Você está na página 1de 52

Livro do Professor

Lite ratu ra
Volume 4
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)
(Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil)
A474 Alves, Roberta Hernandes.
Literatura : ensino médio / Roberta Hernandes Alves ; ilustrações Daniel Klein, Marcos de
Mello, Mariana Coan – Curitiba : Positivo, 2015.
v. 4 : il.
Sistema Positivo de Ensino
ISBN 978-85-467-0092-9 (Livro do aluno)
ISBN 978-85-467-0093-6 (Livro do professor)
1. Literatura. 2. Ensino médio – Currículos. I. Klein, Daniel. II. Mello, Marcos de. III. Coan,
Mariana. IV. Título.
CDD 373.33

©Editora Positivo Ltda., 2015

Presidente: Ruben Formighieri


Diretor-Geral: Emerson Walter dos Santos
Diretor Editorial: Joseph Razouk Junior
Gerente Editorial: Júlio Röcker Neto
Gerente de Arte e Iconografia: Cláudio Espósito Godoy
Autoria: Roberta Hernandes Alves
Supervisão Editorial: Jeferson Freitas
Edição de Conteúdo: Enilda Pacheco (Coord.) e Floresval Nunes Moreira Junior
Edição de Texto: Juliana Milani
Revisão: Chisato Watanabe, Fernanda Marques Rodrigues e Willian Marques
Supervisão de Arte: Elvira Fogaça Cilka
Edição de Arte: Joice Cristina da Cruz
Projeto Gráfico: YAN Comunicação
Ícones: ©Shutterstock/ericlefrancais, ©Shutterstock/Goritza, ©Shutterstock/Lightspring, ©Shutterstock/Chalermpol, ©Shutterstock/
Macrovector, ©Shutterstock/Jojje, ©Shutterstock/Archiwiz, ©Shutterstock/PerseoMedusa e ©Shutterstock/Thomas Bethge
Imagens de abertura: ©Dreamstime.com/Alexandre Fagundes De Fagundes e ©Shutterstock/Samuel Borges Photography
Editoração: Ivonete Chula dos Santos
Ilustrações: Daniel Klein, Marcos de Mello, Mariana Coan
Pesquisa Iconográfica: Janine Perucci (Supervisão) e Susan Rocha de Oliveira
Engenharia de Produto: Solange Szabelski Druszcz

Produção
Editora Positivo Ltda.
Rua Major Heitor Guimarães, 174 – Seminário
80440-120 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3312-3500
Site: www.editorapositivo.com.br

Impressão e acabamento
Gráfica e Editora Posigraf Ltda.
Rua Senador Accioly Filho, 431/500 – CIC
81310-000 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3212-5451
E-mail: posigraf@positivo.com.br
2018

Contato
editora.spe@positivo.com.br

Todos os direitos reservados à Editora Positivo Ltda.


Sumário
Acesse o livro digital e
conheça os objetos digitais
e slides deste volume.

07 Barroco ..................................................... 4
Barroco .......................................................................................................... 7
Estética do Barroco nas artes plásticas........................................................... 7
Estética do Barroco na literatura .................................................................... 9
Período barroco português ............................................................................ 12
Padre Antônio Vieira ...................................................................................... 12
Período barroco brasileiro .............................................................................. 15
Gregório de Matos Guerra .............................................................................. 17
ƒ Poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos ......................................................................................... 17
ƒ Poesia satírica de Gregório de Matos .................................................................................................... 17
ƒ Poesia religiosa de Gregório de Matos .................................................................................................. 17
Resistência negra à escravidão ...................................................................... 21

08 Arcadismo ................................................ 29
Produção artística do século XVIII .................................................................. 31
ƒ Mudanças na classe burguesa ............................................................................................................... 32
ƒ O Iluminismo ........................................................................................................................................ 33
Arquitetura no Neoclassicismo ..................................................................... 34
Aspectos da literatura árcade ....................................................................... 34
Mudanças na sociedade portuguesa no século XVIII ..................................... 37
Arcadismo em Portugal: Bocage ................................................................... 37
Arcadismo no Brasil ...................................................................................... 39
Poesia lírica árcade: resquícios do Barroco e convencionalismo .................... 40
ƒ Cláudio Manuel da Costa ....................................................................................................................... 40
ƒ Tomás Antônio Gonzaga ....................................................................................................................... 40
Poesia épica árcade: representação do indígena na literatura do século XVIII 45
ƒ O Uraguai .............................................................................................................................................. 45
ƒ Caramuru .............................................................................................................................................. 45
Poesia satírica árcade: crítica aos poderosos ................................................. 46
07
Barroco
©Dreamstime.com/Shaileshnanal

Ponto de partida
1

11.. Na imagem, é possível ver dois homens em meio a uma paisagem natural. Descreva a postura de cada um deles.
2. O título dessa imagem é A contradição. Para você, qual a relação entre a imagem e o título?
3. O termo contradição tem como significados no dicionário as ideias de incoerência, oposição e contestação,
entre outros. Quais as diferenças de significado entre cada um desses três termos?
4. Segundo sua leitura, qual desses três sinônimos se associa melhor à imagem? Justifique sua resposta.

4
Objetivos da unidade:
ƒ compreender a relação do contexto sócio-histórico com as manifestações artísticas do Barroco;
ƒ conhecer as artes plásticas barrocas, incluindo as obras de Aleijadinho;
ƒ ler e interpretar poemas líricos, satíricos e épicos pertencentes ao Barroco;
ƒ entender a função artística e social desempenhada pelos sermões no período barroco.

Lendo a literatura

l.
a
git
Di
5.
01
Leia um poema do poeta brasileiro contemporâneo
mporâneo José Paulo Paes.

.2
llo
Me
de
2 Orientações para leitura do poema.

s
rco
Ma
Ao shopping center

Pelos teus círculos


vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.

De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.

Cada loja é um novo


prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus

nós que por teus círculos


vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.

PAES, José Paulo. Ao shopping center. In: ______.


_____.
Os melhores poemas de José Paulo Paes: seleção
o de
Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998.
p. 197.

vagamos: andamos sem destino, peregrinamos.


amos.
almas penadas: almas que circulam pelo mundo
sem descanso, almas sofridas.

5
Daniel ital.
Klein.
ig
2015. D
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, São Paulo, em 1926. Foi tradutor, poeta
e crítico literário. Morreu em São Paulo, em 1998.

1. Na primeira estrofe do poema, o eu lírico aproxima a ati- de sofrimento. Por isso, a cada nova loja em que se entra, uma
tude de caminhar pelo shopping center à ideia de que
nova necessidade de consumo surge, reforçando o sofrimento
não sabemos direito para onde queremos ir. Que ideias
contidas nessa estrofe confirmam essa sensação? vivenciado pelo eu lírico.
Os versos 2 e 3 (“vagamos sem rumo/nós almas penadas”)
4. O poema aproxima o passeio em um shopping center
sugerem que a caminhada pelo shopping center pode não à ideia de peregrinação religiosa, em que os consu-
midores se tornam “almas penadas” subindo e des-
apresentar uma finalidade, uma direção. cendo ao céu e ao inferno por elevadores e escadas.
Seguindo essa interpretação, qual é o fim dessa tra-
2. Na segunda estrofe, há o emprego de uma figura de jetória religiosa?
linguagem marcada por um recurso poético que se
repete. A espera do consumidor que “vaga sem perdão” à espera da

a) Que recurso é esse? “Grande Liquidação” fazendo referência à jornada do fiel à

A antítese (oposição). espera do Juízo Final.

b) Esse recurso é empregado duas vezes nessa es- 5. Uma das possibilidades de interpretação do poema é
trofe. Uma delas pode ser percebida facilmente, a a de que ele expressa a ideia de ser o consumo uma
outra é mais sutil. Identifique essas ocorrências. espécie de nova religião? Justifique sua resposta.
A oposição entre “céu” e “inferno” e entre “elevador” (que Pessoal. Espera-se que os alunos problematizem os hábitos

leva para o céu) e “escada” (que leva para o inferno). relacionados à sociedade do consumo, destacando principal-

c) Explique por que as palavras indicadas na questão mente a necessidade ou não de consumirmos mais produtos do
anterior podem ser entendidas como um caso da
figura de linguagem empregada. que realmente necessitamos.

As palavras “céu” e “inferno” expressam ideias opostas, já 6. No poema “Ao shopping center”, algumas palavras
as palavras “elevador” e “escada” são ideias opostas no apresentam sentido oposto. Percebe-se, também, que
contexto desse poema: “De elevador ao céu” – ideia de ida
esse poema tem um conteúdo crítico. Explique como
para cima; e “pela escada ao inferno” – ideia de ida para
baixo. as oposições podem reforçar o caráter questionador de
um poema.
Pessoal. Espera-se que os alunos considerem que as
3. Na linguagem comum, o termo cruz representa nossa
contradições, em boa parte das vezes, fazem com que mais de
sina (algo a que estamos condenados em nossa exis-
tência, nosso destino). Considerando essa informação, uma visão sobre um mesmo assunto sejam apresentadas ao
por que o poema afirma ser “cada loja” um “prego em
nossa cruz”? leitor.

O consumo, na visão do poema, corresponde a uma experiência

6 Volume 4
Acontecia
3 Propostas de atividades.

Barroco
O Barroco, também chamado de Seiscentismo, foi uma estética que, assim como o Classicismo renascentista,
não ocorreu somente na literatura: aspectos do estilo barroco estão presentes na arquitetura, na pintura, na ópera, no
teatro, na escultura e na música na Europa e em algumas de suas colônias no século XVII. Suas primeiras manifestações
surgiram no último período do Renascimento italiano, momento em que os conceitos de equilíbrio e razão começa-
ram a perder espaço para manifestações artísticas em que se podia observar a presença de alguns exageros e de certa
extravagância nas representações artísticas.
Do ponto de vista histórico, na transição do século XVI para o século XVII, muitos países europeus viviam uma
fase otimista marcada pelo desenvolvimento econômico. A ampliação do comércio com a proliferação das rotas
marítimas e a descoberta da América foram alguns dos fatores que desencadearam esse desenvolvimento. De
modo oposto, mas complementar, outro conjunto de acontecimentos associados à crise religiosa que se instalou
no centro do cristianismo espalhava uma sensação de pessimismo, de uma Europa dividida pelo surgimento de
novas crenças religiosas.
O otimismo econômico e o pessimismo religioso são características de um período histórico marcado por um
espírito contraditório: de um lado, o aprofundamento do racionalismo e do pensamento antropocêntrico com o
avanço das ciências e da filosofia desenvolvidas em alguns lugares como Inglaterra e Holanda; de outro lado, a crise
desencadeada pelo embate entre o Protestantismo e a Contrarreforma, cujos grupos mais extremos defendiam um
resgate de valores do cristianismo típicos da Idade Média, em países como Portugal e Espanha.
A tensão gerada pela crise religiosa enfraquecia o poder da Igreja Católica, que se via dividida e, portanto, passava
a ser mais criticada. As Grandes Navegações, por sua vez, favoreceram o enriquecimento de uma parcela da nobreza
e da burguesia comercial com a expansão da circulação de produtos de diversos lugares do mundo. O resultado da
queda de prestígio da Igreja e o aumento de poder da nobreza e de uma parcela dos comerciantes mais bem-sucedi-
dos criaram condições para o surgimento do Absolutismo, sistema político em que o controle social se concentrava
nas mãos da monarquia.

Olhar literário
4 Proposta de trabalho com as imagens.

Estética do Barroco nas artes plásticas


Diferentemente do Classicismo renascentista, o Barroco apresentou
oca
muitas variações que foram determinadas por fatores políticos, religiosos e Um dos pontos interessantes da arte barr
oco.
culturais nos países europeus. Havia diferenças individuais – relaciona- diz respeito à origem da palavra barr
que o term o vem
das aos estilos dos artistas, que passaram a ter mais liberdade em suas Alguns estudiosos afirmam
form a irre-
composições, se comparados aos renascentistas; e diferenças nacionais do português e significa pérola de
ente
– associadas aos desdobramentos da crise religiosa: o Barroco foi mais gular. Ao longo do tempo, mais precisam
pass ou a desi gna r
intenso e contraditório nos lugares em que a Igreja Católica manteve no século XVIII, barroco
aquilo que é extravagante ou irreg ular.
sua influência com a Contrarreforma.

Literatura 7
No que diz respeito aos estilos dos artistas durante o período barroco, veja uma comparação entre pinturas de dois
artistas tipicamente barrocos: o holandês Rembrandt e o flamengo Peter Paul Rubens.

REMBRANDT. A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente RUBENS, Peter Paul. O desembarque de Maria
Willem van Ruytenburg (A ronda noturna). 1642. 1 óleo sobre tela, color., de Médicis em Marselha. 1623. 1 óleo sobre tela,
363 cm × 437 cm. Rijksmuseum, Amsterdam. color., 394 cm × 295 cm. Museu do Louvre, Paris.
Nessa pintura de Rembrandt, fica bastante evidente a exploração do contraste Rubens é amplamente conhecido como um dos
claro-escuro maiores coloristas (se aprimoraram no uso das
cores em suas obras) entre os pintores barrocos

A pintura de Rembrandt retrata a cena de um grupo de soldados se preparando para embarcar em uma missão de
patrulhamento. O aspecto original dessa obra é o modo como o pintor organiza o espaço, como se algumas pessoas se
colocassem acima de outras. No Classicismo, retratos coletivos dispunham as figuras humanas uma ao lado das outras,
sem que elas se sobrepusessem, com a imagem mais importante ocupando o centro da cena. Essa obra do pintor
holandês propõe uma organização em que todos os soldados aparecem com destaque semelhante, e não apenas os
personagens do centro da imagem. Outro elemento do estilo barroco de Rembrandt pode ser notado: o uso do fundo
escuro contrastando com o brilho das figuras principais.
Em uma breve leitura da pintura de Rubens, é possível observar outra forma de utilização das cores escuras com-
pondo o fundo da tela: em vez de utilizar um fundo escuro, comum em obras barrocas, tem-se a cor vermelha, que aju-
da a orientar o olhar do leitor para a cena principal do cortejo real. O fundo é composto de tons de branco e cinza que
se assemelham a brumas, como se a imagem de Maria de Médicis e parte das figuras que a acompanha não fossem
pessoas reais, e sim seres vindos de uma dimensão etérea ou fantástica, o que é reforçado pela presença das figuras
mitológicas que se encontram na parte de baixo da tela e a que sobrevoa a cena.
Mesmo sendo diferentes, é possível dizer que nas duas pinturas há um princípio que corresponde a uma das
características mais importantes da arte barroca: o choque entre opostos. Na pintura de Rembrandt, o contraste
entre o claro e o escuro tem como intenção criar no leitor a impressão de que uma parcela da realidade se desprega
da tela; na pintura de Rubens, há uma mistura entre o que pertence ao real (a figura de Maria de Médicis e sua corte)
e o imaginário (imagens da mitologia).
As artes plásticas do Barroco europeu, em geral, apresentam um conjunto de regras que as destacam das conven-
ções da arte renascentista:

8 Volume 4
a) apresentação dos objetos como manchas ou massas de cor, diferentemente da arte clássica do Renascimento,
que procurava delinear as imagens;
b) ênfase na profundidade, e não apenas no que está no primeiro plano, ou seja, nos detalhes que estão no
fundo da cena que é retratada, fazendo parecer que outros acontecimentos situados atrás da cena em primeiro plano
também têm importância – o primeiro plano era mais importante para o artista no Renascimento, já que as imagens
que ocupavam o fundo das representações exerciam apenas o papel de cenário;
c) valor à forma aberta, ou seja, as figuras não apresentam contornos totalmente definidos e não se destacam
somente as imagens centrais;
d) sensação de que o todo da obra é mais importante do que cada parte singular, como se pode observar na
tela de Rembrandt, em que todos os soldados recebem destaque, e não apenas um ou dois deles;
e) não é mais necessário, como o era na arte clássico-renascentista, reproduzir os elementos em todos os seus de-
talhes. Isso significa que no Barroco não há a intenção de reproduzir cada elemento exatamente com ele é (o espectador
deve completar com sua imaginação, já que algumas “lacunas” são deixadas intencionalmente na obra pelo autor).
No período barroco brasileiro, a construção e o acabamento de edificações, principalmente igrejas, deixaram um
legado de grande importância estética. Algumas igrejas estão entre as obras arquitetônicas barrocas de maior des-
taque em todo o mundo, entre elas, destacam-se a de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, e a de São Francisco, em
Salvador. No caso da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, observa-se a utilização de uma técnica de uso da
talha (utilizada para esculpir superfícies como madeira ou pedra) combinada à pintura, que pode ser considerada
altamente desenvolvida para os padrões da época. Dois artistas desse período são considerados os maiores de todos
os tempos no Brasil: Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) e Manuel da Costa Ataíde (o Mestre Ataíde).
Sugestão de pesquisa: Proponha aos seus alunos que acessem o site do Museu do Aleijadinho.
Sugestão de atividades: questões 1 e 2 da seção Hora de estudo.

Estética do Barroco na literatura


No caso específico da literatura (em especial aquela que se ligou de modo mais direto à Contrarreforma e que
era composta de poemas religiosos, peças teatrais e sermões), o Barroco promoveu uma mudança considerável na
relação do texto com o público. A literatura passou a refletir uma necessidade de impressionar os sentidos do leitor.
Muitas vezes, o texto literário procurou se aproximar do povo, tentando utilizar uma linguagem que pudesse ser com-
preendida quando o assunto da obra era algo ligado à fé.
A Igreja Católica se servia da literatura para propagar sua doutrina, para aproximar as pessoas de sua concepção
de mundo. Isso era feito não de modo que valorizasse o uso da razão, como no pensamento renascentista, mas sim
que proporcionasse uma percepção básica ao leitor e uma compreensão imediata do tema ou assunto tratado na
obra. Contudo, mesmo que os autores tivessem a intenção de ser compreendidos pelas pessoas menos instruídas, a
linguagem usada ainda era inacessível a esse público. No Barroco, a linguagem se tornou muito mais sofisticada e
exagerada do que foi ao longo do Renascimento. Os temas religiosos eram abordados de modo complexo, apresen-
tando uma mistura entre sagrado e profano, baixo e elevado, carne e espírito, homem e Deus, revelando uma crise
entre uma visão antropocêntrica em conflito permanente com uma visão teocêntrica.
O amor, tema central da poesia lírica, também apresentou na poesia barroca efeito de duplicidade e de mistura. A
mulher, vista como um ser puro, objeto da idealização do eu lírico, transforma-se, poucos versos depois, na figura que
seduz e desvirtua, senhora dos prazeres e das tentações, revelando uma perspectiva dualista da realidade.
Na literatura barroca, é possível ver uma produção de cunho satírico, de apelo popular, ironizando situações e
figuras conhecidas socialmente. Nessa poesia, a linguagem é colocada a favor de uma crítica social, questionando os
costumes que caracterizam os abusos por parte dos governantes e dos senhores do poder.

Literatura 9
Além da poesia religiosa, da lírico-amorosa e da satírica, vale destacar a produção de uma poesia de cunho filo-
sófico, que explora a fugacidade do tempo e a transitoriedade da vida, e uma poesia de cunho erótico.
A produção barroca na literatura pode ser organizada em duas tendências: o cultismo e o conceptismo.
• Cultismo – também conhecido como gongorismo, explora as imagens poéticas, o jogo de palavras, as inver-
sões sintáticas e o uso culto da língua.
• Conceptismo – utiliza a linguagem como estratégia para convencer e como jogo de raciocínio.
De modo geral, o cultismo está relacionado aos textos poéticos; e o conceptismo, aos textos em prosa.

Atividades 5 Orientações sobre as atividades.

1. Analise as reproduções de obras barrocas e associe cada uma das características a uma obra.

(1) (3)
VELÁZQUEZ, Diego. As meninas. 1656. 1 óleo sobre EL GRECO (Doménikos Theotokópoulos). O enterro
tela, color., 318 cm × 276 cm. Museu do Prado, do Conde Orgaz. 1586-1588. 1 óleo sobre tela, color.,
Madri. 480 cm × 360 cm. Igreja de São Tomé, Toledo.

CARAVAGGIO, Michelangelo Mirisi


de. A ceia de Emaús. 1601.
1 óleo sobre tela, color.,
141 cm × 196,2 cm. Galeria
(2) Nacional, Londres.

fugacidade: velocidade. transitoriedade: brevidade, que é erótico: relativo ao amor sensual.


passageira.
10 Volume 4
( 1 ) A tela apresenta vários pontos luminosos, destacando a imagem central que está situada na parte da frente ao
mesmo tempo que chama a atenção para o fundo da cena. Essa estratégia do estilo barroco ressalta a profun-
didade da tela.
( 2 ) Nessa pintura, destaca-se o jogo do claro-escuro, que faz com que algumas das imagens não apresentem um
contorno totalmente definido.
( 3 ) O quadro apresenta uma divisão da cena principal em dois planos: o humano, que se encontra na parte inferior da
tela, e o divino, na porção superior. Essa perspectiva dualista é uma das marcas do Barroco presente nessa pintura.
2. Leia o poema escrito por Luís de Camões.

Tanto de meu estado me acho incerto,


que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;


da alma um fogo me sai, da vista um rio;

©Shutterstock/pun photo/DeepGreen/Vso
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;


Num’hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um’hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,


respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

CAMÕES, Luís de. Lírica: Luís de Camões. Introdução e notas de Aires


da Mata Machado Filho. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP,
1982. p. 154-155.

a) Ainda que a produção literária camoniana faça parte do Classicismo renascentista, é possível encontrar no poema
lido elementos pertencentes ao Barroco. Selecione duas passagens que indiquem marcas típicas do estilo barroco.
Justifique sua escolha.
Pessoal. Sugestão: “que em vivo ardor tremendo estou de frio”; “o mundo todo abarco e nada aperto”. Nesses dois versos, como

em outros que compõem o soneto, as figuras de linguagem têm a função de revelar a oposição e a contradição, que são caracterís-

ticas do Barroco.

b) Como você descreveria o estado amoroso vivido pelo eu lírico desse poema?
Pessoal. Sugestão: O amor vivenciado pelo eu lírico é marcado por sensações contraditórias.

abarco: envolvo. desconcerto: desarranjo, desacerto. desvario: loucura.

Literatura 11
Acontecia

Período barroco português


No campo da produção literária portuguesa, o Barroco tem início em 1580, com a morte de Luís de Camões, o
grande escritor do Classicismo renascentista.
A estética barroca, porém, não se desenvolveu do mesmo modo como na Itália, em que pode ser considerada uma
sequência da arte renascentista. Fatores políticos determinaram certa resistência à adesão de artistas portugueses ao
Barroco.
Em 1578, D. Sebastião, rei de Portugal, desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir. Como morreu muito jovem, não
deixou herdeiros diretos para seu trono. Quem assumiu o trono foi Henrique I. No entanto, este morreu em 1580 e o
rei da Espanha, Filipe II, foi então proclamado rei de Portugal, pois era o parente mais próximo que atendia às regras
definidas para a sucessão real.
Essa situação de esvaziamento do poder fez com que a nobreza, que vivia em torno do palácio real, abandonasse a
capital Lisboa. Muitos nobres seguiram para suas propriedades no campo, levando consigo artistas e intelectuais para
formar suas próprias cortes.
O domínio espanhol sobre Portugal durou 60 anos. As relações entre ambos eram marcadas por desavenças e por
uma resistência sistemática dos portugueses a tudo o que vinha da corte de Madri. Como os artistas espanhóis haviam
aderido à estética barroca, muitos portugueses passaram a recusá-la, preservando os princípios da literatura clássico-
-renascentista como um escudo para protegê-los de tais influências. Os Lusíadas, de Camões, passa a ser considerado
mais que uma obra literária, torna-se uma espécie de bandeira que exaltava o modo de ser do povo português: em
seus versos, os portugueses viam a representação dos tempos de glória de Portugal.
Se de um lado artistas e intelectuais portugueses faziam resistência à entrada da estética barroca em Portugal, de
outro, a Contrarreforma, com ligação estreita com a arte barroca, de certa forma, impunha o estilo em terras lusitanas.
Como visto, a arte serviu de instrumento de divulgação de ideias relativas à doutrina da Igreja Católica, por meio, por
exemplo, da escrita e da divulgação de autos sacramentais (uma espécie de teatro religioso) e dos sermões.

6 Explicação sobre os autos sacramentais.

Olhar literário
Padre Antônio Vieira
Considerado o mais importante prosador barroco em língua portuguesa, Padre Antônio Vieira escreveu sua obra
parte em Portugal, parte no Brasil. Sua produção pode ser dividida em três grandes grupos: as profecias, em que es-
creve sobre o futuro de Portugal; as cartas, nas quais podem ser lidas ideias sobre a Inquisição, questões políticas, as
relações entre Portugal e Holanda e os novos cristãos (muçulmanos e judeus convertidos para a fé cristã); os sermões,
em que se pode observar o domínio dos aspectos da escrita barroca conceptista, isto é, em que desenvolve as ideias
por meio de uma escrita persuasiva e altamente elaborada.
Um fator importante a ser considerado para a compreensão da obra de Antônio Vieira diz respeito a sua presença
ora no Brasil ora em Portugal. Diferentemente de outros escritores que se fixavam em um único lugar, Vieira teve um

12 Volume 4
papel político de relevo tanto na Corte portuguesa como em localidades que serviam de apoio para os colonizadores
que se transferiam para as regiões Norte e Nordeste do Brasil em busca de oportunidades de enriquecimento. 7 Sugestão
de leitura.
Foi em seus textos, principalmente nos sermões, que Vieira manifestou sua visão sobre as questões de seu tempo:
a colonização, a decadência de Portugal, a conversão e a exploração da terra e dos indígenas que habitavam a colônia
brasileira, os problemas da religião decorrentes da crise religiosa (embate entre católicos e protestantes). Pode-se en-
tão afirmar que em sua escrita havia três dimensões complementares que servem de guia para a leitura: a primeira,
religiosa, a segunda, literária, e a terceira, política.
Leia o trecho de um dos sermões escritos por Padre Vieira.

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo, não são aqueles

. Digital.
miseráveis, a quem a pobreza e a vileza de sua fortuna condenou

Mello. 2015
a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou
alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum

Marcos de
quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam.
O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que
não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões, de maior
calibre e de mais alta esfera, [...] Não são só ladrões, diz o Santo,
os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para
lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente
merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os
exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administra-
ção das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam
e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem,
estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu
risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são
enforcados, estes furtam e enforcam. [...]

VIEIRA, Antônio. Sermão do bom ladrão. In: ______. Os sermões. São Paulo:
Difel, 1968. p. 319-320.

Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 1608.


8. Com 7 anos veio para o Brasil, onde
. Digital.

entrou para a Companhia de Jesus. Após a restauração


uração da monarquia portuguesa, em
ein. 2015

1640, retornou a Portugal e tornou-se confessor do rei D. João IV. Voltou ao Brasil em
1681 e dedicou seus últimos anos à compilação de seus sermões. Morreu em 1697.
Daniel Kl

vileza: baixeza. alta esfera: de grande importância social.


escusa: desculpa. espreitam: espiam.
Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur colher: roubar.
enim ut esurientem impleat animam: esse trecho escrito encomendam: solicitam.
em latim foi retirado de uma passagem bíblica (Provérbios, VI, manha: jeito.
vers. 30); pode ser traduzido como “Não se trata como ladrão despojam: saqueiam, roubam.
quem rouba para matar a fome”. risco: possibilidade de ser pego.
calibre: importância.

Literatura 13
O estilo da prosa de Vieira apresenta um uso constante de metáforas, comparações, anáforas, antíteses e para-
doxos. Destaca-se também a naturalidade por meio da qual discutia assuntos relacionados à fé e à vida dos homens,
em um raciocínio pautado pela condução lógica em que intenção era o de convencer seus ouvintes (apesar de
escritos, os sermões de Vieira eram pregados oralmente) e enfrentar os poderosos.
Nota-se uma intenção moral por trás dos argumentos usados pelo padre. Uma das estratégias dos sermões era as-
sociar passagens bíblicas a problemas concretos vivenciados pelos homens. Os problemas religiosos desdobravam-se
em problemas éticos relativos à conduta que ele considerava reprovável das pessoas. Os sermões de Vieira, portanto,
não se limitavam a oferecer conforto espiritual aos fiéis, mas, sobretudo, criticavam os modos de ser dos homens.
Sugestão de atividades: questões de 3 a 5 da seção Hora de estudo.

Atividades
8 Sobre a leitura de sermões do Padre Vieira.

Leia uma passagem de um dos sermões mais importantes do maior representante do Barroco em Portugal, Padre Antô-
nio Vieira: o “Sermão da Sexagésima”.

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão
dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa
razão é também esta. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar
ao semear: Exiit qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma
arte que tem mais de natureza que de arte.
[...]
Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador
que houve no mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no mundo foi o céu. [...]
Suposto que o céu é pregador, deve ter sermões e deve ter palavras. [...] E quais são estes sermões e
estas palavras do céu? As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia
e o curso delas. [...] O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja.
[...] Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de
palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra
há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem
desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz?
Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?
[...]
Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas
Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas
não pregam a palavra de Deus.

VIEIRA, Antônio. Sermão da Sexagésima. In: ______. Os sermões. São Paulo: Difel, 1968. p. 96-97-105.

porventura: talvez. Exiit qui seminat, seminare: Saiu o pregador evangélico a


púlpito: lugar de destaque, de onde se faz uma pregação. semear.
empeçado: transtornado. curso: trajetória.
afetado: pretensioso. ladrilha: assentar ladrilhos em uma superfície.
encontrado: contrário. azuleja: assentar azulejos em uma superfície.

14 Volume 4
1. Observe o estilo utilizado pelo Padre Antônio Vieira no 2. “O pregar há de ser como quem semeia, e não como
desenvolvimento de seu sermão e indique, das afirma- quem ladrilha ou azuleja”. Nesse trecho, o Padre An-
ções a seguir, as opções incorretas. tônio Vieira opõe a pregação correta (pregar como
( ) O tema abordado nesse trecho do sermão é a arte alguém que semeia) à pregação errada (pregar como
da composição, segundo a concepção de Antônio quem ladrilha ou azuleja). Para você, qual o significado
Vieira sobre o assunto. da metáfora “ladrilha ou azuleja”?
Pessoal. Nessa resposta, é importante que os alunos percebam
( X ) O conceptismo, no trecho lido do sermão, só é per- que tanto ladrilhar como azulejar se referem a ações relacio-
ceptível nos momentos em que Vieira compara as nadas à decoração, a deixar uma superfície bonita. Vieira
questiona a opção dos pregadores que utilizam um estilo
palavras de um sermão às estrelas do céu. que se preocupa mais com o aspecto decorativo da linguagem
( ) No final do segundo parágrafo, é possível encon- religiosa que com seu significado místico ou doutrinário.
trar uma série de termos que estabelecem entre si
3. Na passagem do texto em que se lê: “Pregam palavras
um sentido de oposição.
de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”, há uma
( X ) O uso das interrogações no trecho do sermão é aparente contradição.
um recurso utilizado para desviar a atenção do
a) Que contradição é essa?
leitor/ouvinte dos pontos que merecem atenção
para se compor um bom sermão. A suposta contradição diz respeito à pregação correta ou
não da palavra de Deus. Isto é, alguns falam palavras relati-
• Agora, escreva por que estão incorretas as afirmati- vas a Deus, mas não falavam a palavra de Deus.
vas que você marcou nessa atividade.
Sobre a primeira alternativa indicada como incorreta, é b) Que termo presente nessa frase apresenta sentidos
possível afirmar que o conceptismo em um texto barroco não
se limita a uma das partes de um texto, mas sim ao modo
opostos? Qual o recurso utilizado pelo escritor para
como o texto é integralmente composto, valendo-se da criar a duplicidade?
construção de um jogo de ideias. Sobre a segunda alternativa O termo que apresenta sentidos que se opõem é “palavra”.
indicada, as interrogações utilizadas em alguns trechos do Para criar um efeito de oposição entre termos que são
sermão exercem justamente uma função contrária, que é a iguais, mas significam visões opostas do ponto de vista
de atrair a atenção do leitor/ouvinte, fazendo com que ele religioso: um pregador fala palavras variadas que parecem
seja impelido a, mesmo que no interior de sua consciência, dizer respeito aos ensinamentos divinos, ao passo que outro
responder às perguntas que são feitas, ou seja, a posicionar-se. pregador procura falar a palavra correta, única.

Acontecia
Período barroco brasileiro
No período histórico em que o Barroco floresceu no Brasil, os que aqui estavam estabelecidos pelo processo da
colonização buscavam, em sua maioria, construir as bases para o desenvolvimento de uma economia fundamentada
no plantio em grandes propriedades e na extração de metais preciosos.
Ainda que apresentasse elementos comuns, como a presença de uma temática religiosa e um estilo baseado no
contraste entre elementos opostos, o Barroco brasileiro variava de uma região para outra.
O Barroco desenvolveu-se no Brasil ao longo dos séculos XVII e XVIII, na Região Nordeste com a figura de Gregório
de Matos e na região de Minas Gerais com manifestações na música, arquitetura, escultura e pintura produzidas por
artistas importantes como Aleijadinho e Mestre Ataíde. O estilo do barroco brasileiro aproveitou características de cada
localidade para se constituir. Houve um barroco localizado nas regiões enriquecidas pela exploração da cana-de-açú-
car e outro associado a localidades que se desenvolveram economicamente pela extração do ouro. Outra manifestação
desse estilo também aparece em localidades menos ricas, desenvolvendo um estilo menos suntuoso, de conteúdo
religioso, como é o caso do Barroco paulista.

Literatura 15
Em suma, é possível afirmar que, nas regiões que enriqueceram com a mineração e o comércio de açúcar, podem-
-se encontrar obras literárias e artísticas feitas por artistas de renome, enquanto nas localidades em que a produção de
riquezas não se desenvolveu de uma maneira tão acelerada na época – como em São Paulo – os trabalhos foram mais
modestos e de artistas menos experientes. 9 Sugestão de leitura sobre o Barroco paulista.

Na passagem do século XVI para o XVII, a ocupação da terra pelos portugueses deu início à formação de pequenas
vilas e povoados que se instalaram distantes uns dos outros. A distância entre eles fez com que cada agrupamento so-
cial criasse condições autônomas para sua própria sobrevivência, pois pouco poderiam recorrer uns aos outros em caso
de necessidade. O cotidiano das vilas girava em torno das propriedades agrícolas, que foram ganhando amplitude em
virtude do aumento crescente da área de plantio, principalmente nas regiões de cultivo da cana-de-açúcar. Os espaços
urbanos eram pequenos e viviam ligados aos espaços rurais. Essa condição de pouca importância das vilas, diante
do poder político e econômico das propriedades rurais, distinguia a organização social que se fez no Brasil daquele
período, em comparação com o desenvolvimento e a maior concentração da população e das riquezas nas cidades
europeias. As exceções ficavam por conta de cidades costeiras que serviam de ponto de referência para a exportação
de matérias-primas para Portugal, como foram os casos de Recife e Salvador.
O espaço urbano com baixo nível de desenvolvimento no Brasil teve como consequência o pouco interesse por
atividades literárias propriamente ditas. Outro aspecto a ser considerado era a proibição imposta por Portugal, segundo
a qual as pessoas não deveriam adquirir livros que não fossem voltados para atividades relacionadas ao comércio ou às
leis. Não havendo livros literários e não havendo um espaço em que livros possam circular, não se formou um público
leitor de literatura consistente em terras brasileiras durante muitos anos. 10 Sobre a censura aos livros no século XVI.

Mas, com o enriquecimento dos proprietários produtores de açúcar e dos primeiros mineradores que encontraram
ouro no interior do país, muitos começaram a enviar seus filhos para Portugal para lhes dar uma educação que não
havia aqui. Esses estudantes encontraram na Europa uma realidade muito diferente da que existia no Brasil Colônia.
Portugal, por exemplo, vivia tempos de uma agitação política e cultural (dependência política da Espanha e dis-
tanciamento dos intelectuais das discussões sobre o estilo barroco, por exemplo) que seduziu os jovens, fazendo com
que se desenvolvesse neles o interesse por instaurar uma cultura letrada por aqui. Aos poucos, apesar da restrição,
textos e livros passaram a circular entre grupos interessados em literatura, arte, direito, filosofia, etc.
Além da formação desses grupos de herdeiros enriquecidos, houve também a influência da Igreja Católica no de-
senvolvimento da literatura barroca brasileira, tanto que o Barroco é o estilo da Contrarreforma católica. Ocupados
em divulgar o cristianismo, segundo os parâmetros da Contrarreforma, os religiosos importaram para a Colônia elemen-
tos barrocos juntamente com um material doutrinário: as imagens do reino dos céus ou do inferno eram representadas
com uma linguagem
©iStockphoto.com.br/Gim42

marcada fortemente
pelos sentidos e pelo
gosto pela ornamen-
tação (rebuscamen-
to na linguagem).

O excesso de
ornamentação, típico
das artes plásticas
barrocas, ficou bastante
marcado na arquitetura
e na escultura brasileiras.
A Igreja de São
Francisco, em Salvador
(BA), é um exemplo
da ornamentação
aliada à religiosidade,
características do
Barroco brasileiro

16
Olhar literário
11 Informações sobre Gregório de Matos.

Gregório de Matos Guerra


Considerado o primeiro grande poeta brasileiro, Gregório de Matos Guerra representou o ponto alto da produção
literária nacional no século XVII. Conhecido como Boca do Inferno (ou Boca de Brasa), por causa de sua língua ferina ao
maldizer dos desmandos dos poderosos que se beneficiavam da exploração das brechas decorrentes da organização
política e social deficitária do Brasil Colônia, foi um crítico voraz da sociedade de Salvador. Sua obra, contudo, não se
restringe à poesia satírica, abrangendo também os gêneros lírico e religioso.
O contexto geral de sua produção literária teve como marcas a ação dos jesuítas na colônia e a restauração do trono
português que, desde 1580, vivia sob domínio espanhol. No que diz respeito às características de seu estilo, a escrita
de Gregório de Matos dialogou com algumas das linhas do Barroco europeu, assumindo características como a luta
entre a espiritualidade e o materialismo carnal, o dilema entre o poder público e o privado, a visão do feminino
alternando sentimentos de desejo e de repulsa, de pureza e de degradação, sempre tendo em vista o cultismo
como recurso formal da linguagem.

Poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos


A poesia lírico-amorosa escrita por Gregório de Matos é uma das mais relevantes produções escritas em língua por-
tuguesa durante o Barroco. Gregório cria uma imagem feminina dividida entre uma figura idealizada e a manifestação
da materialização carnal.
Na poesia gregoriana, a mulher é amada não por representar um ser perfeito em todos os sentidos, como na poesia
lírico-amorosa clássico-renascentista, mas por ser vista como a junção de características que se opõem: um ser de ele-
vada pureza, semelhante a anjos e santas, e a expressão das tentações, desencadeando prazeres.

Poesia satírica de Gregório de Matos 12 Características da poesia de Gregório de Matos.

Algumas das produções literárias mais originais do Barroco em língua portuguesa são de autoria de Gregório de
Matos e se referem à poesia satírica e religiosa.
Apesar de tratarem de assuntos diversos entre si (a poesia satírica se volta para a crítica dos costumes, e a religiosa
para os temas relacionados à fé), as produções satírica e sacra apontam para dois universos opostos, porém comple-
mentares: a realidade dura (e material) das relações sociais e da disputa dos homens pelo poder; e os impasses (religio-
sos) de uma época em que a religião se mostra em crise.
Novamente a poesia de Gregório de Matos transmite a ideia de um jogo de contrastes: o político e o espiritual;
carne e alma; problemas do mundo material e do imaterial.

Poesia religiosa de Gregório de Matos


Uma das marcas mais recorrentes na poesia religiosa de Gregório de Matos é a preocupação com a salvação do
homem. A dualidade barroca se expressa na relação entre culpa e salvação, ou seja, o argumento presente nos poemas
religiosos induz o leitor a concordar com a ideia segundo a qual a salvação só é possível em função de o homem ter
cometido o pecado.
A atitude do eu lírico na poesia religiosa de Gregório de Matos lembra a de alguém que defende a si mesmo na
presença de Deus, com a promessa de redimir-se, não mais pecar. Vale lembrar que o tema religioso na poesia grego-
riana se situa no contexto da Contrarreforma, tendo como pano de fundo a educação jesuítica.

Literatura 17
O homem ajoelhado pedindo perdão e se punindo ao assumir seus desvios morais é o primeiro passo para o
arrependimento. A defesa de si mesmo, explorando o paradoxo “cometo pecado para poder ser salvo” (ou, “não há
salvação sem o pecado”) remete à imagem do sujeito diante do Tribunal da Inquisição, em que deve argumentar sobre
seus atos para ser absolvido.

Atividades 13 Sugestão para leitura do poema.

1. Leia o poema e responda ao que se pede.

Rompe o poeta com a primeira impaciência


querendo declarar-se e temendo perder por
ousado
Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,

Mariana Coan. 2015. Colagem digital.


De verde pé, de rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,


Fôreis o meu Custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,


Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas de


José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 202.

Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador, Bahia, em data incerta (1623 ou


igital.
n. 2015. D

1636). Ocupou vários cargos designados pelo rei, adquirindo grande prestígio. Foi
denunciado para o Tribunal da Santa Inquisição, em 1685, por seus modos, tidos
Daniel Klei

como pouco cristãos. Em 1694, passou a ser perseguido e jurado de morte por
ter escrito poemas satíricos ridicularizando o governador Antônio Luiz da Câmera
Coutinho. Morreu em 1695.

florente: brilhante. rama: conjunto de ramos. galharda: elegante.


uniformara: se transformara em uma luzente: que emite luz. pesares: tristezas.
forma única. Custódio: protetor. guarda: protege.

18 Volume
l 4
a) A figura feminina presente no soneto é vista pelo eu lírico como “anjo” e “flor” ao mesmo tempo. Essas duas ima-
gens, no contexto do poema, podem ser entendidas como uma contradição. O que elas representariam?
A metáfora anjo remete à perspectiva imaterial da figura feminina, ao passo que flor se associa à dimensão material. Dizendo de

outro modo, anjo e flor representam alma e corpo, espiritualidade e sensualidade.

b) O verso “Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda” apresenta um paradoxo. Qual é ele?
O paradoxo pode ser visto na distorção do papel que culturalmente é atribuído a um anjo: um ser espiritual cuja função é a de pro-

teger as pessoas, segundo a tradição cristã. No soneto, o “anjo” não “guarda” (ou seja, não protege), mas sim “tenta”, aproximando

o eu lírico do pecado.

2. Leia o trecho do poema e responda às questões propostas. 14 Apresentação do poema integral e comentário
sobre a visão a respeito do negro na época.
a) Na estrofe, tem-se um exemplo de poema satírico de Gre-
gório de Matos. O alvo de suas críticas é Lourenço Ribeiro,
Um Branco muito encolhido,
padre natural da Bahia, que, segundo consta, escrevia e
um Mulato muito ousado,
recitava versos próprios. O motivo do ataque de Gregório de-
Um Branco todo coitado,
ve-se ao fato de Lourenço haver falado mal do poeta. Como
um canaz todo atrevido: se estrutura a crítica feita por Gregório ao Padre Ribeiro?
o saber muito abatido,
A sátira de Gregório começa por uma depreciação racial, variando
a ignorância, e ignorante
mui ufano e mui farfante entre homem branco ou mulato a fim de identificar o padre (consta
sem pena, ou contradição:
milagres do Brasil são. que ele era mulato). O ponto maior da crítica, porém, foi identificar
[...] Lourenço com um cachorro grande (canaz) para, na sequência,

MATOS, Gregório de. Gregório de Matos: sátira. ofendê-lo intelectualmente. O fecho da estrofe aponta para a ideia
Ângela Maria Dias. 4. ed. Rio de Janeiro: Agir,
1996. p. 61. segundo a qual, somente no Brasil, é que ocorre o “milagre” de

pessoas como Lourenço terem algum valor.

b) Qual a relação entre o ataque pessoal presente no poema e a crítica à sociedade como um todo?
A poesia satírica de Gregório de Matos tem como marca central a utilização da crítica pessoal como uma oportunidade para criticar

o todo da sociedade (no poema lido, o poeta vê a sociedade brasileira como tolerante ao dar voz a um sujeito “farfante”). A sociedade,

portanto, se deixa corromper e enganar. Sendo assim, é possível afirmar que a poesia gregoriana é um instrumento do desmascara-

mento ao denunciar os enganos e as corrupções.

encolhido: pequeno. ufano: que se vangloria de algo.


canaz: cachorro grande. farfante: alguém que se vangloria falsamente dos próprios feitos,
abatido: nesse verso, referindo-se ao “saber”, tem sentido de impostor.
“pequeno”, “fraco”.

Literatura 19
3. Leia o soneto e responda às questões propostas.

A Jesus Cristo Nosso Senhor


Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,


A abrandar-nos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada


Glória tal e prazer tão repentino
Marcos de Mello. 2015. Digital.

Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,


Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas de
José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 297.

a) Selecione a opção correta entre as alternativas propostas.


Na conversa que estabelece com Deus, o eu lírico:
( ) se apresenta confiante porque sabe que vai conseguir o perdão divino.
( ) se mostra humilde porque acha que tem pouca chance de conseguir ser perdoado.
( X ) se apresenta como um pecador que quer ser perdoado pelos erros cometidos.
b) No poema, o eu lírico argumenta para convencer o Senhor que ele deve ser perdoado. Explique como ele desen-
volve essa argumentação. Sugestão de atividades: questões de 6 a 12 da seção Hora de estudo.

O eu lírico tenta jogar com a ideia de pecado e arrependimento. Na segunda estrofe, por exemplo, ele trabalha com as oposições ira

(raiva)/abrandamento, culpa/perdão, como se os erros graves do pecador (que provocam a ira e a culpa) pudessem também suscitar

o sentimento oposto de clemência.

despido: despeço. abrandar-nos: suavizar-nos. lisonjeado: honrado.


delinquido: cometido um pecado. sobeja: basta. cobrada: recuperada.

20 Volume 4
Acontecia
15 Sugestão de atividades relacionadas ao texto.
Resistência negra à escravidão
A escravidão pode ser definida como o sistema de trabalho no qual o indivíduo (o escravo) é propriedade de
outro, podendo ser vendido, doado, emprestado, alugado, hipotecado, confiscado. Legalmente, o escravo não
tem direitos: não pode possuir ou doar bens e nem iniciar processos judiciais, mas pode ser castigado e punido.
Não existem registros precisos dos primeiros escravos negros que chegaram ao Brasil. A tese mais aceita é
a de que, em 1538, Jorge Lopes Bixorda, arrendatário de pau-brasil, teria traficado para a Bahia os primeiros
escravos africanos.
Eles eram capturados nas terras onde viviam na África e trazidos à força para a América, em grandes navios,
em condições miseráveis e desumanas. Muitos morriam durante a viagem através do oceano Atlântico, vítimas
de doenças, de maus tratos e da fome.
Os escravos que sobreviviam à travessia, ao chegar ao Brasil, eram logo separados do seu grupo linguístico
e cultural africano e misturados com outros de tribos diversas para que não pudessem se comunicar. Seu papel
de agora em diante seria servir de mão de obra para seus senhores, fazendo tudo o que lhes ordenassem, sob
pena de castigos violentos. Além de terem sido trazidos de sua terra natal, de não terem nenhum direito, os
escravos tinham que conviver com a violência e a humilhação em seu dia a dia.
A minoria branca, a classe dominante socialmente, justificava essa condição através de ideias religiosas
e racistas que afirmavam a sua superioridade e os seus privilégios. As diferenças étnicas funcionavam como
barreiras sociais.
O escravo tornou-se a mão de obra fundamental nas plantações de cana-de-açúcar, de tabaco e de algodão,
nos engenhos, e, mais tarde, nas vilas e cidades, nas minas e nas fazendas de gado.
Além de mão de obra, o escravo representava riqueza: era uma mercadoria, que, em caso de necessidade, po-
dia ser vendida, alugada, doada e leiloada. O escravo era visto na sociedade colonial também como símbolo do
poder e do prestígio dos senhores, cuja importância social era avalizada pelo número de escravos que possuíam.
A escravidão negra foi implantada durante o século XVII e se intensificou entre os anos de 1700 e 1822,
sobretudo pelo grande crescimento do tráfico negreiro. O comércio de escravos entre a África e o Brasil tor-
nou-se um negócio muito lucrativo. O apogeu do afluxo de escravos negros pode ser situado entre 1701 e
1810, quando 1 891 400 africanos foram desembarcados nos portos coloniais.
Nem mesmo com a independência política do Brasil, em 1822, e com a adoção das ideias liberais pelas
classes dominantes, o tráfico de escravos e a escravidão foram abalados. Neste momento, os senhores só pen-
savam em se libertar do domínio português que os impedia de expandir livremente seus negócios. Ainda era
interessante para eles preservar as estruturas sociais, políticas e econômicas vigentes.
Ainda foram necessárias algumas décadas para que fossem tomadas medidas para reverter a situação dos
escravos. Vale lembrar que não eram todos os escravos que se submetiam passivamente à condição que lhe foi
imposta. As fugas, as resistências e as revoltas sempre estiveram presentes durante o longo período da escravi-
dão. Existiram centenas de “quilombos” dos mais variados tipos, tamanhos e durações. Os “quilombos” eram
criados por escravos negros fugidos que procuraram reconstruir neles as tradicionais formas de associação
política, social, cultural e de parentesco existentes na África.
O “quilombo” mais famoso pela sua duração e resistência, foi o de Palmares, estabelecido no interior do
atual estado de Alagoas, na Serra da Barriga, sítio arqueológico tombado recentemente. Este “quilombo” se
organizou em diferentes aldeias interligadas, sendo constituído por vários milhares de habitantes e possuindo
forte organização político-militar.

A HISTÓRIA da escravidão negra no Brasil. Disponível em: <http://www.geledes.org.br/historia-da-escravidao-negra-brasil-2/#axzz3EaHKsL8Q>.


Acesso em: 23 set. 2014.

Literatura 21
Acervo Iconographia
1. Na imagem vê-se um grupo de pessoas sendo trans-
portado para o Brasil para serem escravas. Destaque
dois elementos presentes na imagem que, em sua opi-
nião, caracterizam sua condição de cativos.
Pessoal. Sugestão: o modo como as pessoas estão vestidas,

com roupas mínimas a cobrir-lhes o corpo; suas expressões de

cansaço físico, presença de capatazes armados com chicotes.

Imagem representando o interior de um navio negreiro

2. Leia a canção de capoeira e responda às questões propostas.

Homenagem a Zumbi dos Palmares


Angola terra dos meus ancestrais, Angola O seu «eu» de lutador
Angola êêê terra dos meus ancestrais, Angola Fugindo para Palmares
De onde veio a capoeira Angola Ganga Zumba o recebeu
Do toque do berimbau, Angola O Quilombo estava em festa
E vivia no Quilombo Viva Zumbi Ganga o rei
O valente rei Zumbi Foi quando tudo mudou
Guerreiro de muitas lutas Até vir a traição
Por seu povo sofredor Mataram Zumbi guerreiro
Foi general de batalha Sem nenhuma compaixão
Sem patente militar Seu nome será lembrado
Inteligência e coragem Para sempre na história
Não lhe podiam faltar Força de espírito presente
Ele nasceu no Quilombo Não nos saia da memória
Porém foi aprisionado Iê, viva meu Deus
Criado por Padre Antônio Iê, viva Zumbi.
Francisco foi batizado Iê, viva meu Mestre.
Aprendeu língua de branco Iê, a capoeira.
Mas não se subordinou Iê, viva Deus do céu.
Dentro dele era mais forte Iê, salve a Bahia.
BOA VOZ (Abadá Capoeira). Homenagem a Zumbi dos Palmares. Disponível em: <http://www.abadacapoeira.es/letras-de-canciones-boa-
voz-%E2%80%93-capoeira-vol-1/>. Acesso em: 23 fev. 2015.

a) Nessa canção, tem-se a indicação de dois tempos: o passado e o presente. Que elementos existentes no texto os
representam?
A evocação dos ancestrais é uma das referências do passado, juntamente com a história da vida de Zumbi; a “força do

espírito presente” e a memória são as marcas do presente.

b) A figura de Zumbi dos Palmares, presente na canção, tem uma série de grandes virtudes. Indique ao menos três
delas.
Zumbi é guerreiro, tem coragem; é rei, tem poder; mostra-se um defensor de seu povo, é inteligente e forte.

22 Volume 4
Organize as ideias
16 Orientações para a execução da atividade.

Complete os parágrafos com os conceitos sobre o Barroco que se encontram nos boxes.

a) O estilo barroco tem sua origem na crise de valores renascentistas resultante das lutas religiosas e
da crise econômica surgida como consequência de problemas relacionados à dificuldade do comércio com o
Oriente. Na literatura do Seiscentismo, é possível perceber o desenvolvimento de uma visão de mundo que passou
a considerar a realidade como um contraste permanente, um estado de tensão e desequilíbrio .
O culto do exagero das formas passou a ser um dos procedimentos que caracterizou o Barroco, estética

predominante nesse período. A literatura barroca teve como sua marca uma sobrecarga de figuras de
linguagem que tendiam ao exagero, especialmente a metáfora, a antítese ,a hipérbole e a alegoria.

barroco antítese estética contraste desequilíbrio


literatura renascentistas hipérbole lutas religiosas

b) Todo o excesso que aflora na arte barroca é resultado do conflito entre o mundano e o celestial ,
o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo ), o pecado e o perdão, o sagrado e
o profano , o material e o espiritual , que tanto atormentava o homem do século XVII. Sua perspec-
tiva era dualista , ou seja, sempre abordava os problemas com base em uma compreensão de que tudo
apresenta uma duplicidade de sentidos.

pecado profano conflito duplicidade


homem celestial espiritual dualista teocentrismo

c) Os dois estilos do barroco literário são o cultismo e o conceptismo.

• Cultismo – linguagem rebuscada , exagerada e extravagante ( hipérboles ), uso culto da língua;


inversão sintática , valorização dos detalhes e dos jogos de palavras .

• Conceptismo – jogo de raciocínio , de conceitos, raciocínio lógico , que tem como


objetivo o convencimento .

sintática hipérboles raciocínio detalhes


rebuscada convencimento jogos de palavras lógico

Literatura 23
d) O Barroco português desenvolveu-se no momento histórico em que havia uma dupla sensação na Europa, de
depressão e pessimismo com euforia e contentamento. Essa alternância de sensações se refletia na es-
tética barroca, marcada por ser uma arte dinâmica e exaltada, feita para mobilizar os sentidos, distinta da
arte equilibrada do Renascimento.

A crise religiosa e a crise da sucessão da Casa Real portuguesa influenciaram diretamente a produção
da arte barroca naquele país. De um lado, a intelectualidade e os artistas portugueses recusavam o Barroco por
entendê-lo como uma estética ligada à Espanha , a quem Portugal estava submetido naquele mo-
mento, governada por Filipe II, rei espanhol. De outro lado, a influência da Contrarreforma , que postulava
uma política de convencimento dos fiéis utilizando a arte barroca como meio, tornou-se poderosa
em terras lusitanas.

Um dos maiores escritores do Barroco, em língua portuguesa, foi o Padre Antônio Vieira , criador de
sermões que representavam o barroco conceptista .

Espanha estética crise da sucessão arte barroca


arte dinâmica Padre Antônio Vieira escritores
pessimismo convencimento barroco conceptista Contrarreforma

e) O Barroco chegou ao Brasil em plena Era Colonial . As grandes obras da arte barroca brasileira têm predo-
minantemente um tema sacro: a arquitetura de igrejas contendo símbolos e figuras religiosas, esculturas
de personagens santos, cenas bíblicas nas pinturas, representações de anjos incrustadas nas pare-
des das igrejas.

Quanto à literatura barroca do Brasil, é importante destacar a precariedade cultural da sociedade bra-
sileira no século XVII. Mais do que um movimento constituído de escritores produzindo obras alinhadas
aos preceitos da estética barroca, houve, na verdade, alguns escritores que, tendo como referência obras
estrangeiras, produziram aqui textos com características barrocas.

Entre esses escritores, destaca-se Gregório de Matos , que produziu uma poesia de alta qualidade, dividida
em três conjuntos temáticos: a lírico-amorosa , a religiosa e a satírica .

cenas bíblicas estética Gregório de Matos


personagens lírico-amorosa Colonial escritores satírica
características literatura igrejas

24 Volume 4
Hora de estudo
1. Assinale as afirmações que dizem respeito à estética b) Na arte barroca, por vezes é o leitor que completa
do Barroco: aquilo que está “faltando” na obra. Nesse sentido,
que elementos fazem parte da cena da crucificação
( ) Entre suas principais características, destacam-se
de Jesus que a tela não mostra?
o equilíbrio, a racionalidade.
Pessoal. Sugestão: O cenário e o público que acompanhou
( X ) Suas obras muitas vezes apresentam elementos
exuberantes e contraditórios. a crucificação não aparecem na imagem, ou seja, cabe ao
( X ) Em países como Portugal e Espanha, bem como leitor da tela imaginá-los.
em suas colônias, foi uma estética associada à
crise religiosa.
( X ) É possível notar que essa estética apresenta
aspectos que diferem de um lugar para outro.
( ) Teve como uma de suas influências a Antiguidade
Clássica.
3. (ESPM – SP) Texto para esta questão.
2. Observe a pintura pertencente ao estilo barroco e res-
ponda às questões.
Será porventura o estilo que hoje se usa
nos púlpitos? Um estilo tão empeçado1, um
Museu de Prado/Fotógrafo desconhecido

estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado,


um estilo tão encontrado toda a arte e a toda
a natureza? Boa razão é também essa. O estilo
há de ser muito fácil e muito natural. Por isso
Cristo comparou o pregar ao semear, porque
o semear é uma arte que tem mais de natureza
que de arte (...) Não fez Deus o céu em xadrez
de estrelas, como os pregadores fazem o ser-
mão em xadrez de palavras. Se uma parte está
branco, da outra há de estar negro (...) Como
hão de ser as palavras? Como as estrelas. As
estrelas são muito distintas e muito claras.
Assim há de ser o estilo da pregação, muito
distinto e muito claro.

(Sermão da Sexagésima, Pe. Antônio Vieira)


1
empeçado: com obstáculo, com empecilho.
VELÁZQUEZ, Diego. Cristo crucificado. 1631. 1 óleo sobre
tela, color., 248 cm × 160 cm. Museu do Prado, Madri. A expressão que traduz a ideia de rebuscamento no
estilo é:
a) Como se pode descrever a relação entre claro-escuro, a) “púlpitos”
típica da pintura barroca, nessa tela? b) “semear”
Pessoal. Sugestão: Pode-se notar que a imagem do corpo
c) “céu”
de Jesus crucificado é destacada por meio da luminosidade X d) “xadrez de palavras”
que contrasta com o fundo escuro. e) “estrelas”

Literatura 25
4. (FATEC – PR) Texto para a próxima questão. IV. Efeito da Revolução Industrial, que reforçou a pers-
pectiva capitalista e o individualismo, esse texto
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se traduz a busca da natureza (pedras, espinhos, .....)
são bons, faz neles grande fruto a palavra de como refúgio para o eu lírico religioso.
Deus; se são maus, ainda que não faça ne- V. Vincula-se ao Barroco, movimento estético entre
les fruto, faz efeito. A palavra de Deus é tão cujos traços destaca-se a oscilação entre o clássico
fecunda, que nos bons faz muito fruto e é (de matriz pagã) e o medieval (de matriz cristã), a
tão eficaz, que nos maus, ainda que não faça qual se traduz em estados de conflito religioso.
fruto, faz efeito; lançada nos espinhos não
Estão corretas apenas as afirmações
frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lan-
çada nas pedras não frutificou, mas nasceu a) I, II e III. d) II, III, IV e V.
até nas pedras. Os piores ouvintes que há na b) I, III e V. X e) I, II, III e V.
Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E
c) II, III e IV.
por quê? – Os espinhos por agudos, as pe-
dras por duras. Ouvintes de entendimentos 5. Assinale verdadeiro ou falso para as afirmações a res-
agudos e ouvintes de vontades endurecidas peito da obra de Antônio Vieira.
são os piores que há. Os ouvintes de enten- ( F ) Os sermões do Padre Antônio Vieira representam
dimentos agudos são maus ouvintes, porque o ponto mais alto do cultismo barroco em língua
vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, portuguesa.
a avaliar pensamentos, e às vezes também a ( F ) A preocupação da prosa de Antônio Vieira era a
picar quem os não pica. de estabelecer um consenso entre os poderosos e
Mas os de vontades endurecidas ainda aqueles que se sentiam explorados por eles.
são piores, porque um entendimento agudo
( V ) Articulam-se na prosa de Antônio Vieira perspecti-
pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se
vas políticas, religiosas e literárias.
uma agudeza com outra maior; mas contra
vontades endurecidas nenhuma coisa apro- ( V ) Uma das estratégias da prosa de Antônio Vieira era
veita a agudeza, antes dana mais, porque a associação de passagens bíblicas a aconteci-
quanto as setas são mais agudas, tanto mais mentos reais vividos pelos seus ouvintes.
facilmente se despontam na pedra. ( V ) O conceptismo presente nos sermões de Vieira
E com os ouvintes de entendimentos agu- evidencia-se na construção elaborada dos argu-
dos e os ouvintes de vontades endurecidas se- mentos que apresenta, a fim de convencer os fiéis.
rem os mais rebeldes, é tanta a força da divina Texto para as questões 6 e 7.
palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos es-
pinhos, e apesar da dureza, nasce nas pedras.
Segue neste soneto a máxima de bem
(Padre Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima. Texto editado.) viver que é envolver-se na confusão
dos néscios para passar melhor a vida
Considere as afirmações seguintes sobre o texto de
Vieira.
Carregado de mim ando no mundo,
I. Trata-se de texto predominantemente argumentati- E o grande peso embarga-me as passadas,
vo, no qual Vieira emprega as metáforas do espinho Que como ando por vias desusadas,
e da pedra para referir-se àqueles em que a palavra
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
de Deus não prospera.
II. Nota-se no texto a metalinguagem, pois o sermão O remédio será seguir o imundo
trata da própria arte da pregação religiosa. Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
III. À vista da construção essencialmente fundada no jogo Que as bestas andam juntas mais ousadas,
de ideias, fazendo progredir o tema pelo raciocínio, Do que anda só o engenho mais profundo.
pela lógica, o texto caracteriza-se como conceptista.

26 Volume 4
9. Leia o texto, escrito por Gregório de Matos, e selecione
Não é fácil viver entre os insanos, a alternativa em que as características apontadas me-
Erra, quem presumir que sabe tudo, lhor se relacionam ao poema.
Se o atalho não soube dos seus danos.
Aos afetos, e lágrimas derramadas na
O prudente varão há de ser mudo, ausência da dama a quem queria bem
Que é melhor neste mundo, mar de enganos, Ardor em firme coração nascido;
Ser louco c’os demais, que só, sisudo. Pranto por belos olhos derramado;
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. São Paulo: Cultrix, 1989.
Incêndio em mares de água disfarçado;
p. 253. Rio de neve em fogo convertido:
6. (UFRJ) O Barroco faz um uso particular de metáforas
para concretizar abstrações. No texto, encontram-se Tu, que em um peito abrasas escondido;
vocábulos cujos significados constroem imagens vin- Tu, que em um rosto corres desatado;
culadas à travessia do eu lírico no mundo. Retire do Quando fogo, em cristais aprisionado;
texto quatro vocábulos desse campo semântico, sendo Quando cristal em chamas derretido.
dois verbos e dois substantivos.
Os vocábulos são: ando, vou-(me), seguir, andam, anda, erra Se és fogo, como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
(verbos); passadas, vias, caminho, pisadas, atalho (substantivos). Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,


Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.
7. (UFRJ) O soneto de Gregório de Matos apresenta, em
sua construção, um conflito entre o eu lírico e o mundo. MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas
de José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 218.
a) Em que consiste esse conflito?
O eu lírico encontra-se em crise, pois demonstra se sentir X a) Visão dualista do sentimento amoroso; construção
que se baseia no paralelismo de imagens e frases;
completamente deslocado em relação às demais pessoas.
predomínio de pares antitéticos; finalização tenden-
do para o paradoxo.
b) Representação da natureza equilibrada; construção
b) Qual foi a solução proposta?
assimétrica das metáforas; predomínio da ordem
A solução proposta é ceder ao mundo. indireta nas orações; temática religiosa.
8. (UNIFESP) Texto para a questão. c) Utilização de trocadilhos; predominância de com-
parações e paradoxos; frases intercaladas e com
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa: sentido obscuro; visão irônica do amor.
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
d) Organização vocabular em ordem lógica; uso da
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
metáfora e da comparação; imagens claras e rela-
O Velhaco maior sempre tem capa.
cionadas, em sua maioria, à natureza; temática da
fugacidade do tempo e da vida.
Nos versos, o eu lírico deixa evidente que:
a) Uma pessoa se torna desprezível pela ação do nobre.
b) O honesto é quem mais aparenta ser desonesto. abrasas: queimas. Amor: grafado com a
desatado: solto, livre. primeira letra maiúscula,
X c) Geralmente a riqueza decorre de ações ilícitas. brandamente: de modo refere-se ao deus do amor.
d) As injúrias, em geral, eliminam as injustiças. suave. temperar: equilibrar.
com porfia: de maneira
e) O vil e o rico são vítimas de severas injustiças. insistente.

Literatura 27
10. Ainda sobre o poema da questão 9. 12. Leia o poema.
a) O soneto se organiza com base na contraposição de Descreve o que era naquele tempo a
duas imagens. Que imagens são essas? cidade da Bahia
As imagens que se contrapõem relacionam-se a sensação A cada canto um grande conselheiro.
de quente/frio (fogo/neve).
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
b) Na última estrofe do poema, o eu lírico traduz o
Em cada porta um bem frequente olheiro,
sentimento amoroso com base em dois paradoxos.
Que a vida do vizinho e da vizinha
Quais são eles?
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Neve ardente e chama fria. Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,


11. Transcreva, do poema religioso de Gregório de Matos a Trazidos sob os pés os homens nobres,
seguir, versos que representem: Posta nas palmas toda a picardia.
• a fugacidade da existência;
Estupendas usuras nos mercados,
“Nasce o Sol, e não dura mais que um dia”
Todos os que não furtam muito pobres,
• uma compreensão de natureza contraditória das E eis aqui a cidade da Bahia.
coisas que existem.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas
“E na alegria sinta-se tristeza.” de José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 41.

a) Partindo da divisão da poesia de Gregório de Matos


em lírico-amorosa, satírica e religiosa, como você
Moraliza o poeta nos ocidentes do sol a
classificaria o poema lido? Por quê?
inconstância dos bens do mundo
O poema acima é classificado como satírico, pois explora os

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, aspectos negativos da Bahia com base nos comportamentos
Depois da Luz se segue a noite escura,
de sua população, isto é, satiriza costumes.
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. b) Com suas palavras, como você definiria a cidade da
Bahia, segundo a visão de Gregório de Matos?
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Pessoal. Nessa resposta, é importante que os alunos des-
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura? taquem a perspectiva pessimista de Gregório de Matos ao
Como o gosto da pena assim se fia?
falar sobre os costumes das pessoas que habitam a cidade.

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,


Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza. transfigura: transforma. terreiro: espaço amplo de
se fia: se sustenta. terra onde se reúnem pessoas.
constância: regularidade. picardia: trapaça.
Começa o mundo enfim pela ignorância, vinha: terreno plantado de estupendas: extraordinárias.
E tem qualquer dos bens por natureza videiras. usuras: juros, muitas vezes
A firmeza somente na inconstância. espreita: espiona. abusivos, de uma transação
esquadrinha: observa com financeira.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas cuidado.
de José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 317.

28 Volume 4
08
Arcadismo
©Shutterstock/Peter Bernik

Representação do campo como um espaço caracterizado


pela ausência de conflitos: um mundo calmo e
harmonioso, sugerindo uma vida simples e tranquila

Ponto de partida
1

11.. Essa imagem representa um homem em um momento de integração com a natureza. Como você caracterizaria
a relação entre o homem e a natureza ao seu redor nessa imagem?
2. Que elementos compõem essa paisagem?
3. A que tipo de atividade turística essa fotografia pode ser associada?
4. A que visão de natureza ela se associa?

29
Objetivos da unidade:
ƒ compreender o movimento de inovação e ruptura que o Arcadismo propõe em relação ao Barroco;
ƒ ler e interpretar poemas líricos e satíricos que compõem o Arcadismo;
ƒ relacionar a Inconfidência Mineira às manifestações árcades no Brasil;
ƒ conhecer as obras épicas brasileiras e o papel desempenhado pelo indígena nelas.

Lendo a literatura 2 Sugestão de complemento


à atividade e orientações.
Leia a letra da canção “Casinha branca”.

Casinha branca

Mariana Coan. 2015. Colagem digital.


Eu tenho andado tão sozinho ultimamente
mente
Que nem vejo à minha frente
Nada que me dê prazer
Eu sinto cada vez mais longe a felicidade
ade
Vendo em minha mocidade
Tanto sonho perecer
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer
Às vezes fico a caminhar pela cidade
À procura de amizade
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando em cada rostoosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer

GILSON. Casinha branca. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/cante/lyrics/Gilson_-_Casinha_branca.htm>. Acesso em: 24 fev. 2015.
©Universal Music Publishing MGB Brasil Ltda.

1. Os quatro primeiros versos dizem respeito


a) à falta de um projeto de vida que dê sentido à existência do eu lírico.
b) à vontade do eu lírico de fugir da cidade e ir para o campo.
c) à falta de paciência do eu lírico com a vida moderna.
X d) a um sentimento de solidão vivenciado pelo eu lírico. perecer: acabar.
retraio: encolho.
e) ao desejo do eu lírico de encontrar alguém que possa amar.

30 Volume 4
2. A expressão “Um lugar de mato verde”, nessa canção, 5. Releia a canção. Em sua opinião, a representação da
tem um sentido específico. Qual é ele? vida no campo como a solução da falta de sentido da
Nessa canção, a expressão “lugar de mato verde” diz respeito vida na cidade é idealizada? Justifique sua resposta.
a alguma moradia situada em um espaço campestre; seria um Pessoal. Espera-se que os alunos percebam que a imagem
ambiente em que, de algum modo, a natureza estaria preser-
vada. Por fim, a expressão corresponde a um espaço oposto ao
do campo presente na canção se mostra como a solução dos
da cidade – na cidade, o eu lírico se encontra deslocado; já no
“lugar de mato verde”, sente-se em paz.
problemas do eu lírico, um mundo sem conflitos ou angústia, o que

3. A canção propõe uma espécie de fuga da cidade e reforça a visão idealizada desse lugar.
ida para um lugar melhor, que é o campo. Isso ocorre
porque
X a) a vida no campo é mais simples e verdadeira. 6. Na canção, há expressões que descrevem o desejo do
eu lírico de ter sua vida relacionada a ciclos da natu-
b) vivendo no campo não teremos doenças causadas
reza (plantar; colher; o sol nascer). Em sua opinião, a
pela poluição.
ideia de um retorno às coisas da natureza e à simplici-
c) viver no campo é mais barato, já que temos muitas dade da vida no campo pode ser entendida como uma
coisas de graça (água, luz, lenha). ideia “comercializada” pela sociedade contemporânea
d) no campo não há desemprego. ou é mesmo uma verdade que deveria ser seguida por
todos? Essas ideias, de acordo com seus conhecimen-
e) devemos retornar a nosso ponto de origem, afinal,
como todos os seres vivos, viemos da natureza e tos, são recentes ou já surgiram em outros períodos da
para ela devemos retornar. História?

4. A canção apresenta uma contraposição entre o espaço Pessoal.


do campo e o da cidade. Indique uma passagem da
canção em que essa oposição possa ser observada.
Pessoal. Os alunos podem destacar a transição dos versos “Às
vezes fico a caminhar pela cidade / À procura de amizade /
Vou seguindo a multidão / Mas eu me retraio olhando em cada
rosto / Cada um tem seu mistério / Seu sofrer, sua ilusão”, que
se referem ao espaço da cidade, para o refrão “Eu queria ter na
vida simplesmente / Um lugar de mato verde / Pra plantar e pra
colher / Ter uma casinha branca de varanda / Um quintal e uma
janela / Para ver o sol nascer”.

Acontecia
Produção artística do século XVIII
Os críticos, de uma maneira geral, reconhecem que o Neoclassicismo (movimento artístico que sucedeu o Barroco
e que na literatura assumiu o nome de Arcadismo) ocorreu a partir de uma atenuação, um enfraquecimento dos exa-
geros da arte barroca. Como visto na unidade anterior, o Barroco está relacionado a uma arte baseada na representação
das contradições humanas, fruto, em grande parte, da divisão da Europa entre países católicos e protestantes, do pro-
cesso de colonização da América recém-descoberta e das transformações políticas e econômicas dos países europeus.
Já o Neoclassicismo exalta a simplicidade da vida por meio da idealização do campo em contraposição ao ambien-
te urbano. Os poetas, por exemplo, assumiam o papel de pastores em seus poemas,
defendendo um modo de viver que somente existia no interior da literatura. O Neo- pastores: guardadores de
classicismo teve também um papel importante não apenas na história da literatura rebanhos, que vivem no campo.

Literatura 31
e das artes. Suas ideias refletiam o ideal político de um
governo burguês (portanto, antimonarquista), a valoriza-
ção da razão, que havia sido deixada de lado no período
barroco, o aprofundamento do estudo e da compreensão
sobre o funcionamento da natureza, o desenvolvimento
das ciências, a ideia da natureza como parâmetro para a
definição do que é bom e belo, a crença na capacidade
humana de progresso social e cultural.
Uma imagem carregada de cores, em que os corpos
dos homens e a paisagem se misturavam, a utilização de
elementos pesados e maciços era marca do Barroco, seja
nas catedrais construídas e decoradas por artistas, seja na
TROYON, Constant. O pequeno rebanho. 1461. 1 óleo sobre tela, escrita de poemas que apelavam para contradições e pa-
color., 73 × 92 cm. Museu do Louvre, Paris.
radoxos. A virada para o Neoclassicismo se deu a partir do
momento em que o exagero barroco passou a ser considerado uma estética de mau gosto, e a retomada de uma arte
baseada na tradição greco-romana (assim como havia acontecido no Classicismo renascentista) passou a ser conside-
rada uma alternativa para uma arte verdadeira.
O Neoclassicismo deixou de lado, portanto, a exuberância barroca e buscou a representação da beleza simples
e calma que se podia ver na natureza. Na literatura, em vez de versos repletos de palavras que confundiam o leitor, o
escritor neoclássico adotava ritmos mais suaves e, segundo acreditavam, mais graciosos, assim como vocabulário
menos requintado em substituição aos jogos de palavras associados ao cultismo e ao conceptismo barrocos.

Mudanças na classe burguesa


A “simplicidade” do Arcadismo estava relacionada a uma mudança no perfil da própria sociedade europeia. O
padrão cultural dessa sociedade teve como um de seus traços fundamentais a superação de uma estética rebuscada,
como era a do Barroco, e preferência por obras com uma linguagem mais clara e direta. Depois das disputas pelas
rotas comerciais marítimas que marcaram as relações econômicas e políticas no século XVI e XVII e a consolidação do
sistema de exploração das colônias no novo mundo, a burguesia em alguns países, como França e Inglaterra, enrique-
ceu consideravelmente. Com tal enriquecimento, essa classe começou a dominar parte da economia dos Estados que
anteriormente pertenciam à nobreza e ao clero.
Há, porém, uma diferença significativa entre a burguesia ligada ao Neoclassicismo e a burguesia comercial, que
teve seu momento glorioso ao longo do Classicismo renascentista: a “nova” burguesia neoclássica era culta, muitos
eram leitores constantes de escritos filosóficos, frequentavam o teatro e compreendiam a política. No Classicismo
renascentista, além da grande distância que apresentava em relação aos senhores feudais, no que diz respeito ao refi-
namento das atitudes e ao gosto pelas artes, grande parte dos burgueses tinha hábitos grosseiros, era analfabeta e se
interessava mais pelas questões políticas locais que por grandes temas do saber humano.
Outro fator importante do ponto de vista cultural: uma série de grandes pensadores surgiu no século XVIII, e suas
ideias passaram a ser amplamente divulgadas, o que fez com que uma parte das pessoas, antes pouco ligada ao debate
de ideias, pudesse ter acesso a novos modos de compreender as questões humanas, políticas e sociais. Pensar a socie-
dade, a divisão dos poderes e os problemas humanos de um modo geral tornou-se algo corriqueiro para uma parcela
da população que não pertencia à nobreza ou ao alto clero.

32 Volume 4
O Iluminismo
O Neoclassicismo sofreu influência direta do Iluminismo, movimento intelec- Antigo Regime: modo de viver
tual que surgiu durante o século XVIII na Europa e que, entre outras características, característico das populações euro-
propunha o uso da razão (identificada com a metáfora da luz) na definição de peias durante os séculos XVI, XVII e
uma nova forma de pensar o homem e a sociedade. Colocava-se, portanto, contra parte do século XVIII, período que
abarca desde as descobertas maríti-
o Antigo Regime – considerado um sistema político que refletia o pensamento
mas até as revoluções liberais.
obscurantista cuja origem se encontrava na Idade Média.
Esse movimento, que uniu vários pensadores do período, defendia mudanças em várias esferas
f dda sociedade,
d d atin-
gindo os planos político, econômico e social. Contava com o apoio de grande parte da burguesia, cujos interesses
começavam a entrar em choque com o poder centralizado dos reis e os privilégios da nobreza.
De certa forma, foram os pensadores iluministas que formularam as principais críticas ao Antigo Regime, colocan-
do-se contra o absolutismo monárquico, o poder que a Igreja exercia sobre a sociedade e a economia mercantilista
que era dominada pelo poder real.
Em oposição aos fatores listados acima, os iluministas propunham uma mudança radical no modo como as questões
relativas ao poder deveriam ser tratadas. Um pensamento liberal deveria substituir modelos considerados atrasados:
uma liberdade econômica, sem a intervenção do Estado; o avanço das ciências e da razão como promotoras do
progresso humano; a predominância do modo de pensar burguês em substituição à visão de mundo da nobreza.
Rapidamente, as ideias iluministas ganharam apoio popular. Do mesmo modo, pode-se afirmar que o intercâmbio
entre pensadores dessa época ganhou um grande impulso: iluministas franceses, por exemplo, tornaram-se grandes
admiradores dos pensadores ingleses, assim como filósofos alemães passaram a ler com grande interesse obras de
escritores franceses.
Quanto às questões políticas e econômicas, com receio de perder o direito de
governar seus países, muitos reis incorporaram princípios do Iluminismo, ou seja, Entre os princípios do Iluminismo
flexibilizaram suas formas de domínio. Esses governantes passaram a ser conhe- não estava exatamente o combate
cidos como déspotas esclarecidos. Entre os mais importantes líderes que procu- à monarquia como regime político,
raram mesclar aspectos do Antigo Regime às concepções do Iluminismo, tem-se mas, sim, uma crítica contra os
Catarina II, da Rússia; Frederico II, da Prússia; e Marquês de Pombal, de Portugal. abusos do poder monárquico.

©Wikimedia Commons/Long List of Contributors to the Encyclopedia


A Enciclopédia
Publicada na França no século XVIII, a Enciclopédia, também conhecida
como Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers (Dicionário fun-
damentado de ciências, artes e ofícios), foi uma tentativa de vários pensadores
de organizar, em uma única coleção de livros, o conjunto dos conhecimentos
adquiridos pela humanidade até aquele momento. Ela era composta de 33 vo-
lumes, 71 818 artigos e 2 885 ilustrações. Entre seus autores, estavam Voltaire,
Diderot, Montesquieu e Rousseau. Um de seus objetivos era o de combater o
pensamento considerado obscurantista (que não utiliza a razão), próprio do
pensamento religioso, típico do período barroco.
Sugestão de atividades: questões de 1 a 4 da seção Hora de estudo.

Capa do primeiro
volume da
Enciclopédia

Literatura 33
Arquitetura no Neoclassicismo 3 Orientações sobre a diferenciação entre Barroco e
Neoclassicismo.

Uma das expressões artísticas mais características do período neoclássico foi a arquitetura. Ela se opunha de modo
direto às concepções do Barroco, especialmente o apego aos detalhes, às torres altas de algumas igrejas (evocando
o contato entre o mundo terreno e o plano celestial) e aos excessos nos azulejos (no caso do Barroco português) e
ornamentos variados.

©Shutterstock/Neirfy
As referências das construções neoclássicas reme-
tem-se aos templos e palácios gregos e romanos, que
passam a ser entendidos como exemplos de bom gosto.
A utilização de materiais nobres, especialmente os már-
mores e a madeira, com a função de dar um acabamento
final às superfícies é também marca do neoclássico. Co-
lunas, cúpulas e pórticos também são resgatados da ar-
quitetura da Antiguidade Clássica para fazer parte desse
estilo. A decoração dos interiores passa a ser preferencial-
mente simples e funcional.
A preocupação com o equilíbrio das linhas também
pode ser considerada outro traço importante da arquite-
tura setecentista. Veja ao lado uma imagem da escadaria
do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal.
De autoria do arquiteto Carlos Amarante, o santuá-
rio é composto de capelas, jardins e uma igreja central.
Sua escadaria, inserida em um monte, revela a preocu-
pação com uma organização regular e repetida das
linhas, o que cria um efeito de harmonia para os que a
Escadaria do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga,
contemplam. Portugal, vista de baixo

Olhar literário
Aspectos da literatura árcade
Dois dos principais elementos que configuram o estilo literário desse período foram o uso de uma linguagem
simples e o respeito a um conjunto de convenções (regras, normas) literárias.
O pastoralismo foi uma das convenções literárias que mais caracterizaram a poesia árcade: os poetas, ao escre-
verem seus textos, assumiam o papel de pastores, inclusive assinando suas obras utilizando pseudônimos pastoris.
Também nomeavam suas musas com nomes de pastoras. 4 Pseudônimos e musas de alguns poetas árcades.

O ideal de vida simples do campo era outro elemento que fazia parte do universo simbólico explorado pelos
poetas do Arcadismo. Essa característica é chamada de bucolismo e inspirava-se na descrição poética de um cenário
campestre em que viviam os pastores.

34 Volume 4
Atividades
5 Sugestão de leitura.

1. Acompanhe a análise de alguns elementos que constituem a fachada de uma edificação tipicamente neoclássica:
o Panteão (em francês, Panthéon), situado na cidade de Paris, França. Trata-se de uma construção que teve início
em 1764, encomendada pelo rei Luís XV. Nele estão sepultados muitos dos mais importantes intelectuais, artistas,
políticos e cientistas franceses.
Finalizada a leitura das características do Panteão, observe e descreva os elementos pertencentes ao estilo neoclás-
sico que fazem parte da fachada de uma outra construção: o Memorial de Thomas Jefferson, situado em Washington,
D.C., EUA, e construído entre 1939-1943.

©iStockphoto.com/Ingenui
Presença de elementos
Simetria na distribuição
geométricos na
das colunas.
composição:
semicírculo
triângulo
retângulos.

Construção aparentando
simplicidade em seu
projeto.

Referência histórica: a
construção se assemelha
a monumentos típicos
da Antiguidade Clássica
Fachadas lisas, com
(templos e edificações
pouca decoração.
gregas e romanas).

Simplicidade: Fachada: lisa e regular.


o formato da construção
é regular e simples.

Formas geométricas:

as formas geométricas
predominantes são os
Referência histórica:
retângulos e o semicírculo.
há uma aproximação com
templos greco-romanos.
©Shutterstock/Gary Blakeley

Simetria: o edifício é composto de uma simetria circular,


lembrando uma roda deitada.

Literatura 35
2. Leia um trecho do poema intitulado Bucólicas e responda às
questões propostas. A poesia bucólica, como as Bucólicas,
de Virgílio, em sua origem, era tam-
[...] bém conhecida como écloga e tinha
Nem sou tão feio assim: há pouco me vi n’água, como tema central a vida rústica e
quando o mar era calmo; até Dáfnis não temo, simples do campo. Esse tipo de poesia
tendo-te por juiz, se não mente a imagem. foi resgatado no período do Arcadismo
Ah! Se só te aprouvesse estes meus pobres campos por vários poetas, principalmente por
alguns brasileiros.

5. Digital.
e uma cabana humilde habitar, caçar cervos
e os cabritos guiar rumo ao hibisco verde!

ello. 201
[...]

de M
s
rco
VIRGÍLIO. Bucólicas – Edição bilíngue. Tradução e comentário de

Ma
Raimundo Carvalho. Belo Horizonte: Crisálida, 2005. p. 21-23.
. Digital.
ein. 2015

Públio Virgílio Maro nasceu em Andes, região da Lombardia, Itália, no ano de


70 a.C. Escreveu três grandes obras: as Éclogas (ou Bucólicas), as Geórgicas
Daniel Kl

e a Eneida. Foi um dos poetas da Antiguidade Clássica que mais influenciou o


Renascimento e o Neoclassicismo. Morreu em 19 a.C.

a) Destaque, do poema de Virgílio, um trecho que corresponda à con-


venção da poesia árcade do ideal de vida simples do campo.
“Ah! Se só te aprouvesse estes meus pobres campos / e uma cabana

humilde habitar”.

b) Com base na leitura do poema, descreva como é o espaço do


campo em que o eu lírico vive.
Pessoal.

Reprodução, datada do século V, dos primeiros


versos do poema Bucólicas, de Virgílio

Dáfnis: de acordo com a mitologia grega, aprouvesse: satisfizesse. hibisco: espécie de planta que serve para
Dáfnis foi um pastor que inventou a poesia cervos: animais quadrúpedes que habitam ornamentação.
bucólica. os campos.

36 Volume 4
Acontecia
6 Sugestão de leitura.

Mudanças na sociedade portuguesa no século XVIII


As ideias iluministas tiveram, em Portugal, como um de seus defensores o Marquês de Pombal, nobre que ocupou
cargos importantes no reinado de D. José I (1750-1777). Seu grande projeto político foi o de “atualizar” Portugal a fim
de que essa nação pudesse se equiparar às potências europeias dessa época.
Entre suas medidas mais ousadas, destaca-se a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias, em 1759. Até
essa data, todo o sistema educacional estava nas mãos dos jesuítas. Pombal defendia que a educação não deveria
receber influência direta da Igreja, pois dessa forma seria possível atualizar os currículos das instituições de ensino
consideradas obsoletas. Essa atitude revigorou o ensino da filosofia, da cultura, da história e das ciências.
Sugestão de atividades: questões de 5 a 7 da seção Hora de estudo.

Olhar literário
Arcadismo em Portugal: Bocage
O Arcadismo buscou revitalizar um tipo de produção literária que procurava afastar-se do Barroco. Os primeiros
registros de um grupo de poetas que se reúne contra o “mau gosto” da poesia barroca data de 1690, na Itália. Essa agre-
miação de poetas, autointitulada Arcádia Romana, procurou rebater o verbalismo da literatura seiscentista. O nome
desse movimento literário fazia uma referência à Arcádia, região do Peloponeso na Grécia Antiga, espaço habitado por
pastores que levavam uma vida simples e bucólica.
Do mesmo modo que os poetas italianos, os poetas portugueses se organizaram em uma agremiação chamada
Arcádia Lusitana, em 1756. Esse fato marca o início do Arcadismo em Portugal. Esse grupo, porém, pouco influenciou a
literatura escrita na época, dissolvendo-se em 1776. Em 1790, fundou-se outro agrupamento, que se intitulou Arcádia
Nova. Dos poetas que participaram dessa iniciativa, o mais importante foi Manuel Maria Barbosa l’Hedois du Bocage.
Bocage escreveu poemas líricos e satíricos. No primeiro tipo, espe-
cialmente os poemas pertencentes à primeira fase da produção poé-
tica do escritor, explorou as principais características da poesia árcade -
ligada aos sentimentos: o uso de pseudônimos pastoris, a utilização dos A poesia árcade resgata da Antiguidade Clás
sica uma série de temas que com ume nte era
lugares-comuns explorados pelo estilo árcade, o domínio das formas
trabalhada pelos poetas. São os chamados
poéticas clássicas e a preferência por um uso de linguagem concisa,
lugares-comuns. Entre aqueles que mais
equilibrada e que apresenta uma recorrência de recursos derivados
aparecem nos poemas dos árcades, tem-se:
da poesia da Antiguidade Clássica. a
o fugere urbem, a fuga do espaço urbano e
;
Se boa parte da poesia de Bocage se relaciona aos modelos da poe- busca por um contato maior com a natureza
-
sia árcade, outro aspecto de sua poesia lírica que merece destaque é a o carpe diem, o “aproveitar o dia”, isto é, apro
veitar os prazeres da vida e do mom ento pre-
presença, na fase madura de sua escrita, de uma visão subjetiva da o
realidade, elemento que somente apareceria em um período seguinte sente, já que a existência humana é curta;
da literatura, o Romantismo. 7 Explicação sobre elementos pré-românticos na inutilia truncat, a retirada do poema de tudo
o
poesia de autores árcades. o que não seja essencialmente necessário;
rio agra -
Trata-se de uma poesia mais introspectiva, soturna e fatalista, que locus amoenus, a busca por um cená
explora os sentimentos vivenciados pelo eu lírico. Mas vale ressaltar que dável e natural.
Bocage se transformou em uma figura bastante conhecida em seu tem-
po por conta também dos inúmeros poemas satíricos.
Sugestão de atividades: questões de 8 e 9 da seção Hora de estudo.

Literatura 37
Atividades 8 Sobre a leitura de poemas de Bocage.

11. LLeia
i o poema de autoria do escritor português Bocage.

igital.
Nada se pode comparar contigo

2015. D
O ledo passarinho, que gorjeia

Klein.
D’alma exprimindo a cândida ternura,

Daniel
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:

O Sol, que o céu diáfano passeia,


A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da aurora, alegre e pura,
A rosa, que entre os Zéfiros ondeia: Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du
Bocage nasceu em Setúbal, Portugal, em
1765. Considerado o maior poeta português
A serena, amorosa Primavera,
do Arcadismo, Bocage teve fama de ser um
O doce autor das glórias que consigo,
excelente compositor de versos. Morreu em
A deusa das paixões e de Citera: 1805, em Lisboa.

Quanto digo, meu bem, quanto não digo,


Tudo em tua presença degenera.
Nada se pode comparar contigo.

BOCAGE. Nada se pode comparar contigo. In: ______. Poemas:


Bocage. Seleção e organização de José Lino Grünewald. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 36.

a) Pode-se afirmar que a representação da natureza presente no poema se vale de qual lugar-comum da poesia
árcade?
O poema expressa o locus amoenus, ou seja, a representação de um mundo natural sem conflitos.

b) Identifique, na segunda estrofe, palavras que caracterizam o cenário bucólico em que se encontra o eu lírico.
“Formosura”, “alegre”, “sorriso”, “pura”.

c) Como pode ser compreendido o último verso do soneto, “Nada se pode comparar contigo”?
Pessoal. Sugestão: Depois de descrever um cenário natural equilibrado e belo (segundo a concepção de beleza árcade), o eu lírico

afirma que a beleza de sua amada é superior, pois, diante dela, tudo “degenera”, ou seja, tudo se desfaz, perde o valor.

ledo: alegre. diáfano: transparente. deusa das paixões: referência a Vênus


gorjeia: canta. aurora: deusa da mitologia romana (Afrodite para os gregos), deusa romana do amor.
cândida: inocente. responsável pelo amanhecer. Citera: ilha grega que, no século XVIII, se
serpenteia: executa movimentos parecidos Zéfiros: representação do vento vindo do tornou uma referência para artistas e poetas
com os de uma serpente. oeste, segundo a mitologia grega. como o lugar ideal dos amantes.
ondeia: toma a forma de ondas. degenera: corrompe, estraga, se desfaz.

38 Volume 4
2. Leia os fragmentos dos poemas de Bocage, em seguida escreva se eles pertencem à fase árcade ou à fase pré-ro-
mântica. Justifique sua resposta.
a) c)
Meu ser evaporei na lida insana
Vítima do rigor, e da tristeza,
Em negra estância, em cárcere profundo, Do tropel de paixões, que me arrastava;
O mundo habito sem saber do mundo, Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Como que não pertenço à Natureza: Em mim quase imortal a essência humana:
[...] [...]
BOCAGE. Lenitivos do sofrimento contra as perseguições da BOCAGE. Sentimentos de contrição, e arrependimento da vida
desventura. In: ______. Poemas: Bocage. Seleção e organização de passada. In: ______. Poemas: Bocage. Seleção e organização de José
José Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 87. Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 109.
Fase pré-romântica. O eu lírico expõe seus sentimentos (sente- Fase pré-romântica. O eu lírico fala da confusão de seus sen-
se como “Vítima do rigor, e da tristeza”) e fala de seu sofrimento timentos.
no mundo.
b) d)
[...] [...]
Oh benignas manhãs! tardes saudosas, Bem que das Musas docemente amado,
Em que folga o pastor, medrando o gado, Se temi de uma idade a outra idade
Em que brincam no ervoso e fértil prado Não poder alongar-me em nome alado:
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas! [...]
[...]
BOCAGE. Ao Sr. Pedro Inácio Ribeiro Soares. In: ______. Poemas:
BOCAGE. Desejos da presença do objeto amado. In: ______. Bocage. Seleção e organização de José Lino Grünewald. Rio de
Poemas: Bocage. Seleção e organização de José Lino Grünewald. Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 115.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. p. 32.
Fase árcade. Referência ao locus amoenus e ao ambiente Fase árcade. A referência às Musas (com letra maiúscula) é uma
pastoril. pista da influência clássica típica dos poemas árcades.

Acontecia
Arcadismo no Brasil
No século XVIII, o Brasil passou por mudanças importantes: a influência jesuítica começou a dar lugar ao Arca-
dismo/Neoclassicismo; o deslocamento do eixo econômico, que passava do Nordeste, onde estavam os latifúndios
produtores de açúcar, para Minas Gerais, centro da descoberta e exploração do ouro; o Rio de Janeiro tornava-se
um dos polos de exportação das riquezas da mineração para a Metrópole, ganhando relevância política, econômica,
social e cultural; cresceu o número de estudantes brasileiros que se dirigiam para a Europa, trazendo, em seu retorno
para o Brasil, novos ideais e tendências do pensamento liberal que se contrapunham à ideologia que embasava a
dominação colonial imposta pelos portugueses.
A articulação desses fatores gerou condições para que tivesse início àquilo que o crítico literário Antonio Candido
nomeou sistema literário brasileiro: a existência integrada de produção e recepção de obras literárias envolvendo
escritores, livros e leitores de modo constante. Isso significa que foi em meados do século XVIII, durante o desenvolvi-
mento do Arcadismo no Brasil, que a vida literária começou a se organizar de forma mais sistemática no país.
9 Sugestão de trabalho com documentário envolvendo as disciplinas de Literatura e História.

estância: moradia. ervoso: com bastante pasto. alado: que tem asas.
benignas: suaves. lida: trabalho.
medrando: fazer ir aumentando. tropel: confusão.

Literatura 39
Olhar literário
O Arcadismo no Brasil produziu obras que podem ser classificadas em três grandes grupos: poesia lírica, épica
e satírica.
Apesar de ser possível observar elementos barrocos na escrita de alguns poetas árcades brasileiros, a maioria seguiu
os padrões da literatura neoclássica vigente na Europa. Tanto que é possível destacar como traços do Arcadismo nacio-
nal o pastoralismo, o bucolismo, a idealização do espaço do campo, o ideal da vida simples, a tentativa de expressão
poética por meio de uma linguagem simples e o aproveitamento do instante presente.

Poesia lírica árcade: resquícios do Barroco e


convencionalismo
Uma parcela importante da poesia árcade brasileira foi lírica. Escritores como Cláudio Manuel da Costa, Tomás An-
tônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Domingos Caldas Barbosa foram os responsáveis pela produção
mais significativa dessa poesia. 10 Sugestão de leitura.

Vale destacar que os três primeiros poetas envolveram-se diretamente com os eventos relacionados à Inconfidên-
cia Mineira.

Cláudio Manuel da Costa


Foi o responsável pela publicação da primeira obra árcade no Brasil, intitulada Obras poéticas, em 1768, contendo
poemas líricos. Destaca-se também a publicação do poema épico “Vila Rica”, de 1773, em que ele apresenta os feitos
dos bandeirantes em suas jornadas pelo interior do país, fundando diversas cidades na região mineira. O foco principal
desse longo poema, inspirado em Os Lusíadas, de Camões, é a narração da história de Vila Rica (atual Ouro Preto).
Seu estilo, particularmente na poesia lírica, pode ser entendido como de transição, pois trabalha em seus textos os
elementos típicos do Arcadismo e suas convenções, mas não se distancia definitivamente das influências do Barroco
e da poesia camoniana, que fizeram parte de sua formação durante a juventude, quando estudou Direito em Coimbra.
Essa mistura entre referências de duas estéticas em conflito (Barroco e Arcadismo) se mostra como um traço sin-
gular da poesia de Cláudio Manuel da Costa.

Tomás Antônio Gonzaga


A poesia lírica de Tomás Antônio Gonzaga pode ser lida com base em duas tendências: assim como em Bocage,
sua poesia inicial apresenta uma adesão à estética árcade; em uma segunda fase, sua poesia apresenta elementos que
podem ser considerados como do Pré-Romantismo.
Gonzaga (nascido em Portugal, mas tendo escrito toda sua obra no Brasil) pode ser considerado um árcade por
excelência, isto é, para muitos críticos foi nosso melhor representante, especialmente em se tratando dos poemas
escritos na primeira fase do autor, ou seja, no período anterior a sua participação na Inconfidência Mineira. Como
poucos, em língua portuguesa, ele soube trabalhar em sua poesia as convenções relacionadas ao pastoralismo e à vida
bucólica. Comparada sua escrita à de outros poetas, sua linguagem aproxima-se do ideal de simplicidade que é uma
das características mais importantes da literatura neoclássica.
A segunda fase de sua poesia, escrita durante o período em que ficou preso por três anos, na fortaleza da Ilha das
Cobras, esperando o anúncio de sua pena pela participação na Inconfidência (foi sentenciado ao degredo de dez anos
em Moçambique, costa oriental da África), é caracterizada por uma escrita mais emotiva, voltada para a expressão de
sentimentos pessoais (algo estranho para os padrões do Arcadismo) e pela descrição da paisagem brasileira.

40 Volume 4
Atividades
1. Leia este poema.

Destes penhascos fez a natureza

gital.
n. 2015. Di
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara

Daniel Klei
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa


Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.
Cláudio Manuel da Costa nasceu na Vila do
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
Ribeirão do Carmo, Minas Gerais, em 1729.
A que dava ocasião minha brandura,
Foi fazendeiro e jurista, com grande atuação
Nunca pude fugir ao cego engano: no período da mineração do Brasil Colônia.
Participou de modo ativo na Inconfidência
Vós, que ostentais a condição mais dura, Mineira. Morreu em Vila Rica, em 4 de julho
Temei, penhas, temei, que Amor tirano, de 1789, em sua cela depois de ser preso
Onde há mais resistência, mais se apura. como conspirador.
COSTA, Cláudio Manuel da. Soneto XCVIII. In: ______.
A poesia dos inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manuel
da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto.
Organização de Domício Proença Filho. Artigos, ensaios e notas
de Melânia Silva de Aguiar et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1996. p. 95.

Entre os comentários a seguir, qual não pode ser aplicado ao poema?


a) A oposição presente nos dois últimos versos da primeira estrofe apresenta uma marca barroca: o contraste entre
a dureza da penha (pedra) e a suavidade do peito (lugar em que se localiza o coração, centro das emoções).
b) Para desenvolver o jogo entre rigidez e candura, entre paisagem exterior das montanhas e paisagem interior dos
sentimentos, o eu lírico evoca a figura de uma entidade da mitologia bastante comum na poesia árcade, o Amor
(Cupido), que é apontado como o responsável por superar a aspereza do coração.
X c) O poema parte da descrição de uma paisagem totalmente estranha à região de Minas Gerais, localidade em que
viveu o poeta. Trata-se de um espaço cujo significado é somente simbólico, fruto da convenção do Arcadismo.
2. Como é possível caracterizar a visão sobre o Amor presente na segunda estrofe do poema?
O sentimento amoroso é associado a uma batalha. Palavras como “fortaleza”, “render” e “guerra” reforçam essa visão.

cuidara: poderia adivinhar. tomou: conseguiu.


penhas: pedras, montanhas. fortaleza: força, resistência.
terna: suave. dava ocasião: favorecia, facilitava.
Amor: representação do deus do amor na mitologia greco-romana, Cupido. brandura: fragilidade.
por empresa: como intenção. apura: aperfeiçoa, se torna forte.

Literatura 41
3. No poema de Gonzaga, o eu lírico (Dirceu) dialoga com sua amada (a pastora Marília) sobre qual seria o semblante, o
rosto, do Amor/Cupido. 11 Sugestão.

Pintam, Marília, os Poetas Dos rubins mais preciosos


A um menino vendado, Os seus beiços são formados;
Com uma aljava de setas, Os seus dentes delicados
Arco empunhado na mão; São pedaços de marfim.
Ligeiras asas nos ombros,
O tenro corpo despido, Mal vi seu rosto perfeito,
E de Amor ou de Cupido Dei logo um suspiro, e ele
São os nomes, que lhe dão. Conheceu haver-me feito
Estrago no coração.
Porém eu, Marília, nego, Punha em mim os olhos, quando
Que assim seja Amor; pois ele Entendia eu não olhava;
Nem é moço nem é cego, Vendo o que via, baixava
Nem setas nem asas tem. A modesta vista ao chão.
Ora pois, eu vou formar-lhe
Um retrato mais perfeito, Chamei-lhe um dia formoso;
Que ele já feriu meu peito; Ele, ouvindo os seus louvores,
Por isso o conheço bem. Com um modo desdenhoso
Se sorriu e não falou.
Os seus compridos cabelos, Pintei-lhe outra vez o estado,
Que sobre as costas ondeiam, Em que estava esta alma posta;
São que os de Apolo mais belos; Não me deu também resposta,
Mas de loura cor não são. Constrangeu-se e suspirou.
Têm a cor da negra noite;
E com o branco do rosto Conheço os sinais; e logo,
Fazem, Marília, um composto Animado de esperança,
Da mais formosa união. Busco dar um desafogo
Ao cansado coração.
Tem redonda e lisa testa, Pego em teus dedos nevados,
Arqueadas sobrancelhas E querendo dar-lhe um beijo,
A voz meiga, a vista honesta, Cobriu-se todo de pejo,
E seus olhos são uns sóis. E fugiu-me com a mão.
Aqui vence Amor ao Céu:
Que no dia luminoso Tu, Marília, agora vendo
O Céu tem um Sol formoso, De Amor o lindo retrato,
E o travesso Amor tem dois. Contigo estarás dizendo
Que é este o retrato teu.
Na sua face mimosa, Sim, Marília, a cópia é tua,
Marília, estão misturadas Que Cupido é Deus suposto:
Purpúreas folhas de rosa, Se há Cupido, é só teu rosto,
Brancas folhas de jasmim. Que ele foi quem me venceu.

GONZAGA, Tomás Antônio. Lira II. In: ______. A poesia dos inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio
Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Organização de Domício Proença Filho. Artigos, ensaios e notas de Melânia Silva de Aguiar et al. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 575-576.

aljava: estojo no qual o arqueiro armazena Apolo: deus grego da beleza. rubins: rubis (tipo de pedra preciosa).
as flechas. arqueadas: que têm o formato de arco. desdenhoso: rude.
setas: flechas. mimosa: sensível, delicada. desafogo: alívio.
empunhado: seguro com uma das mãos. purpúreas: que apresentam coloração nevados: brancos (como neve).
tenro: jovem, delicado. vermelha. pejo: vergonha, acanhamento.

42 Volume
V l 4
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Miragaia, na região do Porto, Portugal, em

igital.
1744. É considerado, tanto pela literatura brasileira como pela portuguesa, um

2015. D
dos mais notáveis escritores do Arcadismo em língua portuguesa. Foi um dos

Klein.
mentores da Inconfidência Mineira. Morreu na Ilha de Moçambique, em 1810,

Daniel
para onde havia sido deportado por participar da Inconfidência.

a) Qual a relação construída no poema entre a mito- 4. Leia o poema de autoria de Tomás Antônio Gonzaga e
logia grega e a observação do rosto da amada feita indique V para verdadeiro ou F para falso nas afirma-
pelo eu lírico? ções referentes ao poema.
Todo o poema se faz com base na comparação entre o que
afirma a mitologia (Cupido é representado pela figura de Minha bela Marília, tudo passa;
um menino com flechas, etc.) e a conclusão marcada pela A sorte deste mundo é mal segura;
clareza e pela galanteria a que chega o eu lírico. Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos Deuses
Sujeitos ao poder do ímpio Fado:
b) Pode-se notar que a figura da amada é construída
Apolo já fugiu do Céu brilhante,
por meio de uma estratégia que se prolonga em todo
Já foi Pastor de gado.
o poema: a comparação. A quais elementos as partes
do corpo da amada são comparados? Por quê?
A devorante mão da negra Morte
As partes do corpo de Marília são comparadas a objetos va- Acaba de roubar o bem que temos;
liosos (marfim, rubis) e elementos da natureza (sóis, rosas,
Céu, Sol). A comparação com os itens de valor torna a figura
Até na triste campa não podemos
da amada algo especial, fora da beleza comum. A aproxi- Zombar do braço da inconstante sorte;
mação de partes do semblante de Marília com elementos Qual fica no sepulcro
do mundo natural reforça a relação entre o belo como te-
Que seus avós ergueram, descansado;
mática da poesia lírica e a natureza como ideal de beleza.
Qual no campo, e lhe arranca os frios ossos
Ferro do torto arado.

Ah! enquanto os Destinos impiedosos


Não voltam contra nós a face irada,
Façamos, sim façamos, doce amada,
c) Além dos atributos físicos, Dirceu exalta as qualida- Os nossos breves dias mais ditosos.
des morais de sua amada. Indique uma passagem Um coração que, frouxo
em que tal elogio é destacado pelo eu lírico.
A grata posse de seu bem difere,
Os versos “Punha em mim os olhos, quando / Entendia eu A si, Marília, a si próprio rouba,
não olhava; / Vendo o que via, baixava / A modesta vista ao E a si próprio fere.
chão.” dizem respeito ao comportamento recatado, discreto
de Marília, uma qualidade que se pode associar à modéstia.
GONZAGA, Tomás Antônio. Carta oitava. In: ______. A poesia dos
inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás
Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto Organização de Domício
Proença Filho. Artigos, ensaios e notas de Melânia Silva de Aguiar
et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 597.

ventura: felicidade, prosperidade. bem: posses. ditosos: felizes.


sujeitos: submetidos. campa: sepultura. difere: adia, deixa para depois.
ímpio: desumano. sepulcro: túmulo.
Fado: destino.

Literatura 43
( V ) No primeiro verso desse poema, o eu lírico afirma Selecione a alternativa que não representa a relação entre
que não há situação, boa ou má, que persista para o significado do soneto de Cláudio Manuel da Costa e o
sempre. contexto de produção da literatura árcade brasileira.
( F ) A vida alterna bons e maus momentos somente a) O eu lírico retorna ao campo, depois de um tempo
para os homens, nunca para os deuses. vivendo no espaço da cidade.
( V ) Mesmo após a morte, devemos estar atentos para b) A referência às vestes rudes (gabões) presente na
o que pode nos acontecer. primeira estrofe mostra o distanciamento, vivido lite-
rariamente pelo eu lírico, da Metrópole representada
( V ) Devemos aproveitar os momentos felizes antes
pela imagem do traje rico e fino.
que a infelicidade possa nos atingir.
X c) O poema problematiza a relação entre campo e ci-
( F ) Temos que viver atentos ao que de mal pode nos
dade, algo que ocorria no Brasil do século XVIII, já
acontecer a todo o momento, negando a felicidade
que é nessa época que grande parte da população
se possível.
brasileira abandonava as zonas rurais para conse-
( F ) Temos que adiar o aproveitamento dos bens que guir trabalho no espaço urbano.
conseguirmos para usufruí-los somente em tem-
d) O poema se desenvolve com base na característica
pos futuros.
do bucolismo, que expressava um ideal da vida no
5. Ainda considerando o poema de Tomás Antônio Gon- campo, segundo a mentalidade do século em que o
zaga, a que lugar-comum da poesia árcade os quatro soneto foi escrito.
versos da terceira estrofe fazem referência?
e) Há uma oposição explícita no poema de Cláudio Ma-
Os versos finais fazem referência ao carpe diem (aproveite o dia). nuel: de um lado, a existência no campo; de outro,
a representação da vida nos centros urbanos. Essa
6. Leia o poema.
oposição pode ser relacionada com o conflito existente
Torno a ver-vos, ó montes; o destino no Brasil entre campo e cidade ao longo da história.
Aqui me torna a pôr nestes oiteiros, 7. A poesia de Tomás Antônio Gonzaga é tida como a que
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros melhor traduz os ideais do Arcadismo em terras bra-
Pelo traje da Corte, rico e fino. sileiras. Leia o poema abaixo e destaque três carac-
terísticas que confirmem a expressão das convenções
Aqui estou entre Almendro, entre Corino, árcades pelo poeta.
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Atrás de seu cansado desatino. Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Se o bem desta choupana pode tanto, Dos frios gelos e dos sóis queimado.
Que chega a ter mais preço, e mais valia Tenho próprio casal e nele assisto;
Que da Cidade o lisonjeiro encanto, Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
Aqui descanse a louca fantasia, E mais as finas lãs, de que me visto.
E o que até agora se tornava em pranto Graças, Marília bela,
Se converta em afetos de alegria. Graças à minha Estrela!

COSTA, Cláudio Manuel da. Soneto LXII. In: ______. A poesia dos GONZAGA, Tomás Antônio. Lira I. In: ______. A poesia dos
inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manuel da Costa,Tomás
Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Organização de Domício Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Organização de Domício
Proença Filho. Artigos, ensaios e notas de Melânia Silva de Aguiar Proença Filho. Artigos, ensaios e notas de Melânia Silva de Aguiar
et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 78-79. et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 573.

Pessoal. Sugestões: Defesa da vida simples do campo; pastoralismo;


oiteiros: colinas, montes. desatino: perda do juízo. bucolismo; linguagem simples.
gabões: capa comprida com choupana: casebre. guardar: proteger. casal: propriedade rústica e
capuz. lisonjeiro: que agrada. tosco: rústico, simples. pequena.
Almendro; Corino: nomes trato: espaço de terra. assisto: moro, habito.
de pastores árcades. Estrela: sorte, destino.

44 Volume 4 Sugestões de atividades: questões de 10 a 15 da seção Hora de estudo.


Olhar literário
Poesia épica árcade: representação do indígena na
literatura do século XVIII
O Arcadismo brasileiro desenvolveu uma produção épica de grande importância. Duas obras dessa produção des-
tacam-se por abordar um tema que não aparecia de modo regular na literatura nacional desde os textos informativos,
relacionados às viagens dos cronistas estrangeiros durante os anos iniciais do processo de colonização: o confronto
entre colonizadores e indígenas.
• O Uraguai – de Basílio da Gama, em 1769;
• Caramuru – de Frei Santa Rita Durão, em 1781.
Porém, as visões sobre o enfrentamento entre esses dois grupos apresentam perspectivas bastante diferenciadas
sobre a posição que os povos indígenas ocupam no imaginário literário do século XVIII.

O Uraguai
Tem como pano de fundo os acontecimentos em torno da assinatura do Tratado de Madrid, celebrado entre os
reis de Portugal e da Espanha, o qual definiu que as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da
Espanha para Portugal. Por essa razão, os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a
Colônia do Sacramento. Sete Povos das Missões era habitada por indígenas e dirigida por jesuítas, que organizaram a
resistência à aspiração dos portugueses de apossarem-se dessas terras.
O texto narra de modo poético a luta em torno da posse da terra, que teve início em 1757. Há uma consagração
dos feitos de Gomes Freire de Andrade, general português que auxiliou o Marquês de Pombal em seu combate pela
expulsão dos jesuítas das terras brasileiras.
Ao longo de O Uraguai pode-se notar a crítica ferrenha de Basílio da Gama aos interesses dos jesuítas nas terras da Colô-
nia: ao “defender” o direito dos indígenas pela posse, os jesuítas tinham na verdade a intenção de tomar para si essas terras.
O enredo se desenrola a partir dos eventos da guerra e de um caso de amor e morte no reduto missioneiro. Seus principais
personagens são: o General Gomes Freire de Andrade, chefe do exército português; Catâneo, chefe das forças espanholas;
Cacambo, líder indígena; Sepé, guerreiro indígena; Balda, padre jesuíta, administrador de Sete Povos das Missões; Caitutu,
guerreiro indígena e irmão de Lindoia; Lindoia, esposa de Cacambo; Tanajura, indígena feiticeira.
No que diz respeito à representação do indígena propriamente dita, percebe-se no poema uma simpatia pelo
indígena. A narrativa dos fatos não o torna simplesmente um coadjuvante do conflito. Ele se apresenta como um
guerreiro que supera simultaneamente, em sua vontade e determinação, tanto o soldado português quanto o padre
jesuíta desmoralizado. Essa visão do indígena guerreiro será amplamente trabalhada pela literatura do Romantismo
brasileiro, período posterior ao Arcadismo.
Do ponto de vista formal, O Uraguai é inovador: escrito em versos brancos (sem rimas) e sem divisões em estrofes.

Caramuru
O poema Caramuru tem como base histórica o descobrimento da Bahia pelo náufrago português Diogo Álvares
Correia, seguido de seu enamoramento das indígenas Paraguaçu e Moema.
Um dos primeiros traços que caracterizam a obra é a vasta quantidade de referências, que abrangem fatos da his-
tória do Brasil e observações sobre o temperamento indígena, um conjunto de lendas da região, fantasias e referências

Literatura 45
de outras narrativas, etc. Pode-se considerar o Caramuru como a primeira obra literária a ter como tema central o
habitante nativo do Brasil e seu modo de vida, ainda que o indígena não apareça como o protagonista da história
(papel desempenhado por Diogo Álvares Correia, um português).
O modo de escrita de Durão explora os acontecimentos ficcionais de maneira distinta de outras narrativas literárias
comuns em sua época: a imaginação serve como uma estratégia para fazer com que o leitor possa compreender me-
lhor os hábitos dos povos indígenas. Os personagens centrais são: Diogo Álvares Correia, que recebe o apelido de Ca-
ramuru; Paraguaçu, filha do cacique Taparica; Moema, indígena amante de Diogo; Gupeva e Sergipe, chefes indígenas.
A representação do indígena para Durão é bastante diversa da de Basílio da Gama: enquanto este procurou repre-
sentar um conflito histórico claramente marcado pela oposição ideológica entre portugueses e jesuítas, Durão narra
uma aventura mais descompromissada de um herói de certo modo desapegado das questões históricas ou sociais
de seu tempo.
Do ponto de vista formal, o Caramuru apresenta alguns recursos de linguagem, como a utilização de referências
mitológicas e do universo do maravilhoso pagão e cristão e uma estrutura de versos e estrofes rigorosamente nos
moldes camonianos. Sugestões de atividades: questões de 16 a 18 da seção Hora de estudo.

Poesia satírica árcade: crítica aos poderosos


As Cartas chilenas podem ser consideradas um dos mais importantes textos satíricos escritos em língua portugue-
sa. Trata-se de um longo poema incompleto que, de maneira indireta, critica os atos e a administração corrupta de
Luís da Cunha Meneses, governador da Capitania de Minas Gerais, entre 1783 e 1788. Redigida sob anonimato, conser-
vou-se inédita até 1845. Sua autoria foi motivo de grande especulação e estudo, até que se chegou ao consenso de ser
seu autor o poeta Tomás Antônio Gonzaga.
São 13 cartas, escritas em decassílabos brancos. Circularam anonimamente em Vila Rica, entre 1787 e 1788. Possi-
velmente, algumas cópias impressas também passavam de mão em mão, atendendo ao grande interesse que esse tipo
de publicação despertava na população.
A cada carta, Critilo (o sujeito que escreve) envia notícias sobre o comportamento do governador “chileno”, chama-
do de Fanfarrão Minésio, para seu amigo Doroteu. A relação quase explícita entre Chile = Minas Gerais e Santiago = Vila
Rica não deixava dúvidas sobre o fato de ser Minésio = Luís Meneses.

Talvez, meu Doroteu, talvez que entendas


que o nosso Fanfarrão estima e preza
os rendeiros que devem, por sistema,
só para ver se os ricos desta terra,
à força de favores animados,
se esforçam a lançar nas régias rendas.
Amigo Doroteu, o nosso chefe,
se faz alguma coisa, é só movido
da loucura ou do sórdido interesse. preza: estima, tem consideração.
rendeiros: pessoas que vivem de terras
Eu vou, prezado amigo, eu vou mostrar-te
de arrendamento (terras cedidas sob
esta santa verdade, com exemplos. contrato para outras pessoas explorarem
mediante pagamento de uma
GONZAGA, Tomás Antônio. Carta oitava. In: ______. A poesia dos inconfidentes: porcentagem dos ganhos ou aluguéis).
poesia completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga
Peixoto. Organização de Domício Proença Filho. Artigos, ensaios e notas de por sistema: por coerência.
Melânia Silva de Aguiar et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 856-857. régias: grandiosas.
sórdido: imundo, sujo.

46 Volume 4
As trapaças que ocorrem entre as classes mais abastadas de Vila Rica são expostas de maneira caricata e jocosa. No
fragmento anterior, são mencionadas as negociatas do Fanfarrão, sempre ocupado em organizar sistemas de enrique-
cimento e práticas de abusos de poder.
A influência dos pensadores iluministas franceses pode ser vista nessas cartas. Possivelmente, Gonzaga tenha lido
textos satíricos de escritores como Voltaire e Montesquieu, que também criavam situações fantasiosas para denunciar
as mazelas da sociedade, a Corte corrupta e a realeza decaída.

Atividades 12 Sugestões.

1. Leia os trechos selecionados das Cartas chilenas e responda ao que se pede.


Trecho 1 Trecho 2

Carta Nona Carta Décima


[...] [...]
A desordem, amigo, não consiste Perguntarás agora que torpezas
em formar esquadrões, mas sim no excesso. comete a nossa Chile, que mereça
Um reino bem regido não se forma tão estranho flagelo? Não há homem
somente de soldados; tem de tudo: que viva isento de delitos graves,
tem milícia, lavoura e tem comércio. e, aonde se amontoam os viventes
Se quantos forem ricos se adornarem em cidades ou vilas, aí crescem
das golas e das bandas, não teremos os crimes e as desordens, aos milhares.
um só depositário, nem os órfãos Talvez, prezado amigo, que nós, hoje,
terão também tutores, quando nisto sintamos o castigo dos insultos
interessa igualmente o bem do império. que nossos pais fizeram: estes campos
estão cobertos de insepultos ossos
Carece a Monarquia dez mil homens
de inumeráveis homens que mataram.
de tropa auxiliar? Não haja embora
Aqui os europeus se divertiam
de menos um soldado, mas os outros
em andarem à caça dos gentios,
vão à pátria servir nos mais empregos,
como à caça das feras, pelos matos.
pois os corpos civis são como os nossos,
que, tendo um membro forte e outros débeis,
se devem, Doroteu, julgar enfermos.
[...]

GONZAGA, Tomás Antônio. A poesia dos inconfidentes: poesia completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga
Peixoto. Organização de Domício Proença Filho. Artigos, ensaios e notas de Melânia Silva de Aguiar et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
p. 865-866; 876.

a) Sabendo que as Cartas chilenas tinham como tema principal a crítica à forma de a Metrópole governar a Colônia,
qual a condenação feita por Critilo aos esquadrões militares?
b) Uma das características da literatura árcade satírica é a elaboração de uma crítica ao modo como o poder cor-
rompia a sociedade. Em sua opinião, qual o motivo para a monarquia conservar “dez mil homens” em sua “tropa
auxiliar”?

jocosa: que provoca riso, satírica. débeis: fracos.


bandas: refere-se às golas altas com prolongamentos laterais que torpezas: atitudes vergonhosas.
faziam parte da casaca, vestimenta de um soldado. flagelo: tormento, calamidade.
depositário: confidente, testemunha.

Literatura 47
c) No trecho 2, Critilo demonstra revolta ao descrever o lugar em que se encontra (Chile). Qual sua intenção em
apresentar esse lugar dessa forma?
d) O poema apresenta problemas relacionados à vida nas cidades: “crimes e desordens” relacionados aos “viventes”
que ali se “amontoam”. Essa visão negativa do espaço da cidade remete a qual lugar-comum da poesia árcade?
2. Observe a reprodução de uma obra do artista Ernesto Frederico Scheffel.
Essa pintura retrata uma cena do poema Caramuru, de
Santa Rita Durão, em que Diogo Álvares Correia encontra
indígenas no litoral da Bahia.
Como você descreveria a relação entre o europeu (colo-
nizador) e os indígenas (colonizados) representada nessa
pintura?
Pessoal. Espera-se que os alunos interpretem os significados de-
correntes da postura corporal de Diogo Correia (sua posição ereta,
empunhando uma arma de fogo, associada ao mando e à submis-
são dos indígenas) e do grupo de indígenas (alguns ajoelhados em
SCHEFFEL, Ernesto Frederico. Caramuru-Guaçu. 1958.
1 óleo sobre tela, color., 368 cm × 196,5 cm. Fundação posição de subserviência e adoração, enquanto outros se distan-
Ernesto Frederico Scheffel, Rio de Janeiro. ciam de Diogo em movimento de recuo).

Organize as ideias
13 Orientações para elaboração da síntese proposta na atividade.

Escreva um texto-síntese dos principais conceitos e conteúdos estudados nesta unidade. Seu texto deve conter apro-
ximadamente nove parágrafos. Para ajudá-lo na composição, siga o roteiro indicado.

Número de linhas
Conceitos Conteúdos específicos
(aproximadamente)
• surgimento
Neoclassicismo e Arcadismo • diferenças entre o Barroco 8 linhas / 1 parágrafo
• características gerais do estilo
• questões políticas
Aspectos da sociedade europeia no
• despotismo esclarecido 7 linhas / 1 parágrafo
período
• perfil das classes sociais
Iluminismo • principais ideias 6 linhas / 1 parágrafo
• sociedade portuguesa
Arcadismo em Portugal • Marquês de Pombal 11 linhas / 2 parágrafos
• Bocage
• período da mineração
• Inconfidência Mineira
Arcadismo no Brasil • aspectos do arcadismo no Brasil 16 linhas / 3 parágrafos
• tipos de poesia árcade produzidos no Brasil
• principais escritores
• destaque os conteúdos que você considera
Síntese final 5 linhas / 1 parágrafo
relevantes para a compreensão do Arcadismo

Lembre-se de que seu texto não deve ser uma listagem de informações, ou seja, além de articular os conteúdos
apontados, deve ser coeso e ter coerência.

48 Volume 4
Hora de estudo
14 Gabaritos.

1. A arte neoclássica pode ser associada ao avanço das 4. Comente cada uma das afirmações, indicando se são ou
ideias liberais? Justifique sua resposta. não corretas em relação ao Arcadismo.
2. A respeito do Neoclassicismo é correto afirmar que a) O racionalismo, a clareza da linguagem e a simplicida-
de são elementos que fizeram parte da estética árcade.
a) teve como motivação uma visão crítica sobre a arte
barroca, principalmente as relações entre a expres- b) O retorno aos princípios clássicos greco-romanos e
são artística e os temas religiosos que faziam parte renascentistas (o belo, o bem, a verdade, a perfeição,
de todas as obras pós-renascentistas. a imitação da natureza) ressurgem no Arcadismo.
b) sua consolidação enfrentou oposição em países c) Pastoralismo, bucolismo, suaves idílios campestres
que se viam muito ligados ao barroco artístico, podem ser encontrados na poesia árcade.
especialmente Portugal e Espanha, a ponto de se 5. (UFSCAR – SP)
poder afirmar que não houve o Neoclassicismo Texto 1
nesses lugares.
(Zé Rodrix e Tavito)
c) seu critério de beleza não se distancia daquele que
fundamentou a arte barroca, fato que faz com que Eu quero uma casa no campo
se possa afirmar que entre o Barroco e o Neoclassi- do tamanho ideal
cismo não houve uma ruptura de padrões, mas, sim pau a pique e sapê
uma continuidade de estilos. Onde eu possa plantar meus amigos
X d) as transformações na burguesia europeia e sua as- meus discos
censão formaram um cenário ideal para o fortaleci- meus livros
mento da arte neoclássica. e nada mais
e) o Iluminismo pouco dialogou com a arte neoclássi-
ca, que se voltava quase que exclusivamente para Texto 2
problemas relacionados à crise religiosa e à forma- (Cláudio Manuel da Costa)
ção dos Estados absolutistas.
Se o bem desta choupana pode tanto,
3. Leia as seguintes afirmações sobre o Neoclassicismo. Que chega a ter mais preço, e mais valia,
I. Em relação ao Barroco, a arte neoclássica busca uma Que da cidade o lisonjeiro encanto;
representação menos contraditória dos dilemas hu- Aqui descanse a louca fantasia;
manos e o uso de um vocabulário mais simples. E o que té agora se tornava em pranto,
II. O Neoclassicismo corresponde a uma forma de ex- Se converta em afetos de alegria.
pressão artística que prolonga muitos aspectos da
arte barroca, especialmente a crise religiosa, que Embora muito distantes entre si na linha do tempo, os
ganha uma nova maneira de utilizar a linguagem. textos aproximam-se, pois o ideal que defendem é
III. Com o Neoclassicismo, retorna ao universo artístico a) o uso da emoção em detrimento da razão, pois esta
a presença do racionalismo que havia sido funda- retira do homem seus melhores sentimentos.
mental como um dos pressupostos da arte clássico- b) o desejo de enriquecer no campo, aproveitando as
-renascentista. riquezas naturais.
( ) Todas as afirmações estão corretas. c) a dedicação à produção poética junto à natureza,
( ) Somente a afirmação II está correta. fonte de inspiração dos poetas.

( ) As afirmações I e II estão corretas. d) o aproveitamento do dia presente – o carpe diem –,


pois o tempo passa rapidamente.
( X ) As afirmações I e III estão corretas.
X e) o sonho de uma vida mais simples e natural, distan-
( ) Nenhuma das afirmações está correta. te dos centros urbanos.

Literatura 49
6. (AMAN – RJ) Leia os versos abaixo: X a) eu lírico, liberdade e crítica ao despotismo.
b) poema, liberdade e crítica ao despotismo.
“Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas c) eu lírico, povo português e crítica ao despotismo.
as peles dos cordeiros mal curtidas, d) eu lírico, liberdade e língua portuguesa.
e os panos feitos com as lãs mais grossas. e) eu lírico, leitor e crítica ao despotismo.
Mas ao menos será o teu vestido
por mãos de amor, por minhas mãos cosido.” 8. Leia o trecho do poema a seguir.

Na solidão do cárcere
A característica presente na poesia árcade, presente [...]
no fragmento acima, é Por mais ardentes preces, que lhe faço,
X a) aurea mediocritas. Meus ais não ouve o númen sonolento,
Nem prende a minha dor com tênue laço:
b) cultismo.
c) ideias iluministas. No Inferno se me troca o pensamento;
d) conflito espiritual. Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo
Dias de enjoo, e noites de tormento?
e) carpe diem.
7. (UEPA) Texto para a próxima questão. BOCAGE. Na solidão do cárcere. In: ______. Poemas: Bocage.
Seleção e organização de José Lino Grünewald. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1987. p. 79.
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Esses versos são de um poema que pertence à segun-
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
da fase da produção poética de Bocage. Neles é pos-
Por que (triste de mim!), por que não raia
sível observar um distanciamento dos lugares-comuns
Já na esfera de Lísia* a tua aurora?
característicos do Arcadismo.

Da santa redenção é vinda a hora Aponte dois elementos presentes no trecho do poema
A esta parte do mundo, que desmaia. que se opõem à estética árcade. Justifique suas esco-
Oh!, venha... Oh!, venha, e trêmulo descaia lhas.
Despotismo feroz, que nos devora! 9. Leia o poema de Bocage para responder à questão.

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo, Olha, Marília, as flautas dos pastores
Oculta o pátrio amor, torce a vontade, Que bem que soam, como estão cadentes!
E em fingir, por temor, empenha estudo. Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo, Vê como ali, beijando-se, os Amores
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade! Incitam nossos ósculos ardentes!
(Bocage) Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.
Lísia = Portugal
Naquele arbusto o rouxinol suspira,
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. São Ora nas folhas a abelhinha pára,
Paulo: Cultrix, 2006. p. 239.
Ora nos ares, sussurrando, gira:
O poema de Bocage organiza uma situação comunica-
tiva interna em que se verificam os seguintes elemen- Que alegre campo! Que manhã tão clara!
tos fundamentais da comunicação: emissor, receptor Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
(contido no próprio texto) e mensagem. No poema es- Mais tristeza que a morte me causara.
tes elementos são:

50 Volume 4 númen: inspiração. tênue: sutil, frágil.


A poesia lírica do Arcadismo brasileiro pode ser as- Acerca do poema, assinale a alternativa INCORRETA.
sociada a um fato histórico de grande importância: a
a) O poema é um soneto composto de versos decassí-
Inconfidência Mineira. Qual a relação existente entre
labos heroicos, com rima intercalada nos quartetos
a literatura produzida nesse período no Brasil e esse
e cruzada nos tercetos.
acontecimento histórico?
b) O eu lírico tem como interlocutor de seu poema as
10. (UFV – MG) Ao evidenciar as tendências do Arcadismo
“Altas serras” (ref. 1), às quais se dirige diretamente
brasileiro, Antônio Candido conclui:
também ao final, em “ó penhas” (ref. 2), caracteri-
zando assim o uso de apóstrofes.
A poesia pastoral, como tema, talvez esteja
c) O eu lírico emprega algumas inversões sintáticas
vinculada ao desenvolvimento da cultura ur-
no poema, como em “[...] que ao Céu estais ser-
bana, que, opondo as linhas artificiais da ci- vindo! De muralhas” (ref. 3), a que se chama de
dade à paisagem natural, transforma o campo hipérbatos e que remetem mais ao estilo barroco
num bem perdido, que encarna facilmente os que ao árcade.
sentimentos de frustração.
d) O eu lírico compara o Sol, a que chama de “Monarca
(CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo:
da luz” (ref. 4), ao rosto de sua amada, o que carac-
Martins, 1959. p. 54. v. I) teriza uma personificação.
A partir de uma reflexão sobre a afirmativa transcri- X e) Ao olhar o Sol sobre as serras, o eu lírico enxerga
ta acima, fale sobre as manifestações da natureza na uma imagem de sua amada, cujo peito seria com-
poesia árcade. posto então pelas penhas, visão essa que enche sua
alma de alegria.
11. (UFSM – RS) O poeta árcade Cláudio Manuel da Costa
valeu-se, em alguns momentos, da natureza brasileira
para compor sua poesia, fugindo, assim, pelo menos TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 12 A 14:
em parte, do convencionalismo neoclássico. A partir
dessa ideia, leia o poema a seguir. Leia o soneto de Cláudio Manuel da Costa para respon-
der às questões.

LVIII Onde estou? Este sítio desconheço:


1 3
Altas serras, que ao Céu estais servindo Quem fez tão diferente aquele prado?
De muralhas, que o tempo não profana, Tudo outra natureza tem tomado;
Se Gigantes não sois, que a forma humana E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Em duras penhas foram confundindo;
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
Já sobre o vosso cume se está rindo De estar a ela um dia reclinado;
O 4Monarca da luz, que esta alma engana; Ali em vale um monte está mudado:
Pois na face, que ostenta, soberana, Quanto pode dos anos o progresso!
O rosto de meu bem me vai fingindo.
Árvores aqui vi tão florescentes,
Que alegre, que mimoso, que brilhante Que faziam perpétua a primavera:
Ele se me afigura! Ah qual efeito Nem troncos vejo agora decadentes.
Em minha alma se sente neste instante!
Eu me engano: a região esta não era;
Mas ai! a que delírios me sujeito! Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Se quando no Sol vejo o seu semblante, Meus males, com que tudo degenera!
Em vós descubro, 2ó penhas, o seu peito?
(Obras, 1996.)

Literatura 51
12. (UNIFESP) São recursos expressivos e tema presentes 16. Assinale a afirmação correta sobre a poesia épica ár-
no soneto, respectivamente, cade brasileira.
a) metáforas e a ideia da imutabilidade das pessoas e a) Ignora elementos da realidade histórica brasileira,
dos lugares. transpondo para o cenário nacional figuras da mito-
logia greco-romana.
b) sinestesias e a superação pelo eu lírico de seus
maiores problemas. b) Propõe uma continuidade de Os Lusíadas, simulan-
do a chegada dos portugueses liderados por Vasco
c) paradoxos e a certeza de um presente melhor para
da Gama em terras brasileiras.
o eu lírico que o passado.
X c) Aborda a realidade nacional considerando fatos his-
d) hipérboles e a força interior que faz o eu lírico supe-
tóricos e a presença dos indígenas.
rar seus males.
d) Tem como grande temática o surgimento da nação
X e) antíteses e o abalo emocional vivido pelo eu lírico.
brasileira, tendo à frente os povos indígenas como o
13. (UNIFESP) No contexto em que estão empregados, verdadeiro símbolo da pátria.
os termos sítio (1º. verso), tímido (4º. verso) e perpétua
e) Coloca a figura do indígena como o herói das narra-
(10º. verso) significam, respectivamente,
tivas.
a) acampamento, imaturo e permanente. 17. (UPE) Sobre as Cartas chilenas, de Tomás Antônio
b) campo, fraco e imprescindível. Gonzaga, analise as proposições abaixo e conclua se
são verdadeiras (V) ou falsas (F).
c) fazenda, obscuro e frequente.
X d) lugar, receoso e eterna. ( F ) Há bucolismo no texto, tendo em vista pertencer ao
Arcadismo.
e) imediação, inseguro e duradoura.
( V ) Todos os versos são brancos, ou seja, não dispõem
14. (UNIFESP) No soneto, o eu lírico expressa-se de forma de rimas.
a) eufórica, reconhecendo a necessidade de mudança. ( V ) Trata-se de uma sátira endereçada ao governador
b) contida, descortinando as impressões auspiciosas da época, Luís da Cunha Meneses, criticando os
do cenário. desmandos administrativos e a corrupção pratica-
dos por este na capitania de Minas Gerais.
c) introspectiva, valendo-se da idealização da natureza.
( F ) Trata-se de um poema lírico-amoroso em que o
d) racional, mostrando-se indiferente às mudanças. pastor declara o seu amor de forma tão enfática
X e) reflexiva, explorando ambiguidades existenciais. que o conjunto dos versos pode ser entendido
como um convite de casamento.
15. (UPF – RS) Na poesia de Cláudio Manuel da Costa
verifica-se um conflito entre as solicitações da poética ( F ) Constitui-se em um poema elaborado por meio de
neoclássica ou árcade, que o levam a conceber artifi- uma linguagem totalmente rebuscada que remete
cialmente uma paisagem _________________, e o à estética barroca.
sentimento nativista do escritor, que o impele a apro- 18. As Cartas chilenas pertencem a um ramo da produção
veitar artisticamente a paisagem ______________ literária: poesia satírica. Cite um período literário, an-
de sua pátria. terior ao Arcadismo, em que a poesia satírica desem-
A alternativa que completa corretamente as lacunas penhou um papel importante na denúncia dos males
do texto anterior é: sociais.
a) amena – bucólica A poesia de cunho satírico que surge na Idade Média portugue-
b) rústica – bucólica sa: as cantigas de escárnio e de maldizer.
X c) bucólica – rústica
d) rústica – amena
e) bucólica – amena

52 Volume 4