhas com ironias. O mínimo que posso fazer é arran-
jar forma de que possas recuperar algum do dinheiro que te vai custar.
Não lhe respondi. O meu coração insistia num único assunto : de­
sejava urgentemente estar noutro lugar. Pura e simplesmente, não
queria estar ali. Era um verdadeiro tormento . Aquele não era o mo­
mento de recordar certas palavras de John Stuart Mill, mas mesmo
assim lembrei-me delas. Diziam mais ou menos isto: as tarefas dos es­
píritos nobres, numa época em que os trabalhos que a maioria de nós
é obrigada a cumprir, são triviais e desprezíveis . . . blá-blá-blá, blá-blá­
-blá . . . a única coisa digna nesses trabalhos desprezíveis é o espírito
com que são realizados. Não conseguia enxergar nada de digno à mi­
nha volta. Mas se as tarefas do durum genus hominum, dizia o gran­
de Mill, fossem realizadas por um agente sobrenatural e não houvesse
qualquer exigência de sabedoria ou virtude, oh ! então deveria ser
pouco aquilo a que o Homem pudesse dar valor no Homem. Era pre­
cisamente este problema que a América se tinha colocado. O Thun­
derbird faria as vezes de agente sobrenatural. E a que outra coisa po­
dia conceder valor o Homem ? Polly levava -nos. Debaixo daquela
massa de cabelos ruivos havia um cérebro que certamente sabia o que
valia a pena, se alguém estivesse interessado em saber. Mas ninguém
queria sa ber nada, e ela não precisava de m uito cérebro para guiar
este carro.
Passávamos agora diante da imponente e maj estosa estrutura do
First National Bank, contendo camadas sucessivas de luzes douradas.
- Que belo edifício é este ? - perguntou Thaxter.
Ninguém respondeu. Subimos velozmente a Rua Madison. A este
ritmo e avançando para oeste chegaríamos ao Cemitério Waldheim,
nos subúrbios da cidade, em cerca de quinze minutos. Lá j azem os
meus pais debaixo da relva coberta de neve e de lápides; objetos que
ainda seriam visíveis no lusco-fusco de inverno, etc. Mas é evidente
que não estávamos a dirigir-nos para o cemitério. Virámos na Rua La
Salle, onde fomos obrigados a parar devido aos táxis, camiões de dis­
tribuição de j ornais e ]aguars, Lincolns e Rolls-Royces dos corretores
e advogados das grandes empresas - dos ladrões mais empedernidos,
288 S A U L B E L LOW

dos políticos mais excelsos e da elite espiritual dos negócios norte­


-americanos, águias que voam nas alturas, muito acima dos efémeros
destinos quotidianos, de hora a hora, do comum dos mortais.
- Bolas, vamos perder o encontro com o Stronson. Aquele gordi­
nho filho da puta salta logo para o Aston-Martin quando pode fechar
o escritório - disse Cantabile.
Mas Polly continuava em silêncio ao volante. O trânsito estava en­
cravado. Thaxter conseguiu finalmente atrair a atenção de Cantabile.
Eu suspirei e, posto de lado, desliguei . Exatamente como tinha feito
na véspera quando me vi obrigado a entrar, quase à ponta de pistola,
na retrete fedorenta dos Banhos Russos. Era nisto que estava a pen­
sar: certamente que as outras três almas que iam na morna escuridão
deste automóvel resplandecente, vibrante e envernizado tinham pensa­
mentos tão peculiares como os meus. Porém, pareciam menos cons­
cientes deles do que eu. E de que estava eu tão consciente ? De que
costumava pensar que sabia onde me encontrava (tomando o Univer­
so como ponto de referência ) . Mas estava equivocado. Não obstante,
podia pelo menos dizer que tinha sido bastante eficaz espiritualmente
para não ser esmagado pela ignorância . No entanto, parecia-me claro
que não era nem de Chicago nem de fora de Chicago, e que a subs­
tância, os fenómenos e os interesses diários de Chicago não eram nem
reais nem definidos o suficiente, nem, simbolicamente, claros para
mim o suficiente . De modo que não tinha acesso à realidade viva nem
a clarividência simbólica para entender a cidade, pelo que, de momen­
to, não estava em parte alguma. Por esse motivo é que alimentei lon­
gas e misteriosas conversas com o Professor Scheldt, pai de Doris, so­
bre temas esotéricos. Havia-me dado livros sobre os corpos astrais
e etéreos, a Alma Intelectual e a Alma da Consciência, os Seres invisí­
veis, cujo fogo, sa bedoria e amor criaram e orientavam o Universo .
Emocionavam-me muito mais as palestras do Dr. Scheldt do que a mi­
nha ligação amorosa com a filha. Doris era de facto boa rapariga,
atraente e jovial, uma j ovem formosa, de fino perfil, excelente em tudo.
É verdade que insistia em fazer pratos esquisitos como bife Wellington
e a massa dos pastéis ficava sempre mal cozida, como a própria carne,
mas isso era um assunto secundário. Tinha-me relacionado sentimen­
talmente com ela apenas porque Renata e a mãe me tinham rejeitado
e colocado Flonzaley no meu lugar. Doris não chegava aos calcanha­
res de Renata. Renata ? Não precisava de chave de ignição para ligar
Ü L E G A D O DE H U M B O LD T

o motor do carro. Um beij o dela no capô era suficiente para o ligar.


O carro rugiria para ela. Além disso, a Menina Scheldt era socialmen­
te ambiciosa . Em Chicago, não é fácil encontrar maridos com interes­
ses intelectuais elevados, e era óbvio que Doris queria ser a Senhora
de Chevalier Citrine. O pai tinha sido físico no velho Arrnour lnstitu­
te, executivo da IBM e consultor da NASA, o técnico que aperfeiçoara
o metal utilizado nas naves espaciais. Mas também era antroposofista.
Ele não queria chamar-lhe misticismo. Insistia em que Steiner tinha si­
do um Cientista do Invisível. Todavia, Doris, com relutância, falava
do pai corno se fosse um excêntrico. Contou-me diversos factos sobre
ele. Era um rosa-cruz e um gnóstico, lia em voz alta aos mortos. Que­
ro acrescentar que, numa época em que as raparigas têm de praticar
atas eróticos quer tenham ou não talento para tanto - assim são os
tempos que correm -, Doris portou-se muito bem comigo. Mas tudo
corria mal. Simplesmente eu não era eu com ela e, no pior momento,
gritei << Renata ! Oh Renata ! » . E ali fiquei chocado e mortificado. No
entanto, Doris não levou a mal o meu grito. Era extraordinariamente
compreensiva. Era esse o seu ponto forte. E quando as minhas conver­
sas com o professor começaram, também se portou bem, compreen­
dendo que eu não ia dormir com a filha do meu guru.
Sentado na imaculada sala de espera do Professor - só muito
raramente me sentei numa sala tão impecavelmente limpa, com o soa­
lho brilhante de verniz, os tapetes orientai s sem franj as e, na rua,
o parque com a estátua equestre do general Sherrnan empinada no ar
límpido - sentia-me absolutamente feliz. Respeitava o Dr. Scheldt.
As coisas estranhas que ele dizia eram, no mínimo, profundas. Hoje
em dia j á ninguém diz coisas assim. Era inteiramente de outro tempo.
Vestia-se corno um membro de u m clube de campo dos anos 20.
Eu tinha sido caddy de homens desse género. Um tal Sr. Masson, um
dos meus clientes no Sunset Ridge de Winnetka, tinha sido a imagem
viva do Professor Scheldt. Tinha corno garantido que o Sr. Masson há
muito tempo que se j u ntara à s hostes dos mortos e que em todo
o Universo só restava eu para recordar que aspeto tinha ao sair de
urna cova de areia.
- Doutor Scheldt . . . - O Sol resplandece; ao longe, a água está
tão calma corno a paz interior que eu não atingi, tão ondulada corno
a perplexidade em que estou afundado; o lago ressurna o poder de in­
contáveis forças, é sinuoso, hidrornuscular. Na sala há urna bola de
SAU L B E L LOW

cristal polido cheia de anémonas. Estas flores só servem como orna­


mento e têm uma cor de fogo inefável que procede do infinito. - Ve­
jamos, doutor Scheldt - digo. Falo a um rosto interessado e simples,
sereno como o de um boi, tentando determinar até que ponto é fiável
a inteligência dele, isto é, se somos reais ou estamos loucos. - Veja­
mos se percebo a lguma coisa disto tudo: o pensamento na minha
mente também é pensamento no mundo exterior. A consciência do eu
cria uma falsa distinção entre sujeito e objeto. Estou a raciocinar cor­
retamente ?
- Sim, acho que sim, senhor - diz o forte ancião.
- O ponto de partida para matar a minha sede não está na minha
boca mas na água, e a água está lá fora, no mundo exterior. O mes­
mo se dá com a verdade. A verdade é uma coisa que todos comparti­
lhamos. Dois mais dois para mim é dois mais dois para todos e não
tem nada que ver com meu ego. Isso eu entendo. E também a resposta
ao argumento de Espinosa de que se a pedra arremessada tivesse
consciência poderia pensar << voo pelo ar » , como se estivesse a fazer
isso livremente. Mas se fosse consciente, não seria uma simples pedra.
Podia também originar o movimento . O ato de pensar, o poder de
pensar e de conhecer, é uma fonte de liberdade. O pensamento torna­
rá evidente que o espírito existe. O corpo físico é um agente do espí­
rito e o seu espelho. É um motor e um reflexo do espírito . É o hábil
memorando que o espírito envia a s i mesmo, e o espírito que se vê
refletido no corpo, do mesmo modo que vej o o meu próprio rosto
num espelho. Os meus nervos refletem isto. A Terra é literalmente um
espelho de pensamentos. Os próprios obj etos são pensamentos corpo­
rizados. A morte é o fundo escuro que um espelho requer se queremos
ver qualquer coisa. Cada perceção faz-nos morrer um pouco, e esse
escurecimento é uma necessidade. O clarividente pode, de facto, ver
isto quando aprende a obter a visão interior. Para fazer isto deve sair
de si e manter-se bastante longe.
- Tudo isso está nos livros - diz o Dr. Scheldt. - Não tenho
a certeza de que tenha apreendido tudo, mas o que diz é bastante ri­
goroso.
- Bem, compreendo em parte, creio. Quando o nosso entendi­
mento quer, a sabedoria divina flui na nossa direção.
Então o Dr. Scheldt começa a falar sobre a frase << Eu sou a luz do
mundo >> . Para ele, essa luz compreende também a luz do Sol. Depois
0 L E G A D O D E H U M B O L DT

fala do Evangelho de São João, que se inspiraria nos sábios Queru­


bins, enquanto o Evangelho de São Lucas se inspiraria no amor ar­
dente dos Serafins. Querubins, Serafins e Tronos seriam as três mais
altas hierarquias espirituais1 • Não tenho a certeza de estar a acompa­
nhar tudo o que diz.
- Temo não ter conhecimentos nessa matéria tão avançada, dou­
tor Scheldt, mas mesmo assim consola-me e tranquiliza-me ouvir as
suas explicações. Não sei em que ponto me encontro. Um dia destes,
quando a vida for mais calma, tentarei dedicar-me a sério ao curso de
formação e fá-lo-ei com todas as minhas forças.
- E quando é que a vida será mais calma ?
- Não sei. Mas suponho que j á muitas pessoas lhe tenham dito
como as almas se sentem mais fortalecidas depois destas conversas.
- Não deveria esperar que as coisas se tornassem mais calmas.
Deve acalmá-las por si próprio.
Percebeu que eu ainda estava bastante cético. Era-me difícil acre­
ditar em coisas como a Evolução da Lua, os espíritos do fogo, os Fi­
lhos da Vida, ou em histórias como a Atlântida, os órgãos da perce­
ção espiritual da flor de lótus ou a estranha mistura de Abraão com
Zaratustra, para não falar da j unção de Jesus e Buda. Era de mais para
mim. Contudo, sempre que a doutrina tratava de alguma coisa que eu
suspeitava, ou esperava, ou sabia, do eu, ou do sono, ou da morte,
soava-me a verdadeira .
Aliás, havia que pensar nos mortos. A menos que tivesse perdido
por completo o interesse neles, a menos que me desse por satisfeito
sentindo uma melancolia secular pela minha mãe e pelo meu pai, por
Demmie Vonghel ou por Von Humboldt Fleisher, estava obrigado
a investigar, para me convencer de que a morte era definitiva, de que
os mortos estavam mortos. Ou reconhecia o carácter irreversível da
morte, recusava quaisquer intimações posteriores, condenava o meu
sentimentalismo e os meus anseios infantis, ou empreendia uma inves­
tigação completa e adequada. Porque, muito simplesmente, não sabia

1 A personagem de Citrine fala em várias ocasiões destas << hierarquias angeli­

cais>> ( passadas pelo crivo das teorias de Rudolf Steiner). Como referência, veja-se
essa lista, que incluiria, de menor para maior importância, as seguintes categorias:
Anjos, Arcanjos, Archai (Arcanos, espíritos da Personalidade ) , Principados, Exusiai
( espíritos da Forma ) , Dynamis (ou Poderios, ou Virtudes, espíritos do Movimento ) ,
Kyriotetes ( o u Dominações, espíritos da Sabedoria ) , Tronos ( espíritos da Vontade),
Querubins (espíritos da Harmonia) e Serafins ( espíritos do Amor ) . (N. do T.)
S A U L B E LLOW

como poderia recusar-me a investigar. Sim, podia forçar-me a pensar


nisso como a perda irreparável dos meus companheiros de tripulação
devorados pelos Ciclopes. Podia imaginar o teatro humano como um
campo de batalha. Os caídos são enterrados em covas escavadas no
campo ou são queimados até que só restem cinza s . Depois já não
é preciso indagar sobre o homem que nos deu a vida, sobre a mulher
que nos deu à luz, sobre uma Demmie que se viu pela última vez a en­
trar num avião em Idlewild com as compridas pernas loiras, a maqui­
lhagem e os brincos, ou sobre o brilhante mestre dourado da conversa
Von Humboldt Fleisher, que se contemplou pela última vez a comer
um pretzel na Rua Quarenta Oeste. A única coisa que se podia fazer
era assumir que se haviam extinguido para sempre, como nós também
nos extinguiremos um dia. Deste modo, se os jornais diários falam de
homicídios cometidos nas ruas diante de uma multidão de testemu­
nhas indiferentes, não havia nada de ilógico nessa indiferença. Nas
suposições metafísicas a respeito da morte que todas as pessoas pare­
ciam ter assumido, ela levá-las-ia à frente, arrebatar-lhes-ia a vida, es­
trangulá-las-ia e asfixiá-las-ia a todas, sem exceção. Esse terror e essa
matança eram as coisas mais naturais do mundo. E estas mesmas con­
clusões eram incorporadas na vida da social e estavam presentes em
todas as instituições, na política, na educação, nas finanças, na j us­
tiça . Convencido disso, não via razão alguma para não procurar o
Dr. Scheldt com o obj etivo de conversar sobre Serafins, Querubins,
Tronos, Doações, Principados, Arcanos, Anj os e Espíritos.
Disse ao Dr. Scheldt no nosso último encontro:
- Caro doutor, estudei o folheto intitulado << A Força Motriz dos
Poderes Espirituais na História Mundial >> , e contém um passo fasci­
nante sobre o sono. Parece indicar que a Humanidade já não sabe
dormir. Que uma coisa teria de acontecer durante o sono que j á não
acontece e que é esse o motivo por que acordamos sentindo-nos tão
anquilosados e sem descansar, estéreis, amargos e etc. Portanto, deixe­
-me ver se percebi bem. O corpo físico dorme e o corpo etéreo dorme,
mas a alma evola-se.
Sim - disse o Dr. Scheldt. - A alma, quando estamos a dormir,
penetra no mundo suprassensível ou, pelo menos, numa das suas re­
giões. Para simplificar, penetra no seu próprio elemento.
- Gostaria de pensar que sim.
- E porque não ?
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 29 3

- Bom, assim farei, apenas para ver se compreendi. No mundo


suprassensível a alma encontra-se com as forças invisíveis que os ini­
ciadores do mundo antigo conheciam nos seus Mistérios. Nem todos
os seres da hierarquia são acessíveis aos vivos, apenas alguns deles,
mas esses são indispensáveis. Ora, quanto dormimos, segundo o fo­
lheto, as palavras que dissemos ao longo do dia vibram e repetem-se
como um eco à nossa volta.
- Isso das p a l avras n ã o é em sentido literal - corrigiu o D r .
Scheldt.
- Não, mas refiro-me às inflexões sentimentais, à alegria e à dor,
à intenção das palavras. Através das vibrações e dos ecos do que pen­
sámos e sentimos e dissemos, entramos em contacto, enquanto esta­
mos a dormir, com os seres superiores da hierarquia. Mas, agora, as
nossas insignificâncias quotidianas são tais, as nossas preocupações
são tão mesquinhas, a linguagem degradou-se de tal maneira, as pala­
vras são tão toscas e deterioradas, dizemos tantas tolices e nulidades,
que os seres superiores só ouvem murmúrios, grunhidos e anúncios de
televisão: o nível mais rasteiro . . . de comida de cão . . . das coisas. Isso
não lhes diz nada . Que prazer podem tirar esses seres superiores de
semelhante mostra de materialismo, desprovido de poesia ou pensa­
mentos elevados ? Em consequência, o que ouvimos durante o sono
são rangidos, cicios e ruídos de atrito, o sussurro das plantas e o ar
condicionado. Assim, somos incompreensíveis para os espíritos supe­
riores . Não podem exercer qualquer influência sobre nós e eles pró­
prios padecem da correspondente privação. Percebi tudo ?
- Sim, na generalidade.
- Faz-me pensar num falecido amigo meu que costumava quei-
xar-se de insónias . Era poeta . Percebo agora por que motivo tinha
tantos problemas com o sono. Talvez sentisse vergonha. No senti­
do de que não tinha as palavras apropriadas para levar para o sono.
Se calhar preferia a insónia a esses desastre e vergonha noturnos.
O Thunderbird deteve-se ao lado do Rookery, na Rua La Salle.
Canta bile saiu. Enquanto mantinha a porta aberta para que Thaxter
pudesse sair, pedi a Polly:
- Vá lá, Polly, diz-me alguma coisa útil.
- Esse tal Stronson está metido numa grande embrulhada - res-
pondeu ela. - Uma grande, grande, grande embrulhada. Lê o jornal
de amanhã.
294 S A U L BELLOW

Atravessámos o átrio de ladrilhos e com balaustrada do Rookery


e subimos num veloz elevador. Cantabile repetia sem cessar, como se
me quisesse hipnotizar:
- Dez mil hoje renderão quinze mil quinta-feira . Cinquenta por
cento em três dias. Cinquenta por cento.
Entrámos num corredor branco e aproximámo-nos de duas gran­
des portas de cedro com o letreiro << Western Hemisphere Investment
Corporation >> , Cantabile bateu em código à porta, com o nó dos de­
dos: três pancadas, pausa; uma pancada, pausa e uma pancada final.
Era muito estranho que fosse necessário bater daquela maneira, em­
bora, pensando bem, um homem que podia oferecer tanta rentabilida­
de ao capital devesse estar a sacudir os investidores interessados. Uma
bela rececionista abriu-nos a porta . A antessala estava coberta de pe­
sados tapetes.
- Está cá - disse Cantabile. - É só esperar um pouco, rapazes.
Thaxter sentou-se numa espécie de canapé baixo e cor de laranj a.
Um homem com um casaco cinzento de porteiro passava um aspira­
dor barulhento à nossa volta . Thaxter tirou o largo chapéu de peralvi­
lho e alisou as pontas do penteado à Diretório sobre a testa irregular.
Meteu o cachimbo curvo entre os lábios finos e disse:
- Senta-te.
Dei-lhe o esturj ão e a compota para que segurasse neles e abordei
Cantabile à porta do gabinete privado de Stronson. Puxei pelo j ornal
do dia seguinte que tinha debaixo do braço. Agarrou-o e puxámos os
dois com força. O casaco dele abriu-se e vi que tinha uma pistola no
cinto, mas isso não me deteve.
- O que é que tu queres ? - perguntou.
- Só quero deitar uma vista de olhos ao artigo do Schneiderman.
- Está aqui, vou rasgá-lo e dou-to .
- Se fizeres isso, vou-me embora.
Entregou-me o jornal com um gesto violento e entrou no escritório
de Stronson . Passei as páginas rapidamente e encontrei um artigo na
secção de economia que expressava as dificuldades do Sr. Stronson
e da Western Hemisphere Investment Corporation. A Comissão do
Mercado de Valores Mobiliários tinha apresentado uma queixa con­
tra ele. Era acusado de violar as normas federais sobre ações. Tinha
utilizado os correios para cometer uma fraude e tinha negociado títu­
los sem os registar. A Comissão emitira um comunicado esclarecedor
o L E G A D O DE H U M B O L DT 29 5

no qual alegava que Guida Stronson era um verdadeiro impostor,


sem nenhum diploma obtido em Harvard, uma pessoa que não tinha
concluído o curso secundário na Nova Jérsia, que tinha sido emprega­
do de uma estação de serviço e até há bem pouco tempo funcionário
s ub a lterno de uma agência de cobrança de dívidas em Plainfield.
Abandonara a mulher e os quatro filhos, que viviam à custa da Segu­
rança Social no Leste . Quando veio para Chicago, Guida Stronson
abriu um grande escritório na Rua La Salle tendo exibido brilhantes
credenciais, incluindo um diploma da Faculdade de Economia da Uni­
versidade de Harvard. Afirmava ter obtido um êxito retumbante em
Hartford como executivo de seguros. A sua companhia de investimen­
tos conseguiu rapidamente atrair uma enorme clientela para carne de
porco, cacau e minério de ouro. Havia comprado uma mansão em
North Shore e dizia que queria dedicar-se à caça à raposa. As denún­
cias interpostas pelos clientes tinham motivado as referidas investiga­
ções federais. O relatório concluía com o rumor que corria na Rua La
Salle, segundo o qual Stronson tinha muitos clientes ligados à Mafia.
Ao que parecia, tinham perdido vários milhões de dólares com ele.
Esta noite a Grande Chicago conheceria estes factos, amanhã este
escritório seria invadido por investidores lesados e Stronson precisaria
de proteção policial. Mas quem o protegeria da Mafia no dia seguin­
te ? Examinei a fotografia do homem. Os j ornais distorcem os rostos
de uma forma singular - sabia disso por experiência própria -, mas
esta fotografia, se é que fazia alguma j ustiça a Stronson, não inspira­
va simpatia nenhuma . Algumas caras só têm a ganhar com más repro­
duções.
Por que razão me teria Cantabile trazido ali ? Prometeu-me lucros
rápidos, mas eu sabia algumas coisas sobre a vida moderna. Quero
dizer que sabia ler um pouco no grande e misterioso livro da América
urbana. Era demasiado escrupuloso e assustadiço para estudar o as­
sunto de perto: tinha usado as condições da vida atual para testar os
meus poderes de imunidade; a consciência soberana instruía-se a si,
mesma para evitar esses fenómenos e ser imune aos seus efeitos. No
entanto, sabia mais ou menos como trabalhavam os escroques como
Stronson. Ocultavam uma boa parte dos seus dólares roubados, eram
sentenciados à prisão durante oito ou dez anos e, quando recupera­
vam a liberdade, retiravam-se calmamente para as Í ndias Orientais
ou para os Açores. Talvez Cantabile estivesse a tentar deitar a mão a
parte do dinheiro que Stronson teria escondido - provavelmente
5AUL BELLOW

na Costa Rica. Ou quem sabe se, por ter perdido vinte mil dólares
( possivelmente da família Cantabile ) , não pretenderia montar uma ce­
na. E queria que eu assistisse. Agradava-lhe que eu estivesse presente.
Graças a mim conseguira ser mencionado na coluna de Mike Schnei­
derman. Deve ter pensado numa coisa ainda mais brilhante, mais sen­
sacional e mais inventiva . Precisava de mim. E porque me via eu en­
volvido em situações destas com tanta frequência ? Szathmar também
me fazia o mesmo; George Swiebel tinha organizado um j ogo de pó­
quer para me mostrar um par de coisas; esta tarde até o j uiz Urbano­
vich se tinha incomodado por minha causa . Devia estar associado, em
Chicago, à arte e ao pensamento, a certos valores superiores. Não era
eu o autor de Von Trenck (o filme ) , o laureado pelo Governo francês
e pelo Zig-Zag Club ? Ainda tinha na carteira um pedaço de fita de
seda fina e enrugada para pôr na lapela. E, o h ! nós, pobres almas,
todos tão instáveis, ignorantes, perturbados, tão inquietos que nem
sequer podíamos conseguir uma noite bem dormida. Incapazes, du­
rante a noite, de estabelecer contacto com os anj os e arcanj os miseri­
cordiosos e regeneradores que lá estavam para nos fortalecer com
o seu calor, o seu amor e a sua sa bedoria. Ah, pobres corações que
éramos, como agíamos todos perversamente e como eu desej ava fazer
modificações, correções ou emendas. Alguma coisa !
Canta bile tinha-se fechado em conferência com o Sr. Stronson,
e este Stronson, representado no j ornal com um rosto brutalmente
grosseiro, com o cabelo como o de um moço de recados, provavel­
mente estava desvairado. Talvez Cantabile lhe propusesse um acordo
- acordos e mais acordos e ainda m a i s acordo s . Conselho so bre
a maneira de amaciar os seus furibundos clientes da Mafia.
Thaxter levantou as pernas para deixar que o porteiro passasse
o aspirador por baixo.
- Acho que é melhor irmos embora - disse eu.
- Ir embora ? Agora ?
- Sim, creio que devíamos sair daqui.
- Ora, vá lá, Charlie, não me o brigues a ir-me embora. Quero
ver o que acontece. Nunca mais terei uma ocasião como esta. Este ho­
mem, o Cantabile, é um verdadeiro selvagem. É fascinante.
- Teria preferido que não tivesses entrado no Thunderbird sem
me consultar. Estavas tão excitado com a Chicago, terra de gângsteres,
que nem conseguiste esperar. Suponho que terás a intenção de fazer
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 29 7

uso desta experiência, vendê-la a o Reader's Digest o u outro disparate


do género . . . Tu e eu temos muitas coisas para falar.
- Isso pode esperar, Charlie. Olha, estou muito impressionado
contigo . Estás sempre a queixar-te de que vives isolado, mas venho
a Chicago e encontro-te no meio da confusão. - Estava a adular-me.
Sabia como me agradava ser considerado um especialista em Chicago.
- O Cantabile é um daqueles que j oga racquet-ba/1 contigo no teu
clube ?
- Não creio que o Langobardi o deixasse inscrever-se. Não apre­
cia a presença de meliantes de segunda categoria .
- E o Cantabile é isso ?
- Não sei exatamente o que ele é . Comporta-se como um Padri-
nho da Mafia. É um mentecapto. É casado com uma mulher que está
a fazer um doutoramento.
- Referes-te àquela ruiva esplêndida com sapatos de plataforma ?
- Não é essa.
- Não foi formidável a maneira como bateu à porta em código ?
E a linda rececionista que nos abriu a porta ? Olha-me para estas vitri­
nas com arte pré-colombiana e a coleção de leques j aponeses. Digo-te,
Charles, que ninguém conhece realmente este país. É um país incrível.
O s principais intérpretes da América não valem nada. Não fazem
mais nada senão intercambiar fórmulas cultas. Tu, sim, tu, Charles,
devias escrever sobre isto, descrever a tua vida dia a dia aplicando al­
gumas das tuas ideias.
- Thaxter, j á te contei que levei as minhas filhas a ver os castores
no Colorado. Ao redor do lago, os Serviços Florestais afixaram carta­
zes de História Natural sobre o ciclo vital dos castores. Os animais
não ligavam absolutamente nada a isso. Continuavam a mascar, na­
dar e ser castores. Mas nós, castores humanos, ficamos emocionados
com as descrições de nós próprios. Faz-nos mal ouvir o que ouvimos.
O que nos contam Kinsey, Masters ou Eriksen. Lemos sobre a crise
de identidade, a alienação, e por aí adiante, e tudo isso afeta-nos.
- E não queres contribuir para a deformação do próximo com
novos contributos ? Meu Deus, como eu detesto a palavra <<contribu­
to >> . Mas por outro lado empenhas-te em fazer análises de alto nível.
Que me dizes do ensaio para The A rk que me mandaste . . . creio que
o tenho aqui na pasta . . . no qual dás uma interpretação económica das
SAU L B E LLOW

excentricidades pessoais. Vej amos, tenho a certeza de que o trouxe.


Defendes que, nesta fase concreta do capitalismo, pode haver uma re­
lação entre a diminuição das oportunidades de investimento e a pro­
cura de novos papéis ou investimentos em personalidade. Chegas a ci­
tar Schumpeter, Charlie. Sim, aqui está: << Estes dramas podem parecer
exclusivamente interiores mas talvez sej am determinados por causas
económicas . . . quando as pessoas pensam que estão a ser tão subtil­
mente inventivas ou criativas não fazem mais do que refletir a necessi­
dade geral da sociedade em matéria de crescimento económico. »
- Deita fora esse papel - disse. - Por amor de Deus, não me ci­
tes as minhas grandes ideias. Só me faltava isso hoje.
Era-me muito fácil gerar pensamentos grandiosos deste tipo. Em
vez de lamentar esta minha tendência para a eloquência fácil, Thaxter
invej ava-a. Sonhava ser membro da intelligentsia, entrar no panteão
e proferir uma Declaração Importante como Albert Schweitzer, Art­
hur Koestler, Sartre ou Wittgenstein. Não compreendia por que razão
eu desconfiava disso. Dizia, com ressentimento, que eu era demasiado
solene, demasiado presunçoso mesmo. Mas a questão é que eu de fac­
to não queria ser um líder da intelligentsia mundial. Humboldt per­
seguira esse obj etivo com todas as suas forças. Acreditava em análi­
ses vitoriosas, preferia as << ideias >> à poesia, estava disposto a desistir
do próprio Universo a favor do submundo dos valores culturais mais
elevados.
- Em qualquer caso - disse Thaxter -, devias percorrer Chica­
go como Restif de la Bretonne percorreu as ruas de Paris e escrever
uma crónica . Seria sensacional.
- Thaxter, quero falar contigo sobre The Ark . Tu e eu íamos dar
um novo impulso à vida intelectual da nação, superar o American
Mercury, The Dia/ ou a Revista de Occidente, e por aí fora . Discuti­
mos e planeámos isso durante vários anos . Esturrei uma data de di­
nheiro nisso. Paguei todas as contas dos últimos dois anos e meio.
E onde está The Ark ? Estou convicto de que és um grande editor, um
editor nato, e tenho confiança em ti. Anunciámos a nossa revista e hou­
ve pessoas que nos mandaram colaborações. Temos os originais dessa
gente em nossa posse há anos. Tenho recebido cartas amargas e até
ameaças. Fizeste de mim o bode expiatório. Todos os que me censuram
te citam. Tens-te apresentado como o especialista em Citrine e passas
por meu intérprete em todo o lado: como funciono, como não consigo
compreender as mulheres, todas as fraquezas do meu carácter. Não levo
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 29 9

isso muito a séri o . Mas gostava que não me interpretasses tanto .


E que dizer das palavras que pões na minha boca: que X é um atrasa­
do mental ou que Y é um idiota . Eu não tenho nenhum preconceito
em relação a X ou a Y. Quem os quer lixar és tu.
- Francamente, Charles, a razão por que o primeiro número ain­
da não saiu deve-se ao facto de me teres enviado muito material sobre
antroposofia. Não és nenhum parvo, portanto deve haver alguma coi­
sa de interesse na antroposofia. Mas, por amor de Deus, não pode­
mos sair com toda essa treta sobre a alma.
- Porque não ? As pessoas falam sobre a psique, porque não sobre
a alma ?
- A psique é uma coisa científica - respondeu Thaxter. - Tens
de habituar gradualmente as pessoas aos teus termos.
- Por que razão compraste tantas resmas de papel ?
- Queria estar preparado para publicar cinco números seguidos
sem ter de me preocupar com falta de papel . Aliás, fizemos uma boa
compra.
- E onde é que estão todas essas toneladas de papel ?
- No armazém. Mas não creio que sej a The Ark o que te preocu-
pa. Na realidade o que te está a roer é a Denise, mais as audiências no
tribunal, os dólares, todo esse desgosto e aborrecimento.
- Não, não é nada disso - retorqui . - À s vezes até me sinto
grato à Denise. Achas que devia ser como Restif de la Bretonne e per­
correr as ruas? Pois se a Denise não me tivesse levado a tribunal nem
saía de casa . Por causa dela tenho de ir ao centro. Mantém-me em
contacto com os factos da vida. É muito esclarecedor.
- Como ?
- Apercebi-me de como é universal o desej o de magoar o nosso
semelhante. Acredito que acontece o mesmo nas democracias e nas
ditaduras. A única diferença é que aqui o regime de leis e advogados
ergue uma paliçada . Podem maltratar as pessoas, transformar-lhes
a vida num inferno, mas não conseguem matá-las.
- O teu amor pela educação honra-te, Charles. Fora de brinca­
deiras . Posso afirmar isso depois de uma amizade de vinte anos -
disse Thaxter. - O teu carácter é muito singular, mas tens . . . não sei
como dizer. .. uma certa dignidade. Se tu dizes alma e eu digo psique,
deves ter as tuas razões. Se calhar tens mesmo alma, Charles. E isso
é um facto bastante surpreendente em qualquer pessoa.
J OO SAU L B E L L O W

- Pois tu também tens uma . Sej a como for, acho que faríamos
melhor em abandonar a nossa ideia de publicar The Ark e liquidar os
nossos ativos, se é que resta algum.
- Charles, não convém que te precipites. Podemos resolver esse
assunto facilmente. Já não falta muito.
- Não posso gastar mais dinheiro nisso. Não estou bem em ter­
mos financeiros.
- Não podes comparar a tua situação à minha - disse Thaxter.
- Estou completamente falido na Califórnia.
- Estás assim tal mal ?
- Bom, reduzi os teus encargos ao mínimo . Prometeste pagar
o salário da Blossom. Lembras-te dela, a secretária ? Não a conheceste
em setembro ?
- Os meus encargos ? Em setembro combinámos que íamos des­
pedir a Blossom.
- Ah, mas ela era a única que sabia trabalhar com o equipamen­
to IBM.
- Mas esse equipamento nunca funcionou .
- Não foi por culpa dela . Estávamos preparados. Estava prepara-
do para fazer isso a qualquer momento.
- O que de facto queres dizer é que te consideras uma persona­
gem demasiado importante para trabalhar sem pessoal.
- Tem dó, Charle s . Mal partiste, o marido de Blossom morreu
num acidente de viação. Não ias querer que a mandasse embora numa
altura dessas. Sei que tens um grande coração, Charles. Por isso tomei
a li berdade de interpretar qual seria a tua atitude . São só mil e qui­
nhentos dólares. Efetivamente, há outra coisa que devo mencionar:
a conta da madeira para a ala que começámos a construir.
- Não fui eu que te disse para construir a ala. Manifestei-me cla­
ramente contra .
- Bom, tínhamos decidido que haveria um escritório separado .
Não estavas à espera que eu metesse toda aquela confusão editorial
para dentro de casa.
- Disse-te com toda a clareza que não queria nada disso. Até te
avisei que se cavasses aquele buracão tão perto de casa acabarias por
abalar os alicerces.
- Bem, a situação não é muito grave - disse Thaxter. - A em­
presa madeireira pode muito bem desmantelar tudo e levar a madeira.
0 L E G A D O DE H U M B O LDT 301

Quanto a o engano entre os bancos . . . lamento muito, mas não foi cul­
pa minha. O pagamento do Banco Ambrosiano di Milano foi adiado.
É essa maldita burocracia ! Aliás, a Itália agora é caos e anarquia. Sej a
como for, tens o meu cheque . . .
- Não tenho.
- Não tens ? Ainda deve estar no correio. O serviço é uma vergo-
nha. Foi a minha última prestação de mil e duzentos dólares à Palo
Alto Trust. Já me tinham cortado o crédito. Devem-te mil e duzentos.
- Será possível que nunca tenham recebido o dinheiro ? Talvez
o tenham enviado de Itália por golfinho.
Não sorriu . O momento era solene. Afinal de contas, estávamos
a falar do dinheiro dele.
- Esses cretinos da Califórnia deviam fazer a compensação e en­
viar-te um cheque deles.
- Talvez o cheque do Banco Ambrosiano ainda não tenha sido
dado como bom.
- Bem, olha - tirou da pasta um bloco de notas em papel tim­
brado - j á preparei uma calendarização para te reembolsar o dinhei­
ro que perdeste. Deves recuperar o custo original das ações. Insisto
nisso. Creio que as compraste a quatrocentos dólares. Pagaste dema­
siado, como deves saber, e agora estão em baixa. Contudo, não é cul­
pa tua . Digamos que quando foste meu fiador valiam cerca de dezoito
mil. Também não me esquecerei dos dividendos.
- Não tens de pagar dividendos, Thaxter.
- Não, insisto. É bastante fácil descobrir que dividendos está a
IBM a pagar. Mandas-me dizer quanto é e passo-te o cheque respetivo.
- Em cinco anos amortizaste menos de mil dólares sobre esse em­
préstimo. Pagas os j uros e pouco mais.
- A taxa dos j uros era elevadíssima.
- Em cinco anos só conseguiste reduzir duzentos dólares por ano
no montante do empréstimo.
- Não me recordo agora da cifra exata - disse Thaxter. - Mas
sei que o banco te fica a dever alguma coisa depois de vender as ações.
- As ações da IBM estão agora a menos de duzentos. O banco
também vai ser prej udicado. Não é que me importe com o que possa
acontecer aos bancos.
302 SAUL BELLOW

Mas Thaxter estava concentrado a explicar como devolveria o di­


nheiro, com dividendos e tudo, num prazo de cinco anos. Nos gran­
des olhos cor de uva verde, as pupilas negras gémeas moviam-se sobre
as cifras. Faria a coisa toda com beleza, com dignidade, com nobreza,
com toda a sinceridade, sem se eximir a cumprir os seus compromis­
sos para com um amigo. Apercebia-me de que estava a ser sincero .
Mas também sabia que este ela borado plano para me compensar
equivalia, na cabeça dele, a compensar-me de facto . Aquelas compri­
das folhas amarelas do bloco de papel timbrado, cheias de números,
os generosos termos do reembolso, a preocupação com os pormeno­
res, as expressões de amizade, acabavam por solucionar definitiva
e completamente os nossos problemas económicos. Era assim, por
magia.
- É uma boa ideia ser de escrupulosa exatidão contigo sobre estes
aspetos menores. Para ti, as pequenas somas são mais importantes do
que as grandes. O que às vezes me surpreende é que tu e eu percamos
tempo com bagatelas destas. Tu podias ganhar o dinheiro que quises­
ses. Não conheces os teus próprios recursos. Estranho, não é? Bastava
que girasses uma manivela para que o dinheiro te enchesse os bolsos.
- Que manivela ? - perguntei.
- Podias dirigir-te a um editor com um proj eto e pedir o adianta-
mento que te apetecesse.
- Já recebi muitos adiantamentos.
- Ninharias. Podias ganhar muito mais. Eu próprio tenho algu-
mas ideias. Para começar tu e eu podíamos fazer o Baedecker cultural
de que te estou sempre a falar, um guia para os norte-americanos cul­
tos que vão à Europa e se cansam de entrar em lojas à procura de
couro florentino e linho irlandês . Estão fartos da multidão ululante
de curiosos vulgares. Por exemplo, esses americanos cultos vão a Vie­
na ? No nosso guia vão descobrir listas de institutos de investigação,
pequenas bibliotecas, coleções particulares, grupos de música de câ­
mara, os nomes de cafés e restaurantes onde se podem encontrar com
matemáticos ou violinistas, e haverá listas com as moradas de poetas,
pintores, psicólogos e por aí adiante. Com visitas aos estúdios e labo­
ratórios deles. Para conversar com eles.
- Pôr esse tipo de informação nas mãos de turistas abutres da
cultura seria o mesmo que arranj ar um pelotão de fuzilamento para
executar todos esses poetas.
Ü L E G A D O D E H U M B O L DT

- Não haveria um único Ministério do Turismo europeu que não


se entusiasmasse com uma ideia como esta . Não deixariam de coope­
rar. Podiam até entrar com algum dinheiro. Charlie, podíamos fazer
isso com cada país europeu, tanto para as cidades importantes como
para as capitais. Esta ideia vale um milhão de dólares para mim e para
ti. Eu encarregar-me-ia da organização e da pesquisa. Faria a maior
parte do tra balho. Tu encarregar-te-ias do tom e das ideias . Precisa­
ríamos de uma equipa para tratar dos pormenores. Podíamos come­
çar por Londres e seguir para Paris, Viena e Roma. Dá-me a tua con­
cordância e irei imediatamente falar com uma das grandes editoras .
O teu nome garantirá u m adiantamento d e duzentos e cinquenta mil.
Dividimos o dinheiro ao meio e as tuas preocupações acabaram.
- Paris e Viena ! Por que não Montevideu e Bogotá ? Também têm
cultura. Por que razão é que vais à Europa de barco e não de avião?
- É a minha maneira preferida de viaj ar, muito tranquila . Um
dos poucos prazeres que restam à minha velha mãe é organizar estas
viagens para o filho único. Desta vez ainda foi mais longe. Os cam­
peões brasileiros de futebol estão a fazer uma digressão pela Europa
e ela sabe que adoro futebol. Quer dizer, futebol a séri o . De modo
que me arranjou bilhetes para quatro j ogos. Além disso, tenho razões
comerciais para ir à Europa. E quero ver alguns dos meus filhos.
Abstive-me de perguntar como é que podia viaj ar em primeira
classe no France se estava falido. Perguntar não me levaria a lado ne­
nhum. Nunca consegui assimilar as explicações dele. Lembro-me, no
entanto, de me ter contado que o fato de veludo com um cachecol de
seda azul com laço à Ronald Colman era um traj e perfeitamente ade­
quado para usar à noite. De facto, os milionários de smoking pare­
ciam, em comparação, uns pategas. E as mulheres adoravam Thaxter.
A acreditar nas palavras dele, uma noite, durante a sua última traves­
sia, uma velha dama do Texas deixou cair um saquinho de camurça
cheio de pedras preciosas no seu colo por baixo da toalha de mesa .
Discretamente, devolveu-lhas. Não queria, disse-me, estar ao serviço
de velhos coirões texanos ricos. Nem sequer daquelas que se mostra­
vam magnânimas ao estilo renascentista ou oriental. Porque, afinal de
contas, explicava, tratara-se de um grande gesto apropriado a um
grande oceano e a um grande carácter. Mas ele era uma pessoa muito
digna, virtuosa e fiel à mulher - a todas as suas mulheres. Era calo­
rosamente dedicado à extensa família, aos muitos filhos que tivera de
SAUL BELLOW

várias mulheres. Se não chegasse a fazer uma Declaração Importante,


poderia, pelo menos, deixar a sua marca genética no mundo.
- Se não tivesse um cêntimo, pedia à minha mãe para me pôr na
terceira classe. Quanto é que dás de gorjeta quando saíres do France
no Havre ? - perguntei.
- Dou cinco dólares ao comissário-chefe.
- Tens sorte em sair vivo do navio.
- É o valor apropriado - disse Thaxter. - Eles intimidam e des-
prezam os americanos ricos pela sua covardia e ignorância.
E a seguir contou-me:
- O negócio que me leva ao estrangeiro é com um consórcio in­
ternacional de editores para o qual estou a desenvolver uma determi­
nada ideia. Uma ideia que me foi originalmente dada por ti, Charlie,
mas tu não te deves lembrar. Uma vez comentaste como seria interes­
sante percorrer o mundo entrevistando ditadores de segunda, terceira
e quarta categorias: os generais Amins, os Khadafis e toda essa raça.
- Afogavam-te nos seus aquários se suspeitassem que os conside­
ras de terceira .
- Não sej as tonto, nunca faria uma coisa dessas . São dirigentes
de países em vias de desenvolvimento . Mas trata-se efetivamente de
um assunto fascinante. Esses estudantes estrangeiros boémios e andra­
j osos de há alguns anos, destinados, na melhor das hipóteses, a tor­
nar-se chantagistas de pouca monta ameaçam agora as grandes potên­
cias, ou as que outrora eram grandes potências, com a ruína. Estão
a ser bajulados por honrados dirigentes mundiais.
- E o que é que te faz pensar que se deixarão entrevistar por ti ?
- perguntei.
- Estão ansiosos por conhecer alguém como eu. Desej am arden-
temente um toque de distinção, e eu tenho credenciais impecáveis. To­
dos querem ser informados sobre Oxford, Cambridge e Nova Iorque,
e so bre a temporada de Londres, e discutir Karl Marx e Sartre . Se
querem j ogar golfe , pingue-pongue ou ténis, posso fazer qualquer
uma dessas coisas. Para me preparar para escrever estes artigos, tenho
lido algumas coisas interessantes de forma a captar o tom adequado:
o texto de Marx sobre Luis Napoleão é esplêndido. Também dei uma
olhadela a Suetónio e Saint-Simon e Proust. Por acaso vai haver um
congresso internacional de poetas e m Taiwa n . P o sso ir c o b r i - l o .
É preciso manter o ouvido encostado ao chão.
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT

- Sempre que faço isso só consigo suj ar a orelha - disse eu.


- Quem sabe se não arranj o maneira de entrevistar Chang Kai-
-chek antes que morra.
- Não me parece que tenha alguma coisa para te contar.
- Oh, disso encarrego-me eu - assegurou Thaxter.
- E se saíssemos deste escritório ? - sugeri.
- Porque é que, desta vez, não concordas comigo e fazes as coisas
à minha moda ? Sem superproteção. Deixando suceder os aconteci­
mentos interessantes. Que mal pode haver nisso ? Podemos conversar
tão bem aqui como noutro lugar. Explica-me como é que vão as coi­
sas contigo ?
Sempre que Thaxter e eu nos encontrávamos, mantínhamos pelo
menos uma conversa íntima. Falava-lhe livremente, deixava-me ir.
Apesar da sua excentricidade disparatada, e da minha, havia um laço
profundo entre nós. Era capaz de conversar com Thaxter. À s vezes
dizia a mim mesmo que conversar com ele era tão proveitoso como
uma sessão de psicanálise. Com os anos, o preço vinha a ser pratica­
mente o mesmo. Thaxter sabia extra ir de mim o que pensava. Um
amigo mais sério e culto como Richard Durnwald deixava de me es­
cutar quando tentava debater as ideias de Rudolf Steiner.
- Absurdo ! - dizia . - Simplesmente absurdo ! Já tive a oportu­
nidade de investigar isso.
No mundo culto, a antroposofia não era um assunto respeitável.
Durnwald rejeitava com brusquidão qualquer comentário sobre essas
ideias porque desej ava preservar a estima por m i m . Mas Thaxter
disse:
- O que é essa Alma Consciente e como explicas a teoria de que
os nossos ossos se cristalizam a partir do Cosmos ?
- Ainda bem que me perguntas isso - respondi.
Porém, antes que lhe pudesse responder vi que Cantabile se estava
a aproximar de nós. Não, não se aproximou, desabou sobre nós de
um modo peculiar, como se não utilizasse o soalho atapetado e tivesse
descoberto outra base material.
- Empreste-me isto - disse, pegando no chapéu preto de abas
moles. - Muito bem - acrescentou, tenso e animado. - Levanta-te,
Charlie. Vamos ver o homem. - Levantou-me com um puxão brus­
co. Thaxter também se ergueu do canapé cor de laranja, mas Canta­
bile empurrou-o para o manter sentado e disse: - O senhor não. Um
J 06 SAU L BELLOW

de cada vez. - Levou-me com ele até à porta do gabinete presiden­


cial. Aí, parou: - O lha - disse -, deixa-me conduzir a conversa.
É uma situação muito especial.
- Estou a ver que estamos perante mais uma das tuas originais
encenações. Mas nem um cêntimo vai mudar de mãos.
- Oh, nunca te faria uma coisa dessas. Quem senão um tipo em
maus lençóis te pode dar três por dois? Viste a notícia no jornal, não
viste ?
- É claro que sim - respondi. - E se não tivesse visto ?
- Não deixaria que ficasses prej udicado. Passaste no exame que
te fiz. Somos amigos. Sej a como for, vem conhecer o tipo. Suponho
que é teu dever estudar a sociedade americana da Casa Branca a Skid
Row. Só te peço que fiques calado enquanto digo algumas palavras .
Ontem mostraste ser um tipo às direita s . Ninguém foi afetado por
isso, não é verdade ?
Apertou bem o meu casaco enquanto falava e pôs-me o chapéu de
Thaxter na cabeça. A porta do gabinete de Stronson abriu-se antes
que me pudesse escapulir.
O financeiro estava de pé ao lado da secretária, uma dessas mesas
amplas de executivo do tipo Mussolini . A fotografia do jornal só era
enganadora num aspeto : estava à espera de um homem mais corpu­
lento . Stronson era um rapaz gordo, de cabelo castanho-claro e rosto
lívido. A compleição dele assemelhava-se à de Billy Srole. Uns caracóis
castanhos cobriam-lhe o pescoço curto. Causava uma impressão desa­
gradável . As faces pareciam nádega s . Trazia uma camisola de gola
alta e fios e amuletos que lhe oscilavam sobre o peito. O cabelo curto
dava-lhe um ar de porco com peruca. Os sapatos de sola grossa tor­
navam-no mais alto.
Cantabile tinha-me trazido para ameaçar este homem.
- Deita uma vista de olhos ao meu sócio, Stronson - disse. -
É a pessoa de quem te falei. Observa-o. Vais voltar a vê-lo. Ele é que
vai acertar contas contigo . Num restaurante, numa garagem, num
cinema, num elevador. - Virou-se para mim e disse: - É tudo. Espe­
ra lá fora.
Fez-me dar meia-volta e caminhar em direção à porta .
Estava transformado num bloco de gelo. E depois fiquei horroriza­
do. Fazer o papel de um assassino mesmo que fosse a fingir era horrí­
vel. Mas antes que pudesse negar com indignação, tirar o chapéu
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 3 07

e acabar com a farsa de Cantabile, ouviu-se a voz da rececionista de


Stronson que, amplificada, encheu o escritório vinda da caixa perfura­
da que estava em cima da mesa .
- Agora ? - perguntou.
- Agora ! - respondeu Stronson.
Nesse instante o porteiro do casaco cinzento entrou no escritório,
empurrando Thaxter à sua frente. Na mão, exibia o crachá. Disse:
- Polícia, Departamento de Homicídios ! - e empurrou-nos con­
tra a parede.
- Espere um momento . Mostre-me o crachá. Que vem a ser isso
de Departamento de Homicídios ? - protestou Cantabile.
- O que é que pensas, que ia deixar que me fizesses ameaças e fi­
car quieto ? Depois de me teres dito que me mandarias matar, fui ao
procurador de Justiça para lhe pedir um mandado de prisão - disse
Stronson. - Dois mandados. Um em branco para o assassino a soldo,
o teu amigo.
- Será que j ulgam que és a firma Homicídios & Cia ? - pergun­
tou-me Thaxter, que raramente ria às gargalhadas.
A sua satisfação mais profunda era sempre pouco ruidosa, mas
naquele momento estava a divertir-se à grande.
- Quem é o assassino a soldo, eu? - perguntei, tentando sorrir.
Ninguém respondeu.
- Quem é que precisa de te ameaçar, Stronson ? - perguntou Can­
tabile. Os olhos castanhos desafiadores estavam cheios de lágrimas,
enquanto a cara se tornava dolorosamente seca e pálida . - Perdeste
mais de um milhão de dólares dos tipos da Troika e estás arrumado,
rapaz. Estás morto ! Por que razão alguém mais haveria de meter-se
nisto ? Não tens mais hipóteses que uma ratazana dos esgotos. Agen­
te, este homem não existe. Porque não lê a notícia no jornal de ama­
nhã. A Western Hemisphere lnvestment Corporation está liquidada .
O Stronson só quer levar algumas pessoas para o fundo com ele.
Charlie, vai buscar o j ornal. Mostra-o ao homem.
- O Charlie não vai a lado nenhum. Toda a gente contra a pare­
de. Ouvi dizer que tem uma arma consigo e se chama Cantabile. In­
cline-se, doçura, assim mesmo. - Todos obedecemos. Tinha a arma
dele debaixo do braço. As correias da sovaqueira estalaram. Tirou
a pistola de Cantabile do cinturão lavrado deste. - Não é uma vulgar
trinta e oito, uma Saturday Night Special. É uma Magnum. Pode ma­
tar um elefante com isto.
S A U L BELLOW

- Aí está, tal como lhe disse. Foi essa arma que ele me meteu de­
baixo do nariz - disse Stronson.
- Deve ser uma coisa de família fazer parvoíces com armas. Não
foi o seu Tio Moochy que liquidou aqueles dois miúdos ? Gente sem
classe. Idiotas. Vamos lá ver se andas com erva no bolso. Tam bém
era divertido se houvesse violação da liberdade condicional para jun­
tar a isto tudo. Vamos tratar de ti, rapazinho. Cambada de assassinos
de miúdos.
Era Thaxter quem estava agora a ser revistado por baixo da capa.
De boca escancarada, nariz fortemente retorcido e resplandecente de
alegria, via-se-lhe na cara a satisfação que sentia por esta magnífica
experiência de Chicago . Eu estava irritado com Cantabile. Furioso.
O detetive passou-me a s mãos pelas costelas, debaixo dos sovacos
e entre as pernas. Disse:
- Os dois podem virar-se de frente. Que elegância a vestir. Onde
é que a rranj ou esses sapatos com os lados de lona ? - perguntou
a Thaxter. - Na Itália ?
- Em King's Road - respondeu Thaxter amavelmente.
O detetive tirou o casaco cinzento de porteiro, debaixo do qual
trazia uma camisola de gola alta vermelha, e esvaziou em cima da se­
cretária o conteúdo da carteira preta de pele de avestruz de Cantabile.
- E qual dos dois é o assassino a soldo ? O Erro! Flynn da capa
ou o do sobretudo de xadrez ?
- O do sobretudo - disse Stronson.
- Devia era deixá-lo fazer figura de parvo e prendê-lo - disse
Cantabile, ainda com a cara virada para a parede. - Continue. Vá
até ao fim.
- Porquê, é alguém ? - perguntou o polícia. - Um mandachuva ?
- Pode crer, porra ! - exclamou Cantabile. - É um homem dis-
tinto e conhecido. Vej a no j ornal de amanhã e encontrará o nome dele
na coluna do Schneiderman: Charles Citrine . É uma importante per­
sonalidade de Chicago.
- E depois, estamos a mandar dúzias de personalidades impor­
tantes para a cadeia. O governador Kerner nem sequer teve ca beça
para arranjar um testa de ferro com miolos.
O detetive estava a divertir-se à nossa custa. Tinha uma cara fran­
ca, enrugada, jovial agora, uma cara de polícia muito experiente. Sob
a camisa vermelha notavam-se peitos gordos. Os cabelos sem vida da
Ü L E G A D O DE H U M B O LD T

peruca não estavam em sintonia com a tez saudável e careciam de si­


metria orgânica. Saíam-lhe da cabeça nos pontos errados. Viam-se pe­
rucas assim nos assentos de cores vivas e alegres dos vesti ários do
Downton Club - capachinhos que, como terriers de Skye, esperavam
pelos donos.
- Canta bile veio ter comigo esta manhã com propostas absur­
das - disse Stronson. - Respondi-lhe que nada feito. Então amea­
çou-me de morte e mostrou-me a arma . Parecia louco. Disse que volta­
ria com o assassino a soldo. Descreveu-me como faria a coisa . O tipo
seguir-me-ia durante semanas. Depois rebentar-me-ia metade da cara
como um ananás podre. E descreveu pormenorizadamente os ossos es­
migalhados, e os miolos e o sangue a escorrer-me a j orros pelo nariz.
Chegou a explicar-me como destruiria a arma do crime, a prova: o as­
sassino despedaçá-la-ia com uma serra elétrica e depois Iivrar-se-ia dos
pedaços atirando-os para dentro de diferentes sarjetas dos subúrbios.
Com todos os pormenores !
- Seja como for, estás morto, cu de brolho - disse Cantabile.
- Hão de encontrar-te num esgoto dentro de alguns meses e terão de te
raspar uma polegada de merda da cara para que possam ver quem és.
- Não tens licença de porte de arma. Ó timo !
- Agora leve esses tipos daqui para fora - disse Stronson.
- Vai apresentar queixa contra todos ? Só tem dois mandados.
- Vou apresentar queixa contra todos.
- O próprio senhor Cantabile acabou de lhe dizer que eu não te-
nha nada que ver com isto - disse eu. - O meu amigo Thaxter e eu
estávamos a sair do Instituto de Arte e Cantabile fez-nos vir até aqui,
supostamente para discutir um investimento. Posso compartilhar os
sentimentos do senhor Stronson. Está apavorado. Cantabile está fora
de si por, em certo sentido, ser vaidoso, estar roído de presunção, do­
minado por um sentimento de violenta egomania . . . mas é bazófia.
Isto não p a s s a de um dos s e u s originais embustes. Talvez o agente
lhe possa contar, senhor Stronson, que não sou um assassino a soldo
do tipo Lepke. Tenho a certeza de que já conheceu alguns.
- Este homem nunca matou ninguém - disse o polícia.
- Aliás, tenho de partir para a Europa e ainda há um monte de
coisas para tratar
Este último ponto era o principal. O pior desta situação é que in­
terferia nas minhas angustiosas preocupações, na minha complicada
J IO S A U L BELLOW

subj etividade. Era a minha guerra civil interior versus a vida exterior,
que é elementar, fácil de ler por toda gente e típica deste lugar, Chica­
go, estado de Illinois.
Sendo um leitor fanático, cercado por muitos livros, habituado
a ver do alto das janelas os carros da polícia, os carros dos bombei­
ros, as ambulâncias, um homem complexo que trabalhava a partir de
milhares de referências particulares e textos, naquele momento pare­
ceu-me pertinente a explicação que T. E. Lawrence havia dado para
se alistar na RAF: << Para mergulhar cruamente entre homens grossei­
ros e encontrar-me a mim mesmo . . . >> Como sucedeu << . . . durante estes
anos que me restam na força da vida . >> Palhaçadas, brigas, obscenida­
des de caserna, minúcias porcas. Sim, muitos homens, dizia Lawrence,
aceitariam a pena de morte sem um lamento para fugir à pena de vida
que o destino leva na outra mão. Percebia o que ele quis dizer. De
modo que chegara a hora de alguém - e porque não alguém como
eu? - fazer alguma coisa mais com esta desconcertante e desesperada
questão do que os outros homens admiráveis que o haviam tentado.
O pior de tudo a respeito deste momento absurdo era que os meus
passos tinham sido interrompidos. Era esperado às sete para j antar.
Renata ficaria irritada. Irritava-se se tivesse de esperar por alguém.
Tinha mau génio e o seu temperamento inclinava-se sempre num cer­
to sentido; aliás, se as minhas suspeitas fossem j ustificadas, Flonzaley
nunca andava muito longe. Os substitutos estão sempre a assombrar
a cabeça das pessoas. Mesmo as mais estáveis e equilibradas têm um
substituto de reserva, já secretamente escolhido, num lugar qualquer,
e Renata não era das mais estáveis. Era frequente dedicar-se à rima de
forma espontânea e uma vez surpreendeu-me com estes versos:

Quando o amado
Desaparece
O amor não fenece
Porque há quem espere ao lado.

Duvido que alguém desse tanto valor ao engenho de Renata como


eu. Isto abria sempre amplas perspetivas de sinceridade . Mas Hum­
boldt e eu tínhamos concordado há muito tempo que eu era capaz de
engolir qualquer coisa desde que fosse bem enunciada. O que era ver­
dade. Renata fazia-me rir. Estava disponível para enfrentar depois
Ü L E G A D O DE H U M B O LDT 311

o terror implícito nas suas palavras, as descarnadas perspetivas que


subitamente ficavam expostas. Também me havia dito, por exemplo:
- É verdade que as melhores coisas da vida estão à livre disposi­
ção de qualquer um, mas ninguém é suficientemente livre para desfru­
tar as melhores coisas da vida.
Um amante de reserva dava a Renata a clássica oportunidade de
as galdérias se comportarem sem peias. Em virtude do meu hábito de
elevar estas mesquinhas reflexões ao nível teórico, ninguém se sur­
preenderá que comece a pensar na ingovernabilidade do inconsciente
e na sua independência das normas de conduta . Mas era apenas anti­
nómico, não livre . Segundo Steiner, a verdadeira liberdade ha bitava
a consciência pura. Cada microcosmos tinha sido separado do macro­
cosmos . Na arbitrária divisão entre Suj eito e Objeto, o mundo tinha­
-se perdido. O ser zero procurava diversão. Tornou-se um ator. Era
esta a situação da Alma Consciente como eu a interpretava. Mas en­
tão fui assaltado por uma náusea de insatisfação em relação ao pró­
prio Rudolf Steiner. Isto relevava de um passo perturbador dos Diá­
rios de Kafka que o meu amigo Durnwald, acreditando ser eu ainda
capaz de fazer trabalho intelectual sério e querendo salvar-me da an­
troposofia, sublinhara para mim. Kafka também tinha sentido atração
pelas visões de Steiner e achava que os estados de clarividência que este
descrevia eram semelhantes aos seus, sentindo-se para lá das frontei­
ras do humano. Kafka encontrou-se com Steiner no Hotel Victoria da
Jungmannstrasse. Anota nos D iários que Steiner trazia vestido um
príncipe-alberto cheio de nódoas e de pó e estava terrivelmente cons­
tipado. Escorria-lhe ranho do nariz e não parava de meter com os de­
dos o lenço profundamente nas narinas enquanto Kafka, que o ob­
servava com repugn â n c i a , e x p l i c o u a Steiner que era um artista
enterrado no ramo dos seguros. A saúde e o carácter, disse-lhe, impe­
diam-no de seguir uma carreira literária. Se acrescentasse a teosofia
à literatura e ao trabalho nos seguros, que seria dele? A resposta de
Steiner não foi registada.
É claro que o próprio Kafka estava farto desta mesma Alma Cons­
ciente desesperada, fastidiosa e zombeteira. Pobre homem, a maneira
como expressou o seu caso não lhe serviu de muito. O homem de gé­
nio capturado na armadilha do ramo dos seguros ? Uma queixa dema­
siado banal, não muito melhor do que uma constipação. Humboldt
teria concordado. Costumávamos conversar sobre Kafka e eu conhe­
cia as opiniões dele. Mas agora Kafka, Steiner e Humboldt estavam
312 SAU L BELLOW

j untos na morte, onde, dentro em pouco, todas as pessoas que esta­


vam no escritório de Stronson se lhes j untariam. Para reaparecer, tal­
vez, daqui a séculos num mundo mais brilhante. Não teria de ser mui­
to brilhante para ofuscar este . Não obstante, a descrição que Kafka
fazia de Steiner perturbava-me.
Enquanto me dedicava a estas reflexões, Thaxter tinha entrado em
ação. E fez isso sem malícia. Pretendia esclarecer as coisas amigavel­
mente, sem tratar ninguém com condescendência.
- Não creio que o senhor queira prender o senhor Citrine com
base nesse mandado - disse, sorrindo gravemente.
- E porque não ? - perguntou o polícia, com a pistola de Canta-
bile, a enorme Magnum niquelada, enfiada no cinto.
- O senhor concorda que o senhor Citrine não tem ar de assassino.
- Está cansado e pálido. Devia passar uma semana em Acapulco.
- Uma farsa assim é ridícula - replicou Thaxter. Estava a mos-
trar-me a beleza do seu toque normal, como compreendia e se dava
bem com os seus concidadãos. Mas era evidente para mim que o polí­
cia considerava Thaxter bastante exótico, com a sua elegância, os seus
ares de Peter Wimsey 1 • - O senhor Citrine é conhecido internacional­
mente como historiador. Foi efetivamente condecorado pelo Governo
francês.
- Pode provar isso ? - perguntou o polícia. - Será que por aca-
so tem a medalha consigo ?
- Ninguém anda com medalhas nos bolsos - respondi.
- Bem, que tipo de prova me pode dar ?
- A única coisa que trago comigo é um pedaço de fita . Tenho
o direito de a usar na botoeira .
- Deixe-me ver - disse ele.
Tirei o amarrotado, descolorido e insignificante pedaço de seda
verde-lima .
- É isso ? - disse o polícia. - Eu nem numa perna de galinha
o pona.
Estava plenamente de acordo com o polícia e, como habitante de
Chicago, zombei intimamente, tal como ele, destas ridículas honrarias

1 Personagem literária criada pela escritora britânica Dorothy Leigh Sayers nos

finais do sécu lo X I X . Dotado de grande cultura, este sofisticado detetive amador re­
solvia complexos casos cri minais em cola boração com a Scotland Yard. (N. do T.)
Ü L E G A D O DE H U M B O L DT 313

estrangeiras. Eu era o Covileiro, a arder de ridículo. E também se apli­


cava aos franceses. Não estávamos num dos melhores séculos deles.
Saía-lhes tudo mal. Que pretendiam quando davam estes miseráveis
pedaços de fita verde amaricada ? Como Renata havia insistido comi­
go em Paris para a pôr na botoeira, ficáramos expostos aos insultos
do verdadeiro chevalier que Renata e eu conhecemos num j antar,
o homem de roseta vermelha, o << cientista duro •• , para usar a sua pró­
pria expressão. Passou-me a maior descompostura da minha vida.
- A gíria americana é deficiente, não existe - disse. - O francês
tem vinte palavras para designar << bota >> .
D e p o i s mostrou desprezo p e l a s C i ê n c i a s do Comp ortamento
- tomou-me por um especialista dessas disciplinas - e fez comentá­
rios bastante deselegantes sobre a minha faixa verde. Disse:
- Estou certo de que deve ter escrito alguns livros estimáveis, mas
esse é o tipo de condecoração que se dá às pessoas que melhoraram as
poubelles 1 •
Nunca obtive senão desgostos com o facto d e ter sido galardoado
pelos franceses. Bom, acabaria por passar. A única distinção verdadei­
ra neste perigoso momento da História humana e do desenvolvimento
cósmico não tem nada que ver com medalhas e fitas. Não adormecer
é sinal de distinção. Tudo o resto é uma treta .
Cantabile ainda estava de cara virada para a parede. O polícia
- satisfez-me ver isso - tinha-o debaixo de olho.
- Não se mexa - disse-lhe.
Parecia-me que nós, naquele gabinete, estávamos sob a ação de
uma enorme onda transparente. Essa coisa imensa e transparente esta­
va suspensa sobre nós, resplandecendo como cristal. Estávamos todos
contidos nela. Quando se rompesse e rebentasse, poderíamos ser es­
parzidos por milhas e milhas de uma remota praia branca . Quase
desej ava que partissem o pescoço de Cantabile. Mas não, quando por
fim aconteceu, vi que cada um de nós tinha sido arroj ado, são e salvo
e isolado, para uma despoj ada orla marítima nacarada.
Como todos se mantinham imóveis - Stronson, picado pela evo­
cação de Cantabile segundo a qual o cadáver dele seria pescado numa
cloaca, gritava com uma espécie de voz de soprano porcino.
- Hei de arranj ar maneira de que te lixes tu !

1 Em francês no original: « Caixotes do lixo . >> (N. do T.)


3 14 SAUL BELLOW

Enquanto isso Thaxter intervinha em voz baixa, tentando ser per­


suasivo; eu desliguei e concentrei-me numa das minhas teorias. Algu­
mas pessoas abraçam os seus dons com gratidão. Outras não sabem
o que fazer com eles e pensam unicamente em superar as suas fra­
quezas . Só os defeitos l h e s interessam e as desafiam. É po r isso que
aqueles que detestam as pessoas podem acabar por andar à procura
delas . Os misantropos dedicam-se frequentemente à prática da psi­
qui atria . Os tímidos tornam-se atares. Os ladrões inatos procuram
cargos de confiança . Os medrosos realizam gestos temerários. Veja-se
o caso de Stronson, um homem que se meteu em esquemas desespera­
dos para burlar gângsteres. Ou o meu, um amante da beleza que in­
sistia em viver em Chicago. Ou o de Von Humboldt Fleisher, homem
de poderosos instintos sociais que se enterrou na desinteressante pro­
víncia.
Stronson não tinha forças para prosseguir. Vendo a sua desconfor­
midade, gordo mas elegante, curto de pernas e coxas, com sapatos de
sola grossa, propenso a guinchar mas tentando que a voz lhe saísse
grave, tive pena dele, oh! muita pena. Parecia-me que a sua verdadei­
ra natureza o estava a reclamar. Tinha-se esquecido de fazer a barba
de manhã ou o terror fizera a barba crescer-lhe mais depressa ? E com­
pridos e horríveis pelos saíam-lhe do colarinho . Começava a parecer­
-se com uma marmota . O cabelo curto e ondulado estava empapado
em suor.
- Quero que algeme esta gente toda - disse ao polícia à paisana.
- Como ? Com um par de algemas ?
- Bem, use-as no Cantabile. Vá, ponha-lhas.
Em silêncio, concordei inteiramente com ele. Sim, algeme esse
filho da puta, torça-lhe os braços atrás das costas e que as algemas lhe
retalhem a carne . Embora pensasse estas barbaridades, não desej ava
realmente que acontecessem.
Thaxter chamou o polícia à parte e trocou com ele algumas pala­
vras em voz baixa . Mais tarde interrogar-me-ia se não lhe teria dito
um código secreto da C IA. Nunca se pode ter certeza com Thaxter.
Ainda hoj e n