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O Príncipe Rosa-Cruz – Jose Braga Gonçalves

José Braga Gonçalves, advogado, docente universitário e fundador da Universidade


Moderna, é figura que, pela sua notoriedade e controversa personalidade, dispensa
apresentação.
Aluno da Escola Alemã de Lisboa, Liceu D. João de Castro e Universidade Livre, manteve
desde os anos 1980 ligações profissionais ao mundo dos media, sendo também conhecida a sua
antiga ligação à maçonaria, onde chegou a Grão-mestre Adjunto da G. L. R. P., funções que
cumulou com as de Embaixador junto das potências maçônicas germânicas. Afastou-se em
1999. Em Junho de 2005 publicou o seu primeiro romance com grande sucesso, O Maçom de
Viena.

AGRADECIMENTOS

Joana Mello
Teresa Gama
Nuno Saldanha
João Herdade
VC.
À neta do Rosa-Cruz

ÍNDICE

Prefácio
Prólogo
1 O Logro
2 O Chão Salgado
3 O Cheiro da Rosa
4 O Aterrador
5 As Centúrias
6 O Epitáfio
7 Terra Motus
8 O Trianon
9 Os 13 Graus
10 Sigilum Lutheri
11 A Bula Imperial
12 O Emplumado
13 O Neófito
14 O Quadro Mágico
15 As Igrejinhas
16 A Cruz do Coração
17 As Sombras da Luz
18 Salace
19 A Câmara
20 O Emboscado
21 A Cidade de Deus
22 David e Salomão
23 O Lago de Bronze
24 Judenplatz
25 O Príncipe Rosa-Cruz
Prefácio

Contadas por Braga Gonçalves, as vidas de D José I, Pombal, Eugênio dos Santos e de
todos os outros envolvidos nesta História com romance, transformam-se num enredo muito
estimulante onde podíamos estar nós, cidadãs vivos no século XXI.
As personagens de Braga Gonçalves tornam-se nossas conhecidas, porque são todas
muito humanas, com virtudes e defeitos, ambiguidades e certezas de qualquer ser humano da
nossa época. Os costumes são descritos de forma tão visual que podiam saltar para uma série
da BBC.
Braga Gonçalves faz-nos sorrir e gargalhar inúmeras vezes, não só porque tem um
sentido de humor muito elegante mas também porque alguma da linguagem que utiliza já não
se usa, o que dá ao texto graça e originalidade e que apetece, ao leitor, voltar a pôr na moda.
Braga Gonçalves consegue dar-lhes mais do que a dimensão de figuras da História por várias
razões. Em primeiro lugar o autor não é historiador, é um estudioso e um intérprete livre e
humano, tão livre e tão humano como só podem ser as pessoas que sabem o que é perder a
liberdade, e que não têm medo de refletir sobre si próprias e sobre os outros. Depois porque é
um homem alegre que tem sabido agraciar a desventura e que, como Pombal, quis reconstruir
depois do terramoto. O prazer que Braga Gonçalves teve no estudo destas personagens e da
época em que viveram sente-se quando se lê. Ao contrário do que muitos podem pensar, a
escrita deste livro não foi penosa para o autor; foi antes uma maneira muito divertida de fazer
amigos e conviver com eles, com a confortável certeza de que jamais se tornarão seus
inimigos.
Por fim, o autor sabe melhor do que a maioria das pessoas que as rugas de expressão
provocadas pelo choro são muito mais difíceis de conseguir do que as provocadas pelo riso, por
isso não teve medo do humor mesmo ao contar uma história muito séria.
Para quem o lê, este livro pode ser um misto de viagem ao século XVIII, de encontros
com personagens que vemos todos os dias na televisão, de uma conversa numa noite de
tertúlia ou de uma aula muito bem dada. No fundo, este é um livro sobre um magote de
homens para ser lido também por mulheres. E tem os seus alicerces numa grande mulher, a
Sofia, sem a qual o mesmo jamais seria possível.
Permitam-me um agradecimento pessoal ao Zé, pelo tamanho da letra neste livro; é
que, depois dos quarenta, a leitura dá tanto mais prazer quanto menos tempo perdermos à
procura dos óculos de ver ao perto.

Teresa Paixão

Prólogo

Um fato é uma verdade efêmera; um mito é uma verdade eterna.


Se, para muitos, a História é algo infinitamente remoto e constituído por meras
sombras, para outros, estas sombras podem adquirir contornos que tornam até os mais
cépticos em fervorosos crentes. Neste livro, ambos poderão encontrar terreno para uma análise
histórica de simbolismo maçônico a que o Marquês de Pombal se devotou, bem como à forma
de o dissimular ou encriptar e, acima de tudo, de o revelar.
Sem querer contestar a ideia de que a escrita é sempre resultado de um estado de
alma, atrevo-me a acrescentar que a figura controversa do Marquês exige, antes de mais, um
estado de espírito determinado.
As dificuldades são imensas pois sobre Pombal quase não existem registos de época.
Este tinha o despótico e pouco iluminado hábito de meter a ferros, ali para os lados do
Limoeiro, quem se atrevesse a escrever sobre ele, fosse mal ou fosse bem, estes últimos por
mera cautela. Deste seu estranho hábito resultou uma historiografia nacional que gera a
sensação de penúria e de lugares comuns, de onde saímos com pouco mais do que a data do
seu nascimento e morte. Em tudo o resto, ninguém se entende.
Se o estado de espírito carcerário não é dos mais favoráveis à escrita, estas dificuldades
bibliográficas adensam-no profundamente. Recorre-se então às fontes estrangeiras da época
que revelam o verdadeiro e, para nós, desconhecido Marquês. Quase desistimos, só de pensar
em defender algo tão absurdo como o fato de, afinal, a Terra andar à volta do Sol. E pensamos
que nos vão lançar o livro à fogueira, logo na primeira semana.
Munidos de fatos copernicianos, atiramo-nos à escrita, ou melhor, à manuscrita. É então
que o estado de alma vem ao de cima. Em cada frase, em cada ideia, em cada conceito até,
aquele impele-nos para uma sistemática formulação autobiográfica contra a qual se luta
parágrafo a parágrafo. Enquanto se não esgota a experiência de vida, tudo serve de tema. Os
nossos conhecidos entram pela realidade dos personagens adentro, tentando a todo o transe
subvertê-los. É uma luta constante entre a alma, que não é mais do que o nosso espírito
profundo, e a realidade dos fatos que queremos verter sobre o papel. Também por isso este
livro foi escrito a duas mãos: uma para criar, outra para criticar.
Assim chegamos aos segredos e a tudo o mais que, esperamos, não venha a dar lugar a
um solene auto-de-fé em praça pública.
E pur si muove.

Agosto de 2005

José Braga Gonçalves


Sofia Costa Serra

1 - O Logro

“Um raio que os parta!”, clamava o Venerável Marquês, tateando com o pé a banqueta
que Blancheville tentava colocar à porta da calèche, para ajudar à descida do seu possante
amo. “Um raio que os parta!”, repetia, resfolegando de fúria enquanto assentava firme o
sapatinho afivelado no improvisado degrau.
Ao terceiro raio que os partisse, sulcou a lama da rua direto à porta de casa. Com a
segurança de quem tinha a situação sob controlo, o paladino da maçonaria austríaca em
Portugal e demitido recém-ministro, entrava em casa num rubor de fúria mas sem ar pesaroso.
Acolhido por Leonora com um “Hallô” tirolês, esboçou um circunstancial “Alies gut” e fechou-se
no escritório, nu de cabeleira. Ia fazer queixinhas.
Começou com uma carta ao Irmão Embaixador da Áustria em Lisboa e, por via deste, ao
Imperador Franz de Lorena, ao ministro von Kaunitz e ao Duque Sylva-Tarouca, o trio todo-
poderoso de maçons austríacos. A sua extemporânea demissão era apenas um pequeno
contratempo e serviria até para desentocar alguns fuinhas da corte. Logo trataria de os entocar
de vez, ali para os lados da Junqueira.
Pela urgência, o seu relambório seria curto, apenas umas dúzias de páginas a cada um
dos notáveis Irmãos. Por vezes também sabia ser sucinto, pensava ao terceiro dia, quando
terminou. Podia agora dormir um pouco.
Ao adormecer, descobria um estranho sabor da vida: para quem tinha subido a pulso, o
prazer de perder era tão compensador, afinal, como o de ganhar. Pobres eram os que não o
saboreavam, concluía num remoque, bem sabendo que o seu pulso forte renovaria a subida,
talvez a caminho de outra queda, outro prazer.
Umas semanas depois estava de novo empossado, informalmente, tal como fora
afastado. A Áustria impunha o seu imperium in imperio e a maçonaria o seu sangue real. O
embaixador, de novo ministro, tornava-se um intocável e os seus detratores, como o tempo
demonstraria, fortes candidatos a fogueiras e repelentes calabouços. De um país dominado por
uma Monarquia absoluta, uma onipresente Igreja e uma Inquisição difusora do terror e do
obscurantismo, em breve restaria apenas a Monarquia construtora da sua própria Igreja e com
a Inquisição jacente à ordem real.
Na intimidade familiar da corte, havia mais de meio século que a língua e os costumes
germânicos predominavam. D. Pedro II casara no ano de 1687 em segundas núpcias com a
Princesa alemã e nova-católica, Sopia von Neuburg, mãe de D. João V. Este, assim germano de
sangue, juntou o seu ao da austríaca Princesa Maria Anna, gerando o rei-menino, José,
educado pela mãe na árdua língua de Goethe, com firme desprezo pela local.
Em consequência, havia muito que no palácio reinava a cerveja e que, do porco, só se
comiam os joelhos, com couve azeda. No Paço, o “Bom-dia” era “Gut Morgen” e o “Cnute
Nacht” sinal de recolher.
Mesmo a Guarda Real era formada pela Companhia de Arqueiros Alemães, os Tedescos
e, para construir Mafra, fora-se buscar Johann Friedrich Ludwig, um arquiteto alemão,
erroneamente conhecido por Ludovice.
Mais tarde, até para fazer a guerra à Espanha se iria buscar um alemão, o Conde de
Schaunburg-Lippe.
Com trinta e seis anos, o impreparado filho travesso do Rei-Salomão é sentado no trono
à força de um destino revel. Agarrado à sua austríaca mãe, à língua, costumes e imperiais
donzelas, D. José aparentava uma indulgência real colmatada apenas pelos mais nobres vícios
da caça e dos folhos. Sem margem para cintilar, reinaria encastrado entre o brilho oposto de
dois astros: seu pai, Rei-Sol desbaratador do Ouro, e Pombal, o adorador da Lua e
aprovisionador da Prata.
Aclamado no Paço, em 7 de Setembro de 1750, já um mês antes dera cumprimento às
determinações da rainha-mãe, nomeando para seu ministro o plenipotenciário do Império
austríaco, Sebastião José de Carvalho e Melo, vindo expressamente de Viena para o efeito.
Ali, este aprendera o alemão e tentara aperfeiçoá-lo nos anos longos de vivência com a sua
austríaca mulher, Leonora, jocosamente dita “a Bela”.
Leonora, como todos os germânicos desterrados neste fim de mundo, sempre se recusara a
aprender o linguajar bárbaro dos locais. Com a excepção do Arquiteto e súbdito austríaco Karl
Mardell, esta atitude ascendia até D.Anna de Áustria, sofrida viúva de D. João V, que se
recusara a dizer mais do que o polido “obrrrigadô” a que o flácido protocolo lisboeta obrigava.
Seu filho, o Rei D. José, sempre desprezado pelo pai por ser filho terceiro, crescera nas
germânicas faldas dos saiotes maternos, mal aprendendo o português de tanto rodear as
cortesãs austríacas, que a sua mãe constantemente importava da corte Imperial.
Nestas artes, tornara-se próximo do Capitão dos Arqueiros Tedescos da sua Guarda, o
maçom alemão Gottlieb Fuchs que, passados anos, ainda gritava “Feuer!” em vez de “Fogo!”.
Dos restantes germanos, nem valia a pena falar, que mudos pareciam. Falavam entre si e
sorriam entreolhados quando alguém se lhes dirigia na língua de “Camuiís”, como chamavam
ao poeta.
Eram assim os germânicos na corte portuguesa que o Império austríaco controlava com
o firme pulso de Pombal, a complacência da Rainha-mãe e o beneplácito de D. José, todos
austríacos de sangue ou por casamento, como Pombal.
Este, meia década antes, em Viena, tornara-se austríaco à luz das leis e estilos das
cortes portuguesa e austríaca da época. Assim ditava o seu casamento com uma dama da corte
Imperial. E o Marquês nunca o escondera, ameaçando até retirar-se para a sua segunda pátria
quando algum fato lhe tolhia a dura vontade.
Portugal, à época da chegada de Pombal ao poder, era um país retardado e diferente: o
pessimismo grassava, qual peste social e econômica; o conceito de trabalho era um contragosto
só entendível como uma esmola que alguém recebia sob a forma de indigente emprego; a
desenvoltura intelectual era ferozmente oprimida pela intriga; as famílias, endividadas, só
tinham para a broa num mês de três semanas; a boca, lavava-se com vinho e o corpo
confundia a água com o fogo, dela fugindo como da morte.
É neste preparo de país que, em 2 de Agosto de 1750, o futuro Marquês de Pombal
toma posse como Ministro dos Negócios Estrangeiros e também da Guerra. Estrangeirado em
Londres e Viena, regressa imbuído de espírito crítico e germânica eficiência, infinitamente mais
preparado no pensar e no agir, que qualquer outro no reino.
Ambicioso e sem cautelas, logo deixou que a ambição se revelasse madrasta da imprudência e,
poucos meses passados, já caía no mau gosto da indigência nacional ao mexer com o que
estava.
Parasitária, a alta aristocracia equivalia-se ao alto clero gerado no seu próprio seio,
pelos filhos segundos, sem bens próprios. Em contraste com esta nobreza clerical, 250 mil
eclesiásticos pululavam em cada metro quadrado do território, em percentagem não inferior a
um décimo da população total do país. Dizia-se que só no Tibete existiam mais monges que no
reino de Portugal, e talvez nunca os tivessem contado bem por lá...
Ao primeiro embate, não lhe davam mais de um mês de vida política e logo, uns e os
outros, se lançaram à intriga, desporto nacional a par da caça e das cantatas às donzelas.
Por detrás, chamavam-lhe ainda o traste de Viena, ignorando que o Império austríaco
era a gênese da sua força.

2 - O Chão Salgado

Fazia precisamente um ano que a polícia política assassinara a frio o jornalista e maçom
Hernâni Cid, durante a tentativa de fuga das masmorras do Limoeiro Convocados por Álvaro
Tição, sobrevivente da fuga todos os amigos que o visitaram na prisão ou que o ajudaram nas
investigações sobre o Marquês de Pombal, se reuniam naquele dia para jantar em sua
homenagem. Simbolicamente, escolheram um restaurante típico situado no Chão Salgado, em
Belém, no preciso local da execução dos Távoras e onde nada mais deveria ter crescido.
Adiantados, pontuais ou atrasados, ninguém faltou Desde o homem da idéia, que
cursara Direito com Cid passando pelos jornalistas, José Roriz, Costa Ruivo, Ayres Branco e a
queridíssima Jackie, até ao Paulo, pioneiro aviador do grupo, ao Fernando, o advogado de Viseu
e ao Juan Santial, o médico de Granada, terminando no Zuzarte alfarrabista, no próprio irmão
de Cid e no Pepe, o dono do restaurante galego em São Bento, onde meia Lisboa se reunia à
míngua de boa comida, todos estavam presentes.
Ausente, apenas o secretário do agora ex-ministro que, entretanto, caíra da Ditadura
abaixo. Deste, nem cadáver; daquele, sabia-se ter sido socorrido pelos Irmãos do Brasil, que o
acolheram em São Paulo e lhe providenciaram imediato emprego e dignidade social,
compatíveis com as de um Irmão maçom de alto grau em Portugal. A sua ausência revelar-se-ia
da maior utilidade.
A grande surpresa da noite era Otto, o jornalista e maçom austríaco que Tição
conseguira contatar em Viena e que Jackie tinha ido buscar à Estação do Rossio, em segredo.
Desfeita a surpresa, logo se reconheceram como maçons, perante Otto, os que o eram sem que
os restantes disso se apercebessem. Com um simples aperto de mão se traçavam afinidades.
Otto vinha imerso numa ansiosa curiosidade sobre o país do Marquês, figura que tanto o
deslumbrara pelo seu secreto envolvimento com a maçonaria austríaca. No entanto, a outra
razão da sua inesperada presença em Lisboa estava bem longe dali. A coberto de uma
reportagem para o seu jornal, o Neues Wiener Tagblatt, sobre a rota de fuga européia aos
perigos do anti-semitismo cujo terminus inicial era Lisboa, vinha acautelar a sua
própria e a de seus pais. Mas jantar sobre o terreno do martírio dos Távoras era um inebriante
prazer histórico com o qual se deliciava, saboreando cada instante que passava. A conversa ia
tendo lugar em francês, arranhado por uns, polido por outros e falado pelos restantes.
Depois das apresentações e da anárquica distribuição de lugares, Otto avançou para um
dos motivos da visita. Sacando de um molho de cartas do alfobre da sua velha pasta, passou à
explicação: eram cartas pessoais do seu amigo e ali homenageado Hernâni Cid, que versavam
sobre o Marquês de Pombal. Na verdade, disse, aquelas cartas refletiam alguns pensamentos
desconexos, próprios de quem estava por tempos imemoriais sujeito às masmorras da
Ditadura, “já meio morto e conservado por milagre”, como o próprio nelas referia. Ante o pouco
lusitano silêncio, explicou que ali estava também com o intuito de desvendar alguns fatos que,
por estúpida morte, Cid tinha deixado em pistas, teorias ou suspeições.
Recordou ainda, com emoção, o primeiro encontro com o homenageado em Saint-
Germain-en-Laye, durante as negociações de paz após a Primeira Grande Guerra, a que ambos
assistiam como enviados dos seus jornais. Por dentro sorria, ao rever a confusão que se
instalara entre os dois, com os apertos de mão maçônicos de diferentes ritos e em que, bem
tentando, nenhum reconhecia o outro.
O discurso gerou um primeiro brinde à memória do ausente. Por mera distração, Otto
disparou o maçônico “Feuer!” e dois dos outros, a saudação ritual de “Fogo!”, ao que os
profanos presentes, depois de uns mirrados “Saúde!”, quase chamavam os bombeiros.
Prosseguindo o discurso, Otto transmitia aos presentes as saudações de seu pai, Oskar
Lenndorf, o grande admirador do Marquês. Olhando então em volta, num reflexo pavloviano de
quem estaria em Viena, avançou para um breve relato sobre a situação política na Áustria, que
fazia a portuguesa parecer o Éden das Ditaduras.
Às óbvias interrogações, esclareceu que tinha usufruído, até então, de uma ténue
imunidade por ser jornalista e repórter de guerra, condição essa em que visitava Lisboa,
concluiu com a flacidez de rosto e o baixo olhar de quem estava a omitir algo.
Sacudindo as preocupações, tentou satisfazer o orgulho vinícola dos seus anfitriões, recordando
que o seu pai era um apreciador apaixonado do vinho da Madeira, o qual tinha conhecido
durante umas férias exóticas, a convite de um amigo inglês residente na já então chamada
Pérola do Atlântico. Dizendo isto, perguntou se não lhe podiam servir um calicezinho de
Genebra.
Com o avançar da noite, Otto ia pressentindo que Sid mal partilhara as suas descobertas
com os presentes. Até o simples fato do Marquês ter sido o paladino da maçonaria austríaca em
Portugal, parecia totalmente ignorado. Mesmo a protecção dada aos maçons no consulado
pombalino era ali atribuída a uma hipotética ligação do Marquês a Inglaterra, o que, para Oto,
não fazia o menor sentido face ao desfavor com que Pombal sempre tratara os ingleses. No
mais, cada um parecia saber apenas o que Cid lhe pedira para investigar.
Para aligeirar a conversa, perguntou como ia a construção da célebre estátua do
Marquês. Já antes Sid lhe referira que havia quase vinte anos fora aprovada a construção de
um monumento em sua homenagem no lugar da Rotunda. Estaria pronta?
Os portugueses nem sabiam o que responder. De 1914 a 1931, além de intermináveis
discussões, projetos, e polêmicos concursos, pouco mais for a feito, dizia-se que estava a ser
fundida em bronze e nom só jacto, qual Minerva da cabeça de Júpiter, seguindo o desenho do
arquiteto Adães Bermudes. Mas nada se sabia, já que a Ditadura fizera sua aquela causa.
No entanto, os que tinham visto a maquete, diziam que tudo no monumento era belo,
de uma impressionante unidade e simbolismo, expressando a energia, a grandeza e até a
ferocidade do estatuado Marquês.
Compreendendo o embaraço, Otto mudou de assunto e o jantar prosseguiu por entre
curiosidades muitas e banalidades várias, até que o dono da tasquinha lhes meteu a conta à
frente, sem para tal se fazer rogado.
Feitas as despedidas e encomendada a alma do já periclitante Otto aos inconfessáveis
cuidados noctívagos do Ayres Branco, lá foram todos à vida, sonhando alto, com o seu papel na
coletiva investigação sobre rotundas do Marquês. Antes, ficara apalavrado um novo jantar no
restaurante do Pepe, lá em São Bento, e uma visita a Sintra com o Paulo aviador, a quem os
outros chamavam antes, o aterrador.
No dia seguinte, mal o seu corpo começou a acatar ordens do cérebro, ainda dormente
por via dos excessos da noite anterior com os fados, as guitarradas e as vadias de Lisboa, que
pareciam todas conhecer o Ayres, dedicou alguns minutos a escrever a Oskar, que ficara com a
mãe Ruth em Viena.
Era importante manter Oskar informado do que ia sabendo em Lisboa, por duas ordens
de razões: a primeira, de sobrevivência, a ver com uma possível necessidade de fuga por
Lisboa, no caso de Suíça ser também envolvida pelo jugo nazi; a segunda, para o manter
entretido com as suas investigações sobre a influência da maçonaria austríaca em Portugal no
século XVIII.
Oskar Lenndorf, apesar dos seus setenta e quatro anos, era um jovem de espírito com a
vivência de quem tinha nascido a meio de um século e já quase atravessara um terço do outro.
Judeu originário da Prússia Imperial, começara a sua carreira como agente em Paris da casa
bancária M.G. & Cie.
Por essa altura já era casado com Ruth, judia de sangue e ao contrário do marido,
também de confissão. No final do século, com Otto já nascido, mudavam-se para Zurique, onde
os seus contactos e experiência, aliados ao sucesso obtido em França, lhe possibilitaram
estabelecer-se como banqueiro no paraíso destarte.
Sem alguma vez ter pertencido à maçonaria, ao contrário do filho, um dos mais
proeminentes maçons da Áustria, Oskar era membro da mais secreta, controversa e eficaz
organização iniciática que se conhece, os Iluminados da Baviera ou, simplesmente, os
Illuminati. Daí os extraordinários conhecimentos de simbolismo que ia partilhando com Otto nas
investigações sobre o maçom Pombal, cujas sombras perseguia num hobby de banqueiro
reformado.
Na sua carta, Otto relatava o jantar no Chão Salgado, referindo que daquele grupo de
Lisboa, para além da simpatia que lhe devotaram, se parecia poder contar apenas com boas
vontades, já que os conhecimentos de simbolismo, aparentemente, teriam morrido com Cid,
apesar de alguns dos comensais serem maçons. De entre os que o eram, um pareceu-lhe
interessado e voluntarioso. Prometera apresentar-lhe o Grão-mestre da sua Obediência e até
organizar-lhe uma visita ao Palácio da Pena, expoente da arquitetura maçônica portuguesa do
século XIX, construído pelo rei-consorte austríaco de nome Ferdinand, grande patrono das artes
nacionais.
Por fim referia-se à reprodução de um quadro do Marquês, posando a sós, que lhe
tinham oferecido ao jantar em Belém e cuja existência desconhecia completamente. Para se
divertir com o pai quando chegasse a Viena, omitia qualquer descrição do mesmo, fazendo-se
assim passar por tolo. À primeira vista, e de todos os quadros do Marquês que já tinham
analisado, parecia-lhe ser este o mais enigmático, simbólico e místico. Era um quadro mágico,
mas ia deixar a sua análise para quando chegasse a casa.
Passados uns minutos, já um groom lhe batia à porta do quarto, anunciando um
cavalheiro que o aguardava no lobby do Hotel.

3 - O Cheiro da Rosa

D. Mariana Vitória, a Espanhola, Rainha de Portugal por consórcio com D. José, o


Austríaco, trouxera para a corte várias manias. Uma delas, a dos sombreros, tornara-se moda
ao ponto de as damas da corte só os dispensarem para ir ao balde. Os locais chamavam àquilo
“chapéus-de-sol” e fugiam do seu redor desde que o atrevido embaixador de França quase
ficara cego com uma vareta de sombrero, ao deitar o olho para lá do que devia.
Outro hispânico costume, importado com dramáticos resultados para a estabilidade
matrimonial dos cortesãos, eram os abanicos. Não que o ventinho causasse constipações e
forçasse as damas à cama, mas sim pelo código, inerente ao uso dos mesmos, que se
estabeleceu entre aquelas e os seus preferidos solteiros.
Os abanicos eram como os leques portugueses, só que mais misteriosos e faladores. Os
leques, que adornavam as mãos das portuguesas antes da chegada dos abanicos reais, serviam
para arejar e, principalmente, para suprir superstições tão caras às demências nacionais. A
principal função do leque era a de se interpor, desdobrado, entre as cabeças das musas da
corte e a lua, essa causadora de paralisias e abortos...
A espanhola Rainha e suas adestradas cortesãs logo vieram, cabeça descoberta,
demonstrar a interessante utilidade dos seus abanicos, os leques espanhóis.
Nas mãos delas, os abanicos misteriosamente falavam. Cada posição, cada meio abrir
ou todo fechar, cada número de abanos, tudo eram conceitos gestuais de namoro,
enternecimento, zanga, ciúme ou, pura e simplesmente, hora e local de encontro. Marido, era a
palavra mais simples: leque aberto frente à testa; marido ausente, a dama esquecia-se
convenientemente do leque em casa e saracoteava-se assim, como que seminua pelos salões,
talvez suando, já.
Este código tinha de fato origem na corte francesa onde a Rainha vivera desterrada
desde a infância como prometida do Delfim, futuro Louis XV. Em nova, tinha a beleza de
qualquer outra criança e, sem olhar de frente a rainha Farnese, sua mãe, ninguém poderia
prever quão feiérrima se havia de tornar ao crescer. O Delfim, ao vê-la desabrochar após anos
de consolidada promessa matrimonial, exclamou um assustado “sacré bleu!” e zurziu a célebre
frase de família: “L'état c'est moi!”. Invocava assim, num uivo, os poderes do absolutismo para
se livrar daquele ser que mais lhe parecia uma açafata em forma de tigela da Índia.
Na verdade, a Natureza fora generosa para com a Princesa Mariana Vitória: dera-lhe pés
grandes e mãos de cavadora. No resto, fora avara com ela.
Depois do uivo do Delfim, viu-se a princesa recambiada para casa qual letra de câmbio
sem aval. Sua mãe, a incisiva italiana Isabel Farnese, segunda mulher de Filipe V de Espanha,
só encontrou um outro pretendente, em toda a Europa, a quem a deixar em vida: o displicente
príncipe terceiro, filho do opulento Rei-Salomão de Portugal. O ligeiro percalço da
consangüinidade ultrapassava-se com uma simples bula papal, pois que a Farnese, mãe da
noiva, era filha de Amália de Neuburg, irmã da germânica Sofia, avó do noivo. E como naquela
família se casava cedo, seguiram-se os ditames: o noivo de quinze anos e a noiva só com onze.
E dizendo-se que, quanto mais crescia mais feia seria, aceleraram-se os esponsais.
Negociado o fardo, assim mandaram a antiga donzela para Lisboa, de abanicos e
sombreros, rodeada de virtuosas criadas espanholas que, de tanta perdição, ainda haviam de
provocar a ira do Patriarca em Lisboa.
Por óbvias razões etárias e alegria do nubente, o enlace matrimonial aguardaria a
presença de Hímen, o deus da Festa do Casamento, por muitos e bons anos.
Passados estes, aconteceu.
Nessa noite, já mulher, de negras protuberâncias oculares, pernas gordas e cabelo ralo,
recebia-o no leito envergando a túnica ortodoxa de apropriada fenda ao meio. Por uma vez, el-
Rey estava de acordo com a moral cristã: ao menos não tinha que ver aquilo a nu. Era como
um fantasma, estava ali e não se via. Mesmo assim a angústia real durou o antes, o durante e
o depois.
Ao crescer, a Rainha tornara-se uma predadora nata. Pouco feminina de feições e de
atitudes, desgastava as pobres damas de companhia e as demais da corte, com batidas ao
javali logo às sete da manhã.
Aperaltada a gosto, com calças de homem e botas maiores que as do seu delicado
marido, carregava armas e cestos de merenda com as indisfarçáveis manápulas deserdadas do
seu avô materno, o Duque de Parma, Odoardo. As suas manias da caça eram o terror das
delicadas cortesãs portuguesas, habituadas a rendas e mexericos, sem mais esforço que erguer
um dedo para pedir um refresco.
A corte feminina tinha um elevado índice de quedas à cama em dia de caça.
Inventavam-se espirros, transformavam-se doces aragens em lancinantes correntes de ar,
torciam-se ambos os pés em qualquer degrau de escada, tudo servia para evitar aqueles
venatórios tratos de polé. E a Rainha lá ia só, com as forçadas aias espanholas e uma mão
cheia de homenzarrões como ela.
Tempos antes, e estando D. João V há muito incapacitado, como que artes mágicas o
faziam voltar ao juízo para nomear vice-rei da Índia o Conde de Alvor, membro da casa
Cadaval, e Távora pelo casamento com a sua prima direita, D. Leonor Tomásia.
Esta nomeação tinha razões e caprichos. As razões eram de saias e os caprichos eram
da Rainha-mãe para satisfazer os do seu príncipe de encantos, o filho José. Como tal, havia
uma condição: que o vice-rei fosse de missão com o precioso auxílio do seu ilustre filho, Luís
Bernardo de Távora, o marido de D. Teresa, a Leonor dos olhos do austríaco príncipe. A
inclusão do marido da marquesinha de Távora, fora aconselhada pelo embaixador Sebastião
José, informado sobre o espírito belicoso de Luís Bernardo de Távora o que lhe podia ser
providencialmente fatal nas constantes guerras da Índia. Bem se lembrava ele da morte
violenta do seu irmão mais novo, José Joaquim de Carvalho, em 1740 na defesa de Goa, assim
como dos perigos que por lá se passavam.
Ao botafora da nau assistiu toda a corte, soltando lenços brancos e preces de
despedida. Chorosa, a marquesinha enlutada trocava olhares com o príncipe e não tardariam
três horas já lhe caía nos braços. Pela frente tinham agora três anos, se não mais, de sossego e
de prazer.
Sobravam apenas uns escolhos pelo que, feita a enviatura de uns, havia que ferrar os
outros. Pouco depois da largada, a pretexto de uma briga de rua, prendeu-se o Atouguia, genro
do enviado. Com degredo certo em Bragança junto com sua mulher, os últimos Távoras de
escol abandonavam Lisboa, deixando apenas infantes e a marquesinha para agradar.
Por entre os vendavais de ciúmes que perpassavam o Paço, a azeda Rainha-Sombrero
bolsava raiva incontida contra as sombrinhas do Rei.
Na verdade, este há muito que não se lhe acoitava, evitando o assanho daqueles rudes
membros e fugindo a gerar mais um dote, já que a espanhola insistia em apenas lhe dar filhas.
Com quatro dotes para pagar e nenhum para receber, o pobre Rei fora proibido pelo Marquês
de criar mais encargos ao reino. Cúmplice e agradecido, voltou-se para as sombrinhas. O
próprio Ministro se encarregaria das desculpas de Estado para as escapadas nocturnas e
proveria à sua guarnição.
Após o recuo das chuvas e aberta a caça ao veado, a corte deixava-se carrear para
Mafra com ar pungente de condenado. Como aquilo era um deserto, até enxergas se levavam e
criados mais de mil, acomodados com algumas escravas estéreis bem propícias àquela zona de
mítica fecundidade.
O carrossel da viagem durava por vezes duas semanas, tal era o entupimento dos
corgos nacionais, ditos caminhos reais. Ultrapassada a ordália chegava-se então a Mafra, com
os Tedescos à frente e cornetins a anunciar. Atrás, as quatro herdeiras reais e no fim alguns
nobres enjoados, os embaixadores contrariados e o núncio muito irritado. A maioria dos
cortesãos logo acampava à porta do Convento, pois que o Palácio não albergava toda a gente e
grande parte prosseguia em obras.
Manhã cedo seguinte, uma corte tiritante partia às proezas cinegéticas. À frente, a
Rainha cujo sangue ardente de espanhola a poupava ao frio da madrugada. Atrás, os peraltas,
meninos bem de então, com corpo frágil, bolsa magra, vaidade gorda e raquitismo cerebral.
Como fidalgos pelintras, viam nas idas a Mafra a oportunidade para caçar um dote, talvez tão
rechonchudo quanto as disponíveis donzelas.
Estas, as dotadas, tentavam fugir à tradição que as remetia à mera função de bibelots e
passeavam-se espaventosas na incessante busca de um marido a quem providenciar herdeiros.
Por entre damas e condessas, donzelas e marquesas, el-Rey divertia-se a bom divertir, qual
trânsfuga às perseguições conjugais. E às reais calças corria tudo de feição, até ao dia em que
saleros e sombreros trouxeram ao de cima o sangue real dos Bourbons e dos Parma que corria
em cada uma das veias da Rainha. Farta de saias e saiotes, refegos e papelotes, apanhou-o em
Mafra atrás da moita errada e, com a raiva de Castela, desferiu-lhe um balázio de chumbo bem
no meio da fronte, num último cara a cara real.
Com a altivez das Princesas de Espanha, virou costas e deixou o Dom, qual boi corrido,
a esvair-se em sangue real. Por sorte, o chumbo era fino em lugar ele zagalote e o Rei
conservou a cabeça, que já pouca tinha, dando em troca a lustreza da fronte.
Segundo soam os tempos, não lhe terá servido de emenda. A Rainha, essa saiu
incólume da afronta. Fora pelo nevoeiro que o tomara por um javali, dizia. Ele, nunca mais
caçou a menos de cinco léguas da parmesã, bem sabendo quão exímia era ela a atirar nas
moitadas reais.
Naquela manhã, o ministro ia a despacho. Era coisa rápida. De possante figura, ficava
sempre ridículo naqueles calções apertados pelo joelho, a dar com a meia justa e a terminar no
sapato de tacão alto com fivela, tão quadrada como a sua cabeleira. Como se isto não bastasse,
a moda amaneirada ditava ainda punhos, peitilhos e folhos de renda. Para cúmulo, o futuro
Marquês tinha voz de contra-castrati, razão pela qual aprendera a fazer-se respeitar por
silêncios longos, gestos bruscos, ausências graves e rios de tinta no papel.
A passos largos, sulcava o palácio até chegar à sala do Trono. D. José aguardava-o ansioso por
notícias. Às leis, ofícios, despachos e outras coisas comezinhas devotava um enorme carinho,
assinando-as sem a mácula do seu olhar, pois que este se fixava na larga manga pombalina até
que da mesma decaísse a razão do seu anseio: uma carta da marquesinha.
A Rainha, alheada do mensageiro, devotava a sua atenção à mensagem, perscrutando
com avidez a pilha de papéis de Estado. Só no fim atendia ao Ministro e, então, já era tarde. Da
manga ministerial para a sôfrega manga real, a carta passava, qual óbolo para as fomes do
amor.
Finda a missão, o Ministro saía apressado e às arrecuas, quase atirando pelo ar um
precioso jarrão da China. À porta, suspirando de alívio, partia a caminho de mais uma semana
afogada num país exaurido de gentes e estafado por um mercantilismo inglês, que ele odiava
num equilíbrio com a memória ainda fresca de sessenta anos de cativeiro espanhol.
A ambos se opunha com principesca candura e uma pastosa política externa, de entente
cordiale, sempre ancorada no Império Austríaco.
Este foi o último despacho nos Paços da Ribeira.
Uma semana depois, nem escombros restariam e o expediente passava a ser verbal: ele
ditava, o rei ouvia. Em troca, a basta manga continuaria a largar cartas com fitinha rosa e
cheiro da mesma flor.

4 - O Aterrador

Só ao ver que o cavalheiro do lobby era o Paulo, Otto se lembrou do que combinara na
véspera. Este apresentava-se fresquinho e com um vasto programa para o dia, que passava por
uma visita a Sintra e depois a Seteais, para ver as vistas que chegavam até ao convento de
Mafra. Ao almoço estava reservada uma mesa no Lawrence, o Inn em que Lord Byron se
afeiçoara a Sintra e, por fim, iriam até ao palácio da Pena para uma visita iniciática.
Partindo no Austin coupé, pelas curvas da misteriosa estrada de Sintra, lá chegaram à
vila, mais amassados que carga puxada por junta de bois. Apesar de mareado, Otto começava
a entender os fascínios daquela Serra em que o tempo retrocedia ao paraíso, sem serpentes
nem maçãs. Ali sentia, como todos, um chamamento telúrico que parecia cravá-lo à Terra.
Tudo visto e almoçado, lá foram até à Pena onde um cicerone muito especial os aguardava, o
Grão-mestre de Portugal, na companhia do Fernando de Viseu, eminente advogado e
proeminente maçom.
O Fernando, que já Otto conhecia da véspera, fazia as apresentações com a solenidade
devida ao simbolismo da ocasião. De “Muito Respeitável Grão-mestre” a “Respeitável Irmão”
não se descia, criando uma inquebrantável barreira, tão ao gosto dos rituais maçônicos.
A Pena, chamada por Richard Strauss de Castelo do Graal, tinha como origem um
Convento de frades Jerônimos, destruído em 1755. Em 1838, as suas ruínas seriam adquiridas
por D. Fernando II, outro rei austríaco de Portugal.
Nascido em Viena de Áustria, Ferdinand August Franz de Sachsen-Coburg-Gotha, viera
para Portugal consorciado com D. Maria II, trineta de D. José I e filha de D. Pedro, Imperador
do Brasil e da Arquiduquesa da Áustria, Maria Leopoldina. Esta, por sua vez, era tri-neta do
Imperador Franz de Lorena. À posterior reconstrução do palácio presidiu o próprio rei, maçom
do grau 33, coadjuvado por outro grande iniciado e simbolista, o barão Eschwege.
Sem que Otto entendesse o porquê, o Grão-mestre começava por revelar que o Palácio
da Pena era dedicado à Lua, representando a emotividade e a sensibilidade desta. E o percurso
iniciático começava logo com uma frase simples: “No castelo, só entrava quem sentia; os
outros, não passavam de visitantes.” E como nada sentisse ainda, Otto prosseguia a sua visita.
Às tantas, uma das arcanas explicações do Grão-mestre fazia-lhe finalmente sentido: “A
passagem é feita pela Sabedoria, pela Força e pela Beleza, reunidas e crucificadas pela Rosa”.
Mas antes que a pudesse discutir com ele, soou-lhe uma outra: “Ver, ouvir e calar, pâra bem
aprender”. Sem saída, calou-se, ouviu e ficou rigorosamente na mesma. Apenas entendeu que
a Sabedoria, a Força e a Beleza eram ali referidas em clara correspondência com as três
colunetas que ornamentam o interior das Lojas maçônicas e que correspondiam também, às
três Luzes do ritual. Num instante, a memória levou-o até à Loja Fénix em que as Luzes eram o
Venerável Marquês, o 1.o Vigilante Carlos Mardel e Eugênio dos Santos, o 2.o Vigilante.
E assim prosseguiu a visita com uma avalanche de informação por parte do Grão-
mestre, a soterrar o “Respeitável Irmão”, deixando-o pouco menos que afogueado. As frases
herméticas soavam com inexcedível aura mística: “O caminho para o mistério não se faz pelo
conhecimento ou pela pureza da vida, mas sim pela iniciação”. De fato, aquilo era pior que uma
iniciação, pensava o austríaco com ar de neófito, olhando sorrateiramente as horas que não
passavam. Parecia que até o tempo era maçônico; aliás, ali era tudo maçônico, pensava Otto, o
visitante assoberbado, revendo o simbolismo da Pena desde a entrada, onde a Terra surgia
como o suporte da Água a fluir sob a ponte de acesso até à incisiva corrente de Ar que
acompanhava o visitante à porta das serpentes do Fogo, nada é casual. E, passados os quatro
Elementos, surgia então a Morte. Esta representava o direito do maçom regressar à Terra,
assim se fechando o ciclo que sempre recomeça com o retorno à vida matizado na simbologia
de Hiram, o Mestre Tessurrecto.
Terminada a proveitosa visita, lançaram-se às despedidas e desandaram até Cascais.
Pelo caminho e por entre relatos de aventuras com os seus amigos, pioneiros dos ares e
também maçons, Lindberzh eLe Brix, o aviador ia convencendo Otto a cumprir a parte final do
programa: sobrevoar a Costa do Estoril até à entrada de Lisboa, onde poderia ver e fotografar o
Pentágono militar português, inspirado no pentagrama maçônico e mandado construir pelo
Irmão Conde de Lippe, enquanto comandante dos exércitos ao tempo de Pombal.
Habituado a batismo forçados, o judeu Otto acedia para logo se arrepender. Aquilo
voava?, inquiria incrédulo, olhando para o monte de sucata com asas duplas, o velho Breguet
XIV da Grande Guerra, ainda orgulho do Paulo. Sem retorno, subiu a bordo.
Depois de peripécias várias, conseguiram descolar a caminho do passeio turístico aéreo,
que logo começava com a suprema diversão do aterrador. espantar a saloiada com rasantes e
subidas que fariam Otto desejar não ter nascido. Com os assentos em tandem, a comunicação
era inexistente, sendo tudo indicado por meio de gestos ou, no caso de Otto, com aflitivos
murros no toutiço do piloto.
Às tantas, o acrobata resolveu acalmar. Suavemente, a geringonça com asas lá chegou
ao reguengo de Belém, onde o austríaco reconheceu os contornos do Chão Salgado. Daí
subiram até à Ajuda, para sobrevoar o Pentágono militar. Avisado pelo piloto, Otto preparou a
sua Leica, que até então andara aos trambolhões pela cabina. Adornando o aeroplano por meio
de largas curvas, o Paulo abria o ângulo fotográfico de Otto que, por várias vezes, quase
deixava a câmara estatelar-se lá em baixo. Ele próprio só não caía porque o Paulo o tinha bem
amarrado.
A Ajuda era o mais perto da cidade que se podia ir, pois arriscava-se a provocar um
tumulto lá em baixo, se avançasse mais para o centro. Tomava já o caminho de regresso
quando uma sucessão de pancadas na moleirinha o deixaram com a touca de aviador à banda.
Era Otto que apontava insistentemente para trás, para uma zona um pouco abaixo do Palácio
Real. Sem saber bem ao que ia, deu meia volta larga, rondando a zona do alvo.
Por mais que olhasse, só via barracaria e uma igrejeca que nem ele ali conhecia. Feita a
vontade ao austríaco, regressaram até Cascais, perturbando mais umas quantas almas com
zumbidos e picadas. No que a revolta estomacal deixava, Otto ia fotografando as praias e as
belas fortalezas que se estendiam por toda a costa. Por fim, o martírio cessou.
Ao pôr o pé em terra, Otto lá se desculpou de tanta palmada que dera. Era repórter de
guerra, dizia, mas de guerra de infantaria. Perguntado sobre o motivo da exultação, respondeu
num tom enigmático que, por vezes, “uma rosa podia dizer mais do que todo um roseiral”.
No dia seguinte, saiu eufórico à procura de um local para lhe revelarem as fotografias
aéreas. Se a construção maçônica-militar setecentista era algo de extraordinário e
original, já a igreja era um desafiante mistério. Perguntou então no hotel por uma loja
de fotografias e remeteram-no para a antiga rua do Almada. Havia por lá um famoso fotógrafo,
único local em toda a Baixa onde se obtinham revelações.
Recebido como mais um judeu em plena rota de fuga e a caminho de ser esmifrado,
pediram-lhe pela revelação o que na Áustria dava para comprar a sua Leica e levar troco para
casa. Sem alternativa, aceitou. Eram três dias, disseram-lhe. Com essa convicção e os bolsos
aliviados, lá se foi para mais um dia na senda do Marquês.
Ia coscuvilhar o Pentágono, subindo depois até à tão desejada igreja. E ia fazê-lo
sozinho, pois já tinha entendido que, àquela hora da manhã, não podia contar com os seus
novos amigos. Se fossem todos maçons, pensava, seriam com certeza de uma Loja em que o
lugar do Sol e da Lua andariam sempre trocados.
Partiu então à aventura, que começou logo na apanha de um táxi. Pelo caminho, Otto
pensava no simbolismo daquele edifício com cinco ângulos, encerrando a estrela maçônica de
cinco pontas, desde sempre diabolizada pela Inquisição. A propósito, vinham-lhe à memória as
enigmáticas figuras humanas inspiradoras da arquitetura maçônica e desenhadas por Leonardo
da Vinci segundo a proporção dourada, a relação da cabeça para os quatro membros do corpo
humano.
Perdido no pensar, quase passava a construção militar. Descendo do táxi, começou a
rondá-la, não tardando a despertar a curiosidade dos militares de guarda e a ser corrido dali
para fora, não sem antes o identificarem e, aparentemente, se convencerem de que não
passaria de mais um turista louco. Com o susto, chegou à igreja a sete pés.

5 - As Centúrias

Por aqueles dias, algo trazia o Irmão Eugênio dos Santos sob desesperada tensão. Num
inusitado assomo religioso, denunciava-se a torto e a direito em constantes rezas e ladainhas
pouco próprias de um maçom das Luzes e que tanto incomodavam o nada católico Irmão
Carlos Mardel.
Íntimos amigos, para além de maçons da Loja Fénix, tinham tido percursos bem
diferentes. Carlos Mardel, de seu verdadeiro nome Karl Mardell, também Arquiteto, nascera no
Império Austro-húngaro e viera para Portugal, no tempo da Rainha-mãe Maria Anna de Áustria.
Eugênio dos Santos de Carvalho, ainda primo do ministro Sebastião José de Carvalho e Mello,
passara num ápice de monge a maçom, mantendo ambas as qualidades por ocultação da
primeira. Antes amigos, depois Irmãos, constituíam um duo inseparável.
Mas nem a Mardel aquele se atrevia a dizer o que lhe ia na alma. Eram aquelas malditas
leituras secretas de convento, de tendência milenarista e com origem num profeta da desgraça
que, a partir de 1555, havia então duzentos anos, tinha começado a encriptar nos poemas a
que chamou “Centúrias”, as suas visões de mortes e catástrofes futuras.
O que Eugênio lera, estudara e nas últimas semanas desencriptara, graças aos seus
monásticos conhecimentos de latim e grego, tinha-o deixado transtornado. Por si, por todos os
que o rodeavam e por todos os que na Cidade, já maldita, depois vivessem por duas
“Centúrias” e meia.
No seu religioso recato, Eugênio, que sempre rezara por um Livro de Horas, refugiava-
se agora na rigidez de um Breviário, radicalizando a intensidade e freqüência das suas preces.
Tal era o seu cuidado que, para o aplacar, se fizera por duas vezes mordomo dos presos do
Limoeiro, que padeciam de fomes perenes e, para mortificar os seus receios, passara a usar um
silício à cinta, supliciando-se assim por duas horas em cada dia.
O responsável por tamanha preocupação era Michel de Notredame, o judeu eternizado
como Nostradamus, até então esquecido ao ponto de nem no Index constar. Nascido em 14 de
dezembro de 1503, em Saint Remy de Provence, tinha sido médico e estudioso de astrologia e
astronomia, para além de visionário no estrito sentido da palavra.
Algo profetizara o desgraçado que exacerbara o lado misticista de Eugênio. E como
explicá-lo ele a alguém que o entendesse, que aceitasse os seus receios sem os transformar
numa zombaria maçônica?
Eugênio estava emparedado: de um lado, os Irmãos da maçonaria, arraigados ao
simbolismo e adeptos em crescendo do positivismo; do outro, os eclesiásticos, capazes de o
queimar em efígie só de lhes falar na causa dos seus receios. De ex-monge a bruxo era um
salto para a fogueira. E o suave tratamento efígico sempre o ficaria a dever ao Grande Maçom,
que tinha transformado a Inquisição num cordeiro pascal que ainda iria servir à mesa, num
qualquer domingo. Mardel, Irmão e amigo preocupado, instava-o tentando não o perturbar
muito com as inquirições. Mas dali não saía nada a não ser murmúrios quase virulentos.
Para cúmulo dos seus receios, Eugênio tinha ido a Queluz, ao antro da viradeira, assistir
a um sarau. Sob a égide da princesa da Beira, o letrado Joachim de Mendonça apresentava
“huma dissertação sobre terremotos, seus efeitos e prognósticos”.
Por entre o temeroso aplauso que a narração provocara, a insana princesa dava a
palavra final a um visionário jesuíta e confessor da família dos Távoras. Fazendo-se de louco,
do que aliás tinha pouco, o destemperado Malagrida vaticinava a descida aos infernos de um
certo reino de hereges. Sem se atrever a dizer qual era o reino e a tamanha heresia, o padre
deixava todos a pensar o que cada um já sabia.
30 de Outubro de 1755, quinta-feira, dia de reunião da Loja Fênix. Sustentáculo em
Portugal da maçonaria austríaca, nela se congregavam os germânicos residentes em Lisboa,
bem como a entourage política e econômica do Marquês, Venerável Mestre da mesma.
Antes mesmo da abertura dos trabalhos, o Irmão Eugênio pedia para se dirigir à
assembléia. Sem espanto, o Venerável Mestre dava o seu acordo, pensando tratar-se de
qualquer questão prévia ao ritual.
Na verdade, sempre houvera um pequeno atrito entre ambos devido à moderação
anticlerical de Eugênio, que ainda passara por monge na sua indecisa juventude. Por isso, o
Mestre o chamava de maçom de três costados, já que o quarto, dizia, se perdera no hábito que
fizera o monge.
Aproveitando o ensejo, Eugênio tomou em mãos as Centúrias, fazendo Mardel pensar
que seria o Breviário. Este já se lhe dirigia para o travar, quando reparou que o livro era
diferente. Desconfiado recuou, mantendo-se atento. Eugênio, sem delongas, passou à récita:
queria comunicar à Loja um fato que o apoquentava há algum tempo e que, por se predizer
grave, a mais ninguém o podia confiar.
Para tentar prender a difícil atenção iniciática dos Irmãos, começou por referir que o
causador de tão espiritual maleita fora membro de uma Fraternidade predecessora da
maçonaria, tendo em 1556 freqüentado um templo Rosa-Cruz em Turim, no Campo Morazzo
onde, aliás, existiria uma lápide da época com referência ao fato.
Se atraiu a dócil atenção dos presentes, também atraiu o seu contrário: a ira do Mestre,
que o interrompeu agudizando a conversa. Acaso não estaria ele a falar daquele falso médico
charlatão da Provença, inquiriu com o positivo desprezo de quem não estava para vidências da
desgraça. Bem que o Mestre conhecia as profecias milenaristas de Michel de Notredame, desde
os tempos da sua enviatura a Londres. Por lá, ainda o liam; com curiosidade e pouca crença.
Indiferente à crítica da luminária, Eugênio prosseguiu num contra-ataque verbal, que ia
captar a atenção do Mestre e vencê-lo pela fraqueza do seu ódio aos ingleses. Folheando à
pressa, encontrou a sua marca numa dobradinha do canto da folha. E leu, como apelo ao
agravo, a última quadra do livro de Nostradamus':
“Le grand Empire sera par Angleterre Le Penporam des ans plus de trois cents Grands
copies passer par mer e terre Les Lusitains n'en seront pas contents.”.
Mardel sorria vendo que o amigo tinha desfeiteado o Mestre e acordado a assembleia.
Após uma pausa com sabor a vitória, Eugênio retomou a palavra passando por cima de tudo o
que era ritual.
Afinal, as profecias, as tão temidas profecias de Nostradamus, terminavam com uma
bem precisa referência aos portugueses. Que não fosse por essa deferência aos Lusitanos, que
lhe dispensassem algum tempo e atenção, pedia Eugênio, bem sabendo que já a tinha toda.
Levantou-se então Mardel, com ar de gozo travesso, pedindo ao Venerável que perdoasse o
Irmão Eugênio e prosseguisse o ritual. Entre a maçônica espada e a intrigante parede,
ponderava este o que fazer quando Eugênio se lhe chegou apontando o dedo à nova quadra.
Displicente, o Mestre leu-a com enfado primeiro, curioso depois e com os olhos esbugalhados
no fim.
Cumprida a missão de alerta, Eugênio tentava retirar o livrinho debaixo da mão pesada
do Mestre que, sem alternativa, o largou prosseguindo-se o discurso com a leitura apontada.
Traduzindo e atualizando a 41ª quadra da 8ª Centúria e tentando não escurecer os espíritos
iluminados, Eugênio falava baixinho para não ser ouvido lá dentro pelos espíritos emaranhados:
“Eleita será a Raposa não soando palavra Fazendo o santo público viver de pão de
cevada Tiranizará o próximo tanto como a um galo Pondo o pé aos maiores sobre a garganta.”.
Os Irmãos não sabiam se sorrir da voz do Mestre com a história da Raposa que não
soava palavra, ou se chorar do prenúncio de se verem a pão de cevada, tiranizados e com o pé
da velha Raposa sobre a garganta. Sorridentes ou chorosos, pelo menos estavam interessados,
remarcava Eugênio, prosseguindo na explicação. Quanto a ele, a Raposa era o Mestre, como
por todos ali era reconhecido pela sua astúcia e sabedoria e era “o eleito”, o escolhido para
levar a cabo um trabalho árduo como o de governar um país que desde os Romanos e citando
Júlio César, “não se governava nem se deixava governar”.
O pão de cevada era também claro e, para o povo, era até um luxo. Já referência ao
santo público, ou devoto povo, já só os havia dois na Europa: o espanhol e o português.
Eugênio tinha, cuidadosamente, evitado a referência à voz do Mestre, voz essa que se faria
soar, intrépida, como que em zigue-zague pela Loja interrompendo a explicação das duas
últimas frases como se, de repente, tudo lhe fizesse sentido e o sentido lhe fosse incomodo.
Metido num folho de sete varas, a velha raposa logo gizou uma saída: uma bela e bem
fundamentada explicação que deixaria todos mudos e os afastaria daquela absurda idéia de
que, para Nostradamus, el-Rey era o Galo e a Raposa era ele.
Num silvar matreiro, derivou das centúrias para a catedral de Amiens, construída no
século xiii e que, dizia, visitara a quando da sua passagem a caminho de Chantilly. Em boa
verdade, o Mestre conhecia a catedral mas por a ter estudado como exemplo de codificação da
simbologia por parte dos construtores de catedrais, os primitivos maçons.
Vendo os Irmãos estranhamente atentos, confundindo atenção com desespero,
continuou invocando que no grande pórtico da catedral se encontrava esculpida uma alegoria
denominada “do galo e da raposa”. E só podia ser aquela a fonte de inspiração poética da
adivinhação, disse, com a subtileza de quem acabava de transformar uma visão de profeta num
lirismo de poeta.
Eugênio, trocando olhares com Mardel, rejubilava ao ver como a Loja agarrara o tema,
como o tema agarrara o Mestre e como este se tentava desvencilhar daquilo tudo. A peça de
Amiens representava, tal como o final da quadra, uma raposa e um galo, completou o Mestre
ressalvando, no entanto, que o galo estava no alto de uma árvore que impedia a raposa de o
alcançar, assim o protegendo.
Agora era Mardel quem olhava para Eugênio, já vendo onde aquilo ia dar. E o Mestre lá
ia andando, agora referindo que, pelo recorte das folhas, a representação era a de um
carvalho. Dito isto, sorriu de escárnio para Eugênio, fazendo notar a coincidência com o seu
próprio apelido.
Com conhecimentos vastos e artimanhas muitas, o Mestre era quase imbatível, pensava
Mardel, já com pena do pobre Eugênio que, de tanta razão ter, a não conseguia demonstrar
talvez por tão óbvia ser.
Voltando à carga, o Mestre explicava que, em termos de hermetismo, o galo
representava a volatilidade, pelo que a alegoria esculpida na catedral podia ser uma forma de
representação da Fênix, a ave mítica que dava o nome à Loja e renascia das cinzas, como esta
em cada vez que reunia.
Atestando o tortuoso raciocínio, invocava então o Mestre a relevância daquela escultura,
explicando que a mesma se encontrava encimando um quadrifólio, no qual surgia o firmamento
com o Sol e a Lua tão explícitos como os representados nas paredes das Lojas recentes.
Por conveniência do Mestre, passava a Catedral de Amiens a ser fonte de inspiração de
Nostradamus e justificação de símbolos da própria maçonaria moderna.
Findo isto e cortando de vez a palavra a Eugênio, o Mestre proferiu um cínico
agradecimento ao monge assustadiço, apelidando-o de Irmão Nick, sem que alguém
entendesse bem porquê. Na verdade, usava o diminutivo com a mesma propriedade com que
os ingleses brindavam o demônio, o que teria origem no diminutivo de Nicolau, o nome próprio
de Maquiavel. Aprendera-o em Londres, aproveitando o espírito de liberdade e o conselho do
seu Mestre D. Luís da Cunha, ao devorar O Príncipe, opus magnus do florentino e que este
escrevera na prisão dos Medicis, em 1513, para onde fora atirado por apoiar a República pós-
Savonarola.

6 - O Epitáfio

Fascinado com os contornos do que vira do ar, Otto começou por rodear a igreja da
Ajuda. Era uma construção inusual, disso não tinha dúvida. Não fosse aquela cruz no
frontispício e poderia ser qualquer outra coisa que não uma igreja. Tratou de a fotografar por
todos os ângulos possíveis, pensando já no prazer que iria ter ao partilhar as fotos, qual troféu
de viagem, com o velho Oskar. Reparou então numa segunda cruz que encimava o zimbório,
formada por oito pontas e cravada sobre um globo de bronze. Era, sem dúvida, uma cruz de
enigmático simbolismo. A sua primeira interrogação não ia para o globo simbólico e o material
que o compunha, o bronze, mesmo sendo a única peça de metal que se avistava numa
imensidão de pedra alva. E porquê o bronze?, interrogava-se ante a esverdeada patine, ganha
por força do tempo. Como sentia saudades dos conhecimentos do velho Oskar, para quem
aquele mistério de oito pontas sobre um enigmático globo verde, poderia ter a mais simples
explicação do mundo.
Talvez fosse ainda cedo para entrar, pensou ao ver a porta fechada e como que a tentar
habituar-se aos horários de um país que parecia todo ele acordar às dez. À espera, sentou-se a
observar cada pedra, cada esquina daquela maravilhosa peça de arquitetura, deitando-se a
adivinhar quem seria o seu autor, já que a época de construção não lhe levantava a menor
dúvida.
Às tantas, percebeu que não tardariam a abrir as portas, já que se começavam a sentar
por ali umas velhinhas com ar de beatas para o serviço da manhã. Mas algo o fazia sentir que
aquele Templo, em lugar de transmitir paz de espírito, inculcava um respeito de morte. Estaria
a ficar místico, interrogava-se o renitente maçom, sacudindo os seus temores. E mal as
velhotas entraram, seguiu-as até à porta, aí estancando para os seus olhos se habituarem à
penumbra do interior. Era uma gradual revelação. Aos poucos, aquilo que no dia anterior
pressentira ia-se tornando realidade, qual tesouro Rosa-Cruz. Ao olhar em volta, mal podia
acreditar na beleza daquele Templo devotado aos percursores da maçonaria. Depois,
estranhando a ausência de informação, interrogava-se sobre se alguém já a teria descoberto ou
se todos pensariam ainda estar perante uma simples igreja. Sem resposta, por certo não ia
perguntar ao cura e muito menos às beatas.
Pensativo, continuava à ombreira da porta como se uma estranha força anímica o
impelisse a não entrar. Mal se apercebendo, recuou a pretexto íntimo de não perturbar o
serviço religioso e aproveitou para rever o exterior do templo, agora já com outros olhos. Por
fora, era ainda mais enigmático, já que não respeitava a forma retangular do caixão de Hiram,
nem exibia a tríplice fachada do Templo de Salomão. Este aparente contra-senso criava uma
harmoniosa originalidade que se impunha à traça uniforme dos restantes templos de Lisboa,
constatava Otto numa compulsão interior que o levava a perscrutar a mente dos construtores
de outrora. Se fosse ele o pedreiro daquela catedral de estilos, porque a construiria assim?
E, num momento, tudo se conjugava. Como que iluminado pelo espírito dos maçons
ancestrais, apercebia-se que a fachada de Salomão, afinal, sempre ali estivera e que o caixão
de Hiram cedera a forma exterior à Rosa, para assumir o conteúdo do templo.
De fato, toda aquela arquitetura, que Otto apenas sabia ser de um tal Bibiena, se
baseava num compromisso entre a vida e a morte, entre a Rosa e a Cruz, numa envolvente
tumular maçônica. O que tinha diante dos seus olhos era uma fachada de Salomão, amputada
das portas para aprendizes e companheiros. Das três, restava uma, a do meio que, no Templo
de Salomão, dava entrada apenas aos Mestres e acesso à Câmara onde estes se reuniam.
Assim se designava por Câmara do Meio, recordava Otto numa reflexão que o levava até à
gênese das Lojas modernas.
Por fim, a sua inspiração levava-o a reparar que as formas arredondadas da Rosa eram
adquiridas, precisamente, pelo recorte que eliminava as entradas dos aprendizes e
companheiros, bem como as suas reminiscências no lado nascente do monumento.
Algum tempo depois, como as devotas saíssem, dirigiu-se de novo à porta, não fosse
esta voltar a fechar-se. Ainda hesitante, invadiu o espaço sacral, não deixando de sentir um
estranho temor latente. Ao fundo, o sacristão compunha as flores deixadas pelas beatas e o
cura passava apressado com uma vênia gentil e um ar alheado. Qual Hemingway em viagem
por Lisboa, num relato de pormenores dinâmicos que as fotos poderiam não revelar, tratava de
anotar tudo no seu Moleskine. Percorreu então o Templo, vendo e registrando as maravilhas do
simbolismo Rosa-Cruz e maçônico que o mesmo encerrava.
Esmagado pela emulação do lugar, coroou as insuspeitáveis certezas com um relance de
olhar. Ao fundo, abarcando a essência do templo, uma cruz romana com uma simples inscrição,
I.N.RI.
Recordando que o raio de Luz só é visível graças ás poeiras que ilumina, Otto deixava-se
iluminar pela mais dissimulatória de todas as cifras de raiz alquímica e rosacruciana. Aquela
simples inscrição era o corolário oculto da forma exterior do templo, da sua entrada e demais
arquitectura simbólica. Era o fecho da abóbada celeste.
Tentando não trocar os termos, Otto revia os dois significados da expressão I.N.R.I. O
primeiro, dissimulatório, tinha origem na inscrição que Pôncio Pilatos mandara cravar na cruz do
mártir do Gólgota, sobre a sua cabeça. I.N.R.I. era a chistosa abreviatura do título latino “Jesus
Nazarenus Rex Ivdaeorum”, ou Jesus Nazareno Rei dos Judeus. O segundo, dissimulado, era a
sigla de identificação dos Cavaleiros RosaCruz e tinha origem na antiga máxima hermética
“Igne Natura Renovatur Integra”, “o fogo renova toda a natureza”.
Sendo Otto grau 33 da maçonaria, recordava a sua passagem pelo grau 18,
precisamente o de Cavaleiro Rosa-Cruz. Só então se dava conta de estar um Rosa-Cruz num
Templo dedicado aos mesmos. Mas ele não era o único ali presente.
Subitamente, toda aquela envolvente mística parecia emanar de um só local no ermo do
Templo, um estranho túmulo em madeira, de singela beleza, mas que pelo seu aspecto
abandonado parecia de algum desconhecido ilustre. Apenas, irradiava; e Otto não sabia o quê.
Naquele momento, estava sozinho; no entanto, não se sentia só, e a sensação não era boa. De
semblante carregado, tratou de sair dali e só ao passar pelo túmulo lhe deitou um olhar de
relance. Depois, estarreceu. Incrédulo no que via e crente no que sentia, Otto regozijava com
aquele momento que, só por si, valia todas as canseiras por que passara até chegar a Lisboa.
Como se o morto estivesse vivo e o estivesse ali a olhar, Otto permaneceu imóvel,
respirando a compasso. Ao sentir de novo o sacristão, ganhou coragem e acercou-se. O nome
era claro e as datas certificavam-no. Por cima, estava adornado com uma estranha peça
escultórica em bronze, e com uma referência apenas: “Lei de 3IX-1759”. Tomou nota e tirou
algumas fotos, depois de clarear o local abrindo as portadas de uma janela mesmo ao lado do
féretro. Pela data da inscrição, não se poderia tratar de um mero Cavaleiro do grau 18, pois
esta designação honorífica surgia apenas no século XIX. Era sim, e por aquela mesma data, o
de um verdadeiro Príncipe Rosa-Cruz, o grau máximo da maçonaria de orientação germânica do
século XVIII.
Findo o ritual de latria, saiu enervado e pensativo. Como seria possível que nem Cid
alguma vez lhe tivesse referido aquele túmulo?, interrogava-se, pensando o que seria se, na
sua Áustria, alguém daquela estirpe fosse votado a semelhante abandono. De fato, não
compreendia aqueles portugueses. E se alguém se lembrasse de profanar o túmulo? A sua
inquietude só passou quando admitiu que, abandonado ou esquecido, aquele era o lugar certo
para depositar um Príncipe Rosa-Cruz.
Depois da luminescente visita, Otto regressava ao centro da cidade na esperança de
encontrar mais algum templo Rosa-Cruz. Correndo o lés da Baixa e confrontando um roteiro
banal, verificou que todas as edificações religiosas eram posteriores à morte do Marquês. A
única excepção encontrava-se na Praça do Município, sob a forma de uma peculiar construção
cripto-maçônica dotada de uma opulenta fachada de Salomão e que o roteiro ainda chamava
de Igreja de São Julião.
Deliciando-se a observar, assistia à mais original utilização que vira dar a um templo, já
que não cessava a passagem de carros pelo seu portal adentro. Era o templo-garagem de um
banco nacional.
E a Igreja sabia disto? E os Irmãos, o que diriam?, pensava o austríaco atónito.
Encolhendo os ombros, lá se foi ao desalento, deixando o Santo Julião para trás.
A propósito das descobertas sobre as igrejas de Lisboa, que ia relatando ao pai através
da novíssima invenção, o telefone, recebia em Lisboa uma curta missiva daquele. Com um
paternal abraço e sem mais comentários, Oskar enviava-lhe um extrato de um livrinho que
andava perdido nas estantes empoeiradas e que a mãe Ruth, em boa hora, recordara. Era o
diário de William Beckford, datado de 1787 e escrito a quando da passagem por Lisboa daquele
membro de uma das mais ilustres famílias de Inglaterra, de cujos falsos pudores tivera que
fugir sob a tênue insinuação de sexualidade indefinida.
Otto leu e entendeu por que não trazia comentários, apenas alguns itálicos.
“Já era escuro quando chegamos à Igreja dos Mártires. Como tínhamos vindo muito
depressa, afigurou-se-nos encontrarmo-nos de repente, não numa igreja, mas num esplêndido
teatro (...); todas as tribunas estavam engalanadas com reposteiros do mais vistoso damasco
das Índias (...). Muito bater de leques, muitos risos abafados e muitos namoricos pela espaçosa
nave (...). A concavidade, onde fica o altar-mor, de tal modo me parecia um palco, que eu
estava sempre à espera de ver a entrada triunfal (...) ou descida de qualquer divindade pagã
(...). Devo confessar que tudo isto me alegrou e encheu de idéias pagãs”.
Sutilmente, Oskar indiciava ao filho conhecer uma parte dos mistérios das igrejas de
Lisboa.

7 - Terra Motus

Em 1755, Portugal tornara-se num país em que só o Rei era verdadeiramente rico. Tão
rico que desde o Fidelíssimo, pai de D. José, ombreava, por alto, com as casas reais e imperiais
européias. Esta riqueza advinha-lhe do Brasil e do apanágio de cobrar impostos em nome do
Estado sob a máxima absolutista e iluminada “l'état c'est moi”.
A capital do reino, bela quando vista do rio, assustava o navegante mal pisava terra
firme. Na verdade, Lisboa era já antes do terremoto uma urbe polvilhada de ruínas causadas
pela decadência da aristocracia imobiliária que se habituara a viver à míngua da coroa num fare
niente digno do declínio da Roma antiga. A cidade, essa era governada por um Senado que
nem dos próprios edifícios cuidava, antes se depauperando em festas e festejos religiosos de
dúbia devoção, que patrocinava em ufano detrimento do bem comum.
Por entre a desgraça urbana, vivia quase um quarto da população do reino,
sobrevivendo da coletiva indigência alimentada à custa da pedinchice endêmica e da beatice de
pouca fé. Parte desta mole humana vivia debaixo de uma qualquer janela de piedoso burguês
ou de aristocrata falido de onde, a horas certas, caía uma moedinha numa demonstração de
falso vigor econômico. A restante acolhia-se às portas dos conventos, únicas construções sadias
da cidade, de onde saía uma sopa chamada dos pobres e que os frades distribuíam sem
distinção da boa ou má-fé.
Mas algo mais trazia as almas em alvoroço: a voz comum de que os tremores de terra,
vulgares em Lisboa e de cíclica devastação, se faziam sentir mais nos meses de Novembro a
quando das primeiras chuvas que se seguissem a secas prolongadas.
Nesse dia de todos os mortos, Eugênio saía cedo de casa. Incógnito, ia até à ermida do Alto de
Santo Amaro assistir ao serviço em memória dos defuntos, sugestivamente, a invocação
religiosa mais parecida com os rituais da maçonaria.
Apesar de a sua casa, na rua da Junqueira, ser paredes meias com a capela de João
Baptista, o santo devoto dos maçons, optava naquela manhã por mais um aplacamento da sua
sedição moral, mitigando-a com a tormentosa subida das escadinhas de Santo Amaro.
Sem que o pudesse imaginar, aquela dolorosa expiação ia provavelmente salvar-lhe a vida,
naquele sábado de Novembro, vigésimo oitavo da Lua.
Pouco faltaria para as dez quando chegou ao topo, arfando pela provação matinal. Num
indulgente pecadilho sentou-se lá atrás e trocou as laudes do Breviário pelas Centúrias do
Adivinho, retomando então a primeira daquelas, na quadra 88.
O divino mal surpreenderá o grande príncipe que pouco antes terá mulher desposada. O
seu apoio e crédito ao golpe virá escasso, Desígnio que morrerá para a cabeça rapada.
Enquanto o serviço não começava, ia lendo, e do que lia, quase tudo entendia. Só o
“divino mal” lhe deixava dúvidas. Seria o mal de França, ou mal francês, como chamavam à
sífilis? Quanto ao cabeça rapada, era claro... mas era a quadra anterior que o atormentava
naquele dia de céu azul:
Em nocivo fogo do centro da Terra, Fará tremer em torno da cidade nova Dois grandes
rochedos por muito tempo farão guerra Depois Aretusa avermelhará novo rio.
Falava sem dúvida de um tremor de terra motivado pelo choque de dois “grandes
rochedos”, que outros não seriam senão os dois montes de rocha firme, ditos da Madalena e de
São Francisco, encimando o centro da cidade a nascente e a poente. Comprimidos entre
ambos, a zona baixa e o centro econômico e político de Lisboa, tinham sido conquistados às
águas do rio por meio de aterros instáveis e permeáveis a enchentes e marés do “novo rio”.
Quanto a este, ele recordava o que Osberno escrevera sobre Ulyxibonae, a Lisboa do século III,
quando por esta passara. Bem se recordava daquela referência como feita ao antigo delta do
Tejo. E não ia ser um terremoto qualquer; ia durar o tremor pois “por muito tempo os dois
rochedos fariam guerra”.
Por fim, a referência a Aretusa. Segundo o relato de Ovídio, Aretusa era uma ninfa
marinha que, ao nadar num rio aprazível, se viu perseguida por uma estranha força que se
agitava no fundo do mesmo. Fugiu então para Terra, até que esta se fendeu, criando um
enorme túnel que a levou de volta ao mar. A referência a Aretusa naquela quadra tinha, sem
dúvida, algo a ver com a entrada de água pela terra adentro, interpretava Eugênio nas suas
aflições.
E era isto que o trazia em devastadores cuidados, ainda somado a alguma crendice
popular sobre terremotos em Novembro. Mas eis que o serviço começava e os cânticos e
louvores em latim invadiam a delicada acústica daquela capelinha de memórias perdidas.
Naquela vistosa manhã, uma azáfama religiosa instalara-se na cidade. Os seus mais de
trezentos campanários ressoavam num interminável repique às almas desgarradas. Pouco
depois, já as igrejas abarrotavam, expulsando até os mendigos das suas próprias escadarias.
De todas a mais bela, a de São Domingos no Rossio, enchia-se de gente alta que sacudia os
podengos, tal como o fazia aos pedintes, e com igual humanidade.
Ao longe, nas aforas de Santo Amaro, Eugênio sentia o troar dos sinos por entre a
leitura mística que passava por missal. Rondavam os cânticos os miserere, quando um estrondo
medonho ecoou na igrejinha. Construída sobre as rochas de uma azóia, onde um santo ermitão
vivera, a ermida resistia aos incontáveis abalos.
Com o livro a queimar-lhe as mãos, Eugênio olhava o céu, sem saber a quem culpar. Lá
em baixo, nas igrejas apinhadas, os claustros e arcadas sem sustento desabavam sobre as
almas, fazendo delas corpos mortos. Durante seis para sete minutos com dois breves intervalos,
a voracidade da Terra engolia a capital. Na aparente segurança do Alto, Eugênio assistia ao
súbito recuo do mar e ao seu inexorável regresso, em três erupções fatais. Depois viu o fogo
purificar o que sobrava.
Morreriam cinco mil, ao todo, esmagados pela Terra, arrastados pela Água e
consumidos pelo Fogo. Outros tantos se finariam sem que alguém lhes acorresse, abandonados
por entre os escombros e com as moléstias que apanharam. Pelas ruínas da cidade, devotos
sem amparo sofriam as penitências forçadas dos eclesiásticos a salvo. Absolvendo os
moribundos e abençoando os já finados, os religiosos vagueavam por entre as almas, pregando
a contrição do Rei e do Ministro, o seu culpado.
Perante a lastimosa vista, Eugênio chorava as almas, condoído pela cidade. Mas era a
perdição dos livros o que mais o derreava. Perdia-se a memória de um povo, que já não se
recuperava.
Cidade de ruas estreitas, Lisboa ficou com um terço dos edifícios por terra, e outro tanto
de arruinados. Dos que se mantinham em pé, mais de metade viria a ser aterrada aos intentos
da Reconstrução consagrada.
Por toda a Europa o terremoto de Lisboa se fez sentir, causando apreensão e tristeza,
mas alegria em dois lugares: na prisão do Limoeiro, de onde todos os vivos fugiram, e em
Veneza, de cuja prisão no Palácio do Doge o aventureiro e maçom Giacomo Casanova se
evadiu, aproveitando a queda do telhado da sua cela. Antes de saltar para a Praça de São
Marcos, proferiu a célebre frase: “Na minha situação, a liberdade vale muito e a vida, quase
nada”.
Depois, saltou.

8 - O Trianon

O ano de 1931 trazia a República a Espanha e levava Afonso XIII para o exílio,
cristalizando-se o anticlericalismo que levaria, mais uma vez, à dissolução dos jesuítas e a uma
nova expulsão do clero regular do ensino. Enquanto isso, a Áustria assistia à falência do
Creditanstalt, o seu maior banco, e via a Sociedade das Nações reprovar a união aduaneira com
a Alemanha. Na China, Mao Tsé-Tung era eleito presidente do Comité Central da República dos
Soviéticos Chineses e, já a medo do emergente nacionalismo alemão, a França e a Rússia
assinavam um virtuoso Pacto de não-agressão.
Nas artes, Saint Exupéry subia ao Olimpo com o Vôo Noturno e o mentor capilar de
Hitler, Charlie Chaplin, estreava o filme “Luzes da Ribalta”, aproveitando Picasso uma pausa
amorosa para ilustrar as Metamorfoses de Ovídio.
Nas alturas, o céu era finalmente arranhado pelo Empire State Building de Nova Iorque
e, cá em baixo, nesta lusitana ilha de mar à vante e espanhóis à retaguarda, Raul Lino
projetava a Loja das Meias do Rossio, num dos prédios em tandem da Rua do Ouro à Rua
Augusta.
Neste mesmo ano, em 15 de Fevereiro, surgia o primeiro número do jornal Avante!,
logo seguido, a 4 de Abril, pelo órgão oficioso da Ditadura, o Diário da Manhã, e em 19 de
Maio, por ordem desta, era encerrado o edifício do Grémio Lusitano, sede da Maçonaria
Portuguesa.
No preciso dia 28 de Maio em que a Ditadura passava o marco dos cinco anos de
existência, o Pepe fazia anos. Em tão infeliz data, a vontade dos convivas para festejar era
arrancada às entranhas da coragem para não desfeitear o anfitrião de sempre que, por galego
ser, lhe era indiferente quem no país mandava.
O jantar serviria também para a despedida de Otto que partia de regresso a Viena,
depois de cumprir um apertado programa, dividido entre o turismo maçônico, as noitadas com
o Ayres e a reportagem sobre a rota de fuga européia que tentava levar a cabo com o mesmo
sucesso de um russo em frente a uma garrafa de vodca.
Para os homenageados, a Rosinha tinha encontrado uma solução culinária que ambos
satisfazia: lacón con grelos que mais não era que um apropriado Eisbein à moda da Galiza.
Para entrada, beneficiava todos por igual com os seus mejillones a la marinera, uma iguaria dos
deuses, sendo o mais agradável para os comensais a anunciada gratuitidade do festejo que se
iniciava com um Xerez branco seco, tão áspero que colava a língua ao céu da boca.
O menos agradável, para além da desastrosa data de nascimento do Pepe, era a
presença escusada do seu amigo de infância, Manolo Fuentes, um galego tradicionalista nascido
em El Ferrol e declarado admirador de Benito Mussolini, fato que alardeava com orgulho. Para
este, estar em Portugal era obviar à bagunça republicana que se instalara em Espanha. E o
Pepe convidara-o para passar o aniversário em Lisboa e conhecer os seus amigos.
A custo, o jantar prosseguia por entre a respeitosa hospitalidade devida ao Fuentes d'el
Ferrol e os socos no estômago que a insensibilidade deste carlista insistia em dar sob a forma
de elogios à Ditadura.
O mais incomodado era o seu compatriota Santial, a quem o nome Juan assentava
como uma luva, considerando que desde a tomada de Granada, em 1492, todos os espanhóis
passaram a ter direito ao uso do título de Don como recompensa dos Reis Católicos pelo
coletivo empenho na reconquista. Sensato, este chamou-o cuidadosamente à pedra: ali não se
falava de política, nem de religião. Compreendida a mensagem, tornou-se o jantar um evento
quase agradável. Não tardaria e as filiações políticas do espanhol seriam da maior utilidade ao
grupo, já que se demoraria ainda uns dias por Lisboa, a admirar a Ditadura.
O Regime, como todos os regimes, odiava os jornalistas. Na sua repulsa aos
intelectuais, em breve a Ditadura se deitaria a persegui-los. E os do Pepe estavam na calha.
Ao longo daquela noite, ia crescendo uma atração que pairava como um romance. Ela,
que via em tudo uma aventura, deixava-se inebriar pelo exotismo daquele judeu com sotaque
de alemão; ele, sem pinga de sangue latino, não resistia a comparar aquela franqueza dócil à
frigidez das austríacas, para quem o enleio era como uma caneca de cerveja, só com mais
espuma e que se bebia quando nada mais havia a fazer.
Quase no fim do jantar, Otto fez um pequeno avanço, qual passo de sete léguas e
falou-lhe de Paris. Contava lá passar três dias, gozando um banho de cultura. Se ela o quisesse
partilhar... Jackie, traquina, fez-se mouca e difícil, sorrindo por dentro à emoção.
Com recomendações e despedidas de todos, Otto era mais uma vez entregue à sua
sorte e aos duvidosos cuidados do Ayres. Dois dias depois apanharia o Sud-Express, com saída
do Rossio e chegada à Gare de L'Este. Três dias depois seguiria para Viena a bordo do Expresso
do Oriente. Até lá, ia dedicar-se às suas investigações em Lisboa.
Três dias depois, Otto voltou ao fotógrafo, mas as fotos não estavam prontas. Só à
tarde, disseram-lhe com ar cansado pela incomodidade daquele cliente que não entendia o
tempo dos portugueses. Já preocupado com a data da partida, resolveu esperar, findo o que
estava decidido a levantar as chapas e dar o dinheiro como perdido.
Por mais simpáticos que achasse os portugueses, para qualificar o país, só lhe ocorria
uma máxima italiana: se non é vero, é bene trovato.
Das cartas que Cid lhe deixara, a que mais intrigava Otto era a que continha uma
misteriosa teoria acerca da relação maçônica entre o Convento de Mafra e a Baixa de Lisboa.
Por estar a ferros da Ditadura, o malogrado Irmão não tinha podido decifrar mais aquele
mistério, nem sobre o mesmo refletir com seriedade. Cabia-lhe a ele, e em memória do mesmo,
deslindar o sucedido.
Mas como chegar até lá?, interrogava-se, já bem avisado das dificuldades de um país
onde nada funcionava. E pensar em ir a Mafra de carro, depois do que passara até Sintra, era
pior do que tornar a subir à geringonça volante do Paulo. E se o que precisava era de uns
simples elementos sobre o Convento e a Baixa, talvez naquele bene trovato paese houvesse
algum organismo que o pudesse ajudar. Sem mais, ligou para a Jackie que, não podendo sair
do jornal, lhe sugeriu o Instituto Cartográfico do Exército, para o que lhe deu a morada.
Conselho naif ingenuamente seguido com a primeira conseqüência de não ter passado,
sequer, da porta. Cartografia militar, interrogava o oficial, num francês desdentado, logo o
inquirindo ferozmente sobre quem era, o que fazia e onde estava hospedado.
Sentindo-se como em casa, Otto recuou a pretexto de um mero engano e foi curar o
suor frio na primeira tasca da esquina, com uma zurrapa bem forte e servida à portuguesa.
Mal composto, ligou à Jackie a contar o sucedido. Ainda incrédula, desembaraçou-se dos
afazeres e foi ter com ele ao Palace. Tinha outra idéia peregrina, o Instituto Cartográfico e
Cadastral, ali à Estrela, e que sabia ser depositário de uma imensa cartoteca recuando ao
século XVIII. Tinham lá tudo e haviam de lhe dar!, exclamava numa lógica de razão que não se
compadecia com a realidade em Ditadura.
Mas a sorte estava a mudar. Ao dizer que era para um artigo sobre Pombal, num ápice
tinham cópias de tudo, e até do que não necessitavam. Acresceu ainda uma gentilíssima
recepção que deixou Otto meio assarapantado com as variações humorais dos portugueses.
Resolvido o assunto, ela zarpou para o jornal e ele acolheu ao hotel, onde um paquete do
fotógrafo o aguardava com as relapsas fotos na mão.
Num arrepio maçônico, pôde comprovar a profundidade do que fora construído e a
audácia com que o fora e, ante o tempo de que não dispunha e o saber que lhe faltava, pensou
no pai Oskar, em casa, com excesso daqueles dois elementos essenciais. Remeteu então as
fotos pelo serviço postal aéreo que, via Londres, chegava a Viena num ápice.
No dia da partida e mal a estação abrira, Jackie apresentou-se na bilheteira fazendo a
sua reserva no Sud. Depois, dando três passos apenas, franqueou a porta do Palace em busca
do pequeno-almoço e ao encontro da aventura. À mesma hora, Otto entrava no Hotel, quase
passando por ela. Confuso e receoso, ao vê-la de malas na mão, conversou de circunstância.
Tinha ido buscar umas fotos que tinha deixado a revelar e que já quase desistira de obter.
Chegada a hora do trem e com um sorriso arisco, Jackie chamou um maleiro. Era uma
das vantagens do Palace, estar portas meias com o Rossio. Indicada a gare, lá foram escada
acima, trocando trivialidades como viajantes acidentais que se cruzam numa qualquer estação
do mundo.
O Wagons-lits, inaugurado em 1906, era o luxo nacional. Instalados em cabinas
singulares, reencontraram-se no restaurante, aguardando a partida. Jackie, pela primeira vez
naquelas andanças, estava em plena emoção. Otto, não fora a presença dela, preparava-se
para mais uma enfadonha sucessão de apitos abanões e fumarada, até chegar a Paris.
A viagem passou-se em intelectual deleite com uma qualidade comum a ambos e rara
no ser humano: a de saber, também, ouvir. E por entre rasgos e travessuras, chegaram
finalmente a Paris, onde Otto a ia iniciar nos meandros da Cidade Luz.
Depois de se instalarem no novíssimo George V, prepararam-se para três dias de êxtase
cultural. Ao segundo, optaram pelo Museu de Versalhes que, explicava Otto, se ligava ao tema
“Pombal” já que a decapitada Maria Antonieta, mulher de Luís XVI, era também austríaca e filha
do Imperador germânico Franz de Lorena, Grão-mestre da Maçonaria, que em 1745 iniciara o
então embaixador em Viena.
Como a Jackie, de aventais, só conhecia os de cozinha, ficou Otto a meio da história e lá
foram andando pela ala esquerda do Grand Trianon, na insistente procura dos aposentos de
Maria Antonieta, já que Otto tanto falara dela. Mas algo lhes cativou a curiosidade logo na
primeira sala: estava repleta de quadros de Luís XV, o neto do Rei Sol e construtor de
Versalhes, dito o Bem Amado. Era Luís por toda a sala, da nascença até à morte, passando pela
já lúcida idade em que rejeitara a Infanta de Espanha, depois Rainha de Portugal. Pelas contas
de Otto, fora também o Rei de França que perpassara todo o consulado de Pombal e de quem
o Duque de Choiseul, amigo e Irmão maçom do Marquês, fora primeiro-ministro.
Jackie, que conseguia falar, fumar e olhar em três direções ao mesmo tempo, percorria
os quadros sempre mais interessada no seguinte, numa atitude perante o saber que deixava o
paciente Otto atônito e circunspecto. Por vezes, a circunspecção perde para a irrequietude e,
num encontrão que quase o precipitava contra" o visitante da frente, Jackie dava conta de um
quadro que lhe parecia familiar. De fato, aquele quadro parecia ter alguma reposição de
motivos de um outro, o mais famoso do Marquês, intitulado “A Expulsão dos Jesuítas”, cuja
gravura Cid lhe enviara, em tempos. Antes que ele o entendesse, já ela lhe cobrava a
descoberta com uma opípara entrada de foi e Bras regado com Sauternes, ao jantar.
Intrigado com as semelhanças, Otto identificava o pintor como o judeu holandês, van
Loo, o mesmo autor do quadro de Lisboa. No entanto, e num pormenor de minúcia, notou uma
disparidade que lhe confundiu o espírito. O quadro de Louis XV tinha inscritas as iniciais J. B. e,
segundo se recordava, o quadro do Marquês estava atribuído a um tal Louis-Michel van Loo,
cujas iniciais eram, precisamente, L. M., e não J. B.
Entreolhado com a discrepância, procurou no catálogo da exposição alguma referência
que o ajudasse. Pelas obras expostas, verificava que afinal não havia dois, mas sim três, senão
quatro van Loo! Um, Louis-Michel, outro, Charles André, que assinava Carle van Loo e o pai do
primeiro e irmão do segundo, Jean-Baptiste, todos descendentes de um outro conhecido mestre
de pintura judeu-holandês, Jacob van Loo.
Pelo curriculum de Jean-Baptiste, Otto podia verificar que vivera na corte de Jaime II de
Inglaterra, na mesma época em que o futuro Marquês assumia a sua enviatura a Londres.
Talvez até aquele fosse mesmo um pintor judeu “com nome de João Baptista”, ao qual o
enviado se referia em algumas cartas particulares, pensava Otto, recordando-se de algo que
tinha lido provavelmente nas pesquisas de Cid. Sem surpresa, constatou pelo resumo da
exposição que o pintor fora assumidamente membro da maçonaria, o que fazia todo o sentido,
pois apenas um pintor iniciado poderia produzir uma obra com a envolvente simbólica daquele
quadro de Louis XV.
Sendo este rei considerado como o Grande Maçom de França, título que disputava a
outro tão grande como ele, o seu Primeiro-ministro e Duque de Choiseul, tudo se conjugava
para que o simbolismo do quadro tivesse a sua complacência, tal como o de Lisboa tivera a do
seu retratado.
Contente por ter descoberto dois quadros tão distantes com tamanho decalque de
motivos, Otto não deixava de sentir algum desconforto por algo que lhe parecia escapar. Numa
pausa, olhava o teto refletindo sobre aquela sensação, quando os frondosos frescos ali pintados
lhe aplacaram os anseios. Era o fresco!, quase gritava para Jackie, era o fresco “Concórdia
Fratrum” do Templo do Marquês! Mandado pintar por este num teto do seu palácio de Oeiras, o
fresco permanecia sem autor atribuído, sendo certo que não poderia ser J. B. van Loo, pois este
teria falecido em 1745 e o palácio, como todas as construções do Marquês, seria posterior ao
terremoto de Lisboa, pensava Otto, algo baralhado com as datas, que Jackie logo esclareceu.
Estava assim encontrado o autor do fresco maçônico retratando os três irmãos Pombal. Era o
judeu Louis-Michel van Loo, o mesmo que pintara “A Expulsão dos Jesuítas”, e que acolhera em
ambos o chão simbólico original do pintor maçom, seu pai, patente no quadro de Louis XV, em
Versalhes.
Depois de passar por todos os quadros e com o humor que lhe dava vida, Jackie
escolhia três, de Carle van Loo, distribuindo-os pelas preferências do displicente D. José I e do
místico e infiel D. João V. A este atribuía o enigmático “Ennea”, bem como o convenientíssimo
“Sultão a dar um Concerto à Amante” e, àquele, a “Pausa durante uma caçada”. E Otto pairava
enleado.

9 - Os 13 Graus

Após o terremoto, as barracas de lona ou de madeira, seguras por não ruírem e na sua
maior parte importadas da Holanda, transformavam-se em sinal de grandeza, oferecendo até
mais qualidade que as antigas e desconfortáveis habitações de pedra da Lisboa destruída. Esta
assemelhava-se agora mais aos escombros de um paiol onde alguém ateara um rastilho e ficara
a olhar para ver no que aquilo dava.
Pelo menos, com o desastre da água e do fogo pareciam também ter ido as pulgas,
piolhos e baratas que infernizavam a vida dos habitantes da capital, sendo ora mais fácil
fumigá-los nas arejadas lonas do que na encafuada pedra antiga.
Só a segurança piorara. Com a exceção da populaça que não tinha onde cair morta sem
incomodar outro que já lá estivesse, ninguém saía à rua só e desarmado.
As guardas pessoais e a criadagem aperrada faziam parte do coletivo urbano até ao
anoitecer; depois, só mesmo os cães e os vadios.
Era quinta-feira o dia de despacho ministerial no abarracamento da Ajuda. Após os
irrisórios procedimentos e a entrega da correspondência amorosa, o ministro, frente à rainha,
trazia à atenção do Rei a habitual reunião de domingo em casa do Supremo Arquiteto, Carlos
Mardel.
Fazendo uma inventiva descrição das novidades arquitetônica esperadas para essa
noite, todas da suposta autoria do mui crente Manuel da Maia, Pombal deixava a devota Rainha
apenas com meia dúvida sobre a utilidade da escapada noturna. Da outra meia, fazia esperança
de um dia a tirarem daquela maldita barracaria para uma casinha de pedra e cal, pois já tinha
assez de vida ao ar livre.
Mal sabia a espanhola que, nos fundos da casa de Mardel, fora aparelhado um
conivente ninho de amor para os josefinos dispêndios com a marquesinha de Távora. El-Rey
tornara-se assim, “desinteressadamente”, o Grande Patrono da maçonaria e seu segundo
protetor.
A Maçonaria, essa misteriosa Ordem, encontra a sua mais recente origem no século XIV,
fruto de uma maior concentração de construtores de catedrais em Inglaterra. Estes artistas da
pedra ou maçons operativos, que competiam entre si para erguer as mais belas e mais altas
igrejas, reuniam-se em locais a que chamavam Lojas, sem que se reconheça com rigor a
origem desta denominação.
A partir de 1425 e na seqüência de um decreto de Henrique VI, limitativo dos seus
direitos de reunião e associação, estes detentores de magníficos segredos viram-se coagidos a
abrir as suas Lojas aos poderosos a que chamavam maçons aceites, por da arte nada saberem.
E com eles partilharam segredos, rituais e fórmulas que tinham recolhido e organizado ao longo
da séculos.
Por volta de 1599 já os maçons aceites ou especulativos ultrapassavam os genuínos e, setenta
anos depois avassalavam-nos, deixando-os reduzidos a um terço do total de membros das
Lojas, ainda que o seu número absoluto não decrescesse. Mais cinqüenta anos volvidos e as
Lojas tornavam-se meramente especulativas, tendo em 1723 recebido um conjunto de regras e
orientações escritas, denominadas Constituições de Anderson em honra de um dos seus
redatores.
Estas Constituições inspiraram-se em documentos tão antigos quanto um pergaminho
de três folhas em latim, vulgarmente conhecido como Estatutos de Bolonha, datados de 1246 e
os Estatutos de Estrasburgo, de 1563. Por outro lado, em 1614 surgia um manifesto de uma
Ordem germânica denominada “Rosa-Cruz”, o qual encerrava uma linguagem apocalíptica ou
de revelação e que, ao contrário das regiões católicas, encontrava terreno fértil e facilidades de
expansão na Europa protestante.
Sob a máxima “Qui arcana revelat mortem querit”, “Aquele que revela os segredos
procura a morte.”, a ordem Rosa-Cruz professou um tal secretismo que chegou a gerar dúvidas
acerca da sua existência como Fraternidade organizada. De aí o epíteto de seita, mais comum
de encontrar na sua designação.
Os Rosa-Cruz sempre viveram entre os homens, mas nunca se dando a conhecer ou à
sua forma de organização. E quem não respeitasse o segredo, procurava a morte.
Em Portugal, a maçonaria viria a implantar-se nos meados do século XVIII, pela mão
dos estrangeiros residentes, em negócios ou funções diplomáticas. A sua consolidação ficar-se-
ia a dever aos estrangeirados, epíteto dos portugueses com formação européia e iluminada,
adquirida pelo especial contacto com países como a Inglaterra, França, Holanda, Alemanha e
Áustria. Em Viena, capital desta última, viveu e casou Sebastião José de Carvalho e Mello,
futuro Marquês de Pombal, que aí desempenhou as funções de embaixador até 1749. Em 1745
fora admitido na maçonaria austríaca pela mão do próprio Imperador e Grão-mestre, Franz de
Lorena, de quem se tornara amigo e parente por casamento.
Já formado no Império das Luzes, Sebastião José regressara imbuído de um duplo
desígnio: primeiro, o de assumir a cadeira do poder no reino, contando com a protecção da
Áustria Imperial; segundo, o de instalar em Lisboa a Obediência maçônica austríaca, sob a
forma de uma secretíssima Loja Fênix, ocupando ele próprio o Trono de Salomão.
Reunidos na Rua do Cabra, ao Bairro Alto, num prédio que sobrevivera semi-incólume
ao terremoto e que o ministro fizera seu, os membros da Loja austríaca de Lisboa iam começar
a planear a Reconstrução que se queria obra única, no âmbito da Maçonaria Universal.
Presentes, para além do Venerável Marquês e do arquiteto Eugênio dos Santos,
encontravam-se Paulo de Carvalho, irmão daquele e Inquisidor-geral, os ministros Martinho
Mello e Castro e Luís da Cunha Manuel e ainda Jacôme Ratton, o rico industrial judeu.
Marcavam também presença os embaixadores da Áustria, das Potências Alemãs e seus
respectivos secretários de Legação e ainda Gottlieb Fuchs, o capitão dos Arqueiros Reais. Para
além destes, apenas um restrito número de eleitos era admitido aos mistérios daquela
secretíssima Loja, entre os quais um alemão beneficiado com o impronunciável nome de
Kevenhüller e dotado de uma mal disfarçada mouquez.
De rompante, Carlos Mardel entrava no Templo, depois de uma arriscada volta pelas
ruínas da cidade. Havia um probleminha com as igrejas, ditou com ar de incredulidade: São
Domingos não caíra! O transepto estava intacto e o altar-mor nem abanara...
Mas como?, estarrecia o Mestre, pensando que já não se faziam terremotos como
dantes e recordando-se da extraordinária devastação de 1531, provocada por igual confluência
de um tremor com um macaréu. Aí sim, não tinha sobrado uma única igrejinha. E este ia logo
deixar de pé a mais emblemática e devotada de Lisboa?, interrogava-se, já antevendo a gritaria
de “milagre, milagre!”, pela garganta da populaça. Era um escolho na Reconstrução. E deitá-la
abaixo nem pensar, que o povo se rebelava, esclarecia o Irmão Eugênio, plácido com aquela
salvação.
O Mestre pedia explicações e o arquiteto da má notícia, para desanuviar o ambiente, lá
ia dizendo que, ao menos, a fachada não resistira. Sempre podia levar uma maçônica, mas o
problema estava nos claustros, cuja forma de cruz latina sobrevivera sólida que nem o rochedo
do Gólgota. E logo a que mais merecia, reclamava indignado um dos Irmãos cuja devota
mulher lhe estafava os cabedais no esmoler de São Domingos, o prior Francisco de Aguiar.
Este, conhecido por dilapidar as esmolas ao jogo, em casa da Condessa do Redondo, era
acusado de ter aberto uma botica num dos prédios do Rossio.
Ao menos ardera?, perguntava o Mestre em desespero. Nem por isso, respondia Mardel
em suave tom de mística que contagiou a Loja toda. Ao melhor, era deixá-la assim, rematava
Eugênio, a ver se salvava algum dos seus diletos lugares de culto.
De rápido pensar e melhor agir, o Mestre chamou Mardel e deu-lhe duas instruções em surdina.
A segunda era para não deixar Eugênio conhecer a primeira: iam modificar o Rossio.
Abertos os trabalhos, foi então dada a palavra ao Irmão Eugênio, adiantando este que,
pela confluência das ribeiras de Vale de Pereiro e de Arroios com esteiro do Tejo, havia que
encontrar uma solução de engenharia para os suster e desviar da baixa da capital ou, em
alternativa, para os manter e obviar. Propunha ele a construção da cidade em cima de
plataformas lacustres assentes no firme.
Após um reflexivo silêncio em que iam olhando o Mestre, logo a idéia de fazer de Lisboa
a maior estrutura de palafita da Europa deu brado na Loja. Que grande realização, aclamavam
os mestres eivados do complexo de Salomão.
Por entre os veneráveis silvados e as fraternais gritarias, o famoso sistema de votação
por bola branca e bola preta resolvia, mais uma vez, a questão: fez-se como o Mestre queria e
ninguém se atreveu a contar.
Lisboa ficou assim lacustre e assente em estacas de pinho verde, mergulhadas na água
doce do caudal dos rios subterrâneos, numa estrutura capaz de durar por mais de quinhentos
anos sem necessidade de reparação.
Assim se faria, na imprevisão de futuras secas climáticas que drenassem os veios de
água, fazendo apodrecer o pinho verde ou que o fizessem carcomer pela subida do teor do sal
no próprio Tejo. Tudo impensável para aqueles pensadores, cujos estudos da época
registravam uma média de 111 dias de chuva por ano.
Finda a obediente votação e resolvida que estava a engenharia com o recurso às
plataformas de pinho para assentar os prédios da Baixa, logo o Irmão Eugênio voltava à
arquitetura que transformaria Lisboa numa ode à maçonaria. Propunha aquele a estruturação
da cidade sob a forma de um Templo. Para tal, em sua opinião, haveria que realinhar a cidade
abandonando o arcaico traçado em “Y” criado por força das linhas de água e optar pelas mais
perfeitas linhas do esquadro maçônico.
Mais um aplauso geral, seguido de votações sem conta.
No fim, a localização precisa: 38 graus e 42 minutos de latitude Norte e 9 graus e 8
minutos de longitude Oeste, segundo as regras do observatório de Greenwich, fundado no
reinado da portuguesa Catarina, Rainha de Inglaterra, tia-avó de el-Rey D. José. Tudo muito
bonito, pensava o Mestre já com a pele de raposa eriçada. Bonito de mais para o seu gosto,
repensava à procura do maldito encriptamento que andava ali, por certo.
Quanto aos segredos maçônicos, havia dois métodos da sua inclusão arquitetônicas e
artística, ambos com origem na construção de catedrais. O primeiro, que deliciava o Mestre, era
o da subtil exposição da simbologia adornada com uma óbvia explicação profana, para labrego
ouvir.
O segundo método, denominado de cripto-maçônico, era o preferido dos Irmãos
Arquitetos. Constava de uma dissimulação que não dava margem para descobertas, onde os
segredos morriam com eles e durariam uma eternidade.
O entretém dos Arquitetos, tanto era vez como se superavam um ao outro, encriptando a
simbologia maçônica quanto, juntos, a conseguiam ocultar do Venerável Marquês o qual, bem o
sabendo, se sentou incômodo no trono de Salomão, deitando-se a fazer trancinhas com os
canudos da cabeleira. Uma rotação de 13 graus criando uma cidade que iria ficar marreca a
partir do Rossio?, instava-se o Mestre, coçando a peruca com a pulga atrás da orelha. Já
pensava em tudo: curva, recurva, marreca... seria obra do compasso, a corcunda descabida?
Guindou-se então à palavra e esmifrou uma pesada interrogação. Com autorização de quem
iam proceder a trabalhos reservados ao Grão-mestre?
Os outros, percebendo menos que nada, interrogavam-se sobre o que teria o Grão-
mestre da Áustria, Imperador Franz de Lorena, a ver com a arquitectura de Lisboa. O Mestre
recostou-se com mais uma pasmada vitória sobre a ignorância. Confiante, não contava com o
austríaco e seu habitual contendor Carlos Mardel, o Irmão Arquiteto que acorria, mais uma vez,
em defesa do correligionário Eugênio.
“Eram os graus”, murmurou sem que alguém o entendesse direito. Era a rotação de
graus, atreveu-se com o seu sotaque austríaco a ver se a penumbra clareava na mente dos
Irmãos. Nada, nadinha. Só o Mestre se remexia na cadeira, percebendo que tinha sido
alcançado no saber. E antes que Mardel brilhasse, qual cutelo, falou num agudo tom de
apokalypsis, a forma grega de revelação. Ditavam então os ritos que os aprendizes e
companheiros trabalhassem apenas linhas retas, com o esquadro, símbolo da matéria, e os
mestres as linhas curvas com o compasso, símbolo do espírito. Mas havia algo com que nem
uns nem outros podiam trabalhar, o transferidor, símbolo do Grão-mestre, juntamente com o
compasso. Ora, adiantava o Mestre, se Eugênio queria rodar o eixo da cidade, tal implicava o
uso do transferidor para medir os graus de rotação. E isso só o Grão-mestre ritualmente o
podia fazer. Assim, se queriam manter a sacralização da nova obra, havia que mandar uma
exposição sumária da articulação do espaço para a Áustria e obter o anuimento do Imperador.
Era assim que se fazia, explicou arrumando a questão antes que alguém se atrevesse a
propor mais uma espúria votação.
A terminar, perguntou a Eugênio afinal qual era a rotação projetada, obtendo uma
cabalística resposta: 13 graus.
Andava a discussão a desenho de compasso quando tudo desatou a tremer. Qual trovão
de Zeus mal-humorado, o chão fazia-lhes chegar mais um aviso da Terra. À volta, os adereços
de Loja caíam e o pavor estampava-se no rosto dos Irmãos. Tombados uns, fugidos os outros,
mais pareciam coelhos na toca com a Raposa à espreita.
Dois minutos depois, uma acalmia de morte. Era mais uma réplica e os irmãos,
timoratos, recobravam a postura ajeitando as perucas esvoaçadas. Até o ímpio Mardel se via
atacado de uma súbita fraqueza mística, que o fazia recordar Santo Alexius, o patrono contra
terra motus, venerado na Boêmia e na Áustria Imperial.
Do quarto dos fundos surgia el-Rey descomposto, tentando encobrir os pudores da
pueril marquesinha. Pela vida, todos se tinham esquecido dos amantes de boudoir em socorro
dos quais o Venerável logo saltou, procurando descansá-los com um dúplice “Já passou e não
volta mais...”, empurrando em seguida a assustada realeza corredor adentro, de volta ao
Olimpo do amor perdido.
Resolvido o problema, criando talvez outro, o Mestre regressava para, a todos os
pretextos menos um, dar por finda a sessão estraçalhando o ritual.
Informalmente, ficava o Irmão Eugênio encarregado de elaborar a carta “soli”4 com o pedido
de autorização Para os exclusivos olhos do maçom destinatário.

10 - Sigilum Lutheri

Naquele dia, com receios e cautelas, a mãe Ruth tinha ido ao correio levantar a
correspondência, no que se tornara um hábito criado por força dos carteiros austríacos, que se
recusavam a entregar o correio nos bairros judeus, em especial no Judenplatz onde os Lenndorf
residiam. Entre várias cartas contendo ameaças sem remetente, vinha uma do seu dileto Otto,
com carimbo de Paris.
Oskar, que já questionara a delonga, regozijou com a chegada. Talvez lhe trouxesse
algo de novo. E trazia. Mal pegou no envelope, logo entendeu que ali não vinha só carta. Com
redobrado interesse, abriu-o, logo se desiludindo ao deparar com umas fotos que lhe
pareceram de mero interesse turístico e que prontamente entregou a Ruth, a fim de poder
devassar a carta. Mal tinha passado o primeiro parágrafo, já ouvia um queixume judaico,
seguido de uma recriminatória interrogação: igrejas e mausoléus, para ela? Como se duas
palavras mágicas ouvira, Oskar trocou as ditas pela carta, redobrando a atenção. Ali havia
coisa, e não era turismo, afinal.
Ao olhar para a primeira foto aérea, Oskar resplandecia. Ali estava a Rosa e a Cruz, tão
nítidas como se desenhadas em papel. Aquela forma do símbolo Rosa-Cruz acabava de o deixar
entre a intrépida sabedoria maçônica e o plácido saber dos Illuminati, já que os Rosa-Cruz
ficavam numa zona cinzenta de conhecimento entre ambas as Ordens iniciáticas.
Com raízes num eclectismo doutrinário de Paracelso a Campanella, e uma inspiração
alquímica e cabalística, a seita Rosa-Cruz deve proximidade quer à maçonaria, quer aos
Illuminati, por via dos seus elementos mais dedicados ao ocultismo. A sua doutrina secreta
assentava no um original. Tudo se resumia à unidade, ao um, no princípio, no meio e no fim,
ao contrário da maçonaria, em que o três predominava.
Oskar sabia que em meados do século XVII, quase cem anos antes de a maçonaria
especulativa se desenvolver na Europa continental e muito antes do surgimento dos próprios
Iluminados de Avignon, percursores dos Iluminados da Baviera ou, simplesmente, Illuminati, já
os Rosa-Cruz invadiam as Lojas operativas como maçons aceites. Sabia também que, segundo
a tradição, os Altos Graus da maçonaria teriam surgido nas Lojas escocesas para servir o
esoterismo rosacruciano. Recordava, a título de exemplo, que até o sinistro Dr. Guillotin, triste
inventor da célebre guilhotina, era um devotado Rosa-Cruz. Mas no caso daquela igreja, tanto
saber parecia servir de nada. Por que razão teria o Marquês construído um memorial Rosa-
Cruz? Nada parecia indicar que fosse membro da seita. Bem pelo contrário.
A fraternidade da Ordem Honorável da Rosa-Cruz tinha a sua remota origem num
escrito anónimo publicado em 1614, em Cassel, na Alemanha, sob o título Fama Fraternitatis
Rosae Crucis. De anónimo rapidamente passou a apócrifo com a atribuição da sua autoria a
Johann-Valentin Andrae, um conhecido teólogo luterano que terá ido buscar inspiração ao
Sigillum Lutheri, o selo pessoal do próprio Martinho Lutero.
Floresciam assim os Rosa-Cruz, como uma forma de Protestantismo em que um dos
objetivos era combater a “tirania papal”.
Andrae dera assim vida a um personagem de seu nome Christian, ou Cristão,
Rosenkreuz, termo germânico para “Rosa-Cruz”. Este cristão Rosa-Cruz teria vivido nos finais
do século xv e trazido a verdadeira Sabedoria do Oriente para o Sacro Império Romano-
Gemânico onde, 250 anos após a sua morte, chegaria a Imperador o Duque Franz de Lorena,
Irmão e protetor do Marquês.
Concentrado na força da História, Oskar prosseguia o seu raciocínio com recurso a algo
mais do que a sua prodigiosa memória. Na biblioteca da casa, a quantidade das obras era
apenas assoberbada pela qualidade da arrumação. Que estava lá tudo, bem o sabia, mas
encontrá-lo obrigava-o a pedir ajuda à mãe Ruth, a única que ia tendo alguma idéia onde esta
ou aquela obra pudesse estar acantonada. Não tardou esta a encontrar o livro sobre os Rosa-
Cruz, que Otto procurava e que fora escrito por um dos primeiros Rosa-Cruz alemães, de nome
Komensky, vulgarizado como Comenius. Fazendo o que todo o bom leitor faz, deitou a sua
curiosidade à contracapa para logo emudecer. Acabava de descobrir onde o arquiteto do
Templo Rosa-cruz de Lisboa se fora inspirar para o construir.
Ao folhear o livro, os seus olhos acutilavam-se perante um nome ali inscrito: Conde de
Falkenstein. Os seus pensamentos retrocediam à Ata da maçonaria austríaca, datada de 1745
em Viena, e que dera origem a toda a investigação sobre os antecedentes iniciáticos do
Marquês. Sem mais, Oskar procurou o palimpsesto com os apontamentos do seu filho sobre
aquela Ata perdida no incêndio de 1927 do Palácio da Justiça em Viena.
A emoção voltava a encher aquela fumarenta sala, relembrando os tempos de parceria com os
demais elementos dos Quatuor Coronatí, os sábios eruditos em história da maçonaria. De todos
restavam apenas dois, já que os outros, avisadamente, tinham abandonado a Áustria em busca
de paragens mais livres e com passagem pela cidade do Marquês.
Já com a Acta à frente, confirmou que, além do então embaixador português em Viena,
sob o pseudônimo de Philon, surgia o Conde de Falkenstein que os Coronati tinham concluído
ser um criptônimo do próprio Imperador. Falkenstein era uma pequena possessão herdada de
seu pai, o Duque Leopoldo de Morena. Rendia-lhe aquela um título nobiliárquico secundário,
usado por si em Loja como alternativa ao pseudônimo, que era de menos para um
Grão-mestre, e em subterfúgio ao próprio nome, que era de mais para um Imperador. Assim o
impunha a necessidade de equilíbrio entre a discrição externa e a exposição interna do
Imperador.
Mas a referência que acabava de encontrar no livro atribuíra-lhe o título rosacruciano de
“Muito Ilustre e Sereno Príncipe e Pai dos Filósofos”, um título que vinha do Bispo-príncipe de
Treves, precisamente um ancestral Conde de Falkenstein. Queria isto dizer que, não só o
Imperador trazia ligações aos Rosa-Cruz, como estas eram de tradição familiar.
Estes fatos apenas tinham relevância por dizerem respeito ao Imperador, já que sempre
houvera Rosa-Cruz entre os maçons, como os havia Illuminati. Parecia juntarem-se todos ali.
Tinha agora mais uma pedra rosacruciana na catedral maçônica austríaca e, como tal, em mais
uma possível influência sobre o Marquês de Pombal.

11 - A Bula Imperial

Tempos depois o Imperador e Grão-mestre respondia à Loja, agradecendo a ritual


honraria. Por meio de uma bula, ou bolha, como comumente se chamava ao selo redondo em
cera atado às cartas e que a estas deu o nome, o Imperador sancionava a rotação da cidade de
Lisboa, 13 graus e face ao Norte. No fim, acrescentava um férrico aviso: que não se
esquecessem da proporção humana a que todas as obras maçônicas deviam estar sujeitas.
Apresentada a Bula em Loja, logo Mardel declinou a incumbência. Mais ligado a coisas
terrenas, entendia que a proporção humana a imprimir à futura obra só podia sair da inspiração
de Eugênio.
Com receio da subversão e de alguma trama beata, o Mestre nomeava o seu irmão
Paulo, o dormente Inquisidor-geral, para acompanhar o andamento dos trabalhos. Seria assim
a própria Inquisição a zelar pela pureza maçônica, prevenindo-se algum encriptamento que
inquinasse a Cidade-templo.
Aproveitando o quorum da noite, o Venerável anunciava à discussão um pequeno
pormenor em relação às igrejas. Ia ser necessário criar uma Cruz Nacional, já que a Igreja
também o viria a ser após o afastamento de Roma que el-Rey determinara.
No meio de um sururu ritual, os Irmãos já não estranhavam nada. Mas aquela nova
mania das cruzes era coisa que não se entendia. Então a cruz não era o primeiro símbolo a
abater e a substituir, talvez pelo pentagrama maçônico?, interrogava o Irmão Fuchs, num
espanto germanizado. E iam construir templos no lugar das igrejas caídas, para depois os
violentar com ícones sagrados, mesmo no alto das suas fachadas?
A confusão grassava na Loja até que, melhor conhecendo o Mestre, o Irmão Embaixador da
Áustria, presente naquela noite, lhe pediu uma justificação. Com ar de quem detinha um
segredo sem o poder revelar, o Mestre desfazia-se em explicações bacocas, num alemão
arrevesado. Que era para calar o povo, e nem ficava mal de todo, até que por fim anunciou
uma solução.
Aliviados, os Irmãos retomaram os seus lugares, sentando-se com os pés em esquadro.
Ao batimento de malhete, Mardel avançou em Loja. Era ele o autor da solução “crucial” que
iria, mais uma vez, abalar os alicerces espirituais do Irmão Eugênio dos Santos.
Propunha, então, que se adotasse um cruzeiro com o mesmo número de pontas da
mística cruz Templária. Ante a incompreensão geral, adiantava que o cruzeiro seria
entrecortado com as aspas de santo André, a cruz em forma de X, símbolo daquele santo e
devoto da maçonaria.
No seu lugar, já mortiço pela heresia, Eugênio tentava não reagir a mais aquela afronta
ao sagrado. Por ora, só lhe restava calar.
Mardel estendeu então um esquisso sabre a mesa do Venerável e pediu a suspensão
dos trabalhos. Acercando-se, todos puderam admirar a beleza atentatória daquela cruz romana,
estilizada e de aparência banal, mas intersectada por uma outra, de menor dimensão e sob a
forma da cruz de Santo André. Tão original quanto simbólica, ficou determinado que esta seria
a cruz do Regalismo, destinada a encimar os frontões de todas as fachadas.
Especialmente agradado com a solução, o Embaixador da Áustria sentia um sorriso
invadir-lhe a alma. De todos, o segredo maior resistia e, com exceção do Venerável, os
presentes esqueciam-se que a cruz de Santo André, ou crux decussata, fazia parte das armas
da Áustria Imperial.
E foi a cruz dos trabalhos, assim se encerrando os mesmos.
Oito dias depois, Eugênio apresentava em Loja o primeiro desenho da sanção imperial.
Ao longo de toda a semana, o Venerável tinha recebido do seu irmão Paulo os esquissos
evolutivos, mas não deixava de olhar para eles, como gato escaldado para panela de água a
ferver.
Apesar de co-autor da Cidade-templo, desta vez nem Mardel estava inteirado da idéia.
Em contemplativa curiosidade, preparava-se para levar mais um divinal ensinamento de
Eugênio. Cumprido o ritual de abertura, logo lhe foi dada a palavra. Por uma vez, não pediu a
suspensão dos trabalhos, já que a ritualidade decorrente beneficiava a aura mística do seu
projeto.
Com a maior solenidade, o Arquiteto desdobrava a planta e estendia-a sobre o quadro
da Loja, onde todos a podiam visionar. Com exceção do Venerável que, do seu trono, a via de
pernas para o ar, todos os Irmãos ficaram siderados com a força daquela imagem.
Passou o primeiro de vários minutos de assombro, durante os quais a imaginação
crepitava como o incenso no botafumeiro da Loja. Aquela correspondência perfeita das ruas da
Baixa aos centros do corpo humano, bem como a precisa sobreposição destes aos cruzamentos
da rua Augusta, a dita Imperial, quase faziam esquecer pormenores como o dos pés em
esquadro que a figura humana representava, ou a linha do coração e o seu ponto essencial
entre a rua do Comércio e a rua Imperial.
Com tanto por explicar, os Irmãos sentiam-se perdidos, mas Eugênio remetia-se ao
silêncio e nem Mardel o interpelava. Atingidos os seus intentos com aquele desenho enigmático,
dobrava a planta em quatro e entregava-a ao Venerável a fim de ser devidamente selada e
remetida ao Imperador da Áustria.
Sob esta determinação imperial, ultimou-se o projeto, que seria aprovado na decisiva
reunião da Loja Fénix de 19 de Abril de 1756 e, depois, enviado para a Grande Loja em Viena.
O exequatur real seria nessa mesma noite obtido por entre um fugaz interesse a caminho do
nicho dos fundos.

12 - O Emplumado

Estava uma noite quente de Junho que fazia sonhar com Sintra. No Pepe, cada vela era
um tição e uma aragem era um luxo simples a que ninguém se podia dar. Fresquinho, o branco
da Arealva escorria a cântaros pelas goelas ressequidas dos convivas. Para matar o bicho, o
Pepe propunha um gazpacho andaluz com “mãozinha” galega que, pela descrição, mais parecia
do Alentejo. Depois uma ropa vieja precedida de uma tortilla de batatas à mais completa
descrição, pois batatas e ovos era o que ainda fartava na praça da Ditadura.
A conversa começava, na espera, com um fait divers: o caso do Alves dos Reis, que
nesse dia vira confirmada a pena de prisão de oito anos pela maior burla da História de
Portugal e, dizia-se, de toda a Europa civilizada. Como alternativa, relatava o Ayres que estivera
em reportagem no local, ter-lhe-iam oferecido o degredo por vinte e cinco anos, algo que
aquele terá recusado, afirmando “antes preso na terra que solto e desterrado”, citou.
Para uns, à mesa, era como um herói, pois que abanara a Ditadura quase até à queda.
Para o Ayres, merecia uma medalha, já que fora o inventor desse grande instrumento
financeiro chamado desvalorização da moeda, o que todos os governos passaram a fazer.
De fato, como fait divers, o caso Alves dos Reis não era um acontecimento, em si. Antes
era uma narrativa, uma forma de contar um acontecimento feito quase romance, e mais este
do que aquele. Mas, para conversa de almanaque, era ideal. E estando esta já composta,
entrou o Zuzarte alfarrabista amparando uma apocalíptica pilha de livros, antigos segundo ele,
simplesmente velhos, segundo os outros que reclamavam daquela intrusão de traças e cheiro a
mofo.
Foi preciso verem a triunfal quantidade de primeiras edições, nacionais e estrangeiras,
para lhes passar o bafio intelectual. O adeleiro, como lhe chamavam para o irritar, excedera-se.
Resgatados às entranhas do seu adelo, ali estavam segredos e mistérios das catedrais, dos
Rosa-Cruz, da Maçonaria, dos Illuminati, em suma, tudo o que a Ditadura andava entretida a
arrebanhar ou a proibir.
Como era traço da Ditadura prender intelectuais, a que pretexto fosse, mal o viram
chegar trataram de disfarçar os livros com tudo o que os cobrisse ou que em cima se lhes
sentasse.
Com a pontualidade de um relógio Roskoff, chegava o estoira-vergas do Regime ao
volante do seu Hispano-Suiza, adquirido por uma bagatela ao próprio Alves dos Reis. Era o
Álvaro Tição, que vinha do Teatro da Trindade, onde tinha ido ver a comédia “Sua Alteza”, de
Ramada Curto e trazia uma piadinha Desculpando-se pelo atraso, comparava as suas
constantes desoras à pontualidade de pagamento dos portugueses que também era orientada
por um relógio de bolso Roskopf, mas com atraso constante ou mesmo parados e ao qual se
davam palmadinhas suaves para andar. E dito isto, olhou em volta pensando se não teria
algumas palmadinhas em atraso ali no Pepe.
Foi então interrompido pela entrada extemporânea do Costa Ruivo, que entrara pela
porta de trás, fugindo aos esbirros da P.I.M.I., a polícia política a quem ele chamava de Pim's,
em homenagem ao seu cup inglês preferido. Era aquela recorrente mania de ser oposição que
o fazia andar com a polícia à perna, algo que para os confrades do Pepe, raiava o
incomodativo.
Alegravam-se, por isso, de o ver chegar pela porta das traseiras. Era sinal que fugira aos
esbirros e que se podia jantar sem uns quantos pares de olhos a fitá-los noite fora.
Mas havia quem se divertisse na inconsciência do perigo. Para o Tição, qualquer sicário político,
pançudo e de bigode, a espiá-los num restaurante, era um tremendo divertimento que só
acabava quando alguém ia dormir ao xilindró pelo simples fato de ser do contra; e ali eram
todos do contra... Só o Pepe é que não sabia contra o que era; mas, se todos eram...
Nem pausa fizera quando o Pepe surgiu alheio e sorridente com a tortilla de batatas
que, pelo tempo que demorara, já devia ser de ovos moles.
Os encontros no Pepe davam para tudo e tinham-se tornado uma espécie de jantares-
almanaque, em que se falava do que interessava com tanto prazer quanto o que não tinha
interesse nenhum. Neste espírito e como que reunidos em Symposium, os íntimos encontros de
bebedores da alta sociedade na Grécia antiga, o Ayres traçava, a despropósito, o rumo do vinho
desde a antiguidade. Passando pela Península Ibérica, já então território de grandes bebedores,
até à pena de morte pelo delito de beber, equiparável ao adultério e aplicável às mulheres de
Roma, o Ayres falava e bebia. Para terminar e a propósito do estado ébrio, ou quase, em que
todos sempre dali saíam, chamou a atenção para as teorias aristotélicas sobre a queda.
Ante a interrogação sobre o que teria Aristóteles a ver com as bebedeiras, explicou que
aquele filósofo defendia que o bêbado de vinho tendia a cair para a frente; o de cerveja, para
trás. Do espanto geral, saiu a necessidade de demonstração. Mandaram vir mais uma rodada e
foram para a porta ver para onde davam as quedas.
Confirmadas as previsões, regressavam à mesa quando de rompante surgia o Rodrigo
Valverde, amigo da Jackie e que todos conheciam de sua casa. Ufano, produzia não mais do
que umas guturais exclamações sobre a polícia que ninguém entendia e muito menos
espantava já que, presente o Costa Ruivo, tinha de haver polícia. Qual seria a novidade?,
interrogavam-se todos, ante o desespero do Rodrigo que tentava, a custo, recuperar da
tremenda corrida que dera até ali.
E como para males portugueses, remédios espanhóis, surgia a Rosinha com uma
aguardente que acabava de queimar para “o esconjuro das bruxas”, o ritual galego de fim de
jantar no Pepe. Surpreso com a beberagem fervente, Rodrigo reagiu à primeira: era a Jackie!
Tinha sido presa na fronteira, ao regressar de Paris. Acusavam-na de viajar com um espião!
Pobre Otto, pensaram todos de imediato. Agora, era espião! Só aquela Ditadura, para ver
espiões em cada esquina. E alguém via um espião assim?, perguntavam-se ainda em choque,
por entre a má notícia e o seu absurdo fundamento.
Apenas o Álvaro Tição metia ares de céptico. Mas o momento era de agir e, com o
Fernando sem chegar, não seria fácil encontrar quem fosse à procura dela e a tirasse de lá para
fora. O desespero instalava-se paredes meias com a sensação de impotência, até que el Ferrol
segredou algo ao ouvido do Santial. Pedia-lhe, sem explicar, que lhe dessem duas horas. Ante
tão desabrida proposta, todos tentaram demovê-lo, avisando-o que aquela Ditadura não era
como ele pensava e ainda lá ficava, também. Indiferente, o Manolo insistia. Estava determinado
e parecia saber o que fazia. A um gesto de Santial, todos se sentaram e o espanhol lá foi porta
fora, deixando uma sorumbática mesa para trás. O Regime, como todos os regimes, odiava os
jornalistas e aquilo era só mais um sinal.
A bem da preciosa liberdade, o Juan Santial citava um trecho literário do seu promissor
amigo poeta e Dâmaso Alonso: “Qué hermosa eres, Libertad. No hay nada que te contraste”. E
a comoção instalou-se naquele pungente jantar.
Poucos minutos depois, chegava finalmente o Fernando, que tinha vindo a Lisboa
defender o seu próprio irmão, outro reviralhista preso durante os tumultos de Abril. Inteirado
do sucedido, já ia de novo porta fora, quando foi aconselhado a esperar. Eram só duas horas
que el Ferrol pedira. Se até lá não houvesse sinal, iriam todos, então.
Desterrado em Angola durante quase dois anos, por conta das suas atividades
maçônicas e republicanas, o Fernando regressara de cabeça erguida e com a mesma
frontalidade de sempre. Assim se tornara num dos poucos advogados que, sem medo,
enfrentavam a Ditadura na barra dos tribunais. No seu relato do dia e para animar os presentes
ante o caso de Jackie, deixava claro que os torcionários políticos não teriam outra solução, ante
os levantamentos civis e militares, senão a de pôr fim à inusitada repressão e dissolver a
tenebrosa polícia política. Só o preocupava que as atribuições desta passassem sub-
repticiamente para a então designada Polícia Internacional. Atento, o grupo ouvia-o,
partilhando os seus mais que certos receios.
Às tantas e supostamente para aliviar a tensão, o Zuzarte resolveu cortar o tema com
outro mais tétrico ainda: a profanação do túmulo do Marquês, cujo relato tinha descoberto num
dos seus mofentos livros.
Era só o que faltava. Conversa tumular em cima de repressão policial, pensavam todos
ainda sem sonhar que a história era bem capaz de azedar as mais doces natillas da Rosinha.
Apesar das reticências, o Zuzarte avançava com uma estranha inscrição lapidária, referindo que
o túmulo do Marquês, inicialmente na Igreja de Santo António, em Pombal, fora profanado pelo
marechal Ney, aquando das invasões francesas.
A esta altura, só faltava alguma corrente de ar que apagasse as velas do Pepe. E o
adeleiro insistia nos sórdidos pormenores da lenda, indispondo a mesa em seu redor.
O Fernando, esse torcia-se na cadeira, embatucado com a história e estranhando que ninguém
conhecesse a verdade. Mas não a podia esclarecer sem se denunciar, e tal não estava nos seus
planos, pois ainda era daqueles maçons de estirpe rosacruciana, defensores do segredo como
forma de manter a integridade da Ordem.
Sem alternativa, deixou a profanidade da lenda correr, alheando-se numa emulsão
interior, em que recordava os verdadeiros fatos maçonicos ocorridos então. Recordou Ney,
marechal de Napoleão e elevado maçom, tal como o eram Bonaparte, Soult, Massena e Junot, a
ser salvo do fuzilamento pelo general inimigo, Wellington, também maçom que reconheceu
naquele a qualidade de Irmão. Pensou em Ney a entrar em Portugal e a reunir a sua Loja de
campanha, com o seu Estado-maior, junto à vila de Pombal, não apenas por coincidência. Viu
Ney a mandar buscar o caixão do Marquês e honrá-lo com o seu lugar no centro da Loja para a
reunião de mestres nessa noite. Imaginou até um pouco mais, com relutância. Depois viu o
caixão ser levado de volta ao seu túmulo, cumprida a histórica função ritual.
Era preciso pensar como um maçom para entender outro e perceber um ritual em lugar de
sacrilégio. Subitamente acordou. A conversa à mesa ainda rondava o Marechal Ney, esse
sacrílego violador de túmulos.
Tentando corrigir o relato, havia algo que podia contar a vol d’oiseau e em tom de
profanidade. Pedindo a palavra, Fernando esclareceu que o Marechal Ney, le brave des braves,
como consta do seu epitáfio junto ao habitual requiescat in pace. “Descansa em paz”., estaria
supostamente enterrado na Rua das Acácias do cemitério Père Lachaise, em Paris, desde 7 de
Setembro de 1815. Anos antes, em Setembro de 1810, enfrentara em Portugal o comandante
inglês do exército luso-britânico, Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, e aí terá
nascido uma recíproca admiração militar.
Como a audiência estivesse atenta, continuou: após a queda de Napoleão, Ney seria
condenado à morte e mandado executar pelos ingleses. No entanto, Wellington salvá-lo-ia em
segredo, inumando um caixão vazio em seu lugar. Em 1819, Ney apareceria na Carolina do Sul,
em Brownsville, como um modesto mestre-escola e aí terá morrido discretamente.
Em França, o seu túmulo vazio, ao lado de La Fon- taine, Molière, Massena e outros
notáveis franceses, jaz na Rua das Acácias, a mais visitada em termos de romaria histórica a
um cemitério francês.
Para acabar com o ambiente sinistro, só mesmo o regresso de Jackie. Peito inchado, el
Ferrol apresentava-a sã e salva, qual glória dos seus conhecimentos políticos. Sem hesitação,
desfez o mistério. Um telefonema para um conterrâneo, o seu amigo e correligionário Paco
Bahamonde, que desfrutava de um importante posto militar em Espanha. Este terá recorrido
aos bons ofícios de um seu camarada de armas da Ditadura portuguesa, que se responsabilizou
pela Jackie, salvando-a já a meio de um tenaz interrogatório policial.
Espantados, elevaram o espanhol dez pontos na consideração coletiva e atiraram-se à
visada em busca de suculentos relatos. Estranhamente e ao contrário da sua habitual
jovialidade, Jackie permanecia calada e absorta nos seus pensamentos, ao que o Santial impôs
que a deixassem em paz.
Quando a conversa recomeçava a tugir, aquela interrompeu. Trazia uma decisão tomada
e queria comunicá-la ao grupo. Depois da sua viagem a Paris e do que vira lá fora, não
vaticinava nada de bom para o país. Assim, depois da provação que acabara de passar, decidia
aproveitar uma oportunidade que entretanto lhe surgira e mudar-se para Londres. E a decisão
era irreversível, atalhou antes de algum patriótico apelo à luta contra a Ditadura a tentasse
demover.
Cortando o gélido silêncio, entrava esbaforido o José Roriz, já conhecedor do percalço
com a Jackie. Mas, ao vê-la ali fresquinha, pensou que lhe tinham pregado uma peça à saída do
jornal. Mas não, era tudo verdade tanto quanto era já do passado. E, para obstar à
incomodidade, tentou animar os presentes com uma novidade que recebera de São Paulo, em
terras de Vera Cruz.
Desde que emigrara sob o estatuto de refugiado político, o amigo de Cid e ex-secretário
do ex-ministro, da Ditadura dava-se finalmente à vida com um relato bastante sui generis.
Graças aos Irmãos brasileiros, descobrira por lá uma original história do meio-irmão de Pombal,
Francisco Xavier Mendonça Furtado, enquanto Governador do Brasil, o qual cedo dera início à
guerra com os jesuítas em território português.
Relatava o ex-secretário o que encontrara numa visita investigatória que fizera a Belém
do Pará, na senda do mistério do verdadeiro nome de Pombal, de seu, Bernardo Mello e Castro.
Assim, o emigrado tinha descoberto os planos de uma estátua pedestre do monarca, que
descrevia como estando “emplumado de elmo aos pés e adornado à romana de cetro na mão”,
algo que, bem se veria, era de manifesta falta de gosto, fosse para o Rei, fosse para quem o
decidia.
Mas o curioso do relato incidia sobre o todo-poderoso mano Francisco Xavier e a
encomenda da dita e pomposa estátua que este aceitara patrocinar politicamente em 1759, ano
do seu regresso a Lisboa. Para tal, ficara depositário de avultada soma, na incumbência de a
guardar na sua Companhia do Grão-Pará e Maranhão e, já em Lisboa, encontrar e enviar para
Belém um escultor de renome para a executar.
Dez anos terão passado e, talvez por tantos trabalhos no reino, o
ex-governador esquecera-se do depósito e não mais se lembrava da estátua.
Para lhe avivar a memória, as gentes de Belém, sem estátua nem real, correram riscos
de lhe reclamar, das duas uma, à escolha de Sua Excelência.
Segundo o ex-secretário, a resposta terá sido violenta e amesquinhante. De pronto se
terá instaurado um inquérito para entender os destinos dos dinheiros estatuários. Sem
resultado, ter-se-á “deduzido” que o dinheiro estaria há dez anos na Companhia sem que
alguém o soubesse. Inquiridos os do Brasil, também não sabiam. Afinal, ninguém sabia.
Em sucessiva correspondência, o ex-governador do clã Pombal, ter-se-á disponibilizado
para adiantar a enorme soma do seu próprio pecúlio, tão logo a estátua fosse aprovada pelo
Conselho Ultramarino em Lisboa.
Aqui, perdia-se a história. Nada mais o emigrado secretário descobria, sequer se
Francisco Xavier teria reencontrado o dinheiro no fundo da sua bolsa. Terminava a carta
referindo que o seu ex-governador morreria no preciso ano do peculiar desacato.
Na sua visita, pudera ainda constatar que estátua, não havia lá. Corriam vozes que se
fizera um segundo peditório em 1774, para um teatrinho de província, na Praça feita para a
estátua do emplumado e que aquele sim, teria acabado por existir.

13 - O Neófito

Era noite iniciática. Outro Arquiteto, outra maldição, pensava o Mestre do alto da sua
embirração com aquela raça de encriptadores. No entanto, bem sabia que a saúde de Eugênio,
qual milleflori de cristal, se tornara demasiado frágil para a envergadura da obra e que, sem
este, Mardel nem um mês suportaria. Necessário era aliviar-lhes o esforço com alguém que
entendesse os segredos dos planos. Para isso, só outro maçom, algo que não abundava por ali.
Abria-se assim uma exceção às restritíssima regras de admissão naquela Loja e fazia-se um
maçom por necessidade de Arquiteto e linhagem de sangue já que o candidato era sobrinho de
Eugênio dos Santos e, assim, co-primo afastado do Marquês. Demais, era familiar do Irmão e
ministro D. Luís da Cunha Manuel, sobrinho do seu benfeitor D. Luís da Cunha, o maçom maior
de Portugal, apesar de ter vivido sempre fora.
O escolhido, Reinaldo Manuel dos Santos de sua completa Graça, apresentara-se à porta
de Mardel à hora do chá e sem saber o que o esperava. Mal entrou, viu-se vendado, metido nas
catacumbas da casa e sumariamente interrogado. Sem mácula, acatou.
Naquela Loja, por manifesta falta de prática, qualquer iniciação era um drama. Quase
exclusivamente dedicada aos estudos e planos da Reconstrução, a Fênix era uma Loja de cariz
medieval, semelhante à dos verdadeiros construtores de catedrais. Só a magnitude os
distinguia: estes erguiam igrejas; aqueles, uma cidade inteira.
Com exceção do ritual de abertura e encerramento da Loja, todo o mais estava em
maçônica letargia, qual urso hibernado em Inverno glaciar; era preciso um degelo para o
recordar. Com pânico do ritual, deixou-se à sabedoria do Mestre e à expertise de Mardel a boa
sorte dos trabalhos.
Lá em baixo, o ainda candidato a neófito via-se desvendado e fechado num cubículo
que tresandava a cebolas e que o próprio pressentia ter sido esvaziado à pressa para o receber
e atemorizar. Por companhia tinham-lhe deixado uma caveira a olhar para um tinteiro, uma
pena e um papel. Fosse lá ele entender aquilo.
Ao fim de três horas a agonizar, sentia-se todo ele um cebolo. O seu receptor tinha-lhe
enigmaticamente ordenado que escrevesse naquele pedaço de papel o seu “Testamento
Profano”. Mas não lhe parecia que fosse morrer a não ser do cheiro. Só aqueles rumores de
sodomia, bestialidades e outros piores, que juncavam os saraus dos rejeitados, o preocupavam
um pouco, mas saber que o seu austríaco mestre de riscos lá estava em cima era suficiente
para o descansar. Com franqueza, não o via nesses preparos.
Mais descansaria se pudesse sonhar que lá ia também encontrar o Terrível em pessoa, o
Marquês feito Venerável de uma Loja maçônica em Lisboa. Essa, nem nos mais selvagens
pesadelos se poderia parecer com a realidade. Mas era-o.
No desespero da espera, até a caveira ganhava contornos gentis e as cavidades oculares
pareciam ganhar vida: uma olhava para ele e a outra, para o tal testamento que continuava em
branco. Seria mesmo para preencher ou seria um teste? A melhor opção era “agarrar-se à vida”
e, simbolicamente, ignorá-lo.
Sem o entender, o neófito Arquiteto estava a entrar no espírito reflexivo da Ordem iniciática
que o estava prestes a abraçar para o resto da vida. De tanto olhar para a caveira e de se
interrogar sobre o papel em branco, não reparara que a penumbra encobria uma estranha
fórmula hermética e alquímica dependurada do alto da parede, mesmo à sua frente. Esta, ia
ocupá-lo na espera de que ainda teria que padecer naquela pestilência e já no desespero de
pensar que se tinham, pura e simplesmente, esquecido de si. Rezava a dita, numa placa:
Fórmula alquímica: “Visita Interiora Terrae, Retificando que Invenies Occultunz Lapidem”, ou
“Desce ao interior da Terra e, retificando, a pedra oculta encontrarás.”
Quando começava a pensar seriamente em sair dali escada acima, surgiu finalmente o
seu Receptor, que lhe causou uma primeira sensação de algo estar, afinal, apenas atrasado ou
confuso. E eis que ele lhe vinha perguntar se acaso lhe tinha já entregue umas perguntas às
quais deveria responder naquele pedaço de papel, o “Testamento”.
Ao “não, senhor”, alou porta fora para voltar meia hora depois. Que se despachasse a
escrever, ordenou-lhe, retificando o tempo em vez da pedra. Dera-lhes agora a pressa, pensou
o neófito, e foi-se à tarefa. Pouco depois voltava o outro à procura das respostas e, como nem
uma havia, plantou-se à porta a bater o pezinho, apressando o pobre intestado e deixando a
sensação de que alguém estava impaciente à espera e por culpa de ambos.
Aligeirado o texto e dobrada a folha em quatro, logo o outro zarpou escada acima, não
sem antes o deixar estarrecido com as novas ordens: que se despisse parcialmente, desta e
daquela maneira, e que se desfizesse de todos os metais que tivesse consigo, o que o deixava
sem saber o que fazer das fivelas dos sapatos e do próprio cinto das calças.
De pronto o seu Receptor o deixaria sem cinto, de calças a cair e, estranhamente, com
um pé calçado e outro descalço, fazendo-o subir manco, qual belzebu, pelas escadas das
catacumbas acima.
De novo o vendara, numa privação que lhe aguçaria os sentidos com os quais se
descreveria as sensações que ia enfrentar e que começavam logo mal, com uma corda grossa e
pesada, que mais lhe parecia de enforcado, com que lhe adornaram o pescoço.
A sensação de ridículo avassalava-o, só de pensar que alguém poderia estar ali a olhar
para ele. Não podia o pobre ver uma sala de gente ilustre, num silêncio tal que só se ouvia o
tacão do seu único salto, de dois em dois passos.
Parado à porta de algures, o estrugido; sentia uma emulsão de incenso expulsar-lhe o
cebolame do nariz. Com um pé em cima e outro em baixo, no frio do chão, ali estava imóvel,
indefeso e aparentemente sozinho. Ao longo daquela tarde, já noite, aprendera num súbito
impacto que aquilo ao que vinha exigia muita paciência, talvez a célebre paciência de maçom,
geradora da capacidade de refletir para depois agir.
Do silêncio ecoaram quatro pancadas súbitas que lhe pareceram ser numa porta. Pela
primeira vez, ouviu vozes: três diferentes, seguidas de uma quarta, estridente e arrepiante
como nunca ouvira, a reclamar contra um “intruso” qualquer. Seria ele o intruso? Que ritual
estranho, pensava ainda com os tímpanos a vibrar daquele diapasão agudo.
Passada esta, logo outra provação: um fio de espada apontada ao coração e alguém a
fazer-lhe perguntas e outro a responder por si. Parecia que não podia falar. À cautela, trincou a
língua. E porque o tratavam agora como “o recipiendário”? De fato, aquilo atemorizava. E, em
cima do cansaço da espera de horas, era difícil de penar.
Seguiram-se mais uma dezena de perguntas e respostas em que a sua profanidade era
interrogada sem direito a resposta própria. A voz continuava a responder por si à outra Voz. Em
toda a cerimônia de iniciação, aquela sua voz acompanhá-lo-ia sem nunca o abandonar. Ia
ampará-lo em quedas, ensiná-lo em dúvidas, encorajá-lo em hesitações. Era a sua voz.
Nos estranhos dizeres falava-se de um “Templo”, pelo que entendeu estar algures à
entrada do mesmo. Com a venda nos olhos, só podia imaginá-lo. Talvez grandioso, talvez
discreto, talvez em pedra, senão em madeira, quiçá redondo e porque não quadrado? A
cegueira da sua imaginação levava-o a todo o lado. E ali estava, parado, a assistir sem poder
ver.
Estranhos perguntaram-lhe, então, se era livre e de bons costumes e a voz respondeu
que “sim”, numa abonação inesperada e que resultava, sem que o soubesse, de muitos meses
de vigia sobre a sua pessoa e as suas qualidades. Nada do que ali se passava era fruto do
acaso, antes sendo ritualizado ao mais ínfimo pormenor e assim acontecendo, por igual, em
todas as Lojas do Mundo, sem a mais ínfima exceção, possibilitando as visitas dos Irmãos de
uns países, às Lojas dos outros.
Por mais que a voz o acompanhasse e amparasse, a curiosidade rapidamente cedia
lugar ao receio e este ao temor num crescendo ritual que não deixava margem para o
contrário.
A Voz aguda e fina fez então uma série de perguntas em que se sentiu abandonado pela
sua voz. Ante o impasse, esta voltava a sussurrar-lhe as respostas, que repetia sem hesitar. Se
o ambiente para gelem se sentia naquela figura, era, por si só, atemorizante, a outra Voz, a tal
de mezzo soprano estridente, deixava-o ainda mais confuso. Seria mesmo de um homem? Mais
parecia a gosma de uma criança.
Naqueles elaborados dizeres, a ameaça da Voz era constante e a pretexto de quase
nada. De tanto castigo, pena e sanção com que a voz o ameaçava se falasse, se contasse, se
revelasse, o pobre neófito já não sentia que lhe restassem muitas partes do corpo para
estraçalhar se alguma vez, sem querer, espirrasse um simples atchim maçônico.
De permeio começava a sentir que estava num local cheio de gente e que, pelo eco, não
seria tão grande assim. Lá ao fundo, ouvia marteladas de madeira, no que lhe parecia ser um
malhete, pela força dos dizeres.
Apesar da tensão, tudo suportava. Só aquela exótica Voz lá do fundo da sala o
incomodava de sobremaneira, não se calando nem por um decreto maçônico! E longos eram os
seus discursos, num ritualismo esotérico do qual o neófito pouco ou nada entendia e, do pouco,
só a confusão lhe restava, chegando ao ponto de duvidar se tudo aquilo era real ou se o tinham
posto num palco de opereta, coxo, cego e seminu, para ouvir uma eclosão de palmas junto da
performance inusitada.
Mais uns quantos avisos se seguiram sobre a violação do segredo, deixando o neófito
com a sensação de que ali se entrava para emudecer de vez. E nisto se passou uma infinidade
de tempo, apercebendo-se então o ator que não podia estar num palco pois ninguém pagaria
um real para assistir a tal tormento. Aquilo só por vocação, pensava com lucidez o iniciando.
Mais um longo silêncio entrecortado aqui e ali com uns estranhos bufares que soavam a
fastio, seguindo-se um copo de água cristalina que a voz lhe dava a provar a pretexto da
pureza da alma, seguido de um juramento em que, se a ele faltasse... zumba!, mais um
castigo: agora juravam envenená-lo. Pelo ritmo da matança, bem ia precisar das sete vidas
rituais. Preocupado, percorreu então o corpo com a mente, a ver se tinha ainda algo para
oferecer, seguro que em breve lhe seria pedido. Talvez o espinhaço, aventou o neófito
interrogado.
Num desespero de horas, prosseguiram as ordálias, até que lhe tiraram a maldita venda
e, depois de mais uma ameaça de perjúrio, lhe anunciaram que estava admitido maçom, no
grau de aprendiz.
Por fim, queimaram-lhe o testamento dobrado e brindaram-no com uma rosa vermelha.
Terminada a reunião, o Irmão Francisco Xavier abordava discretamente o novo Irmão Reinaldo,
com uma lenga-lenga sobre um projeto de estátua para o Brasil que tanto teria incomodado
Sua Alteza Real pelo ridículo da forma. Que já lhe chamavam “El-Rey emplumado”, adiantou, e
que este não teria gastado do desaforo.
Parecia, no entanto, que a decisão estava em cima da sua mesa, lá na Casa dos Riscos,
e que desse o parecer que entendesse. Depois se veria se os Irmãos o poderiam ajudar na
embrulhada real em que se ia meter se o aprovasse. Dito isto, virou costas com displicência e
desfavor. Acabava de impor um “não” ao desprevenido Irmão Reinaldo que, logo pela manhã
tratou de encrencar o projeto com um lustroso e contrário Parecer, moldando a decisão do
Conselho.
Assim ficou Belém do Pará com um teatrinho, a expensas novas, que as velhas andavam
há muito perdidas.

14 - O Quadro Mágico

Num abusivo risco de revelação, provavelmente medido à Luz da ignara mentalidade


portuguesa, Pombal fizera-se retratar numa irretratável posição de pés em esquadro, conhecida
entre os maçons como causadora dos maiores tormentos musculares ao fim de poucos minutos
de pose. Em seu redor, pintados com igual arrojo, os símbolos da iniciação maçônica: o tinteiro,
a pena, a folha de papel para escrever o Testamento Profano.
Durante mais de dois séculos, olhara-se para o quadro como para um palácio e a súbita
morte de Cid deixara a sua decifração esperar por segundas núpcias. Mas o regresso de Otto a
Viena, chegado de Lisboa, fazia pairar uma marcha nupcial sobre a sala de fumo da sua casa,
habitual retiro do perscrutante pai Oskar.
O afago do reencontro do jovem maçom com o velho Illuminati deu lugar a uma
seqüência de relatos e exibição de gravuras sobre Lisboa, Sintra, Versalhes e, claro, o próprio
Maçom de Viena, Markgraf von Pombal. Durante horas, com o conforto dos bolinhos da mãe
Ruth e uma sucessão de cálices de Madeira, pai e filho entraram numa espiral de raciocínios
que finalmente libertavam Oskar daquela prisão domiciliária a que se remetera por força das
batidas nazis aos judeus de Viena. Também ele ansiava por um interlocutor, já que aquela
reclusão se tornara num catalisador de obsessões propícias à profundidade do pensamento.
Como se dois italianos fossem, falavam um sobre o outro sem esperar que alguma idéia
chegasse ao fim. Otto trazia o Mundo por explodir; Oskar implodira da espera. A custo, o
primeiro trouxe à liça o quadro do Marquês que lhe tinham oferecido e do qual não se conhecia,
ao certo, o autor e o título. Ao ver a reprodução, o velho Illuminati sentia que aquela imagem
falava. Não uma língua, mas uma linguagem universal, reconhecível por maçons em qualquer
ponto do Mundo, qualquer que fosse a língua aí falada. Era esse o segredo da maçonaria e das
ordens iniciáticas como a sua própria, os Iluminados da Baviera. Tal como o gesto e o amor,
também a maçonaria constituíra a sua forma universal de comunicação e transmissão de
conhecimentos.
Como visse o pai absorto, Otto, num gesto carinhoso, estalou-lhe os dedos entre os
olhos pequeninos e o quadro, fazendo-o voltar a este mundo. Aquilo não era um quadro,
gracejou Oskar, era uma Loja maçônica de um maçom apenas.
Tempus fugit e depressa chegou a hora da ceia. A mãe Ruth orientara na cozinha um
jantar pouco frugal, ao contrário do que era hábito por força da idade de uns e dos problemas
renais do outro. Nessa noit,, o cansaço e a necessidade de Otto ir logo de manhã ao jornal
entregar o relato da viagem para publicação, fizeram da longa uma curta noite. Pelo menos
para ele, já que Oskar estava com energias acumuladas de tantos dias de tédio e não ia perder
a oportunidade de se adiantar nas novidades de Lisboa.
Sozinho no escritório, à noite, o velho Illuminati voltava ao quadro. Na sua análise e
depois de tudo o que já sabia do retratado, tinha que admitir que este não era um encriptador,
isso era o papel dos Arquitetos. O Marquês era um atrevido dissimulador da simbologia, pelo
que o quadro teria elementos maçônicos bem à vista, alguns, ou em trompe l oeil, os outros,
mas todos plausíveis de uma profana e inocente explicação capaz de afastar os incautos de
qualquer realidade simbólica.
A sua primeira impressão era a de ser um quadro proficuamente iniciático, começando
pelo escancaramento dos símbolos da câmara de reflexão, o tinteiro, a pena e o papel do
testamento profano. Olhando melhor, logo deu pela falta de um símbolo fundamental: a
caveira.
Não fazia sentido, pensava com o seu charuto que teimava em se apagar a cada
fumaça. Tinham de estar os quatro, pensou trocando as lunetas pela lupa. Debruçou-se então
sobre o quadro mas, quanto mais olhava, menos caveira via. Meio perdido, deu em virar o
quadro de pernas ao ar, para um lado e para o outro, mas crânio só mesmo com uma peruca
quadrada em cima. Sem se dispersar, reparou que ao virar o quadro para a esquerda, a Cruz
de Cristo surgia estranhamente descaída, soando-lhe a algo de errado. Lá voltaria.
Quanto ao seu raciocínio, não estava disposto a conceder. Eram quatro os elementos da
iniciação e o quarto, a caveira, tinha de estar por ali. Podia estar dissimulada numa sombra,
num dizer, talvez nalguma lombada dos livros na estante, aparentemente escritos naquela
língua perdida de um país onde só o seu filho e alguns refugiados judeus se atreviam a ir, e só
para de lá fugir.
Se não na estante, talvez naquele original papiro carregado de letras sem sentido e
enrolado de forma ainda mais estranha. Embrenhado na decifração, Oskar mal dava pelo filho,
que lhe vinha desejar boa noite.
Ao ver o pai absorto e bem sabendo o que em Lisboa topara, tomou-lhe gentilmente o
quadro e apontou-lhe com uma canetinha um proscénio bico de espada, que surgia sob a capa
de Mestre à altura do joelho direito. E que bem visível se tornava sobre aquele fundo vermelho
da cobertura da mesa, compreendia de imediato Oskar, pungido com a falta de atenção.
Sorridente e em vã glória, Otto subia ao quarto, crendo ingenuamente que aquele seria
o maior mistério do quadro.
De novo a sós e procurando inspiração no seu confortável charuto, Oskar tentava
incorporar o espírito do autor daquela obra, por certo maçom, ao contrário do que alguns mal
entendidos atribuíam.
A sua ponderada observação levava-o a concluir que a espada só podia ter uma função
dissimulatória. Primeiro, porque ninguém se faria pintar armado, ocultando a suposta arma
quase por completo. Depois, porque a espessura do coto ali desenhado não correspondia ao de
uma espada, mas sim À de um espadim, símbolo do mestre maçom usado essencialmente nas
cerimônias de iniciação.
Sem resposta para o enigma, subiu um pouco o olhar de encontro à inexplicável
corcunda que ornava o lado esquerdo do infeliz retratado. Fosse lá alguém entender aquela
anormalidade, desesperava Oskar por entre aflitivas mordidelas no desgastado charuto. Quanto
mais observava, menos entendia aquela deformação que se alongava abaulada até aos joelhos
do mesmo.
Conhecendo as diabruras prisionais do Marquês, pensava que um tamanho disparate
pictórico daria anos de prisão, com culpa bem formada, nas galés do Limoeiro, local de que
ouvira falar pelas cartas de Hernani Cid.
Era uma anormalidade para a qual tinha de existir explicação, pensava Oskar,
recordando a obsessão dissimulatória do Marquês que ali parecia ultrapassar a sua própria
vaidade.
Numa convulsão de pensamentos face àquele pormenor suspeito, o velho Illuminati
procurava algum mistério por detrás da capa, sem saber ainda que a resposta estava bem à
sua frente. Ansioso, desceu os olhos pelo lado interior da mesma, começando na proeminência
que esta criava sobre o ombro do Marquês. Deparou então com um defeito na pintura, sob a
forma de uma mancha de contornos claros, aparentemente fruto de um desgaste temporal, e
que surgia no lugar do punho do espadim e a respectiva guarda.
Repentinamente, a ponta da espada cruzava-se no seu pensamento com a arqueação
da capa. Estava ali a caveira!
Afinal os quatro elementos estavam todos no quadro, concluía Oskar com alívio, e a
corcunda da capa visava apenas formar um arco que possibilitasse a dissimulação do que
aparentava ser a metade da guarda da escada, mas que não era mais do que a própria caveira
ritual. Só assim se entendia o mestre maçom de capa redonda e espada escondida com o couto
de fora.
Por entre mais uma teimosa fumaça, Oskar pensava no desafio que deveria ter sido a
pintura daquele quadro maçônico e como seria possível que jamais alguém tivesse reparado
naquela caveira.
15 - As Igrejinhas

“As igrejinhas... as igrejinhas...”, uma voz fantasmagórica ressoava à porta do Templo,


provocando um silêncio de claustro.
Exumados à morbidez do ritual, os mestres interrogavam-se sobre o que el-Rey queria
dizer com aquilo. Acaso não lhe tinham já feito a vontade na preparação dos novos templos
para a sua Igreja Nacional? Acaso não tinham desenhado as fachadas das igrejas à semelhança
do Templo de Salomão, com três portas, duas colunas, três janelas, tudo encimado pelo olho
simbólico sob a forma de um óculo? Acaso não tinham varrido todas as igrejas para fora da
Cidade-templo, tal como ordenara? Que diabo faltaria?, interrogavam-se os Irmãos, procurando
resposta no angelical Irmão Eugênio.
Espalhados sobre a mesa, os riscos das igrejas não pareciam ter novidade. Todos os
conheciam e todos os tinham discutido e aprovado: lá estava tudo, portas, colunas, janelas,
óculo, no mais profundo respeito pela tradição maçônica.
Cabisbaixo e preparado para um mea culpa arquitetônico, Eugênio, o responsável
máximo pelos eclésios desenhos, tentara obstar à violenta adulteração das igrejas em prol do
regalismo maçônico. Se todas as vontades fazia à Loja, ao Mestre e a el-Rey, as que não lhe
tinham pedido, por ignorância ou por descuido, não as tinha incluído. E, pelos vistos, só el-Rey
dera por isso.
O primeiro na Loja a entender o engodo das fachadas e o logro das próprias plantas, foi
Mardel. Sem se denunciar, comparou as igrejas desenhadas por Eugênio com o túmulo de
Hiram Abif, o Lázaro da maçonaria, que ele próprio desenhara e encapotara sob a forma da
Igreja de São João, dito Julião, na Praça do Município.
Saltava à vista que a aparente igreja de São Julião era a única afinal, em toda a Lisboa,
que respeitava a forma retangular e cripto-maçônica do caixão de Hiram, presente nas Lojas
durante as reuniões exclusivas de mestres. Pelo contrário, as igrejas fora da Baixa, que
nenhuma lá restara, fugiam àquela traça maçônica e mantinham o formato clássico com naves
em cruz latina.
E como eram todas iguais, ninguém dava pela diferença, nisso consistindo o engodo de
Eugênio, o igrejeiro, pensava o Irmão Mardel com um belo sorriso interior.
Já quanto às fachadas, não havia dúvida de que eram as do Templo de Salomão e,
como tal, completamente maçônicas. A questão estava por detrás das mesmas, ou como se
diria, de maçônico era só fachada.
Descoberta a subversão, Mardel fulminava Eugênio com o olhar, já antevendo
momentos terríveis mal o Mestre o descobrisse. Manifestamente, algum impulso místico
subvertera o seu velho amigo, qual frade tresmalhado e maçom desencontrado. Mas não
deixava de admirar a criatividade deste ao encriptar simbolismo cristão num projeto de
encriptamento do próprio simbolismo maçônico. Enganava os Irmãos nas plantas, encobrindo-
as com as fachadas. Eram Templos de Salomão à frente, e igrejas em tudo o mais.
Alheio ainda ao engodo, o Mestre olhava aquela plantação de igrejas em volta da
Cidade-templo: a norte, São Domingos e São Roque; a sul, a de São Paulo; a nascente, a
Madalena e a poente, os Mártires, o Loreto e a Encarnação.
Era uma gloriosa coroa de igrejas, ou melhor, as igrejas da gloriosa Coroa, pensava
retificando, o arauto do Regalismo. E só ali faltavam as suas. Uma, a da Vida, cujo estudo
entregara ao projetista e amigo Joaquim de Oliveira e que seria edificada nos seus terrenos das
Mercês, à Rua Formosa onde nascera; a outra, a da Morte, que já planeava com o Arquiteto
Giancarlo Bibienna, O seu companheiro italiano da logis du Roi, e que ia implantar na Ajuda.
Com estas adjudicações a pessoas fora da Loja, visava o Mestre escapar ao
encriptamento maçônico com que, bem o sabia, a mendacidade de Eugênio e o atrevimento de
Mardel não resistiriam a brindá-lo em vida e certamente para a morte.
Seguro de si, pensava então que os segredos destas suas igrejas iriam consigo para a
cova, apostando na pouca atenção dos sábios para os guardarem por lá uns séculos. Mas o
tempo ia traí-lo com recurso à própria memória.
O Mestre interrogava-se sobre a razão do etéreo aviso real. Pelo que lhe era dado a ver,
as igrejas estavam todas ali, todas iguais e todas banidas da Cidade-templo. Afinal, que sabia
el-Rey agora de igrejas?, interrogava-se o Venerável, quase convencido de uma brincadeira
real. Agarrava já o malhete para retomar os trabalhos, quando um golpe de vista descuidado
sobre as plantas o fez finalmente acordar. Ali estava! El-Rey tivera razão em protestar. De fato,
as igrejas estavam todas desenhadas com a forma de cruz latina, num ato de submissão a
Roma!
Ferido mais uma vez pela soberba de encriptação cristã, lançava olhares de morte ao
beato-maçom, bem sabendo que aquilo só podia ser da sua lavra.
Abruptamente, deu uma malhetada na mesa triangular encerrando os trabalhos e
subvertendo o ritual. Com a pouca gentileza que era a sua, despediu os Irmãos da Loja,
retendo só os que lhe interessava. Ia-se esclarecer aquilo antes que el-Rey ali voltasse.
Em torno da mesa do Mestre, um tom de reprimenda maçônica media forças com o
autor da subversão. Era a última vez que o deixavam tocar em igrejas, avisava o Mestre
exasperado com as insistentes recaídas beatas daquele maçom de sotaina. De aí avante,
avocava a orientação dos templos e só Mardel, o seu maçom de cepa dura, poderia riscar nos
mesmos. Enfiado, Eugênio parecia um escolar monástico apanhado a beber o vinho da missa.
Mal a questão se arrumara, já el-Rey surgia, com ar um pouco rosado. Obviando às
explicações e com voz de mel coado, a Raposa enleava-o num afago, desfeiteando-lhe os
ímpetos com elogios sem par. Vaidoso, o austríaco deixava-se enredar numa promessa de
novos planos para as suas igrejas reais.
Semanas depois, a pretexto das igrejas mas com melancolia do amor, el-Rey impunha à
Fênix uma reunião extraordinária. Depois de recebidos os planos, verificara que ainda existia
uma discrepância entre a vontade real e a planta de um dos templos projectados. Falava-se da
igreja de São Domingos, ao Rossio, a tal que não ruíra e que o povo se rebelara em sua defesa.
Teatralmente, o Marquês insurgia-se, dando razão ao Rei e convencendo-o que, nessa mesma
noite, uma solução para bendita igreja seria encontrada. Convencido, recolheu à sua zona
preferida da Loja.
Abriu então os trabalhos e anunciou o problema, declarando que o mesmo carecia de
urgente resolução. Os Irmãos, ouvindo já o estalar daquele Verniz maçônico, viravam-se para
os Arquitetos na busca de uma intervenção que amainasse aqueles ventos. Mas solução era
coisa que não havia, admitiam em tom de súplica os Irmãos da arquitetura.
Pois que tanta solução havia que até Hiram ressuscitara!, bradava furibundo o Mestre,
antes de mostrar àqueles zimbórios como se contornava a questão. Ia mexer com as palavras,
sem ter que tocar na Igreja. Anunciou então que São Domingos ia ser a mais salomônica das
igrejas de Lisboa. Ouvindo isto, os Irmãos arrepiaram-se só de pensar que o Mestre ia ordenar
a demolição do que restara de São Domingos e, com isso, criar uma convulsão popular. Mais
uma vez, demonstravam que não liam Maquiavel. Assim, o Venerável ia demonstrar-lhes o que
o Príncipe faria.
Começou então por uma inusitada lição sobre o espírito e a matéria, aquele ali
representado pelo compasso e este pelo esquadro de Loja. Dir-se-ia, o poder espiritual da
Igreja e o poder temporal do Rei.
Sem entender patavina de tão brilhante pensar, os Irmãos abanavam a cabeça num
suave uníssono de cabeleiras a roçar os ombros das capas de mestre. Voltou então aos planos,
suspendendo os trabalhos da Loja para os Irmãos se acercarem da mesa. E passou a explicar:
sendo a capela-mor e os seus inopinados claustros intocáveis por força da crendice popular,
outra solução de bom senso não restava que manter aquela traça para não perigar o restante
projeto dos templos de Lisboa. A solução era bem simples: recuperavam-se os claustros em
conjunto com a capela-mor, deixando-os no seu anterior lugar, ao fundo do templo. Depois,
acoplava-se à fachada uma nave única, em planta retangular, qual caixão de Hiram suportado
por colunas maçônicas gigantes. O projeto, por misto ser, não seria assinado por ninguém da
Loja e os Irmãos Arquitetos escolheriam o menos capaz da Casa dos Riscos para tal comissão.
Que fosse também construída com restos das destruições, talvez alguma coisa profana que se
tenha salvo do Paço da Ribeira, que por lá havia muita.
Em suma, era fachada e templo à frente e igreja lá atrás, individualizando-se esta
claramente daqueles. O aplauso irrompeu com as palmadas da ordem sobre o joelho direito.
Que genialidade, diziam uns; que maldade, pensavam outros. Eugênio, esse estava petrificado
com a barbaridade. Mas petrificara cedo de mais. A coisa não acabara ainda. No meio da
confusão, eis que el-Rey ressurgia, semicomposto como quem vinha apanhar ar num ambiente
de incenso pesado.
Ouvida a explicação e como bom austríaco que era, ditou logo ali a sentença final: que
lhe pusessem um prédio em frente. Não a queria mais no Rossio! E o povo que a encontrasse,
se disso fosse capaz. Dito isto, virou costas com a leveza de quem tinha comido um acepipe e
voltava para o jantar. Mal el-Rey saíra do espaço da Loja, ouviu-se um “Cabum!” seco no chão.
Era o Irmão Eugênio que caíra, petrificado. Dera-lhe uma coisa, coitado. Se algum dia alguém
pudesse deixar de ser maçom, aquele teria sido o primeiro voluntário. Para o arribar, ainda lhe
disseram que el-Rey estava só a brincar e que não ia ser bem assim. Era como o Mestre dissera
e pronto. E pronto, caiu redondo de novo, só à custa do que o Mestre dissera. Aqui, o
Venerável perdeu a paciência e a misericórdia cristã de Estado. Que o levassem dali para Fora!
E, em ombros, lá foi o maçom petrificado.
Enquanto o penitente saía, Mardel fitava o Mestre, compreendendo então as instruções
que deste recebera para modificar o Rossio. Era quase assustador como adivinhava as reações
do Rei, refletia o Arquiteto, puxando já do seu projeto para a nova praça do Povo, também
chamada Rossio.
Curioso, o Venerável debruçou-se sobre os planos, no que foi acompanhado pelos
mestres da Loja. Prodigiosa solução, diziam uns sem o entender, e entendia o outro sem o
dizer. De fato, aquela solução satisfazia a todos.
Garboso, Mardel passou a explicar: se, como o Venerável bem dissera, o compasso era
o espírito e o esquadro era a matéria, que outra forma para bloquear o espírito que não um
apropriado esquadro?
Como se os Irmãos já não estivessem confusos, Mardel insistia na explicação com que
só o Mestre se deleitava, pois se o espírito era a Igreja e a matéria era el-Rey, ali tinham a
solução: um prédio em forma de esquadro a tapar a igreja do Rossio e atravancá-la lá atrás,
isolando-a tal como el-Rey exigia. Se não podiam modificar a igreja, que se fizesse sumir a
desdita.
Nesta altura, já ninguém aplaudia e já nada se dizia. Subitamente, todos eram
Eugênios; só não caíam para o lado.
Estavam nisto do tem-te, não caias, quando aquele tentou regressar à Loja. Esbarrado
por uns, desaconselhado por outros, insistiu. Estava recomposto, dizia, esbracejando que o
largassem. Mas mal olhou o projeto, que de todo desconhecia, logo sentiu a traição cravar-se-
lhe nas costas, qual adaga flamejante.
Obstando à previsível desavença, o Venerável interveio a bem da Ordem, assumindo as
instruções por si antes dadas a Mardel.
Assim, a mais nobre igreja de Lisboa, que havia quinhentos anos ornava o coração da
cidade, era pura e simplesmente erradicada. Para tal, foi ainda necessária a construção de mais
um prédio, a poente, para manter a simetria da Praça. Entre um e outro, ficaria apenas o
palácio da nova Inquisição de Estado, construído sobre um inusitado arco, que o trespassava de
um lado ao outro.

16 - A Cruz do Coração

Naquele quadro mágico, todos os motivos pareciam primordiais e mesmo os de


aparência secundária tinham tamanha relevância que, de um momento ao outro, podiam alterar
por completo a sua interpretação simbólica.
Com a descoberta dos quatro símbolos iniciáticos, lançava-se uma pequena competição
entre pai e filho. Juntos naquele final de tarde do Sabat, retomavam a busca dos segredos do
Marquês, seguros de que a saga dissimulatória, não terminara por ali. Voltavam ao pormenor
da cruz descaída.
Em qualquer quadro da época, um símbolo com a dignidade da Cruz da nova Ordem
Templária constituiria, por certo, um dos motivos de orgulho do retratado cabendo-lhe o centro
geométrico da pintura, referia Oskar, aduzindo que aquela notável obra parecia não captar tal
regra.
Como acidentalmente reparara, ao rodar o quadro para a esquerda, a Cruz de Cristo
como que decaía, descentrando-se por completo do conjunto da pintura, fato menos perceptível
na sua posição vertical. Dizendo-o, Oskar fazia a demonstração, deixando o filho intrigado e
desiludido consigo próprio por não o ter descoberto mais cedo. Mas logo retomaria a dianteira
ao aperceber-se de uma linha horizontal imaginária que perpassava o quadro, da direita para a
esquerda, começando no canto da enigmática folha de papel dobrada em quatro e entalada
entre dois dos livros da estante.
Realçado o fato, reparavam agora que o canto mais exposto da indecifrável folha
parecia apontar esse eixo horizontal na direção da cruz nova-templária, passando pelo coração
do Marquês, e que uma outra linha vertical, com esfíngico início, atravessava também o
coração até ao final do peitilho de renda, o dito jabot.
Não havia dúvida de que o retratado quisera deixar claro, entre tudo o mais escurecido,
que o seu coração era o âmago da pintura e o centro geométrico da mesma, assumia Oskar em
tom de desafio.
Com a cruz deslocada, quereria o Marquês infirmar que aquela não tinha lugar no seu
coração?, cogitava Oskar, enquanto procurava no seu indefectível Larousse gravuras da época
que retratassem outros ilustres portugueses. Deu então com uma imagem de D. João V, o
reinante antecedente, pintado com a mesma cruz, desta vez sobre o coração. Tirando teimas,
procurou uma imagem do Marquês e ali estava ele, retratado agora em busto e com a cruz
novamente descaída. Pelos vistos, cruzes e coração, pareciam não conjugar naqueles quadros.
Se já estavam confusos com um quadro, pior ficavam agora com dois. Na verdade, a
imagem do Marquês tirada do Larousse era quase tão inquietante como a do quadro mágico,
pensava Otto sem deixar transparecer ao pai o que lhe assolava o espírito.
Com a placidez da idade, Oskar avaliava os traços daquele busto até então
desconhecido. E logo na primeira abordagem, assomou-lhe um facies de vitória e um sorriso de
desafio... Desta sorte, entregava o quadro ao filho que, passadas vistas, fez ressaltar um
pormenor sem sentido: o Marquês aparecia pintado com a mão esquerda dentro da casaca,
apesar de a lógica ditar que fosse a mão direita a surgir naquela posição. Adiantava que a
roupa de homem abotoava, desde sempre, com a aba esquerda sobre a direita, pelo que a
casaca do Marquês teria de abotoar como a roupa de senhora, o que constituiria mais um
absurdo pictórico. E com o Marquês, não havia aparente absurdo sem uma razão simbólica,
concluía Otto interrogando-se sobre qual seria, desta vez.
Ante a estranha incongruência, Oskar avançou no deslinde. Tomando de novo a lupa,
apontou-a ao folho da manga, como que reproduzindo o gesto com que Otto lhe indicara o
proscénio da espada de mestre. Mal a focagem o permitiu, logo entenderam que o Marquês se
fizera retratar, desta vez com um punho de rendas repleto de compassos maçônicos os quais
despontavam na linha do coração, assim afastando a cruz para o lado oposto.
Ante aquela realidade, logo retomaram o quadro mágico, apostando na repetição do
motivo no adorno do peitilho. Mas estavam enganados, pensaram à uma, sorrindo de contentes
já que o engano lhes era favorável. Como podiam constatar, o jabot do quadro mágico surgia
decorado com rosas estilizadas por todo o lado exceto, precisamente, no local do coração onde
estava adornado por uma sucessão de seis esquadros maçônicos, direitos e invertidos, em dois
grupos de três. Com uma gargalhada desvendava-se mais uma dissimulação do Venerável
Marquês de Lisboa.
Para o dia seguinte ficara a análise da intensidade simbólica daquele estranho papiro
junto ao chão, no quadro mágico. Após uma tentativa frustrada de entendimento do que fosse
ali estar escrito, remeteram-se àquelas três letras no final do mesmo, as únicas que entendiam
daquela língua de trapos, mas também as que mais misteriosas lhes pareciam. Numa sucinta
análise, Otto defendia que eram três, ao contrário de Oskar que aprendera, havia muito, a não
opinar sem primeiro estudar.
Coçando as velhas barbas, Oskar olhava aquelas três letras pensando na obsessão
criptógrafa do Marquês, bem sentindo que aquilo não podia ser obra do acaso. Rebuscando o
pensamento, aventava a hipótese, que lhe era cara, de aquelas letras poderem estar
relacionadas com a simbologia Illuminati, o que não seria uma hipótese remota, já que fora
usada no fresco Concordia Fratrum, pintado no teto do Templo do seu Palácio em Oeiras.
Mas vindo do Marquês, qualquer significado era admissível, referia Oskar ao filho, como
que perdido naquela tríplice representação. À cautela, admitia já, com a crença de Tomé, que a
mesma pudesse significar apenas algo simples e até costumeiro nos documentos da época,
uma qualquer fórmula de finalizar os mesmos. Com a intuição em polvorosa, carregou o cálice
com outra dose de Madeira e acendeu mais um charuto holandês, lançando-se de novo à
observação. Virou então o quadro para todos os cardeais, olhando os prismas possíveis. Nem
assim. Já desconfortável, deu com algo ainda mais estranho: os dizeres em latim a seguir
àquelas letras, eram legíveis quando, pela posição enrolada do papiro, deveriam surgir
invertidos e desenhados da direita para a esquerda, já que estavam escritos no verso.
Já eram erros e simplicidades a mais, pensava Oskar, bem sentindo as barbas de molho.
Teimoso, voltou às letras ante a curiosidade expectante de Otto.
Levantou-se então e calcorreou a sala até ao escritório contíguo, logo regressando com
um alfarrábio nas mãos. Fora escrito por um Rosa-Cruz alemão de nome Komensky, nascido em
1592 e vulgarizado como Comenius. Com ar enigmático, folheava-o com a avidez de quem
buscava o Graal.
Sendo um dos principais formuladores dos conceitos Rosa-Cruz, Comenius descrevera a
seita como uma Ordem de Príncipes. Atento à resenha, Otto pedia ajuda à inteligência e
interrogava-se aonde iria aquilo dar, enquanto Oskar folheava o vetusto livrinho, numa
tentativa de penetrar os pensamentos do Marquês, ro ordenar a indecifrável inscrição.
Pouco depois soltava um Aha!, e apoiado em Comenius, explicava que aquelas letras
eram três x, tal como os germânicos os desenhavam na matemática, e que representavam as
profundezas dos segredos alquímicos sob a forma unitária de três palavras gregas, todas
começadas pelo ki do alfabeto grego o qual dera lugar ao x do alfabeto latino. Eram aquelas
Kore, o ouro, Krusos, o cadinho onde o mesmo é fundido, e Kronos, o tempo necessário a todas
as transformações. Eram estes os três elementos essenciais da Obra Alquímica, concluía Oskar,
fechando o livro Rosa-Cruz.

17 - As Sombras da Luz

Subindo as escadas do n.o 2 da Saraiva de Carvalho, Pombal espumava de raiva


incontida contra aqueles aprendizes de Mestre maçom, talhados de Arquitetos.
Desta vez eram as sombras. As sombras! Tinha sido necessário chegar a Junho para entender o
logro. E fora por mero acaso que, passando à hora de almoço nas obras da sua Cidade-templo,
a Baixa de Lisboa, começara a reparar nos ângulos e formas projetadas pelas sombras das
estruturas dos edifícios em construção. Não fora aquele bambúrrio de sorte e ainda morreria
estúpido, raciocinava ufano escadas acima.
Bateu três vezes com a bengala de Limoges e a porta da casa abriu-se como Sésamo.
Do outro lado, um espantado Pedro de los Reyes, filho de um Doutor de Espanha e aprendiz de
Arquiteto, tremia só de ver o Ministro. Como a simpatia não era apanágio que cuidasse, atirou a
capa para cima do pobre e partiu casa adentro aos estridentes berros de “Karl!”, no sotaque
luso-germânico adquirido em Viena.
Passados tantos anos, os sensíveis tímpanos do austríaco ainda se ofendiam com a
finura dos gritos e o rijo sotaque do Marquês duro de ouvidos.
Corredor adentro, qual curro de praça, chegava à sala dos Riscos. Mardel esperava-o
atolado em projetos e munido da habitual calma com que sempre enfrentava as intempéries
ministeriais. Fulminado ao primeiro olhar, logo compreendeu que desta vez a coisa ia ser grave.
O Mestre vinha feito um vendaval, e Eugênio que não chegava.
Sem qualquer explicação, a tempestade amainou. Com ar seráfico e uma calma
olímpica, sentou-se numa poltrona e ordenou um chazinho de erva-príncipe. Atarantado, o
forçado anfitrião gaguejou lá para dentro uma surdina de chá, bem sabendo que, do Mestre,
melhores vinham os ventos do que as marés. E lá estava ele com cara de maré vazia, enchendo
o nariz de rapé.
Fugindo para a copa a pretexto de quase nada, Mardel ganhava fôlego e meio temor
apenas para enfrentar a furiosa placidez. Dispensado o criado, servia ele próprio o Tritão
quando, despreocupada e finalmente, Eugênio dos Santos entrava cantarolando um Te Deum
que engoliu ao ver o Mestre.
Logo aos cumprimentos, notou algo de estranho: o Mestre estava calado e, pior, não
gesticulava. Com um simples franzir de sobrancelhas Mardel, dava-lhe a entender que a coisa
estava feia. Em boa verdade, estava até sombria...
Como o Mestre não desembuchasse, Mardel atalhou: que tinham eles feito agora? Se
era por causa do fontanário lá da rua, podia-se alindar um pouco, adiantava, tentando entender
a causa da destemperança. Mas nada. O Mestre bebericava.
Ante o impasse que já era meio castigo, Pombal levantou-se e chegando ao pé de
janela, abrindo-a de par em par, deixando entrar uma imensidão de luz naquela sala soturna.
Depois, num gesto largo, desembainhou a espada fazendo os Mestres contendores recuar pela
própria vida.
Escancarado de riso por dentro, espetou-a com violência nas tábuas do chão, junto à
soleira e recuou. Desarmado o louco, os outros acercaram-se, prontos a lançar-lhe cordas e a
chamar um médico da cabeça.
Mas o Mestre voltou ao beberico. Fosse lá alguém entendê-lo. Seria do Sol? Se calhar
apanhara de mais, o coitado, pensavam quase em simultâneo os Arquitetos, ante um
semelhante delírio. Mas não, o Mestre estava, como sempre, mais lúcido do que eles.
Ferido de flatus vocis, compensava a linguagem com um genial sentido de mímica,
quase literária. Assim, como o momento era solene e a voz o podia trair, o Mestre levantou-se
de novo tomando uma velha adaga otomana, que Mardel ganhara numa das suas batalhas
contra os turcos. Num gesto repentino e de magistral ontologia, espetou-a com a destreza do
guerreiro no limite da sombra da sua espada, assim fixando um ponto cardeal. Depois, com
meia vénia aos presentes refastelou-se de novo cruzando a perna em compasso.
Uns quantos minutos passaram por entre um silêncio suado e o recuar da sombra da
espada. Levantou-se então da pesada poltrona e dirigiu-se à adaga cravada no chão. Aí
parando, ergueu os olhos de fogo para aqueles dois falsídicos e arrancou a sua nobre espada
do chão, saindo porta fora sem água mais que fosse.
Temendo pela vida ou algo pior, os Arquitetos entendiam a mensagem e sentiam-se
apanhados. Pelo seu lado, o Venerável Marquês aguardaria pelo dia seguinte para tirar as
conclusões face à sua suspeição e só depois os confrontaria.
Manhã seguinte, ao raiar da Aurora, o Marquês saía para as suas obras. Descobertas as
sombras ia agora dar conta da Luz. Pelo meio dos escombros, junto ao Rossio, dava de caras
com o Bota-abaixo, assim conhecido por demolir os restos das ruínas, esbulhando o último
pecúlio dos deserdados do destino. Por ordem do Governo, demolia e mandava a conta.
Encontrar o Bota-abaixo, até para o Marquês era desagradável.
Evitava-o como a um lagarto peçonhento e tinha dado ordens aos dragonnards para
manterem aqueles repelentes salamaleques afastados da sua carruagem. Irritava-o ver o cofre
enriquecer com a desgraça alheia, mas suportava-o fingindo ignorar a extorsão a que se
dedicava. Ao Governo só interessavam os prazos e a efabulação das normas e regimentos.
Tudo o resto eram males menores.
Fugindo ao osga, foi seguindo o nascer do Sol, por sobre o Monte da Madalena. Mais a
Sul, junto à Praça do Comércio, dirigiu-se aos esboços das estruturas já erguidas. Aguardou
então que o Supremo Astro sobrepassasse o Monte e irradiasse as marcas das ruas por entre as
dos prédios.
Estava aquele ali especado, quando um frade mendicante, e atrevido fransciscano, o
abordou em tom de pedinchice. Era um capuchinho italiano acabado de chegar em busca das
almas que o terremoto danara.
O Marquês, que era um avaro administrador de fortunas, tinha dia e hora certa para
acorrer às esmolas; e aquele não era, seguramente, nem o dia nem a hora certa. Se frade já
era muito, um pedinchão era de mais, resmungava o Ministro correndo com o atrevido quase a
pontapés. Ia o frade já andando, ainda inteiro mas sem a esmola, quando algo chamou a
atenção do Marquês. Olhou para o Monte, olhou para o frade, e vai de mandar um dragão no
seu encalço e arrastá-lo ali de volta.
Rondando o frade, que tremia sem ter frio, o ministro mirava-lhe a coroa rapada no
cocuruto, carregando o sobrolho intrigado. Subitamente, olhando de novo o Monte, soltou
um estridente “Ahá!”, seguido de uma palmada na careca do frade que o fazia saltar e quase
sucumbir de susto. Lançando-se numa prece surda de quem sentia a alma a fugir, o franciscano
estarrecia hirto e com a cabeça encolhida, como que à espera de mais. Mas em vez de
outra palmada, levou com uma pergunta que soava a um trinar. Acaso saberia ele a razão de o
fazerem rapar o alto da cabeça com a forma de coroa circular?
O coroado mendicante de erudição quase nenhuma, encolhia mais os ombros,
amaldiçoando a hora em que por ali passara para ir rezar as matinas. Para seu grande espanto,
recebeu em troca do susto um jovial afago e uma soberba esmola, não sem antes ser
impiedosamente interrogado sobre as suas convicções sobre os jesuítas: “Uns sigilistas”,
respondeu afoito, saldando a alma ao diabo, mas ganhando a complacência do seu anfitrião de
rua, a cuja perigosa hospitalidade logo se escusou.
Agarrando na esmoleira, partiu a sete pés, coçando a tonsura. Para trás, ficava o Mestre
a pensar na coincidência com que acabava de deparar. Aquela coroa circular do frade era uma
pura representação do Sol, uma reminiscência de adoração pagã àquele astro, tal como ele,
maçom, o fazia ali e àquela hora. Subindo na hierarquia eclesiástica, recordava que esta
representação surgia no solideo papal como, outrossim, no dos bispos e cardeais.
Curiosidade satisfeita, lembrava-se agora de` que a divisa do judeu Nostradamus era,
precisamente, SOLIDEO. Havia de perguntar a Eugênio, o perito eclesiasta, se conhecia a
explicação.
Observando o estertor solar trancado pear, Monte da deusa Cibele, cristianizada de
Madalena, o expectante ministro reparava que os Arquitetos tinham mantido o nome desta
santa na rua a nascente da sua Cidade-templo. Não lembrava ao diabo..., retorquia para si
próprio, pensando no belzebu. Porquê Madalena?, interrogava-se. Porque não Cibele, a deusa
romana que se apresentava coroada com uma miniatura de muralha da cidade, bem a
propósito para o limite da Cidade-templo? Sem resposta, divagava em busca do indecifrável
segredo que tão presente sentia.
Foi então que a célebre expressão “Ai, ai, ai o meu folhinho”, bastante em voga naquela
época maneirista, o fez acordar como se um malhete de Venerável lhe acertasse em cheio na
testa. Não teria tudo a ver com a localização do Monte face ao nascer do Sol?, interrogava-se
recordando que o renascimento diário do rei dos astros correspondia ao ressurgimento bíblico
do rei dos homens de que Maria Madalena fora a primeira testemunha. Se assim fosse, tinha ali
mais um caldo maçônico entornado! Coisas de Arquitetos, admitia dividido entre a admiração e
o despeito, já que o Monte da deusa se mantivera devoto à santa por força do simbolismo
solar.
Sorrindo por dentro ao vencer mais um encriptamento, pensava já na vingança
maçônica com que os iria brindar. Desta vez, talvez os metesse umas duas ou três horas na
prisão do Limoeiro. Era castigo suficiente para qualquer mortal!
Perdido a pensar no Monte, o Marquês sentiu um súbito esplendor de raios atingir a
penumbra do seus pensamentos. Numa calma harmoniosa, Amon, o deus-Sol, invadia
finalmente as ruas da Baixa, vencendo o Monte da Madalena. Ia agora poder comprovar a sua
teoria sobre as sombras criadas ao raiar de cada dia 24 de Junho, o que na véspera lhe fora
impossível pelo adiantado da hora a que ali passara. No entanto, ao concentrar-se na incidência
solar, logo a desilusão o apossou. O Sol estava a nascer do lado errado da cidade, muito mais
para Sul do que esperava, pelo que sombras, nem jeito maçônico de as ver.
Sem entender como pudera enganar-se de tão grosseiro modo, o Mestre retirava-se
com as entranhas revoltas ante o mistério que teimava em não se deixar desvendar.
Pelo resto da manhã afundou-se no trabalho ministerial, numa tentativa de esquecer o
desapontamento que lhe assolava a alma-de-mestre.
Já ao almoço, em casa, ao entorpecer a inquietação com um vinho da sua casta de
Carcavelos, reparou que o brasão dos Carvalhos, gravado no lado oposto do copo de cristal da
Boêmia, lhe surgia invertido à transparência. Como um raio fulminante, a sua memória recuou
àquela reunião de Loja em que o seu irmão Paulo de Carvalho, o lerdo Inquisidor-geral,
acordara a meio da sessão para, com um simples gesto, virar a planta da Baixa do seu avesso,
assim desencriptando a orientação simbólica da Cidade-templo.
Ora, pensou de imediato, se os Arquitetos tinham tentado encriptar a Cidade-templo por
forma a que a mesma só fosse verdadeiramente entendida olhando para o reverso da planta,
com toda a certeza teriam adotado igual critério ali. Assim, para entender o alinhamento solar
da nova cidade, seria necessário inverter a sua leitura e trocar o nascente pelo poente, como se
o Sol aqui surgisse.
Em conseqüência, prosseguia o seu raciocínio, deveria proceder à observação das
sombras maçônicas quando o Sol estivesse mais perto do ocaso e com a mesma inclinação que
teria ao invadir a Baixa, por sobre o Monte da Madalena, ao seu nascer. Aí, acreditava agora,
ocorreria um perfeito alinhamento com as ruas perpendiculares da Cidade-templo, mas de
poente para nascente.
Ainda confuso com o raciocínio, saltou da cadeira deixando a refeição a meio e ordenou
ao cocheiro que estafasse os cavalos até à Baixa. Queria lá chegar antes de o Sol descer de
mais e já passava das duas da tarde. Pelo caminho sentia o esbater da raiva causada pelo logro
das Sombras e resplandecia, até, com algum orgulho nos seus Arquitetos, os seus
maçonzinhos. Apesar dos contratempos criptográficos, sentia que, ao contrário da maioria dos
poderosos, não tinha ali só aduladores e minguazes de broa. Tinha, ao menos, uma Loja com
os únicos cuja crítica temia, mas absolvia.
Chegado aos caboucos da Baixa, saltou da carruagem posicionando-se frente a frente
com o Radioso, como num desafio de Titãs. O duelo tinha lugar no preciso cruzamento das
marcas da projetada Rua Augusta com a Rua do Comércio, o coração da Baixa. Mais uma vez, a
rotação dos 13 graus da planta da cidade parecia revelar-se como o fulcro do segredo. Neste
momento, já nem se incomodava com a brutalidade dos custos do aterro para o realinhamento
da Praça do Comércio pois que este visava, afinal, dar satisfação ao movimento do Sol no seu
Solstício de Verão e posicionar a cidade para o receber no dia de São João Baptista. E tal só
era, de fato, possível na sua rota descendente já que a cidade nova estava encastrada entre
dois Montes, o da Madalena e o de São Francisco, o que impedia outra forma de recepção solar
no Solstício de Verão. De aí, todo o sistema de inversão da Planta criado pelos Arquitetos,
concluía num êxtase intelectual com a ilusão de que se não deixara enganar...
A sensação era por demais extraordinária, calorosa e envolvente. Pelo rabo do olho
reparava no espanto incontido da sua escolta. O Ministro ensandecera de vez, pensavam, sem
entender aquela adoração solar.
Certificando-se de que o Sol inundava, sem mácula de sombra e no sentido poente-
nascente, ias ruas da Baixa, deixou-o no seu esplendor e foi fazer a segunda verificação, a de
sentido Norte-Sul, em pleno traçado da Rua Augusta. Aqui, erguiam-se já algumas estruturas
de madeira, as ditas gaiolas, à altura definitiva dos prédios a construir e que ali estavam como
maquete viva para os testes de resistência aos abalos telúricos.
Deparou então com a sombra que cobria com precisão cada palmo da Rua Augusta,
desde o topo dos prédios do lado poente até à base das estruturas do lado oposto da rua.
Chamando um dos engenheiros militares que por ali andavam, ordenou-lhe, sem mais,
que fizesse uma leitura precisa do fenômeno. Assustado e sem entender ao certo o que o
ministro queria, lá foi desbobinando uma espúria explicação profana, começando por infirmar
que o eixo da Rua Augusta estaria inclinado 13 graus em relação ao Norte, assim se alterando o
posicionamento da cidade anterior ao Terremoto.
Demandado quanto à incidência do Sol e depois de quase cegar a medir a dita, o
temente engenheiro lá exibiu os seus aturados cálculos. Concluía que àquela hora precisa, duas
e meia da tarde, ou mais uma, segundo o novo Observatório de Greenwich, o Sol formaria um
ângulo de 54.8 graus com o plano da Terra o que, conjugado com o azimute de 104 graus,
originava um evento único. Por via do Solstício de Verão, tal ocorreria apenas em igual dia e
momento de cada ano. Por fim e para gáudio do ministro, esclarecia que àquela hora o ângulo
formado pelo Sol com o plano da Terra, conjugado com a altura dos prédios, precisamente
igual à largura da Rua Augusta, levava a que aqueles sombreassem toda esta, sem macular a
fachada dos prédios do lado nascente, e iluminando completa e simultaneamente as ruas
paralelas ao rio.
Era tudo o que o Marquês precisava saber. Despedindo o espantado engenheiro com a
promessa de uma comenda, abandonava vitorioso a Baixa, confiante que tinha quebrado os
ossos a mais um encriptamento maçônico.

18 - Salace

Logo ao início da noite, o Pepe surgia com um vistoso envelope que nesse dia chegara
remetido do Hotel George V, em Paris e que fora nitidamente aberto, sem que se tivessem
sequer preocupado em disfarçar. Era sinal claro de que a morada do restaurante já estava sob
um tipo de vigilância que não a ocasional e decorrente das perseguições ao Costa Ruivo.
Militante da inconsciência, o Pepe achava até engraçado, e ninguém tinha a coragem de o
avisar que era “até” perigoso.
Num sufoco de curiosidade, esperaram que a mesa se compusesse e logo reabriram a
carta. Era de Otto e encerrava palavras de agradecimento a todos os amigos de Cid. A cada um
citava as gentilezas que recebera, com todos brincando um pouco, numa manifestação de
humor e ironia pouco condizente com a fleuma germânica.
No fim, um beijo só para a Rosinha, cujo nome Otto jamais aprendera a pronunciar,
substituindo-o por um germânico Liebe Rose.
Distraidamente, Otto terminava a carta pedindo aos Irmãos que transmitissem ao Muito
Respeitável Grão-mestre de Portugal os seus agradecimentos pela forma cordial e fraterna
como o tinha recebido e acompanhado na sua visita ao Palácio da Pena.
Ante o desconforto geral e ninguém se querendo anunciar como maçom, resolveu o
Paulo aterrador prontamente a questão, pedindo àqueles ali presentes que, acaso
pertencessem a tão Augusta Ordem, se dignassem transmitir ao respectivo Grão-mestre os
agradecimentos de Otto Lenndorf. E mais não disse, tratando ele próprio de levar a carta a
Garcia.
Assim se ultrapassou com subtileza uma indiscreta incomodidade maçônica,
prosseguindo o jantar como de costume: comer, beber e sussurrar mal da Ditadura.
No âmago das conversas parecia sempre surgir o atormentador Salazar, que muitos já
temiam e todos criticavam. Por curiosidade, e já que o nome lhe parecia hispânico, Santial
dera-se ao peregrino trabalho de o investigar na sua vertente etimológica.
Comunicava então as derivas possíveis e decompunha Salazar, começando pela
terminação “ar”, sufixo de origem latina, de sentido diminutivo. À primeira parte, “Salaz” com
origem no latim salace, atribuía-se o significado de “libertino”. Assim, concluiu em tom de piada
que, pelo nome, Salazar era um “pequeno libertino” ou “homem de pecadilhos ocultos”.
Declarando a máxima de que em História uma coincidência nunca vem só, tinha decidido
procurar algum ponto em comum entre os ditadores que tanto atormentavam os seus amigos
portugueses e austríacos.
Ocorreu-lhe então, e sem razão aparente, confrontar a data de nascimento de Salazar
com a de Adolf Hitler, o atormentador preferido de Otto. Segundo ele, os caudilhos tinham
nascido no mesmo ano, no mesmo mês e no mesmo dia da semana, com apenas oito de
diferença. O nazi austríaco, a 20 de Abril e o outro a 28, no ano de 1889.
Era mais uma curiosidade de almanaque, rematava o interventor, não sem antes fazer
os presentes atentar numa última coincidência histórica que marcava ambas as ascensões
políticas do ditador Salazar e do déspota iluminado, Pombal. Mal chegados pela primeira vez ao
poder, pouco tempo lá duraram até sair, para logo regressarem com força e vigor redobrado.
Num exercício de estilo, Santial puxando de um papelinho leu então um discurso de
posse: “Não é preciso ter vindo de baixo para sentir vivamente a inferioridade das condições de
vida, material e moral, que usufruiu, em contraste com toda a Europa do Ocidente, este povo
português.”
Se ninguém conhecia o discurso de posse do Marquês de Pombal, que por certo
eloqüente seria, soava-lhes aquele mais a Salazar. Em copas, Santial mantinha o irredutível
segredo do autor.

19 - A Câmara

Naquela noite, o Venerável aportou mais cedo ao Templo. Ia confrontá-los com o


encriptamento solar e, mal chegado, encobriu com um pano de feltro negro o Sol da parede de
Loja. Depois, com calma que não era a sua, aguardou que os obreiros chegassem e deu início
ao ritual. Reparando no Sol tapado, mas com medo de indagar, os Irmãos interrogavam-se
sobre a razão da novidade. Talvez um luto, pensavam alguns enquanto os trabalhos
prosseguiam ao som da música martelada no velho piano que soava a desarmonia, qual tensão
que ali pairava.
Mas a surpresa aí vinha. Num gesto sem precedentes e com ar de gentil aparência, o
Mestre apontava o dedo, sinalizando o Irmão Mardel para se lhe juntar no Oriente. O espanto
instalou um nervoso miudinho na Loja, ganhando o aroma dos círios um tremendo cheiro a
esturro.
O Mestre fora ver o Sol nascer e topara com os enigmas solares. Pior que isso, por certo
desencriptara-os, pensava Mardel sem se atrever a encará-lo. Apanhado, sabia que ia ser
humilhado. Eugênio, esse recomeçara a murmurar rezas a ver se Santo Inocêncio ou São Simão
lhe acudiam.
Em geral, os segredos acabavam por ficar entre os três, os encriptadores e o
descobridor. Mas desta vez, todos iam saber a verdade, o que para um encriptador maçônico
era pior do que estadia no Limoeiro. O Venerável enganado ia obrigá-los a explicarem a toda a
Loja os segredos encriptados. Anunciou então o Venerável a apresentação, por parte dos
Irmãos Arquitetos, de uma prancha' sobre os segredos das sombras de Lisboa. Já esperando
dose dupla, os irmãos meteram cara de quem estava em Queluz prestes a ter de ouvir o Vieira
Lusitano a recitar uma poesia.
Chamado por um gesto, Eugênio assomou também ao Oriente juntando-se a Mardel.
Depois, sofreram juntos a bom sofrer a pena máxima da desencriptação dos segredos
respeitantes ao Sol e à sua incidência na Cidade-templo de Lisboa.
Supremo engenheiro do reino, o sempre pio Manuel da Maia fizera votos de castidade
aos doze anos e aos setenta fora cautelosamente abordado para aderir à maçonaria. O assédio
coube ao Irmão Embaixador da Áustria.
Sem aparente surpresa, da Maia ter-lhe-á respondido que era católico, apostólico,
romano e que esse era o nome da sua Loja, não fazendo tenção de pertencer a qualquer outra.
Como o embaixador entendesse mal o português, logo veio anunciar aos Irmãos o sucesso da
sua descoberta. Da Maia era maçou, mas de outra Loja, uma romana qualquer. Sem despregar
bandeiras, os Irmãos riram do incauto diplomata que, entreolhado, se retirou sem entender tão
hilariantes razões.
O Engenheiro, como todos lhe chamavam, entrava por vezes a meio da tarde em casa
de Mardel com sumptuários projetos de adversa profanidade, bem ao jeito do seu piíssimo rei,
D. João V, de opulenta memória e a quem a Europa se referia como o Salomão português, pela
grandiosidade dos seus gastos e obras.
Os seus quase oitenta anos, carregados por uma pesada mas pitoresca e carinhosa
figura de bisavô, a todos impediam de revelar o verdadeiro sentir perante tão desajustadas
obras. Afinal, já então com a colaboração de Mardel, fora ele quem construíra o faraônico
Aqueduto das Águas Livres que, por assentar sobre base de calcário do cretáceo superior,
resistira intacto ao holocausto do terremoto. O Aqueduto era o seu gáudio e, com sessenta
quilômetros de comprimento, incluindo ramais superiores, contava 137 clarabóias e 109 arcos,
o maior dos quais com 65 metros de altura e quase 30 de largura na base.
Mas ali, naquele Templo dos Riscos, em lugar de faraônicas, traçavam-se obras
maçônicas, igualitárias, grandiosas apenas na simbologia e projetadas para mister das gentes
de labor e não para prazer dos grandes do ócio.
Cada visita do Engenheiro da Maia era uma respeitável tarde perdida, com a
constrangedora agravante de ele não resistir a perguntar aos demais se gostavam dos seus
riscos. Na verdade, era como o intrigante e luso hábito de perguntar se “foi bom?”, no fim do
ato do amor. Que responder? Que sim... O contrário feria susceptibilidades e inquinava
relações.
Os projetos de Manuel da Maia eram como o sexo da época: grandioso no dizer; no
mais, eram só projetos.
Nesse domingo, à porta exterior do Templo, ficava o jovem Irmão Reinaldo dos Santos a
quem, por séria brincadeira, chamavam de Cérbero, em honra do mitológico mastim de três
cabeças, vigia do Reino dos Mortos. Sendo o Templo professo a Hades e por ser o mestre mais
novo, era à porta que se acoitava, conferindo as palavras-passe dos Irmãos e dando-lhes, em
seguida, entrada.
Sem assistir ao ritual, passava a noite a fazer paciências e a escrever juras de amor à
marquesinha, a predestinada viúva do Távora, Luís Bernardo. Enleado no amor, o Irmão
Cérbero bem iria precisar das três cabeças de mastim: uma para mordiscar a desdita, as outras
duas para se defender d'el-Rey, o sigiloso amante a quem acabava de dar entrada, incógnito e
embuçado. Bem sabendo quem era a alteza, o Irmão Cérbero balbuciou um “breve gozar para
eterno penar” e virou mais uma carta, um valete de espadas.
Depois de prestar honras à sua irmã D. Maria Bárbara, Rainha de Castela, cuja morte
nesse dia fora conhecida, el-Rey abalara com o desgosto, só folgando o pranto no regaço da
marquesinha. Ao entrar na câmara, José deixava escorregar a parcimônia real. Franqueando a
porta do seu reduto de amor, volvia ao ser humano envolto num mistério de sangues
germânico e latino em que este se sobrepunha àquele, fervendo-lhe nas veias. Naquele reduto,
ambos sabiam que havia um machado suspenso pelos altos nobres do reino sobre as suas
cabeças.
Mas tão graves perigos só lhes revolviam o amor, tornando-o, por proibido, tão mais
apetecido. E para guerras internas estava lá fora o Grande Maçom. A sua confiança era total
mas, se medo não havia, já o receio fazia daqueles cúmplices do pecadilho os grandes
conspiradores contra a própria família dela. Por algum modo havia que os descartar.
Na conspiração, ela desempenhava o papel de informadora de tudo o que se passava
nos palácios dos Távoras e dos seus parentes, os Aveiro. Se a criadagem lhe não era fiel, já as
moedas reais que escorria lhe davam acesso a todo o tipo de informações, por insipientes que
fossem. Estas eram levadas ao cérebro da trama, o Ministro de José.
Os Távoras não eram só invejados pelo seu dinheiro e posição social. Havia algo mais
que incomodava de sobremaneira a raquítica sociedade lisboeta de antanho: a finura e beleza
da sua estirpe. Dizia D. Mariana de Távora, dos seus dois filhos, que a boa figura que tinham,
depois de homens lhes podia servir de ruína.
Numa cidade em que a alta roda era dominada por desdentados e sifilíticos,
descompensados e paralíticos, os Távoras pareciam uma ode ao mito de Adônis e às Musas de
Atenas. Casavam entre si ou com os mais belos do reino, fazendo disso afã e causa familiar.
Como tal se iriam perder. Por isso seriam aniquilados, para que deles não houvesse rasto, nem
memória.
Fora essa a inveja dos Távoras. Sobretudo essa.
Se a inteligência era outro dos seus apanágios, de pouco lhe valeria contra a força bruta
do Rei, camareiro de uma Távora de má colheita que, por tudo, jurara ser Rainha.
Mas os Távoras, a troco da ofensa real, iam ser lestos de mais. Antes de informações
que pudessem fazer sentido a quem as pagava, já uns seus criados esperavam o Rei num
retorno das suas supostas reuniões maçônicas na Câmara do Meio, que bem sabiam coincidir
com mais uma escapadela da marquesinha para outra mais funda câmara.
20 - O Emboscado

Satisfeito e roliço, el-Rey acompanhou a dama à carruagem e tomou a sua. Bela


maçonaria aquela, pensou sorrindo. Agora, era chegar à Ajuda e entrar, na esperança de que a
real consorte não lhe viesse com cantos de sereia àquela hora da noite. Só de pensar, davam-
lhe tremuras.
Enleado nas memórias do encontro que, em cada, ela fazia diferente de outro,
atravessava incógnito as ruínas de Lisboa num percurso de arriscada meia hora de atalhos. Era
ainda uma montanha de escombros pós-terremoto, que a tornavam mais sombria que breu de
lua nova.
Juncados de buracos onde cabia meia roda, os caminhos ínvios da capital do reino
albergavam todo o gênero de perigos, desde os naturais, como os constantes terremotos e
réplicas que duravam havia três anos e causavam freqüentes desabamentos das fachadas e dos
muros ainda em pé, até aos humanos, mormente, os salteadores de rua que pouco mais eram
que bêbados sem dinheiro para o vinho ou soldados desenfiados em busca de um substituto do
pré.
Por teimosia de Habsburgo e coragem de Bourbon, que de ambos descendia, el-Rey
recusava até a escolta do Irmão Gottlieb, o seu arqueiro real que, incomodado, permaneceu em
Loja.
Do outro lado das ruínas, a marquesinha recolhia a casa, pressentida. Tudo era calmaria
por ali. Subiu, aprontando-se para o confronto com a censura dos servos que, por não falarem,
a brindavam com penetrantes desonras de olhar. O Luís Bernardo esse estava estranhamente
ausente. Menos um, pensava já no refúgio dos seus aposentos. Mas a inquietude não a
abandonava. Recuperou a nudez que havia pouco usara e cobriu-a com óleos nobres,
esperando a chegada de Somnus. Lá fora, jazia um estranho e tumular silêncio.
Do outro lado da cidade morta, D. Mariana de Távora, irmã de Luís Bernardo, o ausente
da noite, regressava de casa de seus pais onde estivera até perto da meia-noite a ouvir ler um
sermão de São Filipe Neri, extasiante distração do beatério lisboeta de então. O marido, D.
Jerônimo de Ataíde, Conde de Atouguia, aguardava-a reclamando do incomum atraso da hora,
em especial para uma dama, ainda que vinda de seus pais. Era o perigo da noite, clamava,
sobrepondo que ia entrar de guarda nessa madrugada na Ajuda e estivera ali, sem descansar,
em cuidados de novas que lhe chegassem. Por pouco, não saíra no seu encalço.
Cumprimentos por despedidas, o Conde saiú à sua anunciada missão.
Por entre becos e ruelas, que menos estreitos não havia, o rei do pecadilho cruzava o
labirinto medonho, inocente àquela cilada e, para quem o quisesse emboscar, qualquer esquina
mourisca servia. Causando tropeço aos passantes, uma Mafra de indigentes invadia os esconsos
da noite e, sem polícia nem guarda, a segurança da cidade ficava assim entregue a quem nela
se aventurasse, num arrojo maior que um pregador jesuíta a tentar converter o Marquês.
Mas longe ia o agoiro e bem perto já a raiva de ver a marquesinha voltar a casa para
servir outro, ainda que seu marido. Afinal por que era ele Rei, se não tinha, do seu reino, o que
de mais precioso havia? A sua baixa libido volvia-lhe as entranhas numa jura de não ver a lua
mudar sem arrumar aquela questão. Num repente, pensou voltar atrás. Por certo o Ministro
ainda lá estava. Podiam planear agora... Mas o cansaço da noite e o risco dobrado
aconselhavam-no a prosseguir. Em má hora.
Por entre o ciúme e a dor, de um querer e não querer amar, deixava-se cambalear pelas
veredas da Ajuda acima. Subitamente, duas descargas de mosquete camufladas pelo pedrejar
das rodas no caminho. El-Rey, nada sentindo, continuou dormente. Como os cavalos
enlouquecessem, deu de si com os gritos do cocheiro contra as sombras assassinas. Ao terceiro
estampido, um embate violento atirou-o para o fundo da carruagem, já imparável.
Colhido pelo susto e pela dor, que lhe chegou lancinante, sentiu a vida esvair-se. Com
um ombro desfeito e chumbo por todo o lado, ainda viu as vestes brancas ganharem as cores
da Áustria. Depois perdeu-se, como numa viagem de bergantim em alto mar revolto. A cada
brutal balanço, as chagas do chumbo tragavam-no para o inferno das dores.
El-Rey, que pensava mais rápido em alemão do que falava em português, só gritava
“Zur Loge!Zur Loge!”, o que o cocheiro ferido, bem entendendo o alemão, percebeu “Angeja” e
ala para casa do marquês de Angeja, por feliz coincidência gentil-homem da câmara do rei e
vizinho do cirurgião-mor do reino, António Soares Brandão. Lá chegados, desfaleceu o Pedro
Teixeira, tendo o austríaco sobrestado a resistência nos braços do próprio marquês. Antes,
tivera ainda forças para fazer os presentes jurarem segredo e estender a jura à família e
criadagem.
Pânico era chamar pouco ao que se instalara no palacete de Angeja. De imediato saiu
um palafreneiro a casa do médico e outro à do Ministro, de onde o reenviaram para a Rua do
Cabra. À porta, os Dragões da guarda pessoal do Ministro, a jogar à pela com Blancheville,
retinham-no para explicações que este insistia em dar só ao Ministro. Reconhecido por
Blancheville, lá subiu a expensas deste.
Ao ver o Marquês em pessoa, o moço desfaleceu com medo do que trazia, bem
conhecendo as lendas sobre o tratamento dado a mensageiros portadores de más notícias.
Intrigados, perguntavam-se o que quereria Angeja àquela hora? Como o que estava à mão era
o cálice das libações, levou com a água maçônica e acordou de sobressalto: “Um tiro! El-Rey
tem uma bala!” e caiu redondo no chão, não havendo libatório que o acordasse de tamanha
emoção.
A notícia caiu na Loja como uma bula papal. Todos sabiam que a sua força era apenas a
de validos d'el-Rey e, se algo lhe acontecesse, só lhes restaria acolherem-se à sombra da
Áustria, qual Duque Sylva-Tarouca.
Sem demora, distribuíram-se tarefas. Paulo, o Inquisidor, arregimentaria todas as forças
ao seu serviço e concentrá-las-ia em volta da casa de Angeja. Gottlieb Fuchs, o desorientado
capitão dos Arqueiros Reais, seguiria com metade da escolta do Ministro e montaria guarda no
interior do palacete. Os Irmãos embaixadores chamariam todos os espiões, que sempre
negavam ter e sem explicações, colocá-los-iam de alerta espalhados pela cidade. O Ministro iria
para casa do Angeja, dispensando então a escolta que recolheria à Ajuda, aí se reforçando e
reposicionando pelas saídas da cidade, impedindo a passagem a quem fosse, em especial, a
qualquer nobre apressado. Aos jesuítas, de quem logo se suspeitava, era metê-los a ferros que
depois se esclarecia.
O capitão Fuchs distribuiria ainda soldados pelas ruas, em frente dos conventos e
principais casas dos nobres. Ninguém saía, ninguém entrava e dois dos seus sargentos
correriam às masmorras da Junqueira e do Limoeiro, colocando-as sob as suas ordens, pois
previam-se já prisões em catadupa. A preocupação de Fuchs, logo ali manifestada, era que
sendo domingo à noite, não haveria, em toda a Lisboa e por junto, mais de mil soldados em
sóbrias condições de agir, e isso não segurava uma sublevação.
Com geral apreensão, atiraram-se ao empenho, juntando-se as espadas da Loja na
defesa da vida d'el-Rey. Cada Irmão corria à sua criadagem e juntava-se à tropa de Gottlieb em
casa do Angeja. Todos não eram de mais, temia-se àquela hora.
Antes que se apartassem, fez-se consabido que fora apenas Pedro Teixeira quem levara
um tiro e que el-Rey não estava lá. A ordem era extensiva ao marquês de Angeja, aos seus e
ao médico que lá estaria.
Efetuados os preparativos para o pior, decretou-se um consistório da Loja, tão logo que
el-Rey regressasse às Lonas da Ajuda.
O Angeja metia dó. Marquês da velha linhagem, mais do que irmão de
el-Rey, chorava acabrunhado à porta do palacete. Sem coragem para entrar, só repetia que lhe
matavam o seu irmão. A velha Marquesa, sua mãe, de mais rija têmpera que o filho, tomara as
rédeas da casa como o fizera no dia do terremoto. Ali havia mulheres e em os homens faltando,
os outros que se cuidassem!, avisava com fibra na voz a velha matriarca do clã. Só por sua
conta tinha quatro criados estafados que a carregavam escada acima e escada abaixo, como se
de um cerco se tratasse.
Ao ver aquilo, Pombal pensou o quanto lhe faziam falta ministros como aquela nobre
Senhora, irmã do Duque da Áustria, Sylva-Tarouca. Num ato único de respeito, em vez da
vénia, beijou-lhe a mão. A Marquesa retribuiu dando-lhe o braço direito e pedindo o seu
amparo até ao aposento real. Pela escadaria mantinha-se o inconsolável marquês, como se
uma terrível gruta lhe ocupasse o coração. Na verdade, deu mais trabalho a recuperar do que o
próprio sinistrado.
No dia seguinte, trasladou-se el-Rey para a Ajuda e declarou-se constipado.
Um maçônico silêncio abatia-se sobre os fatos daquela noite de 3 de Setembro de 1758.
Com exceção de Pedro Teixeira, o fiel cocheiro real, apenas os Irmãos da Loja, o destroçado
marquês de Angeja e o leal médico de el-Rey sabiam do sucedido.
A própria Rainha era mantida em providencial ignorância já que, num primeiro instante,
se temeu o seu envolvimento na trama. Esta desconfiança era lançada pelo Irmão Inquisidor,
Paulo de Carvalho, cujos esbirros haviam informado não cessar aquela de atazanar a Leonor de
Távora com “a pouca vergonhice da nora e a mansidão bovina do filho”.
Qual Éris, deusa grega da discórdia, a ressentida espanhola dizia que a portuguesa lhe
afastava o marido do leito, como se este fosse Tróia e ela ainda a bela Helena. Da fama de
conjurada não mais se livrou e logo que el-Rey um dia morreu tão logo se esbaforiu para só ser
vista de novo em Espanha.
Em boa verdade e longe dos ouvidos do Estado, a Farnese avisara a mater família dos
Távoras da conspiração passional. Com a altivez do Império em corte de simples reino, a
Távora chamou a si a honra e urdiu a defesa dos seus. Uma retratação punitiva ia sair a
Terreiro. De caminho, livravam-se do menor de classe e odioso ministro, Sebastião José.
Plano fatal, aquele. Poucos meses passados e já Távoras não havia. Que morressem a
mãos menos meritórias que as suas, decretou el-Rey, olhando as do Marquês. Maquiavélico, ao
Príncipe não interessavam os fatos, tão só a imputação dos mesmos. Como tal, adiou-se por
três meses a notícia do atentado, preparando os meios de prisão e desleixando os conjurados.
Impossíveis de conter, no entanto, os rumores grassavam pela cidade, obrigando o
próprio ministro a um formal desmentido junto ao Marquês de Távora. Agraciado, retirou-se.
Agrilhoado, voltaria passados três meses para morrer.
Ao nefando crime caberia um crudelíssimo castigo e a blasfêmia da humanidade
proferidas por uma Junta de Inconfidência, cuja memória se tornaria num convite à maldição.
Era um processo iníquo, urdido com toda a má-fé e reunido apenas para condenar os
acusados. Sem defesa possível, estes decaíam por entre uma acusação implacável de quem
devia apenas julgar.

21 - A Cidade de Deus

Nessa noite, a janta incluía um cocido gallego, a sopa do dito e, a terminar, umas
natillas da Rosinha, verdadeiro manjar dos deuses celtas.
A propósito de uma anterior discussão em torno da matriarca da família dos Távoras, o
José Roriz trazia umas intricadas curiosidades sobre duas das principais figuras da mesma, logo
declarando que os cruzamentos de sangue entre estes era algo que ninguém entendia, se é
que alguém os sabia descrever.
Sem esmorecer, adiantava que a marquesinha casara com o filho do seu próprio irmão,
Francisco de Assis, Conde de Alvor. Curiosamente, tia e sobrinho eram da mesma idade. Por
outro lado, era tia e cunhada de uma das matriarcas do clã, D. Mariana Bernarda de Távora
que, por sua vez, era irmã de seu marido e sobrinho, Luís Bernardo de Távora e, como tal,
também sua sobrinha.
Aqui, o orador interrompeu a explicação, porquanto os presentes sustinham a respiração
sufocados pela história. Às tantas, olhavam-no inquirindo-se se não estaria a aproveitar a
colegial distração para se meter ao gozo com eles. Mas não, era mesmo verdade, naquela
família só não casavam pais com filhos e netos com avós.
Os outros, suspirando bem fundo, muniram-se de dose dupla de aguardente da Arealva
e, pestanejando ensonados, prepararam-se para o resto da chumbada.
Para os espevitar, saltou então o lado negro da história. Assim, quanto àquela Mariana
Bernarda, Condessa de Atouguia pelo lado do marido, executaram-lhe ritualmente em Belém,
no ano de 1759, o marido, D. Jerônimo de Ataíde, os dois irmãos, Luís Bernardo e José Maria
de Távora, a mãe, D. Leonor, Marquesa de Távora, o pai, D. Francisco de Assis, Conde de Alvor
e, ainda, o cunhado deste e seu tio, D. José de Mascarenhas, Duque de Aveiro.
De uma assentada, toda a família para ela se perdeu, com exceção da tia marquesinha
e de uma irmã sob o protetorado do Marquês de Alorna, seu marido.
Cautelosamente, o orador poupava aos presentes o pesadelo das cenas da prisão, da
separação forçada dos filhos pequenos, do seqüestro dos bens, e tudo o mais a que aquela
Távora sobrevivente fora sujeita, fatos capazes de arruinar o humor e a digestão dos ausentes
de espírito, ali presentes. Tal seria assaz sinistro, em noite de alegre convívio no Pepe.
Cortando os receios daquele, entrava o Ayres às horas de quem tinha tido um jornal
para fechar. Vinha furibundo, quase a falar sozinho: que disto e mais daquilo, lá entenderam
que tinha a ver com um livrinho que publicara uns meses antes e que tivera, estranhamente,
algum sucesso. Mas o motivo da sua fúria eram os detratores, e a forma como o criticavam
injustamente.
O mal era a inveja, reconhecia tristonho o jornalista. A mordácia só surgira com a
presunção dos trocos ganhos com a oportunidade do livro. Era flagelo da idéia que não tiveram,
dos conhecimentos que nunca adquiriram e do lucro que não lhes confortara os bolsos sempre
lisos. Inveja mesquinha de quem não suportava ver alguém de camisa lavada mas não se dava
ao esforço de lavar a sua. Inveja à portuguesa, terminava a conversa com os seus botões, sem
reparar que todos lhe davam ouvidos.
A essa mesma hora, na sua cidade de Viena, Oskar debruçava-se sobre as fotos aéreas
obtidas por Otto no tal Institut de Lisboa. Segundo Cid deixara escrito, era bem possível que
entre o Convento de Mafra e a Baixa de Lisboa existisse uma sobreposição reveladora da guerra
surda movida por D. José à memória do seu infidelíssimo pai.
Perscrutou então as fotos, atento à orientação cardeal daquelas soberbas obras. Pelo
que via, o Convento estava virado a Poente enquanto a Baixa, construída entre duas praças,
podia ser lida de Norte para Sul e também no seu inverso. Constatado o fato, admitia que as
diferentes orientações refletissem apenas uma opção de cada época, já que entre os seus
respectivos projetos distavam quase cinqüenta anos.
Num cartesiano reparo, Oskar notava que a Baixa possuía dois contornos distintos. Sem
prejuízo da sua orientação global a Norte, ou a Sul, consoante a praça de referência, Oskar
podia observar que os quarteirões formados pelas três ruas transversais a desembocar na Praça
do Município, estavam orientadas a Poente, tal como o Convento de Mafra.
Qual barreira da Lua ante a invasão solar, estes quarteirões transversais faziam Oskar
rever o simbolismo que o Marquês de Lisboa imprimia a todas as suas obras e interrogar-se
como isso se reflectiria naquela. Meio perdido e sem resposta, o velho Illuminati fixava-se de
novo nos pontos possíveis de sobreposição entre aqueles dois colossos.
Com as fotos lado a lado e por mais que assim olhasse, só antevia os torreões que em
cada um existiam e ali se encaixassem. No mais, tudo era díspar e parecia desencontrado.
Ante a falta de meios que lhe permitissem ir mais longe, Oskar remetia-se ao seu
charuto, à espera da chegada do filho. Tinha esperança que este conseguisse, lá no jornal,
passar as fotos para chapas de vidro, o que lhe permitiria sobrepô-las e não apenas imaginar.
Nem meio charuto ardera e já Otto chegava a casa. Confrontado com o desalento do pai, logo
o animou, referindo-lhe que tinha um bom amigo no oratório do jornal que, por certo, lhes iria
valer. Apenas lhe pedia que escolhesse uma das fotos, já que duas, além de desnecessário,
seria abusar da boa vontade do amigo e dos meios do jornal. Sem saber por qual optar, Oskar
decidia pelo científico método de cara ou coroa, e a moeda decidiu Mafra.
No dia seguinte, Otto surgia finalmente com uma chapa de vidro para onde fora
transposta a foto aérea de Mafra. Curiosos, precipitaram-se para o escritório. Depois de
infrutíferos esforços em que nada batia certo, tomaram como referência a estátua de D. José e
o jardim da Basílica de Mafra, sobrepondo-os em seguida. Logo ao primeiro relance, tudo
encaixava. Fazendo então Oskar rejubilar com a genialidade daqueles maçons de outrora.
Pegando no original das fotos aéreas, verificou a altitude a que as mesmas tinham sido
tiradas. Num apontamento, em baixo, encontrava uma referência a dois mil pés. Pediu então a
Oskar que verificasse no seu onisciente Larousse a altitude a que o Convento fora construído, já
que Lisboa estava, seguramente, ao nível do mar. Sem entender o que o filho queria, Oskar lá
foi à demanda. Segundo a enciclopédia, o majestoso Convento de Mafra situava-se 234 metros
acima do nível do mar e, como tal, da própria cidade de Lisboa. Esta diferença causava um erro
de paralaxe já que a sua dimensão era menor do que a representada nas fotos aéreas tiradas à
mesma altitude. Começava então a entender onde Otto queria chegar e, olhando um para o
outro, desiludiam-se daquele achado. Sem entender o que passara, afinal, pela cabeça dos tais
maçons de outrora. Eram assim levados a concluir que aquela sobreposição só fazia sentido
vista dos Céus e a dois mil pés de altitude, o que corrigia a diferença de escalas entre Mafra e
Lisboa.
Era uma cidade que só podia ser vista por Deus.

22 - David e Salomão

Era domingo de novo. Fazia oito dias que el-Rey dali saíra para contra ele atentarem.
Nesta noite, faltava o maçou do boudoir. Estava nas lonas, na Ajuda, com uma bem oficial
influenza que o mantinha agarrado à cama, só com a visita do médico real. À porta,
discretamente, o imperdoável Gottlieb Fuchs montara uma intransponível cerca de Dragões que
nem a rainha passava. Podia pegar-se, diziam-lhe, e apressavam-na a pretexto da maleita.
Ali na Loja, abertos os trabalhos no timbre habitual mas com cara de dois casos, o Venerável
Marquês decidiu deixar claros os seus temores e lançar um aviso sério a um jovem basbaque
que se acoitava à porta do Templo, qual Cérbero sentimental. Num vociferar agreste, fez entrar
o neófito Reinaldo na Loja e atingiu-o como um estalo. Hirsutos os Irmãos ouviam picaretas
voar sob o anúncio da Tentação de David. Com ar de relato histórico, o Venerável contava
como o sábio rei David, símbolo da fidelidade de Israel a Iavé, cedera em tempos a uma paixão
ilícita e, dizendo-o, o Mestre fulminava o Irmão Reinaldo. Fazendo que não, todos entendiam o
recado, e o martírio verbal prosseguiu: que David, sucumbindo àquela paixão, fez matar Urias
para poder ter Betsabé, a mulher deste, para si. Do crime por amor veio a nascer Salomão, o
rei construtor do Templo e senhor do Trono ali representado, disse.
Sem pausa, continuou a sua inusitada lição sobre o Velho Testamento, referindo que o
deus Iavé acabara por punir David, de forma divinal, retirando-lhe o trono e entregando-o ao
seu filho Salomão, fazendo deste um sábio maior do que ele.
Naquele instante e interrompendo a sessão, Mardel chegava encharcado e fedorento. Ao
fim de tantos anos em Portugal, ainda não tinha aprendido a não olhar para cima quando ouvia
o tradicional grito “Água vai!”. Daí a sua debaldada obsessão pelos novos esgotos de Lisboa.
Seguindo a ordem da noite, ali estavam todos, naquele fedor, para enfiar o Rossio na Rua da
Betesga. Sua real vontade Josefina queria vingar anos de humilhações daquele que lhe
impuseram por pai e enfiar a imensidão do Convento no simples espaço de um Terreiro. Era a
reunião de Loja mais surrealista do último mês.
D. João V, de salomónicas inclinações e quedas conventuais, dera um enorme
trambolhão ali para os lados de Mafra. Inicialmente pensado para treze monges, depressa se
viu transformado num monumento maior que o reino, nem convento, nem palácio, que Byron
diria ser obra da magnificência sem orgulho na elegia. Curiosamente, a primeira pedra era
oficialmente lançada, cinco meses após a fundação da Grande Loja de Londres, no dia de João
Baptista, em 1717. Neste mesmo dia, o ritual da pedra bruta era cumprido pelos pedreiros-
livres da obra de Mafra.
No projeto, e qual sultão da Turquia, D. João ordenara algum anteparo e a providencial
distância de 232 metros entre os seus aposentos e os da Rainha, cedendo-lhe a zona central da
construção e reservando para si a mais próxima do Serralho conventual. Com germânico
orgulho e preterindo os portugueses, entregara a execução do majestático refúgio a um outro
alemão, o Arquiteto Johann Friedrich Ludwig, cautelosamente rebatizado de João Frederico
Ludovice. Acusado de querer transformar o Reino na Germânia Ocidental, D. João V colhia a
sua inspiração na obra de profecias “Ennea” cujo autor, Anselmo Munoz, o convencera de uma
predestinação imperial.
Toda a magnificência e dispendiária joanina não visava mais do que abrir caminho para
este profético imperalato. E não fora a quebra precoce de saúde e quem sabe onde teria
chegado o alemão rei de Portugal, neto de imperadores germânicos e marido de Maria Anna de
Áustria. Na verdade, esta era filha e herdeira de Leopoldo I, o Imperador da Alemanha e ainda
irmã de Carlos VI, o Imperador da Áustria, sendo assim herdeira e sucessível de ambos.
Tal como Salomão sucedera a David, também José sucedeu a João, invertendo este sonho
imperial e acabando o Império do Oriente a dominar o do Ocidente, por via da maçonaria
austríaca.
Com o terremoto, o Convento de Mafra elevara-se e abatera-se em bloco, inclinando-se
como uma embarcação às ondas sem ter contudo ruína considerável. Apenas uns mármores
estalados, uma pirâmide da Torre Sul por terra e uma fenda na praça em frente com a largura
de um pé de homem. Parecia maldição paternal. E era aquela fidelíssima Loja a cumprir o
capricho de um rei que bem se lastimava da mãe natureza não o ter querido ouvir antes de lhe
dar aquele pai.
Eugênio, que perdera uma semana em Mafra a catar projetos velhos, apresentava-se
agora em Loja com uma solução criativa: já que el-Rey queria o Convento humilhado, cobria-se
todo aquele com a própria Cidade-templo.
Para que alguém entendesse o gênio, o Venerável arreou o malhete e cedeu a sua
mesa. Puxando das lunetas em forma de pincenez que a vaidade impedia de usar, o Mestre
debruçava-se, de candelabro maçônico na mão, sobre as plantas sobrepostas que Eugênio
apresentava. Fez-se então um lusco-fusco na Loja, pois os limites do convento coincidiam
exatamente com os do Templo-baixo do projeto da Lisboa maçônica, surgindo a estátua
eqüestre de D. José no preciso centro do jardim do Convento, desenhado já então sob a forma
simbólica da roda da serpente, com oito braços. Como que despertando da habitual letargia, os
Irmãos rejubilavam com a intensidade da obra e o choque visual que a mesma causava.
Deleitado com o amigo, Mardel metia ares de aprendiz ante a lição de mestria. Mas bem
conhecendo o seu autor, procurava já onde teria aquele encriptado o seu lado místico, pois
achava simples de mais a humilhação do Convento sem que isso tivesse um anverso, qual
Janus de duas caras. Mas, por mais que olhasse, via menos que um neófito em noite de
iniciação.
Matreiro, o Mestre só pensava nos dividendos a retirar dali. Talvez mais uma comenda
ou, quiçá, por fim, Marquês.
Acabavam, assim, de enfiar o Convento joanino no Terreiro josefino. Esclarecidos uns e
com Mardel por esclarecer, restava aguardar que El-Rey melhorasse para lhe darem as boas
novas.
Fazendo-se atrasar, Mardel ficava sozinho na Loja. Aquilo não lhe parecia claro e havia
que separar o trigo do joio.
Tinha reparado que Eugênio não fizera a correção inerente à diferença de altitude entre
Lisboa, situada ao nível do mar e Mafra, 234 metros acima, o que deformava as respectivas
escalas. Só não compreendia a razão. Não seria, por certo, apenas para encaixar o Convento no
Terreiro, que isso sempre teria outra solução.
Rebuscou então o espírito de Eugênio ao traçar aquelas plantas e logo compreendeu
que este desenhara, afinal, uma sobreposição só entendível a partir de um determinado ponto
celeste e, se bem o conhecia, apenas pelo próprio Criador.

23 - O Lago de Bronze

Estava uma noite de uma invernia outonal, em que todos os Irmãos se arrependiam de
ser maçons. Àquela hora, todos invejavam el-Rey, na câmara dos fundos, com a bela lareira
acesa e o banho de cheiro a pétalas gozando o sensual afago da generosa marquesinha.
Ao menos que valesse a pena aquela reunião, que se fizesse uma iniciação, uma
elevação ao grau de mestre, uma qualquer coisa interessante que não passasse pela estridência
da voz do Mestre.
Abertos os trabalhos, o Venerável anunciou que iria ser apresentado o projeto
simbológico do Terreiro do Paço, pelo que, de imediato deu a palavra ao Irmão Eugênio, o
mitógrafo de serviço. Naquele tom de prédicas e homilias que lhe remanescia dos tempos
monásticos e que tanto exasperava o Mestre, Eugênio propôs então que se construíssem doze
postos para estátuas dos doze deuses do Olimpo, adiantando que o mais importante seria
preenchido com o deus grego Hades, também denominado Plutão ou Pluto pelos romanos, o
qual encimaria todos os demais.
Sentindo a curiosa ignorância a pairar, Eugênio esclareceu que Lisboa estava, desde o
tempo dos romanos, dedicada a Pluto, o deus dos subterrâneos e governador do Mundo dos
Mortos. Ouvindo isto, o Mestre exultava, bem sabendo que Hades era também o símbolo da
dissimulação maçônica, já que possuía o elmo mítico e emplumado que tornava invisível quem
o usasse.
Já por entre alguns fraternais bocejos, Eugênio concluía que toda a Praça seria, assim,
devotada ao deus Hades ou Pluto. Ante a concordância da Loja, manifestada pelo positivo
aceno das perucas, Mardel tomou por sua vez a palavra para fechar com chave de Salomão: a
Praça seria desenhada sob a forma de uma arcaria seguindo os bons ensinamentos
dissimulatórios da Maçonaria-mãe austríaca, lembrando os presentes que uma arcaria, ou
conjunto de arcadas, tanto em alemão como em português, era designada por Loggia, numa
adoção da expressão italiana que abarcava os espaços abertos e amplos desenhados nas
cidades de Itália. Se toda a Baixa era uma Cidade-templo, concluía Mardel, a figuração da Loja
Fénix de Lisboa estava dissimulada na arcaria ou Loggía do Terreiro do Paço.
Mas havia ainda uma surpresa, a Jóia do Terreiro do Templo: uma estátua eqüestre
d'El-Rey, o maçom de conveniência, munido do elmo mítico de Hades. Dito isto, logo destapou
a maquete do que dizia ser a mais bela estátua eqüestre de Portugal, adiantando que a mesma
teria sete metros de altura e mais sete de pedestal, e estaria localizada bem no centro da
praça. Seria esculpida no mais fino mármore de Vila Viçosa, quer na sua base, sob forma
arredondada, quer no cavalo e protagonista.
Quanto mais explicações ouvia, mais o Venerável se contorcia no trono de Salomão.
Redonda?,Arredondada? Mas onde estava a forma do esquadro, onde estavam os ângulos, os
triângulos, o Sol, a Lua? Bem sabia que o esboço inicial era da autoria de Machado de Castro,
um conhecido beato adverso às ideias da Luz, mas, no centro da entrada para a Cidade-templo
de Salomão, uma estátua completamente profana e desinserida? Então andara a pregar para os
peixes, durante todos aqueles anos?
Fervendo em água nenhuma, e por mais que ouvisse, o Mestre não encontrava o menor
resquício de simbologia na estátua. Às tantas, uns queriam-na virada para Norte, de costas
voltadas ao Sol! Outros queriam-na virada a nascente, dando-se ares de maçons entendidos e
até havia um que trazia uma sugestão do Engenheiro da Maia, para um pedestal giratório
movido pela força das marés.
Arrepiado com os dislates e num gesto de súbita fúria, arreou o malhete na mesa e
soltou um “Irra!”, esquecendo-se da voz de falsete que soou como um silvo por todo o espaço
da Loja. Embalados na sonolenta ignorância, os Irmãos saltaram picados por aquele vespão
sonoro. E um novo “Irra!” silvava como castigo a preceito.
Lá dentro, até o gemer parou e el-Rey teve uma descaída.
Assustada a platéia como lhe aprazia, num magistral gesto de teatro maçônico, o
Venerável ergueu-se do trono de Salomão e, acercando-se da maquete da estátua, desferiu
sobre ela um poderoso golpe de malhete, desfazendo-a em trezentos pedaços. Com ar de
profundo desprezo, virou costas ao destroço e subiu ao seu lugar.
Ao pé daquele silêncio, o do próprio Sepulcro parecia noite de São João. Ninguém se
mexia, ninguém respirava; em boa verdade, sequer pensava. Só lá dentro se gemia de novo.
Avançou então o Mestre para uma aula de instrução, começando por inquirir a Loja se a pedra
d'alva era, ou não, o mais belo material para estátuas. De fato, todos reconheciam a pedra
como a mais bela matéria prima, recordando até as obras de Miguel Angelo e Bernini.
Continuando a instrução, o Venerável citou-lhes de cor um texto bíblico do Livro dos Reis,
deixando os Irmãos ainda mais confusos: “O Rei Salomão mandou procurar Hiram de Tiro. Ele
possuía imensa habilidade e perícia para trabalhar o bronze”.
Como o silêncio grassasse, perguntou-lhes quais as estátuas de pedra que conheciam
no Templo de Salomão, ou quantas viam ali na Loja, sua singela representação? Olhando em
volta, os Irmãos só viam pedra no chão, nas colunas e no próprio coração do Mestre, que
estava capaz de os transformar em habitantes de Gomorra, só pela força do olhar.
Num ápice, eis que o monge-maçom Eugênio, acordando da sua meditação profunda,
pediu a palavra. Olhando o Venerável como quem o ia desmascarar, lançou-se a descrever o
Templo de Salomão, onde estátuas não havia por serem formas de representação proibidas.
Referiu aduzindo que no seu terreiro de entrada existia apenas uma elevação escultórica
designada por “Lago de Bronze”. Depois de sorrir com ar de vitória para o Venerável, voltou-se
para os Irmãos na desesperança de alguma desenvoltura intelectual. Mas nada. Se pedras
havia, estavam dentro daquelas cabeças. Intrigara-o sempre, como gente tão ilustre e
intelectualmente superior, quando chegava ao ritual e ao simbolismo maçônico pareciam
vítimas de um bloqueio vínico.
Dizimado com o atrevimento, o Venerável interrompia a prédica de Eugênio, lançando
um desafio à Loja. Então, andara ele a espetar cruzes de oito pontas em cima de globos de
bronze por essas igrejas fora, e ninguém entendera nada? Introspectivos, os Irmãos pareciam
ter o cérebro vendado e, pelas caras, o mistério ia continuar sem desvenda à vista.
Foi então que Mardel, com o assentimento do Mestre, se adiantou à explicação beática
de Eugênio: a estátua nunca poderia ser de pedra, por mais alva que fosse, mas sim de bronze,
já que este resultava da fusão do cobre e do estanho, as cores representativas do Sol e da Lua.
Demais, cada um daqueles metais tinha a sua correspondência na simbologia atribuída aos
metais nobres do Ouro e da Prata os quais iriam, precisamente, dar o nome às ruas laterais da
Cidade-templo. Por outro lado, explicou, com base nas embocaduras destas formava-se um
triângulo maçônico, cujo vértice incidiria no preciso local da estátua, ali se fundindo aqueles
metais.
Colhendo a aprovação do Mestre para terminar, Mardel referiu que a estátua ficaria
localizada a sete oitavos da Praça, um pouco mais a Sul e não no seu centro geométrico, pois
só assim se respeitariam as dimensões do triângulo maçônico projetado.
O silêncio virou aplauso maçônico, batendo os Irmãos afincadamente com as mãos em
cima dos joelhos. Findas as silenciosas palmas, Eugênio metia um prego da sua estopa e
propunha à Loja que a estátua fosse executada pelo escultor Machado de Castro.
O Mestre enervava-se só de ouvir o nome do homem. Primeiro, porque estudara nos
Jesuítas desde tenra idade e, com exceção de si próprio, isso não era coisa que abonasse.
Depois, porque começara a ganhar fama com uma estátua errada, a de um pórtico de Igreja
em São Pedro de Alcântara. Para cúmulo, tornara-se escultor em Mafra trabalhando para o
perdulário Rei João que lhe deixara a ele, Pombal, um país exangue e com o brilho de ouro
falso. Que mais seria preciso para enervar o Mestre? Só mesmo se o homem se pusesse a fazer
presépios por aí...
A seu favor, o fato de realmente ser um escultor de eleição, ainda que ao Mestre
custasse elegê-lo, é de ter sido o autor do túmulo da Sua Senhora e Rainha-mãe, D. Maria
Anna de Áustria, em São João Nepomuceno, o que já era credencial que se apresentasse.
Aliás, sempre que se falava em Nepomuceno, o Mestre sorria por dentro olhando Mardel
nos olhos. Conhecedor da verdade e credor do segredo, este retribuía o oculto gesto com um ar
de santimónia. Na verdade, Nepomuceno era o mais enigmático santo introduzido em Portugal
pela influência austríaca, a caminho do afastamento de Roma e da criação de uma Igreja do
Rei. Santificado apenas em 1729 por Bento XIII, era um novíssimo santo e não fora por acaso
que a Rainha-mãe dera o seu nome ao hospício onde se fizera enterrar. O próprio mausoléu,
esculpido pelo beatífico Machado de Castro, fora mais uma tropelia simbolista da Loja Fénix,
responsável pela expansão do culto, atento o seu significado.
Só com gente assim indouta uma tal sátira se mantinha, pensava o Mestre pouco seguro
do segredo de Pulcinello, o aportuguesado “Poli-chinelo”. O Mestre sorria recordando que João
Nepomuceno não passava de Joann nePomuk, à letra, João de Pomuk, nascido em 1350 nesta
mesma localidade, perto de Praga, então sob o domínio alemão e onde dois anos antes fora
fundada a primeira universidade germânica.
Se um dos motivos de aceitação do santo era o nome João, o mesmo do evangelista
venerado pela maçonaria, já a causa da sua morte constituía uma extraordinária arma de
arremesso contra os jesuítas, apelidados agora de sigilistas ou violadores do segredo da
confissão.
Notável invenção de van Swieten, Irmão da Loja de Viena, médico imperial e abnegado
perseguidor de jesuítas, o Santo ad hoc, Joann ne Pomuk tornara-se mártir em 1393, às mãos
do Imperador alemão Wenzel IV, qual Nepomuceno, também transmutado em português para
Venceslau. O fatal diferendo teve origem na recusa do santo em revelar àquele o que a
Imperatriz lhe teria confiado em segredo de confissão. Irado com a intransigência, o Imperador
fê-lo torturar cruelmente e, não obtendo daí resultados, ele próprio o atirou às águas revoltas e
geladas do rio Molda, onde soçobrou.
A mando do Marquês e na hábil cruzada austríaca contra os jesuítas em Portugal,
instigava-se o povo a atentar naquele santo que se fizera mártir para preservar o segredo da
confissão e que se comparasse a força deste com a mísera devassa pública por parte dos
sigilistas. Corria ainda a história como verídica de que, ao abrir-se o túmulo de Joann, em
1719, se encontrara a língua do santo ainda intacta, num simbolismo claro da preservação do
segredo. E segredo era o da confissão, mas era também o maçônico, pensava o Mestre
acordando da letargia com o barulho do convívio na Loja.
Por um túmulo a favor e tudo o mais em contra, o Mestre ia engolir o escultor Machado
de Castro, um beato de reconhecida destreza. Ia ser uma luta, já se sabia, para o ater ao
projeto maçônico, mas esta guerra ia perdê-la para a Loja e para a sua imposição simbolística,
em especial, quanto à figura da Fénix renascida, a esculpir do lado Norte da estátua sob a
forma dúplice de um pelicano, também símbolo do grau de Príncipe Rosa-Cruz. No mais, e
também por ali, uns quantos esquadros e compassos discretos e uma série de serpes sob as
patas do eqüídeo.
Aprovada a estátua, não havia agora para o Marquês negócio tão grande que não fosse
menor que aquele.

24 - Judenplatz

Otto acabava de receber mais uma carta do grupo de Lisboa contendo uma denúncia à
Inquisição, datada de 2 de Março de 1775 e da autoria do bispo do Funchal. Nesta, o Marquês
de Pombal era acusado de ser pedreiro-livre, o termo então empregue para designar franco-
maçom.
Talvez Oskar achasse graça ao retardo da descoberta, pensou a caminho do reduto
hedonístico do pai, relendo a missiva delatória que lhe chegava na sua versão francesa e que
reclamava ainda de o Marquês ter ordenado a libertação imediata duma série de membros da
seita, enviados para Lisboa sob prisão.
A pestilência do charuto que se esvaía por baixo das portas revelava à distância a
localização de Oskar. Não sem antes reclamar contra aquele impestante hábito, Otto entregou a
carta de Lisboa ao pai, tentando interessá-lo pela mesma, mas obtendo como reação apenas
mais uma fumaça e um olhar por cima das lunetas ainda apontadas ao Quadro Mágico.
Cortando a nuvem de fumos, saiu com a sensação de ter falhado o desiderato e que
Oskar jamais daria atenção àquilo, obrigando-o assim a preparar uma resposta espúria que não
ferisse a dignidade dos gentis portugueses.
Lá dentro, o Illuminati e anti-religioso Oskar olhava para o relógio tentando adivinhar
quanto tempo faltaria para começar a devassa nazi que, nos fins de tarde, sempre vinha
aterrorizar o Judenplatz. Pelos seus cálculos, não tardariam os gritos de “Ein Reich, ein Volk, ein
Führer!”, pelo que havia que fechar portadas e janelas e darem-se como ausentes ou mesmo
como mortos. De cada vez que o fazia, Oskar relembrava a sua rota de fuga por Lisboa.
Como se isso não bastasse, tinha agora uma preocupação adicional e mais inquietante
que todas as que já o assoberbavam. A mãe Ruth, que era a vida daquela casa, não parecia
mais a mesma. Primeiro, ficara muito impressionada com o assassinato político de Cid. Depois,
a crescente tensão pró-nazi estava a destruir-lhe os nervos, ao ponto de se esconder nas
traseiras para não ouvir os desaforos provocatórios dos finais de tarde. Por último, nos seus
estudos genealógicos e a pedido de Otto, descobrira que o avô materno de D. José de Portugal,
o Imperador Leopoldo, fora o verdugo dos judeus austríacos no século XVIII. Este expulsara-os
por éditos de 14 de Fevereiro de 1670 e mandara arrasar todas as sinagogas, numa
perseguição ancestral. Desde então, Ruth resumira-se a lamúrias de Kiddush HaSchem
seguidos, como se tal afastasse o dilúculo do bairro.
Como a qualquer outro judeu em Viena, a constante ansiedade de Oskar traçava-lhe um
rumo de reflexões obsessivas, na procura de uma qualquer explicação para o inexplicável
fenômeno nazi.
Como a história é cíclica e sempre se repete, Oskar lembrou-se de uma carta do ilustre
e tardio maçom, Voltaire, que tanto se inspirara no terremoto de Lisboa para escrever o seu
Candide e que, a propósito daquele, falara de fogos e fogueiras e da sua ateadora, a
Inquisição.
O seu atormentado raciocínio levava-o a comparar os três cataclismos: Inquisição,
terremoto e nazismo. Remexendo o recôndito das estantes, não tardou a encontrar a carta.
Assinada por François Marie Arouet, verdadeiro nome de Voltaire, fora escrita logo em 24 de
Novembro de 1755 ao Senhor Tronchin, em Lyon, testemunhando com mestria o sentimento
europeu face ao recente terremoto e à Inquisição portuguesa, sempre objeto das angústias do
Iluminismo. Como se a tivesse lido ontem e o hoje distasse trinta anos, Oskar releu o que lhe
importava:
“É difícil entender como as leis do movimento operam em tais desastres naquele que é o
melhor possível dos mundos onde cem mil dos nossos vizinhos são esmagados num segundo...”
e, saltando umas linhas: “Regozijo-me que os reverendos padres da Inquisição tenham sido
esmagados pelo terremoto, tal como as outras pessoas. Isso devia ensinar os homens a não
perseguir outros homens pois, enquanto alguns queimam uns poucos, a Terra abre-se e
engole-os todos por igual”.
Como lhe parecia, a atualidade daquela carta era avassaladora. Um dia, talvez inspirado
pelas fogueiras da Inquisição, o seu atormentador faria as chamas engolir os sucessores de
Salomão, quer os do sangue, quer os do Templo.
Vítimas do Judenhass, o ódio racial aos judeus, estes tinham criado na Europa central
uma série de organizações preparadas para intervir em sua defesa, ante a catástrofe
anunciada. A Einsatz, ou Intervenção Judaica, era de todas a mais secreta e ativa, recrutando
os seus membros entre os jovens aguerridos e financiando-se junto dos velhos abastados, do
que havia, naquela casa, um de cada.
Ao longo de toda uma semana, Otto entretivera-se a organizar um minucioso álbum da
sua viagem a Lisboa. Eram fotos e descrições, bem como plantas e recortes de jornais.
Estranhando a dedicação, Oskar atribuía-a a um certo mal de coeur de que o filho
parecia vir afetado, talvez por culpa da misteriosa companhia que lhe fazia brilhar os olhos,
sempre que falava da viagem.
Naquele instante, o ambiente especulativo do escritório era interrompido pelo ar pouco
agradado de Ruth, anunciando dois cavalheiros que aguardavam à entrada. Um gelo de sangue
correu nas veias de Oskar, imaginando já nazis dentro da própria casa. Num reflexo de calma,
Otto foi atendê-los como se aquela presença não o surpreendesse. Pouco depois de uma
conversa que não era de todo em alemão, voltava ao escritório para levar o precioso álbum. E,
conforme chegaram, as duas figuras partiram.
Otto devia agora uma explicação aos pais. Havia algum tempo que se juntara a um
grupo de resistência que operava nas rotas de fuga da Europa. Como tal, aproveitara a ida a
Lisboa para providenciar o mais completo relatório sobre a cidade e os seus arredores, o qual
acabava de entregar a dois membros da Einsatz, concluía Otto, ante o ar apavorado da mãe e o
orgulho cerrado do pai.
Mas havia algo mais que queria comunicar, a sua decisão de ir viver para Londres, a fim
de trabalhar na BBC, aproveitando um convite que recebera para dirigir as emissões em yidish,
a língua hebraica que dominava. Perante o silêncio dos pais, Otto explicava que os ingleses
preparavam já o apoio à resistência na Alemanha, ante o avanço do nazismo que ameaçava a
Europa toda.
Comunicada a irreversível decisão, ficou assente o regresso dos pais a Zurique, onde
estariam em maior segurança, e o encerramento provisório da casa em Viena. Por nada Otto a
queria vender.

25 - O Príncipe Rosa-Cruz

Estava o Marquês de Pombal com oitenta portentosos anos, a ver desabar sobre si os
processos da bendita viradeira, quando recebeu da rainha a Louca o benefício de um súbito e
inesperado perdão.
Qual frade ante soberba esmola, desconfiou, embora soubesse das influências movidas
pelo seu valido, o carmelita descalço Frei Inácio de São Caetano, arcebispo in partibus infidelum
por título eclesiástico e pela posição que desfrutava na corte infiel. De uma lealdade à prova de
trabalhos, este inimigo figadal dos jesuítas tinha sido imposto em 1759, como confessor da
então Princesa da Beira e futura Maria enlouquecida. Coberto de poder e honrarias por Pombal,
seria mesmo o único que todos afrontava em sua defesa nos anos de desgraça do ministro. À
sua força não era estranho o cargo de Inquisidor-geral que o aguardava.
Algum tempo depois, chegava a Pombal um médico italiano da corte, o famoso Dr.
Guáglia, enviado para o tratar dos pruridos das pernas, braços e costas que o afligiam e
deixavam em chaga viva com a reação da coceira. Até então, pensou, ninguém morria de
comichão. Talvez enlouquecesse, e ele estava lá perto, mas “louco e vivante, quem dera a
Dante”, retorquia o Marquês a si próprio, lembrando-se da viagem do Rosa-Cruz Dante pelo
“Inferno” onde, no décimo fosso, se viu entre os condenados a penar de eterna comichão e que
se coçavam até à loucura.
O médico chegava no início de Maio e trazia-lhe a receita para a psoríase: água de flor
de sabugueiro, nitro depurado, raízes de labaça branca em jejum, almeirão e borragens; sal
cathartico inglês o que, não por ser cathartico, que já era mau, mas por ser inglês, o
atormentado se opôs ferozmente; banha de flor e flor de enxofre, linhaça galega e macela
quanto baste; cicuta em rama e caldos de víbora mas sem cabeça nem cauda alternadas com
os de rãs e cágados. Era esta a receita garantida do italiano cortesão e jurado Hipócrates.
Se mal estava, à morte ficou, de tal modo que expirou nem oito dias depois de tão
eminente chegada. Eram seis e meia da tarde de quarta-feira, 8 de Maio de 1782.
Anos depois, os seus restos mortais seriam depositados no ataúde do templo Rosa-Cruz
da Memória, na Ajuda em Lisboa. A referência à Lei de expulsão dos Jesuítas surgia, por
vontade própria, como seu único epitáfio tumular.
Vinte anos antes, à hora da mesma morte, Eugênio dos Santos lutava por um estertor
de vida. A seu lado, no pior dos maus momentos, o seu Irmão Mardel antevia a passagem do
amigo ao Oriente Eterno, desconhecendo que aquele se reconciliara com o Criador e ansiava
por se unir a Ele.
Segurando-lhe a mão como a um sopro de vida, o velho dos Santos apontava uma
estante do quarto. Olhando, Mardel reparou numa inusitada folha de papel, dobrada em quatro
e descaidamente entalada entre dois livros. Apenas um dos cantos a segurava, como se
Eugênio quisesse ter a certeza de que, algo lhe acontecendo, logo reparariam nela.
Cumprindo aquela, como se a última vontade fosse, Mardel pegou na folha e, ao
desdobrá-la, logo entendeu. Era o segredo dos segredos sobre a reconstrução de Lisboa, a
imagem sagrada encriptada na planta maçônica da Baixa de Lisboa.
Quando fora iniciado, Eugênio escrevera o seu testamento profano, morrendo desta vida
e nascendo para a maçonaria. O que Mardel agora ali encontrava era, sem dúvida, o seu
testamento maçônico morrendo dessa vida e renascendo para o sagrado.
Se em tudo fizera a vontade aos Irmãos, em tudo fizera a vontade ao Criador. A sua
genialidade permitiu-lhe sempre combinar os seus deveres maçônicos com a íntima consciência
moral. Fora sempre o monge-maçom, mas morreria de novo monge.
Momentos depois, Eugênio mudou-se. Colocando-lhe as mãos sobre o peito, Mardel
pegou no Testamento preparando-se para o queimar. Foi então que reparou num estranho
esquecimento de Eugênio: a imagem cristã de Lisboa mantinha os pés em esquadro...
A proporção divina.