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“Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, é sem dúvida uma das obras

mais reconhecidas do autor. Tendo como pano de fundo a luta de liberais contra
miguelistas, a obra leva o leitor a refletir sobre as questões portuguesas que derivaram
desta luta ideológica e política no Portugal de meados do século XIX. Para esta
reflexão, vale discorrer sobre o posicionamento político do autor. Almeida Garrett foi
um jovem que participou de grupos liberais a fim de derrotar o absolutismo que sondava
Portugal na época. Se declarando vintista, Garrett apoiou a Revolução de 1820,
caracterizada por um liberalismo radical.
O livro possui dois relatos, assim como diz Carlos Reis. O primeiro corresponde
à viagem que o narrador empreende de Lisboa à Santarém, já o segundo corresponde à
história sentimental dos primos Carlos e Joaninha.
Na primeira parte do livro, o narrador conta de forma irônica sobre a viagem que
fará à Santarém. De acordo com o professor Helder Garmes, na aula de Literatura
Portuguesa III do dia 16 de março, Santarém era um lugar pouco prestigiado, e o
interesse do narrador em viajar para esta cidade soa de modo satírico, já que ele se
autodenomina ambicioso no livro. Além disso, outra ironia presente no livro é que as
narrativas de viagem lidavam com lugares distantes, já “Viagens na Minha Terra” faz o
contrário, podendo ser vista assim como uma paródia da narrativa de viagem
tradicional.
Ao longo da primeira parte, o narrador critica o abandono dos monumentos
históricos e a falta de preservação cultural. No livro, é usada uma metáfora de “livro de
pedra” para se designar à Santarém. Pedro Serra, no texto “Linguagem, memória e
história nas Viagens na Minha Terra” diz que Santarém é na verdade um livro rasgado,
porque devido ao abandono, a cidade é incapacitada de transportar a memória e é,
portanto, signo da amnésia.
A passagem do narrador por outros lugares é repleta de reflexões sobre temas
ligados a Portugal. Um destes temas é o contraste entre religiosidade e o liberalismo. Na
segunda parte do livro, temos o personagem Carlos, que apresenta ideias liberais. Do
outro lado, temos o Frei Dinis, que representa a religiosidade e uma face mais
conservadora da época. Os dois personagens entram em conflito devido aos seus valores
ideológicos e Frei Diniz, em certo momento da história, inclusive tenta convencer
Carlos a largar o liberalismo, revoltando o jovem liberal. Diante do dualismo ideológico
representado pelos dois personagens Frei Dinis, o religioso e Carlos, o liberal, Garrett
não deixa de apontar os defeitos de cada ideologia. Garrett, assim, busca mostrar que
ambas as ideologias estavam corroendo Portugal. Como dito no primeiro parágrafo,
Garrett foi um ativo liberal de sua época, porém, o mesmo traça uma crítica a essa
ideologia no livro através do personagem Carlos. Essa crítica é feita, na verdade, ao
triste rumo que o liberalismo tomava, desvinculando de seus ideais de origem. Esta
crítica pode ser vista na figura de Carlos. Na história, Carlos deixa uma mulher que
conheceu na Inglaterra para ficar com sua própria prima, a Joaninha. Como se pode ver,
Carlos que representa o liberalismo, pratica ações imorais. No final do livro, Carlos
inclusive se torna um barão, o que representa a sua preocupação com interesses
particulares e ao desejo de ascender à classe privilegiada, em detrimento dos interesses
coletivos. A construção deste personagem, assim, serve para mostrar os problemas
morais que o liberalismo enfrentava na época.
Passemos agora para uma análise de “A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de
Queiroz. Eça foi um grande escritor português, conhecido por tratar em suas obras da
realidade da sociedade portuguesa de seu tempo. “A Ilustre Casa de Ramires” foi um
obra que marcou a carreira de Eça pela forma impressionante como o autor conseguiu
abordar temas sobre a História de Portugal, como a aristocracia e suas mazelas.
A história apresenta um protagonista chamado Gonçalo Ramires. Gonçalo
descende de uma família tradicional de Portugal, considerada por João Maia da Cruz
como uma metonímia da aristocracia tradicional portuguesa. De acordo com João da
Cruz, Gonçalo busca ao longo do livro “a ascensão social por meio da conquista da
fortuna e do poder, não obstante o ônus das baixezas morais exigidas”. A literatura é
vista por Gonçalo como um meio de ascensão política. Assim, ele recorre ao plágio de
uma antiga história escrita por seu tio para ser reconhecido por aquela que chamaria de
sua própria história, que contava sobre seus antepassados. E de fato alcança seu
objetivo, ingressando para a política no partido Regenerador. Como se pode ver,
Gonçalo se submete a ações imorais para alcançar uma ascensão social. Sua imoralidade
serve de contraste com a nobreza de seus antepassados, cujas histórias foram
brevemente retratadas no livro. Suas ações, assim, envergonham a história nobre de sua
família.
No livro, é dito que a família Ramires é mais antiga que o Condado
Portucalense. João da Cruz diz que, com isso, a História de Portugal e a trajetória dos
Ramires são colocadas em paralelo e espelham-se reciprocamente. Assim, João conclui
que a trajetória da família Ramires mimetiza os momentos de força e decadência
nacionais. Como visto no parágrafo anterior, João da Cruz considera a família Ramires
como uma metonímia da aristocracia tradicional. Logo, a aristocracia é mostrada como
portadora de atributos iguais aos atos de Portugal.
Em certo momento do livro, Gonçalo empreende uma viagem à África para
obter reconhecimento e enriquecimento pessoal. Este acontecimento contém ironia, pois
as viagens portuguesas ao continente Africano na época era tratada como algo glorioso,
tratando, assim, Gonçalo como um herói que busca satisfazer os desejos de sua pátria.
Entretanto, Gonçalo só visa os seus interesses próprios diante desta viagem.
No final do livro, o personagem João Gouveia compara Gonçalo com Portugal.
Neste episódio, João considera que as qualidades de Gonçalo sobrepõem suas poucas
imperfeições.
Se não desconfiarmos de Gouveia, facilmente chegamos à conclusão de que há
nessa fala a afirmação do heroísmo e a visão da viagem à África como pretexto para a
regeneração moral do herói. Levando em conta essa visão – que em breve será mostrada
aqui como errônea – seria vantajoso para Portugal assemelhar-se a um personagem que
retirou força de sua descendência heroica para revigorar-se. Entretanto, é preciso levar
em conta a ironia típica de Eça ao ler esta última parte do livro. Afinal, é sob a ironia
que comumente se sustentam as histórias literárias de Eça referentes ao século XIX. A
ironia se dá, como diz João Roberto da Cruz, pelo fato de Gonçalo - principal
representante da aristocracia portuguesa decadente do século XIX – ser comparado com
Portugal.
Como pudemos ver, há nas obras analisadas aqui de Eça e Garrett alguns pontos
coincidentes e divergentes. Em “Viagens na Minha Terra”, Garrett utiliza um
personagem alegórico para criticar o estado decadente de Portugal resultado da crise
imoral pela qual passava o liberalismo. Este personagem é Carlos, que, sendo um
liberal, pratica atos imorais ao longo da história, como se envolver com outra mulher,
sendo esta sua própria prima. Garrett, como vimos, foi um ativo liberal em sua época,
tendo apoiado a revolução liberal de 1820. O que ele critica, aí, é o rumo o qual o
liberalismo português tomou, chegando a um estado de decadência.
Eça, em “A Ilustre Casa de Ramires”, também utiliza um personagem alegórico
para uma crítica política. Neste caso, a crítica é feita contra a aristocracia tradicional
portuguesa. Eça usa o personagem Gonçalo para representar a decadência da
aristocracia e consequentemente, de Portugal de sua época. A crítica às famílias nobres
também pode ser vista no livro “Os Maias”, do mesmo autor, em que ele, segundo
Carlos Reis, critica a elite liberal e sua individualidade. Com isso, conclui-se que tanto
Garrett quanto Eça traçam, cada um à sua maneira, uma crítica à crise de valores pela
qual Portugal vivia na época, marcada por indivíduos decadentes que visavam apenas os
seus interesses pessoais.
Por fim, outro ponto em comum entre estes dois autores é a ironia empregada em
seus textos. Como vimos, Garrett é irônico ao mostrar um personagem que se considera
ambicioso e vai à Santarém, cidade com pouco prestígio na época. Já o entendimento da
ironia de Eça se faz essencial para se entender o final de “A Ilustre Casa de Ramires”,
em que Gonçalo é comparado a Portugal e ironicamente mostrado como uma pessoa
digna de reconhecimento pelos seus atos.