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Literatura Infantojuvenil AULA 1

Girlene Marques Formiga

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Contextualização da
literatura infantojuvenil
na história

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Conhecer o processo histórico-cultural do surgimento da infância


e da juventude;
„„ Conhecer o panorama histórico da literatura infantojuvenil,
compreendendo as primeiras manifestações de leitura que despertam
o interesse das crianças e dos jovens;
„„ Compreender que a concepção acerca da categoria Literatura
infantil e juvenil pode determinar certas práticas pedagógicas no
cotidiano escolar.
Contextualização da literatura infantojuvenil na história

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Caríssimo graduando de Letras.

Ao longo deste Curso, foram apresentados conhecimentos, discussões, instrumental


de análise e sugestões de abordagens de textos que certamente contribuíram
para a construção de ideias sobre literatura e práticas efetivas na mediação da
leitura. Neste componente curricular, trataremos de forma mais evidenciada a
literatura sobre a égide de leitores específicos: as crianças e os adolescentes,
de modo a discutir, dentre outras, as seguintes questões: quais as origens da
literatura infantil? Como se concebe esse gênero? Como se deu a sua produção
e circulação? Quais os autores e obras mais representativas? Qual o lugar desse
gênero no universo escolar em tempos de debate por especialistas da educação
sobre a criação de dispositivos legais relativos à responsabilidade educacional
pedagógica?

Para acompanhar essas reflexões apresentadas por várias mãos, convidamos você
a adentrar essas aulas que julgamos relevantes para a formação de professores,
mediadores de leitura. Antes, porém, de nos aprofundarmos nesses estudos,
voltar-nos-emos, nesta aula que inaugura o componente curricular Literatura
Infantojuvenil, para o panorama histórico da literatura voltada ao público infantil e
juvenil. A partir desse passeio pelo tempo, esperamos que você possa compreender
melhor a situação histórico-social-educativa atual de uma das áreas editoriais
que mais tem se desenvolvido nas últimas décadas em nosso país. De posse
desse conhecimento, esperamos que o graduando de Letras possa relacionar
investimentos, políticas de governo e ações da sociedade voltadas ao fomento à
leitura e ao acesso aos bens culturais, de modo a trabalharmos na construção de
caminhos que nos levem a melhores indicadores de leitura entre os nossos jovens.
Vamos, então, iniciar a viagem pelos caminhos da infância e dos jovens leitores?

3 TECENDO CONHECIMENTO

Em entrevista concedida ao jornal Zero Hora no Caderno Cultura, Roger Chartier


(RAVAZOLLO, 2007, p. 7), um dos principais estudiosos contemporâneos dedicados
a pensar a história do livro e da leitura, defende a ideia de que “para compreender
o presente, é preciso não se isolar”. Para o historiador francês, por serem as
sociedades e os indivíduos entes históricos, não é possível apreender suas
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configurações específicas a não ser que sejam inscritas nos tempos múltiplos
que as construíram. Nessa perspectiva, retomaremos na história a literatura para
crianças e jovens, debruçando sobre o passado para melhor compreender, nos
dias de hoje, a prática da leitura voltada para essa faixa etária.

3.1 “A descoberta da infância”

No componente curricular Introdução aos Estudos Literários, foram apresentados


vários conceitos de literatura, concebidos a partir de um momento histórico e
cultural, o que significa que o termo ainda pode receber nova concepção. De
maneira semelhante, o conceito atribuído atualmente à criança e ao jovem não é
o mesmo de todos os tempos. Na contemporaneidade, verifica-se que essa faixa
etária vem ganhando espaço no âmbito do atendimento às suas singularidades
inerentes à idade, que inclui uma estrutura social, formada pela Família, Escola
e Igreja, até um marco legal e regulatório. Instituído pela Lei nº 8.069/90, que
regulamenta os direitos fundamentais à pessoa em desenvolvimento, inspirada
pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança
e do Adolescente dispõe sobre a proteção integral à criança – considerada  a
pessoa com idade inferior a doze anos – e ao adolescente – aquela entre doze
e dezoito anos de idade.

Tendo em vista as transformações, nos papéis e estatutos sociais, designadas à


pessoa em desenvolvimento, vários pesquisadores vêm apontando concepções
sobre os modos de ser da infância ao longo da história. Norbert Elias (1994), por
exemplo, demonstra, em seus estudos, que a infância é uma construção cultural,
já que essa fase é configurada por meio de processos culturais. Já as pesquisas
realizadas por Foucault (1987; 2001) discutem como funcionam as relações de
poder na perspectiva do discurso proferido para e sobre a infância. Além desses
autores que dão visibilidade às novas formas de compreender a infância na
sociedade atual, é importante destacar o pioneirismo de Philippe Ariès (1981),
que, utilizando-se da pesquisa historiográfica por meio da iconografia clássica na
Idade Média e na sociedade Moderna, discorreu sobre a história social da criança
e da família. Em seus registros sobre “a descoberta da infância”, o historiador
francês Ariès (1981, p. 51) afirma que “até por volta do século XII, a arte medieval
desconhecia a infância ou não tentava representá-la”. Para ele, essa ausência não
se devia à incompetência ou à falta de habilidade, mas provavelmente ao fato
de não haver lugar para a infância nesse mundo.
O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição
pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade
infantil, essa particularidade que distingue essencialmente
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Contextualização da literatura infantojuvenil na história

a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não


existia. Por essa razão, assim que a criança tinha condições de
viver sem a solicitude constante de sua mãe ou de sua ama,
ela ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia
mais destes. (ARIÈS, 1981, p. 157).

O ingresso da criança na escola significava a sua inserção imediata no mundo


dos adultos. No que se refere à “vida escolástica”, Ariès (1981) discorre que
geralmente os alunos iniciavam sua vida escolar com cerca de 10 anos, mas seus
contemporâneos, jovens e adultos, se misturavam ao auditório, pois não havia
uma palavra para designar o adulto, e as pessoas passavam sem transição de
jovens a velhos. Embora muito comum ver, na escola medieval, todas as idades
confundidas no mesmo auditório, a ausência de referências à idade ainda pode
ser constatada no século XVII.

Estudos recentes apresentados por Kuhlmann Jr. (2004) contrariam esse


posicionamento, sob a alegação de que a seleção das fontes pesquisadas por Ariès
– livros de arte – tem função a priori estética e não informativa ou documental.
A esse respeito, convém ressaltar que, embora reconheçamos a importância
de estudos sobre o assunto abordados por diferentes vozes, a perspectiva
iconográfica produzida por Ariès se apresenta como uma relevante fonte de
conhecimento na análise e concepção da infância. Logo, o perfil traçado pelo
pesquisador francês acerca das características da infância, do comportamento
no meio social na época e de suas relações com a vida escolástica e familiar
revela uma maneira de seguir rastros históricos de práticas sociais e de objetos
culturais de uma determinada época.

Você notou quão importante é problematizar conceitos tradicionais e conhecer


o surgimento da infância e da juventude, a fim de entendermos o processo
histórico de visibilidade dessas fases? A partir dessa compreensão, é possível
criarmos mecanismos de intervenção que atendam às particularidades dessa
faixa etária hoje, inclusive no que se refere à leitura de textos que lhe faça sentido.

Pensada a categoria nesse contexto, agora vamos nos certificar de que as


informações, até então apresentadas, foram absorvidas e o conhecimento
elaborado com vistas à sua aplicabilidade.

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Exercitando

1) Com base no posicionamento de Philippe Ariès sobre a invisibilidade/


indiferença com que eram tratadas as crianças em um determinado momento
da história, quais são as transformações dos sentimentos e atitudes em
relação à infância nos dias de hoje?

2) De que maneira o Estado, a Família e a Escola têm contribuído para reforçar


o sentimento de infância no sentido de dar visibilidade às crianças em
relação ao atendimento de suas singularidades?

3.2 Literatura para crianças e jovens leitores1: origem e


concepção

Datada dos fins do século XVII e início do século XVIII, a literatura infantil pode
ser considerada um gênero moderno. Essa marcação cronológica, no entanto,
possui algumas falhas, se não levarmos em conta os aspectos técnico-formais.
Nessa compreensão, se considerarmos esse gênero de uma forma mais ampla,
expressando as aspirações, a cultura de um povo, veremos que a literatura infantil
é anterior aos livros, à imprensa ou a qualquer documento escrito, uma vez que
ela está profundamente ligada às raízes da literatura popular, transmitida pela
oralidade.

Em se tratando dessa abordagem, ressaltamos, em especial, a contribuição de


Leonardo Arroyo (2011), que, ao discorrer sobre a literatura infantil brasileira,
apresenta um profundo conhecimento das bases fundamentais da nossa cultura,
desde o período colonial até 1966, data em que o estudioso deu por fim seu
exaustivo trabalho pessoal de pesquisa, conforme confessa no prefácio do livro,
publicado um ano depois. Seu inventário crítico, por meio de uma perspectiva
periodológica sobre toda uma produção literária brasileira de uma época, nos
permitiu seguir os vestígios de textos literários, contribuindo para traçar uma
história da leitura no Brasil. Ao optar pela concepção mais ampla da literatura
infantil, o crítico faz uma síntese cronológica de suas origens e evolução em suas
representações mais importantes, desde as fontes orientais e gregas, antes de
Cristo, e difundidas no ocidente europeu durante a Idade Média, com a tradição
oral (que serviu de fonte para a criação da literatura infantil), até Monteiro Lobato.

1 Parte das informações relativas às origens da literatura para crianças e jovens leitores foi extraída
de: FORMIGA, Girlene Marques. Uma leitura da criança, do leitor e da escola em As Aventuras de
Pinóquio e Cuore. Dissertação (Mestrado em Letras) - UFPB/CCHLA, 2004.
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Contextualização da literatura infantojuvenil na história

Segundo a ótica dos maiores especialistas europeus e americanos, porém, a


literatura infantil só se inclui enquanto categoria literária apenas no final do
século XVII. Data dessa época o aparecimento do livro infantil, porém suas raízes,
conforme vistas, são bem mais antigas. Arroyo ainda acrescenta que, nesse período,
Fénelon, em Traité de l’Éducation des Filles, lançou novos princípios de educação,
cuja proposta era diversificar as leituras dos pupilos. Um exemplo é o Duque de
Borgonha, a quem oferecia livros profanos, inspirados na mitologia, nas lendas
da Antiguidade ou na tradição popular, passando para o plano secundário os
livros piedosos de vidas de santos ou de personagens das sagradas escrituras,
únicas leituras permitidas para as crianças da época. A intenção de Fénelon era
proporcionar a esse público uma leitura adequada a sua estrutura mental e ao
seu interesse intelectual, com trabalhos que se propunham instruir divertindo,
como As Fábulas e As Aventuras de Telêmaco. Esse último desafiou os preconceitos
da época e foi o livro mais lido na França até o século XIX, conforme apontam
algumas pesquisas.

Até então não havia leitura específica para a criança porque nessa fase não havia
ainda uma caracterização particular da infância. As crianças eram consideradas
homens e mulheres em tamanho reduzido; logo, insignificantes enquanto tais. Se
tomarmos como referência a “descoberta da infância” acompanhada na história
da arte e na iconografia por Ariès (1981, p. 65), verificamos que, embora tenha
se iniciado no século XIII, tendo sua evolução nos séculos XV e XVI, “os sinais de
seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significantes
a partir do fim do século XVI e durante o século XVII”.

Observe que, mesmo não existindo leitura especialmente para crianças, havia
leitores mirins que se apropriavam do que era ofertado e liam os textos feitos
para todas as pessoas capazes de os lerem, não necessariamente os adultos,
como já foram registrados exemplos apoiados na Antiguidade Clássica ou em
narrativas transmitidas oralmente entre o povo. Essa apropriação era natural, já
que as idades se misturavam e todos compartilhavam das mesmas atividades;
mesmo os livros sendo feitos para adultos, alguns caíam no gosto das crianças
e até hoje são considerados clássicos no gênero da literatura infantil.

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Vamos conhecer alguns exemplos de obras que foram englobadas como literatura
infantil e apropriadas a essa faixa etária?

Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4

Temos as Fábulas, de La Fontaine, inspiradas na obra do grego Esopo (século VI


a.C.); a produção de Fénelon e os contos de Charles Perrault no século XVII; e os
primeiros modelos de romances modernos: Robinson Crusoe, de Daniel Defoe,
e As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, no século XVIII. Sobre esses dois
romances ingleses, Coelho (1985, p. 89) afirma:
Mais uma vez se comprova o mistério ou a arbitrariedade que
regem o destino dos livros: ambos os títulos, originalmente
escritos para adultos e alimentados por um espírito crítico,
senão cruel e cético, pelo menos descrente do gênero humano,
transformaram-se, como o tempo e as “adaptações”, em duas
das mais importantes obras da Literatura Infanto-Juvenil de
todo o mundo.

Escolher entre as mais diversas opiniões para marcar a criação da obra infantil
não parece ser o mais importante. Sabe-se que o século XVII foi primordial para
a literatura infantil assim como sua evolução no século XVIII, e mais fortemente
ainda no século XIX, considerado como o de afirmação na literatura infantil. Datam
dessa época obras como os contos dos irmãos Grimm e os de Hans Christian
Andersen e os romances Alice no país das maravilhas, de Charles Lutwidge
Dodgson, pseudônimo de Lewis Carrol, Peter Pan, de James Matthew Barrie, e
As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi – todas essas produções destinadas
aos leitores infantojuvenis.

Até a Idade Média, a educação infantil atendia aos moldes da educação adulta.
Com os tempos modernos, surge a sua especificidade com a intenção de preparar
os pequenos para a sociedade letrada e competitiva que se instalava. Foi nesse
período que a literatura infantil se converteu em uso escolar, desviando sua
função estética para se estender aos propósitos pedagógicos da escola. A
esse respeito, Soares (1999) afirma que, no processo de transferência do livro
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Contextualização da literatura infantojuvenil na história

de literatura infantil para o livro escolar, o texto literário deixa de ser um texto
para emocionar, divertir e dar prazer para se tornar um texto a ser estudado.
Aguiar (1999) também corrobora tal afirmação quando discorre que o pecado
original da literatura infantil foi ter nascido comprometida com a educação, em
detrimento da arte.

Embora a “democratização” da leitura tenha ocorrido de forma mais significativa


no século XVIII, quando foi ampliada a quantidade de leitura disponível para
um público mais amplo, o auge da literatura infantil aconteceu no século XIX,
época de surgimento de novos gêneros de leitura. Conforme Darnton (1990, p.
156), “depois de 1800, viram-se inundados por novos tipos de livros – romances,
jornais, variedades frescas e alegres de literatura infantil – e liam-nos avidamente,
descartando um tão logo encontravam outro”.

A imprensa destinada à criança contribuiu de forma significativa em todo o


processo de formação e desenvolvimento da literatura infantil, numa época em
que praticamente a literatura oral exercia grande influência na meninada como
instrumento de diversão e instrução. A primeira manifestação desse gênero surgiu
em língua inglesa com o periódico The Lilliputian Magazine (1751-1752), criado
por John Newberry. A partir dele, expandiu-se, em todo o mundo, a imprensa
para criança e foi dentro desse mercado tão procurado pelo novo público que
nasceram muitas obras da literatura infantil.

Observe que o termo literatura infantil persiste em aparecer muito mais nas
discussões desta aula do que literatura infantojuvenil. Para tal procedimento,
arriscamos uma explicação. Pode representar o discurso teórico, crítico e
historiográfico que se tem produzido no país sobre esse gênero. Além do citado
na seção anterior – Literatura Infantil Brasileira, de Leonardo Arroyo –, veja alguns
títulos de livros que discutem a temática: Problemas da literatura infantil, de
Cecília Meireles; Literatura Infantil: teoria, análise, didática, de Nelly Novaes Coelho;
Literatura Infantil na escola e Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura
infantil brasileira: histórias, autores e textos, de Regina Zilberman; Literatura infantil
brasileira: História & Histórias, de Regina Zilberman e Marisa Lajolo; A escolarização
da leitura literária: o jogo do livro infantil, de A. Aracy Evangelista et al.; O texto
sedutor na literatura infantil, de Edmir Perroti; O que é literatura infantil, de Lígia
Cademartori; Literatura infantil - Gostosuras e bobice, de Fanny Abramovich; e
Crítica, Teoria e Literatura Infantil, de Peter Hunt.

Independentemente do adjetivo que acompanha a palavra literatura, encontramos


nessas pesquisas rastros e traços dos leitores juvenis. É certo que, no mercado
brasileiro, algumas produções teóricas sobre o gênero já lhe estende o adjetivo
infantojuvenil. Além disso, com o crescimento de componentes curriculares que
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AULA 1

abordam o assunto nos cursos de graduação, de pós-graduação e de formação


continuada, a produção possivelmente tende a aumentar.

E por falar dos termos que denominam o objeto de estudo deste componente
curricular, tomemos a definição de Hunt (2010), para quem, no lugar de literatura
infantil, o termo mais adequado fosse “textos para criança”, com admissão de
sentidos mais flexíveis para as três palavras. O crítico britânico, no prefácio à
edição brasileira, intitulado “Redefinindo a literatura infantil”, assegura:
Embora seja possível fazer algumas generalizações sobre
como uma cultura ou sociedade constroem a criança – e
como as editoras fizeram e fazem suposições (provavelmente
autorrealizadoras) –, “a criança” é um conceito infinitamente
variado, de uma casa para outra, e de um dia para outro.
Ao falar sobre livros para criança, algumas generalizações
devem ser feitas, ou a linguagem se torna incontrolável,
porém não se pode esquecer o fato de que o conceito de
criança é um problema sempre presente para a crítica da
literatura infantil. (HUNT, 2010, p. 291).

O conceito instável para a infância, adotado por Hunt, trava uma estreita ligação
com a relativização da categoria “literatura”, defendida por Eagleton (2003). Este
defende, sob uma ótica do aspecto da socialidade e historicidade, que é ilusória a
dedução de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem
definida. Tal raciocínio, feito a partir da definição de literatura “como uma escrita
altamente valorativa, de que ela não constitui uma entidade estável, resulta do
fato de serem notoriamente variáveis os juízos de valor”. A fim de exemplificar
essa postura, o crítico informa que uma obra pode ser considerada como filosofia
num século e como literatura num outro, ou vice-versa, como também pode
variar o conceito do público sobre o tipo de escrita considerado como digno de
valor, e até podem se modificar as razões que determinam a formação do critério
de “valor”. Seguindo o mesmo posicionamento de Eagleton, Hunt (2010, p. 90)
defende que a literatura “é o que escolhemos fazer dela. A literatura infantil é
um conceito inevitável, sem parentesco com outros tipos de literatura, embora
possa sobrepor-se a eles”.

Desse modo, seguindo as palavras de Hunt, se a infância não é hoje (“se é que
alguma vez foi”) um conceito estável, por que esperar que a literatura definida
por ela seja estável?

As informações aqui apresentadas constituem tão somente um breve panorama


sobre as primeiras manifestações de leitura literária que despertaram o interesse
das crianças e dos jovens ao longo da história, mas você pode ampliar o seu
conhecimento no assunto, aproveitando as sugestões de títulos que elencamos
nesta aula.
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Contextualização da literatura infantojuvenil na história

Exercitando
1) Hunt (2010, p. 43), ao responder ao seu próprio questionamento sobre
“por que estudar a literatura infantil”, assegura: “porque é importante e
divertido. Os livros para criança têm – e tiveram – grande influência social
e educacional; são importantes tanto em termos políticos como comerciais.
São discretamente reconhecidos como um ‘tipo’ de texto em diversos países
do mundo desde meados do século XVIII (embora alguns críticos considerem
datas anteriores a essa)”. E para você, por que estudar a literatura infantil?

2) Ainda com base em Hunt, considerando a definição desse autor para


literatura infantil, posicione-se acerca dessa concepção.

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO


Para aprofundar o seu conhecimento acerca das questões tratadas nesta aula,
confira as dicas de leitura.

ARROYO, Leonardo. Literatura Infantil


Brasileira. 3. ed. São Paulo: Unesp, 2011.

Lançado originalmente em 1968 por Leonardo


Arroyo, este é um livro referencial para o
estudo da Literatura infantil do país. Ele é
agora relançado, após algum tempo fora
de marcado, justamente por sua relevância
e por representar um marco no estudo da
área. Os textos contidos na obra são de suma
importância para compreender a formação
Figura 5
do leitor e do papel das histórias infantis
na educação.

Além de ser um documento histórico, que remonta às origens desta


categoria de escrita no Brasil, indo da literatura produzida na época de
D. João VI até a obra de Monteiro Lobato, a obra serve como um extenso
objeto de estudo e pesquisa. Imprescindível por seu conteúdo, poucos
autores foram capazes de elaborar um trabalho tão completo sobre o tema.

Disponível em:
àà http://www.editoraunesp.com.br/catalogo/9788539300945,literatura-infantil-brasileira.
Acesso em: 5 set. 2015.
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AULA 1

COELHO, Nelly Novaes. Panorama histórico


da Literatura Infantil/Juvenil – das origens
indo-europeias ao Brasil contemporâneo. São
Paulo: Manole, 2010.

Neste Panorama Histórico da Literatura Infantil/


Juvenil, procurou-se rastrear a gênese e a
evolução da Literatura Infantil, desde suas
origens populares indo-europeias até o
Brasil contemporâneo, com a preocupação
principalmente em relação aos dados histórico-
culturais que, direta ou indiretamente, atuaram
(ou atuam) na criação literária (destinada às
crianças ou aos adultos) influindo na escolha
e no tratamento de seus temas, assuntos,
Figura 6
problemáticas, linguagem, estilo, estrutura
narrativa, etc.

Disponível em:
àà http://www.manole.com.br/panorama-historico-
da-literatura-infantil-juvenil-pr-4787-183996.
htm. Acesso em: 5 set. 2015.

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Como vimos, as origens da literatura infantil, as discussões em torno desse gênero,


sua produção, circulação e configuração no meio escolar são assuntos instigantes
que têm demandado muitos estudos e envolvimento de grandes pesquisadores.
Compreender o surgimento e o desenvolvimento desse gênero como processo
historicamente construído é fator relevante para compreendermos o seu “lugar”
no contexto de sala de aula e pode nos auxiliar no trabalho docente. O enfoque
inicial, voltado à infância como construção social, traz à lume a percepção de que
é importante conhecermos o processo histórico do surgimento do conceito de
infância com vistas a situar também historicamente a literatura infantojuvenil,
que, em sentido amplo, teria surgido antes dos processos impressos, dado o seu
caráter oral. Somente a partir do final do século XVII, como vimos, a literatura
infantil obtém status literário. A demarcação do que seja ou não literatura
21
Contextualização da literatura infantojuvenil na história

infantojuvenil é, até hoje, no entanto, terreno movediço, se considerarmos


sobretudo a instabilidade em que está envolto o próprio conceito de infância.
Indefinições à parte, cabe a nós, profissionais das Letras, estarmos sempre atentos
à leitura literária que desperta o interesse das crianças e dos jovens no intuito
de promovermos, a partir da nossa prática docente, uma boa prática leitora
junto a esse público.

6 AUTOAVALIANDO

Feitas as discussões que inauguram o componente curricular Literatura


Infantojuvenil, reflita sobre os seguintes questionamentos:

a) Consigo reconhecer a importância de estudar a literatura infantojuvenil


para a minha formação docente?
b) Consigo apreender o panorama histórico no qual surgiram as
manifestações de leitura literária que despertaram o interesse das
crianças e dos jovens ao longo da história?
c) Conhecendo o panorama histórico da literatura voltada ao público
infantojuvenil e a concepção dessa categoria, posso compreender
melhor a condição hoje do leitor, de modo a adotar práticas leitoras
que lhe atraiam?

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AULA 1

REFERÊNCIAS

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al. A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil. Belo Horizonte:
Autêntica, 1999.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman.


2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. 3. ed. São Paulo: Unesp, 2011.

BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponível em: <http://www.


planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm>. Acesso em: 30 ago. 2015.

COELHO, Nelly Novaes. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil. 3.


ed. São Paulo: Quíron, 1985.

DARNTON, Robert. Primeiros passos para uma história da leitura. In: O beijo de
Lamourett. Mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. Trad. Waltensir Dutra.


São Paulo: Martins Fontes, 2003.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

FORMIGA, Girlene Marques. Uma leitura da criança, do leitor e da escola em


As Aventuras de Pinóquio e Cuore. Dissertação (Mestrado em Letras) – UFPB/
CCHLA, 2004.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 7. ed. Trad. Laura Fraga de A. Sampaio.


São Paulo: Edições Loyola, 2001.

______. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Trad. Ligia M. Pondé
Vassallo. RJ: Petrópolis, Vozes, 1987.

HUNT, Peter. Crítica, teoria e literatura infantil. Tradução de Cid Knipel. São
Paulo: Cosacnaify, 2010.

KUHLMANN JÚNIOR, Moysés. Infância e educação infantil: uma abordagem


histórica. 2. ed. Porto Alegre: Mediação, 2004.

RAVAZOLLO, Ângela. A história em busca de uma nova objetividade científica.


Zero Hora. Porto Alegre, 19 mai. 2007. Caderno Cultura, p. 6-7. (Entrevista com
Roger Chartier).

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Contextualização da literatura infantojuvenil na história

SOARES, Magda. A escolarização da literatura infantil e juvenil. In: EVANGELISTA,


Aracy A. et al. A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil. Belo
Horizonte: Autêntica, 1999.

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