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CARNOT E A EVOLUGAO DAS MAQUINAS TERMICAS Borisas Cimbleris Escola de Engenharia da UFMG RESUMO ~ € geralmente accita a opiniéo de que as “Réflexions” nao tiveram quase nenhuma influéncia desde a sua publicagio até a sua redescoberta por Thomson em 1847, Entretanto, novas pesquisas mostraram que durante ¢steintervalo realmente houve influéocia sobre os engenheiros franceses, que projetaram ¢ construiram maduinas “de fogo” inspirados nas idéias de Carnot (Maquinas de pouco sucesso, é bem verdade). Cammot no concepts penetrar é na comunidade académica, devido ao seu estilo €& novidade das idéias, expostas fora do modelo nate- ‘mético aceto na época, Segundo a idéia geralmente adotada, Carmot_ a vapor na Inglaterra, ento a principal rival foi um fenémeno singular, tendo criado uma politica e econémica da Franca, Camot pensou ‘Termodinamica original “antes do tempo" ¢ — em termos de patriota e de técnico. As primeiras que permaneceu ignorada pelos contemporé- paginas das Réflexions constituem uma introdu. eos. Teriam sido necessérios 23 anos para a _¢o popular ao momento hist6rico atual no que sua redescoberta por Thomson em 1847, quan- _conceme ao uso da energia e a0 uso inevitével do entio 0 meio intelectual europeu jé estava do onipresente calor capaz de ser transformado pronto para assimilar as idéias de Camot. Na em movimento: a forca motriz do “fogo”. Fogo verdade, germinagdo destas sementes foi con- _€ palavra-chave na obra de Carnot, tendo um ‘inua, conforme ficou aparente nas pesquisas sentido muito amplo. Possivelmente, 0 Obvio mais recentes, poder mecénico das armas de fogo néo deixou Limitar-nos-emos aqui a um aspecto apenas de influenciar a terminologia de Carnot, tal co- da estrutura epistemolégica de Carnot, a saber, mo jé havia acontecido com Huygens e Watt. ‘no que conceme as méquinas térmicas em geral, ‘Camot se propée a obter os principios ge- € nlio quanto as origens da Termodindmica clés- rais de uma méquina a fogo, aplicéveis "nso sica. Camot foi um elo importante na transigo apenas a méquinas a vapor mas também a das mdquinas a vapor para as méquinas ‘de quaisquer méquinas a fogo (““machines & feu" Combusto externa (“de ar quente"), e, mais = méquinas térmicas), qualquer que seja a remotamente, as de combustio interna substincia operante e 9 seu método de opera- © aparecimento de Carnot também foi sig- 0” (Ibid., p. 37-94), Nao € nossa intengio nificative como uma convergéncia da Hist6ria repassar aqui 0 cerrado raciocinio de Camot, da Ciéncia com a Ciéncia da Tecnologia, por- algo que jé foi superabundantemente {feito por quanto o seu discurso € quase sempre o de en- _numerosos autores, inclusive por mim mesmo". genheiro, ¢, conforme veremos, as primeiras re- _O nosso propésito é demonstrar que Camot foi ercuss6es do seu livro (CARNOT, 1824) fo- _ um elo na cadeia hist6rica do desenvolvimento Tam entre os inventores de méquinas’. das méquinas térmicas, e que a sua influéncia exerceu-se a princ{pio através dos estratos infe- A motivacio e o programa de Carnot Tiores da cultura técnica da sua 6poca. Para tanto € ttl ever a hist6ria anterior a ele. Cénscio da necessidade de progresso mate- rial, notadamente do uso da energia, e impres- sionado pela revolucéo realizada pela méquina 2 Sobre 9 uso doar quente, ver (CARNOT, 1824, p. 1A enumeraao dis diversas edges deste livrade 118 pégi-.” 105°T16), nas ¢ das suas tradugdesocupariaespagoexcessivo, A'edi- 3, Veja-e, por exemplo, para ums andi rigorosa(talver ex- 0 original j&extava esgotaa em 1886, Ao leitorineres- _ ceivainentecomplicady Truesdell & Whee ON. Sado recomeadamossedieSo critica organizada «coments Para urna exposigo simples, Cimblris (1967), ‘Gipor Robert For (ARNOT. 1973), Revista da SBHC, n. 6, p. 39-45, 1991 39 Borisas Cimbleris A histéria das méquinas térmicas antes de Carnot Embora a partir da descoberta do fogo te- nha se desenvolvido uma tecnologia do. calor inteiramente satisfat6ria, cla parece ter sido criada por artesos anénimos. Quando os clés- sicos, como por exemplo Lucrécio, falam do calor, € na qualidade de fendmeno natural, mas num 'contexto filos6fico e nunca uitilitério. ‘Quando Heron constr6i dispositivos funcionais, precursores das méquinas térmicas atuais, € na qualidade de brinquedos mégicos destinados a espantar 0 vulgo. ‘Aparentemente, 0 primeiro vislumbre do uso mectinico do calor vem com 0 uso da pélvo- ie as armas de fogo (se mio levarmos em conta 0 uso militar dos foguetes na China). No séeulo XVII Descartes adianta a concepcso di- nimica dos elementos da natureza (DESCAR- TES, 1896, v. 9, p. 66) € proclama a funco cognitive das artes térmicas. Eis uma perspecti- va maquinista, transmitida a Mersenne © a Huygens. Este, que & fil6sofo menor do que Descartes, mas certamente um maior fisico, & 2 favor da prética esclarecida pelo conhecimento de prinefpios teGricos. A pronta aco da pélvora levou-o a conceber uma méquina de levanta- mento baseada na explosio. Nisto ele pensa desde 1660" e constréi em 1673 (HUYGENS, 1950, v. 22, p. 240-42), tosca embora, mas qUe funciona. Huygens é to encantado com ela que cchega a sonhar com uma méquina voadora as- sim propelida (e que € 0 foguete de propelente s6lido?). Papin aprende com Huygens, mas quando chega a construir a sua méquina ela se baseia na ago do vapor - a marmita (1688) ~ e, incidentalmente, temos a descrigo do primeiro ciclo de vapor, também o mais simples: retan- gular no plano pV (PAPIN, 1668, p. 500). Hautefeuille methora a méquina de Huy- ‘gens em 1682; uma versio original € o “moulin 2 feu" de Amontons, 1699 (AMONTONS, 1702, p. 112-26). Entretanto, 0 aparecimento da méquina a vapor de Newcomen em 1712, real- mente prética, relega a linha de desenvolvi- mento das méquinas de explosio interna a um episSdio histérico. O principal obstéculo a0 progresso das méquinas a pélvora € a tecnolo- fia disponfvel. Uma arma de fogo nao tem par- HUYGENS, 1950, v.22, p. $40. Anotago em seu dirio 0s [3dedesembro do 1666. Revista da SBHC, n. 6, p. 39-45, 1991 tes méveis a nfio ser o projétil, na parte subme- tida ao calor. A mfquina a vapor atmosférica, funcionando a temperaturas ¢ pressées modestas € realizével. Cabe mencionar ainda, na linha das mfquinas de explosio interna antiga, a de Montgolfier (1936)® ¢ a de Niepce (1807). A primeira, inspirada no arfete hidréulico (atual “camneiro”) inventado pelo préprio Montgol- fier, foi descrita num “pli cacheté” depositado em 1784 — aberto unicamente em 1936. Conhe- cimento técnico s6 conta quando € comunicado e demonstrado. A méquina de Niepce, 0 ¢x- traordinério_“pyroélophore” — (CLERGET, 1925a, b), foi construida e chegou a propelir tum barco. O que deve ter impedido 0 seu uso ulterior 6.0 emprego de pé de licopédio como ‘combustfvel — a primeira e nica méquina assim abastecida, A sua importincia pode ter sido 0 ter servido de inspirago. Em primeiro lugar, a Sadi Carnot, por ter sido o seu pai um dos re- latores oficiais da miquina dos Niepce. Em se- ‘gundo, porque o motor concebido por Diesel ~ ‘0 “motor térmico racional”” — deveria ser opera- do a p6 de carvao, ¢ a inspiragdo de Diesel foi confessamente 0 livro de Camot (DIESEL, 1983, p. 102-4, 411)6. "A répida evolucéo ¢ dominio total da mé- quina a vapor nos prim6rdios da Revoluco In~ dustrial relegou os outros tipos de méquina tér- mica a um segundo plano, H& menclo das mé- quinas de ar quente de Street (1794) e de Rivaz (1807), precedidas pela turbina de Barber (1791), ¢ da mfquina j& mencionada de Mont- golfier. Um marco importante € a patente de Lebon (1801), em que 0 inventor do gas de car- vo © propés como combustfvel motor; mas ele foi assassinado antes de ter tido tempo de cons- truir um motor funcional’. E a méquina de ar quente de Cayley, proposta em 1807. De todas ‘as méquinas anteriores a Camot, a melhor con- cebida teoricamente € a de Stirling (1816)%, a primeira de uma série que culmina em 1843 com uma méquina comercial na Escécia. Cariot ‘no menciona a méquina de Stirling, provavel- mente pela fatha de informagko devida a0 esta- do de guerra entre os respectivos pafses. Entre- tanto, © ciclo de Stirling € um dos protstipos & Também exo 4, Ver PAYEN, 1964, 196. A Nio se conervoo 9 texto dos cursos. A iti sobre as mf {nas termicae fo consign em urn "pli cachet Siado na Aeademia de Cléncias de Parisaos 3 de janie de 816 e aberto nor nosos dias, conforme Redondi (1980) Camot ¢ o desenvolvimento das méquinas térmicas simples de ciclo reversfvel, equivalente a0 de ‘Carnot. Uma confirmacao da viabilidade pratica do ciclo de Stirling com a tecnologia moderna esté em que ele € utilizado em motores solares equenos e, no ciclo inverso, na criogenia. A idéia de uma m&quina térmica geral ndo & criagBo de Camot. Hachette (1811, p. xix) des- reve as fontes de poténcia motriz do fogo de forma abrangente no seu tratylo; Monge tam bbém o faz no artigo da Encyclopédie, escrito em 1789, mas publicado em 1819. Mas o ciclo de Carnot 6 original e serve de padrio a todos 0 outros até hoje. ‘A méquina de Carnot nfo € realizével prati- camente em qualquer das formas concebivei ‘nem a gés, nem a vapor, nem com a tecnologia do século XIX, nem com a atual. A andlise das ‘causas ocuparia espaco excessivo, Mas 0 pro prio Carnot é clarividente neste ponto, dizendo que “as tentativas de chegar a este resultado se- iam mais prejudiciais do que dteis, se outras consideragdes importantes fossem "despreza- das”. Ele’ quer dizer que além do rendimento térmico hé que satisfazer as condigbes de segu- ranga, durabilidade, solidez, espago minimo custo. Tudo isto € perieitamente vélido hoje possivelmente o seré sempre. Duas influéncias imediatas de ‘contempordneos E inegavel a influéncia de Clément no pen- samento de Camot. Ele tratou? da teoria geral da producéo da poténcia motriz pelo fogo nos seus cursos no Conservatoire des Aris et Mé- tiers em Paris, curso este assistid por Camot antes de 1824. HE poucas dividas de que tenham se co- nhecido na ‘época da gestagho das Réflexions (LERVIG, 1977). Clément escreveu sobre uma teoria geral da produc da poténcia motriz (e- nergia mecinica) pelo fogo (energia térmica) em opisculo inédito depositado em 1816 em forma de “pli cacheté” téo do gosto francés (envelope aberto apenas em 1936). Ele mencio- nna o fato de que muitas tentativas foram feitas; mas “infelizmente 0 sucesso de tais tentativas 9° No 6 conservou o texto dos cursos. Adi sobre as mé= ‘quinastrmicas fo! consigmada em umn pl cachet” depo Sido na Academia de Ceneias de Paris ane fan. 18160 aberto nos nosos dias, conforme Redondi (1980). Nota do Eddior: As nous dos cursos de Clement foram recente publicadas ‘por Philip Lervig, B/MS. v.18, pe 1d Toss, iar, 4 foi apenas imagingrio, ¢ com a excegio dos ca- ‘hes nfo existe uma méquina a expansio do ar que tenha resistido & prova do tempo: sio todas uumas invengées indteis” (CLEMENT, apud CABANES, 1936).” Outra influencia inegével 6 a de Pett (1818), cujo trabalho € mencionado numa nota de pé de pagina, mas descartado como imper- feito, Petit compra as variagdes de volume do vapor d’égua e do ar e conelui que 0 trabalho produzido € umas quatro vezes maior no aso do ar. Entretanto, apesar de ter realizado ine portantes experimentos com Dulong sobre 0 as- Sunto, Petit admitia uma variagéo incorreta do calor especifico com a temperatura e um valor errado do calor latente de vaporizagao da Sgua, conforme foi apontado por Navier (1821). © ambiente intelectual na época da Publicagao das Réflexions Era pouco prov4vel que 0s fisicos parisien- ses ficassem impressionados pelo livro de Car- not, dado 0 paradigma cientffico dominante na época (no sentido de Kuhn)!0, © outro fator foi © estilo adotado, destoante do estilo clissico da Fisica, exemplificado, por exemplo por Lapla- ce, Poisson, Fourier, Navier. Além disso, ape- sar do valor cientffico de Camot pai, e da atu: ‘s80 proeminente deste na Académie des Scien- Ces, 0 filho néo tinha acesso & Academia, ared- ago méximo da ciéncia da época. Nao é de admirar, portanto, que apesar de ter sido 0 livro de Carnot mencionado em uma sesso da Aca- demia, no despertou interesse algum na oca- sido, € mesmo depois. ‘A audiéncia possfvel de Carnot eram os en- genheiros e os técnicos (que hoje dirfamos “de grau médio”). Havia na 6poca os extremos edu- cacionais na Franca, dos “‘mécaniciens autodi dactes” © dos “‘ingénieurs” alunos da Ecole Polytechnique, de formagio ampla e abrangen- te, Isto antes de 1800; com a criagéo do Con- 10, No i podepos farm um paradigm de Cro, i ue paradigma € um conceitocoetivo, que se forma pe Comunidade cientficalentamente, até que se obtenba um ‘ongto. Es ints € una momen “cals Feate do paradigms newtoniano-laplaciano da poca, Pingando os pontos bisicos, a idas origins de Carnot ‘Sor miquina wrmica cfc encaada Je un ponto de ‘ita global: valor maior doe “grau superiore do calor co"; fendimento ligado A fongdo de Carnot Fe = 171), Sere di rari cal eerie ‘on recupeabildade das condigdes inleais. A Enfate dos ‘cadémicos como Poison © Fourier & sobre as condi IMicrosedpicas, Muxo de calor, equapSer diferencias do “movimento do calor”; procestos, mas no cicos. Revista da SBHC, n. 6, p. 39-44, 1991