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Escola de Educação

Curso de Pedagogia
Disciplina: Metodologia e Prática da Língua Portuguesa nos Anos Iniciais do Ensino
Fundamental
Profª. Mª. Louize Lidiane Lima de Moura

CONCEPÇÕES DE GRAMÁTICA E IMPLICAÇÕES PARA O ENSINO DE LÍNGUA


PORTUGUESA1

No cerne das discussões acerca do ensino de Língua Portuguesa, urge o debate


sobre o ensino de gramática, especificamente. Para alguns linguistas, o objetivo de
ensino de língua materna determinado, conscientemente ou não, pelo professor, é que
evidenciará se há espaço para tal conhecimento em sala de aula e, se existir, como ele
deve ser articulado. Caso o horizonte seja a ampliação da competência comunicativa
do aluno (tornar esse indivíduo hábil leitor e produtor de textos), por exemplo,
compreende-se que ele pode ser alcançado sem que se submeta o aluno à
aprendizagem das normas “do bem falar e do bem escrever”.
Em sendo assim, fica evidente que não se deve confundir o ensino de língua
como o ensino de gramática (e vice-versa), apesar de tal conflito justificar-se pelo fato
de que, historicamente, subjaz ao ensino de Língua Portuguesa o peso da tradição
filosófica clássica (nas figuras de Platão e Aristóteles) e a ideologia de que somente
consegue expressar-se quem segue rigorosamente as prescrições da gramática
normativa.
De tal modo, por muito tempo, a concepção de gramática como um manual de
regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem expressar-se
adequadamente, vem imperando nas salas de aula de Língua Portuguesa. Para tal
concepção, a gramática é tida como um conjunto de normas para o bem falar e o bem
escrever, estabelecido pelos especialistas; sabe gramática aquele que conhece e
domina tais normas; e será considerado gramatical aquilo que obedece às prescrições
de bom uso da língua. Compreende, desse modo, apenas uma variedade linguística
(a norma culta), legitimada pelos compêndios, os quais consideram erro tudo o que
estiver arrolado fora dos padrões por eles apresentados.

1 Resumo elaborado pela Profª. Mª. Louize Lidiane Lima de Moura (Escola de Educaçao/UnP), para fins
didáticos. Não é permitida a reprodução não autorizada.
O ensino prescritivo de Língua Portuguesa, articulado à essa primeira
concepção de gramática, é o mais conhecido e pretende que os alunos aprendam a
falar e a escrever corretamente. Implica a produção de atividades tradicionais, com
vistas à correção formal da linguagem, desvinculadas das aulas de leitura e de produção
textual. Metodologicamente, sua característica é a transmissão/dedução dos conteúdos
aos/dos alunos de forma isolada. Até pode vir a trabalhar a gramática partindo de textos,
entretanto, dos mesmos são retiradas e trabalhadas apenas frases e/ou palavras
isoladas, desvinculadas dos sentidos que delas emanam. Assim, os gêneros discursivos
são ignorados, desconsiderando o funcionamento e a interação verbal dos discursos
constituídos pelos sujeitos. Infelizmente, a realização de tarefas desta natureza pode vir
a subsidiar o menosprezo, o rebaixamento e a ridicularização de outras variedades
linguísticas existentes, ocasionando o preconceito linguístico.
É bem verdade que, nas últimas décadas, temos acompanhado alguns
movimentos de mudança nos discursos acadêmicos, porém, a prática escolar não os
tem acompanhado, tampouco dado conta destas transformações. Ou seja, o ensino de
Língua Portuguesa praticamente estagnou-se nesta primeira concepção, parecendo
nunca ser bastante a discussão sobre ele bem como sobre que concepção de gramática
deve ser compreendida para tornar o alunado usuário proficiente do idioma.
Algumas das mudanças supracitadas advém dos estudos linguísticos de
natureza estruturalista (Saussure) e transformacionalista (Chomsky), os quais
ancoram uma segunda concepção de gramática, a descritiva, que visa tão somente à
descrição da estrutura e funcionamento da língua, de sua forma e função. Sob essa
perspectiva, a gramática seria um sistema de noções mediante as quais se descrevem
os fatos de uma língua, permitindo associar a cada expressão dessa língua uma
descrição estrutural e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é
gramatical do que não é; por conseguinte, se definiria gramatical tudo o que atende às
regras de funcionamento da língua, de acordo com determinada variedade linguística;
enquanto saber gramática corresponderia a ser capaz de distinguir, nas expressões de
uma língua, as categorias, as funções e as relações que entram em sua construção,
descrevendo com elas sua estrutura interna e avaliando sua gramaticalidade.
Essa segunda concepção sugere um ensino descritivo, o qual deve mostrar
como a linguagem e a língua funcionam. Para tanto, preconizam-se atividades que
incentivem o aluno a pensar, a desenvolver a capacidade de análise sistemática dos
fatos e fenômenos que encontra na natureza e na sociedade. Assim, todo objeto de
investigação é descrito através de uma linguagem especializada, a descrição gramatical
caracteriza-se também por uma metalinguagem para tal feito. Termos como sujeito,
objeto, sintagma, morfema etc. servem para nomear e sistematizar os fatos linguísticos
investigados. Além disso, nos possibilita observar que temos descrições gramaticais da
Língua Portuguesa que se distinguem: descrição tradicional, descrição estruturalista,
descrição gerativista e assim por diante, cada uma utilizando nomenclaturas e
interpretações distintas quanto aos fatos da língua.
A partir da década de 1960, sobretudo, ganharam corpo novas correntes no
campo dos estudos linguísticos – Linguística textual, Análise do discurso, Análise da
conversação, Semântica argumentativa, Sociolinguística, Estudos do letramento –
reunidas sob a égide da Linguística da enunciação ou do discurso (Bakhtin et al.),
as quais tratam não apenas do sistema formal, como também a fazer uma linguística da
fala, que considera a variação linguística bem como a inserção e a relação da língua
com a situação comunicativa como um todo e com cada um de seus componentes
(quem diz/fala/escreve, para quem, onde, quando, como, para quê, por quê).
Acompanhando as essas novas teorias, consequentemente, surge uma terceira
concepção de gramática denominada internalizada, a qual considera a língua como um
conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade, de acordo com o exigido pela
situação de interação comunicativa em que o usuário da língua está engajado. Para esta
concepção, gramática é o conjunto de regras que o falante de fato aprendeu e dos
quais lança mão ao falar; saber gramática não depende, pois, em princípio de
escolarização ou de quaisquer processos de aprendizado sistemático, mas da ativação
e amadurecimento(construção) progressivo(a), na própria atividade linguística, de
hipóteses sobre o que seja a linguagem e de seus princípios e regras. Vale salientar
que não existem livros desta gramática, pois ela é o objeto da descrição (e de estudo,
inclusive, das concepções anteriores), daí porque alcunhada internalizada.
Nessa direção, a terceira concepção vislumbra o ensino produtivo, subsidiando
ao aluno o uso da língua(gem) de maneira mais eficiente, ampliando sua competência
comunicativa em cada uma das esferas sociais em que ele circula. Afinal, interagimos
pela linguagem em um bate papo com os amigos, em uma reunião de trabalho,
escrevendo ou lendo uma carta pessoal ou um e-mail, assistindo a um filme ou a um
capítulo de novela, lendo livros, jornais, revistas, placas de rua, outdoors, cartazes,
sinais de trânsito, através de gestos ou da leitura de imagens e de tantas outras
linguagens envolvidas nas práticas discursivas nas quais estamos enredados no nosso
cotidiano.
Vale retornar ao primeiro parágrafo, no qual é sinalizado que o ensino de
gramática pode ser efetivado sem, necessariamente, prescrever normas em sala de
aula. Fica claro, agora, que tal perspectiva de ensino restringe-se a um tipo de
gramática, a normativa, a qual não dá conta de um número significativo de práticas
sociais que o aluno deve dominar para efetivar a interação junto a seus interlocutores.
Evidencia-se, também, que o ensino de Língua Portuguesa não deve compreender a
eliminação da gramática, mas, sim, considerar um tipo de gramática que atenda ao
propósito de ampliar a competência comunicativa do aluno, fato que se concretiza ao
compreendermos gramática como internalizada.
Assumir esta concepção faz toda a diferença na prática docente, haja vista ela
contemplar os diversos elementos envolvidos nos usos efetivos da linguagem,
permitindo ao professor ressignificar os processos de ensino e aprendizagem da língua
e, assim, atender mais satisfatoriamente às demandas sociais de nosso tempo. Nessa
perspectiva, o ensino deve transitar numa reflexão explícita e sistemática acerca da
constituição e do funcionamento da linguagem nas dimensões gramatical, textual e
discursiva. Logo, temos que as gramáticas normativas e descritivas são partes
importante para o ensino de Língua Portuguesa, porém, não soberanas, tampouco
devem figurar como ponto de partida para a aprendizagem.
Em contrapartida, o trabalho pedagógico empreendido conforme a terceira
concepção gramatical compreende como largada os gêneros do discurso (elementos
através dos quais se efetiva a interação comunicativa) como instrumentos de ensino e
de aprendizagem. Tal proposta figura, inclusive, nos documentos oficiais que regem a
educação brasileira, a exemplo dos Parâmetros Curriculares Nacionais e das Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.
Ainda para esta concepção, a noção de erro linguístico inexiste, uma vez que o
que se considera é a inadequação da variedade linguística utilizada em uma
determinada situação de interação comunicativa por não atendimento às normas sociais
de uso da língua ou quanto ao uso de um determinado recurso linguístico para a
consecução de uma determinada intenção comunicativa que seria melhor alcançada se
fossem utilizados outros recursos.
É neste ponto que se reforça o trabalho com os gêneros discursivos. Na prática
pedagógica, ele constitui-se como possibilidade de ressignificação do ensino da língua,
cujo foco passa a ser as práticas sociais de leitura e de escrita e não mais
exclusivamente a prescrição gramatical, embora esta também deva ser trabalhada para
atender aos propósitos interlocutivos dos alunos. Em outras palavras, o trabalho com os
gêneros deve oportunizar a participação desses sujeitos na construção de sentidos dos
textos, considerando os propósitos dos usos que fazem da linguagem, sem
desconsiderar as suas características formais.
Em suma, observa-se que aprender a usar a linguagem implica aprender, na
escola, a vivenciar papéis sociais que não se circunscrevem a ela. Saber usar a
linguagem é saber agir discursivamente na, pela e sobre ela.
Referências:
GERALDI, João Wanderley. Concepções de linguagem e ensino de português. In:
______. O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997.
MARTELOTTA, Mário Eduardo. Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2012.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola?. São Paulo: Mercado
de Letras, 20005.
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de 1º e
2º graus. São Paulo: Cortez, 1997.