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A mente externa

Book · June 2001

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Marcelo G Land
Federal University of Rio de Janeiro
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A MENTE
EXTERNA
Marcelo Land

A MENTE
EXTERNA
A ética naturalista de Daniel Dennett

Garamond
Copyright © 2001, Marcelo Land
Direitos cedidos para esta edição à
Editora Garamond Ltda.
Caixa Postal: 16.230 Cep: 22.222-970
Rio de Janeiro – Brasil
Telefax: (21) 2224-9088
E-mail: garamond@garamond.com.br

Revisão
Argemiro Figueiredo
Patrícia Santos Ferreira

Editoração Eletrônica
Luiz Oliveira

Capa
Projeto: Quadratim
Realização: Estúdio Garamond
sobre desenhos de Newton Montenegro de Lima

L253m

Land, Marcelo.
A mente externa, a ética naturalista de Daniel Dennett
/ Marcelo Land. – Rio de Janeiro: Garamond, 2001.
296p.; 14x21cm.

ISBN 85-86435-65-1

1. Valores. 2. Naturalismo. I. Título.

CDD-170

Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, por


qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei nº 9.610/98.
Sumário

Introdução ................................................................................... 7
Capítulo 1: Frentes de combate à intrinsecalidade ................. 37
1.1. Primeira frente: o problema da atribuição
de crenças: o realismo de Fodor e a estratégia
intencional dennettiana. ....................................................... 45
1.2. Segunda frente: como abordar
fenômenos mentais: Nagel x Dennett? ................................ 64
Como é ser um morcego para Thomas Nagel .................... 64
A heterofenomenologia de Dennett ..................................... 71
1.3. Terceira frente: podem máquinas
vir a ser conscientes? .......................................................... 75

Capítulo 2: O compatibilismo e o agente moral ..................... 95


2.1. O Monismo Anômalo de Donald Davidson ........................ 96
2.2. Esboço do compatibilismo de Dennett:
o recurso ao design ........................................................... 130
2.3. Ter um espaço para manobra (Elbow Room) ................... 141
O problema da racionalidade ideal do agente .................... 142
Responsabilidade e o agente .............................................. 153

Capítulo 3: Naturalismo e reducionismo .............................. 175


3.1. Afinal, que tipo de criaturas nós somos? .......................... 175
Tipos de mentes ................................................................ 181
Uma tentativa de naturalizar o pensamento ....................... 189
Afinal, onde nós estamos? ................................................ 209
3.2. Darwinismo e reducionismo ............................................. 213
Design e algoritmo ............................................................ 214
Cultura e pessoa ................................................................ 220
Sobre a origem da moralidade ........................................... 226
Reducionismo voraz e prudente ........................................ 232
Um projeto para a psicologia da moral
e uma proposta de valor. ................................................... 249
Conclusão ................................................................................ 261
Notas ........................................................................................ 267
Referências bibliográficas ..................................................... 289
Introdução

O objetivo deste livro é investigar e justificar a possibilidade de


uma imagem alternativa de pessoa, definida de um ponto de vista
naturalista. Naturalismo concebido não no sentido metafísico, ou
seja, no de afirmar que existe uma “natureza” humana, que é a
essência da pessoalidade. Trata-se antes de explorar uma descri-
ção naturalista, que pode ajudar a nos distanciarmos de uma das
mais pregnantes metáforas na conceituação da pessoa: a oposição
Natureza x Cultura. Desmantelar a influência desta metáfora im-
plica confrontos em campos muito diversos. Vamos nos deter prin-
cipalmente na visão criada por Daniel Dennett e no campo de
discussão que lhe é próprio.
Um dos primeiros problemas com o qual nos defrontamos é
como definir quais seriam os predicados naturalistas que estamos
dispostos a atribuir aos seres que acreditamos merecer dignidade,
sem que esta atribuição acarrete o perigo de produzir ou pressu-
por uma ontologia ingênua e eticamente inerte. Acreditamos que
inicialmente é possível definir este predicado de uma maneira
deflacionada, utilizando apenas uma frase do tipo: os seres que
merecem respeito à sua dignidade são aqueles que vivem. Logo
vemos as conseqüências desta suposta economia. Ela presume
toda uma tradição que data de no mínimo dois séculos e que
redescobriu o conceito de vida em uma perspectiva cada vez me-
nos vitalista.
Mesmo se não nos detivermos nas origens históricas desta cren-
ça, ainda assim resta o problema de como interpretar o sentido da
última frase grifada. Em uma de suas vertentes, o que o uso da
crença pretende ser é uma justificativa para se utilizar a palavra

!
A MENTE EXTERNA

vida como “fundamento” de uma ética humanamente útil. Ora, ter


um fundamento implica, como Richard Rorty demonstra clara-
mente, a busca de objetos reais, ou de representações privilegia-
das, para garantir a nossa pretensão de encontrar um acordo sobre
quais proposições ter como verdadeiras. Neste sentido, buscar uma
ética humanamente útil poderia significar tentar ter acesso a estes
objetos ou representações privilegiadas – o que não é o nosso
intento.
Para demonstrar qual caminho será seguido a partir da nossa
proposição inicial, começaremos a discutir a tradição epistemológica,
segundo a visão de Rorty, responsável pela divisão da nossa cultura
entre “ciência” – disciplina que se preocupa com fatos – e “humani-
dades” 1 – que se preocupa com valores. Para tal, é preciso
acompanhá-lo em suas considerações sobre o uso da palavra
racionalidade, já que em ambas as disciplinas os participantes não
abrem mão da certeza de estarem sendo racionais.
Rorty nos propõe duas definições de racionalidade. Na primei-
ra definição, que ele denomina de forte – no sentido de mais deli-
mitada, mais cativante, ou persuasiva –, ser racional significa ser
metódico, possuir critérios previamente dados que nos permitam
prever os bons resultados de uma teoria científica. Haveria, por-
tanto, uma grande preocupação com os meios para a obtenção
dos fins ditos científicos. Neste sentido, as “humanidades” fracas-
sam. Não se pode atribuir a característica de ser racional, primeiro
porque a predição de seus fatos não obedecem leis nomológicas;
segundo porque, se obedecessem, estar-se-ia tornando supérflua
a própria disciplina “humanidades”. Prever fatos sociais com as
exigências de exatidão ou predição de ciências físico-químicas sig-
nificaria, como diz Rorty, realizar a utopia das sociedades totalitá-
rias. A necessidade do processo de redefinição dos fins sociais nas
sociedades ditas pluralistas retira a possibilidade de atribuir a esta
disciplina tal sentido de racionalidade.

"
MARCELO LAND

A segunda definição da palavra racional é mais fraca, mais tri-


vial2 , significando algo como ser razoável, possuir os atributos da
tolerância, o respeito às opiniões alheias, o desejo de ouvir, acre-
ditar mais no uso da persuasão do que da força; em suma: ser
civilizado. Assim, opondo-se a idéia de ser racional como ser me-
tódico com a de racional como ser civilizado, ele afirma que os
que lidam com “humanidades” podem ser ditos racionais neste
segundo sentido.
Contudo, os participantes da disciplina “humanidades” e o pú-
blico continuam ansiando pelo primeiro sentido de racionalidade.
Assim sendo, não escapam muito facilmente ao desejo de objeti-
vidade, concebido dentro de uma tradição epistemológica, nem ao
desejo de possuir a mesma dignidade dos cientistas naturais, que
para Rorty é a mesma que possuíam os padres antes do Iluminismo.
É o desejo de estar de posse de verdades objetivas para funda-
mentar as suas investigações que faz com que eles se autodefinam
como aqueles que lidam com objetos especiais chamados “valo-
res”.
Este esforço de definição da própria objetividade, no entanto,
fracassa, pois não se consegue facilmente convencer o público de
que fatos e valores são da mesma natureza. Não se pode, portan-
to, ultrapassar, pelo ardil do recurso ao conceito de valor, a divi-
são clássica da cultura entre uma disciplina que lida com a objeti-
vidade (Naturwissenschaft) e outra com a subjetividade
(Geisteswissenschaft).
Atualmente, contudo, o principal problema dos que estão inte-
ressados na querela da divisão da cultura entre ciência e não-ciên-
cia não parece ser o desacordo com relação ao uso do termo
racionalidade. Pois, após a propagação das idéias de Thomas Kuhn
e das contendas entre seus opositores e defensores, um tipo de
acordo foi obtido, implicando uma dupla renúncia: do lado dos
que afirmam a permanência da dita divisão disciplinar da cultura,

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A MENTE EXTERNA

acordou-se que não existe nenhum metavocabulário trans-histórico


que possa formular um algoritmo para decidir pela escolha de teori-
as científicas, e do outro lado, recusou-se finalmente a tese de Kuhn,
romanticamente inspirada3 , de que paradigmas diversos criam mun-
dos diversos, aceitando-se que teorias incomensuráveis procura-
ram descrever o “mesmo mundo”. Portanto, as discussões sobre
as definições de racionalidade na primeira acepção do termo não
podem mais ser sustentadas, já que, de um modo geral, a afirmação
da necessidade da posse de critérios previamente dados foi abando-
nada.
Persiste, no entanto, o argumento do aspecto metafísico da
ciência, da sua relação com o mundo e com a realidade. Deixare-
mos esta discussão para mais adiante. No momento, interessa de-
senvolver o tema recuperando o uso da palavra vida, associada à
idéia de valor.
Neste sentido, a vida seria o valor sobre o qual se fundaria
nossas pretensões de formular proposições éticas universais, que
valessem para todos os casos, todas as pessoas, em todos os tem-
pos. Nesta acepção, a vida deveria ser entendida como um valor
universal, por ser atributo de todo ser pensante. Seria um concei-
to-limite para onde convergiria o nosso vocabulário ético, deven-
do portanto ser vista como fundamento transcendente e sólido
para toda ação humana. A partir deste enfoque, poder-se-ia dizer
que o valor Vida deve ser respeitado em todo o indivíduo.
Poderíamos também usar a palavra vida de uma maneira tri-
vial, de modo semelhante ao uso das palavras “liberdade”, “bem
comum”, “agora” e outras. Nestes casos, com a palavra vida no
seu uso mais corriqueiro, poderíamos dizer algo tão “óbvio” quan-
to: o respeito à vida de um indivíduo deveria ser um valor bási-
co, ou mesmo paradigmático na comunidade dos homens.
As duas definições acentuam características diversas do termo
vida. Na primeira, o indivíduo é apenas o veículo de um valor

$%
MARCELO LAND

fundamental chamado vida; na segunda, a vida é uma propriedade


dos indivíduos, que passa a ser o valor que se deve respeitar4 .
No primeiro uso, “vida” tem uma qualidade substancial capaz
de encarnar um indivíduo. Pressupõe-se a noção de uma entidade
especial chamada vida. Quem a emprega com sentido comporta-
se como um cientista natural que resolveu ditar normas éticas ba-
seadas em seu objeto de estudo. Deste modo, torna-se evidente o
desejo de objetividade, de descobrir fundamentos sólidos e exte-
riores para justificar a proposição.
No segundo caso, falar da idéia como um valor é semelhante a
dar uma opinião a um amigo ou a uma comunidade qualquer. Usar
vida neste sentido revela um desejo de solidariedade. Isto pode
parecer superficial e óbvio. Mas é o modo de proceder que mais
se aproxima de uma atitude dita pragmática, e está mais próximo
das pretensões deste livro.
Pensamos que o defeito da primeira é o de abstrair a vida dos
indivíduos empíricos. Conduz-nos ao risco de esquecer que a pa-
lavra vida tem claramente o sentido de atributo de alguém ou algu-
ma coisa, e que só nos é possível utilizar esta abstração porque
alguns dos usos da palavra vida apontaram desde o século XIX
para um “espaço transcendental”.
A segunda definição poderia ser criticada por sua aparente falta
de pretensão. Caberia perguntar, porém: pretensão de quê? De for-
mular uma verdade universal por um lado, e a obter um convenci-
mento generalizado, por outro, do ponto de vista da primeira defini-
ção. Esta proposição parece não ter compromisso com o debate
com os antecessores, recusando ingenuamente a voz da tradição.
Contudo, existem duas formas de se considerar a “voz da tra-
dição”. No primeiro, tradição significa “tradição filosófica
metafísica”, que, por meio de argumentos idealistas, realistas ou
essencialistas, diz que o termo vida deve ser considerado um par-
ticular; um tipo de entidade auto-subsistente e que independe de

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A MENTE EXTERNA

seus portadores, ou seja, dos indivíduos, dos organismos humanos


ou dos seres vivos em geral. Na segunda acepção, tradição quer
dizer outra coisa. Para discutir a questão, retomaremos a distinção
feita por Rorty entre desejo de solidariedade e desejo de objetivida-
de. Esta distinção será fundamental para elucidar o significado que
darei para a mencionada “voz da tradição”.
O desejo de solidariedade que norteia a posição pragmática diz
respeito à procura de solidariedade, diz respeito a contribuir com
uma comunidade – agora presente, agora distante, ou imaginária –,
sem se perguntar pela relação entre: a) as práticas da comunidade
escolhida e b) algo situado fora desta comunidade. O desejo de
objetividade se refere à busca de objetividade, concebida como um
anseio de autodistanciamento das pessoas agora presentes, agora
distantes, ou potencialmente presentes na imaginação, e um apelo a
se ater a algo que pode ser descrito sem referência a qualquer ser
humano particular.
Pode-se dizer que a cada um destes desejos corresponda uma
postura, ou uma concepção, de como lidar com as palavras “ver-
dade”, “cultura”, e mesmo os termos “objetividade” e “solidarie-
dade”. Aqueles que afirmam o desejo de solidariedade para a re-
solução dos problemas da comunidade podem ser chamados de
pragmáticos, e os que exibem o desejo de objetividade podem ser
reunidos sob o rótulo de realistas.
Para cada um existe uma forma de definir a verdade de nossas
crenças. Numa perspectiva realista, a verdade das proposições
depende da correspondência com a realidade. Conseqüentemente,
“eles são obrigados a construir uma metafísica, que cria um espa-
ço para uma especial relação entre crença e objetos, a qual irá
diferenciar crenças verdadeiras e falsas”5 . Apesar das autocríticas
reiteradas, a impossibilidade de fugir deste projeto metafísico con-
duziu a diversos sintomas. Um dos mais importantes sintomas foi
exposto acima como a divisão disciplinar da cultura entre

$&
MARCELO LAND

Naturwissenschaft e Geistenwissenschaft. Outros são as idéias de


que a solidariedade deve também ser definida em relação à idéia
de verdade como correspondência, e de que a legitimação de propos-
tas políticas ou normas institucionais deveriam se fundamentar
em inquéritos baseados em procedimentos metódicos similares ao
dito método científico.
Na perspectiva pragmática, dizer que uma proposição é verda-
deira é “uma mera expressão de recomendação”6 , no sentido de
que, neste momento e nesta cultura, esta crença é a melhor que se
pode ter7 . O seu projeto é, portanto, etnocêntrico. Reconhece-se
que é a partir de cada comunidade que se compreende quais são
os procedimentos produtores da verdade. Sendo assim, a busca
de proposições verdadeiras é sempre a que conduz de uma boa
crença para uma melhor. Deve-se notar que este processo não se
assemelha à visão realista do inquérito científico, mas à atitude
terapêutica que concebe a linguagem como produtora de “formas
de vida”, “imagens cativantes” e “quadros sintomáticos”, como
definiu Wittgenstein8 . E é por ter esta “atitude terapêutica”, que a
posição pragmática estabelece que a crítica da linguagem, a histó-
ria de nossas crenças e a imaginação teórica são formas de supe-
rar estas imagens, dissolver os sintomas e ultrapassar nosso
etnocentrismo presente em busca de outro melhor para esta co-
munidade e seus problemas. Ao questionar, portanto, a visão
epistemológica de verdade como correspondência, para se centrar
na idéia de crença e acordo, o pragmatismo procura abolir a divi-
são disciplinar da cultura: as diversas atividades humanas não se
reduzem a ordens discursivas e métodos específicos de construir
este discurso, mas são formas de conversação, possíveis em de-
terminadas redes de crenças. Do seu ponto de vista, não há como
fugir desta rede sem conhecer os seus fios e compreender que
“ser racional é procurar retecê-la”, de uma outra forma e com
objetivos diversos.

$'
A MENTE EXTERNA

“Na perspectiva pragmática que pretendo manter neste livro,


a vida não é pensada como sendo uma entidade transcendental.
Ela é um dos atributos dos indivíduos de uma comunidade, que
pode ser encarado como foco de atenção e respeito por ser o que
nos caracteriza como iguais”. É nesta acepção que Rorty enten-
de a expressão “compromisso com a tradição.”9
Após estes fundamentos conceituais, proporia agora introduzir
a visão ética que irá nortear este trabalho. Que conseqüências
éticas teria definir “os seres que merecem respeito à sua dignidade
são aqueles que vivem”? Em primeiro lugar, está definição não con-
sidera inúmeras outras definições, que, funcionando como um mé-
todo de classificação, pudesse provocar um número excessivo de
excluídos.
A crença, por exemplo, “o ser que merece respeito à sua digni-
dade é verde, tem antenas na testa, e exerce o método de análise
fisicalista na sua compreensão do mundo”10, implica que nenhum
humano esteja nesta categoria. Se os marcianos invadissem a terra
e quisessem estabelecer uma colônia aqui, talvez, em decorrência
desta crença, nos deixassem apenas um papel marginal em sua cul-
tura, ou talvez nos eliminassem pura e simplesmente como um agente
infeccioso ou um animal dispendioso. Ora, se os marcianos reco-
nhecessem, no entanto, que o padrão de nosso comportamento apa-
rentava ser inteligente, apesar de sua incapacidade de reconhecer
os sons emitidos por nós como o que chamamos de linguagem, e se
pudessem reconhecer que havia engenho nas nossas ações, talvez
conseguíssemos atrair sua atenção a fim de estabelecer algum meio
de comunicação. Um meio que pudesse fazer com que a nossa lin-
guagem intencional fosse traduzida em suas fórmulas físicas. Tal-
vez pudéssemos até convencê-los a abrir mão de sua regra
classificatória em nosso caso, de forma que a sua crença se tornas-
se alguma coisa anômala do tipo “o ser que merece respeito à sua
dignidade é verde, tem antenas na testa, exerce o método de análise

$(
MARCELO LAND

fisicalista na sua compreensão do mundo, e os humanos são os


animais mais próximos a estes seres na escala da inteligência
galáctica.”. Neste sentido, poderíamos esperar algum tipo de dis-
tinção, alguma ritualização no nosso extermínio, ou mesmo a nossa
ascensão a animais domésticos.
Mas haveria uma outra solução cabível. Antes da conferência
com os marcianos, alguns pensadores evolucionistas descenden-
tes dos neodarwinistas do século XX poderiam sugerir que a me-
lhor crença que possuímos para tentar traduzir em termos físicos,
e que poderia ser capaz de evidenciar aos marcianos a nossa se-
melhança de família, era a teoria da seleção natural. A descoberta
dos padrões evolutivos deveria mostrar aos alienígenas que nós,
humanos, e eles, marcianos, somos resultados do mesmo proces-
so. A partir disto, poderíamos denominar algum aspecto destes
padrões regulares de vida, tornando inteligível, comunicável ou
traduzível a nossa crença de que “os seres que merecem respeito à
sua dignidade são aqueles que vivem” em sua linguagem fisicalista.
O que esperaríamos seria que alguma coisa ocorresse aos marcia-
nos, algo que chamaríamos em nossa linguagem intencional de “ins-
piração”, e que a partir dela eles exibissem um comportamento que
descreveríamos como respeito à nossa biodiversidade.
Parece improvável que estes fatos ocorram um dia, ou seja, que
marcianos e humanos conferenciem sobre a melhor maneira de de-
finir os seres que merecem respeito à sua dignidade: se pela forma
como lidam com e controlam o seu ambiente ou se pela propriedade
de possuir vida. Este quadro imaginativo funciona apenas para criar
familiaridade com o tema deste livro. Nesta imagem está implícito
que as descrições da natureza às vezes não querem apenas descre-
ver e controlar o mundo, mas podem ter bons propósitos pragmáti-
cos. No caso descrito na ficção, o propósito é garantir que a “in-
venção” de nossa espécie ou de nossa pessoalidade pelo processo
de seleção natural possa ser mantida. A intenção deste livro é mos-

$)
A MENTE EXTERNA

trar como é possível aproveitar uma descrição naturalista dos seres


que merecem respeito à sua dignidade, que não obrigue atrelar o
conceito de pessoa a um determinismo biológico reducionista, nem
proponha uma moral normatizadora, que não reconheça que a con-
tingência humana se viu multiplicada, quando, no processo
evolutivo, os organismos adquiriram a habilidade de articular sons
com sentido. O principal foco de discussão será a obra de Daniel
Dennett, cotejada com a posição de outros autores como Rorty e
Donald Davidson.

Parte I
Antes de iniciar a exposição dos aspectos da obra de Dennett,
que ocupará o restante do livro, tentaremos situar qual é o contex-
to que justifica uma tal abordagem. No primeiro capítulo do livro
A filosofia e o espelho da natureza, Richard Rorty diz que o pro-
blema mente-corpo reúne três tipos diferentes de problemas ou
jogos de linguagem, que, “surgindo em diferentes pontos da his-
tória do pensamento, se entrelaçaram para produzir um emaranha-
do de problemas inter-relacionados.”11 Estes problemas são:
1- O problema da razão: “o de saber como entender a preten-
são grega de que a diferença crucial entre os homens e as bestas
é que nós podemos conhecer”12 . Ele refere-se à capacidade que
os homens têm de conhecer algo além dos singulares e particula-
res, mas sobretudo universais, conceitos numéricos, essências e
o eterno.
2- O problema da pessoalidade: “o de saber o que é o homem
mais do que a carne”. 13 Preocupa-se com a capacidade do ho-
mem agir livremente, fazer parte de grupos sociais, e de se distin-
guir dos outros objetos do mundo. Segundo Rorty, ele teria origem
na ânsia pré-filosófica da imortalidade e na afirmação kantiana e
romântica da dignidade humana.

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MARCELO LAND

3- O problema da consciência: “centra-se no cérebro, nos senti-


mentos crus (dores e sensações), e nos movimentos corpóreos”.14
Refere-se à capacidade de conhecer-se a si próprio de modo incor-
rigível (diz respeito à idéia da existência de um acesso privilegiado
do sujeito em relação aos seus estados internos), à capacidade de se
possuir uma parte ou elemento não espacial chamado mente, e à
capacidade de existência separada do corpo.
Este capítulo do livro de Rorty procura descrever de que for-
ma Descartes e Locke conseguiram fazer com que os dois primei-
ros problemas fossem subordinados ao problema da consciência,
de tal forma que a dignidade humana e a capacidade de conhecer
se tornaram dependentes do fato de se possuir uma consciência, e
de que podemos exercer julgamentos sobre representações. Resu-
midamente, segundo Rorty, o que possibilitou Descartes unificar,
sobre o rótulo de “mental”, coisas tão díspares quanto conceitos,
convicções e sentimentos crus foi a característica comum de se-
rem indubitáveis. Com a afirmação da indubitabilidade destas en-
tidades, ele, com a ajuda de Locke, possibilitou a criação da idéia
de que estas entidades ocupavam um reino ontológico especial
chamado mente. Com isto, teriam reformado a concepção
hilomórfica do conhecimento,15 porque a indubitabilidade não mais
poderia ser considerada a propriedade dos universais instanciados
no espírito. Além das formas eternas, a mente também estaria
povoada de ilusões e sensações obscuras, igualmente indubitáveis.
Ora, o que possibilitaria o conhecimento seria a descoberta de
“representações claras e distintas”, o que, por sua vez, iria exigir a
postulação de uma atividade de julgamento realizado sobre o con-
junto das representações, sem a qual não se poderia obter o co-
nhecimento do que era certo por trás do véu das idéias. Esta pre-
ocupação com as certezas epistemológicas tornar-se-ia o centro da
filosofia desde então, provocando o que Rorty chamou de abando-
no da busca da sabedoria.

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A MENTE EXTERNA

Também a dignidade humana seria redefinida neste contexto, já


que o que nos diferenciaria dos animais, que compartilham conos-
co a capacidade de se movimentar, é o fato de possuirmos uma
substância especial: a Res cogitans. Os animais seriam meramente
autômatos, zumbis sem estados intencionais.
Podemos depreender de Rorty que, desde então, a dignidade
humana, e a própria idéia de um sujeito moral, está subsumida à
idéia de se possuir uma consciência e exercer ações intencionais
no mundo. Este conceito de sujeito foi hegemônico no pensa-
mento moral durante muito tempo, de tal forma que atribuir
racionalidade a alguém tornou-se sinônimo, em determinados con-
textos, de atribuir-lhes estados internos com propriedades inten-
cionais, contidos na consciência. Assim, ao se atribuir crenças,
desejos e outras atitudes proposicionais 16 a indivíduos, preten-
dia-se também poder cobrar-lhes a responsabilidade e a coerên-
cia das ações, baseado na presunção da presença da propriedade
intrínseca de consciência. Podemos conceber, então, que atri-
buir consciência e estados internos com características intenci-
onais tinha uma dimensão normativa, que, na nossa tradição cul-
tural, foi justificada por meio da criação de uma teoria descritiva
de como a consciência se relacionava com estes estados intenci-
onais.
De certa forma, o projeto de Rorty é mostrar que ao se aban-
donar este tipo de vocabulário centrado na metáfora do olho inter-
no não se perde a dimensão normativa: pode-se dizer que alguém
é um sujeito moral sem tentar arranjar explicações metafísicas
para o fato de que este alguém tenha de exibir comportamentos
racionais. O princípio de caridade interpretativa, que Davidson
utiliza em sua teoria da semântica das línguas naturais, e que Rorty
enfatiza, parte da perspectiva de que se deve atribuir racionalidade
às criaturas antes de poder traduzir os seus comportamentos
lingüísticos nos termos da língua do intérprete. Esta atribuição é,

$"
MARCELO LAND

em Davidson e Dennett, essencialmente normativa, não se necessi-


tando, no entanto, da crença na existência de propriedades intrínse-
cas aos sujeitos.
Este tópico merece relevo. Davidson vai defender, principal-
mente no seu artigo “Eventos Mentais”, que será discutido no
capítulo 2, que, embora eventos mentais sejam eventos físicos,
nenhuma regra nomológica descreve a relação entre ambos. Para
se obter uma teoria que seja capaz de reduzir um vocabulário
mental a um vocabulário físico, é preciso encontrar uma lei que
descreva que um evento mental X nada-mais-é-do-que o evento
físico Y. Davidson procura provar neste artigo por que isto não é
possível. Sua seqüência de argumentos será reproduzida mais
tarde neste livro, cabendo agora, no entanto, ressaltar que ele
pretende também demonstrar que propriedades morais não po-
dem ser reduzidas a propriedades descritivas. Isto garante que o
sujeito moral continue sendo não determinado do ponto de vista
físico, possibilitando a sua concepção como agente livre para
escolher suas ações a partir de um cálculo racional, levando em
conta princípios normativos de primeira e segunda ordem. As-
sim, pode também ficar claro por que devemos guardar a dife-
rença conceitual entre princípios normativos e princípios descri-
tivos de comportamentos, embora na prática eles se confundam.
Princípios normativos pressupõem que as regras devem ser su-
postamente vigentes para que a interpretação de um determina-
do agente possa ser realizada. Princípios descritivos implicam
que conhecemos as regras que determinam os movimentos do
agente, até a sua retificação empírica. Os objetos que
correspondem a cada modalidade de princípios são considerados
diferentes pelo menos do ponto de vista operacional. O sentido
do monismo anômalo de Davidson é, portanto, que eventos men-
tais são físicos mas que nenhuma lei correlata descrições fisicalistas
e descrições mentalistas.

$#
A MENTE EXTERNA

O realce dado ao conceito de normatividade em relação à capaci-


dade de atribuir atitudes proposicionais a criaturas também se en-
contra nos discursos sobre os problemas éticos. A idéia de que as
proposições éticas têm um caráter normativo em oposição ao cará-
ter descritivo ou explicativo das proposições sobre os fatos tornou-
se corriqueira. O nosso tempo parece ter superado definitivamente
a expectativa de fundar proposições éticas em inquéritos semelhan-
tes aos científicos. Esta superação é observada em vários autores.
Vamos tentar mostrar que uma destas vertentes é a que afirma que
as proposições éticas não têm fundamento, entendido no sentido de
“fundação racional”, baseada em premissas logicamente necessári-
as.
Seguindo o pensamento de Wittgenstein sobre a ética, Paul
Jonston, por exemplo, fala-nos da moralidade como uma reação
humana distintiva. Com isso, podemos entender que o jogo de
linguagem específico da moralidade tem regras próprias que não
se reduzem às regras dos jogos da ciência, das proposições sobre
os estados de coisas do mundo, sobre os nossos sentimentos pri-
vados e das que esboçamos diante do belo. As regras deste jogo
singular não têm pretensão de verdade, nem de verificação. As-
sim, não se diz de uma proposição ética que ela é verdadeira ou
falsa. Mas sim que é certa ou errada.
Esta característica específica justifica uma de suas afirma-
ções: também as proposições éticas carecem de fundamentação.
Elas só precisam do reconhecimento pelos indivíduos da exis-
tência de padrões alheios a sua vontade, que são essenciais para
a avaliação da correção das ações. Por isso, toda tentativa de
explicação da experiência ética fora do reconhecimento da
especificidade da reação ética é vista como uma forma de tentar
encontrar algo substancial que lhe corresponda em algum espaço
transcendente: algo universal, anterior e exterior à própria for-
mulação da proposição.

&%
MARCELO LAND

Assim, dizer que a moralidade é fruto de disposições humanas


essenciais, de sua natureza intrínseca, ou que não são válidas por-
que não encontram fundamento na realidade, é sem sentido, por-
que não reconhece a gramática própria destas proposições.
Porém, o reconhecimento desta especificidade não resolve
um problema que agora se apresenta: como descrever a
especificidade desta reação, o que a torna específica, e, de ma-
neira mais grave, como garantir o reconhecimento dos padrões
éticos? Embora a maioria destas questões possa parecer a Jonston
uma continuação da tentativa de encontrar fundamentos e bus-
car respostas substanciais para a experiência moral, pode-se
encontrar, na literatura atual sobre ética, uma preocupação com
suas respostas. A razão desta preocupação não é de ordem lógi-
co-formal. Não se trata somente de reconhecer que existe na
gramática da ética uma pedra fundamental (bedrock) – ou seja,
um nadir para além do qual toda discussão é uma busca de fun-
damentos. Para a maioria dos autores, a descrição da experiên-
cia ética em termos de contratos entre os concernidos, em ter-
mos de racionalidade intrínseca ao comunicar, ou em termos de
contingência histórica, não é considerada irrelevante ou mesmo
sem sentido. O problema destes autores é mostrar que, embora
os padrões éticos existam independente dos indivíduos, não há
como não descrever as relações que estes padrões mantêm com
a história da comunidade onde eles vigoram e sua contribuição
na regulação desta comunidade. Eles não acreditam que basta
denunciar as tentativas dos fundacionistas e universalistas, para
que se esteja engajado no discurso ético.
Em Richard Rorty, por exemplo, o problema é abordado
por uma via pragmática. Em primeiro lugar, a perspectiva do
autor não é argumentar contra o problema da fundamentação
dos julgamentos morais ou mesmo procurar para eles razões
históricas que lhes apontem a origem e assim determinar o seu

&$
A MENTE EXTERNA

valor. Sua estratégia é redescrever todas as condições que estão


envolvidas na relação do indivíduo com os seus julgamentos
morais.
Para que se possa entender suas formulações, é interessante
destacar a afirmação de Rorty de que o que os homens possuem
em comum é a capacidade de sentir dor, desde que esta proposi-
ção não seja utilizada para apontar para uma essência ou um eu
central anterior à história. A reiterada definição do liberal como
aquele para quem a crueldade é a pior coisa que se pode praticar é
tomada como índice de um processo contingente histórico, que
criou um tipo de sensibilidade moral, para qual não é possível ver
sofrer “um de nós”.
De fato, o apelo à contingência das nossas crenças não nos
desobriga de buscar um vocabulário estável para definir nossa
ética cotidiana. O aparente relativismo do pensamento pragmático
é descartado por Rorty ao mostrar que o termo relativismo só faz
sentido em um tipo de vocabulário, no qual se supõe existir cate-
gorias não-contingentes ou essenciais que pudessem definir o ser
humano. Para um filósofo que acredita neste tipo de categoria, a
proposta pragmática é apenas uma tentativa de negar a própria
idéia de fundamento de valores. Com esta negação, não haveria
mais critérios fundacionais para julgar a validade dos valores de
uma determinada comunidade. De certa forma, para Rorty, os
valores de uma comunidade não têm fundamento transcendente;
eles fazem parte dos signos que nos caracterizam como uma de-
terminada comunidade, são adquiridos contingencialmente, não
existindo fora desta rede de crenças, onde a sua definição é ex-
pressa.
A nossa tarefa inicial é entender como um pensador que acre-
dita na contingência do fato humano e que se opõe a quaisquer
tentativas de justificação de vocabulários morais finais em catego-
rias meta-éticas – ou seja, categorias que valham para todos os

&&
MARCELO LAND

homens em todos os lugares e todos os tempos – pode encontrar


uma expressão que tenta capturar algo que se considera comum a
todos.
Deve-se inicialmente retomar resumidamente a discussão que
Rorty empreende no seu recente artigo “Direitos do homem,
racionalidade e sentimentalidade”. Neste artigo, o autor pretende ter
como tema a declaração do jurista argentino Eduardo Rabossi, que
afirma que o fundacionismo dos direitos humanos está fora de moda.
Com isso, deve-se entender que a manutenção de uma cultura de
direitos humanos não carece de uma tentativa de fundamentá-los
em categorias transcendentais, que pudessem valer para todos os
homens em todos os tempos.
Os argumentos de Rorty são pragmáticos. Para ele, as tentati-
vas de fundamentar as intuições morais de uma sociedade em algo
superior ou externo a esta sociedade originaram-se das tentativas
de Platão de provar aos tiranos que havia vantagens em ser racio-
nal. Para isto, ele forjou a imagem de uma diferença de base entre
os “bípedes sem pena” e os demais animais, dividindo-os em ani-
mais racionais e irracionais. O atributo racionalidade passou a ser
concebido como o elemento comum entre os homens, capaz de
fundamentar as ações morais. Ao conceber o homem como um
animal que pode conhecer e sentir, Platão teria aberto espaço para
a sua concepção de que a reflexão de si poderia dar acesso a uma
parte mais verdadeira de si mesmo, mais essencial. O passo se-
guinte é dado por Kant, que transforma a divisão platônica entre
um verdadeiro e falso self em uma distinção entre obrigação mo-
ral rígida, ou transcendente, e interesses para si mesmo,
empiricamente determinados. Com isto, ele propôs que as intui-
ções morais de uma comunidade eram derivadas de uma disposi-
ção moral universal.
O poder da razão como capaz de deduzir estes princípios morais
transcendentais é o que é evocado como solução para a educação

&'
A MENTE EXTERNA

moral daqueles que teriam crescido sem princípios morais apropria-


dos. Com isto, o interesse filosófico ter-se-ia concentrado sobre as
figuras anômalas e raras dos “psicopatas”,– pessoas que não têm
interesse em nenhum ser humano, a não ser em si próprios.
Deste interesse resultou a negligência em relação ao caso bem
mais comum dos indivíduos que demonstram tratamento moral
irretocável em relação aos bípedes sem penas de seu círculo e são
completamente cruéis com os que não se assemelham a eles, por-
que os pensam como pseudo-humanos. Para Rorty, o fato de que
o fundacionismo não desperte tanto interesse hoje em dia, a não
ser por alguns poucos de seus resíduos, demonstra pragmatica-
mente que seus princípios básicos não têm valor prático. Assim,
ele propõe que estes autores tiveram um papel de passagem para a
evolução moral, que precisou da intervenção kantiana.
Para Rorty, Kant foi uma etapa intermediária entre um mundo
em que a racionalidade estava moribunda e uma visão de um mundo
novo e democrático, onde vigoraria o fenômeno do direito dos
homens. Ele propõe que o papel dos filósofos neste novo mundo é
o de sintetizar as intuições morais da comunidade, a fim de torná-
la autoconsciente, e, conseqüentemente, mais forte, e abandonar
os últimos vestígios da tentativa de fundamentar estas intuições.
Assim, propõe que, ao invés de uma tentativa de fundamentação,
deveria haver um investimento na educação dos sentimentos, que
pudesse fazer com que os bípedes sem penas de uma comunidade
vissem os bípedes sem penas de outra comunidade como “um de
nós”. Esta perspectiva humeana17 de que o apelo ao sentimento é a
melhor forma de educar moralmente os indivíduos, através de histó-
rias simples e tristes, é vista como a melhor saída para libertar o
pensamento liberal do ridículo da pretensão de que é a capacidade de
conhecer que marca a essência do que é ser um homem.
Rorty repete neste artigo o que tem sido motivo de insistência: os
valores morais carecem de fundamentação, porque são arbitraria-

&(
MARCELO LAND

mente produzidos por uma comunidade. Isto, porém, não implica


que não se possa afirmar que determinadas comunidades são supe-
riores moralmente a outras, embora esta constatação não seja
estabelecida por um processo de fundação racional. A ausência de
um ser transcendente que pudesse ser fiador deste julgamento é la-
mentado por todos os que pretendem fundamentar intuições morais.
Por isso, ao abandonar a vontade de fundamentar racionalmente as
intuições morais de uma comunidade, a tarefa moral da comunidade
dos direitos humanos de estender estes direitos aos demais bípedes
sem penas passa por uma educação sentimental, pela qual os homens
de outra comunidade não seriam mais vistos como inferiores do pon-
to de vista da razão. Eles seriam compreendidos como tendo nasci-
dos em condições desfavorecidas, longe da segurança e da compai-
xão. Rorty afirma que a ação necessária para pôr fim à crueldade é a
conversão dos mais fortes e poderosos, que detêm o poder da divul-
gação dos desrespeitos aos direitos do homem e o poder político para
deter os genocídios. Esta conversão deve ser veiculada por sentimen-
tos que são incentivados pela capacidade de tornar estes homens
massacrados mais semelhantes a nós.
Partindo então destas premissas pragmáticas, poder-se-ia ques-
tionar o sentido de procurar obter uma imagem de sujeito moral,
concebido segundo um modelo naturalista não-reducionista. Se
este livro parte do pressuposto de que fundamentar racionalmente
proposições éticas não faz sentido, porque esta fundamentação
não reconhece a especificidade da reação ética, temos de expor os
motivos desta proposta naturalista, antes de iniciar a exploração
dos conceitos da obra de Daniel Dennett.

Parte II
Em primeiro lugar, apresentaremos algumas das características
do que é chamado naturalismo pragmático, algumas das quais
Dennett certamente compartilha. Em Philosophical Essays in

&)
A MENTE EXTERNA

Pragmatic Naturalism, Paul Kurtz nos apresenta uma síntese


conceitual do pensamento naturalista americano. Esta síntese está
contida no primeiro ensaio denominado “Pragmatic Naturalism in
Americam Philosophy”. Nós traremos os principais pontos desta-
cados pelo autor para o contexto deste livro, para mostrar como
Daniel Dennett pode ser visto como um legítimo representante
desta corrente de pensamento e como boa parte de suas teses são
suas repercussões mais contemporâneas.
Para Paul Kurtz, o naturalismo pragmático é o herdeiro do que
ele chama “a Idade de Ouro da filosofia americana”, tendo sofrido
influências de várias correntes, tais como: materialismo na
metafísica, empirismo e experimentalismo na epistemologia. Em-
bora existindo muitas diferenças em suas várias formas de apare-
cimento, ele pode ser definido em termos gerais como “a generali-
zação filosófica dos métodos e conclusões da ciência”.18 Foi um
movimento expressivo no século XX, tendo se originado de duas
fontes principais: o pragmatismo e o realismo, com contribuições
subseqüentes nos anos 30 do positivismo lógico. Esteve alinhado
ao materialismo, ao marxismo e ao humanismo durante este sécu-
lo. O seu maior expoente seria John Dewey.
Ele tem sido combatido desde o fim da Segunda Guerra Mun-
dial através da filosofia analítica, do existencialismo e da
fenomenologia, e vários naturalistas tentaram fazer modificações
nas suas formulações básicas para incorporar estas críticas.
Segundo o autor, são estas as características dominantes do
movimento:
1 – Compromisso com a ciência no sentido mais amplo: signifi-
ca adotar uma atitude metodológica em que os fenômenos devem
ser descritos e explicados em termos de causas e eventos naturais.
Isto tem sido interpretado pelos seus críticos como a assunção de
uma visão metafísica do universo. Esta crítica procura ser revidada
com a afirmação de que esta atitude é apenas um método e não

&*
MARCELO LAND

uma tentativa de abordagem ampla do universo e da realidade e não


teria nenhuma implicação ontológica. Outros naturalistas admitem
que sua metodologia pressupõe categorias de base e uma visão de
certos traços genéricos da natureza e do humano.
2 – Crítica aos sistemas metafísicos transcendentais: exibe des-
crença na existência de coisas como “o fundamento não cognoscível
do ser”, “essência divina”, “presença mística”, “causa teísta” ou qual-
quer outra superior ou além da capacidade humana de experimentar e
compreender. Os naturalistas acreditam que a visão metafísica
transcendental se origina de fundamentos pré-científicos ou não-cien-
tíficos, que a existência da causa teísta não foi confirmada segura-
mente e não satisfaz as condições metodológicas adequadas, que muitos
termos utilizados ao se falar sobre Deus carecem de significação
cognitiva e são incapazes de serem confirmados ou refutados.
3 – Postulação de que eventos e causas materiais são básicos
no universo, e que tudo o que se diz que existe tem, em algum
sentido, componentes ou constituintes materiais. Isto implicaria a
princípio que as ciências naturais teriam uma certa prioridade nas
nossas abordagens ao mundo.
4 – Não pretensão de ser reducionista: ao contrário do mate-
rialismo reducionista tradicional, que afirmava que só existiam par-
tículas materiais e que somente uma explicação reducionista era
suficiente para todos os casos. O naturalismo dos dias atuais reco-
nhece e insiste que a pluralidade e riqueza da natureza devem ser
admitidas e que muitos tipos de eventos, qualidades e proprieda-
des podem ser encontrados no mundo. Isto sugeriria um tipo de
contextualismo, pois se “propriedades naturais manifestam diver-
sidade, então a caracterização das coisas deve levar em conta as
várias formas com que as coisas são vistas funcionar em diferen-
tes contextos”19 .
5 – Isto tem como conseqüência o reconhecimento de que os
processos só poderiam ser entendidos em termos dinâmicos, por

&!
A MENTE EXTERNA

referência às suas origens históricas, destacando-se a importância


dos conceitos evolucionários e desenvolvimentistas.
6 – Existência de uma teoria singular da experiência: desprovida
de uma epistemologia no sentido usual, o naturalismo pragmático
possuiria uma “teoria da experiência, que não seria subjetivista, ou
seja, não se focaria em processos internos mentalistas, mas que
trataria processos psicológicos como formas de comportamento. Os
seres humanos seriam investigados pelo mesmo método científico
utilizado para os outros fenômenos, não tendo posição privilegiada
na ordem dos eventos. Ele seria visto como parte da natureza, sen-
do concebido, sob o impacto das idéias darwinianas, como um ani-
mal, produzido a partir de formas de vida mais simples através do
processo de evolução. Não seria necessário apelar para a criação
divina ou propósitos teleológicos para explicar suas características.
Segundo Paul Kurtz, uma das mais importantes conseqüências
da filosofia naturalista da natureza humana e da biologização das
funções humanas é a produção de novas interpretações sobre a
“consciência” e outras propriedades mentalistas do Homo sapiens.
Willian James teria visto a consciência como uma função e não
mais como uma substância. Dewey teria dado o devido destaque
ao impacto do pensamento darwinista, e teria formulado suas con-
seqüências num campo de pensamento muito caro ao pensamento
filosófico atual: Para Dewey a destruição do dualismo entre ho-
mem e natureza ou mente e corpo é o resultado inevitável: todo
conhecimento deve ser considerado como instrumental para o ser
humano, como meio pelo qual ele pode resolver problemas práti-
cos.20
Nesta visão, o homem é concebido como um campo de interação,
e não mais como uma ruptura com o seu ambiente. Todas as funções
humanas são relacionadas com este campo, que incluem objetos e
objetivos. Entre elas, contam-se a respiração e a digestão, que não se
podem processar sem causas biológicas e físico-químicas, mas tam-

&"
MARCELO LAND

bém funções psíquicas, como pensamento e sensações. Assim, os pro-


cessos intelectuais e conscientes estão em continuidade com outros
processos biológicos e têm causas e efeitos no mundo.
7- Concepção de metodologia científica: esta seria diferente do
que geralmente se define como ciência em filosofia. Ela está em
continuidade com a teoria da experiência e de linguagem adotadas
pelos naturalistas. A ciência para eles seria uma forma de se com-
portar, de agir e de investigar, e não o corpo fixo do conhecimen-
to. Compreende-se mais o que seja ciência ao se observar o pro-
cesso de investigação (inquiry) científico, do que ao se examinar
seu produto. O método científico também não é visto como sendo
dado somente aos iniciados no “culto” da ciência, ele é uma conti-
nuação dos procedimentos e conduta utilizados na vida cotidiana.
É, no máximo, uma extensão mais ou menos sofisticada do que o
homem comum usa para resolver problemas do dia-a-dia.
Os naturalistas adotam em geral dois critérios básicos em sua
metodologia científica.
A – Critério da verificação:
Se uma hipótese, proposição ou crença é autorizada (warranted 21),
deve ser experimentalmente verificada direta ou indiretamente por refe-
rência a uma série de observações empíricas.22
B – Critério da consistência:
Se uma hipótese, proposição ou crença é autorizada (warranted),
deve ser logicamente consistente com todas as outras crenças que
ela implica; se não, ou a crença em questão ou as outras crenças
com as quais ela é inconsistente devem ser eventualmente substi-
tuídas.23
Admite-se, no entanto, certa flexibilidade em relação a estes cri-
térios, já que a moderna metodologia científica é muito mais com-
plexa. Com Pierce, aceita-se que as crenças humanas devem ser
consideradas falíveis, na medida em que são sempre sujeitas à cor-
reção e suscetíveis à revisão. Elas, portanto, não são absolutas, mas

&#
A MENTE EXTERNA

somente prováveis, já que dependem sempre da sustentação nas evi-


dências atualmente disponíveis. Neste sentido, estas hipóteses devem
ser capazes de serem repetidas e reproduzidas publicamente, para
serem testadas por uma comunidade de investigadores, que se com-
prometem com as regras de objetividade científica.
Esta concepção implica um certo instrumentalismo, que aqui
deve ser entendido como: as hipóteses têm uma função instru-
mental e seu teste refere-se a sua habilidade de resolver proble-
mas práticos. Segundo Kurtz, a teoria do inquérito de Dewey
afirmaria que teorias são relacionadas à pratica e que “todas as
crenças são uma função das situações em que ocorrem”. 24 Nesta
perspectiva, uma hipótese seria aceita se ela ajudasse a resolver
uma situação problemática e indeterminada, se ela ajudasse a
suplantar este obstáculo e devolvesse a eficácia ao agir. Muitos
naturalistas, contudo, não aceitam a restrição da necessidade de
investigação ou de inquérito aos dilemas práticos, à falência de
nosso hábitos, e acreditam que este tipo de instrumentalismo
pode ser aplicado também a problemas puramente intelectuais,
sem que nenhum problema genuinamente prático tenha sido de-
tectado. Neste contexto, a tarefa da ciência seria formular hipó-
teses, cuja função instrumental seria a de satisfazer nossos pro-
pósitos e objetivos.
Os naturalistas evitam o uso de palavras como “verdadeira”,
preferindo utilizar hipótese “autorizada” (warranted), adequada,
ou testada. Isto porque o conhecimento não é apenas descritivo,
não havendo uma correspondência termo a termo entre teoria e
mundo. As hipóteses são convenientes, se elas executam seu pa-
pel efetivamente no processo de investigação (inquiry). Apesar
desta atitude holista e pragmática, não há uma crítica sistemática
do realismo. Na verdade, uma parte considerável dos naturalistas
é simpática a ele, no sentido de afirmar que existe um mundo
independente de nossos desejos e imaginações.

'%
MARCELO LAND

8 – Adesão ao que Paul Kurtz chama de Neo-behaviorismo.


Este Behaviorismo deve ser visto como uma estratégia de pesqui-
sa ou como um programa metodológico. Os Neo-behavioristas
evitam postular estados subjetivos separados e distintos do corpo,
tais como consciência, mente e self. Preferem concentrar-se em
interações observáveis. Também procuram não aderir a especula-
ções metafísicas sobre a natureza humana. Pretendem apenas in-
troduzir um conjunto de princípios reguladores para a investiga-
ção do homem.
Eles não seguem os programas de pesquisas dos antigos
behavioristas da linhagem pavloviana-watsoniana, nem da
skinneriana. Eles dedicam-se a áreas da psicologia anteriormente
consideradas proibidas – percepção, pensamento e motivação –, e
reconhecem muitas vezes a importância da introspecção neste cam-
po. Alguns de seus membros são receptivos às explicações intencio-
nais, holísticas, funcionalistas e motivacionais. Muitos são não-
reducionistas. Mostraremos aqui como estes aspectos não-
reducionistas dos neo-behavioristas são compartilhados por todo
um movimento. Dennett tem de ser visto dentro deste contexto,
tanto para ser aproximado deles, quanto para se mostrar o enorme
abismo existente entre sua abordagem e a de alguns deles.
Os neo-behavioristas são contrários à idéia de que existe uma
impossibilidade lógica de uma ciência natural do homem. Eles cri-
ticam toda uma série de pressupostos tradicionais no campo das
ciências humanas, tais como: usar o vestehen (compreensão), ex-
plicações teleológicas – compreendidas como em oposição a expli-
cações causais –, e o método histórico.
Para eles, explicações motivacionais têm um uso apropriado em
ciências sociais e psicologia. Vários eventos históricos, políticos e
econômicos também só serão explicados se se levar em conta os
planos e propósitos dos agentes humanos. Porém, o problema deles
é conceber uma forma de tratar motivos e intenções do ponto de

'$
A MENTE EXTERNA

vista behaviorista. Para muitos, estes motivos e intenções devem ser


compreendidos como variáveis intervenientes, podendo ser tratados
operacionalmente como tendências a agir. Além disso, explicações
motivacionais não seriam logicamente diferentes das explicações cau-
sais, já que ambas envolvem declarações disposicionais.
Com relação às críticas dos historicistas, os naturalistas e
behavioristas compartilham a tese de que eventos históricos são, a
princípio, explicáveis ao se fazer referência às condições gerais ou
às leis causais. Ao invés de se opor ao tratamento científico do
homem, a investigação histórica dependeria desta ciência para pro-
duzir generalizações e explicações.
Quanto ao problema do determinismo e das conseqüências
morais da utilização das explicações causais do agir humano, eles
podem ser definidos em geral como críticos do determinismo es-
trito, embora advoguem o que Kurtz define como princípio da
determinabilidade: “não existem razões a priori que nos impeçam
de investigar o comportamento e de determinar as explicações
causais aplicáveis.”25 Além disso, eles aderem freqüentemente a
um determinismo “fraco”, que interpreta causa como uma decla-
ração de probabilidade, tal como: dadas certas condições antece-
dentes, é muito provável que se siga tal evento. Este determinismo
fraco não impede a existência de uma teoria de tomada de deci-
são. Uma decisão pode ser analisada no contexto dos motivos, do
caráter e da personalidade de um ser humano, porém, isto não
invalida a possibilidade de explicações causais. Para muitos, para
se julgar uma escolha moral e responsabilidade não se deve aderir
ao livro da liberdade contra-causal, mas, ao contrário, este julga-
mento parece necessitar da verificação de uma certa ordem e re-
gularidade no caráter e conduta humanos, sem o que qualquer
veredicto e punição seriam sem sentido.
Estes neo-behavioristas, no entanto, não acreditam que seja
fácil, ou mesmo necessário, que se produza uma ciência natural

'&
MARCELO LAND

do homem. Eles são sobretudo contrários a argumentos a priori


que concluam contra esta possibilidade.
9 – Tentativa de definir se é possível contribuir para a formu-
lação de uma ética naturalista e uma teoria do valor.
Em geral, os naturalistas concordam que valores são relativos à
experiência humana. A natureza seria indiferente aos homens, não
expressando preferências e propósitos morais, exceto aqueles rela-
cionados aos organismos vivos. Assim, valores humanos seriam
essencialmente humanos. O naturalismo pragmático, em particular,
aceita esta tese humanista básica. Contudo, acredita que julgamen-
tos de valor são sujeitos à abordagem científica e empírica. No
século XX, os seus representantes têm se concentrado principal-
mente em questões relacionadas aos conceitos de valor e de apre-
ciação de valores (valuation), deixando de lado a filosofia ética e
moral. A palavra “valor” teria para eles um sentido mais amplo que
“bom” e “correto”, pois faria referência ao comportamento em ge-
ral. Os valores morais seriam uma parte do conjunto dos valores em
geral. O problema central de sua teoria de valor tem sido a questão
da validação ou da verificação dos julgamentos de valor, das apre-
ciações de valores e de avaliações. Discussões quanto à definição
do que é um valor raramente têm sido conduzidas.
A apreciação dos valores tem sido considerada uma forma de
conhecimento empírico, sendo passível de verificação empírica e
factual. Os naturalistas pragmáticos acreditam que julgamentos de
apreciação de valores que dizem respeito às preferências dos seres
humanos e suas normas sociais surgem de situações concretas da
vida, sendo, portanto, possível modificá-los ao se considerar a
série de fatos contidos nesta situação. Para Dewey, por exemplo,
estes tipos de julgamentos eram como hipóteses a serem testadas
em relação às condições das quais surgiram, aos recursos disponí-
veis e às conseqüências da ação. As teses ligadas ao conceito de
valor geralmente atestam que o que deve ser feito é sempre uma

''
A MENTE EXTERNA

função das circunstâncias particulares, e, portanto, depende do


tempo, do lugar, do agente envolvido na ação. Segundo Paul Kurtz,
as críticas que mais têm sido dirigidas aos naturalistas dizem res-
peito à possibilidade de tratar os julgamentos de apreciação de
valores em termos simplesmente factuais, e à possibilidade dos
julgamentos normativos poderem ser deduzíveis ou derivados de
premissas não-normativas. Na realidade, Kurtz pretende mostrar
neste livro que nos textos dos naturalistas pragmáticos havia a
insistência de que parte do que é dado na situação em estudo são
interesses, gostos, valores e normas que os homens possuem e
que qualquer julgamento normativo é sempre feito em termos desta
base valorativa. Contudo, eles acreditam que estes julgamentos
podem sempre ser modificados à luz da investigação da situação
factual completa, e que se tornam de direito somente após o fim
da investigação. Kurtz admite, no entanto, que a culpa da concep-
ção equivocada dos críticos do naturalismo pragmático deve ser
atribuída aos próprios naturalistas, em decorrência da falta de cla-
reza da exposição da sua posição. Apesar disto, o autor faz ques-
tão de assinalar que este tipo de tratamento do conceito de valor
teve papel influente em várias áreas da cultura americana.
Após termos exposto sucintamente as características deste
movimento filosófico, podemos retomar a discussão do por quê
obter uma imagem de sujeito moral concebido segundo um mode-
lo naturalista não-reducionista. Em primeiro lugar, devemos admi-
tir que o pragmatismo de Rorty deve boa parte de sua eficácia à
crítica naturalista dos vocabulários filosóficos tradicionais. Assim,
embora a proposta ética de Rorty pudesse ser vista como o resul-
tado de um raciocínio dedutivo, ela tem raízes amplas no natura-
lismo pragmático.
Com isto, não quero dizer que esta perspectiva funcione como
fundamento de um certo estilo de filosofar, mas admito que retecer
a rede de crenças não é uma atividade que possa ser realizada de

'(
MARCELO LAND

um ponto posto em seu exterior. O naturalismo aqui descrito e o


materialismo foram básicos para a criação da corrente de pensa-
mento pragmático moderno, podendo-se dizer que foi um ponto
dentro da rede, por onde fluíram muitas metáforas.
Então, poder-se-ia perguntar: qual a necessidade de se manter
a influência deste naturalismo, se sua participação no processo
filosófico que gerou a corrente pragmática atual foi apenas
contingencial? Se não há uma necessidade lógica que ligue natura-
lismo e uma concepção ética no estilo proposto por Rorty, ser-
nos-ia permitido abandoná-lo. O argumento faz sentido. Nada nos
obriga a que, ao falarmos de pessoas, utilizemos quaisquer con-
ceitos naturalistas, da mesma forma que, ao postular a
normatividade do conceito de sujeito moral, não estamos força-
dos a usar a metáfora da consciência de Descartes.
Tomando um outro rumo, também não acredito que apelar
para o etnocentrismo funcione como argumento, porque a visão
darwiniana da evolução não se tornou literal o suficiente para nos
fazer sentir sujeitos darwinianos com as suas conseqüências. Po-
der-se-ia propor, então, que se trata de escolher entre as várias
imagens de pessoalidades existentes em nossa cultura. De fato,
temos um vasto repertório a consultar.
Diante de uma pluralidade de escolhas possíveis, restaria de-
terminar se podemos encontrar critérios para fazê-las. De nosso
ponto de vista, estes critérios só poderiam ser etnocêntricos, ou
seja, a imagem escolhida deveria respeitar premissas, tais como:
elogiar a liberdade, conceituar a idéia de um sujeito capaz de
arbitrar livremente, ajudar a diminuir a crueldade, criar a espe-
rança de uma fraternidade universal etc. Mas, se sabemos pre-
viamente quais são os critérios válidos, por que usar quaisquer
recursos, exceto admitir sua validade para esta comunidade e,
como Rorty, apostar na sua propagação através de uma educa-
ção dos sentimentos?

')
A MENTE EXTERNA

A única resposta que julgamos cabível aqui, e que influenciará


a leitura de Dennett, é que enfatizar a imagem moral de um sujeito
descrito de um ponto de vista naturalista não-determinista pode
funcionar para educar sentimentalmente os indivíduos, da mesma
maneira que os livros edificantes e os poetas fortes26 . Pode-se
perguntar por que acreditar que os poetas e escritores sejam mais
persuasivos aos sentimentos que os cientistas e filósofos. Quem
mediu esta eficácia e com que metro? Quem acredita ainda que os
poetas falam ao coração, enquanto os cientistas à razão?
Porém, o argumento de Rorty em favor dos poetas tem um
mérito inegável. É como se ele reconhecesse que os cientistas já
falaram demais, e que a sociedade não percebeu o papel de seus
escritores e romancistas na constituição de sua maneira de ser, e a
eficiência de suas histórias tristes e cativantes. Ao defendê-los,
Rorty reconhece a dívida do preconceito cientificista.
Não acredito, no entanto, que haja uma política correta para
reparar o dano causado por este preconceito, a não ser reconhecer
o papel equitativo de todos – cientistas, filósofos e poetas – na
conversação da humanidade e na educação sentimental. Sendo
assim, este é o objetivo do livro:
“Investigar e justificar a possibilidade de uma imagem al-
ternativa de pessoa, definida de um ponto de vista naturalis-
ta”,27 desde que ela não pressuponha a fundamentação das pro-
posições éticas, mas apenas ajude a nos tornarmos
autoconscientes de alguns de nossos princípios éticos, nos quais
se inclui o respeito à vida dos indivíduos, exaltando conceitos
biológicos edificantes como o do respeito à biodiversidade.

'*
MARCELO LAND

Capítulo 1

Frentes de combates à
intrinsecalidade

O artigo “Holismo, intrinsecalidade e a ambição à transcendência”


(1993) de Richard Rorty foi publicado em uma coletânea de traba-
lhos críticos28 sobre o livro A consciência explicada, de Daniel
Dennett. A maioria dos argumentos de Rorty é dirigida ao conjunto
da obra de Dennett, podendo nos servir para discutir o tópico da
intrinsecalidade.
Rorty inicia o artigo se perguntando:
Quando é que achamos que uma explicação causal para ser
completa deve incluir enunciados acerca de X ou quando é
suficiente para tal explicar por que se acredita na existência
de X, uma vez que X está na linguagem? 29
Com a pergunta, Rorty revela duas possíveis posturas diante
da necessidade de dar explicações causais. Em uma delas, a teoria
explicativa só seria completa se, no seu vocabulário definitivo,
estivessem presentes proposições em que X aparecesse como elo
causal ou resultado de um processo causal. Isto seria dar a X um
estatuto ontológico próprio.
Na outra postura, uma teoria nova explicaria por que X parecia
existir. Esta teoria demonstraria que a crença na existência “real”
de X era derivada do uso do antigo vocabulário, que continha X.
Neste caso, a explicação causal completa nos termos da nova teo-
ria não mais incluiria X como um de seus elos.
Rorty acha que foi esta segunda via que Nicolau Copérnico
tomou. Ele não precisou explicar o movimento do sol, porque foi

'!
A MENTE EXTERNA

suficiente demonstrar por que o sol parecia se mover. O resultado


prático dos trabalhos do astrônomo foi o abandono das proposi-
ções em que “o movimento do sol” aparecia, tomando parte ou
sendo resultado dos elos causais.
O que o autor pretende com o exemplo do astrônomo é sugerir
que, embora Dennett não tenha efetivamente explicado a cons-
ciência no seu livro, ele conseguiu explicar por que ela parece
existir. Isto é em si o passo teórico básico, e nada mais precisa ser
acrescentado. Os que insistem, no entanto, que sua explicação é
incompleta, porque não determina as causas da consciência, estão
se comportando como os filósofos aristotélicos do tempo de
Copérnico, exigindo-lhe que explique causalmente algo que ele
pretende mostrar que é um efeito de discurso, de interpretação,
que é um Abstractum.
A perspectiva de Dennett, segundo Rorty, é tentar explicar
por que nos parece que os dados fenomenológicos existem. Ao
atingir a explicação, comprovar-se-ia que “nós acreditamos que
existe fenomenologia, e em qualia, porque nós adotamos um
certo conjunto de metáforas para falar acerca de pessoas, do
mesmo modo que Aristóteles acreditou no movimento solar…”30
O uso destas metáforas produz falas sobre dados fenomenológicos.
Outras metáforas poderiam explicar o comportamento lingüístico
das pessoas sem ter necessidade de se referir a qualia. Pois, se-
gundo Rorty:
Como com os copernicianos, um revestimento filosófico-his-
tórico sobre nossa teoria, uma que explique por que as pes-
soas um dia falaram sobre coisas que nossa teoria não pre-
cisa mais falar, é tudo que é requerido. 31
É evidente que Rorty está descrevendo Dennett como respon-
sável por uma revolução conceitual na história da consciência do
ocidente. Ele vai tratar os seus opositores como filósofos arraiga-
dos a metáforas arcaicas, não querendo abandonar a ambição à

'"
MARCELO LAND

transcendência. Estes filósofos teriam como último recurso apelar


para as propriedades consideradas intrínsecas dos eventos men-
tais – ou seja, as propriedades que não podem ser explicadas de
maneira relacional –, para poder garantir a validade de seus anti-
gos vocabulários. Em suma, Rorty pretende mostrar que a “mente
é o último refúgio da intrinsecalidade”.32
Um dos focos de crítica é o filósofo Thomas Nagel, que não
acredita na validade de teorias sobre a consciência que não in-
cluam dados mentais, principalmente seus aspectos fenomeno-
lógicos e experenciais. Rorty afirma que o apego ao ponto de vista
da primeira pessoa é explicado pelo valor atribuído a um ponto de
vista que produza “conhecimento das propriedades intrínsecas e
não relacionais dos eventos mentais”.33 Se Nagel ou Searle acei-
tassem a premissa de que explicar as propriedades relacionais de
uma coisa fosse explicar a coisa em si mesma, eles perderiam a
argumentação. Portanto, eles precisam negar a premissa e afirmar
que existem propriedades intrínsecas em todas as coisas e que o
mental é definido essencialmente através delas. Não se poderia,
portanto, “reduzir o caráter intrínseco de um explanandum às ca-
racterísticas relacionais, que nos permitem evidenciar sua presen-
ça”.34 Eles afirmariam a existência de uma lacuna entre “acreditar
na evidência” e “concluir pela evidência”. No primeiro caso, esta-
ríamos diretamente em contato com a propriedade intrínseca do
evento mental, que, para Nagel, é a experiência da consciência.
No segundo caso, postularíamos a existência de consciência em
pessoas por seus comportamentos. A idéia é que no “acreditar por
evidência” estaríamos em contato com o fenômeno em si,
escrutando-o de perto.
Diante disto, Rorty lembra que, para holistas como ele e Dennett,
esta idéia de “escrutar o fenômeno” não faz sentido, já que pressupõe
a noção de propriedades intrínsecas e não-relacionais. Dennett teria
aceito a postulação wittgensteiniana de que, sem um estágio prévio na

'#
A MENTE EXTERNA

linguagem, a definição ostensiva não permite identificar (pick out)


uma entidade e que esta identificação por definição ostensiva depen-
de da existência de sentenças verdadeiras que a descrevam.
Os holistas, que Rorty define como “pessoas especializadas
em substituir propriedades intrínsecas por propriedades rela-
cionais”,35 concederiam ao opositor reconhecer a necessidade de
explicar tudo sobre o que as pessoas falam, o que significa, no
caso presente, propor uma explicação do qualia, “explicando por
que as pessoas falam de propriedades intrínsecas e não relacionais
da experiência da consciência”.36 Para Rorty, com esta proposta,
acrescentar-se-ia uma terceira opção na relação do sujeito com a
evidência: em vez de se pensar que o que Dennett faz é “concluir
por evidência”, deve-se vê-lo “reformando a evidência”.
Rorty acha, porém, que o contraste entre “concluir por evidên-
cia” e “reformar a evidência” não deveria ser ratificado por um
holista. Este contraste preserva ainda a oposição, criticada por
Quine, entre fato e linguagem, entre inferir um fato de outro e
mudar a descrição para o mesmo fato. Rorty diz que “holistas não
podem se permitir a distinção entre descrição e fato que esta su-
gestão supõe”.37 Isto seria, contrariando Wittgenstein, permane-
cer entre a linguagem e os fatos. Como diz Rorty:
Holistas podem somente se permitir questões como estas:
deve nossa explicação causal de como as coisas funcionam
incluir relações de X com Y, ou meramente uma explicação
da relação de X com o falar de Y? No caso em questão: deve
nossa explicação incluir as relações entre cérebro, compor-
tamentos e eventos no teatro cartesiano, ou somente rela-
ções entre cérebro, comportamentos e o falar acerca destes
eventos? 38
Rorty afirma que, quando um holista pergunta a um filósofo como
Nagel o que ele chama de intrínseco, ele responde de maneira circu-
lar: as propriedades intrínsecas são todas e somente aquelas que nós
sabemos que nunca poderemos eliminar através de uma explicação

(%
MARCELO LAND

(explain away). Ou seja, elas são propriedades que nós sabemos que as
coisas têm independente de nosso conhecimento de como descrevê-
las na linguagem .39 Rorty adverte que esta é uma definição um tanto
incomum, porque é epistemológica, isto é, define propriedade intrín-
seca em relação a nossa capacidade de conhecer e formular conceitos
através da linguagem. Normalmente, esperar-se-ia uma definição
metafísica, que tentasse falar diretamente dos objetos possuidores da
propriedade, tal como definir propriedade intrínseca como “proprie-
dade, cuja presença é necessária para que o objeto seja o que o
objeto é”. Porém, apesar de ser uma definição não “usual”, ela pode
ser discutida por holistas. Neste sentido, pode ser parafraseada a fim
de que lhe seja dado um sentido que o holista se sinta provocado a
discutir, e um sentido essencialista, que ele abandonaria de início.
Vejamos os dois sentidos:
1. O sentido essencialista seria parafraseado como “proprieda-
de necessária para a auto-identidade do objeto, uma auto-identi-
dade que ele possui independente de qualquer descrição particular
feita por nós”. Esta paráfrase apreende o sentido de intrínseco
que os filósofos não-holistas essencialistas pretendem alcançar ao
apelar para a definição epistemológica grifada. O holista daria como
resposta que a capacidade de identificar o que é idêntico a si mes-
mo, ou seja, discriminar a propriedade intrínseca de outras pro-
priedades relacionais é dependente de descrições, ou seja, “identi-
dade é sempre identidade sob descrição”.40
2. O sentido que os holistas poderiam aceitar discutir seria “pro-
priedade, cuja presença é necessária para a aplicação de uma certa
definição do objeto”. O problema é que os filósofos não holistas
essencialistas achariam que a definição não capta a relevância da
palavra “intrínseco”. O holista replicaria que o único sentido de
intrínseco válido é o definido acima em termos epistemológicos,
ou seja, “o que pressupõe a idéia não holista de uma apreensão
consciente (awareness) não-lingüística”.41

($
A MENTE EXTERNA

O problema desta proposição é que nela está implícita a distin-


ção não-holista da existência de duas áreas nitidamente separadas
do inquérito, a saber: a epistemologia e a metafísica. Como diz
Rorty:
A noção não-holista, antiverificacionista de que as coisas
têm uma essência real independente de nosso conhecimento
delas, uma noção compartilhada por Kripke e Nagel e
invocada por ambos em defesa do Cartesianismo, é requerida
para manter a distinção metafísica-epistemologia nítida – a
distinção entre objetos e sentenças verdadeiras acerca de-
les”.42
Esta distinção seria esmaecida com a adoção da postura holista,
já que “o holismo e o anti-essencialismo comum a Wittgenstein,
Quine e Sellars rompem com esta distinção ao dizer que o único
jeito de apreender um objeto é aquele em que a maioria das sen-
tenças sobre este objeto é verdadeira”.43 Como Rorty diz mais adi-
ante no artigo, “o objeto é o centro de gravidade de uma narrati-
va”.44
Assim, caso se admita que existem propriedades intrínsecas,
cujo conhecimento é independente da linguagem que as pessoas
usam, não se poderá mais pensar a heterofenomenologia como
um método neutro. Segundo Rorty:
os privilégios dos heterofenomelogistas de dizer a você so-
bre o que você estava realmente falando não é compatível
com a exigência de que o nosso conhecimento de alguma
coisa, da existência de qualia, por exemplo, é um conheci-
mento que não pode ser afetado ao se mudar o modo como
nós falamos, ao se abandonar as imagens que nós estáva-
mos previamente acostumados a desenhar com a lingua-
gem.45
Com isso, ele está dizendo a Dennett que o método só faz
sentido dentro de uma perspectiva holista, em que a distinção es-
quema-conteúdo tenha sido eliminada, e a necessidade de defini-

(&
MARCELO LAND

ção do objeto se esgota ao se determinar suas propriedades relacionais.


Deste ponto de vista, não existe um método “neutro”, porque
postulá-lo implicaria encontrar um ponto exterior à rede de crenças.
Rorty chega a propor que não faz sentido manter a discussão
entre Dennett e Nagel, pois isto seria semelhante a imaginar parti-
dários de Galileu, que são nominalistas, e partidários de Aristóteles,
que podem ser descritos como essencialistas, argumentando até o
convencimento de um dos lados.
A pergunta que Rorty fez no início do artigo não faz sentido do
ponto de vista da filosofia da ciência, porque “não há critérios a-
históricos livres de contextos, para os quais alguém possa apelar,
quando se é exigido mudar de um paradigma de explicações para
outro”.46
A ausência de critérios seria ainda mais evidente no nível
metafilosófico, em que perguntamos “se existe afinal alguma coisa
como propriedades intrínsecas, se qualquer atribuição de caracte-
rísticas a um objeto qualquer não é uma descrição implícita das
suas relações com alguma outra coisa.”47 Rorty diz que Wittgenstein
e Sellars acreditavam neste tipo de proposição. Para eles, por exem-
plo, “tornar-se consciente de qualia era o mesmo que aprender
como fazer julgamentos acerca dos qualia, um processo que en-
volvia relacionar qualia a não-qualia”.48
Nagel e outros filósofos não-holistas essencialistas devem negar
a exigência de que “só faz sentido dizer que alguém está ou não
usando um conceito corretamente em relação a um background de
possibilidade de acordo e desacordo identificável em relação aos
julgamentos que empregam o conceito.”49 Isto significa que “‘o
que existe’ ou ‘o que é verdade’ depende do que nós ‘podemos
descobrir ou conceber ou descrever de alguma forma através da
linguagem humana’”.50 Acreditar nestas proposições é “desistir do
que Nagel chama de ambição à transcendência.”51 Para Nagel, po-
rém, renunciar a esta ambição é sinal de degeneração espiritual.

('
A MENTE EXTERNA

A argumentação no artigo prossegue com uma crítica ao rea-


lismo residual de Dennett. Rorty adverte-o implicitamente que a
presença deste resíduo demonstra uma não-assunção completa
dos preceitos holistas, presentes em sua obra. Neste livro, não
nos deteremos nesta crítica, nem na contra-argumentação de
Dennett. O que nos interessa é a idéia proposta por Nagel, e
resgatada com um sentido positivo por Rorty, de que deixar de
falar de propriedades intrínsecas com relação ao mental ou às
pessoas significa efetivamente abandonar a ambição à
transcendência, ou seja, abandonar a esperança de encontrar um
critério neutro, a-histórico, que nos ajude a definir a nossa
pessoalidade e dignidade humana. Para filósofos como Thomas
Nagel, este abandono seria por demais arriscado, demonstraria
degeneração espiritual. Para filósofos como Rorty, desistir desta
ambição permitiria reconhecer a contingência humana e definir a
pessoalidade pelas suas idiossincrasias e seus valores
etnocêntricos. Nesta perspectiva, Dennett teria o papel de de-
molir os últimos pilares do Cartesianismo, que, como vimos na
introdução, foi a base para a concepção de dignidade humana
moderna. Parece-nos inevitável, portanto, que Dennett viesse a
explicitar a visão ética que norteia seu trabalho. Esta visão é
baseada em um naturalismo darwiniano renovado, que, em nos-
sa opinião, descreve uma imagem de sujeito moral, que pode nos
ajudar a conservar boa parte das mais significativas intuições
morais de nossa sociedade.
A crítica à intrinsecalidade no terreno do mental nos parece fun-
damental, porque ao se abandonar a idéia de que há qualquer carac-
terística, propriedade ou dado intrínseco à pessoalidade é que estamos
verdadeiramente livres para optar por imagens alternativas de sujei-
tos. A contribuição teórica de Dennett para o problema mente-cor-
po e para esclarecer por que usamos a palavra consciência para
descrever o que se passa internamente em nosso cérebro não tem

((
MARCELO LAND

repercussões apenas internas no campo da psicologia cognitiva. Ela


é fundamental para provocar um movimento de distanciamento de
várias de nossas verdades mais solidamente arraigadas na nossa
maneira de falar sobre nossa pessoalidade. A seguir, pretendemos
discutir três frentes de combate à intrinsecalidade no pensamento
dennettiano.

1.1. Primeira frente: o problema da atribuição de crenças;


o realismo de Fodor e a estratégia intencional
dennettiana
No seu texto “Crentes em verdade: a estratégia intencional e o
por que ela funciona”, Daniel Dennett apresenta algumas conside-
rações iniciais sobre a prática de atribuir crenças e desejos. Em
primeiro lugar, torna evidente que esta prática nada tem de miste-
riosa, sendo corriqueira na vida cotidiana e autoconsciente em
algumas áreas das ciências, tais como nas ciências sociais. No
entanto, muitas vezes parece ser um “negócio (business)
imponderável e arriscado”,52 especialmente quando o que se tem
que atribuir é exótico, ou bizarro, ou quando se cogita a hipótese
de se atribuir crenças a animais não-humanos ou máquinas. Cada
uma destas atitudes – (1) o uso evidente e fácil que fazemos da
prática e (2) a desconfiança em relação aos critérios pelos quais a
aplicamos em diversos contextos – revela duas tendências básicas
em relação ao problema:
1- uma vertente realista, segundo a qual a prática de atribuir
crenças e desejos poderia ser facilmente confirmada ao se en-
contrar alguma coisa dentro da cabeça daquele que acredita
(believer’s head). Nesta visão, o que garante a validade da atri-
buição de crenças é o fato de haver algum tipo de representação
interna que no contexto em questão determina o conteúdo da
atitude proposicional do sujeito. Portanto, atribuir crenças e de-
sejos é um fato objetivo. Isto implica, em última instância, que o

()
A MENTE EXTERNA

cérebro se encontra em algum estado físico em particular. Jerry


Fodor é o representante desta tendência que iremos contrapor a
Dennett.
2- uma vertente interpretacionista, segundo a qual atribuir cren-
ças não é uma atividade que se diferencia da de se saber se uma
“pessoa é imoral, tem estilo na vida ou talento, ou se daria uma
boa esposa”. Como Dennett diz, diante destas questões “nós pre-
faciamos nossa resposta com ‘bem, tudo isto depende de em
que você está interessado’”.53 Se a matéria é relativa ou uma ques-
tão de interpretação, como afirmar que o ato de atribuição de crença
é um fato objetivo, ou determinar com precisão o referente interno
de crenças e desejos?
Como veremos, Dennett pretende se situar no meio do cami-
nho destas duas tendências, o que o tornará foco de críticas de
ambos os lados. Antes nos caberá esclarecer alguns pressupostos
da visão realista, revendo algumas das concepções de Fodor.
William Lyons, no seu livro Approaches to intentionality,
nos apresenta uma síntese bastante compreensível da obra de
Jerry Fodor. Esta síntese será utilizada aqui, com a intercalação
da discussão de alguns tópicos de artigos do próprio autor, ex-
plorando especialmente a vertente realista em relação às atitudes
proposicionais. Para Jerry Fodor, quando nós acreditamos, por
exemplo, que está chovendo agora, nossas cabeças contêm efe-
tivamente a proposição “está chovendo agora”, codificada no
cérebro em linguagem do pensamento (language of thought).
Para ele, o cérebro seria efetivamente um engenho semântico
impulsionado por estados intencionais. E estes estados intencio-
nais seriam uma espécie natural (natural kind), que o cérebro
real possuiria.
Pode-se dizer que este parágrafo resume as teses principais do
autor em relação ao problema. Caberia tentar explicar quais foram
as bases conceituais que lhe permitiram propô-las. Lyons nos rela-

(*
MARCELO LAND

ta que Fodor foi influenciado por Noan Chomsky, a ponto de


denominá-lo mentor intelectual de Fodor.
Chomsky propõe em resumo que diferentes linguagens fazem
uso de operações formais muito similares na geração de sentenças
gramaticais ou bem formadas. Isto sugere que todas as linguagens
humanas têm uma estrutura muito similar, compartilhando uma
gramática universal. Para Chomsky, a mais plausível explicação
para a universalidade desta gramática é que “a criança é genetica-
mente dotada com uma capacidade inata de se engajar em opera-
ções formais que lhe permitem aprender qualquer linguagem natu-
ral que é falada no ambiente no qual a criança nasceu”.54 Por isto,
pareceria razoável concluir que a gramática universal está esboçada
no cérebro humano. A capacidade lingüística seria espécie-especí-
fica e mais ou menos independente das capacidades intelectuais
humanas. Fodor concorda com todos estes pontos de vista
chomskyanos, criando uma visão de intencionalidade que Lyons
denomina de “a Chomsky-Fodor view”.
Para se entender o que é a linguagem do pensamento de Fodor,
precisamos compreender que este conceito está sendo descrito den-
tro do que ele chamou de psicologia especulativa em oposição a
uma filosofia da mente. Ele pretende desenvolver uma teoria que
explique fatos derivados de ciências empíricas, como a psicologia e
a lingüística. Para tal, parte da premissa fisicalista, de que a mente
é um aspecto do cérebro humano, e da funcionalista de que as
atitudes proposicionais (desejos, crenças, esperanças) descrevem
funções cognitivas dos humanos. Porém, ao contrário de Dennett,
que adota uma abordagem instrumentalista em relação a elas, Fodor
considera estas funções cognitivas no sentido literal: afirma que os
humanos não somente aparentam ter funções cognitivas interna-
mente, mas realmente as têm, ou seja, desejos e crenças estão efe-
tivamente representados no cérebro em linguagem de pensamento.
Assim, ele assume uma postura realista em relação a atitudes

(!
A MENTE EXTERNA

proposicionais, procurando descrever o mecanismo através do qual


o cérebro é capaz de exercer suas funções cognitivas. Este meca-
nismo deve ser computacional,55 e a principal tarefa da psicologia
especulativa seria descrevê-lo.
Uma das conseqüências da postura realista de Fodor é sua
asseveração de que a intencionalidade do homem é primária, ori-
ginária e intrínseca, em suma, uma característica real do cérebro.
Assim, a linguagem exibe uma intencionalidade derivada ou se-
cundária, pois, segundo Lyons, para Fodor:
Linguagem é intencional apenas em um sentido secundário, pois
ela é intencional somente na medida em que algumas das senten-
ças, que nós usamos nas nossas linguagens naturais, descrevem
características (feactures) reais das nossas próprias mentes ou
das dos outros. É este fato que nos leva, ao produzirmos nossas
linguagens naturais, a gerar dentro destas linguagens um vocabu-
lário especial, que envolve verbos que são empregados para ope-
rar sobre um conteúdo proposicionalmente encapsulado”.56
Por esta interpretação, Fodor propõe que nossa forma de conce-
ber estados psicológicos como atitudes proposicionais tem um
substrato real na forma como o cérebro manipula, através do me-
canismo computacional, as representações codificadas em lingua-
gem do pensamento. Assim, ao dizer-se que “João acredita que
vai chover”, que “ele teme que vai ficar resfriado caso tome chu-
va” e por isto “ele decide que vai sair de casa com um guarda-
chuva e levar uma aspirina”, deve-se pressupor que exista repre-
sentado no cérebro cada um dos conteúdos proposicionais
encapsulados, ou seja, “que vai chover”, “que vai ficar resfriado
caso tome chuva”. A ação realizada como conseqüência do
silogismo prático descrito deve ser vista como resultante de uma
operação computacional sobre as representações destes conteú-
dos proposicionais, codificadas em linguagem do pensamento, pos-
sibilitando a escolha entre vários cenários comportamentais igual-
mente representados, tais como “que vai sair de casa com um guar-

("
MARCELO LAND

da-chuva”, “que vai levar uma aspirina”, “que vai usar galocha”,
“que não vai sair de casa” etc.
Portanto, nos diz Lyons, “o cérebro deve ter uma linguagem
do pensamento na qual os conteúdos proposicionais de crenças,
desejos, temores e outras atitudes proposicionais são primeiro re-
presentados, e, então, operacionalizados ou processados de manei-
ras diversas, que irão formar atitudes proposicionais diferentes”.57
Esta espécie de cálculo realizado sobre as representações dos con-
teúdos proposicionais possibilita que um mesmo conteúdo possa
resultar em atitudes proposicionais diferentes, tais como utilizar o
conteúdo “que chova” para produzir “João acredita que chova”,
“Mário teme que chova”, “o sertanejo espera que chova”. E, “por-
que a computação só pode ser realizada após as informações ou os
conteúdos serem codificados em formas computáveis, não pode
haver computação sem representação”. 58 Este sistema represen-
tacional é a linguagem do pensamento compreendida como lingua-
gem do cérebro, ou seja, estados neurológicos que representam e
têm conteúdo.
Neste sentido, segundo Lyons, Fodor não está de acordo com
Chomsky, já que, para este autor, a linguagem do pensamento
não é diferente da linguagem natural, cuja aprendizagem é possi-
bilitada pela gramática universal. É esta gramática que nos capa-
cita a aprender linguagens naturais, e não uma linguagem para
representar conceitos, ou conteúdos de atitudes proposicionais.
Fodor acredita, por outro lado, que exista uma linguagem do
pensamento cerebral, através de cujos termos nos é permitido
pensar e, ocasionalmente, expor publicamente através de pala-
vras e ações os resultados dos processos computacionais sobre
esta linguagem. Assim, ao contrário de Chomsky, ele acredita
em uma linguagem ou um sistema representacional real inato,
que é a base para a nossa capacidade universal de exercer nos-
sas funções cognitivas.

(#
A MENTE EXTERNA

Esta descrição resumida do que é a linguagem do pensamento de


Fodor revela a aplicação de determinadas condições a priori do que
ele chamou, no artigo “Atitudes proposicionais”, uma psicologia
cognitiva, que se baseie em atitudes proposicionais. Estas condi-
ções são:
1- “Atitudes proposicionais devem ser analisadas como rela-
ções”.59 Uma atitude proposicional do tipo “João acredita que está
chovendo” indica uma relação entre João e alguma coisa e que um
token desta sentença é verdadeiro se e somente se João está numa
relação de crença com alguma coisa.
2- “Uma teoria das atitudes proposicionais deve explicar o
paralelismo entre verbos de atitudes proposicionais e verbos do
dizer (condição de Vendler)”.60 Geralmente as coisas que nós pode-
mos dizer acreditar são as mesmas coisas que nós podemos dizer
afirmar. Assim, podemos dizer que acreditamos que está chovendo,
bem como que afirmamos que está chovendo.
3- “Uma atitude proposicional deve levar em conta sua opacida-
de (condição de Frege)”.61 Fodor propõe que, embora ele tenha
dado relevo à analogia lógico-sintática entre os complementos das
orações de crenças e os das orações declarativas, existe uma
dissimetria básica entre elas: as primeiras são opacas às operações
inferenciais para as quais as últimas são transparentes. Isto pode
ser parafraseado dizendo-se que sentenças, que expressam atitudes
proposicionais, são intensionais-com-s. Isto quer dizer que elas
deixam de satisfazer certos testes de extensionalidade, tais como a
propriedade de substituir os idênticos e a generalização existencial.
Assim, ao se dizer que Édipo desejava que Jocasta se casasse com
ele, não se pode substituir o conteúdo proposicional “que Jocasta
se casasse com ele” por um conteúdo idêntico do ponto de vista
extensional como “que sua mãe se casasse com ele”. Pois, ao se
fazer a substituição do conteúdo proposicional na frase, está-se atri-
buindo uma atitude proposicional falsa a Édipo, já que, como a tra-

)%
MARCELO LAND

gédia demonstrou, ele não queria se casar com a mãe. Porém, ao se


afirmar que Édipo se casou com sua mãe ou com Jocasta, ambas
as frases têm o mesmo valor de verdade. Isto decorre do fato,
ressaltado por Searle,62 que as frases do tipo “x acredita que p” são
representações de representações, ou seja, que o valor de verdade
deste tipo de frase é dependente das condições de satisfação do
verbo que antecede o conteúdo proposicional. A frase “Édipo que-
ria que Jocasta se casasse com ele” seria falsa somente se Édipo
não quisesse se casar com Jocasta. Por outro lado, o valor de ver-
dade do conteúdo proposicional deste tipo de frase não contribui
para o valor de verdade da frase, já que se pode dizer que o valor de
verdade da frase “uma criança acredita que Papai Noel existe” não
depende do fato de existir ou não Papai Noel.
Ao querer respeitar esta condição, Fodor vai acabar por afirmar
o realismo dos conteúdos proposicionais estreitos (atitude sentencial),
tomados, portanto, apenas no seu aspecto intensional-com-s, para
caracterizar a contribuição do organismo nas atitudes proposicionais
dos indivíduos. Ele defenderá para tal uma atitude metodológica
denominada solipsismo metodológico, que consiste em abstrair o
indivíduo do seu ambiente para poder avaliar qual a sua contribui-
ção na produção dos estados psicológicos. Com isto, ele pretende
demonstrar que o que caracteriza estes estados psicológicos são os
conteúdos proposicionais tomados na sua intensionalidade. Não se
pode descrever estes estados psicológicos em relação à proposição,
porque ela tem um compromisso com a extensionalidade.63 Assim,
por exemplo, se duas pessoas, digamos João e José, compartilham
o conteúdo estreito “a pedra vai me atingir”, ambos irão tentar se
desviar da pedra, embora ambos tivessem apreendido proposições
diferentes. José teria apreendido “a pedra vai atingir José”, e João,
“a pedra vai atingir João”. Suponha agora que José tivesse o se-
guinte conteúdo estreito “eu estou prestes a ser atingido pela pedra”
e João, o conteúdo “José está prestes a ser atingido pela pedra”.

)$
A MENTE EXTERNA

Somente José tentaria se desviar da pedra. Neste caso, ambos com-


partilham a mesma proposição “José está prestes a ser atingido pela
pedra”, embora difiram em relação ao conteúdo estreito.
4- “Os objetos da atitude proposicional têm forma lógica (con-
dição de Aristóteles)”.64 Com isto, Fodor chama a atenção de que
os estados mentais, especialmente os chamados de atitudes
proposicionais, interagem causalmente. Isto sugere que se deve
considerar as ações das pessoas como silogismos práticos nos
quais as razões, que se consideram justificar as ações, são real-
mente as causas das ações. Assim, por exemplo, lembremos o
silogismo exposto acima, o do rapaz com medo de pegar um res-
friado ao tomar chuva. As razões atribuídas ao fato de pegar o
guarda-chuva e a aspirina ao sair devem ser vistas como as cau-
sas de fato do seu comportamento. Fodor pretende propor que se
possa formalizar estas relações de modo a produzir generalizações
do tipo:
Se x acredita que A é uma ação que x pode executar, e se x
acredita que a execução de A é suficiente para desencadear Q, e
se x quer que seja o caso que Q, então x age de forma intencio-
nada a se ter a execução de A.65
Em suma, Fodor conclui:
Nossas generalizações psicológicas de senso comum relacio-
nam estados mentais em virtude de seu conteúdo, e a represen-
tação canônica faz o que pode para construir estas relações de
conteúdo como relações de forma. 66
5- A teoria tem de ser plausível do ponto de vista empírico. Ela
deve poder explicar os fatos produzidos por outras ciências empíricas
ou pela psicologia popular (folk’s psychology).
Não iremos nos deter neste momento em tentar mostrar como
cada uma destas condições é satisfeita na teoria da linguagem do
pensamento de Fodor, já que o nosso objetivo é tomá-lo como
exemplo do realismo com relação à atribuição de atitudes

)&
MARCELO LAND

proposicionais. Passaremos agora para a abordagem instrumenta-


lista de Daniel Dennett.
Dennett parte de premissas semelhantes às de Fodor. Ele é um
fisicalista e, de certa forma, um funcionalista. Compartilha a con-
vicção de que a psicologia popular é uma boa teoria preditiva de
comportamento. Porém, parte de uma postura instrumentalista,
que concebe que a atribuição de crenças e desejos pode ter valor
preditivo, embora eles não estejam representados no cérebro. Para
entendermos sua concepção, iremos percorrer algumas de suas
propostas sobre a atitude intencional.
No seu artigo “Crentes em verdades: a estratégia intencional e
por que ela funciona”, ele diz que a atitude intencional é uma
estratégia preditiva e que ela funciona. É preciso descrever como
ela funciona e justificar por que ela funciona. Em primeiro lugar,
Dennett propõe que existam diversos tipos de estratégias que pre-
tendem prever comportamentos. Essencialmente, elas podem ser
classificadas em boas ou más. As boas teorias são aquelas que
conseguem prever o comportamento dos objetos em foco, obten-
do informações e demonstrando poder preditivo em situações re-
lativamente complexas. As estratégias, como a astrologia – que tra-
ta as pessoas como sistemas astrológicos –, são por demais vagas
e ambíguas para serem levadas a sério. Assim, uma boa teoria é
julgada ao se considerar o que o estrategista está ganhando em
termos de poder preditivo. Neste sentido, existem boas teorias
como a estratégia fisicalista, que pretende tratar os objetos como
sistemas físicos, prevendo o seu comportamento ao analisar os seus
constituintes físicos, até mesmo microfísicos. Dennett reconhece
a validade da estratégia, mas admite que, apesar do sonho de Laplace
de um dia poder prever os destinos dos universos, considerando
somente variáveis físicas, esta estratégia tem apenas uso restrito a
alguns laboratórios de pesquisa e situações técnicas. No entanto,
em princípio, as ciências físicas aceitam o dogma de Laplace.

)'
A MENTE EXTERNA

Algumas vezes, é necessário lançar mão de um outro tipo de


estratégia para se alcançar um poder preditivo razoável. Este outro
nível estratégico, chamado de estratégia do design,67 funciona con-
siderando o objeto como tendo sido planejado, e que, levando em
consideração este plano ou design, pode-se prever muitos compor-
tamentos, devendo-se concebê-lo como tendo sido planejado para
se comportar de determinada forma em determinadas circunstânci-
as. Nesta estratégia não se atenta para os constituintes físicos do
sistema.
E, finalmente, ele se detém na estratégia intencional, dizendo
que certos comportamentos só são previstos de forma adequada
quando se considera o agente um sistema intencional dotado de
crenças e desejos.
Em relação às três estratégias consideradas, Dennett adota o
ponto de vista de que, se uma estratégia funciona, então, pode-se
considerar o seu objeto como um sistema capaz de ser descrito
por esta estratégia – o que faz dele um defensor de uma posição
interpretacionista. No entanto, ao se verificar a validade preditiva
da estratégia adotada, Dennett acha que se deve admitir a existên-
cia real de padrões que expliquem por que ela funciona – o que
faz dele um tipo de realista. Mais adiante nos deteremos neste
ponto, mostrando a diferença conceitual entre Illata e Abstracta,
que lhe é tão cara.
Iremos agora descrever o que é a estratégia intencional e de-
terminar o que é adotar uma atitude intencional (intentional stance)
em relação a um objeto. Esta atitude implica considerar o objeto um
agente racional dotado de crenças e desejos, segundo determinadas
regras:
1ª regra – Atribuir como crença todas as verdades pertinentes
relativas aos interesses (ou aos desejos) do sistema que a expe-
riência do sistema em relação ao seu ambiente tornou disponível
até o presente momento. Isto significa atribuir um conjunto de

)(
MARCELO LAND

crenças verdadeiras a um objeto. Surgiria, então, o problema de


como explicar a atribuição de crenças falsas. Deve-se presumir
que este tipo de atribuição depende da idéia da existência de cren-
ças verdadeiras principais. A falsidade tem de começar em al-
gum lugar no processo de formação de uma crença supostamen-
te verdadeira: seja porque o agente faz um erro perceptivo, acre-
ditando estar certo a respeito de sua crença, seja porque alguém
lhe transmite uma informação falsa, como sendo uma crença
verdadeira.
A atribuição das crenças obscuras e sofisticadas também é pro-
blemática, já que, segundo Dennett, são aquelas sobre as quais
freqüentemente repousam as discussões do problema de atribui-
ções de crenças. Elas em geral também são atribuídas a partir de
uma massa de crenças verdadeiras já atribuídas. Assim, uma das
implicações da estratégia intencional é que indivíduos capazes de
terem verdadeiramente crenças crêem principalmente em verda-
des.
2ª regra – Atribuir ao sistema desejos que ele deveria ter. O
que é, na verdade, transpor a primeira regra para a atribuição de
desejos. Isto significa atribuir desejos gerais: desejo de sobre-
viver, de evitar a dor, de nutrição, de procriação, de diverti-
mento. Segundo Dennett, é “ao citar um destes desejos que po-
mos fim tipicamente ao perguntar ‘por que?’ nos jogos de dar
razões”.68
3ª regra – Atribuir desejos de coisas que um sistema crê que
sejam boas para ele. A atribuição de desejos bizarros e prejudiciais,
assim como a de crenças falsas, requer esta atribuição de uma quan-
tidade de desejos supostamente bons.
Dennett admite que a interação entre desejos e crenças se tor-
na mais complexa à medida que se considera quais desejos serão
atribuídos com base no comportamento verbal de criaturas capa-
zes de usar linguagem. Determinados desejos muito específicos

))
A MENTE EXTERNA

só podem ser atribuídos a seres capazes de esboçar comportamen-


tos lingüísticos.
Porém, ao se perceber a importância da capacidade lingüística e
das forças sociais neste processo, não se deve perder de vista que
isto é apenas um caso especial na possibilidade mais geral de atri-
buir crenças e desejos. Não é necessário propor que estes tipos de
crenças e desejos, que formulamos como sentenças gramaticais,
estejam realmente representados em alguma parte do sistema na
forma proposicional. Segundo Dennett:
sendo criaturas que usam linguagem, é inevitável que devamos
freqüentemente chegar a acreditar que alguma sentença parti-
cular, realmente formulada, soletrada e pontuada seja verdadei-
ra, e que, em outras ocasiões, devamos chegar a querer que uma
sentença se torne verdadeira, mas estes são casos especiais de
crença e desejo e como tal podem não ser modelos fidedignos
para todo o domínio.69
Todas as três regras partem da perspectiva de que o sistema
funciona com uma racionalidade ideal, demonstrando crenças e de-
sejos que deveria ter para otimizar sua sobrevivência, acreditando
em todas as implicações de suas crenças e crendo-as não contradi-
tórias entre si. Esta atribuição de racionalidade ideal é retificada de
acordo com as circunstâncias, mas deve ser vista como o que jus-
tifica a aplicação das regras acima e como passo imprescindível
para a atitude do intérprete.
Dennett acredita que a atitude intencional que propõe é usada
por todos no dia-a-dia. Ela não é só aplicada a pessoas e seres
vivos, mas freqüentemente é usada por técnicos para prever com-
portamentos de engenhos mecânicos e fenômenos naturais, quan-
do a estratégia fisicalista e a do design não demonstram poder
preditivo. Como nos relata Dennett:
Uma vez, um eletricista me explicou como ele determinava como
proteger a minha bomba d’água subterrânea de danos causados
por relâmpagos: o relâmpago, dizia ele, sempre quer encontrar a

)*
MARCELO LAND

melhor forma de atingir o chão, mas algumas vez ele é enganado,


tomando uma segunda via melhor. Você pode proteger a bomba
fazendo uma outra via melhor e mais óbvia para o relâmpago70 (os
grifos são nossos para evidenciar o uso do vocabulário inten-
cional).
O fato de se poder aplicar a estratégia intencional a qualquer
objeto não justifica o seu uso indiscriminado. O sentido da sua
aplicação é sempre aumentar o poder preditivo do intérprete, e,
portanto, tem mais valor quando não se pode prever o compor-
tamento do objeto por outros métodos. Isto implica que, se não
há diferença in natura entre as diversas estratégias, pode-se ar-
gumentar que a adoção da estratégia intencional é apenas reflexo
de nossa incapacidade como cientistas, prova de nossa “fragili-
dade epistêmica”.71 Ele imagina que um superfísico laplaciano
poderia dispensar a estratégia intencional, e, diante da sua atitu-
de fisicalista, nenhum objeto (artefatos, criaturas ou pessoas)
poderia ser considerado um crente (believer). Se é assim, Dennett
pergunta:

Não seria intolerável certificar que algum artefato ou criatura ou


pessoa era um crente (believer) do ponto de vista de um obser-
vador, mas não mais do ponto de vista de um outro observador
mais esperto? Isto seria uma versão particularmente radical de
interpretacionismo, e alguns têm pensado que eu o adoto ao
exortar que a crença seja vista em termos do sucesso da estraté-
gia intencional. Eu devo confessar que minha apresentação des-
ta visão tem algumas vezes provocado esta leitura, mas agora
quero desencorajá-la. A decisão de adotar a atitude intencional é
livre, mas os fatos acerca do sucesso ou falha da atitude, (…),
são perfeitamente objetivos.72

Então, se a estratégia intencional funciona, devem haver pa-


drões reais que justifiquem sua eficácia, embora só saibamos de
sua existência após verificarmos o sucesso da atitude intencional
e declararmos que um determinado objeto é um sistema intencio-

)!
A MENTE EXTERNA

nal. Ao se utilizar uma estratégia preditiva em lugar da outra, per-


de-se alguma coisa, mesmo que se ganhe em precisão. Isto que se
perde aponta para uma propriedade do objeto, algum padrão que
está no objeto. Neste sentido, Dennett é um realista.
Para ilustrar seu ponto de vista, ele nos propõe uma experiên-
cia de pensamento: uma espécie de competição entre um terrestre,
que adota uma atitude intencional, e um marciano, que é quase um
demônio de Laplace e domina um método fisicalista perfeito. Eles
medem a eficácia de suas estratégias preditivas em relação ao com-
portamento de um homem, que vai levar o chefe para jantar em
sua casa e sua esposa lhe pede por telefone para comprar vinho.
Não a reproduziremos na íntegra neste livro, nem reconstruire-
mos todas as implicações e sutilezas do raciocínio do autor. Em
resumo, como o marciano não conhece a linguagem humana, ele
terá de fazer cálculos numerosos para prever a seqüência dos acon-
tecimentos que o terrestre facilmente antevê. Dennett propõe que,
para o marciano, que não conhece a estratégia intencional, a for-
ma, mesmo que arcaica, e a facilidade com que o terrestre resolve
o problema podem parecer mágicas. Neste caso, apesar de não
ser perfeita, a estratégia intencional confere um poder preditivo
imenso ao intérprete e deve sua eficácia ao fato de existirem ver-
dadeiros crentes e padrões reais que podem não ser identificados
de um outro ponto de vista.
Em um outro artigo, “Três tipos de psicologia intencional”, es-
clarece que modelo de realismo poderia admitir. Será necessário
rever alguns aspectos da psicologia popular, segundo a visão de
Dennett. Ele acredita que a psicologia popular é uma boa teoria
preditiva, mas apenas afirmar isto é insuficiente. É necessário dar
alguma explicação para este fato. Ele acha que, por um lado, ela
funciona porque nós somos bem configurados pela evolução, e
que, quando utilizamos a psicologia popular, estamos trabalhando
como se tratássemos os objetos, sujeitos à interpretação, como

)"
MARCELO LAND

versões ideais de nós mesmos (como versões bem acabadas do


ponto de vista da evolução). Por outro lado, contudo, a evolução
somente não garante que tudo o que fazemos seja racional. Na
verdade, seria provável que houvesse “uma pressão evolucionária
positiva em favor de métodos ‘irracionais’”.73 Dennett mostrará
mais uma vez que a atitude intencional é sempre adotada com pro-
pósitos normativos para possibilitar a interpretação. Vejamos o que
ele nos fala:
Qualquer que seja o nosso grau de racionalidade, é o mito de que
nós somos agentes racionais que estrutura e organiza nossas
atribuições de crenças e desejos aos outros e que regula nossas
próprias deliberações e investigações. Nós aspiramos à
racionalidade, e, sem o mito de nossa racionalidade, os con-
ceitos de crença e de desejo estariam desenraizados. A psico-
logia popular, por conseguinte, é idealizada no sentido de que
ela produz suas predições e explicações dentro de um sistema
normativo: ela prediz o que nós vamos crer, desejar e fazer, ao
determinar o que nós devemos crer, desejar e fazer.74
Assim, ela é aplicada com finalidades normativas e não como
uma teoria descritiva de uma realidade suposta dentro da cabeça
dos seres vivos, ou nos mecanismos dos artefatos para os quais
ela funciona. Dennett propõe, então:
A psicologia popular é abstrata no sentido de que as crenças e
os desejos, que ela atribui, não são presumidos ser – ou necessi-
tam não ser – estados distinguidamente intervenientes de um
sistema interno causador de comportamento (voltarei a este pon-
to mais tarde). O papel do conceito de crença é correspondente
ao papel de centro de gravidade, e o cálculo, que conduz à predi-
ção, é mais parecido com o cálculo que alguém faz com um
paralelogramo de forças do que com o cálculo que alguém faz
com uma planta de alavancas e engrenagens internas.75
As crenças e os desejos e todo o vocabulário intencional da psi-
cologia popular servem para fazer cálculos e previsões. Esta utilida-
de é semelhante à do conceito de centro de gravidade, que ajuda a

)#
A MENTE EXTERNA

entender o equilíbrio dos corpos e a trajetória de projéteis, que,


mesmo se fragmentando durante o percurso, ainda têm o seu alvo
determinado pelo centro de gravidade do conjunto de suas partes.
Ao contrário, uma planta funciona como uma representação fide-
dignamente proporcional de algo que realmente ocorre no objeto.
Dennett usa a psicologia popular, após admitidas determinadas pre-
missas normativas, como um instrumento de medida, que não ne-
cessariamente retrata algo que ocorre e tem eficácia causal no seu
objeto de observação. Os realistas, como Fodor, usam a psicologia
popular como uma planta de algo que realmente ocorre e tem eficá-
cia causal no objeto, procurando entender o mecanismo de seu fun-
cionamento. Dennett deixa sua posição perfeitamente clara nesta
passagem:
A psicologia popular é assim instrumentalística de uma forma
que o mais ardente realista deveria permitir: pessoas realmente
têm crenças e desejos, em minha versão de psicologia popular,
do mesmo jeito que eles têm centros de gravidade e a Terra tem
um Equador. Reichenbach distinguia entre dois tipos de refe-
rentes para termos teóricos: Illata – entidades teoricamente
posicionadas – e Abstracta – entidades ligadas ao cálculo ou
constructos lógicos. As crenças e os desejos da psicologia
popular (mas nem todos os eventos mentais e estados) são
Abstracta.76
Assim, para Dennett, crenças e desejos são entidades ligadas ao
cálculo, enquanto para Fodor seriam entidades reais capturadas na
teoria. O que revela o realismo residual de Dennett é a sua necessi-
dade de encontrar Illata, que possam explicar a eficácia preditiva
dos Abstracta.
Esta tarefa é reservada ao que ele chamou de psicologia
cognitiva subpessoal. Esta psicologia tem a tarefa de explicar o
fato de o cérebro ser, do ponto de vista intencional e da biologia
evolutiva, um motor semântico, e, no entanto, como a fisiologia
e o senso comum demonstram, ser “um motor sintático que tudo

*%
MARCELO LAND

que pode fazer é discriminar entradas (input) por suas caracte-


rísticas estruturais, temporais e físicas, e deixar estas caracte-
rísticas ‘sintáticas’ de suas entradas governar suas atividades
inteiramente mecânicas. ” 77 Assim, a tarefa desta forma de psi-
cologia é
propor e testar modelos deste tipo de atividade – de reconheci-
mento de padrões ou de generalização de estímulos, de apren-
dizagem de conceitos, e da capacidade de resolver problemas –
que não somente produza um simulacro de uma genuína sensi-
bilidade ao conteúdo, mas que faz isto comprovadamente como
o cérebro das pessoas faz isto, exibindo o mesmo poder e a
mesma vulnerabilidade à decepção, sobrecarga e confusão. É
aqui que nós iremos achar nossas boas entidades teóricas, nos-
sas Illata úteis, e enquanto algumas delas poderão bem se asse-
melhar às entidades familiares da psicologia popular – crenças,
desejos, julgamentos, decisões – muitas certamente não irão. A
única similaridade que nós podemos estar certos de descobrir
nas Illata da psicologia cognitiva subpessoal é a
intencionalidade dos seus rótulos. Elas irão ser caracterizadas
como eventos com conteúdo, carregados de informação, sinali-
zando isto e ordenando aquilo.78
Neste trecho, está descrito a aposta realista de base de Dennett:
uma abordagem psicológica outra que não a psicologia popular
pode produzir as entidades teoricamente posicionadas, que são
necessárias para explicar por que o cérebro parece ser um motor
semântico. Acatar a proposta de Fodor seria aceitar uma teoria
causal a priori, e também concordar com as premissas represen-
tacionistas embutidas nesta teoria. Com a divisão entre Abstracta e
Illata, ele se mantém neutro em relação ao estatuto ontológico dos
últimos.
Para finalizar esta seção, discutiremos resumidamente a dife-
rença entre o conceito de intencionalidade da postura de Dennett,
que admite que toda intencionalidade é extrínseca, e o dos realis-
tas, para quem a intencionalidade do cérebro é primária e original.

*$
A MENTE EXTERNA

As bases da concepção de intencionalidade de Dennett são deri-


vadas das reflexões de Quine sobre a indeterminação da tradução.
Segundo o ponto de vista de Quine, o ato de traduzir frases abstra-
tas de uma língua para outra implica que ambas tenham um mesmo
significado. No entanto, como o significado de uma frase é o uso
desta frase na língua, o tradutor terá necessariamente de ter uma
teoria que permita atribuir às frases a serem traduzidas seus possí-
veis significados. Em suma, sua teoria deverá ser um conjunto de
hipóteses sobre o uso destas frases. Conseqüentemente, como o
uso é basicamente público, a teoria deverá conter pressupostos
quanto a crenças e intenções dos falantes da língua. Esta teoria, que
adota uma certa estratégia intencional, é provisória e sua validade é
testada empiricamente pela capacidade de prever comportamentos
lingüísticos. O que Quine vai chamar de indeterminação da tradução
é o fato de que várias teorias poderiam ser bem-sucedidas em pre-
ver estes comportamentos lingüísticos. Como mudanças de teoria
implicam mudanças nas atribuições de crenças e intenções, deve-se
conceber que há também indeterminação no ato de atribuir crenças
e intenções. A reflexão de Quine pode ser tomada como uma crítica
a um certo realismo e mentalismo na concepção do significado, que
pode ser extrapolada para a concepção de intencionalidade.
Antes de passarmos ao conceito de intencionalidade extrínseca
em Dennett, veremos como é a doutrina da intencionalidade in-
trínseca e seus pressupostos mentalistas. Vejamos a definição de
Dennett:
A doutrina da intencionalidade intrínseca ou original é a tese
segundo a qual, enquanto certos artefatos devem sua intencio-
nalidade a nós, nós temos uma intencionalidade original (ou in-
trínseca) que não é derivada.79
Nós, organismos humanos e talvez certos animais, possuiría-
mos intencionalidade não-derivada, portanto, originária de nós mes-
mos. Apesar da aparente simplicidade, o conceito é complexo, en-

*&
MARCELO LAND

volvendo o que Dennett chama uma pressuposição de uma compre-


ensão artesanal.80 Ela implica a metáfora de um atelier mental, onde
a compreensão é artesanalmente produzida por um processo in-
consciente de refinamento e transformação, que podemos chamar
de interpretação, com a matéria-prima da informação bruta. Neste
sentido, deve-se pressupor que somente o agente tem acesso privi-
legiado ao resultado desta produção, embora o processo em si pos-
sa permanecer inconsciente. É difícil avaliar a importância dos con-
textos para a produção dos atos intencionais e a da atribuição de
conteúdos intencionais aos agentes. Nesta perspectiva, a importân-
cia do contexto é basicamente relacionada ao oferecimento de ma-
téria-prima, ou seja, da informação, e, talvez, dos métodos
interpretativos. De um modo geral, supõe-se que o processo de
aprendizado é o mecanismo de aquisição destes métodos.
Uma vez produzida a interpretação, ela é determinada e não sujei-
ta a equívocos. Naturalmente, a atribuição de intencionalidade pode
sempre fracassar, devido ao caráter privilegiado do acesso à primeira
pessoa. O realismo implícito nesta concepção é que o ato intencional
se encontra em algum lugar da cabeça do sujeito, ou no mecanismo
do artefato. Este fato limita o processo de interpretação ou de atribui-
ção de conteúdos intencionais. Precisa-se necessariamente de uma
teoria e um método de acesso às representações internas destes atos
intencionais. Assim, pode-se falar de interpretações certas e erradas,
embora não se possa dizer precisamente qual seria o critério de cor-
respondência entre as interpretações e os atos intencionais internos.
A perspectiva de Dennett inicia-se pela crítica da doutrina da
intencionalidade intrínseca ao mostrar que a atribuição de
intencionalidade e mesmo o sentido dos atos intencionais internos
variam com a variação do contexto. O famoso exemplo da máquina
de troca de refrigerantes por níqueis é usado para demonstrar sua
tese. Ele supõe que uma máquina capaz de trocar moedas de um
quarto de dólar por latas de refrigerante foi construída. Pode-se

*'
A MENTE EXTERNA

dizer que ela foi dotada da intencionalidade derivada de seus cons-


trutores, que é, em suma, “trocar refrigerantes por moedas de um
quarto de dólar”. Pode-se ainda descrever o estado mecânico e ele-
trônico desta máquina, no momento em que é acionada por um
níquel, em termos intencionais como “agora recebi uma moeda de
um quarto de dólar, posso trocá-la por refrigerante”.
Dennett supõe que, se a máquina fosse comprada por espertos
comerciantes panamenhos, onde uma moeda corrente Balboa é do
mesmo tamanho e peso da moeda de um quarto de dólares, ela
passaria a ter uma nova função, que seria trocar refrigerantes por
Balboas. Assim, independente do fato de que a estrutura mecânica e
eletrônica da máquina não mudou, seu estado intencional interno
passou a ter outro sentido, significando “agora recebi uma moeda
de Balboa, posso trocá-la por refrigerante”. Se, por acaso, neste
novo contexto, alguém usar uma moeda de um quarto de dólar e
obter um refrigerante, a máquina estará cometendo um erro. As-
sim, para Dennett, a atribuição de intencionalidade é dependente do
contexto onde está inserido o sistema intencional, devendo-se pre-
sumir que o significado de seu estado interno é dependente do ato
interpretativo do observador. É a visada do intérprete que é respon-
sável pela definição dos objetos intencionais do sujeito, a partir de
um ponto de vista da terceira pessoa.
Na próxima seção, iremos abordar a oposição entre uma psico-
logia baseada no ponto de vista da primeira pessoa e uma baseada
no ponto de vista da terceira pessoa.

1.2. Segunda frente: como abordar fenômenos mentais;


Nagel x Dennett?

Como é ser um morcego para Thomas Nagel

No seu artigo “Como é ser um morcego?”,81 Thomas Nagel


critica o método reducionista quando aplicado ao problema mente-

*(
MARCELO LAND

corpo. Isto porque não se possuiria no momento em que o texto foi


escrito nenhuma “concepção de uma explicação do que a natureza
física do fenômeno mental poderia ser”.82
Na sua perspectiva, os aspectos mais importantes e caracterís-
ticos dos fenômenos mentais são pouco compreendidos, embora a
experiência da consciência seja um fenômeno geral e bem difundi-
do. Esta experiência tem para ele implicações fundamentais, por-
que, ao contrário de intenções que podem ser atribuídas a máqui-
nas, experiências conscientes devem ser atribuídas a organismos.
O fato de que um organismo tenha experiências conscientes signi-
fica que existe “alguma coisa como ser este organismo.”
A utilização do termo organismo na argumentação está asso-
ciada ao uso de outra expressão importante para a montagem do
cenário conceitual. Vejamos a passagem a seguir:
“...um organismo tem estados mentais conscientes se e so-
mente se existe algo como ser este organismo, alguma coisa que é
para este organismo”.83
Ele diz que este algo que é para este organismo é o caráter
subjetivo da experiência. Pouco importa se estados mentais cons-
cientes e eventos possam causar comportamentos, ou que lhes
possam ser dadas caracterizações funcionais, pois Nagel nega que
uma explicação, que se concentre nos aspectos objetivos e exter-
nos dos estados mentais – seus resultados empíricos –, possa es-
gotar o inquérito.
Segundo sua visão, qualquer programa reducionista tem de ser
baseado na análise do que deve ser reduzido. Se esta análise deixar
de considerar alguma coisa, pode-se presumir que o problema foi
falsamente proposto. A falha do método reducionista no problema
mente-corpo é demonstrada, então, pela impossibilidade de reduzir
o caráter subjetivo da experiência. Portanto, sem o conhecimento
do que é este caráter, não se pode saber o que vai ser requerido, por
exemplo, por uma teoria fisicalista reducionista.

*)
A MENTE EXTERNA

No entanto, o exame objetivo do caráter subjetivo parece-lhe ser


impossível. A razão é que todo fenômeno subjetivo é “essencial-
mente conectado com um único ponto de vista, e é inevitável que
uma teoria objetiva física o abandone”.84
Para discutir este problema do único ponto de vista, Nagel
aborda a questão de como é ser um morcego. Ele assume que
todos nós acreditamos que morcegos têm experiências, já que se
pode usar a expressão existe alguma coisa como ser um morce-
go. Ele escolheu este animal porque é próximo a nós na escala
evolutiva. Este mamífero, porém, tem uma amplitude de ativida-
de e aparato sensorial diferentes dos humanos. Concebe-se que
morcegos percebam o mundo externo por sonar, ou
ecolocalização, detectando os reflexos sonoros dos objetos den-
tro do alcance de “seus próprios guinchos rápidos, subitamente
modulados, de alta freqüência”.85 Mas o sonar, apesar de uma
clara forma de percepção, não é semelhante em sua operação à
percepção do ser humano. Isto cria dificuldades para a noção de
como é ser um morcego.
O problema que é criado é derivado do fato de que normalmente
o uso da expressão como é ser um X implica a atribuição de uma
certa concepção de vida interior a X, semelhante à que se supõe que
homens possuam. Para Nagel, deve-se considerar se qualquer mé-
todo existente permitiria extrapolar vida interior para morcegos.86
Ele examina, então, os possíveis métodos para esta extrapolação,
iniciando pelo da imaginação ou empatia.
Neste caso, a imaginação do que ocorre com X deve ser ba-
seada na nossa experiência de vida interior. O máximo que se
pode fazer, no entanto, é nos imaginarmos imitando morcegos.
Porém, isto seria como é para mim me comportar como se com-
portam os morcegos. Assim, ao tentar usar a imaginação, estamos
restritos aos recursos de nossa própria mente. Como todas as
operações da imaginação não podem ajudar na solução do pro-

**
MARCELO LAND

blema, pois dependem do que ele chama uma estrutura funda-


mental, somente poderemos ter as experiências de um X – de
um morcego, por exemplo – se pudermos nos transformar nele.
Mas, mesmo que pudéssemos gradualmente sofrer uma meta-
morfose em morcego, não poderíamos, do nosso ponto de vista
do presente, imaginar a experiência dos momentos posteriores à
transformação.
Uma melhor evidência deveria vir da “própria experiência” dos
morcegos. Ele acredita que esta experiência tem também um cará-
ter subjetivo, o qual está fora de nossa capacidade de conceber.
Nagel afirma, finalmente, que dada a estrutura de nossas mentes,
nenhum método poderia ser bem-sucedido. Contudo, o fato de
não podermos acomodar a nossa linguagem à fenomenologia do
morcego, ou do marciano, não nos autoriza a negar que eles pos-
sam ter experiências plenamente comparáveis em riqueza de deta-
lhes às nossas.
Após isto, ele sugere que seria bom que pudessem haver con-
ceitos ou teorias que nos permitissem pensar e solucionar estes
problemas, mas este entendimento pode nos ser permanentemen-
te negado devido aos limites de nossa natureza. Esta impossibilidade
lógica conduz Nagel a pensar a relação entre fatos e esquemas
conceituais ou sistema de representação. Nagel diz:
Meu realismo acerca do domínio subjetivo e todas as suas for-
mas implica a crença na existência de fatos além do alcance dos
conceitos humanos. Certamente é possível para um ser humano
acreditar que existem fatos para os quais humanos nunca pos-
suirão os conceitos requeridos para representar ou compreen-
der.87
Nesta passagem, ele evidencia um dos princípios de sua con-
cepção filosófica: atribuir a impossibilidade de compreensão de
determinados problemas ao fato de que nossa estrutura humana
não nos permite operar com conceitos requeridos para solucioná-

*!
A MENTE EXTERNA

los ou concebê-los. Assim, a reflexão sobre como é ser um morce-


go “parece nos levar à conclusão de que existem fatos que não
consistem na verdade da proposição expressa em linguagem huma-
na”.88 E acrescenta que “nós podemos ser compelidos a reconhe-
cer a existência destes fatos sem sermos capazes de afirmá-los ou
compreendê-los”.89
Ele prossegue definindo uma forma especial de conceber a autori-
dade do ponto de vista da primeira pessoa, afirmando que, com seus
argumentos, não está chamando a atenção para a alegada privacidade
da experiência para o seu possuidor, ou o acesso privilegiado à pri-
meira pessoa. O ponto de vista proposto não é aquele acessível a
apenas um indivíduo, mas é um type.90 Ele prossegue:
Existe um sentido em que os fatos fenomenológicos são per-
feitamente objetivos: uma pessoa pode saber e dizer para outra
o que a qualidade de sua experiência é. Contudo, eles também
são subjetivos no sentido de que mesmo esta atribuição objeti-
va da experiência é possível somente para alguém suficiente-
mente similar ao objeto da atribuição para que seja capaz de
adotar o seu ponto de vista – para entender a atribuição na pri-
meira pessoa bem como na terceira, por assim dizer.91
Neste sentido, estamos presos, de fato, a um tipo de ponto de
vista, não o da primeira pessoa, mas o de nossa espécie. Este
ponto de vista coletivamente compartilhado pelos membros da
espécie humana é redefinido ironicamente por Dennett como “first-
person-plural presumption”:
Qualquer coisa misteriosa que a consciência possa abrigar, nós
(você, gentil leitor, e eu) podemos falar confortavelmente juntos
sobre nossas mútuas familiaridades (acquaintances), coisas que
nós dois encontramos em nossos fluxos de consciência.92
Acreditar que é necessária a utilização deste ponto de vista para
compreender o que é a experiência consciente é estar vinculado a
um tipo de ponto de vista espécie-específico, para usar os termos

*"
MARCELO LAND

do vocabulário de Nagel. Para ele, a possibilidade de conceber a


experiência subjetiva dos organismos decresce à medida que a ex-
periência de alguma coisa se torna progressivamente diferente da
nossa. Esta é, portanto, a maior dificuldade da redução psicofísica,
já que os processos de redução são um movimento na direção da
maior objetividade, para uma visão mais acurada da natureza real
das coisas. Quanto menos se depender do ponto de vista especifi-
camente humano, mais objetiva é a descrição. Contudo, a perda do
caráter subjetivo da experiência seria, na verdade, um afastamento
da natureza real do fenômeno. Por outro lado, a redução fisicalista
só pode ser bem-sucedida se o ponto de vista espécie-específica
for omitido. Mas, reconhecendo-se que a teoria física da mente
deve tentar reduzir também o aspecto subjetivo da experiência, deve-
se admitir que nenhuma concepção disponível no momento pode
ser bem-sucedida. Para Nagel, um método de redução deve funcio-
nar como uma espécie de tabela de conversão de fatos, tal como:
um fato X na descrição mentalista é, na verdade, o fato Y na descri-
ção fisicalista. Usualmente:
(...) quando nos dizem que X é Y, nós sabemos como isto é
suposto ser verdadeiro, mas isto depende de um background
conceitual ou teórico que não é fornecido pelo é somente. Nós
sabemos como X e Y se referem e o tipo de coisas a que se
referem, e temos uma idéia grosseira de como os dois referenciais
podem convergir para uma única coisa, seja isto um objeto, uma
pessoa, um processo, um evento ou qualquer outra coisa. Mas,
quando os dois termos da identificação são muito díspares,
talvez não seja tão claro como isto possa ser verdadeiro. Nós
podemos não ter a menor idéia de como os dois referenciais
podem convergir, ou em que tipo de coisa eles podem conver-
gir. Uma rede teórica pode ser necessária para permitir tal en-
tendimento. Sem esta rede, um ar de misticismo rodeia a identi-
ficação“.93
Como podemos ver, o texto acima é uma crítica à intenção de
conduzir um projeto reducionista fazendo uso apenas do recurso de

*#
A MENTE EXTERNA

atribuir identidade a fatos aparentemente muito distintos, sem se


dispor de uma teoria capaz de demonstrar como dois referenciais
podem convergir, ou seja, sem uma concepção teórica que possa
ensinar como proceder a identificação do fato X e Y, a partir da
atribuição de referente comum. Para ele, o fato de o projeto fisicalista
reducionista poder ser justificado do ponto de vista teórico não quer
dizer que se possa ter agora o sistema conceitual necessário, já que
ainda estaríamos diante de dificuldades essenciais. Ele apresenta
estas dificuldades:
Muito pouco trabalho foi feito na questão básica se qualquer
sentido pode ser dado às experiências como tendo em suma um
caráter objetivo. Faz sentido, em outra palavras, perguntar como
realmente são minhas experiências em oposição a como elas
aparentam para mim? Nós não podemos entender genuinamen-
te a hipótese de que sua natureza é capturada numa descrição
física, a não ser que entendamos a idéia mais fundamental de
que elas tenham uma natureza objetiva.94
E para concluir, ele propõe:
No presente momento, não estamos equipados totalmente para
pensar acerca do caráter subjetivo da experiência sem depender
da imaginação – sem tomar o ponto de vista do sujeito
experiencial. Deveria ser visto como um desafio formar novos
conceitos e vislumbrar um novo método – uma fenomenologia
objetiva não dependente da empatia ou da imaginação. Apesar
de que presumivelmente ela não capturaria tudo, seu objetivo
deveria ser descrever ao menos em parte o caráter subjetivo da
experiência em uma forma compreensível para seres incapazes
de terem estas experiências. Além de seu próprio interesse, uma
fenomenologia, que é neste sentido objetiva, pode permitir que
questões acerca das bases físicas da experiência assumam uma
forma mais inteligível.95
Sabe-se que a perspectiva de Nagel é bastante característica e
influente para servir de apoio para a tentativa de esclarecimento do
tema deste livro. A influência do autor é marcante no trabalho de

!%
MARCELO LAND

Daniel Dennett, podendo ele ser considerado um de seus maiores


opositores, porque Nagel não aceita que nenhuma teoria dos even-
tos mentais no momento possa abandonar o ponto de vista da pri-
meira pessoa. Na seção seguinte, iremos tentar esclarecer o que é o
método heterofenomenológico de Dennett, e como ele pretende
alcançar objetividade neste campo.

A heterofenomenologia de Dennett

Como vimos, para Nagel, o fato de se postular que o acesso a


eventos mentais está inevitavelmente ligado ao ponto de vista da pri-
meira pessoa dificulta bastante a concepção de uma ciência objetiva
da mente. No seu livro Consciência explicada, Dennett mostra que
este apego à perspectiva da primeira pessoa, que se originou em Des-
cartes, gera duas maneiras de lidar com os fatos psicológicos. Uma
destas maneiras é a defendida por Nagel, que acredita que o melhor
método para estudar os fenômenos mentais é através da introspeção
e da empatia, através do que se pode chamar uma atribuição de
intencionalidade projetiva (uma atribuição da intenção a partir da pro-
jeção da intenção do observador nas mesmas circunstâncias). Outra
corrente derivada da perspectiva cartesiana é o Behaviorismo clássi-
co, que é um movimento que organiza sua metodologia, partindo da
premissa radical de que eventos mentais não podem ter nenhuma
objetividade científica. Dennett nos diz que os seus escrúpulos
metodológicos derivam de três possíveis princípios ideológicos:
1) Eventos mentais não existem;
2) Eventos mentais existem, mas não têm qualquer efeito, assim
a ciência não pode estudá-los;
3) Eventos mentais existem e têm efeitos, mas estes efeitos
não podem ser estudados pela ciência, que terá de se contentar
com a teoria dos efeitos periféricos ou menores e dos processos
no cérebro.

!$
A MENTE EXTERNA

Será contra estas duas tendências maiores que a hetero-


fenomenologia irá se definir como um método capaz de criar da-
dos suficientemente objetivos para poder tornar o estudo da cons-
ciência um campo de conhecimento científico. Dennett diz que o
desafio é “construir uma teoria de eventos mentais, usando infor-
mações que o método científico permita.” 96 Ela deveria ser
construída do ponto de vista da terceira pessoa como todas as
teorias científicas.
O método dennettiano, a heterofenomenologia, tem como objeto
privilegiado de estudo o adulto normal. Somente após ter sido
esboçada uma teoria da consciência humana, poder-se-á
extrapolá-la para outros seres, inclusive zumbis. Ele alerta que
pessoas são o único objeto de estudo cuja preparação experi-
mental envolve comunicação verbal. Esta comunicação é basea-
da na emissão de subconjuntos de sons vocais, que permitem
análise lingüística e semântica. Pode-se dizer que já se está no
terreno da interpretação nesta análise, pois tomar sons vocais
que possuem propriedades físicas de ondas acústicas, como fra-
ses e palavras com sentido, é obviamente considerar que se está
diante de uma linguagem. Dennett propõe que a primeira fase da
produção de dados seja a interpretação por três secretárias dife-
rentes destes sons vocais gravados, o que deve resultar em três
versões transcritas aproximadamente iguais. Esta transcrição
envolve uma “reconstrução radical dos dados, uma abstração de
suas propriedades acústicas e outra de suas propriedades físicas
em cadeias de palavras”.97
Este processo de interpretação implica a assunção de qual lín-
gua está sendo falada e sobre algumas das intenções do falante.
Dennett alerta que, embora possamos fazer este tipo de transcri-
ção sem muito esforço, o processo é muito sofisticado.
Contudo, a transcrição é somente a primeira fase da formação
do dado. Ela é seguida por uma segunda pressuposição: a transcri-

!&
MARCELO LAND

ção é composta por atos de fala, e não por simples pronunciar ou


recitação. Portanto, ela é um conjunto de asserções, questões,
promessas, compromissos, pedido de esclarecimento e auto-re-
preensão. Para este tipo de interpretação é necessário que seja
usada a atitude intencional, que nesta atividade consiste em “o
emissor de sons como um agente que exibe intencionalidade e
cujas ações podem ser explicadas ou previstas com base no con-
teúdo destes estados”.98
A atribuição de intencionalidade ao agente é fundamental, entre
outras coisas, porque a pureza da colheita dos dados da transcri-
ção depende da percepção de que o falante pode ter a intenção de
agradar o experimentador. Esta tentativa de agradar poderia pro-
duzir tendenciosidades no relato. Por isso, cabe ao experimentador
transmitir que o que ele deseja do falante é sua cooperação, pro-
curando excluir outros conteúdos. O experimentador estará corri-
gindo todas as fases de obtenção do relato, partindo do pressu-
posto da presença de um agente. Ele lhe fará perguntas sobre suas
intenções em caso de ambigüidades e interpretará atos como apertar
botões, por exemplo, como tendo o mesmo estatuto de atos de
fala.
Ao sustentar que a transcrição é um conjunto de atos de fala,
passa-se à interpretação do conteúdo do que se diz. Este conteúdo
geralmente expressa crenças do agente em relação ao que ele ex-
perimentou. Porém, “nós não podemos estar seguros que os atos
de fala que nós observamos expressam crenças reais sobre expe-
riências existentes de fato, talvez eles expressem somente crenças
aparentes sobre experiências não existentes”.99
Dennett não aceita este dilema, propondo que devamos tomar
o relato obtido pela transcrição como uma narrativa ficcional. Ele
diz: “Nós podemos comparar a tarefa da heterofenomenologia de
interpretar o comportamento de sujeitos à tarefa do leitor de inter-
pretar uma obra ficcional”.100

!'
A MENTE EXTERNA

Ele ressalta três pontos da tarefa do intérprete de obras ficcionais


que devem guiar a postura do heterofenomenologista:
1 – Alguém pode aprender muito sobre um romance, sobre seu
texto, sobre o autor, e mesmo sobre o mundo real, ao aprender
sobre o mundo afigurado pelo romance.
2 – Podemos reunir uma quantidade de fatos objetivos
inquestionáveis acerca do mundo representado.
3 – O conhecimento do mundo representado pelo romance
pode ser independente do texto real do romance.
Entre outras coisas, ele pretende conservar a idéia de que se
pode saber muito sobre o que é representado sem se saber como a
representação efetivamente ocorre. Diante do experimentador, a
analogia funciona adotando-se a tática do intérprete diante de um
texto ficcional, na qual o relato é tomado como uma teoria ficcional
sobre o mundo heterofenomenológico do sujeito. Isto permite ao
heterofenomenologista postergar o embaraçoso problema da rela-
ção existente entre o mundo ficcional e o mundo real. Isto autori-
za o consenso entre os vários experimentadores sobre como é o
mundo heterofenomenológico do sujeito, que podem oferecer as
mais diferentes propostas de como este mundo corresponde a eventos
no cérebro.
Assim, Dennett concorda que:
(...) as pessoas, sem dúvida, acreditam que elas tenham imagens
mentais, dores, experiências perceptivas, e todo resto, e estes
fatos – fatos acerca do que as pessoas acreditam e relatam quan-
do elas expressam suas crenças – são fenômenos de que qual-
quer teoria científica deve dar conta. 101
Ele organiza estes dados em relação a estes fenômenos em
ficções teóricas, que se referem a “objetos intencionais” em um
mundo heterofenomenológico. Então, a questão sobre a existên-
cia real destes objetos intencionais, eventos e estados no cére-
bro é uma matéria empírica a ser investigada posteriormente. Se

!(
MARCELO LAND

um candidato real é descoberto, pode-se identificá-lo com os


referentes já vistos nos termos do sujeito, se não, deve-se expli-
car por que parece ao sujeito que estes objetos intencionais exis-
tem.

1.3. Terceira frente: podem máquinas virem a ser cons-


cientes?
Desde o século XVIII, o atributo de ser consciente tem sido
considerado um dos mais distintivos dos seres humanos. Na-
quela época, a idéia de que possuíamos uma dignidade especial
em relação aos outros seres da criação dependia da possibilidade
de sermos ditos conscientes de nossas ações e intenções. Ainda
hoje, conceitos como cidadania e justiça não são articulados sem
outras palavras que se referem às características de seres cons-
cientes. E nos anos que estão por vir, certamente não prescindi-
remos deles.
O fato de termos reconhecido a necessidade deste conceito
fundamental nas nossas relações pessoais e sociais, não obriga,
no entanto, que vejamos a consciência como algo intrinsecamente
humano. Não nos força a considerar, por exemplo, que ela não
poderá surgir milhões de anos adiante em um outro animal produ-
zido pela Mãe Natureza, ou que nós mesmos não conseguiremos
produzir uma máquina, feita de matéria não-orgânica, que possa
preencher os critérios do que chamamos um ser consciente. No
que se segue, iremos nos deter nas considerações dennettianas
sobre esta última possibilidade. Veremos que, além de ser uma
discussão sobre princípios envolvidos no campo da inteligência
artificial, Dennett se preocupa em participar concretamente no
desenvolvimento deste tipo de máquina. Teremos a oportunidade
de apresentar sua atual concepção de mente e, finalmente, as crí-
ticas contra o “funcionalismo ingênuo”. 102

!)
A MENTE EXTERNA

Em um artigo denominado “Consciousness in human and robot


minds”,103 Dennett expõe sua posição sobre a questão da consciên-
cia dos robôs. Segundo ele, a melhor razão que nós temos para
pensar que um dia os robôs se tornarão conscientes é o fato de que
seres humanos são também uma espécie de robô consciente. So-
mos mecanismos físicos complexos que se autocontrolam e se auto-
sustentam, que foram projetados ao longo do tempo pelo processo
de seleção natural. Partindo deste princípio materialista e naturalis-
ta, o problema principal do campo da inteligência artificial é saber
se nós, artífices humanos, conseguiremos repetir o triunfo da Mãe
Natureza, com variação de material, formas e processo de planeja-
mento.
Fica claro, por estas premissas, que, nesta posição, não é um
contra-senso cogitar a construção deste tipo de máquina, pois nada
há nas leis da física que postule a impossibilidade lógica de um dia
tornarem-se realidade. Máquinas conscientes não são como os mo-
tos-contínuos que contradizem o primeiro e segundo princípio da
termodinâmica. Dennett pondera apenas sobre a viabilidade prática
deste projeto. Como ele diz, as razões de seu ceticismo são munda-
nas, econômicas e não-teóricas.
No artigo, Dennett discute e rebate outros argumentos contra a
obtenção de máquinas conscientes, que revelam outros tipos de
ceticismo neste terreno. Nós os reconstruiremos a fim de demons-
trar os detalhes de seu posicionamento.
O primeiro argumento combatido propõe, na tradição do
dualismo cartesiano, que robôs são coisas materiais e que a cons-
ciência tem a necessidade de uma substância mental imaterial
(immaterial mind-stuff). Diante deste argumento, Dennett diz-se
surpreendido por ser ainda atrativo, perguntando-se por que, de-
pois de tantos mistérios sobrenaturais desaparecerem pelo trata-
mento científico, algumas pessoas ainda acreditam que o cérebro é
o único objeto físico complexo a ter uma interface com um outro

!*
MARCELO LAND

domínio de seres. Ele acredita que a persistência desta corrente de


pensamento é fruto do desejo de proteger a mente da ciência, ao se
supor que ela é composta de uma substância por princípio não su-
jeita à investigação pelo método da física.
O segundo argumento afirma que robôs não poderiam se tornar
conscientes, porque são inorgânicos por definição, e a consciência
só poderia existir em cérebros orgânicos. Apesar de poder ser vista
como um retorno ao vitalismo tradicional, haveria uma forma de
tornar interessante o argumento. Certamente, o vitalismo está defi-
nitivamente morto, e a bioquímica mostrou que o poder dos com-
postos orgânicos é mecanicamente redutível e também mecanica-
mente reproduzível. Contudo, concebe-se que a velocidade e a
compactação dos processos dirigidos bioquimicamente no cérebro
não são reproduzíveis em meios físicos. Assim, existem boas ra-
zões para se achar que um robô que não possa ser feito de matéria
orgânica não seria capaz de executar determinadas tarefas críticas
para a consciência. Porém, nada impediria que um robô fosse
construído com materiais orgânicos, a fim de implementar determi-
nadas funções. Isto poderia, no entanto, ser visto como uma tenta-
tiva de ludibriar o desafio inicial de construir um robô consciente
livre de proteínas. Na realidade, a compreensão corrente de que
robôs devem ser feitos de metal, chips de silício, plástico etc. refle-
te a disposição dos teóricos (cientistas e filósofos) em apostar na
simplificação do problema. Existe a convicção de que as funções
cruciais da inteligência podem ser obtidas através de simulação de
alto-nível e, assim, não seria injusto restringir os recursos a deter-
minados materiais para a construção de robôs. Contudo, diz Dennett,
se alguém inventar uma rede neural artificial barata, mesmo que
seja essencialmente orgânica, que possa ser facilmente conectada
às várias partes funcionais do robô, isto não deveria dissuadir os
construtores de robôs de utilizá-la. Este fato não implicaria nenhu-
ma trapaça.

!!
A MENTE EXTERNA

O terceiro argumento combatido diz que robôs são artefatos, e


a consciência abomina (abhors) um artefato: somente coisas na-
turais e nascidas não-manufaturadas podem exibir consciência ge-
nuína.
Dennett classifica esta posição como essencialismo de origem.
Segundo ela, algo só poderia ser considerado um genuíno X se
fosse feito sob a direção dos proprietários de X. Assim, resgatando
o exemplo do texto, somente o vinho produzido pelos donos do
Chateau Plonque pode ser considerado um genuíno Chateau Plonque
ou somente alguém que tenha “sangue Cherokee” pode ser dito um
Cherokee. Pode-se admitir que existem razões respeitáveis para
defender este tipo de argumento nas cortes, em contendas sobre
proteção aos direitos de propriedade de marcas. Porém, esta con-
clusão não implica necessariamente a atitude cunhada por Dennett
como chauvinismo de origem. Segundo esta atitude, uma coisa deve
ser dita possuir uma “propriedade intrínseca”, independente da nossa
capacidade de a detectarmos ou a diferenciarmos empiricamente
em outras coisas, simplesmente pelo fato de ter tido uma determi-
nada origem. Pode-se, por exemplo, ter ótimas imitações do vinho
Chateau Plonque, praticamente indistinguível do verdadeiro, mes-
mo por enólogos experientes, e, mesmo assim, um enólogo
chauvinista continuaria a afirmar uma significativa diferença de va-
lor entre os dois tipos de vinhos, embora não conseguisse dizer em
quais dos copos está a substância a ser valorizada. Da mesma for-
ma, um Cherokee não é “intrinsecamente” melhor ou pior em ne-
nhum aspecto como pessoa do que alguém que não tenha sangue
Cherokee. E, finalmente, para aproveitar um exemplo mais atual
não citado por Dennett, um clone de alguém, embora não possa ser
dito possuir os mesmos títulos acadêmicos da pessoa que forneceu
o seu material genético, não deixa de concorrer para a categoria de
pessoa viva só porque não foi gerado por um encontro de um
espermatozóide e um óvulo.

!"
MARCELO LAND

Do mesmo modo, se a consciência abomina os artefatos, isto


não pode ser por alguma questão de princípio. O fato de a cons-
ciência ser hoje uma propriedade de seres nascidos, e não
construídos, e de seres dotados de um complexo de células cere-
brais que possuem propriedades funcionais, que os tornam de fato
sujeitos à atribuição de serem conscientes, não implica que toda a
história não pudesse ter sido diferente. Isto quer dizer que não se
deve atribuir a alguma propriedade intrínseca destas células o re-
sultado magnífico da consciência, embora, na prática, talvez ne-
cessitemos reconhecer que somente este tipo de células e seu ar-
ranjo espacial seja factível de produzir fenômenos conscientes
sofisticados por muitos e muitos anos. Em suma, a oposição é
impossibilidade por princípio e impossibilidade prática de cons-
truir robôs conscientes.
Para trazermos à cena a discussão em toda a sua densidade,
abordaremos a crítica ao funcionalismo ingênuo, presente no mais
recente livro publicado pelo autor, Kinds of minds. Como ganho
adicional, poderemos verificar a concepção de mente que Dennett
utiliza e vislumbrar como esta concepção está sendo utilizada para a
estruturação do projeto Cog.
Segundo Dennett, uma das assunções compartilhas por muitas
das modernas teorias da mente é o funcionalismo. A idéia funda-
mental é que o que faz alguma coisa ser uma mente (ou uma
crença, ou uma dor, ou um medo) não é do que ela é feita, mas o
que ela pode fazer. As características desta coisa podem variar à
vontade: seu material, sua cor, sua complexidade interna, sua for-
ma, desde de que o seu design permita que ela exerça o papel funci-
onal desejado. Tudo o que se precisa saber é o que a mente faz, e,
assim, dever-se-ia ser capaz de fazer mentes com materiais alterna-
tivos, como se fazem hoje corações artificiais.
Para muitos teóricos da mente, incluindo Dennett, o que a
mente faz é processar informações. Ela é o sistema de controle

!#
A MENTE EXTERNA

do corpo, e, para executar suas tarefas, ela coleta, transforma e


processa informações. Com estas premissas simples, o funciona-
lismo pretende facilitar o trabalho dos teóricos, uma vez que com
elas pode-se desprezar algumas particularidades causadoras de
confusão sobre a performance do design em questão e propiciar a
concentração na atividade que está sendo realizada. Por exemplo,
ao invés de se ficar preocupado com a estrutura e o movimento
das descargas elétricas dos cérebros, o teórico pode se concen-
trar em descrever processos cognitivos, para depois tentar simulá-
los.
No entanto, Dennett destaca que é um hábito dos funcionalistas
simplificar demais a concepção de sua tarefa, fazendo “a vida
excessivamente fácil para os teóricos”.104 Vejamos o que significa
esta crítica.
Pode-se ver o sistema nervoso como uma rede de informa-
ções ligada a vários locais específicos: transdutores, que são as
entradas do sistema, e efetuadores105 (effector), que são as sa-
ídas do sistema. Um transdutor é qualquer mecanismo que pe-
gue a informação em um meio e a traduza para um outro meio.
Um efetuador é qualquer mecanismo que pode ser dirigido, por
sinais presentes em um meio, a fazer alguma coisa acontecer em
outro meio.
Em computadores, estes limites são bastante precisos, porque
se percebe com facilidade onde começa o mundo externo e onde
estão os canais de informação. Seria também desejável do ponto
de vista teórico que pudéssemos isolar os canais de informação
dos eventos exteriores em um sistema nervoso de um corpo, de
forma a se poder perceber as interações que acontecem nos
transdutores e efetuadores detectados.
Em um navio, por exemplo, o timão fica distante do leme,
que ele controla. Pode-se conectar um timão ao leme das mais
variadas formas. O sistema, composto do timão, do meio de

"%
MARCELO LAND

conexão e do leme, transmite a energia do marinheiro, que guia o


navio pelo timão até o leme. Mas, de fato, não se precisa trans-
mitir a energia, porque pode-se conectar o timão ao leme por
meio de sinais eletrônicos. Não é, portanto, necessário transmi-
tir a energia, mas somente traduzir a informação, de que direção
o marinheiro deseja dar ao navio, ao leme. O tipo de transdutor
utilizado para transformar a informação pode variar muito, dada
a simplicidade deste sistema. Na verdade, não haverá nenhuma
diferença perceptível, desde que a informação chegue adequada-
mente ao mecanismo efetuador ligado ao leme. Em muitas má-
quinas modernas é fácil isolar os mecanismos de controle dos
mecanismos a serem controlados, de maneira que se possa tro-
car os mecanismos de controle sem perda da função destas má-
quinas.
Muitas vezes, pode-se perceber uma clara segregação em
transdutor periférico, efetuador, e vias intermediárias de transmis-
são em sistemas nervosos animais, como, por exemplo, nos casos
de surdez causada por lesão no ouvido interno. Há também certa
liberdade em relação ao meio de colheita da informação, porque
se pode substituir a cóclea lesada por um aparelho auditivo desde
que a via de comunicação periférica não tenha sido lesada. Aqui
também não importa o meio de transmissão da informação, se ela
não for distorcida ou perdida.
No entanto, quando se reflete mais detalhadamente sobre a or-
ganização do sistema nervoso, verifica-se que este modelo sim-
ples não consegue explicar tudo. Em geral, os teóricos da mente
admitem que, sempre que existem transdutores e efetuadores em
sistemas de informação, não se pode mais falar de “neutralidade
em relação ao meio”.106 Por exemplo, para se detectar luz, deve
haver um mecanismo que seja capaz de responder rápida e preci-
samente a fótons, amplificando sua aproximação subatômica em
efeitos de maior escala, que desencadeiam outros efeitos posteri-

"$
A MENTE EXTERNA

ores. Os sistemas de processar informação, do ponto de vista


teórico, estão ligados em cada uma de suas terminações a
transdutores e efetuadores. A composição destes últimos meca-
nismos, ou seja, a forma e o material do que são feitos, é ditado
pelo trabalho a ser realizado pelo sistema. Contudo, o que está no
meio da cadeia de informação, o sistema de controle, poderia a
princípio ser implementado por processos neutros em relação ao
meio. Os sistemas de controle de navios, carros e outros artefatos
humanos são neutros em relação ao meio, desde que o meio utili-
zado para construí-lo possa realizar a função de processar as in-
formações advindas dos transdutores e operar o controle dos
efetuadores.
Contudo, e este passo fundamental é para a crítica de uma
posição funcionalista ingênua, o sistema de controle neural dos
animais não é verdadeiramente neutro em relação ao meio. Esta
falta de neutralidade em relação ao meio não é derivada da neces-
sidade de ser construído a partir de um determinado material, que
contivesse alguma propriedade intrínseca fundamental para reali-
zar a função. Ela é derivada do fato de que estes sistemas de
controles neurais evoluíram em sua função em organismos que já
estavam amplamente equipados com outros sistemas de controles
vastamente distribuídos por todo o seu corpo e novos sistemas de
controle tiveram de ser construídos em cima e em colaboração com
os sistemas mais antigos, criando números astronômicos de pontos
de transdução.
Estas considerações dão suporte a alguns dos argumentos pro-
postos pelos críticos do funcionalismo, quando eles dizem que
realmente importa do que é feito a mente. De certa forma, pode-
se questionar a possibilidade de se construir seres capazes de ter
consciência de suas sensações a partir de mentes feitas com chips
de silício, e outros materiais não-orgânicos. Contudo, esta dúvida
bem fundamentada não é motivo para abandonar o funcionalismo,

"&
MARCELO LAND

porque a intuição necessária para formulá-la depende dele. Vejamos


a seguinte passagem:
A única razão por que as mentes dependem da composição quí-
mica dos seus mecanismos e meios é que, para fazer as coisas
que elas têm de fazer, elas têm de ser feitas, como conseqüência
de fatos bio-históricos, de substâncias compatíveis com os cor-
pos preexistentes que elas controlam.107
Em suma, a necessidade de a mente, capaz de ser consciente,
ser feita no momento de matéria orgânica é uma conseqüência da
forma como foi construída pelo processo de seleção natural. O
funcionalismo está correto ao questionar qualquer posição que por
princípio aposte em qualquer tipo de misticismo ligado a proprie-
dades intrínsecas das substâncias, tais como o vitalismo. Como
diz Dennett:
Estas substâncias, per si, são tão irrelevantes para o mental
quanto gasolina ou dióxido de carbono. É somente quando
suas habilidades para funcionar como componentes de siste-
mas funcionais mais amplos dependem de suas composições
internas que a sua assim chamada “natureza intrínseca” im-
porta.108
Fica claro, portanto, que a matéria de que são feitos os sistemas
de controle, que compõem a mente consciente tal como a conhece-
mos atualmente, é fundamental somente porque favorece sua parti-
cipação no conjunto do sistema. É neste conjunto que seu papel se
torna necessário, e que suas qualidades materiais são valorizadas.
Não há nada mais funcionalista do que esta forma de conceber o
problema.
No caso do nosso sistema nervoso, portanto, somos forçados
a pensar a função de suas partes de uma maneira mais complicada
e realista. Como diz Dennett, este reconhecimento torna a vida
bem mais difícil do que os funcionalistas desejariam.
Antes de voltarmos a discutir o terceiro dos argumentos con-
tra a possibilidade de se construir robôs conscientes, gostaría-

"'
A MENTE EXTERNA

mos de apresentar duas conseqüências desta forma de conceber


o sistema nervoso e os sistemas de controle que compõem a
mente.
A primeira dela é o combate ao que Dennett chama de mito da
dupla transdução. Segundo este mito, em primeiro lugar, o sistema
nervoso faria a transdução de algum meio de informação – luz, som,
temperatura etc. – em sinais neurais e, em segundo lugar, em um
local central especial, estes sinais sofreriam a transdução em outro
meio: o meio da consciência. Era isto que Descartes pensava da
glândula pineal, que seria o verdadeiro centro do cérebro, onde uma
segunda transdução ocorreria para o meio não-físico e misterioso
da mente. Dennett se diz surpreso de ainda hoje muitos teóricos da
mente estarem atrás deste tipo de local central para explicar deter-
minados atributos mentais.
A segunda conseqüência é ver a mente segundo um modelo
coneccionista.109 Dennett nos diz que temos o hábito de dizer que
nós não somos um corpo, mas que temos um corpo. Em cirurgia
de transplante cardíaco, normalmente queremos ser o receptor.
Mas se houvesse cirurgia de transplante cerebral, gostaríamos de
ser o doador. No entanto, a verdade é que nós deveríamos dizer
que o nosso corpo contém uma mente, contém muito de nós, e
reconhecer que não poderíamos ser retirados de nosso corpo, dei-
xando-o de lado, e preservando o que consideramos essencial de
nós mesmos. Como diz Dennett: “Meu corpo contém muito de
mim, os valores e talentos e memórias e disposições que fazem de
mim o que eu sou, da mesma forma que meu sistema nervoso o
faz”.110
Assim, devido ao hábito cartesiano de pensar, não vemos o
cérebro da maneira mais adequada. Ele deve ser encarado como
um órgão entre outros, que é somente um usurpador de controle
relativamente recente, cujas funções não podem ser propriamente
entendidas, enquanto o vemos como o patrão. Ele deve ser visto

"(
MARCELO LAND

como um empregado com funções setorizadas (fractious servant),


que trabalha para o interesse do corpo, que o abriga e alimenta e
que dá sentido às suas atividades.
Para Dennett, “é difícil pensar de forma funcionalista acerca
da mente, depois que nós deixamos de identificar a mente com o
cérebro e a espalhamos para outras partes do corpo”.111 As com-
pensações, porém, são enormes. Na medida em que nosso siste-
ma de controle não é isolado, como nos navios e outros artefatos,
pode-se estocar muito maior quantidade de “sabedoria”112 em to-
das as suas partes, para o uso cotidiano. “A evolução”, diz Dennett,
“incorporou informação em todas as partes de todos os organis-
mos”.113 Assim, ele propõe que se passe a falar “Meu corpo tem
uma mente nele próprio”. Isto não quer dizer que não queiramos
ter uma outra mente adicional, que comumente chamamos de “nos-
sa mente”, uma mente capaz de manipular símbolos. Na verdade,
o corpo é o lugar de vários tipos de mentes (kinds of minds),
como teremos oportunidade de ver no capítulo 3.
No momento, o fundamental é aprender a lição coneccionista
dennettiana e não procurar situar as nossas mentes em nenhum
lugar específico do corpo. Mais adiante teremos tempo de modifi-
car um pouco está tendência, agora incentivada, de ver o corpo
como a sede da mente, e poderemos espalhá-la mais além para o
espaço ambiental em que vivemos e onde se encontram nossas
ferramentas e palavras. O apelo para identificar a mente com a
interação corpo-ambiente é tão forte neste livro, que podemos di-
zer que ele é também uma tentativa de responder a um problema
tão significativo quanto o da oposição mente X corpo: o problema
da oposição corpo X ambiente. Uma das conseqüências éticas mais
curiosa desta identificação nos é dada por Dennett quando ele diz
que, quando retiramos um velho de seu ambiente habitual, ele pa-
rece demonstrar ainda mais a sua senilidade. Isto porque nós o
privamos de uma parte significativa de sua mente. Por si só, se

")
A MENTE EXTERNA

esta concepção vingar, como tudo indica, já haveria motivos sufi-


cientes para se escrever um estatuto do idoso.
Achamos que agora podemos retornar à resposta de Dennett ao
terceiro argumento. Falávamos da oposição entre a impossibilidade
de princípio e a impossibilidade prática de construir um robô cons-
ciente. Para resumir, Dennett afirma que este sonho seria seme-
lhante ao sonho de Walt Disney, que um dia ousou imaginar que, em
seus estúdios, poderia ser feito um desenho tão perfeito em detalhes
que ninguém o distinguiria de um filme. Em princípio, pode-se fazer
isto, mas valeria a pena? O gasto financeiro e o tempo investido
para fazer todas as simulações necessárias inviabilizariam o projeto.
É muito mais fácil e barato, pelo menos por enquanto, contratar
atores humanos.
Um dos resultados de tudo o que falamos sobre o terceiro
argumento é um outro tipo de reparo aos anseios dos robocistas:
os robôs serão sempre simples demais para serem conscientes. De
fato, já pudemos vislumbrar o grau de complexidade envolvido
em nosso design, mas, por isto mesmo, devemos pensar que o
problema é apenas de complexidade. Nada há de intrinsecamente
impossível na tarefa. O que se deve perguntar é se não haveria
lugar no mundo para robôs com algum grau de consciência, assim
como temos para outras próteses, tais como ouvidos artificiais e
talvez olhos artificiais. Este robô poderia fazer algum tipo de tra-
balho fundamental, apesar de não poder ser dito possuir toda a nos-
sa capacidade para sermos conscientes.
Antes de terminarmos este capítulo sobre as frentes de comba-
te à intrinsecalidade no pensamento de Daniel Dennett, iremos
expor muito sucintamente a sua colaboração no projeto Cog, o
robô humanóide. Como veremos, boa parte dos princípios aqui
expostos está sendo utilizada para efetuar o projeto.
Este projeto está sendo executado pelo MIT, sob a direção dos
professores Rodney Brooks e Lynn Andrea, do AI Lab. Cog tem

"*
MARCELO LAND

o tamanho de um adulto, não tem pernas, mas tem dois braços do


tamanho de um ser humano, com uma mão simples. Ele pode
mexer a cabeça e movimentar-se um pouco. Tem dois olhos, com
uma área de visão foveal de alta resolução e uma área para-foveal
de baixa resolução, e tem a capacidade de dar “sacadas”, tais
como os olhos humanos. Embora a visão de Cog não seja exata-
mente igual a de humanos, espera-se que seja suficiente para que
lhe dê oportunidade para a proeza da coordenação olho-mão, ca-
pacidade de identificar e procurar objetos. Como os seus olhos
são câmeras de vídeo, ele é equipado com um sistema “inato” e
rudimentar de “dor” ou alarme para evitar que toque inadvertida-
mente seus olhos, imitando de certa forma o reflexo de piscar ou o
sistema de evitação de dor, presentes nos bebês humanos.
No início da experiência, Cog não será um adulto, apesar de
seu tamanho. Ele foi projetado para passar por todos os períodos
de uma infância artificial. Como os lactentes humanos, no come-
ço, ele estará lidando com o problema da sua autoproteção, apesar
de ser dotado com muitos dos sistemas de segurança mais cruciais
dos seres vivos, tais como sensores de calor, de corrente elétrica,
de pressão e sinais de alarme para evitar que destrua seus motores
e juntas. Ele tem uma espécie de “osso” saindo de seus cotovelos,
que serão protegidos de lesões por uma cobertura de uma mem-
brana piezo-elétrica sensível a pressão, isto é, um tipo de “pele”
que será capaz de disparar um alarme quando fizer contato com
alguma coisa. O objetivo deste arranjo é que Cog seja capaz de
aprender a evitar que seus ossos do cotovelo sofram impactos. Se
ele for incapaz de aprender isto em pouco tempo, este comporta-
mento será incluído como uma estratégia de alta-prioridade em
seu hardware pelos artífices, tornando-se “inato”. A mesma mem-
brana sensível revestirá a ponta de seus dedos. Neste caso, espe-
ra-se que o “significado” dos sinais advindo destas membranas
dependa do que o sistema de controle central faça dele e não das

"!
A MENTE EXTERNA

suas características intrínsecas. Como um toque leve, que sinali-


za um contato de procura por um objeto, não será diferente, do
ponto de vista da informação, de um toque de dor aguda, que
sinaliza a necessidade de fuga do estímulo, o destino deste con-
junto de informação dependerá de como o sistema de controle
central é projetado para lidar com ele. A forma como o sistema de
controle central é projetado é aberta a inúmeras revisões, de ma-
neira a ser ajustada pelas próprias experiências de Cog ou de seus
artífices.
Há ainda uma grande discussão de quais características inatas,
presente no seu hardware, serão dadas a ele. Sabe-se que ele não
poderá ser uma tabula rasa, porque qualquer coisa que possa apren-
der tem de ser equipado inicialmente com uma grande quantidade
de design não aprendido. Contudo, não se sabe o que deve ser dado
como inato e o que deve se dar a oportunidade de ser adquirido por
experiência. Todas as características que forem aprendidas por Cog
poderão ser conservadas como inatas no Cog-II, quando chegar a
época de sua construção.
Apesar de Cog não ter sido projetado para demonstrar nenhu-
ma tese particular sobre as redes neurais, não é de se surpreender
que o “sistema nervoso de Cog” seja uma enorme arquitetura em
paralelo, capaz de simultaneamente adestrar (ajustar) inúmeros
circuitos ou redes com propósitos especiais e sob vários regimes
de funcionamento.114
Dennett se pergunta qual é a plausibilidade de Cog conseguir
rememorar as etapas de milhões de anos de evolução em poucos
meses ou anos de exploração em laboratório. Em primeiro lugar,
deve-se notar que o tipo de herança do seu design é a lamarckiana,
e as inovações de design do Cog-I serão imediatamente implanta-
das no Cog-II, o que deverá acelerar em muito a velocidade da
evolução. Além disso, deve-se lembrar que ele terá como auxiliar
um time de supervisores prontos para implementar as medidas

""
MARCELO LAND

necessárias para corrigir erros flagrantes e acelerar etapas, uma


vez que se tenha percebido que ele encontrou a rota certa.
Cog será dotado também de uma capacidade rudimentar de lin-
guagem humana. Os pesquisadores não estão atrás do mitológico
órgão inato de linguagem – o mecanismo de aquisição de linguagem
(LAD) – postulado por Chomsky. Na verdade, eles não pretendem
construir um LAD inato para Cog, mas pretendem levar Cog a cons-
truir a linguagem da forma mais difícil, de modo semelhante a nos-
sos ancestrais há milhares de anos.115 Prevê-se que ele entrará em
interação espontânea com seres humanos, e portanto pretende-se
dotá-lo com todos os recursos em potencial para estes contatos.
Idealmente várias pessoas de fora da equipe principal, ou seja, pes-
soas não treinadas, deverão dedicar muito tempo a ele, tentando
fazê-lo aprender alguma coisa.
No entanto, todo o projeto poderá fracassar se não se for ca-
paz de dar a Cog uma estrutura motivacional, que possa ser reco-
nhecida, explorada, e causar respostas no observador mais
despreparado. Cog deverá ser o mais humano possível em seu
querer e em seus medos, em seus gostos e em suas aversões. Ele
deverá ter prazer em aprender, odiar, errar, buscar novidades e re-
conhecer progressos. Deverá estar vigilante em relação a alguns
detalhes, curioso em relação a outros e profundamente desinteres-
sado em atividades destrutivas. Os supervisores deverão tentá-lo
fazer apreciar a companhia e a atenção humana.
Do ponto de vista do hardware, Cog é o mais avançado projeto já
proposto em Inteligência Artificial (IA), muito melhor do que as
arquiteturas seriais dos projetos de IA tradicionais e do que as ar-
quiteturas em paralelo simuladas por máquinas seriais. No entanto,
sua velocidade é ainda muito lenta em comparação a dos cérebros
humanos. Pode-se dizer que Cog possui um cérebro minúsculo.
Porém, a aposta da equipe é que, mesmo assim, esta estrutura em
paralelo seja capaz de fornecer um sistema de controle em tempo

"#
A MENTE EXTERNA

real para atividades humanóides na escala de tempo humana. Se ela


se mostrar insuficiente, o projeto será abandonado, pois a motiva-
ção do trabalho é a de que, pela confrontação e resolução de proble-
mas reais em tempo real de autoproteção, coordenação mão-olho e
interação com outros seres animados, os artífices de Cog possam
descobrir as condições suficientes para as funções cognitivas supe-
riores em geral e também para uma variedade de consciência que
possa satisfazer os céticos.
O fato que gostaríamos de destacar no projeto Cog, e que
Daniel Dennett discute com primor, é o porquê da necessidade da
máquina, em que a equipe que ele faz parte irá investir, ser um
robô – máquinas que possuem um corpo –, e não um computador,
que tentaria simular as funções cognitivas. Acreditamos que esteja
claro que as justificativas irão de encontro à concepção de mente
que o autor expõe em Kinds of minds e a sua crítica aos funcionalistas
ingênuos. Como diz Dennett, apostar em robô é de certa forma
ceder aos argumentos dos que afirmam que uma genuína
corporificação em um mundo real é necessária para se ter consci-
ência. Dennett admite esta necessidade, mas declara que isto se
deve a razões práticas. Não é por acreditar que uma corporificação
real dote os seres com algum suco vital, que não poderia ser forne-
cido em um mundo virtual, que ele defende a mesma posição, mas
por razões mais propriamente experimentais. Deve-se aceitar todos
os problemas envolvidos na produção de um agente real que possa
lidar com o mundo real, para que não se negligencie, não se subes-
time ou interprete inadequadamente os problemas mais fundamen-
tais do design. Muitos dos problemas atuais do projeto não apare-
cem no reino da IA pura, não-corporificada, como, por exemplo,
se o barulho das engrenagens das juntas poderá perturbar a audição
de Cog.
Tendo apresentado de forma extremamente simplificada as li-
nhas gerais do projeto Cog, gostaríamos de tecer algumas consi-

#%
MARCELO LAND

derações finais neste capítulo, que acreditamos serem fundamen-


tais. Ninguém poderá prever se Cog será ou não um projeto bem-
sucedido. Pode ser que o problema do controle em tempo real seja
uma etapa limitante. E, se o for de fato, teremos de aguardar al-
guns anos para que ele seja retomado, porque um mal resultado
desta ordem não é uma justificativa de princípio para abandoná-lo
de vez.
É provável que este problema venha a ser superado mais cedo
ou mais tarde. Certamente, surgirão outros problemas práticos.
Um deles é que, sendo um sistema coneccionista, pretende-se que
os ajustes do sistema um dia possam ser feitos por ele próprio, e
não mais pelos seus artífices. Isto significa dizer que uma atitude
de controle de segunda ordem deve surgir em Cog. Como vere-
mos no próximo capítulo, Dennett considera este passo funda-
mental para a obtenção de “verdadeiros” engenhos semânticos.
Se Cog não demonstrar esta habilidade, mesmo que de forma
rudimentar, poder-se-á dizer que o projeto também fracassou.
Se os pesquisadores não conseguirem, apesar de tudo, que
este robô desenvolva comportamentos semelhantes aos de hu-
manos em situações banais da vida, apesar de ter sido bem-
sucedido nos dois primeiros testes, também haverá motivo para
deixá-lo de lado. Na verdade, muitas outras coisas poderão acon-
tecer. Certamente, na melhor das hipóteses, eles conseguirão um
robô com idade mental de crianças pequenas e com inteligência
muito inferior.
O que nos importa, no entanto, é que ele é a concretização de
uma idéia gerada dentro de uma determinada visão de mundo, tão
estranha quanto foi a idéia de revolução burguesa, que se viu con-
cretizada nas leis constitucionais americanas, quanto foram as re-
voluções comunistas, que geraram os estados socialistas “concre-
tos” no início do século XX. Foram projetos bem-sucedidos? Quem
poderá dizê-lo neste momento?

#$
A MENTE EXTERNA

As estranhezas contidas na tentativa de construção de Cog são


várias. Em primeiro lugar, a sua inspiração é coneccionista, por-
tanto, trabalha com um conceito de processamento de informação
não-representacional, apesar de Cog possuir alguns componentes
de software, ou seja: também será dotado de uma mente capaz de
manipular símbolos (representações). Em segundo lugar, a avalia-
ção do sucesso do projeto, ou seja, se Cog está desenvolvendo
funções cognitivas, é feita do ponto de vista da terceira pessoa.
Não se pensa, pelo que sabemos, em perguntar a Cog diretamente
sobre suas experiências internas, e ele não será estimulado a usar
a introspecção. Em terceiro lugar, Cog não foi dotado com ne-
nhum órgão especial para a consciência. Se ela um dia surgir, não
haverá nenhum teatro cartesiano para ser procurado. Em quarto
lugar, tudo se fará para tratar Cog como um agente em potencial,
como fazemos normalmente com crianças, mesmo que no início
as tentativas de interação se pareçam mais com o hábito, um tanto
curioso, de alguns em falar com plantas.
Contudo, por trás de todas estas estranhezas, está uma visão
muito significativa. Por ela, não haveria no mundo nenhuma pro-
priedade intrínseca, mas apenas propriedades relacionais, que po-
dem ter sua necessidade prática explicada pela análise histórica. O
que quer dizer que uma coisa pode ter uma identidade, ou seja,
possuir uma série de propriedades que a caracterize; contudo, a
produção desta identidade pode ser rememorada pelo viés da his-
tória, por mais complexa que seja a sua narrativa. Esta é a lição do
darwinismo, que esta visão, da qual Dennett é um dos representan-
tes, apreendeu.
Quando nos voltamos para o tema da pessoalidade, munidos de
suas premissas, também temos de admitir que ela é uma proprieda-
de relacional, que não é uma propriedade intrinsecamente humana,
embora, na prática e no momento, somente Homo sapiens possam
ser ditos serem pessoas. Se um dia encontrarmos um ser que pre-

#&
MARCELO LAND

encha todos os critérios do que costumamos chamar de uma pes-


soa, mas que se pareça com um robô da linha Cog-n, será que lhe
negaremos os mesmos direitos civis e políticos, que hoje chama-
mos de direitos humanos? Com que base defenderíamos esta nega-
ção, este chauvinismo espécie-específico?
É provável que muitas e muitas gerações que nos sucederão
não enfrentem este problema. Pode ser que a complexidade en-
volvida na criação de máquinas conscientes seja tão grande, que
os “intrinsecalistas” dos séculos vindouros ganhem a contenda
após inúmeras tentativas fracassadas dos robocistas.
Contudo, um efeito positivo já foi provocado. Existe uma se-
mente de desconfiança plantada no cerne da tradição filosófica,
que ameaça produzir questionamentos crescentes em relação a
conceitos fundamentais para a nossa auto-imagem, tais como: cons-
ciência, pessoalidade, responsabilidade, validade da nossa psico-
logia popular. Parece ter se chegado a um “espaço”, onde tudo
isto pode ser posto em dúvida, com riscos enormes, porque as
bases fundamentais para justificar a nossa dignidade humana, e,
portanto, nossos direitos humanos, estão sendo aparentemente
abaladas.
Muitos filósofos certamente não se deixariam afetar por tanto
alarme. Os rortianos poderiam defender, por exemplo, a hipótese,
vista na introdução, de que nós não precisamos mais justificar os
nossos direitos, basta que os aceitemos como traços de nossa
etnocentria ocidental. Neste caso, não precisaríamos ficar aflitos
com os riscos das abordagens naturalistas à moralidade, e pode-
ríamos aproveitar boa parte da crítica naturalista aos vocabulários
filosóficos tradicionais.
Os filósofos mais acadêmicos mostrar-nos-iam a incoerência
das premissas de base deste naturalismo pragmático e de sua
abordagem cientificista. Negariam a validade de muitos argu-
mentos naturalistas e nos falariam do conceito de “projeto

#'
A MENTE EXTERNA

normativo” e da famosa “falácia naturalista”. Provariam, assim,


que houve um grande exagero na tentativa naturalista de contri-
buir para a moral.
Alguns sociólogos estudariam o fenômeno dentro da crise da
pós-modernidade. E as pessoas comuns continuariam a “viver a
vida”, com os direitos concretos que pudessem obter.

#(
MARCELO LAND

Capítulo 2

O Compatibilismo e o
agente moral

Neste capítulo, pretendemos rever as teses dennettianas sobre a


nossa possibilidade de possuirmos vontade livre, como sujeitos des-
critos por um vocabulário intencional, e o determinismo causal, im-
plicado em uma descrição fisicalista dos eventos cerebrais. Em ter-
mos iniciais, a questão poderia ser colocada do seguinte modo: como
podemos conceber o cérebro como um engenho semântico, quando,
estritamente falando, do ponto de vista físico, ele só pode ser um
engenho sintático, um mero manipulador de signos, sem que nada
garanta o salto da sintaxe para a semântica?
Como veremos, Dennett pretende construir uma explicação
naturalista desta passagem, afirmando a tese de que o aumento
da complexidade das funções cognitivas do cérebro é suficiente
para explicar os aparentes paradoxos, que levaram às complica-
das considerações sobre o dualismo mente-corpo, por um lado,
e à excessiva separação entre explicações causais e racionais,
por outro.
Examinaremos se a tese do determinismo causal dos eventos
cerebrais e se uma descrição naturalista da pessoa comprometem
a nossa visão de sujeito moral como aquele que age livremente e
se responsabiliza por seus atos. Verificaremos que a descrição na-
turalista da pessoa de Dennett é determinista, e, ainda assim, pos-
sibilita a idéia de um agir racional e livre, porque razões são pro-
dutos das mesmas pressões seletivas que nos originaram pelo pro-
cesso de seleção natural, e seres capazes de agir racionalmente

#)
A MENTE EXTERNA

são apenas o resultado de crescentes sofisticações no funciona-


mento cerebral.
Trataremos também da resposta dada por Donald Davidson para
o mesmo dilema, através da exploração do seu monismo anômalo.
Veremos que, embora substancialmente diferentes, as teses dos dois
autores concorrem para manter aceso o ideal do naturalismo prag-
mático americano apresentado na introdução deste livro, que quer
assegurar uma visão materialista não-reducionista da pessoa.

2.1. O Monismo Anômalo de Donald Davidson


Em um artigo denominado “Psychology as philosophy”,
Davidson oferece-nos uma distinção entre comportamento e ação.
Comportamento é algo que fazemos, e se opõe ao mero movi-
mento, como o nosso na superfície da terra ou dentro de um
carro. Ele pode ser intencional ou não, mas intenção já começa a
ser relevante na sua descrição. Porém, “um evento é uma ação
se e somente se ele pode ser descrito de um jeito que o torne
intencional”.116 Os acontecimentos deixam de ser ações e com-
portamentos quando não podem ser descritos em termos de in-
tenções.
Davidson pergunta-se, então, se o comportamento humano in-
tencional pode ser explicado do mesmo modo que os outros fenô-
menos. A resposta de Davidson é significativa e só será com-
preendida totalmente ao abordarmos o seu artigo “Mental events”,
que precede conceitual e cronologicamente “Psychology as
philosophy”. Porém, este último revela algo de fundamental da po-
sição de Davidson. Revela, digamos, as razões históricas de sua
postulação de alguns aspectos de seu monismo anômalo.
Pois bem, para o autor, as ações humanas são parte da natu-
reza, causando e sendo causadas por eventos exteriores a elas
mesmas. Contudo, pode-se argumentar que elas, bem como ou-
tras categorias do vocabulário intencional – tais como pensamen-

#*
MARCELO LAND

tos, desejos – não podem ser subsumidas a leis deterministas,


como os fenômenos físicos. Para ele, uma teoria do comporta-
mento tem de levar em conta estes dois argumentos e tentar
compatibilizá-los.
Isto talvez implicasse questionar se a psicologia poderia ser uma
ciência como as outras.117 As ciências sociais e o senso comum
procuraram descrever e codificar as interações dos homens com
seu ambiente, mas o que resulta da codificação “não são as leis
quantitativas estritas, inseridas em uma teoria sofisticada como a
que seguramente esperamos em física, mas correlações estatísticas
irredutíveis, que resistem, e resistem em princípio, a se aperfeiçoa-
rem indefinidamente”.118
Davidson propõe que esta incapacidade de encontrar leis
psicofísicas ou psicológicas é fruto do tipo de sistema conceitual
utilizado (o vocabulário intencional), que é determinado pela es-
trutura das crenças e desejos do agente. 119 Assim, afirma a
irredutibilidade nomológica do psicológico, o que significa que as
ciências sociais não poderão se desenvolver em paralelo à física,
nem esperar predizer comportamentos humanos com o mesmo
grau de precisão. Isto não quer dizer que os eventos capturados
pela rede conceitual dos vocabulários intencionais sejam em si
mesmos indeterminados ou não previsíveis, mas que a descrição
destes eventos por estes vocabulários impossibilita a formulação
de leis deterministas. O mesmo evento descrito em outro vocabu-
lário poderia ser subsumido a uma lei determinista, mas isto seria
mudar de assunto, de área de conhecimento, e mais radicalmente
seria tirar de cena o sujeito moral. Quando abordarmos o artigo
“Mental events”, veremos as justificativas apresentadas pelo autor.
Portanto, não introduziremos ainda as bases conceituais do monismo
anômalo resumidas no artigo. O que mais nos interessa é a critica e
autocrítica que Davidson faz ao que se costuma chamar de teoria
da decisão.

#!
A MENTE EXTERNA

Antes, porém, vejamos o que o autor tem a dizer sobre a relação


entre razões e ações. Para descrevermos e explicarmos ações, preci-
samos mencionar desejos, valores, propósitos, finalidades e objetivos
pessoais e uma crença, conectando o desejo com a ação a ser explicada.
Estes dois passos constituem o que Davidson chamou em seu artigo
“Ações, razões e causas” de razão primária. Vejamos:
Fornecer a razão porque um agente fez alguma coisa é
freqüentemente uma questão de nomear a pró-atitude120 (a) ou a
crença relacionada121 (b) ou ambas; chamarei este par de a razão
primária por que o agente realizou a ação.”122
Ao fornecermos uma razão primária para uma ação, estamos
racionalizando a ação descrita de uma determinada forma. Um mes-
mo evento pode ser descrito como uma ação ou várias. Tomemos o
exemplo de Davidson. Alguém aciona um interruptor, liga a luz e
ilumina a sala. Inadvertidamente alerta um bandido de que está em
casa. Uma só coisa foi feita, e quatro descrições foram dadas. A
pessoa acionou o interruptor porque queria ligar a luz, e ao dizer
que queria ligar a luz explicou (racionalizou) a ação de acionar o
interruptor. Porém não racionalizou a sua iluminação da sala ou o
seu aviso ao bandido de que estava em casa. Assim, deve-se dizer
que a descrição de uma ação tem um caráter quase-intensional-com-
s, e que existe uma condição necessária para que uma razão primá-
ria racionalize uma ação:
C1. R é uma razão primária pela qual um agente realizou uma
ação A, sob uma descrição d, se somente se R consiste de uma
pró-atitude do agente em relação a ações com uma certa pro-
priedade, e uma crença do agente de que A, sob a descrição d,
tem esta propriedade.123
Assim, uma razão primária racionaliza ações sempre sobre de-
terminada descrição. Mas o fato de poder racionalizar uma ação
não é suficiente para explicá-la. Podemos ter várias razões que raci-
onalizam e podem potencialmente explicar uma ação, mas para que

#"
MARCELO LAND

uma razão explique uma ação é necessário que ela seja a razão por
que o agente realizou esta determinada ação. Um homem pode ter
diversas razões para dar fim a vida de sua tia solteirona, rica, mori-
bunda e com uma doença terminal: está querendo receber logo sua
herança, está querendo se livrar dos encargos de tempo da doença
da tia, está cheio de piedade pelas dores horrendas que sua tia sente
e acredita que a eutanásia é moralmente correta. Todas estas razões
racionalizam a ação de matar a tia, mas apenas uma é a razão por
que o sobrinho matou a tia. Davidson afirma que, além de ser uma
boa razão, para explicar uma determinada ação, ela tem que ser
eficaz em produzir esta ação. Aqui um determinado tipo de causali-
dade está envolvido: a causalidade racional. Os desejos e crenças
contidos na descrição da razão eficaz são as condições causais da
ação.
Porém, Davidson afirma que mesmo isto é insuficiente, ou
seja, meramente determinar de forma objetiva a razão primária
eficaz não é suficiente para explicar completamente uma ação.
Tomemos o exemplo do autor:
Suponha que, ao contrário da lenda, Édipo, por alguma razão
edipiana obscura, estava correndo ao longo da estrada com a
intenção de matar seu pai, e, encontrando um homem velho e
mau-humorado bloqueando seu caminho, matou-o para que pu-
desse (assim ele pensava) prosseguir em sua tarefa fundamen-
tal. Então, não somente Édipo realmente quis matar seu pai, e
efetivamente o matou, como o seu desejo causou sua ação de
matar o pai. Agora, não podemos dizer que, ao matar o homem
velho, ele intencionalmente matou seu pai, nem que sua razão
em matar o homem velho era matar seu pai.124
Davidson pergunta-se, então, se além de oferecermos causas
necessárias para uma ação, também podemos oferecer causas que
sejam suficientes. Ele responde negativamente. Este fracasso deve
ser atribuído ao fato de que para que desejos e crenças expliquem
uma ação da maneira correta, eles devem ser a causa da ação da

##
A MENTE EXTERNA

maneira correta também, o que implica a suposição de uma cadeia


ou processo de raciocínios que vão ao encontro dos padrões de
racionalidade. Ele não consegue conceber como se pode distinguir
o tipo correto de processo causal envolvido numa determinada ação
sem se avaliar como uma decisão “é alcançada à luz de evidências e
desejos conflitantes”.125 Até mesmo propor esta avaliação parece
ser impossível, sem utilizar noções como evidência ou boas razões
para se acreditar.
Em suma, para entendermos o vínculo causal, precisamos lan-
çar mão de um padrão de racionalidade que nos ajude a interpre-
tar corretamente a relação entre razão e ação. No entanto, não é
possível alcançar o término do processo de atribuição de causas
necessárias dentro dos padrões de racionalidade, e é sempre pre-
ciso utilizar novas categorias intencionais para se aproximar de
uma generalização cada vez mais plausível. Tudo isto na tentativa
infrutífera de alcançar um conjunto de causas que possam ser
ditas suficientes para causar uma determinada ação. Há, portanto,
um constrangimento holístico neste processo.
Para Davidson, a impossibilidade de fornecer condições neces-
sárias e suficientes para agir segundo uma razão impossibilita a for-
mulação de leis que conectem razão e ação. Ou seja, não se conse-
gue fornecer previamente as condições suficientes de uma ação a
fim de prever deterministicamente se ela será realizada. Neste senti-
do, o autor é preciso: não se pode confundir leis estritas com gene-
ralizações estatísticas. Somente uma lei é capaz de nos permitir
determinar de antemão se as condições de sua aplicação serão ou
não satisfeitas. Com uma generalização estatisticamente provável,
podemos apenas supor que um número razoável de condições ne-
cessárias foi alcançado, mas nos resta sempre a dúvida se este con-
junto é suficiente para desencadear a ação prevista. O grau de certe-
za da sua efetivação é representado por um valor numérico, que
indica a chance de ela ocorrer. Como diz Davidson:

$%%
MARCELO LAND

O que é exigido no caso da ação, se a pretendemos predizer com


base em desejos e crenças, é um cálculo quantitativo que leve em
consideração todos os desejos e crenças relevantes. Não existe
esperança de aprimorar este padrão simples de explicação, base-
ado em razões, em tal tipo de cálculo.126
No entender de Davidson, no entanto, este grau de indeterminação
das explicações causais racionais é o preço apropriado a ser pago
para dispormos da possibilidade de explicar comportamentos, sem
saber muito sobre como foram causados,127 sem levarmos em con-
ta a complexidade dos fatores causais envolvidos, sendo conveni-
entemente omitido desta teoria explicativa uma forma clara de testar
quando as condições antecedentes foram alcançadas.
Antes de passarmos à análise de Davidson do seu trabalho
sobre teoria da decisão a partir da teoria de Frank Ramsey,
faremos algumas considerações sobre como conceber esta idéia
de que há um preço apropriado a ser pago ao se dar uma expli-
cação racional do comportamento e, conseqüentemente, da
ação. O que ganhamos com o uso de uma teoria que não con-
segue fornecer uma previsão inequívoca de que, dadas deter-
minadas condições, certos efeitos se seguirão obrigatoriamen-
te? De um certo ponto de vista, pode-se responder à pergunta
dizendo que a psicologia popular, a sociologia e outros campos
da cultura que usam determinadas categorias intencionais devem
ser entendidos como instrumentos muito razoáveis de previsão
para determinados usos, com economia de cálculo e tempo. Este
ponto de vista procuraria dar uma resposta ao anseio humano de
possuir um conjunto de proposições que nos ajudem a prever e
controlar.
De um outro ponto de vista, o que ganhamos é a manutenção
de uma certa imagem de nós mesmos, na qual nossas ações são
explicadas por nossas melhores razões na maioria das situações, e
mais raramente por razões idiossincráticas, nem por isto menos
capazes de serem assumidas como nossas, possibilitando que nos

$%$
A MENTE EXTERNA

sejam atribuídos méritos e responsabilidades, a partir de critérios


normativos de nossa comunidade. Esta imagem de nós mesmos
como seres racionais responsáveis por ações e merecedores de elo-
gios é muitas vezes resumida na rubrica de nossa dimensão como
agentes morais. Neste sentido, a importância das descrições dos
eventos como mentais, sem a concomitante necessidade de postu-
lar suas existências reais no cérebro humano, implicaria a possibili-
dade de continuar a usar certas palavras muito apreciadas por nós,
tais como: dignidade, respeito, responsabilidade, livre arbítrio, au-
tonomia e outras tantas. A idéia de justiça no sentido atual estaria
totalmente condenada ao desuso sem este tipo de vocabulário, por-
que o processo judicial, tal como o conhecemos, não poderia ser
desencadeado na prática. Na verdade, mais radicalmente ainda, a
noção de acreditar no que se está dizendo seria destituída de signifi-
cado, o que, a princípio, inviabilizaria o diálogo entre as pessoas.
Assim, esta seria uma resposta ao anseio de podermos manter a
esperança de possuir proposições que nos ajudem a saber o que
fazer. Quais dos dois sentidos aqui expostos Davidson estaria con-
siderando na sua proposição? Para nós, ambos. Tentaremos sempre
apresentar as conseqüências de suas propostas nestes dois senti-
dos.
Uma maneira concebível de tentar lidar com a imprecisão na
previsão de comportamentos e ações através da atribuição de ra-
zões e da postulação da causalidade racional é adotar uma postura
reducionista, produzindo uma descrição em que os termos em
linguagem intencional são substituídos por outros termos não in-
tencionais que se refiram a eventos observáveis. Tomemos o exem-
plo do behaviorismo definicional, citado pelo autor em “Mental
events”. Davidson imagina alguém que pretendesse descrever o
que é para um homem acreditar que existe vida em Marte, sem
utilizar qualquer conceito mental. Ele descreveria assim a situa-
ção: diante do som A (Existe vida em Marte?) produzido na pre-

$%&
MARCELO LAND

sença deste homem, ele produz um som B (sim). A aparente sim-


plicidade do modelo é desmascarada, quando se nota que para o
som B funcionar como evidência de que o homem acredita que
existe vida em Marte está implícito que ele compreende português,
que sua produção sonora foi intencional e que foi uma resposta a
um som compreendido como uma frase em português, e assim por
diante. Este defeito não poderia ser corrigido com a adição de no-
vos elementos, já que, segundo Davidson:
Para cada deficiência descoberta, teríamos que acrescentar um
novo pré-requisito. Agora não importa como remendemos e
ajustemos as condições não mentais, sempre encontraremos a
necessidade de uma condição adicional (já que ele nota, com-
preende etc.) que é em essência mental.128
Este tipo de reducionismo definicional129 mostrar-se-ia fracas-
sado, nem tanto pela sua comprovada inadequação para lidar com
o que se propõe, mas sobretudo por demonstrar este tipo de falha
sistemática.
Para Davidson, uma forma bem mais interessante de lidar com
a necessidade de evidência observável para crenças e desejos é a
ação. Pode-se propor teorias que “lidem diretamente com a rela-
ção entre ações, e que tratem desejos e pensamentos como
constructos teóricos”.130 Uma destas teorias é a de Frank Ramsey,
que pretendia primariamente demonstrar, através da observação
dos comportamentos, a idéia de que uma pessoa atribui graus va-
riados de confiabilidade a uma proposição. Com isto, ele queria
mostrar que
se os padrões de escolhas e preferências individuais, dentre um
conjunto ilimitado de alternativas, evidenciam certas normas,
então este indivíduo pode ser interpretado como agindo para
maximizar alguma utilidade antevista, isto é, ele age como se ou-
torgasse os valores aos resultados da ação por meio de uma
escala com intervalos, como se julgasse a plausibilidade da ver-
dade da proposição através de uma escala racional, e como se

$%'
A MENTE EXTERNA

escolhesse a alternativa com o maior ganho computado que pôde


antever.131
A teoria de Ramsey propunha um tipo de procedimento experi-
mental para separar o papel desempenhado por aquilo que Davidson
chamou de probabilidade subjetiva, ou grau de crença na verdade
da proposição, e valor subjetivo do resultado da verdade ou falsida-
de da proposição, presentes no comportamento de escolha. Veja-
mos isto no exemplo que se segue. Imagine uma espécie de jogo,
em que se deve apostar entre uma de quatro possíveis alternativas
com relação ao resultado do jogo de time 1 x time 2 de um domingo
à tarde:

proposição opção 1 opção 2


Se time 1 vencer você recebe R$100,00 R$300,00
Se time 2 vencer você recebe R$200,00 R$150,00

Parece lógico pressupor que tanto o grau de crença em cada


uma das proposições quanto o ganho monetário do resultado irão
influenciar a escolha do agente. Se ele acreditar fortemente que
o time 1 vai vencer, irá apostar na possibilidade de ganhar 300
reais, escolhendo nesta mesa virtual de aposta a opção 2 da pro-
posição “Se time 1 vencer você recebe”. Por outro lado, se sua
crença for a de que ambos têm chances iguais de vencer, conti-
nuará apostando no ganho de 300 reais. Diante destes resultados
idênticos, não poderíamos inferir nem calcular qual o grau de
crença em cada uma das proposições, sem saber precisamente
qual é a influência da expectativa do maior ganho da proposta de
300 reais que retrata o valor subjetivo de um dos resultados para
o agente.
É óbvio que a expectativa do maior ganho é fundamental na
aposta neste tipo de jogo. Vejamos este exemplo. As pesquisas elei-
torais dão vantagem de 99% para o candidato A vencer as eleições
presidenciais. Você admite que as pesquisas devem retratar o que

$%(
MARCELO LAND

vai acontecer. E agora deve fazer sua aposta em um destes quatro


lugares:

proposição opção 1 opção 2


Se candidato A vencer você recebe R$10,00 R$20,00
Se candidato B vencer você recebe R$20.000,00 R$5,00

Apesar do alto grau de certeza da proposição “o candidato A


vence” ser verdadeira, dificilmente a expectativa remota de ga-
nhar 20 mil reais não o faria apostar contra as suas melhores ra-
zões.
Assim, no procedimento experimental, por um lado, pode-se se
assumir que o agente julga as probabilidades de acordo com fre-
qüências, ou seja, de acordo com probabilidades objetivas – como
no caso em que sabe os resultados da pesquisa –, e, conseqüente-
mente, é mais fácil calcular a partir das suas escolhas qual é o valor
subjetivo de cada aposta. Por exemplo: os resultados das pesquisas
dão 60% de chance para o candidato A e 40% para o candidato B.
Temos as seguintes escolhas:

proposição opção 1 opção 2


Se candidato A vencer você recebe R$100,00 R$200,00
Se candidato B vencer você recebe R$300,00 R$400,00

Nesta circunstância, tornar-se-ia mais “fácil” mostrar qual o grau


de influência das expectativas de ganhos envolvidos nas escolhas.
Por outro lado, pode-se calcular o grau de crença em várias
proposições, se se assumir que os valores são lineares em dinheiro.
Por exemplo, ainda sobre o jogo de domingo:

proposição opção 1 opção 2


Se time 1 vencer você recebe R$100,00 R$110,00
Se time 2 vencer você recebe R$120,00 R$130,00

$%)
A MENTE EXTERNA

As expectativas de ganhos deverão influenciar muito pouco as


escolhas, e a ação de apostar deverá estar sendo determinada pelo
grau de crença em uma das proposições.
Porém, nenhuma das assunções pode ser feita antes de se obter
as evidências do próprio experimento, já que as escolhas são deter-
minadas por ambos os fatores, que são desconhecidos por princí-
pio. Como conseqüência, só teremos evidências de uma coisa se
definirmos ou fixarmos previamente o peso relativo da outra. A
solução de Ramsey132 é a de que se pode dizer que uma pessoa
julga um evento tão provável ou não de acontecer, se ele não se
importa se um resultado atrativo ou não atrativo está ligado a ele,
ou seja, se é indiferente, podemos dizer, com relação às duas op-
ções:

proposição opção 1 opção 2


Se chover você recebe $1,000 um chute
Se não chover você recebe um chute $1,000

Neste caso, admite-se que o grau de crença em cada uma das


proposições é de 50%, e, então, avalia-se o valor subjetivo de
cada uma a partir das repostas escolhidas. Por exemplo, uma maior
proporção de ocorrências de respostas na opção 2 da segunda pro-
posição do que na opção 1 da primeira proposição indicaria seu
maior valor subjetivo. Após estar estabelecida uma escala de valo-
res subjetivos, pode-se avaliar, em um segundo experimento, o grau
de crença entre duas outras proposições.
Davidson trabalhou durante anos com a teoria de Ramsey, e,
no artigo presentemente discutido, ele apresenta considerações que
nos ajudam a esclarecer certos pontos de sua própria trajetória filo-
sófica. Em primeiro lugar, ele viu méritos na estratégia de Ramsey
para tornar a ação um elemento observável, ao mesmo tempo em
que supunha que crenças e desejos eram elementos internos à
teoria. Ele elogia a estratégia da seguinte forma:

$%*
MARCELO LAND

Isto simultaneamente remove a necessidade de estabelecer a


existência de crenças e atitudes independentemente do com-
portamento; assume como problema sistemático (constructos)
a totalidade da rede de fatores cognitivos e motivacionais
revelantes.133
Além disso, reconheceu a coerência desta tentativa como uma
teoria que queria prever como se dava uma decisão e uma ação,
assinalando seu intuito de atribuir valores numéricos à medida do
grau de crença e desejo, obtendo estes valores através de evidên-
cias puramente qualitativas: referências ou escolhas entre pares de
alternativas. Porém, apesar do elogio de toda a estrutura teórica
do estratagema de Ramsey, ele se pergunta se esta teoria da deci-
são poderia ser uma teoria científica do comportamento do modo
semelhante à teoria física.
A resposta de Davidson a esta pergunta nos interessa sobrema-
neira. Por meio dela, reconhecemos um passo decisivo na sua
carreira e escolha de campo de trabalho e, além disso, uma posi-
ção pessoal como pensador diante de um impasse fundamental.
Durante os anos de trabalhos com a teoria da decisão, conta-
nos Davidson, ele sabia que a teoria de Ramsey tinha de assumir
implicitamente que as crenças e desejos não se modificavam com
o tempo, ela perderia o seu poder preditivo. A teoria colocava
restrições em um corte transversal nas disposições do agente para
escolher. Se se quisesse testar a teoria, encontrava-se a dificulda-
de de que o procedimento de testagem perturbava o modelo que
se queria testar. Após algum tempo, tentando testar a teoria, ele
introduziu um novo experimento. Os sujeitos faziam várias esco-
lhas dentro de uma pequena extensão de alternativas, e, em sessões
subseqüentes, era oferecido o mesmo conjunto de opção, repetidas
vezes. As alternativas eram disfarçadas para que não se percebesse
a repetição, e tomavam-se medidas para evitar aprendizado e condi-
cionamento. As escolhas eram examinadas para se notar inconsis-
tências, tais como intransitividades.134 Davidson notou que, com o

$%!
A MENTE EXTERNA

passar do tempo, as pessoas se tornavam cada vez mais consisten-


tes, e as intransitividades eram gradualmente eliminadas. Isto signi-
ficava que uma teoria estática como a de Ramsey não podia produ-
zir predições acuradas, pois o mero fato de fazer escolhas já altera-
va futuras escolhas. E, mais surpreendente ainda, se se assumisse
que a preferência “verdadeira” era a alternativa de um par mais
freqüentemente escolhido durante as várias sessões do experimen-
to, então não havia mais inconsistências. Davidson interpretou isto
como se aparentemente, desde o início, houvesse valores consis-
tentes e subjacentes que eram implementados cada vez melhor nas
escolhas. O efeito de tudo isto é descrito assim pelo autor: “Eu
achei impossível construir uma teoria formal que pudesse explicar
isto, e larguei minha carreira como um psicólogo experimental.135
Deste momento do artigo em diante, Davidson inicia uma série
de considerações fundamentais. A teoria de Ramsey, para funcio-
nar, necessita que determinadas condições sejam obtidas:
1- Propor-se a encontrar um determinado tipo de proposi-
ção: o sujeito que escolhe não deve se incomodar se a falsidade ou
verdade da proposição está ligada ao mais atrativo dos dois resul-
tados.
2- Para que a teoria seja usada para medir graus de crenças e
força relativa dos desejos, é necessário que exista este tipo de
proposição.
Do ponto de vista formal, isto seria análogo ao que acontece
com as medidas fundamentais da física: temperatura, comprimen-
to, massa. A atribuição de número às medidas depende de que
condições sejam satisfeitas, por exemplo: que os corpos sejam
rígidos. Assim, o autor propõe:
E eu penso que podemos tratar os casos como se fossem para-
lelos no seguinte sentido. Tanto quanto a satisfação das condi-
ções para medida de comprimento e massa pode ser vista como
constitutiva do âmbito de aplicação das ciências que exploram

$%"
MARCELO LAND

estas medidas, da mesma forma a satisfação das condições de


consistência e coerência racional pode ser vista como constitutiva
do âmbito de aplicação de conceitos, tais como os de crença,
desejo, intenção e ação.136
Assim como seria difícil descrever convincentemente um ex-
perimento físico que nos persuadisse de que as condições de
transitividade de “mais pesado que” haviam falhado, também o é
nos convencer de que um homem, num dado momento, “prefere
A a B, B a C, e C a A”.137 Isto porque não faz sentido atribuir
preferências, exceto contra um pano de fundo de atitudes coe-
rentes.
O significado que ele retirou de seu experimento pode ser des-
crito, portanto, da seguinte forma: ele “demonstrou o quanto é
fácil interpretar comportamentos de escolha de forma a dar a eles
um padrão consistente e racional”.138 E prossegue:
Quando aprendemos que inconsistências aparentes desapare-
cem com a repetição, mas não com o aprendizado, estamos ap-
tos a assumir a inconsistência como meramente aparente. A
minha questão não é meramente que os dados estão abertos a
mais de uma interpretação, apesar disto ser óbvio. Minha ques-
tão é que se somos capazes de atribuir crenças e desejos de
forma inteligível, ou útil para descrever movimentos como com-
portamentos, então, estamos comprometidos a achar, no padrão
do comportamento, da crença e do desejo, um grande grau de
racionalidade e consistência. 139
No que se segue do artigo, Davidson irá introduzir a idéia de
que entender comportamentos e ações é semelhante a entender
sentenças de uma língua. Ambos podem ser descritos com o
mesmo arcabouço teórico. O estabelecimento da correção da atri-
buição de crenças e desejos envolveria muitos dos problemas
que se têm para entender palavras. Na verdade, o autor afirma
que “os problemas são os mesmos”, 140 porque não é possível
determinar as crenças de alguém sem dominar sua linguagem, e
também não se pode controlar esta linguagem sem se conhecer

$%#
A MENTE EXTERNA

muitas das crenças deste sujeito. Esta é a famosa circularidade,


que estava implícita na teoria da tradução radical de Quine, que
Davidson apontou com precisão. Neste artigo, embora não se
detenha muito em expor sua solução – a interpretação radical –,
ele demonstra as dificuldades implicadas nesta mútua dependên-
cia de crenças e conhecimento da língua. E fica claro também
que a sua engenhosa solução de utilizar o princípio da caridade
interpretativa em muito se assemelha à estratégia de Ramsey para
desarticular probabilidade subjetiva e valor subjetivo. Vejamos o
que ele diz:
A razão por que não podemos entender o que um homem fala
sem conhecer um grande número de suas crenças é esta. A fim
de interpretar comportamentos verbais, temos de ser capazes
de dizer quando um falante garante que uma sentença que ele
fala é verdadeira. Mas sentenças são garantidas para serem
verdadeiras parcialmente por causa do que é acreditado, e
parcialmente por causa do que o falante quer dizer com suas
palavras. O problema da interpretação, portanto, é o problema
de abstrair simultaneamente os papéis de crença e significado
dos padrões das sentenças, que o falante subscreve durante
um tempo. A situação é semelhante àquela da teoria da deci-
são: na medida em que não podemos inferir crenças de esco-
lhas sem inferir também desejos, então também não podemos
decidir o que um homem quer dizer com o que ele diz sem ao
mesmo tempo construir uma teoria acerca do que ele acredi-
ta.141
Sabemos que, segundo o princípio de caridade interpretativa,
não temos necessidade de construir nenhuma teoria das crenças
do agente. Simplesmente atribuímos ao agente nossas próprias cren-
ças, ou seja, a teoria que está implícita em nossa própria prática
lingüística.142 Tratamos o agente como um crente em verdades, e
apostamos que as crenças básicas deste agente são muito seme-
lhantes às nossas. Como diz Davidson:
No caso da linguagem, a estratégia básica deve ser assumir que

$$%
MARCELO LAND

na sua grande maioria um falante, que não entendemos ainda, é


consistente e correto em suas crenças – de acordo com nossos
próprios padrões, é claro. Seguindo esta estratégia, torna-se pos-
sível emparelhar sentenças que o falante utiliza com sentenças
de nossa própria língua, que garantimos serem verdadeiras nas
mesmas circunstâncias. Quando isto é feito sistematicamente,
o resultado é um método de tradução.143
Assim, Davidson propõe que a interpretação do comportamento
verbal mostra aspectos evidentes em toda explicação de compor-
tamentos em geral. Eles não podem ser interpretados um a um,
mas só no contexto de um sistema. O constrangimento holístico
necessário para se interpretar as línguas naturais também se apli-
cam às ações. E aqui a teoria da ação e a teoria semântica de
Davidson encontram-se. A explicação a seguir poderia estar pre-
sente em quaisquer artigos de um ou outro tema:
Quando nos voltamos para a tarefa de interpretar o padrão, per-
cebemos a necessidade de achá-lo em concordância com pa-
drões de racionalidade, dentro de seus limites. No caso da lin-
guagem, isto é aparente, porque compreendê-la é traduzi-la den-
tro do nosso próprio sistema de conceitos. Mas, de fato, o caso
não é diferente com crenças, desejos e ações.144
Tendo desta forma caracterizado o sistema conceitual que
subjaz à interpretação de comportamentos e ações, Davidson rei-
tera a impossibilidade de encontrar leis psicofísicas, o que será
tratado quando da análise do artigo “Mental events”. O que preten-
díamos mostrar até o momento era a conexão dentro da obra do
autor entre duas de suas área de teorização. Ao mesmo tempo, qui-
semos mostrar, através do seu depoimento no artigo, como a difi-
culdade de prosseguir seu trabalho como psicólogo experimental
foi fundamental para o seu direcionamento filosófico posterior. Ainda
nos interessa analisar uma das propostas finais de Davidson nas
últimas frases de “Psychology as philosophy”:

$$$
A MENTE EXTERNA

Desde que fenômenos psicológicos não constituem um sistema


fechado, isto significa dizer que eles não são, mesmo em teoria,
susceptíveis à predição ou a serem subsumidos a leis
deterministas. O limite, que se põe às ciências sociais, não é
imposto por natureza, mas por nós mesmos, quando decidimos
ver os homens como agentes racionais com objetivos e propó-
sitos, e como sujeitos à avaliação moral.145
Pelo que vemos, Davidson não está dizendo que é impossível
prever movimentos de homens de forma determinista. Na verda-
de, isto poderia até ser concebível em teoria. Ele está afirmando
que é impossível prever comportamentos e ações de forma preci-
sa porque, ao dizermos que estamos tentando prever comporta-
mentos, estamos adotando uma determinada visão de homem.
Estamos adotando uma determinada atitude frente a ele. Esta ado-
ção é arbitrária, e não necessária. E, sendo assim, podemos ou
não querer ver o homem como um agente racional, para quem
avaliações morais são significativas. A obra de Davidson não pode
ser, portanto, tomada como um esteio contra posições
eliminativistas mais radicais. Contra estes, utilizaríamos Davidson
para dizer que a folk psychology não pode estar tão errada assim,
que ela deve ter um certo poder preditivo dos comportamentos.
Mesmo assim, abrir-se-ia a possibilidade de que alguém quisesse
criar um sistema conceitual, que permitisse construir leis
deterministas. Davidson, porém, parece nos alertar que, para que
possamos entender alguns aspectos humanos mais fundamentais,
pelo menos para os humanos desta cultura, precisamos preservar
este vocabulário, sem o que nossa dimensão racional e moral esta-
ria irremediavelmente perdida.
Em “Mental events”, Davidson se preocupa em reconciliar o
fato de que eventos mentais resistem à captura na rede nomológica
das teorias físicas e o papel causal dos eventos mentais no mundo
físico. Isto é o mesmo que reconciliar liberdade com determinismo
causal. Liberdade pareceria indicar escape das redes nomológicas,

$$&
MARCELO LAND

enquanto determinismo causal, o contrário. Davidson não assume


esta divisão esquemática. Ele divide liberdade em dois aspectos:
autonomia, definindo-a como liberdade ou “auto-regra”, que acre-
dita poder ou não se chocar com a idéia de determinismo; e anoma-
lia, definindo-a como falha em ser subsumido a uma lei, o que seria
um outro problema. O aspecto mais discutido nesse artigo é a ano-
malia do mental, sem que se estabeleça de forma explícita sua rela-
ção com a autonomia.
Ele parte de duas premissas: eventos mentais demonstram de-
pendência causal, e, ao mesmo tempo, a característica de serem
anômalos. Seus objetivos no artigo são: 1) explicar a aparente
dificuldade de conciliar estas duas premissas, e 2) colocar ações
humanas no âmbito dos eventos mentais, substituindo liberdade
por anomalia.
No artigo, Davidson apresenta três princípios:
1- Eventos mentais interagem causalmente com eventos físicos
(princípio da interação causal).
2- Onde existe causalidade devem existir leis deterministas (princí-
pio do caráter nomológico da causalidade).
3- Não existem leis deterministas estritas com base nas quais even-
tos mentais possam ser previstos e explicados (princípio do
anomalismo do mental).
Aparentemente, ao se aceitar estes três princípios como verda-
deiros, estar-se-ia gerando um paradoxo. Porém, a solução de
Davidson apresentada neste artigo é uma tentativa de compatibilizá-
los, demonstrando não haver contradição alguma entre eles. Com
isto, ele compatibiliza a idéia de liberdade, tomada como anomalia, e
a tese do determinismo causal dos eventos físicos. Diríamos que
ele torna o mundo seguro para libertários e cientistas.
Para isto, ele defende uma teoria de identidade entre eventos
mentais e eventos físicos e a tese de que não existem leis psico-
físicas, que após algumas assunções razoáveis implicaria a tese da

$$'
A MENTE EXTERNA

anomalia do mental (a ausência de leis psíquicas). Vejamos cada um


desses passos argumentativos.
Em relação à teoria da identidade, Davidson inicialmente pro-
põe sua definição de eventos como particulares, datáveis, indivi-
duais e nunca se repetindo. Neste sentido, um mesmo evento par-
ticular146 pode ter diversas descrições diferentes. Ao mesmo tem-
po, a teoria não se pronuncia sobre processos, estados e atributos
dos eventos. Ela se abstém também de considerar eventos parti-
culares como representantes de tipos de eventos.
O problema seguinte é se existe um critério adequado para expli-
car o que quer dizer ser um evento físico ou mental. A princípio,
Davidson caracteriza eventos mentais como aqueles para os quais
existem frases abertas (o evento x é M) ou uma descrição (o even-
to que é M), onde M é substituído por um verbo essencialmente men-
tal.147 A presença de um verbo essencialmente mental seria o critério
para caracterizar uma descrição mental de um evento. Do mesmo
modo, precisamos caracterizar o vocabulário físico para esclarecer o
que é uma descrição física148 de um evento.
Portanto, os eventos que esboçassem intencionalidade no sen-
tido brentaniano seriam contemplados, nos quais se incluiriam
ações intencionais, além dos estados ditos internos e privados.
Esta caracterização das descrições mentais gera a não inclusão
de vários eventos considerados paradigmáticos do mental, tal
como sentir dor. Os relatos destes eventos não parecem ser
intensionais-com-s.
Além disso, o critério adotado parece gerar outros tipos de
raciocínios contra-intuitivos. Davidson cita um exemplo:
Tome-se algum evento, um que seria intuitivamente aceito como
físico, digamos a colisão de estrelas no espaço distante. Deve
existir um predicado puramente físico ‘Px’ verdadeiro sobre
esta colisão, e de outras, mas verdadeiro sobre somente esta
colisão no momento em que ela ocorreu. Este momento parti-

$$(
MARCELO LAND

cular, contudo, pode ser precisamente determinado como o mes-


mo momento em que Jones percebe que um lápis começa a rolar
ao longo de sua escrivaninha. A colisão estrelar distante é assim
o evento x tal que Px e x são simultâneos com a percepção de
Jones de que o lápis começa a rolar ao longo de sua mesa. A
colisão foi agora distinguida por uma descrição mental e deve ser
considerada um evento mental.149
O exemplo de Davidson, por mais extravagante que pareça,
é realmente um exemplo de um evento para o qual existe uma
frase aberta ou descrição mental. Esta estratégia levaria a supor
que qualquer evento pudesse ser mental, levando à não-apreen-
são do conceito intuitivo de mental. Davidson não vê necessida-
de de resolver este problema gerado pelo seu critério de mental.
Ele acha que, apesar dele, o seu critério fortalece a hipótese de
que todos os eventos mentais são idênticos a eventos físicos, e
não falha em incluir todos os eventos mentais que realmente
importam.
O mais importante de sua forma de conceber eventos mentais
é poder propor posteriormente uma versão de teoria de identida-
de, que negue a existência de leis estritas, que conectem o físico e
o mental. Em geral, teorias de identidade são formuladas como
uma relação entre tipos de eventos mentais e tipos de eventos
físicos. Esta concepção implica postular leis que liguem estes dois
tipos de eventos, sem o que não se poderia falar de identidade.
Davidson assinala que, nesta forma de teoria, não se está conce-
bendo eventos como particulares, mas como instanciações de even-
tos de um certo tipo de evento. Naturalmente, é a própria forma
de conceber eventos que força a postulação de leis.
Tendo em vista as possíveis diferenças de conceber a relação
entre eventos físicos e mentais, ele oferece quatro formas de lidar
com o problema, com a finalidade de enfatizar a independência de
exigências de identidade e de exigências de conexão por meio de
uma lei estrita. Vejamos, então, neste contexto:

$$)
A MENTE EXTERNA

Teorias são divididas em quatro tipos: Monismo nomológico,


que afirma que existem leis de conexão e que os eventos
conectados são um (os materialistas pertencem a esta categoria);
Dualismo nomológico, que abarca várias formas de paralelismo,
interacionismo e epifenomenalismo; Dualismo anômalo, que com-
bina dualismo ontológico com falha geral de leis que conectem o
físico e o mental (cartesianismo). E, finalmente, existe o Monismo
anômalo, que classifica a posição que eu ocupo.150
Este tipo de monismo assemelha-se ao materialismo em dois
pontos:
1- afirma que todo evento é físico;
2- acredita que se pode dar explicações puramente físicas de
fenômenos mentais.
Ao contrário dos modelos materialistas, ele não é reducionista,
porque o “reflexo nada além de” 151 não pode ser desencadeado
na ausência de leis de conexão entre eventos. Nesta posição,
nega-se a possibilidade a priori de existirem leis psico-físicas,
mas afirma-se um tipo de dependência entre o físico e mental,
comumente chamado de superveniência. Vejamos a definição de
Davidson:
Tal superveniência deve ser entendida como querendo dizer que
não podem existir dois eventos iguais em todos os aspectos
físicos mas diferindo em algum aspecto mental, ou que um ob-
jeto não pode alterar-se em algum aspecto mental sem alterar-
se em algum aspecto físico152 .
Neste tipo de dependência, considera-se que os aspectos men-
tais de um evento são dependentes dos seus aspectos físicos. Con-
tudo, cabe ressaltar que ele não está se referindo aqui às descrições
dos eventos, mas à dimensão ontológica do evento, e, portanto, às
regras que utilizamos para os individualizar. De certa forma, ele nos
diz que nossas descrições mentais dependem das influências cau-
sais do evento descrito, e que estas descrições mudam com a mu-
dança do evento que as causa. Se um evento mudar algum aspecto

$$*
MARCELO LAND

físico, ele deixará simplesmente de ser este evento em particular.


Será outro evento que gerará outra descrição mental. Assim, um
evento mental, que por definição é aquele para o qual existe uma
descrição mental, depende dos seus aspectos físicos, embora não
necessariamente da maneira como os descrevemos em um vocabu-
lário físico. Imaginemos a seguinte situação: a convicção de João
de que hoje vai chover não deixa de ser a mesma convicção, sim-
plesmente pelo fato de que podemos mudar a descrição física de
um determinado estado neuronal de João. Imagine-se que se carac-
teriza este estado como um evento físico no cérebro de João, que
se deu na cidade do Rio de Janeiro, precisamente às duas horas da
tarde. Pode-se aumentar a descrição, acrescentando que o evento
descrito ocorreu no bairro de Botafogo, na janela do apartamento,
perto de um vaso de flores. No entanto, não seria mais o mesmo
evento se tivesse ocorrido às três horas da tarde. Nesta última cir-
cunstância, a convicção de João de que hoje vai chover seria seme-
lhante à convicção de João ocorrida às duas horas, mas não seria
mais a mesma convicção. Assim, a dependência se define pelo po-
der causal do evento sobre uma atividade descritiva. Mudando-se
os aspectos causais do evento, mudam-se os aspectos mentais.153
Davidson enfatiza a importância de sua concepção para manuten-
ção da autenticidade do inquérito moral:
Dependência ou superveniência deste tipo não implica
redutibilidade por meio de leis ou definições: se isto fosse as-
sim, poderíamos reduzir propriedades morais a descritivas e
existem boas razões para acreditar que isto não pode ser feito;
e poderíamos ser capazes de reduzir a verdade em um sistema
formal a propriedades sintáticas, e isto, sabemos, não pode em
geral ser feito.154
Como a sua teoria de identidade é token-token, e por razões
relacionadas à disparidade de sistemas conceituais entre o físico e
o mental, não há a possibilidade de redução por meio de leis ou
definições. Com isto, o inquérito moral, que por definição utiliza

$$!
A MENTE EXTERNA

vocabulário intencional, não pode encontrar uma tradução, ou re-


dução, em vocabulários físicos. Podemos ver esta afirmação como
uma crítica a um dos aspectos da chamada falácia naturalista.155
Um dos aspectos fundamentais para a compreensão do monismo
anômalo de Davidson é o entendimento do que é uma lei. Uma lei é
uma formulação lingüística, incluída em um sistema conceitual. A
impossibilidade de formular leis psico-físicas é uma impossibilidade
de construir leis de conexão entre o físico e o mental, porque não se
consegue compatibilizar predicados mentais e predicados físicos.
Com isto, é impossível formular uma lei do tipo (x) (x é y se e
somente se x é f), onde y é um tipo de predicado mental e f é um
tipo de predicado físico. Um exemplo deste tipo de lei seria “existe
um evento x tal que x é uma sensação de dor no polegar esquerdo
se e somente se x é um estado neuronal B”. Mais adiante, veremos
explicitadas estas reflexões sobre a imcompatiblidade dos dois tipos
de predicados.
Pois bem, a partir da afirmação de que leis são lingüísticas,
Davidson mostra como os três princípios do monismo anômalo
podem ser válidos, sem esboçar contradição entre si.
1- Justificativa do primeiro princípio: Eventos mentais
interagem causalmente com eventos físicos (princípio da
interação causal).
Os termos causalidade e identidade referem-se a relações en-
tre eventos individuais, independente das suas descrições. Os even-
tos interagem causalmente entre si, independente da forma como
são descritos. Podemos evidentemente descrever eventos como
mentais, e vê-los interagindo com outros eventos para os quais só
dispomos de descrições físicas. Assim, dizemos que o desejo do
capitão (evento mental) do submarino causou a destruição do na-
vio (evento físico) inimigo. O princípio de interação causal diz res-
peito a eventos na sua extensionalidade, e “é portanto cego à
dicotomia físico-mental”.156

$$"
MARCELO LAND

2- Justificativa do segundo princípio: onde existe causalidade,


devem existir leis deterministas (princípio do caráter nomológico
da causalidade).
O fato de haver leis onde há causalidade não implica que possa-
mos formulá-las em um vocabulário qualquer. Pois leis, sendo lin-
güísticas, só se aplicam a eventos quando descritos com um deter-
minado vocabulário – eventos só instanciam leis, quando descritos
de uma determinada maneira. Para que se possa formular leis que
expliquem a interação causal dos eventos, temos que ter um voca-
bulário próprio para a sua formulação.
3- Justificativa do terceiro princípio: não existem leis
deterministas estritas com base nas quais eventos mentais possam
ser previstos e explicados (princípio do anomalismo do mental).
O anomalismo do mental refere-se aos eventos quando descri-
tos por vocabulários mentais, concebidos como aqueles que utili-
zam atitudes proposicionais. Este tipo de vocabulário impede a
formulação de leis deterministas, possibilitando apenas a existên-
cia de generalizações. Logicamente, podemos ter declarações sin-
gulares verdadeiras de causalidade; contudo, nem todas instanciam
leis estritas.
A idéia por trás destas afirmações é que as declarações singu-
lares de causalidade têm um caráter geral, possuem a forma lógi-
ca de leis estritas, mas não legaliformes (lawlike). Elas são apenas
prováveis, e mesmo que se por acaso se encontrasse uma genera-
lização psicofísica verdadeira não-estocástica, “não teríamos ra-
zões para acreditar que ela fosse mais que grosseiramente verda-
deira”.157
E se podemos afirmar que estas generalizações não têm o
caráter legaliforme, é porque se pode dizer a priori o que é uma
declaração legaliforme ou ilegal. Isto não implica logicamente
fazer nenhuma consideração sobre a verdade da declaração, que
pode ser verdadeira e mesmo assim ilegal. Vejamos como

$$#
A MENTE EXTERNA

Davidson define uma declaração legaliforme: “Declarações legali-


formes são declarações gerais que permitem reivindicações
contrafactuais ou subjuntivas, e são confirmadas por suas instan-
ciações”.158
Davidson admite porém que não existe um critério inequívoco
para o que significa “legaliforme”, embora em casos particulares
possamos claramente fazer este julgamento. O caráter de ser
legaliforme é para ele uma questão de grau, embora existam casos
em que ninguém tenha dúvidas. Davidson acrescenta:
E, dentro dos limites impostos pelas condições de comunica-
ção, existe espaço para muita variação entre indivíduos no pa-
drão de declarações para as quais vários graus de
nomologicidade são atribuídos. Em todos estes aspectos, nomo-
logicidade é muito semelhante a analiticidade, como alguém
poderia esperar, já que ambos são ligados ao significado
(meaning).159
Feitas estas ressalvas, Davidson começa no artigo a expor o tipo
de incompatibilidade que ele tem em mente. Ele vai expor e contra-
argumentar as sugestões de Nelson Goodman sobre o caráter
nomológico de certos predicados. Vejamos em detalhe esta passa-
gem.160
A declaração “Todas as esmeraldas são verdes” seria legaliforme
pela definição apresentada na medida em que suas instanciações a
confirmam. Já a declaração “Todas as esmeraldas são verzuis” não
seria, já que verzuis significa “se observadas antes tempo t e ver-
des, senão azuis”. Isto porque, apesar de se poder observar que
todas as esmeraldas são verdes antes do tempo t, isto não é motivo
para dizer que esta observação corrobora a declaração.
Nelson Goodman, segundo Davidson, afirmava que certos
predicados não servem para a formulação de leis. A contra-argu-
mentação de Davidson é exatamente mostrar que o caráter anômalo
da segunda declaração não é devido ao predicado “são verzuis”,

$&%
MARCELO LAND

mas deve-se ao fato de que a propriedade de ser verzul não é uma


propriedade indutiva de esmeraldas. Ela seria uma propriedade
indutiva de outras entidades, tais como esmeriras.161 A declaração
“toda esmerira é verzul” é legaliforme, o que prova que o caráter
nomológico não depende de uma característica intrínseca de
predicados. Como diz o autor:
Declarações nomológicas reúnem predicados que sabemos a priori
serem feitos um para o outro – sabemos, quer dizer, independente
de sabermos se as evidências confirmam a conexão entre eles.
“Azul”, “vermelho”, e “verde” são feitos para esmeraldas, safiras
e rosas; “verzul”, “azerdeis”, e “verdelhos” são feitos para
saferaldas, esmeriras e esmerosas (emeroses).162
A passagem é clara. Vale a pena contudo ressaltar a sutileza da
escolha de Davidson por entidades ficcionais no exemplo. O que
uma declaração nomológica faz é conjugar dois predicados que per-
tencem a um vocabulário em que sabemos previamente que um se
adapta perfeitamente ao outro. Não precisamos tomar contato pré-
vio com a entidade para sabermos desta adequação. O que ele pre-
tende nos fazer intuir é que o caráter não nomológico das generali-
zações psicofísicas decorre do fato de que predicados mentais e
físicos não foram feitos um para o outro e se parecem com decla-
rações do tipo “toda esmeralda é verzul”, ao invés de “toda esmeral-
da é verde”. Mas esta incompatibilidade não decorre do fato de que
a extensão dos predicados é diferente, o que não se poderia afirmar
facilmente, mas sobretudo pelas diferenças estruturais dos dois sis-
temas conceituais.
Antes porém de analisarmos este fato, devemos atentar para
mais uma das diferenças conceituais propostas no artigo. Trata-
se de considerações sobre o que chamamos de generalizações.
Davidson propõe que, muitas vezes, temos a expectativa de que,
após observarmos que um determinado tipo de evento mental cos-
tuma vir acompanhado de um determinado tipo de evento físico,

$&$
A MENTE EXTERNA

outros casos se seguiram. Este fruto de nossa sabedoria prática é


uma generalização. Elas devem ser ditas serem grosseiramente
verdadeiras, o que é tornado explícito pelo fato de elas serem co-
locadas em termos de probabilidades e serem protegidas de con-
tra-exemplos por “generosas orações de escape”.163 Estas gene-
ralizações, embora vagas e de certa forma cruas, nos fornecem
boas razões para se acreditar que existem regularidades subjacentes,
que poderiam ser formuladas mais precisamente.
Neste ponto, ele introduz uma distinção entre dois tipos de gene-
ralizações: as homonômicas e as heteronômicas. Generalizações
homonômicas são aquelas que podem ser melhoradas pela adição
de novas condições e cláusulas formuladas no seu vocabulário de
origem. Este processo de aprimoramento poderia resultar eventual-
mente em uma lei. Generalizações heteronômicas nos fazem crer
que existem leis subjacentes, mas que só podem ser formuladas
quando se muda de vocabulário.
O autor acredita que generalizações psicofísicas são generali-
zações heteronômicas. Contudo, a psicologia, que as utiliza, não
seria uma ciência diferente de muitas outras. Muitos de nossos
conhecimentos práticos e científicos são heteronômicos. Muitas
das teorias que sustentam estas práticas e a ciência são abertas e
não contêm leis determinísticas, já que estas leis só poderiam ser
formuladas em teorias fechadas amplas.
O que Davidson entende por “uma teoria fechada” fica mais
claro quando se pensa no caso da física. Esta ciência faz uso de
generalizações homonômicas, permitindo, uma vez corrobora-
das pelas evidências, que se tornem cada vez mais precisas atra-
vés da utilização de outros conceitos físicos. Como diz o autor:
“(...) existe uma assíntota teórica de coerência perfeita com to-
das as evidências, perfeita previsibilidade (sob os termos do sis-
tema) e explicação completa (novamente sob os termos do siste-
ma)”. 164

$&&
MARCELO LAND

Para explicar o que Davidson tem em mente com esta idéia de


assíntota teórica de coerência perfeita, iremos discutir rapidamen-
te um de seus exemplos. Ele propõe inicialmente que: “a confian-
ça de que uma declaração é homonômica, corrigível dentro de seu
próprio domínio conceitual, demanda que ela retire seus conceitos
de uma teoria com fortes elementos constitutivos”.165
Para que se possa compreender esta passagem, é preciso
explicitar como uma determinada declaração se relaciona com os
elementos constitutivos de um sistema conceitual. Vejamos o seu
exemplo. Davidson declara que medidas de comprimento, tempe-
ratura, peso e tempo dependem da existência de relações de dois
lugares (two-place relations), que são transitivas e assimétricas,
tais como mais quente que, mais tarde que, mais pesada que, mais
longa que. Existe, portanto, uma lei que postula a transitividade
destas relações:
“(L) L(x, y) e L(y, z) -> L(x, z)”166
Se esta lei falhar, não fará sentido propor o conceito de com-
primento, por exemplo. Não haveria jeito de atribuir números a
medidas de comprimento. Mas o postulado (L) não esgota o signi-
ficado de “mais comprido que”, já que poderia ser aplicado para
“mais pesado que”, “mais tarde que”. Para que seja incluído no
contexto de “mais comprido que”, deverá haver um outro postula-
do que distingua este predicado transitivo dos outros. Este postula-
do, que o autor denomina de postulado de significado (meaning
postulate), atribui conteúdo empírico ao postulado da transitividade
(L). Ele é descrito assim por Davidson:
“(M) O(x, y)->l(x, y)”167
Este postulado interpreta ou traduz o postulado (L), fazendo
corresponder a um postulado de transitividade para comprimento.
Sua conjunção implica a afirmação de que não existem objetos a,
b, c, tais que O(a, b), O(b, c) e O(c, a), ou seja, a mais comprido
que b, b mais comprido que c, e c mais comprido que a. Davidson

$&'
A MENTE EXTERNA

pergunta-se, então, o que aconteceria se observássemos uma tal


tríade intransitiva. Se disséssemos que o postulado (L) é falso,
não faria mais sentido falar de comprimento ou de qualquer outra
medida. Se disséssemos que o postulado (M) não é uma boa defi-
nição para comprimento, teríamos que admitir que não entende-
mos corretamente a idéia do que é um comprimento de alguma
coisa. E a outra solução possível seria dizer que os objetos não
são rígidos. Davidson acha que é um erro aceitar qualquer uma
destas soluções, porque conceitos, como comprimento, são man-
tidos em equilíbrio por um número de pressões conceituais, e a
teoria de medidas fundamentais seria distorcida se nos forçásse-
mos a nos decidirmos pela verdade de um dos dois postulados, (L)
ou (M), os quais ele denomina de analítico e sintético respectiva-
mente. Para ele é melhor dizer que:
(...) o conjunto inteiro dos axiomas, leis, postulados para a medi-
da de comprimento é parcialmente constitutivo da idéia de siste-
ma de objetos físicos, macroscópicos, rígidos. Eu sugiro que a
existência de declarações legaliformes na ciência física depende
da existência de leis constitutivas (ou sintéticas a priori) seme-
lhantes àquelas das medidas de comprimento dentro do mesmo
domínio conceitual.168
Portanto, um sistema fechado é submetido aos mesmos cons-
trangimentos holísticos que outros sistemas conceituais. O que os
diferencia é que eles apresentam dependência da existência de leis
constitutivas, tomadas como sintéticas a priori, para poderem pro-
duzir outras declarações legaliformes. O que parece querer dizer,
por um lado, que estes sistemas fechados já se baseiam em declara-
ções legaliformes prévias, e o que se está obtendo são produções
lingüísticas, resultante da conjunção de predicados previamente ade-
quados à construção de leis estritas. Por outro lado, a própria
ontologia, que está implicada nestes sistemas, é básica para a aplica-
ção dos seus postulados. Ou seja, sem uma teoria ampla do concei-
to de objetos rígidos, não faria sentido falar de comprimento.

$&(
MARCELO LAND

Ao se atribuir atitudes proposicionais a alguém também estamos


submetidos aos constrangimentos holísticos do sistema conceitual
do mental. Só faz sentido atribuir uma atitude proposicional a um
agente em particular dentro da montagem de uma teoria viável de
suas crenças, desejos, intenções e decisões. Neste aspecto restrito
da dependência da atribuição de sua teoria constitutiva, seria mui-
to semelhante à atribuição de comprimento.
Ao se dizer que nenhuma atitude proposicional é atribuída uma
a uma, estamos começando a estabelecer uma diferença funda-
mental. Uma medida de comprimento pode ser realizada uma a
uma – cada caso em estudo pode testar a teoria. Já atribuir atitu-
des proposicionais só faz sentido quando se atribui um conjunto
enorme de crenças, desejos, medos, expectativas etc. Mas mesmo
esta atribuição global, como esboçamos na discussão do artigo
“Psychology as philosophy” só pode gerar generalizações com al-
gum grau de probabilidade. Num outro momento, uma mesma atri-
buição deste conjunto poderia não se mostrar adequada. Na verda-
de, nem saberíamos o que considerar adequado neste sentido. Por-
tanto, há algo neste sistema que impossibilita a geração de leis, e
este fato não é resultante de estar submetido a constrangimentos
holísticos pura e simplesmente.
O problema do sistema conceitual do mental é que, para que
possamos atribuir atitudes proposicionais, temos que partir de cer-
tas premissas. Como diz Davidson:
Investir pessoas com um alto grau de consistência não pode
resultar de mera caridade: é inevitável se estamos na posi-
ção de denunciá-los de modo significativo como errados e
com algum grau de irracionalidade. Confusão global, como
erro universal, é impensável, não porque tumultua a imagina-
ção, mas porque uma excessiva confusão não deixa nada para
ser confundido e erro maciço erode o background de crenças
verdadeiras contra as quais apenas a falha pode ser
construída.169

$&)
A MENTE EXTERNA

Esta passagem deixa claro que tipo de distinção entre o físico e


o mental o autor tem em mente. O sistema conceitual necessário
para que se possa atribuir atitudes proposicionais não tem leis
constitutivas a priori como o sistema conceitual da física. Isto é
o mesmo que afirmar que não existem leis psíquicas. Para que
possamos atribuir crenças e desejos de forma coerente, a ponto
de obter algum grau de certeza em nossas generalizações, preci-
samos lançar mão de uma atitude frente ao agente. Temos de tratá-
lo como um crente em verdades e um “amante do bom”,170 regido
por regras de racionalidade e coerência lógica, sem o que não
podemos entender o que é um erro de previsão neste contexto.
Neste sentido, como já assinalamos acima, o problema da atribui-
ção de atitudes proposicionais é o mesmo que o da tradução de
uma língua desconhecida – temos que partir das perspectivas da
interpretação radical –, e é também ao compreendermos esta ne-
cessidade que entendemos porque generalizações psicofísicas são
heteronômicas. Vejamos:
O caráter heteronômico de declarações gerais, que ligam o físi-
co e o mental, conduz-nos de volta ao papel central da tradução
na descrição de todas as atitudes proposicionais e à
indeterminação da tradução. Não existem leis psicofísicas estri-
tas por causa dos compromissos disparatados dos esquemas
mental e físico. É uma característica da realidade física que uma
mudança física pode ser explicada por leis que a conectem com
outras mudanças e condições descritas de modo físico. É uma
característica do mental que a atribuição dos fenômenos men-
tais tenha de ser controlada pelo background de razões, cren-
ças, intenções do indivíduo. Não podem haver conexões firmes
entre os reinos se cada um mantém fidelidade a sua própria
fonte de evidência. A irredutibilidade nomológica do mental
não se deriva meramente da natureza não fragmentável
(seamless) do mundo do pensamento, da preferência e da inten-
ção, pois esta interdependência é compartilhada pela teoria físi-
ca, e é compatível com a existência de uma maneira correta de

$&*
MARCELO LAND

interpretar a atitude de um homem sem relativização a um es-


quema de tradução.171
Segundo Davidson, o caráter holístico do mental não é o que
explica a irredutibilidade nomológica das generalizações
psicofísicas, já que a teoria física possui este mesmo caráter. A
ausência de leis mentais propriamente ditas também não impede
que haja uma maneira adequada de interpretar atitudes de um
agente, independente de quais esquemas de tradução estejam
postos em jogo. Isto porque quaisquer que sejam os esquemas
de tradução, manteremos a necessidade de atribuição de
racionalidade. E se assim o fizermos, encontraremos uma forma
adequada de interpretar atitudes. Porém, parece que esta necessi-
dade de caridade interpretativa determina o que é uma evidência,
ou a correção da atribuição, no território do mental, que é radical-
mente diferente da do território físico. Finalmente, Davidson defi-
ne o que determina mais radicalmente a irredutibilidade nomológica
do mental ao físico:
O ponto é mais propriamente que, quando usamos os conceitos
como os de crença, desejo e todo o resto, devemos ficar prepa-
rados, à medida que as evidências se acumulam, a ajustar nossa
teoria à luz das considerações acerca da sua coerência (cogency)
global: o ideal constitutivo de racionalidade controla parcialmente
cada fase na evolução do que deve ser uma teoria, que evolve.
Uma escolha arbitrária de esquema de tradução seria um manual
aceitável à luz de toda possível evidência, e esta escolha não pode
ser feita. Nós temos que concluir, eu penso, que o desnível
nomológico entre o mental e o físico é essencial, enquanto con-
cebemos o homem como um animal racional.172
Davidson está nos dizendo que é impossível alcançar qualquer
resultado razoável com teorias que utilizam a atribuição de atitudes
proposicionais, sem levar em consideração os padrões de
racionalidade subjacentes a esta prática. À medida que novas evi-
dências se acumulam – e aqui também são os padrões que definem

$&!
A MENTE EXTERNA

o que é uma evidência – modificamos os elementos explicativos de


nossa teoria. Além disso, toda esta interpretação só é possível se
tomarmos o nosso objeto de estudo, mais propriamente um agente,
como um ser racional e altamente coerente. O ideal da coerência e
da racionalidade do agente possui toda a efetividade no caso. Se
alguma evidência parecer contrariá-lo, devemos antes reavaliar a
evidência. Por isto, o sistema conceitual de atitudes proposicionais
é uma teoria aberta, porque nunca se está de posse de todos os
elementos no momento de propor a interpretação, que é propria-
mente nossa experimentação em psicologia. Para acabarmos com
esta dependência de levar em consideração a racionalidade do agen-
te, precisaríamos de um manual de tradução que fosse aceitável a
priori à luz de todas as evidências possíveis, mas este manual não
parece existir, porque isto implicaria que pudéssemos saber compor
um quadro completo de causas necessárias e suficientes para deter-
minadas ações humanas, o que, como já vimos, parece ser impossí-
vel.
A dependência deste ideal de racionalidade, e não o seu caráter
holístico, é o que diferencia radicalmente o sistema conceitual das
atitudes proposicionais do da física. E, ao mesmo tempo, explica
o desnível nomológico entre ambos. Neste mesmo contexto, po-
demos dizer que ele é a base da anomalia do mental, cujas regras
de funcionamento parecem obedecer aos padrões de racionalidade,
que, para Davidson, não se fundamentam em leis constitutivas
deterministas.
Em suas considerações finais, Davidson acrescenta apenas mais
um argumento que achamos valer a pena rever. Este argumento se
refere à dependência do conceito de autonomia em relação ao de
anomalia do mental. Em primeiro lugar, ele afirma que se alguém
soubesse a história física inteira do mundo e que se todo evento
mental fosse idêntico ao físico, ainda assim destes dois fatos não
se seguiria que pudesse prever ou explicar com descrições fisicalistas

$&"
MARCELO LAND

um evento mental sequer. Já vimos o porquê desta afirmação. Ex-


plicar um evento mental é sempre probabilístico e depende da ado-
ção de uma determinada atitude diante do agente. Se isto não for
feito, não se tem a chance de explicar nada. Assim, ao adotarmos
esta atitude, resultante da adoção de um determinado vocabulário
de atitudes intencionais, estamos, nas palavras de Davidson, “insu-
lando o mental em relação a leis estritas que podem, em princípio,
ser chamadas para explicar e predizer fenômenos físicos”.173
Por termos isolado o mental das redes de explicações nomológicas
do mundo físico, temos as seguintes conseqüências:
Eventos mentais como uma classe não podem ser explicados por
ciências físicas; eventos mentais particulares podem quando co-
nhecemos entidades particulares. Mas a explicação dos eventos
mentais nos quais somos tipicamente interessados relaciona-os
a outros eventos mentais e condições. Explicamos uma ação li-
vre de um homem, por exemplo, ao apelarmos para seus desejos,
hábitos, conhecimentos e percepções. Esta avaliação do com-
portamento intencional opera em uma rede conceitual removida
do alcance direto das leis físicas ao descrever tanto causa e efei-
to, razão e ação, como aspectos de uma imagem de um agente
humano. O anomalismo do mental é assim uma condição neces-
sária para vermos ações como autônomas.174
Nesta passagem, Davidson está nos dizendo que a anomalia do
mental é uma condição necessária para a autonomia do mental.
Isto parece ser evidente, já que, para poder-se conduzir por suas
próprias regras, é necessário não possuir regras alheias. Possuir
regras, no entanto, não quer dizer estar regido por leis deterministas,
mas explorar todo um conjunto de condições necessárias, que es-
tão envolvidas na nossa imagem de agente humano. Davidson teorizou
sobre esta imagem em vários artigos e “Mental events” não é o
lugar específico para entendermos seu conceito de autonomia do
mental. Na verdade, não pretendemos explorá-lo neste livro, embo-
ra o consideremos fundamental para sua obra e para se formar um

$&#
A MENTE EXTERNA

determinado quadro do que é um agente humano. Gostaríamos de


lembrar que estamos aqui interessados na tentativa de
compatibilização entre liberdade e determinismo em Davidson, por-
que muitos deles influenciaram Daniel Dennett de forma definitiva.
Logicamente, como veremos, não podemos dizer que este último
autor aderiu a eles integralmente.

2.2. Esboço do compatibilismo de Dennett: o recurso ao


design
Em um artigo denominado “On giving libertarians what they say
they want”, temos uma versão do compatibilismo de Dennett que
parece ter influenciado sua visão posterior até suas obras mais re-
centes. Iremos rever rapidamente suas principais teses.
Em primeiro lugar, devemos esclarecer que esta posição está
inserida dentro do problema filosófico da vontade livre (free will),
que Dennett, neste trabalho e em “Elbow Room” (espaço para
manobra) propõe ser mais precisamente um problema criado por
filósofos a partir de falsas premissas, que, neste último texto,
ele compara a bichos-papões da filosofia. Estes bichos-papões
serviriam para nos fazer acreditar em falsos perigos relaciona-
dos a nossa possibilidade de termos livre arbítrio e teriam gerado
o pseudoproblema da vontade livre. Mesmo assim, no artigo em
questão, Dennett irá encará-lo para propor uma versão de uma
teoria da decisão que pudesse dar aos libertários o que eles di-
zem que eles querem, e não ferir as premissas dos que acreditam
no determinismo, que Dennett acha persuasivo. Veremos que,
embora ele admita implicitamente a concepção de Davidson de
que a atitude intencional por si só é um ponto de vista que garan-
te uma certa possibilidade de se falar de autonomia do agente
moral, independente do fato de que as descrições dos eventos
cerebrais impliquem concebê-los como determinados por leis
estritas, não teremos verdadeira possibilidade de compatibilização

$'%
MARCELO LAND

se no nível da descrição do design não pudermos achar um lugar


para que as razões possam ser causas de nossas ações. O pro-
blema é se este lugar para a racionalidade seria encontrado em
um pano de fundo de eventos determinados ou indeterminados
causalmente.
No texto em questão, Dennett discute o problema do inde-
terminismo e o que deveria ser o design necessário para que se
pudesse ainda falar de vontade livre. Notemos que no argumento de
Davidson não era necessário propor nenhuma indeterminação no
mecanismo fisiológico responsável pelos eventos cerebrais, uma vez
que o que importava era a anomalia característica dos eventos des-
critos por vocabulários de atitudes proposicionais. Dennett está pro-
pondo uma compatibilização também em relação à descrição do
mecanismo. Vejamos como isto se dá.
Segundo Dennett, uma condição exigida pelos libertários para
que haja vontade livre é que exista um certo grau de indeterminismo
causal nos eventos que geram em última instância as ações. Uma
interpretação possível desta exigência é que ações em pauta fos-
sem geradas de maneira aleatória, segundo a visão dos seus
opositores deterministas. Certamente, isto não seria aceito pelos
libertários, uma vez que um homem não poderia ser dito respon-
sável por algo gerado de maneira puramente aleatória, e, portanto,
arbitrária.
Neste particular, Dennett expõe a posição de David Wiggins, para
quem o oposto lógico de “causalmente determinado” não seria o
aleatório, mas simplesmente o “não causalmente determinado”. Para
Wiggins, existiria um sentido de aleatório (randômico) que poderia
significar simplesmente “não causalmente determinado”, mas este
não é o sentido usual. Os opositores dos libertários querem afirmar
a validade da frase “uma ação não determinada é uma ação
randômica”, e, portanto, uma ação pela qual ninguém pode se res-
ponsabilizar. Contudo, isto na verdade implicaria provar em primei-

$'$
A MENTE EXTERNA

ro lugar a premissa de que uma ação não determinada é randômica


– o que estes opositores não conseguiram fazer até hoje. A posição
de Wiggins seria, então, tentar alcançar um lugar intermediário en-
tre a absurdidade da pura chance cega na geração das ações e a
injustiça cósmica da visão determinista, ou seja, um lugar onde um
libertário se sentiria confortável. Para isto, ele se baseia em uma
assertiva de Russell de que a inteligência humana poderia fazer coi-
sas improváveis acontecerem sem contrariar as leis da física. Em-
bora, segundo Dennett, ele não tire desta assertiva todas as suas
conclusões mais radicais, ele sugere que se pudermos dar sentido
às ações humanas ao nível de explicações intencionais, a despeito
do fato de elas poderem ser fisicamente indeterminadas, elas não
seriam aleatórias. Podemos ver que este argumento é semelhante ao
argumento de Davidson aplicado agora à hipótese de que as descri-
ções dos eventos físicos, que são supervenientes aos mentais, não
são determinadas por leis estritas. Neste caso, poderíamos alcançar
algum grau de generalização ao nível das descrições mentais que
nos fariam supor que as ações não seriam aleatórias. Assim, não
seriam determinadas do ponto de vista físico, mas não seriam alea-
tórias do ponto de vista mental.
Esta visão, a princípio, pareceria agradar a um libertário, por-
que, segundo a atitude que importa, a atitude intencional, os movi-
mentos humanos, mais corretamente denominados ações neste con-
texto, não seriam nem determinados, nem aleatórios. Dennett, po-
rém, não aceita gratuitamente esta visão. Ele lança mão de um expe-
rimento de pensamento para expor seu desacordo, embora admita
que foi a proposta de Wiggins que o fez imaginar meios de dar aos
libertários o que eles dizem que querem. Vejamos o experimento
mental de Dennett.
Este experimento supõe uma espécie de competição entre os
dois tipos de atitudes em jogo: a de um observador que utiliza
atitude intencional, ou seja, um intencionalista, e a de um fisicalista,

$'&
MARCELO LAND

que utiliza descrição fisicalista do mundo. Ambos deverão tentar


prever o que um homem fará no seguinte contexto. Este homem
está diante de um engenho eletrônico, denominado por Dennett de
caixa de resposta (answer box), dotado de dois botões: um botão
sim, um botão não; e dois pedais: um pedal sim, e um pedal não.
O aparelho possui uma tela dividida em duas partes, de tal forma
que só um lado esteja iluminado de cada vez. Um lado pode dizer
“use o pedal”, o outro, “use o botão”. Uma vez a cada minuto um
dispositivo de radium, que gera impulsos randomicamente, deter-
mina se na tela vai aparecer “use o pedal” ou “use o botão”. Ao
homem é dada uma lista de dez perguntas simples, com resposta do
tipo sim ou não. Ele senta-se diante do aparelho totalmente motiva-
do a dar as respostas corretas a estas perguntas, porque lhe é pro-
metido um prêmio caso acerte todas.
Diante deste experimento, qual dos dois tipos de observadores
teria mais chance de prever o que este homem irá fazer? Dennett
monta habilmente o argumento para que nossa resposta mais ime-
diata seja a favor do intencionalista. No entanto, nenhum dos dois
está em melhor situação. Vejamos porquê. O intencionalista olha a
lista de perguntas e sabe dizer quais são as respostas negativas e
afirmativas em cada caso. Ele apenas pode dizer que, para a per-
gunta numero tal, será apertado o botão sim ou o pedal sim, mas
não sabe dizer quais das duas ações ocorrerá, já que dependerá do
que vai aparecer na tela, gerado a partir do impulso do dispositivo
de radium. O nosso observador fisicalista não está em uma posi-
ção melhor. Ele pode prever de maneira determinista apenas al-
guns passos do problema. Ele pode dizer que, no caso do movi-
mento do homem descrito pelo intencionalista acima, dado os even-
tos antecedentes, tais como a existência de um pedaço de papel
colocado diante do aparelho perceptivo do homem, e dos eventos
físicos em seu cérebro, se na tela estiver aceso o lado que indica
o uso do pedal, ele irá movimentar sua perna em uma velocidade

$''
A MENTE EXTERNA

de x metros por segundo em direção ao pedal onde está escrito


sim. Logicamente, não poderá lidar com a indeterminação gerada
pelo dispositivo, da mesma forma que o intencionalista não pode.
Ambos só podem fazer generalizações bastante aproximadas. O
poder preditivo da atitude intencional neste tipo de evento, onde a
indeterminação é gerada pelo ambiente, é para Dennett neutro,
embora através dela se necessita fazer menos cálculos. Contudo,
Dennett adverte que não é neste tipo de inderteminação que um
libertário está interessado. Não é esta variação de comportamento
humano indeterminado que ele acha problemática, já que é externa
ao agente.
O que um libertário tem em mente é um tipo de indeterminismo
interno ao agente. E Dennett nos convida a pensarmos esta caixa de
resposta como sendo situada dentro do agente. Ele nos convida a
imaginar que no cérebro uma variedade enorme de possibilidade de
ações está sendo gerada de maneira aleatória a cada minuto. Diante
de um determinado objetivo, quantos tipos diferentes de ações exis-
tem para alcançá-lo? Muitos. E nosso sistema nervoso de certa for-
ma nos ofereceria uma seqüência de possíveis ações. Para Dennett,
ele foi planejado para isto:
Pois bem, deixe-nos supor que nosso sistema nervoso é
construído e planejado de tal forma que, sempre que na imple-
mentação de uma intenção nosso sistema de controle é confron-
tado com duas ou mais opções, em relação às quais não tomamos
partido prévio, faz-se uma escolha final inteiramente não determi-
nada.175
Dennett está imaginando aqui uma situação hipotética, tal
como: escolher um pacote de sopa em uma prateleira com uma
centena de pacotes diferentes, e o agente está exatamente
equidistante de cada um deles. Ele supõe que um fator perfeita-
mente randômico está envolvido na produção da escolha de um
deles. Esta situação é semelhante a do asno de Buridan, que para

$'(
MARCELO LAND

sua infelicidade, ao ter que optar por saciar a sede ou aplacar a


fome, ficou parado no meio do caminho entre as duas possibili-
dades por não dispor de um mecanismo tão simples como este,
que Dennett descreve como uma “cutucada divina” (the divine
nudge). Considerar este tipo de caso poderia parecer estar fu-
gindo da questão, porque o que importa é determinar o que faz
alguém escolher entre comprar ou roubar o pacote de sopa. No
entanto, Dennett acha que entender este tipo de evento, que ra-
ramente ocupa nossa deliberação consciente, é significativo,
porque em muitas de nossas deliberações uma série de eventos
inconscientes deste tipo foi implementada sem que nos aperce-
bêssemos disso. Toda uma variação de possibilidade de ação foi
revisada e selecionada, pelo que se pode conceber, hoje em dia,
de uma forma totalmente não-determinada. Dennett acha que, na
implementação de uma única ação intencional, pode-se encon-
trar vários pontos de escolhas indeterminados na sua cadeia cau-
sal. O comportamento observado resultante não seria, no entan-
to, distinguido por nós de um comportamento rigidamente de-
terminado. Ou seja, não seria distinguido de um comportamento
para o qual pudéssemos ter boas teorias preditivas. Uma destas
teorias decorreria da utilização da atitude intencional. E, como o
que está em jogo na discussão com os libertários são ações e não
movimentos, quereríamos achar que pudéssemos prevê-las como
se nosso agente produzisse ações determinadas rigidamente por
um fator interno.
No que se segue, embora não seja textual neste sentido, Dennett
nos mostra que esta discussão só faz sentido se entendermos o
que estamos realmente querendo prever e o que queremos asse-
gurar ao agente para que ele seja dito realmente autônomo. Tudo
depende de nossas ambições. Estas considerações só ficaram com-
pletamente claras no seu livro Elbow Room, que discutiremos na
próxima seção.

$')
A MENTE EXTERNA

O exemplo que Dennett nos oferece para elucidar este ponto


absolutamente necessita de um pouco de conhecimento histórico,
porque mais de 20 anos se passaram do ocorrido e, não obstante
sua relevância, muito foi esquecido dos detalhes dos aconteci-
mentos descritos. Lembremos que o livro, onde o artigo que pre-
sentemente discutimos está contido, foi escrito em 1978, e, não
fosse a enorme importância da descrição da teoria do mecanismo
de decisão contido nele, poderia ser considerado ultrapassado diante
de considerações mais recentes do autor. Porém, estes fatos não
comprometem o argumento do autor, e assim decidimos utilizar na
íntegra o texto:
No verão de 1974, muitas pessoas estavam seguras em prever
que Nixon iria renunciar. À medida que o dia e a hora se aproxi-
mavam, a predição se tornava cada vez mais certa e mais espe-
cífica em relação ao horário e local; Nixon iria renunciar não
só no futuro próximo, mas nas próximas horas, na Casa Branca,
na presença dos cameramen da televisão, e assim por diante.
Todavia, ainda não era possível saber como ele renunciaria: se
ele iria renunciar com graça, ou dignidade, ou com um ataque a
seus críticos; se ele iria se pronunciar com clareza, com res-
mungos ou tremores. Estes detalhes não eram imediatamente
previsíveis, contudo a maioria das predições ulteriores, que se
derivavam desta renúncia e que nós estávamos interessados em
fazer, não dependiam destas variações sutis. Se, apesar de tudo,
Nixon renunciasse, poderíamos predizer que Goldwater iria
aprová-la publicamente, Cronkite noticiaria que Goldwater a
tinha aprovado, Sevareid comenta-la-ía, Rodino iria terminar as
ações do Comitê Judiciário e Gerald Ford prestaria juramento
como sucessor de Nixon. Obviamente, algumas predições, que
poderíamos ter feito nesta época, dependeriam de maneira
crucial dos detalhes particulares da forma exata como a renúncia
de Nixon se daria, e se estes detalhes acontecessem de serem
indeterminados tanto pelas intenções de Nixon, quanto por ou-
tra característica do momento, então, talvez algumas ações hu-
manas de grande importância estariam contaminadas pela
indeterminação da conduta de Nixon naquele momento do mes-

$'*
MARCELO LAND

mo modo que o comportamento do sujeito, que nos serviu de


exemplo, estava contaminado pela indeterminação da caixa de
respostas. Esta indeterminação, no entanto, não faria com que
estas ações não fossem mais compreendidas como ações por
nós. 176
Neste parágrafo, Dennett está nos mostrando que, apesar de
possíveis variações na forma como uma ação pode ser
implementada, podemos, através do uso da atitude intencional,
saber que uma ação de um certo tipo será realizada. A variação
na forma desta realização pode ou não ter conseqüências para a
obtenção dos objetivos de nossa predição. Se alguns destes ob-
jetivos forem dependentes do conhecimento dos detalhes da
maneira como a ação irá ser implementada, então a forma como
estas variações são geradas determinará o caráter e a forma de
nossa generalização. Se houver um grau de indeterminação na
geração destas variações, nossas generalizações estarão conta-
minadas por ele. Poderemos chegar ao ponto de nem mesmo
nos sentirmos motivados a fornecer nenhuma, ou faremos um
inventário enorme de generalizações com cláusulas condicionais.
Apesar disto, e este é o ponto fundamental, não deixaremos de
ver todos estes movimentos como ações de um agente. E, como
Dennett procura afirmar, apesar deste resultado não ser o que
um libertário pretende alcançar, ele já é útil no entendimento do
problema. Ele mostra que podemos colocar a indeterminação na
cadeia causal interna que afeta o comportamento “macroscópico”
do agente, ao mesmo tempo em que preservamos nossa com-
preensão do conceito de deliberação prática que um libertário pre-
cisa. Além disso, este resultado nos deixaria livres da urgência de
aderir ao determinismo somente pela necessidade de eliminar o
caos da geração de nossas ações. Poderíamos querer aceitá-lo
por outra razão, mas não necessariamente por causa desta. Como
diz Dennett:

$'!
A MENTE EXTERNA

Existem muitas formas de o mundo ser indeterminado macros-


copicamente, sem que este fato nem remotamente ameace a co-
erência do esquema conceitual intencional de descrições de
ações pressuposto nas alegações (claim) de responsabilidade
moral.177
Até aqui podemos ver o grau de influência da resposta
davidsoniana nesta argumentação de Dennett e Wiggins a favor da
posição libertária contra a necessidade de se abraçar o determinismo
para a compreensão da responsabilidade sobre as ações de um
agente. No que se segue, no entanto, veremos mais claramente
uma importante contribuição de Dennett para o problema, que
envolve uma compreensão do mecanismo da tomada de decisão.
Esta proposta será sempre retomada por Dennett nos anos poste-
riores, e teremos oportunidade de ver como evoluiu em textos
mais recentes como Elbow Room e Kinds of minds. O mais intri-
gante é que esta proposta se dirige para a explicitação de um con-
ceito de pessoa, que guiará todas as considerações posteriores de
Dennett sobre a geração pela Mãe Natureza de um design capaz de
efetuar ações a partir de considerações racionais. Vejamos, então,
a descrição do mecanismo de decisão neste artigo. Ele não é cer-
tamente conservado inteiramente nas obras posteriores, mas mui-
to de sua inspiração permanece, ao menos para servir de referên-
cia para ser criticada.
Para explicar o mecanismo de decisão que tem em mente, Dennett
lança mão de um texto de Paul Valéry sobre o tema da inventividade.
No texto citado por Dennett, Paul Valéry propõe que, para que haja
invenção, é necessário haver dois movimentos. Um que faz combi-
nações aleatórias, e outro que escolhe, que reconhece o que quer e
o que importa na massa de coisas que o primeiro gerou. Dennett
inspirou-se nisto para propor que o mecanismo de tomada de deci-
são humana seria baseado em um duplo mecanismo: o de seleção
sobre uma produção parcialmente arbitrária ou caótica ou randômica.

$'"
MARCELO LAND

Dennett propõe que uma característica importante na tomada


de decisão é que ela sempre é feita sobre um regime de urgência
de tempo (time pressure). Ele acha que mesmo que existissem
procedimentos de decisão algorítmicos que nos garantissem óti-
mas decisões para nossos problemas, e mesmo que de fato dis-
puséssemos deles, não teríamos tempo nem energia para os uti-
lizar. O mais provável é pensarmos que exista um modelo realis-
ta do que se passa nas nossas tomadas de decisão. Vejamos o
modelo:
O modelo de tomada de decisão que estou propondo tem a
seguinte característica: quando somos confrontados com uma
decisão importante, um gerador de considerações (consi-
deration-gerator), cujo output é indeterminado em algum grau,
produz uma série de considerações, algumas das quais podem
ser obviamente rejeitadas como irrelevantes pelo agente (cons-
ciente ou inconscientemente). Estas considerações, que são
selecionadas como tendo uma importância mais do que
negligenciável para a decisão que está em marcha no processo
racional, servem, finalmente, como fatores preditivos e
explicativos da decisão final do agente.178
Dennett acredita que este modelo teria as seguintes vantagens:
1- Contemplaria o que Russell estava procurando.
2- Instalaria o indeterminismo no lugar certo para um libertário,
já que ele não gostaria de pô-lo no final do processo de tomada de
decisão, o que seria um absurdo completo.
3- Seria recomendado também por considerações a outro con-
junto de problemas que não está diretamente ligado ao da vontade
livre. O modelo poderia explicar aspectos da engenharia biológica,
como, por exemplo, justificar a idéia de que, devido à urgência do
tempo, ninguém poderia levar em consideração todas as suas cren-
ças, condutas relevantes para o caso no seu estoque de possíveis
ações. Esta seria a melhor maneira de prevenir o que Dennett
chama de a inércia de Hamlet.

$'#
A MENTE EXTERNA

4- O modelo permitiria também que a educação moral fizesse


diferença, já que ela poderia ter um papel primordial no processo
seletivo. Como diz Dennett, “uma educação moral, de modo seme-
lhante à discussão mútua e à persuasão em geral, poderia ajustar as
fronteiras e as probabilidades do gerador sem torná-lo
determinista”.179
5- Forneceria algumas justificativas para nossa intuição de que
somos os autores de nossas próprias decisões morais. Este tópico
Dennett considera o mais relevante.
6- E, finalmente, o modelo apontaria para a multiplicidade de
decisões envolvidas na decisão moral, tal como: a própria decisão
de não levar mais nada em consideração e parar o processo de
deliberação ou ignorar uma linha inteira de inquérito. Ou seja, ele
dá conta de muitas das decisões internas ao processo de deli-
beração.
Com este modelo, Dennett parecia ter atacado o problema da
compatibilização do indeterminismo e da possibilidade de termos
vontade livre por uma abordagem a uma concepção do design de
uma máquina de tomar decisões, que, em última instância, é o
cérebro humano. No entanto, o que caracteriza a posição
compatibilista mais clássica não é a defesa do argumento dos
libertários, que, como vimos, pretende que haja uma dose de
indeterminação no meio do processo de deliberação moral. O pro-
blema do compatibilismo é dar razão aos que acreditam no
determinismo também. Dennett faz isto no final do artigo, dando
aos libertários o que eles dizem que querem, ao dizer que, ao
invés de acreditarmos sermos possuidores de um gerador aleató-
rio de considerações do tipo fisicamente indeterminado, podería-
mos ser vistos como tendo um gerador fisicamente determinado
de considerações aleatórias. Ele lembra que computadores são
equipados com este tipo de gerador de números randômicos e que
nem por isso poderiam ser distinguidos de uma máquina que pos-

$(%
MARCELO LAND

suísse um gerador fisicamente não-determinado. Em ambos os


casos, as considerações relevantes seriam igualmente imprevisíveis
para o agente. E o modelo proposto continuaria a ter a mesma
utilidade e méritos já descritos. Além disso, ambos os casos conti-
nuariam a manter a idéia de uma indeterminação macroscópica no
estilo de implementação das ações intencionais do ponto de vista
de nossa forma de vida.
O que se seguiu na obra de Dennett a este tipo de tentativa de
compatibilização das teses deterministas e libertárias foi uma utili-
zação cada vez maior da idéia de que é o design da mente huma-
na que permite dar lugar a uma entidade movida por razões. Vere-
mos adiante uma série de construções de modelos do funciona-
mento mental, que procuram explicar de uma forma naturalista e
darwiniana nossa habilidade como seres racionais, em que as ra-
zões fazem parte dos elos causais de nossos comportamentos,
sempre tentando preservar uma imagem de pessoa como um agente
capaz de algum grau de liberdade de ação.
Boa parte das intuições do modelo exposto é preservada, em-
bora a atribuição da ação seletiva não seja mais conferida a ne-
nhum agente ou processo hierarquicamente distinto. Este desapa-
recimento do agente é um passo fundamental para o ataque
dennettiano aos resquícios do cartesianismo e uma das razões para
a utilização crescente do conceito de pessoa.

2.3. Ter um espaço para manobra (Elbow Room)


Em 1984, Dennett publicou um livro dedicado ao problema da
vontade livre: Elbow Room. Certamente, é um livro em muitos
aspectos ultrapassado dentro de seu próprio pensamento, e capaz
de provocar muitas contra-argumentações. Porém, é básico para o
tema em discussão, e revela explicitamente a tendência dennetiana
de dar uma resposta naturalista ao problema. O livro é por demais
extenso para que se possa fazer justiça a todas as nuanças dos seus

$($
A MENTE EXTERNA

argumentos. Resolvemos abordá-lo, no entanto, dividindo-o em dois


problemas fundamentais.

O problema da racionalidade ideal do agente


Segundo Dennett, na literatura filosófica sobre a vontade livre
aparece sempre a “idéia controversa” de que a verdadeira liberdade
da vontade consiste em sua completa submissão aos ditames da
razão. A liberdade identificada com uma racionalidade perfeita teria
sido fortemente enfatizada nesta literatura, onde Kant teria o papel
de tê-la conduzido ao centro de sua teoria. Dennett vai procurar
rever a força deste apelo veemente e verificar se de fato podemos
aspirar ter acesso a este grau de racionalidade. Para tal, ele nos dá
uma abordagem naturalista da origem da razão em um universo
mecânico e material.
Para ele, só deveríamos dizer que passaram a existir teleologia
e interesse no mundo a partir do momento em que surgiram as
primeiras entidades auto-replicadoras, embora elas mesmas não
tivessem a menor idéia de que possuíam interesses. Notemos que
Dennett aplica aqui sua estratégia intencional, que, no contexto,
ele denomina de nosso ponto de vista semelhante ao de Deus,
atribuindo certos interesses como, por exemplo, o de se auto-repli-
carem, a entidades tão arcaicas na história da evolução quanto
macromoléculas. Como, no entanto, ele precisa definir um critério
que delimite a legitimidade desta aplicação quando se fala de inte-
resses, ele propõe que os interesses nasceram no mundo no mo-
mento em que surgiram entidades capazes de “defenderem” seus
próprios interesses. Os primeiros destes interesses que precisamos
atribuir são os de autopreservação e auto-replicação. Para outras
entidades capazes de defenderem seus interesses é necessário atri-
buir interesses mais complexos, tais como: os de procurar comida,
evitar o predador, localizar o parceiro sexual, acasalar, manter a
saúde etc.

$(&
MARCELO LAND

Dennett propõe também que se defina o nascimento do “bom”


em relação ao surgimento destes seres capazes de retardarem sua
decomposição e dissolução. O seu aparecimento criou o ponto de
vista capaz de separar os eventos do mundo em favoráveis, desfa-
voráveis e neutros. Estes seres tinham uma tendência inata a pro-
curar os primeiros tipos de eventos, evitar os segundos e ignorar os
terceiros.
Além disso, é neste momento do surgimento do interesse que
se pode falar também de atribuições de razões. Os eventos do
mundo criariam oportunidades para que estes seres tivessem ra-
zões para agir. Na verdade, no seu design, poderíamos ver a apli-
cação de uma certa racionalidade. Porém, seria uma racionalidade
livremente flutuante, um pensamento sem pensador, resultante do
processo algorítmico de seleção natural. A maioria dos seres, que
expressam no seu design e ações esta racionalidade, não tem co-
nhecimento das razões de seu agir e de sua organização. Eles são
frutos apenas da mente criadora da Mãe Natureza, anteriormente
atribuída a Deus, antes que Darwin houvesse nos permitido con-
ceber o surgimento dos design sem a necessidade de se pressupor
a existência de um ser todo poderoso, a mente primária, o motor
imóvel do universo.
Este seres, que agem sem a compreensão do porquê de suas ações,
demonstrariam o que Dennett chamou, em Elbow Room, de princí-
pio do need to know, ou seja, o principio do que é necessário saber.
Este princípio era usado pela CIA e outros órgãos de espionagem e
prescrevia que a cada elemento do conjunto de uma dada operação
fossem dadas apenas as informações necessárias para o seu bom
andamento. A Mãe Natureza, da mesma forma, deixaria que os seus
seres expressassem um saber, por eles mesmos desconhecido, para
que os frutos de sua racionalidade maior fossem produzidos. Dennett
lembra-nos da enorme esperteza vislumbrável em uma tropa de agen-
tes incapazes de compreensão, tais como as formigas.

$('
A MENTE EXTERNA

Ao contrário, nós humanos pretendemos ter como ideal sermos


completamente sábios, sermos capazes de perceber todas as razões
que nos concernem, sermos guardiões completamente informados
de nossos interesses. Isto nos permitiria agirmos sempre de acordo
com os ditames da razão.
Os ditames da razão devem ser compreendidos aqui no seguin-
te sentido:
Nós freqüentemente dizemos que a “razão dita” um determinado
curso de ação para um protagonista em certas circunstâncias.
Nós não queremos dizer com isto que exista alguma força estra-
nha personificada, um Ditador chamado Razão, que tenha posto
em circulação um decreto. Obviamente, nós queremos dizer algo
mais abstrato: nós queremos dizer que um determinado problema
(considerado abstratamente, quer dizer, independente do fato de
uma criatura qualquer tê-lo expressado e comunicado explicita-
mente) tem uma determinada (ótima) solução. O problema é defi-
nido pelas circunstâncias e interesses do protagonista em ques-
tão. Contudo, a imagem subliminar da velha e sábia Razão, dizen-
do o que fazer, tem tido um efeito extremamente forte na forma
como este assunto tem sido pensado pelos filósofos.180

Pois bem, o que está em jogo nesta expressão é seguir o que se


poderia chamar de regras de racionalidade. Estas regras podem
ser vistas funcionar nos seres criados pela seleção natural, o que
nos poderia autorizar a falar de uma racionalidade da Mãe Nature-
za e de sua intencionalidade. Esta racionalidade e intencionalidade
podem ser atribuídas aos seres criados pelo processo de seleção
natural, e assim podemos ser capazes de compreender que estes
seres têm uma intencionalidade e racionalidade derivadas também
da Mãe Natureza. No entanto, a maioria destes seres não teria a
menor idéia de estar seguindo estas regras nas circunstâncias de
sua existência. Eles apenas reagiriam como se aparentemente “com-
preendessem” o que fazem. Eles seriam aparentemente engenhos
semânticos.

$((
MARCELO LAND

Contudo, para ilustrar a diferença da estrutura do design das


criaturas geradas pelo processo de seleção natural, Dennett nos for-
nece o experimento da natureza chamado Sphex. Ele tomou conhe-
cimento deste ser a partir de um artigo de Douglas Hofstadter, de-
nominado “Can creativity be mechanized?”.
A Sphex é uma espécie de vespa, que demonstra um comporta-
mento bastante engenhoso. Na época de colocar os ovos, que darão
origem às suas larvas e às futuras vespas, ela prepara uma toca.
Procura e paralisa um grilo, ou outro inseto; carrega este inseto até
a toca, coloca os ovos, fecha-a e não mais retorna. Quando os ovos
são chocados, as larvas se alimentam do inseto, até se transforma-
rem em vespas. Este comportamento sofisticado faria supor, à pri-
meira vista, que a vespa se conduziu com lógica e movida por re-
gras de racionalidade. No entanto, um simples experimento demons-
tra que a vespa, na verdade, não pode ser dita compreender o que
faz. Revendo todo o seu ritual, nota-se que ela traz o inseto para
perto da entrada da toca, entra nela, como para verificar se tudo
está em ordem, sai e empurra o inseto para dentro. Se no momento
da verificação do conteúdo da toca, um cientista afasta o inseto
paralisado alguns centímetros da entrada, a vespa repete o ritual.
Empurra novamente o inseto para a entrada e volta a entrar para
verificar o seu conteúdo. Se novamente o cientista afasta o inseto
da entrada, tudo ocorre de novo, sem que a Sphex modifique o seu
modo de se comportar, sem que aprenda nada com a experiência.
Dennett admite com Hofstadter que a Sphex apresenta um com-
portamento puramente sintático. Isto quer dizer que embora seja
um comportamento ditado pela razão, a Sphex não sabe disso, e
certamente não possui a capacidade de adquirir novas razões que a
possam fazer modificar seu comportamento repetitivo diante do tru-
que do cientista. Dennett busca entender, então, como os mecanis-
mos de seres, que reagem ao mundo de forma puramente sintática,
podem evoluir ao ponto de parecerem existir seres dotados de enge-

$()
A MENTE EXTERNA

nhos semânticos. Em suma, qual é a distinção entre ter seu compor-


tamento ditado pela razão – ou seja, ter seu comportamento projeta-
do (designed) para responder de uma determinada forma aos signos
do mundo –, e ser uma entidade movida pela razão – ou seja, ser
causado pela razão?
Conceber a passagem de um modo de agir para outro nunca foi
fácil na história da filosofia. Para muitos, não há uma ponte, ou
uma gradação, que possa nos fazer compreender como se evolui
de um comportamento cego e mecânico, mas aparentemente es-
perto, para nossa capacidade humana de vislumbrarmos e sermos
movidos por razões, de captarmos o sentido e de gozarmos da
genuína intencionalidade. Para estes filósofos, o sentido não é uma
propriedade física das coisas, e, assim sendo, não poderia haver
um transdutor físico ou mecânico de sentidos. E, se somos capa-
zes de discriminar sentido, isto provaria que não podemos ser
meros mecanismos discriminadores. Em suma, reagir por regras
de racionalidade implicaria se libertar da causalidade física do
mundo. Portanto, o problema é imaginar uma forma de
compatibilizar como o agir humano pode ser tanto o efeito de
causas físicas quanto a execução de uma “decisão da vontade
racional”.181
Uma outra forma de delinear o problema é investigar a oposição
entre sintática e semântica. O cérebro, de um certo ponto de vista,
é um órgão físico complicado, que reage a mudanças físicas e dife-
rentes estímulos. Seria, assim, um engenho sintático, que respon-
deria a propriedades estruturais e formais. A dificuldade seria ima-
ginar como o cérebro conseguiria extrair a semântica da sintática.
Aparentemente isto seria impossível, porque a sintática por ela mesma
não determina a semântica. Assim, nos diz Dennett:
Desde que o sentido não reside, como alguns minérios raros, nos
aspectos físicos do estímulo, nenhum processo de extração
alquímico poderia destilá-lo ou responder a ele. Então, contudo,

$(*
MARCELO LAND

o conceito de um engenho semântico é aparentemente seme-


lhante ao conceito de moto-contínuo: engenhos semânticos são,
estritamente falando, máquinas impossíveis.182

Se o cérebro não pode ser um engenho semântico propria-


mente dito, ele é uma máquina que se comporta como se o fosse.
O engenho semântico perfeito, que seria a vontade racional
kantiana, seria uma ficção. Nesta ficção, poderíamos estar infini-
tamente alertas para as nuanças do sentido, perfeitamente
invulneráveis à “sphexidade”, ou seja, às atitudes puramente sintáti-
cas. Dennett nos adverte que não somos estes engenhos semânticos
ideais, isto é, criaturas plenamente racionais. Nossos cérebros são
substitutos excelentes de tais engenhos. Dennett o elogia na seguin-
te passagem:
Eles não são finamente projetados (designed) para serem infini-
tamente sensíveis às mudanças do significado, mas podem ser
indefinidamente sensíveis a elas. Não foram projetados também
para serem perfeitamente invulneráveis à sphexidade, mas na prá-
tica o são.183
Em suma, não existe a racionalidade ideal do agente. Se, para
dizer que temos vontade livre, precisamos disto, então, não pode-
remos ser ditos livres para agir. Notemos, no entanto, que Dennett
está criticando exatamente a necessidade lógica e real da idealização
neste contexto. Não é necessário que sejamos por princípio per-
feitamente racionais, basta que, na maioria das circunstâncias prá-
ticas, possamos agir como se o fôssemos. Do ponto de vista
empírico, estaríamos bem perto do ideal da perfeita compreensão
do significado.
Dennett se preocupa em formular uma hipótese do funciona-
mento do cérebro que lhe permita se aproximar da competência de
um engenho semântico perfeito. Através de seu exemplo da Sphex,
percebe-se o quanto uma mera reatividade física pode produzir os
efeitos corretos em um ambiente, levando esta vespa a se compor-

$(!
A MENTE EXTERNA

tar como se estivesse respondendo ao que efetivamente lhe impor-


tasse, como se “entendesse” suas necessidades. Pode-se imaginar
o quanto poderíamos aumentar este poder básico de reação sintáti-
ca por combinação e interação com outros mecanismos. Na verda-
de, os avanços nas pesquisas em inteligência artificial têm sido al-
cançados por exercitar esta imaginação. Elas têm revelado o poder
e as limitações de detectores imperfeitos e indiretos do “sentido”.
Porém, algo já se insinua como fundamental para o entendimento
do mecanismo de inteligência humana. Vejamos esta passagem de
Dennett:
Contudo, como Hofstadter indicou, um avanço verdadeiramente
explosivo no escape da “sphexidade” crua aparece quando a
capacidade de reconhecimento de padrões se volta para ela mes-
ma. A criatura, que não é somente sensível aos padrões de seu
ambiente, mas também aos padrões de sua própria reação aos
padrões de seu ambiente, realmente fez uma conquista maior. Ao
contrário da Sphex, ela pode notar que foi pega em um círculo
vicioso inútil e pular fora dele. 184

Dennett está descrevendo a passagem para o que ele chama de


um goes meta-, que poderíamos entender como atingir um “meta-
nível”. Nele, a criatura representa suas próprias representações,
reflete sobre suas reflexões, reage a partir de suas reações. Isto lhe
permite amplificar sua capacidade de interação, produzindo “uma
cascata de processos que conduzem da estupidez à atividade sofis-
ticada”.185
No livro que estamos discutindo, Dennett apresenta uma série
de considerações de cunho darwinista explicando esta passagem,
através da postulação de diversas etapas de evolução dos processos
cognitivos. Nós não nos preocuparemos em reproduzi-las aqui,
porque esta descrição foi retomada em diversos livros posteriores,
e encontra-se hoje muito melhor representada no livro Kinds of
minds, que logo estaremos discutindo. Preferimos nos manter na

$("
MARCELO LAND

discussão da racionalidade ideal ou prática do agente, e as conseqü-


ências para o tema do determinismo, do indeterminismo, da vonta-
de livre e da autonomia do agente. O essencial a ser guardado no
momento, para o término desta argumentação, é a idéia de que a
complexificação dos processos cognitivos a partir da evolução da
capacidade produzida por esta intencionalidade de segunda ordem,
que posteriormente se torna de terceira e quarta e assim por diante,
é a responsável pelo que o autor chama de uma ilusão todo-podero-
sa de que estamos realmente respondendo a sentidos. Existe, já neste
texto, a idéia de que um nível ainda maior de reflexibilidade foi al-
cançado quando o ser humano pôde fazer uso da linguagem, inicial-
mente pública, para utilizá-la num monólogo interno. Este solilóquio
nos teria permitido otimizar a interação entre compartimentos ou
circuitos cerebrais que anteriormente funcionavam mais ou menos
de forma independente.
Porém, esta capacidade de refletir sobre as próprias atividades
não é ilimitada. É impossível que um sistema possa refletir indefini-
damente sobre todos os aspectos destas atividades ou mesmo se-
cundariamente sobre estas reflexões. Dennett postula a necessida-
de de haver um estancamento neste processo de reflexão. Conse-
qüentemente, não seríamos perfeitos vigilantes de nós mesmos (self-
watcher). Devemos nos conformar com algo um pouco aquém da
perfeição e aceitar alguns aspectos de “sphexidade”: uma certa atitude
sintática, uma determinada reserva de irracionalidade, no nosso
comportamento.
Existe uma relação imediata destas considerações sobre a
racionalidade possível do agente que se relaciona com o tema do
determinismo discutido neste capítulo. O objetivo da concepção de
Dennett é procurar uma forma naturalista de descrever como os
seres foram evoluindo sua forma de reagir a causas do mundo, a
ponto de que pudessem um dia serem movidos por razões. No en-
tanto, não se deve pensar que, por ter sido produzida uma

$(#
A MENTE EXTERNA

intencionalidade de segunda ordem, e conseqüentemente de n or-


dens, posteriormente potencializada pela aquisição da linguagem,
deixamos de participar da trama causal do universo. Os que com-
batem as teses deterministas parecem ver aí uma contradição
irreparável. Dennett pretendeu fazer em Elboow Room um inventá-
rio de como se pode chegar a este falso dilema filosófico. Não abor-
daremos aqui este inventário. Interessa-nos mostrar como ele tenta
compatibilizar sua visão de nossa racionalidade possível com o fato
enfatizado pelo determinista de que somos também causados a pen-
sar e desejar.
Um dos aspectos mais fundamentais desta tentativa de
compatibilização é mostrar que existe uma diferença fundamental
de como coisas, como tubos de ensaio e bolas de bilhar, por um
lado, e como pessoas, por outro, são causados. Vejamos esta pas-
sagem:
Você não tem que sussurrar em frente de um tubo de ensaio, ou
estar seguro de que as bolas de bilhar não estão vendo você
observá-las. Pessoas e animais superiores, por outro lado, são
projetados (designed) para serem altamente sensíveis a virtual-
mente qualquer coisa que aconteça em volta deles.186
Em suma, somos seres projetados para sermos atentos a tudo
de relevante que ocorre a nossa volta. Este tudo de relevante,
que pode ser descrito como padrões causais, é considerado por
Dennett como informações que processamos e pelas quais agi-
mos. Neste processamento, temos o hábito de chamar alguns
padrões causais de razões, de desejos e de crenças, que têm
papel determinante na produção de comportamento. Este fato
parece não ser valorizado na polêmica dos libertários com os
deterministas:
Contudo, quando alguém começa a pensar acerca das implica-
ções do determinismo – a tese de que as crenças de todo mundo
são causadas, por exemplo – este alguém quase invariavelmente

$)%
MARCELO LAND

se dirige para uma visão que ignora (ou deliberadamente repu-


dia) o aparelho de colher informação que é nossa mais distintiva
interface causal com o que nos cerca.187
Este “aparelho de colher informações” é um dos aspectos mais
valorizados na concepção de design das criaturas humanas, e muito
do trabalho de Dennett nos últimos anos tem sido mostrar como
certas categorias filosóficas mais debatidas têm de ser investigadas,
levando-o em consideração. Isto porque o aspecto primário de
todas as formas vivas no seu pensamento darwinista é a interação
com o ambiente, o externo, como vimos no primeiro capítulo. A
seleção natural sempre favorece criaturas com maior habilidade
de interagir com o que as cerca. Na verdade, a correta concepção
de mente de Dennett não é algo que deva se atribuir ao cérebro,
supostamente isolado numa cuba, mas a um corpo, que não deve
ser visto numa página em branco de um livro de anatomia, mas no
seu ambiente, no nosso caso, em nossa cultura com nossos instru-
mentos e palavras. A mente que Dennett atribui às pessoas é atri-
buída a um conjunto corpo-ambiente, sem que esteja implicada nis-
to nenhuma oposição corpo X ambiente. Esta concepção fica evi-
dente no planejamento do projeto Cog, do MIT.
Neste mesmo sentido, Dennett afirma que a racionalidade com
que a natureza nos dotou é prática. No entanto, isto não significa
que, com o surgimento da capacidade para o uso da linguagem,
que certamente se tornou uma habilidade desejável graças às pres-
sões ambientais, várias novas aplicações “não funcionais” não te-
nham sido produzidas, tais como a poesia e a filosofia. Como diz
Dennett: “Ao ver como a evolução fez a razão prática, também ve-
mos como ela pode gerar a razão não-prática”.188
Em suma, embora não completamente liberta de algumas
tendenciosidades cientificistas na descrição desta divisão entre ra-
zões práticas e não-práticas, esta passagem é claramente não-
reducionista e mostra como alguns de nossos traços culturais mais

$)$
A MENTE EXTERNA

paradigmáticos são incluídos no seu projeto naturalista, sem que


sejam destituídos do valor que lhes conferimos na nossa linguagem
ordinária. De qualquer forma, é interessante destacar que Dennett
não pretendeu provar definitivamente como a racionalidade pode
ser gerada em entidades físicas, mas, diante do fato de que existem
razões para que se acredite que sejamos entidades físicas e racio-
nais, tentar entender como isto se tornou possível. Sua abordagem
biológica procura diluir a tentação de nos vermos como agentes
racionalmente ideais. Assim sendo, a vontade kantiana perfeita seria
uma impossibilidade física, porque ninguém poderia responder com
plena fidelidade a todas as boas razões para agir. Além disso, o
modelo de racionalidade ideal seria incompatível tanto com o
determinismo quanto com o indeterminismo, porque, nestas duas
perspectivas, ter-se-ia que considerar a limitação do tempo no pro-
cesso de deliberação. Contudo, ao se aceitar uma limitação em nos-
sa capacidade racional, não estamos necessariamente entregues a
uma extrema “sphexidade”, já que, para o autor, nós, seres huma-
nos, somos sensíveis e capazes de considerar as razões de uma
maneira bem versátil. Porém, se for de fato necessário, para se ter
vontade livre e responsabilidade, o grau de perfeição sugerido no
modelo de racionalidade ideal, então, ou se abandona esta linha de
investigação científica ou se reconhece a derrota. Dennett aposta,
no entanto, que tudo o que precisamos para poder ter estes dois
atributos não é nenhuma condição ideal, mas apenas um espaço
para manobra, um Elbow Room, onde razões, crenças e desejos,
autocontrole e autocriação possam ter eficácia causal.
Antes de passarmos para o próximo problema discutido em Elbow
Room, gostaríamos de tentar resgatar de alguma forma o modelo de
racionalidade ideal. Sabemos que Dennett, por sua tradição filosófi-
ca, não é alheio ao conceito de projeto normativo. O uso da atitude
intencional é baseado em parte nisto. Por que, então, Dennett não
poderia ver o apelo kantiano a uma vontade livre perfeita como um

$)&
MARCELO LAND

conceito normativo para se caracterizar o sujeito moral, sem que


esta tese tivesse qualquer compromisso com algo que se passa de
fato no design humano? Primeiro, porque achamos que muitos filó-
sofos não consideram os aspectos normativos de determinados
conceitos, e parecem querer dizer que o que Kant descreveu é o
que realmente se passa nas pessoas. Segundo, porque, mesmo como
um conceito normativo, o grau de idealização presente nele talvez
seja exagerado, fazendo-nos perder de vista importantes sutilezas
na forma como, na prática cotidiana, perdoamos os nossos erros
de racionalidade. O modelo de Dennett agrada-nos pessoalmente
porque ajuda a desmistificar a nossa condição absoluta como sujei-
tos morais e a idéia de que a cada momento estamos disponíveis
para fazer realmente todos os cálculos racionais antes de agirmos.
O problema do seu modelo vai ser, no entanto, justificar como man-
ter a idéia de atribuição de responsabilidade e de justiça, o que não
era certamente complicado no modelo de racionalidade ideal.

Responsabilidade e o agente

Um dos pontos mais fundamentais para a atribuição de res-


ponsabilidade a uma pessoa tem sido a discussão do que é ser um
agente. Nesta parte, veremos a concepção de Dennett em Elbow
Room e algumas de suas críticas aos tradicionais critérios filosófi-
cos do que é ser um agente.
A imagem usual de um agente é a daquele que faz. Ele é o local
e a fonte da ação, e não do simples reagir. Geralmente, pensamos
nós mesmos como sendo agentes. No entanto, também nos ve-
mos como seres humanos físicos, fazendo parte de uma série de
eventos causais, em que somos sempre causados e causas de al-
guma coisa. Estamos efetivamente dentro da fábrica das causali-
dades.
Estas duas imagens implicam uma aparente contradição. Se
somos causados, não poderíamos a princípio sermos agentes. Neste

$)'
A MENTE EXTERNA

contexto, Dennett irá esboçar mais uma tentativa de compatibilização


através do recurso do naturalismo.
Um forma não-naturalista de resolver a contradição provocada
por estas imagens é a doutrina da causação do agente. Segundo
ela, quando agimos somos uma espécie de motor primordial não
movido (a prime mover unmoved), pois causamos o aconteci-
mento de certos eventos, mas nada nos causou a causar este acon-
tecimento. Dennett acha esta doutrina misteriosa, embora certa-
mente tradicional. Além disso, e aqui está o mais fundamental de
sua crítica, esta aparente possibilidade de sermos descritos como
motores primordiais não movidos deriva de uma ilusão cognitiva.
Ao nos determos no significado desta ilusão, veremos o que
Dennett acredita ser nossa real propriedade como agentes. A pri-
meira fonte de nossa ilusão é o problema da desproporção entre
causa e efeito, causado pela enorme capacidade de magnificar eventos
que nosso cérebro possui. Lembremos que para o autor nosso cére-
bro é um sistema de processar informações, que depende de ampli-
ficadores de algum tipo durante seus diversos processamentos, o
que tornaria possível que causas relativamente brandas gerassem efei-
tos intensos. Este efeito de magnificação pode ser implementado por-
que um sistema de processamento de informação usa gatilhos e inter-
ruptores na sua organização. Interruptores, que são formas de entra-
da no sistema, podem ser acionados por quantidades mínimas de
energia, podendo, contudo, causar efeitos de saída que utilizam e
consomem grandes quantidades de energia. Basta que se pense na
força necessária para apertar um botão que dispara um projétil, ou
no mínimo de energia gasto para comandar o levantamento de um
braço de um guindaste. No nosso corpo, muitos interruptores são
também amplificadores, por exemplo: os transdutores que formam
os órgãos de percepção. Desta propriedade de amplificação de even-
tos causais de mínima intensidade, Dennett pretende derivar a se-
guinte passagem:

$)(
MARCELO LAND

Vastas quantidades de informação chegam às expensas de quan-


tidade negligenciáveis de energia, e, então, graças ao poder de
amplificação do sistema de interruptores, a informação come-
ça a fazer algum trabalho, por exemplo: evocando outras informa-
ções que estavam estocadas havia algum tempo, transmudando-
a para a ocasião presente de milhões de pequeninas maneiras, e
conduzindo eventualmente a uma ação, cujo pedigree da causa
eficiente é tão inescrutável que se torna invisível. 189
Para Dennett, devido ao nosso design, não percebemos as inú-
meras micro-causas que nos impelem a agir. E esta dificuldade é
notada tanto do ponto de vista da terceira pessoa, quanto da primei-
ra pessoa. A introspecção não nos ajuda nem um pouco a rasteá-
las. A evidência buscada por ele para nos mostrar o quanto a influ-
ência destas micro-causas é fundamental é uma discussão sobre o
caráter voluntário das nossas decisões.
Dennett pergunta-se, então, se decisões são atos de vontade
ou simplesmente são coisas que nos ocorrem. Aparentemente, as
decisões são frutos de nosso livre agenciamento, porém, elas pa-
recem estar “estranhamente fora do nosso controle”. 190 Nós não
temos acesso à forma como elas são produzidas. Somos testemu-
nhas somente de seu surgimento. Dennett acha que poderíamos
sentir como se estivéssemos descentrados em relação ao “quartel-
general”, onde as decisões são tomadas. Contudo, este sentimen-
to é criticado e não é tomado como um ponto de partida de inves-
tigação. Vejamos a tese criticada:
Mas por que deveríamos interpretar nosso autoconhecimento
(self-knowledge) imperfeito (nosso “acesso não privilegiado”
na frase excelente de Gunderson) desta forma, como uma excen-
tricidade literal em relação ao nosso ponto de vista privilegiado
sobre nosso próprio autocontrole?191
Como se vê, o foco da crítica é a idéia de um quartel-general
dentro da organização de nossa mente. Em toda a obra de Dennett,
ela é combatida sistematicamente como um dos últimos represen-

$))
A MENTE EXTERNA

tantes do dualismo cartesiano, e, assim sendo, este recurso não


será utilizado para explicar esta impressão cognitiva. O problema
principal está na postulação de um centro que muitas vezes asso-
ciamos a um “self”, possuidor de um ponto de vista unitário e
coerente do mundo. Este centro é procurado como uma garantia
de que faz sentido acreditar na atribuição de responsabilidade.
Assim, parece haver uma dependência lógica entre a idéia de um
“self”, que garante nossas propriedades como agentes racionais e
morais, e a forma tradicional de conceber a atribuição de respon-
sabilidade moral.
Esta forma tradicional de compreender a responsabilidade afir-
ma que somos responsáveis primariamente e diretamente pelas
nossas ações voluntárias, e somente indiretamente sobre coisas
que nos acontecem. Segundo esta afirmação, poderíamos classi-
ficar eventos mentais em dois tipos: os ativos ou voluntários, e
passivos ou que nos ocorrem. Porém, à medida que nos dedica-
mos a classificá-los por meio da introspecção, os limites deste
sistema classificatório se diluem. Não sabemos mais o que quer
dizer ser ativo ou passivo. Isto contribui para uma impossibilida-
de de descobrir o centro ou a fonte de nossas ações livres, po-
dendo-nos fazer crer que existe sentido em abandonar nossa con-
vicção de que realmente fazemos as coisas. O próprio conceito
de responsabilidade vê-se ameaçado. Dennett chama esta im-
possibilidade de decidir por meio da introspecção se nossos even-
tos mentais são ativos ou passivos em relação a nossa vontade
de um vácuo cognitivo, uma brecha no nosso autoconhecimento.
Ele afirma que tendemos a preenchê-lo com entidades “mágicas”
e “misteriosas” como a de um motor imóvel, ou um “self” ativo.
Ele diz que o que é feito diante da incompatibilidade prática de
sustentar tal conceito de responsabilidade é construir uma teoria de
decisão psicológica, “ao idealizar e estender nossa prática efetiva
(actual), inserindo decisões onde a teoria as demanda, e não onde

$)*
MARCELO LAND

temos uma experiência imediata qualquer sobre elas”192 . Nesta teo-


ria de decisão, está claramente estabelecida a necessidade de se
postular o agente central. É através deste mal direcionar-se que
pode ser sustentada a doutrina da causação do agente. Além disso,
ele acredita que a popularidade deste constructo teórico é o que
inviabiliza a aceitação de que uma abordagem naturalista poderia
ajudar a resolver determinados aspectos do problema.
No que se segue, veremos qual é a proposta naturalista de
Dennett para o conceito de “self”, e a idéia de responsabilidade
moral que ele propõe dentro deste quadro conceitual. Ele nos ofe-
rece uma descrição do processo de como nos tornamos um “self”,
o que faz necessário o exame do conceito de sorte ou acaso (luck)
no seu desenvolvimento.
O “self” é visto como lugar do autocontrole e, nesta afirmação,
reside um dos critérios para se afirmar que algo o possui. Veja-se:
“Controle é o critério definitivo: eu sou a soma total das partes
que eu controlo diretamente”.193
A partir disso, poderíamos dizer que todo design que se
autocontrolasse seria um “self”? De um certo ponto de vista, a
resposta seria afirmativa. Organismos vivos em geral são projetados
para se autocontrolarem e não serem controlados por mais nada,
em seu proveito próprio. Neste sentido, eles são dotados de um
tipo de “self”, mas certamente muito rudimentar em relação ao de
uma pessoa.
Nós somos bem diferentes de outras criaturas que demons-
tram autocontrole, mas no sentido de que somos mais complexos
do que elas. Muitos dos aspectos fundamentais desta diferença
podem se situar na nossa história evolutiva, que incluiu o compor-
tamento social. Contudo, Dennett enfatiza o aspecto do desenvol-
vimento individual de uma pessoa como o mais relevante. Para
ele, os recém-nascidos são muito menos um “self” do que um
filhote de cachorro ou de gato. Os processos de aprendizado e de

$)!
A MENTE EXTERNA

amadurecimento a que são submetidos os bebês humanos fariam


com que nos tornássemos adultos morais autoconscientes. Desta
perspectiva já explorada por vários autores, ele pretende apenas
discutir o problema da aquisição do “self” pelo viés da estratégia
do controle.
O problema com que o ser humano individual começa a vida e
que se torna estratégico é o de aprender a se controlar. Para tal,
ele começa com recursos limitados e tem de se virar sozinho com
eles para alcançar uma solução. Nesta primeira aproximação ao
problema, Dennett já tem um foco de crítica. Assim como sua
crítica ao modelo idealizado de racionalidade se voltava para Kant,
a afirmação de que nascemos com certos recursos que nos possi-
bilitaram nos desenvolvermos em um “self” é dirigida a Sartre.
Vejamos:
Isto pode soar trivial, mas vai de encontro a uma visão de auto-
eleição muito influente: a idéia de Sartre de que alguém se auto-
elege completamente através de uma “escolha radical” que não
carrega nada da bagagem194 do ontem consigo. Na visão de
Sartre, seria como se alguém pudesse se criar ex nihilo; como
se, para empregar um bocado familiar do latim filosófico, o
“self” fosse ao nascer uma tabula rasa ou uma página em bran-
co.195, 196
Dennett acha que Sartre sabia muito bem que não éramos
páginas em branco, embora tenha escolhido uma metáfora ex-
travagante para expressar sua idéia. Esta metáfora, tomada em
sua literalidade, implicaria que possuíssemos um tipo qualquer
de poder mágico de autocriação, e que, se a ciência pudesse
provar que as coisas não se passam assim e que não existe tal
poder, estaríamos sem esperanças de sermos realmente livres e
responsáveis. Dennett não consegue entender por que muitos
filósofos querem ainda defender uma postura tão absoluta, ape-
sar das evidências empíricas de que não nascemos totalmente
sem recursos. E ainda mais estranho parece-lhe ser a necessida-

$)"
MARCELO LAND

de de achar que ou se atribui responsabilidade de uma forma


absoluta, ou não há como atribuir nenhuma. Compatibilistas ou
deterministas “soft”,197 como ele próprio, acham que alguém age
livremente e responsavelmente quando faz o que decide, com
base no que acredita e deseja. Porém, os deterministas “hard” e
outros tipos de céticos vêem nesta visão uma série de dificulda-
des. Um dos principais argumentos dos deterministas radicais é
que duas pessoas podem ter a intenção de agir de acordo com o
que acreditam e desejam em circunstâncias semelhantes e obte-
rem resultados opostos. Uma realiza a ação de acordo com o seu
planejamento, a outra não. E ainda assim talvez o bom resultado
do primeiro e o fracasso do segundo não tenham nada a dever a
algo que se ligue à elaboração presente dos seus atos. Portanto,
em ambos os casos nenhum dos dois preencheria a definição do
determinista conciliador. O exemplo citado por Dennett é o de
Edwards, que imagina dois homens portadores de neurose ob-
sessiva-compulsiva, que decidem se tratar. Sabe-se que existe
uma terapia eficaz para a restruturação de seus caráteres, mas
que demanda por pressuposição uma enorme coragem e energia.
Um deles, graças a uma coragem e energia maior, tem bons re-
sultados em seu tratamento; o outro, por uma debilidade acentu-
ada, piora cada vez mais. Em ambos, a decisão baseia-se na crença
e no desejo de melhora, e, no entanto, os resultados do trata-
mento não se devem ao processo de deliberação presente. Um
fator antigo, a coragem e energia de um deles, estava presente
antes de se desencadear a deliberação.
Tanto a perspectiva de Sartre quanto a do determinista radical
representam graves ameaças ao modelo que Dennett pretende cons-
truir. Na primeira, nega-se qualquer importância causal decisiva ao
passado e as influências controladoras dos eventos anteriores ao
processo de deliberação presente. É o que poderíamos chamar de
doutrina do agenciamento absoluto. Na segunda, o passado contro-

$)#
A MENTE EXTERNA

la o presente, nada do que se faça agora deve-se a algo que ocorre


neste tempo presente. O processo deliberativo não existe de fato,
ele é um epifenômeno em relação a uma rede de causalidades que se
iniciou no passado mais remoto. Ou consegue-se achar um jeito de
tornar responsável um “self” que inicialmente fazia escolhas não-
responsáveis, adquirindo gradualmente as condições necessárias à
responsabilidade, ou devemos nos render a um dos lados anterior-
mente descritos.
Um determinista radical acharia que a empreitada de Dennett
é fadada ao fracasso, porque haveria sempre algo pelo qual o
agente não é responsável influenciando a ação que se supõe ser
da sua responsabilidade, ou seja, sempre poder-se-ia encontrar
uma etapa anterior, fora do seu autocontrole. Dennett acha que
este argumento é falacioso por pelo menos duas razões. Ele su-
põe que uma coisa com uma determinada propriedade não pode
produzir uma outra coisa com uma propriedade diferente. Isto
seria equivalente a dizer que mamíferos não poderiam surgir a
partir de ancestrais não-mamíferos. A segunda razão é a utiliza-
ção de uma premissa que não é necessariamente verdadeira, a de
que alguém não poderia ser dito responsável por algo, a não ser
que isto fosse inteiramente sua obra. O erro básico é que se isto
fosse necessário, só Deus poderia ser responsável por alguma
coisa, porque ninguém pode ser dito inteiramente e exclusiva-
mente responsável por qualquer coisa. A própria idéia de autoria
estaria prejudicada por esta premissa. Ninguém mais poderia ser
dito autor de nenhuma obra de artes plásticas, literatura ou mú-
sica. Assim, Dennett está deixando claro que a noção de respon-
sabilidade que ele utiliza é a mais usual e trivial possível e de uso
cotidiano:
Eu considero que eu tenha responsabilidade por alguma coisa
que eu faço e, então, imponho ao público em geral; se minha
sopa causa envenenamento alimentar, ou meu automóvel causa

$*%
MARCELO LAND

poluição do ar, ou meu robô perde o controle e mata alguém, eu,


manufaturador, é que devo ser culpado. E apesar de eu poder
manipular as coisas para levar meus fornecedores e
subcontratantes a dividir algo desta responsabilidade comigo,
eu sou dito responsável por liberar o produto com falhas para o
público. Esta sabedoria comum contém a mesma racionalidade
que sustenta a responsabilidade pessoal; eu criei e liberei um
agente que sou eu mesmo; se seus atos produzirem danos, o
manufaturador é dito responsável.198
Não é certamente a primeira vez que idéias nascidas de uma
ética do livre mercado se mostram influentes no pensamento de
Dennett. Neste caso, ele nos diz claramente que mesmo que eu
não tenha pleno controle do processo deliberativo que conduz a
uma ação, que é o produto a ser liberado no mercado, eu no míni-
mo posso ser dito responsável pela liberação, ou seja, a etapa final
é o que importa. E, como já tínhamos visto na discussão sobre o
indeterminismo, o que faz a diferença é a possibilidade de haver
um controle nesta etapa final do processo, isto é, uma atividade de
segunda ordem. Assim, o agente precisa arranjar um espaço para
manobra (Elbow Room), onde possa aumentar suas chances de
manter o controle de pelo menos esta parte essencial do processo
deliberativo.
Para poder manter este controle, é preciso que o agente seja
um controlador de si próprio. Vejamos o que isto quer dizer. No
modelo proposto por Dennett, os eventos causais passados não
são suficientes para exercer o controle sobre o agente. Indepen-
dente de que posição se esteja adotando, determinista ou
indeterminista, o importante é considerar que tipo de design são as
pessoas. Fomos projetados para funcionarmos racionalmente, mas
não no sentido de que podemos considerar todos os argumentos e
nuanças envolvidos em um problema. Em primeiro lugar, porque,
como vimos, este processo não chegaria ao fim e funcionamos em
um regime de pressão de tempo. Em segundo lugar, porque estamos

$*$
A MENTE EXTERNA

em interação com outros seres com capacidade de controlar a si


próprios, e um certo grau de imprevisibilidade é fundamental para
fugir de suas tentativas de controle. Em terceiro lugar, porque designs
capazes de modificarem regularmente as suas estratégias de con-
trole têm maior chance de produzir “variações genéticas”, que pode
lhe favorecer a descobrir comportamentos mais bem-sucedidos.
Toda esta liberdade na conceituação do que é o comportamen-
to racional também decorre do ambiente, que oferece para as pes-
soas muitas oportunidades de encontrar condutas bem-sucedidas.
Tem-se, portanto, que o agente deve trabalhar em um nível de
decisão de segunda ordem, em que leva em consideração uma
série de condutas possíveis, tentando otimizar sua oportunidade
no seu ambiente, considerando todos os fatores envolvidos, in-
clusive predadores com a mesma capacidade. No entanto, não
existe uma única solução ideal em cada caso que seja previamente
dada. Existem certamente soluções padrões, já previamente
estabelecidas para determinadas circunstâncias, que se podem
adotar sem grandes demandas reflexivas ou criativas. Porém, este
tipo de solução geralmente serve a determinadas situações cir-
cunscritas. Na maioria das situações práticas, Dennett acha que
se deve abandonar este tipo de solução padronizada e adotar o
raciocínio heurístico.
E para tal, um design candidato à categoria de controlador de
si próprio de ordem superior deve ter a capacidade de representar
suas crenças, desejos, intenções e planos de uma forma nítida,
suscetível à avaliação. Esta avaliação, contudo, é vista por Dennett
como algo que deve ser limitada de alguma forma no tempo, para
que seja útil. Devemos nos conformar ao fato de que o nosso
processo deliberativo não chega nem mesmo perto da perfeição, e
os resultados alcançados após algum tempo de processamento
podem estar muito longe do ideal, e mesmo podem ser ditos ina-
dequados. O que nos garante uma certa liberdade de nossa depen-

$*&
MARCELO LAND

dência deste processo é uma série de medidas de auto-aprimora-


mento, onde revemos as atitudes tomadas e podemos corrigi-las
no futuro, ou seja: “Vamos pensar nos tipos certos de coisas no
tempo certo.”199
Contudo, apesar de dispormos destes dois processos sofistica-
dos – controle racional de ordem superior e reflexão autocrítica –,
ainda demonstramos limitações significativas como engenhos se-
mânticos. Expomos facilmente nossa irracionalidade e limitação
na nossa capacidade auto-avaliativa. Deixamos evidente muitas
vezes a nossa “sphexidade”.
Agora mostraremos para onde se encaminha a série de argu-
mentos de Dennett exposta em Elbow Room. Ele está tentando de-
monstrar que o processo deliberativo utilizado para que lidemos com
os problemas cotidianos não é nem um pouco parecido com as
idealizações herdadas do Iluminismo. De certo modo, isto talvez
seja uma vantagem, porque nos permite grande plasticidade na to-
mada de decisões. Esta tomada de decisões pode ser auxiliada por
soluções padrões previamente dadas – isto parece se aproximar do
conceito de hábitos de Dewey. Porém, em muitas circunstâncias, a
finitude do agente obriga-o a proceder pelo método de tentativa e
erro, revisando a posteriori e aprimorando o próximo lance neste
jogo da vida. É neste ponto que nasce a necessidade de uma nova
concepção de responsabilidade. Se o agente não é um deliberador
perfeito por sua própria natureza, com que base lhe imputaremos
culpa e responsabilidade? Se é suscetível a atitudes sintáticas, como
cobraremos dele procedimentos exigidos a alguém capaz de enten-
der tudo que se passa?
A seguir, exporemos a resposta de Dennett para o problema
criado por seu modelo. Não a achamos ideal porque, embora
logicamente atrativa e provavelmente capaz de descrever o que se
passa no cotidiano, ela não se detém no conceito de justiça, como
teremos oportunidade de discutir. De qualquer forma, os impasses

$*'
A MENTE EXTERNA

nela demonstrados são de profunda relevância para o modelo de


ética do naturalismo pragmático.
Um dos conceitos fundamentais para se entender como se pro-
cede a atribuição de responsabilidade é o de que somos nós que
produzimos a nós próprios no processo de auto-avaliação radical.
Não basta que reconheçamos que somos os autores de nosso atos.
Deve-se observar a forma como estes atos são reavaliados. Neste
processo de reavaliação, serão gerados valores e leis para as condu-
tas futuras do agente. Contudo, estas leis e valores não funcionam
de forma a cegar o seu poder deliberativo, pois o resultado do pro-
cesso de reavaliação radical não são somente as leis, mas o próprio
agente. Formamos a nós mesmos através desta auto-avaliação e
aprendizado, produzindo uma unidade cada vez mais coerente e ar-
ticulada. Neste sentido, a idéia de autoformação do “self”, proposta
por Dennett, diferencia-se de outras que utilizam a analogia com a
formação material como a de um cristal, ou de uma cicatriz. Veja-
mos a definição do autor:
A autoformação, ao contrário destas, é sensível à informação,
sujeita a muitos níveis indefinidos de crítica de um nível de or-
dem superior (meta-level), e “criativo” da mesma forma que a
arte: as formas que emergem contribuem para a constituição das
regras pelas quais seremos julgados.200
O “self” é autocriado no processo de reavaliação de seus atos
e de autocrítica. O “formato” deste “self” contribui para definir os
valores pelos quais todos são julgados. Esta concepção reflete a
idéia de que o “self” é uma rede de crenças que não pára de se
tecer, capaz de se autodescrever e produzir novos valores e re-
gras de conduta. Dennett parece querer dizer que atribuição de
responsabilidade é dirigida a esta rede, e não ao ato em si mesmo.
Em suma, não basta procurar o autor de um ato para se determi-
nar a responsabilidade. Deve-se ver o que é o próprio autor, como
ele se constitui e como lida com as conseqüências de um ato de

$*(
MARCELO LAND

sua autoria. Dennett admite, no entanto, que esta posição é vulne-


rável. Um determinista fatalista poderia alegar que fatores causais
fora do controle do agente poderiam tê-lo conduzido a não ser
sensível à razão e aos bons argumentos. Assim, o “self” poderia
ser um produto de pura sorte. Se isto fosse verdade, a idéia de
responsabilidade, que parecia ter sido resgatada por esta idéia de
que um mau ato isolado não define a responsabilidade de uma
pessoa, estaria novamente ameaçada. Pois seria justo atribuir cul-
pa a alguém que por pura má sorte se constituiu de uma forma a
não agir racionalmente?201
No livro Elbow Room, Dennett faz uma longa discussão so-
bre o conceito de sorte, que não reconstruiremos aqui. Basta
que se expresse a tese final. O problema em questão não é nem
tanto a sorte, mas a habilidade. Nascemos mais ou menos hábeis
para realizar determinadas coisas, mas o menos dotado dos ho-
mens pode, através do treinamento, desenvolver-se além das ex-
pectativas. Somos de tal forma projetados, que possuímos um
espaço para manobra em que a habilidade pode contar pontos,
dentro do espectro de sucessos devidos à pura sorte até fracas-
sos devidos ao azar. E se a habilidade faz a diferença na maioria
das vezes, então o fator preponderante é a idéia de que a educa-
ção moral é útil e necessária para desenvolvê-la. Devemos achar
que todos têm uma chance aproximada de responder a este tipo
de educação.
O problema residual desta concepção dennettina de um “self”
que se produz a si próprio é que ele não pode ser considerado cem
por cento responsável pelo seu próprio caráter. Existe sempre algo
do passado, um evento causal em um mundo determinista ou não-
determinista, que está fora de seu controle. Neste sentido, as idéias
de auto-eleição do “self” e de escolha radical, que Dennett atribui a
Sartre, estão sendo postas de lado. Se, contudo, para termos res-
ponsabilidade por nossos atos e dignidade humana precisamos ter

$*)
A MENTE EXTERNA

estes atributos, então não haveria mais responsabilidade na face da


terra após esta “revolta naturalista” na moral.
No último capítulo de Elbow Room, denominado “Why do we
want free will”, Dennett propõe uma versão do conceito de res-
ponsabilidade que pretende se adequar a sua visão naturalista do
agente.
O conceito de responsabilidade desejado tem de poder lidar com
a hipótese de que não somos criaturas ideais, como poderíamos
supor pelas descrições do conceito tradicional de agente moral. Ele
vislumbra a possibilidade de atribuir culpa a seres projetados pela
Mãe Natureza, que pudessem ter um espaço para manobra, onde
seriam simplesmente pecadores, ao invés de oscilarem radicalmen-
te entre a santidade e a monstruosidade.
Dennett inicia sua proposta com uma investigação do que cha-
mamos normalmente de atribuir responsabilidade às pessoas. De-
tém-se especificamente na idéia de punição, alertando que preten-
de fazer apenas uma reconstrução racional, ignorando várias suti-
lezas. Para ele, a punição é destinada a cumprir uma função social,
que se baseia na intuição de que determinados tipos de danos po-
dem ser minimizados pela proibição e pelas sanções ameaçadoras
prometidas a quem os causar. Mesmo seres aproximadamente ra-
cionais, como nós, têm interesses de não serem presos por terem
cometido delitos e podem ser intimidados pela garantia de puni-
ção. Em suma, para Dennett, a lei tem efeitos positivos em minimizar
o crime.
Em um mundo de seres racionalmente ideais, todos fariam as
coisas certas e não seria necessário a lei e a punição. Os cidadãos
seriam anjos. Em um outro mundo de seres um pouco menos
ideais, mas certamente mais racionais do que nós somos, todo o
aparelho policial e punitivo teria um papel apenas cerimonial, por-
que as pessoas, por obedecerem a razões, sabendo do risco de
cometer crimes, simplesmente não praticariam delitos.

$**
MARCELO LAND

No nosso mundo real e imperfeito, cheio de Homo sapiens, as


prisões estão lotadas e os juízes, sobrecarregados. Uma das razões
para isto, segundo Dennett, é que todo o sistema punitivo é usado
de forma insuficiente, e como as pessoas são realmente racionais,
elas reconhecem que existe algum grau de expectativa de que o
crime acabe compensando, e que, portanto, vale a pena correr um
certo risco. Isto porque o poder de dissuasão da lei é uma função
da percepção das pessoas da probabilidade de serem apanhadas
em seus delitos e da severidade da pena que lhes será imposta.
Contudo, parece ser também racional considerar que qualquer
intensificação de nossos sistemas de punição, a fim de coibir este
nível residual de delitos, seria custoso para a sociedade, implican-
do aumentar a brutalidade dos castigos. Parece haver um ponto
ótimo em que o menor número de crimes é permitido, sem que os
custos sociais sejam aumentados significativamente. Embora re-
conhecendo que estamos longe de alcançar este ponto, Dennett
afirma que seria irracional querer ter um sistema com um poder
de dissuasão perfeito.
Prosseguindo a análise, Dennett atesta que o poder de dissuasão
de nosso atual sistema penal só tem chance de ter sucesso se as
pessoas souberem e entenderem as condições das sanções. Po-
rém, também é uma das condições para o seu bom funcionamento
que não se aceite como desculpa a ignorância da lei. Estes dois
elementos têm de estar em vigor ao mesmo tempo para que este
poder forneça resultados. Isto significa lançar mão de um certo
grau de arbitrariedade, pois poder-se-ia muito bem requerer a ig-
norância da lei como escusa. Todavia, pretende-se simplesmente
negar esta possibilidade. Para o autor, esta negação tem uma fun-
ção estratégica, já que o tempo urge, as leis têm de funcionar e
temos de achar um fator limitante em algum lugar.
Depois que o sistema está em funcionamento, é que entram
em consideração aqueles para quem as leis irão falhar, tais como

$*!
A MENTE EXTERNA

os insanos e os mentalmente incompetentes, que são incapazes de


satisfazer a primeira condição. Estes não serão punidos. A não-
atribuição de responsabilidade neste caso é fundamental para man-
ter e preservar a credibilidade e possibilidade de defesa do próprio
sistema. Como resultado, há a diminuição do número de pessoas
elegíveis à punição, à responsabilidade genuína e ao lugar de culpa-
do. Porém, se reconhecermos que os princípios usados nesta de-
marcação são toscos, não haveria sentido em propor uma tentativa
de distinção mais precisa? Certamente, haveria argumentos para
tentar incluir e excluir determinados tipos de pessoas da categoria
de responsáveis, mas, no final da argumentação, novamente tería-
mos uma linha divisória arbitrária.
Sendo arbitrária a postulação da linha divisória entre os que
são ou não responsáveis, tem-se justificativas para se perguntar
sobre a justiça deste procedimento. Para Dennett, o procedimento
é justo, porque todo o arcabouço de regras e princípios do sistema
penal é semelhante ao de um jogo qualquer em que a habilidade
fosse o maior fator para se ter bons resultados: nunca estar-se-ia
livre da sorte e do efeito do acaso. No sistema penal, tal como no
jogo de basquete, demonstra-se uma certa tolerância aos eventos
que fogem ao controle do que se pretende no jogo, que é demons-
trar a habilidade dos cidadãos, como seres racionais, de cumpri-
rem as leis: haverá sempre um certo número residual de crimino-
sos. Se estes forem apanhados no delito ou como conseqüência da
investigação policial, não poderão alegar injustiça, porque tudo
que se exige é um grau mínimo de racionalidade necessária para
se compreender as conseqüências do risco que se correu ao se
fazer autor de um determinado ato, mesmo que não se estivesse
de posse de todos os cálculos racionais no momento em que ele
foi feito. Em suma, Dennett parece dizer que somos criaturas com
racionalidade próxima à ideal, porém, agimos muitas vezes sem
completa visão do que resultará de nossos atos; se dele resultar

$*"
MARCELO LAND

um delito ou erro moral e formos pegos, é considerado suposto


que tínhamos conhecimento de que não poderíamos alegar nossa
“sphexidade” residual, pois aceitamos as regras do jogo do siste-
ma penal. De certa forma, todo ato é uma jogada de risco, e
temos de aceitar as conseqüências de nossa má sorte. Portanto, a
nossa suposta competência penal ideal é uma condição necessária
para o jogo social prosseguir.
E quanto à responsabilidade moral? Dennett se pergunta por-
que queremos afinal garantir a existência deste tipo de responsabi-
lidade. O problema é também derivado da “‘questão metafísica’
acerca das condições sob as quais alguém é verdadeiramente res-
ponsável”.202 Parece haver dois tipos de questões envolvidas: (1) a
questão relacionada ao porquê atribuímos responsabilidade a uma
pessoa, ou aceitamos a responsabilidade por uns atos, e (2) a ques-
tão relacionada ao porquê, ou ao se somos realmente responsáveis.
Muitas vezes se atribui responsabilidade a quem não tem; e quem a
tem freqüentemente não a aceita. Na prática não interessa muito se
arbitrariedades discretas são cometidas, pois os ganhos são muitos.
Ao invés de iniciarmos uma investigação infindável para determinar
se uma ação pertence realmente ao domínio dos fazeres de alguém,
simplesmente atribuímos responsabilidade a esta pessoa pela con-
duta que realizou. Não levamos em consideração se algum evento
causal externo ao processo deliberativo influenciou a decisão pela
conduta. A recompensa obtida é uma maior proporção de compor-
tamentos responsáveis inculcados.
Do ponto de vista do indivíduo, que aceita a responsabilidade de
uma má ação, pode-se se perguntar se ele não estará se traindo.
Para Dennett, esta pergunta não tem solução caso se acredite que
exista de fato algo como uma responsabilidade absoluta, que al-
guém tem ou está excluído dela, já que a possibilidade de ter aceito
ou negado erradamente a responsabilidade não poderia ser determi-
nada. Segundo o autor, teríamos de admitir com Kant que somente

$*#
A MENTE EXTERNA

um comportamento moralmente perfeito é um comportamento res-


ponsável, não havendo sentido em imputar culpabilidade real a nin-
guém.
Mais uma vez, Dennett lança mão de um argumento pragmático
para livrar-se do dilema, tendo como pano de fundo a descrição
naturalista de nosso design. Considerando a urgência do tempo,
somos projetados em todos os níveis de organização para agirmos
com certo grau de arbitrariedade e aceitando sabiamente certos ris-
cos. Os nossos sistemas de organização de memória garantem que
somente alguns subconjuntos de pontos relevantes ao problema do
momento estarão sujeitos a processamento no tempo disponível.
Um indivíduo que disponha de grau elevado de autocontrole deverá
“apostar” com a ajuda de somente alguns destes pontos relevantes,
a fim de ganhar eficiência e, quando o problema for consciente, a
fim de terminar a deliberação, mesmo sabendo que restariam vários
pontos a serem considerados. Disto se conclui que qualquer siste-
ma de controle finito, como os nossos cérebros, está sempre pron-
to a cometer erros e chegar a decisões facilmente condenáveis. Isto
faria parte de nosso caráter, seria o que Dennett chamou de “Peca-
do original, naturalizado”.203
Logicamente, deveriam ser tomadas medidas para minimizar
os efeitos ruins deste “inevitável defeito de caráter”, 204 tal como
utilizar feedback corretivo. Um deles é atribuir arbitrariamente às
pessoas responsabilidade por sua ações, ao mesmo tempo em que
lhes asseguremos que serão responsabilizadas pelo que fizerem,
na esperança de limitar este hábito de correr riscos a faixas tolerá-
veis. Se apesar de todas estas medidas de controle de ordem supe-
rior a pessoa for pega fazendo algo errado, ela terá de aceitar que
perdeu a aposta e que deve pagar as penalidades sem objeção.
Finalmente, Dennett acha que o ceticismo de alguns quanto à
possibilidade de atribuir a verdadeira culpabilidade a alguém é fru-
to de outro ideal absolutista: o conceito de culpa total diante do

$!%
MARCELO LAND

olho de Deus. O fato de que nunca encontramos no mundo real as


condições necessárias e suficientes para manter este conceito de
responsabilidade absoluta não deveria abalar a nossa crença na
integridade de nosso conceito usual.
Antes de passarmos ao próximo capítulo, gostaríamos de apre-
sentar algumas inquietações em relação ao conceito de responsa-
bilidade proposto. Nosso problema não é criticar o conceito em si
mesmo, que achamos criativo e bem articulado. O que incomoda
na argumentação é a ausência de uma abordagem ao conceito de
justiça. Dennett considera justo, por exemplo, que um indivíduo
aceite as conseqüências dos atos por ele produzidos, mesmo que
não tenha controle absoluto do que faz. Para nós, esta aceitação
não seria problemática se não houvesse a possibilidade de se dizer
que houve quebra no contrato social anteriormente pressuposto.
Vejamos o que queremos dizer com isto. Para Dennett, a idéia de
que temos vontade livre é um mito que nos ajuda a viver em
sociedade e ao mesmo tempo uma ilusão necessária para que pos-
samos ter algo semelhante a uma livre vontade. No entanto, ele
não destaca que este mito e esta ilusão foram construídos há ape-
nas alguns séculos e nada os obriga a que continuem tão influentes
nos dias que estão por vir. Porém, aceitaríamos como uma res-
posta adequada que um filósofo rortiano dissesse que, não obstante
ser historicamente datado, o mito da vontade livre é um dos traços
que nos caracteriza nesta sociedade, e precisamos pragmatica-
mente dele para viver e preservar boa parte de nossas melhores
instituições.
Contudo, quando levamos em consideração a idéia de justiça e
do cumprimento dos termos de um contrato social, por exemplo,
toda esta coerência argumentativa parece estar realmente ameaçada.
Mesmo um engenho quase semântico, como nós, quer que regras
contratuais sejam cumpridas. No caso, os termos são: somos cria-
turas perfeitamente racionais e a verdadeira e única causa de nos-

$!$
A MENTE EXTERNA

sos atos, portanto, tudo o que fizermos será de nossa inteira res-
ponsabilidade. Uma das interpretações do que Dennett está propon-
do é algo do tipo: não somos nada disso o que pensávamos, mas,
para a segurança de nossa sociedade, nos trataremos como se o
fôssemos. Será que criaturas, mesmo que não completamente raci-
onais e causadoras de seus atos, aceitariam este adendo contratual
pelo bem-estar de todos, sem que se fizesse uma indagação mais
profunda sobre o conceito do que é ser justo? Para nós, neste con-
texto só haverá justiça se um novo contrato social estiver sendo
pressuposto, e se se puder compreender quais são as suas conse-
qüências.
Nas últimas considerações de Elbow Room, encontramos o
que poderíamos chamar de um esboço de um novo contrato social,
que poderia agradar muitos dos naturalistas pragmáticos. Vejamos
esta passagem:
O que nós queremos quando queremos vontade livre é o poder
de decidir nosso curso de ação e de decidi-lo sabiamente, à luz
de nossas expectativas e desejos. Nós queremos estar no con-
trole de nós mesmos, e não sob o controle dos outros. Nós
queremos ser agentes, capazes de iniciar e assumir a responsa-
bilidade por projetos e feitos. Tudo isto é nosso, eu tenho ten-
tado mostrar, como um produto natural de nosso patrimônio
biológico, aumentado e estendido por nossa iniciação na socie-
dade.205
Nesta passagem, podemos compreender o tipo de contrato que
está sendo proposto. Com a descrição naturalista do indivíduo,
conservamos boa parte das intuições básicas, que se pretendia
fortalecer com a utilização do mito da vontade livre. Muda-se a
nossa auto-descrição, mas preserva-se nossos direitos e deveres
democráticos. As bases do contrato social, no entanto, passam a
precisar de um aval cientificista, porque depende-se da ciência
para se formular os traços de nossa nova auto-imagem. Apesar de
tudo, mesmo com a proposta formulada nestes termos, o autor

$!&
MARCELO LAND

não está cometendo falácia naturalista, porque o que se produz é


apenas uma nova fonte de justificação para uma série de princípios
normativos previamente existentes. O caráter recomendatório do
“bom” não está sendo ameaçado, e também não está sendo propos-
to que se mude nossos hábitos de produção de valores.
Para nós, o compatibilismo dennettiano procura garantir um
lugar de destaque para os cientistas, mas não despreza os anseios
por princípios normativos dos libertários. Os seus argumentos
servem bem àqueles que pretendem atacar eliminativistas radi-
cais e seu ímpeto científico voraz. Parece ser também um com-
plemento às propostas compatibilistas de Davidson e uma justi-
ficativa para dar ênfase à descrição fisicalista não-redutiva da
pessoa.
Por outro lado, quando pensamos no que Rorty vem nos di-
zendo nos últimos anos, principalmente no seu ataque aos filóso-
fos acadêmicos e no seu elogio à literatura e aos poetas fortes,
compreendemos como é difícil prever em que base será feita a
extinção da metáfora natureza x cultura. O naturalismo parece ser
uma etapa fundamental para abalar sua influência. Contudo, filóso-
fos como Rorty, dando importância a somente certos aspectos da
obra de Dennett, de Dewey e de Davidson, achariam melhor que a
abordagem naturalista fosse utilizada apenas como meio para justi-
ficar críticas aos vocabulários filosóficos tradicionais. Eles não
gostariam que, destas críticas, surgisse a vontade de edificar algum
sistema metafísico ou mesmo grandes redescrições naturalistas
positivas de nosso meio social.
Dennett parece não se contentar com este tipo de ação crítica.
Ele pretende afirmar que ganhos positivos podem ser alcançados
pela abordagem naturalista, inclusive no terreno da ética, que será
o foco de nosso próximo capítulo. Iremos ver que tipo de criatura
da natureza somos e que proposta ética Dennett gostaria de ver
implantada em nossa sociedade.

$!'
Capítulo 3

Naturalismo e reducionismo

Neste capítulo, apresentaremos as concepções dennettianas so-


bre o que somos e sobre a nossa cultura, a fim de mostrar a nossa
continuidade com a natureza. Contudo, veremos que, embora ad-
mita que sua posição possa ser dita reducionista, uma vez que ele
pretende utilizar para tal apenas os conceitos advindos do
darwinismo, Dennett acredita ser um reducionista prudente, que
não quer simplificar a complexidade dos problemas. Veremos tam-
bém como situar as suas propostas para uma ética naturalizada,
tentando demonstrar a influência da acusação de “falácia natura-
lista” neste contexto.

3.1. Afinal, que tipo de criaturas nós somos?


Para se compreender que tipo de criaturas nós somos, segundo
a descrição de Dennett, iniciaremos resgatando um de seus expe-
rimentos de pensamento, presente no livro Darwin’s dangerous
idea: evolution and the meanings of life. Este experimento já
fora mencionado anos antes em um artigo de 1987, denominado
“Evolution, error, and intentionaliy”, que foi utilizado em parte no
primeiro capítulo, para discutir o conceito de intencionalidade origi-
nária e derivada.
Dennett pede-nos para supor que nós quiséssemos experimen-
tar a vida no século XXV, e que para tal teríamos que entrar em
um estado de hibernação em uma câmara criogênica. Obviamente
estaríamos imobilizados e em coma profundo. A câmara seria ajus-
tada automaticamente para nos acordar e nos liberar no ano de
2401.

$!)
A MENTE EXTERNA

O planejamento da câmara incluiria vários aspectos, já que deve-


ria ser protegida e suprida de energia por cerca de quatrocentos
anos. Logicamente, não poderíamos contar com os nossos paren-
tes para exercer estas funções, porque eles já teriam morrido neste
período e não seria prudente confiar em nossos descendentes. As-
sim, além da câmara criogênica, deveríamos construir um super-
sistema para proteger nossa cápsula de tempo e fornecer a energia
necessária durante a hibernação.
Haveria, então, duas possíveis estratégias a serem adotadas.
Segundo uma delas, deveríamos encontrar um local ideal para
fixar a instalação, que fosse bem suprido de água, luz do sol e
qualquer outra coisa que fosse necessária para o funcionamento
da cápsula. A desvantagem desta estratégia é que a instalação não
poderia se mover caso algum perigo viesse em sua direção. Quem
sabe o que os engenheiros e arquitetos do futuro fariam na área de
nossa escolha?
A outra estratégia seria mais cara e sofisticada. Projetaría-
mos um veículo motorizado para abrigar a cápsula, dotado de
sensores e mecanismos de alarme, que o tornasse capaz de se
mover sempre que alguma ameaça surgisse, ou de procurar no-
vas fontes de energia, ou de reparar danos materiais se necessá-
rio. Em suma, teríamos construído um robô para abrigar nossa
câmara criogênica. Estas duas estratégias são copiadas da natu-
reza, correspondendo grosseiramente à divisão entre plantas e
animais.
Logicamente, nós deveríamos projetar este robô, de maneira
que ele pudesse “escolher” ações que promovessem nossos inte-
resses. Dennett esclarece aqui que o verbo “escolher” não deve
ser entendido no sentido de se imaginar que se está atribuindo ao
robô consciência ou vontade livre. Ele pretende que se compreen-
da que o poder de programas do computador está na sua capaci-
dade de executar instruções ramificadas – isto é, algoritmos –

$!*
MARCELO LAND

seguindo uma via ou outra, a depender de algum teste que ele


realiza com base nos dados disponíveis. Seria necessário que fôs-
semos espertos o suficiente para tentar estruturar o robô de for-
ma que, sempre que se confrontasse com uma situação que impli-
casse uma oportunidade de ramificação de decisão, ele tenderia a
seguir a via com mais alta probabilidade de servir aos nossos inte-
resses. Como diz Dennett, “nós somos, afinal de contas, a raison
d’etre de toda a geringonça (gadget)”206 Ele precisaria também de
um sistema visual, para guiar sua locomoção, de outros sistemas
sensórios e de capacidade de auto-monitorização para avaliar suas
necessidades.
Como estaríamos comatosos, o robô deveria ser capaz de gerar
seus próprios planos de ação em resposta à mudança das circuns-
tâncias durante os séculos. Ele deveria poder “saber” como “procu-
rar” e “reconhecer” e explorar fontes de energia, como se mudar
para territórios mais seguros, como “prever” e evitar perigos. Como
a tarefa seria enorme e o tempo muito curto, deveríamos dar ao
robô somente as habilidades discriminatórias de que ele provavel-
mente teria necessidade para distinguir o que seria necessário dis-
tinguir no mundo. Isto dependeria, em suma, de sua constituição
particular.
Porém, nossa tarefa de projetá-lo tornar-se-ia muito mais com-
plexa se houvesse mais de um robô com a mesma missão, compe-
tindo por segurança e fontes de energia. Precisaríamos de um plano
de como lidar com outros agentes robóticos. O sistema de controle
do nosso robô deveria ser sofisticado o suficiente para poder calcu-
lar riscos e benefícios em cooperar com estes agentes, para formar
alianças para o bem de ambos. Não seria sábio, contudo, achar que
estes agentes seguiriam em princípio a regra do “viva e deixe vi-
ver”. Provavelmente existiriam robôs parasitas baratos, que espera-
riam saltar sobre nossa cara e sofisticada máquina, a fim de explorá-
la. Os cálculos necessários para a tomada de decisão entre coopera-

$!!
A MENTE EXTERNA

ção e opor resistência teriam de ser feitos de forma rápida e crua,


pois careceríamos de tempo para testar completamente qual dos
robôs é amigo ou qual é inimigo, qual é traidor e qual é capaz de
manter seus compromissos. Seria necessário assumir uma boa par-
cela de risco na tomada de decisão para responder à pressão do
tempo.
O resultado do planejamento deste design seria um robô capaz
de exibir autocontrole de ordem superior. Teríamos de dotá-lo com
um sistema de controle aguçado em tempo real, já que estaríamos
em estado de suspensão de sentidos. Isto significaria torná-lo um
agente autônomo, capaz de originar seus próprios objetivos subsidi-
ários a partir da própria avaliação de seu estado atual e da importân-
cia deste estado para seu objetivo final de nos preservar até 2401.
Estes objetivos secundários não poderiam ser previstos completa-
mente de imediato, porque eles seriam dependentes das circunstân-
cias que se modificariam com a passagem dos séculos. O robô
poderia, por exemplo, se engajar em ações contrárias aos nossos
interesses, tais como cometer suicídio ou subordinar sua missão à
de outro robô.
Este robô deveria estar bem entrosado no seu mundo e em
seus projetos, sempre guiado definitivamente pelo que restasse
dos objetivos que teríamos implantado no tempo de nossa entra-
da na cápsula. As suas preferências seriam sub-rogadas das pre-
ferências com que o dotaríamos, com a finalidade de fazê-lo
cuidar de nós nos anos vindouros. Contudo, nada garantiria que
as ações tomadas por ele no futuro, motivadas pelas preferênci-
as herdeiras das nossas, continuariam a ser responsivas a nos-
sos melhores interesses. Do nosso ponto de vista egoísta, espe-
raríamos que suas preferências permanecessem fiéis às originá-
rias, contudo os projetos do próprio robô estariam fora do nosso
controle até que acordássemos. Apesar de ter representações
internas dos seus mais altos objetivos, seu Summum bonum, ele

$!"
MARCELO LAND

poderia ser persuadido por várias outras influências, de forma a


pôr em risco e ignorar as inclinações traçadas pelos seus artífi-
ces. Ele continuaria a ser um artefato, limitado pelo que seu design
permitisse, mas seguindo um conjunto de desejos que ele pró-
prio parcialmente inventou.
Para correntes de pensamentos contrárias a Dennett, este robô
só exibiria intencionalidade derivada, pois ele é apenas um artefa-
to criado para satisfazer nossos interesses. Nós seríamos a fonte
original de todos os significados presentes no robô. Ele seria apenas
uma máquina de sobreviver, projetada para nos fazer chegar ao fu-
turo. O fato de poder se engajar em projetos que são apenas remo-
tamente ligados aos nossos interesses, ou mesmo opostos a eles,
não dota de intencionalidade genuína nenhum de seus estados de
controle, sensoriais ou perceptuais.
Esta visão é chamada no texto de “cliente-centrismo”, que pode-
ria ser explicada como: “a intencionalidade é sempre a do cliente”.
Contudo, segundo Dennett, também não possuímos nenhum esta-
do com intencionalidade originária, porque somos também original-
mente máquinas de sobreviver, que foram projetadas para preservar
nossos genes até que eles possam se replicar. Nossa intencionalidade
original é derivada dos genes egoístas que abrigamos.
Na verdade, Dennett pretende que nós imaginemos que um robô
suficientemente bem elaborado poderia exibir intencionalidade ge-
nuína, devido ao seu intenso entrosamento no ambiente e a sua
habilidade de autoproteção e autocontrole. Este robô, assim como
nós, deveria sua existência ao projeto, cujos objetivos eram criar
máquinas de sobreviver. Contudo, também como nós, ele assumi-
ria um certo grau de autonomia, e tornar-se-ia foco de autocontrole
e autodeterminação. Tudo isto não seria devido a um milagre de
nenhuma espécie, mas somente por ter de se confrontar com os
problemas, que surgiriam durante seu tempo de vida, e mais ou
menos ter de resolvê-los.

$!#
A MENTE EXTERNA

Tendo resumido o experimento de pensamento podemos agora


abordá-lo. Nele estão contidas diversas premissas, que precisam
ser explicitadas para que possamos compreender a sua importância
na obra de Dennett.
1) A intencionalidade humana não é originária. Ela, assim como
a do robô, é uma intencionalidade derivada, no nosso caso, da
Mãe Natureza, ou melhor, do processo de pensamento sem pen-
sador resultante da evolução por seleção natural, que logo des-
creveremos como um processo algorítmico. Nossos genes con-
têm boa parte das informações, ou seja, desta intencionalidade,
que propiciou a criação de máquinas de sobreviver que somos
nós.
2) Porém, durante o processo de interação ambiental, durante
centenas de milhares de anos, as máquinas de sobreviver humanas
foram adquirindo necessidades e desenvolvendo capacidade de con-
trole de ordem superior, ao ponto de se autocontrolarem e poderem
zelar por seus próprios interesses, que nem sempre coincidiram
com os de seus genes.
3) Boa parte deste processo de formação de seres autônomos e
autodeterminados não foi devido a nenhum milagre, ou ruptura ra-
dical com a forma de transmissão e produção de informação da
Mãe Natureza. Estas características são fruto de complexificação
dos algoritmos inicialmente presentes no espaço de design da natu-
reza, não sendo necessário postular nenhuma descontinuidade mis-
teriosa para explicar o surgimento de uma intencionalidade humana
genuína.
4) Se nós fomos formados por complexificação de processo de
pensamento sem pensador, então poderemos também criar máqui-
nas capazes de desenvolverem as mesmas habilidades que nós e
exibirem intencionalidade genuína. Em suma, podemos apostar e
investir em programa de pesquisa de inteligência artificial.

$"%
MARCELO LAND

Como veremos, estas premissas serão de grande importância


para a crítica que Dennett faz aos reducionistas vorazes – aqueles
que simplificam o mundo para dar explicações apressadas e errô-
neas quanto a nossa natureza – e também aos que se apegam a
explicações misteriosas ou quase mágicas, tentando mostrar a nossa
singularidade em relação à natureza.

Tipos de mentes
Em Kinds of minds, Dennett define os animais como
“informívoros”. Eles possuiriam uma fome epistêmica, que se-
ria o resultado da combinação e da organização sui generis das
fomes epistêmicas de milhões de micro-agentes, organizados
em milhares de subsistemas. Cada um destes agentes minúscu-
los poderia ser concebido como um sistema intencional míni-
mo, cujo projeto de vida seria responder a uma pergunta: “a
minha mensagem está chegando AGORA?”207 e desencadean-
do uma ação apropriada caso a resposta fosse “sim”. Sem esta
fome epistêmica não haveria percepção. Com esta visão, ele
está criticando a idéia tradicional de que a percepção é resulta-
do de um “Dado” e do que é feito pela mente com ele. O
“Dado” seria mais corretamente descrito como um “algo apro-
priado”, porém não por um Mestre-apropriador, localizado em
um quartel general interno no cérebro do animal, mas a tarefa
seria distribuída por todos os milhares de apropriadores indivi-
duais, que são os micro-agentes descritos. Os apropriadores
não são somente os transdutores periféricos, mas também os
circuitos internos alimentados por eles, que são células e grupos
de células conectados em rede através do cérebro. Estes circui-
tos são alimentados por impulsos neuronais. O problema é ima-
ginar como todos estes micro-agentes organizados em sistemas
cada vez maiores são capazes de sustentar tipos cada vez mais
sofisticados de intencionalidade.

$"$
A MENTE EXTERNA

Para responder a isto, Dennett propõe um esquema conceitual


no qual define vários tipos diferentes de opções de design dos cére-
bros, para avaliar de onde vem o seu poder enquanto engenhos com
intencionalidade. Cada um dos modelos propostos deve ser visto
como simplificações extremas das estruturas reais. Na verdade, eles
seriam idealizações, para nos ajudar a produzir insights208 sinópticos
do problema. Dennett chamou esta proposta de “Torre de gerar e
testar” (Tower of Generate-and-Test).
Este esquema conceitual é fundamentado na idéia de que cada
etapa descrita representa um aumento crescente na capacidade
de produzir o futuro, que Dennett define como sendo uma das
funções principais dos sistemas intencionais. Porém, ele não está
propondo que cada etapa seja uma descrição real de como as
coisas se passaram durante a história evolucionária, nem que
elas representem períodos de transição. Cada etapa é um andar
da “Torre de gerar e testar”, marcando avanços no poder cognitivo
das diversas criaturas descritas, que nos farão capazes de com-
preender mais adequadamente o sentido das reais etapas
evolutivas.
No primeiro andar, o andar de base da torre, haveria evolução
darwiniana de espécie por seleção natural. Um grande número de
organismos foi gerado de forma cega, por processos arbitrários
de recombinação e mutação de genes. Estes organismos foram
testados em campo, e somente os melhores designs sobrevive-
ram. Estes organismos simples foram chamados por Dennett de
criaturas darwinianas. Abaixo reproduzimos uma figura, basea-
da na que está presente no livro em discussão, que retrata a
produção destas criaturas e a seleção negativa de algumas delas
pela testagem de campo (ambiente) e o favorecimento do melhor
design (figura 1).

$"&
MARCELO LAND

Figura 1 – criatura darwiniana

Ambiente

Ambiente
O processo se deu em milhares de ciclos e vários e interessantes
designs deste tipo de criaturas foram gerados, correspondendo a
plantas e animais.
Dentre elas, surgiram algumas que demonstraram certo grau de
plasticidade fenotípica, isto é, o seu design não estava completamen-
te desenvolvido ao nascimento. Elas possuíam elementos em seu
design que podiam ser ajustados por eventos ocorridos durante a
testagem de campo. Algumas delas não eram significativamente me-
lhores que outras criaturas darwinianas, que apresentavam design
mais fixos, porque não tinham formas de favorecer quais das op-
ções de comportamento iriam ser tentadas no ambiente. Contudo,
dentre elas, muitas eram dotadas da possibilidade de ter um com-
portamento bem-sucedido reforçado. Assim, estes organismos ge-
ravam, diante do ambiente, uma variedade de ações, que eram tes-
tadas uma a uma, até que fosse achada uma que funcionasse. O
critério de bom funcionamento era a captura de um sinal positivo ou
negativo advindo do ambiente, que ajustava a possibilidade da ação
ser reproduzida em outra ocasião. Somente aquelas criaturas dota-
das de maneira inata de reforçadores apropriados tinham vantagem.
Dennett propõe chamar este subconjunto de criaturas
darwinianas de criaturas skinnerianas, porque foi Skinner que

$"'
A MENTE EXTERNA

chamou atenção para o conceito de “condicionamento operante”.


Este conceito não seria análogo ao de seleção natural de Darwin,
porque afirma que, depois que os comportamentos herdados já fo-
ram postos em funcionamento, a capacidade de modificação herda-
da do processo de condicionamento passa a ser um fator decisivo
para o favorecimento de um determinado indivíduo. A figura 2 apre-
senta a representação gráfica da criatura skinneriana.

Figura 2 – criatura skinneriana

Ambiente
Ambiente

O condicionamento skinneriano é bom, desde que a criatura


não seja morta precocemente em uma tentativa errada. Uma ma-
neira mais adequada de lidar com o ambiente seria uma forma de
pré-seleção, entre os possíveis comportamentos e ações, de ma-
neira que os movimentos estúpidos fossem abortados antes de
enfrentarem as situações reais. No terceiro andar da torre, en-
contram-se as criaturas capazes deste tipo de refinamento: as
criaturas popperianas. Este nome foi cunhado por Dennett a partir
de uma afirmação de Karl Popper de que este progresso de design
permitiria que nossas hipóteses morressem em silêncio. Estas
criaturas têm maior chance de sobreviver porque são capazes de
um primeiro movimento no jogo da vida melhor do que obtido
por pura sorte.

$"(
MARCELO LAND

A pré-seleção é garantida por existência de filtros nas criaturas.


Estes filtros devem, de certa forma, corresponder a um ambiente
interno, nos quais as tentativas são feitas de maneira segura. Eles
devem conter as informações acerca do ambiente externo e de suas
regularidades. Dennett compara estas criaturas aos modernos si-
muladores de vôo, no qual o piloto iniciante pode aprender sem
cometer erros fatais, no qual crises podem ser simuladas. O único
problema da analogia é nos fazer crer que o ambiente interno deva
ser uma réplica exata do externo. Basta que a informação seja
reproduzida de forma a permitir as simulações e as pré-seleções. A
figura 3 apresenta a criatura popperiana.

Figura 3 – criatura popperiana

Ambiente
Ambiente

Por meio deste mecanismo de filtro, a criatura popperiana colo-


ca em julgamento em seu tribunal corporal os comportamentos can-
didatos e explora assim sua sabedoria. Esta sabedoria é demonstra-
da através de uma série de reações corporais, que indicam que de-
terminados cursos de ação podem ser desaconselháveis. A infor-
mação contida no corpo que fundamenta este tipo de reação pode
ser tanto de origem genética quanto resultante de experiências re-
centes do indivíduo.
Nós, seres humanos, operamos tanto como criaturas
skinnerianas quanto popperianas, e nos beneficiamos também de

$")
A MENTE EXTERNA

muitos mecanismos herdados como criaturas darwinianas. Como


muitos mamíferos, pássaros, répteis e anfíbios, empregamos nos-
sa capacidade de usar informações gerais obtidas do ambiente para
pré-selecionar nossos comportamentos. Estas informações são in-
corporadas em nossos cérebros por percepção dos eventos
ambientais, que são uma fonte rica de estímulos para alimentar a
fome epistêmica de muitos de nossos micro-agentes. Logicamente,
como mecanismos ativos, estes micro-agentes selecionam, por suas
características funcionais, quais estímulos serão metabolizados,
podendo-se postular a existência de uma variedade de mecanis-
mos e métodos para colher informação.
No entanto, apesar de reconhecer o enorme avanço cognitivo
alcançado no terceiro estágio, isto ainda é insuficiente para expli-
car a enorme habilidade humana em lidar com o ambiente. Esta
habilidade é explicada pelo fato de sermos criaturas gregorianas.
Este tipo de criatura tem a capacidade de utilizar o que o psicólogo
Richard Gregory chamou de inteligência potencial – que são as
informações – para transformá-la em inteligência cinética – que é
a capacidade de criar um movimento esperto (a smart move). Se-
gundo Dennett, isto é resultado da habilidade, que também é de-
monstrada pela Mãe Natureza, de conservar, copiar e utilizar designs
previamente dados no ambiente externo. Esta criatura teria recur-
sos para explorar o espaço de design, para realizar suas atividades
cognitivas. Veremos mais adiante que Dennett lança mão do concei-
to de memes de Richard Dawkins para explicar como estas infor-
mações são captadas pelas mentes humanas e metabolizadas em
atos criativos. O mais importante no momento é a afirmação de
que, para se usar ferramentas e outros designs, é necessário ter um
grau elevado de inteligência. No entanto, o próprio uso de design
aumenta em muito a inteligência dos organismos humanos. Por isto
mesmo, quanto melhor for o design maior será a inteligência poten-
cial conferida.

$"*
MARCELO LAND

Entre os instrumentos e ferramentas presentes no espaço de design,


estão as palavras, que fornecem às criaturas gregorianas um ambiente
interno, que lhes permite gerar múltiplos movimentos potenciais e
testá-los antes de liberá-los para uso no mundo externo. O poder
cognitivo conferido por este avanço é enorme. Como diz Dennett:
Criaturas Skinnerianas perguntam-se a si mesmas “O que eu faço
a seguir?” e não têm dicas para responder até receberem uma
forte pancada. Criaturas Popperianas fazem grandes avanços ao
se perguntarem “O que eu deveria pensar sobre isto a seguir?”,
antes de perguntarem “O que eu faço a seguir?” (Deve ser
enfatizado que nem criaturas Skinnerianas nem Popperianas pre-
cisam realmente falar consigo mesmas ou pensar estes pensa-
mentos. Elas são simplesmente projetadas (designed) para ope-
rar como se tivessem se formulado estas questões. Aqui nós
vemos tanto o poder quanto o risco da atitude intencional: a
razão pela qual criaturas Popperianas são mais espertas – um
mais bem-sucedido desvio, para dizer mais corretamente – do
que as criaturas Skinnerianas é que elas são responsivas de ma-
neira adaptativa a mais e melhor informação, de uma forma que
nós podemos descrever vivamente, embora de maneira frouxa,
pela atitude intencional em termos de um solilóquio imaginário.
Mas seria um erro imputar a estas criaturas todas as sutilezas que
acompanham a habilidade real de formular questões e respostas
conforme o modelo humano de explicitamente perguntarem coi-
sas a si próprio (self-questioning)).209
Não resistimos à tentação de reproduzir esta longa passagem
na íntegra. Nela temos descrita a aplicação de vários dos concei-
tos mais originais de Dennett com os devidos reparos. Na discus-
são entre parênteses presente na citação acima, ele admite o poder
da estratégia intencional, mas deixa claro seu papel instrumental.
Ela serve para fazer predições bem-sucedidas. Se foi bem-sucedi-
da, devem haver padrões que justifiquem seu sucesso, não preci-
sando necessariamente ser explicados em termo de representação
explícita dos conteúdos atribuídos. No caso, eles nos falam de
designs que foram projetados para operar como se se fizessem

$"!
A MENTE EXTERNA

estas perguntas. Outro aspecto destacado é que o verdadeiro soli-


lóquio, que caracteriza as criaturas gregorianas, é considerado um
fator real e decisivo no grande avanço cognitivo destas criaturas.
Isto mostra claramente o desnível que há entre ser um sistema in-
tencional, que é aquele que tem seu comportamento descrito de
forma bem-sucedida pela atitude intencional, e um sistema intenci-
onal que funcione guiado verdadeiramente por atitudes
proposicionais. O uso da palavra dota as criaturas gregorianas com
uma capacidade de controle de ordem superior capaz de torná-las,
como vimos no capítulo anterior, espécimes bem próximos de ver-
dadeiros engenhos semânticos. Vejamos a seguinte descrição:
Criaturas Gregorianas dão um grande passo em direção ao ní-
vel humano de destreza mental, beneficiando-se da experiência
dos outros ao explorar a sabedoria embutida nas ferramentas
mentais que estes outros inventaram, melhoraram e transmiti-
ram; assim sendo, elas aprendem como pensar melhor acerca
do que elas devem pensar a seguir – e assim por diante –, criando
uma escalada (tower) de reflexões internas subseqüentes sem
nenhum limite fixo ou discernível.210
Antes de nos concentrarmos no processo de pensamento, pos-
sibilitado pelo uso das palavras, reproduziremos o esquema das
criaturas gregorianas (figura 4).

Figura 4 – criatura gregoriana

palavras

palavras

$""
MARCELO LAND

Uma tentativa de naturalizar o pensamento

A seguir, mostraremos, de forma resumida, a tentativa de natu-


ralização do conceito de pensamento no livro Kinds of Minds, com
a ajuda dos diversos tipos de criaturas que acabamos de descrever.
A descrição a ser apresentada não é uma história evolutiva, como
podemos encontrar em outros de seus livros, tais como Elbow Room
e Consciousness Explained. Neste livro, preferimos não utilizar es-
tas duas fontes, com o objetivo de explicar a criação do pensamen-
to pelos seguintes motivos:
1- Uma reconstrução da história evolutiva tem um caráter mais
especulativo do que a descrição de diversos tipos de mentes atual-
mente presentes em seus diferentes processos cognitivos.
2- Parece-nos, por isto, que Dennett tomou um rumo mais
precisamente darwiniano na sua pesquisa sobre a mente humana,
porque é muito mais prudente tentar propor quais são os elos que
faltam na cadeia evolutiva das funções cognitivas, a partir da com-
paração com as mesmas funções de outros seres presentes no
mesmo horizonte de tempo.
3- E, finalmente, por que pretendemos utilizar a descrição des-
ta história apresentada no livro Darwin’s dangerous idea: evolution
and the meanings of life.
Antes de iniciar a reconstrução dos argumentos do autor, deve-
mos entender qual o sentido da palavra “pensamento”, utilizada por
Dennett. Como veremos, ele nos descreverá muitas atividades
cognitivas extremamente sofisticadas e complexas e não as cha-
mará de atividades guiadas por pensamentos. Seria mais correto
aproximá-las da idéia de mecanismo, que tem uma racionalidade
embutida, mas que não é causado por uma reflexão ou por um
cálculo racional baseado em representações explícitas. Assim, o
que será explicado é o surgimento da atividade reflexiva e
deliberativa. Veremos o papel fundamental da linguagem neste pro-

$"#
A MENTE EXTERNA

cesso, mas poderemos apreciar as fundamentais contribuições do


autor para dimensioná-lo mais adequadamente.
No início do capítulo intitulado “The creation of thinking”,
Dennett lembra-nos que muitos animais desenvolvem atividades
complexas, tais como caçar, esconder-se, perseguir, mas não pen-
sam que estão desenvolvendo estas atividades. Eles não têm uma
atividade de segunda ordem e não refletem sobre suas ações. Eles
beneficiam-se de sistemas nervosos, que exercem atividades de
controles sofisticadas sobre estes comportamentos espertos (clever)
sem ter a cabeça ocupada com pensamentos reflexivos. Estes com-
portamentos são resultados de mecanismos sem pensamento re-
flexivo (unthinking mechanisms). O problema é mostrar como se
desenvolvem estes mecanismos, estes processos cognitivos, até o
surgimento do pensamento propriamente dito.
Dennett acha que, se formos manter a descrição dos processos
cognitivos dentro de uma atitude intencional, um verdadeiro avan-
ço na competência da mente de um animal poderia ser verificado
quando ele é capaz de demonstrar comportamentos que indiquem
que está adotando uma atitude intencional em relação aos outros
animais. Isto quer dizer que seus comportamentos são sensíveis a
diferenças antevistas nos pensamentos hipotéticos destes outros
animais.211
Ele acha paradoxal supor que um agente sem pensamento possa
estar preocupado com a descoberta e manipulação dos pensamen-
tos de outros agentes. Porém, o esclarecimento deste aparente
paradoxo nos ajudará a entender sua proposta de como surge o
verdadeiro pensamento.212 O paradoxo fica claro quando ele se per-
gunta se o pensamento poderia passar a existir ao seguir suas pró-
prias pegadas. As respostas a esta pergunta nos ocuparão a partir
de agora.
Muitos teóricos têm lançado mão da idéia de que na natureza
existe uma espécie de corrida armamentista (arms race), para ex-

$#%
MARCELO LAND

plicar a evolução para um nível cada vez maior de inteligência. O


psicólogo Nicholas Humphrey teria proposto, por exemplo, que a
autoconsciência seria um estratagema para desenvolver e testar
hipóteses acerca do que estaria se passando na mente dos outros.
Para Dennett, isto poderia ser redescrito como o desenvolvimento
da habilidade de tornar o comportamento de alguém sensível aos
pensamentos do outro; produziria automaticamente a habilidade de
tornar o próprio comportamento sensível aos próprios pensamen-
tos. Isto é inverter radicalmente a proposta de Humphrey, porque
o foco do agente vai do olhar voltado para o externo para a
introspecção. Assim, o hábito de adotar a atitude intencional faria
com que ela servisse tanto para a interpretação do outro quanto
para a de si próprio. A construção dos sistemas intencionais de
ordem superior está sendo vislumbrada como o avanço mais signi-
ficativo dos tipos de mentes.
Contudo, ao contrário do que Dennett acreditava em 1976,
quando escreveu o artigo “Conditions of Personhood” 213 o mero
fato de poder ser descrito como um sistema intencional de ordem
superior não é um critério para delimitar a capacidade de reagir de
forma inteligente guiada por pensamentos. Na época, influenciado
fortemente pelos trabalhos de Frankfurt,214 Dennett chegou a con-
siderar que ser um sistema intencional de ordem superior era um
dos critérios necessários, embora certamente não suficiente, mes-
mo se associados a outros, para considerar alguém uma pessoa.
Em Kinds of minds, ele demonstra que vários animais não-mamífe-
ros podem ser descritos como sistemas intencionais de ordem su-
perior, e estão certamente muito longe de serem considerados
candidatos à categoria de pessoa.
Para ele, muitos dos exemplos melhores estudados pelos
etologistas sobre intencionalidade aparente de ordem superior en-
tre criaturas não-humanas revelam uma destreza (adroitness) irre-
fletida. Seus atos, repletos de intencionalidade de ordem superior,

$#$
A MENTE EXTERNA

demonstram uma racionalidade evidente, que os justificam plena-


mente dentro de um vocabulário de atitudes proposicionais. Po-
rém, é necessário compreender que a racionalidade demonstrada
é do tipo livremente flutuante, criada durante a evolução por sele-
ção natural. Embora possamos imaginar estas criaturas planejan-
do suas ações em uma espécie de monólogo interno, que realmen-
te expressa a racionalidade embutida no seu comportamento, na
verdade é implausível que, para a maioria destas criaturas não-
humanas, qualquer processamento de informação representado
explicitamente esteja subjacente ao que elas fazem. É provável
que tudo ocorra sem a menor reflexão ou cálculo (figure out).
Pode-se propor que estas criaturas sejam psicólogos naturais
não-pensantes. Elas não representariam efetivamente a mente das
outras criaturas com as quais interagiriam, mas seriam supridas
com um enorme repertório de comportamentos alternativos, liga-
dos a uma enorme lista de chaves (clues) perceptuais. Elas não
precisariam de mais nada a não ser uma sistema de associação
entre as chaves perceptuais e os comportamentos. Isto não seria
ler a mente do adversário – do predador ou da presa –, porém pode-
ria ter esta aparência. No capítulo em discussão, Dennett nos apre-
senta teorias de como este processo poderia evoluir para um maior
nível de generalização, tornando possível organizar os repertórios
de comportamento e as chaves perceptuais de uma maneira mais
eficiente. Não nos deteremos nesta teoria, porque não nos acres-
centaria nenhum ganho significativo na sua descrição do processo
de desenvolvimento do pensamento humano. Interessa guardar que
mesmo a mais complexa das organizações de comportamentos ra-
cionais pode ser obtida sem que o beneficiário tenha a menor idéia
do que lhe ocorre. O importante é considerá-lo um afortunado por
ter podido usufruir de uma melhoria de design, que lhe proporcione
a vantagem de uma melhor antecipação do comportamento do ad-
versário nesta corrida armamentista. Outro aspecto fundamental da

$#&
MARCELO LAND

discussão é que alguns teóricos acreditam que uma capacidade maior


de generalização é fruto de uma necessidade de reorganização do
sistema de controle a partir do momento em que os repertórios de
comportamentos e as chaves perceptuais se tornam muito abun-
dantes.
No entanto, Dennett prefere um outro tipo de teoria para expli-
car por que um sistema nervoso capaz de integrar mais habilmen-
te suas estruturas de controle semi-independentes teria vantagens
no processo de seleção natural. Utilizando a proposta do etologista
David McFarland, ele acha que, quando surgiram oportunidades
de comunicação efetivas entre as criaturas, houve o surgimento
de uma pressão seletiva que favoreceu o crescimento de seres
com o tipo de sistema nervoso descrito. Com a introdução da
idéia do surgimento da comunicação, Dennett passa a analisar to-
dos os atos das criaturas em um contexto de competitividade. Se-
res que têm a capacidade de aproveitar o comportamento de ou-
tros como fonte de informação logo apresentam a habilidade de
dissuasão. A honestidade não é a melhor política. O resultado do
relacionamento entre presa e predador, ou entre membros da mes-
ma espécie, passa a depender da maior habilidade de “produzir o
futuro”, de antecipar o comportamento do adversário potencial, e
também da habilidade de se tornar imprevisível, inescrutável. Con-
tudo, mesmo a imprevisibilidade deve ser mantida dentro de limi-
tes aceitáveis, porque a credibilidade tem um valor fundamental
em transações entre membros da mesma espécie, onde a coopera-
ção mútua parece ser um benefício claro. Um blefador sistemáti-
co não é um bom jogador.
Ainda a partir de Farland, Dennett compreende que a necessi-
dade de uma representação sistemática e facilmente manipulável
do comportamento do outro surge quando emerge a opção de
uma comunicação, em que se precisa proteger a si próprio, mas
em que o potencial de cooperação é grande. A possibilidade de

$#'
A MENTE EXTERNA

cooperação passa a ser também uma forte pressão seletiva. O


agente se vê agora confrontado com a tarefa de executar e dar um
formato adequado ao ato comunicativo. Ele deve repartir a “con-
fusão” (tangle) de seus circuitos entrelaçados de controles de com-
portamentos em “alternativas” de comportamentos concorrentes.
Para isto, seria preciso declarar a categoria, onde cada ato estaria
classificado, por exemplo: “estou indo pescar”, “estou indo catar
iscas”, “estou indo tirar escamas dos peixes”.215 Por causa desta
necessidade, muitas distorções são criadas. Pode-se, por exem-
plo, ter de classificar eventos em categorias que não sejam adequa-
das. Dennett nos diz que isto corresponderia a ser obrigado a achar
uma resposta certa em uma questão de múltipla escolha, que não
contivesse o item “Nenhuma das respostas acima”. Além disso,
quando não existe uma pista fornecida pela própria natureza para a
formação de categorias, o agente fica em uma situação muito mais
delicada. Segundo a leitura dennettiana, Farland teria proposto que
o agente teria de resolver este problema através do que ele chamou
de “confabulação aproximadora” (approximating confabulation).
O agente teria de rotular suas tendências como se elas fossem go-
vernadas por objetivos explicitamente representados – isto é, cons-
truir um guia esquemático para suas ações – ao invés de tender para
ações que emergem das relações entre os vários candidatos. Em
suma, ele teria adquirido representações de suas intenções (aqui
entendidas como propósitos), que poderiam convencer o agente de
que ele teria intenções nítidas governando seu agir. Para lidar com
os problemas originados da necessidade de comunicação e coope-
ração, o agente acabaria por construir uma interface para si próprio:
um menu com múltiplas opções explícitas de escolha.216
Para Dennett, no entanto, nem todos os ambientes favoreceriam
o surgimento da comunicação ou o desenvolvimento de um deter-
minado talento não-explorado. A complexidade cognitiva desenvol-
ve-se em paralelo com a complexidade do ambiente. Como regra

$#(
MARCELO LAND

geral de pesquisa, deve-se procurar as complexidades cognitivas


primeiro nas espécies que têm uma longa história de lidar com o
tipo relevante de complexidade ambiental.
Estas observações e recomendações parecem indicar que o
pensamento humano teve de esperar pelo hábito de falar para emer-
gir, o que necessitou do advento prévio da capacidade de guardar
segredos dos outros competidores potenciais, em decorrência da
complexificação do ambiente comportamental, onde a comunica-
ção foi uma oportunidade viável. Assim, não deveríamos encontrar
o tipo de pensamento humano em espécies que não tivessem passa-
do por esta cascata de acontecimentos. No entanto, para várias
espécies de animais, o tipo de intencionalidade de ordem superior
observada pôde ser fornecido com grande probabilidade apenas por
redes semelhantes às propostas pelos coneccionistas e
associacionistas, através de mecanismos darwinianos e incentiva-
dos por mecanismos skinnerianos de condicionamentos operantes
(que podem ser vistos como uma forma de ajuste da rede
coneccionista).217 Muitos outros casos poderiam ser explicados por
mecanismos popperianos, e ainda não precisariam ter nenhuma for-
ma de pensamento explícito. Além disto, os psicólogos naturais não
precisariam comunicar suas atribuições de intencionalidade a eles
mesmos ou aos outros. Como não teriam nunca a oportunidade de
comparar suas atribuições, nem precisariam perguntar por razões
que fundamentem conclusões, não sofreriam nenhuma pressão se-
letiva para abandonar o princípio do need to know em favor do
commando team principle.
Segundo este último princípio, deveríamos dar a cada agente
que compõe o nosso grupo de trabalho todo o conhecimento pos-
sível do projeto para que o grupo possa ter a maior chance
imaginável de completar seus objetivos, se algum obstáculo não
previsto ocorrer. Este tipo de princípio é visto com maior probabi-
lidade em criaturas capazes de utilizar racionalidades representa-

$#)
A MENTE EXTERNA

das explicitamente em seus sistemas nervosos: as criaturas


gregorianas. Para tal, é preciso ir além da compreensão do que é
possível alcançar em termos de progressos cognitivos com o me-
canismo associacionista-behaviorista-coneccionista. É preciso en-
tender como os símbolos e sinais passaram a fazer parte dos pro-
cessos cognitivos dos seres vivos e como as criaturas gregorianas
começaram a falar.
Símbolos, ao contrário dos nódulos das redes coneccionistas,
são móveis, podem ser manipulados e compor estruturas am-
plas, nas quais sua contribuição para o sentido do todo pode ser
uma “função precisa e generalizável da estrutura – a estrutura
sintática – de suas partes”.218 Esta manipulação de símbolos ex-
plica a capacidade humana de aprendizado intuitivo e rápido, não
dependente de treinamento extenso, que só é adquirida após o
domínio da representação simbólica do conhecimento em foco.
Só podemos dizer a seres humanos o que queremos que façam e
esperar uma resposta rápida e adequada. Como é possível ir de
um tipo de aprendizado associacionista-behaviorista-
coneccionista para o aprendizado a partir de informação repre-
sentada explicitamente?
As criaturas gregorianas retiram de seu ambiente diversos
designs e os usam para melhorar a eficácia e precisão de suas
hipóteses, a serem testadas, e para a tomada de suas decisões.
Contudo, ao contrário do que o esquema da figura 4 sugere, o
cérebro destas criaturas não teria um espaço muito maior do que
os das outras criaturas para estocar a grande quantidade de infor-
mação de tantos designs diferentes presentes em seu ambiente. O
cérebro humano não é substancialmente maior do que os de seus
parentes mais próximos na escala evolutiva. Portanto, a fonte de
sua maior inteligência deveria ser procurada em outro lugar, mais
precisamente em seu hábito de espargir (off-loading)219 o máxi-
mo possível de suas tarefas cognitivas no nosso ambiente, fazen-

$#*
MARCELO LAND

do literalmente uma espécie de extrusão de suas mentes no mundo


que as cerca.
No mundo externo, nós, seres humanos, colocamos uma série
de engenhos que podem “estocar, processar e re-representar (re-
represent) os nossos significados, organizando, multiplicando e
protegendo os processos de transformação que são nossos pensa-
mentos”.220 Esta prática de extrusão ativa e sistemática parece ser o
que nos permite suplantar as “limitações dos nossos cérebros ani-
mais”.221
Porém, é necessário também não imaginar que esta habilidade
de utilizar coisas do mundo externo para o processo cognitivo é
exclusiva de criaturas gregorianas. Pois muitos agentes têm de
enfrentar o seu ambiente com um repertório limitado de habilida-
des perceptivas e comportamentais. Um mundo externo por de-
mais complexo exigiria habilidades cognitivas crescentes ou uma
grande capacidade de simplificação do ambiente, em que este agente
pretende habitar. Provavelmente, os dois ocorrem. Segundo
Dennett, muitas espécies de animais dependem de marcos natu-
rais para encontrar os caminhos em seu entorno, e muitas apren-
deram a desenvolver a artimanha de colocar marcas no mundo
para posteriormente usá-las.
Os seres humanos muitas vezes esquecem os benefícios e a
racionalidade embutida na prática de etiquetar (labeling) as coisas
de seu ambiente, devido à espontaneidade e ao automatismo com
que fazem isto. Quando refletimos, a racionalidade é evidente: é
muito mais fácil conduzir atividades em um mundo indexado, por-
que se evita desnecessárias repetições de ações e consumo de
memória. Uma marca de checagem nítida e singular feita em algu-
ma coisa do mundo transforma a difícil tarefa de memorização e
reconhecimento em uma simples atividade perceptual.
No texto, Dennett preocupa-se em delimitar o que caracteriza
estas marcas de checagem. Logo, iremos reconstruir esta caracte-

$#!
A MENTE EXTERNA

rização. Antes, contudo, gostaríamos de deixar claro para onde está


sendo levado o argumento. Ele tenta mostrar, de forma mais ou
menos explícita, como uma abordagem naturalista e darwinista pode
explicar o surgimento da habilidade humana para o uso da lingua-
gem. Esta tentativa foi considerada uma impossibilidade prática e
lógica durante anos desde o surgimento da moderna lingüística,
quando Chomsky começou a desenvolver seus trabalhos. Fique-
mos, portanto, atentos a esta conceituação.
Uma marca de checagem é algo distinto, que se pode confiar
que foi o resultado do hábito de etiquetar do agente, não sendo
nenhuma mancha produzida externamente. Dennett esclarece a
relação deste hábito de fazer marcas com a escrita:
Estas simples marcas deliberadas no mundo são os mais primiti-
vos precursores do escrever, uma etapa em direção à criação no
mundo externo de sistemas periféricos dedicados à estocagem
de informação. Note que esta inovação não depende da existên-
cia de uma linguagem sistemática com as quais as etiquetas
(labels) são compostas.222
Dennett descreve uma série de experimentos que procuram
demonstrar que várias espécies animais, tais como certos tipos
de pássaros, utilizam marcas de seu ambiente como parte de
seus processos cognitivos sem utilizar nenhum tipo de pensa-
mento reflexivo. Certamente, estes experimentos não serão des-
critos neste livro. Mais significativa é a descrição de como nós,
seres humanos, utilizamos coisas de nosso ambiente para pen-
sarmos.
Os seres humanos ao longo de suas vidas vão depositando
marcos (landmarks), que funcionam como gatilhos para seus há-
bitos, como lembretes para o que fazer, onde encontrar comida,
onde encontrar as roupas, onde telefonar. Retirar seres humanos
de seu hábitat é muitas vezes privá-lo de uma parte considerável
de suas mentes. Dennett compara esta retirada em casos de pes-

$#"
MARCELO LAND

soas idosas aos efeitos devastadores de uma cirurgia cerebral. Em


suma, ele declara-nos totalmente dependentes de muitas marcas de
checagem colocadas imperceptivelmente em nosso entorno. Estas
marcas são freqüentemente produtos subsidiários de diversas ativi-
dades humanas. Vejamos esta passagem:
Nós, criaturas gregorianas, somos os beneficiários de literal-
mente milhares destas tecnologias úteis, inventadas por outros
nos obscuros recantos da história e da pré-história, mas que
foram transmitidas pela vias expressas da cultura, e não pelos
caminhos da herança genética. Nós aprendemos, graças a esta
herança cultural, como espalhar (spread out) nossas mentes no
mundo, onde podemos lançar mão de nossa capacidade inata,
graciosamente planejada (beautifully designed), de rastrear e
de nosso talento para reconhecer padrões a fim de obter um
ótimo uso.223
Em resumo, além de auxiliar a memória, a extrusão de nossa
mente através da utilização de marcos e marcas de checagem pos-
sibilita-nos desenvolver e utilizar outros talentos cognitivos, am-
plificando a habilidade de lidar com os eventos ocorridos em nos-
so ambiente. Ao mesmo tempo, esta passagem destaca a impor-
tância da herança cultural de muitos destes marcos e designs que
nos ajudam a pensar, tais como o cálculo, as marcas gráficas da
escrita etc. É provável que tenhamos alcançado o atual poder
cognitivo no uso deste tipo de recurso pelo seu simples acúmulo
ao longo do tempo, e por nossa crescente acomodação neste mundo
indexado, sem que seja necessário postular a existência de uma
estratégia de campo produzida em algum quartel general central
em nossas mentes. Isto quer dizer que podemos ter nos tornado
inteligentes pela complexificação de talentos e de habilidades ina-
tas de notar, propor e usar marcos e marcas de checagem, utili-
zando uma racionalidade inicialmente irrefletida – livremente flu-
tuante – para depois de eras de benefícios crescentes nos apropri-
armos reflexivamente dela.

$##
A MENTE EXTERNA

Neste sentido, Dennett pergunta-se por que nós traçamos dia-


gramas e mapas. Na verdade, apropriamo-nos desta racionalidade
de utilizar etiquetas para produzir novas maneiras de re-representar
o mundo. A vantagem deste tipo de tática é poder apresentar esta
nova representação a outras faculdades cognitivas com propósitos
especiais, que poderão ser postas em prática neste novo contexto.
Uma interessante conseqüência do recurso conceitual às criatu-
ras descritas e da concepção de desenvolvimento cognitivo exposto
até o momento é a formulação de uma proposta clara para o uso de
expressões consagradas, tais como “mundo externo” e “mundo in-
terno”. Como a revisão dos diagramas das diversas criaturas nos
faz perceber, só poderíamos falar da existência destas duas catego-
rias a partir do surgimento das criaturas popperianas e gregorianas.
Nestas, pode-se perceber que o funcionamento cognitivo vai além
da mera “reatividade”, em um contínuo em que não se delimita o
externo do interno. O critério proposto é que os componentes do
ambiente interno são portáveis, conseqüentemente onipresentes, e,
portanto, melhor conhecidos, e assim mais bem projetados (designed)
para o benefício do agente. O ambiente externo muda de forma
imprevisível, e é geograficamente externo às criaturas.
No entanto, apesar de se poder dizer que ambas as criaturas têm
um mundo externo e interno, deve-se esclarecer que a forma como
os seus respectivos conhecimentos portáveis estão representados é
diferente. Parte do conhecimento portável das criaturas popperianas
tem de ser sobre si mesmas, porque é necessário demarcar os limi-
tes de si próprio para funcionar adequadamente em um mundo
indexado. Para isto, elas utilizam o velho método de reconhecimen-
to dos marcos e das marcas de checagem. Este autoconhecimento
não precisa estar representado explicitamente. Ele pode ser um mero
know-how, embutido e irrefletido, crucial para manipular “esta parte
curiosamente obediente e relativamente imóvel de seu mundo que é
ela mesma”.224 É preciso destacar que Dennett está nos propondo

&%%
MARCELO LAND

que a borda entre o interno e o externo não é delimitada pela pele


neste tipo de criatura, mas pela aquisição de um “saber como” –
que devemos compreender como uma série de algoritmos comple-
xos –, que incluem, como uma de suas partes fundamentais, infor-
mações sobre como lidar com uma porção do mundo, que podemos
chamar “o si mesmo da criatura”. Este know-how sobre o “si mes-
mo” possibilita uma vantagem tática enorme, por favorecer o de-
senvolvimento das funções cognitivas disponíveis da criatura.
É claro que a criação de símbolos internos só tem serventia se a
criatura puder lembrar por que os criou. Isto vai depender da
“robustez” dos talentos inatos de rastrear e de re-indentificar, que
lhes permitam utilizar toda a sorte de ferramentas disponíveis:
marcos, etiquetas, ponteiros e símbolos. Estes talentos “nativos”
não fazem distinção entre coisas internas e externas. Uma das
conseqüências do que está sendo dito é que se pode dispor de
informações não representadas explicitamente sobre si próprio,
que desempenham função fundamental na forma de lidar com o
mundo, sem a necessidade de se dizer que existe uma consciên-
cia de si mesmo.
Nas criaturas gregorianas, as representações das característi-
cas e coisas no mundo externo ou interno se tornam objetos em
seu sentido próprio. Estas representações são coisas a serem “ma-
nipuladas, rastreadas, movidas, guardadas, alinhadas, estudadas,
viradas de cabeça para baixo, de toda forma ajustadas e explora-
das”.225 Pode-se, inclusive, re-representá-las e utilizar a capacidade
de análise de representações de segunda ordem .
A partir desta delimitação entre os diferentes modos de usar as
informações em seus respectivos ambientes, ele nos fala da capa-
cidade de as criaturas gregorianas utilizarem as ferramentas de seu
entorno para aumentar ainda mais seu poder cognitivo. A técnica
básica é procurar dar novos formatos às representações disponí-
veis, para oferecê-las às suas diversas habilidades cognitivas. Os

&%$
A MENTE EXTERNA

exemplos descritos são os dos mapas e diagramas, e das máquinas


fotográficas de alta velocidade – que conseguem tornar compreen-
síveis fenômenos temporais complexos por retirá-los de sua escala
de tempo real e adequá-los a um formato humano. Elas constituem
técnicas de re-representação, que provavelmente tiveram papel fun-
damental para o aumento crescente de nossa forma de lidar com o
mundo desde o tempo em que éramos caçadores-colhedores nos
primórdios de nossa existência como Homo sapiens.
O preço do uso destas técnicas de re-representação, que
exteriorizam os “ponteiros” e “índices” presentes em nossos cére-
bros, tem sido nossa crescente dependência de diversos acessórios
e mecanismos. Somos dependentes de livros de endereços, agendas
eletrônicas, computadores pessoais e bancos de dados instalados
em diversas redes de computadores. Provavelmente, muito em bre-
ve estaremos totalmente interligados através de uma rede mundial
de computadores, em um dos mais fantásticos movimentos de
extrusão de nossas mentes de que já se teve notícia na história dos
homens.
Além destas próteses mentais, outro recurso que nos possibili-
ta re-representar os eventos é o nosso hábito de situar novos pro-
blemas com recursos utilizados para resolver velhos problemas. O
exemplo citado por Dennett é a forma como nós resolvemos o
problema da re-representação do tempo a partir da espacialização.
Os relógios são mecanismos de medir as mudanças de espaço, que
representam a passagem do tempo.
Entre todas as ferramentas que as criaturas gregorianas obtêm
da cultura, as mais importantes são as palavras. A seguir, veremos
que funções são atribuídas a elas. Esta análise do papel da lingua-
gem na nossa cognição baseia-se na idéia de que ela é primeira-
mente falada, e só posteriormente – centenas de anos depois –
escrita. Isto é claramente uma posição metodológica: devemos ima-
ginar o que ela faz pela nossa mente a partir de uma descrição da

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MARCELO LAND

aquisição da linguagem falada. Para a descrição que se segue,


Dennett utiliza um princípio conhecido: “O que é verdadeiro para a
espécie é igualmente verdadeiro para o indivíduo”.226
De posse deste princípio, ele descreve a aquisição da lingua-
gem falada pela criança, ao contrário do que fez em outros textos,
nos quais usou uma descrição de como os membros da espécie,
como efeito secundário da necessidade de comunicação mútua,
desenvolveram o hábito de falar consigo mesmos.
Os lactentes (infants)227 humanos são projetados (designed)
geneticamente para a aquisição da linguagem, conforme propos-
to por Noan Chomsky. Boa parte do trabalho de projeção e exe-
cução desta habilidade foi realizada tempos atrás, e é fornecido
ao lactente como um talento inato e uma disposição para se adaptar
às “condições locais de vocabulário e gramática”.228 Antes mes-
mo de ir para a escola, a criança já domina muitas das nuanças
da gramática. Ela interage lingüisticamente com as pessoas de
sua família e demonstra também um comportamento que muito
interessa à descrição de Dennett: ela começa a ter o hábito de
falar consigo própria. Na verdade, inicialmente este hábito é uma
mera vocalização, um balbucio, que induz uma mistura de pala-
vras e sílabas sem sentido, com diferentes tons de voz, até que
finalmente se torna um autocomentário (um comentário de si
próprio). Este hábito tem um papel fundamental para a formação
de sua mente. Apresentaremos resumidamente as especulações,
como Dennett faz questão de frisar, sobre este tema, já que ne-
nhuma pesquisa definiu exatamente o significado deste compor-
tamento.
Bem precocemente, diante do comportamento de advertência
dos pais, a criança não entende o significado das palavras que lhe
foram dirigidas. Elas são no máximo sons com uma certa familia-
ridade. No entanto, começa a fazer um certo uso delas. Resgatan-
do o exemplo do livro, diante das advertências: “quente”, “não to-

&%'
A MENTE EXTERNA

que no fogão”, a criança começa a dizer a si a mesma seqüência,


sem a menor idéia do que significam as palavras, articulando-as
como parte associada de um exercício que se complementa com a
aproximação e o afastamento do fogão. Dennett compara esta arti-
culação229 a uma espécie de mantra, que então pode ser utilizada
em outros momentos. Isto é a descrição do início de um ensaiar
(rehearsing) palavras que acabaram de ser ouvidas, experimen-
tando-as dentro e fora dos contextos, construindo conexões (links)
de reconhecimento, e também vias de associação, entre proprie-
dades auditivas e propriedades sensoriais concorrentes e estados
internos, e assim por diante.
Este processo poderia ter o efeito de criar o hábito do que
Dennett chama de autocomentário semi-compreendido (semi-
understood self-commentary). Incitada pelas admoestações e ou-
tros comentários dos pais, a criança adquire o hábito de adicionar
uma “trilha sonora” às suas atividades, comentando-as. Este hábi-
to de comentar constitui-se em uma mistura de uma conversa sem
sentido, que usa sons semelhantes a palavras, e palavras reais
pronunciadas com sentimento, mas com pouca apreciação do sig-
nificado. Como diz o autor: “Haveria exortação imitada, proibição
imitada, elogio imitado, descrição imitada, e tudo isto iria even-
tualmente amadurecer em exortação, proibição, elogio, descrição
reais”.230
Em suma, o hábito de colocar “etiquetas” estaria sendo exerci-
tado antes de que elas fossem compreendidas, mesmo que parci-
almente. Dennett está sugerindo, portanto, que estas práticas, que
ele denomina de estúpidas, poderiam se transformar em hábitos
de representar os próprios estados e atividades para si mesmo de
um jeito novo, isto é, re-representá-las. Assim, ele descreve este
processo. À medida que a criança constrói associações entre pro-
cessos auditivos e de articulação e os padrões de suas atividades
concomitantes, ela adquire nódulos proeminentes em sua memó-

&%(
MARCELO LAND

ria: uma palavra torna-se familiar, sem ser entendida. Estes nódu-
los são comparados por Dennett a marcos de familiaridade, que
podem se tornar uma entidade independente dentro de um siste-
ma, isto é, cria-se uma etiqueta bem delimitada que pode ser ma-
nipulada pelos recursos do cérebro. As palavras se tornam as pro-
motoras das associações “procurar-por” (sought-for) – que de-
vem ser compreendidas como circuitos cerebrais, responsáveis
pela procura e reconhecimento de marcos e marcas de checagem
–, que já estavam previamente presentes no sistema de represen-
tação do cérebro. Na verdade, para funcionarem como marcas de
checagem sofisticadas e eficientes, as palavras precisam ser dis-
tintas do resto dos estímulos do mundo. Com isto, o autor preten-
de explicar a aparente necessidade, e a comprovação prática, da
arbitrariedade das linguagens, apesar da estrutura gramatical se-
melhante.
Antes de prosseguirmos, lembremos novamente a ambição do
projeto dennettiano. Ele está tentando explicar como uma mente,
que ele descreveu até agora a partir de mecanismos
associacionistas-conecionistas e de atividades rudimentares de re-
presentação, pôde desenvolver a habilidade de utilizar marcas so-
noras articuladas em uma atividade representativa explícita. Além
disso, quer descrever de forma naturalista a habilidade inata dos
seres humanos para falarem, isto é, ele está dando uma versão
naturalista do mecanismo de aquisição da linguagem (LAD), pos-
tulado por Chomsky, embora este último autor sempre tenha con-
siderado impossível fazê-lo. Tudo isto, procurando manter a idéia
de uma crescente e contínua evolução de processos cognitivos,
compartilhados por outras formas de vida não-humanas, presen-
tes na natureza.
Com o tempo, o hábito do autocomentário semicompreendido
pôde dar origem à prática deliberada de etiquetar com palavras,
utilizando somente as associações internas do sistema, abando-

&%)
A MENTE EXTERNA

nando as associações de articulação e auditivas. Com isto, a crian-


ça passa a falar consigo própria de maneira privada, sem utilizar a
boca.
Do ponto de vista da capacidade de representação do sistema,
Dennett propõe que consideremos os objetos lingüísticos como
objetos encontrados, que podem ser estocados para posterior
uso. Para tal, precisamos da habilidade de re-identificar ou reco-
nhecer estas etiquetas em diferentes ocasiões, o que depende da
existência de alguma característica distintiva nelas, que seja in-
dependente do seu significado. Com a criação das etiquetas e da
prática de “colá-las” (attaching) às circunstâncias experimenta-
das, pode-se criar novos objetos, que serão utilizados por toda a
maquinaria de reconhecimento de padrões, de construção de as-
sociações, e assim por diante. Com a complexificação do siste-
ma, podemos nos tornar mais perspicazes, refinados e melhor
articulados, e alcançar finalmente a habilidade quase mágica de,
ao meramente contemplar a representação, chamar à mente to-
das as associações apropriadas. Nós nos tornaríamos capazes
de compreender os objetos que criamos. Dennett propõe cha-
mar os nódulos artificiais em nossa memória – que se compõem
de “sombras pálidas de palavras ouvidas e articuladas”231 – de
conceitos, definindo-os como etiquetas internas, que podem ou
não incluir entre suas associações as características informati-
vas (features) auditivas e de articulação da palavra. Os primeiros
conceitos que podemos articular são, no entanto, conceitos “pro-
nunciados” (voiced).
A partir da aquisição da capacidade de falar, pode-se vislum-
brar a capacidade de pensar e refletir. Recapitulemos. Vimos como
as criaturas popperianas têm a capacidade de refinar parte de seu
ambiente ao colocar marcas externas (espargindo problemas no
mundo) ou internas (em parte de seu cérebro). Elas já colocam
marcas em seu entorno e usam representações, contudo, não sa-

&%*
MARCELO LAND

bem que o fazem e, na verdade, não precisam saber. Dennett cha-


ma isto de usar o pensamento representacional de forma desper-
cebida. Poder-se-ia dizer que estas criaturas pensam, mas não
sabem disso. Seria como propor uma espécie de pensamento in-
consciente, o que ele acha paradoxal. O mais adequado seria des-
crever estes comportamentos como inteligentes, mas não pensa-
dos, pois seriam não refletidos e não propensos à reflexão.
As criaturas gregorianas, por sua vez, fazem também coisas
inteligentes sem pensar. Contudo, esta atividade inconsciente de-
pende de um treinamento prévio em que o uso da linguagem é
essencial e a autoconsciência de nossas ações está presente. Isto
tudo é possível porque a linguagem nos permite rever, lembrar,
ensaiar e reprojetar nossas atividades, tornando os nossos cére-
bros “câmaras de eco, na qual os processos evanescentes po-
dem ser ‘dependurados’ e se tornar objetos no sentido próprio
da palavra”.232 Os objetos que persistem por maior tempo adqui-
rem influência e podem ser chamados de pensamentos consci-
entes.
Contudo, apesar de a metáfora da câmara sugerir a presença de
um local apropriado para tal ocorrência, deve-se dizer que os con-
teúdos mentais se tornam conscientes não por entrarem em uma
câmara especialmente projetada em nossos cérebros, não por se-
rem traduzidos ou transduzidos para algum meio privilegiado ou
misterioso, mas por ganharem a competição contra outros conteú-
dos mentais para dominar o controle do comportamento e assim
produzir um efeito permanente. Finalmente, Dennett une a capaci-
dade de ser consciente com a capacidade de falar consigo próprio,
já que a “forma mais efetiva de um conteúdo mental se tornar influ-
ente é estar em posição de dirigir (drive) a parte que usa a lingua-
gem dos sistemas de controle”.233
Acreditamos que esta descrição da capacidade de ser consciente
não esteja completamente clara, embora certamente correta. Para

&%!
A MENTE EXTERNA

maior esclarecimento de todo o processo, segundo a proposta de


Dennett, necessitaríamos explicar o modelo Multiple draft234 da
consciência. Para explicarmos este modelo, simples em si mesmo,
teríamos de compará-lo extensamente com a descrição dennettiana
do modelo do teatro cartesiano, o que demandaria muito espaço
argumentativo. Contudo, boa parte das intuições que o sustentam
estão presentes explicitamente nos vários capítulos do livro, a sa-
ber: o modelo coneccionista-associacionista de processamento de
informação, a crítica ao quartel general central, onde se forjam os
atos intencionais, a crítica à teoria da dupla transdução. Achamos
que Consciouness Explained tem certamente muito a acrescentar
ao debate aqui proposto, contudo, nada do que lhe é essencial falta
para que se retire as conseqüências necessárias ao término desta
parte do capítulo. Desta forma, acreditamos poder fazer justiça a
este livro marcante, que merece um estudo pormenorizado em suas
implicações para a moralidade. Além destes motivos, optamos cla-
ramente por seguir as tendências mais atuais do pensamento de
Daniel Dennett, ao explorarmos o seu livro Kinds of minds.
Também merece destaque a definição final do que somos, pro-
posta na seguinte passagem:
O que você é, contudo, é somente esta organização de todas as
atividades competitivas entre uma infinidade de competências
que o seu corpo desenvolveu. Você ‘automaticamente’ sabe acer-
ca das coisas que estão acontecendo em seu corpo, porque, se
não soubesse, ele não seria o seu corpo. 235
Claramente, temos aqui condensada a proposta de uma auto-
imagem para os seres humanos. Somos e temos conhecimento
imediato de nossos corpos, nossa mente é o conjunto de todos os
circuitos, que garantem uma série de competências cognitivas em
relação ao nosso ambiente. Além do mais, temos que reconhecer
que boa parte de nossas mentes está espargida no ambiente, sem
que se possa traçar, na maioria das vezes, uma nítida linha de cisão,

&%"
MARCELO LAND

sem que o problema da oposição corpo-ambiente faça sentido. Como


não há mais nenhuma descontinuidade entre o corpo, a mente, o
ambiente, tudo se conhece automaticamente. Isto é uma maneira,
não completamente elaborada, de dizer que o problema do
autoconhecimento deixa de ser um problema filosófico relevante
nesta descrição. Na verdade, Dennett dificilmente se concentrou
nele, porque de certa forma é tributário de uma concepção de mente
que se deixa ainda captar pela metáfora do teatro cartesiano, local
onde este tipo de conhecimento deveria se dar.
Em seu lugar, encontramos em Dennett a formulação de que o
que chamamos de “o si mesmo” ou “self” resulta de uma ativida-
de de autodescrição contínua desde a infância, e que não pára de
se redescrever até o fim de seus dias. Ele é o centro de gravidade
da narrativa, não devendo ser visto como um lugar real ou uma
substância. Vejamos esta passagem presente no último capítulo de
Kinds of minds:
Os atos e eventos sobre os quais você pode falar, e as razões
para eles, são seus, porque você os fez e porque eles o fizeram.
Você é o agente sobre cuja vida você pode falar. O processo de
autodescrição inicia-se precocemente na infância e inclui uma
boa quantidade de fantasia desde o começo. (Pense no Snoopy
nos desenhos animados de Charles Brown [Peanuts], sentado
em cima de sua casa de cachorro, e pensando: ‘Aqui está o ás da
primeira guerra mundial, voando para a batalha’). Ele continua
por toda a vida. (Pense no garçom do café da discussão de Jean-
Paul Sartre sobre a ‘Má-fé’ em O ser e o nada, que está atento
em aprender como aproveitar a sua autodescrição como gar-
çom). Isto é o que nós fazemos. Isto é o que nós somos.236

Afinal, onde nós estamos?

Certa vez, Jerry Fodor ironizou o projeto naturalista de Daniel


Dennett com a seguinte frase: “Teddy bear are artificial, but real
bears are artificial too”.237 Apesar de ser um chiste notável, provo-

&%#
A MENTE EXTERNA

car no leitor sinceros frouxos de risos, demonstrar o charme e a


irreverência, e, portanto, a vitalidade com que as discussões têm
sido conduzidas entre os opositores no terreno da filosofia da men-
te, ele condensa boa parte das intuições básicas de Dennett.
Vimos como o autor consegue descrever a pessoa tanto como
uma máquina, produzida pelo processo de seleção natural e pro-
gressos culturais, quanto como um animal, capaz de desenvolver-
se a partir de superposição de uma série de habilidades cognitivas,
adquiridas e transmitidas, genética e culturalmente, ao longo dos
tempos. Os limites traçados pelas descrições anteriormente usa-
das para nos caracterizar se desvanecem a partir das múltiplas
redescrições dennettianas. Contudo, o ponto que gostaríamos de
ressaltar é que, como um compatibilista, nada do que considera-
mos mais precioso para nossa auto-imagem é perdido. No caso,
não deixamos de falar de pessoas, e de utilizar o vocabulário in-
tencional, assim como não deixamos de falar de ursinhos de brin-
quedo e ursos de verdade.
Todas as descrições, que tentamos reconstruir e preservar aci-
ma, não destroem de maneira radical nenhum de nossos valores
mais significativos, nem menospreza a sua função individual e
social. Pelo contrário, estas descrições ampliam sua aplicação por
estender a dignidade humana para toda a criação – considerada
um processo algorítmico, como logo veremos –, ao mesmo tempo
que utiliza a idéia de criação para justificar nossa dignidade. Porém,
Dennett não quer lançar mão de nenhum conceito que considere
excessivamente apartado de uma determinada visão de mundo – a
visão naturalista darwinista –, o que o transforma em um reducionista
“light”, ou, como ele prefere, um bom reducionista prudente, uma
vez que ele quer justificar a adoção unitária de um determinado vo-
cabulário descritivo. Em certo sentido, devemos admitir que ser um
pouco reducionista é uma necessidade de nosso design, uma vez
que não seria prudente, nem econômico, utilizar todas as descri-

&$%
MARCELO LAND

ções atualmente disponíveis. Mas, na verdade, admite que gostaria


mesmo de ver a descrição darwinista da pessoa dominar o cenário
descritivo, ajudando a mumificar posições que ele considera ultra-
passadas. Parece ser uma opção de seu leitor querer ou não aceitar
esta versão de reducionismo.
Outro aspecto a ser destacado é que, apesar de termos ressalta-
do no final do primeiro capítulo o estado de alerta da filosofia com
o atual campo da filosofia da mente, na verdade, ele não seria pro-
vocado pelos resultados da obra de Dennett, mas por uma bravata
eliminativista, que, pelo que parece, está por ser calada.238 O que
Dennett faz é retecer a nossa rede de crenças, com as premissas do
naturalismo pragmático americano, digamos, atualizado, apoiado por
uma série de pesquisas empíricas na área de neurobiologia, etologia
e psicologia cognitiva. Contudo, como não se pode fugir desta rede,
que delimita nossa capacidade imaginativa pelo menos parcialmen-
te, as novas metáforas não parecem abalá-la. Elas a enriquecem,
porque, como diria Wittgenstein, constroem subúrbios em nossa
linguagem. Ou, como diria Davidson, produzem novos sistemas
conceituais.
Contudo, devemos ter os seguintes cuidados ao ler e interpre-
tar as conseqüências de seu trabalho daqui em diante. Explicitemo-
nos:
1- Deve-se sempre considerar as relações que ele mantém com
a tradição histórico-filosófica que permitiu o surgimento de seu
pensamento. Devemos situá-lo dentro do naturalismo pragmático,
do holismo davidsoniano, do projeto humeano do entendimento
da “philosophy of mind” como uma ciência empírica, capaz de ex-
plicar a própria “natureza humana”, e da perspectiva de Dewey de
uma explicação naturalista não redutiva da ação moral etc.
2- Deve-se procurar perceber o que foi preservado e o que foi
perdido de nossa tradicional imagem como agentes morais a partir
das conseqüências de seu trabalho.

&$$
A MENTE EXTERNA

3- Deve-se ficar atento a uma certa tendência realista em sua


forma de falar e de se situar em relação às suas propostas descriti-
vas, já que é esta tendência que justifica em última instância a sua
postura reducionista prudente.
4- Deve-se vê-lo como um representante legítimo de sua épo-
ca, tentando mostrar que as suas propostas, tanto para a com-
preensão de funcionamento da mente quanto para a visão do agente
moral e da moralidade, se inserem dentro de debates bastante
atuais, onde boa parte de velhas contendas já foram apaziguadas e
consensos mínimos foram alcançados.
Como nossa perspectiva neste livro é claramente baseada na
crença de que nós somos frutos da maneira como nos descrevemos
– aliás, bem de acordo com a proposta de “self” como centro de
gravidade da narrativa –, acreditamos que mesmo esta forma de
nos descrever é apenas contingente. Não gostaríamos de sermos
identificados com os vários tipos de pensadores apressados, que
formulam suas hipóteses de trabalhos em clara contradição com
seus princípios, a saber:
1- Behavioristas que acreditam que não existem crenças.
2- Filósofos que propõem verdadeiramente que a verdade não
existe ou não tem uso.
3- Pensadores que querem provar que é impossível provar
impossibilidades.
Por isto, ao invés de acharmos que o que Dennett nos descre-
veu é uma versão final e última do que nós somos, preferimos vê-
la como uma descrição que está inserida em uma rede de propósi-
tos e conseqüências. Ela serve para muita coisa. Para nós, neste
momento, serve para que possamos nos ver surgindo
gradativamente do seio da natureza, nos tornando mais complexos
até começarmos a falar e construir a nossa cultura, aumentando,
assim, nossa capacidade cognitiva a extremos, sem que com isto
possamos nos sentir apartados desta origem. Tudo isto serve para

&$&
MARCELO LAND

que possamos nos deixar seduzir por premissas valorativas, pre-


viamente presentes em nossa sociedade, e para chegarmos à con-
clusão moral de que devemos respeitar os seres que vivem. Esta
descrição pode ser explorada também como uma justificativa para
que vejamos as nossas ações morais como reação ao nosso am-
biente, como algo especificamente produzido a partir de nosso design
em relação a determinadas necessidades do viver. Na próxima
seção, veremos como Dennett pretende utilizar a sua crença
darwinista na formulação de uma contribuição para uma “psicolo-
gia moral” e para uma determinada proposta ética.

3.2. Darwinismo e reducionismo


O livro de Daniel Dennett Darwin’s dangerous idea: evolution
and the meanings of life propõe uma tese central: quando Charles
Darwin formulou o conceito de evolução por seleção natural, ele
ameaçou destruir as bases explicativas de muitas das intuições
mais significativas de sua época, e por isto provocou reações vio-
lentas. Algumas destas reações procuraram restringir os efeitos
“catastróficos” de sua idéia. Estas tentativas provocaram deturpa-
ções conceituais, má-interpretação e má-fé argumentativa. Seus
seguidores contra-argumentaram, e, não intencionalmente, foram
responsáveis por diversas incorreções na maneira de entender os
seus conceitos. Alguns deles não quiseram assumir as conseqüên-
cias mais radicais desta idéia, dizendo que ela devia ser mantida
no âmbito da biologia.
Dennett acredita que adotar esta atitude foi não reconhecer o
imenso poder revolucionário da teoria. A idéia de evolução por
seleção natural teria os mesmos atributos de um ácido universal.
Todas as pessoas que, na infância, eram fascinadas por ficção cien-
tífica ouviram provavelmente falar desta fantástica substância: um
ácido que seria capaz de dissolver tudo, inclusive os próprios reci-
pientes que tentariam guardá-lo. Se o ácido universal um dia fosse

&$'
A MENTE EXTERNA

sintetizado, acabaria destruindo a Terra por completo no final de


um certo número de anos. Do mesmo modo, a idéia de Darwin
acabaria rompendo os limites epistemológicos que a pretendiam
conter, espalhando-se por todos os campos de saber, invadindo o
corpo da ética, que, até então, era aparentemente imune às investidas
dos naturalistas.
Portanto, Dennett pretende mostrar que:
1. As idéias de Darwin não foram plenamente entendidas.
2. O que Darwin descobriu foi um mecanismo geral para con-
ceber a produção de designs, sem a necessidade de postular que
um processo inteligente foi a sua causa.
3. Estas idéias têm tamanha significação que necessariamente
implicam uma revolução na concepção da expressão “sentido da
vida”, de tal forma que ninguém mais tenha que temer ser um
pouco reducionista, podendo-se antever que a ética, a ansiedade
pelo sagrado, possam um dia ser redescritas em um vocabulário
naturalista. No entanto, ele procurará demonstrar não ser um
reducionista radical, como veremos ainda neste livro.
Deixemos evidente que não exploraremos toda a riqueza do
texto. Trataremos dos conceitos centrais para o nosso trabalho: a
concepção de sociedade e pessoa. Finalmente, apresentaremos al-
gumas de suas propostas éticas.

Design e Algoritmo
O conceito de design é definido no livro por oposição a outros
bastante mais conhecidos na tradição filosófica ocidental, tais como:
o nada, o caos, a ordem e Deus. Trivialmente, o nada pode ser
conceituado como ausência de matéria e movimento. O caos seria
a presença de matéria sem ordenação. A ordem seria “meramente
regularidade, mero padrão”239 na matéria. O design seria próximo
ao conceito de telos de Aristóteles, ou seja, “uma exploração da
ordem para um propósito definido”.240 Dada esta definição de design,

&$(
MARCELO LAND

Dennett pretende mostrar que a revolução de Darwin foi imaginar


um processo capaz de gerar designs a partir da ordem, sem a inter-
venção de um ser inteligente.
Influenciados pela crescente utilização de máquinas em suas vi-
das, os pensadores dos séculos XVII e XVIII não conseguiram
imaginar que um objeto, que aparentasse ter sido construído com
propósitos bem evidentes, não tivesse sido fruto de um design,
que espelhasse os propósitos de seu projetista (designer). A difi-
culdade era, de um lado, conceber como podia existir um propósi-
to sem um sujeito pensante, e de outro, como imaginar que a pura
matéria podia dar origem ao pensamento ou à mente. Darwin teria
sido o primeiro na história do pensamento moderno a imaginar
tais possibilidades e a dar provas empíricas da coerência de sua
teoria. A contribuição de Darwin fica mais evidente quando consi-
deramos os problemas que enfrentaram os formadores do pensa-
mento moderno. Dennett descreve, por exemplo, os dilemas de
dois deles: Locke e Hume.
A preocupação de Locke era centrada no problema da ori-
gem dos seres inteligentes. Considerava impossível acreditar que
a matéria, em si estúpida, pudesse tê-los gerado. Na hierarquia
da criação de Locke, nada podia surgir do nada. Ao tentar orde-
nar as categorias do nada, da matéria, do movimento, da inteli-
gência, ele precisou partir do complexo para o mais simples, como
nós diríamos hoje. Era inconcebível, para Locke, ver a matéria
surgir do nada; o movimento surgir da matéria imóvel; o pensa-
mento surgir do puro movimento e da matéria. O pensamento de-
veria ter sempre estado lá, desde a criação do universo, atrelado à
matéria e ao seu movimento de partículas. Era impossível imagi-
nar fenômenos sem inteligência. Locke tentou provar que algum
ser dotado de mente sempre deveria ter existido. Para Dennett, ele
queria deduzir cientificamente a existência de Deus, o construtor
do universo.

&$)
A MENTE EXTERNA

Hume tentou esboçar uma solução para o problema de Locke.


Dennett utiliza a abordagem ao livro Os diálogos concernentes à
religião natural para expor a proposta humeana. A tentativa do
filósofo era opor uma religião natural, justificada pelas ciências
naturais, à religião “revelada”, dependente da inspiração divina.
Os seus argumentos procuram demostrar que, dentre os efeitos
observados no mundo, alguns pareciam ter sido bem projetados,
ter um design, e, portanto, deveria ter havido um projetista. Em-
bora Hume tivesse conseguido postular um mecanismo que, por
tentativa e erro, acabasse por se aperfeiçoar sem a ajuda de uma
inteligência externa, ele admitiu, finalmente, que não conseguia
imaginar nenhuma outra possibilidade da origem de designs na
natureza, exceto a ação de um deus inteligente.
A revolução darwiniana é creditada, como vimos, à descoberta
do conceito de evolução por seleção natural, a qual teria sido re-
sultado de uma mistura de naturalismo e raciocínio dedutivo. Se-
gundo Dennett, Darwin teria deduzido o processo de evolução
com a ajuda de evidências empíricas de um método naturalista,
descrevendo-o como um algoritmo.
Dennett define um algoritmo como um processo formal, com-
posto de sucessivas etapas de prescrições, que sempre conduz a
um certo tipo de resultado, uma vez que tenha sido iniciado. Ele
tem três características:
1. Neutralidade em relação ao substrato: O procedimento
funciona igualmente bem com qualquer coisa (lápis, papel, frutas
ou pessoas), e usando-se qualquer sistema de símbolos. O poder
do procedimento seria devido à sua estrutura lógica. Os poderes
causais dos materiais usados em suas instanciações agiriam ape-
nas permitindo que as etapas prescritas fossem seguidas.
2. Ausência de mentalidade241 subjacente: “Apesar do proje-
to global do procedimento poder ser brilhante, ou conduzir a resul-
tados brilhantes, cada etapa constituinte, bem como a transição en-

&$*
MARCELO LAND

tre as etapas, é totalmente simples”.242 Não há necessidade de inte-


ligência para realizar cada etapa, como de fato ocorre com os com-
putadores de hoje em dia.
3. Resultados garantidos: Independente do que o algoritmo
faz, ele sempre o realiza. Como diz Dennett: “Um algoritmo é
uma receita completamente testada”.243
Não descreveremos como Dennett propõe a idéia de que o
processo de seleção natural é um algoritmo. Em diversos capítu-
los, ele justifica esta idéia. O que faremos será acompanhar mais
algumas considerações sobre aplicação de algoritmos em situa-
ções práticas, a fim de evitar contra-argumentações mais ime-
diatas.
Imaginemos que o processo de evolução fosse resultado da
aplicação de um algoritmo como o de um torneio cara-coroa em
que cada etapa fosse eliminatória. Neste tipo de torneio, um nú-
mero x de participantes disputam dois a dois. Um joga a moeda, e
o outro tenta adivinhar a figura da face superior da moeda. O
vencedor passa para a próxima etapa e o processo se repete até se
obter um vencedor final. Este indivíduo não teria chegado ao final
do processo por nenhum mérito próprio, podendo, na verdade, ter
sido qualquer um dos participantes. O máximo que se pode dizer
dele é que teve sorte. Se o processo de evolução tivesse sido assim
– como poderia ter acontecido se tivesse havido sucessivas e
ininterruptas catástrofes –, o número de espécies deveria ter-se
mantido constante, ou mesmo diminuir com o tempo, já que ne-
nhuma aptidão individual estaria sendo considerada na passagem
de cada etapa. A própria idéia de evolução não faria sentido.
Consideremos agora que a evolução se parecesse mais com
um torneio de tênis. Salvo problemas circunstanciais, o vencedor
de cada etapa deveria ser o mais apto e bem treinado. O vencedor
final seria aquele com maior aptidão, ou treinamento. Diríamos
que ele é o melhor. Este tipo de algoritmo funcionaria como um

&$!
A MENTE EXTERNA

medidor da habilidade do indivíduo de jogar tênis. No caso da


evolução, dentro de uma determinada espécie, somente os mais
aptos sobreviveriam, porém, o número de espécies também não
sofreria variação apreciável. Isto porque as variações entre os in-
divíduos da espécie não seriam de nenhum valor, pois os indivíduos
estariam sendo selecionados por uma única habilidade. Resgatando
o exemplo, perguntaríamos que vantagem a habilidade de tocar bem
violão acrescentaria a um jogador, diante da possibilidade de ter de
enfrentar Boris Becker?
Assim, Dennett propõe que o processo de evolução natural se
parece mais com um torneio de várias etapas em que um indiví-
duo tem de jogar tênis na primeira, xadrez na segunda, golfe na
terceira, bilhar na quarta, cantar uma ária de ópera na quinta,
contar uma piada e fazer rir na sexta, e assim por diante. O melhor
jogador de tênis do mundo poderia não passar da terceira etapa.
Logicamente, as variações individuais vão desempenhar algum pa-
pel no processo. Esse processo de evolução por seleção natural
deve ser pensado como um algoritmo extremamente complexo, em
que habilidades diferentes podem ser favorecidas de acordo com as
condições da vida. Para alguns indivíduos, estas condições perma-
necem as mesmas desde os primeiros dias. Outros, graças às suas
múltiplas habilidades e determinado grau de plasticidade, demons-
tram capacidade de se desenvolver em variados sítios ecológicos,
que lhes impõem desafios múltiplos.
Corre-se o risco, porém, de se acreditar que o propósito deste
algoritmo era o de produzir seres humanos. Esta interpretação
parte da premissa falsa de que um algoritmo tem de ter um propó-
sito final. Pode haver algoritmos que não tenham nenhum propó-
sito estratégico definitivo. O processo de evolução é, para Dennett,
um deles: “Evolução não é um processo que foi projetado para
nos produzir, mas disto não se segue que a evolução não é um
processo algorítmico que tenha de fato nos produzido”.244

&$"
MARCELO LAND

Isto quer dizer que nós de fato somos fruto da evolução, mas
não havia nenhuma necessidade de termos sido produzidos. Para
o autor, somos filhos das mesmas contingências que a bactéria, o
macaco, o tubarão, a tartaruga, a barata, o computador, as músi-
cas de Bach e os neonazistas. Durante todo o livro Dennett vai
acrescentando novos conceitos ao esquema, que são básicos para
se entender o vocabulário que ele emprega em relação a estes tópi-
cos.
Ele diz que um dos princípios básicos da evolução por seleção
natural é o da acumulação do design. Ele é derivado do fato de
que, quando vemos um design, imediatamente consideramos a
tremenda quantidade de trabalho necessário para produzi-lo. Ele
deve ter sido fruto de pesquisa e desenvolvimento (R-and-D245) e
ter custado tempo e energia. Assim, o trabalho da evolução seria
poupado se alguns de seus designs pudessem ser acumulados.
Este trabalho poderia, portanto, ser distribuído ao longo do tem-
po. Logicamente, nem todos os descendentes de um mesmo ramo
de designs precisariam ser acumulados. O que o princípio de acu-
mulação do design diz é que
(...) desde que cada coisa nova projetada, que aparece, tem de ter
um grande investimento de planejamento em algum ponto de sua
etiologia, a hipótese mais econômica é sempre a de que o design
é amplamente copiado dos designs mais precoces, os quais fo-
ram copiados de designs mais precoces ainda, e assim por dian-
te, de maneira que a inovação real da pesquisa e do desenvolvi-
mento (R-and-D) é minimizada.246

Para explicar o trabalho do R-and-D, que criou os designs, Dennett


propõe a idéia de que ele é realizado por instrumentos, que aqui
devem ser entendidos como o que realiza o trabalho fundamental
para a produção do design. Ele nos propõe dois candidatos ao papel
de instrumento. Um deles favoreceria os opositores de Darwin, que
procuram negar o conceito de evolução por seleção natural. Nesta

&$#
A MENTE EXTERNA

vertente, os designs teriam sido criados por instrumentos seme-


lhantes a ganchos do céu (skyhook). O trabalho necessário para
produzir os designs seria explicado por referência a processos obs-
curos, lançando mão de hipóteses metafísicas e necessitando pos-
tular a presença de alguma força superior para segurar a outra ponta
do cabo.
O outro candidato teria realizado o trabalho de R-and-D atra-
vés de um guindaste (crane), ferramenta que realiza trabalhos mas
tem a base no chão. Podemos considerá-lo como o que explica o
processo da criação dos designs, mas sem apelo a entidades miste-
riosas. Alguns dos guindastes descritos são a reprodução sexuada,
a plasticidade fenotípica de alguns seres, a linguagem e outros as-
pectos da cultura.

Cultura e pessoa
Veremos nesta seção que Dennett tem a pretensão de construir
uma base conceitual que lhe permita mostrar que a construção da
cultura também segue os mesmos princípios do processo de evo-
lução por seleção natural, conforme a conceituação acima, ou seja,
“a cultura teria uma origem darwiniana”.247 Para que o desenvolvi-
mento da cultura possa ser descrito desta forma, a teoria de Dennett
precisa explicar três aspectos implícitos na teoria de Darwin, a sa-
ber: (1) variação, (2) replicação, (3) capacidade de adaptação dife-
rencial. Descreveremos alguns dos aspectos desta teoria. Deve-se
atentar, contudo, que a descrição sobre o surgimento da cultura e
sobre o conceito de pessoa já é um passo preliminar da sua teorização.
A posição tomada destoa de vários teóricos importantes no campo
da biologia e é oposta, por exemplo, à concepção de Stevens J.
Gould, para quem a cultura teria um desenvolvimento regulado por
outros tipos de leis.
Quando nós, seres humanos, exaltamos as nossas diferenças
em relação às demais espécies, estamos absolutamente certos. A

&&%
MARCELO LAND

diferença é que possuímos um meio extra de preservação e comu-


nicação de design, que chamamos cultura. O meio primário da cul-
tura é a linguagem, que nos abriu novas regiões no espaço do design.
A cultura, porém, não é só “um guindaste composto de guindas-
tes”,248 ela também é “um guindaste que faz guindastes”.249
Diante da rapidez destas inovações culturais, poderíamos ter a
tendência equivocada de atribuir os ganhos da cultura à inovação
genética. Contudo, é certo que a maioria das alterações fenotípicas
do Homo sapiens, observadas nos últimos anos, foi resultado de
transformações na cultura, não tendo havido nenhuma grande al-
teração genética no mesmo período. Este fato por si só já refutaria
as teses do determinismo genético, com que muitos se preocu-
pam. Como nos afirma Dennett:
virtualmente todas as diferenças discerníveis entre as pessoas,
digamos, dos dias de Platão e as pessoas que vivem hoje – seus
talentos físicos, inclinações, atitudes, aspectos – devem ser de-
vidas às mudanças culturais, já que menos do que duzentas ge-
rações nos separam de Platão.250
Portanto, as inovações culturais produziriam efeitos mais rapi-
damente, eliminando antigas pressões seletivas, que provavelmente
vigoraram por milhões de anos, criando outras. Este fato tornar-
nos-ia uma espécie singular, com uma visão da vida251 completa-
mente diferente das de outras espécies. Como chegamos a esse
ponto de sermos tão determinados pela cultura?
Dennett nos conta como a vida surgiu na sopa original, como
as primeiras moléculas e as primeiras células surgiram, depois os
organismos multicelulares, em um grau crescente de complexida-
de, formando o que ele denominou de árvore da vida. De todo o
relato, apresentaremos apenas um resumo, a fim de tornar mais
clara a sua proposta.
Em algum momento, nos primórdios da vida, havia seres
unicelulares solitários, chamados procariotos, possuidores de nú-

&&$
A MENTE EXTERNA

cleo, onde estavam estocadas as suas moléculas de DNA, capazes


de se replicarem por mitose, e destinadas a uma existência sem
imaginação: vagar em uma sopa rica em energia e dividir-se em
duas novas células, igualmente tediosas. Estas células sofreram a
invasão por parasitas de algum tipo, o que, no seu caso, funcionou
como uma bênção. Os dois seres alcançaram um equilíbrio, tirando
proveito mútuo. Este ser parasitário funcionou como um simbionte.
A nova unidade formada foi a célula eucariótica, que permitiu a
formação dos primeiros seres multicelulares.
Após bilhões de anos, enquanto diversas espécies de seres
multicelulares vasculhavam o seu espaço de design, uma nova
invasão ocorreu. Alguns primatas desenvolveram uma variedade
de estruturas e capacidades, que lhes tornaram suscetíveis a um
tipo especial de invasor. Não era surpreendente que este invasor
fosse tão bem adaptado a se instalar neste hospedeiro, já que ele
tinha sido criado pelo próprio hospedeiro. Em uma fração de tem-
po mínima – menos de cem mil anos – o invasor transformou um
macaco bobo em um hospedeiro muito esperto. Este invasor era
um dos primeiros memes e ao novo tipo de entidade criada podemos
chamar pessoa. O que é, afinal, este invasor capaz de infectar cére-
bros humanos, criando pessoas?
O conceito de meme é de Richard Dawkins. Em seu artigo “Selfish
genes and selfish memes”,252 ele se pergunta se os conceitos de
biologia não teriam o mesmo caráter universal que os da física. A
lei, por exemplo, de que toda vida evolui por sobrevivência diferen-
cial de entidades capazes de se replicarem não poderia ser aplicada
em outras áreas do conhecimento? Poderíamos imaginar novos ti-
pos de entidades replicadoras imersas em um tipo especial de sopa
denominada cultura. As novas unidades replicadoras, que seriam
unidades de transmissão cultural, uma espécie de unidade de imita-
ção, foram denominadas memes. Estas unidades poderiam ser tú-
neis, idéias, a roda, frases musicais, poemas, o alfabeto,

&&&
MARCELO LAND

impressionismo, calendário, vingança etc. Eles se propagam “sal-


tando” de cérebro para cérebro.
Dennett acrescenta alguns critérios para ajudar na definição des-
tas unidades. Os memes não devem ser confundidos com as idéias
simples de Locke e Hume. Eles são idéias complexas, formando
unidades distintas memorizáveis. Não há limites precisos para defi-
nir um meme. Por exemplo, a partir de quantas notas pode-se dizer
que distinguimos claramente uma determinada frase musical? Quantas
frases de um livro são necessárias copiar para se configurar um
plágio? Quando uma idéia é suficientemente diferente da outra para
se obter um copyright? Podemos dizer que sabemos quando estamos
diante de uma idéia nova. Ao reconhecermos um meme, utilizamos
uma série variável de critérios que formam uma semelhança de fa-
mília.
A evolução dos memes não é igual à evolução biológica ou dos
genes, não se podendo inclusive usar o vocabulário evolucionista
da biologia. Contudo, Dennett postula que eles estão submetidos a
processos idênticos ao da seleção natural. Neste sentido, eles se-
riam um outro tipo de replicante (ou seja, unidades distintas
memorizáveis), habitantes de um meio específico (o cérebro), com
uma taxa de replicação diferente. Da mesma forma que
os genes animais não puderam surgir no planeta até a evolução
das plantas ter preparado o terreno (criando uma atmosfera rica
em oxigênio e um pronto suprimento de nutrientes convertíveis),
também a evolução dos memes não pôde começar até a evolução
dos animais ter preparado o caminho para a criação de uma espé-
cie – Homo sapiens – com cérebros que podiam dar abrigo, e
habitats de comunicação que podiam prover meio de transmis-
são, para memes”253 .

Dennett admite que ainda é uma questão em aberto se a idéia de


evolução dos memes é uma analogia forte ou fraca da evolução
genética. Existem certamente dois extremos. Em um deles, pensa-

&&'
A MENTE EXTERNA

se que existe uma semelhança absoluta, inclusive com a possibilida-


de de se encontrar correspondentes de cada termo como DNA,
RNA, fenótipo, genótipo etc. No outro extremo, acredita-se – como
Gould – que a evolução cultural é completamente diferente da gené-
tica, não havendo justificativa de se usar conceitos biológicos para
descrevê-la. Mais uma vez, Dennett ficou entre os dois lados:
Entre os extremos situa-se o mais provável e valioso prospecto:
que existe uma ampla (ou amplíssima) e importante (ou meramen-
te interessante) transferência de conceitos da biologia para as
ciência humanas.254
Ao considerar se o fenômeno da evolução cultural é verdadei-
ramente darwiniano, Dennett propõe algumas teses sobre a rela-
ção das pessoas com os memes. Ele não aceita a idéia de que nós
seríamos apenas bibliotecas de memes. O cérebro não pode ser
uma fossa séptica, onde as larvas de outras pessoas (memes) se
renovam, antes de produzir novas cópias e se espalhar em “uma
diáspora informacional”.255 Porém, a imagem capta alguns aspec-
tos da relação dos memes com as pessoas. Muita vezes, eles nos
invadem contra a nossa vontade, como quando cantarolamos sem
parar uma canção que achamos sem graça ou mesmo medíocre.
Então, como imaginar a relação dos memes com o seu meio, o
cérebro humano?
Dennett nos lembra que a linguagem é seguramente o principal
meio de transmissão cultural, criando uma infosfera,256 na qual a
evolução cultural ocorre. Graças ao progresso dos meios de comu-
nicação, que incluem televisão, rádio, fax, Internet, houve uma ex-
pansão monumental da infosfera nos últimos anos. Os memes “agora
se espalham ao redor do mundo na velocidade da luz, e replicam-se
as taxas que fazem a replicação das moscas de fruta e das células
de levedura parecerem congeladas em comparação.” 257
Como os genes egoístas, invisíveis em si mesmos, produziram
o organismo para garantir a sua sobrevivência, os memes egoístas

&&(
MARCELO LAND

também dispõem de veículos que lhe ajudam a replicar, produzin-


do cópias que garantam sua perenidade. Estes veículos são livros,
pinturas, figuras, falas e suas instanciações mundanas, tais como
instrumentos, prédios, trens e carros. Assim, os “memes, como
genes, são potencialmente imortais”.258
Sua imortalidade depende mais da sua capacidade de replicação
do que da longevidade dos veículos. Porém, a pura replicação
física dos memes não garante a sua sobrevivência. Imaginemos
que um grande editor resolvesse publicar uma enorme quantidade
de um livro bastante popular, como, por exemplo, o Evangelho
segundo São Mateus. Por razões idiossincráticas, resolveu usar
uma versão em sânscrito e lançá-lo como teste em um pequeno
país africano, cuja religião da maioria das pessoas é tribal. Pode-
se apostar que haverá muito pouca chance de sobrevivência dos
memes nesta região. Isto significa que a replicação dos memes
também depende de pessoas e cérebros.
Contudo, o suprimento de mentes é pequeno, e cada mente
tem pequena capacidade de absorver memes. Há, portanto, consi-
derável competição entre os memes, de forma que “esta competi-
ção é a maior força seletiva na infosfera, e, como na biosfera, o
desafio tem sido enfrentado com grande ingenuidade.” 259
A propagação dos memes depende muito do seu design (o seu
fenótipo) na infosfera, e da forma como afeta mentes e outros
memes. O exemplo citado é o da fé religiosa, que tem um design
que favorece a expansão, exercendo efeitos deletérios sobre ou-
tros memes, como o bloqueio que exerce na expressão dos memes
da idéia perigosa de Darwin. Isto leva a crer que existem mecanis-
mos, que selecionam os memes por seu design, ou seja, fenótipo.
Às vezes, a filtragem é pouco seletiva, simplesmente descartando
uma série de memes por sua proximidade de design ou por causa do
veículo no qual está contido. Por exemplo, há pessoas que nunca
lêem um determinado jornal, conseqüentemente nenhum meme pu-

&&)
A MENTE EXTERNA

blicado aí tem chance de invadir suas mentes diretamente; outros


não vêem determinados programas de televisão; alguns não lêem
best-sellers etc.
A estrutura do filtro também é construída por memes. Os memes
para edição e crítica dos outros memes têm nichos próprios na
infosfera, e tendem a proliferar, já que existe uma quantidade cres-
cente de memes sendo produzida. Existe um livro, por exemplo, que
propõe critérios para ler artigos médicos. Podemos imaginar que este
tipo de livro se torne lugar comum. Hoje, temos tendência a restringir
nossa leitura ao que consideramos o “melhor”, procurando conse-
lhos de “entendidos”. Dentro dos grupos de pessoas, existem
subgrupos que só falam o mesmo vocabulário, e não são compreen-
didos pelos outros subgrupos. Isto ocorre em ciências particulares,
filosofia e psicanálise. Podemos imaginar um tempo, quando a rede
mundial de informática for tão trivial como a televisão, em que um
escritor com um admirador será considerado um sucesso. Isto é o
oposto da fantasia do livro 1984, de Orwell, onde uma rede constan-
temente censurada veiculava apenas os memes do grande irmão.
Um dos aspectos mais significativos desta reflexão, que não
será abordado neste livro, é a idéia de que um meme nunca passa
sem modificações por um cérebro. Com isto, Dennett está pro-
pondo que este meio não é nada parecido com uma fossa, poden-
do ser comparado com uma unidade capaz de metabolizar e trans-
formar os memes. Apesar dos eventos mentais serem em parte
determinados pelos memes que os compõem, o papel do cérebro
na sua utilização acabaria por criar algo inesperado, não completa-
mente previsível. Na próxima seção, abordaremos algumas impli-
cações da visão darwiniana de pessoa para a moralidade.

Sobre a origem da moralidade


Segundo Dennett, Hobbes poderia ser descrito como o primeiro
sociobiologista da história, embora tivesse nascido muitos anos an-

&&*
MARCELO LAND

tes de Darwin. Ele conseguiu antever a tarefa principal de Darwin:


produzir uma história de como o primeiro Estado foi criado e de
como com ele surgiu a moralidade. Essa história seria sobre um
tempo em que não havia certo ou errado, somente competições
amorais, e sobre sua transformação em um tempo em que se mani-
festaria certo e errado no sentido ético. Como não havia vestígios
fossilizados destes tempos, esta história só poderia ser uma recons-
trução racional.
No início, havia apenas vida sem moralidade, composta de ho-
mens e linguagem (memes). Falava-se de bom e mau como adjeti-
vos, mas não se conhecia o certo e o errado no sentido ético. Hobbes
chamou isto de estado de natureza, lembrando a condição dos ani-
mais na selva.
Um belo dia, ao invés de uma política egoísta de mútua deserção
e destruição, um grupo afortunado de homens resolveu aderir à
cooperação para o benefício mútuo. Eles formaram um contrato
social, e assim, uma sociedade, dando início à civilização.
Certamente, Hobbes não deve ser visto como uma espécie de
historiador, especulando sobre as origens reais do Estado, já que
sabia perfeitamente bem que não havia esperanças de se achar o
nascedouro da civilização com instrumentos históricos. Hoje se sabe
que este nascimento foi disperso no tempo e espaço com elementos
de quase-sociedade, quase-linguagem, quase-moralidade em vários
pontos. Portanto, a sua reconstrução é uma extrema simplificação
deste processo para se entender a sua essência, abandonando os
detalhes.
Modernamente, uma história semelhante e intrincada foi propos-
ta por John Rawls em Teoria da Justiça (1971). Como Hobbes, este
autor concorda em ver a moralidade como um produto emergente
de uma grande inovação, alcançada pelo Homo sapiens, tirando van-
tagens de um meio extra de transferência de informação, chamado
linguagem.

&&!
A MENTE EXTERNA

Rawls apresenta, no entanto, um aspecto novo. No nascimen-


to da sociedade, os habitantes consideram que tipo de design sua
sociedade deveria ter. Eles pensaram conjuntamente até alcança-
rem um equilíbrio reflexivo, que não pôde mais ser perturbado
por considerações posteriores. A inovação de Rawls, planejada
para assegurar que o indevido egoísmo dos concernidos não in-
terferisse neste exercício de reflexão, foi o conceito de véu de
ignorância.
Por este conceito, todos os participantes votam em projetos
vantajosos de sociedades. Porém, enquanto decidem qual socie-
dade será capaz de produzir a maior felicidade e lhe prometem
lealdade, eles têm de escolher entre os diversos projetos, sem sa-
ber qual será o papel particular de cada um ou o lugar social que
ocuparão. Escolher por trás do véu da ignorância assegura que a
pessoa vai dar a devida consideração aos prováveis efeitos, cus-
tos e benefícios, para todos os cidadãos, inclusive para os piores
situados na malha social.
Enquanto Hobbes apresenta uma reconstrução racional de al-
guma coisa que realmente aconteceu, Rawls cria um experimento
de pensamento acerca do que deveria ser o certo. É um projeto
normativo e não especulativo: pretende mostrar como as questões
éticas devem ser respondidas, e construir um meio de justificar um
conjunto de normas éticas.
É certo que Hobbes também pretendia resolver este problema
normativo, mas como era um reducionista voraz,260 tentou matar
dois coelhos com uma só cajadada: (1) além de tentar mostrar
como as normas éticas devem ser construídas, (2) ele queria ex-
plicar como o certo e o errado passaram a existir no mundo, em
um exercício de especulação ao estilo darwiniano.
Para Dennett, contudo, o Leviathan tem aspectos excessiva-
mente otimistas. Em primeiro lugar, pressupõe a racionalidade ideal
dos agentes, cuja solução mútua da sociedade é supostamente

&&"
MARCELO LAND

ditada pela razão – um movimento forçado –, ou endossada por


ela – a Good Trick. Em segundo lugar, propõe dogmaticamente
que a organização social foi boa para nossa espécie. Este tipo de
afirmação não é relevante, pois o fato de uma coisa ser benéfica
não explica como ela passou a existir. A racionalidade do grupo
certamente deve ter sido alcançada em algum ponto da evolução,
mas reconhecer os seus efeitos benéficos não implica explicar sua
origem.
A metáfora da sociedade como um grande organismo está sen-
do posta em questão. O organismo eucarioto funciona como um
sistema intencional balístico. Isto quer dizer que seus mais altos
objetivos e propósitos estão fixados de uma vez por todas desde o
início. O problema a ser esclarecido neste tipo de sistema inten-
cional é o das deserções, ou seja, como alguns elementos começam
a não objetivar o Summum bonum, para o qual foram projetados por
seus genes. De certa forma, as células do organismo multicelular
fizeram um contrato ao modo de Rawls, tendo votado sob um véu
de ignorância. Algumas irão ser células somáticas, obrigadas a uma
vida de escravidão para o bem-estar do organismo, enquanto ou-
tras serão células germinativas capazes de se reproduzirem e nun-
ca verem sua descendência destruída. No momento da constitui-
ção do organismo, os seus elementos individuais fazem a escolha
pelo bem-estar deste corpo, sem saber quem terá o melhor papel a
desempenhar.
A dificuldade deste modelo como metáfora da sociedade hu-
mana é que ela se parece mais com o sistema intencional dos
mísseis teleguiados. Eles podem abandonar objetivos, permutar
lealdades, formar pequenos grupos de conspiradores políticos e
depois traí-los. Na sociedade, existe sempre tempo para as deci-
sões, porque se vive em um mundo de memes. Existem sempre
oportunidades sociais e dilemas do tipo, para os quais as teorias
dos jogos fornecem o campo de exercício e as regras de enga-

&&#
A MENTE EXTERNA

jamento, mas não as soluções. Assim, para Dennett, qualquer teoria


sobre o nascimento da ética deve integrar cultura e biologia, pois a
vida é mais complicada para pessoas em sociedades do que para as
células nos organismos.
O segundo sociobiologista interessante da história foi Nietzsche.
Ele foi concretamente influenciado por Darwin. Porém, sua críti-
ca dirige-se aos darwinistas sociais, que são vistos como historica-
mente ingênuos e ridiculamente otimistas acerca da pronta adap-
tabilidade da razão humana. Os psicólogos ingleses, como
Nietzsche os chama, pensam a passagem do estado de natureza
para o de moralidade como sendo muito fácil, porque não olham
para as lições da história.
Na versão nietzschiana, no início haveria um mundo humano
pré-moral, que teria sofrido uma transição em duas fases conse-
cutivas. Hobbes já havia notado que a verdadeira existência de
contratos ou acordos entre as pessoas dependia da capacidade de
os seres humanos fazerem promessas sobre o futuro. O que
Nietzsche afirmou é que esta capacidade não surgiu espontanea-
mente. Existiria uma longa história de como a responsabilidade se
originou. Ela é um relato sangrento de como os primeiros seres
humanos aprenderam a se torturarem uns aos outros, desenvol-
vendo um tipo especial de memória, necessária para se manterem
informados sobre débitos e créditos mútuos. A capacidade de de-
tectar trapaças, lembrar as promessas quebradas e punir os trapa-
ceiros tinha de estar enraizada no cérebro de nossos ancestrais.
Assim, estes primeiros seres deram origem a animais com capaci-
dade inata de manter uma promessa e com o talento concomitante
para detectar e punir os quebra-promessas.
Foi com a ajuda desta capacidade e do talento que se formaram
as primeiras sociedades. Não havia, no entanto, o sentido moderno
de moralidade. A segunda transição ocorreu em tempos históri-
cos, podendo ser traçada por via da reconstrução etimológica e

&'%
MARCELO LAND

através de uma leitura adequada dos textos dos últimos dois mil
anos. Para ler estes textos, Nietzsche precisava de uma teoria so-
bre esta segunda fase. Os protocidadãos viviam em algum tipo de
sociedade, onde, contudo, a vida era arriscada e brutal. As pessoas
tinham o conceito de bom e mau, mas não de bem e mal ou de
errado e certo. A partir desta postulação, Nietzsche tentaria re-
construir a origem histórica destes memes básicos do vocabulário
moral.
O meme para o bem e mal moral não foi só uma permutação
menor dos predecessores amorais – os memes trocaram efetiva-
mente de lugar. O que havia sido bom (no antigo estilo) se tornou
mal (no novo estilo), e o que havia sido mau (no antigo estilo) se
tornou bem (no novo estilo). Esta transvalorização dos valores foi
a chave do nascimento da ética moderna e estava em contradição
com as idéias inglesas de que o bem se identificava com o útil. A
tese central do autor na visão dennettiana é: os aristocratas, que
antigamente exerciam a regra de dominar os fracos, foram esperta-
mente enganados pelos padres, adotando o valor inverso. Esta in-
versão foi a vitória da revolta escrava na moralidade, que resultou
na utilização da crueldade dos fortes contra eles mesmos, a ponto
de serem manipulados a se subjugarem e a se civilizarem.
Para Dennett, as histórias de Nietzsche são terríveis, uma mis-
tura de brilhantismo e loucura, sublime e ignóbil. A maior contri-
buição de Nietzsche para a sociobiologia seria a sua leal aplicação
de uma das intuições fundamentais de Darwin no reino da evolu-
ção cultural. Esta intuição é freqüentemente desprezada pelos
darwinistas sociais e pelos sociobiologistas modernos. O erro des-
tes últimos é freqüentemente chamado de falácia genética, ou seja:
inferir função corrente ou significado de palavras a partir de fun-
ções e significados ancestrais. Nietzsche descobriu, através da idéia
de transvalorização, que a causa da origem de uma coisa e sua even-
tual utilidade, seu atual emprego e lugar em um sistema proposto,

&'$
A MENTE EXTERNA

encontram-se a gerações e mundos de distância. Assim, o que exis-


te em um dado momento da história evolutiva é freqüentemente re-
interpretado para novas finalidades, transformado e redirecionado
por algum poder superior e irresistível. Dennett propõe que as afir-
mações de Nietzsche acerca da existência de algum poder, que sub-
juga e tortura, para se tornar mestre é uma expressão pura do pen-
samento de Darwin, não captado pelos seus colegas ingleses.

Reducionismo voraz e prudente


Um dos mais tradicionais princípios da filosofia contemporâ-
nea é que não se pode derivar ought do is. As tentativas de proce-
der a este tipo de derivação são chamadas de falácia naturalista.
Para esclarecermos melhor o que de fato deve-se entender por
esta expressão, iremos retomar a descrição de Alasdair MacIntyre,
presente em seu livro Historia de la ética. Com isto, tomamos
partido da proposta de que a investigação histórica da ética é váli-
da, tanto para que possamos compreender o surgimento de deter-
minados problemas ditos “lógicos” – como a discussão de Moore
sobre a falácia naturalista – quanto para a descoberta da origem do
sentido de nossos valores morais. Não queremos dizer com isto
que não achamos pertinentes determinadas posturas que procuram
provar, a partir de premissas, que é impossível derivar determina-
das conclusões, mas pretendemos mostrar com MacIntyre que,
independente dos resultados da prova, no caso da falácia naturalis-
ta, o que surgiu foi a delimitação do que se considera modernamente
um discurso ético. Veremos que Dennett aceita esta versão moder-
na, e a sua contribuição para a moral não pretende criticar boa parte
destas intuições fundamentais.
Segundo MacIntyre, em 1903, quando publicou pela primeira
vez Principia Ethica, Moore propôs que os estudiosos de ética
não se haviam feito as perguntas certas, e por isto haviam progre-
dido tão pouco até então. Ele pretendia distinguir entre “Que clas-

&'&
MARCELO LAND

ses de ações devemos realizar?” e “Que classes de coisas devem


existir em virtude de si mesmas?”. A resposta à primeira pergunta
parecia ser óbvia: deveríamos realizar ações que produzissem um
bem maior no universo que qualquer das outras alternativas possí-
veis. A conseqüência desta resposta é provocar a necessidade de
se propor a segunda pergunta. Passaríamos a nos questionar so-
bre que coisas são boas, e que coisas devem existir em virtude de
si mesmas. Para Moore, a classe de coisas que deveríamos privi-
legiar seria a que contivesse as coisas “intrinsecamente boas”. O
problema seria, então, saber como saberíamos que uma coisa é
intrinsecamente boa. Para tal questão, Moore propunha que não
se poderia deixar de reconhecer a propriedade da bondade intrín-
seca quando confrontado a ela. Se fosse assim, as proposições
sobre o que é intrinsecamente bom não seriam sujeitas a serem
provadas ou refutadas, já que não teriam sido inferidas. Com isto,
depreendia-se que bom era o nome de uma propriedade simples e
não sujeita à análise, acrescida do qualificativo de “não natural”,
porque Moore fazia questão de dizer que ela não se identificava
com nenhuma propriedade natural. O que sustentava esta idéia
era a analogia entre “bom” e “amarelo”, e também considerações
críticas sobre as conseqüências advindas da proposta de que “bom”
pudesse ser analisado. Vejamos estes dois pontos rapidamente.
MacIntyre indica que, para se compreender como estes dois
argumentos funcionavam no pensamento de Moore, seria preciso
entender o que ele pensava sobre o termo “definição”. Para ele,
definir seria fragmentar o complexo em suas partes constituintes.
Diante desta definição, que MacIntyre considera idiossincrática,
“bom” teria de ser dito indefinível. Além disso, se o conhecimento
deste tipo de termo não depende de uma definição, deveríamos
admitir que temos um conhecimento imediato do seu significado,
o que Moore descrevia como ter uma determinada noção diante
da mente. Partindo-se disto, era óbvio que “bom” e “agradável”,

&''
A MENTE EXTERNA

por exemplo, não poderiam se confundir, pois seriam duas noções


diferentes.
Mas o que se pretendia com toda esta argumentação? Ou,
como se pergunta MacIntyre, que causa defendia Moore? Ele
pretendia provar que propriedades morais não se confundem
com propriedades naturais, aquelas sujeitas à descrição. Com
seu conceito de definição e da forma de conhecer noções inde-
finíveis, ele procurava mostrar que o significado de “amarelo”
não poderia ser identificado, e conseqüentemente reduzido, com
as propriedades físicas da luz que produzem o efeito da cor ama-
rela. Do mesmo modo, não se poderia identificar o significado
de “bom” com as propriedades naturais que se associam com
bom. Mesmo que todo o bom fosse agradável, não decorreria
disto que o significado de um tivesse de ser identificado com o
outro.
Embora, em Principia Ethica, Moore pretendesse atingir vá-
rios opositores no campo da discussão ética, reproduziremos
apenas seu ataque aos naturalistas, alertando que a acusação de
falácia naturalista se aplica de forma indiscriminada a todo pro-
jeto filosófico que pretenda identificar o significado de “bom”
com qualquer outra propriedade natural ou metafísica. Dentre
os naturalistas, o foco de crítica era o darwinista Herbert Spencer
– que Dennett faz questão de classificar entre os reducionistas
vorazes. Embora MacIntyre admita que a posição de Spencer
fosse mais complexa do que a exposta por Moore, ele afirma que
os argumentos deste último autor realmente não estão baseados
em grandes distorções. Para Moore, Spencer havia de fato iden-
tificado o significado de “bom” com “mais evoluído”. Contudo,
MacIntyre deixa claro que, embora, por descuido, Spencer te-
nha dado a impressão de estar tentando definir o vocabulário
moral, ele não era, em hipótese alguma, o fantoche que Moore
propôs ser.

&'(
MARCELO LAND

O fato que nos interessa é que toda a argumentação de Moore


acabou possibilitando a criação do conceito de falácia naturalis-
ta, que, como veremos, definiu o caminho para o desenvolvimen-
to da ética desde então. O termo grifado deve ser considerado
como o nome da doutrina de que “bom” é o nome de uma pro-
priedade identificável segundo uma outra definição qualquer, o que
inclui, dentre outras coisas, a doutrina de que “bom” é o nome de
uma propriedade natural, ou uma propriedade metafísica etc.
Estabelecidas algumas das posições consideradas essenciais do
pensamento de Principia ethica, MacIntyre mostra-nos como as
críticas que se seguiram a este trabalho foram moldando os limites
do campo da ética moderna. Ele apresenta duas críticas à proposi-
ção de que “bom” é o nome de uma propriedade simples e não
analisável:
1- Só se pode empregar inteligivelmente o nome de uma pro-
priedade simples quando conhecemos um modelo exemplar dela
com referência ao qual se pode dizer que está presente ou ausente
em outro caso. Neste sentido, no caso de amarelo, podemos utili-
zar um modelo exemplar para dizer que outra coisa é amarela.
Mas no caso de bom, este processo é mais complexo. Qual é o
modelo exemplar de bom, que utilizamos para dizer que alguém é
um bom amigo ou algo é um bom relógio? Para este problema, a
única resposta de Moore é que simplesmente conhecemos o que é
intrinsecamente bom. MacIntyre afirma que esta resposta só se
torna plausível se houver uma teoria sobre o modo como se aprende
o significado de “bom”, e se tivermos uma explicação da relação
entre aprendê-lo em certos casos e saber aplicá-lo em outros. Moore
não pareceu achar relevante apresentá-las.
2- A proposta de Moore deixa sem explicação ou torna
inexplicável como o caráter de ser bom constitui um motivo para a
ação. A analogia com o amarelo prejudica a formulação adequada
da conexão entre ser bom e agir. Pode-se imaginar um conhecedor

&')
A MENTE EXTERNA

que tivesse uma paixão especial pela cor amarela e em decorrência


dela comprasse toda sorte de obras de artes amarelas. Baseado em
um raciocínio similar, pode-se imaginar que a propriedade de ser
bom só iria ser um motivo para agir para aqueles que têm interesses
de conhecedor na bondade. Para MacIntyre, toda a explicação ade-
quada de bom deve conectá-lo com a ação e explicar por que ele
constitui um motivo para agir de uma determinada maneira.261
Certamente, estas duas críticas são ressaltadas por MacIntyre
porque visam especificamente a explicar seu projeto de uma ética
da virtude. Todavia, nos “herdeiros diretos” de Moore, vemos
também a sua influência. Mas quais seriam os seus herdeiros?
Para MacIntyre, são os intuicionistas e os que são descritos como
promotores do ócio protegido.
Um dos representantes dos intuicionistas destacados nas dis-
cussão é Prichard. Ele teria proposto, em 1908, que a tarefa que
se impôs à filosofia moral foi a de proporcionar uma justificativa
para mostrar que o que se supõe ser nosso dever é realmente o
nosso dever. Porém, isto seria um erro. Em um sentido, ao se
oferecerem justificativas que mostrem que o dever convém aos
interesses e conduz à felicidade do agente, na verdade, não se está
considerando o dever como se fosse um dever, porque o que se
faz em virtude de um interesse não é um dever. Em outro sentido,
quando se tenta justificar o dever pelo fato de que ele produz um
bem, também não se está justificando nada, porque o fato de algo
ser bom não implica a sua realização. Para ele, a captação do que
é um dever é imediata e inquestionável e não pode se apoiar em
razões e argumentos. Da mesma forma que Moore, ele trata os
termos “bom”, “justo”, “dever”, “obrigatório” e todo o resto do
vocabulário moral como cunhagem de valores fixos e permanentes,
capaz de ser captada por um simples exame cuidadoso. O problema
dos intuicionistas é um aparente paradoxo em seu método, pois, se
já sabemos o que é o nosso dever, o que é que eles estão fazendo

&'*
MARCELO LAND

com seus inquéritos? A resposta só pode ser: estão nos informando


sobre o que já sabemos, o que seria redundante. Muitas vezes eles
mesmos discordam sobre o que é que já sabemos, o que os tornam
muito menos convincentes.
Os críticos desta tendência foram R. G. Collingwood e A. J Ayer
Collingwood. Eles acusaram os intuicionistas de terem perdido o sen-
tido histórico e com isto considerarem Platão, Kant e eles mesmos
como contribuindo para uma única discussão, com um único tema, e
com um vocabulário fixo. Os conceitos morais também teriam de ser
compreendidos em termos de desenvolvimento histórico.
O segundo tipo de herdeiro é descrito por MacIntyre como
um grupo de pessoas de uma classe social privilegiada, que usa-
va a idéia de que tínhamos conhecimento direto do que era in-
trinsecamente bom para justificar a imposição de seus valores a
todos. Em suma, usavam Moore e algumas de suas afirmações
de que o que era intrinsecamente bom era o contato com os
seres humanos e o gozo dos belos objetos como fonte da autori-
dade para justificar a hegemonia de sua forma de vida. Foi D. H.
Lawrence que reagiu veementemente contra esta posição, e pode
tê-los feito perceber que sua forma de conceber a ética lhes im-
pedia de fazer uso de argumentos, restringindo-lhes aos recur-
sos do reexame e da reafirmação. Para MacIntyre, como de fato
não existe nenhuma propriedade simples e não-natural que possa
ser designada por “bom”, tudo o que eles faziam era um alarde
do que não tinham. Foi exatamente diante da constatação de que
não havia uma tal propriedade que surgiu uma outra corrente
significativa para a ética do século XX: o emotivismo. Na reali-
dade, podemos vê-los como uma reação a Moore, pregando que,
se não há esta propriedade, então só resta apelar para os senti-
mentos.
Uma das preocupações de Moore era tornar objetivo o estudo da
ética. Se os juízos morais fossem informados por sentimentos, não

&'!
A MENTE EXTERNA

se poderia dizer que dois homens que expressassem posições apa-


rentemente contraditórias estariam discordando. A réplica de
Stevenson, um dois mais importantes emotivistas, foi que não é
necessário, para que dois homens possam discordar em questões
morais, que exista um desacordo fático em relação ao que é intrin-
secamente bom. Por um lado, pode-se estar em desacordo sobre os
fatos envolvidos em uma dada questão moral, e a querela entre os
homens pode ser solucionada a partir de uma investigação empírica.
Por outro, pode-se divergir em atitudes, e esta divergência pode ser
resolvida pela troca de atitude de uma das partes. A função primária
das expressões morais seria dar uma nova direção às atitudes das
pessoas a fim de que concordem com a de quem a propôs. Stevenson
preocupa-se, portanto, principalmente com a função dinâmica das
expressões morais, tendo sido neste particular influenciado por
Dewey.
As palavras morais teriam esta função por terem um significado
emotivo, definido como a tendência que uma dada palavra teria, e
que surgiria a partir da história de seus usos, a produzir uma res-
posta afetiva nas pessoas. Na sua teoria, Stevenson oferecia dois
modelos de como as palavras morais influenciavam os sentimentos
e as atitudes alheias, acreditando que nenhum dos dois era suficien-
te para compreender a natureza do que era o significado deste tipo
de palavras. Segundo um dos modelos, dizer “isto é bom”
corresponderia a “Gosto disso. Faz o mesmo”. Segundo o outro
modelo, ele ocupava-se em compreender uma classe de expressões
que ele denominava de “definições persuasivas”. Estas definições
teriam um aspecto descritivo associado ao um significado emotivo,
podendo ser analisado por ambos os elementos que as comporiam.
Em uma querela entre dois homens, por exemplo, que consideram
justo coisas aparentemente contraditórias, poder-se-ia dizer que cada
um associa diferentes significados descritivos ao mesmo significa-
do emotivo da palavra “justo”.

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MARCELO LAND

Desta posição, surgiram, ainda de Stevenson, diversas outras


contribuições para a ética moderna. Uma das inferências propostas
foi a de que não se podia dar uma definição completa de “bom” e
outras expressões valorativas em termos descritivos, porque have-
ria sempre o resíduo do significado emotivo destas palavras. Isto
era uma clara admissão de um dos aspectos do trabalho de Moore,
em concordância com a idéia de que este tipo de palavra não pode-
ria funcionar como um nome de uma propriedade natural. Outra
inferência era a de que a filosofia moral era uma atividade moral-
mente neutra, já que a decisão entre os diferentes conteúdos descri-
tivos das diversas doutrinas não parecia poder ser explicada por
nenhuma das premissas da teoria. Poderíamos usar palavras emotivas
para elogiar qualquer tipo de ação. O desacordo valorativo seria
interminável. Finalmente, ele propunha que os argumentos que usa-
mos para apoiar os juízos valorativos, e mais especificamente os
juízos morais, não poderiam ter nenhuma relação lógica com o que
deles derivaríamos. Seriam reforços psicológicos. Embora eles fos-
sem deduzidos de expressões como “por que” e “portanto”, estas
palavras não funcionariam como em outras partes do discurso.
MacIntyre pretende mostrar que existem diversas dificuldades
com esta posição. A noção de significado emotivo não é clara.
Pode-se provar também que certos enunciados se convertem em
diretivas para a ação, apesar de não terem nenhum tipo de signifi-
cado emotivo associado – ou seja, só em razão de seu conteúdo
descritivo –, apenas porque em determinados contextos têm im-
portância para os interesses os desejos e as necessidades dos agen-
tes envolvidos. Por exemplo, a expressão “A Casa Branca está em
chamas” tem significados diferentes se dita pelo noticiário de uma
rádio, ou ao presidente do EUA em sua cama. Portanto, a crítica
baseia-se no fato de que o emotivismo não se preocupa com a
investigação da distinção entre significados de um enunciado, que
permanece constante, entre diferentes usos.

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A MENTE EXTERNA

Outra crítica de MacIntyre ao emotivismo de Stevenson é a de


que o uso primário que ele atribuiu às expressões valorativas não
pode ser primário. Para Stevenson, no mundo, cada um teria já
opiniões formadas e tentaria converter os demais para a sua pró-
pria posição. Em nenhum momento aparecem os usos da lingua-
gem moral necessários à formação e expressão da própria opinião
com vistas à própria ação. Finalmente, ele exige dos emotivistas
que caracterizem mais adequadamente o que entendem por senti-
mentos e atitudes, e quais são os critérios de identificação destes
sentimentos e destas atitudes.
Nos seus sucessores, algumas destas características centrais
são mantidas, a saber: a neutralidade moral da análise filosófico-
moral, o desnível lógico entre fato e valor, e o caráter interminável
do desacordo. Modificam-se a questão dos critérios para chamar
de bom ou mau as coisas, atos ou pessoas, e a questão da nature-
za dos raciocínios morais.
Para MacIntyre, uma resposta sistemática a estas questões foi
dada por R. M. Hare em dois de seus livros The language of moral
e Freedom and Reason. Hare especifica a natureza da linguagem
moral através de uma distinção inicial entre linguagem prescritiva
e descritiva. A linguagem prescritiva é imperativa, procura nos
dizer o que fazer. Hare subdivide-a em imperativos no sentido
ordinário e expressões valorativas propriamente ditas. Além disso,
acrescenta que todos os juízos de valor são práticos, apesar das
suas diferentes formas. Assim sendo, expressões como “deve”,
quando valorativas, implicam imperativos dirigidos a qualquer um
que esteja na situação pertinente, inclusive a própria pessoa que
as pronuncia. Disto decorre a existência de um critério da expres-
são sincera de uma sentença moral: o falante age efetivamente em
obediência ao imperativo implicado por ela. Por outro lado, bom é
usado para elogiar, e chamar X de bom é dizer que devemos ele-
ger X se quisermos X. Ainda neste sentido, os critérios que usa-

&(%
MARCELO LAND

mos para dizer que X é bom são critérios que elegemos, pelo
menos no caso em que há um comprometimento legítimo com os
valores.
MacIntyre procura mostrar que o conceito de eleição no
prescritivismo de Hare é mais claro e menos questionável do que
o de atitudes e sentimentos no emotivismo, pois, ao contrário do
que acontece com este movimento, não estão excluídos os racio-
cínios da ética.
Hare foi certamente o pioneiro da investigação lógica dos im-
perativos. Ele mostrou que, no discurso imperativo, se pode infe-
rir conclusões de premissas sem violar as regras usuais de impli-
cação. “Por que” e “portanto” têm o mesmo significado que em
outras formas de raciocínios dedutivos. Uma das conclusões tira-
das disto por Hare é que nenhuma conclusão valorativa pode ser
deduzida de premissas que não incluam premissas morais. Isto é
uma forma de redescrever a tese de que nenhum “deve ser” pode
ser inferido meramente do “ser”. A partir da leitura de The language
of moral, MacIntyre afirma que o modelo de raciocínio moral é a
passagem de uma premissa moral maior e uma premissa menor
fática a uma conclusão moral. A premissa moral maior pode evi-
dentemente ser a conclusão de um outro silogismo, porém há um
ponto na cadeia em que os raciocínios devem terminar em um
princípio que não se pode justificar em raciocínios e que se deve
aderir por eleição. A afirmação da validade deste princípio só po-
deria ser refutada por outra afirmação contrária e não por raciocí-
nio. Neste último aspecto, a doutrina de Hare assemelha-se à dos
emotivistas.
Contudo, Hare, em Freedom and reason, procurou mostrar que
esta última conseqüência não estava implicada em suas idéias. Ele
afirmou a possibilidade de universalizar juízos morais, e defendeu
esta universalização como uma arma argumentativa contra os que
propõem princípios éticos inaceitáveis. Embora MacIntyre consi-

&($
A MENTE EXTERNA

dere que este aspecto do trabalho de Hare é fundamental, interessa-


lhe mais destacar a afirmação de que o que chamamos de bom e o
que consideramos que devemos fazer depende logicamente das nos-
sas eleições em termos de valores fundamentais, e que não há ne-
nhum limite lógico para os valores que se pode eleger. Assim, por
trás das valorações morais não poderia haver autoridade maior do
que a própria eleição. O nosso uso de conceitos valorativos não nos
compromete por si mesmo com nenhum conjunto particular de cren-
ças. Na verdade, nossas valorações seriam governadas somente pelos
critérios que elegemos impô-las. Ele aproxima Hare de Kant neste
aspecto:
Esta é uma repetição da idéia kantiana do sujeito moral como
legislador, mas uma repetição que converte a este em um sobera-
no arbitrário que é o autor da lei que pronuncia e que constitui em
lei dando-lhe a forma de uma prescrição universal.262
MacIntyre adverte que nesta discussão sobre a ética moderna
está envolvida toda uma gama de diferenças de opinião. De um
lado, encontram-se os que afirmam que não se pode implicar
valorações, que a investigação filosófica é neutra em relação às
valorações e que a única autoridade que possui as opiniões morais
é a que outorgamos como agentes morais individuais. Neste caso, o
indivíduo se converte em sua própria autoridade. Outro ponto de
vista defende que compreender conceitos morais e valorativos é
reconhecer que há critérios que temos simplesmente que admitir
sem eleger. A autoridade destas normas tem de ser aceita por nós,
sem que nenhuma delas se origine em nós. Logicamente, a investi-
gação, que propõe esta segunda visão, não é filosoficamente neutra.
E, de certa forma, está-se aceitando que implicações valorativas
podem ser derivadas de implicações fáticas.
Certamente, a história da filosofia moral desde Hare progre-
diu em diversas direções e muitas críticas foram acrescentadas.
Foram propostas abordagens metodológicas variadas, tais como:

&(&
MARCELO LAND

a persistência da investigação lógica dos enunciados morais, uso


de modelos normativos e utilização da história da filosofia da
ética. Contudo, o resultado desta enorme produção discursiva,
desde a formulação de Moore de sua visão ética e da acusação
de falácia naturalista, parece ter sido a delimitação de um deter-
minado campo de trabalho. Em geral, reconhece-se a
especificidade da reação ética, embora muita discordância per-
sista na forma de a caracterizar.
Dennett deve ser visto como um autor influenciado pelo re-
conhecimento desta reação humana específica, que é agir moral-
mente. Pelo que tudo indica, ao reconhecê-la, evita-se, muitas ve-
zes, cometer falácia naturalista. O problema de Dennett é
reintroduzir o naturalismo na discussão moral, sem desconsiderar
os ganhos produzidos pela investigação ética desde as contribui-
ções de Moore e Dewey. Veremos que é exatamente o fato de se
reconhecer a especificidade da reação ética que serve de critério
implícito para distinguir um reducionista prudente de um
reducionista voraz. É também do ponto de vista de quem reco-
nhece esta especificidade que ele pretende afirmar que é possí-
vel haver uma sociobiologia, capaz de dar conta da complexida-
de do fenômeno humano. A seguir, examinaremos apenas
conceitualmente algumas divisões de posição propostas por
Dennett, sem detalhar a discussão extensa dos diversos exem-
plos da história da sociobiologia, nem a crítica de seus opositores.
Para se compreender e poder determinar a posição de Dennett
neste debate sobre a validade de uma abordagem naturalista na
ética, apresentaremos as três figuras padrões que ele apresenta no
livro em discussão. Cada uma das figuras não pode ser identificada
exatamente com posições particulares de determinados autores.
Elas configuram na verdade três tipos de métodos, que têm pre-
missas filosóficas embutidas. É provável que muitos dos que
Dennett insiste em classificar como representantes de uma deter-

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A MENTE EXTERNA

minada figura não aceitassem de bom grado aquilo que lhes parece-
ria uma acusação injusta. Vejamos a classificação:
1- Os partidários do “gancho do céu” (skyhook): neste pa-
drão encontram-se classificados Chomsky e Gould. Estes partidá-
rios reconhecem a complexidade da cultura e a especificidade da
reação ética, conforme proposta em nossos tempos. Porém, se-
gundo a acusação de Dennett, procuram explicar estes fenômenos
através da utilização de categorias misteriosas e obscuras. Geral-
mente utilizam argumentos que procuram mostrar que, por princí-
pio, não é possível encontrar explicações naturalistas para elas.
Enfatizam freqüentemente, na defesa de sua posição metodológica,
as tentativas do início do século XX de provar as impossibilidades
do conhecer humano: o teorema de Gödel e a crítica da falácia
naturalista iniciada por Moore. Eles, em geral, não acreditam no
sucesso dos projetos de inteligência artificial.
2- Os reducionistas vorazes (greedy): neste padrão encontram-
se classificados Spencer, um dos primeiros e mais célebres
darwinistas; Skinner, o pai do behaviorismo moderno; e E. O.
Wilson, professor de Harvard, entomologista mundialmente co-
nhecido, que em 1975 cunhou o termo sociobiologia. Para Dennett,
estes reducionistas simplificam demais o problema que estão tra-
tando e, com isto, acabam produzindo respostas distorcidas. Sua
interpretação do fenômeno da cultura e da resposta ética conduz,
muitas vezes, à eliminação de várias categorias fundamentais da
nossa auto-imagem. Apesar de Dennett os acusar somente de
simplismo, e de voracidade motivada pela vontade de enquadrar a
complexidade dos eventos em sistemas conceituais insuficientes,
achamos que devemos explicar sua postura como sendo fruto da
adoção de premissas eliminativistas de base. No caso de Spencer,
poderíamos tentar abrandar a acusação porque, como quisemos
sugerir com o recurso à história da ética de MacIntyre, o terreno
da ética moderna estava sendo formado na ocasião em que escre-

&((
MARCELO LAND

veu seus trabalhos mais significativos. Não havia uma visão unitá-
ria e mais ou menos consensual do método a ser utilizado para se
abordar as questões éticas. No caso de Skinner e Wilson, pode-se
explicar o resultado de seu trabalho como uma não-aceitação das
premissas que sustentam a visão de ética e de cultura que foram
forjadas ao longo de diversos debates neste século. A ciência é,
muitas vezes, utilizada para autorizar a crítica apressada a estas
premissas e apoiar uma descrição reducionista ampla, que muitas
vezes se torna uma justificativa para o eliminativismo. Achamos
que a crítica de Dennett a estas figuras não é adequada. Ele de-
monstra complacência demasiada com este padrão, em parte por-
que ambos compartilham a crença na ciência como método de
investigação privilegiado. Contudo, Dennett parece perder a visão
histórica neste momento, ao não reconhecer que o apelo à ciência
na sua tradição, o naturalismo pragmático de Dewey, é completa-
mente diferente do que o da maioria dos reducionistas vorazes.
3- Os bons reducionistas circunspectos: neste padrão estão
Dennett, Hofstadter, Dawkins. Os seus membros aceitam uma
determinada visão consensual de cultura e reação ética. Acredi-
tam que podem fornecer descrições naturalistas para explicar o
surgimento e funcionamento destes fenômenos. Na descrição aci-
ma, apresentamos as bases da tentativa naturalista dennettiana.
Como vimos, Dennett prefere definir a construção da cultura e o
advento da moralidade utilizando um conjunto de conceitos natu-
ralistas-darwinistas que ele denomina “guindastes” ao invés de
“gancho do céu”, numa clara provocação contra seus opositores
mais eminentes, como Gould e Chomsky. Tal provocação gerou
uma discussão mundial acalorada, que pode ser resgatada ainda
de vários locais no cyberspace da Internet. De certo, no afã de
defender uma posição, que achamos justificada, Dennett cometeu
vários exageros, em parte em decorrência da maneira esquemática
e simplificada e, muita vezes, precipitada, com que classificou os

&()
A MENTE EXTERNA

opositores. Logo veremos o que consideramos justificado na posi-


ção dennettiana. Antes, atentemos para esta citação, que condensa
muitos dos aspectos destacados acima:
Devemos distinguir reducionismo, o que é em geral uma coisa
boa, de reducionismo voraz, que não é. A diferença, no contexto
da teoria de Darwin, é simples: reducionistas vorazes pensam
que tudo pode ser explicado sem guindastes (cranes); bons
reducionistas pensam que tudo pode ser explicado sem gan-
chos do céu (skyhook).
Não existe razão para se ter a reputação abalada pelo que eu
chamo de bom reducionismo. Ele é simplesmente o compro-
misso com uma ciência, que não escapa das questões (non-
question-begging science), e que não usa nenhum truque ao
abraçar mistérios desde o começo. Três vivas para este
reducionismo brando – e eu estou certo de que Weinberg con-
cordaria. Contudo, em sua avidez por um acordo (bargain), no
seu fervor (zeal) de explicar demasiado e rápido demais, cien-
tistas e filósofos freqüentemente subestimam as complexida-
des, tentando pular camadas e níveis inteiros da teoria no seu
afã de fixar tudo de forma segura e próxima aos alicerces. Este
é o pecado do reducionismo voraz, mas note que é somente
quando o zelo excessivo conduz à falsificação do fenômeno
que deveríamos condená-lo. Em si mesmo, o desejo de reduzir,
de reunir, de explicar tudo em uma teoria abrangente, não é para
ser mais condenado como imoral do que o ímpeto contrário
que conduziu Baldwin a suas descobertas. Não é errado aspirar
por teoria simples, ou sentir-se atraído por fenômenos que ne-
nhuma teoria simples (ou complexa!) poderia explicar; o que é
errado é a deturpação entusiasmada, em ambas as direções.263
Esta passagem resume e explica claramente a proposta
dennettiana da classificação tripartite apresentada acima. O pro-
blema é que nela Dennett só critica o método de cada uma, quan-
do, em outras partes do livro, entendemos que a diferença está
nos princípios, nas premissas, e nos propósitos de cada um de
seus membros. Procuramos delimitar acima, em linhas gerais, o
que consideramos ser a essência desta diferença. No caso da

&(*
MARCELO LAND

moralidade, queremos mostrar que Dennett age mais uma vez como
um compatibilista que quer conservar as conquistas de nossa so-
ciedade no terreno da ética, ao mesmo tempo em que defende a
abordagem naturalista darwinista aos fenômenos culturais e mo-
rais humanos. O resultado desta abordagem é certamente
questionável, mas, pelo que parece, Dennett tem boas razões para
apostar nela.
Na definição de Dennett, o naturalismo consistiria na proposta
de encontrar aspectos fundamentais, baseados em considerações
sobre a natureza humana, a fim de possibilitar uma vida boa para
o homem. Ele afirma que não se pode refutar esta proposta so-
mente pelo fato óbvio que não se pode derivar proposições éticas
de proposições factuais. Este tipo de argumento não poria em
cheque o naturalismo com objetivo teórico.
Uma distinção clássica da filosofia é a das condições necessá-
rias e das condições suficientes para se fazer as coisas. Uma atitu-
de compreensível é negar que os conjuntos dos fatos acerca da
natureza do mundo são suficientes para fundar uma conclusão
ética. Outra é negar que qualquer destes conjuntos possam ser
necessários. De acordo com a doutrina padrão, nós nunca encon-
traremos qualquer conjunto de fatos com o qual qualquer conclu-
são ética possa ser conclusivamente provada.
Dennett acredita que se pode responder a estas afirmações re-
tóricas com outras perguntas retóricas: se não se pode derivar o
“deve” do “é”, do que o “deve” pode, afinal, ser derivado? Seria a
ética um campo de inquérito completamente autônomo? Surgiriam
nossas intuições morais de algum inexplicável módulo ético implan-
tado em nosso cérebro?
Para a pergunta “do que se pode derivar o ‘deve’?”, Dennett
afirma que a mais atrativa resposta é: a ética deve ser, de algum
modo, baseada em uma apreciação da natureza humana – no sen-
tido do que o ser humano é ou deveria ser, em o que o ser huma-

&(!
A MENTE EXTERNA

no deve querer ter ou querer ser. Se isto é naturalismo, então ele


não é uma falácia. Ninguém poderia seriamente negar que a ética
é responsiva a fatos sobre a natureza humana, quer estejam pre-
sentes em novelas, em textos religiosos, em experimentos psi-
cológicos e em investigações antropológicas ou biológicas. A
falácia não seria o naturalismo em si, mas, ao contrário, qual-
quer tentativa simplificada de passar rapidamente de fatos a va-
lores. Em outras palavras, a falácia é o reducionismo voraz de
valores a fatos, ao invés do reducionismo mais prudente, que
tenta unificar as nossas visões de mundo, ao ponto que nossos
valores éticos não se oponham irracionalmente à maneira como
o mundo é.
Comparando ambas as propostas, notamos que o reducionista
voraz transforma fatos em valores e depois propõe normas éticas.
O reducionista prudente pretende reduzir as diversas visões de mundo
a uma única e abolir as normas que contrariem a visão unificada.
Com isso, podemos compreender o seu projeto naturalista como
sendo capaz de funcionar como filtro para memes da moralidade.
Neste caso, embora as proposições factuais não estejam sendo a
base para se derivar proposições éticas, elas estariam funcionando
como princípio de segunda ordem, possibilitando a escolha entre
diferentes propostas éticas. A idéia da existência de uma concepção
do mundo como ele é, utilizada para construir a visão unificada ne-
cessária, significa privilegiar o discurso científico em relação aos
outros presentes na infosfera, e desqualificar todos os discursos,
considerados incoerentes com o padrão vigente. Este padrão é o
materialismo e o fisicalismo.
Existem muitos aspectos problemáticos em sua proposta. Nes-
te momento, só serão examinados alguns deles.
Dennett parece ter razão em constatar que a mera crítica da
impossibilidade lógica de derivar proposições do tipo ought de pro-
posição do tipo is não é suficiente para aniquilar o projeto naturalis-

&("
MARCELO LAND

ta. Pode-se propor um sistema de justificativas de ações, que se


baseie em considerações sobre alguma forma de conceber a nature-
za humana. Sabemos que apresentar justificativas para os atos faz
parte do que chamamos agir racionalmente no sentido proposto por
Davidson. Assim, procurar justificativas em discursos científicos é
tão válida como qualquer outra procura de justificação. Contudo,
isto não quer dizer que é necessário justificá-las sempre em discur-
sos deste tipo. Dennett não apresenta nenhuma explicação para a
necessidade de utilizar este tipo de discurso como filtro para os
memes da moralidade.
Não nos parece que Dennett esteja propondo nenhum tipo de
fundação racional para a ética. Em nenhum momento, ele procura
convencer o leitor de que existe um modo racional de fundamen-
tar as proposições éticas em algo transcendental, chamado fatos
da vida.
No entanto, não fica claro se ele está cedendo à critica que Rorty
lhe fez sobre alguns aspectos reducionistas e realistas de seu traba-
lho. Dennett parece estar o tempo todo dizendo que as propostas de
Darwin sobre a evolução são efetivamente sobre o que acontece no
mundo, e não um discurso que fala sobre o mundo. Ele poderia
muito mais claramente propor que a redescrição darwiniana sugere
uma imagem moral de homem que ajuda a produzir justificativas
sedutoras para nossas intuições morais, que atinge mais eficazmen-
te o sentimento de um número considerável de homens neste final
de século, que substitui com vantagem os memes de cunho reli-
gioso, ajudando a conservar o ideal democrático. Embora ele não
seja textual neste sentido, isto é o que a sua proposta final realmente
implica.

Um projeto para a psicologia da moral e uma proposta de valor.


Assim como tinha feito em Elbow Room com os modelos de
racionalidade de Kant e de auto-eleição do self de Sartre, no penúl-

&(#
A MENTE EXTERNA

timo capítulo de seu livro Darwin’s dangerous idea: evolution and


the meanings of life, Dennett aborda o problema da moralidade a
partir da crítica do conseqüencialismo de John Stuart Mill e uma
visão da abordagem kantiana à moral. Ambas seriam idealizações
esclarecedoras, que, no entanto, fracassam ao serem aplicadas aos
problemas práticos. Vejamos resumidamente o ataque a cada uma
desta posição:
Conseqüencialismo de Mill: um dos ataques célebres à posição
de Mill era que não haveria tempo prévio à ação, para realizar
todos os cálculos e pesar todos os efeitos de uma conduta para a
felicidade geral. Mill tentou replicar com a metáfora do almanaque
náutico, que os marinheiros usam para navegar. No almanaque
estariam contidas todos os cálculos e diretrizes para as ações,
que, tendo sido feito anteriormente à necessidade de seu uso, re-
solveriam o problema da escassez do tempo. Dennett destaca que
a resposta de Mill foi ilusória, porque deturpou a questão que de-
via responder. Utilizando o exemplo dos que têm de construir pro-
gramas capazes de jogar xadrez, que é na verdade um tipo de
almanaque, ou algoritmo sofisticado, ele afirma que, ao contrário
deste jogo, na vida não há um objetivo claro, um xeque mate, que
pudesse ajudar a avaliar de forma retroativa a validade de uma
conduta. E seria esta característica principal que evitou até hoje a
construção de um algoritmo computadorizado para produzir boas
decisões morais, principalmente porque se tem que levar em con-
ta que lidamos com pessoas inteligentes, diante de situações com-
plexas e, muitas vezes, indeterminadas em nível macroscópico.
Assim, usar o cálculo das utilidades esperadas de todas as alterna-
tivas presentes em uma conduta seria uma impossibilidade práti-
ca, e portanto uma teoria prática da decisão moral não poderia ser
proposta a partir dela.
O recurso ao imperativo categórico kantiano: Dennett toma uma
das versões do imperativo categórico de Kant – a saber, “age so-

&)%
MARCELO LAND

mente com a máxima através da qual você pudesse ao mesmo tem-


po propor se tornar uma lei universal”264 – como se fosse uma re-
comendação para a aplicação prática cotidiana. Assim, ela seria uma
espécie de teste empírico, através da qual o agente selecionaria as
máximas que governariam suas ações. Diante desta interpretação
muito particular do imperativo categórico, ele afirma que esta
idealização também não funcionaria na prática, porque o número de
máximas seria infinito para que se pudesse propor examiná-las.265
Diante desta crítica, Dennett propõe o seu modelo. Para es-
clarecermos esta proposta, reconstruiremos o exemplo que ele
utiliza.
Ele imagina que um departamento de filosofia resolveu admi-
nistrar uma verba generosa através do custeio de um estágio de 12
anos do aluno de filosofia mais promissor do país, que seria sele-
cionado por um concurso anunciado no Journal of Philosophy.
Todavia, para desespero dos organizadores, foram recebidas
250.000 inscrições válidas, com currículos, amostras de trabalhos
escritos e cartas de recomendação. Um cálculo rápido mostrou
que para fazer a análise de todo este material no tempo previsto
para a divulgação do resultado seria necessário paralisar as outras
atividades do departamento e consumir todo o recurso da verba
proposta para financiar o ganhador. Em suma, todo o esforço se-
ria inútil.
O que se deveria fazer? Escolher condições de elegibilidade?
Para isto, já era tarde, porque nenhuma constava no edital do
concurso. Todos os candidatos inscritos deveriam ser considera-
dos elegíveis para concorrer ao prêmio.
Com este exemplo, Dennett quer mostrar, em câmara lenta, as
características gerais da tomada de decisão em tempo real. Em
primeiro lugar, existe a impossibilidade física de considerar todas
as coisas no tempo devido. No exemplo, todas as coisas são so-
mente o material finito dos documentos dos 250.000 candidatos.

&)$
A MENTE EXTERNA

Os avaliadores também dispõem de todas as informações neces-


sárias para a tomada de decisão. Em segundo lugar, existe a ne-
cessidade de utilizar regras de corte de segunda ordem. No caso,
poder-se-ia escolher o coeficiente de rendimento do aluno, que
embora não fosse o melhor, seria melhor que o peso e a grossura
do currículo, que seria melhor que o número de letra no sobreno-
me do candidato. A regra escolhida deveria ser um balanço de
aplicabilidade e confiabilidade. Contudo, se ninguém conseguisse
pensar em uma tal regra de forma rápida, seria melhor eliminar
esta etapa e partir para o sorteio. Em terceiro lugar, ainda que o
sorteio representasse a abdicação parcial do controle do proces-
so, os organizadores ainda assumiriam a responsabilidade pela se-
leção. Em quarto lugar, poderia haver uma fase em que se tentaria
salvar a intenção inicial do concurso, monitorizando, corrigindo,
verificando e melhorando o resultado final de alguma forma. Em
quinto lugar, o resultado final sempre será vulnerável aos olhos de
uma segunda avaliação, porém “o que está feito está feito. Você
deixa ficar o resultado e continua com os outros afazeres. A vida
é curta”.266
Ele explica que esta descrição do processo de tomada de decisão
é de Herbert Simon, que o chamou, em 1957, de “satisficing”.
Dennett procura mostrar que este processo se repete em várias
etapas do processo de tomada de decisão envolvidas neste sim-
ples dilema prático. Não os reconstruiremos aqui. Basta que nos
lembremos das cinco etapas propostas e, principalmente, da dis-
cussão que tivemos no segundo capítulo.
Dennett acha que os fundamentos do “satisficing” constitu-
em uma estrutura básica de todas as tomadas de decisão na moral,
no cálculo prudencial, na economia e mesmo nas decisões da
Mãe Natureza. Mas dizer que é básica não é querer dizer que é a
melhor forma de tomar decisões. Porém, dadas as característi-
cas de nosso design, ele deveria ser reconhecido como bom,

&)&
MARCELO LAND

justificado, defensível e obrigatório. Ele está claramente apos-


tando que existe uma forma de justificar que os modelos que
usamos para as avaliações normativas das nossas condutas de-
vem se basear nas descrições, que admitimos como válida para
definir o que nós somos, e a forma como nós pensamos. Isto
que acabamos de tentar definir é o Princípio Fatunorm de
Wertheimer,267 de que Dennett se apropria através de uma cita-
ção explícita. Esta seria a melhor solução encontrada dada as
nossas limitações como seres racionais.
Resgatado este modelo, que, como se pode ver, é uma cons-
tante na obra de Dennett, passaremos a examinar o papel que
atribui às regras morais neste contexto. Qual é a função dos juízos
ou regras morais na nossa tomada de decisão prática? Como po-
deríamos ajudar a regular, ou, ao menos, melhorar, nossa tomada
de decisão ética, se ela é heurística, míope e sofre com a pressão
do tempo? Dennett responde: pela construção de hábitos de pen-
samento “alertas” e “sábios”, que regularmente iriam chamar a
nossa atenção para direções que não nos arrependêssemos ao olhar-
mos para trás. Poderíamos ter vários hábitos de pensamentos di-
ferentes, cada um preocupado em proteger, de forma mesmo que
restrita, certos interesses.
Porém, um novo tipo de problema surgiria: como deter a cacofonia
destes hábitos? Precisaríamos de hábitos para cessar a conversação
(conversation-stoppers). Portanto, além de geradores de conversa-
ção apropriados e bem ajustados temporalmente, teríamos de ter
geradores de silêncio na conversação. Necessitaríamos de certos
ardis lingüísticos (ploys) para terminar arbitrariamente as reflexões
e explicações dos geradores de conversação, independente do con-
teúdo específico do debate. Estes ardis lingüísticos não poderiam
ser como as palavras mágicas que funcionam bem como etapas de
controles nos programas de inteligência artificial. Os circuitos espe-
cialistas na defesa de determinados interesses poderiam ser descri-

&)'
A MENTE EXTERNA

tos, com a ajuda da atitude intencional, como reflexivos e racionais


dentro dos limites impostos pela sua estreiteza mental, devendo ser
compreendidos pela perspectiva dos sistemas intencionais dos mís-
seis teleguiados. Eles precisam ser atingidos e bloqueados por algo
que lhes pareça racional, para que possam ser desencorajados de
refletir. Em suma, Dennett está tentando nos mostrar como se pode
bloquear as diferentes partes constituintes de um processo
deliberativo, por princípio interminável, em um sistema concebido
como multideterminado ou indeterminado, devido ao fato de ser
um composto de múltiplos circuitos especialistas, ativados por pro-
cessos de randomização, chamados resumidamente de geradores
de conversação. Está acrescentando também que os geradores de
silêncio da conversação têm que ter uma forma racional para poder
influenciar com sucesso os seus endereçados. Logicamente, existe
um balanço delicado entre os dois tipos de geradores, com exageros
para ambos os lados, isto é, deliberações extensas que perdem o
sentido de oportunidade e ações precipitadas devido à parca consi-
deração das variáveis do problema.
Entretanto, Dennett acha que não se pode esperar uma solu-
ção estável para este problema de design, mas apenas equilíbrio
incerto e temporário. Os geradores de silêncio na conversação ten-
deriam a acumular, como se fossem pérolas, camadas de dogmas
de suporte (supporting Dogma), contra os quais eles mesmos não
poderiam impor exame minucioso e demorado, mas que serviriam,
em muitas ocasiões, para desviar ou terminar as diversas conside-
rações do processo deliberativo. Ele oferece os seguintes exemplos
destes dogmas:
“‘mas isto faria mais mal do que bem’
‘mas isto seria assassinato’
‘mas isto seria quebrar uma promessa’
‘mas isto seria usar alguém meramente como meio’
‘mas isto seria violar um direito das pessoas’”268

&)(
MARCELO LAND

Parece claro o caminho para o qual Dennett nos conduziu ao


longo de toda a sua obra. Os juízos morais são significativos para
nós, porque dependemos deles para sobreviver, porque funcionam
de maneira fundamental como condutores e bloqueadores de nosso
processo deliberativo. Na realidade, eles dão forma aos nossos há-
bitos de pensamento, que, sem eles, devido à finitude de nosso design,
estariam sempre defasados no tempo e despropositados em relação
aos contextos. Descrever desta maneira a importância dos juízos
morais é quase que dizer que só precisamos deles porque não so-
mos racionalmente prefeitos. A linguagem prescritiva é uma neces-
sidade de seres sujeitos a atitudes sintáticas ou capazes de utiliza-
rem imoderadamente a deliberação.
Resgatando Benthan, que teria dito, certa vez, que direitos natu-
rais e imprescritíveis seriam um não senso sobre alicerces, Dennett
replica que se é assim eles seriam um bom não-senso sobre alicer-
ces, porque desta forma estariam acima de qualquer nível de meta-
reflexão – claro que “não indefinidamente, mas usualmente ‘alto o
suficiente’”269 – para se declararem princípios primeiros obrigató-
rios, e, conseqüentemente, serem bloqueadores de conversação
eficientes. Com isto, independente do caráter arbitrário do con-
teúdo destes juízos morais, é uma bênção que eles existam para nos
ajudar a funcionarmos cognitivamente bem, ou seja, vivermos bem.
Ele acrescenta que venerar regras de um certo tipo é uma coisa
boa para agentes projetados (designed) como nós somos. Esta
veneração não deve ser explicada porque existe um conjunto de
regras melhores, que irão nos conduzir a maioria das vezes às
respostas certas, mas porque ter regras funciona, e não ter não dá
certo. Claramente, pode-se ver o ataque a toda justificativa da
racionalidade de se ter regras. Não temos regras somente porque
somos racionais e queremos respostas adequadas de qual seria a
melhor maneira de agir – já que, devido às considerações de Dennett,
não saberíamos quais seriam os critérios para dizer que uma condu-

&))
A MENTE EXTERNA

ta foi adequada a curto prazo e nem haveria tempo para avaliar


todas as possíveis máximas –, mas porque precisamos agir, apesar
de nossa racionalidade marginal. Neste sentido, o conteúdo das re-
gras morais é de certo modo arbitrário, e a sua função no conjunto
do sistema é dada pela sua forma sintática e uso cognitivo.
Dennett salva-nos, contudo, da total falta de racionalidade na
nossa relação com as regras morais, ao afirmar que somente ter
regras não garante a ação correta. Portanto, a mera existência de
regras não pode ser vista como uma solução simples para o pro-
blema do design. O agente tem de ter um meio de encontrar uma
fórmula correta e utilizá-la. Ele deve ter uma forma de ter um
conjunto de regras finitas e adequadas para lidar com os desafios
do ambiente, que inclui ter de enfrentar ou cooperar com outros
seres com as mesmas habilidades cognitivas. Ele precisa de um
conjunto de dogmas inquestionáveis que o torne impermeável à
hiperracionalidade, constituindo o que ele chama de manual de
primeiros socorros moral, que deve ser considerado bem produ-
zido se atingir de maneira acurada a sua audiência: os agentes para
os quais se endereça. A conseqüência disto é a proposta de exis-
tência de vários manuais de primeiros socorros morais a depender
da audiência.
Esta proposta, segundo Dennett, pode provocar o protesto de
vários filósofos, por dois motivos básicos:
1- Isto sugere que há razão para dar mais atenção aos meios
retóricos e racionalmente impuros ou parciais de persuasão. Com
isto, a audiência racionalmente ideal dos éticos é posta em dúvida.
2- Sugere também que o que Bernard Williams chamou do
ideal de transparência da sociedade – que poderia ser definido
como a exigência de compreensão dos membros de uma socieda-
de da forma como funciona suas instituições éticas – é um ideal
que pode ser politicamente inacessível para nós. É melhor consi-
derar que seríamos afortunados se encontrássemos qualquer via

&)*
MARCELO LAND

racional e transparente que fosse do que somos agora para o que


gostaríamos de ser. Como ele diz: “A paisagem é rude, e pode não
ser possível atingir aos mais altos picos, de onde, hoje, acharmos
a nós mesmos”.270
Finalmente, Dennett considera que existe uma enorme compe-
tição entre os memes da moralidade a fim de atrair a atenção dos
bem intencionados. No entanto, ele não expõe nenhuma teoria
explícita de como produzimos os nossos manuais de primeiros
socorros morais. Não existe uma teoria de eleição ou de conver-
são afetiva a valores. Ele deixa o problema em aberto, com a
seguinte frase:
O papel das fórmulas tradicionais da discussão ética como dire-
toras de atenção, ou formadoras de hábitos de imaginação moral,
como meta-memes par excellence, é assim um assunto que mere-
ce posterior investigação.271
Terminada a exposição do que se pode chamar de uma contri-
buição naturalista para a psicologia da moral, iremos descrever e
avaliar a sua proposta de um conjunto de valores, com base nas
suas descrições naturalistas darwinistas, para formarmos os nos-
sos manuais de primeiros socorros morais.
Iniciaremos a discussão com uma citação que nos parece
condensar o tipo de efeito persuasivo que Dennett pretende alcan-
çar através de sua abordagem naturalista:
Quanto tempo levou para que Johann Sebastian Bach criasse a
Paixão segundo São Mateus? Uma primeira versão foi feita em
1727 ou 1729, mas a versão que nós ouvimos hoje data de dez
anos mais tarde, e incorpora muitas revisões. Quanto tempo
levou para se criar Johann Sebastian Bach? Ele teve o benefício
de quarenta e dois anos de vida, quando a primeira versão foi
ouvida, e mais de meio século quando a última versão foi com-
pletada. Quanto tempo levou para se criar a Cristandade sem a
qual a Paixão segundo São Mateus seria inconcebível para
Bach ou qualquer outro? De modo grosseiro, diríamos dois mi-

&)!
A MENTE EXTERNA

lênios. Quanto tempo levou para se criar o contexto social e


cultural no qual a Cristandade pôde nascer? Alguma coisa en-
tre cem mil anos ou três milhões de anos – dependendo de
quando decidimos datar o nascimento da cultura humana. E
quanto tempo levou para se criar o Homo sapiens? Entre três
ou quatro bilhões de anos, grosseiramente o mesmo intervalo
de tempo que levou para se criarem margaridas e lesmas, balei-
as azuis e corujas manchadas. Bilhões de anos insubstituíveis
de trabalhos de design.272
Nesta passagem, Dennett reuniu alguns dos mais admirados
designs que estão à nossa disposição. Tradicionalmente, talvez
quiséssemos dividi-los entre designs produzidos pela natureza e
designs produzidos pela cultura, graças a este ser-interface cha-
mado homem. Contudo, rompendo com esta antiga concepção,
Dennett procura mostrar que todos estes designs são personagens
daquilo que ele chama Árvore da vida – uma figura virtual, com-
posta de todos os designs atualmente presentes ou extintos produ-
zidos pelos processos algorítmicos da Mãe Natureza. Sem a con-
tribuição de Charles Darwin, jamais teríamos podido encontrar
esta visão. Saindo do plano da pura descrição da Árvore da vida,
Dennett quer colocá-la em um local específico em nossa existên-
cia. Ele quer que nos sintamos seduzidos pela beleza de cada um de
seus designs e passemos a venerar a árvore da vida como mais um
design, sem que ela esteja encantada por nenhum princípio vitalista
misterioso.
A sua tese é uma apologia à biodiversidade, no que se refere
tanto ao produto fenotípico dos genes quanto ao dos memes. Ele
pensa que a Árvore da vida pode ser posta com vantagens no
lugar de Deus como objeto de glorificação – embora não haja mo-
tivos para tal, já que nenhum processo misterioso explica sua exis-
tência. Ele ataca e chega mesmo a sugerir um combate frontal
contra a política de censura implantada pelos memes religiosos,
que pretendem impedir a divulgação da revolução darwiniana na

&)"
MARCELO LAND

infosfera. Ele admite, porém, que por respeito aos designs e memes
criados por esta árvore, poderíamos ainda querer conservar al-
guns aspectos deste apego religioso. Contudo, ele sugere, em
muitas passagens, que o melhor lugar para a religião seria o zooló-
gico cultural.
Inicialmente, é difícil perceber como Dennett fugiu da tentação
positivista de propor os esquemas conceituais dos darwinianos
modernos como campo meta-ético capaz de fundamentar de forma
maciça as intuições morais do ocidente. A pista fundamental para
perceber seu intuito é a diferenciação entre um projeto especulativo
e um projeto normativo. O primeiro pretende propor uma recons-
trução do que houve na história evolutiva humana que possa expli-
car e justificar o significado das intuições e ações morais – um
projeto de um reducionista voraz. O segundo não é uma reconstru-
ção, é um instrumento para tornar claras as intuições morais, mos-
trando como as coisas deveriam ser para serem corretas. A glorifi-
cação da Árvore da vida e a louvação à biodiversidade não são a
conseqüência lógica das descobertas das ciências biológicas e
evolucionárias; são, principalmente, um convite a aceitar uma nova
imagem moral. Neste sentido, este trabalho de Dennett se aproxima
da tarefa do filósofo moral proposta por Rorty no seu artigo direitos
do homem racionalidade e sentimentalidade: ele deve ser um
sintetizador das intuições morais da sua sociedade, um escritor de
resumos destas intuições.
Na verdade, Dennett torna evidente que obras filosóficas com
conteúdos científicos podem também funcionar como roman-
ces edificantes. Ao descrever a construção e aplicação dos con-
ceitos darwinianos, ele demonstra como a vida pode ser o senti-
do dela mesma, falando-nos de seus aspectos heróicos e nos
seduzindo a nos identificarmos com o conceito pluralista de
biodiversidade. Atendendo ao apelo deste conceito, poderíamos
querer conservar vivas em museus as lembranças de memes tão

&)#
A MENTE EXTERNA

dolorosos como as do nazismo e as da intolerância das crenças


religiosas fundamentalistas, ao lado das canções ingênuas de nossa
infância.
O que nos parece atraente na posição de Dennett não é a sua
proposta reducionista prudente, nem o seu menosprezo cientificista
pela religião. Estas posições fundamentam-se na pretensão de que
existe alguma coisa como a forma como o mundo é, e na existên-
cia de critérios neutros para se escolher a visão darwiniana de
árvore da vida em detrimento das descrições religiosas da criação.
As críticas de Rorty, apresentadas na introdução da livro e assu-
midas como relevantes por nós, não permitiriam que acatássemos
na íntegra o aspecto reducionista prudente, embora o considere-
mos brando, por tudo o que discutimos na seção anterior, sendo
na verdade uma tentativa compatibilista de criar um mundo segu-
ro para cientistas e libertários.
Com maior proveito, podemos ver sua formulação conclusiva
como uma descrição alternativa e sedutora da pessoa. Nesta vi-
são, não haveria uma lacuna entre natureza e cultura, já que as
pessoas e os memes seriam frutos de mecanismos algorítmicos
semelhantes ao da evolução por seleção natural, fazendo parte da
árvore da vida. Ao se afirmar esta visão, não é necessário ser
reducionista em nenhum tipo de versão. Tudo que é preciso é
recomendá-la como uma proposta normativa para avaliar proposi-
ções éticas. Para isto, no entanto, é preciso não nos contaminar-
mos com o realismo residual de Dennett e com a crença de que a
ciência é o único meio de produzir proposições que devêssemos
dar atenção.
Para nós, com o trabalho de Dennett, os naturalistas têm no
mínimo um motivo para refletirem se têm lugar nas discussões
éticas, embora só o futuro possa dizer que tipo de argumento
usarão para justificar sua legitimidade.

&*%
MARCELO LAND

Conclusão
Nesta conclusão, iremos retomar algumas das nossas propostas
inicias. Devemos verificar se a descrição naturalista da pessoa se-
gundo a visão de Daniel Dennett contribuiu de fato, e de que manei-
ra, para abalar o prestígio da metáfora da oposição natureza x cultu-
ra. Para empreendermos esta verificação, necessitamos definir o
que se deve entender por “abalar o prestígio de alguma coisa”, ou
seja, quais são as premissas subjacentes a este tipo de afirmação.
Ela deve ser situada no contexto da idéia de conversação da hu-
manidade, utilizada por Richard Rorty. Segundo esta idéia, o nosso
conceito de conhecimento deveria mudar o foco “da relação entre
seres humanos e objetos de seu inquérito para a relação entre pa-
drões alternativos de justificação, e daí para as efetivas alterações
nesses padrões que formam a história intelectual”.273 Assim sendo,
abalar o prestígio de uma metáfora significa, em primeiro lugar,
reconhecer que o que chamamos de metáfora é um padrão novo de
justificação, que foi proposto a uma comunidade e que, no caso em
discussão, se tornou literal desde o século XVIII. Em segundo lu-
gar, devemos reconhecer que, para abalar o prestígio de um padrão
de justificação, necessitamos propor um outro padrão alternativo à
comunidade, para que seja obtido um convencimento generalizado.
Porém, a expressão “obter um convencimento generalizado” tam-
bém precisa ser definida. Por ela, entendemos que alguém tenta
lançar mão dos recursos disponíveis necessários para que o padrão
de justificação que ele defende venha a se tornar literal, ou seja, as
pessoas adquirem familiaridade com ele e passam a utilizá-lo.
Em um sentido, quando alguém pretende que haja uma aquisição
de familiaridade como um padrão de justificação, pode-se notar que
ela espera que haja uma maior pluralidade de idéias a serem discuti-
das. Este tipo de participante da conversação gostaria de ver a dis-
cussão sobre determinados temas aumentar e que um maior núme-
ro de pessoas se tornasse autoconsciente do espírito que norteia

&*$
A MENTE EXTERNA

este diálogo. Se, ao final empírico da conversação, muito houver


sido dito e um maior número de pessoas forem convencidas da sua
importância, ele terá alcançado seus objetivos. Pois seu desejo de
solidariedade terá sido em parte satisfeito.
Em outro sentido, alguém poderia pretender a aquisição da fami-
liaridade com um determinado padrão, com a finalidade de estabele-
cer a sua hegemonia. Este tipo de participante, embora norteado
pela idéia de conversação e tendo compreendido o sentido do con-
ceito de desejo de solidariedade, acredita na superioridade – aqui
também seria necessário refletir sobre o que se deve entender como
isto – do que está defendendo. Ele argumentaria que existem crité-
rios bem definidos, denominados de regras de racionalidade e obje-
tividade, que definem quando um participante ganha a argumenta-
ção e, portanto, demonstra a superioridade de seus padrões de jus-
tificação. Ele não precisa ser visto como expressando o desejo de
objetividade, descrito por Rorty, porque bastaria que argumentasse
que é por reconhecer que estes padrões de objetividade são
etnocêntricos e fundamentais para nossa comunidade que ele está
defendendo que eles permaneçam como esteio da conversação. Ele
usaria os argumentos rortianos contra os filósofos rortianos ingê-
nuos.
Alguns participantes, influenciados pela idéia de que mesmo os
padrões de objetividade são relativos a um momento de uma cul-
tura, proporiam que eles não mais deveriam ser utilizados para
avaliar os resultados da conversação. Para o seu lugar, os defen-
sores desta posição proporiam toda uma série de padrões alterna-
tivos de avaliação. Os de inspiração nietzschiana falariam de uma
disputa de potência entre os padrões de justificação. Os intelectu-
ais mais céticos em relação à força das palavras diriam que nada,
incluindo o poder, poderia ser usado para mediar a contenda, e,
talvez, apostassem na força da propaganda, no poder sedutor das
imagens, como aquilo que iria ter o papel decisivo.

&*&
MARCELO LAND

No meio disto tudo, poderiam surgir os apaziguadores


irresolutos, que afirmariam que existem foros diferentes. Em al-
guns, os critérios de racionalidade, tomados como objetividade,
exerceriam ainda seu papel de juiz. Em outros, seria necessário a
retórica e o apelo à propaganda. Em muitos, seria necessário es-
perar o equilíbrio do poder. Ainda em poucos, deveríamos apelar
para o sentimento dos participantes.
Onde nós nos situamos? A posição que mais nos comove é a
do que gostaríamos de chamar posição dos pluralistas ecológi-
cos, que não parece ser nenhuma destas acima. Para eles, sua
participação em uma comunidade não é meramente a solidarie-
dade, que todos os descritos demonstram a sua maneira. Eles
vêem o mundo como uma sucessão de formas de vida, que cri-
am valores e propõem a validade do conceito de convencimento.
Eles defendem a preservação de cada uma desta formas em sua
dignidade. Contudo, vendo-se também como mais uma forma de
vida, reconhecem que têm de usar algum tipo de critério para
julgar os acontecimentos do mundo. Estes critérios são os de
sua comunidade, com a qual eles pretendem ter um grande grau
de identificação. No entanto, apesar de reconhecer uma certa
arbitrariedade no conteúdo destes critérios, e de saber do papel
normativo exercido por eles, eles não os pretendem situar em
um lugar intocável. Preferem dizer que estes critérios têm uma
certa centralidade em relação às suas vidas e por isto sempre os
procuram defender, mas isto não implica uma certeza absoluta a
priori de que não os poderiam abandonar. Estes pluralistas eco-
lógicos poderiam negociar quase tudo, desde de que alguns de
seus valores mais fundamentais fossem assegurados em seu pa-
pel normativo. Alguns destes valores são: defender os direitos
humanos, a idéia de pluralidade, a liberdade, o respeito às for-
mas de vida e a crítica à crueldade. Contudo, por reconhecer a
contingência destes valores, eles não cessarão de afirmar junto

&*'
A MENTE EXTERNA

com os apaziguadores irresolutos a necessidade de estratégias


bem articuladas nos diversos foros.
É lógico que haverá diferenças dentro do grupo dos pluralistas
ecológicos, já que a diferença é um padrão estético muito aprecia-
do por eles. Alguns deles apostarão que a literatura é a forma
privilegiada para se obter o convencimento generalizado. Outros,
não entendendo precisamente o que significa “forma privilegiada
para se obter o convencimento”, dirão que todos têm direito de
participar da discussão e que nenhum grupo tem privilégios de
hegemonia, deixando entrar os filósofos e os cientistas, que haviam
sido desqualificados para o debate.
Pois bem, é neste sentido que gostaríamos que a discussão
deste livro fosse entendida. Para nós, Dennett é um participante
deste debate, merecedor da mesma dignidade que todos os outros.
Ele é também representante de uma forma de vida, cujas origens
procuramos traçar no naturalismo pragmático, no pragmatismo
moderno, no holismo, no cientificismo e em uma leitura naturalis-
ta da tradição filosófica. Desta forma, sua contribuição deve ser
entendida como tendo várias dimensões, que, neste livro, foram
exploradas para verificar se ele é capaz de ajudar a nos conven-
cermos de que pessoas são frutos da criação e que não há ruptura
essencial entre nós e o que poderíamos chamar de natureza. Ou-
tra intuição presente em nossa cultura que pretendíamos justificar
a partir de Dennett é que por sermos seres da natureza devería-
mos demonstrar respeito à dignidade dos seres que vivem, desde
que se compreenda que viver não está se referindo aqui à posse
de nenhum princípio vital, mas simplesmente à possibilidade de
ser incluído na árvore da vida.
Na verdade, se refletirmos bem, Dennett e os naturalistas
pragmáticos em geral não estão criando ou descobrindo valores
a partir de sua abordagem naturalista. Eles estão projetando os
valores de sua comunidade, associados a alguns preconceitos

&*(
MARCELO LAND

cientificistas e até positivistas, na forma de interpretar a natureza


e depois os resgatando dela. Em suma, valores estão gerando
valores. Neste sentido, o conceito de biodiversidade é uma tra-
dução biológica do conceito de respeito a pluralismo, que ga-
nhou destaque crescente nas comunidades democráticas ociden-
tais nos últimos 50 anos.
Se eles não estão descobrindo novos valores, o que é que estão
fazendo quando pretendem dar uma contribuição para a ética?
Para nós, eles estão contribuindo para nos tornarmos mais
autoconscientes de nossos valores da mesma forma que os ro-
mancistas com suas tristes histórias, descritos no elogio de Richard
Rorty. E isto não é surpreendente de acordo com os próprios ar-
gumentos dennettianos, porque ele concebe pessoas com cérebros
invadidos por memes. Estes memes são os que estão disponíveis
para o uso pelas criaturas gregorianas, e entre eles estão todos os
que descrevem nossos mitos democráticos.
Parece que podemos então nos justificarmos da mesma for-
ma: com este livro pretendemos contribuir para que o conceito
de respeito à vida ou às formas de vida em toda a sua singulari-
dade pudesse se tornar mais conscientizado, ao concebermos as
pessoas como fazendo parte da Árvore da vida. Não pretende-
mos, contudo, justificar as abordagens sociobiológicas vorazes,
as tentativas de explicação em ética e a construção de um novo
ícone essencialista e sagrado chamado Vida, com os quais al-
guns participantes mais conservadores tentariam bloquear as dis-
cussões fundamentais sobre o direito ao aborto, à eutanásia, ao
suicídio supervisionado em casos de sofrimentos físicos irre-
mediáveis, a pena de morte, o direito de clonagem humana e
outros tantos temas significativos, que, de uma forma ou de ou-
tra, envolvem refletir sobre as condições de exceção à premissa
de que os seres que merecem respeito a sua dignidade são aque-
les que vivem.

&*)
A MENTE EXTERNA

Na verdade, este tipo de participante mais conservador é funda-


mental para o debate destes temas, e deve-se dar a eles todas as
oportunidades de usar os vocabulários que escolherem, mesmo os
mais essencialistas, se for o caso, para que nos ajudem a aumentar
nossa autoconsciência. Estes problemas, como todos sabemos, não
são de fácil solução, e devemos reconhecer que é uma sorte que
seja notada a sua dificuldade.
Porém, os personagens mais intratáveis do debate são os que
podemos chamar de reducionistas e eliminativistas levianos. Na
verdade, gostaríamos de vê-los em museus ao lado dos nazistas e
dos biólogos racistas. Eles pretendem justificar a eliminação de
uma parte fundamental de nosso esquema conceitual, para usar o
termo de Davidson, não aceitando qualquer tentativa de
compatibilização. A conseqüência desta postura é provocar a eli-
minação da parte de nossa linguagem em que está boa parte de
nossos valores e conceitos normativos, o que é bem pior em ter-
mos morais do que correr o risco de cometer falácia naturalista.
Por sorte, vários eliminativistas têm reconhecido recentemente as
falhas conceituais de seu projeto, e, com isto, parecem poder con-
tribuir novamente para o debate sobre a nossa auto-imagem como
pessoas neste novo século. Nós não pretendemos com este livro
vislumbrar ou prever qual será o tom deste debate, só queremos
ressaltar uma descrição alternativa possível.

&**
MARCELO LAND

Notas

1 Humanities é a rubrica que engloba o conhecimento que, em língua


inglesa, equivale aproximadamente à expressão francesa “sciences
de l’hommes” ou, no Brasil,ciências sociais, lato senso.
2 O termo “trivial” tem aqui o sentido de “facilmente compreendido por
seus utilizadores” ou “utilizado sem se requerer uma definição ou
sinônimo no momento de seu uso”.
3 No capítulo do livro A filosofia e o espelho da natureza, Rorty destaca
que é somente apostando na inspiração do Romantismo, que via o
homem como criador de si mesmo e do mundo, que esta tese vaga-
mente idealista de Kuhn pode ser entendida.
4 Com este exemplo, pretendemos mostrar como a utilização de um ter-
mo, cujo sentido se supõe evidente, implica de fato decisões semân-
ticas feitas a partir do inventário de seus usos. Novamente, aqui, é
preciso notar que a escolha de um dos usos da palavra “vida” impli-
ca compromissos ontológicos diversos.
5 RORTY, Richard. Solidarity or objectivity? in: Objectivity, Relativism
and Truth, philosophical papers volume 1. Cambridge: Cambrige
University Press, 1992, p.22.
6 Idem, p.23.
7 Para rever a noção de verdade na perspectiva pragmática, além do
artigo citado, ver também: RORTY, Richard. Consequences of
pragmatism. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.
8 Para rever estes conceitos wittgensteinianos, ver: WITTGENSTEIN,
Ludwig. Investigações filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. E
também: BAKER, G. P. & HACKER, P. M. Wittgenstein: Meaning
and Understanding. Oxford: Basil Blackwell, 1983.
9 Compromisso com a tradição é a explicitação tão clara quanto possível
de nossa participação numa trama de crenças que, no presente caso,
tem no respeito ou apreço pela vida do indivíduo um de seus gran-
des, senão, maiores valores.
10 Proporemos uma curtíssima história de ficção científica para esclare-
cer melhor este ponto. É necessário que se atente que é um relato

&*!
A MENTE EXTERNA

feito por um “bípede sem pena”, um humano, que, portanto, está


habituado a entender as atividades de seres com comportamento
aparentemente inteligente de um ponto de vista intencional, utilizan-
do o princípio de caridade interpretativa, atribuindo-lhes crenças e
desejos. Deste ponto de vista interpretativo, o relator dá-se ao direi-
to de formular as crenças dos alienígenas, descrevendo-as, como só
poderia ser, como atitudes proposicionais. Portanto, tudo isto que
iremos relatar é a descrição da ficção no nosso vocabulário intenci-
onal, já que em marciano tudo estará sendo suposto ser descrito por
fórmulas físicas. Os marcianos aqui descritos são como o demônio
de Laplace, e toda a ficção é uma paródia de uma das intuition pump
de Daniel Dennett.
11 RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Lisboa: Publica-
ções Dom Quixote, 1988, 308p., p. 37.
12 Idem, p.38.
13 Idem, p. 38.
14 Idem, p.38.
15 Sobre a concepção hilomórfica, ver o primeiro capítulo do livro A
filosofia e o espelho da natureza, denominado “A invenção da
mente”.
16 William Lyons define atitude proposicional da seguinte forma: “A
atitude proposicional é um evento mental ou evento cerebral, ou no
mínimo um evento lingüístico (exatamente que tipo de evento é uma
matéria de disputa?), que envolve aceitar uma atitude, tais como a de
acreditar ou desejar ou esperar ou temer, em relação a alguma coisa,
onde esta coisa é capaz de ser prontamente expressa na forma
proposicional. Assim, uma crença vai ser normalmente expressa, ou
no mínimo capaz de ser expressa, como X acreditava que tal e tal
coisa e uma esperança Y esperava que isto e aquilo. A atitude gover-
na ou opera sobre o conteúdo proposicional, que é lingüisticamente
identificado pela oração-que (that-clause no original), que se segue
ao verbo. Esta atitude corresponde a um modo peculiar e distinto de
considerar o conteúdo em questão, e assim, portanto, é o que dife-
rencia as diferentes atitudes proposicionais. No sentido proposto,
muitos, mas nem todos, dos eventos mentais podem, supostamente,
ser exprimíveis na forma proposicional e assim legitimamente chama-
dos “atitudes proposicionais”. Contudo, alguns eventos mentais –

&*"
MARCELO LAND

certas sensações como, por exemplo, as dores – são considerados


serem inexprimíveis na forma proposicional e assim não corretamen-
te chamados “atitudes proposicionais”. (LYONS, William.
Approaches to intentionality. New York: Oxford University Press,
1995, 261p., p.17).
17 Rorty baseia-se no livro de Annette Baier. A Progress of Sentiments:
Reflections on Hume’s Treatise. Cambridge: Harvard University
Press, 1991, 333p.
18 Idem, p.12.
19 Idem, p.16.
20 Idem, p.17.
21 A tradução deste termo nos pareceu merecer algum comentário. Po-
deríamos ter usado “garantida” no sentido de que existe um corpo
de pessoas garantindo sua utilização, como se usa para determina-
das operações financeiras, porém, a idéia de autorização nos parece
mais próxima do procedimento do corpo de membros de uma socie-
dade ou comunidade científica, a quem é dado o papel social de
produzir proposições que falem sobre o mundo. Não achamos tam-
bém adequado traduzi-la por “recomendada”, que gostaríamos de
ver reservada para o uso em vocabulários morais, nos quais existe
muito maior espaço para debate sobre a validade de determinadas
proposições.
22 Idem, p.22.
23 Idem, p.23.
24 Idem, p.23.
25 Idem, p.30.
26 Para resgatar toda a importância do conceito de poeta forte de Richard
Rorty deve-se remeter ao livro Contingência, ironia e solidarieda-
de, Editorial Presença: Lisboa, 1992.
27 Ver a primeira linha deste livro.
28 DAHLBOM, BO (org.). Dennett and his critics. Cambridge: Basil
Blackwell Ltd, 1995.
29 RORTY, Richard. “Holism, intrinsicality, and the ambition of trans-
cendente” in Dennett and his critics. Basil Blackwell Ltd,
Cambridge: 1995, p.184.
30 Ibidem.

&*#
A MENTE EXTERNA

31 Ibidem.
32 Idem, p.193.
33 Idem, p.185.
34 Ibidem.
35 Idem, p. 186.
36 Ibidem.
37 Ibidem.
38 Ibidem.
39 Idem, p.187.
40 Ibidem.
41 Idem, p 188.
42 Ibidem.
43 Ibidem.
44 Rorty critica Dennett mais adiante no artigo por não ter percebido
que a definição de objeto intencional é a própria definição de
objeto. As críticas de Rorty a Dennett não serão abordadas neste
livro.
45 Ibidem.
46 Ibidem.
47 Idem, p.189.
48 Ibidem.
49 Ibidem.
50 Ibidem.
51 Ibidem.
52 DENNETT, Daniel. The intentional stance. Cambridge MIT press:
1987, p.14.
53 Idem, p.15
54 LYONS, William. Approaches to intentionality. Oxford: Oxford
University Press, 1995, p.41.
55 Em seu artigo “Solipsismo metodológico considerado como uma es-
tratégia de pesquisa em psicologia cognitiva”, Fodor define que
“processos computacionais são tanto simbólicos quanto formais.
Eles são simbólicos porque são definidos a partir de representa-
ções, e são formais porque se aplicam a representações, em virtude

&!%
MARCELO LAND

da sintaxe da representação (falando grosseiramente)”. (FODOR,


Jerry. A methodological solipsism considered as a research strategy
in cognitive psychology in: The nature of mind, Oxford: Oxford
University Press, New York, 1991, p.486).
56 Lyons, William, op. cit., p.43.
57 Idem.
58 Idem, ibidem.
59 FODOR, Jerry. “Proposicional Attitudes” in The nature of mind. New
York: Oxford University Press, 1991, p.325.
60 Idem.
61 Idem, p.327.
62 SEARLE, John. Intencionalidade. São Paulo: Martins Fontes, 1995,
p.31-32.
63 Segundo Dennett, as três características da proposição de Frege são:
ter um valor de verdade, de forma que se uma proposição p é verda-
deira e q é falsa, p e q não são a mesma proposição; ela é composta
de intensão-com-s, entendida por Carnap como aquilo que determi-
na a extensão. Intensões diferentes podem determinar a mesma ex-
tensa intensão “elevado ao cubo”, e a intensão “o número de plane-
tas” tem a mesma extensão, contudo, uma única e mesma intensão
não pode ter extensões diferentes. Isto implica duas idéias: (1) aquilo
a que a proposição inclui é uma de suas características distintivas.
Se p inclui A e q não inclui A, então p e q não são a mesma proposi-
ção. No entanto, se p e q incluem A, isto não é suficiente para dizer
que p e q são a mesma proposição. A terceira característica é uma
proposição pode ser apreendida pela mente.
64 FODOR, Jerry, op. cit., p.327.
65 Idem, p.327.
66 Idem, ibidem.
67 Manteremos o termo inglês por vários motivos: primeiro, já consta
nos dicionários e é de uso corrente em nossa língua; segundo, admi-
timos que as traduções disponíveis, tais como plano, desenho, não
são adequadas para traduzir, com o mesmo poder expressivo, a pala-
vra inglesa; terceiro, para ressaltar a contribuição de Dennett nas
concepções das estratégias. Ele conseguiu chamar a atenção para
este nível estratégico, possibilitando situá-lo no meio do caminho

&!$
A MENTE EXTERNA

entre a estratégia fisicalista e a intencional. E, por último, as idéias do


design e do designer vão ser básicas na sua leitura de Darwin.
68 A frase literal em Inglês é “Citing any one of these desires tipically
terminates the “Why?” game of reason giving.” (DENNETT, Daniel.
The intentional stance, p.20).
69 DENNETT, Daniel. The intentional stance, p.21.
70 Idem, p.22.
71 Idem, p.23.
72 Idem, p.24.
73 DENNETT, Daniel. “Three kinds of intentional psychology” in The
Nature of Mind. Oford: Oxford University Press, 1991, p.617.
74 Idem.
75 Ibidem.
76 Ibidem.
77 Idem, p.621.
78 Idem, p.622.
79 DENNETT, Daniel. “Évolution, erreur et intentionnalité” in La stratégie
de l’interprète: les sens commun et l’univers quotidien. Paris:
Gallimard, 1990.
80 Este conceito está exposto no artigo de Daniel Dennett: “La
compréhension artisanale” in Daniel C. Dennett e les stratégies
intentionnelles. Revue LEKTON, Quebec, 1992, p.27-51.
81 NAGEL, Thomas. “What is it like to be a bat?” in Mortal Questions,
New York: Cambrigde University Press, edição de 1992.
82 NAGEL, Thomas, op. cit., p.166.
83 Idem.
84 Idem, p.167.
85 Idem, p.168.
86 Ou seja, usar o princípio de humanidade, projetando vida interior a
partir de nós humanos.
87 Idem, p. 171.
88 Idem.
89 Ibidem.
90 Ibidem.
91 Idem, p.172.

&!&
MARCELO LAND

92 DENNETT, Daniel Consciousness Explained. Boston: Little, Brown


and Company, 1991, p.67.
93 Nagel, Thomas, op. cit, p.176-177.
94 Idem, p.178.
95 Idem, p.179.
96 DENNETT, Daniel. Consciousness Explained. Boston: Little, Brown
and Company,1991, p.71.
97 Idem, p.75.
98 Idem, p.76.
99 Idem, p.78.
100 Idem, p.79.
101 Idem, p.98.
102 Este termo foi cunhado por nós, porque pode-se reconhecer diver-
sas gradações dentro da postura funcionalista e é a somente uma
delas que Dennett está se referindo.
103 Este artigo encontra-se disponível para download no seguinte en-
dereço da Internet: http://www.tufts.edu/as/cogstud/pubslist.htm
104 DENNETT, Daniel. Kinds of minds: toward an understanding of
consciousness. NewYork: Basic Books, 1996, 184p., p.69.
105 A escolha da tradução do termo “effector” foi difícil. Em física e
eletrônica, normalmente é usado transdutor tanto para o mecanis-
mo de entrada quanto para o de saída, já que em ambos os casos
trata-se de uma transformação de energia de um meio para o outro.
Em fisiologia, usa-se habitualmente effector para descrever a ter-
minação nervosa que envia sinais aos músculos para iniciar a con-
tração. Parece haver já uma certa atitude intencional e do design
no uso desta palavra no contexto. O sistema nervoso não é apenas
um mecanismo que pode ser descrito por uma atitude fisicalista,
mas deve ser descrito como um design e como um sistema inten-
cional. Disto resulta que o transdutor de saída deva ser considera-
do um causador de efeitos no mundo.
106 O meio neste contexto deve ser entendido como o recurso utilizado
para se exercer a função desejada.
107 Idem, p.76.
108 Ibidem.

&!'
A MENTE EXTERNA

109 No livro de William Lyons ‘Approaches to intentionality’ encontra-


mos uma interessante discussão sobre formas representacionais e
não-representacionais de processar informações (LYONS, William.
Approaches to intentionality. Oxford: Oxford University Press, 1995,
261p., p.69-74). É neste contexto que ele nos oferece uma síntese do
que é um sistema coneccionista. Um sistema coneccionista é uma rede
semelhante à rede neural de nossos cérebros, que se interconecta, e é
alimentada por eletricidade. Cada camada desta rede consiste de uma
coleção de nódulos semelhantes a neurônios, cada um dos quais é
conectado a um grupo de nódulos ou a todos os nódulos do sistema,
presentes nas camadas superior e inferior à sua. Daí o nome
coneccionismo. Um nódulo pode ocasionalmente estar também
conectado a nódulos dentro de sua própria camada. As camadas do
sistema são organizadas grosseiramente em camadas de entrada
(input), que recebe impulsos elétricos vindo do exterior do sistema;
camadas internas de processamento, que conecta as camadas de en-
trada e as camadas de saída (output), que libera a energia para fora do
sistema. O nódulo por si mesmo possui vias aferentes (de entrada) e
vias eferentes (de saída). O nódulo pode ser ligado ou desligado, ou
mais usualmente ele terá um limiar, que o fará disparar, e transmitir
energia adiante, sempre que um impulso elétrico de uma determinada
intensidade lhe atingir. Esta energia transmitida pode ter uma função
excitatória ou inibitória em relação à parte do sistema conectada a ele.
Além disso, a transmissão de um impulso de um nódulo a outro será
uma função do “peso” (weight) da fibra de conexão (the connecting
wire) entre eles. O “peso” varia inversamente com a força da resistên-
cia das fibras de conexão. Apesar de, em termos muito simplificados,
poder-se imaginar o fluxo de energia neste sistema fluir das camadas
de entrada para as de saída, existem muitos mecanismos de feedback
(retroalimentação) que são capazes de alterar parte dos movimentos
para adiante (forward) nas camadas internas de processamento. Estes
mecanismos de feedback podem ser ajustados até que uma saída
(output) desejada seja obtida. Uma das formas dos sistemas
coneccionista se diferenciarem das arquiteturas clássicas dos compu-
tadores é poderem não ter programas (software), e assim não ter uma
unidade central de processamento com a função executiva de admi-
nistrar o programa. Neste sentido, não há um conjunto de regras a

&!(
MARCELO LAND

serem seguidas. O sistema é, na verdade, implementado pelo método


de tentativa e erro. Opera-se o sistema, configurando-o para obter-se
a saída (output) desejada a partir de uma entrada (input) conhecida.
Pode-se dizer que o sistema “aprende” a fazer isto ao corrigir as cone-
xões das camadas internas de processamento, e o “peso” das cone-
xões, até que se obtenha a saída desejada. Lyons compara este ajuste
à regulação de um motor de carro. O sistema conneccionista é projeta-
do para ser mais flexível e plástico do que os computadores tradicio-
nais. Nós não iremos detalhar como esta plasticidade é implantada, o
fundamental é saber que estes sistemas podem reagir de maneira cor-
reta a estímulos de entradas apenas semelhantes para o qual foi ajus-
tado. Isto acaba com a rigidez típica dos computadores tradicionais
que só geram respostas adequadas às entradas “rigidamente idênti-
cas” para as quais foram programadas.
110 DENNETT, Daniel. Kinds of minds: toward an understanding of
consciousness. New York: Basic Books, 1996, 184 p., p.77.
111 Idem, p.78.
112 Aqui deve-se entender estocar sabedoria segundo o modelo
coneccionista. Não se trata de sabedoria representada em estrutu-
ra de dados, mas “aprendida” no sentido coneccionista pelo ajuste
e feedback da Mãe Natureza.
113 Idem, p.79.
114 Evitaremos dar maiores detalhes da forma como esta estrutura em
paralelo é implementada, porque não acrescentará aqui nenhum gan-
ho para o argumento. Sugerimos, no entanto, que esta informação
seja procurada no artigo de origem para maiores esclarecimentos:
“Consciousness in human and robot minds” no endereço da Internet
nota de rodapé 103.
115 Não exporemos qual é a concepção de evolução da linguagem que
será buscada em Cog, pelos mesmos motivos que não entramos em
detalhes sobre a estrutura do hardware de Cog.
116 DAVIDSON, Donald. Psychology as philosophy in: Essays on
Actions & Events. Oxford: Oxford University Press, 1980, 304 p.,
p.229.
117 Davidson deixa claro que o foco da discussão é o tipo de psicologia
que utiliza atitudes proposicionais para descrever eventos mentais.

&!)
A MENTE EXTERNA

118 Idem, p.230.


119 Em uma resposta a Solomon, presente no apêndice deste artigo,
Davidson demonstra que a utilização do termo sistema conceitual
não pode ser confundido com outro termo relacionado: esquema
conceitual. A discussão de base, em que ele introduz a diferença, é
a seguinte: Solomon havia questionado Davidson desta forma: se
ele não aceitava a hipótese de esquemas conceituais, ou redes de
referências, totalmente diferentes, ou de linguagens totalmente in-
comensuráveis entre si, como ele poderia conciliar esta rejeição da
relatividade conceitual com a sua proposta de que conceitos psi-
cológicos são irredutíveis nomologicamente aos conceitos físicos?
Davidson responde esclarecendo que, de fato, se se consegue tra-
duzir de forma bem-sucedida sentenças, não faz sentido falar de
dois esquemas conceituais diferentes. Contudo, se não se conse-
gue traduzi-las, não se tem base para se falar de dois esquemas.
Deste modo, não faz sentido falar de dois esquemas conceituais
diversos, que podem ser traduzidos mutuamente, mas apenas de
um único esquema conceitual. Neste contexto, a expressão “es-
quema conceitual” corresponderia a uma linguagem total. Nada
poderia ser deixado de fora dele, já que qualquer de suas partes
seria necessária para se entender o resto. Um conceito de uma
linguagem, ou um conjunto de conceitos, pode ser irredutível a
outros, e, ainda assim, ser essencial para se compreender a totali-
dade da linguagem. Conceitos psicológicos não podem ser
redutíveis a conceitos físicos, porém são essenciais para o enten-
dimento do resto dos conceitos da linguagem. Não se pode conce-
ber uma linguagem sem termos ou expressões psicológicas, ou
melhor, não saberíamos como a traduzir na nossa. No entanto, pode
haver logicamente partes da linguagem que não utilizem termos
psicológicos. Assim, seria mais correto dizer que existe uma lin-
guagem completa, na qual o fragmento sem termos psicológicos
está incorporado e é explicado. Faria sentido, portanto, falar de
sistemas conceituais semi-autônomos, ou esquemas de descrições
e explicações, mas que não seriam o todo necessário para a com-
preensão e a comunicação entre os agentes.
120 Pró-atitudes são “desejos, quereres, urgências, incitações e uma vari-
edade de visões morais, princípios estéticos, preconceitos econômi-

&!*
MARCELO LAND

cos, convenções sociais, e objetivos privados e públicos e valores na


medida em que podem ser interpretados como atitudes do agente
direcionadas a uma ação de um determinado tipo. (DAVIDSON, Donald.
Actions, reasons and causes, in Essays on Actions & Events. Oxford:
Oxford University Press, 1980, 304p., p. 4).
121 Crença de que a ação é deste tipo.
122 DAVIDSON, Donald. Actions, reasons and causes in Essays on
Actions & Events. Oxford: Oxford University Press, 1980, 304p., p. 4.
123 Idem, p.5.
124 DAVIDSON, Donald. Psychology as Philosophy in Essays on
Actions & Events. Oxford: Oxford University Press, 1980, 304p.,
p.232.
125 Idem, p.232.
126 Idem, p.233.
127 Devemos aqui lembrar que as relações causais na ontologia branda
de Davidson são concebidas como relações entre eventos, tendo
como base uma concepção humeana. Em relação às descrições,
podemos formular explicações causais que relacionem descrições
de eventos a outras descrições de eventos. Em alguns sistemas
conceituais, é possível formular leis propriamente ditas, ou seja,
deterministas, tais como algumas descrições fisicalistas, mais
comumente encontradas na física. Outros sistemas conceituais, por
suas características estruturais, impedem a formulação de leis,
podendo apenas gerar generalizações com algum grau de precisão
estatística. Nesta passagem, quando Davidson afirma que não é
necessário saber como o comportamento foi causado, parece ha-
ver uma nítida tendência a se conceber que o evento é sempre um
evento físico, e que descrever relações causais de forma a que
instanciem leis só é possível em descrições fisicalistas. É esta a
aposta que o autor faz e que está claramente formulada em “Mental
events”, que logo abordaremos.
128 DAVIDSON, Donald. Mental Events in Essays on Actions & Events.
Oxford: Oxford University Press, 1980, 304 p., p.217.
129 Além deste tipo de behaviorismo, Davidson inclui nesta categoria o
naturalismo em ética, instrumentalismo e operacionalismo em ciên-
cia, a teoria causal do significado, o fenomenalismo e “assim por

&!!
A MENTE EXTERNA

diante – o catálogo das derrotas filosóficas”. (DAVIDSON, Donald.


Mental Events in Essays on Actions & Events. Oxford: Oxford
University Press, 1980, 304 p. , p. 217.)
130 DAVIDSON, Donald. Psychology as Philosophy in Essays on
Actions & Events. Oxford: Oxford University Press, 1980, 304p.,
p.234.
131 Idem, p. 234.
132 Não nos deixemos iludir pela aparente obviedade da afirmação. Isto
é na verdade uma hipótese teórica forte, no sentido de que não é
evidente por si mesma ou que é analítica.
133 Idem, p.235.
134 Como quando escolhe A ao invés de B, B ao invés de C, C ao invés
de A, quando o normal seria escolher A ao invés de C.
135 Idem, p.236.
136 Idem, p.237.
137 Ibidem.
138 Ibidem.
139 Ibidem.
140 Idem, p.328.
141 Ibidem.
142 A este respeito remetemos o leitor ao artigo de Donald Davidson,
Radical Interpretation in Inquiries into Truth & interpretation.
Oxford: Oxford University Press, 1991, p.125-139. Lá, Davidson de-
termina quais são as condições necessárias para tornar uma teo-
ria de verdade no estilo de Tarski em uma teoria da tradução, e,
portanto, de interpretação das linguagens naturais. Não reproduzi-
remos aqui os argumentos do autor, pressupondo-os conhecidos,
já que não é parte central da sua argumentação.
143 DAVIDSON, Donald. Psychology as Philosophy in Essays on
Actions & Events. Oxford: Oxford University Press, 1980, 304 p.,
p.238.
144 Idem, p.239.
145 Ibidem.
146 Logicamente, alguém poderia se perguntar o que é um evento
poder ser descrito de duas formas diferentes sem perda de identi-

&!"
MARCELO LAND

dade, e, portanto, poder ser dito ser o mesmo evento. O problema


não é dos mais simples. Nisso está envolvido o conceito de
individuação de eventos, discutido por Davidson em vários pon-
tos da sua obra sem que ele tenha obtido um princípio convincente
para individualizá-los. Em alguns momentos, ele parece dizer que o
que individualiza um evento é a característica de possuírem a mes-
ma causa e produzirem os mesmos efeitos. Em outros momentos,
propõe que o critério de individuação seria a caraterística de ocu-
par o mesmo tempo e espaço. Jurandir Freire Costa prefere uma
interpretação wittgensteiniana, ao dizer que só através de um jogo
de linguagem é que sabemos o que é o mesmo e o que é idêntico. Se
adotarmos esta visão, a identidade do evento, independente das
descrições, não poderia ser pressuposta como um aspecto
ontológico do evento, o que implicaria a postulação de um evento
em si mesmo, para além dos atos descritivos. Num certo sentido,
Davidson está dizendo o mesmo. Ele deriva a necessidade
ontológica da existência de eventos de sua maneira de conceber
como devem ser admitidas os tipos de entidades que devem existir.
Ele é contra uma certa atitude de parcimônia ontológica, que suge-
re que a economia de entidades conduz à maior clareza
argumentativa. Davidson elogia a clareza, mas afirma que a
parcimônia pode ou não levar a ela. Ele propõe, antes, ter-se uma
teoria viável, e, então, notar que somente uma parte da ontologia
implicada é suficiente para manter o trabalho teórico. Mas esta
redução das entidades virão depois que o trabalho teórico for fei-
to. Ele prefere apostar em outra intuição, que afirma que algumas
entidades são necessárias para que seja dada uma interpretação de
uma determinada área do território lingüístico. Desta forma, a deri-
vação das frases com modificações adverbiais só é coerente se se
postular a existência de eventos como categoria ontológica, e em
adição considerá-los como particulares, e não instanciações de
universais. Uma vez reconhecida que a necessidade ontológica da
postulação de eventos particulares se deriva de necessidades ló-
gicas de coerência, podemos admitir também que são nossos usos
de sentenças que nos levam a falar de identidade de eventos ape-
sar das descrições. Esta identidade, que se pode atribuir a eventos
particulares, é uma outra necessidade lógica de nossa forma de

&!#
A MENTE EXTERNA

falar, de nossas teorias de verdade. O problema é querer achar um


princípio de individuação unitário, capaz de explicar todos os usos
de “eventos idênticos apesar da descrição”. Pode ser que não exis-
ta um princípio único, talvez hajam vários. E neste sentido, temos
que concordar com Jurandir Freire Costa, que é no jogo de lingua-
gem que entendemos o sentido de idêntico e mesmo para um even-
to. Podemos então compreender esta necessidade de encontrar um
critério unitário de individuação, como resultante da aposta
fisicalista de Davidson, e compatibilizá-la com o que estamos di-
zendo, afirmando que o fisicalismo é um jogo de linguagem que tem
suas regras para dizer quando um evento é o mesmo apesar das
descrições e que seria recomendável que ele fosse utilizado como
um campo onde os princípios de individuação deveriam ser busca-
dos. Apenas nos restou uma dúvida, se nossa interpretação é cor-
reta, o que estaria caucionando a recomendação? Seriam critérios
lógicos ou morais?
147 Verbos que usualmente referem-se a pessoas e são completados por
sentenças justapostas em que a regra da substituição de termos co-
extensionais falha; ou seja, acabamos de descrever atitudes
proposicionais.
148 Esta caracterização não é feita no artigo. Davidson afirma que ela é
recessiva em relação ao vocabulário mental. Mas isto parece não o
satisfazer.
149 DAVIDSON, Donald. Mental events in Essays on Actions & Events.
Oxford: Oxford University Press, 1980, p.211.
150 Idem, p.214.
151 Nothing-but reflex.
152 Idem, p.214.
153 Isso nos faz crer que a descrição mental de um evento deveria ser
algo do tipo: a convicção de João ocorrida no dia 17 de abril de
1997, às duas horas da tarde, em Botafogo, perto da janela do apar-
tamento de João, junto a um vaso de flores, de que hoje vai chover.
154 Idem, p.214.
155 O termo cunhado por Moore no seu livro Principia Ethica, e relido
por Hare em The language of morals, enfatiza a singularidade grama-
tical da expressão “é bom”, que tem um caráter essencialmente

&"%
MARCELO LAND

recomendatório, e é a base dos vocabulários éticos. A falácia natura-


lista é cometida toda vez que algum discurso com pretensões a dis-
curso ético faz uma espécie de equiparação entre a predicação “é
bom” e algum outro predicado do tipo “é prazeroso”, “é útil“, “é a
forma do bem”, “é natural”. Esta falácia foi cometida por diversos
tipos de discursos éticos durante a história da filosofia e não é privi-
légio dos naturalistas. Como Moore aponta claramente, Platão teria
sido o primeiro a cometê-lo, o que foi assinalado por Aristóteles na
Ética a Nicômaco. Uma forma interessante de assinalar a divergên-
cia habitual de nossos usos destes predicados é a utilização de um
certo tipo de expressão ao estilo de Putnam, a saber: “Pode ser x, mas
não é bom”. Assim diríamos “pode ser prazeroso, mas não é bom”,
“pode ser útil mas não é bom”, “pode ser natural, mas não é bom”.
Com isto, deixaríamos claro que as propriedades morais (à direita na
expressão) não se reduzem a propriedades descritivas (à esquerda
na expressão). Como vemos, Davidson assinala algo muito signifi-
cativo nesta passagem um tanto condensada. Conceitos como “ser
verdadeiro” e “ser bom” são primitivos no nosso esquema conceitual
ou linguagem. Eles não podem ser reduzidos a nenhum outro concei-
to. Poderíamos querer eliminá-los. No entanto, isto seria mudar tão
radicalmente o nosso esquema conceitual, que não mais seria reco-
nhecido como tal por nós. Certamente, também não nos reconhece-
ríamos mais.
156 Idem, p.215.
157 Idem, p.216.
158 Idem, p.217.
159 Idem, p.218.
160 Na tradução que se segue, iremos usar a mesma regra de geração de
palavras de ambos os autores (Goodman e Davidon). Eles dividem
as palavra na metade e formam palavras combinadas tal como alguns
neologismos presentes em Alice no País das Maravilhas de Lewis
Caroll. Assim teremos verzul, resultante da fusão de verde e azul, e
assim por diante.
161 Esmeriras são obviamente ficcionais ou lógicas. Ela deve ser defini-
da como uma entidade que se examinada antes do tempo t é uma
esmeralda, senão é uma safira.
162 Idem, p.218.

&"$
A MENTE EXTERNA

163 Idem, p.219.


164 Ibidem.
165 Idem, p.220.
166 Ibidem.
167 Ibidem.
168 Idem, p.221.
169 Ibidem.
170 Idem, p.222.
171 Ibidem.
172 Idem, p.223.
173 Idem, p.225.
174 Ibidem.
175 DENNETT, Daniel. On giving libertarians what they say they
want in Brainstorms: philosophical essays on mind and
psychology. Cambrigde: the MIT Press, 1978, sexta edição, 1993,
p.291.
176 Idem, p.292.
177 Ibidem.
178 Idem, p.295.
179 Idem, p.296.
180 Idem, p. 25.
181 Idem, p.27.
182 Idem, p.28.
183 Idem, p.29.
184 Ibidem.
185 Ibidem.
186 Idem, p.33.
187 Ibidem.
188 Idem, p.48.
189 Idem, p. 77.
190 Idem, p. 78.
191 Ibidem.
192 Idem, p. 80.
193 Idem, p. 82.

&"&
MARCELO LAND

194 A tradução do termo “baggage” é difícil neste contexto. Em um de


seus significados, quer dizer o nosso termo bagagem, que aí teria um
sentido metafórico. Em outro, teria o sentido de “crenças e sentimen-
tos que você tem, que influencia como você pensa e se comporta” e
se aproxima mais do termo cabedal ou de “bagagem afetiva ou emo-
cional” como se diz na linguagem ordinária.
195 Traduzi propositadamente blank slate como página em branco para
preservar o sentido em português ao bom estilo da tradução radical
de Davidson.
196 Idem, p.83.
197 Ficamos tentados seriamente a traduzir soft determinists por
deterministas conciliadores e hard determinists por deterministas
radicais. Não o fizemos neste momento para preservar a terminologia
dennettina, mas, no que se segue, referir-nos-emos a ambos os tipos
de deterministas conforme o fruto de nossa tentação.
198 Idem, p.85.
199 Idem, p.87.
200 Idem, p.91.
201 Deixe-se claro que “agir racionalmente” tem um significado valorativo
neste contexto e indica algo como: agir de acordo com as normas de
racionalidade, assentidas pela maioria dos membros de uma cultura.
É, portanto, um conceito normativo.
202 Idem, p.163.
203 Idem, p.165.
204 Ibidem.
205 Idem, p.169.
206 DENNETT, Daniel. Darwin’s dangerous idea: evolution and the
meanings of life. New York: Simom & Schuster, 1995, p.4 23.
207 DENNETT, Daniel. Kinds of minds: toward an understanding of
consciousness. New York: Basic Books, 1996, 184p., p.82.
208 Esta palavra já consta no Dicionário Aurélio e portanto resolvemos
conservá-la.
209 Idem, p. 100-101.
210 Idem, p.101.

&"'
A MENTE EXTERNA

211 É necessário de saída interpretar esta proposta dennettiana para


que não percamos o rumo do argumento. Dennett está dizendo que
alguns animais se comportam como se estivessem reagindo aos pen-
samentos de outros animais. Mas, na verdade, isto significa que, se
atribuirmos a eles uma atitude intencional de segunda ordem, iremos
poder prever mais adequadamente seu próximo lance no jogo da
vida. Ele não está querendo dizer que algum dos animais considera-
dos tem “de fato” pensamentos reflexivos. Ele descreve como meca-
nismos algorítmicos complexos podem ser criados durante a evolu-
ção por seleção natural, demonstrando um elevado grau de
racionalidade sem pensador, ou pensamento.
212 É evidente o que queremos dizer: o que habitualmente chamamos de
pensamento.
213 Este artigo foi publicado em Brainstorms: philosophical essays on
mind and psychology (1978). Cambridge: The MIT Press, 1991,
353p., p.267-286.
214 Devemos admitir que, sem a leitura do trabalho “O conceito de
pessoa”, gentilmente cedido pela Profª Maria Clara Marques Dias,
não teríamos atentado para a importante influência do pensamento
de Frankfurt no conceito de pessoa e em outras concepções
dennettianas.
215 Não se está atrelando aqui a necessidade de criar categorias com a
necessidade de as representar lingüisticamente, apesar de ser so-
mente de nosso ponto de vista lingüístico que estes conteúdos po-
dem ser postulados.
216 Parece-nos que, mesmo que não consideremos completamente ade-
quada a descrição do desenvolvimento da função cognitiva em rela-
ção à necessidade de comunicação nos termos apresentados, para os
propósitos deste livro, ela é perfeita. A descrição é uma clara tentativa
de dar uma explicação naturalista do surgimento de funções cognitivas
complexas como fruto das condições de vida das criaturas envolvi-
das. Como toda tentativa de explicação, ela resulta de uma clara opção
metodológica, no caso, um determinado método naturalista, cuja in-
tenção seria mostrar a continuidade entre a natureza e a cultura, e
como as categorias explicativas de uma se adequariam a outra.
217 Dennett chama isto de ABC Learning (associacionismo,
behaviorismoe e coneccionismo).

&"(
MARCELO LAND

218 Idem, p. 133.


219 Chegamos a pensar que seria impossível achar uma palavra única
adequada para traduzir esta expressão inglesa. De fato, a idéia é a de
que nós derramamos ou difundimos nossas tarefas cognitivas no
nosso ambiente. Escolhemos, no entanto, o verbo espargir, porque
ele transmite uma idéia mais ativa do processo descrito do que os
verbos derramar e difundir.
220 Idem, p.135.
221 Ibidem.
222 Idem, p.137.
223 Idem, p.139.
224 Idem, p.142.
225 Idem, p.143
226 Idem, p.147.
227 Em geral, considera-se que um lactente é uma criança de um mês de
vida até os seus dois anos de idade.
228 Idem, p.148.
229 Articulação neste contexto deve ser entendida como um pronunciar,
como uma articulação verbal.
230 Idem, p.149.
231 Idem, p.151.
232 Idem, p.155.
233 Ibidem.
234 Neste modelo, vemos a consciência como uma narrativa, constante-
mente reeditada, onde o conteúdo final é o resultado de uma disputa
entre conteúdos mentais concorrentes, que contribuíam para a pro-
dução do rascunho.
235 Idem, p.156.
236 Ibidem.
237 Citado por Dennett em DENNETT, Daniel, Darwin’s dangerous idea:
evolution and the meanings of life. New York: Simom & Schuster,
1995, p.404.
238 Recentemente, em um artigo, que provavelmente fará história na
filosofia da mente, Stich admitiu que as premissas que ele e outros

&")
A MENTE EXTERNA

eliminativistas usavam para decretar o fim da psicologia popular es-


tavam mal fundadas, o que tornou a discussão muito mais complexa.
Recomendamos enfaticamente a sua consulta: STICH, Stephen P.
Desconstructing the mind in Desconstructing the Mind. Oxford:
Oxford University Press, 1996, p.3-90.
239 DENNETT, Daniel Darwin’s dangerous idea: evolution and the
meanings of life.New York: Simom & Schuster, 1995, p.64.
240 Idem.
241 O verbete mentalidade deve ser entendido como o conjunto dos
hábitos intelectuais e psíquicos de um indivíduo, ou de um grupo;
estado mental ou psicológico. Definição do dicionário Aurélio ele-
trônico, versão 1.2, dez. 1993.
242 DENNETT, Daniel. Darwin’s dangerous idea: evolution and the
meanings of life. New York: Simom & Schuster, 1995, p.51.
243 Ibidem.
244 Idem, p.56.
245 Segundo Dennett, a expressão é usada na indústria moderna, signi-
ficando literalmente research and development.
246 DENNETT, Daniel. op. cit., p.72.
247 Idem, p.341.
248 Idem, p.338.
249 Ibidem.
250 Ibidem.
251 Lembramos que para Dennett, que atribui crenças e desejos até para
computadores, não é difícil falar em uma visão da vida diferente para
as diversas espécies.
252 DAWKINS, Richard. Selfish genes and selfish memes in The mind’s
I: fantasies and reflections on self and soul. New York: Penguin
Books Ltd, 1982, 502 p., p.124-144.
253 DENNETT, Daniel. Darwin’s dangerous idea: evolution and the
meanings of life. New York: Simom & Schuster, 1995, p.345.
254 Idem, p.346.
255 Ibidem.
256 A infosfera dos memes é o correspondente da biosfera, onde habi-
tam os seres vivos.

&"*
MARCELO LAND

257 Idem, p.347.


258 Idem, p.348.
259 Idem, p.349.
260 O termo introduzido por Dennett é a greedy reducionist. Este termo
é usado para se opor ao termo reducionista prudente, que ele preten-
de ser.
261 Neste sentido, MacIntyre elogia Dewey, porque ele propôs uma
visão ética que explica a relação. Para Dewey, a epistemologia conse-
guiu abstrair o conhecimento, tanto dos métodos como foi obtido,
quanto do uso a que se pode aplicá-lo. A obtenção do conhecimen-
to atual dependeu de termos certos propósitos e a finalidade deste
conhecimento está ligada também aos seus futuros propósitos. As-
sim, como diz MacIntyre, toda razão é prática. O conhecimento moral
é um ramo do conhecimento geral, não se separando dele por princí-
pio. Caracterizar algo como bom é dizer que satisfará os nossos pro-
pósitos, tanto como meio, quanto como fim. Com isto, Dewey con-
centra-se no ponto de vista do agente, enquanto Moore no daquele
que observa a ação moral. Dewey pensava que, em nossas escolhas,
somos guiados por enunciados do tipo empírico ordinário, que pres-
supõem o governo dos propósitos e interesses do agente. Esta ex-
plicação é idêntica à utilizada para explicar o uso dos enunciados em
pesquisas empíricas em geral. MacIntyre diz que Dewey quase aca-
ba com a distinção entre fato e valor. Achamos, contudo, que temos
de ser cautelosos em não interpretar esta aproximação de métodos e
engajamento do agente em atividades tão diversas como uma tenta-
tiva de borrar os limites entre o ser e o dever ser.
262 MACINTYRE, Alasdair. Historia de la ética. Buenos Aires:
Ediciones Paidós Ibérica, 1991, 261 p., p.253.
263 DENNETT, Daniel. Darwin’s dangerous idea: evolution and the
meanings of life. New York: Simom & Schuster, 1995, p.82.
264 Idem, p.500.
265 Esta versão parece-nos apressadamente utilizada, sem maiores ex-
plicações neste texto. O Imperativo Categórico é claramente
normativo, podendo ser interpretado de várias maneiras diferentes.
Antes de ser lido como refletindo um ideal de racionalização exagera-
do e irreal, como faz Dennett, ele poderia ser visto como o que funda-

&"!
A MENTE EXTERNA

menta uma teoria da justiça universal e regula boa parte das propos-
tas de projetos normativos e contratos sociais. Como, contudo, ser-
ve para a argumentação de Dennett, preferimos reproduzi-lo sem
maiores comentários no corpo principal do texto. Para sermos justos
com Dennett, poderíamos dizer que sua crítica se dirige contra uma
tentativa de aplicá-lo como o fundamento de uma teoria prática da
decisão moral.
266 Idem, p.502.
267 Idem, p.504
268 Idem, p.507.
269 Ibidem.
270 Idem, p.509.
271 Idem, p.510.
272 Idem, p.511.
273 RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Lisboa: Publi-
cações Dom Quixote, 1988, 310 p., p.300.

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MARCELO LAND

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Este livro foi composto em Times New Roman,
corpo 10,5/14 e impresso sobre papel off-set 75 grs/m2 na
cidade de Petrópolis, em novembro de 2001, pela
Gráfica Serrana para a editora Garamond.

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