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Vera da Silva Telles

A cidade nas fronteiras do


legal e ilegal

O presente trabalho foi realizado


com o apoio da CAPES, entidade
do Governo Brasileiro voltada para
a formação de recursos humanos.

ARGVMENTVM
Belo Horizonte
2010
Introdução

São Paulo, como outras tantas grandes cidades do planeta, apresenta um


cenário no qual ganham forma e evidência tangível as transformações que, nas
últimas décadas, afetaram Estado, economia e sociedade. Em seus espaços e
artefatos estão cifrados os modos de circulação e distribuição da riqueza (desi-
guais, mais do que nunca), as mutações do trabalho e das formas de emprego
(e as legiões de sobrantes do mercado de trabalho), a revolução tecnológica e
os serviços de ponta (e as fortalezas globalizadas da cidade), os grandes equi-
pamentos de consumo e os circuitos de ampliados do mercado (e a privatização
de espaços e serviços urbanos). Acompanhando tudo isso, a economia informal,
desde sempre presente na cidade (e no país) expande-se por meio de novas arti-
culações entre a tradicional economia de sobrevivência, os mercados locais, que
se espalham pelas regiões, mesmo as mais distantes da cidade, e os circuitos
globalizados da economia. Trata-se aqui de novas conexões e de uma escala de
redefinições inteiramente em fase com o mundo globalizado, que redesenham
espaços e territórios urbanos nas trilhas de redes de subcontratação que chegam
aos pontos extremos das periferias pelas vias de uma meada inextricável de in-
termediários e intermediações que reativam o trabalho a domicílio e redefinem
o chamado trabalho autônomo, ao mesmo tempo em que os mercados locais são,
também eles, redefinidos na junção das circunstâncias da chamada economia
popular com máfias locais e comércio clandestino de bens lícitos ou ilícitos de
procedência variada. Se é verdade que a cidade oferece todos os ingredientes
que alimentam os discursos e o imaginário da “cidade global”, com seus artefatos
sempre presentes e sempre iguais em todas as grandes metrópoles do planeta,
também é verdade que a vida social é atravessada por um universo crescente de
ilegalismos que passa pelos circuitos da expansiva economia (e cidade) informal,
o chamado comércio de bens ilícitos e o tráfico de drogas (e seus fluxos globa-
lizados), com suas sabidas (e mal conhecidas) capilaridades nas redes sociais e
nas práticas urbanas.
É nesse cenário contrastado que crescem a pobreza, o desemprego e a pre-
cariedade urbana. Também a violência, quer dizer, a morte violenta, “morte
matada”, como se diz em linguagem popular. Em termos técnicos, na lingua-
gem jurídica e policial: homicídios. E a tragédia concentra-se nas periferias
da cidade. Não é o caso de falar de números e cifras. Por ora, basta dizer que
os pesquisadores acostumados a comparações internacionais não hesitam em
dizer que, ao longo dos anos 1990, as cifras chegaram a patamares equivalen-
tes aos de regiões ou países em situação de guerra civil ou conflagração letal.
Mas, como bem sabemos, todo cuidado é pouco quando de trata de lidar com
as proximidades da pobreza e da violência, sobretudo nesses tempos em que
nossa velha e persistente, nunca superada, criminalização da pobreza vem sendo

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reatualizada sob formas renovadas, algumas sutis, outras nem tanto, na maior
parte dos casos aberta e declarada. Esse é um terreno minado, carregado de
pressuposições e lugares-comuns que estabelecem a equação fácil e rápida entre
pobreza, desemprego, exclusão, criminalidade e morte violenta, equação que
alimenta a obsessão securitária que, também ela, compõe o cenário urbano
atual, da mesma forma como alimenta os dispositivos gestionários que mobilizam
representantes políticos, operadores sociais, voluntários, agentes comunitários
e também a pesquisa acadêmica.
O fato é que não é coisa simples entender o que acontece por esse lado da cidade
de São Paulo (não só nela), pois também aqui, no lado pobre (e expansivo) dessas
recomposições, o mundo social está também muito alterado. Ponto e contraponto de
uma mesma realidade, os capitais globalizados transbordam as fortalezas globais
concentradas no moderníssimo e riquíssimo quadrante sudoeste da cidade, fazem
expandir os circuitos do consumo de bens materiais e simbólicos que atingem os
mercados de consumo popular. Mesmo nas regiões mais distantes da cidade, os
circuitos do mercado e os grandes equipamentos de consumo compõem a paisagem
urbana. São fluxos socioeconômicos poderosos que redesenham os espaços urba-
nos, redefinem as dinâmicas locais, redistribuem bloqueios e possibilidades, criam
novas clivagens e afetam a economia doméstica, provocando mudanças importantes
nas dinâmicas familiares, nas formas de sociabilidade e redes sociais, nas práticas
urbanas e seus circuitos. Por outro lado, ao mesmo tempo e no mesmo passo em
que ganhou forma a versão brasileira das “metamorfoses da questão social”, os pro-
gramas sociais se multiplicaram pelas periferias afora e em torno deles proliferam
associações ditas comunitárias que tratam de se converter à lógica gestionária do
chamado empreendedorismo social, se credenciar como “parceiras” dos poderes
públicos locais e disputar recursos em fundações privadas (e a chamada filantropia
empresarial) e agências multilaterais, isso em interação com miríades de práticas
associativas e ao lado dos movimentos de moradia e suas articulações políticas,
partidos e seus agenciamentos locais, igrejas evangélicas (também proliferantes)
e suas comunidades de fiéis e, claro, a quase onipresença de ONGs vinculadas a
circuitos e redes de natureza diversa e extensão variada. É aí que se vê delinear
um mundo social perpassado por toda sorte de ambivalências, entre formas velhas
e novas de clientelismo e reinvenções políticas, convergências e disputas, práticas
solidárias e acertos (ou desacertos) com máfias locais e o tráfico de drogas. É um
feixe de mediações em escalas variadas que desenham um mundo social a anos-
luz das imagens de desolação das periferias de trinta anos. Seria mesmo possível
fazer um longo inventário de microcenas desses territórios atravessados por lógicas
e circuitos que transbordam, por tudo e por todos os lados, as fronteiras do que
é tomado com muita frequência por “universo da pobreza”. Tudo ao contrário do
que é muitas vezes sugerido pelos estudos sobre a pobreza urbana. E, sobretudo,
inteiramente ao revés das figurações – construídas pelas políticas ditas de inserção
social – de uma pobreza encapsulada em suas “comunidades” de referência e nas
carências da vida.

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Se as evidências são tangíveis, nem por isso é coisa simples decifrar a di-
nâmica dessas transformações. É bem verdade que o ponto de clivagem das
novas realidades urbanas em relação às décadas passadas já foi vasculhado por
uma extensa agenda de estudos urbanos. Em sintonia com debates então em
curso em várias regiões e países do planeta, a pauta dos debates contemplou as
relações entre cidade e os fluxos globalizados do capital, produção do espaço e
financeirização da economia, reconfigurações espaciais e segregação urbana,
economia urbana e a nova geografia da pobreza, reestruturação econômica e
vulnerabilidade social. As pesquisas multiplicaram-se sob diversas abordagens
teóricas, diferentes procedimentos e escalas de observação, várias medidas da
cidade e seus problemas. No entanto, ainda pouco se sabe sobre o modo os pro-
cessos em curso redefinem a dinâmica societária, a ordem das relações sociais
e suas hierarquias, as mediações sociais e o jogo dos atores, as práticas urbanas
e os usos da cidade. Vistas por esse lado, as realidades urbanas apresentam – e
ainda apresentam – desafios consideráveis. As referências gerais sobre emprego
e desemprego, sobre transformações socialdemográficas e formas de segregação
urbana esclarecem pouco sobre configurações societárias que fizeram emba-
ralhar as clivagens sociais e espaciais próprias da “cidade fordista” com suas
polaridades bem demarcadas entre centro e periferia, entre trabalho e moradia,
entre mercado formal e mercado informal.
Seria quase trivial dizer que está tudo muito alterado em relação às déca-
das anteriores. O que antes foi dito e escrito sobre a cidade e seus problemas,
a “questão urbana”, parece ter sido esvaziado de sua capacidade descritiva e
potência crítica em um mundo que fez revirar de alto a baixo a solo social das
questões então em debate. Foi sob esse prisma que, no capítulo I, “A cidade
e suas questões”, foi revisitado o debate que corria nos anos 1980. Não como
documento de uma época que já se foi e que pode, quando muito, interessar ao
inventário bibliográfico ou revisão histórica exigidos pelos protocolos acadêmicos.
Ao contrário, o feixe de referências e coordenadas que pautavam esse debate pode
ajudar a refletir sobre a diferença dos tempos. As relações entre cidade, trabalho
e Estado (e a questão nacional) definiam as coordenadas de um debate que fazia
do urbano um ponto de condensação de um conjunto de questões que falavam
do país, de sua história e suas destinações possíveis. A cidade – a cidade como
questão – aparecia como cifra pela qual o país era tematizado e em torno dela
organizava-se um jogo de referências que dava sentido às polêmicas, debates e
embates sobre a história, percursos e destinações possíveis da sociedade brasi-
leira. Trabalho e reprodução social, classes e conflito social, contradições urbanas
e Estado eram noções (e pares conceituais) que se articulavam e se compunham
em proposições formuladas nas pesquisas e ensaios que tratavam da moradia
popular e reprodução do capital, entre desigualdades urbanas e relações de
classe, entre migração e pobreza urbana, entre reprodução social e Estado.
Modos de descrever e figurar a ordem das coisas, que era também um modo de
identificar e nomear seus campos de força e horizontes de possíveis.

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Na virada dos tempos (década de 1990), o espaço conceitual (e crítico) em
que essas referências circulavam foi desativado, talvez tragado pele vórtice de
transformações que fizeram cortar os nexos que articulavam esses pares concei-
tuais, que trouxeram questões que escapavam por todos os lados desses feixes
de referência e que fizeram erodir ou encolher os horizontes de possíveis que
alimentavam as apostas políticas que pulsavam em todo esse debate. Isso que
se convencionou chamar de desregulação neoliberal em tempos de globalização,
financeirização da economia e revolução tecnológica fez por desestabilizar as
referências e parâmetros pelos quais pensar a cidade (e o país) e suas questões,
ao mesmo tempo em que as realidades urbanas modificavam-se em ritmo muito
acelerado. Se as conexões que antes articulavam trabalho, cidade e política foram
desfeitas é como se, depois, cada um desses termos passasse a polarizar outros
feixes de questões e compor outras relações que escapam do espaço conceitual
no qual o debate dos anos 1980 se processava. É desse ponto de clivagem que
partimos. Se antes a questão urbana era definida sob a perspectiva (e promessa)
do progresso, da mudança social e do desenvolvimento (anos 60/70) e, depois,
da construção democrática e da universalização dos direitos (anos 80), agora
os horizontes estão mais encolhidos, o debate é em grande parte conjugado no
presente imediato das urgências do momento, o problemas urbanos tendem a
deslizar e a se confundir com os problemas da gestão urbana e a pesquisa social
parece em grande parte pautada pelos imperativos de um pragmatismo gestionário
das políticas sociais voltadas às versões brasileiras dos quartiers difficiles.
É essa diferença dos tempos que lança a interrogação quanto ao plano de
referência a partir do qual descrever e colocar em perspectiva (e sob perspectiva
crítica) a nossa complicação atual. Este o duplo desafio: a construção de parâ-
metros críticos implica ao mesmo tempo a construção de parâmetros descritivos
para colocar em perspectiva realidades urbanas em mutação. Esta a questão que
se tentou enfrentar ao longo deste livro.
Entre as tipificações (ficções?) das chamadas “populações em situação de
risco” e as análises gerais, o outro lado dos debates atuais, sobre economia urbana
e a “cidade global”, há todo um entramado social que resta a conhecer, que não
cabe em modelos polares de análise pautados pelas noções de dualização social,
que escapa às categorias utilizadas para a caracterização da pobreza urbana e
que transborda por todos os lados do perímetro estreito dos “pontos críticos”
de vulnerabilidade social identificados por indicadores sociais. As tramas da
cidade: este, o foco da pesquisa que esteve na origem deste livro.
A pesquisa beneficiou-se de um programa de cooperação franco-brasileira
(IRD-CNPq) e é grandemente devedora da parceria de Robert Cabanes (IRD),
que se lançou no trabalho de campo junto com uma equipe de jovens pesqui-
sadores, todos eles alunos de graduação e pós-graduandos do Departamento
de Sociologia da Universidade de São Paulo. Essa pesquisa resultou em uma
publicação coletiva (Telles & Cabanes, 2006). Alguns de seus capítulos foram
retrabalhados e incorporados na primeira parte deste livro (capítulos 1, 2 e 3).

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Quanto ao mais, tudo o que aqui será apresentado alimenta-se desse empreen-
dimento de pesquisa, não apenas do que foi exposto nessa publicação conjunta,
mas também ou sobretudo dos desdobramentos dessa pesquisa levados a efeito
por esse coletivo de jovens pesquisadores cujas questões e achados de pesquisa
foram, tanto quanto as minhas próprias, sempre e isso desde o início, discutidas
conjuntamente.
Lançada em 2001, essa foi uma pesquisa movida por essa interrogação ao
mesmo tempo empírica e teórica lançada pelos desafios postos pela virada dos
tempos – um trabalho de investigação que, no seu próprio andamento, fosse
capaz de fornecer os elementos para se construir o plano de referência a partir
do qual colocar em perspectiva essas realidades urbanas redefinidas no curso
dos últimos anos.
Optamos por um percurso exploratório. À distância de explicações gerais
sobre a “cidade e sua crise” e também de categorias prévias ou tipificações dos
pobres urbanos e excluídos do mercado de trabalho, tentamos ler essas mudanças
a partir das trajetórias urbanas de indivíduos e suas famílias. É sob esse prisma
que tentamos conhecer algo das tramas sociais que configuram espaços urbanos.
A pesquisa está longe de oferecer um panorama geral da cidade e suas transfor-
mações recentes, e nem foi esse o objetivo. Mas nem por isso essas trajetórias
podem ser tomadas como ilustração ou demonstração de algo já sabido e dito como
exclusão social ou segregação urbana. No curso de suas vidas, indivíduos e suas
famílias atravessam espaços sociais diversos, transitam entre códigos diferentes,
seus percursos passam através de diversas fronteiras e são esses traçados que
podem nos informar sobre a tessitura do mundo urbano, seus bloqueios e seus
pontos de tensão, mas também os campos de gravitação da experiência urbana
nesse cenário tão modificado. Entre os deslocamentos espaciais e expedientes
mobilizados para o acesso à moradia, os percursos do trabalho e suas inflexões
recentes, os agenciamentos da vida cotidiana e os circuitos que articulam moradia
e a cidade, seus espaços e serviços, essas trajetórias são pontuadas por situações
que podem ser vistas como pontos de condensação de práticas, mediações e
mediadores nos quais estão cifrados os processos em curso.
É um outro modo de interrogar essas realidades, que não parte de definições
prévias e muitas vezes modelares de exclusão social, de segregação urbana
ou de pobreza e que, no mais das vezes, deixam escapar a rede de relações e
práticas que conformam um espaço social. Ao seguir os traçados dos percursos
urbanos de indivíduos e suas famílias, é a própria cidade que vai se perfi lando.
Não como contexto dado, geral e homogêneo, em função do qual situar “casos”
e explicá-los em suas determinações. São múltiplos os perfis da cidade que vão
se delineando nos contextos variados nos quais se inscrevem os atores e o jogo
tenso (e por vezes confl itivo) de suas relações. Situadas em seus contextos de
referência e nos territórios traçados pelos percursos individuais e coletivos, essas
trajetórias operam como prismas pelos quais o mundo urbano vai ganhando forma
em suas diferentes modulações. São elas, essas trajetórias, que nos orientaram

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nessa prospecção de realidades em mutação, abrindo-se a novas questões e novas
interrogações que se colocam no andamento dessa “construção exploratória do
objeto” de que fala Bernard Lepetit (1996).
A perspectiva descritiva que as trajetórias urbanas propiciam é questão tratada
no capítulo dois, que leva justamente este título, “Perspectivas descritivas”. Uma
descrição da cidade, seguindo as trilhas das trajetórias urbanas. Um modo de
descrever o urbano colocando em foco a trama das mediações e conexões que
articulam e ao mesmo tempo transbordam campos de práticas nas suas formas
estabelecidas (trabalho, moradia, consumo e serviços, etc.), estabelecendo zonas
de contiguidade e criando passagens onde não se esperava que acontecessem. Não
contextos ou circunstâncias de localização, mas algo que é constitutivo de situações
que traçam o seu próprio território feito de práticas, circuitos de deslocamentos,
zonas de contiguidade e conexões com outros pontos de referência que conformam
o social nas suas fronteiras ou limiares, bloqueios e possibilidades.
No seu conjunto, na contraposição entre histórias e percursos diversos, são
as modulações da cidade (e história urbana) que vão se perfi lando nas diferentes
configurações de espaço-tempo traçadas por essas histórias. Como pode ser visto
no capítulo três, “Deslocamentos: percursos e experiência urbana”, os diferentes
perfis da cidade podem se projetar a partir de um mesmo local ou de uma mesma
família. E é isso que nos pode oferecer uma chave para apreender as dinâmicas
urbanas que definem as condições de acesso à cidade e seus espaços, a trama
dos atores, as modalidades de apropriação dos espaços e seus recursos. É jus-
tamente nessas tramas da cidade que se aloja a complicação atual e que será
preciso, por isso mesmo, auscultar. É nessas tramas que os lances da vida são
jogados, é aí que se processam as exclusões, as fraturas, os bloqueios. Também
as capturas na hoje extensa e multifacetada malha de ilegalismos que perpassam
a cidade inteira e que operam, também elas, nas dobras do legal-ilegal, como
outras tantas formas de junção e conjugação da trama social. Aí também os elos
perdidos da política, tragados que foram pelo princípio gestionário que trata das
“pontas”, da dita governança econômica e, de outro lado, da gestão do social e
administração de suas urgências. No meio, isto é, em tudo o que importa, não
existe o vazio que expressões como a de exclusão social podem sugerir, porém
os fios que tecem a tapeçaria do mundo social, as tramas da cidade e nas quais
estão em jogo os sentidos da vida e das formas de vida.
Menos uma tese, mais uma experimentação. É assim que eu definiria o que
o leitor vai encontrar ao longo destas páginas. Mais interessante do que apre-
sentar as conclusões (se é que existem), o que importa são os percursos pelos
quais se tentou armar um campo de investigação, as questões que surgiram e as
perguntas que, no andamento desse trabalho, redirecionaram a pesquisa, tanto
quanto os parâmetros teóricos para lidar com as questões que se impuseram
nesse percurso de prospecção dos mundos urbanos.
Mas, então, talvez seja o caso de explicitar o que aqui se entende por expe-
rimentação e prospecção dos mundos urbanos. Que se diga, desde logo: não

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se trata de um trabalho prévio, as preliminares, fase preparatória do que quer
que seja e que venha se apresentar, depois, como principal ou conclusivo. É
um modo de produção de conhecimento. E uma escolha que deriva, em grande
medida, do viés pelo qual se tentou apreender as linhas de força que atravessam
e conformam os mundos urbanos: seguir as mobilidades urbanas, perseguir os
traços das trajetórias de homens e mulheres nos espaços da cidade.
Mobilidades urbanas: como bem nota Jacques Brun (1993), as relações entre
cidade e mobilidade – de mercadorias, de capitais, de informações, de ideias,
de comportamentos e sobretudo de pessoas – é um tema clássico nos estudos
sobre o urbano. Desde os fundadores da Escola de Chicago, seguindo linha-
gens teóricas diversas e sob abordagens também diferenciadas, as mobilidades
urbanas e os deslocamentos espaciais, ocupacionais e habitacionais foram to-
mados e assim pesquisados como cifra para o entendimento das transformações
urbanas, de suas linhas de ruptura e de fratura, mas também de recomposições
e convergências, processos multifacetados por onde diferenciações sociais vão
se desenhando, ganhando forma e materialidade nos espaços das cidades pes-
quisadas (cf. Grafmayer, 1995; Grafmayer e Joseph, 1979). No correr dos anos
1990, a questão ganhou um renovado interesse no contexto de transformações
urbanas que se seguiam em ritmo acelerado, alterando tempos e espaços da
experiência social, redefinindo escalas de distância e proximidade, alterando
práticas sociais e seus circuitos, modalidades de acesso à cidade e seus espaços.
O estudo das mobilidades urbana foi relançado como perspectiva que prometia
superar muitas das limitações da noções, categorias e parâmetros estabelecidos
para medir e caracterizar a segregação urbana, já que transbordados por uma
complexidade inédita das realidades que estavam a exigir abordagens aptas a
captar movimentos e deslocamentos, práticas e jogos redefinidos de atores que
desfaziam os parâmetros conhecidos da “cidade fordista” com seus espaços,
tempos e ritmos definidos nas binaridades bem estabelecidas entre trabalho
e moradia, centro e periferia, produção e reprodução (cf. Brun, 1993; Levy e
Dureau, 2002, Bonnet & Desjeux, 2000).
Mais recentemente, os processos de globalização colocaram a questão da
mobilidade no centro de um empreendimento ao mesmo tempo teórico e empírico
para dar conta das transformações que reviraram de alto a baixo as cidades (e
sociedades). Não por acaso, a noção (ou metáfora, em alguns casos) de fluxos
vem sendo mobilizada para caracterizar essa intensa e ampla mobilidade de
capitais, mercadorias e trabalho, informações e imagens, tecnologias e técnicas
(Lasch & Urry, 1994; Hannerz, 1996; Appadurai, 1996; Castells, 1999), que
atravessa todas as regiões do planeta, ignorando fronteiras nacionais, criando
relações de transversalidades entre povos e culturas, mercados e economias,
formas de vida e práticas sociais. Alain Tarrius (2000) propõe o “paradigma
da mobilidade” como perspectiva descritiva e analítica para apreender a trama
de relações sociais urdidas nos pontos de entrecruzamento de mudanças que
afetam espaços econômicos, normas sociais e racionalidades políticas. John Urry

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(2000) faz um verdadeiro manifesto pela sociologia dos fluidos em contraposição
a análises baseadas em unidades estáticas e lugares fi xos próprios da sociologia
clássica. Outros vão chamar a atenção para o fato de que os deslocamentos de
bens, mercadorias, informações e de pessoas são fortemente mediados por redes
sociotécnicas e novas tecnologias (Latour,1994; Appadurai,1986). Appadurai
sugere que a combinação de novas formas de mobilidade e novas tecnologias
de comunicação afeta a imaginação social e aciona as diversas figuras do que o
autor chama de “mundos imaginados” (no lugar das comunidades imaginadas
de Benedict Anderson). Hannerz (1996), por sua vez, vai enfatizar a cerrada
trama de interconectividade entre espaços e territórios, que perpassa as formas
cotidianas de vida e os diferentes espaços de interação, o que afeta os próprios
sentidos de local e localidades, bem como os dispositivos de pesquisa capazes de
identificar esse jogo variado de escalas e mediações que perpassam os mundos
sociais, questão também discutida por Appadurai (e outros).
São registros diferentes pelos quais a mobilidade é colocada no centro da
indagação sobre a cidade e suas mutações, cada qual se abrindo ao feixe de
questões postas pelo tempo em que foram formuladas e as temporalidades pró-
prias das cidades em seus contextos de referência. Certamente, a discussão hoje
está muito distante das ênfases dos pesquisadores que, no início do século XX,
debruçavam-se sobre uma dinâmica urbana então em constituição, fervilhando
na Chicago do começo do século, formulando suas questões sob o ponto de
vista da especificidade do urbano, da urbanidade e do cosmopolitismo, opostos
globalmente e estruturalmente ao rural e às características (certamente ideali-
zadas) próprias do vilarejo. No debate contemporâneo essas questões perderam
pertinência. Não por acaso vem-se chamando a atenção para a implosão das bina-
ridades clássicas das ciências do social e do urbano, tais como centro-periferia,
tradição e modernidade, atraso e progresso, ao mesmo tempo em que a escala
e a dinâmica dos atuais deslocamentos humanos não podem mais ser vistos
nos termos clássicos dos estudos de migração e modernização (cf. Appadurai,
1996; Tarrius, 2000): migrantes, refugiados, populações deslocadas, trabalha-
dores em movimento por entre regiões e localidades – movimentos que afetam
a tessitura das tradicionais comunidades de referência, tanto do ponto de vista
dessas populações-em-movimento quanto no registro do modo como são redefi-
nidas para as populações sedentárias. Deslocamentos e formas de mobilidade,
cada qual impulsionado por feixes singulares de circunstâncias e causalidades
(porém, com ressonâncias entre uns e outros): travessia de fronteiras, ocupação
de regiões limítrofes, deslocamentos de trabalho e trabalhadores seguindo os
fluxos dos capitais e das redes de extensão variada por onde opera o chamado
capitalismo flexível, ao mesmo tempo em que o traçado desses deslocamentos
tem impactos consideráveis sobre a reconfiguração dos espaços urbanos e a
morfologia das cidades.
O inventário dessa discussão, bem como das polêmicas nela inscritas, poderia
ir longe. Por ora, importa tão-somente chamar a atenção para algumas questões

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importantes para bem situar o andamento deste livro e os sentidos da pesquisa
exploratória aqui proposta.
De partida, é importante dizer: a questão da mobilidade não diz respeito a
um tema ou um objeto que viria se justapor como complemento ou acréscimo a
outros previamente definidos no campo empírico das ciências sociais. Tampouco
poderia ser definida como um contexto geral (a globalização) a partir do qual
situar as realidades estudadas. É um plano de referência que redefine o quadro
descritivo (e analítico) das situações investigadas, colocando em mira a teia
de conexões e mediações que as atravessavam. Em outros termos, é um plano
de referência que (re)define o modo de construção de nossos objetos e nossas
questões de pesquisa.
A questão da mobilidade inscreve-se em um espaço conceitual que mobiliza
as noções conexas de circulação e de acessibilidade – acesso (e seus bloqueios)
a espaços, serviços, artefatos, bens e produtos que a cidade oferece e faz cir-
cular de formas desiguais e assimétricas nos espaços urbanos. É um modo de
pensar a cidade (e seus problemas) a partir de referências outras em relação ao
que ficou consagrado por uma certa linhagem de estudos urbanos e pela qual a
cidade é vista sob o ângulo exclusivo da habitação e seu entorno imediato, dito
comunitário ou dos problemas locais a serem geridos de forma eficaz por pro-
gramas localizados. A cidade é feita de cruzamentos e passagens, é atravessada
por experiências que se fazem justamente nos limiares de universos distintos, de
seus pontos de conexão e das redes sociotécnicas que os atravessam e articulam
em um mesmo plano de atualidade. É isso que introduz a questão da circulação,
da mobilidade e da acessibilidade como prisma para a problematização da ci-
dade e suas questões. Como diz Isaac Joseph (1998: 92), pensar a cidade como
domínio da circulação e do acessível (e seus bloqueios) é, de partida, “dizer
que ela é tudo, menos o lugar de formação de uma comunidade”. Apreender os
bairros, em particular os chamados bairros desfavorecidos, diz Joseph, a partir
da cidade é pensá-los no plural, “situados em um plano de consistência que
lhes autoriza a permanecer urbanos”, já que atravessados por uma teia de redes
e circuitos em escalas diversas, pontos de conexão entre territórios diversos,
transversalidades de experiências feitas em seus limiares e nos quais pulsa a
vida urbana e seus problemas.
A questão proposta por Joseph é especialmente interessante, sobretudo pelo
contexto polêmico em que foi formulada: um modo de pensar a cidade e suas
questões que “significa forçosamente um ponto crítico em relação a um vetor
da fi losofia do habitar ancorada na experiência da proximidade e do mundo à
mão” e que está hoje “no coração de práticas gestionárias que buscam corrigir
um déficit de urbanidade” sob o primado de lógicas normativas e concepções
securitárias, também redutoras, enfatiza Joseph, do local posto como lugar por
excelência de formação de identidades e inserção social (cf. Joseph, 1998: 92-93).
Em outros termos: a questão da mobilidade define um plano de referência que
permite situar criticamente os dispositivos gestionários muitas vezes apresentados

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como exemplos virtuosos de “cidadania local”. No entanto, mais interessante
e mais fecundo do que entrar em polêmicas (no mais das vezes inócuas), está
justamente no parâmetro descritivo ou um dispositivo cognitivo que permita
deslocar a perspectiva pela qual compor e ordenar os fatos, mostrar conexões
e feixes de relações que não se deixariam ver sob o prisma da “comunidade”.
Outros modos de descrever as coisas, permitindo a partir daí colocar uma ordem
de questões que não podem ser resolvidas nos termos habituais, abrindo por
isso mesmo a fenda a partir da qual exercitar a imaginação crítica. É justamen-
te nesse sentido que aqui se diz que a construção de parâmetros descritivos é
também a construção de parâmetros críticos. Não estou segura de termos sido
bem sucedidos nessa empreitada. Mas é uma aposta.
Um plano de referência e um espaço conceitual, a questão da mobilidade
supõe (e exige) uma estratégia descritiva voltada aos pontos de conexão e inter-
secção dos circuitos entrelaçados ou superpostos que fazem a trama urbana.
Isso significa dizer que o entendimento das dinâmicas locais supõe (e exige)
seguir – e seguir no sentido literal, empiricamente – as linhas entrelaçadas que
compõem o social, porém transbordam amplamente o perímetro local, justa-
mente porque fazem o traçado de redes superpostas, de escalas variadas, que
atravessam e definem (ou redefinem) cada situação, colocando-as ao mesmo
tempo em ressonância com outras situações de tempo e espaço. Concretamente,
a questão das mobilidades impõe uma certa modalidade de pesquisa: algo como
a traçabilidade das práticas, suas mediações e conexões, a partir de “postos de
observação” ancorados em situações definidas.
Tomemos um exemplo: nos pontos extremos da periferia leste da cidade de
São Paulo, o tradicional e hoje renovado trabalho a domicílio. Sob uma certa
perspectiva, exemplo paradigmático da atividade de sobrevivência própria ao
mundo da pobreza com todas as limitações e vulnerabilidades que lhe são defini-
doras nos pontos de junção entre precariedade (ou exclusão) social e segregação
urbana. No entanto, basta seguir o traçado dos produtos e pessoas que uma outra
topografia urbana e social seja desenhada. A partir daí é possível desenrolar os
fios dos circuitos variados do chamado mercado informal e, em suas conexões, os
jogos de poder e relações de força de que dependem essa circulação ampliada de
produtos pelas vias de redes de subcontratação que chegam aos pontos extremos
das periferias urbanas. Primeiro, claro está, há os intermediários que fazem
a conexão com os polos globalizados da economia e também com os negócios
“obscuros” em que se misturam máfias locais, os empresários do contrabando e
outros ilícitos, tudo isso ativando o hoje expansivo e rendoso comércio de produtos
falsificados ou simplesmente “desviados”. No entanto, há também associações
comunitárias ditas fi lantrópicas que se transformam em agenciadoras de redes
locais de subcontratação em uma peculiar mistura de apelo solidário, clientelismo
e jogos de poder nas disputas locais, tudo isso redefinido na medida em que é
mobilizado por redes de subcontratação que são acionadas, sabe-se lá porque e
por quem e de modo muito obscuro, pois nunca se sabe ao certo de onde vem a

18
encomenda, muito menos quem paga pelo trabalho feito e para onde vai o produto
realizado. Atravessando tudo isso, nos mesmos espaços e nos mesmos territórios,
os fluxos da migração clandestina trazem para os fundos da periferia leste da
cidade os bolivianos, agora personagens conhecidos da paisagem urbana, que
vivem e trabalham em condições mais do que penosas, já que em boa medida
são cativos dos coreanos que muito frequentemente agenciam a migração e estão
muitíssimo bem instalados no centro da cidade: é daqui que saem as encomen-
das que vão circular pelas redes informais de subcontratação, mobilizando
bolivianos e, mais, boa parte do trabalho a domicilio nessas regiões distantes
da cidade, ativando os circuitos da produção têxtil que, no caso da zona leste
da cidade, se alimenta da história urbana da região e reatualiza a importância
do “centro velho” (Brás, Bom Retiro), onde estão instaladas as confecções, onde
se entrelaçam todos esses fios, abertos e subterrâneos ou clandestinos, e são
igualmente urdidas as vinculações com um mercado inteiramente integrado ao
capital globalizado. Essas questões foram trabalhadas por Carlos Freire (2008).
No início, “apenas” uma pesquisa sobre trajetórias ocupacionais de moradores
instalados no extremo leste da cidade e seus deslocamentos urbanos ao longo
de seus percursos de trabalho. Teria sido mais um e apenas um estudo sobre
trabalho precário e pobreza, se não houvesse essa prospecção que buscou seguir o
traçado das pessoas e dos produtos, bem como os agenciamentos territorialmente
situados que permitem essa articulação entre o trabalho informal e os circuitos
ampliados de economias transnacionais.
É essa teia de mediações e esse jogo de escalas entrecruzadas que podemos
desdobrar a partir de qualquer um dos pontos de venda do hoje proliferante
comércio ambulante, seguindo a traçabilidade dos produtos que circulam nos
centros de comércio popular e que fazem circular produtos de origens variadas,
quase sempre duvidosas, pondo em ação agenciamentos locais e territorializados
(verdadeiros dispositivos comerciais) que fazem a articulação entre o informal e
os circuitos ilegais das economias transnacionais (contrabando, pirataria, falsifi-
cações): pontos de ancoramento de um capitalismo que, como diz Alain Tarrius
(2007), mobiliza os “pobres” como clientes, como consumidores e operadores
ou passadores que garantem a circulação e distribuição de mercadorias que,
sem esses circuitos nas fronteiras porosas do legal e ilegal, quando não ilícito,
não chegariam aos recantos mais pobres das várias regiões do planeta. Disso
temos as evidências na expansão mais do que considerável dos mercados de
consumo popular, que apresentam uma densidade notável no centro da cidade,
mas que se expandem igualmente nos bairros periféricos em mercados locais que
se apoiam em uma trama variada tecida nas fronteiras incertas do informal, do
ilegal e do ilícito. Aqui, todas as situações podem ser encontradas lado a lado,
num total embaralhamento do legal e do ilegal, do lícito e do ilícito, do formal e
do informal: aí os produtos circulam por meio de acordos nem sempre fáceis de
serem mantidos entre organizações mafiosas, gente ligada ao tráfico de drogas,
comerciantes pobres, intermediários dos coreanos (e de outros tantos), além

19
dos técnicos das subprefeituras que tentam fazer valer as regulações oficiais,
tudo isso misturado com pressões, corrupção, acertos obscuros e histórias de
morte. Mas é lá mesmo que circulam produtos de procedência conhecida, des-
conhecida, duvidosa ou simplesmente ilícita, e também o “excedente”, se é que
é possível falar nesses termos, das famílias engajadas no trabalho a domicílio
e que se viram como podem para bem aproveitar o tempo que lhes sobra entre
os ritmos descontínuos e incertos da produção sob encomenda. Voltaremos a
isso no capítulo 5.
Mudando de registro, agora o lado formal-legal das reconfigurações sócio-
urbanas recentes, o mesmo exercício pode ser feito a partir das práticas de
consumo de famílias pauperizadas. Essa foi a pesquisa realizada por Claudia
Sciré (2009) em uma favela situada na periferia sul da cidade. Seria mais um
e apenas um estudo sobre a pobreza e estratégias de sobrevivência, não fosse
um dispositivo de pesquisa que buscou rastrear as práticas e seus circuitos,
as mediações e as conexões pelas quais a economia domestica se redefine em
função das condições de acesso aos grandes equipamentos de consumo que hoje
recortam de ponta a ponta os espaços urbanos, também as periferias da cidade.
Não se trata simplesmente da proximidade física dos hipermercados, shopping
centers e lojas de departamento que hoje disputam os chamados mercados po-
pulares, as ditas classes C e D. A hoje celebrada explosão do consumo popular
não teria sido possível sem a generalização dos cartões de crédito em suas várias
modalidades e foi justamente esse o foco da pesquisa realizada. Mais do que
um assunto interessante, na verdade o rastreamento desse artefato e seus usos
permitiu à pesquisadora deslindar o modo como a lógica da dívida e as práticas
de endividamento sucessivo (transferido para a fatura do mês seguinte) alteram
os modos de organização da vida familiar, bem como afetam os circuitos da so-
ciabilidade e da solidariedade intrapares, com os cartões circulando na teia de
préstimos e contra-préstimos: uns emprestam nome e cartões para outros com o
“nome sujo” na praça ou para ajudar a aquisição de bens para além dos patama-
res de renda definidos pelo salário e, ao final, uns e outros se veem enredados
no esforço por inventar expedientes para negociar a dívida, transferir para o
mês seguinte, usando um cartão para cobrir a dívida de um outro, um cartão
próprio ou cartão emprestado, uma dívida que se paga com outra dívida. Algo
como uma financeirização do tradicional (tornado arcaico) “fiado”, também dos
jogos da reciprocidade popular. Ao fazer a traçabilidade desse artefato urbano
que são os cartões de crédito, vamos encontrar os fios que articulam esses jogos
sociais redefinidos, os equipamentos de consumo, as financeiras, os dispositivos
de crédito, também os procedimentos de gestão da dívida, dito “negociação da
dívida”, mas que não fazem mais do que tornar os indivíduos, dito os “clientes”,
cativos do fluxo financeiro que não pode ser interrompido. Gestão da dívida que,
pelo lado das famílias, desdobra-se em expedientes mobilizados, também nas
fronteiras incertas entre o legal e ilegal, lícito e ilícito, pelos quais a dívida vai
se transferindo de um ponto a outro, até entrar, por vezes, em ponto de com-

20
bustão. Aqui, a partir de uma situação que poderia ser tomada como exemplar
das condições de pobreza e vulnerabilidade social, perfi la-se toda uma outra
dimensão da cidade, os registros tangíveis da modernização urbana que, nos
últimos anos, se fez acompanhar pela proliferação dos grandes equipamentos
de consumo (em suas relações com o capital financeiro) que redefinem a lógica
de produção de espaços urbanos (o que já foi amplamente debatido pela litera-
tura especializada), mas que também afetam dinâmicas sociais e seus pontos
de fricção, reconfigurações societárias que ficariam ilegíveis sob o parâmetro
comunitário que impera em larga medida nos estudos sobre pobreza urbana.
Essas questões serão retomadas no capítulo 3, “Deslocamentos: percursos e
experiência urbana”.
Poderíamos multiplicar os exemplos. Outros serão discutidos ao longo destas
páginas. A rigor, não se trata de exemplos ou de casos interessantes. São situ-
ações nas quais feixes variados de relações e conexões estão consteladas. Em
cada qual, jogos situados de escala. Cada situação é atravessada por processos
transversais nas trilhas muito concretas das diversas formas de conexão e inter-
conectividade, seja pelas mediações sociotécnicas e seus artefatos (os cartões de
crédito, por exemplo, para ficar apenas no caso aqui comentado), seja pelas redes
socioeconômicas, aí incluindo os circuitos obscuros dos mercados informais, o
tráfico de drogas e o comércio de bens ilícitos. Colocadas lado a lado, elas se
comunicam pela transversalidade das questões postas em cada uma, fazendo
perfi lar realidades urbanas contrastadas apreendidas a partir de suas diversas
angulações, jogo de perspectivas lançadas sob diversos prismas.
Se é verdade que o cenário urbano vem sendo alterado em ritmos muito ace-
lerados, os vetores dessas mudanças operam em situações de tempo e espaço.
Processos situados, portanto. E agenciados por um jogo multiforme de atores,
de redes sociais e mediações de escalas também variadas. Por isso mesmo, só
podem ser bem compreendidos nessas constelações situadas. Este o pressuposto
que orienta nosso trabalho: não se trata de partir de objetos ou entidades so-
ciais tal como se convencionou definir de acordo com os protocolos científicos
das ciências sociais (o trabalho, a família, a moradia), mas, sim, de situações e
configurações sociais a serem tomadas como “cenas descritivas”, que permitam
seguir o traçado dessa constelação de processos e práticas, suas mediações e
conexões. E, no contraponto entre cenas descritivas diferentes, a transversalidade
das questões que se colocam.
A partir de cada situação, tal como “postos de observação”, é possível apre-
ender os perfis contrastados da cidade, fazendo a traçabilidade das práticas,
seus circuitos e mediações. É um experimento de pesquisa que pode nos abrir
uma senda para identificar, seguir os traços e traçados dos ordenamentos sociais
que vêm sendo tramados nos tempos que correm. É nesse sentido que se assume
como hipótese teórico-metodólógica a exigência de uma etnografia experimental,
tomando como referência cenas descritivas a partir das quais seguir as pistas
de ordenamentos sociais emergentes.

21
Não se trata de um suposto “trabalho preliminar”, tal como uma aproximação
prévia dos terrenos de pesquisa e que, depois, desaparece na elaboração de um
corpo teórico-conceitual bem delimitado (na melhor das hipóteses, é registrado
nos anexos metodológicos da publicação final). A experimentação como prática
de pesquisa e de produção de conhecimento está na contracorrente desses modos
convencionais que primaram (e ainda persistem) nas ciências sociais, e segue
ao revés das classificações estabelecidas, de entidades já feitas e procedimentos
habituais do saber (cf. Rabinow, 1999). Nos termos de Appadurai (1996), trata-
se da exigência de uma abordagem capaz de abrir-se a uma interrogação sobre
essas configurações complexas e sobrepostas, seus modos de operação, suas
causalidades e suas contingências, captando fluxos e incertezas, ao contrário e ao
revés das antigas imagens de ordem, de estabilidade e sistematicidade próprias
das teorias sociais convencionais. A prática da experimentação acompanha a
etnografia multi-situada proposta por George Marcus (1995), buscando as co-
nexões, as associações, modos de conjugação de tempos e espaços diversos – é
preciso seguir as pistas, diz Marcus, os traços dessas conexões: fazer a traça-
bilidade desses movimentos diversos e que estão cifrados nas várias situações
investigadas. Não por acaso, a etnografia experimental como prática de pesquisa
e prática de produção de conhecimento opera em um espaço conceitual no qual
circulam termos como redes, trilhas, conjunções, conexões e conectores.
Já é lugar-comum dizer que as teorias e categorias convencionais de análise
não dão conta das novas realidades. Mas, então, será preciso levar isso a sério e
saber tirar consequências. Não se trata de inventar novas teorias e muito menos
domesticar essas realidades em alguma matriz explicativa geral. Trata-se, antes
e sobretudo, de fazer da investigação uma experiência de conhecimento capaz de
deslocar o campo do já-dito, para formular novas questões e novos problemas.
Ao invés de dar um salto nas alturas e se agarrar em alguma teoria ou conceito
geral, prospectar as linhas de força dessas realidades em mutação. Mais do que
um conceito, a cidade é um campo de práticas, diz Roncayolo (1978). Essa é
uma sugestão forte a ser seguida e que coloca o plano no qual uma investigação
pode se dar, fazendo surgir feixes de questões que permitam modificar proble-
mas previamente colocados – a “questão urbana” não existe como tal (definição
prévia ou noção modelar), porém é configurada no andamento mesmo dessa
prospecção como questões (sempre parciais) e interrogações (sempre reabertas)
que vão se colocando nessa “construção exploratória do objeto” de que fala
Lepetit (2001). É com essa perspectiva que buscamos seguir, prospectar, as
mobilidades urbanas, seus espaços e territórios.

***

22
Esse trabalho de prospecção dos mundos urbanos abriu-se a uma série de
questões que, na sequência, terminaram por pautar frentes de investigação não
previstas no início, porém que desdobram achados de pesquisa que foram, no
correr dos anos, preenchendo nossos diários de campo. Essas as questões a
serem tratadas na segunda parte deste livro.
O ponto de partida foram as evidências de uma expansiva trama de ilegalis-
mos novos, velhos ou redefinidos, que passam pelos circuitos da hoje expansiva
economia (e cidade) informal, o comércio de bens ilegais, o tráfico de drogas
e suas capilaridades nas redes sociais e práticas urbanas. Bem sabemos que
ilegalismos urbanos não são propriamente uma novidade. São algo que acompa-
nha a história de nossas cidades, item quase obrigatório nos estudos urbanos, já
foram tematizados por uma extensa e importante literatura, para não falar das
circunstâncias históricas que presidiram o desde sempre expansivo mercado
informal. No entanto, o que nos parece merecer uma interrogação mais detida
são as mediações e as conexões pelas quais esses ilegalismos vêm sendo urdi-
dos no cenário urbano. São outras as conexões, outras as mediações, também
outra a escala em que os problemas se colocam. Ao seguir o traçado desses
ilegalismos vemos perfi lar-se mundos urbanos alterados e redefinidos por formas
contemporâneas de produção e circulação de riquezas, que ativam os diversos
circuitos da economia informal, que mobilizam o trabalho sem forma, para usar
a expressão de Francisco de Oliveira, e se processam nas fronteiras incertas do
informal, do ilegal, também do ilícito.
É nesse cenário que vêm ganhando forma as figuras contemporâneas do
trabalhador urbano que transita nas fronteiras porosas do legal e ilegal, formal
e informal, lançando mão de forma descontínua e intermitente das oportunida-
des legais e ilegais que coexistem e se superpõem nos mercados de trabalho, ao
mesmo tempo em que se expande uma zona cinzenta que torna incertas e indeter-
minadas as diferenças entre o trabalho precário, expedientes de sobrevivência e
atividades ilegais. Assim, por exemplo, não é incomum encontrar a figura de um
trabalhador, homem ou mulher, que trabalha durante o dia (trabalho precário ou
não, formal ou não) e, à noite, em meio a proximidades e cumplicidades tecidas
em meio a histórias familiares e jogos das reciprocidades locais, pode se dispor
de modo episódico (ou não) a enrolar papelotes de cocaína a serem vendidos no
ponto de droga instalado em seu bairro, sem por isso se considerar (e ser visto)
comprometido com o “mundo do crime”. Ou então, nos fins de semana, com-
plementa seu parco salário capitaneando um ponto de venda de CDs piratas e,
vez ou outra, tenta a sorte vendendo algum produto de origem duvidosa (sobre a
qual convém não perguntar) que lhe chegou às mãos por gente próxima, ou que
circulou e foi negociado nessa espécie de “balcão de oportunidades” (Ruggiero,
2000) que são as biroscas onde todos se encontram, onde as informações cir-
culam, as oportunidades aparecem em meio às conversas corriqueiras de todos
os dias. Situações como essas não são eventuais, nada episódicas, muito menos
anedóticas. São as figuras contemporâneas do trabalhador urbano que segue

23
os percursos dessas “mobilidades laterais” entre o formal e informal, legal e
ilegal, para usar os termos de Ruggiero e South (1997), ao descrever situações
parecidas que hoje se alojam no centro dinâmico das economias urbanas também
dos chamados países do Norte (cf. capítulo 5).
É sempre possível dizer que nada disso é novidade em nossas cidades, que
isso que está aqui sendo nomeado como “mobilidade lateral” nada mais é do
que a reposição da “viração” própria das desde sempre conhecidas situações
de pobreza. No entanto, se há, hoje, a reatualização de uma história de longa
duração, há também um deslocamento considerável da ordem das coisas. Isso
que foi considerado evidência das incompletudes de nossa modernidade, a “ex-
ceção do subdesenvolvimento”, como diz Francisco de Oliveira (2003), não
apenas transformou-se em regra (está aí para ficar, sem a superação prometida
pelo “progresso”), como se projetou na ponta de um capitalismo que mobiliza
e aciona a reprodução ampliada do “trabalho sem forma”, ao mesmo tempo em
que fez generalizar os circuitos ilegais de uma economia globalizada nas sendas
abertas pela liberalização financeira, a abertura dos mercados e encolhimento
dos controles estatais (Naim, 2006), em um tal intrincamento entre o oficial e o
paralelo, entre o legal e o ilegal, o lícito e o ilícito que essas binaridades perdem
sentido e tornam obsoletas as controvérsias clássicas em torno do formal e o
informal (Botte, 2004; Bayart, 2004). O fato é que as relações incertas entre o
legal e ilegal, formal e informal, lícito e ilícito constituem um fenômeno transver-
sal na experiência contemporânea, também nos chamados países do Norte. São
vários os autores que vêm chamando a atenção para essa transitividade entre o
informal, o ilegal e o ilícito, com uma preocupação, mais ou menos explicitada,
em distinguir a natureza da transgressão que se opera no âmbito da economia
informal ou, então, que define as atividades ilícitas ou criminosas, como o tráfico
de drogas, armas e seres humanos.1
Nas nossas cidades, em particular no caso de São Paulo, essa teia variada
de ilegalismos vem se processando no interior e nos meandros de um cenário
urbano que, em muitos sentidos, desativa todo um jogo de associações pelo qual
se convencionou tratar esses temas, em suas relações com a pobreza, privações
sociais, carências urbanas, ausência do Estado, ou seja: o registro do que falta,
do que falha, do que não se completa. E é isso que coloca a exigência de mudança
de registro e deslocamento do jogo de referências para descrever essas situações
e situar o plano de atualidade em que elas se inscrevem. A questão está longe
de ser trivial, e tampouco haverá de ser resolvida na base de algum torneio
teórico abstrato para enquadrar (explicar?) as novas realidades. Ainda temos,
assim me parece, que saber tirar consequências da desativação do horizonte

1
Essa é questão central de um projeto realizado em parceria com pesquisadores da Uni-
versidade de Toulouse Le Mirail (Acordo Capes-Cofecub, 2007-2011). Essas formulações
e também as questões tratadas no capítulo 5 são grandemente devedoras da interlocução
com Angelina Peralva, com quem partilho a coordenação desse projeto.

24
histórico e do espaço conceitual no qual essas questões foram antes tratadas,
em grande medida a partir da referência normativa dos direitos, a expectativa
de uma cidadania salarial e as promessas de uma “modernidade incompleta”, o
problema enunciado nas primeiras páginas desta introdução, que será tratado
no capítulo 1 e retomado no capítulo 4. Nos termos de Francisco de Oliveira, a
“exceção se tornou a regra” e está no cerne da “era da indeterminação”, ponto
de clivagem em relação às décadas anteriores em que o trabalho (isto é, as rela-
ções de trabalho, relações de classe) estruturava um campo político de confl itos
que dava a medida e pautava a “era das invenções” (Oliveira, 2007). E é isso
propriamente que coloca a importância de se construir os parâmetros descritivos
para pôr em perspectiva (e sob perspectiva crítica) as redefinições dos mundos
sociais que vêm se processando nessa virada dos tempos. Não se trata de um
apego cego ou uma volta à empiria bruta, à falta de uma teoria que nos conforte
em nossas certezas. Descrição não é uma transcrição da realidade, muito menos
um inventário ou coleção de casos interessantes. É um trabalho de construção
que passa pelo modo como se estabelecem ou se fazem ver conexões e relações
que, antes, sob um outro jogo de perspectivas, não faziam parte da cartografia
social ou, então, dos critérios de pertinência e relevância postos pelas perguntas
que se endereçavam ao mundo. Hoje, porém, são outras as perguntas e talvez
sejam estas que ainda têm que ser mais bem formuladas.
Se, como diz Francisco de Oliveira, a exceção tornou-se a regra, o trabalho
sem forma e essa trama multifacetada de ilegalismos estão no coração do ca-
pitalismo contemporâneo, então é caso de se perguntar pelo modo como esses
processos redesenham os mundos urbanos e redefinem ordenamentos sociais.
Mais concretamente: o modo como esses ilegalismos redefinem as tramas urbanas,
as relações sociais e relações de poder em situações variadas.
Essa é uma discussão de fôlego, que vai além do que foi possível realizar no
andamento de pesquisas ainda em curso. Entretanto, há pistas a seguir. E estas nos
foram dadas pelos percursos cruzados dos personagens urbanos cujas trajetórias
tratamos de seguir. Os indivíduos e suas famílias transitam nas tênues fronteiras
do legal e ilegal, sabem lidar com os códigos de ambos os lados, sabem jogar
com as diversas identidades que remetem a esses universos superpostos da vida
social. Mas sabem, sobretudo, exercitar uma especial “arte do contornamento” dos
riscos alojados justamente nessas fronteiras porosas: o pesado jogo de chantagem
e extorsão das “forças da ordem” e a violência da polícia sempre presente nesses
percursos, também a eventualidade de algum desarranjo nos acertos instáveis com
os empresários do ilícito, e não apenas com o tráfico de drogas. Concretamente:
os jogos de poder e relações de força se processam nas dobras do legal e ilegal.
Isso muda inteiramente o modo de descrever as “mobilidades laterais” e permite
ver os sentidos políticos incrustados nessas versões atualizadas da “viração po-
pular” que perde, assim, essa espécie de leveza entre liberada e esperta muitas
vezes associada à cultura popular ou então à “dialética da malandragem”, para
lembrar aqui a fórmula famosa de Antonio Candido.

25
Para colocar em outro registro e adiantando questões trabalhadas no capítulo
5: se queremos entender o lugar desse feixe variado de ilegalismos no tecido
urbano, será importante se deter sobre essa transitividade entre o legal e ilegal
que parece, hoje, estar no centro das dinâmicas urbanas de nossas cidades. Se
há porosidade entre o formal e informal, legal e ilegal, isso não quer dizer in-
diferenciação entre uns e outros. Leis, codificações e regras formais têm efeitos
de poder, circunscrevem campos de força e é em relação a elas que essa transi-
tividade de pessoas, bens e mercadorias precisa ser situada. E, a rigor, descrita.
Não se trata de universos paralelos, muito menos de oposição entre o formal e
informal, legal e ilegal. Na verdade, é nas suas dobras que se circunscrevem
jogos de poder, relações de força e campos de disputa. São campos de força que
se deslocam, se redefinem e se refazem conforme a vigência de formas variadas
de controle e também, ou sobretudo, dos critérios, procedimentos e dispositivos
de incriminação dessas práticas e atividades, oscilando entre a tolerância, a
transgressão consentida e a repressão conforme contextos, microconjunturas
políticas e relações de poder que se configuram em cada qual.
Aqui, a noção de “gestão diferencial dos ilegalismos” pode nos ajudar a
bem situar a questão. Ao cunhar essa noção em Vigiar e punir (1975), Foucault
desloca a discussão da tautológica e estéril binaridade legal-ilegal, para colocar
no centro da investigação os modos como as leis operam, não para coibir ou
suprimir os ilegalismos, porém para diferenciá-los internamente, “riscar os limites
de tolerância, dar terreno para alguns, fazer pressão sobre outros, excluir uma
parte, tornar útil outra, neutralizar estes, tirar proveito daqueles” (Foucault,
2006: 227). Os ilegalismos, diz Foucault em outro texto, não são imperfeições
ou lacunas na aplicação das leis, contêm uma positividade que faz parte do
funcionamento do social, eles compõem os jogos de poder e se distribuem con-
forme se diferenciam “os espaços protegidos e aproveitáveis em que a lei pode
ser violada, outros em que pode ser ignorada, outros, enfim, em que as infrações
são sancionadas”. As leis, diz Foucault, “não são feitas para impedir tal ou qual
comportamento, mas para diferenciar as maneiras de contornar a própria lei”
(Foucault, 1994: 716). Mas é justamente nesses torneios da lei que as questões
se configuram. É isso que está sendo aqui visado ao se chamar a atenção para
o que acontece nas dobras do legal-ilegal. Não se trata de reter ou se ater a
essa binaridade como chave explicativa, mas de seguir, prospectar seus efeitos,
o modo como os jogos de poder se configuram nesses espaços: a distribuição
diferenciada dos controles e, em torno deles, os agenciamentos práticos que se
curvam ou que escapam aos dispositivos de poder implicados nessas categorias
e codificações. E é isso que se pode seguir – e etnografar – seja no registro dos
ilegalismos difusos inscritos nas “mobilidades laterais” do trabalhador urbano,
tal como muito rapidamente indicado acima; seja no registro dos meandros dos
mercados informais que pulsam no centro dinâmico da economia urbana de
nossas cidades, como sugerido páginas atrás; seja ainda nos circuitos do tráfico
de drogas que fizeram multiplicar os pontos de venda por toda a extensão das

26
periferias urbanas. São essas as três situações que serão descritas e discutidas
na segunda parte deste livro.
Por ora, interessa indicar duas ordens de questões que, assim nos parece, estão
no fulcro dos ordenamentos sociais tecidos nesses meandros das tramas urbanas e
que pautam, em boa medida, a discussão a ser feita nos três últimos capítulos:
Primeira: os percursos urbanos e as situações em que estão constelados esses
feixes de ilegalismos são pontuados por jogos de poder e relações de força que se
processam nas dobras do legal-ilegal. No âmbito dos mercados informais, desde
um modesto ponto de venda de CDs piratas ao pulsante comércio informal no
centro da cidade, há outras tantas redes que perpassam essas atividades, que se
compõem e interagem com os circuitos econômicos por onde produtos e pessoas
circulam, redes que passam por dentro das instâncias oficiais-legais e fazem
circular as mercadorias políticas, nos termos propostos por Michel Misse (2006),
também elas ilegais, e das quais dependem os modos de funcionamento desses
mercados, estando no cerne de suas formas de regulação. É o custo político das
transações informais, diz Misse, justamente porque elas operam por fora ou ao
revés das normas oficiais-legais. Mercadorias políticas, quer dizer: corrupção,
acertos na partilha dos ganhos, subornos, compra de proteção e práticas de extor-
são que podem ser mais ou menos ferozes conforme as microconjuturas políticas,
interesses em jogo, alianças feitas ou desfeitas, sempre no limiar de soluções
violentas, entre repressão aberta e histórias de morte. Fiscais da prefeitura, ges-
tores urbanos, operadores políticos, vereadores e suas máquinas políticas, agentes
policiais operam justamente nas dobras do legal-ilegal pelas vias das “ligações
perigosas”, como diz Misse, entre os mercados informais e os mercados políticos,
também ilegais, nos quais se transacionam as mercadorias políticas, que parasi-
tam aqueles e condicionam grandemente o modo como estes se organizam e se
distribuem nos espaços urbanos. São práticas que se movem entre as instâncias
formais-legais e os procedimentos extralegais; são as “forças da ordem” e seus
representantes que fazem uso de suas prerrogativas legais, a autoridade que o
Estado lhes confere, para acionar dispositivos não-legais, deslizando entre acertos
negociados, o arbítrio, chantagem, expropriação e violência aberta. A rigor, isso
também toma parte e é constitutivo desse deslocamento das fronteiras do legal-
ilegal que acompanha as formas contemporâneas de produção e circulação de
riquezas. Em outros termos: uma ampla zona cinzenta que torna indeterminadas
as diferenças entre o legal e extralegal, entre o dentro da lei e o fora da lei. Mas
é por isso também que essas práticas entram em ressonância e se comunicam,
transversalmente ou diretamente, com o jogo igualmente pesado e igualmente
violento dos empresários do ilícito, procedimentos mafiosos postos em ação para
o controle dos pontos de venda ou para as operações pesadas do contrabando,
para os agenciamentos da migração clandestina (bolivianos, chineses, outros),
controles dos circuitos de distribuição, etc.
Quanto ao mercado varejista das drogas ilícitas, é impossível compreender
seus modos de funcionamento sem levar em conta as “ligações perigosas” com

27
os mercados de proteção acionados pelas forças policiais. Essa é questão que já
foi esmiuçada empiricamente e teoricamente por Michel Misse (2006) em seus
estudos sobre os mercados da droga no Rio de Janeiro. Porém, se a situação do
Rio de Janeiro já é bastante conhecida, no caso de São Paulo ainda há muito a
se fazer, os estudos apenas começam. Porém é algo que se pode flagrar e acom-
panhar por meio da observação etnográfica de um ponto de droga instalado em
um bairro de periferia. O pagamento regular da proteção policial faz parte das
rotinas do negócio local. São práticas corriqueiras, mas não banais, com seus
procedimentos, seus tempos, seus lugares, protocolos, a cenografia como as coisas
acontecem. Equilíbrios instáveis que, muito frequentemente, desandam na prática
aberta de extorsão: espancamentos, chantagem sobre uns e outros, ameaça de
prisão, verdadeiros sequestros com a exigência de preços exorbitantes para o
resgate. No alvo estão os “meninos da droga”. Porém, não só: qualquer um que,
nesse trânsito nas fronteiras embaçadas do legal e ilegal, possa oferecer algum
pretexto para pressão, chantagem, ameaça de prisão. Sob a pressão do espan-
camento e, sobretudo, ameaça do infeliz ser levado à Delegacia para ser lavrado
um Boletim do Ocorrências, nas negociações do preço do resgate, como se diz,
cada um “vale quanto pesa”: se é figura importante ou não nos negócios locais,
se tem ou não passagem pela polícia, se tem relações valiosas ou não no “mundo
do crime” ou, simplesmente, quando se trata dos garotos, se a situação ameaça
afetar as famílias e o delicado jogo das reciprocidades vicinais. Isso também
faz parte das rotinas, não apenas do ponto de droga: isso compõe a vida de um
bairro de periferia, faz parte dos cenários locais, circula no repertório popular,
alimenta as histórias, está, enfim, incrustado na ordem das coisas, nas formas
de vida. O que não quer dizer que tudo seja banal ou que esteja banalizado:
uma peculiar experiência com a lei que termina por embaralhar e inverter os
critérios que definem os sentidos de ordem e o seu avesso.
Quando as coisas saem dos eixos (acertos desestabilizados pelas razões as
mais variadas), essas práticas assumem as formas mais violentas: chantagem,
extorsão, invasão, mortes, extermínios. O epicentro é a “biqueira”, ponto de venda
de drogas, mas a zona de arbítrio se expande e afeta todo o entorno. A cena é
conhecida: sob o pretexto de “caça aos bandidos”, sucedem-se as batidas poli-
ciais, invasão de domicílios, espancamentos, abusos de autoridade, expropriação,
também as mortes, execuções sumárias, extermínios. Violência extralegal: aqui,
nesse registro, não se trata propriamente de porosidade do legal-ilegal, não se
trata de fronteiras incertas entre o informal, o ilegal, o ilícito. Mas da suspensão
dessas fronteiras na própria medida em que fica desativada a diferença entre a
lei e a transgressão da lei. E isso significa dizer que é a própria diferença entre
a lei e o crime que se embaralha e, no limite, vem a ser, ela própria, anulada.
É isso que permite acionar uma espécie de licença para matar, sem que isso
seja considerado um crime. É isso o que está posto e exposto nessas situações
que se repetem nas periferias urbanas. É isso o que está posto e exposto nessa
expressão que acompanha os registros policiais – “resistência seguida de morte”:

28
uma categoria que não tem existência legal, mas que é aceita no processamento
judicial, que opera como uma espécie de autorização para matar, avalizada pe-
las instâncias estatais, também judiciais, invertendo tudo e suspendendo todas
as diferenças, de tal modo que toda e qualquer execução vira outra coisa e o
crime é atribuído à vítima em supostas “guerras de quadrilha”, “troca de tiros”,
“resistência à prisão”.
Aqui se está no cerne do que Agamben define como estado de exceção. Nas
suas configurações contemporâneas, práticas e situações instauradas no centro
da vida política (e da normalidade democrática), fazendo estender uma zona de
indeterminação entre a lei e a não-lei, terrenos de fronteiras incertas e sempre
deslocantes nas quais todos e qualquer um se transformam em vida matável, homo
sacer (Agamben, 2002). Poderes de soberania que se multiplicam e se desdobram
nessas pontas em que a presença do Estado, as forças da ordem afetam as vidas
e as formas de vida. É algo que pode ser visto, flagrado e, como propõem Das
e Poole (2004), etnografado, tratado de um ponto de vista antropológico, sob
o prisma de suas condições de operação prática, cotidiana, seguindo os modos
de operação das forças da ordem, seus movimentos, seus tempos, seus procedi-
mentos, também seus rituais e a cenografia que arma em torno de seus modos
de intervenção. É nessas situações e nesses contextos práticos que se pode bem
compreender as conexões internas entre lei e exceção. Na formulação precisa de
Das e Poole, são práticas que articulam simultaneamente o dentro e o fora da lei,
mas que não podem ser entendidas nos termos de lei e transgressão da lei pois
é a própria lei que está em questão, os seus modos de operação. Nos termos de
Agamben: a lei é aplicada nos modos de sua desativação e é isso propriamente
que define os poderes de soberania. Nos termos de Das e Poole, sob o prisma
das condições práticas sob as quais isso se processa: produção das “margens”
que não correspondem a definições territoriais, periferia ou territórios da po-
breza, pois elas se deslocam, se fazem e refazem conforme mudam os alvos, as
conveniências, o foco das atenções dos representantes da ordem, em condições
concretas de tempo e espaço. Margens: não se trata de um fora do Estado e da
lei, lugar de anomia, desordem, estado de natureza. São espaços produzidos pelos
modos como as forças da ordem operam nesses lugares, práticas que produzem
as figuras do homo sacer em situações entrelaçadas nas circunstâncias de vida e
trabalho dos que habitam esses lugares. No entanto, são também lugares em que
a presença do Estado circunscreve um campo de práticas e de contracondutas, no
qual os sujeitos fazem (e elaboram) a experiência da lei, da autoridade, da ordem
e seu inverso, em interação com outros modos de regulação, microrregulações,
poderíamos dizer, ancoradas nas condições práticas da vida social.
A noção de margem proposta por Das e Poole é especialmente interessante,
ainda mais para nós, etnógrafos do urbano, pois afeta diretamente o modo como
se constroem os nossos campos de pesquisa, o critério de pertinência etnográfica,
a definição daquilo que interessa e é pertinente ao estudo etnográfico ou, então,
para usar os termos de Paul Veyne, o modo como se arma a trama descritiva,

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o cruzamento de linhas múltiplas e itinerários possíveis para colocar em cena
a interação entre as pessoas, as coisas, as circunstâncias materiais, os acasos,
feixes de relações que produzem os acontecimentos descritos (cf. Veyne,1998).
As questões discutidas pelas autoras, coordenadoras de um livro que leva o su-
gestivo título de Anthropology in the margins of the State, serão tratadas no último
capítulo. Por ora, vale dizer que a noção de margem é sobretudo importante pela
perspectiva que abre para descrever e discutir a “exceção que se tornou a regra”,
para retomar aqui a formulação famosa de Benjamin e que Agamben atualiza
em seu O Poder Soberano e a vida nua, e que, muito concretamente, está posta
nas dobras do legal-ilegal, que foi aqui o nosso ponto de partida.
Aqui entramos em uma segunda ordem de questões: esses lugares produzidos
como “margem” são estratégicos para o entendimento dos ordenamentos sociais
urdidos nas fronteiras porosas do informal, do ilegal e ilícito, que, retomando
o argumento de partida, estão no centro da experiência contemporânea, aqui
e alhures. Nas situações extremas da “vida nua”, extremas, porém frequentes,
tão frequentes quanto as formas violentas de intervenção policial nesses lugares,
explicita-se o que está contido, de modo latente ou aberto, nos meandros dos
mercados informais. Também nos ilegalismos difusos que se pode apreender no
mundo social e que está crivado nas “mobilidades laterais” das figuras contem-
porâneas do trabalhador urbano que transita nas fronteiras incertas do formal
e informal, legal e ilegal, também o ilícito. É o que está contido nos jogos de
poder e relações de força que se processam nessas dobraduras da vida urbana,
dobras do legal e ilegal. Mas isso também significa dizer que esses espaços de
exceção não são espaços vazios; é justamente aí, poderíamos então dizer, que as
fronteiras do Estado estão em disputa, os sentidos de lei, de justiça, de ordem
e seu avesso.
Nos centros do comércio popular, nas dobras do legal-ilegal, como mostra
Carlos Freire (2009), estrutura-se um campo de forças, envolvendo uma meada
de atores (ambulantes, lojistas, associações de classe, sindicatos, políticos, fis-
cais, gestores urbanos, forças policiais) em uma disputa, sempre reaberta, entre
negociações e confl itos acirrados, pelas vias de procedimentos públicos e outros
tantos obscuros, mafiosos ou não, em torno dos modos de apropriação da riqueza
circulante e da gestão dos espaços urbanos e suas regulações. Mas essa é também
uma disputa em torno das fronteiras do permitido e proibido, dos protocolos dos
mercados de proteção, bem como dos limites do tolerável nas práticas de extorsão
(cf. Freire, 2009). Não seria arriscado dizer que, nesses campos de disputa,
são as próprias fronteiras da economia que estão se redefinindo nos meandros
(em disputa) dos mercados informais (cf. capítulo 5). Quanto aos mercados de
drogas e suas capilaridades nas periferias urbanas, nos campos de gravitação
que se estruturam em torno das miríades de pontos de venda instalados nesses
bairros, é a própria gestão da ordem que parece estar em disputa, nos pontos de
junção (e fricção) da lei (e seus modos de operação) e outros modos de regulação
que perpassam os ilegalismos e estão ancorados nas formas de vida: protocolos,

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códigos, procedimentos que operam não à margem da lei, são ativados justamente
nesses pontos nervosos, campos de força que gravitam em torno dos modos de
operação da lei nos seus pontos de incidência nas circunstâncias da vida. Aqui,
nesse registro, como será visto no capítulo 6, trata-se de uma gestão da ordem
que se desdobra em uma gestão dos limiares da vida e da morte: pois é disso
que se trata nesses espaços produzidos como “margem”, espaços de exceção,
pontuados e ritmados pela experiência da morte-matada (ou sua ameaça), a
violência policial e a violência implicada nos (des)acertos internos ao “mundo
do crime”, cujos nexos e ressonâncias mútuas ainda precisam ser deslindados.
O enigma da recente redução dos homicídios nas periferias urbanas, depois de
décadas seguidas de índices altíssimos, está todo cifrado nisso e essa é a pista
que se tentará seguir no último capítulo.
São dois registros que se comunicam, até porque estão cifrados nos percursos
dos trabalhadores urbanos nos meandros dos mercados informais e ilegais. E
estes nos oferecem um prisma especialmente interessante para apreender as
tramas sociais tecidas nas dobraduras da vida urbana. É possível descrever es-
ses percursos a partir dos sinais de algo como os “ardis de uma de inteligência
prática” (Vernant & Detiènne, 1974), inventados, maquinados, para lidar com
as circunstâncias mutantes e incertas nas fronteiras porosas do legal e ilegal.
Os indivíduos também transitam entre o dentro e fora do Estado, maquinam
artifícios nas fronteiras incertas do legal-ilegal, agenciam contracondutas, nego-
ciam regras, limites, protocolos para lidar com as incertezas e os riscos alojados
nessas dobraduras da vida urbana. Não é coisa simples transitar nesses terre-
nos: como mostra Daniel Hirata (2010), é preciso astúcias, artifícios, senso de
oportunidade para lidar com fiscais da prefeitura, negociar os acertos com as
forças da ordem, evitar a prisão, contornar os riscos de morte, garantir acordos
dos quais dependem esses negócios (não apenas os ilícitos), fazer alianças de
circunstâncias, tecer lealdades, discernir quem merece e não merece confiança.
Trata-se aqui, como bem enfatiza Hirata, de um feixe de códigos, de procedimen-
tos e protocolos, não normativos, não categoriais, sempre situacionais, práticos,
relacionais e dos quais depende a passagem por essas fronteiras incertas, ao
mesmo tempo em que, em cada situação, se negociam, se definem e redefinem os
critérios do “certo” e do “errado”, do justo e injusto, os parâmetros do aceitável
e os limites do tolerável. Nos termos propostos por Hirata, formas de conduta e
contracondutas das quais depende essa arte de “sobreviver na adversidade” –
essa expressão circula e faz parte do repertório popular, não tem nada a ver com
estratégias de sobrevivência de que tratam os estudos de pobreza. Não se trata
simplesmente de sobreviver e levar a vida. Trata-se, sobretudo, de contornar as
duas ameaças muito concretas que se colocam em suas vidas. De um lado, o
risco da morte violenta: esse é um dado de seus mundos de vida. Ao falar de
seus percursos, os indivíduos, sobretudo os mais jovens, fazem uma verdadeira
contabilidade dos mortos, pessoas próximas, amigos de infância, vizinhos de
rua, também parceiros nos meandros da vida urbana. Isso também faz parte do

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repertório popular e também faz a marcação dos tempos de uma história urbana
local. Gente que foi morta pela polícia, isto é: execuções. Ou, então, que se viu
cativa do “condomínio do diabo” de que fala Alba Zaluar (1983), entre os (des)
acertos nos assuntos do “crime” e a lógica da vingança. De outro lado, o risco
de despencar na condição de “pobre-de-tudo”, a depender da caridade de uns
e outros ou da assistência social. Porém, isso significa dizer que, entre a morte
violenta e a pobreza cativa dos dispositivos gestionários, há um socius que vai
sendo tecido justamente em uma experiência que se faz, não à margem da lei,
mas nos pontos de fricção com os agenciamentos de poder e as forças da ordem
alojadas nas dobras do legal-ilegal, formal-informal.
Os rastros desses ordenamentos são deixados justamente por esse personagem
que, na falta de um termo melhor, nomeamos “passador” (cf. capítulo 4), aquele
que sabe transitar por essas fronteiras incertas e “sobreviver na adversidade”.
Uma figura cujo sentido se explicita no seu contraponto com outros dois persona-
gens urbanos, o “pobre-coitado” (ou o “zé-povinho”, termo que circula no repertó-
rio popular) e o “bandido”, cativo de um círculo fechado desenhado entre o jogo
pesado da policia e o “condomínio do diabo”. No ponto e contraponto desses três
personagens, desenha-se algo da nervura desses ordenamentos sociais. Não se
está aqui propondo uma tipologia, muito menos uma categorização das situações
sociais, até porque a experiência social não cabe nem se fi xa nessas definições.
Empiricamente, há uma transitividade entre essas figuras sociais aqui construídas
como personagens urbanos que, por isso mesmo, por essa transitividade, nos
ajudam a deslindar essa meada de fios entrecruzados e a descrever, pelo jogo
de perspectiva que se abre a partir de cada um deles, as situações sociais nas
quais está cifrado um socius que ainda precisa ser bem entendido.

***

Nestas últimas páginas, aqui a título de introdução, retomam-se questões


tratadas, por vezes literalmente, nos três últimos capítulos. Em cada qual, essas
questões foram trabalhadas em contextos definidos de discussão. Em cada qual,
inquietações e perguntas elaboradas no andamento da pesquisa, conforme os
achados de pesquisa nos afetavam e conduziam essa experimentação ao mesmo
tempo empírica e teórica. Em cada qual, momentos diferentes dessa prospecção
dos mundos urbanos, seguindo as pistas de ordenamentos urdidos nas tramas
da cidade, esses terrenos incertos entre a lei e a exceção e que estão, hoje, no
cerne da cena contemporânea.
O capítulo 4, “Tramas da cidade: fronteiras incertas do informal, ilegal e
ilícito”, é uma versão revista de um artigo elaborado para compor uma publicação
com resultados de pesquisas realizadas no âmbito do Cenedic (cf. Oliveira &
Rizek, 2007). Escrito, em sua primeira versão, no início de 2006, em diálogo

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com questões propostas por Francisco de Oliveira, núcleo desse projeto comum,
é um texto de passagem, em vários sentidos. Foi nesse texto que se tentou uma
primeira aproximação desses terrenos incertos entre o informal, o ilegal e o
ilícito, tal como nos foi possível apreender em nossos campos de pesquisa e
com os quais se tentou trabalhar nas três cenas descritivas apresentadas na sua
segunda parte e aqui mantidas com pouquíssimas alterações.
O ponto de partida foram os sinais que recolhíamos em nosso trabalho de
campo de um mundo social que parecia (e parece) escapar das formas conhecidas
de interpelação política, dos celebradíssimos fóruns públicos de participação
popular e suas supostas virtudes democráticas, também dos programas sociais
que se multiplicam nas periferias urbanas, com suas promessas de redenção dos
males da dita exclusão social. Um campo social que parecia (e parece) vazar ou
transbordar desses dispositivos políticos, mas que nem por isso correspondia às
imagens correntes de anomia e desorganização social, pois nos sugeria diagramas
variados de relações e formas sociais que passavam por essas mediações formais,
porém transbordavam suas regulações e colocavam uma ordem de questões que
nos pareciam implodir a gramática política conhecida. Foi esse o nosso ponto de
partida. Já tínhamos em mira esse feixe variado de ilegalismos entrelaçados nas
práticas urbanas e suas mediações, circuitos e redes sociais. Uma questão que
evoca o tema reiterado nos estudos urbanos, a contraposição de “cidade legal”
e “cidade ilegal”, mas era isso que nos parecia deslocado. Era uma outra ordem
de problemas que essas realidades pareciam colocar: uma crescente e ampliada
zona de indiferenciação entre o legal e o ilegal, entre o direito e a força, entre a
norma e a exceção. Eram realidades que também nos ofereciam um prisma pelo
qual situar criticamente a retórica dos direitos, cidadania, participação popular,
essa tríade de noções que, desde meados dos anos 1990, passou a compor a lin-
guagem e a agenda dos programas sociais nas periferias urbanas: noções agora
esvaziadas de seu sentido político, declinadas em uma gramática gestionária que
arma algo como um jogo de faz-de-conta com a exposição dos casos “edificantes”
e “boas práticas” premiadas e celebradas em fóruns internacionais. Uma verda-
deira implosão semântica do léxico dos direitos, como disse Paulo Arantes (2000)
ao rastrear os usos proliferantes dessas noções, direitos e cidadania, em meio à
virada neoliberal dos anos 1990, do marketing social das empresas, passando
pelas ONGs, também as organizações fi lantrópicas tradicionais até o muito mo-
derno “empreendedorismo social”. Por todos os lados, uma afirmação ritualística
e protocolar da exigência ética da cidadania, mas que apenas confunde política
e bons sentimentos, embaralha as diferenças entre direito e ajuda humanitária,
entre direito e fi lantropia, ao mesmo tempo em que se configuram novas formas
de gestão do social voltadas à administração das urgências das chamadas popu-
lações em situação de risco, noção esta que, como será visto nesse capítulo, não
é inocente em seus pressupostos e suas consequências.
Na primeira parte desse capítulo, tentou-se identificar, ao menos assinalar, a
erosão do espaço político e o espaço conceitual nos quais se especificava o sentido

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político, polêmico e crítico das noções de direito, cidadania e espaço público.
Uma erosão que se fez acompanhar de novas formas de gestão do social que,
nos termos de Francisco de Oliveira (2003), não são mais do que a administra-
ção da exceção. Mais do que mudanças na conformação das políticas sociais,
não seria arriscado dizer que se trata de uma outra “invenção do social”, para
evocar aqui o título do livro de Donzelot (1984), que se faz no sentido contrário
(ou em outras direções) ao percurso discutido pelo autor ao tratar do diagrama
de relações e confl itos que desaguaram na moderna questão social, tal como
figurada e objetivada no correr do século XX. Não por acaso, os autores que vêm
lidando com esses temas evocam o termo pós-social (referência a Donzelot) ou
pós-disciplinar (referência a Foucault) para discutir as configurações políticas e
sociais que ganharam forma a partir da virada neoliberal dos anos 1980. Parte
dessa discussão será recuperada, não com o objetivo de esgotar um tema que,
em si mesmo, exigiria uma discussão à parte, mas para indicar alguns traços que
nos ajudam a pensar as reconfigurações sociais dos últimos tempos, nas quais
esses novos agenciamentos políticos, sob um lógica gestionária, também têm o seu
lugar. Como diz Frederic Gros (2006), é uma configuração na qual o indivíduo
não comparece como sujeito de direitos, mas como um indivíduo atravessado
por situações de “vulnerabilidade” associadas aos “riscos” (pobreza, doença,
crime, violência...), as quais exigem “uma vigilância constante de sistemas e de
homens” e que acionam a lógica da “intervenção”. Diferente da política (e seus
protocolos de discussão, negociação, deliberação e representação), a intervenção
é regida pelos critérios ditos técnicos de competência dos especialistas e é acio-
nada para restaurar uma ordem ameaçada, restabelecer harmonias rompidas,
reparar disfunções, encontrar soluções eficazes.
Pois bem, nossas perguntas foram formuladas justamente na fenda aberta
entre essa retórica e o teatro político postos em ação pelos dispositivos gestionários
que pontilham as periferias da cidade (não são ficções, fazem parte da ordem
das coisas; deparávamos o tempo todo com esses modos de intervenção social) e
ordenamentos sociais que vinham se fazendo, seguindo os vetores de mudanças
recentes, linhas de força que pareciam transbordar essas formas de gestão do
social e por onde parecia se constelar uma experiência social (e urbana) que
também não respondia ou correspondia às formas conhecidas de interpelação
política. E era isso, esses ordenamentos, que interessava perscrutar. Era isso que
colocava a pergunta sobre os parâmetros a partir dos quais tratar das formas
sociais que vinham se constelando nas fronteiras incertas do formal e informal,
do legal e ilegal, também do ilícito, pontuadas pela experiência recorrente da
morte violenta e da truculência nos modos de operação das forças da ordem,
sobretudo a polícia, mas não apenas ela. Aqui, um comentário necessário: esses
jogos de poder e relações de força, que identificamos nas dobras do legal-ilegal,
entram em ressonância e se comunicam com outras dimensões dos ilegalismos
que atravessam a cidade e se constelam nos espaços urbanos, nas regiões de
ocupação e moradia precária que, ao longo dos anos 1990, se expandiram por

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toda a mancha urbana, também permeadas de situações de tensão e confl ito em
torno dos litígios de terra, políticas de remoção, práticas truculentas que acom-
panham as chamadas “reintegrações de posse”, enfim, tudo isso que compõe o
que a literatura especializada chamou de “cidade ilegal”. Esse foi tema tratado
na pesquisa original (cf. Telles & Alves, 2006; Alves, 2007) e que compunha
o leque de questões que nos movia e que lançava a interrogação sobre o jogo
de referência a partir do qual situar realidades as quais não mais poderiam ser
tratadas sob o prisma das mazelas de uma “modernidade incompleta” e que
pautara em grande medida os debates nas décadas anteriores.
Esse capítulo estrutura-se em três andamentos. Primeiro: em diálogo com as
questões propostas por Francisco de Oliveira, trabalhando os registros (alguns
deles) da erosão do campo político (e espaço conceitual) dos direitos e cidada-
nia (tal como rapidamente indicado acima), um esforço no sentido de deslocar
o jogo de perspectivas para lidar com essas situações. Aqui nos movimentamos
no espaço conceitual em que se situam as noções de estado de exceção e vida
nua, tal como formuladas por Agamben. Não se trata, longe disso, de “aplicar”
uma teoria ou de enquadrar essas realidades e “explicar” o que quer seja. Se
essas noções são importantes é porque nos ajudam a formular nossas próprias
questões, oferecem um jogo de referências que permitem traçar o plano em que
os problemas podem ser formulados e lançados como questões orientadoras nessa
prospecção dos mundos urbanos redesenhados nos últimos tempos. Em outros
termos: um plano em que os problemas podem se colocar ou uma encruzilhada
deles que exige um trabalho de elaboração teórica por nossa própria conta e
risco, em diálogo com a experiência do próprio trabalho de campo. Como diz
Foucault, os conceitos funcionam como “caixa de ferramentas”, um seu uso
não-categorial; eles nos orientam na formulação de nossas próprias questões a
partir de um certo crivo, perspectiva pela qual essas questões podem ser postas
como algo no qual ressoam os problemas de nossa atualidade. Na verdade,
essa é uma inquietação que comanda, de ponta a ponta, o modo como, nos três
últimos capítulos, tentou-se trabalhar o material empírico que tínhamos à mão.
É por isso que essa segunda parte leva como título a formulação da questão que
se tentou enfrentar nesse capítulo: deslocando o ponto da crítica.
O crivo pelo qual se tentou seguir na prospecção dos mundos urbanos foram
as situações de exceção engendradas nesses terrenos incertos entre o ilegal,
o informal e o ilícito. Mais do que um tema interessante entre outros em uma
agenda de pesquisa, a aposta é que esses terrenos de exceção, justamente porque
estão no coração da vida contemporânea, aqui e alhures, podem nos oferecer os
elementos para pensar e formular os desafios atuais. É aí que se joga a partida
entre a vida nua, quer dizer: vida matável; e as formas de vida, quer dizer: pos-
sibilidades e potências de vida. De alguma forma, e também por nossa própria
conta e risco, acolhemos a sugestão de Agamben quando diz que “é a partir
desses terrenos incertos e sem nome, dessas ásperas zonas de indiferença, que
deverão ser pensadas as vias e os modos de uma nova política” (2003: 189).

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Não estou nada segura de que um “nova política” seja possível, muito menos
acerca do que ela poderia ser. Porém, a questão é interessante pela própria
indeterminação de seu sentido, algo como uma fenda aberta para apreender as
linhas de fuga que atravessam o atual estado de coisas.
Segundo: no que diz respeito aos ilegalismos urbanos, tal como vêm se per-
fi lando nos circuitos dos mercados informais e ilegais, tratou-se de situá-los em
um outro jogo de escala e sob uma perspectiva ampliada, pertinente às confi-
gurações do capitalismo contemporâneo. Um outro registro da exigência de um
deslocamento de parâmetros: não mais essa espécie de buraco negro a indicar
os avatares, bloqueios e impasses de uma modernidade incompleta ou, para usar
os termos de Francisco de Oliveira (2007), a “exceção do subdesenvolvimento”.
É aqui que ganha pertinência a pergunta sobre os ordenamentos sociais que vêm
sendo urdidos nas dobras do mundo atual. É essa a pergunta que os autores
comentados nesse capítulo (e outros, como será visto no capítulo seguinte) se
fazem quando se propõem a prospectar – e descrever – os feixes das conexões e
suas redes em escalas variadas que se fazem nas fronteiras incertas do formal e
informal, do legal e do ilegal, para apreender o modo como Estado, economia e
sociedade se redefinem entre a implosão de suas formas canônicas e a configu-
ração de novos diagramas de relações e de domínio, também de formas sociais
e de confl ito entre grupos sociais e atores (outros jogos de atores) que também
dão os sinais de uma experimentação histórica a ser seguida de perto.
Terceiro: mais do que simplesmente dizer e postular que “tudo mudou”, é
preciso saber mostrar como esses processos operam em contextos situados. Não
se trata de “demonstrar” uma tese geral, entregar provas e seus certificados
de verdade. Aqui se está no cerne do que antes foi proposto como etnografia
experimental. Em seu ponto de mira, as conexões e as mediações pelas quais
se processam os deslocamentos das fronteiras do informal, do ilegal e do ilí-
cito. Também os agenciamentos práticos ancorados nas circunstâncias da vida
cotidiana, por meio dos quais os indivíduos transitam nessas fronteiras poro-
sas, mas que também operam como conectores dessas linhas cruzadas que
tecem o mundo urbano. Assim, em uma primeira cena descritiva, a meada de
intermediários e os dispositivos situados territorialmente que viabilizam essa
ampla circulação de pessoas e produtos que seguem as trilhas das redes de
subcontratação, tal como foi descrito páginas atrás. Ou então, segunda cena,
as circunstâncias da moradia precária em que o acesso a serviços ou a disputa
em áreas de ocupação mobiliza um jogo de atores no qual se fazem presentes
indivíduos e suas famílias, agentes públicos, lideranças comunitárias, ONGs e
associações de fi liação diversa, inclusive a chamada fi lantropia empresarial. Mas
também os chefes locais do tráfico de drogas e dos negócios ilícitos: é com eles
que é preciso negociar, fazer acordos, chegar a entendimentos, no mínimo para
garantir a proteção para realizar o trabalho esperado, e também para agenciar
os modos como os serviços serão realizados e distribuídos na região. Em uma
terceira cena, é um programa de distribuição de cestas básicas que é, todo ele,

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agenciado pelos chefes locais do tráfico de drogas, que se encarregam de arti-
cular toda uma rede de colaboradores e aliados, entre comerciantes e perueiros,
clandestinos ou não, além do uso, digamos assim, “solidário” do “excedente”
dos negócios ilícitos locais.
Nessas cenas, poderíamos multiplicá-las, encontramos todos os ingredientes
que compõem a agenda das pesquisas e propostas de “boas práticas” para uma
boa e virtuosa gestão da vida local: solidariedade intrapares, capital social e rede
social. Está tudo aí, não falta nada. Todos os elementos pelos quais se constrói
a ficção comunitária que está, hoje, no coração das formas contemporâneas de
gestão social, a rigor, o biopoder de que fala Foucault (2004) e é por ele identi-
ficado no centro da governamentalidade liberal: gestão das populações, gestão
das vidas, administração de suas urgências. Porém, como diz Bruno Latour
(1994: 115), se o assunto são as redes, não se trata de escolher entre o “local”
e o “global”, para reter os termos da moda, pois “as redes não são, por natureza,
nem locais nem globais, são mais ou menos longas, mais ou menos conectadas”.
E envolvem “boas conexões” e “más conexões”. Quer dizer: o problema todo está
em saber e compreender o modo como os vínculos e conexões operam, já que,
sempre situados, se fazem na composição e conjugação entre circunstâncias, fatos,
coisas e atores. É aí nessas intersecções que as coisas circulam, que os fatos são
produzidos, que tramas de relações e de poder são construídas. É exatamente aí
que se torna perceptível a pulsação do mundo urbano. É por aí que passam as
linhas de força pelas quais o estado de coisas atual se configura e se transforma.
É também aí que se alojam os pontos de fricção dos ordenamentos sociais que
vêm se desenhando ou já se constelaram na virada dos tempos.
Texto de passagem, no seu conjunto, esse capítulo apresenta uma primeira
aproximação de questões que terminaram por pautar todo um programa de pes-
quisa. Alguns de seus resultados são apresentados na sequência. No capítulo 5,
“Nas dobras do legal-ilegal: ilegalismos e jogos de poder”, tentou-se especificar
o lugar desse feixe variado de ilegalismos no tecido urbano. Aqui, a noção-chave
que nos orienta nessa discussão (e descrições) é a de gestão diferencial dos ile-
galismos (Foucault). Páginas atrás já se adiantou a discussão desenvolvida nesse
capítulo. Vale acrescentar algumas questões que esclarecem o modo como se
propõe trabalhar com essa noção. Ilegalismos: nos termos propostos por Foucault,
não se trata de um certo tipo de transgressão, mas de um conjunto de atividades
de diferenciação, categorização, hierarquização postas em ação por dispositivos
que fi xam e isolam suas formas e “tendem a organizar a transgressão das leis
numa tática geral de sujeições” (2004: 226). É importante reter essa diferença
entre ilegalismos e modos de objetivação (a “delinquência” é uma delas, tal
como o fi lósofo discute em Vigiar e punir), os pontos de incidência das clivagens
produzidas e seus efeitos, assim como os campos de gravitação de práticas, de
disputas, de confl itos e jogos de poder. É o que permite colocar em perspectiva,
em um mesmo plano de referência, essas transgressões múltiplas, sem dissolvê-
las sob um nome comum ou em um amálgama confuso e indiferenciado.

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Como diz Lascoume (1996), “ilegalismos” é um instrumento de análise que,
aqui, no uso que se está fazendo da noção, permite rastrear essa transitividade
entre o ilegal, o informal e o ilícito, que foi aqui o nosso ponto de partida, sem
se deixar cativo, digamos assim, dos objetos e campos de objetivação postos,
no que diz respeito aos temas aqui tratados pela economia, pela sociologia do
trabalho, também pela sociologia urbana (o problema do formal-informal) ou
pela criminologia (crime e delinquência). Mas é também o que permite colocar
em um mesmo plano de referência as formas de controle e poder que se dife-
renciam, que também assumem dimensões territorializadas conforme as formas
e distribuição diferenciadas dos ilegalismos nos espaços urbanos. Formas de
controle que oscilam entre a transgressão consentida, o jogo pesado de chan-
tagem e extorsão implicado na transação das mercadorias políticas, a violência
extralegal e a prisão (isto é, um dispositivo legal) que parece recair sobretudo
sobre uma criminalidade urbana difusa, avulsa, desterritorializada e que vem
abarrotando os dispositivos carcerários, resultado do endurecimento penal dos
últimos anos. Em seus vários registros, a gestão diferencial dos ilegalismos nos
ajuda a traçar as linhas que desenham a cartografia do social e situar seus pontos
de fricção, também suas transversalidades, os “vasos comunicantes”, como diz
Rafael Godoi (2009), nesses lugares em que a experiência com a lei e as forças
da ordem abre-se a uma disputa sobre os sentidos de ordem e seu avesso.
Se é nesse espaço conceitual que se situam as questões postas nesse capítulo,
do ponto de vista empírico e histórico o esforço vai no sentido de situar esses
ilegalismos no cenário atual, no cerne das formas contemporâneas de produção
e circulação de riquezas, os quais têm impactos consideráveis nas dinâmicas
urbanas, também nos chamados países do Norte. Em um primeiro momento,
tratou-se de seguir as pistas que diversos autores nos entregam em suas pesquisas
realizadas nas fronteiras europeias e que interessam na medida em que oferecem
um repertório ampliado de referências pertinentes ao cenário contemporâneo.
São essas as referências mobilizadas para situar e descrever a situação brasilei-
ra a partir de três cenas descritivas. Em cada qual, jogos situados de escalas.
Configurações diferentes dos campos de força nos quais e através do quais os
ilegalismos fazem o traçado da vida urbana. Primeiro, os ilegalismos difusos
inscritos nas “mobilidades laterais” das figuras contemporâneas do trabalhador
urbano: é a cena descritiva que abre esse capítulo. Depois, os circuitos entrela-
çados no comércio informal e que fazem ver os ilegalismos pulsando no centro
nervoso da economia urbana da cidade. Por último, o cenário é a periferia pau-
lista, onde todos esses fios se enredam, também no varejo da droga, um plano
crivado pela clivagem entre ilegalismos e crime.
No capítulo 6, “Ilegalismos e a gestão (em disputa) a ordem”, retomam-se
e desdobram-se questões discutidas na última cena descritiva acima indicada.
Nosso “posto de observação” é um bairro de periferia. O ponto de partida da
discussão é a redução acentuada (e impressionante) das taxas de homicídio na
Grande São Paulo a partir do início dos anos 2000, depois de duas décadas

38
seguidas de curvas ascendentes, com picos altíssimos no final da década de
1990. Mais especificamente: as evidências de que, em torno do mercado varejista
de droga que, desde o início dessa década, estruturou-se mais amplamente na
cidade, sob o controle da organização criminosa que leva o nome de Primeiro
Comando da Capital, o PCC, ganharam forma modos de regulação, mediação
e arbitragem das desavenças e disputas internas aos “negócios do crime”, os
quais buscam estancar as soluções violentas. Um conjunto de práticas, códigos,
protocolos e procedimentos que são sempre situacionais, com modulações que
variam conforme a extensão do problema, a gravidade do assunto, as relações
e comprometimentos envolvidos. São mecanismos de arbitragem. O chamado
“debate” é uma de suas formas, a mais importante. No início, um mecanismo
posto em prática na resolução das desavenças internas aos “negócios do crime”
e às organizações criminosas. Surgiu, primeiro, no universo carcerário (também
aí se deu a diminuição das mortes violentas), transborda, depois, para os bairros
das periferias da cidade e, em pouco tempo, coisa de poucos anos, passou a ser
acionado para a regulação de microconfl itos cotidianos: de brigas de vizinhos
a disputas em torno da distribuição de lotes em áreas de ocupação, pequenos
delitos locais e miríades de situações próprias à vida desses bairros. O “debate”
passou a ser referência que compõe o repertório popular. Não poucas vezes, são
os próprios moradores que procuram o “patrão” da “biqueira” local para arbitrar
litígios e desacertos cotidianos, o que ele pode fazer ou não, a depender das
circunstâncias e das implicações envolvidas. Às vezes, no caso de assuntos me-
nores e localizados, basta a presença do “patrão” da “fi rma”, que intervém para
“trocar uma ideia”, outra expressão que também circula no “mundo do crime”
e fora dele, por todo o bairro, modulação mais informal e de circunstância do
“debate” para a regulação e arbitragem de confl itos locais.
Isso está registrado em nossos diários de campo, nossos e de todos os pes-
quisadores que, nesses anos, fizeram seu trabalho de campo nessas regiões (cf.
Feltran, 2009): qualquer morador diz e repete com convicção: “agora, não pode
matar”. Contraponto com o tempo, pouco tempo antes, em que ao falar de suas
trajetórias, homens e mulheres (mais os homens que as mulheres) faziam uma
verdadeira contabilidade dos mortos: “morreram todos” era a expressão que
então circulava. É coisa de poucos anos: essa diferença também está registrada
em nossos diários de campo. E é daí que se parte para fazer a discussão.
Não é objetivo desse capítulo entrar na polêmica sobre indicadores e fatores
que explicariam as evoluções recentes das taxas de homicídios. Entre muitas
outras, a “hipótese PCC” também circula nessas discussões. E se esta interessa,
é porque em torno dela se pode lançar três ordens de questões.
Primeiro: desde que sem se deixar tomar pela fantasmagoria (que também
circula nesse debate) de um monstro tentacular que impõe seu domínio pelo
terror, é preciso deslindar esse ancoramento do PCC nas tramas sociais das pe-
riferias paulistas. Mais precisamente, esse o fulcro do que se pretende discutir:
o que está em jogo nessa espécie de gestão da ordem que parece passar por

39
mediações, protocolos e códigos distantes (porém, não à margem) da normativi-
dade legal-formal. É nesse ponto que as questões assinaladas páginas atrás serão
trabalhadas: uma gestão da ordem que parece se fazer pelas vias de agencia-
mentos práticos nas dobraduras da vida social, quer dizer: nos pontos em que se
entrelaçam as forças da lei (e seus modos de operação), os ilegalismos (e nesse
caso, a clivagem entre ilegalismos difusos e o crime) e as microrregulações da
vida cotidiana. Isso não é de agora, está presente na história urbana, ao menos
tal como pudemos apreender nos percursos cruzados dos personagens urbanos,
cujas histórias tratamos de reconstruir. O ponto importante a ser enfatizado e que
será trabalhado ao longo desse capítulo: se há uma novidade no acontecimento
PCC, é preciso situá-la nesse plano, nos pontos em que esse acontecimento se
comunica com uma experiência que vem de antes e que faz parte da história
urbana dessa cidade, quiçá de outras.
Segundo: será importante se deter na lógica que parece reger a “pacificação”
desses territórios, pois é isso que pode nos dar as pistas para compreender o
que está em jogo nessas formas de gestão (em disputa) da ordem. Começando
pela hipótese mais evidente, quase óbvia: as razões instrumentais próprias desse
mais do que rendoso mercado em uma situação de controle do PCC sobre o
fornecimento da droga, o que parece ter refreado a disputa de territórios. Mas
o mercado, também o mercado de bens ilícitos, não é uma entidade abstrata. O
seu funcionamento supõe e ao mesmo tempo engendra uma trama complexa de
relações, interações e intercâmbios sociais, redes sociais, também redes e rela-
ções de poder. Sob esse prisma, as coisas ficam menos evidentes e nada óbvias.
Em torno de um ponto de droga, a “biqueira”, estrutura-se um muito instável
equilíbrio entre, de um lado, o jogo de poder posto pela compra de proteção e
a extorsão policial, a mercadoria política, como diz Michel Misse, de que de-
pende o funcionamento do negócio e faz parte de seus modos de regulação. De
outro lado (e ao mesmo tempo), as circunstâncias da sociabilidade local, entre
o respeito às regras da reciprocidade da vida cotidiana, o cálculo refletido para
garantir a cumplicidade dos moradores contra as investidas da polícia e também
a estratégia para controle de território ante grupos rivais. O fato é que as micror-
regulações dos negócios locais da droga confundem-se, em muitos sentidos, com
a gestão e arbitragem de problemas, desavenças, confl itos cotidianos. Brigas de
vizinho, confl itos de família, adolescentes desabusados, barulho excessivo nas
horas tardias da noite, em suma, qualquer coisa que possa chamar a atenção da
polícia ou provocar a hostilidade e má vontade dos moradores, situação delicada
e perigosa, pois é sempre assim que surgem as temidas denúncias anônimas que
acionam a intervenção da polícia. Como diz Daniel Hirata (2010), a “biqueira”
funciona como uma espécie de caixa de ressonância de tudo o que acontece no
bairro e é por isso que termina por se tornar um lugar estratégico para a gestão
da ordem local.
Esse é um cenário também atravessado por redes superpostas e embara-
lhadas de pessoas, trocas, produtos, bens que circulam nas fronteiras incertas

40
do informal e o ilegal, entre expedientes de sobrevivência, o trabalho irregu-
lar, pequenos empreendimentos locais e negócios ilegais vinculados ou não (ou
não necessariamente) a organizações criminosas. E esse é o outro ponto a ser
considerado: essa gestão dos negócios locais, na sua interface com as tramas
cotidianas de bairro, tangencia esse feixe de ilegalismos que também interagem
com as redes da sociabilidade local. São práticas e redes sociais que atravessam
e compõem a vida de um bairro de periferia. E criam outras tantas zonas de
fricção que, também elas, precisam ser bem agenciadas para evitar complica-
ções com a população local e, sobretudo, evitar ocorrências indesejáveis com a
polícia. Esse o outro vetor de regulação dos negócios locais da droga e que se
desdobra na gestão dos confl itos e tensões que podem também desembocar em
soluções de sangue. Como bem nota Daniel Hirata (2010), é nesse plano que
é possível entender a construção social do mercado dos bens ilícitos: em torno
de uma “biqueira”, um feixe de relações em que se articulam os mercados de
proteção, as microrregulações da vida cotidiana e esse feixe de ilegalismos que
estão, hoje, no coração do mundo urbano. E é nesse plano que se pode entender
o ponto de incidência do PCC e suas capilaridades nas tramas da cidade.
Terceiro: ainda resta entender a lógica interna desse conjunto de práticas re-
gidas pelo imperativo de estancar as soluções violentas. Concretamente: estancar
a morte violenta. Estancar, quer dizer: algo que está latente e sempre no limiar
de surgir e se desdobrar em ciclos de vingança que podem ser devastadores,
quase irrefreáveis. Como diz um de nossos entrevistados, “bandido formado”,
como ele mesmo se define, longo percurso na pequena criminalidade urbana,
muitos anos de cadeia e, depois, “gerente” da “biqueira” local: “se você mata...e
não era para o cara morrer, aí você também vai morrer, é a guerra”. Essa “pa-
cificação”, portanto, precisa ser situada em relação a esse longo ciclo de mortes
violentas das décadas anteriores. É isso, a rigor, que ainda tem que ser mais bem
entendido. Mas, então, é de interesse recuperar algo da história urbana recente,
tendo em mira o que parece ter acontecido nessas décadas, ao menos em alguns
bairros (ou muitos) da periferia paulista. Esta é uma questão de pesquisa, pistas
(algumas) que tratamos de seguir em nosso trabalho de campo.
Aqui, nesse ponto, recupera-se a questão discutida no capítulo dois, a im-
portância de se reter a cidade como plano de referência. Não se trata de definir
o “contexto” a partir do qual situar e explicar por derivação de supostas cau-
salidades gerais o que pode ter acontecido nesses lugares. Trata-se de fazer ver
conexões e mediações por onde se processa a experiência urbana e que ficam
inteiramente fora de mira se se atém ao objeto já posto e já codificado como
crime, criminosos e violência, e seus indicadores. Retomando uma questão
apresentada páginas atrás: uma experiência que se processa nas dobras do legal-
ilegal, as relações de poder e força que se processam nesses pontos de fricção
da lei e seus modos de operação. Nos termos de Michel Misse (2007), referência
importante nessa discussão: os “excessos de poder” implicados nos modos de
incriminação postos em ação pelas forças policiais, que se desdobram no uso

41
dos procedimentos extralegais (mercados de proteção, práticas de extorsão) e
da violência letal (execuções) e que estão no cerne do que o autor chama de
“acumulação social da violência”. Nos termos de Das e Poole (2004): produção
das “margens”, espaços de exceção, mas espaços que se produzem nos pontos
de intersecção entre os modos de operação das forças da ordem e outros modos
de regulação ancorados nas circunstâncias práticas de vida, em seus imperativos
de sobrevivência, necessidades de segurança, sentidos de ordem e justiça. Essa
é uma chave possível para conferir inteligibilidade a uma experiência urbana
que se processa entre a violência policial e a “morte-matada” (e sua ameaça)
desencadeada nos pontos incertos de clivagem entre os ilegalismos difusos e o
crime. É nesse registro que se podem apreender mecanismos de uma gestão da
ordem que não se faz à margem da lei e do Estado, que não poderia, por isso
mesmo, ser tão somente tributada ou reduzida a algo como cultura e tradições
populares. Talvez uma economia moral nos termos propostos por Thompson
(1979), ativada nesses campos de gravitação da experiência urbana, campos de
força engendrados nesses pontos de incidência da lei (seus modos de operação),
os ilegalismos e as formas de vida. Com modulações diferentes, conforme tempos
e contextos urbanos que se modificaram no correr das três ultimas décadas,
este é um prisma que se abre a partir das pistas que nos foram entregues pelos
percursos dos personagens urbanos cujas histórias procuramos reconstituir.
É nesse plano que se podem apreender as formas de uma gestão local da
ordem, sempre refeita e sempre desestabilizada pelos ciclos de violência acionados
pela lógica da vingança que escapa e vaza dos agenciamentos e microrregulações
locais. Essa a lógica de vingança que parece ter sido estancada pelos procedi-
mentos postos em ação pelo PCC: mecanismos de resolução de desavenças e
disputas não apenas internas à organização criminosa e aos negócios da droga,
mas esses pontos de fricção que se multiplicam ou tendem a se multiplicar na
própria medida em que os ilegalismos se redefinem, se expandem e se ramificam
no mundo urbano dos anos 2000.
Que se diga, desde logo: esse capítulo não é sobre o PCC, tampouco sobre
o mercado de drogas ilícitas. Se um e outro entram no ponto de mira de nossas
descrições, é porque são hoje fatos incontornáveis do mundo urbano. Para escla-
recer o andamento desse capítulo, talvez sejam importantes algumas observações
prévias sobre o modo como essa pesquisa foi feita.
Em 2001, quando iniciávamos o trabalho de campo, uma das regiões esco-
lhidas para a pesquisa foi o Distrito do Jardim São Luiz, periferia sul da cidade.2
No correr das décadas, essa região sempre compareceu nos primeiros lugares no
ranking dos lugares mais violentos da cidade, quer dizer: no ranking de mortes
violentas, homicídios. Nas entrevistas que então fazíamos e nas observações
que preenchiam os nossos diários de campo, era frequente o comentário: “o

2
Uma outra equipe deslocou-se para o extremo leste da cidade, Guaianazes e Cidade
Tiradentes.

42
problema da região está na rua Y do bairro X”, é lá que as mortes acontecem,
é lá que está o problema. Depois de ouvir inúmeras histórias, ficções ou fatos,
pouco importa, ficou claro que era para lá mesmo que deveríamos nos dirigir.
Não porque estivéssemos interessados no tema da violência, que não era e nunca
foi nosso tema de pesquisa. Mas havia algo como uma lenda-negra desse bairro
e quisemos saber do que se tratava. O “mistério da rua Y”, isso até parecia
título de romance policial: foi assim que chegamos ao lugar. Pela intermediação
do chefe do Centro de Saúde da região, fomos apresentados a uma importante
liderança comunitária. Ela morava (e mora) precisamente lá, na rua Y do bairro
X. E foi aí, precisamente aí, que a pesquisa começou. Não é irrelevante contar
como fomos apresentados: “a professora da USP e seus alunos” estão fazendo
uma pesquisa e ouviram dizer, “todo mundo” diz isso, que “tudo de ruim” que
acontece na região é por conta da rua Y do Bairro X. Isso funcionou como um
“abre-te, Sésamo”. A resposta: “nunca ninguém veio aqui para saber a nossa
opinião”. Em pouco tempo já estávamos em campo, fazendo entrevistas, obser-
vando, preenchendo os nossos diários de campo. Como em outras regiões em
que fazíamos a pesquisa, histórias de vida e trajetórias urbanas.
Logo ficamos conhecidos por conta dessa estranha e inaudita disposição para
ouvir histórias e conversar sobre elas. Foi exatamente por isso que, de uma certa
feita, fomos procurados por um rapaz de 25 anos, aliás genro dessa senhora que
nos acolhia, ex-preso, na verdade, foragido: muitos anos de Carandiru, outros
tantos em outras unidades prisionais. Fazia poucas semanas, pouco mais de um
mês, que ele voltara ao bairro. Evidentemente afetado pela experiência na prisão,
era sobre isso que ele queria conversar – ele queria contar a sua história. Pois
essa história nos ofereceu quase que um roteiro de pesquisa. Ou o script de um
enredo de aventuras, aventuras bandidas. É a história de um trabalhador (com
carteira assinada, bom salário, futuro promissor) que se viu em meio a um enre-
do de vingança familiar (1995) e que terminou por se envolver em uma guerra
sangrenta, muito sangrenta, entre duas gangues rivais; virou “bandido”, foi preso,
amargou longos anos de prisão, fugiu (2001) e, depois de um tempo de rumo
incerto, transformou-se em “patrão” do ponto de venda de drogas no local (2004).
As datas indicadas são importantes, pois dão a marcação dos tempos urbanos, tal
como, aos poucos, pudemos apreender nesse bairro, conforme prosseguíamos na
pesquisa. Pois tratamos de seguir o roteiro ou o script dessa história. O seu perso-
nagem principal funcionou como nosso “embaixador” no “mundo bandido”: outros
também quiseram contar suas histórias, várias. Ao mesmo tempo, entrevistas,
muitas, com moradores e suas famílias, alguns antigos, outros recém-chegados
no bairro, além das conversas “à toa”, micro-histórias de bairro, a observação
etnográfica e os nossos diários de campo. No seu conjunto, um entrelaçado de
histórias bandidas e não-bandidas que nos entregaram elementos para reconstituir
a história urbana local, desde os anos 1980. E por essa via, os elementos, para
situar o ponto de clivagem dos anos 2000, que têm como epicentro o ponto de
droga instalado no miolo desse bairro, nos primeiros anos da década.

43
O fato é que os tempos urbanos desse bairro são também (não só) marcados,
ritmados, por histórias de violência. Isso está posto na história local, também
nas biografias dos moradores comuns. Histórias de justiceiros e chacinas (anos
1980); histórias de “matadores” (expressão nativa, próxima, mas não idêntica,
a “pistoleiros”), mortes encomendadas e o mercado de execuções, guerra entre
gangues de bairro, disputa de territórios, soluções violentas para desavenças
locais (anos 1990), tudo isso permeado e também ritmado pela violência poli-
cial. Nesse capítulo, porém, o objetivo não é fazer o inventário das formas de
criminalidade urbana, muito menos oferecer explicações para a violência urbana.
Mas seguimos os rastros das “histórias bandidas”: histórias de justiceiros (anos
1980), matadores (anos 1990) e traficantes (anos 2000), os três personagens
urbanos que comparecem nas cenas descritivas armadas nesse capítulo. Cada
qual faz a marcação de temporalidades distintas e, sendo assim, talvez nos aju-
de a compreender as inflexões e deslocamentos da história urbana recente, em
compasso com evoluções da economia, sociedade e cidade. Cada qual resulta
de arranjos urbanos e contextos de criminalidade, cuja singularidade interessa
entender. Em torno de cada um desses personagens, configuram-se determina-
das relações com as forças da ordem e com os moradores, estas ancoradas nas
microrregulações locais. Esse o ponto que se tentará trabalhar ao longo dessas
páginas: agenciamentos distintos que, nas suas diferenças, nos informam algo
sobre uma gestão da ordem local que se faz nos pontos de intersecção da lei,
dos ilegalismos e das formas de vida.
Não estou segura de que tenhamos deslindado o “mistério da rua Y”, prova-
velmente não: ainda há muito a ser pesquisado, as lacunas são grandes e esse
capítulo apresenta apenas o que foi possível trabalhar com o material de uma
pesquisa que está longe de ser concluída. Sobretudo o longo (e espantoso) ciclo
de mortes violentas nos anos 1990 persiste como uma caixa-preta a ser ainda
aberta. E esse é, na verdade, o ponto cego das discussões correntes sobre a
queda dos homicídios no início dos 2000: os especialistas acompanham as os-
cilações dos indicadores, esgrimam suas hipóteses e apresentam as razões de
circunstância, sem que se indague sobre as causalidades e circunstâncias que
presidiram as curvas ascendentes de homicídios nas décadas anteriores, em
particular nos anos 1990.3 É uma questão de pesquisa. No que nos diz respeito,
tratamos de rastrear algumas pistas que nos foram entregues pelo trabalho de
campo. Mas outras, muitas outras, ainda precisam ser trabalhadas. Esse capítulo

3
Essa questão esteve no centro das discussões no seminário “Crime, violência e cidade”,
realizado em maio de 2009, como parte de um programa de cooperação franco-brasileiro
(Capes-Cofecub), envolvendo pesquisadores da USP, Unicamp, do Núcleo de Estudos da
Violência, NEV e, pelo lado francês, da Universidade de Toulouse Le Mirail e o CADIS.
Os comentários de Michel Wierviorka (Cadis) foram especialmente incisivos nesse ponto
cego das discussões. Uma primeiríssima e muito provisória versão desse capítulo foi apre-
sentada nesse seminário. E ainda será preciso mais trabalho empírico e teórico para dar
conta dessas questões.

44
pode e deve ser lido como uma primeira aproximação, e suas lacunas, que são
várias, estão ainda à espera de serem enfrentadas no curso de uma pesquisa
ainda em andamento.4
Enfim, não deslindamos o “mistério da rua Y”, mas não hesitaria em dizer
que, nessa pesquisa exploratória, nos foram entregues elementos para se pensar
as questões em jogo na “pacificação” desses territórios, a partir do que pudemos
acompanhar no até então muito mal-afamado Bairro X. Não deixa de ser interes-
sante notar: é justamente na “famosa rua Y” que os “debates” são realizados.
Como bem nota Daniel Hirata (2010) na etnografia de alguns deles, é na rua Y
que se realizam os debates não apenas para os assuntos do local, mas de toda
a região próxima. Tanto assim que, na linguagem nativa, quer dizer, linguagem
bandida, a rua Y é chamada de “o forinho”, corruptela do diminutivo de fórum.
A expressão também circula no repertório dos moradores locais. Antes, um
epicentro das histórias de morte da região. Depois, o epicentro de seus modos
de regulação (cf. Hirata, 2010).
Mas, então, é de interesse se deter na mecânica interna desse modo de arbi-
tragem que leva o nome de “debate”. Adiantando descrições apresentadas nesse
capítulo: é uma espécie de tribunal no qual se vai tentar encontrar soluções não
para quaisquer conflitos e desavenças, mas para aqueles que podem desencadear
desfechos violentos ou que estão no limiar de soluções de morte. Armada a cena
do debate, as partes envolvidas são chamadas a dar sua palavra para esclarecer,
justificar, apresentar suas razões e, se for o caso, se desculpar. No debate estão
sempre em jogo soluções de vida e de morte. O que vale é o poder da palavra.
É um jogo (mais parece duelo) de provas – provas da palavra, da palavra empe-
nhada, do argumento bem posto e aceito (ou não) em suas razões. O mediador
é a figura central: uma figura do PCC, quase sempre de fora do bairro, que
poucas pessoas conhecem, mas que impõe respeito porque é ele quem conduz
os trabalhos e encaminha a deliberação final. O debate sempre acontece com
a presença dos patrões da “biqueira”. Pode se prolongar por vários dias, com
data e hora marcadas e, conforme os casos e a gravidade do problema, outras
pessoas das relações próximas dos envolvidos são chamadas, também patrões
das “biqueiras” vizinhas e, sempre, outras figuras do PCC, dentro e fora das
prisões em comunicação por meio de seus celulares. O resultado pode ser um
acordo ou alguma forma de punição: um “corretivo” (quer dizer: uma boa surra,
que pode ser, mas nem sempre, bastante atroz), a expulsão do bairro, proibição

4
A pesquisa foi realizada em dupla, Daniel Hirata e eu. Por circunstâncias de momento,
esse texto não pôde ser escrito a quatro mãos. As questões aqui discutidas foram elaboradas
nessa parceria de pesquisa ao longo de quase oito anos de trabalho de campo. Em sua
última parte, o texto incorpora um artigo escrito conjuntamente (Telles & Hirata, 2007) e é
amplamente municiado por questões tratadas por Hirata em sua tese de doutorado (Hirata,
2010). Se méritos houver nesse texto, todos eles devem ser partilhados. As imperfeições
são de minha inteira responsabilidade.

45
de vender drogas na região, outras. Ou então, a morte – condenação sumária e
irrevogável (cf. Hirata, 2010).
Essas são situações das quais os moradores não tomam parte, mas os rumores
sempre correm por todos os lados. E todos comentam: foi-se o tempo em que os
justiceiros aterrorizavam os jovens desabusados da região; em que o “mata-mata”
entre grupos rivais transformava o bairro em um verdadeiro campo de guerra
que podia prolongar-se por meses seguidos; no qual morria gente quase todos
os dias por conta de desacertos quaisquer ou simplesmente desafetos entre uns
e outros; em que a polícia aparecia também quase todos os dias, barbarizando
os moradores, sobretudo, os mais jovens, e as execuções também compunham
o dia a dia do bairro, e de todos os outros.
Na cena desses debates, como parece evidente, exercita-se uma modalidade
do poder soberano: “poder matar, deixar viver”. É isso o que está posto nos
protocolos e procedimentos que regem o jogo regulado do exercício da palavra
das partes envolvidas e a deliberação final. Mas, então, seria possível dizer
que se está presenciando algo como poderes de soberania em disputa. Talvez
seja isso o que esteja em jogo nesses espaços produzidos como margem. Se há
uma “pacificação” relativa desses territórios, ela também precisa ser coloca-
da em perspectiva e em relação com as modalidades de operação das forças
da ordem que continuam presentes, marcando e demarcando esses territórios
como espaços de exceção. Os procedimentos extralegais da polícia continuam
operantes, com seus mercados de proteção e práticas de extorsão. A violência
extralegal persiste, as “mortes seguidas de morte” têm aumentado nos últimos
anos, continuam alimentando as listas de mortes violentas, o que pode chegar
a extremos, como aconteceu após as ações do PCC na cidade de São Paulo, em
maio de 2006: 493 execuções pela Policia Militar em uma semana, mais de
mil nos meses seguintes. E há evidências de um recrudescimento dos grupos
de extermínio, que nunca deixaram de existir, mas que parecem ter voltado à
ativa, e de modo bastante virulento, após 2006, conforme relatório do Human
Rights Watch publicado em dezembro de 2009.
No bairro X, os mercados de proteção e práticas de extorsão persistem, tanto
quanto as suas oscilações, que seguem os imponderáveis das microconjunturas
políticas e dos rearranjos internos às forças policiais e equipes que dividem
entre si (e disputam) essa preciosa fonte de renda e poder. A “biqueira” local (e
o entorno imediato) tem sido relativamente preservada (até quando?) das formas
mais truculentas da ação policial. Talvez uma cartografia das execuções policiais
(se é que isso é possível) pudesse esclarecer a lógica que preside a escolha de
lugares e vítimas, acordos desfeitos em alguns casos, revides e vinganças em
outros e também, quem sabe, a distribuição desigual da presença e força do
PCC nesses espaços.
Poderes de soberania em disputa: é uma pista possível a ser trabalhada. Se
isso for pertinente, então também será preciso qualificar melhor a questão. Pois
um não replica o outro, o PCC e seus debates não são o decalque das formas

46
do Estado. Não se trata, como muitas vezes se diz, da aplicação tirânica de um
corpo fechado de normas, regras, leis imperativas emanadas de um corpo cen-
tral. O PCC e seus “debates” não são uma replicação das formas verticalizadas
do Estado. Não operam como Estado paralelo: mais do que um equívoco, seria
uma forma de des-conhecimento insistir nessa tecla que muitas vezes se repete
quando o assunto vem à baila. São outras as lógicas. Mas tampouco se avançaria,
insistindo em encontrar a chave explicativa nos modos de funcionamento interno
da organização, até porque esta é mais porosa e mais modular (não modelar)
do que se supõe, muito distante dos modelos da máfia e congêneres com suas
estruturas piramidais, fechadas, hierarquias e lugares normativamente fi xados.
Na formulação precisa de Fernando Salla (2009: 9), analisar a força ou fraqueza
dos grupos criminosos exigiria perguntar não apenas por suas características
internas, não apenas pela natureza das atividades criminosas que eles dominam,
“mas também pelas transações que são capazes de estabelecer no domínio de seus
negócios com as forças da lei, pelas relações que costuram com as comunidades
onde atuam e ainda pelas transações que atravessam o sistema prisional”.
É sempre possível ponderar que tudo isso é muito instável e é o caso de se
perguntar – e todos se perguntam, também os traficantes e moradores locais
– o que poderá acontecer quando e se o PCC perder o controle do mercado de
drogas em São Paulo. No horizonte dessa pergunta está a situação do Rio de
Janeiro e as sangrentas disputas entre “comandos” rivais. Mas isso são espe-
culações. Porém, mesmo na hipótese de que essa situação não se mantenha, é
preciso também reconhecer que isso já produziu efeitos, fatos e acontecimentos
que compõem e se compõem com a dinâmica urbana de São Paulo. E não é
nada irrelevante lembrar que são fatos e acontecimentos que se processam no
coração de uma metrópole, hoje, amplamente celebrada por sua modernidade
globalizada. Ramificam-se pelos meandros dos ilegalismos engendrados no centro
dinâmico da cidade, e do mundo contemporâneo. Os sentidos de lei, de justiça,
de ordem (e seu inverso) em disputa: talvez seja nisso que se possa apreender
o que está em jogo nesses espaços produzidos como espaços de exceção e que
estão no cerne dos modos de funcionamento do Estado, nessas pontas em que
sua presença afeta as vidas e as formas de vida.
Nem conclusões, nem considerações finais: apenas perguntas as quais, tam-
bém elas, ainda têm que ser mais bem formuladas. E são essas que importam,
pois são elas que podem nos lançar para além do círculo fechado do presente
imediato. Talvez seja essa a experimentação – e o trabalho do pensamento como
experimentação – a que somos levados ao seguir os traços dos ilegalismos nos
meandros do mundo urbano atual.

***

47
Este trabalho não teria sido possível sem um coletivo de pesquisa e os inter-
locutores que nos acompanharam desde o início. Mais do que os agradecimentos
de praxe, o reconhecimento do lugar de cada um nesse percurso. Antes de mais
nada, a Robert Cabanes (IRD, França), com quem partilhei a coordenação da
pesquisa que esteve na origem desse trabalho. Com ele aprendemos a arte do
detalhe, a importância de se deter nos microeventos de que são feitas as traje-
tórias de homens e mulheres. Pesquisador incansável, é ainda dotado de um
especialíssimo talento em abrir frentes de pesquisa, a curiosidade fecunda em
seguir os achados de pesquisa, aberto, sempre, ao imprevisto do trabalho de
campo. Sem isso, teria sido impossível a pesquisa exploratória sobre a qual tanto
foi dito nesta introdução. E isso foi mais do que importante na formação de um
coletivo de pesquisa, constituído, no início, por jovens estudantes (bolsistas de
Iniciação Científica e pós-graduandos) que se tornaram pesquisadores experientes
e, hoje, nossos parceiros de pesquisa.
O projeto inicial foi desenvolvido em grande medida nos quadros do Cenedic.
A interlocução com Francisco de Oliveira acompanhou todo esse percurso. Com
ele aprendemos a importância da imaginação crítica e a tarefa da crítica nesses
tempos em que a política parece ter deslizado para a gestão das urgências, da
“exceção que se tornou a regra”. A crise da política (e a erosão de suas media-
ções), foco de suas reflexões, é questão presente nas linhas e entrelinhas desse
texto, tanto quanto esteve presente, também nas linhas e entrelinhas, no livro
cuja coordenação partilhei com Robert Cabanes. Cibele Saliba Rizek acompa-
nhou passo a passo essa pesquisa, e também as pesquisas que, depois, foram
desenvolvidas pelos jovens pesquisadores como pós-graduandos. No encontro
de questões e inquietações comuns, apreendemos muito sobre os sentidos da
cidade e suas figurações, sobre a indeterminação dos tempos que correm e
reordenamentos sociais cujas lógicas tratamos de perscrutar.
Reafirmando uma interlocução já de longa data, foram várias as oportunidades
de discutir nossas questões com Lúcio Kowarick. Também vários os momentos
em que, trabalhando juntos nos pontos de convergência de nossas respectivas
pesquisas, pudemos ver confi rmada a questão que Lúcio sempre e desde há
muito nos apresenta: a cidade como espaço de luta, mesmo ou, sobretudo, nos
registros mais agudos desse “viver em risco” que conforma a vida urbana e que
ele sabe tão bem pesquisar e lançar ao debate.
Com Angelina Peralva, mais do que uma interlocução fecunda, a parceria
em um projeto comum (Acordo Capes-Cofecub) foi decisiva para o giro de pers-
pectivas a fim de lidar com os ilegalismos urbanos, tema central da segunda
parte deste livro. A possibilidade que se abriu para pensar essas questões sob
outros prismas, “postos de observação” instalados nos chamados países do Nor-
te, e suas fronteiras. Outras questões em jogo, outros campos polêmicos, outros
tantos desafios, outros repertórios de referências empíricas e teóricas. Colocar
minhas próprias questões em discussão com interlocutores muito distantes das
nossas linhagens e campos polêmicos foi um exercício especialmente fecundo.

48
Por sua vez, aqui, em suas várias, e uma delas prolongada, “missões de pesqui-
sa”, para usar o termo técnico desses convênios, Angelina não deixou intacto o
nosso coletivo de pesquisa. Junto com os jovens pesquisadores, lançou-se nos
meandros do comércio informal e nos ajudou a calibrar a pesquisa em sintonia
com situações parecidas, hoje recorrentes do outro lado do Atlântico. Sobretu-
do, amiga e parceira, é uma convivência que me confi rmou a possibilidade de
se tocar uma pesquisa, formar coletivos, juntar e agregar pessoas (nisso, o seu
talento é impressionante) com base em relações fundadas na reciprocidade, na
generosidade. E, sobretudo, no imenso prazer que a prática do conhecimento e
da descoberta pode nos propiciar, coisa rara e preciosa nesses tempos em que im-
pera essa espécie de empreendedorismo acadêmico que nos enreda numa gestão
pragmática, quando não burocrática, de nossas agendas, o que só faz enterrar e
sufocar o trabalho de reflexão e o exercício da imaginação criadora.
Esse projeto conjunto me permitiu estreitar os laços com Sérgio Adorno,
parceiro no convênio Capes-Cofecub e interlocutor constante e importante no
andamento de nossas pesquisas. Junto com Angelina, a montagem e encaminha-
mento do seminário “Crime, violência e cidade” (maio 2009) foi um momento
importante nesse percurso. Momento de cruzamento de pesquisas diferentes,
com seus respectivos enfoques, abordagens, ênfases, questões formuladas sob
prismas diversos. Sobretudo, um momento que consolidou um espaço de in-
terlocução feito dos pontos de encontro de nossas respectivas perspectivas de
pesquisa. E que nos ofereceu um repertório de questões que nos ajudaram a
lidar com problemas para os quais estávamos (ainda estamos) pouco municia-
dos. Afinal, ao lidarmos com os ilegalismos urbanos, entramos em um terreno
em que se colocam os problemas da violência, do crime, da prisão, da polícia,
das políticas de segurança. Para mim, para nós, foi e tem sido especialmente
valiosa a possibilidade de abrir essa interlocução com os colegas do Núcleo de
Estudos da Violência.
Fernando Salla, um encontro especialíssimo. Com sua inteligência aguda, seu
domínio notável desses assuntos espinhosos e, sobretudo, a generosidade com
que dialoga, acolhe as questões que se lhe apresentam, interage e se dispõe a
uma elaboração conjunta feita dessa interlocução; a tudo isso este livro é muito
devedor. Com Alessandra Teixeira aprendi muitíssimo sobre a lógica da exceção
incrustada nos dispositivos penais e nas políticas de segurança e, por essa via,
abriu-se todo um leque de questões importantes para entender as situações com
as quais nos deparávamos no trabalho de campo. Com Fernando e Alessandra,
montamos um grupo de discussão, também junto com Marcos Alvarez, outro
parceiro no convênio Capes-Cofecub, jogando na roda de nossas discussões
as inflexões atuais das políticas de controle social. Mais Daniel Hirata, Rafael
Godoi, Fernanda Matsuda, cada qual trazendo as questões de suas respectivas
pesquisas. É um coletivo que se reúne apenas pelo prazer da discussão conjun-
ta e pela certeza de um espaço fecundo no cruzamento de nossas respectivas
questões, também competências adquiridas em campos muito diferentes de

49
pesquisa. Várias das questões apresentadas nos dois últimos capítulos deste
trabalho trazem as marcas dessas discussões.
Por iniciativa de Hélène Rivière D’Arc, amiga de longa data, desde as mi-
nhas primeiras passagens por Paris, nos circuitos que me foram abertos pela
parceria com Robert Cabanes, veio-me a oportunidade de compor um programa
de pesquisa, sediado em Paris (ANR-AIRD), sob a coordenação de Christian
Azaïs e Marielle Pepin-Lahalleur, agregando um amplo coletivo de pesquisadores
que desenvolvem seus respectivos trabalhos de campo na Cidade do México,
em Buenos Aires, Caracas e também em São Paulo. Tive a oportunidade de
discutir algumas das questões aqui tratadas em um seminário realizado na
Cidade do México (em julho 2009), uma interlocução valiosa pelos vínculos
construídos com os colegas e pela troca e intercâmbio de achados de pesquisa e
perspectivas analíticas pertinentes ao lugar dos ilegalismos urbanos na dinâmica
de nossas cidades. A participação nesse programa de pesquisa desdobrou-se
em um convênio USP-IRD, permitindo a alocação de recursos no trabalho de
campo, em particular na pesquisa sobre o comércio informal, levada a efeito
por Carlos Freire.
Finalmente, o coletivo de pesquisa sem o qual nada disso teria acontecido.
Com Daniel Hirata, presente desde o seu início, uma parceria contínua de
pesquisa, sobretudo no empenho partilhado em deslindar o “mistério da rua
Y”. As questões apresentadas na segunda parte deste livro foram elaboradas
no andamento dessa pesquisa e dessa parceria. Infindáveis discussões quando
voltávamos do trabalho de campo, a troca de nossos diários de campo e de
achados de pesquisa, leituras conjuntas de textos de referência. Escrevemos um
artigo juntos. Boa parte do que é apresentado nos últimos capítulos é resultado
dessa convivência de pesquisa. Outra boa parte é devedora das questões que
Daniel trabalhou em sua tese de doutorado. Rafael Godoi, e sua pesquisa sobre
os “vasos comunicantes” entre o bairro e a prisão, tratou de ir atrás de achados
de pesquisa que preenchiam os nossos diários de campo e, com isso, abriu uma
frente de investigação sobre essa outra faceta das fronteiras porosas do legal
e ilegal, importante, também ela, para entender as dinâmicas urbanas locais.
Carlos Freire, por sua vez, enveredou pelos meandros do comércio informal. O
seu talento de pesquisador e a acuidade das questões que formulou no andamento
de sua pesquisa foram especialmente importantes para o tratamento que aqui se
deu sobre o tema. Claudia Sciré nos fez conhecer melhor a outra face da cidade,
o seu lado formal-legal, porém pelas vias das práticas de endividamento que
sustentam o hoje celebrado consumo popular e que entram em ressonância com
o que acontece nesses terrenos incertos entre o informal, o ilegal e o ilícito.
Todas as nossas questões de pesquisa foram discutidas conjuntamente. Desse
coletivo também participam Eliane Alves, com sua pesquisa sobre os ilegalismos
que atravessam a produção dos espaços urbanos; José César de Magalhães, com
suas reflexões sobre a lógica que parece presidir as novas formas de gestão do
social. Do entrecruzamento das várias questões de pesquisa e desse empenho

50
partilhado, desde o início, o livro que ora se apresenta, oriundo de minha tese
de livre-docência, é imensamente devedor.
Parte da pesquisa aqui apresentada contou com auxílio à pesquisa do CNPq.
Mas, desde o seu início, esse coletivo não teria se mantido sem as bolsas de
iniciação científica, de mestrado e doutorado. Também a bolsa que me coube
e o adicional que lhe é indexado permitiram condições mais favoráveis para o
andamento da pesquisa. A esta instituição, o meu agradecimento. Ao programa
AIRD-ANR, o agradecimento por recursos de pesquisa e apoio de que pudemos
desfrutar nos dois últimos anos.

51
CAPÍTULO 2

Perspectivas descritivas

Mobilidades urbanas: trajetórias habitacionais, percursos ocupacionais, des-


locamentos cotidianos nos circuitos que articulam trabalho, moradia e serviços
urbanos. Três dimensões entrelaçadas nas trajetórias individuais e familiares.
Na definição precisa de Grafmayer (2005), na ótica dos atores, essas formas de
mobilidade são não apenas interdependentes, mas sobretudo diversas facetas de
um processo único de reorganização das condições de existência. Seus eventos
precisam, portanto, ser situados nos tempos e espaços em que as histórias se
desenrolam. É por essa via que se deixam ver como pontos de condensação de
tramas sociais que articulam histórias singulares e destinações coletivas. Tempos
biográficos organizam trajetórias que individualizam histórias de vida, e estão
inscritos em práticas situadas em espaços e nos circuitos urbanos que as colocam
em fase com tempos sociais e temporalidades urbanas.
Seguir as mobilidades urbanas não é, portanto, a mesma coisa que fazer a
cartografia física dos deslocamentos demográficos. Não é tão simplesmente fazer o
traçado linear de seus percursos (pontos de partida, pontos de chegada). Tempos
biográficos e tempos sociais se articulam na linha de sucessão (das genealogias
familiares e suas trajetórias), mas também supõem uma espacialização demar-
cada pelas temporalidades urbanas corporificadas nos espaços e territórios da
cidade.1 Espaço e tempo estão imbricados em cada evento de mobilidade,2 de tal
modo que, mais importante do que identificar os pontos de partida e os pontos de
chegada, são esses eventos que precisam ser interrogados: pontos críticos, pontos
de inflexão, de mudança e também de entrecruzamento com outras histórias –
“zonas de turbulência” em torno das quais ou pelas quais são redefinidas (des-
locamentos, bifurcações) práticas sociais, agenciamentos cotidianos, destinações
coletivas. E são esses eventos que nos dão a cifra para apreender os campos de
força operantes no mundo urbano, a trama das relações, de práticas, conflitos e
tensões, enfim, a pulsação da vida urbana – a redistribuição de possibilidades,
bloqueios, aberturas ou impasses que atravessam e individualizam cada história
de vida, mas que também a situam em um plano de atualidade.

1
Como sugere Roncayolo (1997), os tempos e cronologia não sincronizados mas contempo-
râneos no presente histórico da cidade: o tempo dos assentamentos, das políticas urbanas,
das evoluções da economia, da implantação das redes e serviços urbanos, dos operadores
políticos, dos urbanistas, etc. Ver também: Lepetit, (1993, 2001).
2
Para uma discussão sobre as relações entre tempo e espaço imbricados nos “fatos de
mobilidade”, ver Tarrius (2000, 2003).

81
Poderíamos, então, dizer que as mobilidades urbanas são demarcadas e com-
passadas por eventos atravessados por três linhas de intensidade. A linha vertical
das cronologias, em que os tempos biográficos se sucedem em compasso com o
tempo social-histórico. No âmbito interno das famílias, a sucessão das gerações
com suas linhas de continuidade e rupturas, heranças familiares transmitidas,
redefinidas ou reinterpretadas conforme mudanças nos agenciamentos cotidianos e
nas hierarquias internas. A linha horizontal das espacialidades, em que os tempos
se efetuam: as práticas urbanas deixam suas marcas no espaço e estas se objetivam,
ganham forma e constroem referências que permitem entrecruzamentos com outras
histórias, outros percursos, outros eventos que pontilham a história urbana – não
a linha das fi liações familiares, mas a das comunicações transversais que fazem
conexões com outros pontos de referência do social (e da cidade). Atravessando
tudo isso em uma linha perpendicular, os eventos políticos que ganham forma e
também operam como referências práticas que compõem os territórios urbanos:
a cronologia dos investimentos públicos, os descaminhos da moradia popular,
os conflitos sociais e suas derivações, práticas de tutelagem e clientelismo, que
vêm de muito tempo e persistem entrelaçadas com as mediações democráticas
de representação política, formas de ação coletiva e de solidariedade, que se
alimentam de fontes diversas e também vêm de tempos diferentes, aberturas e
retrocessos políticos que se sucedem aos calendários eleitorais. Eventos e situações
que podem ser tomados como vetores que conectam espaços e territórios com os
tempos políticos da cidade.
De partida, é preciso dizer que se está aqui se colocando à distância das ima-
gens (e descrições) correntes de uma cidade fragmentada, recortada por enclaves
de riqueza, nichos de miséria e territórios de pobreza. Os percursos traçados por
indivíduos e famílias nos orientam através de diversas fronteiras, nos indicam as
modulações da vida urbana e suas inflexões, suas fissuras, tensões, bloqueios,
possibilidades. Se existem fraturas, não derivam de uma categorização prévia,
mas procedem da prospecção desses percursos, das relações que se entrecruzam
e se superpõem nas histórias individuais e os modos como estas vão se conjugando
nos tempos e espaços em que transcorrem. Nas palavras de Jacques Revel (1998:
22), seguir o traçado das trajetórias urbanas de indivíduos e famílias significa
seguir “a multiplicidade dos espaços e dos tempos, a meada das relações nas quais
(um destino particular) se inscreve”. É uma abordagem do social que responde
a um “programa de análise das condições da experiência social restituídas na
sua máxima complexidade”. Enriquecer o real, diz ainda Revel, um modo de
descrever o mundo urbano.
Ao seguir os percursos de indivíduos e famílias, são traçadas as conexões que
articulam diversos campos de práticas e fazem a conjugação com outros pontos de
referência que conformam o social. Os percursos e seus circuitos fazem, portanto,
o traçado de territórios, e são esses territórios que interessa reconstituir. É preciso
que se diga que estamos aqui trabalhando com uma noção de território que se
distancia das noções mais correntes associadas às comunidades de referência.

82
É com um outro plano de referência que estamos aqui trabalhando. Nos eventos
biográficos de indivíduos e suas famílias, há sempre o registro de práticas e redes
sociais mobilizadas nos agenciamentos cotidianos da vida, que passam pela re-
lações de proximidade, mas não se reduzem ao seu perímetro. Feitos de práticas
e conexões que articulam espaços diversos e dimensões variadas da cidade, os
territórios não têm fronteiras fixas e desenham diagramas muito diferenciados
de relações conforme as regiões da cidade e os tempos sociais cifrados em seus
espaços. São esses circuitos que as trajetórias urbanas permitem apreender e que
interessa compreender: a natureza de suas vinculações, mediações e mediadores,
agenciamentos da vida cotidiana que operam como condensação de práticas e
relações diversas.
É aí, nessas dobraduras da vida social, que toda a complicação urbana dos
tempos que correm pode ser flagrada; é aí que acontecem as exclusões, as fratu-
ras, os bloqueios, e também as capturas na hoje extensa e multicentrada malha
de ilegalismos que perpassam a cidade inteira e que operam, também elas, como
outras tantas formas de junção e conjugação da trama social. Pontos de junção
e conjugação da vida social que operam como campos de gravitação de práticas
diversas: seus agenciamentos concretos, sempre situados, sempre territorializa-
dos, são atravessados pelas linhas de força das tensões e conflitos, dos acertos
e desacertos da vida, das possibilidades e bloqueios, e também dos limiares de
outros possíveis.
É um plano de referência que permite colocar a cidade em perspectiva. No
plano dos tempos biográficos, é toda a pulsação da vida urbana que está cifrada
nos espaços e circuitos por onde as histórias transcorrem. Na contraposição entre
histórias e percursos diversos, são as modulações da cidade (e história urbana)
que vão se perfi lando nas suas diferentes configurações de tempo e espaço. E
isso implica duas ordem de questões:
Primeiro, uma estratégia descritiva: lançar mão da noção de território supõe
operar com a categoria de espaço. Como se sabe, a categoria de espaço lida com
a simultaneidade e permite apreender as coisas no plano da contemporaneidade
que constitui sua espacialização (Benoist e Merlin, 2001). Daí a exigência des-
critiva, diferente do princípio narrativo do tempo: contar uma história, descrever
um espaço. Um trabalho descritivo que escapa seja da abstração desencarnada
dos números e indicadores, seja da referência exclusiva (e problemática) ao local,
espaços ou micro-espaços das “comunidades”. Não se trata de negar a história,
muito menos a narrativa daqueles que contam seus percursos e elaboram suas
experiências. Trata-se, isso sim, de traçar a simultaneidade de tempos sociais e de
tempos biográficos distintos. Simultaneidades que permitem traçar a contempora-
neidade entre, de um lado, os que falam, com um tom épico e também nostálgico,
dos tempos do emprego farto e dos seus percursos na cidade das promessas dos
anos 60/70 e, de outro, as gerações mais novas cujas experiências já não podem
ser conjugadas no tempo do progresso e das promessas, ou são conjugadas em
um outro jogo de referências tecido entre a dureza do desemprego e do trabalho

83
incerto, a atração encantatória do moderno mercado de consumo, mas também os
novos circuitos de sociabilidade tramados na interface das mudanças operantes
no mundo do trabalho e na cidade, e seus espaços. Simultaneidades de tempos e
espaços diferenciados: tempos biográficos e tempo social sedimentados no que hoje
é chamado de periferia consolidada com sua serrada trama de relações sociais,
e as regiões mais distantes em que a urbanização ainda se faz em ato, conjugada
no tempo presente entre as inseguranças e percalços das ocupações de terra, da
precariedade urbana e conflitos sociais pautados por uma truculência cuja des-
medida termina por atualizar os tempos de longa duração de nossa história.
É no confronto entre as diversas situações que, tal como num prisma, a cida-
de vai se perfi lando nos seus focos de tensão, nos seus campos problemáticos.
A questão vai surgindo no entremeio, no momento em que o caleidoscópio gira
e faz ver toda a complicação do mundo urbano. Não a “questão urbana”, pois
isso suporia uma definição prévia e modelar. Mas as diferentes modulações do
mundo urbano em cada uma dessas configurações. Toda a complicação atual
pode ser apreendida aí. Mas é nisso também que a noção de território pode se
mostrar operante. Se é preciso a crítica, é no jogo das comparações que ela vai
sendo tecida, ou melhor: é nesse jogo de simultaneidades que os parâmetros da
crítica podem ser construídos, evitando, na falta de outro ancoramento, o risco
sempre presente de fazer dos “tempos fordistas” um modelo normativo a partir
do qual tudo o que vem depois só pode aparecer no registro do vazio (“não tem
mais”, “não é mais assim”), quando não temperado pelo lamento nostálgico do
que poderia ter sido, mas não foi. Porém, o vazio não tem potência. A complica-
ção está nas positividades tecidas nas realidades urbanas atuais que traçam as
linhas da atualidade.
O que importa é puxar essas linhas (ao menos algumas, ou o que o fôlego da
investigação permitir) e, a partir daí, tentar apreender o plano de atualidade que
atravessa as histórias e situações as mais contrastadas. A cidade não dissocia,
diz Lepetit (2001); ao contrário, faz convergir ao mesmo tempo práticas, hábitos,
comportamentos e histórias vindas de outros momentos e de espaços diversos.
Vale a citação completa:

[A cidade] não dissocia: ao contrário, faz convergirem, num mesmo momento,


os fragmentos de espaços e hábitos vindos de diversos momentos do passado.
Ela cruza a mudança mais difusa e mais contínua dos comportamentos citadinos
com os ritmos mais sincopados da evolução das formas produtivas [...] Não se
trata de colocar lado a lado as formas e os comportamentos, mas de considerar
os atores e as modalidades de apropriação. Assim, a questão das temporalidades
urbanas é colocada de outro modo. A cidade nunca é absolutamente sincrônica:
o tecido urbano, o comportamento dos citadinos, as políticas de planificação
urbanística, econômica ou social desenvolvem-se segundo cronologias diferen-
tes. Mas ao mesmo tempo, a cidade está inteiramente no presente. Ou melhor:
ela é inteiramente presentificada por atores sociais nos quais se apoia toda a
carga temporal. (Lepetit, 2001:141 e 143)

84
Segundo, um espaço conceitual: um modo de pensar a cidade (e seus proble-
mas) a partir de referências outras em relação ao que ficou consagrado por uma
certa linhagem da sociologia urbana e pela qual a cidade é vista sob o prisma
exclusivo da habitação e seu entorno imediato ou comunitário, ou dos problemas
locais a serem geridos de forma eficiente por programas localizados, focalizados.
A cidade é feita de cruzamentos e passagens, e é isso que introduz a questão da
circulação, da mobilidade e da acessibilidade como prisma para a problematização
da cidade e suas questões. Como diz Isaac Joseph (1998: 92-93), pensar a cidade
como domínio da circulação e do acessível (e seus bloqueios) é, de partida, “dizer
que ela é tudo, menos o lugar de formação de uma comunidade”. Apreender os
bairros, notadamente os bairros desfavorecidos “a partir da cidade, é pensá-los
no plural justamente porque situados (territórios, redes, comunicações) em um
plano de consistência que lhes autoriza a permanecer urbanos”.3
A cidade é feita de cruzamentos: não se trata de imaginários difusos, é questão
posta na materialidade de seus artefatos e redes que articulam espaços e territórios,
e que os conectam (mas também separam e bloqueiam) com os centros urbanos
e as várias centralidades em torno das quais gravita a vida urbana, definindo
vetores de práticas e deslocamentos cotidianos. Não existe cidade sem centros e
subcentros, diz Flávio Villaça (2001), e sem eles a cidade se volatilizaria como
o gás que sai de uma garrafa: teríamos vilarejos ou comunidades, não uma ci-
dade. Mas é também por isso que, como diz Roncayolo (1997: 241), não haveria
sistema urbano “se não houvesse uma infra-estrutura de redes técnicas para
suportar as trocas de produtos, de pessoas, de informações, de signos – tudo o
que constitui o metabolismo urbano”. Habitação, serviços urbanos e transportes
não compõem tão simplesmente os “contextos gerais” que servem para enquadrar
práticas sociais e o jogo dos atores. Terreno clássico das lutas urbanas, estas
políticas condicionam os circuitos de práticas cotidianas, delimitando tempos,
espaços e ritmos das mobilidades urbanas e as formas de acesso ou bloqueios à
cidade e seus espaços.
É sob essa perspectiva que a questão da segregação urbana pode ser situada.
Nas mobilidades urbanas, nos seus percursos e deslocamentos, temos uma chave

3
Para Joseph (1998: 92-93), em diálogo com o debate francês e sob uma perspectiva forte-
mente polêmica, “pensar o espaço das cidades como ordem de circulação e como organização
da separação, significa forçosamente submeter à crítica aguda todo um vetor da fi losofia do
habitar ancorada na experiência da proximidade e do mundo à mão. Ora, esta experiência
está no coração dos pensamentos da identidade e das práticas gestionárias que procuram
corrigir um déficit de urbanidade pela imposição de identificações imaginárias. [...] Concepção
securitária de um lugar, mas sobretudo uma concepção redutora e localista da proximidade
como sendo o lugar ou o representante representativo do chez-soi”. O alvo da crítica de Joseph
são as armadilhas de uma suposta nova cidadania pensada em termos locais. Contra isso,
o autor propõe pensar a cultura urbana da circulação e coloca no seu centro a questão da
acessibilidade: não se trata, diz o autor, de fazer a apologia da mobilidade e muito menos
do nomadismo. A acessibilidade diz respeito a espaços, objetos e serviços.

85
para apreender as dinâmicas urbanas que (re)definem as condições de acesso à
cidade e seus espaços. Seguindo as questões propostas por Flavio Villaça (2001),
mobilidades urbanas, deslocamentos espaciais e acessibilidade são fenômenos
sociais entrelaçados. Sob esta perspectiva, a noção de segregação urbana define-se
em um plano conceitual a ser considerado. Não é a mesma coisa que distribuição
da pobreza no espaço, não é um problema afeito apenas ao problema dos “pobres
e desvalidos” da cidade e não é questão que se reduz às medidas dirigidas aos
pontos (e micropontos) da vulnerabilidade social. Como diz o autor, a noção de
segregação diz respeito a uma relação – relação entre localidades e a cidade. Não
é uma relação física dada pelas escalas de distância e proximidade, tal como se
poderia medir no mapa da cidade. É uma relação social que diz respeito à dinâmica
da cidade, aos modos como a riqueza é distribuída (e disputada) e corporificada
nas suas materialidades, formas e artefatos (Harvey), definindo as condições
desiguais de acesso a seus espaços, bens e serviços. A questão da acessibilidade,
portanto, é fundamental. Como diz Bernard Lepetit (2001: 76), citando Lucien
Febvre, o historiador, “na cidade como na natureza, o único problema é o da
utilização de suas possibilidades”.

A cidade em perspectiva: seguindo os


fluxos das mobilidades urbanas

Deslocamentos: a produção do espaço

Pelo prisma das mobilidades urbanas e seus territórios, a história passada


não se volatiliza nas brumas do tempo a serem recuperadas apenas pelo trabalho
da memória (ou pelo balanço bibliográfico). Ela está corporificada e incorporada
nos espaços e seus artefatos – traços materiais da vida social que são também
vetores e referências de práticas e relações sociais atuais (cf. Grafmayer, 1995,
Joseph, 1998).4 O “ciclo de integração urbana” que seguiu entre os anos 70 e
até meados dos 80 ganhou forma e materialidade no que a literatura define como
“periferia consolidada”. Vistas de hoje, com suas ruas pavimentadas, razoável
cobertura de serviços e equipamentos urbanos, mal deixam imaginar o “fim de
mundo” que eram no início dos anos 70 – “aqui era só mato” é a expressão cor-

4
Para David Harvey (1996: 51), mobilizando um outro arsenal teórico e por referência a
outras questões, “o conjunto dos processos que se dão no espaço, que eu chamo de urba-
nização, produz inúmeros artefatos – uma forma construída, espaços produzidos e sistemas
de recursos de qualidades específicas, organizados em uma configuração espacial distinta.
A ação social subsequente tem que levar em conta tais artefatos na medida em que muitos
dos processos sociais (tais como os deslocamentos casa-trabalho) se tornam fisicamente
interligados”.

86
rente dos moradores quando narram seus percursos, epopeias urbanas contadas
e relembradas como evidências de uma vida que, mal ou bem, foi construída,
e assim narrada, sob o signo do “progresso”. Progresso: seta do tempo na qual
os acontecimentos – eventos biográficos, eventos familiares, eventos urbanos
– estão (ou parecem estar) em sincronia com o tempo social da urbanização.
Para os que chegaram à segunda metade dos anos 80, a cidade já estava muito
distante das promessas da “cidade do progresso” dos anos 70, os percursos
urbanos já serão outros, a experiência social não irá mais refazer essa peculiar
articulação entre trabalho, moradia e cidade que marcou os “cinquenta anos de
urbanização” descritos por Vilmar Faria (1992). Entre as circunstâncias de uma
crise econômica prolongada e uma reestruturação produtiva já em curso, de um
lado e, de outro, as impossibilidades de refazer o périplo da autoconstrução da
moradia nas periferias da cidade, muito provavelmente serão essas populações
que irão alimentar o crescimento das favelas e das ocupações de terra nos anos
90. Ainda será preciso conhecer melhor os percursos e trajetos dessas popu-
lações. Podemos dizer que, muito provavelmente, aí se tem a convergência dos
caminhos cruzados dessas figuras conhecidas na paisagem urbana, os traba-
lhadores pobres – as classes inacabadas, para usar a expressão de Francisco
de Oliveira (1981), que vão se virando nas franjas do formal e informal, entre a
sucessão de trabalhos incertos e desemprego recorrente. E que têm percursos
urbanos também marcados pela sucessão de habitações precárias, despejos de
casas alugadas, moradias improvisadas, acolhimento esporádico de familiares,
passando por uma sucessão de ocupações temporárias até chegar a estabelecer
“casa e família” nos interstícios do mundo urbano, ou nas fronteiras da periferia
da cidade. A esses se agregam os que não chegaram a concretizar as promes-
sas dos tempos do progresso, que não realizaram o “sonho da casa própria” e
que, na mudança dos ventos, sobrantes do mercado de trabalho, vão perfazer
as trajetórias de exclusão, para usar os termos de Grafmayer. São esses dife-
rentes percursos urbanos e diferentes configurações da experiência urbana que
escapam aos indicadores sociais que medem e identificam os pontos críticos de
vulnerabilidade social no espaço da cidade.
Duas gerações, dois ciclos urbanos: os tempos biográficos estão, portanto,
em compasso com o tempo histórico e as temporalidades inscritas nos espaços
e territórios traçados por esses percursos. Essa é uma primeira diferenciação a
ser feita, que nos oferece referências importantes para entender a pulsação das
tramas sociais inscritas nas diversas situações sociais.
Por outro lado, e esse é o ponto a ser aqui enfatizado, essas histórias são
também contemporâneas entre si. Entrecruzam-se na dinâmica da produção dos
espaços e territórios: os campos de confl ito que acompanham os deslocamentos
espaciais; as temporalidades urbanas inscritas nos equipamentos coletivos; as
tramas associativas que articulam dinâmicos locais com os tempos políticos da
cidade.

87
Conflitos e disputas no e pelo espaço

Esses mesmos territórios que receberam as primeiras gerações em sua epopeia


de progresso na “cidade grande” são pontilhados por ocupações que se sucederam
em ritmos e intensidades diferentes, daí resultando um verdadeiro mosaico de
situações, histórias e trajetórias que se corporificam em uma paisagem em que
mal se distinguem as fronteiras entre bairros consolidados, áreas de ocupação
ou ainda o favelamento que vai se espalhando por todos os lados.
Não se trata tão simplesmente de deslocamentos espaciais. A produção dos
espaços passa por um intrincado jogo de atores e campos multifacetados de con-
flitos e tensões. As ocupações podem surgir “da noite para o dia”, como dizem
os moradores do entorno, um barraco aqui e outro ali, uma semana depois já
um amontoado que vai crescendo ao sabor das direções que o vento imprime aos
rumores – “ouvi dizer que estavam invadindo por lá, então eu fui ver e fiquei...”,
criando clivagens tensas ou abertamente conflituosas em um mesmo território de
referência. No mais das vezes, arma-se um acirrado campo de disputas pelos usos
dos “espaços vazios”, terras públicas ou sem proprietário definido, envolvendo
moradores, poderes públicos e os “invasores”, e por vezes os chefes locais do
narcotráfico que dominam o “ponto”. São disputas que podem se dar nas formas
abertas da negociação, que podem ser resolvidas pela violência e força bruta, ou
seguir acordos tecidos nas zonas de sombra do jogo dos interesses inconfessá-
veis, para não dizer ilícitos. Mas há também a presença ativa dos movimentos de
moradia que se alimentam das heranças das grandes mobilizações dos anos 80,
que mobilizam os “recém-chegados, mal alojados” e promovem ocupações em
outras paragens da cidade. Atravessando tudo isso, os pontos de cristalização e
reatualização dos vários ilegalismos que atravessam a cidade e que são acionados
na produção dos espaços urbanos, passando por associações de atuação duvidosa,
máfias locais, grileiros, as malhas da corrupção e do “comércio ilícito”, além de
uma nova figura que, ao que parece, vem ganhando espaço nos últimos tempos
como mediador entre as vários ilegalismos e que vai se especializando na arte
de intermediação de compra e venda de terrenos irregulares – uma espécie de
grilagem consentida e superposta a várias camadas geológicas de posse ilegal de
terras. 5 Pouco entenderemos da “cidade ilegal” que sempre existiu na cidade de
São Paulo (e todas as outras grandes cidades brasileiras, é bom que se diga), que
cresceu e continuou crescendo nos últimos anos, se não levarmos em conta esse
intrincado e tenso jogo de atores que produzem essa mesma ilegalidade. Não se

5
A situação identificada por Luciana Correa Lago (1994: 214) no Rio de Janeiro parece
que está também se reproduzindo em São Paulo: “[...] já há indícios de que começam a se
difundir, nos anos 90, novas formas de aquisição de lotes pelas camadas de baixa renda,
em que o loteador passa a ter o papel de gerenciador do processo de ocupação ilegal de
uma gleba a ser apropriada por um grupo de pessoas. Há um acordo entre o loteador e os
futuros moradores quanto à não-titulação da propriedade e não-cumprimento das exigên-
cias urbanísticas”.

88
trata de uma fronteira para além do Estado, de suas leis e regulações públicas.
Legal e ilegal, formal e informal, lícito e ilícito aí estão imbricados nas práticas,
nas tramas sociais, nas disputas ou alianças entre atores diversos, tudo isso con-
densado e encenado nos agenciamentos que presidem essas disputas cotidianas
(e por vezes ferozes) pelo/no espaço.

Temporalidades urbanas

As temporalidades urbanas estão inscritas nos serviços e equipamentos


urbanos que demarcam espaços e territórios, pautam ritmos cotidianos, cir-
cunscrevem circuitos das práticas urbanas e estabelecem as conexões (e seus
bloqueios) com os espaços da cidade. De partida, a temporalidade própria dos
investimentos públicos que recortam territórios, redistribuem os usos de seus
espaços, alteram o mercado de terras e também abrem as sendas de novas ocu-
pações (e disputas pelo/no espaço) que vão se instalando nos interstícios dessas
zonas em mutação.
Seguindo as circunstâncias e tempos acelerados do capital globalizado, os
grandes equipamentos de consumo também chegaram lá, redefinindo os circuitos
de que são feitos esses territórios e suas referências. São polos de gravitação das
práticas cotidianas. Redefinições dos espaços e circuitos das práticas urbanas:
“antes eu tomava dois ônibus e levava uma hora para encontrar uma lata de leite
em pó para as crianças”, lembra uma senhora de 60 anos ao descrever as evoluções
urbanas recentes no bairro onde mora. Referências de sociabilidade: práticas que
articulam as redes sociais da vizinhança e parentela com os modernos circuitos
do consumo e lazer; grupos de jovens e garotos que se encontram nos shopping
centers, cada qual organizando seus tempos (e parcos orçamentos) contando com
o “programa de fim semana”. Por certo, práticas de consumo e lazer estabelecem
relações entre o “universo da pobreza” e os circuitos do mercado. No entanto, as
coisas são mais complicadas e estão longe de validar qualquer celebração fácil das
supostas virtudes da moderna sociedade de consumo. Pois esses equipamentos
de consumo são fluxos socioeconômicos poderosos que redesenham os espaços
urbanos, redefinem as dinâmicas locais, redistribuem bloqueios e possibilida-
des, criam novas clivagens e afetam a própria economia doméstica interna às
famílias e suas redes sociais. A chegada dos grandes equipamentos de consumo
desestabiliza ou pode desestabilizar as circunstâncias da economia local: o pobre
proprietário do tradicional bar, bazar ou negócio montado na garagem de sua
casa, que vê sua clientela encolher – é sempre possível encontrar produtos mais
baratos nos grandes supermercados, também mais diversificados, além dos “signos
de distinção” que acompanham os cartões de crédito que esses estabelecimentos
tratam de popularizar. Centros de consumo, é também por lá que se encontram
os novos e excludentes empregos, no mais das vezes intermediados por agências
de trabalho temporário, empresas terceirizadas e mais uma nebulosa de práticas
fraudulentas que mal escondem a conhecida (e proibida) merchandagem de mão-

89
de-obra,6 e que vão mobilizando, entre os circuitos urbanos locais, os operadores
de caixas registradoras, balconistas, porteiros, faxineiras, empregados para servi-
ços variados, e também os seguranças privados. E os cartões de crédito também
chegaram lá e, com eles, práticas de endividamento que redefinem a economia
doméstica, tomando o lugar ou deslocando o tradicional “fiado” que preenchia
as páginas das “cadernetas de compra” do também tradicional (e também em
extinção) dono de bazar e mercearia “ali-do-lado” ou, então, as regras da pres-
tação e contraprestação do jogo das reciprocidades que sempre fizeram parte da
“lógica da viração” tão própria do mundo popular. Mas, então, é o caso também
de se perguntar pelas complicações que aí vão se configurando, pontos de tensão
entre as novas lógicas (e obrigações) mercantis e as circunstâncias do desemprego
prolongado, do trabalho precário ou, simplesmente, do não-trabalho.

O tempo político da cidade

Os espaços e territórios são também produzidos nos muito diferenciados dia-


gramas de relações e vinculações que atravessam as tramas associativas locais:
associações locais (e as assim chamadas entidades sociais) vêm se proliferando
desde o início dos anos 90, com suas parcerias e convênios com organismos pú-
blicos, conforme ganhou forma e realidade a municipalização das políticas sociais
em um contexto de aumento da pobreza e do desemprego prolongado: programas
de distribuição de leite e de cesta básica, ou alocações de formatos variados de
renda mínima, compõem hoje o elenco dos dispositivos que as famílias acionam
para lidar com as urgências da vida, ao mesmo tempo em que são ativadas formas
novas e velhas de clientelismo e tutelagem ou, então, de formas nem sempre muito
perceptíveis, as linhas tortas ou subterrâneas pelas quais se dá a disputa por recur-
sos e poder nos agenciamentos locais. É mais do que frequente encontrar famílias
cuja sobrevivência passa em grande medida pelos programas sociais, variados e
múltiplos ao mesmo tempo, mobilizando homens e mulheres, adultos e crianças,
conforme uns e outros se ajustam (ou não) aos critérios de credenciamento que os
qualificam como “público-alvo”. Muito concretamente, as alocações de recursos
já fazem parte da “viração popular” e, nas suas trajetórias e percursos (que é o
nosso assunto, afinal de contas), fatos e circunstâncias (“eventos de mobilidade”,

6
Foi recorrente em nossas entrevistas na região sul da cidade a referência a uma cooperativa
que reúne cerca de 2 a 3 mil (!?) “cooperativados” e que presta os mais diversos serviços, da
faxina à segurança privada, nos supermercados da região, lojas de departamento, shopping
centers, e também nas casas noturnas e nos bingos que vêm se multiplicando nas grandes
avenidas que recortam a região. Não foi possível conferir a informação e saber do que se trata,
mas os nossos entrevistados são unânimes na descrição: ganhos baixos e incertos, ausência
de direitos e garantias, empregos que surgem e desaparecem conforme a aleatoriedade das
demandas e a duração do “contrato”. Claramente, nenhum foi capaz de explicar como são
geridos os “contratos de serviços”, e muito menos o volume e destinação dos recursos, a
não ser a constatação óbvia de que não são distribuídos entre os “cooperativados”.

90
para usar a linguagem técnica), também contam com essas mediações. Também
muito concretamente, poderíamos fazer o traçado dessa muito peculiar “metamor-
fose da questão social”, de cidadãos reivindicantes a públicos-alvo, enredando-se
a partir daí em uma outra teia de relações, em que não faltam desconcertos com
critérios que ninguém entende muito bem (aliás, nem mesmo os gestores locais
desses programas), que mudam conforme os ares dos tempos e o gestor de plantão
ou, então, que simplesmente deixam de existir porque os recursos não existem
mais, porque a “entidade social” não renovou o convênio/parceria, porque mu-
dou o prefeito e suas prioridades, ou simplesmente porque o centro de interesse
e disputa dos operadores políticos foi deslocado para outras paragens. Às vezes,
para escapar dessas oscilações no jogo mutante de relações de força, nada mais
seguro do que seguir o mais do que sólido caminho das lealdades políticas do
velho e persistente clientelismo ou então (ou junto com) a solidariedade ativa do
chefe local do narcotráfico que trata de mobilizar comerciantes, perueiros, amigos
e aliados para garantir recursos para as cestas básicas distribuídas por lideranças
comunitárias, em autêntica e verdadeira interação com a “economia solidária” que
deita raízes nas práticas da autoajuda e solidariedade intrapares, tão presentes no
mundo popular. Tudo isso, como se vê, em fina sintonia com os tempos.
É certo que há também a face moderna e mais globalizada disso tudo. Sobretu-
do a partir da segunda metade da década de 90, em um cenário já marcado pelo
encolhimento de recursos públicos e aumento da pobreza, e também da violência,
as atividades comunitárias e associações de moradores se transformam em ope-
radores das formas “modernas” de gestão social – gestão da pobreza. Entramos
na “era dos projetos” e das parcerias; é a linguagem do Terceiro Setor alterando
a anterior gramática política dos movimentos sociais7 e redefinindo a paisagem
local, conforme a maior ou menor presença de ONGs com seus projetos, parcerias
e vinculações em redes de extensão variada. Na prática, o “velho” e o “novo”
se confundem, as fronteiras não são lá muito claras, até porque tudo acontece
por vezes nos mesmos espaços e territórios, e os personagens – também não
poucas vezes – passam e transitam entre um e outro.8 É verdade que os progra-

7
Uma líder local, antiga e aguerridíssima militante dos movimentos de moradia, que esteve
na frente das também aguerridíssimas reivindicações do pedaço onde mora, e que hoje
está no comando de uma Associação de Moradores, formada justamente nos agitados anos
da década de 1980, assim fala das atuais dificuldades para obter recursos e apoio público
para implementar programas sociais no bairro: “passamos a buscar parcerias porque nós
somos uma Sociedade de Amigos de Bairro, e isso não significa nada, embora seja de grande
valor, mas o pessoal lá fora não enxerga... Eles querem saber de organizações que tenham
técnicos, que produzam projetos. Nós não sabemos fazer isso, mas a gente ia buscar quem
sabe e que tinha projeto [...] Temos que ter um corpo técnico, um assistente social, uma
psicóloga, um gestor de projetos e é caro um profissional desses. Dentro da comunidade
não tem. A gente sente muita falta. Se tivesse, seria muito maior e faria muito mais [...]”.
8
A mesma líder da nota anterior, agora empenhada em transformar sua associação co-
munitária em uma organização de formato moderno, quem sabe uma ONG, também se

91
mas implementados são muito variados, mais modernos e mais empreendedores,
“emancipatórios”, dizem seus operadores; também eles afetam e interagem com
as dinâmicas familiares e seus expedientes de vida, mas contam com a mesma
aleatoriedade, com a diferença de que os ventos que sopram aí vêm de outros
lugares, das agências financiadoras, dos formuladores de programas, de seus
avaliadores, etc., etc., etc.

***

Produção do espaço urbano: deslocamentos espaciais e disputas pelo espaço;


tramas sociais e mediações institucionais; temporalidades urbanas e os tempos
políticos da cidade. Poderíamos seguir um longo inventário de microcenas desses
territórios atravessados por lógicas e circuitos que transbordam por todos os lados
as fronteiras do “universo da pobreza”. Ao contrário do que muitas vezes sugere
a literatura que trata do “mundo da pobreza” e, ainda mais, no contrapelo das
figurações de uma pobreza encapsulada no universo de suas privações e que são
construídas pelas atuais políticas ditas de combate à exclusão, esses territórios são
atravessados por lógicas distintas. Lógicas do mercado, certamente. Mas também a
presença de atores políticos e institucionais situados em circuitos de práticas que,
também elas, transbordam e fazem transbordar o perímetro estreito do “mundo
da pobreza”, mesmo quando essas práticas se efetivam nos agenciamentos locais
de gestão da pobreza e das urgências da vida.
Para retomar os termos dos debates correntes sobre os novos padrões de
segregação urbana, se é certo que o modelo centro-periferia não é mais vigente,
mais do que os indicadores que medem as distribuições sociodemográficas no
espaço, são esses múltiplos polos de gravitação das práticas cotidianas que sina-
lizam realidades em mutação. É aqui que talvez se esclareça a importância de
perseguir as práticas e circuitos das mobilidades e trajetórias urbanas. São elas
que nos dão as pistas desses pontos de condensação e de polos de gravitação que
definem a pulsação dessas dinâmicas urbanas. Situadas em seus contextos de
referência e nos territórios traçados pelos percursos individuais e coletivos, essas
trajetórias operam como prismas pelos quais o mundo urbano vai ganhando forma
em suas diferentes modulações. São essas variações que fazem ver as “zonas de
turbulência”, pontos críticos em torno dos quais se dão deslocamentos e inflexões
nas histórias individuais e familiares. E também fazem ver os mundos possíveis

empenha para credenciar sua “entidade” perante os órgãos públicos para a distribuição
de leite e cestas básicas; também ela aciona os apoios e favorecimentos do novo e velho
clientelismo político, e em torno desse mesmo personagem não faltam histórias, rumores, é
verdade, sobre práticas pouco visíveis e não dizíveis quanto aos meios e usos dos recursos
que mobiliza para colocar em prática seus programas.

92
e de possíveis construídos nas diferentes configurações sociais tecidas por esses
percursos, com suas tensões internas e as linhas de força de suas aberturas,
bloqueios, impasses.

Percursos: trabalho e as tramas da cidade

Bifurcações nas destinações de uns e outros: traçados que precisam ser se-
guidos para colocar em perspectiva reconfigurações de mundos sociais. E por aí
apreender o drama do desemprego ou do trabalho precário, para além da consta-
tação monocórdia da “exclusão social”, mas tal como esses dramas se configuram
em mundos sociais e tramas de relações que escapam dos dados e indicadores que
medem as transformações recentes no mercado de trabalho. Assim, por exemplo,
a história de um ex-motorista de uma empresa pública de transporte (CMTC) pri-
vatizada no início dos anos 1990. Como tantos outros da geração dos que fizeram
o périplo “a caminho da cidade” (anos 1970), instalou-se no que então era uma
distante periferia carente de recursos urbanos. Com poucos dias em São Paulo,
conseguiu emprego – “naquela época era fácil conseguir emprego, nem precisa
procurar, era o emprego que procurava” é a frase comum repetida por muitos
ao falar daqueles tempos de “emprego farto”. E logo depois já estava seguindo a
carreira de motorista, com todas as garantias e proteções do “emprego fordista”:
garantias de estabilidade, salário, convênio médico, direitos sociais. E foi assim
que se lançou no empreendimento da construção da casa própria, realizou o
“modelo do chefe provedor” e enfrentou “aqueles tempos difíceis”. Tudo seguia
nos eixos até o momento em que veio a privatização e a demissão. A partir daí,
segue-se uma sucessão de tentativas fracassadas de montar um negócio por conta
própria. A aposta no comércio local não vingou. A história dessas tentativas e fra-
cassos vai encenando o mundo social tramado pelos estreitos e frágeis circuitos do
assim chamado mercado informal: a concorrência dos grandes empreendimentos
comerciais que chegaram nesses anos, a pauperização da clientela, a fragilidade
dos arranjos improvisados nas malhas das redes sociais locais entre parentes e
conhecidos, equilíbrios frágeis rompidos por dívidas que não podem ser pagas,
promessas não cumpridas, desacertos entre uns e outros. O ex-motorista entrou
em desespero, sumiu de casa e foi encontrado semanas depois dormindo nos
bancos da rua do centro da cidade, junto com mendigos e outros infelizes do
destino. Voltou para casa e converteu-se a uma igreja evangélica. Quatro anos
depois, já no final de 2001, encontramos esse trabalhador fordista que virou um
conta-própria fracassado tentando a sorte em um dos programas municipais de
“emprego e renda” que levava o sugestivo nome de “Começar de Novo”. Se antes
o trabalho o articulava com o mundo urbano e suas regulações (direitos, o 13o
salário com o qual conseguiu dar entrada na compra do terreno, o salário certo
e o convênio médico que garantiram o tratamento de uma fi lha doente), agora,
na virada dos tempos, sua história termina por se re-centrar nos circuitos locais
de seu território – sem sucesso nas tentativas do trabalho por conta própria e

93
sucesso incerto (muitíssimo incerto) no programa da prefeitura. Seria mais uma
história de uma vida que desaba no universo da pobreza (o trabalhador fordista
que virou “público alvo” de programas de combate à exclusão), não fosse o
jogo das circunstâncias, também elas construídas por uma trajetória que passou
pelos fios dos engajamentos políticos e da militância local, e que levou o nosso
ex-motorista a dar outras destinações à sua vida, agora pelos circuitos das redes
sociais acionadas por partidos e operadores políticos vinculados aos agenciamentos
dos poderes públicos. O ex-motorista fordista virou então um “assessor local”,
aliás uma figura que começou a se fazer presente e cada vez mais frequente a
partir da metade dos anos 1990.
Poderíamos dizer que é a história de um recentramento nos circuitos locais
do território, agora pela via das mediações políticas. A partir daí, os percursos
do ex-motorista, aliás como muitos outros, vão seguindo as tortuosas, quando não
nebulosas, veredas que seguem o eixo verticalizado das máquinas políticas, pas-
sando por uma zona cinzenta na qual são pouco discerníveis as diferenças entre
partidos e orientações, entre a ação social e clientelismo político – zona cinzenta
em que “todos os gatos são pardos”. E que vai alimentando e se alimentando
das microrrelações de favor, ao mesmo tempo em que a ação social de uns e de
outros fica também sujeita (e vulnerável) às disputas de poder e influência que
marcam a trama política local. As histórias são muitas. Importa notar a construção
desse campo de forças que vai como que sorvendo energias e enroscando seus
fluxos em diagramas de relações, capturas, poderíamos dizer, que dizem algo,
ou muito, das recomposições sociais e reconfigurações do jogo de relações que
fazem, também elas, os traçados de um território.
Entre uma passagem e outra: a tessitura social construída no entrecruzamento
dos percursos sociais, as circunstâncias de vida e contextos de referências. Em
cada ponto de virada (o mercado local, os programas sociais da prefeitura, partidos
e poderes locais): campos de gravitação no qual convergem histórias diversas.
E colocam em evidência – encenam – as forças e relações de forças operantes
no mundo urbano e seus territórios: as mutações do trabalho e as redefinições
excludentes dos mercados, certamente; mas também as regulações locais e as
disputas em torno da gestão urbana que são também elas sinais dos tempos e
sinalizam outros vetores de práticas e redefinições das dinâmicas locais.
Por certo haveria muito mais a dizer e descrever na história desse ex-motorista,
a começar das recomposições internas à história da família, com suas hierarquias
redefinidas, solidariedades familiares reativadas e os percursos traçados pelos
fi lhos para fazer face a situações que afetaram a todos – recomposições sociais
também operantes no mundo urbano.
Por ora, o que importa é chamar a atenção para a perspectiva descritiva que
essas trajetórias permitem. Na história desse ex-motorista, trabalhador fordista
que foi pego pela virada dos tempos, temos um percurso ocupacional que seria
pouco perceptível se ficássemos presos a proposições gerais (genéricas?) sobre a
“exclusão social”. É certo que tratar do trabalho supõe discutir as questões em

94
pauta atualmente: o encolhimento dos empregos e o desemprego, a desmontagem
das regulações do trabalho e os percursos do trabalho precário, o trabalho incerto
e o estreitamento dos horizontes de futuro. Porém, o que importa é colocar em
evidências as práticas e suas mediações e, por essa via, os circuitos e conexões
na desigual geometria dos empregos que redefinem as escalas de distâncias e
proximidades entre as regiões da cidade. E nisso, tentar apreender a nervura
própria do campo social, que não se deixaria ver se nos mantivéssemos presos
às binaridades clássicas na análise do trabalho e do urbano: formal-informal,
centro-periferia, emprego-moradia, trabalho-família. Entre esses pontos de re-
ferência, arma-se um campo social feito num jogo multicentrado e multifacetado
de práticas, mediações e relações de força que tecem, de formas nem sempre
evidentes, os campos de possibilidades e também os bloqueios para o acesso e
efetivações de possibilidades de trabalho e condições de vida.
É um outro modo de abordagem do trabalho, geralmente tratado seja no terreno
da economia, das inflexões no mercado de trabalho e mudanças nas formas de
organização de trabalho (o núcleo duro da sociologia do trabalho), seja sob o prisma
da cronologia das trajetórias ocupacionais, seja ainda pelo ângulo das referências
e experiências que conformam identidades e identificações coletivas. Impossí-
vel fazer economia dos processos estruturadores do social. Também impossível
desconsiderar as sequências cronológicas dos trajetos ocupacionais. Tampouco
poderíamos passar por cima da polêmica questão das dimensões estruturadoras
do trabalho na conformação de identidades, formas de vida e projetos sociais.
No entanto, vista pelo ângulo dos espaços e seus territórios, essa conjugação
entre estruturas, tempos e subjetividades arma um campo social que não cabe
em linearidades simples.
Se é verdade que o cenário urbano vem sendo alterado sob o impacto de
deslocamentos urbanos e recomposições societárias nas condições de trabalho
precário e desemprego prolongado, esses processos operam em situações de tem-
po e espaço. Processos situados, portanto. E agenciados por meio de uma série
multifacetada de mediações e conexões de natureza e extensão variadas. Por isso
mesmo, só podem ser bem compreendidos nessas constelações situadas. Se são
as cenas descritivas que nos permitem flagrar o traçado de práticas, mediações
e mediadores, são os seus personagens que oferecem os fios que precisamos
seguir.9 É nas linhas traçadas por esses personagens que é possível apreender

9
A inspiração aqui vem de Deleuze e Guatarri (1992: 91), sem a pretensão de fazer jus a
tudo o que os autores sugerem ao falar dos personagens sociais: “Simmel e Goffman levaram
muito longe o estudo destes tipos que parecem frequentemente instáveis, nos enclaves ou nas
margens de uma sociedade: o estrangeiro, o excluído, o migrante, o passante, o autóctone
e aquele que retorna a seu país. Não é por gosto de anedota. [...] Parece-nos que o campo
social comporta estruturas e funções, mas nem por isso nos informa diretamente sobre
certos movimentos que afetam o Socius. Os campos sociais são nós inextrincáveis, em que
os três movimentos (territorialização, desterritorialização e reterritorialização) se misturam;
é necessário pois para desmisturá-los diagnosticar verdadeiros tipos ou personagens. O

95
as práticas urbanas e os vetores policentrados em torno dos quais esse mundo
social vai sendo desenhado. Eles nos oferecem os fios e trilhas que precisamos
perseguir para apreender as conexões que tecem os mundos sociais e, a partir
daí, chegar não a conclusões fechadas, mas a perguntas e novas questões que
abram perspectivas sintonizadas com os possíveis inscritos na realidade dos fatos
e circunstâncias.

Modulações: os fluxos urbanos entre espaços, territórios e cidade

Trabalho, moradia, cidade: trama de relações e mediações que ganham con-


figurações diferentes conforme as regiões da cidade. Não se trata de diferenças
internas à geografia física da cidade e seus espaços. Tempos, história e condição
dos assentamentos nos vários pontos da cidade são uma questão certamente
importante, e disso vai depender grandemente a maior ou menor densidade,
enraizamento e extensão das redes sociais que estruturam o mundo popular.
As diferenças são sobretudo construídas pelas desigualdades das malhas de
conexões e acessos que articulam esses pontos com a cidade, e é isso que vai
definir as diferentes escalas de proximidade e distância: medidas sociais, não-
físicas ou geográficas. Acessos desiguais e diferenciados aos serviços sociais,
aos equipamentos de consumo, aos centros e subcentros da cidade. E, claro,
acessos desiguais e diferenciados aos polos de emprego. Em uma palavra, é da
segregação urbana que se trata.
Assim, para falar apenas das regiões em que nossa pesquisa foi realizada: no
lado sul da cidade, o Distrito do Jardim São Luís se estende por trás da ponta sul
do eixo urbano dos espaços globalizados da cidade de São Paulo. Um hipermer-
cado (Carrefour) e um majestoso Centro Empresarial, um dos ícones da “cidade
global”, marcam limites e limiares entre os dois mundos. O Distrito do Jardim São
Luís começou a crescer, se expandir e se espalhar a partir dos anos 70, acom-
panhando os fluxos dos empregos industriais. É um cenário que traduz muito da
história da chamada “urbanização periférica”, acompanhada pelos movimentos
populares que foram conseguindo, no correr dos anos, as melhorias urbanas. É

comerciante compra um território, mas desterritorializa os produtos em mercadorias, e


se reterritoraliza sobre circuitos comerciais. No capitalismo, o capital e a propriedade se
desterritorializam, cessam de ser fundiários e se reterritorializam sobre os meios de produ-
ção, ao passo que o trabalho, por sua vez, se torna trabalho abstrato reterritorializado no
salário:é por isso que Marx não fala somente do capital, do trabalho, mas sente necessidade
de traçar verdadeiros tipos psicossociais, antipáticos e simpáticos, O capitalista, O prole-
tário [...] Não é sempre fácil escolher os bons tipos num momento dado, numa sociedade
dada: assim o escravo liberto como tipo de desterritorialização no império chinês Tchu,
figura do Excluído, do qual o sinólogo Tokei fez o retrato detalhado. Acreditamos que os
tipos psicossociais têm precisamente esse sentido: nas circunstâncias mas insignificantes
ou mais importantes, tornar perceptíveis as formações de territórios, os vetores de dester-
ritorialização, o processo de reterritorialização”.

96
um cenário em que transcorrem histórias e trajetórias da geração que chegou
em São Paulo nos tempos de oferta abundante de emprego e maiores chances de
vida – as referências a isso são constantes: as grandes fábricas de Santo Amaro
(Caterpillar, Metal Leve, MWM) fazem parte da memória local e pontuam muitas
das biografias. “Bons empregos”, aquisição da casa própria (muitas vezes em
loteamentos clandestinos) e melhorias urbanas (via movimentos populares) com-
põem uma história comum, e também as histórias individuais e familiares. Mas
essas histórias agora se misturam com todas as outras que acompanharam e vêm
acompanhando a chegada das novas levas de moradores desde meados dos anos
80, mais intensamente e mais aceleradamente a partir dos 90. Hoje, a paisagem
é a de um incrível empilhamento de casas e construções precárias, e o distrito
se transformou num dos maiores pontos de concentração de favelas da cidade de
São Paulo. O impacto da reconversão econômica é nítido nessa região, que foi
o principal pólo de concentração das indústrias fordistas da cidade. As grandes
plantas industriais desapareceram. E os pontos de referência se deslocaram para
o lado da modernidade neoliberal e financeira da cidade, que vai pontilhando os
limiares da região. De um lado, os shopping centers, que, no correr dos anos 90,
partindo do lado mais rico da cidade, foram se espalhando na direção sul. É um
amplo arco de centros de consumo frequentados por gente que sai dos bairros da
periferia sul da cidade. E do outro lado, direção oeste, as vias de acesso levam
ao centro da riqueza globalizada. É por lá que estão os excludentes empregos
“modernos”. É tudo relativamente próximo e de acesso também relativamente
rápido, apesar dos transtornos do trânsito e da péssima qualidade dos transportes.
Para ir direto ao ponto: é por aí que pulsa toda a complicação dos tempos. Não por
acaso, foi dessa região que saíram os Racionais MC’s, um dos importantes grupos
de rap da cidade, ao menos o que ganhou maior projeção e influência entre a
garotada pobre e negra da cidade. Nessa região, os fluxos da pobreza e da riqueza
se tangenciam o tempo todo, se entrecruzam nos grandes centros de consumo e
nessa especial mistura do legal e ilegal, regular e irregular, lícito e ilícito de que
são feitos os circuitos dos empregos, que, do polo “moderno-moderníssimo” da
economia, vão se ramificando pelas redes de subcontratação e trabalho precário.
E também se entrecruzam nas redes do tráfico de drogas, do crime organizado
e das mil formas de “comércio ilícito”.
Do outro lado da cidade, no extremo leste, estão as chamadas “zonas de
fronteira”,10 que concentram os piores indicadores de vulnerabilidade social e

10
Conforme Rolnik (2000), “O termo fronteiras é utilizado não somente porque os territórios
assim definidos localizam-se junto à divisa do Município de São Paulo com os municípios
de Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos e Mauá, mas também por serem frentes de
crescimento populacional e urbano registrados nas altas taxas da década de 1980 e da
primeira metade da década de 1990. [...] De uma maneira geral, os territórios das fron-
teiras circunscrevem aproximadamente as áreas dos distritos de Jardim Helena, Itaim
Paulista, Vila Curuça, Lajeado, Guaianazes, José Bonifácio, Cidade Tiradentes, Iguatemi
e São Rafael. São distritos que estão entre os mais excluídos da cidade apresentando alta

97
“exclusão territorial”.11 É uma região que cresceu no correr dos anos 80, uma
verdadeira explosão demográfica em grande parte induzida pelos programas ha-
bitacionais do governo (municipal e estadual). Diferente da região sul, em que os
assentamentos foram se processando na lógica privada do mercado, a presença do
Estado aqui é inegável. Os grandes conjuntos habitacionais estão lá como evidência
inescapável, mas também como evidência de precariedade e formas de segregação
igualmente induzidas pelo próprio Estado. São programas habitacionais desco-
nectados de políticas urbanas. Nas frestas abertas pelos investimentos públicos,
foram-se instalando ocupações e favelas e, no entorno, foram-se espalhando os
loteamentos clandestinos e mais um outro tanto de áreas de ocupação.12 Aqui,
os grandes equipamentos de consumo não chegam a constituir uma referência
das práticas cotidianas e ainda predominam as redes locais de supermercado de
porte médio.13 Nessa região distante e precária, é a presença/ausência do Estado
que circunscreve polos de referência e campos de força que demarcam tempos
e espaços. A começar da paisagem urbana, este amplo espaço dominado pelos

concentração de população com baixa renda, pouca oferta de hospitais, unidades básicas
de saúde, creches, empregos, equipamentos e espaços públicos de lazer”.
11
Conforme Rolnik et al. (1999), a exclusão territorial é definida pela “privação de direi-
tos sociais e aspectos materiais – necessidades básicas, e também ausência de acesso à
segurança, justiça, cidadania e representação política”). Em geral, os “territórios excluídos
constituíram-se à revelia da presença do Estado – ou de qualquer esfera pública – e portanto
desenvolvem-se sem qualquer controle ou assistência. Serviços públicos, quando existentes,
são mais precários do que em outras partes da cidade”.
12
“Na década de 1980, Cidade Tiradentes e José Bonifácio, localizados no extremo da
Zona Leste, “tiveram os maiores crescimentos populacionais dentre os 96 distritos admi-
nistrativos do município. Cidade Tiradentes teve o maior incremento. Sua população saltou
de 8.603 habitantes em 1980 para 96.281 em 1991 a uma taxa de crescimento anual um
pouco maior do que 100% (101,92%). A cada ano da década de 1980, Cidade Tiradentes
dobrava a sua população”. Trata-se de construções com “uma organização espacial frag-
mentada em função do seu processo de implantação em fases e do relevo acidentado que
caracteriza os extremos da Zona Leste. ... essa fragmentação produz uma série de espaços
vazios entre as áreas do conjunto que foi rapidamente ocupada por favelas e loteamentos
clandestinos” (Rolnik, 2000).
13
Como mostra Raquel Rolnik (2000: 55), no correr dos anos 1990, a zona leste aparece
como frente de investimentos privados, articulando capital comercial-financiero em opera-
ção associada com o capital imobiliário: “a ação governamental se faz presente através dos
investimentos públicos em infraestruturas de saneamento, transporte, drenagem, energia,
iluminação, implantação de vias, pavimentação, etc. [...] que criam condições para acolher os
investimentos privados”. Mas é um desenvolvimento limitado à lógica mercadológica voltada
para os grandes negócios – “trata-se de aproveitar uma oportunidade lucrativa construída
pela conjugação de fatores físico-espaciais, econômicos e urbanísticos, com ausência de
uma política urbana [...] Porém, nada disso supera a permanência da precariedade nas
áreas de fronteira: “esta justaposição da precariedade e dinamismo presente na zona leste
reforça o padrão atual de segregação social”.

98
assentamentos irregulares é pontilhado por grandes, e alguns imensos, conjuntos
habitacionais da CDHU que brotam da terra aqui e ali, demarcando o tempo
social (e político) nos espaços urbanos e seus traçados, e nos quais se pode sentir
a pulsação de um território feito dessa especial conjugação entre intervenção
pública, precariedade urbana e toda a malha das irregularidades, quando não
ilegalismos, que se espalham pela região. Nos seus pedaços mais precários, a
presença do Estado é evocada o tempo todo exatamente pela sua ausência, pelas
dificuldades de acionar os órgãos públicos responsáveis pelas melhorias urbanas
que nunca chegam, ou chegam com atraso, ou chegam ainda de modo descom-
passado. Cenários que atualizam os idos dos anos 70 (tão presentes nas histórias
de nossos personagens da região sul), porém em um tempo/espaço no qual as
figuras do “progresso” urbano não têm mais lugar. Os chamados “programas de
emprego e renda” da Prefeitura de São Paulo estão lá para demarcar no espaço
que os tempos já são outros, que o urbano e o trabalho já não podem mais ser
conjugados no mesmo andamento, que “O Estado e o Urbano”, para lembrar o
artigo comentado no capítulo anterior, articulam-se agora em um outro diagrama
de relações, não mais as regulações públicas que conformavam e articulavam
mercado, espaços nacionais e a cidade, mas as formas de gestão do social e da
pobreza: em um momento no qual as dimensões universalistas da cidade foram
cortadas para serem, a rigor, desfiguradas nos circuitos do “mercado global” e do
falso brilhante do cosmopolitismo mercantilizado dos novos serviços e espaços de
consumo, o urbano parece mesmo se enrodilhar e se encapsular nas figuras da
“comunidade” – ao invés da cidadania urbana (negada ou conquistada ou reivin-
dicada), os “públicos-alvos” conformados por aqueles que parecem não ter outra
existência fora das circunstâncias que os determinam nas suas “carências”.
Neste pedaço da cidade, a distância é um problema sério. As dificuldades dos
deslocamentos intra-urbanos são consideráveis, apesar da abertura e expansão
de uma linha do metrô, da renovação de uma linha de trem, da ampliação e me-
lhoramentos das vias públicas. O acesso aos polos de emprego nas regiões mais
centrais da cidade continua difícil e penoso, e mesmo entre as regiões contíguas
as conexões são difíceis e demoradas pelas vias indiretas ou então inexistentes
das linhas de transportes. Para os que foram pegos pela virada da sorte nesses
anos, perderam emprego e moradia em outras paragens, e chegaram em busca
de alternativas mais baratas, o isolamento pode ser dilacerante – “aqui é como
um exílio”, disse uma de nossas entrevistadas.
A distância não é uma métrica simples entre pontos e localidades distintos no
espaço. Circunscreve campos de tensão e problemas que têm sentidos e modu-
lações diferentes conforme os tempos de assentamento das famílias, suas redes
sociais, recursos e possibilidades construídos em seus percursos de vida. A dis-
tância tampouco é um espaço vazio, é algo que vai se especificando nas dobras
do mundo social, nos pontos de junção entre espaços e que são demarcados por
todas as complicações dos meios de transporte e circulação pela cidade.

99
Histórias de um perueiro

Se, como diz Bernard Lepetit (2001: 76), na cidade “o único problema é o da
utilização de suas possibilidades”, então é importante compreender os modos de
articulação entre formas e usos da cidade. Assim é a história de um ex-metalúrgico
que virou um próspero perueiro na região. Transitando nas dobras do mundo
fordista e das realidades urbanas em mutação, seus percursos tornam percep-
tível a formação de territórios. São práticas que informam sobre os movimentos
que afetam o mundo social. E tornam perceptíveis os fios que fazem a trama de
campos sociais, que, neste caso, irão como que se densificar na configuração de
um campo de gravitação em torno do qual ganha forma uma das mais explosivas
dimensões da vida urbana na zona leste da cidade, envolvendo usuários, empresas
de transportes, poderes públicos e esse novo e poderoso personagem urbano que
são os “perueiros”, legais ou clandestinos.
Francisco, 36 anos (em 2001), trabalhava numa grande indústria metalúrgica
desde 1984. Era um operário qualificado, ajustador e ferramenteiro com forma-
ção profissional. Em 1993, a fábrica fechou as portas para se instalar no interior
de São Paulo. E foi então que Francisco se lançou como perueiro e teve sucesso
nesse seu empreendimento. Na verdade, ele começou a “lotar” em 1984, logo
que entrou na metalúrgica. O problema de transporte sempre foi grave na região,
e foi nessas carências da vida urbana que Francisco foi construindo seus campos
de possibilidade. Na época, os lotações eram raros e, como ele diz, “o pessoal
daqui não tinha transportes, não tinha ônibus, não tinha asfalto, não tinha nada,
era só terrão”. Comprou uma perua e complementava o salário com o transporte
dos colegas de trabalho no início e no final da jornada. E nisso foi incentivado
por sua ativíssima e muito pragmática esposa.
O casal mora entre Guaianazes e Cidade Tiradentes, em um bairro que apre-
senta um dos piores índices sociais da cidade de São Paulo. Não por acaso, foi lá
mesmo que a Prefeitura resolveu dar início (2001) a seus programas de “geração
de emprego e renda”. Porém, o casal navegava, então, com os ventos da boa sorte:
bom salário, carreira profissional promissora, casa própria, alguma poupança
doméstica amealhada com muita hora-extra e jornadas suplementares nos fins de
semana. Mas a distância era um problema. Os agenciamentos domésticos eram
complicados – tudo longe, tudo difícil: centros de compras, hospital, centros de
saúde, creche. Quando ainda trabalhava, Lindalva, a esposa, fazia um percurso
para ela também penoso. Era vendedora no centro da cidade, no Brás, e depois
um pouco mais ao norte da cidade. Tomava o trem que fazia a ligação do extremo
leste ao centro da cidade: desgaste do tempo de percurso e também do empurra-
empurra dos trens sempre superlotados – “eu preferia estar madrugando do que
pegar aquele inferno de trem esmagando as pessoas”. Depois, quando largou o
trabalho para cuidar dos fi lhos pequenos, ficava em casa e, então, observava:
como ela, todos os moradores da região dependiam do comércio e serviços que
só existiam no centro de Guaianazes: mercados, correios, banco, comércio. Nessa

100
época, “ir para o centro” queria dizer ir até a estação de trem em torno da qual
esse comércio cresceu. Acontece que não havia nenhuma linha de ônibus direta
do bairro que cobrisse o percurso. E foi então que surgiu a ideia. Compraram
uma perua e começaram a “lotar”. Foi uma iniciativa e um empreendimento do-
mésticos. Cobriam o trajeto do bairro até Guaianazes. E Francisco, por sua vez,
transportava os colegas da empresa – “era quando o pessoal saía do trabalho,
eu ficava com a perua, saía de madrugada, dava duas ou três viagens; à tarde eu
continuava trabalhando. Naquela época eram poucas as peruas – aqui, só tinha
eu e mais um cara que também trabalhava lá”.
Em 1993, a fábrica fechou as portas, vieram as demissões. E foi então que
Francisco se lançou e se firmou como perueiro. E isso terminou por projetá-lo no
olho do furacão dos acirrados conflitos que, hoje, opõem proprietários de linhas
de ônibus, usuários, poderes municipais e, claro, os próprios perueiros, também
eles, em instáveis relações de aliança e conflito entre clandestinos e legalizados.
Não há como não ver nisso tudo as formas como circunstâncias e meios foram se
conjugando para a erosão, em ato, ao vivo, das regulações públicas que até então
davam a pauta e o tom das reivindicações em torno do universal direito de ir e
vir. Sinais de um fundo deslocamento dos conflitos urbanos. Antes, juntamente
com outras tantas demandas, os transportes públicos compunham uma pauta de
reivindicações com inegável dimensão universalizante – poderíamos mesmo dizer
que o “universal direito à cidade” era a linha de intensidade que atravessava os
então “novos movimentos sociais urbanos” cantados em prosa e verso nos debates
dos anos 80.
Nessa virada dos tempos em que a política deslizou e se desfigurou nos termos
da “governança urbana”, os conflitos urbanos parecem enrodilhados numa quase
impossível gestão desse emaranhado de relações, interesses e forças em oposi-
ção, tudo isso no cenário explosivo de uma cidade ingovernável. Francisco é um
perueiro bem-sucedido: com suas três ou quatro peruas, que cobrem percursos
rendosos, sua história (ou a história que ele conta) mal deixa ver o outro lado,
nada edificante, de uma história que é também feita (ou sobretudo feita) de uma
disputa feroz, por vezes mortal, nas tramas das relações mafiosas que controlam
o hoje expansivo negócio do dito transporte alternativo.
Assim, um outro lado dessa história, contada por uma perueira não tão bem-
sucedida, na verdade, uma perueira proletária: trabalha como motorista ou co-
bradora, e também como fiscal nos pontos das peruas. Celeste, 28 anos, mora
com seu marido e fi lhos em uma casa alugada, incrustada no meio da imensidão
dos conjuntos habitacionais de Cidade Tiradentes. Mora lá desde pequena e,
desde pequena, acompanhou as aventuras dos perueiros que então começavam
a se fazer presentes na região, ainda em meados dos anos 80. Celeste sempre
“lotou”, desde os 14 anos – por gosto e paixão, diz ela. Desde cedo, quando
ainda era garota, fez amizades e conhecimentos com gente da região. E foi assim
que começou a acompanhar os perueiros quando ainda tinha 10 anos. Depois,
começou a trabalhar para eles – “então, a gente sempre teve essa amizade;

101
quando faltava um perueiro ou quando precisava de uma ajuda, eles ligavam e
diziam – ‘dá pra você fazer uma viagem para mim? Dá para você cobrar pra mim’;
sempre foi assim, então a gente não é fixo, é como se fosse um quebra-galho... ou
para cobrir aquele perueiro que não veio ou aquele que não estava dando nada.
Entendeu? É assim...”.
Celeste conta muitas histórias dos perueiros da região. Viu surgirem as primei-
ras peruas e acompanhou todos os lances de uma história cheia de conflitos com
os poderes públicos, com as empresas de ônibus, e também entre eles próprios.
Ela conta que, na época, só havia três linhas de ônibus para cobrir uma região
vasta, mais do que vasta. Surgiu a primeira perua: “foi um senhor que fundou a
lotação... ele comprou a primeira perua, daí foi chamando um outro e mais um
outro que tinha perua, foram entrando, entrando, então foi se juntando o grupo,
e o grupo se tornou o dono do ponto... Depois, se alguém quisesse entrar, tinha
que pagar para comprar a vaga, para poder rodar. É assim, tem que pagar para
poder trabalhar”. O sistema funciona bem, diz Celeste, “mas existe uma máfia”.
É assim que ela descreve as coisas: “o dono da linha é o chefão; o fiscal é o fi-
lho; o fiscal também; o outro fi lho tem perua, o sobrinho também... então é uma
máfia. Entendeu?”.
Ao longo dos anos, a geografia do poder foi se alterando. O chefão morreu,
foi morto há alguns anos: “mataram ele por causa da linha... queriam ficar com
a linha, tomaram a linha dele. Entendeu?”. Entendemos. Apesar de ser difícil
saber (mas podemos imaginar) como se dão as disputas pelo “ponto” e o jogo
de forças das relações mafiosas, que, também sabemos ou podemos imaginar,
não são apenas locais, estendem-se por toda a região. Celeste também descreve
em detalhes como a coisa funciona. E é dos clandestinos que ela fala, gente que
sabe muito bem burlar a fiscalização e se organiza um bocado para isso: “eles
se comunicam por rádio e têm os repórteres-motoqueiros [sic] que saem com
os rádios, vão atrás das viaturas [de polícia] e vão avisando – ‘olha, a viatura
está em tal lugar, está entrando em tal avenida, e então todo mundo some’”. Os
“motoqueiros-repórteres” se espalham pelas avenidas e instalam seus postos de
observação nos principais pontos de circulação.
Celeste defende com convicção o direito de lotar, fala mal dos motoristas de
ônibus, elogia o serviço dos perueiros e não poupa críticas à Prefeitura, que “quer
tirar o ganha-pão” do pessoal que vive das peruas. Comenta que os perueiros são
muito unidos e muito organizados. Não hesitam em quebrar os ônibus e interditar
as avenidas quando se percebem lesados ou ameaçados: “são unidos mesmo e
eles vão quebrar, não perdoam não, porque eles falam assim: se podem apreender
nosso carro e deixar a gente sem o ganha-pão pra sustentar nossos fi lhos, eles
podem também ficar sem carro... então eles quebram, tacam fogo em ônibus, dão
pedrada, quem estiver dentro leva tudo pedrada. E esse é o perigo”. Podem ser
também bastante solidários entre si, tampouco hesitam na ofensiva de iniciativas
quando o assunto é defender o seu direito a circular pelas avenidas da cidade.
Assim foi no caso de um acidente no trânsito: uma perua que se chocou com um

102
caminhão. Morreram cinco. Acontece, explica Celeste, que a tragédia ocorreu
em um cruzamento perigoso, em uma das principais avenidas que cortam a re-
gião – “há muito tempo estávamos pedindo pra colocar sinalização”. Aconteceu
o desastre: “nós, os perueiros, ajudamos quem estava machucado, pagamos o
enterro das pessoas que não tinham condições. E, depois que acabou o enterro,
nós fomos pra avenida, interditamos o trânsito, colocamos uma fi leira de pneus
no meio da rua misturados com pau, madeira e tudo, e tocamos fogo pra chamar
atenção, pra ver se eles colocavam a sinalização. Até hoje não tem essa sinalização.
Entendeu? Lá não tem sinalização nenhuma, não tem faixa pra pedestre... é um
retão, quem pega aquilo ali puxa 120 a 140 km/hora. Entendeu?”.
Os perueiros estão em todos os lugares. Também nas periferias da zona sul da
cidade. O comentário frequente nos rumores ventilados pelas regiões da cidade,
que a mídia vez por outra também trata de divulgar, é que as relações com as redes
do tráfico de drogas são mais do que episódicas, que os interesses e circunstâncias
se cruzam e entrecruzam em nós inextrincáveis, tudo misturado nessa linha de
sombra que atravessa os circuitos do mundo social. É verdade que, depois (2002-
2003), a Prefeitura marcou alguns tentos nesse jogo complicado: negociou com
empresas de transportes e perueiros a partilha das linhas principais e secundárias
que servem a cidade e avançou na regulamentação do transporte alternativo. Os
perueiros “legais” ganharam espaço (algum espaço, ao menos) em relação aos
clandestinos. Mas a imprensa tem noticiado: o jeito encontrado para ficar em dia
com a lei tem sido, frequentemente, a formação de cooperativas de trabalhadores.
Nesse caso, os perueiros ficaram em fase e em compasso com a modernidade
neoliberal: as cooperativas, várias delas, mal escondem a prática conhecida de
fraude trabalhista, e os valores que deveriam ser partilhados cooperativamente
desaparecem por vias que ninguém sabe quais são, viram fumaça...

Histórias de um motoqueiro

As histórias também circulam pelo Distrito do Jardim São Luís. Aqui, no


entanto, mais do que os perueiros, são os motoboys que podem ser tomados como
personagens urbanos que esclarecem um tanto dos fios intrincados que constituem
e atravessam os territórios urbanos. Se os perueiros encenam a conjugação de
circunstâncias que fazem da distância um problema e um nó inextrincável de
relações tramadas nesse jogo de luz e sombra em tempos de erosão das (desde
sempre) frágeis regulações públicas da cidade, os motoqueiros, aqui nesse outro
pedaço da cidade, fazem ver os pontos de combustão desse entramado de relações
urdido nas “ligações perigosas” desses fluxos de riqueza e de pobreza que se
tangenciam e se entrecruzam o tempo todo.
É possível encontrá-los em bandos circulando pelas ruas e avenidas que cor-
tam a região. E é frequente encontrá-los limpando e lustrando suas máquinas
nas portas de suas casas. Trabalham para as inúmeras empresas de serviços
terceirizados que atendem os luminosos circuitos da riqueza globalizada. Ou sim-

103
plesmente navegam nas ondas dos serviços terceirizados que vão se espalhando
por todos os lados. “Quem tem moto está com a faca e o queijo na mão”, disse
um de nossos entrevistados, ao comentar as dificuldades do emprego. Com a
moto, vai-se virando como pode, nem que seja para fazer um bico ou outro como
entregador de pizza. E, tendo uma moto, são maiores as chances (chances?) de
ser chamado por alguma agência de emprego ou de serviços terceirizados para
cobrir a demanda das empresas que circundam a região – “tenho um monte de
colegas que se viram, alguns têm moto, os que não têm fica mais difícil, é mais
fácil com a moto”. A moto opera também como “objeto de desejo” para muitos
desses jovens. São capazes de “fazer qualquer coisa” para adquirir uma, nem
que seja pelas vias certas ou tortas do endividamento. Até arriscar um emprego
“seguro” para tentar a “sorte” (e o azar) em nome dessa espécie de ícone moder-
no que junta sonhos de consumo, símbolos de distinção (e marca de virilidade,
talvez) e esperanças de emprego:

Aí eu tinha um pensamento. Era época que começou motoboy pra lá, motoboy
pra cá, e eu sempre gostei de moto, aí eu comecei pôr na minha cabeça que eu
tinha que trabalhar de motoboy. E o que aconteceu? [...] eu queria ser motoboy,
eu queria comprar uma moto, e foi a época que o meu cunhado tinha acabado
de comprar uma moto, então de vez em quando eu andava de moto, então meu
sonho era moto.
[...] eu sempre gostei de andar de moto [...] e a gente escutava falar... eu tinha
amigos que ‘tava começando de motoboy “ah, eu ganho vinte reais a cada
hora”, então, se eu faço dez horas num dia, eu ganho quatrocentos reais”. [...]
Quando começou a febre porque tinha pouco e ganhava-se bem, né; então,
como eu gostava de andar de moto e era uma chance de ganhar bem, associei
uma coisa a outra e coloquei aquilo na cabeça: “não, eu quero ganhar bem e
eu quero andar de moto”. Aí não deu certo [...].

“Aí não deu certo”: Mariano (24 anos, em 2001) queria porque queria uma
moto e trabalhar como motoqueiro. Largou o emprego que tinha (de office-boy,
com carteira de trabalho assinada, em uma metalúrgica em Santo Amaro). Mas
era véspera de Natal e, a essas alturas, já tinha pulverizado suas parcas economias
com compras e mais compras nos centros de consumo da região. Não sobrara
nada para a moto – “saí desse emprego, fiquei sem moto, fiquei sem nada”. Há
outras histórias, muitas delas longe de conter esse tom de leveza e graça com que
Mariano fala de seus frustrados “sonhos de grandeza”.
Assim é a história de Arnaldo (22 anos, em 2001), filho de um ex-metalúrgico,
que, nos agitados anos da década de 1980, esteve na linha de frente das mobili-
zações operárias do período. Arnaldo bem que tentou seguir o exemplo do pai e
conseguir um emprego industrial. Porém, os tempos já são outros e, de demissão
em demissão, só lhe resta mesmo a moto como alternativa para os bicos que encon-
tra pelo caminho. Além do mais, é apaixonado por motos, seu assunto preferido,

104
e é sempre possível encontrá-lo nas imediações de sua casa junto com os amigos,
todos motoqueiros, lustrando as máquinas e se preparando para saírem juntos,
em bando, para alguma “balada” na região. Houve um tempo em que Arnaldo
acreditava que a moto haveria de lhe abrir as portas do mercado de trabalho.
Não deu muito certo. Em 1998, começou a trabalhar de motoboy na ContaFácil,
empresa terceirizada que presta serviços para a Sabesp: enviar aviso de atraso
de pagamento nas contas de água – “você vai na casa da pessoa, a pessoa tem
três contas atrasadas e você vai lá entregar o aviso de corte; a pessoa tem uma
semana para pagar, se não pagar, vai outra pessoa lá, fecha o registro e lacra o
registro”. Ficou apenas um ano e saiu em 1999. Saiu porque era muito perigoso,
além de não ter carteira assinada, tampouco oferecer alternativas promissoras. A
descrição de Arnaldo é precisa: sem registrar em carteira, a empresa exige que o
funcionário tenha sua própria moto. O máximo que garantem é um convênio com
uma oficina de peças – “[...] se a moto quebra, vai lá, pega a peça e paga no outro
mês [...] não tem registro em carteira e, se tem acidente, aí você fica ferrado”.
Além do risco de acidentes de trânsito, o perigo maior está na própria natureza
do serviço. Tinha que circular nas regiões onde as pessoas não pagam contas de
água, ou seja: no fundo mais pobre da periferia da cidade. E não poucas vezes,
nesse percurso, o motoqueiro voltava a pé, sem a moto: “era muito perigoso...
trabalhava com moto, ia em muita periferia... tem um vizinho que trabalha lá,
já roubaram a moto dele [...] tenho dois colegas que trabalhavam lá, os dois já
perderam moto... é mais periferia, favela, pro lado do Capão, tudo área perigosa.
Parque Santo Antônio, Jangadeiro, Capão, Jacira... o pior lugar era o Jacira... esse
colega meu roubaram a moto lá no Jacira”. Perspectivas de futuro? Nenhuma, diz
Arnaldo e diz com firmeza: é trabalho para os que já não conseguem mesmo outra
coisa na vida: “a maioria é cara que já teve passagem na polícia, não consegue
outro emprego e daí tem que apelar para isso aí. É cara que já foi preso... não dá
futuro, não dá nada, acho que não”.
O trajeto de um motoqueiro é mais do que eloquente para se pensar o modo
como a experiência do trabalho abre-se ou desenrola-se nas múltiplas facetas
da experiência urbana. É como se esse trajeto também percorresse a linha de
intensidade que atravessa os vários mundos sociais que se sobrepõem e compõem
a realidade urbana: a empresa pública de saneamento urbano, as novas formas
de gestão e as práticas da terceirização, os insolváveis em tempos de “verdade
tarifária” imposta pela lógica triunfante do mercado, a pobreza da periferia, e mais
a legião dos que foram pegos pela “maldição do destino” e não mais conseguem
emprego em canto nenhum, tudo isso misturado com as energias mobilizadas por
esse objeto do desejo que são as motos, e que vão também constelando referências
importantes na sociabilidade cotidiana dos jovens nessa região.
As histórias que circulam são também muito confusas, tão confusas que pare-
cem dar plausibilidade aos rumores e suspeitas de que as empresas de motoboys,
assim como os perueiros, são hoje “frente de investimento” do dinheiro sujo. E, ao
que parece, essas empresas estão se proliferando nessa região situada nas franjas

105
das “cidade global”. A história de Fernanda, 20 anos (em 2001), diz alguma
coisa disso. Seu irmão tentou se lançar em uma empresa de motoboys. Não foi
bem-sucedido e, em pouco tempo, estava enterrado em dívidas. Porém, a garota
ajudava o irmão e “ganhou experiência”, como se diz. Depois, a sorte do destino
a levou para um escritório imobiliário no Centro Empresarial, que fica ali, na
fronteira do Jardim São Luís, portal da “cidade global”. Era secretária e sua tarefa
era lidar com as empresas de motoboy. Saiu-se tão bem que foi chamada por um
motoboy bem-sucedido, que queria montar uma empresa própria em Itapecerica
da Serra, município da Grande São Paulo contíguo à periferia sul da cidade e
não muito distante da região em que tudo isso estava então acontecendo. O rapaz
trabalhava então numa empresa que “era bem falada, eu conhecia a maioria dos
funcionários, eles iam direto falar comigo... aí eu falei ‘tudo bem’”. Daí para frente
é uma sucessão de promessas não cumpridas, pagamentos não efetuados, cobran-
ças de dívidas atrasadas, enquanto o dinheiro sumia por meandros inexplicados
(inexplicáveis, talvez). É uma história muito confusa. Fernanda conta que os planos
não eram modestos: montar a parte operacional em São Paulo, com motoboys,
perua e ônibus. E, em Itapecerica, o plano era montar pacotes turísticos para as
escolas. O rapaz falava em promover excursões até Barretos, no interior de São
Paulo. Fernanda logo se põe a campo e pede para o irmão providenciar o mate-
rial gráfico necessário para a divulgação – cartazes, cartões de visita, envelopes
com logotipo. Nesse meio tempo, a família toda de Fernanda já estava envolvida
nesse negócio. A mãe foi chamada para fazer a faxina do escritório, a irmã foi
contratada como secretária e havia ainda uma amiga do bairro que ajudava nos
serviços internos. Ninguém recebeu pagamento. Os motoqueiros, mais de vinte,
tampouco. E passaram a se recusar a trabalhar enquanto o pagamento não fosse
efetuado – “ele nem aparecia na firma com medo dos motoboys”.

Reatando pontos e linhas: os elos perdidos da política

Fernanda é uma garota com secundário completo e muito empreendedora.


Tem uma família muito articulada, mora em um bairro com uma super-densa
malha de relações sociais, tudo também muito organizado, muito ativo, muito
solidário. Em uma palavra: é uma garota portadora de um vasto capital social,
para usar aqui uma expressão corrente no jargão sociológico. Afinal, foi assim
que conseguiu o emprego que poucos conseguem, no Centro Empresarial de
São Paulo. Apesar da pouca idade, a trajetória ocupacional de Fernanda é no-
tável, uma sucessão razoável de empregos, todos eles obtidos através da trama
de relações por onde circulam informações e as “boas recomendações”. Mas é
uma trajetória também notável pela instabilidade e vulnerabilidade, sempre nas
fronteiras entre o mercado formal e informal – arbitrariedades várias, demissões
sucessivas, salários atrasados, direitos desrespeitados. Bem, nada a estranhar,

106
afinal redes e capital social não deixam de repor as circunstâncias de circuitos
empobrecidos de uma região igualmente empobrecida e que acionam empregos
precários de um mercado de trabalho, com o perdão da tautologia, precariza-
do. A empreendedora Fernanda bem que chegou perto de escapar das tramas
da precariedade quando, mobilizando seu capital social, teve acesso a um dos
ícones da modernidade globalizada e conseguiu o promissor emprego no Centro
Empresarial. Porém, foi esse mesmo capital social que o rapaz da empresa de
motoboys tratou de mobilizar para o seu fraudulento negócio. Em pouco tempo,
a única coisa que esse capital social acumulado lhe rendeu foram muitas dívidas
(contas de telefone e água atrasadas em razão de um salário que nunca foi pago),
compromissos não respeitados (o irmão empenhou o próprio nome para conseguir
a impressão dos cartazes), além de muitos sustos, o pior deles quando apareceu
no escritório um “cliente” encolerizado para cobrar a “sua parte”, de arma na
mão, impropérios na boca e ameaça de barbarizar o local. Porém, o moço das
motos a essas alturas já tinha se evaporado com os dividendos expropriados do
capital social alheio, e ninguém sabia por onde andava.
A empreendedora Fernanda é vizinha do jovem motoqueiro em um bairro
que poderia constar do rol dos casos exemplares de capital social e redes sociais
atuantes. E tudo pode parecer muito edificante, se o parâmetro for a “comunida-
de”, a “cidadania local” e o “empreendedorismo social” – tudo isso está lá. No
entanto, como diz Bruno Latour (2000), se o assunto são as redes, é preciso ver
que as redes “são mais ou menos longas, mais ou menos conectadas”. E também
envolvem “boas conexões” e “más conexões”. Quer dizer: o problema todo está
em saber e compreender o modo como os vínculos e conexões operam, já que,
sempre situados, se fazem na conjugação entre atores, circunstâncias, fatos e ar-
tefatos. É aí que se torna perceptível a pulsação do mundo urbano. É isso o que
essas histórias permitem perceber. E é por isso que o perueiro, o motoqueiro e a
moça empreendedora comparecem aqui como personagens urbanos que fazem
ver os traçados que constroem os territórios, em suas relações com a cidade e
suas dimensões.
Mas isso ainda abre uma outra questão: com exceção talvez do perueiro
bem-sucedido, os personagens aqui comentados colocam outras questões. Afinal,
onde situar cada um deles? São pobres infelizes da sorte? Excluídos? Se não, faz
algum sentido dizer que são então “incluídos”? São personagens que fazem os
seus percursos nas tramas do mundo social. E essas categorias (e binaridades)
ficam estreitas demais para colocar em perspectiva as questões que essas histórias
nos abrem. Os campos de força e toda a complicação dos tempos que correm
estão exatamente nos pontos de conexão dessas tramas que fazem a tapeçaria
do mundo social.
Esses personagens escapam às categorias habituais que pautam os debates
recentes. Não correspondem à figura canônica do trabalhador regular, tampouco
à do mercado informal, e muito menos às tipificações correntes dos “pobres” e
“excluídos”, público-alvo dos programas ditos de inserção social. No entanto, seus

107
percursos fazem ver a teia de relações e campos de força que estruturam o mundo
social, mas que se esvanecem sob os termos correntes do debate atual.
É aqui também que se aloja o desafio da invenção política, essa mesma que
nos tempos atuais foi tragada pelo princípio gestionário que trata das “pontas”, do
lado vitorioso da boa governança econômica e, do outro lado, a gestão do social.
E no meio, quer dizer, em tudo o que importa, não existe o vazio que expressões
como a de “exclusão social” podem sugerir, porém os fios que tecem o campo de
uma experiência urbana ainda a ser bem entendida. Mas, então, essas trajetórias
e os personagens urbanos que nos permitem traçá-las nas cenas e cenários nas
quais essas histórias transcorrem também nos dão pistas para pensar os elos
perdidos da política na trama social de que é (são) feita(s) a(s) cidade(s).

Riobaldo, que tem a sabedoria dos grandes contadores de história, sabe do


que fala quando diz que a vida é um rodamoinho e que o demo está nas ruas.
Ele sabe do que fala quando diz que o real não está no começo, nem no final,
mas no meio da travessia.
“Digo: o real não está na saída nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no
meio da travessia”.
São as veredas que fazem o Grande Sertão
(Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa)

108
CAPÍTULO 3

Deslocamentos:
percursos e experiência urbana

Os efeitos excludentes das mutações do trabalho sob o impacto da reestrutu-


ração produtiva em tempos de revolução tecnológica e globalização da economia
já foram matéria de uma vasta literatura sobre o tema. No entanto, ainda pouco
se sabe sobre as configurações societárias urdidas nas dobras dessas transforma-
ções. Entre, de um lado, os artefatos da “cidade global” sob o foco dos debates
entre urbanistas e pesquisadores da economia urbana e, de outro, os “pobres” e
“excluídos” tipificados como público-alvo das políticas ditas de inserção social,
há todo um entramado social que resta conhecer. E é isso justamente que situa
o terreno em que ganha pertinência relançar a discussão sobre os sentidos e os
lugares do trabalho na tessitura do mundo social. Se o trabalho não mais estrutura
as promessas de progresso social, se os coletivos “de classe” foram desfeitos sob
as injunções do trabalho precário, se direitos e sindicatos não mais operam como
referências para as maiorias, se tudo isso mostra que os “tempos fordistas” já se
foram, o trabalho não deixa de ser uma dimensão estruturante da vida social.
Mas é isso também que abre a interrogação sobre as novas configurações sociais
nas quais essa experiência se processa. Não se trata tão-somente da ampliação do
mercado informal e do aumento das hostes dos excluídos do mercado de traba-
lho. Concretamente, e aqui seguimos as pistas de Francisco de Oliveira (2003),
a chamada flexibilização do contrato de trabalho significa uma informalização
que penetrou todas as ocupações e redefine por inteiro as relações de classe. É
o trabalho “sem forma” que se expandiu no núcleo do que antes era chamado de
“mercado organizado” e, com isso, como enfatiza o autor, as relações entre classe,
representação e política foram para o espaço. Na base desse processo está o salto
nas alturas da produtividade do trabalho em tempos de revolução tecnológica e
financeirização da economia, de tal modo que o processo de valorização se descola
dos dispositivos do trabalho concreto, já não depende da quantidade e dos tempos
do trabalho da produção fordista (está para além da medida) e termina por implo-
dir todas as distinções conhecidas: tempo do trabalho e tempo do não-trabalho,
trabalho e consumo; as diferenças das ocupações perdem relevância do ponto de
vista desse movimento da valorização do capital, ao mesmo tempo em que foi para
os ares a divisão entre trabalhadores ativos e o que antes era chamado de exército
industrial de reserva. É o trabalho abstrato levado a extremos, “trabalho abstrato
virtual”, que captura, mobiliza e transforma processos sociais e as atividades as
mais disparatadas em sobrevalor. Quebra-se o vínculo entre trabalho, empresa
e produção da riqueza e são outros os agenciamentos pelos quais a riqueza se

109
produz e circula nos espaços de valorização do capital: para seguir as situações
comentadas por Francisco de Oliveira, a maquinaria abstrata de produção de
valor é acionada a cada vez que se utilizam os caixas eletrônicos dos bancos ou
quando, no recinto privado da vida doméstica, se acessam serviços e produtos
pela Internet; são as formas de entretenimento, lazer, gostos e estilos de vida que
movimentam um capital que faz do “nome da marca” o principal esteio de sua
valorização, ao mesmo tempo em que joga na mais radical irrelevância social
miríades de trabalhadores espalhados pelas redes de subcontratação no mundo
inteiro, submetidos ao trabalho precário, incerto, mal pago e degradado. É uma
gente sujeita aos espaços físico-sociais do trabalho concreto, mas que desaparece
sob a pirotecnia do marketing e do espetáculo cultural (Fontenelle, 2002). Zarifian
(2003) fala de uma “economia de serviços” que não tem nada a ver com as divisões
conhecidas de setores de produção, que a rigor transborda por todos os lados e
torna irrelevantes essas mesmas divisões, pois diz respeito à trama de relações
materiais e imateriais entre produção e consumo – publicidade, efeitos de marca,
ações de marketing, cartões de fidelidade e tudo o mais que acompanha o produto
ou o serviço vendido/consumido, de tal forma que os consumidores terminam por
participar da formação do valor, apesar de não entrarem em nenhuma contabi-
lidade e em nenhum instrumento de gestão. Outros vão lançar mão da noção de
“trabalho imaterial” para discutir essas atividades que não são codificadas como
trabalho, que tentam fixar normas culturais, modas, gostos e padrões de consumo,
que capturam e organizam os “tempos da vida”, e não mais apenas os “tempos do
trabalho”, tornando cada vez mais difícil diferenciar tempo do trabalho e tempo
da reprodução (cf. Lazzarato, 1992; Aspe et al., 1996).
São mutações de fundo. Mas, então, é preciso reconhecer que isso muda tudo
nas relações entre trabalho e cidade. Os pares conceituais que antes pautavam o
debate sobre a “questão urbana” – produção e reprodução da força de trabalho,
exploração e espoliação urbana, contradições urbanas e conflito de classe – ficam
deslocados em um cenário em que as formas do trabalho implodem, seja no regis-
tro de um trabalho que se descola dos dispositivos do trabalho concreto; seja no
registro do trabalho precário, intermitente, descontínuo e que torna inoperantes
as diferenças entre o formal e informal; seja ainda no registro das multidões dos
sobrantes que se viram como podem, transitando entre as improvisações da vida
cotidiana, expedientes diversos nas franjas do mercado de trabalho e as miríades
de programas sociais voltados aos “excluídos” – nesse caso, é a diferença entre
trabalho e reprodução social que fica esfumaçada.
Por outro lado, esse constante entra-e-sai do mercado em meio aos diversos
expedientes de trabalho precário termina por alterar as referências que pautavam
e ritmavam a vida social. Se é verdade que a desconexão entre trabalho e empresa
já faz parte da paisagem social, isso também significa que os tempos da vida e os
tempos do trabalho tendem a se articular sob novas formas, não mais contidas nas
relações que antes articulavam emprego e moradia, trabalho e família, trabalho
e não-trabalho (cf. Bessin, 1999). Eram binaridades que pautavam os ritmos da

110
vida social, tendo por referência as regularidades e os disciplinamentos impostos
pelas formas de emprego (cf. Supiot, 1994; 1999). Mas, então, será necessário se
desvencilhar dessas binaridades, assim como a do formal-informal, para apreender
a nervura própria do campo social, que não se deixaria ver se nos mantivéssemos
presos a elas na análise do trabalho e do urbano.
É uma situação que está a exigir um giro em nossas categorias, de modo a cons-
truir um plano de referência que permita colocar em perspectiva e figurar esses
processos, recolocar os problemas, pôr outros tantos e perceber, nas dobras das
redefinições e desagregações do “mundo fordista”, outros diagramas de relações,
campos de força que também circunscrevem os pontos de tensão, resistências ou
linhas de fuga pelas quais perceber a pulsação do mundo social.
Mas, então, será preciso mudar o foco das atenções. Talvez seja preciso um
deslocamento do jogo de referências para re-situar o trabalho no mundo social.
Não tanto as verticalidades que construíram o trabalho nas formas conhecidas
(e suas regulações centralizadas), mas os vetores horizontalizados de relações
que articulam trabalho, a cidade e seus espaços, outros agenciamentos sociais e,
também, outros eixos em torno dos quais desigualdades, controles e dominação
se processam, afetam formas de vida e os sentidos da vida (cf. Zarifian, 2000).
Também é o caso de se perguntar de que modo as novas realidades do tra-
balho (e do não-trabalho) redesenham mundos sociais, as relações de força e
campos de práticas que fazem a tessitura da cidade e seus espaços. Ainda: de
que modo são redefinidas práticas sociais e as mediações que conformam uma
experiência social sob outro diagrama de relações e outro jogo de referências. As
circunstâncias variadas do trabalho precário e intermitente redefinem tempos e
espaços da experiência social (cf. Sennet, 2000). Alteram, poderíamos dizer, a
própria experiência urbana, seguindo os circuitos descentrados dos “territórios
da precariedade” (cf. Le Marchand, 2004).
Talvez seja, então, o caso de prospectar os pontos de clivagem dessas novas
realidades seguindo as práticas (e suas mediações) nesses circuitos redefinidos do
mundo social. Pontos de clivagem que podem ser apreendidos nos deslocamentos
da experiência social e que cavam fundo a diferença entre as gerações. Essa pode
ser uma via de entrada para a descrição desse mundo social redefinido. Na virada
dos anos 1990, início dos 2000, a diferença entre as gerações tinha a peculiaridade
de coincidir com mudanças no mundo do trabalho e nas dinâmicas urbanas.

Trabalho e cidade: relações redefinidas

Seguir os traçados das mudanças (e conturbações) do mundo urbano signi-


fica levar a sério processos e práticas que só se deixam ver nos deslocamentos e
nos pontos de inflexão, de entrelaçamento, e bifurcações que vão compondo as
realidades urbanas. Se no capítulo anterior foram comentados os deslocamentos

111
nos espaços urbanos e nos percursos ocupacionais, estes também se processam
no interior das famílias – na linha vertical da sucessão ou linhagens familiares,
para lembrar a questão discutida páginas atrás. A diferença entre as gerações é
um crivo que permite ver e figurar outras dimensões e outras facetas das recon-
figurações urbanas (e sociais) engendradas nesses anos.
Para as primeiras gerações, a virada dos tempos significou a desestabilização
dos andaimes do mundo em uma situação que bloqueia perspectivas de vida,
que invalida práticas conhecidas e descredencia saberes acumulados, “formas de
ser e de fazer”, como diria Bourdieu, e os colocam em uma espécie de errância
em que ficam embaralhadas as fronteiras entre o trabalho, a viração própria
do mercado informal e a condição de “pobre”, público-alvo de políticas sociais.
São figuras que podem esclarecer os sentidos da erosão do “mundo fordista” e
encontram paralelos nas situações descritas em A Miséria do Mundo (Bourdieu,
1997) ou, então, na “decomposição da classe operária” discutida por Pialoux e
Beaud (2003). Mesmo que nem tudo possa ser descrito sob o signo da tragédia
pessoal daqueles cujas vidas desabam ladeira abaixo, e mesmo para aqueles que
ainda conseguem se manter nos seus empregos e sobreviver à “desestabilização
dos estáveis” (Castel, 1999), o tempo do progresso e de suas promessas esgotou-
se – “naquele tempo bastava a experiência, agora é tudo mais difícil”. Quanto
ao futuro, “agora é contar com a sorte”. Incertezas que se instalam no centro
mesmo de um projeto de vida que se alimentava das promessas de um futuro mais
promissor para os fi lhos – “fizemos até agora tudo o que foi possível, agora é com
eles”. O futuro dos fi lhos? “Não sei, ninguém sabe... só Deus sabe”. Incertezas
quanto às possibilidades de um emprego promissor. Mas, também, incertezas
sobre os destinos da prole, o receio de que entrem no “mau caminho” ou, então,
de serem atingidos pela violência de todos os dias – “eles saem e a gente nunca
sabe se eles voltarão para casa com vida”.
Para os mais jovens, sobretudo para os que já nasceram na cidade, a situação
ganha outras configurações e tem outros sentidos. Suas histórias já não podem ser
compassadas pelas venturas e desventuras da epopeia do progresso que estrutura
a narrativa da geração de seus pais. As circunstâncias atuais do mercado de tra-
balho não significam uma degradação de condições que foram melhores ou mais
promissoras em outros tempos; já entraram num mundo revirado, em que trabalho
precário e desemprego compõem um estado de coisas com o qual têm que lidar,
e estruturam o solo de uma experiência de trabalho em tudo diferente da geração
anterior. A experiência da urbanização (e a relação com a cidade) não se faz mais
nas referências da passagem campo-cidade e na marcação dos eventos que davam
o compasso do “progresso” na cidade. Para eles, o “progresso” já chegou e está
constelado nas características de uma sociedade de consumo tão ampla quanto
excludente, recortada por serviços e equipamentos urbanos que chegam até os
pontos mais distantes das periferias das cidades, atravessada por um ethos do
consumidor que se alastra até os segmentos urbanos mais pobres, valendo-se do
progressivo endividamento das famílias por meio da generalização dos cartões de

112
crédito e extensão dos procedimentos de crédito ao consumidor. Enfim, tudo isso
já marcava os anos 80,1 porém foi potenciado, acelerado e redefinido no correr
da década de 1990, sob a lógica financeirizada dos capitais globalizados que
capturam espaços urbanos, atividades econômicas e seus circuitos.
Sabe-se que é sobre os mais jovens que recai todo o peso do desemprego e
do encolhimento das alternativas de um trabalho mais estável e promissor. É em
torno deles que se cristalizam de maneira mais evidente as diversas formas de
trabalho precário – trabalho temporário, terceirizado ou cooperativado, muito
frequentemente mediadas por agências de emprego e prestadoras de serviços. E
é em torno de suas figuras que se entrecruzam os fios de um mundo social que
se reconfigura nas dobras do “mundo fordista” que se desfaz. Para Pialloux e
Beaud (2003), a “decomposição da classe operária” não tem a ver apenas com
a dissolução dos coletivos do trabalho, mas também com a “ruptura na sucessão
das gerações”. A experiência do trabalho incerto e descontínuo, as esperanças
frustradas de um emprego regular e a impossibilidade de um outro futuro que
não seja o círculo fechado tramado entre o trabalho precário e o desemprego,
tudo isso terminou por alterar as relações com o trabalho, com o emprego, com
o sindicalismo e a política. E desdobrou-se na erosão das referências “de classe”
a partir das quais as identidades eram definidas e os critérios de reconhecimento
de si e dos outros eram construídos.
Essas são questões importantes e que precisam ser perseguidas para entender
as dinâmicas societárias reconfiguradas no correr desses processos. Mas con-
têm ou podem conter uma armadilha quando a discussão toma como parâmetro
exclusivo a experiência prévia construída nos “bons tempos” da norma fordista.
O risco aí é fazer uma descrição em negativo, que termina por falar sempre do
mesmo (o trabalho fordista), apenas com os sinais invertidos. O problema não é
tanto cair nas trampas da idealização de algo que não tem por que ser celebrado
(essa é a crítica mais fácil de ser feita, e já foi feita por muitos), mas de ficar
aprisionado num jogo de referências que não permite apreender os sentidos da
experiência social que vem se desenhando. A diferença dos tempos e a ruptura
das gerações é algo que precisa ser bem entendido, não para fazer a comparação
ponto a ponto (era assim, não é mais), mas para situar os deslocamentos e bifur-
cações de uma experiência social que vai se fazendo em um outro diagrama de
relações e referências que redefinem espaços e territórios. Situação que exige
um trabalho de deciframento do social capaz de flagrar campos de força que se

1
Como mostra Vilmar Faria (1992: 107), a expansão da sociedade de consumo no Brasil
urbano deu-se em grande parte através de uma agressiva política de crédito direto ao
consumidor, a absorção do ethos do consumidor também entre os segmentos urbanos mais
pobres e o progressivo endividamento das famílias: “tornou-se mais fácil endividar-se para
adquirir, à vista e no dia-a-dia, um litro de leite ou um quilo de carne. Por isso e apesar
de tudo o mercado de bens de consumo expandiu-se para além dos limites impostos pela
rígida distribuição de renda e pelos salários baixos”.

113
desenharam no traçado das reconfigurações do mundo social e, quem sabe, polos
de gravitação por onde experiências diversas e talvez disparatadas se articulem
ou, pelo menos, convirjam e se entrecruzem em torno de outras referências e
novas constelações de sentido.
Por certo, será importante compreender as mutações do trabalho e de seus
significados, o modo como isso afeta formas de subjetivação, padrões de socia-
bilidade, critérios de reconhecimento, relações com o tempo e projetos de vida
(Sennet, 1998; Bessin, 1999). Porém, ainda sabemos pouco sobre a experiência
do trabalho (e da cidade) dessas novas gerações. Mesmo supondo que o trabalho
(e os locais de trabalho) tenha perdido o anterior poder de gravitação como locus
de investimento subjetivo, nem por isso deixa de ser um mediador importante na
experiência social. Então, talvez possamos seguir nesse empreendimento explo-
ratório e tentar identificar as linhas de intensidade que atravessam os percursos
dos mais jovens, um outro diagrama de referências que articula moradia, trabalho
e cidade.

***

O fato é que, ao perseguir os trajetos e percursos dos mais jovens, desenha-


se um outro perfi l da cidade. Ou melhor: é um ângulo pelo qual a cidade vai se
perfi lando com todas as ambivalências e complicações que recobrem os tempos
atuais. Os percursos dos mais jovens (entre os 20 e 30 anos, pouco mais, pouco
menos) fazem ver o outro lado da modernização neoliberal dos anos 90: os gran-
des equipamentos de consumo pontilhando os espaços em um grande arco que
chega próximo aos bairros mais distantes da periferia.
Em que pese tudo o que se tem dito sobre fragmentação urbana e dualização
social, o fato é que esses circuitos globalizados se constituíram como polos de
gravitação importantes para as novas gerações que se lançam no mercado de
trabalho e na vida urbana de uma maneira geral. Os shopping centers, que se mul-
tiplicaram nos últimos anos e se espalham pelas diferentes regiões da cidade, são
referências urbanas importantes – é por lá que circulam os jovens das periferias
pobres da cidade. E eles não se contentam com suas versões mais empobrecidas,
quando não um tanto mal ajambradas, dos shopping centers de periferia. Quando
as escalas de distância e proximidade permitem, sobretudo nas periferias que se
estendem por trás das fronteiras da “cidade global” (a periferia sul da cidade),
esses jovens não se intimidam com os brilhos faiscantes dos centros de consumo e
lazer da classe média enriquecida e branchée nos modernos circuitos do mercado
cultural. É por lá mesmo que eles circulam, em bandos, com grupos de amigos
ou com suas famílias.
Os grandes equipamentos de consumo e seus circuitos são referências ur-
banas importantes também porque são fontes de emprego. No mínimo, isso nos

114
obrigaria a levar a sério a sugestão de Saskia Sassen (1998) de que entender as
novas realidades urbanas exige que se desvencilhe do que a autora define como
“narrativas da exclusão”: uma descrição das cidades globais – ou dos espaços
globalizados – que tem como única referência os winners dos altos circuitos do
capital.2 Não por acaso, vale lembrar, no mesmo passo em que esses equipamentos
se espalharam pela cidade, também fizeram proliferar o igualmente muitíssimo
moderno trabalho temporário mediado por agências de emprego conectadas a
empresas terceirizadas de prestação de serviços. E são também por esses cir-
cuitos que os mais jovens fazem seus percursos, sempre descontínuos e sempre
instáveis, no mercado de trabalho. E por esses circuitos fazem uma experiência
da cidade tensionada entre a brutalidade das desigualdades (velhas e novas), a
sedução encantatória do moderno mercado de consumo, mas também o jogo de
possibilidades e bloqueios para o acesso a uma vida urbana ampliada.
Eis o ponto que coloca as novas gerações no centro nevrálgico desse mundo
social que vem se configurando. São jovens que se lançam no mundo em um
momento em que o encolhimento dos empregos e a precarização do trabalho
acontecem ao mesmo tempo e no mesmo passo em que os circuitos da vida urbana
se ampliam e se diversificam.
Isso nos abre um outro feixe de questões que precisariam ser mais bem
trabalhadas. Nesse mundo social redefinido, a experiência do trabalho (e do
não-trabalho) entrelaça-se com a experiência da própria cidade. Porém, se é
assim, então será importante escapar dessa clivagem que atravessa o debate
contemporâneo entre, de um lado, a economia urbana, a “cidade global” e os
winners dos circuitos globalizados do mercado e, de outro, a “exclusão social”,
os territórios da pobreza e o mundo dos perdedores. O que se trata de ver aqui
são as relações entre cidade e trabalho. Relações que não podem mais ser vistas

2
“... na avaliação predominante, os conceitos fundamentais de globalização, economia
da informação e telemática sugerem que o lugar não importa mais e que o único tipo de
trabalhador que conta é o profissional com sólida formação” (Sassen, 1998: 16). Com isso,
ficam fora da história da globalização atividades e tipos de trabalhadores tão vitais quanto as
finanças e telecomunicações globais. Ademais, “[...] focalizar o trabalho que está por detrás
das funções de comando, a produção no complexo das finanças e da prestação de serviços e
os mercados tem o efeito de incorporar os recursos materiais subjacentes à globalização e toda
a infra-estrutura de empregos e de trabalhadores que não são vistos como pertencentes ao
setor corporativo da economia: secretárias, faxineiros, caminhoneiros que entregam software,
a variedade de técnicos e de empregados que trabalham em consertos e todos os empregos
que tem que ver com a manutenção, pinturas e reforma das construções onde aquele setor
se localiza”. Há, portanto, uma multiplicidade de economias envolvidas na constituição da
denominada economia global. Trata-se de reconhecer “tipos de atividades, trabalhadores e
empresas que jamais estiveram instalados no centro da economia ou que foram desalojados
desse centro por ocasião da reestruturação ocorrida nos anos oitenta e, em consequência,
foram desvalorizados em um sistema que dá um peso excessivo a uma concepção estreita do
que é o centro da economia. A globalização portanto pode ser encarada como um processo
que envolve múltiplas economias e culturas relativas ao trabalho (1998: 158).

115
nos termos do debate dos anos 80, mas que, por isso mesmo, precisam ser re-
colocadas se quisermos também escapar de uma visão empobrecida do mundo
social reduzido às suas supostas binaridades.
E é a própria experiência das novas gerações e seus circuitos, no nervo exposto
das complicações atuais, que nos dá as pistas para tentar um giro no modo de
descrever o mundo social. Pois são essas mesmas experiências que tornam no
mínimo problemáticas as visões que hoje prevalecem de uma cidade fragmentada
entre enclaves fortificados e globalizados, de um lado, e, de outro, o mundo da
pobreza confinado nos bairros também pobres espalhados pelas periferias da
cidade. As evidências imediatas sustentam ou podem sustentar essa visão das
coisas, porém podemos nos perguntar se essa não é uma medida estreita demais,
que se fixa em certos pontos de cristalização dos fluxos da riqueza e fluxos da
pobreza, que, vistos de um outro parâmetro, transbordam por todos os lados
essas definições socioespaciais.
Não se trata, que se diga desde logo, de contrapor à “cidade dos muros”, para
lembrar a expressão cunhada por Teresa Caldeira (2001), uma suposta (e falsa)
democratização da “nova sociedade do consumo”. A questão é outra. E o que
estamos aqui sugerindo é um outro modo de figurar e descrever esse mundo social.
Mas, então, será preciso também recolocar o lugar dos grandes equipamentos
de consumo nesse mundo atravessado pelos circuitos globalizados do capital.
Sair de sua figuração como lugares paradigmáticos da “sociedade do consumo”.
E tomá-los por aquilo que são no movimento mesmo de valorização do capital.3
Pois nesses tempos globalizados, seguindo os movimentos acelerados de dester-
ritorialização do capital, a riqueza social (o sobrevalor, é bom dizer) também se
corporifica (e circula por entre os) nos espaços da cidade, pedaços globalizados
que vão cortando e recortando o mundo urbano:4 as fortalezas globais concen-
tradas no côté pós-moderno da cidade e as formas predatórias e excludentes de
apropriação privada do solo urbano (cf. Fix, 2001); os grandes equipamentos de
consumo e lazer que se concentram nesses mesmos espaços, mas se espalham
num grande arco que chega até mesmo às periferias da cidade, também cortando

3
As relações entre acumulação capitalista, espaço e os “artefatos urbanos” é questão
especialmente discutida por David Harvey (1994)
4
Como diz Veltz (1996: .XX), “as grandes cidades [são] uma formidável máquina de ace-
leração dos fluxos, que ligam os ritmos do consumo e dos modos de vida aos da produção
e dos capitais, limitando a incerteza ao garantir às empresas as possibilidades as mais
amplas de externalização dos riscos (por exemplo, pelo uso massivo da subcontratação) e
acesso aos mercados mais flexíveis de trabalho mais qualificado. Braudel caracterizava as
cidades como transformadores elétricos que aumentam as tensões, precipitando as trocas.
Será preciso então se espantar que, na economia moderna da rapidez, estas tiram das
cidades o essencial de seu crescimento? Mas essas formidáveis tensões temporais estão
também na origem das desigualdades as mais radicais e que se concentram nas megaci-
dades, expressando a ‘telescopage’ entre esta precipitação e a ausência de perspectiva de
uma ampla parcela da população”.

116
e recortando o mundo da pobreza; da cultura transformada em mercadoria às
chamadas intervenções urbanas, pelas quais a cidade passa a ser ela própria ge-
rida e consumida como mercadoria (cf. Arantes, 2000); tudo isso e mais alguma
coisa, ao mesmo tempo em que segue, numa extensão sem limite, a mercantili-
zação de tudo e todos. As empresas de bens e serviços desenvolveram, no correr
desses anos, eficazes procedimentos para aproveitar as “potencialidades” desse
enorme e expansivo mercado popular: afinal, os pobres também consomem e a
financeirização dos orçamentos domésticos, por meio dos cartões de crédito que
se popularizam, instala o pobre consumo dos pobres, um consumo pingado, de
pouco em pouco, nos circuitos acelerados do capital financeiro (cf. Sciré, 2009).
O fato é que qualquer um que circule pelos bairros das periferias mais pobres
haverá de encontrar a parafernália do consumo moderno e pós-moderno e have-
rá de encontrar o morador pobre desses lugares mais-do-que-pobres exibindo,
junto com a fatura de uma dívida sempre adiada, as versões populares (ou nem
tanto) de cartões de crédito, ou os cartões de compra dos grandes equipamentos
de consumo que chegaram por lá: é a financeirização do popular fiado. Eis aí os
“sujeitos monetários sem mercado”, para usar a expressão cunhada por Kurtz
(1992). Ou o “homem endividado”, essa figura da “sociedade do controle”, como
diz Deleuze (1992), que vem substituindo o “homem confinado” da sociedade
disciplinar descrita por Foucault.
É o caso de se interrogar pelas “afinidades eletivas”, para lembrar a formulação
weberiana, entre o “trabalho sem qualidade” descrito por Sennet e a lógica do
endividamento. Não mais projetos de aquisições futuras com base no princípio
da previdência no bom uso do orçamento doméstico, o salário e o cálculo da
poupança possível mês a mês. Nos termos de Weber, os disciplinamentos morais
da ética do trabalho e sua consonância com a racionalidade própria do moderno
trabalho industrial ou, para colocar em outra chave teórica, com a sociedade
disciplinar discutida por Foucault. Agora, o consumo descola-se do trabalho e a
lógica é outra, não a lógica da poupança, mas o cálculo da “capacidade de endi-
vidamento”, a qual é ditada, como bem sabemos, pelas operadoras dos cartões
de crédito pelas vias de procedimentos que faz cada um se enredar em um dívida
sem fim, negociada e renegociada a cada momento, com a possibilidade de ela
se estender indefinidamente no tempo. É todo um jogo social que se declina no
presente imediato, tanto quanto a viração própria dos mercados informais e do
trabalho precário: o que vale não é mais um projeto articulado à persistência
do trabalho, mas a lógica do ganho (diferente do salário) que se faz em meio às
oportunidades que surgem (e desaparecem) com a mesma aleatoriedade dos
jogos de azar, aliás da mesma maneira como funciona o cassino do mercado
financeiro. Que se diga: como também acontece com os ganhos financeiros, do
ponto de vista da dívida (e dos acertos e expedientes inventados para lidar com
ela), a origem do dinheiro não tem nenhuma importância, pouco importa se foi
o salário ou os ganhos incertos na viração dos mercados informais, de origem
honesta ou duvidosa.

117
Como diz Cláudia Sciré (2009), a pobreza, também ela, foi financeirizada. A
lógica da dívida altera modos de organização da vida familiar. E afeta os circuitos
da sociabilidade e da solidariedade intra-pares, com os cartões circulando na
teia de préstimos e contrapréstimos: uns emprestam nome e cartões para outros
com o “nome sujo” na praça ou para ajudar a aquisição de bens além dos limites
disponíveis em seus respectivos cartões e, ao final, uns e outros se veem enreda-
dos no esforço por inventar expedientes para negociar a divida, transferi-la para
o mês seguinte, usando um cartão para cobrir a dívida de um outro, um cartão
próprio ou cartão emprestado, uma dívida que se paga com outra dívida, em
uma forma peculiar de financeirização das jogos da reciprocidade popular. Ao
fazer a traçabilidade desse artefato urbano que são os cartões de crédito, vamos
encontrar os fios que articulam esses jogos sociais redefinidos, os equipamentos
de consumo, as financeiras, e mais todos os expedientes mobilizados, também
nas fronteiras incertas entre o legal e ilegal, lícito e ilícito, regidos pela lógica
da dívida que vai se transferindo de um ponto a outro, até entrar, por vezes, em
ponto de combustão.
É bem verdade, diz Deleuze (1992: 224), que o capitalismo mantém em
escalas sempre crescentes a extrema miséria das maiorias, povos e populações
“pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle
não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão
dos guetos e favelas”. No entanto, para usar a linguagem do fi lósofo em outros
textos, os “fluxos urbanos”, liberados pela subtração dos dispositivos do trabalho,
circulam e encontram outros agenciamentos e pontos de cristalização de que é
evidência este promissor e expansivo mercado que é o tráfico de drogas, aliás,
também ele globalizado e conectado nos circuitos desterritorializados do capital
financeiro. Nada mais eloquente do que o retrato desenhado por Alba Zaluar
(1996: 55-59) de um garoto metido no tráfico de drogas no Rio de Janeiro: o
menino favelado “com uma AR-15 ou metralhadora UZI, considerados símbolos
de sua virilidade e a fonte de grande poder local, com um boné inspirado no
movimento negro da América do Norte, ouvindo música funk, cheirando cocaína
produzida na Colômbia, ansiando por um tênis Nike do último tipo e um carro
do ano”. Isso não se explica, diz Zaluar, e com razão, pelos níveis de salário
mínimo ou pelo desemprego, e muito menos pelo peso das camadas geológicas
da tradição ou resquícios da violência costumeira do sertão, como muitas vezes
se diz: “entender como o ilícito e o ilegal se enraizaram no setor informal para
comandar um exército de desempregados e sócios menores é fundamental”, até
porque tudo isso põe em movimento bens materiais e monetários que entram na
circulação de mercadorias do mundo capitalista.
Entre a brutalidade da destituição dos miseráveis e os brilhos faiscantes
desse capitalismo pós-moderno, entre o futuro sempre adiado (como a dívida,
deixada para o dia seguinte, para um dia qualquer...) e o também muito pós-
moderno presente imediato do garoto do tráfico em que tudo isso se conjuga no
verso-e-reverso do capitalismo contemporâneo, há um entramado de linhas que

118
se cruzam e entrelaçam, que atravessam e transbordam os domínios estritos da
pobreza e da riqueza (esses que oferecem as evidências imediatas de uma cidade
fragmentada ou dualizada, apartada) e vão montando um socius que ainda será
preciso conhecer melhor.
Pelo lado do trabalho, são também esses e outros traçados que vão redese-
nhando o mundo social e a paisagem urbana. É o que acontece nos circuitos
descontínuos do trabalho precário, temporário ou subcontratado. Passando pelos
polos descentrados no tecido urbano, vão serpenteando os pontos em que a riqueza
se cristaliza nos espaços da cidade com as redes de subcontratação e agências de
trabalho temporário, ao mesmo tempo em que esses mesmos circuitos da riqueza
alimentam as conhecidas atividades de sobrevivência do dito mercado informal,
reativam o velho conhecido trabalho em domicílio de antanho e passam por mil
formas de práticas ilícitas que se espalham por todos os lados.
Mas, então, retomando um ponto deixado solto mais atrás, é o caso de se in-
terrogar pelos modos como a experiência das desigualdades vem se processando,
junto com a vivência dos bloqueios a possibilidades de vida em um tempo que
celebra o desempenho, a performance e o sucesso como medidas (aliás, inefáveis)
de autonomia individual.5 Se não é mais remetida às configurações coletivas de
classe, seria possível arriscar a dizer que essa experiência vem sendo configurada
nos espaços da cidade e seus circuitos. A imagem do garoto do tráfico é eloquente
nesse sentido. No seu contraponto, o fenômeno rap é algo mais do que um fenô-
meno cultural interessante em nossas cidades. Como bem nota Maria Rita Khel
(2000: 212), as músicas dos Racionais MC’s são a expressão de uma recusa do
presente, resistência ao presente, sem nenhuma transcendência. Um presente
imediato, afirmado no “ter atitude”, para usar a expressão dos “manos”. Recusa
e denúncia do mundo reluzente do consumo. Recusa também do mundo do crime.
Resistência ao presente pelo ato de permanecer vivo, “contrariando a estatística”.6
E declarar o seu lugar: “essa porra é um campo minado/quantas vezes eu pensei
em me jogar daqui/ mas aí, minha área é tudo o que eu tenho/a minha vida é
aqui e eu não consigo sair/ é muito fácil fugir, mas eu não vou/ não vou trair
quem eu fui, quem eu sou”, eis o trecho de uma de suas músicas. Resistência ao
presente, “atitude” de afirmação que desencadeia princípios horizontalizados de
identificação, que acena talvez para “devires minoritários” (Deleuze) que escapam

5
Como bem nota Eheremberg (1991), a autonomia não é mais pensada como recusa às
subordinações de um mundo disciplinar (cf. os movimentos culturais dos anos 60), mas
é agora figurada à imagem e semelhança da empresa, e o seu princípio é a concorrência
e competição. Da atual celebração do esporte transformado em espetáculo de massa à
projeção do empresário bem-sucedido (aliás, também mediatizado e transformado em
celebridade) como padrão moral a ser seguido, passando pelo consumo, eis as figuras do
“novo individualismo” que vem se configurando desde meados dos anos 80.
6
“[...] permaneço vivo, eu sigo a mística, 27 anos contrariando a estatística... eu sou apenas
um rapaz latino-americano apoiado por mais de cinquenta mil manos”.

119
dos axiomas que capturam energias sociais e afirmam outras possibilidades de
vida, outras maneiras de problematizar a existência.
O fato é que os grupos de rap são uma referência importante nas periferias da
cidade. Suas apresentações e as letras de suas músicas metabolizam a vivência
da pobreza periférica, mas em uma cifra em tudo e por tudo além do perímetro
estreito do “mundo da pobreza” – não por acaso, são também eles um fenômeno
globalizado, falam não para a “comunidade”, falam para o “mundo” ou por essa
outra globalização feita por baixo, nas linhas e fluxos que escapam dos “aparelhos
de captura” do capitalismo contemporâneo. Isso valeria, por certo, uma discussão
à parte. Mas se vale arriscar em uma seara além de nossas competências, é porque
esses grupos compõem as realidades das periferias urbanas.
Como diz um de nossos entrevistados (falaremos dele mais à frente),

periferia a gente fala assim, é mais pessoas humildes, que não têm condições
de se divertir, ter bom estudo, isso e aquilo, fazer uma faculdade… um diver-
timento, não tem condições de ir no shopping comprar uma roupa de marca…
aquela música dos Racionais diz tudo… Pra mim, periferia é isso aí.

Esse é o depoimento de um rapaz de 30 anos, que mora em um bairro na


periferia sul da cidade. Ele entrou na vida adulta já em um mundo revirado, que
não encontra alternativas fora do trabalho precário (agências de trabalho tempo-
rário), amarga períodos prolongados de desemprego e viveu a virada dos tempos
também pelo outro lado, o da violência que em poucos anos dizimou quase todos
os seus amigos de infância e adolescência. Também “contrariou a estatística”.
Apesar disso tudo, afirma sua identificação com o lugar, diz que é lá mesmo que
quer ficar depois do casamento:

[...] só quem mora aqui mesmo é quem sabe contar a história do bairro… pe-
riferia é um lugar até gostoso de se divertir, tem gente que fala que não, mas
periferia é periferia mesmo.
Mas o que é então a periferia? [foi a pergunta]
Periferia? Aquela música dos Racionais diz tudo… periferia é isso aí.

Do outro lado da cidade, no fundo da zona leste, em uma área de ocupação


recente e condições incrivelmente precárias de vida, é assim que um jovem de
20 anos fala de sua paixão pelo rap: “é a minha religião”, diz ele. A princípio,
“ouvia só por ouvir”, até perceber que a música tinha a ver com ele, “com o seu
dia a dia”, “com o cotidiano da periferia”. Para ele, não faz diferença se o grupo
Racionais MC’s é da zona sul, pois “periferia é periferia em qualquer lugar, Rio
de Janeiro, São Paulo, Brasília, qualquer lugar…”. O rapaz associa o seu gosto
pelo rap e o recente interesse pela política: “as duas coisas se complementam”,
diz ele, “tem tudo a ver a ideologia do rap com a do PT”. Ambos são movidos,
segundo ele, pelo “ideário da igualdade”.

120
Personagens urbanos e seus percursos

A experiência das novas gerações e seus circuitos, no nervo exposto das com-
plicações atuais, nos dá as pistas para tentar outra descrição do mundo social. É
sob essa perspectiva que tratamos de seguir os percursos dessas novas gerações.
São situações traçadas pelos circuitos das trajetórias de seus personagens. Perso-
nagens urbanos, podemos dizer. Em seus contextos de referência, essas trajetórias
operam como prismas pelos quais o mundo urbano vai ganhando forma em suas
diferentes modulações. São esses personagens que tornam práticas urbanas e
vetores policentrados perceptíveis, em torno dos quais esse mundo social vem
se desenhando.
O cenário: uma região situada na periferia sul da cidade de São Paulo, que
começou a se expandir a partir dos anos de 1970, acompanhando os fluxos dos
empregos industriais. Nessa região, que foi o polo industrial da “cidade fordis-
ta”, são nítidos os sinais da reconversão produtiva, bem como as recomposições
urbano-espaciais da década de 1990, sob o impacto do muito próximo e rico
quadrante da modernização globalizada da cidade. É o cenário descrito no capí-
tulo anterior. As entrevistas foram realizadas entre 2001 e 2002. Um momento
especialmente interessante para flagrar a virada dos tempos. Pelo lado urbano,
os grandes equipamentos de consumo, o uso generalizado dos cartões de crédito,
o consumo da parafernália eletrônica moderna-moderníssima, o que inclui o uso
dos celulares, tudo isso ainda era uma relativa novidade. Os sinais da moder-
nização urbana misturavam-se com a dureza do desemprego prolongado e as
incertezas do trabalho precário. E também a violência que dizimava sobretudo
os mais jovens.
A virada dos tempos está cifrada nas inflexões e nas circunstâncias de vida
dos que, tendo chegado a São Paulo nos anos de 1970 ou no início dos 1980,
fizeram um percurso pelos empregos fabris, chegaram às então distantes e deso-
ladas periferias da cidade, realizaram o “sonho da casa própria” pelas vias da
autoconstrução da moradia, se viram às voltas com loteamentos clandestinos e se
envolveram nas lutas sociais do período. Ou então se instalaram precariamente
no que haveria de se transformar, vinte anos depois, em uma grande favela, na
qual, e como contraponto da épica dos movimentos sociais, o clientelismo velho
de guerra se faz presente e operante nas dobras e redobras dos vários ilegalismos
de que é feito o mundo social.
Para essas famílias, a diferença dos tempos coincide com a diferença das
gerações e são sobretudo os jovens personagens dessas histórias que podem
informar-nos alguma coisa sobre os vetores e as linhas de força que deslocam os
polos de gravitação da geração anterior (entre o trabalho e as melhorias urbanas
locais), e redefinem campos sociais. Seguindo as trilhas dos mais jovens vão se
delineando os perfis ambivalentes da modernidade globalizada: uma experiência
social que se configura nos limiares e nas passagens entre mundos distintos, entre

121
o universo empobrecido da periferia e os shopping centers, os lugares prestigiosos
de consumo e lazer (referências urbanas inescapáveis para essa geração), os baixos
empregos do terciário moderno e os circuitos do trabalho precário que tangenciam
os fluxos da riqueza plasmados nos espaços urbanos. São esses limiares e essas
passagens (e seus bloqueios) que precisam ser bem compreendidos e bem situados,
pois é aqui que se arma uma teia de relações (e tensões) que via de regra escapa
às definições modelares de exclusão social e de segregação urbana.
São esses percursos, da segunda ou terceira geração, que nos fazem perceber
as conexões entre trabalho e experiência urbana. Não mais as referências que
ordenavam a experiência social dos tempos do “trabalho fordista” da primeira
geração. Não mais as mediações do trabalho regulado, dos direitos trabalhistas
e sindicatos, que ritmavam os tempos da vida e os articulavam com os tempos
políticos da cidade. Nem por isso o trabalho, mesmo precário e descontínuo,
incerto e de futuro mais incerto ainda, deixa de ser um poderoso conector com
o mundo social. Outra experiência de trabalho, outra experiência urbana. Outro
diagrama de referências e relações que redefine os agenciamentos da vida e das
formas de vida, e nos quais e pelos quais é possível apreender a nervura própria
desse campo social redefinido.

O cenário: nas franjas da “cidade global”

No miolo do Distrito do Jardim São Luiz estende-se um longo e grande arco de


três favelas. Não é coisa fácil discernir suas fronteiras, se é que elas existem para
além dos marcos oficiais da Prefeitura. Por convenção iremos chamar de favela
Cruzeiro o cenário em que transcorrem os percursos de nossos personagens.
É uma favela contígua a um bairro que esteve no centro dos movimentos
pela regularização dos loteamentos clandestinos (nos anos 1970) e, depois, das
reivindicações por melhorias urbanas que agitaram a década de 1980. Modu-
lações de uma história urbana e da história de toda uma geração. Em ambos os
lugares, são evidentes os sinais de um mundo operário que se desfez no correr
dos anos 1990. Porém, isso ganhou configurações diferentes aqui e lá. Na Vila
Marinalva,7 havia a conjugação entre o “sonho da casa própria” (e os loteamentos
clandestinos), a passagem pelo trabalho regulado (tempos fordistas) e um campo
de forças em torno do qual gravitaram as comunidades eclesiais de base, a ala
progressista da Igreja Católica, a esquerda clandestina e, depois, o Partido dos
Trabalhadores. Na favela Cruzeiro, é uma história tecida em outra constelação
de relações, simultânea à primeira, não menos estruturadora de nossa história

7
Os nomes de lugares e pessoas são todos fictícios, com exceção do Distrito do Jardim São
Luiz, cujo nome foi mantido. Cenário e personagens de Vila Marinalva foram tratados em
Telles e Cabanes (2007, capitulo 3).

122
recente, porém que passa por uma peculiar conjugação entre todas as ilegalidades
e irregularidades de que é feita a vida interna de uma favela e as intrincadas
redes do clientelismo político que disso se alimenta o tempo todo.

A cartografia dos empregos

Numa rua paralela à favela, estão instaladas algumas fabriquetas de peças


e componentes de automóveis e eletrodomésticos. Chegaram entre meados da
década de 1970 e a metade dos anos 80. Como se pode imaginar, parte consi-
derável de seus trabalhadores é morador da Cruzeiro. Adalto, 45 anos, trabalha
por lá desde 1983. Antes, trabalhou na indústria de bicicletas Monark. Foi o
seu primeiro emprego em São Paulo, em 1978. A Monark é uma referência
constante nas histórias dos moradores da favela Cruzeiro. Muitos passaram por
lá – “aqui, quase todo mundo da Cruzeiro começou trabalhando na Monark...
um trabalhava e avisava que a firma ia pegar funcionário, avisava e o outro ia”.
A Monark fica na Avenida das Nações Unidas (Marginal Pinheiros), não muito
longe do lugar onde está atualmente o hipermercado Carrefour. Está instalada
na região desde 1951. Não é demorado chegar até lá: apenas um ônibus, não
mais do que trinta minutos de deslocamento. Como lembra Adalto, “quando era
de manhã só via neguinho indo para o mesmo lado. Já pegava o ônibus e ia todo
mundo”. Estão aí as coordenadas de um universo operário. Parte considerável
de nossos entrevistados passou pela Monark. Podemos supor que a conformação
dessa geração não independe das redes familiares e de sociabilidade que foram se
estruturando conforme as famílias se instalam na favela. As redes familiares são
acionadas nas estratégias de migração – funcionam como referência e acolhem os
recém-chegados, além de garantir a solidariedade nas situações difíceis. Também
redes que operam como canais de passagem para o mercado de trabalho. Uns
conseguem empregos para outros, avisam quando aparecem oportunidades. E
foi assim que muitos passaram pelo trabalho na Monark:

Eu lembro que, quando eu casei, eu morava de aluguel no Jardim São Luís e


todo mundo da casa trabalhava na Monark. Aí, eu fui trabalhar também junto
com eles, eu ia todo dia com eles, voltava junto com eles (Lucila, 46 anos).

Eram os tempos das grandes plantas industriais e do emprego farto, que se


distribuíam entre Santo Amaro e Socorro, polo industrial dos “tempos fordistas”.
Vinte anos depois, a cartografia dos empregos (ou do desemprego) mudou muito.
O eixo dos empregos deslocou-se para um estreito circuito próximo à favela –
“agora ficou o pessoal todo trabalhando por conta, outro meio de vida”. Ou para
as fabriquetas ao lado – “agora o pessoal trabalha mais aqui pertinho”. Mas
a favela Cruzeiro está muito próxima, nas franjas dos modernos circuitos dos
serviços que passam pelo Distrito do Jardim São Luís: é por lá que transitam os
mais jovens, sobretudo eles, mas não apenas.

123
Os tortuosos caminhos das melhorias urbanas

Os primeiros moradores chegaram no início dos anos 1970. O adensamento


da favela acelerou-se no correr da década de 1990. Conforme cresceu a favela,
também cresceu a influência e poder de Lino, um personagem quase onipresente
em tudo o que acontece nesse território. Ele atua como uma espécie de árbitro da
“compra e venda” dos terrenos, quando não opera como um verdadeiro grileiro
local. É poderoso. Por isso, acostumamo-nos a falar dele como “o Xerife”: além
dos assuntos de posse, é ele quem arbitra a distribuição das ligações clandestinas
de água e de energia elétrica, mantém o controle da distribuição de cestas básicas
doadas pelo Governo do Estado e é o conduto que liga o poder institucional às
redes do clientelismo político local. Tudo passa por ele.
Os dados são imprecisos, porém, de acordo com um levantamento improvisado
feito pela associação de moradores, a favela Cruzeiro tinha, em 2001, cerca de
200 famílias. Barracos, a maior parte de alvenaria. As ruelas e veredas estão
todas cobertas de cimento. Coisa do Xerife, que, através de um acerto com um
amigo, conseguiu que o cimento velho de uma construtora fosse jogado na favela.
Em 1982, chegaram as redes de água e eletricidade. Chegaram e, junto com elas,
foi-se armando uma outra rede, uma intrincada rede de ilegalismos pelos quais
também as relações de poder foram se estruturando. A presença do Estado ia
como que se dobrando na face interna da favela para lançar os vetores a partir
dos quais o traçado dos ilegalismos segue o fluxo das ligações clandestinas de
água e luz. Junto com isso, um diagrama das relações e hierarquias de poder,
seguindo as gambiarras de luz e o fluxo da água desviada das casas que ganharam
seus próprios relógios de medição. As redes de eletricidade só atingem as casas
que dão para a rua principal. Dai são puxadas as ligações clandestinas, mas é o
Xerife que controla e arbitra a sua distribuição, e também os pagamentos. Quanto
à água, são apenas três medidores coletivos. É quase desnecessário dizer que um
deles está instalado na casa do Xerife. É daí que a água é desviada para atender
as famílias que moram mais próximo do núcleo interno da favela.
A Associação de moradores foi fundada em 1984. Esteve sob o comando do
Xerife até 2001, quando ele perdeu as eleições para um grupo de moradores
alinhados (embora não muito convictamente) com o PT. O Xerife era malufista.
Se não por convicção, por interesse – e dos fortes. O Xerife era cabo eleitoral e
não perdia nenhuma oportunidade para aproveitar (e se aproveitar) das redes de
influência acionadas com as máquinas partidárias, políticos locais e “conhecidos”
dentro da máquina estatal e municipal. Era o principal articulador dos moradores
com os poderes públicos para a solução de litígios em torno das redes urbanas
de serviços. Os programas sociais promovidos pela Prefeitura passavam por ele,
até porque eram implementados através da associação de moradores. Assim,
por exemplo, o programa do leite, invenção, aliás, da gestão Maluf (1992-1996),
que passou a programa estadual. O Xerife sempre controlou o credenciamento
das famílias. Quando perdeu as eleições, um de seus trunfos era boicotar a

124
informação e fazer o possível para impedir que a associação desse seguimento
ao programa.
O poder do Xerife aumentou no correr das duas gestões malufistas. Perdeu
as eleições em 2001, porém a roda da vida continuou girando. O Xerife montou
outra Associação. É uma mistura de grilagem com movimento de moradia. Lino
tratava de identificar áreas que poderiam ser loteadas, fazia o levantamento de
todas as irregularidades do “pedaço” e... ocupava. Quer dizer: é isso o que ele
dizia que pretendia fazer. O Xerife era bem relacionado com a polícia, sempre foi.
Fazia parte do Conselho Municipal de Segurança, o Conseg. Com isso, acreditava
que haveria de conseguir o respaldo necessário para suas operações, evitando
complicações com a polícia. A ocupação acabaria sendo uma grande encenação
que terminaria com a venda do terreno a um preço muito mais baixo do que o de
mercado. Dessa forma, conseguiria os terrenos e, de quebra, o apoio dos futuros
moradores. Os planos do Xerife? Candidatar-se a vereador a partir da base de
apoio que esperava construir com os “condomínios de periferia”.

O Xerife

Lino, o Xerife, tem 53 anos (em 2001). Mora na região mais interna da favela
com a esposa Dalva (45 anos) e a sogra. Seus dois fi lhos casaram e moram por
perto. A casa de Lino tem todo o jeito de um barraco de favela: sala e cozinha
compõem um único cômodo e o banheiro fica do lado de fora, compartilhado por
quatro pessoas que ocupam dois cômodos contíguos. Porém, estavam lá, à vista
de todos, um aparelho novo de DVD, uma TV e um aparelho de som. Tudo o que
acontece na favela passa por ele e, ao que parece, também os assuntos, digamos
assim, escusos. Era ele quem “tomava conta” do local, agenciando os negócios
“duvidosos”, também arbitrando, se é que se pode assim dizer, as desavenças
relacionadas ao “mundo do crime”. Ele não hesitava em fazer uma contabilidade
superlativa de mortes que ele e os filhos teriam encomendado ou nas quais estariam
envolvidos de alguma forma. Histórias rocambolescas que mais pareciam tiradas
de um faroeste de má qualidade. Certamente havia muito de bravata nisso tudo
e todo um jogo de cena para impressionar os jovens e espantados pesquisadores
que o entrevistavam.8 Era tudo muito exagerado, porém nem tudo era inventado.
Não era possível saber se ele estava diretamente envolvido em atividades crimi-
nosas, mas tudo indicava que operava, no mínimo, como interceptador de objetos
roubados. A casa do Xerife, bem no miolo da favela, com todas as evidências à
mostra para quem quisesse ver, era o ponto de gravitação de atividades (e pes-
soas), digamos assim, duvidosas.
A trajetória do Xerife é bastante interessante. Lino nasceu no interior do Ceará
(Iguatu) e chegou a São Paulo em 1977. Tinha então 28 anos. “Lá onde a gente

8
Daniel Hirata e José César de Magalhães compunham a equipe de pesquisa, o primeiro
como Bolsista de Iniciação Científica, o segundo como assistente de pesquisa.

125
morava não tinha como sobreviver”, diz. Mas, parece que os motivos foram outros:
veio fugido de uma briga pesada que terminara em morte. Chegando a São Paulo,
quatro dias depois, começou a trabalhar na metalúrgica Fama, onde ficou por
quatro anos. Segue depois um percurso operário nas indústrias da região de Santo
Amaro: Fevap (dois anos), Standard (três anos), Monark (três anos), uma das fabri-
quetas ao lado da favela (três anos) e, finalmente, a Villares (cinco anos). Entrou na
Villares em 1986 e saiu em 1991 por problemas de saúde. Trabalhava na pintura,
sem proteção, e terminou por adquirir problemas respiratórios sérios. Foi demitido.
Processa a empresa. Estava de licença médica e não poderia ser demitido. Ganhou
a causa, porém o litígio ainda estava em aberto quando o entrevistamos (2001):
batalha judicial pelo reconhecimento de sua condição de funcionário da empresa e
pela sua reintegração na função. Lino sabia que não seria reintegrado, até porque
ele fora considerado incapacitado para exercer esse tipo de trabalho. Entretanto,
sabia muito bem fazer a conta de quantos salários atrasados a Villares lhe devia.
Uma quantidade considerável: salários e encargos trabalhistas correspondentes a
nove anos e quatro meses! O único problema era que a Villares não existia mais:
fora dividida em três outras empresas e, até então, não tinha sido possível saber
qual delas (se é que alguma) havia herdado o patrimônio e as dívidas trabalhistas.
Lino tinha um advogado que cuidava disso para ele. Até então, sem sucesso. Mas
os recursos dessa indenização entravam nos planos de Lino.
A história recente de Lino é cheia de veredas tortuosas. Quando ganha a
causa contra a Villares por demissão indevida, ainda em 1991, recebe uma boa
indenização. Pulverizou o dinheiro na compra de um carro, com gastos excessivos
e mais 21 dias de viagem para o estado de origem, soltando o dinheiro farto com
os familiares – “o tempo que eu passei lá, eles não passaram necessidade”. Em
pouco tempo o dinheiro acabou. Depois, não conseguiu mais emprego em indús-
tria. Bem que tentou, porém não passava pelo exame médico e, além do mais, o
processo contra a Villares constava de sua documentação, o que era um motivo
de recusa de emprego. Lino não poderia ter emprego registrado em carteira de
trabalho, sob pena de perder os direitos pelos quais estava brigando. Em 2001,
trabalhava como zelador em um prédio de apartamentos próximo à favela. Era uma
cooperativa que prestava serviço terceirizado para “tudo”: limpeza, segurança,
manutenção, portaria. Eram cerca de 2 mil cooperativados:

a gente se inscreve como sócio contribuinte. A gente paga aquela taxa e arruma
emprego. Aí, no primeiro salário, desconta os 15 reais e os 36 reais de INSS;
do segundo salário em diante, eles só descontam o INSS e, quando a gente
sai, a gente recebe o que a gente pagou corrigido. Pode passar 5, 6 anos que a
gente recebe, corrige. [A cooperativa existe há dois anos] [...] foi a lei que eles
lançaram para acabar com o direito do trabalhador.

Desde muito cedo Lino passou a se dedicar aos assuntos da associação de mo-
radores. Lino fazia circular recursos pelas vias dos obscuros canais do clientelismo

126
político. Sempre foi cabo eleitoral, principalmente de Paulo Maluf. As estratégias
de favorecimento pessoal e práticas clientelísticas eram constitutivas da maneira
como Lino encaminhava a política local. Era assim que administrava a distribui-
ção de cestas básicas, distribuía presentes de Natal e doações que chegam para
a associação, agenciava seus apadrinhados para bicos em campanhas eleitorais.
Os esforços para as melhorias urbanas terminaram por se transformar em um
espaço de agenciamento pessoal de Lino sobre os moradores. A começar de sua
própria casa, espécie de sede de seu poder pessoal: é de lá que muitos moradores
puxam as ligações clandestinas e é para ele que pagam as contas de água e luz.
Todos os eventos que marcaram a história da favela, desde o cimento nas ruas
até a chegada das redes de água e energia, trazem as marcas do poder de Lino,
suas redes de influência, suas conexões com construtoras, com vereadores, com
homens das máquinas políticas dos partidos.
É sempre difícil saber o que é ficção e bravata, e o que é real nas histórias que
conta. Porém, o fato é que, em 2001, Lino era membro do Conseg – o Conselho
Comunitário de Segurança, órgão de representação local, espaço de participa-
ção democrática e cidadã, como se diz, vinculado ao governo do Estado. É com
essa rede de influência e proteção que ele contava para se lançar em seu novo
empreendimento: negócios com compra e venda de terras. Quer dizer: grilagem.
E, a partir daí, lançar-se como vereador nas eleições seguintes.
Há algo mesmo de fascinante na história desse cearense que virou favelado,
que se transformou em operário metalúrgico de uma grande empresa paulista,
que conhece muito bem e briga pelos seus direitos, que se embrenhou nas tramas
do clientelismo político, que transita o tempo todo entre o legal e o ilegal, que
é “representante da sociedade civil” no Conseg, que pretende então se tornar
grileiro e que quer se lançar como vereador, representante político local. Não é
pouca coisa... Não há nada de anedótico em tudo isso. Pois o que temos aí é um
personagem que faz ver todas as dobraduras de que é feita a vida social. Muito
longe das binaridades, são nelas ou através delas que os fios que tecem o campo
social são perceptíveis, atravessam e compõem a vida interna da favela Cruzeiro
(e seus territórios), para colocá-la em sintonia fina com toda a complicação do
mundo social.

Diferenças de tempos, diferenças de geração

O tempo e a passagem do tempo deixam as marcas no território e deslocam


suas coordenadas, redefinem o jogo dos atores e as mediações que compõem os
campos de força das disputas locais. São essas marcações que nos dão as pistas
das redefinições da trama do mundo social que veio se redesenhando desde o
início da década de 1990. E os fios que tecem a trama social também passam
pelas histórias das famílias. Aqui, nesse registro, é sobretudo a diferença entre

127
as gerações que nos dá a cifra da atualidade e de toda a complicação que pode
estar contida nos tempos que correm.

O patriarca Genésio e sua extensa família

São moradores antigos, um dos primeiros “invasores” (esse é o termo que eles
próprios utilizam – “é tudo invasão”) no final dos anos 70. São cinco famílias
que dividem o mesmo terreno. São histórias que se cruzam em torno do núcleo
principal, Seu Genésio (70 anos, em 2001) e a esposa, Dona Francisca (69 anos).
Genésio é o chefe de uma família numerosa e, sobretudo, muito unida, que não
se desliga do núcleo familiar. Casaram-se e ajeitaram-se no terreno da própria
favela, com casas bem construídas e bem equipadas. A casa de Seu Genésio dá
para a rua principal. Seis cômodos: três quartos, sala, banheiro, cozinha e mais
uma garagem na frente, ocupada com dois carros da família, um Santana do
falecido marido de uma das fi lhas e um Corsa de outro fi lho casado.
Seu Genésio nasceu em Presidente Prudente (interior paulista) e, em 1952,
foi para o Paraná. Casou-se com Dona Francisca e constituiu família. Trabalhava
como meeiro, plantando milho, arroz, feijão e café. Em 1978, “perdeu tudo” em
decorrência de uma seca. Genésio tinha então 45 anos e veio com a família toda
para São Paulo. Venderam o que tinham, colocaram a família em um ônibus e
chegaram com seus nove fi lhos – “colocamos tudo num saco, juntamos os fi lhos
e viemos! Tudo de ônibus. Chegamos aqui sem nada!”.
A filha Lucila, a mais velha, então com 23 anos, já estava em São Paulo. Veio
antes para encontrar o marido, que foi o primeiro a desistir da roça para tentar
a vida na cidade. Moravam no Jardim São Luís e dividiam uma pensão com dois
outros amigos. Seu Genésio e a família chegam um ano depois. Ficam 15 dias em
sua casa. Por intermédio de conhecidos do Paraná que já estavam por aqui, ficam
sabendo de um barraco disponível na favela Cruzeiro. Seu Genésio “compra” o que
então era uma construção precária de madeira, com apenas dois cômodos. “Fomos
fazendo a casa, como um joão-de-barro”, diz Seu Genésio. Todas as economias
vindas do trabalho foram jogadas nesse empreendimento, que levou anos a fio para
chegar à situação atual. A família de Seu Genésio permaneceu junta nessa emprei-
tada. Os filhos casaram, constituíram família e construíram suas próprias casas
no mesmo terreno, junto à casa dos pais. Além da importância da rede familiar,
havia também a vantagem da oferta de empregos no entorno imediato.

Trabalho, moradia e os tempos da cidade

Alguns meses depois de sua chegada a São Paulo, Seu Genésio conseguiu o
que seria o seu primeiro e único emprego ao longo de toda a sua vida na cidade.
Por indicação do genro, começa a trabalhar numa metalúrgica de Santo Amaro,
emprego que manteve por 19 anos. Os fi lhos também conseguiram, em pouco
tempo, emprego em São Paulo. Lucila já trabalhava na Monark (seu primeiro

128
emprego na cidade), assim como seu marido e os colegas de pensão. O marido
trabalhou lá por dez anos e, Lucila, por dois anos e meio, até o nascimento do
primeiro fi lho. Foi essa também a porta de entrada no mercado de trabalho para
Adalto e Inês: em pouco tempo já estavam trabalhando na Monark. Com exceção
do fi lho mais novo, Jorge (31 anos, em 2001), a estabilidade nos empregos é uma
regra para todos os membros da família. Seu Genésio aposentou-se depois de
19 anos na mesma empresa. Lucila, a mais velha, trabalha há oito anos como
mensalista numa casa de família no entorno de Santo Amaro. Os outros, depois
da Monark, seguiram no emprego fabril, no circuito local das fabriquetas ao
lado. Adalto estava então no mesmo emprego havia 17 anos. Lurdes (41 anos),
assim como a irmã Lindalva (39 anos), ambas solteiras e morando com os pais,
estavam então no mesmo emprego havia muito tempo. Lurdes trabalhava havia
18 anos em uma fabriqueta de peças para máquinas de lavar roupa. O tempo de
emprego não valeu melhorias de salário: era uma empresa pequena, com menos
de 50 trabalhadores, e ela ganhava R$ 350,00. Então, por que não tentara coisa
melhor nos tempos em que o emprego era mais farto? “Fui ficando porque o em-
prego era perto”, Lurdes explicou. Era menos cansativo e o salário mais baixo
era compensado pela economia dos gastos de condução.

***

São histórias que giram em torno do trabalho e da vida interna da favela. Dois
campos de gravitação de suas experiências. Genésio era fi liado ao Sindicato dos
Metalúrgicos de São Paulo. Se hoje o seu mundo parece quase que encapsulado
nas fronteiras da favela e no universo da família, nem sempre foi assim:

No começo eu ia muito na cidade, agora não. No início, a firma não tinha con-
vênio. Então, logo no primeiro ano comecei a pagar o convênio pelo sindicato,
era na época do finado Joaquinzão. Lá tinha de tudo, era tudo gratuito, remé-
dio, médico, tudo. Então eu ia muito no sindicato. No sábado, quando eu não
trabalhava, eu ia no sindicato. Paguei o sindicato até aposentar...

Agora que se aposentou, diz Genésio com um fino tom de ironia: “eu não vou
pra lugar nenhum, só como e durmo...”. Não apenas o patriarca Genésio, mas
muitos outros têm suas histórias marcadas pelos tempos do trabalho regulado e
do sindicato. Aliás, também Lino, o Xerife. O jogo da troca de favores e as redes
de proteção, que o Xerife soube e sabe tão bem manipular, também passou por
aí: diz conhecer os personagens da história sindical recente e não são poucas
as histórias (ou bravatas) que conta ao relatar como conseguiu apoio, favores e
favorecimentos de uns e outros. Além do mais, valendo-se dos “direitos devidos”
de uma grande empresa (que não existe mais) – que ele espera e faz de tudo para
receber – é que ele define parte de seus mirabolantes planos de futuro.

129
Outros seguiram outros fios, participaram de greves e fizeram parte, de um
jeito ou de outro, da movimentação política do período. Assim, por exemplo, a
história de Arivaldo: tinha 16 anos quando chegou a São Paulo, em 1976. Veio
de Minas Gerais, acompanhando a mãe, que havia se separado do marido. Foram
morar em um cômodo alugado no Jardim Miriam. E logo começou a trabalhar
como ajudante em uma oficina mecânica de fundo de quintal. O começo de sua
história na cidade é turbulento. Depois do Jardim Miriam, moram em vários lu-
gares nos arredores da região. Sempre cômodos alugados. Passaram pelo Parque
Santo Antônio. Ali foram enganados por um grileiro, que lhes vendeu um terreno
irregular na estrada de Itapecerica da Serra. Gastaram todas as economias na
compra desse terreno. Sofreram uma ação de reintegração de posse. E perderam
tudo. Foi então que se mudaram para a favela Cruzeiro.
Era o ano de 1977. Nesse período, Arivaldo arruma trabalho na construção
civil. Depois de trabalhar algum tempo em uma lavanderia, consegue emprego
de ajudante de produção na Monark, como tantos outros moradores da favela.
Participa das grandes greves operárias do período, e foi nessa época que começou
a se aproximar do pessoal, que, pouco tempo depois, estaria alinhado com o PT
– “toda vida eu fiz campanha para o PT, mas nunca fui fi liado. Fiz campanha
espontânea, eu ia lá, pegava o material e falava ‘vou distribuir’”. A passagem
pelas greves operárias foi importante no percurso de Arivaldo e iria influenciar
seu posicionamento no jogo político interno à favela Cruzeiro. Sempre participou
da associação de moradores, sempre alinhado “à esquerda”, sempre em relação
tensa quando não de oposição ao Xerife. Apesar da participação nas greves ter
lhe custado o emprego na Monark, Arivaldo avalia a experiência de um modo
muito positivo:

[...] era bom, não me arrependi de ter feito isso, porque valeu como experiên-
cia. Se eu tivesse que fazer novamente, a vida da gente é uma luta mesmo...
quando a gente para e olha pra trás, a gente fala que valeu a pena, porque eu
tentei fazer as coisas boas e não fiz nada para me envergonhar, que eu possa
ter vergonha, porque tentei.

Depois da Monark, Arivaldo só conseguiu empregos irregulares na construção


civil, primeiro para construtoras, depois, como autônomo. Casou-se em 1982. Um
ano depois, nasceu o primeiro fi lho. O segundo fi lho ganhou o nome de Nelson
Mandela:

Foi homenagem. O Nelson Mandela. Aquele homem, acho que não dá para
definir. A luta dele! Uma pessoa que é condenada à prisão perpétua, de repente
ele consegue ser presidente do próprio país que oprimia ele, então a luta dele
serve de inspiração. É impressionante. Vale a pena a perseverança que ele tem.
[...] Não libertou só ele, porque a África tem um continente do tamanho que é
a África, quando a gente olha no mapa e vê tudo aquilo!

130
Diagrama de relações e de referências em torno do trabalho: eram tempos em
que o trabalho operava como um poderoso conector das histórias de cada um com
uma história coletiva (e seus conflitos), com uma trama mais ampla de relações
sociais (e também de composições políticas) e com a cidade.
A conquista das melhorias urbanas na favela: um segundo campo de gravi-
tação. Água, luz, esgoto, entre outras melhorias: foco de um contínuo empenho
cooperativo dos moradores, entre a invenção de soluções improvisadas, pressões
junto à Sabesp, negociações com a Prefeitura. Também aqui se arma um diagrama
de relações e referências. É certo que os jogos de poder e hierarquias internas à
favela foram grandemente traçados em torno (e pelas) melhorias que conseguiram
com o tempo. Conflitos internos não faltaram. Mais do que eventos pontuais da
história interna de uma favela, arma-se aí também o diagrama de relações com
o entorno, com políticos, com disputas políticas, com órgãos públicos, com as
tramas do clientelismo político, com as igrejas locais, com o PT, com agentes
sociais, voluntários, militantes comunitários.
Essas questões são importantes de serem notadas. De um lado, são refe-
rências que nos permitem ver como a história interna da favela compõem-se
com circunstâncias e atores da história social e da história política da cidade.
O catalisador desses vetores foi a Associação de Moradores. As coisas sempre
passam pela associação: dos programas sociais da Prefeitura aos agenciamentos
internos para a solução dos problemas da vida comum. E compõem-se com outras
dimensões e outras facetas da história social e da história política, seja quando
estas vêm cifradas pelas nebulosas relações de poder e influência do poderoso
Xerife, seja quando vêm cifradas pelas forças alinhadas à esquerda, seja, ainda
ou sobretudo, quando tudo isso se mistura e suas diferenças ficam indiscerníveis
nas dobraduras da vida social.
Trabalho, moradia, política: três polos de referência, abrindo-se a feixes de
relações e composições com a vida social, urbana e política. Três polos que se
conjugam numa história comum e na configuração desses territórios. Jogo cruzado
de referências que arma a tessitura de um mundo social e permite que as histórias
singulares entrem em ressonância no tempo político da cidade.
É por referência a essa configuração que se têm elementos para entender
alguma coisa da virada dos tempos para além da constatação do aumento da
pobreza, do desemprego e da violência. Ela ajuda a entender as inflexões que os
mais jovens sinalizam. São os jovens personagens dessas histórias que podem
nos informar alguma coisa sobre os vetores e linhas de força que desestabilizam
campos sociais prévios, ou os redefinem, deslocam suas fronteiras, abrem-se para
outros e também traçam as linhas que desenham as novas figuras da tragédia
social.

131
Na virada dos tempos

Os jovens empreendedores: nos circuitos faiscantes dos serviços globalizados

Os percursos da nova geração são muito diferentes daqueles traçados pelos


pais. São outros tipos de emprego e, também, outros centros de gravidade. As
relações familiares e o apego à família são fortes: todos valorizam a “família unida”,
suas histórias e a solidariedade que existe entre todos. Porém, as referências que
estruturaram a vida de seus pais já não são as mesmas. Se continuam existindo,
não é em torno delas que suas vidas transitam. Seus centros de gravitação já são
outros.
Maurício, 22 anos, é fi lho de Lucila, empregada doméstica, ex-metalúrgica
da Monark. Seu pai teve uma trajetória contínua no trabalho fabril, apenas in-
terrompida por motivos de saúde, quando então passou a trabalhar de motorista
em uma agência de empregos. Maurício começou a trabalhar em 1999. Tinha
então 16 anos e conseguiu, por indicação de conhecidos dos pais, um emprego de
office-boy no Parque Aquático The Waves. Ficou ali apenas seis meses. O parque
fechou, foi à falência. No seu lugar foi construído um supermercado Extra e, ao
lado, pouco tempo depois, uma das maiores e mais sofisticadas academias de gi-
nástica, a caríssima Unysis. Depois, por intermediação do próprio pai, foi trabalhar
também como office-boy numa agência de emprego. Era a agência em que o pai
trabalhava como motorista. Progrediu de office-boy para auxiliar administrativo.
Depois de dois anos, o serviço caiu, a empresa se afundou em dificuldades finan-
ceiras e Maurício perde o emprego. Amarga dois anos de desemprego: inúmeras
e persistentes tentativas sem sucesso. Quase sempre em lojas de shopping centers,
algumas de grifes famosas: “eu queria trabalhar com público, é isso o que eu
gosto e, daí, falei – vou me dar bem”. Fez entrevista na Ellus, marca conhecida
de jeans, mas a concorrência era muito grande: sessenta pessoas para dez vagas –
“todo mundo querendo entrar, pessoal que trabalha, pessoal que estava cursando
faculdade, tinha até modelo, sabe?”. Não foi chamado. Continuou procurando
por dois anos. Espalhava currículos por onde passava, quase se desesperou. A
chance aparece quando uma vizinha o apresenta para a assessora de imprensa
de dois cantores populares, famosos no mercado musical: o cantor pop Maurício
Manieri e o “forrozeiro” Frank Aguiar. Quando o entrevistamos em 2001, fazia
poucos meses que trabalhava lá como auxiliar de escritório. A empresa ficava
no Morumbi, na avenida Giovanni Gronchi. O seu trabalho era atender os tele-
fonemas, cuidar das agendas, marcar entrevistas. Acompanhava alguns shows
dos cantores pela cidade. Esse emprego jogou Maurício em um mundo social
que seria inimaginável para seus pais. Vez por outra, acompanhava os shows,
no Olympia, por exemplo, badalada e prestigiosa casa de espetáculos da cidade.
Gostava do serviço que fazia:

132
Gosto, é bom… Na quinta fui no Olympia, frequento camarins, essas coisas,
é legal… viagem é só ela que faz, porque isso sai caro (hotel, avião, etc.), vou
junto só quando é preciso. Quanto tiver uma turnê no Rio, vou também – só
quando é cidade grande...

Maurício transitava pelo “circuito nobre” da cidade, entre Moema, Pinheiros e


Vila Madalena, passando pelo centro e as danceterias conhecidas. Nesses lugares,
ele assim dizia, há “tudo quanto é tipo de gente que você pode imaginar, desde
garota de programa até milionário, porque fica tudo misturado... você nem sabe
quem é a pessoa...”. Disse que começou a transitar pelos circuitos badalados da
cidade ainda nos tempos em que trabalhava na agência de empregos: fez amigos,
conheceu muita gente e, vez por outra, conseguia entrar de graça nas grandes
casas de espetáculo da cidade, pelas mãos de “gente conhecida” lá de dentro.
Além dos shopping centers, os bares e pontos de encontro no centro da cidade ou,
então, nos agitadíssimos bairros de classe média: Moema e Vila Nova Conceição,
Pinheiros e Vila Madalena. “Tenho amigos de São Paulo inteiro”, diz Maurício. É
bem possível que o rapaz estivesse exagerando um tanto e carregasse nas tintas
com que pintava sua experiência nas “baladas” da cidade. Mas, exagero ou não,
o fato é que ele já estava mirando para outros lugares e de outros lugares. So-
nhava em fazer uma “faculdade de comunicação” e encontrar o seu lugar nesses
faiscantes circuitos dos modernos serviços da “cidade global”. Achava que tinha
jeito e talento para isso.
Pode ser que nos anos que se seguiram à entrevista (2001), esse sonho dourado
não tenha ido longe e que o rapaz tenha batido de frente com as regras mais do
que excludentes dos modernos-moderníssimos circuitos globalizados. Porém, os
lances da vida já configuravam um outro jogo de referências e outros prismas
pelos quais a cidade se lhe apresentava. Diferente da geração dos seus pais, que
valorizam essa espécie de “mundo à mão” que a favela lhes oferece – a família
que está por perto, os empregos ali do lado. Para Maurício, na favela tudo é longe
e a periferia não tem nada: “na periferia não tem mesmo o que fazer... não tem
nada por aqui perto, não tem de jeito nenhum... procura padaria, tem que andar
500 metros. Então é tudo longe, não tem nada... tem que andar bastante para
fazer alguma coisa, tem que ir até o centro, tem que ir até a Vila Olímpia”. Os
lugares são todos muito perigosos – “tem muita briga, às vezes até sai morte”.
Além do mais, é tudo muito feio: “aqui não tem nada, não tem nem paisagem
agradável para ver”.

Mas como é circular em Moema e morar aqui?


Você quer saber como eu me sinto quando eu volto para cá? Eu me sinto estra-
nho, as pessoas me tratam também de um jeito diferente. Porque aqui as pessoas
não tiveram muita oportunidade, tiveram muito menos do que eu, tiveram menos
sorte do que eu. Minha mãe sempre foi diarista, meu pai sempre trabalhou,
sempre tentaram dar o melhor pra gente; era escola pública, mas ele (o pai)

133
incentivava, ficava em cima. Comecei a trabalhar cedo, comecei a conhecer as
pessoas, a aprender bastante. As pessoas aqui, a cultura para eles é nada...
fazem curso até a 8a série e acham ótimo. As pessoas acham que tenho muito
estudo... tem gente como eu, que estudou e começou a trabalhar desde cedo.
Mas a maioria... quando eu digo “não vou nesse lugar porque não é legal”, eles
dizem “ah, você é metido, pensa que é rico ...”. Daí foram se afastando.

Nair, 17 anos, prima de Maurício, tampouco tinha Cruzeiro como referência:


falava da violência local, avaliava que o pessoal era grosso e mal-educado e, além
do mais, achava que os jovens de sua idade pouco se esforçavam para melhorar
de vida. Disse conhecer “a favela toda, todo mundo”, mas que não tinha amizade
“para sair”. Acompanhava o primo nas baladas noturnas. “Quando eu saio”, diz
Nair, “vou lá para o lado dos Jardins, o pessoal lá tem mais educação... não é
essas coisas que a gente vê, desse monte de cara, um querendo ser mais homem
do que outro”. Assim como Maurício, o mundo que Nair tinha em mira era muito
diferente das referências de vida de seus pais.
O pai de Nair é operário metalúrgico. Como seus irmãos e tantos de seus
vizinhos da favela, começou seu percurso fabril pela Monark, em 1978, logo que
chegou a São Paulo, acompanhando a família. Dois anos depois, conheceu sua
futura esposa, também operária da Monark. Ele trabalhava na linha de solda.
Três anos depois, sua vista estava comprometida; pediu para ser transferido
para outra seção, não foi atendido e achou melhor buscar outros rumos. Pediu
para ser mandado embora, recebeu os direitos devidos e amargou oito meses
de desemprego. Em 1982, estava trabalhando em uma outra metalúrgica da
região. Foi mandado embora em uma onda de demissões. Em 1983, começou a
trabalhar uma pequena metalúrgica na rua ao lado da favela. No momento em
que o entrevistamos, ainda se mantinha no mesmo emprego, dezoito anos sem
interrupções. Ainda nos tempos da Monark, em 1980, formou o time de futebol
da favela Cruzeiro e, em 1982, foi eleito presidente do time, o “Clube Cruzeiro”,
cargo que ocupou por 12 anos. Em 1983, já estava participando da associação
de moradores como diretor esportivo e, dali para frente, continuou e persistiu no
seu envolvimento com as melhorias da favela, com a promoção de seu time de
futebol e, sobretudo, com a sua própria família.
Como seu pai, Nair é uma trabalhadora, muito jovem trabalhadora, já empe-
nhada em construir o seu próprio lugar no mundo. Porém, as suas coordenadas
desenhavam um outro universo de referência: o mercado de trabalho já não era o
mesmo da época em que seus pais e tios se lançaram na vida. A cidade tampouco
era a mesma. Nair começou a trabalhar muito cedo e seus percursos dizem algo
dos novos circuitos dos empregos da região: em 1995, aos 11 anos de idade,
trabalhava em uma pequena firma terceirizada que montava brinquedos para o
McDonald’s. Várias meninas da favela Cruzeiro trabalhavam lá. Quem tocava o
negócio era a tia de uma vizinha, na garagem de sua própria casa, em uma rua
próxima à Rua Giovanni Gronchi, avenida que faz a ligação entre o pauperizado

134
Jardim São Luís e o riquíssimo Morumbi. No seu entroncamento estão o Carrefour
e, também, como é de esperar, a loja do McDonald’s.
Trabalhava nesse negócio e, nos fins de semana, distribuía folhetos de propa-
ganda nas ruas. Em 1998, trabalhou seis meses numa empresa que monta canetas
para propaganda: era ano eleitoral e havia muito serviço. Depois, em um período
em que não conseguia emprego nenhum, resolveu montar, junto com a mãe, um
negócio de revenda de roupas. Não deu muito certo. Em 2001, aos 17 anos,
conseguiu, por indicação de uma amiga, emprego como atendente na Companhia
Atlética, no Shopping Morumbi: lugar de ricos e famosos em busca de “saúde e
boa forma”. Para ela, a boa sorte havia chegado. É de lá que Nair esperava alçar
voo: estava apenas esperando chegar a maioridade para conseguir empregos mais
promissores nas lojas desse luminoso circuito do consumo de alta renda. Apostava
no apoio que acreditava que haveria de receber do gerente – “ele gostou do meu
trabalho”. E também dos “conhecimentos” que fez de pessoas que trabalhavam
como vendedores em lojas de marca nos shopping centers. Nair também pensava
em seu futuro: queria aprender inglês, fazer um curso de enfermagem, juntar
algum dinheiro nessa profissão para então realizar o sonho de uma faculdade de
fisioterapia. Enquanto esperava a boa sorte, Nair acompanhava o primo Maurício
em suas andanças pela cidade, entre shopping centers e os bares da Vila Madalena,
Pinheiros e Moema.
Os dois primos tinham em mira outros horizontes. Isso não significava a recusa
da sociabilidade local. Na verdade, entre os circuitos ampliados da cidade e o
mundo local da favela não há propriamente oposição. Coexistem tempos, circuitos
e redes distintas dentro do mesmo espaço. São mundos diferentes, mas o domínio
dos dois códigos não é excludente e eles transitavam entre um e outro com desen-
voltura. Assim, Nair, tão crítica em relação aos seus jovens vizinhos, não deixava
de notar seus vínculos locais: as pessoas são solidárias, dizia, “quando tem um
problema todos tentam ajudar”. Além do mais, “todo mundo que mora aqui, as
minhas amigas cresceram junto comigo, a gente brincou junto, gosto das pessoas...
desde quando nasci eu moro aqui, então já acostumei com o pessoal daqui”.
Maurício também dizia ser difícil sair dali, valorizava a família e o apoio que
sempre recebera dos pais. Para ele, a sua “boa sorte” não veio por acaso. Falava
com admiração do pai, que sempre trabalhou e valorizava a perseverança no
trabalho, e da mãe, que batalhou a vida inteira. Além do mais, dizia Maurício,
ele se empenhava e se esforçava em melhorar de vida: com o segundo grau
completo, queria continuar os estudos; nunca vacilou na procura do emprego e
tentava tirar o melhor de si para encontrar um lugar na vida. Enfim, Maurício é
um empreendedor, aliás, como sua prima Nair. É assim que ele se enxergava (e
ela também). E, para ambos, é esse o crivo que faz a diferença em relação aos
seus amigos de infância e vizinhos. “Também tem gente como eu”, dizia Maurício,
“gente que batalha e quer mudar de vida”. Porém, avaliava: “a maioria fica onde
está, vai se acomodando, não quer saber de nada, não tenta outros voos para suas
vidas” e vai se enredando pelos caminhos tortos da vida. Essa é uma clivagem

135
complicada, bem sabemos. O ethos empreendedor do individualismo mercantil
está todo cifrado aí, também sabemos. Mas é nesse código que ele formulava as
esperanças de construir uma vida plausível. É nessa clivagem que está o nervo
(um deles) exposto do mundo.
Maurício é um personagem que esclarece algo sobre o modo como a dobra-
dura entre os mundos é feita, entre a materialidade da cidade e seus circuitos e
a natureza das conexões (e dos conectores) que operam esse jogo de acessos e
bloqueios. É aí, nessas dobraduras, que se desenha o drama social. O problema
não é bem morar em favela. Maurício tampouco via nisso um obstáculo para
entrar nos “circuitos modernos” onde transitava, ou para seguir uma carreira na
“área de comunicação”, como ele dizia. No mínimo, isso nos obriga a usar de
toda cautela quando lançamos mão das noções em voga de exclusão social. Não se
trata de negar ou relativizar o drama social. Mas de tentar definir melhor o campo
ou o plano em que o problema pode ser configurado. Há sempre passagens que
podem ser percorridas. Talvez o problema esteja nessas passagens, nos acessos
modulados que elas permitem e nos seus bloqueios. Talvez o problema esteja
também no modo como as referências, trabalho, moradia e sociabilidade vão se
compondo (ou decompondo) na configuração dos mundos sociais.
Esses jovens personagens, terceira geração da família de Seu Genésio e Dona
Francisca, estavam encontrando passagens para o mercado de trabalho, por mais
que estas fossem incertas e não necessariamente promissoras. De toda forma,
estavam indo. Não é o caso de muitos de seus vizinhos, talvez a maioria deles.
Mas por isso mesmo os seus percursos nos ajudam a compor o quadro das com-
plicações atuais: o mundo dos serviços e seus circuitos modernos, verdadeiro
campo de gravitação (referências, possibilidades, também os bloqueios) em um
cenário de encolhimento dos empregos e de trabalho precário.

O trabalhador precário: no circuito fechado das agências de trabalho


temporário

Os percursos desses jovens encantados com os circuitos faiscantes da “cida-


de global” têm que ser confrontados com outros, com os circuitos desenhados
nas franjas da cidade global, que se alimentam da riqueza que aí circula sem
conseguir romper o círculo de ferro do trabalho precário. Assim, a história de
Jorge, 31 anos, o fi lho mais novo do patriarca Genésio e tio, portanto, dos jovens
empreendedores.
O rapaz tem uma história em tudo e por tudo diferente dos irmãos mais ve-
lhos. Tem uma trajetória ocupacional errática, não consegue se estabelecer nos
empregos e vai seguindo os anos entre períodos de trabalho precário e desem-
prego. Começou a trabalhar cedo, aos 13 ou 14 anos, num ferro velho próximo à
favela Cruzeiro. Também trabalhou como “catador de bolinha” nas quadras de
tênis do Clube Esportivo do Banco do Brasil, ao lado da favela. O emprego mais
estável que conseguira foi em uma empresa que fazia tabuleiros e barracas para

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os feirantes da região. Tinha 17 anos e fora registrado em carteira de trabalho
quando chegara aos 18 anos. Ao todo, ficara ali por cinco anos. Aos 23 anos
resolveu tentar suas chances, queria trabalhar em empresas metalúrgicas. Era o
ano de 1993. Jorge entra no mercado de trabalho num momento em que as coisas
já tinham mudado muito. Impossível reproduzir a estável trajetória de trabalho
de seus irmãos. Nos anos que se seguiram, Jorge transitou por uma sucessão
de trabalhos temporários. Não conseguiu se estabelecer em nenhum lugar. No
máximo, por um ano e meio em uma pequena metalúrgica nas proximidades.
Depois, não mais do que alguns meses em uma empresa ou outra.
O único traço de continuidade em sua história ocupacional era a intermedia-
ção das agências de emprego temporário. Sem agências, “nem adianta insistir”,
dizia Jorge. E o único traço comum com seus irmãos mais velhos é a circulação
pelo que poderíamos chamar de mercado local. Se no caso dos outros esse raio
de circunferência dos empregos foi, em grande parte, demarcado pelas redes
sociais por onde circulavam informações, no caso de Jorge a coisa era diferente.
Os mais velhos entraram e se estabeleceram no mercado de trabalho em tempos
de “emprego farto”. No caso de Maurício, os tempos são outros e a entrada no
mercado se faz em boa medida pela intermediação das agências. A primazia do
mercado local é imposta pelas próprias agências? Essa é a avaliação do próprio
Jorge: as empresas não aceitam quem mora mais longe, pois isso as levaria a
um maior ônus legal e obrigatório (vale-transporte) para cobrir despesas com
transportes.

As empresas só pegam gente da redondeza?


Diz Jorge: É, na redondeza, que nem em Santo Amaro, tinha uma agência que
tava dando... tinha uma firma aqui... acho que perto da Cidade Dutra, mas
já tava dando preferência pra quem mora mais no local, porque... não quer
pagar condução...
[...] eles pagam duas condução, mais de duas eles, não... se você quiser, você tem
que pagar do seu bolso. Aí já fica complicado, porque o salário é mixaria.
[...] Às vezes a agência dá condução... tudo é a agência que dá... tem firma que
quer mais gente da redondeza, que nem... tem um mercado aqui na Raposo
Tavares, tem duzentas vagas lá... o cara fica lá, você conversa, nem adianta você
conversar porque eles quer mais pessoas da redondeza mesmo, nem adianta ir
lá. Eu mesmo, eu outro dia fui numa agência, tinha uma firma aqui no Taboão,
a mulher falou: “Você mora onde?”. Eu falei que morava aqui na Estrada de
Itapecerica; ela falou: “Ah, pra você já não serve, o pessoal quer gente lá da
redondeza mesmo, porque eles não pagam condução”... e não davam benefício
nenhum, não davam cesta básica, não davam vale-transporte, e ainda por cima
a pessoa tinha que levar marmita...

É verdade que alguns furam o cerco e conseguem emprego. Mas, então, en-
tram em um circuito fechado, muito difícil de ser rompido. Assim aconteceu com

137
Marcelo, 22 anos, que morava em um bairro ao lado, quase encostado à favela
Cruzeiro. Tinha o secundário completo, fizera curso de informática, um outro curso
com o indefinível nome de “técnicas comerciais” e estava sempre atento a outros
tantos que lhe surgissem pela frente. Conseguiu um emprego de caixa no Carre-
four. Um trabalho temporário. Até que se saiu bem e conseguiu ser contratado.
Mas ponderava, com razão, que caixa de supermercado não é futuro e nem dá
futuro para ninguém. No máximo, de caixa a repositor de estoques. Mário espe-
rava mais da vida. Foi demitido e se lançou novamente no mercado de trabalho.
Porém, como ele dizia, a sua ficha já estava marcada: uma vez em supermercado,
sempre em supermercado – “no que você coloca a experiência de supermercado
no currículo, um American Express, uma Xerox, uma firma não vai te chamar, o
cara da empresa vai te olhar e vai falar, o cara é supermercado, vai trabalhar em
supermercado”. Tentou por todos os meios disponíveis outras entradas no mercado
de trabalho: apelo a amigos e conhecidos, curricula vitae espalhados por todos
os cantos. A resposta era sempre a mesma: as empresas não contratam ninguém
a não ser pela intermediação das agências, agências de emprego e agências de
trabalho temporário. Depois de algum tempo, foi chamado para trabalhar no Extra
(hipermercado, ao lado do Carrefour). “Caí na real”, disse Marcelo, “não tem jeito”,
ou isso ou, então, o desemprego. Aceitou o emprego. Quando o encontramos (em
2001), já havia sido promovido a repositor de estoques.
Voltando a Jorge, as luzes faiscantes dos serviços globalizados não faziam
parte das suas cogitações. Com seus 30 anos, seus percursos no mundo urbano
foram diferentes daqueles dos seus muito jovens sobrinhos. Circulou, sim, pela
cidade, mas para comprar discos e CDs nas lojas que se concentram em duas ou
três galerias do centro, ponto de encontro das “tribos urbanas” aficionadas do
rap e do hip-hop. Era lá que ele se abastecia para movimentar um animadíssimo
grupo de som que formou com amigos nos anos finais da década de 1980. Ani-
mavam festas particulares no entorno, também em bares da região. Com o tempo,
o grupo se desfez. Os bares fecharam as portas e a clientela foi sumindo. Parte
dos membros do grupo também sumiu – alguns foram mortos, outros fugiram:
“[...] acabou, não tem mais nada... aqui, mataram o colega nosso aí mesmo... aí,
acabou com tudo, né, não tem mais nada...”.
Maurício é figura de passagem entre as gerações dos irmãos e dos sobrinhos.
Mas, então, vale re-situar as referências: Maurício entrou na vida adulta (anos 90)
em um mundo já revirado. Viveu a virada dos tempos também pelo outro lado, o
da violência que foi, pouco a pouco, dizimando seus amigos e que terminou com
o grupo de som que acompanhou por sete anos de sua história recente. Além do
grupo de som, também um muito ativo grupo de pagode. O grupo tocava num
posto de gasolina na estrada de Itapecerica da Serra e, também, em alguns clu-
bes da zona leste da cidade. Chegou a tocar até mesmo em cidades do interior
e no litoral paulista. Mas o tempo fechou. Ao lado do posto, os donos de uma
padaria, de uma pizzaria e de um restaurante Frango Frito pressionaram para
acabar com a festa. Talvez a concorrência, pois as pessoas preferiam a animação

138
do pagode. Mas há também histórias confusas de batidas policiais e gente que
foi pega com droga, um outro que estava armado. Há relatos de denúncias feitas
pelos comerciantes do entorno de que o lugar estaria se tornando um ponto de
distribuição de drogas. Em 1997, o grupo de pagode terminou. A violência que
começou a campear na região, assim nos foi contado, terminou por assustar as
pessoas. Preferiam lugares fechados, mais seguros, como os karaokês que existem
nas avenidas que cortam a região. Ao que parece, parte do pessoal do pagode
terminou por se enroscar nos caminhos da droga e da criminalidade violenta. As
histórias que Genalto (20 anos), vizinho do patriarca Genésio, conta são confusas,
talvez haja um bocado de exagero e um outro tanto de ficção. É preciso tomá-las
com precaução. Porém, verdade ou ficção, traçam as referências que compunham
o cenário social, tal como este se configurou no final dos anos 1990:

[...] Tocava, tocava eu e (cita o nome de quatro colegas)... Ia bastante gente, aí,
de um tempo para cá, os cara que tocavam com a gente começaram a entrar em
ideia errada, o outro lá começou a roubar, tomou um tiro na boca e tá preso,
ele e o primo dele – roubavam banco mesmo, aí um dia resolveu roubar aí
na boca da favela um carro (de entrega) da Souza Cruz (empresa de cigarros).
Aí, a casa caiu, foi preso, levou um tiro na boca [...] O outro morreu, ele tava
nessas aí, mas ele morreu na boca da favela, do outro lado, na entrada de lá,
de treta com os cara, os cara ainda avisaram pra ele “sai fora que os cara vão
te matar”, “mata nada”; aí, no outro dia os cara mataram ele – os caras ainda
avisaram... ele não acreditava, foi até na quermesse que tava tendo na rua de
lá, quando ele desceu, os cara meteu o sangue nele e no irmão dele... Acabou
o grupo por causa disso, não dava certo. Ainda tentamos fazer um grupo com
os cara daqui de cima, mas não deu certo...

As quermesses e as festas juninas, que haviam sido também animadas e


famosas, atraindo gente dos bairros contíguos, também deixaram de acontecer.
Eram festas organizadas pela Igreja. Foram se acabando. Por causa da violência,
assim disseram. O pessoal ficava com medo, avaliam. Histórias de gente que foi
morta durante a festa (acerto de contas). As festas acabaram, o grupo de pagode
se desfez, o grupo de som também. A diversão dos outros tempos acabou e a
molecada de hoje em dia, dizia Jorge, não quer mais saber de futebol, só quer
mesmo ter uma motinha:

[...] o pessoal que a gente andava antigamente mesmo, a gente era muito unido,
hoje em dia você não vê a molecada, hoje em dia a molecada é... mais andar de
motinha, isso e aquilo, quer mais saber de moto, isso e aquilo... na nossa época,
mesmo quando a gente era mais adolescente, era tudo diferente, tinha campo,
a gente gostava de jogar bola, as molecada hoje em dia nem isso liga. [...] É,
antigamente na nossa época era muito difícil da gente ter uma motinha, hoje em
dia é fácil, hoje você com mil reais você compra uma moto aí, uma moto.

139
E para piorar as coisas, não dá mais para voltar tarde da noite para casa. A
violência é muita, é tudo muito perigoso:

Naquela época era melhor pra se divertir do que hoje. Porque você podia sair,
vamos supor, nove horas, chegar meia noite, uma hora que ninguém mexia com
você. Hoje não, se você sai, vamos supor, dez horas da noite, você tem que
esperar o dia amanhecer pra você poder vir embora, você não sabe se você vem
ou não porque... é muita violência, hoje em dia aí é muito neguinho que anda
drogado. Naquela época não, a pessoa ia com intenção de curtir mesmo.

Enfim, Jorge também “contrariou a estatística”, para evocar o trecho da música


dos Racionais MC’s, grupo rap que é uma referência importante nas periferias
da cidade e certamente um polo de identificação para Jorge, como para tantos
outros.

O segurança: nos circuitos da segurança privada, onde todos os fios se cruzam

Passagem por passagem, nada mais reveladora que aquela realizada por Ge-
raldo, 27 anos, segurança em um hotel cinco estrelas na Avenida Luiz Carlos
Berrini, coração globalizado da cidade, polo de irradiação do chamado terciário
moderno de última geração. Geraldo é o fi lho mais velho do Xerife. Se Lino, o
Xerife, deixou-se enredar na vida local da favela, entre expedientes obscuros da
vida e as malhas do clientelismo local ao velho estilo, Geraldo aprendeu muito
bem a transitar pelos circuitos modernos do mundo social. Como os jovens empre-
endedores seus vizinhos, sabia fazer as passagens entre o mundo da favela e os
circuitos da “cidade global”. Porém, não deixa de ser curioso notar: um percurso
inteiramente enredado nessa nebulosa de relações duvidosas e obscuras tramadas
em torno do Xerife, mas que se desdobrava na muito prestigiada atividade de
segurança privada nos circuitos nobres da “cidade global”.
Ele começou a trabalhar aos 19 anos. Era o ano de 1993: trabalhou como
garçom em um flat, em Moema. Ficou apenas três meses. Depois, trabalhou por
um ano em uma das pequenas fábricas ao lado da favela. Por intermédio de um
amigo, conseguiu emprego de fiscal em lojas e circulou em algumas das impor-
tantes lojas de departamento e shopping centers da cidade. O trabalho o lançou
pelos luminosos circuitos dos serviços modernos. Porém, era um trabalho instável,
Geraldo não conseguia se fi xar em canto algum:

[...] eu circulava em vários shoppings; quando cansava de ficar em um, ia pra


outra, eu trabalhei cinco meses na Besni, trabalhei uns 4 meses na 24 de
Maio, trabalhei um longo tempo na Besni do Jabaquara, depois fui pra C&A;
fiz a C&A da 24 de maio, fiquei uns 5 meses, nesta empresa eu fiquei um ano
e cinco meses, depois eu fui pra C&A do Interlagos (Shopping).

140
A grande virada de sua vida foi o curso de segurança que fez em 1997. O
curso para vigilante é intenso: além de defesa pessoal, manuseio de armas, de-
fesa pessoal e primeiros socorros, contempla aulas de direitos humanos. É uma
profissão muito regulada e fiscalizada pela Polícia Federal: além de atestado
de antecedentes criminais, sempre reatualizado, é obrigatória a realização de
cursos de reciclagem a cada dois anos.9 Através desse curso, Geraldo mudou de
patamar: entrou no circuito nobre da segurança privada. Apesar de ser este um
emprego muito instável (em geral, está sujeito a todas as inseguranças e também
irregularidades das redes de subcontratação) e muitas vezes exaustivo (Geraldo
tem que ficar de pé o tempo todo e, além do mais, se mostrar prestativo e gentil
com os endinheirados clientes), Geraldo está encontrando aí uma chance de es-
capar da viração de todos os dias de muitos de seus vizinhos. Está no “mercado
formal”, é um emprego hiper-regulado (pela Polícia Federal) e o trabalho o lança
nos luminosos circuitos dos serviços modernos.
Como pudemos flagrar em outros lugares, o emprego de segurança era vis-
to como muito promissor. Como nos disse um jovem, também segurança, que
morava no também pauperizado e muito mal-afamado vizinho Parque Santo
Antônio, bairro conhecido por seus altíssimos índices de morte violenta, este
é “um emprego certo, tem mercado garantido”! Sivaldo, 28 anos, casado, dois
fi lhos, também fez um curso de segurança credenciado e regulado pela Policia
Federal. Já prestou serviços em agências de alguns dos mais importantes bancos
brasileiros, também em lojas dos shopping centers mais sofisticados do rico e
globalizado quadrante sudoeste da cidade. A empresa de segurança para a qual
trabalhava não teve seus contratos renovados. Ele perdeu o emprego, mas não
ficou muito tempo parado. Quando o entrevistamos (em 2002), trabalhava em
uma empresa que prestava serviços em bingos e casas noturnas. Sivaldo não
soube explicar muito bem o estatuto dessa empresa, era muito pouco claro o
modo como os serviços eram contratados e remunerados. Muito provavelmente a
empresa compunha esse universo amplo e também expansivo, senão dos serviços
clandestinos, desses que transitam nas fronteiras incertas do legal e ilegal por
conta de expedientes diversos para escapar das regulações oficiais que vigoram
nos serviços de segurança (cf. Caldeira, 2000).
Sivaldo morava em um Cingapura, conjunto habitacional construído na gestão
Maluf na prefeitura de São Paulo, no lugar onde antes existia uma imensa favela
que então ocupava parte considerável da paisagem pauperizada do Parque Santo
Antônio. Portanto, como Geraldo, Sivaldo nasceu e cresceu em uma favela. Sua
família e vizinhos foram desalojados e depois transferidos para o Cingapura, por
volta de 1996. Sivaldo começou a trabalhar muito cedo, aos 14 anos. Já havia
sido office-boy, ajudante em barraca de feira e nos mercadinhos locais, coletor
de lixo, trabalhou em lava-rápido, montara junto com amigos um bar e, depois,

9
Para uma descrição detalhada dos serviços de segurança e seus procedimentos de recru-
tamento e treinamento, ver Cubas (2005).

141
uma barraca de pastéis, e ainda havia sido cobrador em peruas clandestinas –
foi um “bico”, diz ele, que arrumou entre os amigos perueiros, seus vizinhos no
Parque Santo Antônio. Não ficou muito tempo nessa atividade. A perua em que
trabalhava foi assaltada, ele achou que o negócio era muito perigoso e queria coisa
melhor da vida. Tinha então 23 anos e vendeu o carro que possuía para pagar
as mensalidades de curso de segurança. É nesse ramo que pretendia se fixar e
progredir na vida. Perguntamos: Como foi que resolveu ser segurança?

Ah, eu tinha uma vontade de ser segurança, já uma vontade própria, e também
pelo fato de ser a área na qual você não fica desempregado, é a única. Você se
especializa nisso... é o mais viável; onde você for, tem emprego.

Como tantos outros de sua geração, falar dos amigos é fazer a contabilidade
das mortes. Dos tempos de infância e adolescência, disse ele, “só salvou dois
ou três”. Os outros foram mortos, foram executados ou, então, sumiram pelos
caminhos tortos da vida. Sivaldo conhece bem as coisas da vida e talvez seja
isso que lhe permitia um notável distanciamento crítico dessa sua “promissora”
atividade. É perigoso, dizia Sivaldo. Não apenas porque se está exposto aos riscos
próprios da profissão. Mas também porque, “do lado de cá”, a coisa não é fácil.
Os seguranças são pressionados pela bandidagem, ele nos disse: recebem ofertas
de dinheiro, de proteção e a promessas de uma porcentagem na “fita”. Um jogo
pesado de pressão para que forneçam o “mapa da mina”:

[Eles querem saber tudo] [...] todas as dicas, onde estão as falhas, em que po-
sição fica cada um, que arma cada um usa, quem é o gerente, onde ele mora,
telefone, o percurso dele, quem fica nos caixas, quantos vigilantes ficam na
portaria, como que você vai poder falsificar para facilitar a entrada.
[...] Então como é que fica? Tem vigilante que está precisando de dinheiro, que
está desesperado, daí eles vão lá, fazem uma reunião na casa do “grandão” lá,
passa tudo, eles analisam, fazem uma segunda, terceira reunião, uma quarta
e quando eles se sentem preparados, eles falam – vai ser tal dia, está tudo
certinho.

E Sivaldo ainda comenta:

Então, na verdade, os caras estão gastando uma puta grana para se proteger
e, na verdade, estão dando as dicas do caminho das pedras, do caminho na
mina. É isso, é isso porque o dinheiro é a maldição do mundo, porque o ele
sabe que pode conseguir mais, ele prefere o dinheiro mais do que a integridade
dele ali... acha que, com o dinheiro no bolso, ele é o dono do mundo e acaba
perdendo sua integridade ....

Mas, ele avaliava, o esquema de segurança nos bancos, prédios de escritório


e nos shopping centers mais ricos e prestigiosos da cidade estava muito sofisticado

142
e poderoso. A entrada nesses domínios havia ficado muito difícil. Os fluxos do
crime deslocaram-se para os lados mais próximos da periferia pobre da cidade:
caixas eletrônicos, supermercados, comércio local ou então os bingos e casas
noturnas que se espalham pelas avenidas que cortam esses pedaços periféricos
da cidade. Sivaldo sabia do que está falando:

[...] para morrer basta estar vivo, não interessa se trabalha de segurança,
seja onde for, tanto na perua quanto lá no bingo. Que nem, geralmente, quem
conhece, quem nasceu e cresceu na periferia, sabe que no final do ano são os
alvos do crime organizado, para passar um final de ano bom, né? Existe isso.
Eles se distanciaram da área bancária, que eu trabalhei na área bancária, eles
se distanciaram pelo fato da área bancária estar com uma segurança ótima...
então, eles tem que correr para outra coisa. No bingo, eu já soube de fatos... é
um alvo, rola muito dinheiro, então é um alvo. Então, nós estamos lá para... não
vou dizer para bater de frente com eles, porque eu tenho família, os outros têm
família e mesmo no aprendizado do dia a dia na academia a gente aprende que
não há necessidade da reação, nós temos que prever antes do acontecimento.
Se eles estiverem lá dentro, não há como reagir, é só pegar e pedir a Deus...

Os seguranças privados são personagens inescapáveis de “cidade dos muros”


de que fala Teresa Caldeira (2000), fazem parte dos dispositivos de privatização
dos espaços públicos (e da cidade), ao mesmo tempo em que são mobilizados em
um mercado expansivo, também globalizado, que faz da segurança uma merca-
doria vendida sob formas cada vez mais sofisticadas e variadas. Em torno deles,
todos os fios se cruzam: o mercado, as fortalezas globalizadas da cidade, os cir-
cuitos faiscantes dos modernos equipamentos de consumo, também as fronteiras
incertas entre o legal e ilegal, lícito e ilícito Também o seu transbordamento para
as periferias da cidade: o moderno-moderníssimo trabalho precário, as redes de
subcontratação e essa indiferenciação entre o formal e informal, o legal e ilegal
que vai seguindo as linhas que fazem as tramas da cidade. O que os nossos per-
sonagens aqui nos descrevem e nos fazem ver, em seus percursos, é que essas
linhas perpassam as fortalezas globalizadas da cidade, transbordam seus muros
ou vazam pelos poros desses muros e, tal como outros tantos fluxos urbanos, vão
também redesenhando os territórios e seus circuitos. Modo muito peculiar pelo
qual se estabelece a relação entre trabalho e cidade pelas vias de uma cadeia de
mediações e conexões nas quais estão cifradas todas as facetas do mundo urbano
atual. Não é preciso lançar mão de nenhum argumento miserabilista para se ter
uma medida da tragédia que se constela no mundo...

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