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Martin W. Bau George Gaskell PESQUISA — QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM Um manual pratic ) : y EDITORA. HF VOZES UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL No _Bie30s Dados Internacionais de Catalogacao na Publicacao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Pesquisa qualitativa com texto: imagem e som : um manual pratico/ Martin W. Bauer, George Gaskell (editores) ; tradugao de Pedrinho A. Guareschi.—7. ed. Petrépolis , RJ : Vozes, 2008. Titulo original: Qualitative Researching with Text, Image and Sound : a Practical Handbook. ISBN 978-85-326-2727-8 1. Ciéncias sociais - Metodologia 2. Ciéncias sociais — Pesquisa 3. Ciéncias sociais - Pesquisa - Metodologia 4. Pesquisa avaliativa (Programas de acdo social) 5. Pesquisa qualitativa I. Bauer, Martin W., II. Gaskell, George. 02-2085 CDD-001.42 Indices para catalogo sistematico: 1. Pesquisa qualitativa : Metodologia 001.42 Edigdo inglesa publicada por Sage Publications de Londres, ‘Thousand Oaks e.Nova Delhi, © Martin W. Bauer and George Gaskell 2000 Titulo original em inglés: Qualitative Researching With Text, Image and Sound Direitos de publicagao em lingua portuguesa: 2002, Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luis, 100 25689-900 Petrépolis, RJ Internet: http:/Avww.vozes.com.br Brasil Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderd ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrénico ou mecanico, incluindo fotocépia € gravagao) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissao escrita da Editora. Revisdo dos capitulos 13,15 e glossdrio: Denise Amon Editoragdo e org. literdria: Luciana Bassous Pinheiro Capa: André Gross ISBN 978-85-326-2727-8 Este livro foi composto ¢ impresso pela Editora Vozes Ltda. SUMARIO Apresentagao, 7 Sobre os autores, 11 Introdugdo, 15 1. Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento — Evitando confuses (Martin W. Bauer, George Gaskell & Nicholas C. Allum), 17 Parte I - Construindo um corpus de pesquisa, 37 2. A construgao do corpus: um principio para a coleta de dados qualitativos (Martin Bauer & Bas Aarts), 39 3. Entrevistas individuais e grupais (George Gaskell), 64 4, Entrevista narrativa (Sandra Jovchelovitch & Martin W. Bauer), 90 5. Entrevista episédica (Uwe Flick), 114 6. Video, filme e fotografias como documentos de pesquisa (Peter Loizos), 137 7. Bemetologia: para uma continua (auto-)observagio e ayaliagao da personalidade (Gerhard Fassnacht), 156 Parte II — Enfoques analiticos para texto, imagem e som, 187 8. Andlise de contetido classic: W. Bauer), 189 9. Andlise argumentativa (Miltos Liakopoulos), 218 10. Andlise de discurso (Rosalind Gill), 244 11. Andlise da conversagao e da fala (Greg Myers), 271 12. Andlise retérica (Joan Leach), 293 uma revisdo (Martin 13. Analise semidtica de imagens paradas (Gemma Penn), 319 14, Andlise de imagens em movimento (Diana Rose), 343 15. Andlise de ruido e misica como dados sociais (Martin W. Bauer), 365 Parte III - O auxilio do computador, 391 16. Andlise com auxilio de computador: codificagao e indexaco (Udo Kelle), 393 17. Palavras-chave em contexto: anilise estatistica de textos (Nicole Kronberger & Wolfgang Wagner), 416 Parte IV - Questées de boa pratica, 443 18, Faldcias na interpretagéo de dados histéricos e sociais (Robert W.D. Boyce), 445 19. Para uma prestagio de contas publica: além da amostra, da fidedignidade e da validade (George Gaskell & Martin W. Bauer), 470 Glossério, 491 APRESENTACAO ste é um livro de que necessitavamos e que até certo ponto me- cfamos. Necessitévamos, pois o ntimero de pesquisadores(as) que nee trabalham com métodos qualitativos é enorme. De pon- ta a ponta, no Brasil ¢ na América Latina, pode-se ja afirmar que a maior parte das investigagGes nas ciéncias humanas e sociais empre- ga, a0 menos como uma dimensao importante, métodos qualitativos de diferentes tipos. Nao tinhamos um referencial claro, coerente, se- guro, abrangente e, por assim dizer, amadurecido, para servir de parametro. Finalmente, ele esta aqui. Mereciamos, pois, um pouco como conseqiténcia do que acabamos de dizer. O esforco investigati- vo que esta sendo empregado em nossas diferentes instituicdes me- rece que se volva o olhar para esses grupos de trabalho e lhes ofereca um apoio seguro, aprofundado, que sirva como retribuicdo do esfor- go empenhado, por um lado, e como um impulso para maiores e mais aprofundados empreendimentos, por outro. Este livro chegou, portanto, em boa hora. Gostaria de mencionar algumas das muitas razées pelas quais este livro é bem-vindo. Em primeiro lugar, ele vem preencher um vacuo que nos afligia dentro da prépria pesquisa qualitativa. Ha grande miimero de inves- tigadores trabalhando neste campo, mas sem um ponto de apoio e um referencial mais ou menos comum. Investiamos muito tempo em discuss6es sobre uma ou outra técnica, mas sem uma referéncia que nos mostrasse 0 espectro global, de tal modo que pudéssemos especificar com clareza de que método falavamos, como 0 poderia- mos conceituar, qual semelhanga e diferenca entre os diversos méto- dos, quais as vantagens e limitagdes de cada um. Deste modo, apés dois capitulos iniciais, que nos apresentam uma excelente discussio epistemolégica sobre a relagao entre pesquisa qualitativa e quantita- iva, os diversos autores desfilam diante de nés aquilo mesmo que todo pesquisador ja se perguntou e, se nao, ira se perguntar: Qual a PESQUISA QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM. melhor maneira de enfrentar meu objeto? Entrevista em grupo ou individual? - cap. 3. O que é entrevista narrativa? — cap. 4. O que é entrevista episddica? - cap. 5. Como analisar imagens em videos, fil- mes, fotografias, documentos? ~ cap. 6. Quero pesquisar grande nti- mero de observacées por largo espaco de tempo? — cap. 7. O que € uma anilise de contetido classica? - cap. 8. O que é uma anilise ar- gumentativa? - cap. 9. O que é uma anilise de discurso, entre as 57 existentes? — cap. 10. Como se faz uma andlise da conversagao e da fala? - cap. 11. O que € e como fazer uma anilise retrica? — cap. 12. O que é e como fazer uma anilise semidtica? — cap. 13. Como fazer uma andlise com imagens em movimento, como na TV? - cap.14. Como fazer uma anflise dos rufdos ou de misicas? — cap715; Tudo isto para depois, em dois capitulos, mostrar bem criticamente até onde nos podem ajudar programas de computador para anilise de informagées qualitativas. Finalmente, os dois tltimos capitulos, para que nao fique nenhuma diivida, ajudam-nos a fazer uma reflexao critica sobre a importancia e a responsabilidade de quem faz pesqui- sa qualitativa, mostrando como, a partir do conhecimento acumula- do da pesquisa quantitativa, nao se precisa ficar devendo nada a tais conquistas, se soubermos trabalhar com cuidado e método. E se isto tudo ndo bastasse, um glossario fecha o volume com a definigao dos termos mais importantes discutidos no livro. Mas nao é tudo. Ha um ponto fundamental que gostaria de res- saltar: percebe-se, de imediato, que os autores dos capitulos sao pes- soas que ja labutaram no campo especifico do método que apresen- tam e que possuem uma pritica reconhecida. Todos eles, além de te- rem feito pesquisa dentro do tema, possuem produces reconheci- das e atualizadas e sao especialistas no assunto. Sao uma fonte segu- ra, experimentada, sadia, de onde podemos beber com seguranca. Cremos ser isto essencial, pois assim nos dao uma visao global do campo, mostram as vantagens e os problemas de cada método, como alguém que j4 experimentou na pratica estas dificuldades. E fazem isto muito bem. E assim que, ao menos um ter¢o dos capitulos, quando nao mais, traz um exemplo concreto, pratico, de uma pes- quisa que emprega 0 tipo de método sobre o qual disserta. Se fosse mostrar mais uma razao da importancia do livro, diria que ele nao é extremado ou fundamentalista. Aceita o desafio den- tro do campo da investigagao social, procurando estabelecer um dia- logo com a tradigao geral da pesquisa. Nao rompe com 0 conheci- mento adquirido, mas procura avangar, mostrando como € possivel ; APRESENTACAO progredir na tarefa investigativa, trazendo novas luzes e novos enfo- ques, sem necessariamente estabelecer dicotomias irreconcilidveis. Reconhecendo as diferengas necessdrias, traz avangos significativos, mostrando a possibilidade de um didlogo fecundo e construtivo com outras dimensdes metodolégicas. Tenho a impressao que temos agora um referencial para poder- mos julgar se uma investigagao dentro da dimensao qualitativa é uma boa pratica de pesquisa. Antes, os examinadores, tanto das dis- sertag6es de mestrado e teses de doutorado, como os revisores de ar- tigos para revistas cientfficas, ficavam um tanto perplexos no mo- mento de fazer uma avaliagao critica do valor dos referidos traba- Ihos. Se nao por outro motivo, este j4 justificaria a importancia e a necessidade do presente volume que vocé tem em maos. Finalmente, julgo que o livro nos traz uma contribuigao muito itil e pratica no sentido de dar inicio a padronizacao de uma lingua- gem em métodos de pesquisa qualitativa, possibilitando assim que 0 didlogo entre os colegas avance de maneira suave ¢ profunda. Uma agenda para este didlogo deveria incluir, entre outras, a discussio dos critérios de boa qualidade em pesquisa qualitativa ¢ a necessida- de de oferecer uma prestagao de contas publica 4 comunidade cien- tifica sobre a produgao em pesquisa qualitativa. Fazer uma tradugao que seja fiel e compreensfvel nao é facil. Ainda mais numa drea como esta. Necessitei criar, adaptar e aportu- guesar alguns termos, mas apenas no intuito de poder ser mais claro ¢ inteligivel. Sou grato aos estatfsticos, matematicos, lingitistas, se- midlogos, comunicadores e a outros a quem recorri para poder to- mar uma decisao prudente entre a criatividade e a repeticao. Anteci- po-me, pois, nas escusas por muitas falhas que certamente vocé en- contrara. E bem mais erros e falhas haveria nao fosse o carinho e agudez inteligente da doutoranda Denise Amon, da PUCRS, que corrigiu e aperfeicoou os capitulos 13, 15 ¢ 0 glossario, e contribuiu com muitos outros comentarios. Muito obrigado a ela e a todos que puderem mandar sugestées de corregdes para uma segunda ¢ outras edig6es que certamente se seguirao. Pedrinho A. Guareschi PUCRS SOBRE OS AUTORES Bas Aarts é professor de Lingua Inglesa Moderna e diretor do Survey of English Usage at University College London. Seu principal in- teresse em pesquisa € a sintaxe do inglés atual. Suas publicagées incluem Small Clauses in English: the Nonverbal Types (1992, Mou- ton de Gruyter), The Verb in Contemporary English; Theory and Des- cription (1995, editado com C.F. Meyer, Cambridge University Press) e English Syntax and Argumentation (1997, Macmilan). Nicolas C. Allum € um research officer no Methodology Institute, London School of Economics and Political Science. Ele esta atual- mente investigando percepgGes ptiblicas da biotecnologia com George Gaskell e Martin Bauer. Sua pesquisa de doutorado se concentra na percepgao de risco, confianga e julgamento moral com respeito a tecnologias controvertidas. Outros interesses sao. comportamento dos votantes, andlise textual com auxilio de com-# putador, e filosofias da ciéncia e probabilidade. Publicacées re centes incluem Worlds Apart: The Reception of Genetically Modi-©, fied Foods in Europe and the US, Science, 16 de julho de 1999; e A® & Social Representations Approach to the Analysis of Three Textual Corpo & va using ALCESTE, dissertacao de mestrado, LSE, 1998. Martin W. Bauer estudou Psicologia e Historia na Universidade de* Bern, e tem seu PhD pela London School of Economics. E profes- sor de Psicologia Social e Metodologia da Pesquisa na LSE e é rese- arch fellow do Science Museum, Londres. Pesquisa ciéncia e tecno- logia nas percepcGes sociais e reportagens da midia, e as fungdes da resisténcia na transformacao organizacional e societal. Recentes publicagées incluem Towards a Paradigm for Research on Social Representations, Journal for the Theory of Social Behavior (vol. 29, 1999), The Medicalisation of Science News — from the Rocket-Scal- pel to the Gene-Meteorite Complex, Social Science Information (vol. 37, 1998); Resistance to New Technology: Nuclear Power, Information Technology, Biotechnology (1997, Cambridge University Press). =it— PESQUISA QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM Robert Boyce ensina Hist6ria Internacional na London School of Eco- nomics onde se especializa na politica das relages econdmicas in- ternacionais. Entre suas recentes publicagées estao estudos sobre a crise econdmica no periodo entre guerras, relagdes dos bancos centrais, o desenvolvimento da comunicagao de alta velocidade, as origens econémicas da II Guerra Mundial, a indistria inglesa de bebidas dentro da Europa e politica monetaria francesa. Uwe Flick & sociélogo e psicélogo, professor de Pesquisa Empirica em Nutrigao na Alice-Salomon University of Applied Sciences, Berlim, Alemanha, e Privatdozent em Psicologia na Technical University of Berlim, Alemanha. Seus interesses em pesquisa in- cluem conhecimento cotidiano, representac6es sociais, metédolo- gia qualitativa, satide individual e publica e mudanga tecnolégica na vida cotidiana. Recentes publicagées incluem An Introduction to Qualitative Research (1999, Sage) e Psychology of the Social (editado com U. Flick, 1998, Cambridge University Press). Gerard Fassnacht € Privatdozent no departamento de Psicologia, University of Bern, Suga. Seus interesses em pesquisa incluem personalidade (em especifico desenvolvimento social), etologia humana, observacio, diagnéstico, metodologia da pesquisa e filo- sofia da ciéncia. Recentes publicag6es incluem Systematische Verhal- tensbeobacthung (3* edicdo totalmente revisada, 1995, Reinhardt); ¢ Theory and Practice of Observing Behavior (1982, Academic Press). George Gaskell & professor de Psicologia Social e diretor do Methodo- logy Institute at the London School of Economics. Ensina na area de delineamento de pesquisa, levantamentos € questionérios, in- vestigacao qualitativa, atitudes e representagoes sociais e psicolo- gia econémica. Recentes projetos de pesquisa incluem aspectos cognitivos da metodologia da pesquisa e um estudo comparativo internacional das percepcées publicas da moderna biotecnologia. E editor de Societal Psychology (1990, Sage), com H. Himmelweit, e Biotechnology in the Public Sphere (1998, Science Museum Press), com John Durant e Martin Bauer. * Rosalind Gill € psicéloga social € leciona Gender Theory na LSE. E espe- cialista em midia € novas tecnologias e autora de Gender-Technology Re- lation (com Keith Grint, 1995, Taylor & Francis) e Gender and the Me- dia: Representations, Audiences and Cultural Politics (2000, Polity Press). Sandra Jouchelovitch € professora de Psicologia Social na LSE. Traba- Iho extensamente com comunidades locais e publicou ampla- Sy SOBRE OS AUTORES mente no campo das representagGes sociais. Sua pesquisa atual € sobre como transformagées nas esferas publicas modelam a pro- dugao e a racionalidade das representages sociais. Udo Kelle é professor de Métodos em Pesquisa Social na University of Vechta. Seus principais interesses de pesquisa cobrem os campos da metodologia da pesquisa quantitativa e qualitativa, teoria da decisao e sociologia das trajetérias de vida. Presentemente traba- Iha com conceitos para integrar métodos qualitativos e quantitati- vos em pesquisa social. £ editor de Computer-aided Qualitative Data Analysis: Methods, Theory and Practice (1995, Sage). Nicole Kronberger é mestre em psicologia pela Universidade de Vie- na. Seu foco de pesquisa é em problemas psicossociais de morali- dade, compreensao publica da ciéncia e andlise qualitativa. Re- centes publicagées incluem Swarzes Loch, Geistige Liimung und Dorn- réschenschlaft: Ein Metaphernanalytischer Beitrag zur Erfassung von Alltagsworstellung von Depression (Black Hole, Mental Paralysis and Deep Sleep: a Methaphor Analysis of Lay Conceptions of Depression) Psychotherapie und Sozialwissenschaft (1999) 1 (2), 85-104. Joan Leach é professora em Ciéncia da Comunicagao no Imperial Col- lege of Science, Technology & Medicine. Ela recebeu bacharelado em Literatura Inglesa e bacharelado em Biologia da University of Illinois at Urbana-Champaign. Recebeu seu mestrado em Comuni- cago e seu PhD como um Andrew Mellon Doctoral Fellow na reté- rica da ciéncia da University of Pittsburg. E editora da revista qua- drimensal Social Epistemology, e publicou sobre ética do discurso, a historia e o papel dos comunicadores na ciéncia e medicina, e as re- presentagoes da ciéncia na midia durante a crise BSE. Ensina no curso de graduacao em Ciéncia da Comunicacio e no curso de mes- trado ém ciéncia da comunicac’o no Imperial College. Milos Liakopoulos completou seu PhD na LSE sobre a controvérsia com relacao aos alimentos geneticamente modificados na Ingla- terra. Sua pesquisa é sobre atitudes publicas com respeito a biotec- nologia e sobre a cobertura da midia sobre biotecnologia. Peter Loizos teve uma primeira atividade como produtor de filmes e documentirios antes de entrar para a Antropologia Social, que en- sina na LSE desde 1969. E 0 autor e co-editor de The Greek Gift: Poli- tics in a Cypriot Village; The Heart Grown Bitter: A Chronicle of Cypriot War Refugees; Gender and Kinship in Modern Greece (com E. Papataxi- archis); Choosing Research Methods: Data Collection for Development Sia Workers (com Gryan Pratt); Innovation in Ethnographic Film: From Innocence to Self-consciousness; Conceiving Persons: Ethnographies of Procreation (com P. Heady), e mais de 50 trabalhos, relatorios, capi- tulos e artigos numa gama de temas, incluindo transferéncia de propriedade e classe; desenvolvimento politico e clientelismo; con- flito étnico; participagao em projetos de desenvolvimento DFID (Nepal e Nigéria), adaptagao dos refugiados a privacdo e conserva- cdo do capital social dos refugiados, e assuntos de representacao de filmes de televisao. Greg Myers é professor sénior de Lingiifstica e Lingua Inglesa mo- derna na Lancaster University, onde ensina no programa de Cul- ture, Media and Communications. Seu livro mais recente é Ad Worlds: Brands, Media, Audiences (1999, Arnold), e esta trabalhan- do na dinamica da opiniao em grupos focais. O trabalho desse ca- pitulo foi financiado em parte por uma bolsa do Economic and Social Research Council (Inglaterra). Gemma Penn concluiu seu PhD em 1998 no Departamento de Psico- logia Social da LSE, onde também lecionou por dois anos. Atual- mente esta trabalhando como consultora autOnoma em pesquisa social e estatistica. Seus interesses em pesquisa incluem publicida- de e promogao de vendas, psicologia social da satide, com énfase particular no fumar e na medicalizagao e satisfagao dos pacientes com o atendimento de satide. Diana Rose estudou nas Universidades de Aberdeen e London e tem seu PhD dessa tiltima. Escreveu amplamente em sociolingiifstica, métodos qualitativos, representac6es sociais, andlises de televisio e satide mental. Lecionou psicologia social ¢ estudos femininos e atualmente € pesquisadora sénior na equipe do User-Focused Monitoring no The Sainsbury Centre for Mental Health em Lon- dres. Diana Rose é supervisora do sistema de satide mental. Wolfgang Wagner é professor no departamento de Psicologia Social e Econémica da University of Linz, Austria. Seus interesses em pes- quisa passam pelo pensamento cultural e social cotidiano, teoria da representacao social, cognic¢ao distribuida e partilhada, processos de grupo, e problemas de transferéncia ¢ aplicagao da teoria na pratica profissional. Suas principais publicagdes incluem Alltagsdis- kurs: die Theorie Sozialer Reprasentationen (Everyday Discourse: The Theory of Social Representations, 1994, Géttingen: Hogrefe). —14— INTRODUGAO Este livro tem uma histéria de uns cinco anos. Iniciou no Institu- to de Metodologia da London School of Economics (LSE), criado para-munir os estudantes de pesquisa com um amplo treinamento em métodos de pesquisa quantitativa e qualitativa. Somos responsa- veis pelo desenvolvimento de cursos e apoio 4 pesquisa qualitativa. Aquela época, um ntimero crescente de estudantes e pesquisadores dedicavam-se, com muita satisfagao, a estudos qualitativos, e os edi- tores, com ainda maior satisfagado, forneceram um ntimero crescente de livros, que estimularam uma estranha guerra de palavras entre métodos quantitativos e qualitativos. A idéia de que esses métodos se constituem em enfoques mutuamente exclusivos, dentro da pesqui- sa social, possui uma longa histéria, materializada nas séries muito uiteis de livros verdes e azuis, publicadas pela editora Sage. Através de nossos esforgos, tentamos evitar trés posturas co- muns. Primeiramente, relutamos equiparar a pesquisa qualitativa a um conhecimento interessado em “dar poder”, ou “dar voz aos opri- midos”. Embora estes possam ser entusiasmos louvaveis, no contex- to de grande parte da pratica de pesquisa qualitativa, eles s4o, no minimo, ingénuos e possivelmente mal encaminhados. Em segundo lugar, consideramos que o espectro de dados acessiveis 4 pesquisa social vai além das palavras pronunciadas nas entrevistas. Desde 0 in{cio, incluimos outras formas de texto, bem como imagens e mate- riais sonoros, na nossa discussao sobre fontes de dados. Em terceiro lugar, consideramos as batalhas epistemolégicas entre pesquisado- res qualitativos e quantitativos, entre uma diversidade de grupos de discussao interna e grupos externos, como polémicas, verborra- gicas e improdutivas. Por conseguinte, concentramos nosso esfor- co no esclarecimento dos procedimentos, na prestagao de contas publica e na boa pratica em pesquisas empiricas. Esta filosofia, que poderia ser identificada de maneira ampla como socioconstrutivista, guiou nossa escolha de colaboradores para este livro, de forma que possufssem uma postura teérica dentro destes parametros. Alguns —15— PESQUISA QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM. dos autores pertencem a LSE e tém contribufdo para o programa de ensino de metodologia por diversos anos. Encontramos outros excelentes pesquisadores que aceitaram o convite de contribuir com 0 que poderia ser chamado de “enfoque da LSE” em pesquisa qualitativa: privilegiar os procedimentos e a boa pratica, e evitar confusées epistemolégicas. Apés uma introdugao as questdes centrais da quantidade, quali- dade ¢ interesses do conhecimento, o livro esta estruturado em qua- tro partes. A parte I discute diferentes maneiras de coletar dados e diferen- tes tipos de dados: texto, imagem e materiais sonoros. O principal argumento aqui é que a construgao de um corpus € 0 principio que permite uma coleta sistematica de dados, sem seguir a légica da amostragem estatistica. A parte II introduz oito diferentes enfoques analiticos cobrindo, novamente, texto, imagem e materiais sonoros. Cada enfoque apresenta sua nomenclatura especifica, € contextuali- zado brevemente, apresenta um exemplo e desenvolve passo a passo 0s procedimentos, concluindo com uma discussdo sobre 0 que cons- titui uma boa pratica. A parte IIT introduz dois tipos de uso do computador para auxi- lio 4 andlise de dados — indexagao e codificagao, também conhecidos como CAQDAS e anilise de co-ocorréncia KWIC - como exemplos do consideravel trabalho no desenvolvimento de software nessa area. A parte IV enfoca problemas de interpretacao, do ponto de vis- ta do historiador, que procura compreender os atores no passado, mas cujos problemas sao semelhantes aos do pesquisador social. Onze falacias de interpretagao dao uma indicacao do que pode estar acontecendo de errado em toda tentativa de interpretar o “outro”, em determinada situagdo. Finalmente, nés apresentamos nossas re- comendagées sobre critérios de qualidade para pesquisa qualitativa. Sublinhamos seis critérios que sao diferentes, mas funcionalmente equivalentes, em termos de prestacdo de contas publica, aos critérios tradicionais de amostragem representativa, fidedignidade e valida- de. Critérios para avaliar a pesquisa qualitativa sao indispensaveis, mas se aplicam critérios diferentes na definicdo de uma boa pratica. Expressamos nossa gratidao aos colegas do Instituto e aos estu- dantes do curso de mestrado em Métodos de Pesquisa Social, por seu encorajamento e sua critica construtiva, a medida em que este li- vro ia tomando forma, e obrigado a Jane Gregory por sua edicao cui- dadosa do manuscrito. —16— 1 QUALIDADE, QUANTIDADE E INTERESSES DO CONHECIMENTO EVITANDO CONFUSOES Martin W. Bauer, George Gaskell & Nicholas C. Allum Palavras-chave: andlise de dados; a lei do instrumento; geracio | de dados; modos e meios de representagao; a situacio ideal de | 5 . jive A | pesquisa; delineamento da pesquisa; interesses do conhecimento. | Imagine um jogo de futebol. Dois jogadores advers4rios correm atras da bola e, de repente, um deles cai, rolando pelo cho. Metade dos espectadores assobiam e gritam, e a outra metade respira alivia- da, pois o possfvel perigo foi superado. Podemos analisar esta situagao social competitiva da seguinte maneira. Primeiro, existem os atores: os jogadores de futebol, 11 de cada lado, altamente treinados, habilidosos e articulados em seus papéis,com o propésito de ganhar 0 jogo; € os Arbitros, isto é, 0 juiz e os bandeirinhas. Este é 0 “campo da ago”. Temos depois os espectadores. Os assistentes, em sua maioria, sao leais torcedores de um time ou outro. $40 poucos os que no se identificam com um ou outro dos times. Havera, contudo, um ou dois espectadores que nao conhecem o futebol, e sio apenas curio- sos. As arquibancadas dos espectadores sao 0 “campo de observacaio ingénua” ~ ingénua no sentido de que os espectadores estao sim- plesmente assistindo aos acontecimentos no campo e sé0 como que parte do proprio jogo, que eles experienciam como se eles préprios estivessem jogando. Devido a sua lealdade a um dos times, pensam e sentem dentro de uma perspectiva partidaria. Quando um dos joga- 7 PESQUISA QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM. dores cai, isto € interpretado pelos torcedores do seu time como uma falta, enquanto que para os fas do outro time nao passa de um erro pessoal e teatral. Finalmente, hé a posigéo daqueles que descrevem a situagao como nés o fazemos aqui. Temos uma curiosidade sobre a natureza tribal do acontecimento, do campo de agao e dos espectadores que estio sendo observados. Em termos ideais, tal descrigéo requer uma anilise fria da situagao, que nao tenha envolvimento com nenhum dos times. Nosso envolvimento direto pode ser com o futebol em ge- ral — seus problemas atuais e futuros. A isto nés chamamos de “cam- po de observagao sistematica”. A partir desta posigao, podemos rela- cionar trés formas de evidéncia: o que esta acontecendo no campo, as reagoes dos espectadores, e€ a instituicdo do futebol como um ramo do esporte, dos negocios ligados aos divertimentos ou ao co- mércio. Evitar um envolvimento direto exige precaugGes: a) uma consciéncia treinada das conseqiiéncias que derivam do envolvi- mento pessoal; ¢ b) um compromisso em avaliar as observagoes de alguém metodicamente e em publico. Tais observacgdes com diferentes graus de imparcialidade sao a problematica da pesquisa social. Por analogia, podemos facilmente estender este “tipo ideal” de andlise daquilo que podemos chamar uma “situacao total de pesquisa” (Cranach et al., 1982: 50), a outras atividades sociais, tais como votar, trabalhar, fazer compras e com- por misica, para mencionar apenas algumas. Podemos estudar o campo de acao, e perguntar que acontecimentos estao no campo (o objeto de estudo); podemos experimentar subjetivamente tal acon- tecimento — 0 que est acontecendo, como nos sentimos, € quais os motivos para tal acontecimento. Esta observacéo ingénua € seme- Ihante a perspectiva dos atores e dos auto-observadores. Finalmen- te, nds nos concentramos na relago sujeito/objeto que brota da com- paracao da perspectiva do autor e da perspectiva do observador, dentro de um contexto mais amplo e pergunta como os aconteci- mentos se relacionam as pessoas que as experienciam. Uma cobertura adequada dos acontecimentos sociais exige mui- tos métodos e dados: um pluralismo metodolégico se origina como uma necessidade metodol6gica. A investigacio da agao empirica exige a) a observacao sistematica dos acontecimentos; inferir os sen- tidos desses acontecimentos das (auto-)observagées dos atores e dos espectadores exige b) técnicas de entrevista; e a interpretagao dos Sie 1. QUALIDADE, QUANTIDADE E INTERESSES. vestigios materiais que foram deixados pelos atores e espectadores exige c) uma anilise sistematica. O delineamento da pesquisa: geracao de dados, redugao e andlise E util distinguir entre quatro dimensdes na investigacio social. Estas dimensées descrevem 0 processo de pesquisa em termos de combinagées de elementos através das quatro dimensées. Primeiro, ha o delineamento da pesquisa de acordo com seus princfpios estraté- gicos, tais como o levantamento por amostragem, a observacao parti- cipante, os estudos de caso, os experimentos e€ quase-experimentos. Segundo, ha os métodos de coleta de dados, tais como a entrevista, a observagao e a busca de documentos. Terceiro, ha os tratamentos analiticos dos dados, tais como a anilise de contetido, a andlise retéri- ca, a andlise de discurso e a anilise estatistica. Finalmente, os interes- ses do conhecimento referem-se A classificagio de Habermas sobre 0 controle, a construcéo de consenso e a emancipacao dos sujeitos do estudo. Estas quatro dimensées so mostradas na Tabela 1.1. Tabela 1.1 — As quatro dimensées do processo de pesquisa Principios do Geragéo de dados Andlise dos dados _Interesses do delineamento conhecimento Estudo de caso Entrevista individual Formal Estudo comparativo Questionério Modelagem estatistica Levantamento por Grupos focais Anélise estrutural Controle e predigéo Amostragem Levantamento por Filme Informal Construgéo de Painel consenso Experimento * Registros Anélise de contetide Emancipagao e dudio-visuais “empoderamento” Observagao Observacéo Codificagéio Participante sistematica Coleta de Indexagéo documentos Etnografia Registro de sons Anélise semistica Andlise retérica Anélise de discurso io PESQUISA QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM Muita confuséo metodolégica e muitas afirmacées falsas surgem da compreensao equivocada ao se fazer a distingao entre qualitati- vo/quantitativo na coleta e andlise de dados, com princfpios do deli- neamento da pesquisa e interesses do conhecimento. E muito possi- vel conceber um delineamento experimental, empregando entrevis- tas em profundidade para conseguir os dados. Do mesmo modo, um delineamento de estudo de caso pode incorporar um questiondrio de pesquisa para levantamento, junto com técnicas observacionais, como por exemplo estudar uma corporagao comercial que passa por dificuldades. Um levantamento de grande escala de um grupo de minoria étnica pode incluir questées abertas para andlise qualitati- va, € os resultados podem servir a interesses emancipatérios do gru- po minoritario. Ou podemos pensar em um levantamento aleatério de uma populacao, coletando os dados através de entrevistas com grupos focais. Contudo, como mostra o iltimo exemplo, certas com- binagées de princfpios de delineamentos, com métodos de coleta de dados, ocorrem com menos freqiiéncia, devido as implicagoes liga- das aos recursos. Defendemos a idéia de que todas as quatro dimen- sdes devem ser vistas como escolhas relativamente independentes no processo de pesquisa e que a escolha qualitativa ou quantitativa é primariamente uma decisao sobre a geracao de dados e os métodos de andlise, e s6 secundariamente uma escolha sobre o delineamento da pesquisa ou de interesses do conhecimento. Embora nossos exemplos tenham inclufdo a pesquisa de levanta- mento, nesse livro nés trabalhamos principalmente com geragao de dados e procedimentos de anilise dentro da pratica da pesquisa qua- litativa, isto é, pesquisa ndo-numérica. Modos e meios de representagao: tipos de dados Duas distingdes sobre dados podem ser titeis nesse livro. O mun- do, como 0 conhecemos e 0 experienciamos, isto é, o mundo repre- sentado e nao o mundo em si mesmo, é constitufdo através de pro- cessos de comunicagio (Berger & Luckmann, 1979; Luckmann, 1995). A pesquisa social, portanto, apdia-se em dados sociais — dados sobre 0 mundo social — que sao o resultado, e sao construfidos nos processos de comunicagio. Neste livro, distinguimos dois modos de dados sociais: comuni- cagao informal e comunicagao formal. Além disso, distinguimos trés meios, através dos quais os dados podem ser construidos: texto, ima- —20— 1. QUALIDADE, QUANTIDADE E INTERESSES... gem € materiais sonoros (ver Tabela 1.2). A comunicagio informal possui algumas poucas regras explicitas: as pessoas podem falar, de- senhar ou cantar do modo que queiram. O fato de haver poucas re- gras explicitas nao significa que nao existam regras, e pode aconte- cer que 0 foco central da pesquisa social seja desvelar a ordem oculta do mundo informal da vida cotidiana (ver Myers, cap. 11, neste vo- lume, sobre anilise da conversac4o). Na pesquisa social, estamos in- teressados na maneira como as pessoas espontaneamente se expres- sam e falam sobre o que é importante para elas e como elas pensam sobre suas agGes e as dos outros. Dados informais sio gerados menos conforme as regras de competéncia, tais como capacidade de escre- yer um texto, pintar ou compor uma miisica, e mais do impulso do momento, ou sob a influéncia do pesquisador. O problema surge quando os entrevistados dizem o que pensam que o entrevistador gostaria de ouvir. Devemos reconhecer falsas falas, que podem dizer mais sobre o pesquisador e sobre 0 processo de pesquisa, do que so- bre o tema pesquisado. Tabela 1.2 - Modos e meios Meio-modo Informal Formal Texto Entrevistas Jornais, Programas de rédio Imagem Desenhos de criancas Quadros Rabiscos feitos ao telefonar Fotografias Sons Cantos espontaneos Escritos musicais Cendrios sonoros Rituais sonoros Relatos “distorcidos” Ruidos estratégicos Afirmagées falsas sobre “falsos” ou encenados uma representacdo Por outro lado, existem agGes comunicativas que sao altamente formais, no sentido de que a competéncia exige um conhecimento especializado. As pessoas necessitam de treino para escrever arti- gos de jornal, para produzir desenhos para um comercial, ou para criar um arranjo para uma banda popular ou para uma orquestra sinfénica. Uma pessoa competente pode ter estudado as regras do comércio, muitas vezes para modifica-las a seu proveito, o que se chama de inovagao. A comunicagao formal segue as regras do co- mércio. O fato de o pesquisador usar os produtos resultantes, tais como um artigo de jornal, para a pesquisa social, provavelmente nao influencia ato da comunicacao: nao faz diferenga o que o jor- nalista escreveu. Nesse sentido, os dados baseados nos registros a PESQUISA QUALITATIVA COM TEXTO, IMAGEM E SOM nao trazem problema. Um problema diferente surge, contudo, quando os comunicadores dizem representar um grupo social que, na realidade, nao representam. O cientista social deve reconhecer essas falsas pretensGes de representagao. Os dados formais reconstroem as maneiras pelas quais a realida- de social é representada por um grupo social. Um jornal representa até certo ponto o mundo para um grupo de pessoas, caso contrario elas nao o comprariam. Nesse contexto, o jornal se torna um indica- dor desta visio de mundo. O mesmo pode ser verdade para dese- nhos que as pessoas consideram interessantes e desejaveis, ou para uma miisica que € apreciada como agradavel. O que uma pessoa lé, olha, ou escuta, coloca esta pessoa em determinada categoria, € pode indicar o que a pessoa pode fazer no futuro. Categorizar o pre- sente €, as vezes, predizer futuras trajetdrias € 0 objetivo de toda pes- quisa social. Neste livro nés nos concentramos quase que exclusiva- mente no primeiro ponto: a categorizacgao do problema. A filosofia deste livro pressupée que nao h4 “um modo 6timo” de fazer pesquisa social: nao ha razGes convincentes para nos tornar- mos pollsters (pessoas que conduzem pesquisas de opiniao), nem de- vemos nos tornar todos focusers (pessoas que realizam pesquisas com grupos focais). O objetivo deste livro € superar a “lei do instrumen- to” (Duncker, 1995), segundo a qual uma crianca que s6 conhece 0 martelo pensa que tudo deve ser tratado a marteladas. Por analogia, nem 0 questiondrio de levantamento, nem o grupo focal se consti- tuem no caminho régio para a pesquisa social. Este caminho pode, contudo, ser encontrado através de uma consciéncia adequada dos diferentes métodos, de uma avaliacao de suas vantagens ¢ limitagées e de uma compreensio de seu uso em diferentes situagGes sociais, di- ferentes tipos de informagées e diferentes problemas sociais. Estamos de acordo agora que a realidade social pode ser repre- sentada de maneiras informais ou formais de comunicar e que o meio de comunicagao pode ser composto de textos, imagens ou materiais sonoros. Na pesquisa social nés considéramos todos eles como impor- tantes, de um modo ou de outro. E isto que tentaremos esclarecer. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa ‘Tem havido muita discussao sobre as diferengas entre pesquisa quantitativa e qualitativa. A pesquisa quantitativa lida com niimeros, usa modelos estatisticos para explicar os dados, e é considerada pes- SS 1, QUALIDADE, QUANTIDADE E INTERESSES... quisa hard. O protétipo mais conhecido é a pesquisa de levantamen- to de opiniao. Em contraste, a pesquisa qualitativa evita nimeros, lida com interpretagGes das realidades sociais, e € considerada pes- quisa soft. O protétipo mais conhecido é, provavelmente, a entrevis- ta em profundidade. Estas diferengas sao mostradas na Tabela 1.3. Muitos esforcos foram despendidos na tentativa de justapor pesqui- sa quantitativa e qualitativa como paradigmas competitivos de pes- quisa social, ao ponto de haver pessoas que construfram carreiras dentro de uma ou de outra, muitas vezes polemizando sobre a supe- rioridade da quantitativa sobre a qualitativa, ou vice-versa. Os edito- res foram rapidos em demarcar um mercado e criaram colecées de livros e revistas com a finalidade de perpetuar tal discussao. Tabela 1.3 - Diferencas entre pesquisa quantitativa e qualitativa Estratégias Quantitativas Quolitativas Dados Nomeros Textos Andlise Estatistica Interpretagéo Protétipo Pesquisas de opiniéo Entrevista em profundidade Qualidade Hard Soft E correto afirmar que a maior parte da pesquisa quantitativa esta centrada ao redor do levantamento de dados (survey) e de questiona- rios, apoiada pelo SPSS (Statistical Package for Social Sciences) e pelo SAS (Statistics for Social Sciences) como programas padroes de andlise estatistica. Tal pratica estabeleceu padrées de treinamento metodo- légico nas universidades, a tal ponto que o termo metodologia pas- sou a significar estatfstica em muitos campos da ciéncia social. Para- lelamente, desenvolveu-se um amplo setor de negécios, oferecendo pesquisa social quantitativa para uma infinidade de propésitos. Mas © entusiasmo recente pela pesquisa qualitativa conseguiu mudar, com sucesso, a simples equiparagao da pesquisa social com a meto- dologia quantitativa; e foi reaberto um espago para uma visio menos dogmatica a respeito de assuntos metodoldgicos — uma atitude que era comum entre os pioneiros da pesquisa social (veja, por exemplo, Lazarsfeld, 1968). Em nossos esforgos, tanto em pesquisar, como em ensinar pes- quisa social, estamos tentando um modo de superar tal polémica es- téril, entre duas tradigées de pesquisa social aparentemente compe- 93 titivas. Estamos procurando este objetivo apoiados em varios pressu- Ppostos, como os que se seguem. Nao ha quantificagao sem qualificagao A mensuragao dos fatos sociais depende da categorizacio do mundo social. As atividades sociais devem ser distinguidas antes que qualquer freqiiéncia ou percentual possa ser atribufdo a qualquer distingao. E necessdrio ter uma nogio das distingdes qualitativas en- tre categorias sociais, antes que se possa medir quantas pessoas per- tencem a uma ou outra categoria. Se alguém quer saber a distribui- ao de cores num jardim de flores, deve primeiramente identificar o conjunto de cores que existem no jardim; somente depois disso pode-se comegar a contar as flores de determinada cor. O mesmo é verdade para os fatos sociais. Nao ha andlise estatistica sem interpretagao Pensamos que é incorreto assumir que a pesquisa qualitativa possui o monopdlio da interpretacgao, com o pressuposto paralelo de que a pesquisa quantitativa chega a suas conclusdes quase que au- tomaticamente. Nés mesmos nunca realizamos nenhuma pesquisa numérica sem enfrentar problemas de interpretacdo. Os dados nao falam por si mesmos, mesmo que sejam processados cuidadosamen- te, com modelos estatisticos sofisticados. Na verdade, quanto mais complexo o modelo, mais dificil é a intetpretagéo dos resultados. Escudar-se atras do “circulo hermenéutico” de interpretacio, de acordo com o qual a melhor compreenso provém do fato de se sa- ber mais sobre 0 campo de investigacao, é para os pesquisadores qualitativos um lance retérico, mas um lance bastante ilusério. O que a discussio sobre a pesquisa qualitativa tem conseguido foi des- mistificar a sofisticagao estatfstica como 0 Gnico caminho para se conseguir resultados significativos. O prestigio ligado aos dados nu- méricos possui tal poder de persuasao que, em alguns contextos, a mé qualidade dos dados é mascarada @ compensada por uma sofisti- cagao numérica. A estatistica, como um recurso retérico, contudo, preocupa-se com o problema relativo ao tipo de informacées que sao analisadas: se colocarmos informacées irrelevantes, teremos es- tatisticas irrelevantes. No nosso ponto de vista, a grande conquista da discussao sobre métodos qualitativos é que ela, no que se refere A pesquisa € ao treinamento, deslocou a atencao da anilise em dire a questées referentes 4 qualidade € a coleta dos dados. ee 1, QUALIDADE, QUANTIDADE E INTERESSES... Parece que a distingao entre pesquisa numérica € nao-numérica é, muitas vezes, confundida com outra discussao, isto é, a distingdo entre formalizagao e nao formalizagao da pesquisa (ver Tabela 1.4). A polé- mica sobre estes tipos de pesquisa é muitas vezes ligada ao problema da formalidade, e baseada na socializacao metodolégica do pesquisa- dor. O formalismo implica abstracées do contexto concreto da pes- quisa, introduzindo assim uma distancia entre a observagao e os da- dos. Explicando melhor, o formalismo é uma abstragao para propési- tos gerais, vitil para o tratamento de muitos tipos de dados, contanto que determinadas condigées sejam satisfeitas, tais como independén- cia das mensuragGes, igual variancia, etc. A natureza abstrata do for- malismo implica uma especializacdo tal que pode conduzir a um de- sinteresse total para com a realidade social representada pelos dados. Muitas vezes é esse “distanciamento emocional”, e nao tanto os ntime- ros em si, que leva pesquisadores com outras conviccées a nao se sen- tirem bem com a pesquisa quantitativa. Como mostraremos a seguir, contudo, isso tem a ver com 0 fato de se lidar com um método de pes- guisa especifico, mas pode ser discutido com mais proveito no contex- to mais amplo dos interesses do conhecimento. A pesquisa numérica possui um amplo repertério de formalidades estatisticas a seu dispor, enquanto que um repertério equivalente na pesquisa qualitativa nao esta ainda bem desenvolvido — apesar do fato de que seu antecessor, muitas vezes invocado, o estruturalismo, fosse muito forte em forma- lismos (veja, por exemplo, Abell, 1987). Tabela 1.4 - A formalizagao e a néo formalizagao da pesquisa Quantitative Qualitative Nao formalizagéio Freqiéncias descritivas Citagdes, descrigdes, anedo- fas Formalizagao Modelagem estatistica, por Modelagem ex. um livro de introdugéio _teérico-gréfica, por ex. Abell (1987) Pluralismo metodolégico dentro do processo de pesquisa: além da lei do mstrumento Uma conseqiiéncia infeliz da pratica de se centrar em dados nu- méricos no treinamento em pesquisa foi uma interrupg40 prematu- ra na fase de coleta de dados no processo de pesquisa. Com muitas pessoas competentes no tratamento de dados numéricos, 0 processo de coleta de dados é rapidamente reduzido as rotinas mecAnicas do —25—