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“CAMINO REAL

“TENNESSEE WILLIAMS

PRÓLOGO

À medida que o pano sobe, num palco praticamente às escuras, ouve-se um forte

ulular do vento, acompanhado por distantes e moderadas reverberações semelhantes ao

rebentar das ondas ou ao distante rebentamento de granadas. Por cima da muralha antiga, em

pano de fundo, e do perímetro de montanhas que são visíveis por cima da muralha, há

pequenas luzes cintilantes, brancas, como se o romper do dia fosse um pássaro branco preso

nas malhas de uma rede, lutando por se erguer.

A esta luz, os contornos da praça mal se distinguem. A praça pertence a um porto de

mar tropical, o qual tem uma confusa, mas de certa forma harmoniosa, semelhança a portos

tão dispersos como os de Tânger, Havana, Vera Cruz, Casablanca, Shangai, Nova Orleans.

No lado esquerdo do palco situa-se a parte luxuosa da rua, a qual é composta pela

fachada do Hotel “Siete Mares “e da sua esplanada, na qual se vêem algumas cadeiras e

mesas de ferro branco, tendo as mesas tampos de vidro. No andar térreo há uma grande janela

saliente e nela vê-se um par de elegantes manequins, um deles sentado, o outro por trás dele,

de pé, ambos olhando para a praça com sorrisos pintados. No andar de cima existe uma

pequena varanda e, por detrás dela, uma grande janela que permite ver uma parede, na qual

está pendurada uma fénix pintada sobre seda : este artefacto deve ser levemente iluminado ao

longo da peça, na medida em que as ressurreições são uma parte apreciável do seu

significado.

Do lado outro lado da rua, em frente do Hotel, situa-se a fachada marginal, onde ficam

a engalanada loja da Cigana, a loja de penhores, com a sua montra cheia de variados artigos

penhorados, e o “Ritz Só Para Homens”, uma albergaria duvidosa que tem um postigo sobre a

escada de entrada. Nesse postigo aparece de tempos a tempos um vagabundo para entoar

títulos de canções, que venham a propósito ou façam contraponto com o desenrolar da acção.
No fundo do palco há uma escadaria que se eleva pela muralha, até uma espécie de

arco que conduz à “Terra Incognita”, como é chamada na peça uma zona árida entre a cidade

muralhada e o distante perímetro de montanhas de cumes nevados.

À boca de cena, tanto do lado direito como do lado esquerdo, existem arcos que dão

entrada para becos.

(Imediatamente após a subida do pano, um feixe de luz azul incide sobre o corredor

central da sala de teatro e, a esta luz, vindo dos fundos da sala, aparece D. Quixote de La

Mancha, vestido como um velho “rato do deserto”. Assim que entra no corredor grita “Hola!”em

voz cansada e rouca, voz que contudo, está ainda cheia de energia. Responde-lhe uma outra

voz, impaciente e cansada, a voz do seu escudeiro Sancho Pança. Tropeçando, devido a

fadiga essencialmente física, o velho cavaleiro desce o corredor e Sancho segue-o uns metros

atrás, alombando penosamente com equipamento vário, desde um escudo medieval até

utensílios de cozinha de campanha ou uma garrafa - termo. Vão trocando gritos entre si)

QUIXOTE - (declamando por cima do ulular do vento, num tom de voz tão idoso

quanto ele) : Azul é a cor da distância.

SANCHO - (atrás dele, mal-humorado e extenuado) : Sim, a distância é azul.

QUIXOTE - Azul é também a cor da nobreza.

SANCHO - Sim, a nobreza é azul.

QUIXOTE - Azul é a cor da distância e da nobreza e eis a razão pela qual um velho

cavaleiro deve sempre trazer consigo, dependurado algures, um pedaço de fita azul...

(Ele toca no cotovelo de um espectador da coxia, à medida que cambaleia, exausto ;

balbucia desculpas)

SANCHO - Sim, um pedaço de fita azul.


QUIXOTE - Um pedaço de fita azul desbotada, presa ao que restar da sua armadura,

ou atada na extremidade da sua lança, a sua invicta lança! Servirá para relembrar a um velho

cavaleiro a distância já percorrida e a distância que ele ainda tem de percorrer...

(Sancho murmura a palavra castelhana para excremento, depois de vários elementos

ferrugentos da armadura cairem no corredor.

Quixote chegou agora ao primeiro dos degraus da boca de cena. Parou aqui, como se

hesitasse em entrar ou sair de sonho. Sancho pára atrás dele, fazendo grande barulho.

Mr Gutman, um homem gordo e com ares senhoriais, vestindo um fato de linho e

envergando um chapéu chapéu colonial de palhinha, aparece quase indistintamente à varanda

do “Siete Mares”, com uma catatua branca no pulso. O pássaro grasna de forma estrídula.

GUTMAN - Shhh, Aurora.

QUIXOTE - E também faz lembrar a um velho cavaleiro o país verdejante onde viveu,

e que era a juventude do seu coração, antes de palavras melodiosas como Verdade!

SANCHO - (suspirando) Verdade.

QUIXOTE - Valor!

SANCHO - Valor.

QUIXOTE - (erguendo a sua lança) Dever!

SANCHO - Dever...

QUIXOTE - Se terem tornado o resmungo entre dentes e sem significado de um velho

frade recurvado sobre um bocado de borrego frio à ceia!

(Gutman chama a atenção de dois guardas na praça, os quais a cruzam com lanternas

vermelhas e fazem descer, a ambos os lados da boca de cena, grades pintadas às riscas pretas

e brancas, como se a boca de cena fosse uma fronteira. Um dos guardas, com a mão no

coldre, avança em direcção aos dois homens que estão junto aos degraus de acesso ao palco)

GUARDA - Vien aquí.


(Sancho recua, mas Quixote avança até à grade. O guarda aponta uma lanterna para a sua

cara de cor vermelha, longa e de inexcedível gravidade, apalpa-o como por acaso à procura de

armas escondidas, examina uma velha faca ferrugenta, atira-a fora com desdém).

Sus papeles! Sus documentos!

(Quixote retira desajeitadamente uns papéis velhos, a desfazerem-se, do forro do chapéu)

GUTMAN - (impacientemente) Quem é ele?

GUARDA - Um velho rato do deserto chamado Quixote.

GUTMAN - Oh! Era esperado! Deixa-o entrar.

(Os guardas levantam a grade e um deles senta-se a fumar na esplanada. Sancho recusa-se a

avançar. Uma pequena disputa tem lugar à boca de cena, nos degraus de acesso e no

corredor)

QUIXOTE - Em frente!

SANCHO - Ah, não! Eu conheço este lugar (tira um mapa amarfanhado). Aqui está ele

no mapa. Veja, diz aqui : “continua até chegar à praça da cidade muralhada que é o fim do

Camino Real e o princípio do Camino Real. Pára aí, diz aqui, e volta para trás, Viajante, pois a

fonte da humanidade já secou nesse lugar e...”

QUIXOTE (tira-lhe o mapa e lê o resto) - Não existem pássaros nesse lugar, a não ser

os pássaros bravos amestrados, mantidos em... (leva o mapa até ao nariz) gaiolas!

SANCHO (com urgência) - Voltemos para La Mancha!

QUIXOTE - Em frente!

SANCHO - É chegada a hora de retirar!...

QUIXOTE - A hora de retirar nunca chega!

SANCHO - Eu vou voltar para La Mancha!

(Atira o equipamento do cavaleiro para o fosso da orquestra)

QUIXOTE - Sem mim?

SANCHO (apressando-se pelo corredor) Consigo ou sem si, velho senhor aborrecedor

e infatigável.

QUIXOTE (implorando) - Saaaaan-chooooooo!


SANCHO (perto do fim do corredor) - Vou voltar para La Maaaaan - chaaaaaaaa...

(Desaparece e a luz azul sobre o corredor vai-se esbatendo. O guarda apaga o cigarro e sai da

praça. O vento ulula e Gutman gargalha com moderação, enquanto o Velho Cavaleiro entra na

praça com um ar extremamente desolado)

QUIXOTE (olhando a praça) - Só....

(Para sua surpresa, a palavra é repetida em eco por figuras quase invisíveis escondidas sob a

escadaria e de encontro à muralha da cidade. Quixote encosta-se à lança e observa com um

sorriso forçado)

- Quando tantas pessoas estão sós, como parece, seria de um indesculpável egoísmo

estar só sozinho....

(Sacode um cobertor poeirento. Braços escuros estendem-se na direcção dele e vozes

murmuram)

VOZ - Dormir. Dormir. Dormir.

QUIXOTE (arranjando o cobertor) - Sim, vou dormir um pouco, vou dormir e sonhar um

instante encostado à muralha desta cidade...

(Um bandolim ou uma guitarra toca “O Rouxinol de França”)

E o meu sonho será uma mascarada, uma pantomina, na qual os velhos significados

serão relembrados e descobertos, possivelmente, outros novos, e quando eu acordar deste

sono e desta perturbante paródia de um sonho, escolherei nas sombras dele, um de entre vós

para partir adiante comigo no lugar de Sancho...

(Assoa o nariz com os dedos e limpa-os na fralda da camisa)

As novas companhias não são tão familiares como as antigas, mas tanto faz - são

também velhas com pequenas diferenças de cara e porte, o que pode ou não trazer algum

benefício, e seria egoísta da minha parte estar só sozinho....

(Ele tropeça no declive que leva ao fosso por baixo da escadaria, onde a maioria das Pessoas

da Rua se amontoa debaixo dos toldos de casas abertas. A catatua branca grasna)

GUTMAN - Shhh, Aurora.


QUIXOTE - E amanhã, a esta mesma hora, a que chamamos “madrugada ", a mais

preciosa das palavras, exceptuando a palavra “alba ", e esta palavra significa igualmente

romper do dia...

Sim, ao romper do dia, amanhã, partirei daqui com uma nova companhia e este velho

pedaço de fita azul para me relembrar a distância que já percorri e a distância que ainda tenho

de percorrer, e também para me relembrar que...

(A catatua grasna fortemente. Quixote diz que sim com a cabeça, como se estivesse de acordo

com o grasnar da ave e enrola-se no cobertor sob a escadaria)

GUTMAN (acariciando o penacho da catatua) - Quieta, Aurora. Bem sei que já é de

manhã, Aurora.

(A luz do dia enche a praça de tons prateados e, lentamente, de tons dourados. Vendedores

saem de sob os toldos brancos das lojas. A loja da Cigana abre. Uma figura alta e

cortesanesca, com um pouco mais do que meia idade (Jacques Casanova) atravessa do "Siete

Mares “para a casa de penhores, tirando da algibeira uma caixa de rapé prateada, enquanto

Gutman vai falando. A sua indumentária, assim como as de todas as personagens lendárias da

peça (exceptuando, talvez, Quixote), é no essencial “moderna ", mas tem alguns vestígios da

época histórica a que se reporta. A bengala e a caixa de rapé e, talvez, um colete de brocado

podem ser suficientes para dar a sugestão histórica no caso de Casanova. Ele ergue a sua

cabeça, semelhante à de um falcão, com uma espécie de orgulho angustiado na maioria das

situações, um orgulho que ele mantem sob a pressão gradualmente crescente.

- É de manhã e já passa da manhã. Já é de tarde. Ah, ah! E agora tenho de descer

para anunciar o começo do sonho daquele velho vagabundo...

(Sai da varanda no momento em que a velha Prudence Duvernoy cambaleia para fora do hotel,

como se ainda não estivesse totalmente acordada da sesta da tarde. Tagarelando com os

colares e as braceletes, ela deambula sem direcção pela praça, abre uma sombrinha de seda

verde já desbotada, o cabelo tem aspecto molhado, tem madeixas pintadas com hena e sai de
sob um enorme chapéu enfeitado com rosas de seda desbotadas. Ela anda à procura de um

perdido cãozinho de colo)

PRUDENCE - Trique? Trique?

(Jacques sai da casa de penhores voltando a meter, furioso, a caixa na algibeira.

JACQUES - Ora essa, preferia dá-la a um pedinte da rua. Esta caixa é uma “Boucheron

", ganhei-a a jogar “Faro “no Palácio de Verão, em Tsarkeo Selo, no inverno de....

(O prestamista bate com a porta. Jacques olha para ela furioso, depois encolhe os ombros e

começa a atravessar a praça. A velha Prudence está agachada ao pé de um rafeiro cinzento,

que está moribundo junto à fonte)

PRUDENCE - Trique, oh, Trique!

(O filho da Cigana, Abdullah, observa, dando risadinhas)

JACQUES (com ar reprovador) - É uma coisa terrível para uma mulher velha

sobreviver aos seus cães.

(_irige-se a Prudence e retira o animal docemente dos braços dela)

- Senhora, este não é o Trique.

PRUDENCE - Quando acordei ele não estava na cesta dele...

JACQUES - Por vezes dormimos demasiado durante a tarde e quando acordamos

encontramos as coisas alteradas, Signora.

PRUDENCE - Oh, o senhor é italiano!

JACQUES - Sou de Veneza, Signora.

PRUDENCE - Ah, Veneza, cidade das pérolas! Vi-o ontem à noite na esplanada a

jantar com... - oh, estou tão preocupada por causa dela! Sou uma velha amiga dela, talvez ela

lhe tenha falado em mim. Prudence Duvernoy? Fui a melhor amiga dela, noutros tempos, em

Paris, mas ela agora está tão esquecida. Espero que o senhor tenha alguma influência sobre

ela!

(Ouve-se uma valsa dos tempos de Camille em Paris)

Eu queria-lhe fazer chegar um recado de um certo cavalheiro idoso e rico, que ela

encontrou numa dessas estâncias termais onde ela costumava ir por causa da saúde dela. Ela
era parecida com a filha do cavalheiro, a qual morreu de tuberculose e, por isso, ele adorava

Camille, era capaz de esbanjar tudo o que tivesse com ela! E ela o que fez? Arranjou um

jovem amante que não tinha dois tostões para mandar cantar um cego, deserdado pelo pai, por

causa dela! Uma destas não se pode fazer, agora já não, nunca mais, uma pessoa tem que ser

realista no Camino Real!

(Gutman aparece na esplanada e anuncia serenamente)

GUTMAN - Bloco Primeiro no Caminho Real.

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BLOCO PRIMEIRO

PRUDENCE (continuando) - Sim, quando caminhamos através dele temos de ser

práticos! Bem, faça-lhe chegar este recado, por favor, senhor. O cavalheiro quere-a de volta

sejam quais forem as condições! (a fala dela atinge um momento furioso) Ela terá as noites

livres. Só a quer de manhã, as manhãs são tão difíceis para os homens velhos, porque os

corações deles batem devagarinho, por isso só a quer de manhã! Ora aí está como deverá ser!

Um acordo sensato. Os cavalheiros idosos têm de se contentar com o tempo livre das senhoras

antes da ceia. Não é assim? Claro que é! E eu disse-lhe! Disse-lhe que a Camille não se

encontra bem! Que ela precisa de cuidados! Que tem muitas dívidas, que os credores lhe

enxameiam a porta! “Quanto é que ela deve?”, perguntou-me ele e, oh, eu fiz depressa a

aritmética! Jóias no prego, disse-lhe eu, pérolas, anéis, colares, braceletes, brincos de

diamante, tudo no prego. Os cavalos postos à venda em leilão!

JACQUES (aterrado por este desfiar de coisas) - Signora, Signora, todas essas coisas

são...

PRUDENCE - O quê?

JACQUES - Sonhos!

(Gutman gargalha. Uma mulher começa a cantar ao longe)


PRUDENCE (continuando com menos confiança) - O senhor não é tão novo como

pensei, quando o vi, ontem à noite, na esplanada, à luz das velas - Oh, mas... Oh! Oh! - aposto

que há pelo menos uma fonte nesta praça que não secou!

(Apalpa-o de forma obscena. Ele retrocede e estremece. Gutman gargalha. Jacques vai-se

embora, mas ela agarra-lhe o braço de novo e a torrente do discurso continua)

PRUDENCE - Espere, espere, oiça. A vela dela está a apagar-se. Mas que sabemos

nós? Ela pode ter um fim demorado e hospitais da misericórdia? Ora, uma pessoa também se

pode atirar de cabeça para dentro da barrica dos Varredores da Rua. Oh, as vezes que eu lhe

disse e voltei a dizer para não viver num sonho. Um sonho não é coisa onde se possa viver,

ora, desaparece como um...

Não deixe que a elegância dela o iluda! Aquela rapariga percorreu o camino em

carruagens mas também o percorreu a pé. Conhece cada uma das lajes que pavimentam o

Camino. Portanto, diga-lho. Diga-lho o senhor que ela a mim não me ouvirá! Desde que nós

éramos amigas em Paris, os tempos e as circunstâncias sofreram algumas modificações e

agora fazemos afastar jovens amantes de peles sedosas e olhos como os de uma criança a

dizer a primeira oração, afastamo-los com a mesma displicência com que pomos de lado um

par de luvas brancas, que só servem para o verão, e pegamos num par de luvas pretas, mais

de acordo com o inverno...

(A voz que canta eleva-se um pouco : depois desce)

JACQUES - Com sua licença, minha senhora.

(Ele afasta-se dos braços dela e apressa-se a entrar no”Siete Mares”)

PRUDENCE (confusa, para Gutman) - Em que bloco estamos?

GUTMAN - Bloco Primeiro.

PRUDENCE - Não ouvi o anúncio...

GUTMAN (frio) - Pois agora já ouviu.

(Olympe sai do Hotel com uma sombrinha de seda cor de laranja baça, semelhante a uma lua

flutuante.
OLYMPE - Ora aí está você, estou farta de a procurar por toda a parte!...

(Elas vagueiam pela praça de luz muito forte, como se um vento caprichoso as levasse, e, por

fim, passam sob o arco mourisco no lado direito da boca de cena. A cantiga deixa de se ouvir)

GUTMAN (acendendo um cigarro fininho) - Bloco Segundo no Camino Real.

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BLOCO SEGUNDO

(Depois do anúncio de Gutman, ouve-se um grito enrouquecido. Uma figura vestida

com farrapos, o rosto tisnado pelo sol, tropeça como um louco no declive até à praça. Vira-se a

um lado e a outro, sem nada ver e murmura : “adonde la fuente?”. Esbarra de encontro `a

repugnante e velha prostituta, Rosita, a qual arreganha os dentes de forma horrível e segreda-

lhe qualquer coisa, puxando para cima a saia rota e suja. Depois dá-lhe um empurrão de troça

em direcção à fonte. Ele cai de bruços e procura com as mãos inquietas dentro da taça seca da

fonte. Depois põe-se de pé, cambaleia e lança um grito de desespero)

O SOBREVIVENTE - La fuente está seca!

(Rosita gargalha como uma louca, mas as outras Pessoas da Rua lamentam-se. Ouve-se um

som seco e surdo)

ROSITA - A fonte está seca mas há muito para beber no “Siete Mares”!

(Ela envia-o para o hotel. O proprietário, Gutman, sai, fumando um cigarro fininho, abana-se

com uma folha de palmeira. Quando o Sobrevivente se aproxima, Gutman assobia. Um

homem com um uniforme militar aparece na esplanada)

GUARDA - Volta para trás!

(O Sobrevivente avança, cambaleando. O guarda dá-lhe um tiro. Ele leva as mãos ao

estômago, vira-se em redor com uma expressão perdida, olha para o céu e cambaleia em

direcção à fonte. Durante a cena que se segue, até à entrada de La Madrecita e seu Filho, o

Sobrevivente arrasta-se lentamente em volta do rebordo de cimento da fonte, quase

inteiramente ignorado, como se fosse um cão vadio moribundo num país de fome. Jacques

Casanova aparece na esplanada do “Siete Mares”. Depois passa pela figura impávida do

proprietário, desce um passo à frente deste, sem o olhar)


JACQUES (com cansaço e repulsa infinitos) - O que aconteceu aqui?

GUTMAN (serenamente) - Entrámos agora no segundo de uma série de dezasseis

blocos no Camino Real. São cinco horas da tarde. Aquele velho leão furioso, o Sol, olhou uma

vez para trás e rugiu e depois foi abanando a cauda em direcção às sombras frescas da Sierra.

Os nossos hóspedes já dormiram as suas siestas da tarde...

(O Sobrevivente chegou agora à boca de cena, não como um homem moribundo, mas como

um orador envergonhado que se tenha esquecido das frases introdutórias do seu discurso.

Apresenta-se um pouco recurvado, com uma mão a tapar a mancha vermelha na sua barriga.

Duas ou três Pessoas da Rua deambulam apregoando as suas mercadorias : “Tacos, tacos,

fritos...”- “Loteria, loteria”- Rosita requebra-se, perguntando :”Amor? Amor?”- puxa o indecoroso

decote da blusa para mostrar mais do seu peito generoso. O Sobrevivente chega ao cimo dos

degraus que descem para o fosso da orquestra e permanece aí, como se fosse um homem

encostado à balaustrada de um barco que chegasse a um porto perturbantemente estranho)

GUTMAN (continuando) Padecem de uma fadiga extrema, os nossos hóspedes do

“Siete Mares”, todos eles têm uma ponta de febre. Trocam assuntos entre si como se fossem

algo de ilícito e vergonhoso, como se fossem dinheiro falso ou drogas ou postais pornográficos

- (Inclina-se para a frente e murmura) : Que lugar é este? Onde é que nós estamos? O que é

que significa....- Shhh! - Ah, Ah....

O SOBREVIVENTE (muito docemente para a audiência) - Em tempos tive um pónei

chamado Peeto. Era capaz de sentir nas ventas o cheiro de cem tempestades por virem,

mesmo antes de as nuvens terem passado por cima da Sierra...

VENDEDOR - Tacos, tacos, fritos....

ROSITA - Amor? Amor?

LADY MULLIGAN (para um criado na esplanada) - Tem a certeza de que ninguém

telefonou para mim? Tenho estado à espera de uma chamada...

GUTMAN (sorrindo) - Os meus hóspedes estão confusos e exaustos, mas a esta hora

do dia recompõem -se e descem as escadas nas asas do gin e do elevador, vêm planar nas

salas de hóspedes, trocam outra vez entre si informações sobre costureiros da moda e
alfaiates, restaurantes, a idade dos vinhos, cabeleireiros, cirurgiões plásticos, raparigas e

rapazes susceptíveis de aceitarem uma prenda....

(Ouve-se o sussurro de conversas leves e risos no meio delas)

- Estão a ouvi-los? Lá estão a trocar informações...

JACQUES (batendo com a bengala no chão da esplanada) - Eu perguntei-lhe o que é

que se tinha passado na praça!

GUTMAN - Oh, na praça, ah, ah! - Aquilo que possa acontecer na praça não nos diz

respeito...

JACQUES - Ouvi tiros.

GUTMAN - Foram disparados tiros com a finalidade de lembrar aos hóspedes a sorte

que têm de estarem aqui hospedados. A fonte pública secou, como sabe, mas o "Siete

Mares”foi construído sobre a única nascente que nunca seca existente na Tierra Caliente e, é

claro, esse benefício tem de ser protegido, por vezes através da... lei marcial...

(A guitarra volta a ouvir-se)

O SOBREVIVENTE - Quando o Peeto, o meu pónei, nasceu, pôs-se logo nas quatro

patas e aceitou o mundo como era - era mais sensato do que eu...

VENDEDOR - Fritos, fritos, tacos...

ROSITA - Amor!

O SOBREVIVENTE - Quando Peeto tinha um ano era mais sensato do que Deus!

(O vento ulula pela praça. Ouve-se novo som seco e surdo)

“Peeto! Peeto!”os rapazinhos índios corriam atrás dele a chamá-lo, procurando fazê-lo

parar - procurando fazer parar o vento!

(A cabeça do Sobrevivente inclina-se para a frente. Senta-se tão lentamente quanto um

homem idoso ao sentar-se num banco de jardim público. Jacques bate novamente no chão da

esplanada com a sua bengala e dirige-se na direcção do Sobrevivente. O Guarda segura-o pelo

cotovelo)

JACQUES - Tire-me as mãos de cima!

GUARDA - Deixe-se ficar aqui.

GUTMAN - Por favor, Signor Casanova, deixe-se estar na esplanada.

JACQUES (de forma violenta) - Conhaque!


(O criado segreda qualquer coisa a Gutman. Gutman gargalha)

GUTMAN - O Maître”D”diz-me que o seu crédito não tem tido interrupção no

restaurante e no bar. Diz ele que já tem notas de crédito suas suficientes para pavimentar toda

a esplanada!

JACQUES - Mas que grande impertinência! Eu já disse ao homem que a carta de que

estou à espera se atrasou nos correios. O serviço postal neste país é fantasticamente

desorganizado, como o senhor muito bem sabe. E o senhor também sabe que a Mlle Gautier

garantirá as minhas dívidas!

GUTMAN - Nesse caso, ela que as venha pagar esta noite, à hora do jantar, se o

senhor tiver fome!

JACQUES - Eu não estou habituado a ser tratado desta maneira no Camino Real!

GUTMAN - Oh, mas vai, vai habituar-se, depois de uma só noite passada no “Ritz Só

Para Homens”. Que é para onde o senhor vai transferir os seus pertences, se a tal carta que

traz o cheque enviado não chegar até esta noite.

JACQUES - Pode ficar certo de que não farei tal coisa! Nem esta noite, nem nunca!

GUTMAN - Cuidado, velho falcão, o vento começa a perturbá-lo!

(Tremendo, Jacques deixa-se cair numa cadeira)

Dá-lhe um conhaque antes que lhe dê alguma coisa... a fúria é um luxo dos jovens que

têm veias elásticas. Mas as dele estão quebradiças...

JACQUES - Aqui estou eu sentado, submetendo-me a um insulto por um cálice de

brandy, enquanto mesmo à frente dos meus olhos...

(A cantora, La Madrecita, entra na praça. É uma mulher cega, conduzida por um Rapaz Novo

vestido de farrapos. O criado traz um brandy a Jacques)

... morre um homem na praça como se fosse um cão vadio... Aceito o brandy! Bebo-

o!... O meu coração está cansado de mais para estourar, o meu coração está cansado de mais

para... estourar...

(La Madrecita canta docemente. Ela ergue lentamente o braço em direcção ao Sobrevivente,

que está curvado sobre si mesmo ao cimo dos degraus da praça)


GUTMAN (subitamente) - Passem-me o telefone! Liguem-me ao Palácio. Quero falar

com o Generalissimo, depressa, depressa, depressa!

(O Sobrevivente levanta-se com dificuldade e avança muito lentamente em direcção aos

braços estendidos da “Ceguinha”)

Generalissimo? Daqui fala Gutman! Olá, meu querido! Houve um pequeno incidente na

praça. Sabe daquele grupo de jovens exploradores que tentaram atravessar o deserto a pé?

Pois um deles está de volta. Está cheio de sede. Descobriu que a fonte está seca. E dirigiu-se

para o hotel. Foi delicadamente avisado para não avançar mais. Mas não ligou nada ao aviso.

Tiveram de ser tomadas medidas. E agora, e agora - aquela velha cega a quem chamam “La

Madrecita”, sabe?, chegou à paraça acompanhada do homem a quem chamam “O Sonhador”...

O SOBREVIVENTE - Donde?

O SONHADOR - Aqui!

GUTMAN (continuando) - Lembra-se destes dois! Já uma vez lhes falei neles. Você

disse que não passavam de sonhadores inofensivos e que o povo os adorava - E eu, nessa

altura perguntei-lhe a si : “O que é que há de inofensivo num sonhador?”e, também lhe

perguntei”O que é que há de inofensivo na adoração que o povo lhes tem?”- As revoluções só

precisam de bons sonhadores que se lembrem dos seus sonhos e quanto à adoração do povo

seguramente que ela lhe pertence toda a si - “O Generalissimo deles”- Sim, e agora a cega

está a recuperar a visão e abre os braços para o Sobrevivente ferido e o homem da guitarra

está a levá-lo até ela...

(A acção descrita vai acontecendo)

Espere um momento! Existe uma forte possibilidade de que a palavra proíbida seja

aqui pronunciada! Sim! A palavra proíbida está à beira de ser pronunciada!

(O Sonhador coloca um braço em volta do Sobrevivente cego e grita)

O SONHADOR - Hermano!

(O grito é repetido como se fosse fogo de artifício e um murmúrio audível atravessa a multidão,

que começa a empurrar para a frente, estendendo as mãos em concha e com os gritos

arquejantes de gente esfomeada à vista de pão. Dois guardas uniformizados fazem-na

retroceder para baixo das colunatas com bastões de madeira e pistolas na mão.
La Madrecita canta docemente com os seus olhos cegos abertos. Um guarda dirige-se

a ela. O povo grita “NÃO!”)

LA MADRECITA (cantando) - “Rojo está el sol! Rojo está el sol de sangre! Blanca está

la luna! Blanca está la luna de miedo!”.

(A multidão vira-se)

GUTMAN (para o criado) - Ponham os cordões!

(Cordões de veludo são imediatamente colocados em volta da esplanada do “Siete

Mares”. Têm a espessura das amarras nos decks dos vapores de águas agitadas. Gutman grita

de novo ao telefone)

- A palavra foi pronunciada. A multidão está agitada. Não desligue!

(Depõe o aparelho)

JACQUES (com a voz embargada, agitado) - Ele disse “Hermano”. A palavra significa

irmão.

GUTMAN (calmamente) - Sim, a mais perigosa das palavras em qualquer língua

humana é a palavra irmão. É incendiária - Não me parece que se possa extirpá-la radicalmente

da linguagem, mas deve reservar-se para uso estritamente particular dentro de paredes à prova

de som. De outra maneira perturba a população...

JACQUES - Mas as pessoas precisam desta palavra. Têm sede dela!

GUTMAN - Mas o que são estas criaturas? Pedintes, prostitutas. Ladrões e vendedores

de bazares de quinquilharia, onde o coração humano faz parte da mercadoria que se regateia.

JACQUES - Porque elas precisam desta palavra e a palavra é proíbida!

GUTMAN - A palavra é dita em púlpitos e à mesa de conselhos onde a sua essência

volátil pode ser contida. Mas nos lábios destas criaturas o que é ela? Um desenfreado

incitamento a actos violentos, sem o mínimo de discernimento. Pois que significa para eles

“irmão”, senão alguém a quem se passa à frente, a quem se engana, a quem se mente, alguém

que é vendido no mercado por preço mais baixo do que merece? Chamas irmão ao homem

com cuja mulher tu dormes! - Mas bem vê, a palavra perturbou as pessoas e tornou necessário

que a lei marcial entre em vigor!


(Entretanto o Sonhador trouxe o Sobrevivente até junto de La Madrecita, que está sentada no

rebordo de cimento da fonte. Ela acolheu o moribundo nos seus braços na atitude de uma

“Pietá”.

O Sonhador acocorou-se junto deles, toca guitarra docemente. Depois, salta

repentinamente com um grito forte)

O SONHADOR - Muerto!

(O apito dos Varredores da Rua faz-se ouvir à distância. Gutman pega de novo no

telefone)

GUTMAN (ao telefone) - Generalissimo, o Sobrevivente deixou de sobreviver. Penso

que é melhor arranjar-se um qualquer divertimento público agora mesmo. Façam avançar a

Cigana! Ponham-na a anunciar a "Fiesta”.

ALTIFALANTES (correspondendo de imediato) - Damas y Caballeros! A voz que ireis

ouvir de seguida será a voz de - a Cigana!

A CIGANA (sobrepondo-se ao barulho do altifalante) - Hoy! Noche de Fiesta! Esta noite

a lua irá restituir a virgindade à minha filha!

GUTMAN - Tragam a filha da Cigana, a Esmeralda. Mostrem a virgem que o há-de vir

a ser!

(Esmeralda é trazida da loja da Cigana por uma dama de companhia austera, a “Ama”, até à

boca de cena.Ela tem uma algema no pulso que a prende à dama de companhia. A roupa dela

tem traços do Levante.

Os guardas reprimem a multidão novamente)

GUTMAN - Ah, ah! Oh, oh, oh! Música!

(Ouve-se música alegre. Rosita dança)

- Abdullah, é a tua vez!

(Abdullah irrompe pela praça gritando de maneira histriónica)

ABDULLAH - Esta noite a lua vai restituir a virgindade à minha irmã Esmeralda!

GUTMAN - Dança, rapaz!

(Levam Esmeralda de volta para a loja. Despindo o seu albornoz, Abdullah pôe-se a dançar

com Rosita. Por detrás deles, guardas armados forçam La Madrecita e o Sonhador a
afastarem-se da fonte, deixando o corpo inerte do Sobrevivente. Nesse momento, ouve-se o

irromper dissonante de instrumentos de sopro.

Kilroy entra na praça. É um jovem vagabundo americano, de cerca de vinte e sete anos

de idade. Usa “Dungarees”(espécie de fato de treino de algodão rasca) e uma camisola

enrodilhada, as calças estão ruças de tanto uso e lavagem, assentando-lhe sobre o corpo como

o panejamento de uma escultura. Tem um par de luvas de boxe douradas presas ao pescoço e

traz na mão um saco pequeno, com asas. O cinto é guarnecido de rubis e esmeraldas, com a

palavra “CAMPEÃO”em grandes letras. Pára junto a uma inscrição a giz, numa parede junto à

boca de cena, onde se lê : “Kilroy vem aí”. Risca as duas últimas palavras e escreve “Chegou!”)

GUTMAN - Oh, oh! Um palhaço! O eterno Polichinelo! É exactamente o que é preciso

num momento de crise!

Bloco Terceiro no Camino Real.

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BLOCO TERCEIRO

KILROY (cordialmente a todos os presentes) - Ah! Ah!

(Dirige-se ao guarda que está junto à esplanada do “Siete Mares ")

Buenos dias, señor!

(Não obtem resposta, quase nem sequer um olhar da parte do guarda)

Habla Inglesia? Usted?

GUARDA - O que é que queres?

KILROY - Onde fica a Western Union ou a Wells-Fargo? Tenho de enviar um telegrama

para uns amigos nos Estados Unidos.

GUARDA - No hay Western Union, no hay Wells-Fargo.

KILROY - Essa é boa! Ainda nunca tinha estado numa cidade onde não houvesse uma

delegação duma ou de outra dessas companhias. Acabei de sair do barco A banheira mais

piolhosa em que alguma vez embarquei, um inferno do princípio ao fim, foi o que foi, desde o
Rio até aqui! E eu bem doente, também. Apanhei uma daquelas febres tropicais. A banheira

não tinha enfermaria, nem médico, nem remédios, nem nada, nem mesmo um comprimido de

quinino e eu a arder sabe Jesus Cristo com quanta febre. Não os consegui fazer perceber que

estava doente. O meu coração não é famoso. Tive de me retirar dos ringues de boxe por causa

do coração. Fui o mais leve campeão de pesos pesados da Costa Oeste, ganhei estas luvas! -

antes de o relógio começar a trabalhar mal. Apalpe o meu peito. Vá lá, apalpe - o! Apalpe!

Tenho dentro do peito um coração do tamanho da cabeça dum bebé. Ah, ah! Puseram-me em

frente de um écran que nos torna transparentes e foi isso o que eles viram dentro de mim, um

coração dentro do meu peito tão grande como a cabeça de um bebé. Com uma coisa assim

não se precisa que a Cigana nos diga : “O tempo passa depressa, prepara-te para bateres as

asas”.

Os médicos não me deram apto para continuar nos combates. Disseram que me

deixasse da bebida, do tabaco e do sexo! Deixar-me do sexo! Eu dantes acreditava que um

homem não era capaz de viver sem sexo - mas pode, se assim o quiser. A minha querida

mulher, a minha esposa, ela queria ficar comigo, mas estragou-se tudo por causa do medo que

ela tinha, e que eu também tinha, de que um beijo dado a sério me matasse. Visto isto, uma

noite, enquanto ela dormia, escrevi-lhe um bilhete a dizer “adeus”.

(Repara que o guarda não presta atenção ao que ele diz. Arreganha os dentes)

No compreendo the lingo?

GUARDA - O que é que tu queres?

KILROY - Perdoe a minha ignorância, mas que lugar é este? Que país é este e como

se chama esta cidade? Sei que parece esquisito eu estar a fazer estas perguntas. Loco! Mas eu

fiquei tão contente ao sair daquela banheira podre que não perguntei nada a ninguém, excepto

quanto me deviam - e fui prejudicado no câmbio. Tenho dificuldade em contar estes pesos ou lá

como é que lhes chamam.

(Saca da carteira)

Olhe lá para isto! Nos Estados Unidos, uma pilha de alfaces assim fazia de mim um

plutocrata! Mas aposto que esta massa toda nem chega a fazer cinquenta dólares em moeda

americana. Ah! Ah!


GUARDA - Ah! Ah!

KILROY - Ah! Ah!

GUARDA (imitando um estertor de morte) - Ah - ah - ah - ah - ah.

(Vira costas e dirige-se para a cantina. Kilroy segura-lhe o braço)

KILROY -Hei!

GUARDA - O que é que queres?

KILROY - Como é que se chamam este país e esta cidade?

(O guarda dá-lhe uma cotovelada no estômago e fá-lo retirar o braço, praguejando em

espanhol. Prega um pontapé nas meias - portas da cantina e entra)

- Os generais são iguais em todo o lado.

(Assim que o guarda desaparece, as Pessoas da Rua avançam e envolvem Kilroy com os seus

gritos de bajulação)

PESSOAS DA RUA - Dulces, dulces! Loteria! Loteria! Pasteles, café con leche!

KILROY - No quere! No quere!

(A prostituta acerca-se dele e arreganha os dentes)

ROSITA - Amor? Amor?

KILROY _ O que é que disseste?

ROSITA - Amor?

KILROY - Lamento - não me interessa. (para a audiência) Eu tenho ideais.

(A Cigana aparece no telhado do seu estabelecimento com Esmeralda, a quem prende com

algemas ao corrimão de ferro)

CIGANA - Fica aqui enquanto eu dou o tom.

(Avança com um microfone portátil)

Experiência! Um, dois, três, quatro!

AMA (fora de cena) - Estás no ar!

ALTIFALANTE DA CIGANA - Sente-se perplexo por alguma razão? Sente-se extenuado

e confuso? Tem febre?


(Kilroy põe-se a procurar a origem da voz)

Sente que está espiritualmente impreparado para a era da explosão dos átomos? Não

tem confiança nos jornais? Tem um pé atrás com os governos? Chegou a um ponto do Camino

Real em que as muralhas convergem, já não na distância, mas mesmo em frente do seu nariz?

Acha que é impossível mais progresso? Tem medo de alguma coisa? Medo do bater do seu

coração? Ou dos olhos de estranhos? Tem medo de respirar? Medo de não respirar? Gostaria

que as coisas fossem de novo claras e simples, como eram na sua infância? Gostaria de voltar

para o jardim de infância?

(Enquanto ele ouve, Rosita foi-se acercando.Estende as mãos para ele. Ao mesmo tempo um

carteirista tira-lhe a carteira)

KILROY (agarrando o pulso da puta) - Tira as mãos de cima de mim, minha vaca

asquerosa! No quere putas! No loteria, no dulces, nada - portanto, pôe-te a andar! Vamosse!

Todos vocês! Párem de me agarrar!

(Mete a mão no bolso e tira uma mão cheia de moedas pequenas de cobre e prata, as quais

depois atira com asco pela rua. As grotescas pessoas lutam pelas moedas, emitindo gritos

inumanos. Kilroy afasta-se uns passos, depois pára, apalpando o bolso traseiro das calças.

Nesse momento solta um grito de alarme)

- Roubado! Meu deus, fui roubado!

(As Pessoas da Rua dispersam em direcção à muralha)

- Qual de vocês é que tem a minha carteira? Qual de vocês, seus patifes? -- Shh...

Hum!

(Eles balbuciam e gesticulam como quem não compreende. Ele vira-se de novo para a entrada

do hotel)

Hei! Guarda! Senhor oficial! - General!

(Por fim o Guarda aparece preguiçosamente à entrada do hotel e olha para Kilroy)

Tiende? Um deles tem a minha carteira! Tirou-ma do bolso enquanto aquela puta velha

me estava a apalpar! Tu não comprendo?

GUARDA - Ninguém te roubou. Tu não tens um peso sequer.

KILROY - Hem?
GUARDA - Estás apenas a sonhar que tens dinheiro. Tu nunca tiveste dinheiro! Nunca!

Nada!

(Cospe por entre os incisivos)

Loco...

(O Guarda avança até à fonte. Kilroy olha-o pasmado e depois começa a gritar)

KILROY (para as Pessoas da Rua) - Vamos ver o que é que a Embaixada Americana

tem a dizer sobre isto! Vou falar com o Cônsul Americano. Aquele de vocês, seus tratantes, que

me roubou a carteira vai bater com os osso na cadeia - Calaboose! Espero que me tenham

compreendido bem. Caso não tenham, vou- me fazer compreender melhor!

(Há risos dispersos entre a multidão. Ele aproxima-se da fonte. Repara no corpo do ex-

-sobrevivente, ajoelha ao lado dele, abana-o, vira-o, dá um salto e grita de pé :

Hei! Este gajo está morto!

(Ouve-se o apito dos Varredores da Rua. Eles fazem rolar a barrica branca até à praça, a partir

de um dos arcos da boca de cena. O aspecto destes homens vai-se submentendo a alterações

progressivas ao longo da peça. Quando aparecem em palco pela primeira vez, parecem-se

com qualquer funcionário público de um país tropical ; os seus blusões estão mais sujos do que

os dos músicos e algumas das nódoas são vermelhas. Têm nas cabeças bonés brancos com

palas pretas. Trocam permanentemente entre si piadas maliciosas e dâo juntos risadinhas

obscenas. Lord Mulligan acabou de sair à esplanada quando eles passam por ele, páram por

um instante, apontam para ele, riem à socapa. Ele sente-se extremamente desconcertado pela

impertinência deles, leva a mão ao peito, como se sentisse uma palpitação e volta para dentro.

Vendo avançar os Limpadores da Rua, Kilroy grita)

KILROY - Está um homem morto, aqui, no chão!

(Eles voltam a dar risadinhas. Levantam energicamente o corpo e depositam-no na barrica.

Olham por cima do ombro para Kilroy, dão risadinhas, murmuram entre si. Saem pelo mesmo

arco à boca de cena por onde entraram. Kilroy, chocado, em voz baixa :)

- Que lugar é este? Em que raio de buraco me vim meter?


ALTIFALANTE - Se alguém se sentir confuso no Camino Real que venha ter com a

Cigana. Um “poco dinero” faz cócegas na palma da mão da Cigana e faz com que ela tenha

visões!

ABDULLAH (dando um cartão a Kilroy) - Se tiver um problema consulte a minha

"mama", a Cigana!

KILROY - Ó homem, sempre que uma pessoa depara com aquelas três bolas de metal

penduradas numa rua, não passa muito tempo até se dar de caras com uma cigana. Bom,

deixa-me cá pensar. Tenho três problemas. Primeiro : estou cheio de fome. Segundo : estou

sozinho. Terceiro : estou num lugar que não compreendo o que seja, nem como aqui vim parar.

A primeira coisa aconselhável a fazer é arranjar dinheiro com qualquer coisa - Bem... vamos lá

a ver...

(Música escabrosa ouve-se neste momento e a fachada marginal da rua ilumina-se para a

noite. Nela se vê a casinha da Cigana, com os seus objectos cabalísticos, uma parte de um

crânio e uma palma da mão, três bolas de metal iluminadas dependuradas sobre a entrada da

loja de penhores, a sua montra recheada com uma vasta variedade de artigos penhorados para

venda : trompetes, banjos, casacos de peles, fatos de gala, um robe com lantejoulas

escarlates, colares com pérolas e cristais de rocha. Por detrás destes objectos há um letreiro de

néon em três cores pastel, cor-de-rosa, verde e azul, o qual acende e apaga não

ostensivamente e diz : Magia Truques Piadas. Há também o anúncio de uma espelunca

chamada “Ritz Só Para Homens". Este letreiro é igualmente de néon baço ou pintado com tinta

luminosa, e a única entrada fica ao nível da rua, os quartos ficam por cima da loja da Cigana e

da loja de penhores. Uma das janelas deste andar superior, um postigo, tem funcionalidade :

personagens aparecem nela de vez em quando, debruçam-se como se estivessem a sufocar

ou para escarrar com barulho ou só cuspir cá para baixo.

Este lado da rua deve ter ter quanta luz e animação possíveis pelos recursos da

produção. Pode haver momentos em que haja acção e se dance, se lute, se seduza, se

vendam narcóticos, haja detenções, etc.)

KILROY (para a audiência, a partir do proscénio) - Que tenho eu que me possa arranjar

dinheiro? As minhas luvas d ' ouro? Nunca! Digo-o e repito-o :nunca! A fotografia da minha
querida mulher numa moldura de prata? Nunca! Repito : nunca! Que mais tenho eu de que me

possa desfazer e que possa render dinheiro? Oh! O meu cinto guarnecido de rúbis e

esmeraldas com a palavra CAMPEÃO!

(Tira-o das calças)

Não preciso dele para me segurar as calças, mas é uma recordação preciosa dos bons

tempos em que fui alguém. Ora adeus! Por vezes um homem tem que pôr no prego os bons

tempos em que foi alguém para poder financiar a situação presente...

(Entra na loja de penhores. Um vagabundo bêbedo assoma ao postigo do “Ritz Só Para

Homens“ e grita)

VAGABUNDO - Oh, Valete de Ouros, limpaste-me os bolsos, limpaste-me o ouro e a

prata dos bolsos.

(Puxa o estore para baixo)

GUTMAN (na esplanada) Bloco Quarto no Camino Real!

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BLOCO QUARTO

(Ouve-se um excerto de música ligeira quando o Barão de Charlus, um sibarita

afectado de idade madura, com um fato de seda clara, um cravo na lapela, sai do “Siete

Mares“e se dirige ao lado marginal da rua. Atrás dele vai um homem novo, de aspecto viril e

muito belo, chamado Lobo. Charlus sabe que está a ser seguido e, durante a sua conversa com

A. Ratt, tira do bolso um espelhinho para o observar, enquanto finge estar a pentear-se e a

torcer as guias do bigode. Assim que Charlus se aproxima, o gerente da espelunca afixa o

cartaz de vagas e anuncia)

A. RATT - Há vagas! Uma cama no “Ritz Só Para Homens“! Um pequeno barco branco

para navegar através da noite perigosa...

O BARÃO - Ah, bon soir, mister Ratt.


A. RATT - Vamos de cruzeiro?

O BARÃO - Não, só um passeio a pé.

A. RATT - É tudo quanto precisa fazer.

O BARÃO - Por vezes parece-me que é quanto basta. O senhor tem uma vaga, não

tem?

A. RATT - Para si?

O BARÃO - E possivelmente para um convidado. O senhor já sabe das minhas

exigências : uma cama de ferro sem colchão e uns tantos metros de boa corda com nós. Não!

Esta noite correntes, correntes de metal. Eu tenho-me portado muito mal, tenho muitas faltas

que expiar...

A. RATT - Por que é que o senhor não dá essas cavalgadas alegres no “Siete Mares“?

O BARÃO (com o espelho assestado no Lobo) - No “Siete Mares“não há “Ingreso

Libero". Oh, eu não gosto de hotéis na “haute saison", a “alta staggione“ e, no entanto, se uma

pessoa se instalar no intervalo das estações concorridas, ou está muito calor ou muita

humidade, ou está tudo superlotado com toda a espécie de gentalha, que começa logo a bater

na parede, mal os canários principiam a cantar na cama de molas depois da meia-noite. Eu

nem sei por que é que esse tipo de pessoas não fica em casa. Uma máquina Kodak, uma

Brownie ou mesmo uma Leica tiram tão boas fotografias em Milwaukee ou em Sioux City como

tiram nas suas viagens de pé-de-vento no verão, e, não olhe agora, mas acho que estou a ser

seguido!

A. RATT - Sim senhor, fez um engate!

O BARÃO - É atraente?

A. RATT - Isso depende de quem vai a guiar a bicicleta, paizinho!

O BARÃO - Ciao, Caro! Espere-me por volta das dez horas.

(Dirige-se de forma elegante para a fonte)

A. RATT - Há vagas. Um pequeno barco branco para navegar através da noite

perigosa.

(A música muda. Kilroy sai da loja de penhores sem ter vendido o cinto e está metido numa

discussão acesa. O Prestamista regateia por causa das luvas d'ouro dele. Charlus detem-se,

intrigado com a cena)


O PRESTAMISTA - Eu não quero o cinto! Quero é as luvas! Oito dólares e cinquenta!

KILROY - Nada feito.

O PRESTAMISTA - Nove, nove e cinquenta!

KILROY - Ná, ná, ná!

O PRESTAMISTA - Si, si, si!

KILROY - Eu digo ná.

O PRESTAMISTA - E eu digo si.

KILROY - Os nás ganharam.

O PRESTAMISTA - Não sejas parvo. Para que te serve um par de luvas d'ouro?

KILROY - Serve para me lembrar dos combates que eu travei para as ganhar. Fazem-

me lembrar que eu já fui - CAMPEÃO!

(Começa-se a ouvir música tocada por uma banda : a “Marcha dos Gladiadores“- ouvem-se

aclamações distantes)

O PRESTAMISTA - Tu ainda te lembras que em tempos foste... Campeão?

KILROY - Sim! Em tempos fui... CAMPEÃO!

O PRESTAMISTA - “Fui“ é tempo passado, e significa inutlidade.

KILROY - Para mim não, senhor. Estas luvas são minhas, estas luvas são d'ouro,

combati muitos duros combates para as ganhar. Saí sempre honestamente do corpo-a-corpo,

nunca desferi um golpe baixo, nunca um árbitro me disse para fazer batota! E os que falsificam

os combates nunca se chegaram ao pé de mim!

O PRESTAMISTA - Por outras palavras, um trouxa!

KILROY - Certo, sou um trouxa que ganhou as luvas d'ouro!

O PRESTAMISTA - Os meus parabéns. A minha última oferta é um pedaço de papel

verde com o retrato de Alexander Hamilton. É pegar ou largar.

KILROY - Podes metê-la pelo cu acima. Preferia atirar o meu coração para o meio

desta rua, preferia vender o meu sangue a deixar as minhas luvas d'ouro na montra duma loja

de penhores, penduradas entre um trombone enferrujado e um fato de gala cheio de traça de

algum pobre bêbedo.

O PRESTAMISTA - Isso dizes tu agora, mas nós voltamo-nos a encontrar mais tarde.

O BARÃO - O nome do Camino não é irreal!


(O Vagabundo põe a cabeça de fora do postigo e grita)

O VAGABUNDO - Pa dam, Pa dam, Pa dam!

O BARÃO - (continuando a canção do vagabundo) Assim ecoa o bater do meu

coração! Pa dam, Pa dam - Olá!

(Enquanto canta, aproximou-se de Kilroy e estende a mão para ele)

kILROY (inseguro) - Hei, amigo. Prazer em vê-lo.

O BARÃO - Muito obrigado. Mas porquê?

KILROY - Por ser um americano normal. Com um fato branco limpo.

O BARÃO - O meu fato é amarelo claro. A minha nacionalidade é francesa e a minha

normalidade já muitas vezes foi posta em causa.

KILROY - Sempre lhe continuo a dizer que o seu fato está limpo.

O BARÃO - Muito obrigado. O mesmo não posso eu dizer das suas roupas.

KILROY - Não julgue um livro pela capa. Eu bem que tomava um banho se

conseguisse dar com o Ipsilon.

O BARÃO - O que é isso do Ipsilon?

KILROY - É uma espécie de igreja protestante com uma piscina no meio. Por vezes até

tem um centro de emprego também. Faz muito bem a uma comunidade

O BARÃO - Nesta comunidade aqui nada faz bem.

KILROY - Estou a ficar com a mesma impressão. Este lugar confunde-me. Penso que

devem ser as sequelas da febre. Nada disto parece real. O senhor não me podia elucidar?

O BARÃO - Os assuntos sérios são tratados com a Cigana. Noutros tempos. Oh,

noutros tempos, eu punha-me a pensar... Agora apenas vou passeando. Ponho-me a andar em

volta da fonte na esperança de que alguém venha atrás de mim. Há quem lhe chame

corrupção. Eu chamo-lhe... simplificar as coisas.

VAGABUNDO (muito docemente ao postigo) - Às vezes ponho-me a pensar no que

teria sido feito da Sally, a minha antiga namorada...

(Baixa o estore)

O BARÃO - Bem, e então?

KILROY - E no que diz respeito a lugares animados cá da terra?


BARÃO - Oh, os lugares animados, oh, oh! Temos o Flamingo Cor-de - Rosa, o

Pelicano Amarelo, a Garça Azul e a Ave Canora Protonotária. Chamam-lhe o Circuito dos

Pássaros. Mas eu não ligo a esses locais. As pessoas sentam-se a três e três ao balcão e

olham as suas imagens no espelho e aquilo que vêem é deprimente. Entra um marinheiro e

desmaiam. O meu local de eleição é o “Embolo de Sangue“que fica na cave do “Ritz Só Para

Homens". Tem um fósforo?

KILROY - Onde está o seu cigarro?

O BARÃO (muito delicadamente, com voz doce) - Oh, eu não fumo. Só queria ver

melhor os teus olhos....

KILROY - Porquê?

O BARÃO - Os olhos são as janelas da alma e os teus são demasiado gentis para

alguém como eu, que tem tanto para expiar.

(Afasta-se)

Au revoir....

KILROY - Um tipo muito fora do vulgar...

(Casanova encontra-se nos degraus que conduzem ao arco, olhando para o deserto. Agora

vira-se e desce alguns degraus, rindo-se com uma nota de incredulidade cansada. Kilroy

aproxima-se dele)

Tchii, como é bom vê-lo, a si, um americano normal...

(Ouve-se um grito estrangulado sob o arco por onde o barão desapareceu)

Desculpe, é só um instante!

(Corre para o lugar donde partiu o grito. Jacques dirige-se ao banco em frente da fonte. Ouve-

se burburinho vindo do arco. Jacques encolhe os ombros, enfastiado, como se se tratasse

apenas de um rádio barulhento. Kilroy reaparece, recuando com dificuldade até junto de

Jacques.

Eu tentei intervir, mas de que serve?

JACQUES - Não serve de nada!

(Os Varredores da Rua aparecem vindos de sob o arco com o Barão dobrado em dois dentro da

barrica. Detêm-se um instante e trocam murmúrios sibilantes, enquanto apontam para Kilroy e

emitem risinhos abafados)


KILROY - Para quem estão vocês a apontar? É para mim, Kilroy?

(O Vagabundo gargalha ao postigo. A. Ratt gargalha da sua entrada sombria e o Prestamista

gargalha da dele)

Kilroy está aqui e não vai ficar por aqui - se o puder evitar...

(Agarra uma pedra e atira-a aos Varredores da Rua. Todos se riem mais alto e o riso parece

ecoar a partir das montanhas. A luz altera-se, escurece um pouco na praça)

Grandes filhos de sei lá o quê! Não olhem para mim, que eu não estou pronto para dar

um passeio na vossa barrica!

(O Barão, com os seus elegantes sapatos brancos a sairem da barrica, é levado pelo caminho

da saída. As personagens na praça voltam às suas atitudes confusas e um ou dois hóspedes

regressam à esplanada do "Siete Mares")

GUTMAN - Bloco Quinto no Camino real!

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BLOCO QUINTO

KILROY - Tchii, os blocos sucedem-se depressa nesta rua!

JACQUES - Sim. Sucedem-se depressa.

KILROY - O meu nome é Kilroy. Estou aqui.

JACQUES - O meu é Casanova. Também estou aqui.

KILROY - Mas está cá há mais tempo do que eu e talvez me pudesse esclarecer. Por

exemplo, o que é que eles fazem a um cadáver que apanham nesta cidade?

(Da esplanada, o guarda olha com suspeitas para ambos. Jacques assobia”La Golondrina“e

dirige-se para a boca de cena. Kilroy segue-o)

Disse alguma coisa que não devia?

JACQUES (contemplando o crepúsculo) - A troca de ideias e questões sérias,

especialmente entre pessoas pertencentes a lados opostos da praça, é vista aqui de forma

muito negativa. Está a reparar que eu estou a falar como se tivesse uma laringite aguda. Estou
a admirar o pôr-do-sol. Se eu começar a assobiar "La Golondrina”isso significa que estamos a

ser escutados pelos guardas da esplanada. Ora você quer saber o que se faz a um corpo do

qual a alma se separou no Camino Real. O destino dele depende daquilo que os Varredores da

Rua encontrarem nos bolsos desse corpo. Se os bolsos estão vazios, como parece que estão

os do desafortunado Barão e como estão os meus neste preciso momento, o cadáver é levado

directamente para o Laboratório. E lá o indivíduo torna-se um membro indistinto de um estado

colectivista. Os seus componentes químicos são separados e vertidos em tinas que já contêm

os mesmos elementos de inúmeros outros. Se alguns dos seus orgãos vitais se revelarem

extraordinários em termos de tamanho ou estrutura, são expostos em frascos que contêm uma

solução muito mal-cheirosa chamada “Formol”. Para visitar o museu paga-se bilhete e os lucros

assim obtidos revertem para a manutenção da polícia militar.

(Ele põe-se a assobiar “La Golondrina” até que o Guarda se vira novamente de costas.

Aproxima-se da beira do palco)

KILROY (seguindo-o) - Parece-me... sensato...

JACQUES - Sim, mas nada romântico. E ser romântico é importante. Não lhe parece?

KILROY - Ninguém pensa que ser romântico é mais importante do que ser eu!

JACQUES - A não ser, possivelmente, eu!

KILROY - Talvez seja mesmo por isso que o destino nos juntou. Somos amigos debaixo

da pele!

JACQUES - Viajantes natos?

KILROY - Sempre à procura de qualquer coisa?

JACQUES - Nunca satisfeitos com nada!

KILROY - Esperançados?

JACQUES - Sempre!

GUARDA - Vamos a andar!

(Andam até que o guarda se vai embora)

KILROY - E quando alguém se farta de vez do Camino real, como é que faz para sair

dele?
JACQUES - Estás a ver aquela escadaria estreita e muito inclinada, que passa por

baixo daquilo que é descrito nas brochuras turísticas como “O Magnífico Arco do Triunfo”?

Bom, a saída é por ali!

KILROY - A saída é por ali?

(Sem hesitar, Kilroy trepa quase até ao último degrau. Pára, depois, com o barulho de travões a

guincharem. Subitamente, ouve-se o vento a soprar baixinho)

JACQUES (gritando com uma mão ao lado da boca) - Ora então, que tal são as

perspectivas, viajante nato?

KILROY (gritando com algum receio na voz) - É demasiado imprevisível para o meu

gosto. Ó homem, nunca vi coisa assim, a não ser uma vez, através de um telescópio no cais

de Coney Island! Dez cêntimos para ver as crateras e planícies da lua. E aqui pode-se ver a

mesma coisa, a três dimensões e de borla.

(O vento do deserto ulula de maneira mais audível. Kilroy escarnece dele)

JACQUES - Estás pronto para o atravessar?

KILROY - Talvez noutra altura e com boa companhia. Mas não agora, nem sozinho. E

você?

JACQUES - Eu não estou sozinho.

KILROY - Está com um grupo de pessoas?

JACQUES - Não, mas estou docemente comprometido... com uma senhora.

KILROY - Com uma senhora não é possível sair daqui. Não vejo nada de nada.

Nadinha, lá longe vêem-se algumas montanhas. Estão cobertas de neve.

JACQUES - Botas de neve haveriam de dar jeito.

(Observa Gutman que se aproxima através da passagem, em cima, à esquerda. Começa a

assobiar “La Golondrina”para que Kilroy preste atenção e aponta Gutman com a bengala,

quando este desaparece)

KILROY (descendo os degraus, desconsolado) - Tolice. Tolice.

(O vagabundo assoma ao postigo. A. Ratt entra no seu estabelecimento. Gutman reaparece por

debaixo de Kilroy)

VAGABUNDO -São horas de dormir cá neste lado do mundo!


GUTMAN (em tom de advertência, quando se cruza com ele) - Bloco Sexto numa série

de dezasseis blocos no Camino Real.

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BLOCO SEXTO

KILROY (nos degraus) - Ó homem, que bem que me calhava agora uma cama... bem

me apetecia arranjar uma almofada limpa neste Camino, agora, e deitar-me e dormir e sonhar

que estava com alguém - mas só amigavelmente...

(Dirige-se ao “Ritz Só Para Homens”)

A. RATT (baixinho, com voz ensonada) - Há vagas. Tenho uma cama simples no "Ritz

Só Para Homens”. Um pequeno barco branco para navegar na noite perigosa.

(Kilroy aproxima-se da porta do estabelecimento)

KILROY - O senhor tem vagas?

GUTMAN - Tenho aqui uma vaga se tiveres aí um dólar e cinquenta.

KILROY - Ah, ah! Eu já estive em países em que o dinheiro não era moeda corrente.

Quer dizer era legal mas não era corrente.

(Ouve-se um gemido forte vindo da parte de cima do estabelecimento)

É alguém que está a morrer ou está simplesmente embriagado?

A. RATT - Quem o poderá dizer ou que importância é que isso pode ter por aqui,

paizinho?

KILROY - Eu uma vez ouvi dizer que é impossível um homem morrer enquanto está

bêbedo. Isto é mesmo verdade ou é apenas ficção?

A. RATT - É pura ficção!

VOZ LÁ EM CIMA - Cadáver no número sete! Chamem os Varredores da Rua!

A. RATT (sem a menor alteração no rosto ou na voz) - O número sete está vago.

(ouve-se o apito dos Varredores da Rua, o Vagabundo afasta-se do postigo)

KILROY - Muito obrigado, mas esta noite vou dormir debaixo das estrelas.
(A. Ratt faz um gesto com quem diz “faz como quiseres” e sai. Kilroy, ficando sozinho, dirige-se

para a boca de cena. Repara que La Madrecita se encontra sentada com a cabeça baixa junto

da fonte, segurando e escondendo algo na mão. Aproximando-se, ele vê que se trata de um

pedaço de comida. Pega-lhe e mete-a na boca, procura agradecer-lhe, mas ela tem a cabeça

enfiada no colo e ele não consegue encontrar maneira de lhe agradecer a oferta. Começa a

afastar-se. As Pessoas da Rua levantam as cabeças no fosso onde se encontram e gesticulam,

convidando-o a ir ter com elas. Dizem baixinho “dormir”!)

GUTMAN (na sua cadeira na esplanada) - Hei, Zé!

KILROY - Quem? É comigo?

GUTMAN - Sim, tu, Homem dos Rebuçados! Estás “disocupado”?

KILROY - Isso quer dizer... desempregado, não é verdade?

(Ele vê que os guardas se aproximam, vindos do lado direito)

GUTMAN - Sem trabalho. Na vadiice. A passear a bandeira!

KILROY - Oh, não, oh, não, nem tente pôr-me um rótulo de vadio. Eu fui roubado nesta

praça e tenho muitas testemunhas para o provar!

GUTMAN (com irónica amabilidade) - Ai sim?

(Faz um gesto perguntando "onde”?)

KILROY (deslocando-se até à esquerda da boca de cena e avançando daí para a

direita) - Testemunhas! Testemunha! Testemunhas!

(Chega junto de La Madrecita)

Tu és testemunha!

(Um gesto revela que ele se apercebe da cegueira dela. Detém -se um segundo em frente da

varanda da Cigana)

Hei, ó filha da Cigana!

(A varanda está às escuras. Segue até ao fosso. As Pessoas da Rua escondem-se quando ele

diz :)

Vocês são testemunhas!

(Um guarda entra com uma roupa de palhaço nas mãos. Entrega-o a Gutman)

GUTMAN - Toma, rapaz! Toma lá isto!


(Gutman exibe a roupa e depois atira-a para os pés de Kilroy - uma horrível peruca vermelha,

um grande nariz carmesim que se acende e que é encimado por um par de óculos de aros de

chifre, um par de calças de palhaço que têm nos fundilhos uma pégada enorme)

KILROY - Para que é esta roupa?

GUTMAN - É uma roupa de pallhaço.

KILROY - Eu sei bem o que é um pallhaço. Um palhaço de circo que faz e diz

palermices, mas eu não sou nenhum palhaço!

GUTMAN - Apanha a roupa.

KILROY - Pare de me dar ordens! Kilroy é um homem livre!

GUTMAN - Mas um palhaço não o é. Apanha a roupa e veste-a, Homem dos

Rebuçados. Tu agora és um palhaço.

KILROY - Isso é o que você diz, mas está redondamente enganado!

(Quatro guardas cercam-no)

E não me ponha os seus torpedos à volta! Eu sou um estrangeiro aqui, mas tenho um

cadastro limpo em todos os lugares onde estive, o meu nome não consta em nenhum registo, a

não ser por vadiice, e até houve uma vez, quando estava cheio de fome e passei por um

camião carregado de ananases e nem sequer toquei num deles, porque me educaram bem em

pequenino...

(Depois, numa tentativa patética de fazer amigos com os guardas à sua direita)

... e porque havia um polícia à esquina!

GUARDA - Ponga selo!

KILROY - O que é que estás para aí a dizer?

(Desesperado, pergunta à audiência)

O que é que ele disse?

GUARDA - Ponga selo!

KILROY - O que dizes tu?

(O guarda usa a força para o vergar e fazer apanhar a roupa. Kilroy apanha as calças, sacode-

as cuidadosamente, como se as fosse enfiar, e diz muito delicadamente :)

Ora essa, concerteza. É mesmo um prazer. O meu maior sonho tornou-se realidade.

(De repente, atira a roupa de palhaço à cara de Gutman e salta para o corredor central da sala)
GUTMAN - Detenham-no! Prendam esse vadio! Não o deixem escapar!

ALTIFALANTE - Procura-se um palhaço fugido! Fugiu o palhaço! Prendam-no!

Prendam esse palhaço!

(Começa uma movimentada perseguição. Dois guardas correm furiosamente, cada um pelos

corredores laterais da sala para o tentarem interceptar nos fundos. Kilroy corre de um lado para

o outro no topo do corredor central, corre por ele abaixo, arqueja, faz perguntas

apressadamente e com falta de ar e suplica a vários espectadores que ocupam os lugares da

coxia central)

KILROY - Como é que eu saio daqui? Diga-me o caminho para eu sair daqui. Onde fica

a estação das camionetas Greyhound? Hei, sabe onde é que fica a estação das camionetas

Greyhound? Qual é o melhor caminho para eu sair daqui, se é que há um caminho para sair

daqui. Tenho de encontrar uma saída. Já tenho que me chegue deste lugar. Eu sou livre. Sou

um homem livre e tenho os meus direitos neste mundo. Podem bem acreditar no que vos digo!

Kilroy é um homem livre e tem os seus direitos neste mundo! Vá lá, um de vocês, ajude-me,

ajude-me a encontrar a saída, tenho de encontrar uma saída. Eu não gosto nada deste lugar!

Não me dou bem com ele e não o vou aguentar. Oh! Ali! vejo uma placa que diz “SAÍDA”. Que

bela palavra, ó homem, que linda palavra, SAÍDA! Para Kilroy é a porta para o paraíso! Saída,

aí vou eu, Saída, aí vou!

(As Pessoas da Rua juntaram-se ao longo da boca de cena para verem a perseguição.

Esmeralda, descalça, vestindo apenas uma combinação, irrompe da loja da Cigana como um

animal que fugiu da jaula, enfia-se por entre as Pessoas da Rua até se encontrar à frente da

multidão, a qual grita como os espectadores no climax de uma corrida. Atrás dela aparece a

Ama, representada por um homem, com uma cabeleira e vestido de forma austera, como uma

perceptora, e esta personagem grita tanto como ama, como como homem)

AMA - Esmeralda! Esmeralda!

CIGANA - Polícia!

AMA - Anda cá, Esmeralda!

CIGANA - Vai buscá-la, idiota!


AMA - Onde é que está a minha pombinha, onde está o meu rico tesouro?

CIGANA - Idiota! Eu disse-te para fechares a porta à chave!

AMA - Ela forçou a fechadura. Esmeralda!

(Estes gritos quase se perdem na confusão geral da perseguição e dos gritos das Pessoas da

Rua. Esmeralda inclina-se à beira do palco, emitindo gritos de incitamento, em espanhol, ao

fugitivo. Abdullah descobre-a, agarra-a por um pulso e começa a gritar)

ABDULLAH - Aqui está ela! Apanhei-a!

(Esmeralda debate-se furiosamente. Quase se consegue libertar, mas a Ama e a Cigana

acercam-se também e submetem-na, arrastando-a para casa. Ela resiste todo o caminho de

volta à porta de onde se escapara.

Entretanto - concertados com a acção anteriormente descrita - são disparados tiros

para o ar pelos perseguidores de Kilroy. Este sobe, arquejante, para os camarotes do teatro,

mergulhando de um para o outro, gritando de forma incoerente, soluçando, arquejando,

gemendo)

KILROY - Maria, mãe de deus, tem piedade deste cristão! Tem piedade deste cristão,

Maria, mãe de deus!

ESMERALDA - Ianque! Salta, Ianque!

(Os guardas cercam-no no camarote junto ao palco. Uma luz ofuscante paira sobre ele. Ele

pega numa pequena cadeira com adornos para se defender. A cadeira desfaz-se-lhe nas mãos.

Ele pula por cima do parapeito do camarote)

Salta! Salta, Ianque!

(A Cigana puxa a rapariga pelos cabelos)

KILROY - Cuidado aí em baixo! Geronimo!

(Salta para o palco e torce um tornozelo. Esmeralda grita como possessa, escapa-se da mãe e

corre para ele, fazendo afastar os perseguidores que pularam do camarote atrás dele. Abdullah,

a Ama e a Cigana agarram-na de novo, no momento em que Kilroy é agarrado pelos seus

perseguidores. Batem-lhe até ele cair de joelhos por terra : cada vez que é espancado,

Esmeralda grita como se levasse ela as pancadas. À medida que os gritos dele se tornam

soluços, também os dela se vão modificando. e, quando, por fim, ele já não oferece qualquer
resistência, também ela se rende aos seus captores. Quando a arrastam de volta à loja da

Cigana, ela grita-lhe :)

ESMERALDA - Apanharam-te! Apanharam-me!

(A mãe esbofeteia -a, furiosa)

Apanhados! Apanhados! Fomos apanhados!

(É levada para dentro. A porta é fechada com força, mas continuam-se a ouvir os seus gritos.

Por momentos, não se ouve mais do que o arfar e os soluços de Kilroy. Gutman toma conta da

situação, abrindo caminho pelo meio da multidão para enfrentar Kilroy, que está manietado

pelos dois guardas)

GUTMAN (sorrindo calmamente) - Ora, ora, como é que o senhor se sente? Quer-me

parecer que estás à procura de emprego. Nós precisamos de um palhaço, o lugar é teu, é só

pedires!

KILROY - Não... quero... esse... emprego. Fui... tramado!

(Kilroy veste a roupa de palhaço)

GUTMAN - Shhh! Um palhaço não fala. Faz acender o nariz. E mais nada!

GUARDA - Carrega no botão, aqui, na ponta do fio.

GUTMAN - Isso mesmo. É só carregares no botão na ponta do fio!

(Kilroy faz acender o nariz. Toda a gente se ri)

GUTMAN - Outra vez, ah, ah! Outra vez, ah, ah! Outra!

(O nariz acende e apaga como um pirilampo, à medida que o palco escurece. O pano desce.

Há um pequeno intervalo)

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BLOCO SÉTIMO

(O Sonhador toca bandolim e canta “Noche de Ronde”. Os hóspedes murmuram “muito

bem”..... Gutman encontra-se numa pequena elevação, semelhante a um pódium, à direita da

boca de cena, fumando um cigarro fininho, rubricando ocasionalmente uma nota de despesa do
bar ou do café. Encontra-se num espaço escurecido. O resto do palco está imerso numa

penumbra azulada. A um sinal, a canção converte-se num murmúrio e Gutman fala)

GUTMAN - Bloco Sétimo no Camino Real - Adoro esta hora do dia.

(Oferece ao público um simpático sorriso onde se vêem dentes de ouro)

O fogo do dia extinguiu-se mas a sua luz ainda se detém um pouco. Em Roma, as

fontes perpétuas banham em prata os heróis de pedra, em Copenhaga os Jardins do Tivoli

iluminam-se, vende-se a lotaria em S. Joâo de Latrene....

(O Sonhador adianta-se um pouco, tocando docemente o bandolim)

LA MADRECITA (Oferecendo colares de contas de vidro e colares de conchas)

Recuerdos? Recuerdos?

GUTMAN - E é nestes momentos que nós olhamos para dentro de nós próprios e nos

perguntamos, com uma perplexidade que nunca de todo se perde : é possível que seja só isto?

Não haverá mais? Foi para isto que as resplandecentes rodas dos céus rolaram?

(Inclina-se para a frente, como se fosse partilhar um segredo)

Perguntem à Cigana! Um “poco dinero”faz cócegas na palma da mão da Cigana e faz

com que ela tenha visões!

(Aparece Abdullah com uma bandeja de prata e anuncia :)

ABDULLAH - Carta para o Signor Casanova, carta para o Signor Casanova!

(Jacques levanta-se de um pulo e fica sem se mexer)

GUTMAN - Casanova, recebeu uma carta. Talvez seja a tal carta que traz o cheque!

JACQUES (em voz rouca e exaltada) - Sim! Aqui está! A carta! Com o cheque!

GUTMAN - Então por que é que não trata de manter a sua residência no “Siete

Mares”e, dessa maneira, evita as sombrias acomodações do “Ritz Só Para Homens"?

JACQUES - A minha mão está....

GUTMAN - A sua mão está paralisada?... Mas porquê? Ansiedade? Apreensão? Põe a

carta no bolso do Signor Casanova, para que ele a possa abrir assim que recuperar o uso das

suas extremidades digitais. E depois dêem-lhe um cálice de brandy, por conta da casa, antes

que ele vá de cara ao chão!

(Jacques saiu para a praça. Olha para Kilroy, que está agachado à sua direita e faz acender e

apagar, insistentemente, o nariz)


JACQUES - Sim. Eu conheço o Código Morse.

(O nariz de Kilroy acende outra vez e apaga-se)

Obrigado, irmão.

(Diz isto como se tivesse entendido a mensagem)

Não era preciso ir perguntar à Cigana : eu sabia que qualquer coisa deste género

haveria de te acontecer. Tu tens uma centelha de anarquia no teu espírito e isso é coisa que

não se pode tolerar aqui. Nada que seja rebelde ou honesto pode ser tolerado aqui. Tem de ser

extinta ou utilizada apenas para iluminar o teu nariz para gáudio do senhor Gutman...

(Jacques passeia lentamente em volta de Kilroy, assobiando “La Golondrina”e fica satisfeito por

ninguém suspeitar deste contacto)

Antes do bloco final haveremos de encontrar maneira de sair daqui! Até lá, paciência e

coragem, meu querido irmão!

(Jacques apercebe-se que está ali parado há bastante tempo, vai-se embora dando a Kilroy

uma pequena palmada de encorajamento no ombro e diz :)

Paciência!... Coragem!

LADY MULLIGAN (sentada à mesa) - Senhor Gutman!

GUTMAN - Lady Mulligan! E como se encontra o senhor esta noite, Lord Mulligan?

LADY MULLIGAN (interrompendo os resmungos de Lord Mulligan) - Ele não se sente

nada bem. Este clima faz uns nervos!

LORD MULLIGAN - Esta manhã senti-me tão fraco... nem fui capaz de enroscar a

tampa da pasta de dentes!

LADY MULLIGAN - Raymond, conte lá ao senhor Gutmam sobre aqueles dois

operários impertinentes ali na praça!... Aqueles dois idiotas que andam a empurrar o carrinho

com a barrica branca. Cada vez que pomos um pé fora do hotel, lá estão eles!

LORD MULLIGAN - Põem-se a apontar para mim e a dar risadinhas!

LADY MULLIGAN - Não é possível despedi-los?

GUTMAN - Não podem ser despedidos, nem repreendidos, nem subornados. A única

coisa que se pode fazer é fingir ignorá-los!

LADY MULLIGAN - Não sou capaz de comer!... Raymond, pare de se empanturrar!


LORD MULLIGAN - Cale a boca!

GUTMAN (para o público) - Quando as rodas do carrinho deles chiam nesta rua, passa-

se o mesmo que na queda de uma cidade importante, a destruição de Cartago, o saque de

Roma pelos gigantes de olhos brancos vindos do norte. Eu vi-as cair! Vi a destruição de cada

uma delas. Aventureiros de súbito aterrorizados por causa de um quarto escuro! Batoteiros

incapazes de se decidirem pela cara ou pela coroa. Homens temerários e homens duros e

cavaleiros de chapéus emplumados tornam - se dóceis como bebés assim que ouvem uma

nota do apito dos Varredores da Rua. Quando eu presencio estas transformações, digo para

comigo : “é possível que me aconteça o mesmo?”- E a resposta é “SIM” e é isso que me faz

coagular o sangue, como o leite numa garrafa esquecida à porta de alguém que saiu de férias.

(Um actor de pantomimas, corcunda, dá uma cambalhota através do seu arco de campainhas

de prata, levanta-se e agita-o com força em direcção a um arco da boca de cena, o qual

começa a brilhar numa luz de diamante azul ; este momento marca a chegada de cada uma

das personagens lendárias da peça. Segue-se música : uma valsa dos tempos de Camille em

Paris)

GUTMAN (à boca de cena, para o público) - Ah, já se ouve a música de outra

personagem lendária, uma que todos conhecem, a personagem lendária da puta sentimental, a

cortesã que cometeu o erro do amor. Mas neste momento vêmo-la entrar nesta praça, não

como era quando ardia numa febre que espalhava uma ténue luzinha por cima de Paris, mas

muito diferente, sim, quase apagada como só as lanternas e as lendas o fazem quando ardem

até ser dia!

(Vira-se e grita :)

Rosita, vende-lhe uma flor!

(Marguerite entrou na praça. É uma mulher bonita, de idade indefinível. As Pessoas da Rua

apinham-se em volta dela com gritos de adulação, mostrando-lhe colares de bolas de vidro,

colares de conchas e por aí. Ela parece confusa, perdida, meio-acordada. À sua entrada,

Jacques ergueu-se, mas tem dificuldade em abrir caminho através da chusma de vendedores.

Rosita apanha apressadamente um tabuleiro com flores e apregoa :)


ROSITA - Camélias, camélias! Cor - de- rosa ou brancas, da cor que a senhora ache

mais adequada à lua!

GUTMAN - Aqui está a senha!

MARGURITE - Sim, uma camélia por favor.

ROSITA (Com mau sotaque francês) - Rouge ou blanc ce soir?

MARGUERITE - Agora é sempre uma branca... mas houve tempos em que, durante

cinco noites em cada mês, uma camélia cor-de -rosa, em vez da costumeira branca, fazia

saber aos meus admiradores que a lua não estava favorável ao prazer nessas noites, e por isso

eles me chamavam.... Camille...

JACQUES - Mia cara!...

(Sem contemplações, muito orgulhoso por estar com ela, ele empurra para o lado as

Pessoas da Rua com a sua bengala)

Saiam de frente, abram alas, deixem-nos passar, por favor!

MARGUERITE - Não os empurre com a bengala.

JACQUES - Se se aproximam o suficiente roubam-lhe a carteira.

(Marguerite, chocada, emite um pequeno gritinho)

O que foi?

MARGUERITE - A minha carteira desapareceu! Perdi-a! Tinha lá todos os meus

documentos!

JACQUES - Tinha lá o seu passaporte?

MARGUERITE - O meu passaporte e o meu “permiso de residencia”!

(Ela encosta-se, num desmaio, ao arco durante a cena que se segue. Abdullah afasta-se e

prepara-se para correr. Jacques agarra-o)

JACQUES (agarrando-o por um pulso) - Onde é que a levaste?

ABDULLAH - Au! Ao P ' tit Zoco.

JACQUES - Ao “souk”?

ABDULLAH - Sim, ao “souk”.

JACQUES - A que café foi ela?

ABDULLAH - Ao café do Ahmed, foi lá para...

JACQUES - Ela esteve a fumar no café do Ahmed?


ABDULLAH - Dois cachimbos de Kif!

JACQUES - Quem é que lhe tirou a carteira? Foste tu? Já vamos ver!

(Despe o albornoz do rapaz. Este agacha-se, choramingando e tremendo com uma camisa

toda rasgada)

MARGUERITE - Jacques, deixe o rapaz ir embora, não foi ele quem tirou a carteira!

JACQUES - Não a tem com ele, mas sabe quem ficou com ela!

ABDULLAH - Não, não sei!

JACQUES - Meu grande filho duma Cigana! “Senta”!...Sabes quem eu sou? Sou

Jacques Casanova! Sou membro da Ordem Secreta da Rosa- Cruz!... Corre depressa ao café

do Ahmed. Fala com o patife que roubou a carteira à senhora. Diz-lhe que fique com ela mas

que lhe devolva os documentos. Terá uma boa recompensa.

(Bate com a bengala no chão para tirar Abdullah do transe. O rapaz desaparece logo. Jacques

ri-se e vira-se, triunfante, para Marguerite)

LADY MULLIGAN - Criado! O aventureiro e a sua amante não podem sentar-se perto

da mesa de Lord Mulligan!

JACQUES (suficientemente alto para que Lady Mulligan ouça) - Este hotel tornou-se

uma Meca para os especuladores do mercado negro e as suas mulheres de gostos caros?

LADY MULLIGAN - Senhor Gutman!

MARGUERITE - Vamos jantar lá em cima!

CRIADO (conduzindo-os a uma mesa da esplanada) - Por aqui, M ' sieur.

JACQUES - Ficamos com a nossa mesa habitual.

(Indica uma mesa)

MARGUERITE - Por favor!

CRIADO (sobrepondo-se ao “por favor”de Marguerite) - Esta mesa está reservada para

Lord Byron!

JACQUES (imperioso) - Esta é sempre a nossa mesa.

MARGUERITE - Eu não tenho fome.

JACQUES - Ajuda a senhora a sentar-se, “cretino”!

GUTMAN (Aproximando-se rapidamente da cadeira de Marguerite) - Permita-me!


(Jacques faz uma vénia zombeteira a Lady Mulligan, antes de se virar para a sua própria

cadeira, esperando que Marguerite se acomode)

LADY MULLIGAN - Nós vamos passar para aquela mesa!

JACQUES - É preciso aprender como se deve levar o estandarte da Boémia até ao

campo inimigo.

(Um biombo é colocado em volta deles)

MARGUERITE - A Boémia não tem estandarte. Sobrevive de discrição.

JACQUES - Fico contente por a senhora valorizar a discrição. A carta dos vinhos! Foi a

discrição que a levou através dos bazares esta tarde, levando postos o seu anel de safiras e os

brincos de diamante? Teve muita sorte em só perder a carteira e os documentos!

MARGUERITE - Tome a carta dos vinhos.

JACQUES - Não espumoso ou espumante?

MARGUERITE - Espumante.

GUTMAN - Posso dar uma sugestão, Signor Casanova?

JACQUES - Faça favor.

GUTMAN - É um vinho muito fresco e seco, proveniente de terras somente dez metros

abaixo da linha de neve das montanhas. O nome desse vinho é “Quando”! - o que significa

quando...., como nas expressões “Quando é que chega o cheque enviado?” ou “Quando é que

acertamos as contas”? Ah, ah, ah! Tragam ao Signor Casanova uma garrafa de “Quando”com

os cumprimentos da casa!

JACQUES - Lamento que isto tivesse de acontecer na sua presença...

MARGUERITE - Nâo tem a menor importância, meu querido. E por que é que não me

diz quando está mal de dinheiro?

JACQUES - Pensei que esse facto fosse óbvio. Para todas as outras pessoas é óbvio.

MARGUERITE - A carta de que estava à espera ainda não chegou?

JACQUES (tirando-a do bolso) - Chegou esta tarde, aqui está ela.

MARGUERITE - Nem sequer a abriu!

JACQUES - Não tive coragem para o fazer. Eu já tive tantas surpresas desagradáveis

que acabei por perder a fé na minha sorte.

MARGUERITE - Dê-me cá a carta. Deixe-me abri-la para si.


JACQUES - Mais tarde, um pouco mais tarde, depois do... vinho...

MARGUERITE - Seu velho falcão, seu velho falcão ansioso!

(Ela pega-lhe na mão sobre a mesa, ele inclina-se para ela, ela beija as pontas dos dedos e

coloca-as sobre os lábios dele)

JACQUES - Chama a isto um beijo?

MARGUERITE - Chamo a isto o fantasma de um beijo. Tem de se contentar com ele

por enquanto.

(Ela recosta-se, as pálpebras pintadas de azul fecham-se)

JACQUES - Está cansada? Está cansada, Marguerite? Você sabe que deveria ter

repousado esta tarde.

MARGUERITE - Estive a ver pratas e descansei.

JACQUES - Esteve a ver pratas no café do Ahmed?

MARGUERITE - Não, descansei no café do Ahmed e bebi chá de hortelã.

(O Sonhador vai acompanhando a conversa dos dois com a sua viola. O diálogo deve ter o

estilo de um poema em antífona, as deixas devem ser tomadas sem que haja uma separação

sensível entre os dois discursos, o ritmo deve ser rápido e as falas marcadas)

JACQUES - Tomou chá no andar de baixo?

MARGUERITE - Não, no andar de cima.

JACQUES - No andar de cima, onde fumam a papoila?

MARGUERITE - No andar de cima, onde está fresco e há música e o regatear do bazar

é suave como o murmúrio dos pombos.

JACQUES - Parece um local sossegado. Reclinou-se num divã, entre almofadas de

seda, por detrás das cortinas duma alcova perfumada por cima do bazar?

MARGUERITE - Esqueci por momentos onde estava, ou que não sabia onde estava...

JACQUES - E esqueceu-se a sós ou na companhia de algum jovem que tocasse

alaúde ou flauta, ou que tivesse pratas para lhe mostrar? Parece ter sido um bom descanso. E,

no entanto, parece cansada.


MARGUERITE - Se pareço cansada é por me cansar a sua solicitude que acaba por

insultar.

JACQUES - É um insulto sentir-me preocupado com a sua segurança neste lugar?

MARGUERITE - Sim, é. O que isso implica é.

JACQUES - E o que é que isso implica?

MARGUERITE - Você sabe-o bem : que eu sou uma dessas mulheres voluptuosas que

está a envelhecer, a quem dantes costumavam pagar pelo prazer mas que, agora, tem pagar

para o ter! - Jacques, ninguém vai atrás de mim, já fui longe de mais para que vão atrás de

mim... O que é que foi?

(O Criado traz um envelope numa bandeja)

CRIADO - Uma carta para a senhora.

MARGUERITE - Que coisa estranha receber uma carta num lugar onde ninguém sabe

que me encontro! É capaz de a abrir para mim?

(O Criado retira-se. Jacques pega na carta e abre-a)

Bem, de que se trata?

JACQUES - Nada de importante. Um folheto ilustrado de uma estância nas montanhas.

MARGUERITE - Como se chama?

JACQUES - “Fique - uns - Tempos”.

(Um prato servido a quente na mesa dos Mulligans faz irromper uma chama azul cintilante.

Lady Mulligan entrelaça os dedos e exclama com um prazer afectado, o Criado e Gutman riem

de maneira urbana, Marguerite levanta-se de repente e desloca-se até à boca de cena. Jacques

acompanha-a)

Você conhece essa estância nas montanhas?

MARGUERITE - Sim, já lá estive uma vez. É um desses lugares com varandas

rasgadas e adormecidas, cercado de pinhais com neve : Nele há fiadas e fiadas de estreitas

camas de ferro branco, colocadas de forma tão regular como lápides. Os inválidos sorriem uns

para os outros quando os machados rebrilham através dos vales, ressoam, rebrilham, ressoam

outra vez! Vozes jovens saúdam, “Hola!”, pelos vales. O correio é distribuído. Aquele amigo

que costumava escrever cartas com dez páginas contenta-se, mais tarde, com um pássaro azul

num postal que te diz “melhora depressa!”


(Jacques atira fora o folheto)

E quando vem a última golfada de sangue, nem muito depois nem antes do que era

esperado, levam-te discretamente para uma pequena tenda de gaze branca e a última ideia

que se leva deste mundo, do qual se conheçeu tão pouco e tanto, é o cheiro de uma caixa de

gelo vazia.

(A chama azul extingue-se no prato servido quente. Gutman apanha o folheto e dá-o ao Criado,

segredando-lhe algo)

JACQUES - Não vai voltar a esse lugar.

(O Criado coloca de novo o folheto na bandeja e aproxima-se deles por trás)

MARGUERITE - Não tive alta. Vim-me embora sem autorização. Mandaram-me isto

para me lembrar.

CRIADO (estendendo a bandeja) - Deixaram cair isto.

JACQUES - Nós deitámo-lo fora!

CRIADO - Peço perdão.

JACQUES - Bem, de hoje em diante, Marguerite, tem de tomar mais cuidado consigo.

Está a ouvir - me?

MARGUERITE - Ouço-o bem. Acabaram-se-me as distracções? Acabaram-se

os entretenimentos por detrás das cortinas de alcovas perfumadas sobre o bazar, acabaram-se

os rapazes a quem uma pitada de pó branco ou uma baforada de fumo cinzento quase podem

tornar uma pessoa devotadamente agradecida?

JACQUES - Não, de hoje em diante...

MARGUERITE - O que vai acontecer “de hoje em diante”, velho falcão?

JACQUES - Descansar. Paz.

MARGUERITE - Descansar em paz é o último pequeno conselho que as pessoas

costumam gravar nas lápides e eu ainda não estou pronta para tal! Você está? Está pronto para

isso?

(Ela regressa à mesa. Ele acompanha-a)

Oh, Jacques, quando é que nós saímos daqui? Como é que nós vamos sair daqui, não

é capaz de me dizer?

JACQUES - Já lhe disse tudo quanto sei.


MARGUERITE - Nada, você deixou de ter esperança!

JACQUES - Não deixei, não é verdade o que diz.

(Gutman traz para fora a catatua branca e vai mostrá-la a Lady Mulligan, à mesa)

GUTMAN (fazendo ouvir a sua voz por sobre os murmúrios) - O nome dela é Aurora.

LADY MULLIGAN - Por que é que lhe chama Aurora?

GUTMAN - Ela costuma grasnar ao romper do dia.

LADY MULLIGAN - Só ao romper do dia?

GUTMAN - Sim, apenas ao romper do dia.

(As suas vozes e gargalhadas diminuem de intensidade)

MARGUERITE - Quando foi a última vez que esteve nas agências de viagem?

JACQUES - Esta manhã dei a volta habitual pela Cook 's, pela American Express,

Wagons- lits Universal e foi sempre a mesma coisa. Não há voos daqui para fora até novas

ordens de alguém importante lá em cima.

MARGUERITE - Nada, nada mesmo?

JACQUES - Oh, corre por aí o boato de uma coisa chamada o “Fugitivo”, mas...

MARGUERITE - O... Quê!!?

JACQUES - O “Fugitivo” é uma dessas coisa que não têm horários certos que...

MARGUERITE - Quando, quando, quando?

JACQUES - Acabei de lhe dizer que é uma coisa sem horário certo. Sem horário certo

significa que vem e vai sem que se possa prever...

MARGUERITE - Não me venha com o dicionário! O que eu quero saber é como é que

uma pessoa o apanha? Subornou-os? Ofereceu-lhes dinheiro? Não. Claro que não o fez! E eu

sei porquê! Você não quer sair daqui para fora. Você julga que não se quer ir embora porque é

corajoso como um velho falcão. Mas a boa da verdade - a verdade real - é que você tem medo

da “Tierra Incognita“ daquela muralha para lá.

JACQUES - Acertou em cheio na verdade. Tenho medo de qualquer lugar

desconhecido, dentro ou fora desta muralha ou em que lugar da terra fôr, se a não tiver

comigo!... O único lugar, conhecido ou desconhecido onde posso respirar, ou dar-me a esse

cuidado, é o lugar onde respiremos juntos, como o fazemos agora a esta mesa. E mais tarde,

um pouco mais tarde, ainda mais juntos do que agora, os dois únicos habitantes de um mundo
minúsculo, cujos limites são os da luz de um candeeiro cor-de-rosa - ao lado do lugar doce e

completamente conhecido que é a sua cama confortável!

MARGUERITE - O pequeno conforto do amor?

JACQUES - É um conforto assim tão pequeno?

MARGUERITE - Os animais enjaulados aceitam-se uns aos outros, mas aquilo por que

eles anseiam é voar.

JACQUES - Quero ficar aqui consigo e amá-la e protegê-la, até que venha a hora ou a

forma de ambos nos irmos embora com honra.

MARGUERITE -”Irmos embora com honra”? O seu vocabulário é tão velho quanto a

sua capa e a sua bengala. Como pode alguém sair daqui com honra, deste lugar onde nada

existe senão o degradar gradual de tudo quanto em nós é decente... até mesmo aquela forma

de desespero, que vem depois de uma pessoa já estar desesperada, até ela já está gasta de

tanto ser usada! Por que é que eles pôem estes biombos em volta da mesa?

(Ela levanta-se e derruba um deles)

LADY MULLIGAN - Aí está! Esta´a ver? Eu não compreendo como deixam certas

pessoas instalarem-se aqui!

GUTMAN - Pagam o mesmo preço que a Senhora para serem admitidas.

LADY MULLIGAN - E que preço é esse?

GUTMAN - Desespero! - Com dinheiro aqui!

(Mostra o “Siete Mares”)

Sem dinheiro ali!

(Mostra o lado escabroso da rua)

Bloco Oitavo no Camino Real!

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BLOCO OITAVO

Ouve-se soprar com força o vento do deserto e um grito de flamengo é seguido por

uma sequência musical dramática.


Uma luminosidade azul de diamante rebrilha em volta da entrada do hotel. O corcunda

move-se, encurvado e rindo, e agita o seu arco com campainhas, que é o sinal convencionado

para a entrada de cada personagem lendária.

Surge Lord Byron à porta do hotel, preparado para partir.

Gutman ergue a mão a pedir silêncio.

GUTMAN - Vai-nos deixar, Lord Byron?

BYRON - Sim, vou deixá-lo, Senhor Gutman.

GUTMAN - Ah, mas que pena! Mas se isto é uma porta de entrada e de saída... Não há

hóspedes para sempre. Provavelmente, o senhor está a sentir - se um pouco irrequieto?

BYRON - Os luxos deste lugar deixaram-me amolecido. O aparo de metal da minha

caneta desapareceu, só ficou a pena.

GUTMAN Pode bem ser verdade. Mas que pode o senhor fazer?

BYRON - Posso partir!

GUTMAN - Partir, afastar-se de si mesmo?

BYRON - Partir, afastar-me daquilo que hoje sou e em direcção àquilo que eu já fui!

GUTMAN - Essa é a maior viagem que um homem pode fazer! Creio que vai embarcar

para Atenas? Rebentou lá outra guerra e, como todas as guerras desde o começo dos tempos,

pode ser interpretada como uma luta... pelo quê?

BYRON - Pela liberdade! Pode rir-se à vontade, mas ela ainda significa algo para mim!

GUTMAN - Claro que significa. E não me estou a rir nem um bocadinho, estou a sorrir

com admiração.

BYRON - Permiti-me demasiadas distracções.

GUTMAN - Sim, na verdade!

BYRON - Mas nunca me esqueci de todo da minha antiga devoção a...

GUTMAN - A quê, Lord Byron?

(Byron passa nervosamente os dedos pelos cabelos)

Não é capaz de se lembrar do objecto da sua grande e única devoção?

(Há uma pausa. Byron coxeia da esplanada até à fonte)

BYRON - Quando o corpo de Shelley foi retirado do mar...


(Gutman faz um sinal ao Sonhador para que se aproxime e acompanhe com a viola as

palavras de Byron)

Cremara-no na praia em Viareggio - eu assisti ao espectáculo na minha carruagem

porque o fedor era insuportável e depois aquilo... fascinou-me! Saí da carruagem. Aproximei-

me, com um lenço metido nas narinas!... Vi que a parte anterior do crânio tinha rebentado com

as chamas e ali...

(Avança até à beira do palco,seguido por Abdullah que leva uma tocha ou uma lanterna)

... e ali estava o cérebro de Shelley, pouco diferente de um guisado a apurar - fervendo,

borbulhando, silvando - no panelão enfarruscado e quebrado do seu crânio!

(Marguerite levanta-se abruptamente. Jacques apoia-a)

- Trelawney, o amigo dele, Trelawney atirava sal e óleo e incenso para as chamas e,

por fim o fedor quase insuportável...

(Abdullah solta risadinhas. Gutman esbofeteia-o)

... desapareceu e a cremação tornou-se pura - a cremação de um homem deve ser...

A cremação de um homem tem a obrigação de ser pura! - não como a minha, um “crepe

suzette”queimado em brandy...

A cremação de Shelley foi, por fim, muito pura!

Mas o corpo, o cadáver, abriu-se como o de um porco assado!

(Abdullah volta a soltar risadinhas irreprimíveis. Gutman agarra-lhe o pescoço por trás e ele

endireita-se e assume uma expressão de exagerada solenidade)

E nesse momento Trelawney, assim que as costelas do cadáver se abriram, meteu

nelas a mão, como se fosse um padeiro a meter a mão no forno!

(Abdullah quase tem nova convulsão)

E retirou, como um padeiro faria a um biscoito, o coração de Shelley! Retirou o coração

de Shelley do cadáver em ebulição de Shelley, retirou-o da chama azul purificadora...

(Marguerite senta-se no seu lugar e Jacques também)

E estava tudo acabado! - Pensei...

(Vira as costas lentamente ao público e afasta-se da beira do palco. Encara Jacques e

Marguerite)
Pensei que era uma coisa repugnante, retirar o coração de um homem do seu corpo! O

que é que uma pessoa pode fazer com o coração de outra pessoa?

(Jacques levanta-se e bate com a bengala no chão)

JACQUES (emotivamente) - Pode fazer assim com ele!

(Apanha um pedaço de pão da sua mesa e sai da esplanada)

Pode sacudi-lo assim!

(Sacode o pedaço de pão)

Pode despedaçá-lo assim!

(Parte-o em dois pedaços)

Pode esmagá-lo debaixo dos pés!

(Atira o pão para o chão e espezinha-o)

E pode fazê-lo desaparecer com um pontapé, assim!

(Atira o pão para fora da esplanada com um pontapé, Lord Byron vira-lhe as costas e coxeia de

novo à beira do palco, falando para o público)

BYRON - Isso é bem verdade, Senor. Mas a vocação de um poeta, aquilo que

costumava ser a minha vocação, é influenciar o coração de uma maneira mais suave do que

aquela com que fez valer o que pensa com o pedaço de pão. Ele tem por obrigação purificá-lo

e elevá-lo acima do seu nível elementar. Pois o que é um coração senão uma espécie de...

(faz um gesto largo, como se tacteasse, no ar)

Uma espécie de... instrumento!... que transforma o ruído em música, o caos em...

ordem...

(Abdullhah dobra-se até quase tocar no chão, esforçando-se por conter o seu gozo. Gutman

tosse para cobrir o seu próprio divertimento)

... uma ordem misteriosa!

(Levanta a voz até ela encher a praça)

Em tempos que já lá vão, foi essa a minha vocação, antes de ela se tornar obscura

devido aos aplausos vulgares! - Pouco a pouco fui-me perdendo entre “gondolas e palazzos”!...

bailes de máscara, descomunais salões penumbrentos, entradas iluminadas por tochas,

fachadas barrocas, dosséis e tapetes, candelabros e baixelas de ouro entre damascos nevados,
senhoras com gargantas tão finas como hastes de flores, inclinando-se para mim e exalando o

seu hálito fragrante...

.... Mostrando-me os seus seios!

Murmurando, meio a sorrirem... e, por todo o lado, mármore, a visível grandeza do

mármore, mármores cor-de-rosa e cinzentos, com veios e matizados à semelhança de carne

rasgada a corromper-se.. tudo isto constituiu agradável distração para a bem aterradora solidão

do poeta. Oh, escrevi muitos cantos em Veneza e Constantinopla e em Ravenna e Roma, em

todos esses passeios latinos e levantinos onde o meu pé torto me conduziu... mas pouco me

ponho a pensar neles. Parece que crescem à medida que o vinho na garrafa vai minguando...

Há neste mundo uma paixão pelo declínio!

E, nos últimos tempos, dei comigo a ouvir musicos contratados por detrás de uma fila

de palmeiras artificiais... em vez de ouvir o singelo, puro e afinado instrumento que é o meu

coração...

Ora então, visto isto, é hora de partir daqui!

(Regressa ao palco)

Chega a hora de partir, mesmo quando não se sabe exactamente para onde se vai!

Vou à procura de um lugar desses, agora. Vou embarcar para Atenas. Pelo menos, posso pôr-

me a olhar para a Acropolis, posso ficar cá em baixo e olhar para colunas derruídas na crista de

um monte - se não é a pureza, é pelo menos a sua reminiscência...

Posso sentar-me sossegadamente durante muito, muito tempo em silêncio absoluto e,

possivelmente, sim ainda possivelmente...

A música antiga virá a mim de novo. Claro que, por outro lado, posso não ouvir mais do

que o ruído dos insectos na erva...

Mas embarco para Atenas! Viajar! É preciso insistir! Não resta outra coisa...

MARGUERITE (com excitação) - Veja para onde ele vai!

(Lord Byron coxeia pela praça com a cabeça inclinada, tendo pequenos gestos apologéticos

para os Pedintes aduladores, que se concentram em volta dele. Ouve-se música. Ele dirige-se

à Saída íngreme. Os movimentos que se seguem são representados com uma intensidade

contida, num tom menor do que a posterior cena do “Fugitivo”)


Não o perca de vista, veja o caminho que ele toma. Talvez ele saiba de um caminho

que nós ainda não descobrimos.

JACQUES - Sim, estou a vê-lo, Cara.

(Lord e Lady Mulligan soerguem-se, olhando nervosamente através do monóculo e do binóculo

de teatro)

MARGUERITE - Oh, meu Deus, parece-me que ele vai subir a rua.

JACQUES - Sim, vai. Já a subiu.

LORD E LADY MULLIGAN - Oh, que louco, que idiota, passou por baixo do arco!

MARGUERITE - Jacques, corra atrás dele, avise-o, diga-lhe do deserto que ele vai ter

de atravessar.

JACQUES - Creio que ele sabe o que está a fazer.

MARGUERITE - Não suporto ver mais!

(Ela vira-se para o público, recosta a cabeça e fecha os olhos. O vento do deserto sopra forte à

medida que Byron se aproxima do alto dos degraus)

BYRON (para vários carregadores que transportam bagagem, a qual é

maioritariamente constituída por pássaros em gaiolas) - POR AQUI!

(Sai. Kilroy segue-o, pára no primeiro degrau, servilmente olhando para Gutman. Gutman faz-

lhe sinal para que prossiga. Kilroy trepa pelos degraus. Olha para fora da muralha, perde a

garra e senta-se, acendendo e apagando o seu nariz. Gutman gargalha e anuncia :)

GUTMAN - Bloco Nono no Camino Real!

(Dirige-se ao seu hotel)

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BLOCO NONO
(Abdullah corre para o hotel com o archote aceso. Um gemer longínquo e ténue torna-

se gradualmente audível... Marguerite abre os olhos com um ar espantado. Procura qualquer

coisa no céu. A percursão faz-se ouvir muito baixo, como o bater de um coração excitado)

MARGUERITE - Jacques! Estou a ouvir algo, no céu!

JACQUES - Penso que o que está a ouvir é...

MARGUERITE (aumentando o estado de excitação) - Não... é um avião, um avião

grande. Já lhe estou a ver as luzes!

JACQUES - Talvez seja algum fogo de artifício, Cara.

MARGUERITE - Shhh! Ouça!

(Ela apaga a vela para poder ver melhor por cima dela. Levanta-se e observa o céu)

Estou a vê-lo! Estou a vê-lo! Ali! Está a andar em círculos sobre nós!

LADY MULLIGAN - Raymond, Raymond, sente-se, a sua cara está afogueada

HÓSPEDES (falando por cima uns dos outros) - O que é?

- O “FUGITIVO”!

- O “FUGITIVO”! O “FUGITIVO”!

- Depressa, vai buscar as minhas jóias ao cofre do hotel!

- Levanta um cheque!

- Mete qualquer coisa numa mala! Eu espero aqui!

- Deixa lá a bagagem, temos aqui o dinheiro e os documentos!

- Onde é que ele está agora?

- Ali, ali!

- Está a virar para aterrar!

- E vamos assim?

- Sim, vamos de qualquer maneira, vamos como estamos, mas vamos!

- Raymond, por favor!

- Oh, está a subir novamente!

- Oh, vai... SHHH! SENHOR GUTMAN!

(Gutman surge à porta do hotel. Ergue a mão num gesto de comando)

GUTMAN - Os sinais no céu não devem ser tomados por milagres!

(As vozes depressa se moderam)


Minhas senhoras e meus senhores, por favor voltem aos vossos lugares!

(retomam-se os lugares nas mesas, os talheres são levantados nervosamente. Levam-se copos

aos lábios, mas o arfar de excitação enche o palco e a percursão, baixinho, faz eco de batidas

frenéticas de coração.

Gutman desce à praça e grita furiosamente com o guarda)

GUTMAN - Por que é que eu não fui avisado que o “Fugitivo”estava para vir?

(Toda a gente, num só movimento, se atira para o hotel e reaparece quase de imediato com os

pertences apanhados à pressa. Marguerite também se levanta, mas parece atordoada.

Ouvem-se zumbidos e rangeres quando o avião aterra, algures por perto, e os sons são

acompanhados por jactos de luz, uma espécie de arco-iris, e gritos como de crianças numa

montanha russa. Alguns dos passageiros que chegam aproximam-se do palco por um dos

corredores da sala, precedidos por bagageiros com bonés vermelhos)

PASSAGEIROS - Mas que viagem celestial!

- A vista era tão deslumbrante!

- Foi tão rápido!

- Assim vale a pena viajar! É a única maneira decente de viajar! Etc., etc.

(Um homem vestindo um uniforme, o Piloto, entra na praça com um megafone)

PILOTO (com o megafone) - O “Fugitivo" encontra-se a carregar e vai partir! O

“Fugitivo”está a carregar e parte de imediato! Dirijam-se ao canto noroeste da praça! É favor

dirigirem-se ao canto noroeste da praça!

MARGUERITE - Jacques, é o “Fugitivo”, aquela coisa sem horário certo de que ouviu

falar esta tarde!

PILOTO - Todos os passageiros que queiram partir no “Fugitivo“ devem apresentar os

seus bilhetes e documentos, imediatamente, neste posto de embarque!

MARGUERITE - Ele disse “os passageiros que queiram partir”!

PILOTO - Os passageiros que queiram partir no “Fugitivo” devem apresentar-se,

imediatamente, neste posto de embarque para inspeccção alfandegária.

MARGUERITE (com um sorriso forçado) - O que está você a fazer aí parado?

JACQUES (com um gesto italiano) - “Che cosa possa fare“!


MARGUERITE - Mexa-se, mexa-se, faça alguma coisa!

JACQUES - Faço o quê?!

MARGUERITE - Vá ter com eles, pergunte, informe-se!

JACQUES - Não faço o a mínima ideia de que raio de coisa é esta!

MARGUERITE - Mas eu faço, eu digo-lhe o que é! É uma maneira de sair deste lugar

abominável!

JACQUES - “Forse, forse, non so“!

MARGUERITE - É uma maneira de sair e eu não vou perder esta oportunidade!

PILOTO - “Ici la Douane“! Inspecção alfandegária aqui!

MARGUERITE - Alfândega. Quer dizer bagagens. Corra ao meu quarto! Aqui! A chave!

Meta umas quantas coisas numa mala, as minhas jóias, as minhas peles, mas despache-se!

“Vite, vite, vite“! Não há muito tempo! Não, toda a gente....

(Os Passageiros que querem sair prercipitam-se para o balcão e a mesa)

... está a pedir bilhetes! Os lugares devem ser poucos! Por que é que não faz o que eu

lhe digo?

(Ela corre para um homem que tem um carimbo e um rolo com bilhetes)

Monsieur! Senor! Pardonnez-moi! Eu quero ir, quero sair daqui! Quero um bilhete!

PILOTO (friamente) - Nome, por favor.

MARGUERITE - Mademoiselle... Gautier... mas eu....

PILOTO - Gautier? Gautier? Não temos nenhuma Gautier na lista.

MARGUERITE - Eu não estou... na lista! Quer dizer, eu... viajo com outro nome.

AGENTE DE VIAGENS - Qual é o nome com que viaja?

(Prudence e Olympe saem a correr do hotel, meio vestidas, arrastando as suas peles atrás.

Entretanto Kilroy tenta ganhar um ou dois dólares rápidos como bagageiro. A cena constitui um

momento agitado e é pontuada por estrondos de percursão. Grotescos actores de pantomima

fazem o papel de diabólicos inspectores de alfândega e de autoridades da imigração, etc. A

bagagem é atirada de um lado para o outro, é aberta violentamente, os bens de contrabando

são postos de lado, são feitas detenções, tudo no meio dos maiores desmandos, protestos,

ameaças, subornos, súplicas. É uma cena para improviso)


PRUDENCE - Graças a deus que eu acordei!

OLYMPE - Graças a deus que eu não estava a dormir!

PRUDENCE - Eu sabia que isto não tinha horário certo, mas sempre pensei que nos

dessem tempo para nos arranjarmos.

OLYMPE - Já viu quem está a tentar furar?! Tenho a certeza que ela não tem lugar

reservado!

PILOTO (para Marguerite) - Que nome é que disse, Mademoiselle? Faça favor! As

pessoas estão à espera, a senhora está a empatar a fila!

MARGUERITE - Estou tão confusa! Jacques! Em que nome é que você fez a reserva?

OLYMPE - Ela não tem reserva nenhuma!

PRUDENCE - Eu tenho, eu tenho a minha!

OLYMPE - Eu tenho a minha! Tenho o meu lugar reservado.

PRUDENCE - Sou eu a seguir!

OLYMPE - Não me empurre, seu pote!

MARGUERITE - Eu cheguei primeiro. Cheguei antes de toda a genete! Jacques,

depressa! Vá buscar o meu dinheiro ao cofre do hotel!

(Jacques sai)

AGENTE - Mantenham-se em fila!

(Ouve-se um forte apito de aviso)

PILOTO - Cinco minutos. O “Fugitivo” parte dentro de cinco minutos. Cinco, só cinco

minutos!

(Ao ouvir-se este aviso a situação torna-se tumultuosa)

AGENTE DE VIAGENS - Quatro minutos! O “Fugitivo” parte dentro de quatro minutos!

(Prudence e Olympe falam esganiçadamente com ele em francês. O apito de aviso faz-se ouvir

outra vez)

Três minutos, o “Fugitivo” parte dentro de três minutos!

MARGUERITE (à frente do tumulto) Monsieur! Por favor! Fui a primeira a chegar,

cheguei antes de toda a gente! Veja!

(Jacques regressa com o dinheiro dela)

Tenho milhares de francos. Leve o que quiser! Leve-o todo, é seu!


PILOTO - Só se aceitam pagamentos em libras esterlinas ou em dólares. Quem se

segue, por favor?

MARGUERITE - Não aceita francos? Mas no hotel aceitam. No “Siete Mares” aceitam

os meus francos!

PILOTO - Minha senhora, não discuta comigo, não sou eu quem faz as regras!

MARGUERITE (batendo com o punho na testa) - OH, meu deus, Jacques! Leve-me

este dinheiro ao caixa!

(Atira-lhe as notas)

Troque - o por dólares ou... despache-se! ”Tout de suite“ ! Eu vou... vou desmaiar...

JACQUES - Mas, Marguerite...

MARGUERITE - Vá! Vá! Por favor!

PILOTO - Estamos a fechar, a fechar! O “Fugitivo parte dentro de dois minutos!

(Lord e Lady Mulligan furam apressadamente)

LADY MULLIGAN - Deixem passar Lord Mulligan.

PILOTO (para Marguerite) - A senhora está a impedir a passagem.

(Olympe dá um grito quando o inspector alfândegário lhe atira as jóias para o chão. Ela e

Prudence dão uma cabeçada ao baixarem-se para apanharem as jóias. O tumulto reacende-se)

MARGUERITE (agarrando o Piloto) - Oh, veja, Monsieur! “Regardez ça“! O meu

diamante, um solitário... Dois carates. Tome-o como sinal!

PILOTO - Largue-me. A loja de penhores é do outro lado da praça!

(Ouve-se outro apito de aviso. Prudence e Olympe pegam em caixas de chapéus e correm em

direcção ao apito)

MARGUERITE (agarrando-se desesperadamente ao Piloto) - O senhor não está a

compreender. O Senor Casanova foi cambiar o dinheiro! Ele não demora um segundo. E eu

pago cinco, dez, vinte vezes o preço do... JACQUES! JACQUES! ONDE SE METEU?!

VOZ (nos fundos do auditório) - Vamos fechar os portões!

MARGUERITE - Não podem fechar os portões!

PILOTO - Saia da frente, senhora!

MARGUERITE - Não saio daqui!


LADY MULLIGAN - Está a ouvir? Lord Mulligan é o dono da siderurgia de Cobh!

Raymond! Estão a fechar os portões!

LORD MULLIGAN - Não há maneira de eu conseguir passar!

GUTMAN - Segurem o portão para Lord Mulligan!

PILOTO (para Marguerite) - Senhora, afaste-se ou terei de utilizar a força!

MARGUERITE - Jacques! Jacques!

LADY MULLIGAN - Deixem-nos passar! Nós não temos nada a declarar!

PILOTO - Senhora, afaste-se e deixe passar estes passageiros!

MARGUERITE - Não, não! Eu estou primeiro! Sou eu a seguir!

LORD MULLIGAN - Tirem-na da nossa frente! A mulher é uma puta!

LADY MULLIGAN - Como é que se atreve a não nos deixar passar!?

PILOTO - Guarda, leve esta mulher!

LADY MULLIGAN - Vamos lá, Raymond!

MARGUERITE (ao ser puxada pelo guarda) - Jacques! Jacques! Jacques!

(Jacques volta com o dinheiro cambiado)

Aqui está! Aqui está o dinheiro!

PILOTO - Muito bem, mostre-me os seus documentos.

MARGUERITE - Os meus documentos? Disse os meus documentos?

PILOTO - Despache-se, despache-se, o seu passaporte!

MARGUERITE - Jacques! Ele quer os meus documentos. Dê-lhe os meus documentos,

Jacques!

JACQUES - Os documentos da senhora extraviaram-se.

MARGUERITE (violentamente) - Não, não, não, ISSO NÃO É VERDADE! ELE QUER

QUE EU FIQUE AQUI! ESTÁ A MENTIR POR ISSO!

JACQUES - Já se esqueceu que os seus documentos foram roubados?

MARGUERITE - Eu dei-lhe os meus documentos, dei-lhe os meus documentos a

guardar, você tem os meus documentos!

(Gritando, Lady Mulligan passa por ela à força e começa a descer os degraus)

LADY MULLIGAN - Raymond! Despache-se!


LORD MULLIGAN (cambaleando no primeiro degrau) - Estou-me a sentir mal! Estou-

me a sentir mal!

(Os Varredores da Rua, disfarçados de agentes funerários caros, vestidos com casacas com

abas de grilo, surgem rapidamente por um corredor do teatro e esperam no fim da escada pelo

periclitante magnata)

LADY MULLIGAN - Não se pode sentir mal antes de entrarmos no “Fugitivo”

LORD MULLIGAN - Enviem todos os telegramas para a “Guaranty Trust” em Paris.

LADY MULLIGAN - Na Place de La Concorde.

LORD MULLIGAN - Muito obrigado! Todas as aquisições serão pagas a dinheiro contra

entrega na Siderurgia Mulligan em Cobh... Muito obrigado!

LADY MULLIGAN - Raymond! Raymond! Quem são estes homens?

LORD MULLIGAN - Eu conheço estes homens. Estou-lhes a reconhecer as caras!

LADY MULLIGAN - Raymond! São os Varredores da Rua!

(Ela grita, corre pelo corredor gritando sem parar, pára a meio caminho para olhar para trás. Os

dois Varredores da Rua seguram Lord Mulligan, cada um por seu braço, no momento em que

este sucumbe)

Embalem o corpo de Lord Mulligam em gelo seco! Enviem-no por avião para Cobh, ao

cuidado da Siderurgia Mulligan, em Cobh!

(Ela corre, soluçando, para o fundo da sala quando o apito soa várias vezes e uma voz se faz

ouvir)

Já vou! Já vou!

MARGUERITE - Jacques! Jacques! Oh, meu deus!

PILOTO - O “Fugitivo” vai partir! Todos a bordo!

(Ele encaminha-se para os degraus. Marguerite agarra-se-lhe ao braço)

Largue-me!

MARGUERITE -Não pode partir sem mim!

PILOTO - Guarda, agarre esta mulher!

JACQUES - Marguerite, deixe-o ir!


(Ela solta o braço do piloto e vira-se violentamente para Jacques. Abre-lhe bruscamente a

casaca, tira um envelope com documentos e corre atrás do piloto, que desceu os degraus sobre

o fosso da orquestra e seguiu pelo corredor central da sala. A percursão entra num crescendo, à

medida que ela começa a descer os degraus, gritando)

MARGUERITE - Estão aqui! Tenho-os aqui! Espere! Já tenho os meus documentos,

tenho os meus documentos!

(O Piloto corre e pragueja pelo corredor central e neste momento ouvem-se curtos e repetidos

apitos. Ouve-se percursão e instrumentos de sopro dissonantes. Os passageiros disparam

numa canção histérica, em gargalhadas e gritos de adeus. Estes podem ser provenientes de

um altifalante colocado nos fundos da sala)

VOZ DISTANTE - Vamos! Vamos! Vamos!

MARGUERITE (tentando descer os degraus, mas meio paralisada) - NÃO SE VÃO

EMBORA SEM MIM, NÃO, NÃO, NÃO SE VÃO SEM MIM!

(A personagem é apanhada pela luz fria e ofuscante de um projector móvel, cega-a. Ela tem

gestos violentos, furiosos, agarrando-se ao corrimão dos degraus. A sua respiração é pesada e

arquejante como a de um moribundo, leva à boca um lenço manchado de sangue.

Quando o “Fugitivo” descola, ouve-se o atroar prolongado e gradual, como de um

foguete. Pequenos gritos de alegria por parte dos passageiros são audíveis, algo de

luminosidade intensa passa por cima do palco e um rasto de confetis e fios prateados cai sobre

a praça. Segue-se, então, um grande silêncio, o barulho do avião diminui gradualmente, até

não passar do zumbido de insecto)

GUTMAN - (Um pouco condoído) - Bloco Décimo no Camino Real.

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BLOCO DÉCIMO
(Há algo na desolação da praça que sugere uma cidade devastada por um bombardeamento.

Luzes vermelhas tremeluzem aqui e ali, como se ruínas ardessem quase sem chama :

Pequenas colunas de fumo elevam-se dispersas pela praça)

LA MADRECITA (quase inaudivelmente) - Donde?

O SONHADOR - Aqui. Aqui, Madrecita.

MARGUERITE - Abalou! Abalou! Abalou! Abalou!

(Ela agarra-se repetidamente ao corrimão dos degraus. Jacques desce até ela e ajuda-a a subir

os degraus.

JACQUES - Encoste-se a mim, Cara. Respire devagar agora.

MARGUERITE - Abalou!

JACQUES - Respire devagar, devagar e olhe para o céu...

MARGUERITE - Abalou...

JACQUES - Estas noites tropicais são tão claras. Ali está o Cruzeiro do Sul. Está a ver

o Cruzeiro do Sul, Marguerite?

(Ele vai indicando pelo palco. Acercam-se do banco que está em frente da fonte. Ela descansa

nos braços dele)

E ali, acolá, está Orion, como se fosse um gordo peixe dourado nadando para norte em

águas profundas e límpidas, e nós estamos juntos, respiramos juntos sem sobressaltos,

encostados um ao outro, docemente, docemente juntos, completa e docemente juntos, nada

assustados, agora, nada sós, mas completa e docemente juntos...

(La Madrecita, conduzida pelo filho até ao centro da praça, começou a cantar muito

melodiosamente. As luzes vermelhas extinguem-se e o fumo desaparece)

Cada pessoa tem um pássaro desesperado no seu coração, a memória de... uma mãe

que espera com... asas

MARGUERITE - Eu ia-me embora... sem você....

JACQUES - Eu sei, eu sei!

MARGUERITE - Então como é que ainda é capaz de...

JACQUES - Abraçá-la?

(Marguerite aquiesce com a cabeça)


Porque você ensinou-me essa parte do amor que se chama ternura. Nunca antes a

tinha conhecido. Oh, se eu tive... amantes que cirandavam à minha volta como luas! Saltava

da cama de uma para a cama de outra com as fraldas da camisa de fora, de mulher para

mulher, como se deitasse um balde de combustível às chamas! Mas nunca antes tinha amado

com essa parte do amor a que se chama ternura...

MARGUERITE - Habituámo-nos um ao outro. É isso que você supõe ser amor... acho

melhor que me deixe sozinha agora, é melhor que se vá embora e me deixe, porque começa a

soprar um vento gélido das montanhas, vem por sobre o deserto até ao meu coração, e se ficar

ao pé de mim, vou-lhe dizer coisas cruéis, vou magoar a seu amor - próprio, vou escarnecê-lo

por causa do declínio do seu vigor de macho!

JACQUES - Por que é que a desilusão torna as pessoas mesquinhas umas com as

outras?

MARGUERITE - Cada pessoa é um ser solitário.

JACQUES - Só se não tivermos confiança uns nos outros.

MARGURITE - Temos de desconfiar dos outros. É a nossa única defesa para com a

traição.

JACQUES - Eu acedito que a nossa defesa é o amor.

MARGUERITE - Oh, Jacques, nós estamos apenas habituados um ao outro, somos

dois falcões em cativeiro, metidos na mesma gaiola e por isso fomo-nos habituando um ao

outro. É isso que passa por ser amor nesta parte final e penumbrenta do Camino Real...

Quais são as nossa certezas? Nem sequer estamos certos da nossa existência, meu

querido e reconfortante amigo! E a quem podemos dirigir as perguntas que nos atormentam?“

Que lugar é este? Onde nos encontramos?"... um homem gordo que nos faz maliciosas

insinuações, uma Cigana a fingir que olha de soslaio para cartas e folhas de chá. Que mais nos

é oferecido? A ininterrupta sucessão de pequenos incidentes assegura-nos que nós e os

estranhos à nossa volta continuamos em frente? Onde? Para onde? Porquê? E a nossa

situação é bem instável!

Estamos ameaçados de expulsão, porque este lugar é um porto de embarque e

desembarque, não há hóspedes para sempre! E para onde iremos quando sairmos daqui? Para
a estância “Fique - uns - Tempos“? Para o “Ritz Só Para Homens“? Ou passamos sob aquele

sinistro arco em direcção `a “Tierra Incógnita“? Estamos sozinhos. Estamos assustados.

Não muito ao longe, ouvimos o apito dos Varredores da Rua. Por isso, de vez em

quando, embora nos tenhamos ferido um ao outro uma e outra vez, estendemos as mãos um

para o outro na escuridão de que não conseguimos escapar, abraçamo-nos desajeitadamente

na procura de algum ténue conforto comum... e é isso que passa por ser amor nesta parte final

da estrada, que costumava ser majestosa. E o que é, este sentimento que existe entre nós?

Quando sente o meu corpo exausto de encontro ao seu ombro, quando eu seguro a sua

ansiosa cabeça de velho falcão de encontro ao meu peito, o que sentimos nós naquilo que

resta dos nosso corações? Algo, sim algo.... algo de delicado, irreal, exangue. Aquela espécie

de violetas que poderiam crescer na lua ou numa falha nas rochas daquelas longínquas

montanhas, fertilizadas pelos dejectos dos pássaros necrófagos. Estes pássaros não nos são

estranhos. As sombras deles povoam a praça. Tenho-os ouvido bater as asas como velhas

mulheres a dias a baterem tapetes gastos com vassouras cinzentas... mas a ternura, as

violetas nas montanhas, não podem fender as rochas.

JACQUES - As violetas da montanha podem fender as rochas se acreditar nelas e lhes

permitir que cresçam!

(A praça regressou ao seu aspecto habitual. Abdullah entra por um dos arcos da boca de cena)

ABDULLAH - Comprem aqui os vossos chapéus e narizes postiços de carnaval!. Esta

noite a lua restituirá a virgindade à minha irmã!

MARGUERITE (Acariciando-lhe a cara com quase ternura) - Você não sabe que esta

noite irei traí-lo?

JACQUES - Por que haveria de fazer uma coisa dessas?

MARGUERITE - Porque é mais forte do que a ternura no meu coração. Abdullah, vem

cá! Vai-me fazer um recado. Vai dar um recado ao Ahmed!

ABDULLAH - Eu estou a trabalhar para a Mama, a ver se faço uns doláres ianques!

Comprem aqui os vossos chapéus de carnaval e...

MARGUERITE - Vem cá, rapaz!

(Retira um anel do dedo e oferece-lho)


JACQUES - O seu anel de safira?

MARGUERITE - Sim, o meu anel de safira!

JACQUES - Endoideceu?

MARGUERITE - Sim, endoideci.... ou quase! O espectro da loucura segue-me de perto

esta noite!

(Jacques afasta Abdullah com a bengala)

Apanha-o, rapaz! Do outro lado da fonte! Depressa!

(Ouve-se a viola, molto vivace. Ela atira o anel por cima da fonte. Jacques tenta segurar o

rapaz com a bengala. Abdullah mexe-se de um lado para o outro como um pequeno “terrier",

rindo-se. Marguerite encoraja-o em francês. Quando o rapaz é afastado do anel, ela apanha-o e

atira-lho novamente, gritando :)

Apanha-o, rapaz! Corre para o Ahmed! Diz àquele belo rapaz que a senhora francesa

se aborrece com a companhia que tem esta noite! Diz-lhe que a senhora francesa perdeu o

“Fugitivo” e quer esquecer que o perdeu! Oh, e que me reserve um quarto com varanda para

que eu possa ver a tua irmã aparecer no telhado quando a lua fizer dela uma virgem!

(Abdullah sai da praça aos saltos e a gritar. Jacques bate com a bengala no chão. Ela diz, sem

olhar para ele :)

O tempo atraiçoa-nos e nós atraiçoamo-nos uns aos outros.

JACQUES - Espere, Marguerite.

MARGUERITE - Não! Não posso. O vento do deserto leva-me com ele!

(Um vento que ulula fortemente transporta-a em direcção à esplanada. Ela olha uma ou duas

vezes para trás, como que para fazer um gesto de despedida, mas ele apenas olha para ela

fixamente, furioso, batendo com a bengala no chão a intervalos regulares, como numa marcha

fúnebre. Gutman observa, sorrindo, na esplanada, faz uma vénia quando Marguerite passa

para o hotel. O batimento de Jacques é tomado por outros instrumentos de percursão e, quase

imperceptivelmente a princípio, foliôes de aspecto grotesco ou carnavalescos actores de

pantomima entram sorrateiramente na praça, silenciosos como aranhas descendo uma parede.

Uma folha de papel de arroz, amarela e escarlate desce no meio da praça. Os efeitos

de percursão tornam-se gradualmete mais fortes. Jacques não se apercebe dos


acontecimentos que se desenrolam nas suas costas, está absorto, no lado da praça mais

próximo da boca de cena, de olhos fechados)

GUTMAN - Bloco Décimo - primeiro no Camino Real.

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BLOCO DÉCIMO - PRIMEIRO

GUTMAN - A festa começou! O primeiro momento alto é a coroação do Rei dos

Cornudos!

(Ofuscantes jorros de luz são repentinamente projectados sobre Casanova, que se

encontra à boca de cena. Ele esconde a cara, espantado, quando a multidão o envolve.

Os ofuscantes jorros de luz parecem atingi-lo como golpes violentos e ele cai de

joelhos no momento em que o Corcunda sai, precipitadamente, da loja da Cigana com uma

coroa com hastes douradas de veado numa almofada de veludo. Coloca a coroa na cabeça de

Jacques. Os participantes na celebração formam um círculo em volta dele, entoando cânticos)

JACQUES - O que é isto?.... Uma coroa....

GUTMAN - Uma coroa de cornos!

MULTIDÃO - “Cornudo! Cornudo! Cornudo! Cornudo! Cornudo“!

GUTMAN - Salve!, todos, salve!, Rei dos Cornudos do Camino Real!

(Jacques dá um salto, procurando atingi-los com a bengala. Depois, de repente, deixa de se

defender, despe a capa, deita fora a bengala e enche a praça com um bramido de desafio e

auto - humilhação)

JACQUES - Si, si, sono cornudo! Cornudo! Cornudo! Casanova é o Rei dos Cornudos

do Camino Real. Mostrem-me já coroado ao mundo! Proclamem a honraria! Anunciem ao

mundo a honra concedida a Casanova, Chevalier de Seingalt. Cavaleiro da Espora de Ouro por

Graça de Sua Santidade, o Papa.... Aventureiro afamado! Extraordinário aventureiro! Jogador!

Homem duro por excelência! Mercenário por conta de rainhas. Proxeneta! Vigarista! E... um...

grande... amante...
(A multidão ovaciona e gargalha, mas a sua voz eleva-se acima dela, com intensidade, apesar

de embargada)

Sim, eu disse UM GRANDE AMANTE! O maior de todos os amantes tem os maiores

cornos do Camino Real! UM GRANDE AMANTE!

GUTMAN - Atenção! Silêncio! A lua ergue-se! A Restituição vai ter lugar!

(Uma luz branca começa a aparecer sobre a muralha antiga da cidade. As montanhas tornam-

se luminosas. Ouve-se música. Todos prestam atenção, sem respirar, olhando para a luz.

Kilroy aproxima-se de Jacques e chama-o com gestos por detrás da multidão. Retira os

cornos da cabeça de Jacques e devolve-lhe o seu chapéu. Jacques responde ao acto retirando

a horrível peruca da cabeça de Kilroy e o nariz eléctrico. Numa pantomima chaplinesca, Kilroy

aponta para as três bolas de metal que rebrilham insistentemente à porta da loja de penhores e

para as suas luvas d'ouro. De seguida, com um esgar terrível, tira as luvas do pescoço, sorri a

Jacques e gesticula que os dois juntos irão voar por cima da muralha. Jacques abana a cabeça

com tristeza, apontando para o seu coração e para o "Siete Mares". Kilroy diz que sim com a

cabeça, compreendendo, pesaroso, os disparates humanos dos homens.. Um guarda veio-se

aproximando sorrateiramente em mansos passinhos de dança. Jacques assobia “La

Golondrina", Kilroy assume uma pose indolente. O Guarda apanha e observa com curiosidade

a peruca e o nariz deitados fora. Depois, fixando com dúvidas os dois, avança. Kilroy dá uma

corrida rápida e faz uma entrada de baseball pela porta da loja de penhores. A porta é fechada

com força. O Guarda está para a deitar abaixo quando soa um gongue e se ouve Gutman

gritar)

GUTMAN - Silêncio! Atenção! A Cigana!

A CIGANA (aparecendo no telhado com um gongue) - A lua restituiu a virgindade à

minha filha Esmeralda!

(Faz soar o gongue)

PESSOAS DA RUA - Ahh!

A CIGANA - A lua em sua plenitude fez dela virgem!

(faz soar o gongue)

PESSOAS DA RUA - Ahh!


CIGANA - Louvem-na, celebrem-na, prestem-lhe as devidas homenagens!

(Faz soar o gongue)

PESSOAS DA RUA - Ahh!

CIGANA - Chamem-na ao telhado!

(Grita ela)

ESMERALDA!

(Pessoas dançando entoam ritmicamente o nome dela)

ERGUE-TE COM A LUA, MINHA FILHA! ESCOLHE O TEU HERÓI!

(Esmeralda aparece no telhado sob uma luz ofuscante. Parece estar coberta de jóias. Levanta

os braços recobertos de jóias e emite um brusco grito de flamengo)

ESMERALDA - OLÈ!

PESSOAS A DANÇAR - OLÉ!

(Os pormenores relativos ao Carnaval são assunto do encenador e do coreógrafo, mas já foram

dadas indicações no texto de que a “Fiesta“ é uma espécie de celebração dos “Ritos da

Fertilidade", em toada sério - cómica, grotesco-lírica, a qual tem raízes em diversas culturas

pagãs.

Não deve ser demasiado elaborada, nem se deve deixar que ocupe muito tempo. Não

deve ter mais de três minutos desde o momento em que Esmeralda aparece no telhado da loja

da Cigana até ao momento em que Kilroy regressa da casa de penhores.

Kilroy sai da casa de penhores numa indumentária grotesca, um turbante, óculos

escuros, um albornoz e uma sombrinha)

KILROY - Adeus, amigo, bem gostava que pudesses vir comigo.

(Jacques mete nas mãos de Kilroy a sua cruz)

ESMERALDA - Ianque!

KILROY (para o público) - Adeus a todos! Desejo-vos boa sorte no Camino Real! Pus

as minhas luvas d'ouro no prego para financiar esta expedição. Cá vou eu. “Hasta luega". Aqui

me vou!

ESMERALDA - Ianque!
(Mal entra na praça um grupo tumultuoso de mulheres tira-lhe toda a roupa, deixando - o só

com as calças e a camisola com que aparecera no princípio)

KILROY (para as mulheres) - Deixem-me! Deixem-me! Cuidado com a minha roupa!

ESMERALDA - Ianque! Ianque!

(Ele solta-se delas e pula pelos degraus da muralha antiga. Está a meio caminho quando se

ouve Gutman gritar)

GUTMAN - Ponham um projector em cima daquele gringo, iluminem a escadaria!

(A luz apanha Kilroy. No mesmo instante Esmeralda chama-o aos gritos)

ESMERALDA - Ianque! Ianque!

CIGANA - O que é que se passa ali?

(Ela corre até à praça)

KILROY - Oh, não! Eu estou de saída!

ESMERALDA - Espera un momento!

(A Cigana chama pela polícia, mas é ignorada no meio da multidão)

KILROY - Não me tentes, querida! Eu empenhei as minhas luvas d'ouro para financiar

esta expedição.

ESMERALDA - “Querido“!

KILROY - “Querido“ significa meu coração, uma expressão a que é difícil resistir, mas

eu vou-lhe resistir.

ESMERALDA - Campeão!

KILROY - Já fui Campeão em tempos, mas de que serve lembrar-me?

ESMERALDA - Sê de novo Campeão! Entra na competição! Luta neste torneio.

A CIGANA (aos gritos) - Nà, ná, ele não se pode candidatar de novo!

ESMERALDA - Por fa - voooooor!

CIGANA - Dá-lhe um estalo, Ama, está a passar das marcas.

(Em vez disso, Esmeralda esbofeteia a Ama)

ESMERALDA - Herói! Campeão!

KILROY - Não estou em forma!

ESMERALDA - Tu ainda és o Campeão, o Campeão invencível das luvas d'ouro!

KILROY - Há muito, muito tempo que ninguém me chamava isso!


ESMERALDA - Campeão!

KILROY - A minha resistência começa a ceder!

ESMERALDA - Campeão!

KILROY - Cedeu!

ESMERALDA - Herói!

KILROY - “GERONIMO“!

(Dá um salto da escadaria até ao centro da praça. Vira-se para Esmeralda e grita :)

BONECA!

(Kilroy, rodeado de alegres Pessoas da Rua, enceta uma excêntrica dança de triunfo, em que

se revê a sua história passada de boxeur, viajante e amante.

No fim desta dança, a música é abruptamnete interrompida, no momento em que Kilroy

se dirige, com um braço no ar em direcção a Esmeralda e grita :)

KILROY - Eis Kilroy, o Campeão!

ESMERALDA - KILROY, o campeão!

(Ela tira uma ramo de rosas vermelhas das mãos da atordoada Ama e atira-as a Kilroy)

MULTIDÃO (a um tempo) - OLÉ!

(A Cigana, nesse preciso momento, atira de si com força o gongue, provocando um

estardalhaço.

Kilroy vira-se e vem até junto do público, dizendo-lhe :)

KILROY - Estão a ver?

(Animadas Pessoas da Rua acercam-se dele, levantam-no no ar. As luzes extinguem-se e o

pano desce)

MULTIDÃO (Num grito prolongado) - OLÉ |

(O pano desce. Segue-se um pequeno intervalo)

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BLOCO DÉCIMO - SEGUNDO

(O palco está às escuras, excepto um projector que incide sobre Esmeralda no telhado da

Cigana)
ESMERALDA - Mama, o que é que aconteceu?.... Mama, as luzes apagaram-se!...

Mama, onde é que estás?... Está tão escuro, tenho medo!.... MAMA!

(Acendem-se as luzes e revelam uma praça deserta. A Cigana está sentada a uma pequena

mesa na frente da sua loja)

CIGANA - Desce daí, Boneca! A asneira está feita! Escolheste o teu herói!

GUTMAN (na varanda do “Siete Mares") - Bloco Décimo - segundo no Camino Real

AMA (junto à fonte) - Cigana, a fonte continua seca!.

CIGANA - Do que é que estavas à espera? Já não há quem preserve as tradições

antigas. Cria-se uma rapariga. Ela vê televisão. Toca be-bop. Lê a revista “Segredos do Écran".

Depois vem o momento da Grande Fiesta. A lua ergue-se e torna-a virgem... o que constitui o

truque mais conseguido da semana! E o que é que ela faz? Escolhe um Palhaço Fugido para

Herói Escolhido! Bom, manda entrar o palerma e prepara a virgem!

AMA - Sempre queres levar isto até ao fim?

CIGANA - Ouve, Ama! Eu estou à frente de um negócio sério. Este palerma vai ser

tratado da mesmíssima maneira que seria tratado se tivesse tornado mais ameno o camino

com uma tempestade de notas em clave de sol! Depressa, rapariga! Mexe-me essas pernas!

Lubrifica os teus meios de locomoção!

(A Ama entra na loja da Cigana. A Cigana esfrega as mãos e sopra sobre a bola de cristal,

cospe-lhe em cima e dá-lhe uma limpeza rápida com um pedaço de camurça. Murmura : “bola

de cristal, diz-me tudo... bola de cristal, diz-me tudo....

Neste preciso momento, Kilroy reentra na praça vindo da loja da Cigana... com uma

rosa entre os dentes)

CIGANA - Siente-se, por favor.

KILROY - No comprendo the linguo.

AMA (nos bastidores) - Hei, Cigana!

CIGANA - Trata-me por Minha Senhora quando me dirigires a palavra!

AMA (entrando) - Minha Senhora, Winchel antecipou-se às suas previsões!

CIGANA - O olho de um porco, ouviste!?

AMA - O “Fugitivo “ já “FFTT"...


CIGANA - Sim, para Elizabeth, Nova Jersey... às dez e cinquenta e sete da noite. Hora

local.... Enquanto isso, estavas tu a fazer caracóis no teu penteado. Além disso, o meu segundo

exclusivo diz que o sistema solar vai à deriva em direcção à constelação de Hércules... Aí vai

eeeele!

(A Ama sai. Ouvem-se estrondos nos bastidores)

Silêncio aí atrás! Raios os partam!

AMA (nos bastidores) - Ela está a descontrolar -se!

CIGANA - Dá-lhe uma dose dupla de brometo! (para Kilroy). Então diga lá como se

sente no papel de Herói Escolhido!...

KILROY - Há uma cosia que eu tenho de lhe dizer.

CIGANA - Não gastes saliva. Vais precisar dela mais tarde.

KILROY - Eu quero ser franco consigo. Posso ser franco consigo?

CIGANA (carimbando apressadamente alguns papéis) - O que podes tu fazer senão

seres franco com a Cigana?

KILROY - Não sei para que fim foi o herói escolhido.

(Esmeralda e a Ama guincham nos bastidores)

CIGANA - O tempo se encarregará de to dizer... Ah, como eu detesto papelada!...

AMAAA!

(A Ama aparece e espera junto à mesa)

Este datador está todo lixado! Está adiantado seis vezes na data, já vai no domingo

que há-de vir! Arquiva esta merda em M de merda!

(para Kilroy) A lamparina está acesa. Fuma um por minha conta.

(Oferece-lhe um cigarro)

KILROY - Não, muito obrigado.

CIGANA - Vá lá, não sejas tão severo contigo mesmo. Não perdes nada que não

venhas mais tarde a perder.

KILROY - Se isso é uma opinião profissional, eu não concordo com ela.

CIGANA - Senta-te aí e diz-me o teu nome completo.

KILROY - Kilroy.

CIGANA (escrevendo tudo) - Data de nascimento e local onde esse desastre teve lugar.
KILROY - São ambos desconhecidos.

CIGANA - Morada.

KILROY - Viajante.

CIGANA - Pais.

KILROY - Incógnitos.

CIGANA - Quem é que te criou?

KILROY - Fui criado à balda por uma velha tia excêntrica em Dallas.

CIGANA - Levanta ambas as mãos ao mesmo tempo e jura que não vieste a este lugar

com o propósito de cometeres um qualquer acto imoral.

ESMERALDA (nos bastidores) - Hei, Chico!

CIGANA - SILÊNCIO! Doenças infantis.

KILROY - Tosse convulsa, sarampo e papeira.

CIGANA - Coisas de que gostes e coisas de que não gostes.

KILROY - Gosto de situações de onde me possa pôr a andar. Não gosto de chuis e...

CIGANA - Isso é irrelevante. Aqui! Assina aqui!

(Ela estende-lhe um formulário)

KILROY - O que é isto?

CIGANA - Tem sempre de se assinar um papel qualquer, não é verdade?

KILROY - Não assino sem saber de que se trata.

CIGANA - É apenas uma formalidade para dar bom tom à loja e causar boa impressão

nos nossos parceiros comerciais de fora da cidade. Arregaça a manga.

KILROY - Para quê?

CIGANA - Para levares uma vacina qualquer.

KILROY - Que vacina?

CIGANA - Uma qualquer. Eles não dão sempre uma vacina qualquer nestas situações?

KILROY - Eles? Eles quem?

CIGANA - Os generais, os magalas, os americanos!

(Ela dá-lhe uma vacina)

KILROY - Eu não sou nenhum porco da Guiné!


CIGANA - Não te armes em esperto. Todos nós somos porcos da Guiné no laboratório

de Deus. A Humanidade é um trabalho ainda não acabado.

KILROY - Não estou a compreender.

CIGANA - E quem é que compreende? O Camino Real é um jornal esquisito lido de

trás para a frente!

(Ouve-se um apito estranho lá fora. Kilroy mexe-se na cadeira)

Estás cansado? A altitude dá-te sono?

KILROY - Põe-me nervoso.

CIGANA - Vou-te ensinar a beber um bom trago de tequilla! Dilata os vasos capilares.

Primeiro deitas sal nas costas da mão. Depois lambes o sal com a língua. E logo de seguida

metes a bomba goela abaixo! (Ela exemplifica)... e depois dás uma dentada no limão. desta

forma a coisa desce suavemente, mas é cá um estouro!... Agora é a tua vez.

KILROY - Não, muito obrigado, eu não alinho nisso.

CIGANA - Há um velho ditado chinês que diz : “se o teu ganso já está assado podes

muito bem cozinhá-lo com bastante molho ".

(Ela ri-se)

Levanta-te, querido. Deixa-me lá olhar para ti!.... Tu até nem és um rapaz nada mal

parecido. Às vezes andar a trabalhar pelos dólares ianques nem deve ser muito má ocupação.

Já alguma vez te sentiste atraído por mulheres mais velhas?

KILROY - Para ser franco, não, minha senhora.

CIGANA - Pois é, há sempre uma primeira vez para tudo.

KILROY - Ora aí está uma coisa em que eu não concordo consigo.

CIGANA - Achas-me um pote velho?

(Kilroy ri-se desajeitadamente. A Cigana dá-lhe um estalo na cara)

O que é que escolhes, as cartas ou a bola de cristal?

KILROY - É igual.

CIGANA - Muito bem, vamos começar pelas cartas.

(Ela baralha e distribui as cartas)

Faz-me uma pergunta.

KILROY - A minha sorte acabou-se?


CIGANA - Querido, a tua sorte acabou-se no dia em que nasceste. Outra pergunta.

KILROY - Devo sair desta cidade?

CIGANA - Não me parece que tenhas muito por onde escolher nessa matéria... tira

uma carta.

(Kilroy tira uma carta)

CIGANA - Ás?

KILROY - Sim, minha senhora.

CIGANA - De que cor?

KILROY - Preto.

CIGANA - Oh, oh... está tudo dito! De que tamanho é o teu coração?

KILROY - Do tamanho da cabeça de um bebé.

CIGANA - Ele vai dar um estouro.

KILROY - Era o que eu bem temia.

CIGANA - Os Varredores da Rua estão à tua espera do lado de lá da porta.

KILROY - De qual porta, da da frente? Eu safo-me pela de trás!

CIGANA - Vamos enfrentar isto com franqueza, a tua vez chegou. Há muito tempo que

tu já devias saber que o teu nome constava da lista do Varredores da Rua.

KILROY - Claro que sabia. Mas não que estava mesmo à cabeça da lista!

CIGANA - É sempre um bocado chocante. Espera lá! Esta notícia é boa. A Rainha de

Copas surgiu na posição certa.

KILROY - O que é que isso quer dizer?

CIGANA - Amor, querido!

KILROY - Amor?

CIGANA - O Prémio dos Tansos!... Esmeralda!

(Levanta-se e bate no gongue. É trazido um divã. A Filha da Cigana vem nele sentada, numa

posição reclinada, como uma odalisca. Cobre-lhe o rosto um véu com lantejoulas. Do véu até

ao cinto abaixo do umbigo, que prende a saia bifurcada e diáfana, ela está nua, excpetuando

um par de serpentes de esmeralda, muito brilhantes, enroscadas sobre os seus seios. A cabeça

de Kilroy anda à roda e ouve-se um canário cantar)

KILROY - QUAL É.... QUAL É A ESPECIALIDADE DELA?... Folhas de chá?


(A Cigana agita um dedo)

CIGANA - Tu bem sabes que a curiosidade matou o gato!... Ama, vai-me buscar a

minha peruca de cerimónia e o meu Quarenta - e - cinco. Vou dar uma volta. Tenho de ir lá a

baixo ao Walgreen trocar uma nota.

KILROY -Que nota?

CIGANA - Essa nota de dez que me vais dar.

AMA - Não discutas com ela. Ela tem uma vontade de ferro.

KILROY - Eu não estou a discutir com ela!

(Com relutância, ele retira o dinheiro)

Mas temos de ser justos! Eu empenhei as minhas luvas d'ouro por esta nota!

AMA - Vocês americanos filhos da mãe querem tudo de borla!

KILROY - Quero um recibo neste valor.

AMA - Na loja da Cigana ninguém é vigarizado!

KILROY - Isso é uma maravilha! Mas como é que eu sei?

CIGANA - Está escrito nas cartas, na bola de cristal, nas folhas de chá.! Ninguém, mas

mesmo ninguém, é vigarizado na loja da Cigana!

(Ela apanha-lhe a nota. O vento ulula)

Que raio de tempo mais instável! Vou pôr as minhas peles de verão! Ama, vai buscar-

me as minhas peles de verão!

AMA (olhando de soslaio, grotescamente) - De marta ou de zibelina?

CIGANA - Ah, ah, é amorosa! Toma lá. Cronometra-o.

(A Ama atira-lhe um cobertor muito sebento e ela atira à Ama um despertador. A Cigana sai

pelas cortinas de fitas)

Adios! Ah, ah!

(Ainda mal saiu do palco quando se ouvem dois tiros. Kilroy sobressalta-se)

ESMERALDA (Em tom lamentoso) - A Mãe passa sempre um mau bocado quando sai

à rua.

KILROY - O quê? É insultada na rua?

ESMERALDA - Sim, por estranhos.


KILROY (para o público) - Bem me queria parecer que os conhecidos não seriam

capazes de lho fazer.

(Ela enrosca-se sobre o divã. Kilroy lambe os lábios)

Tu estás muito diferente...desde esta tarde...

ESMERALDA - Esta tarde?

KILROY - Sim, na praça, quando eu levei a sova daqueles gorilas e tu estavas a ser

arrastada para casa pela tua Mama!

(Esmeralda olha para ele fixamente, sem expressão)

Não te lembras?

ESMERALDA - Eu nunca me lembro do que acontece antes que a lua se erga e me

faça virgem.

KILROY - Isso é um grande choque para ti?

ESMERALDA - Sim, é um grande choque.

KILROY (sorrindo) - Sofres daquilo a que chamam amnésia temporária!

ESMERALDA - Ianque...

KILROY - Hum?

ESMERALDA - Estou contente por te ter escolhido. Estou contente por teres sido

escolhido.

(A voz dela diminui de intensidade)

Estou contente. Estou muito contente...

AMA - Minha boneca!

ESMERALDA - O que é que foi, Ama?

AMA - Como é que as coisas se estão a desenrolar?

ESMERALDA - Muito devagar, Ama...

(A Ama entra, movendo - se com dificuldade)

AMA - Vinha buscar qualquer coisa para ler.

ESMERALDA - Ele está sentado em cima da revista “Segredos do Écran“

KILROY (levantando-se de um salto) - Oh..., aqui a tem.

(Ele passa -lhe a revista de fans. Ela sai com dificuldade, envergonhada)

Sinto-me... embaraçado...
(De repente ele tira para fora uma fotografia numa moldura de prata)

Tu... gostas de ver fotografias?

ESMERALDAS - Filmes?

KILROY - Não, não... fotografias!

ESMERALDA - Tuas?

KILROY - Da minha querida mulher. Era uma loira platinada, assim como a Jane

Harlow. Lembras-te da Jane Harlow? Não, claro que não te lembras.O facto de uma mulher se

lembrar da Jane Harlow só significa que está a envelhecer.

(Ele guarda a fotografia)

Diz-se que as cinzas de Jane Harlow estão guardadas numa pequena catedral privada

em Forest Lawn. Não seria maravilhoso se se pudesse espalhar as cinzas dela pelo campo,

como se fossem sementes, e que de cada uma dessas cinzas nascesse outra Jane Harlow? E

quando a Primavera chegasse, uma pessoa podia ir passear e colhê-lhas dos arbustos!... Tu

realmente não és muito faladora.

ESMERALDA - Queres que eu fale?

KILROY - Bem, é assim que a gente faz a coisa lá nos Estados Unidos. Um pouco de

“vino ", uns discos no gira-discos, uma conversazita calma... e depois, se ambas as partes

estiverem com queda para o romance.... Romance...

ESMERALDA - Música!

(Ela levanta-se e deita algum vinho de uma esguia garrafa de cristal e a música faz-se ouvir)

Dizem que o sistema monetário tem de ser estabilizado em todo o mundo.

KILROY (pegando num copo) - Diz lá isso outra vez, por favor. Não tinha o radar

ligado.

ESMERALDA - Eu disse que dizem que... hum, deixa lá!... mas nós não podemos

deixar de nos interessar, pelo menos enquanto continuarmos a ter dólares americanos... e

impostos federais!

KILROY - Ah, bem podes ter a certeza!

ESMERALDA - E qual é a tua opinião sobre a luta de classes? Já fizeste uma opção a

este respeito?

KILROY - Não é que eu não...


ESMERALDA - Nem nós, por causa da dialéctica.

KILROY - Quem? Qual?

ESMERALDA - Línguas com sotaque, penso eu. Mas a Mama está-se nas tintas, pelo

menos enquanto não trouxerem para cá o Papa e o puserem na Casa Branca.

KILROY - Quem é que haveria de fazer uma coisa dessas?

ESMERALDA - Oh, os Bolcheviques, aquelos velhorras mauzinhos com bigodaças! As

bigodaças arranham! Mas os bigodinhos só fazem cócegas...

(Ela dá risadinhas)

KILROY - A minha barba fica sempre macia, bem escanhoada...

ESMERALDA - E o que é que tu pensas do Mumbo Jumbo? Achas que já meteram o

velhote no saco?

KILROY - O velhote?

ESMERALDA - Deus. Nós achamos que não. Pensamos que tem havido tanto Mumbo

Jumbo que Ele se deixou dormir!

(Kilroy levanta-se impaciente)

KILROY - Não era isto o que eu quis dizer com uma conversa calma. Isto não tem pés

nem cabeça! Nada!

ESMERALDA - Que espécie de conversa é que tu queres?

KILROY - Qualquer coisa... assim mais íntima! Sabes como é, assim do género...

ESMERALDA - Onde arranjaste tu uns olhos assim?

KILROY - PESSOAL! Pois...

ESMERALDA - Bom... onde arranjaste tu uns olhos assim?

KILROY - Tirei-os a um bacalhau morto!

AMA (chamando dos bastidores) -- MINHA BONECA!

(Kilroy levanta-se e bate com o punho direito na palma da mão esquerda)

ESMERALDA - O que foi?

AMA - Quinze minutos!

KILROY - Não sou nenhuma pila mecânica!

(Para o público)
Até aposto que ela está lá fora com um cronómetro para ver se eu não fico aqui tempo

a mais!

ESMERALDA (através das cortinas de fitas) - Ama, vai-te deitar, Ama!

KILROY - Isso mesmo, vai-te deitar, Ama!

(Ouve-se um grande estrondo nos bastidores)

ESMERALDA - A Ama foi-se deitar...

(Ela baixa a cortina de fitas e regressa à alcova)

KILROY (manifestando um grande alívio) - Ahhhhhhhhhh....

ESMERALDA - Para onde é que estás a olhar?

KILROY - Para essas serpentes verdes que trazes... por que é que as puseste?

ESMERALDA - Devia ser para me protegerem. Mas na verdade foi por capricho.

(Ele aproxima-se do divã)

O que é que estás a fazer?

KILROY - Estou a estabelecer uma “cabeça-de-ponte“ nesse sofá.

(Senta-se)

Então e que tal levantares um pouco o véu?

ESMERALDA - Não o posso levantar.

KILROY - Por que não?

ESMERALDA _ Prometi à Mama que não o faria.

KILROY - Eu pensei que a tua mãe era uma mulher de vistas largas.

ESMERALDA - Oh, ela até é, mas tu sabes com as mães são. Podes levantá-lo tu, se

disseres “por favor, minha linda".

KILROY - Ham?...

ESMERALDA - Vá, diz assim! Diz, por favor, minha linda!

KILROY - Não!

ESMERALDA - Por que dizes que não?

KILROY - É uma parvoíce!.

ESMERALDA - Nesse caso, não te deixo levantar-me o véu!

KILROY - Pronto, está bem. Por favor, minha linda.

ESMERALDA - Diz outra vez!


KILROY Por favor, minha linda.

ESMERALDA - Agora diz outra vez, mas a sério.

(Ele levanta-se bruscamente. Ela agarra-lhe a mão)

Não te vás embora.

KILROY - Tu estás-me a fazer de parvo.

ESMERALDA - Só te estava a provocar um bocadinho. Porque tu és tão giro. Senta-te

lá outra vez, por favor.... por favor, minha linda!

(Ele deixa-se cair no sofá)

KILROY - Que perfume bom é esse que puseste?

ESMERALDA - Adivinha!

KILROY - Chanel! Número cinco!

ESMERALDA - Não.

KILROY - Tabu?

ESMERALDA - Não.

KILROY - Desisto.

ESMERALDA - É “Noche en Acapulco". Estou morta por ir a Acapulco. Quem me dera

que tu me levasses a Acapulco.

(Ele senta-se)

O que é que foi?

KILROY - Vocês, as filhas das ciganas, têm sempre de se lembrar de alguma coisa

sem a qual lhes é impossível viverem... sempre no momento em que tudo parece estar a correr

pelo melhor.

ESMERALDA - Isso não é nada simpático da tua parte. Eu não sou do tipo de rapariga

que anda à caça de ouro. Algumas raparigas começam logo a imaginar-se com peles de raposa

cinzenta. Eu só me imagino em Acapulco!

KILROY - No Hotel Todd?

ESMERALDA - Não, no “Mirador ", a ver aqueles rapazes lindíssimos a mergulharem lá

de cima, da “Quebrada “!

KILROY - Imagina com mais pormenor, querida. Talvez te consigas ver nos filmes da

Paramount Pictures ou a tomar um “Ponche Singapore“ num Bar Statler.


ESMERALDA - Estás a ser sarcástico?

KILROY - Ná. Estou apenas a ser realista. Vocês, as filhas das ciganas, têm todas uns

corações de pedra e eu não estou aqui para a assobiar o “Dixie". Mas vai dar no mesmo, na

véspera do dia da sua morte, um homem diz : por favor, minha linda, deixas-me levantar um

pouco o teu véu?.... - e, enquanto isto, os Varredores da Rua estão à espera dele do lado de

fora da porta!... É que ser um pouco afectuoso por mais uns momentos significa estar vivo

ainda. E o amor? Isso é um grande palavrão, que às vezes nem é melhor do que um outro

palavrão qualquer que se veja num muro, escrito por crianças que se portaram mal no regresso

da escola! Bom, de que é que serve uma pessoa queixar-se? Vocês, as filhas das ciganas, têm

ouvidos que só conseguem ouvir sons do género do estalido duma cigarreira de ouro! Ou

então.... por favor, minha linda, Querida, vamos os dois para Acapulco!

ESMERALDA - E vamos os dois?

KILROY - Não estão a ver o que eu digo?

(Para o público)

Eu não lhes disse?

(Para Esmeralda)

Sim! Logo de manhã!

ESMERALDA - Ohhhhh, estou tonta de tanta alegria! O meu coração faz toc-toc!

KILROY - E o meu coração enorme faz bum - bum. Agora já posso levantar o teu véu?

ESMERALDA - Se fores meiguinho.

KILROY - Sou incapaz de fazer mal a uma mosca, a não ser quer a mosca tenha luvas

de boxe calçadas.

(Ele tacteia uma ponta do véu)

ESMERALDA - Ohhh...

KILROY - O que foi?

ESMERALDA - Ohhhhhhh!

KILROY - Porquê? O que é que se passa?

ESMERALDA - Não estás a ser meiguinho!

KILROY - Eu estou a ser meiguinho!

ESMERALDA - Tu não estás a ser meiguinho.


KILROY - Então estou a ser o quê?

ESMERALDA - Bruto!

KILROY - Eu não estou a ser bruto!

KILROY - Estás sim, estás a ser bruto. Tens de ser meiguinho comigo, porque és o

primeiro.

KILROY - Estás a gozar com a minha cara?

ESMERALDA - Nâo.

KILROY - E então todas as outras “Fiestas“ onde estiveste?

ESMERALDA - Cada um é sempre o primeiro. É o que têm de maravilhoso as filhas

das ciganas!

KILROY - Podes dizê - lo e repeti-lo!

ESMERALDA - Não gosto nada de ti quando te pões assim.

KILROY - Assim como?

ESMERALDA - Feito cínico e sarcástico.

KILROY - Eu sou sincero.

ESMERALDA - Há muitos rapazes que não são sinceros.

KILROY - Talvez não o sejam, mas eu sou.

ESMERALDA - Todos dizem que são sinceros, mas ninguém o é. Se todos aqueles que

dizem que são sinceros fossem sinceros, não haveria nem metade das pessoas que não são

sinceras neste mundo e haveria carradas, carradas e mais carradas de gente verdadeiramente

sincera!

KILROY - Parece-me que tens razão no que dizes. Mas e no que diz respeito às filhas

das ciganas?

ESMERALDA - Hum?

KILROY - Será que elas pertencem a cem por cento à categoria das pessoas realmente

sinceras?

ESMERALDA - Bem, sim e não, a maioria nem por isso! Mas algumas delas são

sinceras por uns instantes, se os seus amantes forem meiguinhos.

KILROY - Tu acreditarias que eu sou sincero e meiguinho?


ESMERALDA - Eu poderia acreditar que tu acreditas que és sincero... por uns

instantes, eu poderia...

KILROY - Tudo só existe por uns instantes. Por uns instantes... é disso que os sonhos

são feitos, Querida! E então?... Então?

ESMERALDA - Sim, então, mas sê meiguinho!.... meiguinho...

(Muito delicadamente, ele levanta uma ponta do véu. Ela emite um grito de prazer. Ele levanta

um pouco mais. Ela geme. Um pouco mais... Ele puxa-lhe o véu todo para a cara)

KILROY - Eu sou sincero.

ESMERALDA - Eu sou sincera.

KILROY - Eu sou sincero.

ESMERALDA - Eu sou sincera.

KILROY - Eu sou sincero.

ESMERALDA - Eu sou sincera.

KILROY - Eu sou sincero.

ESMERALDA - Eu sou sincera.

(Ele deita-se de costas, tirando a mão do véu. Ela abre os olhos)

Só isto?

KILROY - Estou cansado.

ESMERALDA - Já?

(Ele levanta-se e desce os degraus da alcova)

KILROY - Estou cansado e cheio de remorsos...

ESMERALDA - Oh!

KILROY - Não valeu a pena ter empenhado as minhas luvas d 'ouro para disto.

ESMERALDA - Estás com pena de ti próprio?

KILROY - Sim, estou, estou com pena de mim mesmo e de todos os que vão às filhas

das Ciganas. Tenho pena do mundo e do deus que o criou.

(senta-se)

ESMERALDA - É sempre assim, cada vez que acabam de levantar o véu. Ficam todos

tão envergonhados de se terem rebaixado e os seus corações enchem-se de mais remorsos do

que aquilo que um coração pode comportar!


KILROY - Até mesmo um coração que é tão grande quanto a cabeça de um bebé!

ESMERALDA - Tu nem sequer reparaste na cara bonita que eu tenho, pois não?

KILROY - És igual a todas as filhas de ciganas, nem melhor, nem pior. Desde que

consigas ir até Acapulco transbordas de contentamento vulgar.

ESMERALDA - Nunca na minha vida fui tão insultada!

KILROY - Oh, sim, já foste, querida. E ainda te insultarão mais se te deixares ficar

nesta profissão. Serás tão insultada que acabará por não surtir o menor efeito.

(A porta é batida com força. A Cigana abre a cortina e surge. Esmeralda faz descer

apressadamente o véu. Kilroy faz de conta que não sentiu a Cigana entrar. Ela pega numa

sineta e vem tocá-la sobre a cabeça dele)

Está bem, Mamacita! Já me dei conta da tua presença!

A CIGANA - Ah, ah! Um homem horroroso veio atrás de mim três quarteirões!

KILROY - E engataste-o.

CIGANA - Ná, o fulano escondeu-se numa passagem subterrânea. Estive quinze

minutos à espera, à porta da casa de banho dos homens, e ele nunca mais apareceu!

KILROY - Vai daí, entraste tu.

CIGANA - Não! Arranjei um marinheiro!... As ruas estão uma maravilha!... Portaram-se

como bons meninos?

(Esmeralda começa a lamuriar-se baixinho)

A gatinha divertiu-se enquanto a mãe - gata esteve fora?

KILROY - O teu sentido de humor é fenomenal, mas... e com respeito ao meu troco,

Mamacita?

CIGANA - De que troco estás tu a falar?

KILROY - Estás mal do juízo? O troco daquela nota de dez dólares que foste trocar ao

Walgreen!

CIGANA - Ohhhh...

KILROY - Oh, o quê?

CIGANA (Contando pelos dedos) - Cinco pelo trabalho, um dólar para imposto sobre o

luxo, dois para a percentagem da casa e outros dois “pour le service". Tudo contado são dez

dólares! Eu não te expliquei?


KILROY - Mas que raio de negócio é este?

CIGANA (puxando de um revólver) - É um negócio um bocado tramado!

ESMERALDA - Mama, não sejas má!

CIGANA - Meu amor, os amigos deste cavalheiro estão à espera dele do lado de lá da

porta e não me parece muito educado estar a retê-lo mais tempo! Vamos lá, pôe-te a andar....

Vamoose!

KILROY - Está bem, Mamacita! Me voy!

(Ele dirige-se à cortina de fitas, vira-se para olhar para a Cigana e a Filha. Ouve-se o apito dos

Varredores da Rua do lado de fora da porta)

Sincera? Concerteza! É o que têm de maravilhoso as filhas das ciganas!

(Sai. Esmeralda leva a ponta de um dedo indeciso a um olho e depois diz)

ESMERALDA - Vê, Mama! Vê, Mama! Uma lágrima!

CIGANA - Andas a ver demasiada televisão....

(Ela recolhe as cartas e desliga a bola de cristal. A luz extingue-se no caricato paraíso da

Cigana)

GUTMAN - Bloco Décimo - terceiro no Camino Real.

(Sai)

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BLOCO DÉCIMO - TERCEIRO

No escuro, os Varredores da Rua colocam uma barrica no centro do palco e depois

escondem-se no fosso.

(Kilroy, que entra pelo lado direito, é seguido pela luz de um projector móvel. Vê a barrica e os

ameaçadores Varredores da Rua e pôe-se a correr para a porta do "Siete Mares“e toca à

campainha. Ninguém atende. Retrocede uns passos, de maneira a poder ver a varanda e

chama)
KILROY - Senhor Gutman, arranje-me uma cama de campanha no vestíbulo. De

manhã farei todos os trabalhos sujos que quiser. Eu faço de palhaço outra vez. Farei acender o

nariz sessenta vezes por minuto. Farei todas as palhaçadas e imitarei qualquer pessoa que

atire uma moeda para o meio da rua... Tenha compaixão! Tenha só um bocadinho de

compaixão. Por favor!

(Não obtém resposta da varanda de Gutmam. Entra Jacques. Bate uma vez com a bengala no

chão)

JACQUES - Gutman! Abra a porta!... GUTMAN! GUTMAN!

(Eva, uma mulher muito bonita, aparentemente nua, assoma à varanda)

GUTMAN (De dentro) - Eva, querida, estás a expor-te!

(Surge na varanda com uma mala d e viagem)

JACQUES - O que é que está a fazer com a minha mala?

GUTMAN - Não veio buscar a sua bagagem?

JACQUES - Claro que não! Ainda não me fui embora!

GUTMAN - Pouca gente o consegue... mas é frequente que as pessoas deixem de

residir aqui.

JACQUES - Abra a porta!

GUTMAN - Abra você a carta que traz o cheque!

JACQUES - Amanhã de manhã!

GUTMAN - Esta noite!

JACQUES - Lá em cima, no meu quarto!

GUTMAN - Aí em baixo, à porta!

JACQUES - Não vou deixar que você me intimide!

GUTMAN (erguendo a mala acima da cabeça) - O quê?!

JACQUES - Espere!...

(Retira a carta do bolso)

Preciso de alguma luz aqui.

(Kilroy acende um fósforo e segura-o por cima do ombro de Jacques)

Muito obrigado. O que é que diz a carta?

GUTMAN - Envio de cheque?


KILROY (lendo a carta por cima do ombro de Jacques) - Crédito... tem de ser

cancelado...

(Gutman levanta de novo a mala)

JACQUES - Cuidado, eu tenho aí dentro....

(A mala cai com estrondo no chão. O Vagabundo assoma ao postigo ao ouvir o estrondo.

Simultaneamente, A. Ratt surge à porta do seu estabelecimento)

... frágeis.... recordações....

(Dirige-se lentamente em direcção à mala, ajoelha-se... Ao mesmo tempo, Gutman gargalha e

fecha com força a porta da varanda. Jacques vira-se para Kilroy. Sorri para o jovem

aventureiro)

... "e então, por fim ela veio, a coisa notável! “

(A. Ratt diz, no momento em que Jacques toca na mala)

A. RATT - Hei, paizinho... tenho uma vaga aqui! Uma cama no “Ritz Só Para Homens".

Um pequeno barco branco para navegar na noite perigosa.

JACQUES - Simples ou de casal?

A. RATT - Só há camas simples neste estabelecimento.

JACQUES (Para Kilroy) - Conto contigo para a partilhar.

KILROY - Ora que se lixe, nós somos amigos, podemos dormir os dois como duas

colheres encaixadas uma na outra. E se não conseguirmos dormir, pomos os lavatório de

encontro à porta e cantamos velhas cantigas populares até que rompa a madrugada!...

“Coração do meu coração, eu adoro esta melodia!“ Bem podes crer que é verdade.

(Jacques retira do bolso um lenço e começa a agarrar a pega da mala)

Parece-me que precisa de um carregador e os meus honorários são menores do que os

prescritos pelo sindicato!

(Pega na mala e começa a carregá-la em direcção ao “Ritz Só Para Homens". Pára no centro

do palco, à direita)

Desculpa, amigo! Não sou capaz! A altitude deu-me cabo aqui do relógio! E, à

distância, mais perto do que longe, começo a ouvir... o apito.... dos Varredores da Rua!

(Ouve-se o apito)

JACQUES - ANDA DAÍ!


(Pega na mala e começa a andar)

KILROY - NÃO! Esta noite!.... Prefiro!... Dormir!.... Na rua!.... Debaixo!... Das

estrelas!...

JACQUES (amigavelmente) - Compreendo-te, Irmão!

KILROY (para Jacques, à medida que este continua em direcção ao “Ritz Só Para

Homens ") - “Bon Voyage “! Espero que navegues na noite perigosa e que encontres o doce

porto dourado da manhã!

JACQUES (saindo) - Obrigado, Irmão!

KILROY - Desculpa o melindre! Sou sincero!

VAGABUNDO - Indica-me o caminho para casa!....

GUTMAN (aparecendo na varanda com um um piriquito branco) - Bloco Décimo -

quarto no Camino Real.

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BLOCO DÉCIMO - QUARTO

Quando se inicia, o Vagabundo ainda se encontra ao postigo.

(O apito dos Varredores da Rua continua, agora um pouco mais forte. Kilroy, trepa, com a

respiração pesada, até ao cimo da escadaria e fica a olhar para a "Tierra Incognita ". Nesse

momento Marguerite entra na praça pelo caminho da direita. Vem acompanhada por um

Homem Novo, que veste um “dominó ")

MARGUERITE - Não me acompanhes mais. Vou ter de acordar o porteiro da noite.

Muito obrigada por me teres protegido no caminho através da Medina.

(Ela oferece-lhe a mão. Ele agarra-a com uma força que a faz retrair-se)

Ohhhh... não sei o que é mais excitante em ti, se o teu silêncio perturbante se o teu

sorriso radioso ou....

(Ele olha fixamente para a carteira dela)

O que é que tu queres?... Oh!


(Ela começa a abrir a carteira. Ele pega na carteira. Ela sobressalta-se quando ele lhe tira

repentinamente a capa dos ombros. Depois tira-lhe o colar de pérolas do pescoço. A cada

sucessivo despojar de valores, ela estremece e recua, mas não oferece qualquer tipo de

resistência. Fecha os olhos. Ele continua a sorrir. Por fim rasga-lhe o vestido e corre as mãos

pelo corpo dela, como que a certificar-se de que ela não tem mais nenhum valor escondido.

Que mais tenho eu que tu desejes?

HOMEM NOVO (desdenhoso) - Nada.

(O Homem Novo vai-se embora, passa pela cantina, examinando o saque.

O Vagabundo assoma ao postigo, respira fundo e diz :)

VAGABUNDO - Só....

MARGUERITE (para si) - Só...

KILROY (na escadaria) - Só....

(Ouve -se o apito dos Varredores da Rua. Marguerite corre para o “Siete Mares “e toca à

campainha. Ninguém atende. Dirige-se à esplanada. Kilroy, entretanto, desceu da escadaria)

MARGUERITE - Jacques!

(Ouve-se o apito)

KILROY - Minha senhora?

MARGUERITE - O quê?

KILROY - Eu não lhe faço mal. Pode confiar em mim.

MARGUERITE - Não esperava ouvir esta música esta noite, tu esperavas?

(Apito)

KILROY - São eles, os Varredores da Rua.

MARGUERITE - Eu sei.

(Apito)

KILROY - É melhor entrar, minha senhora.

MARGUERITE - Não.

KILROY - ENTRE, VÁ!

MARGUERITE - NÂO! Quero ficar aqui fora e eu faço o que quero!

(Kilroy olha para ela pela primeira vez)


Senta-te comigo, por favor.

KILROY - Eles vêm-me buscar. A Cigana disse-me que eu estou à cabeça da lista.

Obrigado.... por me pegar... na mão.

(Ouve-se o apito)

MARGUERITE - Obrigada por me pegares na minha.

(Apito)

KILROY - Faça-me só mais um favor. Tire-me do bolso uma fotografia. Os meus dedos

estão... hirtos.

MARGUERITE - É esta?

KILROY - A minha... querida... mulher.

MARGUERITE - Uma fotografia numa moldura de prata. Ela era mesmo assim tão

bonita?

KILROY - Ela era tão bonita, bem mais bonita do que a fotografia deixa ver!

MARGUERITE - Quer isso dizer que andavas na rua quando a rua era majestosa.

KILROY - Sim... quando a rua era majestosa!

(Ouve-se o apito. Kilroy levanta-se)

MARGUERITE - Não te levantes! Não me deixes sozinha!

KILROY - Quero estar de pé quando os Varredores da Rua me vierem buscar!

MARGUERITE - Senta-te outra vez e conta-me sobre a tua rapariga.

(Ele senta-se)

KILROY - Sabe do que eu sinto mais falta? Quando se está separado... da pessoa...

com quem se viveu... e que se amou...? Do que eu mais sinto a falta é quando se acorda a

meio da noite! Com aquele... calor ao lado!

MARGUERITE - Sim, aquele calor a teu lado!

KILROY - Uma pessoa habitua-se a ele. Calor! E é o raio de uma sensação acordar

sem ele! Principalmente numa dessas espeluncas a um dólar por noite no lado escabroso da

rua. Uma botija de água quente não serve. Nem um estranho. Não servem. Tem de ser alguém

a quem estejamos habituados. E que se SAIBA que nos AMA!

(Ouve-se o apito)

Consegue vê -los?
MARGUERITE - Só te vejo a ti.

KILROY - Uma noite pus-me a olhar para a minha mulher, ela estava a dormir. Foi na

noite em que os médicos me não quiseram dar apto para mais combates... Bem... A minha

mulher estava a dormir com um sorriso de criança. Beijei-a. Ela não acordou. Peguei num lápis

e num papel. E escrevi-lhe... “adeus “!

MARGUERITE - Nessa noite ela ter-te-ia amado como nunca.

KILROY - Sim, nessa noite, mas e depois dessa noite? Oh, minha senhora... Por que é

que uma rapariga bonita haveria de ficar presa a um campeão inutilizado?.... A terra sempre a

girar e ela forçada a girar com ela, não para fora da escuridão e para a a luz, mas sim da luz

para a escuridão? Ná, ná, ná, ná! Um destroço! Acabado!

(Apito)

... Não é palavra que um homem possa olhar de frente.... e saber exactamente o que

ela significa... não há nenhuma palavra em nenhuma língua que um homem possa olhar de

frente e saber o que é que ela significa exactamente. E viver. E tomar uma atitude. E partir.

(Vira-se para os Varredores da Rua que o esperam)

Venham!... Venham!.... VENHAM DAÍ, SEUS FILHOS DA PUTA! AQUI ESTÁ KILROY!

ESTÁ PRONTO!

(Ouve-se um gongue. Kilroy balanceia o corpo em frente dos Varredores da Rua. Estes cercam-

no, fora do seu alcance. Apertam o cerco, a cada movimento que fazem. O balancear do corpo

torna-se mais frenético, como o de um boxer. Ele cai de joelhos, ainda balanceando o corpo e,

por fim, cai de cara no chão.

Os Varredores da Rua precipitam-se sobre ele, mas La Madrecita lança-se sobre o corpo para o

proteger e cobre-o com o xaile dela. O palco escurece.

MARGUERITE - Jacques!

GUTMAN (à varanda) - Bloco Décimo - quinto no Camino Real,

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BLOCO DÉCIMO - QUINTO


La Madrecita está sentada. Tem o corpo de Kilroy atravessado sobre os joelhos. Ao

fundo e ao centro, numa pequena mesa com rodas está deitada uma figura sob um lençol. Ao

lado da mesa está um Professor de Medicina que se dirige a estudantes e enfermeiros, todos

eles vestidos com equipamentos brancos de cirurgia.

PROF. MED - Eis aqui o corpo de um vagabundo não identificado.

LA MADRECITA - Eis aqui aquele que foi o teu filho, América.... agora é meu...

PROF. MED - Foi encontrado num beco, algures no Camino Real.

LA MADRECITA - Imaginem, agora, como ele era antes de a sorte lhe ter virado as

costas. Recordem-se dos seus tempos de grandeza, quando ainda não começara a definhar,

quando não tinha medo.

PROF. MED - Mais luz, por favor!

LA MADRECITA - Mais luz!

PROF. MED - Para que todos possam ver bem!

LA MADRECITA - Todos devem ver bem.

PROF. MED - Não há qualquer sinal exterior de doença.

LA MADRECITA -- Ele tinha olhos claros e o corpo de um campeão de boxe.

PROF MED - O corpo não apresenta marcas de violência.

LA MADRECITA - Ele tinha a voz suave do sul e possuía um par de luvas d'ouro.

PROF. MED - Aparentemente, a morte dele deve-se a causas naturais.

(Os estudantes tomam notas. Ouvem-se lamentos fúnebres)

LA MADRECITA - Vá, sopra, vento, lá para onde a noite termina! Ele tinha muitos

admiradores!

PROF. MED - Ninguém reclamou legalmente o corpo.

LA MADRECITA - Ele era como um planeta rodeado das luas da sua ânsia, soberbo de

juventude, um campeão dos ringues de boxe.

PROF. MED - Como nem amigos nem familiares identificaram o corpo...

LA MADRECITA - Haviam de ter visto o lindo robe com monograma, com que ele

atravessava, em grandes passadas, os corredores dos coliseus.


PROF. MED - Depois de um determinado número de dias, o corpo torna-se propriedade

do estado...

LA MADRECITA - Vá, sopra, vento, lá para onde a noite termina... porque os louros não

são eternos...

PROF. MED - E, nessa altura, é transferido para as nossas mãos pela simbólica quantia

de cinco dólares...

LA MADRECITA - Eis aquele que foi teu filho... e agora é meu.

PROF. MED - Vamos dar início à dissecação. Bisturi, por favor!

LA MADRECITA - Sopra, vento!

(Ouvem - se lamentos fúnebres nos bastidores)

Vá, sopra, vento, lá para onde a noite termina! És tu o seu dobre de finados e o

lamento por ele!

(Ouvem-se mais lamentos fúnebres)

Chorem por ele todos os aleijados, estropiados e mutilados... o seu fantasma errante é

o vosso próprio fantasma!

PROF. MED - Primeiro vamos abrir a cavidade torácica e examinar o coração, para

verificar se houve oclusão coronária.

LA MADRECITA - O coração dele era de ouro puro e tão grande com a cabeça de um

bebé.

PROF. MED - Agora fazemos uma incisão ao longo desta linha vertical.

LA MADRECITA - Ergue-te, fantasma! Vai! Vai, pássaro! “A humanidade não consegue

suportar demasiada realidade! "

(Assim que ela lhe toca com as flores, Kilroy mexe-se bruscamente e levanta-se, devagar, do

colo dela. De pé, novamente, esfrega os olhos e olha em volta)

VOZES (gritando nos bastidores) - OLÉ! OLÉ! OLÉ!

KILROY - Hei! Hei! Está aí alguém? Onde estou eu!?

(Repara na sala de dissecação e aproxima-se)

PROF. MED (retirando uma esfera cintilante do corpo do boneco) - Olhem bem para

este coração! É tão grande como a cabeça de um bebé!

KILROY - O meu coração!


PROF. MED - Lavem-no para que possamos procurar lesões patológicas.

KILROY - É verdade, é o meu coração!

GUTMAN - Bloco Décimo - sexto!

(Kilroy pára mesmo junto à área de dissecação, no momento em que um estudante pega no

coração e o mergulha numa bacia sobre uma bancada ao lado da mesa. O estudante emite um

grito súbito e ergue ao alto uma esfera de ouro cintilante)

PROF. MED - Vejam! Este coração é de ouro puro!

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BLOCO DÉCIMO - SEXTO

KILROY (avançando precipitadamente) - Isso é meu, seus filhos da mãe!

(Tira a esfera dourada das mãos do Professor de Medicina. A autópsia continua, como se nada

se tivesse passado. O projector sobre a mesa escurece, mas para Kilroy começa uma uma

fantasmagórica perseguição, uma reencenação, como que em sonho, da perseguição que teve

lugar no final do Bloco Sexto. Gutman grita da sua varanda)

GUTMAN - Pára, ladrão, pára, cadáver! Esse coração de ouro é propriedade do

Estado. Apanhem-no, apanhem aquele ladrão do coração de ouro!

(Cambaleando, Kilroy salta do palco, mete por um dos corredores do teatro. Ouve-se o som de

uma sirene ; o ar enche-se de apelos e assobios, rugir de motores, guinchar de pneus, tiros de

pistola, passadas retumbantes. A escuridão da sala é cruzada por raios de luz que o procuram -

mas não se vêem quaisquer perseguidores)

KILROY (correndo, arfando, pelo corredor) - Este coração é meu! Não pertence a

Estado nenhum, nem mesmo aos Estados Unidos da América! Por onde é a saída? Onde fica a

estação das camionetas Greyhound? Ninguém vai enfiar o meu coração num frasco de museu

e cobrar entradas para financiar a merda da polícia! Onde estão eles? Onde é que se

meteram? Por onde vêm? Hei, há alguém que me ajude a sair daqui?! Por onde é que eu... por

onde é que eu saio?! Saio?! Saio?! Saio?! Saio?!

(Chegou aos camarotes)


Tchiii! Estou perdido! Não sei onde me encontro. Estou completamente baralhado,

estou confuso, não compreendo... o que... se passou, parece um sonho... é exactamente como

um... sonho... Maria, mãe de deus! Oh! Maria, mãe de deus! Maria!

(Entra no camarote de onde saltou no Bloco Primeiro. A luz clara de um projector cai sobre ele.

Olha para cima, para ela, implorando)

Maria, mãe de deus, ajuda este cristão! Ajuda este cristão, Maria, mãe de deus!...

parece um sonho...

(Esmeralda surge, num robe de noite infantil, ao lado da sua cama coberta por um mosquiteiro,

no telhado da loja da Cigana. A mãe surge com uma chávena contendo uma bebida sedativa e

pôe-se a bichanar)

CIGANA - Caminha, adeus, adeus, caminha, adeus, adeus, querida! São horas de

dormir, cá no sul e lá no norte também, e também no ocidente e no oriente.

KILROY (baixinho) - Sim, é como um sonho...

(Ele debruça-se sobre o parapeito do camarote, segurando o seu coração como se se tratasse

de uma bola de futebol americano, e observa Esmeralda)

CIGANA - Bebe o teu Ovaltine, meu amorzinho, que depois o João Pestana vem aí em

bicos de pés e traz com ele um saco cheio de sonhos.

ESMERALDA - Quero sonhar com o Herói Escolhido, Mamã.

CIGANA - Com qual deles, o que vem a seguir ou aquele que já se foi embora?

ESMERALDA - Com o único, Kilroy! Ele era sincero!

KILROY - É verdade! Fui sincero por um instante!

CIGANA - Como é que sabes que ele era sincero?

ESMERALDA - Ele disse que era sincero.

KILROY - É verdade. Fui sincero!

CIGANA - Quando é que ele disse isso?

ESMERALDA - Quando me levantou o véu.

CIGANA - Querida, os homens são sempre sinceros quando estão a levantar o teu

véu... é apenas um desses reflexos naturais que não têm o menor significado.

KILROY (à parte) - Que velha e cínica cabra é esta mamã cigana!


CIGANA - E depois vêm aí muitas e muitas “fiestas “para tu ires, minha bonequinha, e

muitos e muitos heróis escolhidos virão para levantar o teu véu, quando a Mamacita e a Ama

não estiverem por perto.

ESMERALDA - Não, Mãezinha, nunca mais, a sério!

CIGANA - Acaba de beber o teu Ovaltine e diz as tuas orações antes de dormires.

(Esmeralda beberica e estende a chávena)

KILROY (com a voz embargada) - Em tempos eu tive uma mulher a sério e não posso

voltar para ela e agora encontrei outra.

(Salta do camarote para o palco)

ESMERALDA (ajoelhando-se) - Agora que me vou deitar, peço a deus para a minha

alma guardar. Se eu morrer antes de acordar, peço a deus para a minha alma levar.

CIGANA - Deus abençoe a Mãezinha.

ESMERALDA - E a bola de cristal e as folhas de chá.

KILROY - PSSST!

ESMERALDA - O que foi isto?

CIGANA - Algum gato vadio na praça.

ESMERALDA - Deus abençoe todos os gatos vadios da praça esta noite.

KILROY - Amen!

(Cai de joelhos na praça vazia)

ESMERALDA - Deus abençoe todos os temerários, carteiristas e homens duros que

vendem os seus corações pelas ruas, todos os falhados sem remissão que vão mais uma vez

falhar, a cortesã que cometeu o erro do amor, o maior dos amantes, coroado com o maior par

de cornos, o poeta que se afastou para longe do verde país do seu coração e que talvez

consiga e que talvez não consiga encontrar o caminho de regresso, deus tenha compaixão e

um sorriso esta noite para com os últimos cavaleiros, envergando as armaduras ferrugentas e

as plumas brancas amarfanhadas e que apareça com simpatia e quase ternura a essas lendas

que estão a desaparecer e que vão e voltam a esta praça, como canções de que já não nos

lembramos bem, oh, fazei com que, um dia, em qualquer lugar, exista algo que dê à palavra

“honra ", de novo, um sentido!


QUIXOTE (com voz rouca, mas alta, agitando-se por entre os seus andrajos

repugnantes) - Amen.

KILROY - Amen -

CIGANA - Pronto, já chega.

ESMERALDA - E, oh, meu deus, deixai-me sonhar esta noite com o Herói Escolhido!

CIGANA - Pronto, agora dorme. Voa para bem longe no tapete mágico dos sonhos!

(Esmeralda deita-se sob o mosquiteiro. A Cigana desce do telhado)

KILROY - Esmeralda! Minha ciganinha adorada!

ESMERALDA - Sai daqui, gato.

(A luz por detrás da rede esbate-se gradualmente)

KILROY - Não é nenhum gato. Sou eu, o Herói Escolhido da grande “Fiesta ". Kilroy, o

campeão das luvas d'ouro, com o seu coração de ouro arrancado do peito e nas minhas mãos

para to oferecer!

ESMERALDA - Vai-te embora. Deixa-me sonhar com o Herói escolhido.

KILROY - Mas que coisa! Confundido com um gato! O que posso eu fazer para

convencer esta boneca de que sou de carne e osso?

(As três bolas de metal piscam, rebrilham)

Parece que uma nova transacção se torna aconselhável!

(Corre para a loja de penhores. De imediato, a entrada ilumina-se)

O meu coração é de ouro. O que me dá por ele?

(Jóias, peles, robes com lantejoulas são - lhe atirados aos pés. Ele atira o seu coração ao

prestamista, como se fosse uma bola de basquetebol, pega no molho e corre de novo para loja

da Cigana)

Boneca! Olha-me para tudo isto. Dei o meu coração em troca!

ESMERALDA - Vai-te embora, gato!

(Ela adormece. Kilroy bate com um punho na testa, depois corre à porta da loja da Cigana e

bate nela com ambos os punhos. A porta abre-se totalmente e o conteúdo abjecto de um

grande balde é-lhe atirado para cima. Ele cai de costas, arfando, cuspindo, quase vomitando.

Afasta-se e, por fim, assume uma pose exagerada de desespero)


KILROY - Escravizado, espoliado e tatuado no Camino Real! E, por fim, baptizado com

o conteúdo de um balde de despejos. Quem é que disse que o negócio era tramado?

(Quixote caminha de encontro à fachada do lado escabroso da rua, puxa o vómito, cospe e

cambaleia)

GUTMAN - Ora o velho cavaleiro acordou, o sonho dele acabou!

QUIXOTE (para Kilroy) - Olá! Aquilo é uma fonte?

KILROY - Sim, mas...

QUIXOTE - Tenho a boca cheia de penas velhas de galinha...

(Aproxima-se da fonte. Ela começa a jorrar água. Kilroy recua, perplexo, e o velho cavaleiro

enxagua a boca e bebe, depois tira o colete para se lavar, estendendo os andrajos a KIlroy)

QUIXOTE (lavando-se) - Que pasa, mi amigo?

KILROY - O negócio é tramado. Está a perceber?

QUIXOTE - Quem melhor do que eu saberá o que é um negócio tramado?

(Tira uma escova de dentes e escova os dentes)

Queres um conselho?

KILROY - Irmão, neste passo do Camino Real aceito seja o que for que me ofereçam!

QUIXOTE - Não... tenhas... pena... de ti mesmo!

(Tira um espelho de bolso e penteia a barba e o bigode)

As feridas da vaidade, as muitas ofensas que os nossos egos têm de suportar - pois

vivem em corpos que envelhecem e em corações que se vão cansando - aceitam-se melhor

com um sorriso tolerante. Como este! Estás a ver?

(Fende a cara num enorme arreganho de dentes)

GUTMAN - Projector móvel sobre a cara do velho cavaleiro!

QUIXOTE - Se não for assim, uma pessoa torna-se num saco cheio de leite coalhado -

leche mala, chamamos-lhe nós - que não tem atractivos para ninguém e muito menos para o

próprio!

(Entrega o pente e o espelho de bolso a Kilroy)

Tu tens algum plano?

KILROY (algo hesitante, com ansiedade) - Bem, eu tenho andado a pensar em... sair...

daqui!
QUIXOTE - Muito bem. Vem comigo.

KILROY (para o público) - Sacana de velho maluco. (para o cavaleiro) Donde?

QUIXOTE (dirigindo-se à escadaria) - Quien sabe?

(A fonte jorra agora de forma doce e audível. As Pessoas da Rua dirigem-se a ela com

murmúrios de admiração. Marguerite surge na esplanada)

KILROY - Hei, há...

QUIXOTE - Shhh! Ouve!

(Páram na escadaria)

MARGUERITE - Abdullah!

(Gutman desce até à esplanada)

GUTMAN - Mademoiselle, permita que lhe dê um recado. Seria de mau gosto se eu

não tivesse um qualquer desempenho no final do espectáculo.

(Atravessa a praça em direcção à fachada oposta e chama “Casanova! “por baixo do postigo

do “Ritz Só Para Homens ".

Entretanto, Kilroy risca o verbo “está “na frase inscrita na velha muralha e corrige para

"esteve aqui ")

Casanova! Grande Amante e Rei dos Cornudos no Camino Real. A última das suas

damas garantiu o pagamento das suas dívidas e espera-o para o pequeno almoço na

esplanada!

(Casanova espreita primeiro pelo postigo da espelunca, depois aparece à porta decrépita,

macilentto, barba por fazer, a roupa amarrotada, mas mantendo-se erecto como de costume.

Pestaneja e olha ferozmente para a luz brilhante da manhã. Marguerite não lhe pode retribuir o

olhar, desvia a cara com uma expressão angustiada, mas ao mesmo tempo estende na

direcção dele uma mão suplicante. Depois de alguma hesitação, ele dirige-se para ela, batendo

no chão com a bengala a uma cadência regular, olhando uma só vez para o público com um

sorriso forçado, o qual permite perceber que esta situação seria embaraçosa para um homem

mais vaidoso do que Casanaova agora é.

Quando chega junto de Marguerite, ela estende os dedos para a mão dele, pega-lhe

com um gritinho, leva-a de forma espasmódica aos lábios, enquanto ele a envolve num abraço

e olha por cima da cabeça dela, soluçante, de cabelos pintados de doirado. Olha com o olhar
fixo, sereno e toldado de alguém que se encontra mortalmente enfermo e a quem o efeito de

um narcótico se sobrepõe à dor.

Quixote ergue a sua lança num gesto formal e grita, rouca mas poderosamente, da

escadaria)

QUIXOTE - As violetas das montanhas fenderam as rochas!

(Quixote sai pelo arco com Kilroy)

GUTMAN (para o público) - Foi dita a deixa para descer o pano!

(Para os lados, nos bastidores)

Façam-no descer!

(Faz uma vénia com a graciosidade de um homem gordo e O PANO CAI)

ANTÓNIO HENRIQUE CONDE, PORTALEGRE JULHO - AGOSTO 95