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ELEIÇÕES NO BRASIL

A alternativa
Jaime Nogueira Pinto Seguir
26/10/2018, 23:28  1.312  45 

Desta vez não é a ameaça da revolução e do comunismo, mas são os


efeitos perversos da globalização; é o descontrolo das migrações; é o
terrorismo; é a imposição da contracultura agressiva das minorias

As eleições brasileiras trouxeram um vento de guerra ideológica a Portugal.


Guerra amena, a nível da classe política – esmagadoramente pêtista ou sem
vontade de se dissociar do pensamento dominante, com uma maioria de
esquerda e uma minoria de neutros, indecisos e não comprometidos. Guerra
entre todo um tolerante exército e um tenebroso candidato fascista, totalmente
isolado mas armado até aos dentes.  Totalmente isolado porque, a crer nas
reportagens da televisão portuguesa, todos os entrevistados estão contra ele e
não há manifestação em que não se grite “ele não”. Armado até aos dentes
porque carrega todo o arsenal bélico que a palavra “fascista” implica.
Para o combater, só mesmo um luso abaixo-assinado, apelando à unidade anti-
fascista dos eleitores brasileiros. Foi o que destemidamente fizeram centena e
meia de personalidades portuguesas. Porque se bem que, sempre segundo a
comunicação social portuguesa, todos estejam contra Bolsonaro, parece que
sempre há cinquenta milhões de incautos eleitores brasileiros que votaram
nele, que inexplicavelmente votaram nele, cedendo a múltiplas e infames
manipulações e ignorando o perigo iminente do fascismo.

Porque se Bolsonaro é “fascista” e de “extrema-direita”, já Haddad não é


“comunista” nem da “extrema-esquerda”. É um académico moderado, que
passou incólume e honestíssimo por entre os pingos da chuva, enquanto os
seus companheiros do PT montavam os mecanismos de saque.

Quanto ao abaixo-assinado, não me vou alongar muito mais em comentários


agrestes (por ser amigo de alguns dos signatários), mas não posso deixar de
notar o quê de arrogância ou até de neo-colonialismo por detrás da iniciativa:
ter nomes representativos da ex-pátria-mãe a recomendar aos cidadãos da ex-
colónia e actual país irmão o voto em determinado partido não será muito
democrático. A atenuante é que o documento não deve produzir grande efeito.

Por boas e más razões, não me parece que Jair Bolsonaro seja fascista, a não
ser se considerarmos “fascista” sinónimo de “mau”: mau rapaz, má pessoa,
desumano, cruel, criatura que podia ter sido porta-bandeira de Átila, familiar
da Inquisição, guarda de Auschwitz, sicário de Anastácio Somoza. É com este
sofisticado rigor que parte dos media, dos intelectuais e das personalidades
preocupadas com o que vai pelo mundo, classifica de “perigo para a
democracia” tudo o que saia da vulgata, sem procurar identificar a raiz dos
problemas.

É tentar esvaziar o mar com um balde, porque é de um incontornável


fenómeno de rejeição popular que se trata.

Politicamente, admite-se um leque que vai de direitas e centros liberais e


internacionalistas até às extremas-esquerdas das “causas fracturantes”. Desde
que não saiam destas baias, que monopolizam a respeitabilidade democrática,
tudo se admite – dos bilionários da informática aos saudosos do trotskismo
ressuscitado, dos eternos devotos do rigorosamente ao centro, aos originais
que vêem nos beijos dos netos aos avós um caminho para personalidades
autoritárias.

Na realidade, o que acontece desde o Brexit britânico de Junho de 2016 é um


movimento de contestação ao sistema instalado. Um sistema que reduziu a
política a uma criada de servir da economia; que desindustrializou a Europa e
os Estados Unidos; que baniu os valores nacionais e familiares, tidos como
símbolos de guerra e de opressão. Como esse mesmo sistema foi incapaz de
integrar a agenda político-social crítica de globalizações e migrações
descontroladas, de violência consentida e de micro-causas peregrinas, o
mercado político extravasou para os tais líderes populares (ou populistas),
vindos não se sabe bem de onde, mas fora dos cânones da respeitabilidade
burguesa e partidária. E capazes, até por isso, de encarnar a cólera dos
cidadãos desesperados com a corrupção, a hipocrisia e a falta de alternativa do
sistema.

As grandes convulsões e revoluções resultam sempre de uma incapacidade de


os regimes reconhecerem os seus erros e vazios e de se reformarem e
regenerarem em conformidade. As grandes revoluções – e contra-revoluções –
nasceram precisamente desse desvio da representação política em relação à
realidade social, do facto de os modelos políticos deixarem de responder ou
corresponder aos anseios sociais.

Foi assim com a Revolução Francesa que, como escreveu um historiador,


“quando aconteceu já ninguém em França acreditava que Luís XVI fosse rei de
França pela graça de Deus”, a começar pelo próprio Luís XVI…

A Rússia czarista também não resistiu ao impacto da guerra que acelerou um


processo que vinha de trás. Assim, a autocracia dos Romanov caiu do modo
que caiu e deu lugar ao que deu lançando, com o bolchevismo, uma ameaça
sobre toda a Europa.

Foi esse real e iminente perigo comunista, a par da Grande Guerra e da


destruição do “mundo de ontem” (de que falava Stephan Zweig), que foi
decisivo para o fim das sociedades constitucionais liberais no Sul e Centro da
Europa e para desencadear regimes anti-liberais, dos fascismos aos
nacionalismos autoritários e às ditaduras militares.

Este contexto histórico dos fascismos não costuma ser referido. Os fascistas e
os fascismos aparecem do nada, como produto da conspiração de elites
tenebrosas e aventureiros e condottieri sem escrúpulos. Por ignorância ou por
malícia, oculta-se sempre a origem das coisas. Em Portugal, por exemplo, fala-
se da Ditadura Militar e de Salazar, omitindo a violência da Primeira República
e a ditadura informal, mas real, do Partido Democrático.

Voltemos ao Brasil e à eleição presidencial: o fenómeno Bolsonaro não é só


mas é também a rejeição de um mecanismo de poder e corrupção montado
pelo PT em mais de uma década de governo, sob uma retórica generosa e
igualitária. É também um “basta” das classes médias e populares, ameaçadas
na sua segurança e exploradas pelo Partido dos explorados que se
transformam em exploradores.

Há uma mudança de paradigma. Desta vez não é a ameaça da revolução e da


ditadura comunista, mas são os efeitos perversos da globalização; é o
descontrolo das migrações culturalmente diversas; é o terrorismo; é a
imposição da contracultura agressiva das minorias. Contra estas coisas, as
nações, as sociedades, as famílias, revoltam-se e defendem-se. Com soluções às
vezes de excepção e que podem pôr em questão os fundamentos ideológicos e
institucionais vigentes. Mas é precisamente o fracasso do que está, a
incapacidade do modelo político de responder ao presente, que leva o povo a
buscar alternativas onde as há.

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