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Juliana Cláudia Teixeira Gomes Borges Amorim

Um suspiro de liberdade:

A mulher em FILHO DE PINGUÇO, de Alciene Ribeiro

UFMS

Corumbá-MS

2016

Juliana Cláudia Teixeira Gomes Borges Amorim

Um suspiro de liberdade:

A mulher em FILHO DE PINGUÇO, de Alciene Ribeiro

Trabalho de conclusão apresentado ao Curso de Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Língua Inglesa, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus do Pantanal, como requisito parcial de obtenção do grau de Licenciatura em Letras.

Orientador: Prof. Dr. Rauer Ribeiro Rodrigues

UFMS

Corumbá-MS

2016

AMORIM, Juliana Cláudia Teixeira Gomes Borges. Um suspiro de liberdade:

a mulher em FILHO DE PINGUÇO, de Alciene Ribeiro. Corumbá-MS, 2016. 90 fls. Monografia (TCC, Curso de Letras). UFMS, Campus do Pantanal.

PÁGINA DE APROVAÇÃO

Dr. Rauer Ribeiro Rodrigues CPAN/UFMS (Orientador)

Dr. Julio Augusto Xavier Galharte CPAN/UFMS

Doutoranda Pauliane Amaral CPTL/UFMS

Dra. Eunice Prudenciano de Souza CPTL/UFMS Suplente

Corumbá, MS, em 20 de abril de 2016.

Para Helena, luz da minha vida. Para Cláudio, minha melhor escolha. Que souberam perdoar a ausência. Que falam ao meu coração. E que representam as letras mais importantes da minha escrita

Agradecimentos

A minha mãe Marlene, meu exemplo maior de alma e força feminina, pelo amor

infinito, pelas mãos sempre ao alcance, por me fazer amada, forte, capaz e, sobretudo, por me ensinar a voar, consciente de minha essência e valor.

Ao meu pai José Antunes, que em uma casa tão “cor-de-rosa”, foi doce companhia das tardes na pracinha, olhar protetor nos bailes de carnaval e pilar importante na feitura de tão singulares perfis femininos.

As minhas irmãs Janaína e Josie, pela nossa tríplice aliança, amor que cresce a cada dia e nos fortalece como mulheres, em cada particularidade do nosso ser.

Ao Cláudio, meu amor, leitor dos meus textos, de meus olhos, de minh’alma.

A minha filha Helena, pela sua presença, pelos sorrisos e abraços livres de

qualquer cobrança.

À Izabel (nossa Bebé) e à Maria, por serem presentes onde quer que estejamos.

Aos

admiração.

amigos,

antigos,

novos

e

renovados,

pelas

palavras

de

incentivo

e

Aos meus amados professores do curso de Letras do Campus do Pantanal, rios de águas serenas que me “deixaram” ir uma vez e me receberam de volta quando foi preciso.

As minhas sempre lembradas companheiras: Maria Vitória, Ione, Cláudia, Dórely, Adriana, Rosemary e toda a turma “letrada” nascida em 2006.

Às professoras da Universidade Federal Fluminense, Dra. Flávia Vieira da Silva do Amparo e Dra. Lúcia Helena, que me receberam e me deram as mãos quando da minha passagem pela Baía da Guanabara.

À sempre querida professora da infância, Ma. Luciene Lemos de Campos, por

me mostrar em tenra idade a leitura de pés descalços, só pelo prazer.

Aos amigos do Clube da Leitura de Corumbá e Ladário, por dividirem livros, ideias, sonhos e conversas pelos paralelepípedos.

Ao meu estimado orientador, Prof. Dr. Rauer Ribeiro Rodrigues, que para além

de versos e rimas, cânones e textos consagrados, me conduziu à descoberta de

novas leituras e deixou-me ao alcance das riquezas das Minas Gerais. Nunca

sem elegância e sem respeito. Aceitou-me alegre sob sua orientação, mesmo “fingindo” não saber que sempre o fizera, desde a primeira aula.

À brilhante Alciene Maria Ribeiro Leite de Oliveira, escritora Alciene Ribeiro,

pela sua poderosa voz feminina e escrita encantadora.

E para todas as vozes que me contaram histórias e permitiram que eu vivesse

livre minha imaginação.

Para Alciene, bonita, erótica, e tão

boa escritora como Santa Teresa

d´Ávila, com afagos do fã de vocês

duas e seu leitor.

Deonísio da Silva

setembro/1988

(Na dedicatória manuscrita do livro Orelhas de aluguel, enviado à Alciene, e que integra o acervo da escritora no PPG-Letras CPTL/UFMS).

SUMÁRIO

No início, há um choro

12

1.

A mulher no Brasil

18

 

1.1

Até o século XIX

20

1.2 No século XX

28

2. A novela de Alciene Ribeiro

31

2.1 Novela infantojuvenil?

34

2.2 Alcoolismo, miséria e violência: temas fortes

37

2.3 Construção da narrativa

41

3. A mulher em Filho de pinguço

47

3.1 A violência simbólica

51

 

3.2 As personagens femininas

54

 

3.2.1

A “mãe”

55

3.2.2

Tias Marlene e Marina

61

3.2.3

Prima Sílvia

64

3.2.4

Tia Luiza (a professora)

65

 

3.3 Ouço vozes?

67

3.4 Para além da desilusão

70

No final, há um suspiro

72

Referências

 

78

Anexo

 

83

Apêndice (Entrevista com Alciene Ribeiro)

86

AMORIM, Juliana Cláudia Teixeira Gomes Borges. Um suspiro de liberdade:

A representação da mulher na novela FILHO DE PINGUÇO, de Alciene Ribeiro. Corumbá-MS, 2016. 90 fls. Monografia (TCC, Curso de Letras). UFMS, Campus do Pantanal.

RESUMO

Este trabalho, embasado em pesquisa bibliográfica, versa sobre a temática da mulher na novela Filho de pinguço, de Alciene Ribeiro. Revisitamos a trajetória de algumas mulheres da história feminina no Brasil e descrevemos a obra de Alciene nas nuances em que a mulher é o foco. Analisamos a violência simbólica conforme conceito proposto por Pierre Bourdieu sofrida pelas personagens femininas, bem como descrevemos a forma em que se dá tal violência. Percebemos que, embora, na novela, se tratem de personagens secundárias, as mulheres retratadas são símbolos da denúncia de um mundo ainda marcado pelo machismo e dominação masculina, patriarcal, que trata a mulher como objeto, a desconsidera como ser pensante e sem direitos reais, ainda que eventualmente os tenha nos códigos jurídicos.

PALAVRAS-CHAVE:

Violência simbólica.

Feminismo.

Literatura

Brasileira.

Pierre

Bourdieu.

AMORIM, Juliana Cláudia Teixeira Gomes Borges. Um suspiro de liberdade: a representação da mulher na novela FILHO DE PINGUÇO, de Alciene Ribeiro. Corumbá-MS, 2016. 90 fls. Monografia (TCC, Curso de Letras). UFMS, Campus do Pantanal.

ABSTRACT

The paper is based on bibliographical research. It discusses the female theme in the novella Filho de pinguço, by Alciene Ribeiro. We revisit the biography of some women in Brazilian history. We describe Alciene’s text in the nuances in which the woman is the focus. We analyze the symbolical violence according to the concept proposed by Pierre Bourdieu endured by female characters in the text. We also describe the way the violence occurs. We notice that, in spite of the fact that the women portrayed in the novella are secondary characters, they symbolize the disclosure of a world marked by sexism and male domination, patriarchal, that treats woman as an object, not considering her a thinking being without real rights, even that occasionally there are in legal code.

KEYWORDS:

Brazilian

literature.

Feminism.

Pierre

Bourdieu.

Symbolical

violence.

AMORIM, Juliana Cláudia Teixeira Gomes Borges. Um suspiro de liberdade: a representação da mulher na novela FILHO DE PINGUÇO, de Alciene Ribeiro. Corumbá-MS, 2016. 90 fls. Monografia (TCC, Curso de Letras). UFMS, Campus do Pantanal.

RESUMEN

Este trabajo, esta basado en la pesquisa bibliografica, es sobre el tema de la mujer en la novela Filho de Pinguço ,de Alciene Ribeiro. La relectura de la carrera de algunas mujeres de la historia feminina en Brasil y describió el trabajo de Alciene los matices que la mujer es el enfoque. Hemos analizado la violencia simbólica - como concepto propuesto por Pierre Bourdieu - sufrida por los personajes femeninos, así como describir la forma en que este tipo de violencia tiene lugar. Nos damos cuenta de que, si bien, en la novela, se ocupa de personajes secundarios, retratados mujeres son símbolos de la queja de un mundo todavía marcada por el machismo y la dominación masculina, patriarcal, es decir a la mujer como un objeto, no tener en cuenta como un pensamiento y no hay derechos reales, aunque posiblemente tenga los códigos legales.

PALABRAS CLAVE: Feminismo. Literatura Brasileña. Pierre Bourdieu. La violencia simbólica.

No início, há um choro

13

Não poderia ter outra escolha que não a Literatura na conclusão da minha formação em Letras. Acredito que a literatura seja o melhor meio para acesso às riquezas da linguagem. Nem só pelos versos e rimas, mas pelas personagens incríveis que conhecemos e que jamais sairão da memória, pelas histórias e, sobretudo, pela liberdade de pensamento, que permite sonhos e imaginação. Que o mundo acabe, mas que fiquem os livros! E que a humanidade, como leciona Antônio Cândido em seu texto O direito à literatura, possa fruir a Literatura em toda a sua grandeza, pois “[ ] Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (CANDIDO, 2011, p.7). Esta é uma pesquisa bibliográfica. Para Gil (2002), entre as fontes bibliográficas estão os livros de leitura corrente, obras de referência, teses e

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dissertações, periódicos científicos, anais de encontros científicos e periódicos de indexação e de resumo. Parte da obra de Alciene Ribeiro, escritora mineira nascida em Ituiutaba no ano de 1939, me foi apresentada no final de 2015 pelo seu conterrâneo professor Rauer Ribeiro Rodrigues. Suas histórias e personagens me inundaram de sensibilidade e me arrastaram a um mar de pequenos tesouros a serem descobertos. Filho de pinguço, novela de 1983, foi como primeira ostra e se tornou minha escolha. Da primeira vez, li-a toda em um afã de fim de campeonato. Depois, a cada releitura, vieram outras descobertas, estéticas, dramáticas, narrativas. Classificada como literatura infanto-juvenil, conforme aponta a Editora Lê na edição de 1989, fazendo parte da coleção Transalivre, a novela, que aborda uma cotidiana tragédia familiar, tem maturidade de enredo de gente grande e merece estudo, como o que propomos nesse trabalho, e ainda outros, que certamente virão com o tempo. Por meio de pesquisa bibliográfica, versaremos sobre a temática da mulher na novela de Alciene, com o recorte da construção das personagens. O tema da condição feminina é uma constante na obra da escritora. Em seu primeiro livro, Eu choro do palhaço (1978), mais especificamente no conto Vinte anos de Amélia, a escritora levanta a ponta do véu da consciência feminina quando a personagem “reconcilia-se com a vida, quase sem ver que andavam brigadas”, percebendo o quanto havia se anulado como pessoa para dar vida a um casamento submisso. O choro marcante em Filho de Pinguço é o das mulheres. Na obra elas são personagens secundárias, envoltas ― a nosso ver ― em situação de violência

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simbólica, conforme proposição teórica elaborada por Pierre Bourdieu (2002) 1 , da qual nem se percebem vítimas. Acreditamos que tal tema desperte reflexões acerca da segregação feminina e também sobre o contexto violento em que se encontravam as mulheres do passado e no qual muitas outras ainda se encontram no presente. Nosso objetivo é o de analisar a violência simbólica sofrida pelas personagens femininas da obra, bem como descrevê-las e conhecer como se dá a opressão sofrida pelo universo feminino no âmbito familiar encenado pela novela. Partimos do pressuposto ― e pretendemos, com este trabalho, comprovar tal questão ― que as personagens femininas da novela de Alciene internalizam a sociedade repressora que as envolve e sequer percebem a violência simbólica a que estão submetidas. O tema da condição feminina é uma constante da obra de Alciene Ribeiro, presente ― para mencionar apenas alguns exemplos ― em diversos contos do livro Eu choro do palhaço, já citado anteriormente (1978, Prêmio Galeão Coutinho, da UBE, como melhor livro de ficção do ano), no romance Nos beirais da memória (1989, Prêmio Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte de 1988), e em contos ainda inéditos em livro, publicados em antologias, como “Alforria para as hortênsias” (revista Ficções, n. 2, ed. Mercado Aberto, 1987) e “Ave Maria das Graças Santos” (Histórias Mineiras, ed. Ática,

1984).

capítulos,

conclusão e referências. Eis nosso objetivo central:

Nosso

trabalho

é

composto

de

resumo,

introdução,

três

Analisar a violência simbólica sofrida pelas personagens femininas, de forma a identificar como sofrem e por que sofrem.

1 Utilizamos, de Bourdieu (2002), o livro A dominação masculina, e não o clássico O poder simbólico (trad. Fernando Tomaz, 14. ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2006), com o qual esperamos trabalhar ― e ainda estudando a obra de Alciene ― em outra oportunidade.

16

Para tanto, verificamos se Filho de pinguço está ancorado em referente

sociológico e histórico da situação da mulher brasileira de meados do século XX

e apresentamos informações biográficas e bibliográficas sobre Alciene Ribeiro. No primeiro capítulo, intitulado “A mulher no Brasil”, abordamos a história das mulheres brasileiras do século XVI ao século XX de forma concisa. Tivemos como base textual o livro História das mulheres no Brasil, organizado pela historiadora Mary Del Priore (2015), mas também lançamos mão de artigos que tratam da trajetória feminina, incluindo a visão de vários autores sobre os costumes e comportamentos das mulheres brasileiras, ou das que viveram no

território a que hoje chamamos Brasil, ao longo dos séculos. Para nós, os textos pesquisados trouxeram, para além da descrição de índias, brancas, negras, ricas e pobres senhoras, a teoria fundante da segregação feminina, desde o mito bíblico de Eva, sua formação miscigenada e sua história escrita quase que em absoluto pelas mãos masculinas. A novela de Alciene Ribeiro” é o título do segundo capítulo e encerra breve biografia da autora mineira, para a qual nos valemos de material existente

e para a qual realizamos pequena entrevista com a autora (cujo teor completo

está em Apêndice), bem como exame sucinto dos elementos da obra estudada, por meio do modelo de estudo proposto por Massaud Moisés (2006) em A criação literária: prosa 1, observando enredo, espaço, tempo, narrador e descrição das personagens. O terceiro capítulo recebeu o nome de “A mulher em Filho de pinguço” e compreende a descrição e análise das personagens femininas da novela. Além do aporte teórico do conceito de violência simbólica, de Pierre Bourdieu (2002), nos valemos das concepções de Michel Foucault (1979) a respeito das relações de poder. Com nosso estudo percebemos que a violência está atrelada à história das mulheres brasileiras sob as mais diversas nuances: física, psicológica, emocional, espiritual ou simbólica. São capítulos e capítulos nos quais

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aparecem sem voz, almas e corpos dilacerados, já que são descritas pela voz masculina, despidas e sem nomes. Adentramos cavernas e alcovas escuras onde permanecem na sombra e à sombra dos seus homens, segregadas e esquecidas. Para nós, foi como um desfile de Evas Tupinambás 2 , de senhoras dos salões, de sinhazinhas, negras, amas, donas de casa com “donos”, mulheres dos anos dourados que viveram sem brilho e as de agora, em luta diuturna por conquistarem empoderamento diante da sociedade que as trucida. Nossa proposição é de que as personagens femininas de Alciene, embora em Filho de pinguço se tratem de personagens secundárias, são símbolos de denúncia de um mundo ainda marcado pelo machismo e dominação masculina, patriarcal, que trata a mulher como objeto, a desconsidera como ser pensante e sem direitos reais, ainda que eventualmente os tenha nos códigos jurídicos.

2 Eva Tupinambá é termo criado por Ronald Raminelli e que dá nome ao capítulo escrito por ele na obra História das Mulheres no Brasil (2015), organizada por Mary Del Priore.

1. A mulher no Brasil

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Neste capítulo, apresentamos de modo sintético, a partir dos estudos de Mary Del Priore (1990, 2011, 2015), Ronald Raminelli (2015), Maria Ângela D’Incao (2015), Maria Quartim de Moraes (1979) e Maria de Fátima Ribeiro Teles (2010), a situação da mulher no território brasileiro, do período pré- cabraliano ao século XX, como modo de situar o contexto histórico, em seus desdobramentos sociais e culturais, a partir do qual a obra de Alciene Ribeiro se confronta com o referente da segunda metade do século XX. Dividimos a apresentação, que é sumária, em dois tópicos: o primeiro, até o século XIX e o segundo, sobre o século XX.

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1.1 Até o século XIX

Eva foi a primeira mulher, diz a Bíblia, mas muitas vieram depois. Descrita como a responsável pelo “pecado dos homens” já em seu primeiro capítulo da história, não é de se esperar que suposta obra divina, oriunda das costelas de Adão, tenha merecido equidade no que diz respeito a sua descrição, sobretudo quando comparada ao sexo masculino. Mas, e as brasileiras? De quem herdaram as costelas? Sabemos delas? De onde vieram? Como se comportavam? Como foram tratadas? Índias, brancas, negras, mestiças, cafuzas, mulatas, miscigenadas,

brancas misturadas, sinhazinhas, senhoras, amas

objetos, chegaram ao voto, “sufragistas”, do quintal para as ruas, do alpendre

para a universidade, mas ainda há muito para se contar. Rainha do próprio tanque ou, como Pagu 3 , indignada no palanque 4 ? Quem são as senhoras do Brasil?

Segundo Mary Del Priore (2015), na apresentação do livro História das mulheres no Brasil, a história das mulheres não é apenas delas, mas também da família, da criança, do trabalho, da mídia e da literatura. É também a história do corpo, da sexualidade, da violência que sofreram e praticaram (às vezes umas contra as outras), da sua loucura, dos seus amores e dos seus sentimentos (cf. PRIORE et al., 2005). As mulheres do Brasil nasceramdas ocas, das alcovas chiques, das senzalas e também das casas grandes. Escravas para o amor, sexo, ou ambos, já foram objetos servis, serventes, dondocas e madames. Foram vistas pela beleza ou pela ausência desta, e sofreram toda sorte de violência e injustiça.

Muitas vezes vistas como

3 Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo Pagu (São João da Boa Vista, SP, 1910 Santos, SP, 1962), foi escritora, poeta, diretora de teatro, jornalista e militante política. Comunista, consta ter sido a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.

4 A provocação aqui é criar uma dicotomia sobre “ser mulher”: uma dona de casa conformada ou uma mulher que luta pelos seus direitos, como fez Pagu. Ver, por exemplo, a música Pagu, composição de Rita Lee e Zelia Duncan (2000). Letra e canção anexas.

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Costuraram, bordaram e teceram suas histórias, mesmo que às vezes como coadjuvantes. Saíram das casas, foram às ruas e ainda caminham, sem talvez alcançar o lugar que verdadeiramente almejam: um lugar no qual se sintam respeitadas e no qual tenham direitos iguais aos homens. Como tudo começou? De quais costelas saíram as brasileiras? Há um Brasil antes do descobrimento, e é lá que encontramos nossa primeira mulher, a Eva Tupinambá, de Raminelli (2015). Segundo o autor, o cotidiano feminino entre os tupinambás, descrito por meio dos relatos de viajantes que observaram a cultura indígena em documentação dos séculos XVI e XVII, influenciados pela tradição religiosa ocidental, acabaram por fazê-lo sob padrões e valores muito distantes da realidade americana (cf. RAMINELLI, 2015). Para Raminelli (2015), alguns relatos sobre as índias são bastante dicotômicos, já que ora são docilmente descritas, ora surgem embrutecidas. Enquanto uns destacavam a atenção delas para com seus filhos, os mantendo próximos e carregados nas costas ou encaixados nos quadris, outros as descrevem como feras brutas, como seres destituídos de sentimentos. Segundo o autor, e baseado no relato dos viajantes, no que se refere ao casamento e no caso de enfado do marido, ele podia presentear outro homem com sua mulher; já os chefes podiam viver com catorze mulheres, sem que isso causasse estranhamento, sendo as esposas muito bem tratadas pelos indígenas, exceto quando esses bebiam cauim 5 . O autor acrescenta que, na era colonial, as mulheres podiam sofrer todo tipo de violência em nome da manutenção da honra do seu homem:

O adultério feminino causava grande horror. O homem enganado podia repudiar a mulher faltosa, expulsá-la, ou ainda, em casos extremos, matá-la, pautando-se na lei natural. Quando as mulheres engravidavam em uma relação extraconjugal, a criança era enterrada viva e a adúltera, trucidada ou abandonada nas mãos dos rapazes. Em compensação, o marido não se vingava do homem que havia mantido relações sexuais

5 Bebida alcoólica, à base de milho ou mandioca, tradicional dos povos indígenas do Brasil.

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com sua esposa, para não ganhar a inimizade de todos os parentes do outro, o que causaria um rompimento e, possivelmente, daria origem a uma guerra perpétua (RAMINELLI, 2015, p. 20).

Yves d’Evreux, citado por Raminelli (2015) 6 , descreveu em detalhes a evolução das classes de idade entre os ameríndios. Sobre as índias, referia seis classes diferentes: primeira classe de idade, comum aos dois sexos, já que ao nascer pouco se diferenciavam, então chamados de peitam; segunda classe de idade, que estendia-se até o sétimo ano depois do nascimento, quando então começavam as distinções entre os sexos, sobretudo em relação aos comportamentos e deveres de cada um; terceira classe de idade, corresponde às moças com idade entre 7 e 15 anos, quando essas recebiam o nome de kugnantin, perdiam a pureza em razão das fantasias surgidas com a idade, aprendiam todos os deveres da mulher, como fiar algodão, tecer redes, cuidar da roças e preparar a alimentação diária, quando, enfim, guardavam silêncio nas reuniões e aprendiam a seguir os desígnios do mundo masculino; quarta classe de idade, jovens de 15 a 25 anos, que já cuidavam da casa, aliviavam o trabalho das mães, e logo receberiam um convite de casamento caso seus pais não a oferecessem a um francês em troca de alimentos. O autor destaca ainda como a grávida era tratada:

No período da gravidez, as índias eram chamadas de puruabore, que significa “mulher prenhe”. Ao contrário das europeias, as grávidas ameríndias não deixavam de trabalhar até a hora do parto, nem procuravam uma cama nessa hora, apenas se sentavam e comunicavam às vizinhas que não tardariam a dar à

Depois do nascimento, a mulher continuava a exercer

luz. [

normalmente suas tarefas domésticas, enquanto o homem era cumprimentado pela aldeia. Ele ficava de cama e era tratado

como se estivesse gravemente doente (RAMINELLI, 2015, p.

22).

]

6 Yves d’Évreux, citado por Raminelli (2015), foi um religioso e entomólogo francês. Participou da expedição enviada em 1612 ao Brasil (Maranhão) pelo governo de seu país. Raminelli não explicita a fonte de que se valeu. Ao resumir as informações de d’Évreux mencionadas por Raminelli, destaquei em negrito as classes de idade, enfatizando a construção do inconsciente do feminino submisso que gera a violência simbólica.

23

Segundo o autor, a quinta classe de idade compreendia as mulheres com idade entre 25 e 40 anos, período em que atingiam o seu maior vigor; e, por fim, a sexta classe de idade, que dizia respeito às mulheres com mais de 40 anos. As mais velhas eram preteridas e, quando morriam, não causavam comoção. Raminelli (2015) destaca ainda que uma teoria de degeneração cobre como um todo a descrição das comunidades ameríndias , entretanto, recai mais sobre o grupo feminino e, sobretudo, nas velhas, o que é explicado pela misoginia da tradição cristã que contamina a cultura indígena e amplia o procedimento anterior de exclusão do feminino. No final do século XVI, vários teólogos reafirmavam que o sexo feminino era mais frágil em face das tentações, por estar repleto de paixões vorazes e veementes 7 ·. Percebemos que mesmo com o distanciamento entre o mito bíblico de Eva e a mulher índia do século XVI, recai sobre ambas a culpa pelo pecado, como se elas e somente elas fossem as responsáveis pelas tentações do corpo e

7 Jean de Léry em Viagem à terra do Brasil referiu a nudez como sendo algo mais natural às

] Mas o que mais nos maravilhava nessas brasileiras era o

fato de que, não obstante não pintarem o corpo, braços, coxas e pernas como os homens, nem se cobrirem de penas, nunca pudemos conseguir que se vestissem, embora muitas vezes lhes déssemos vestidos de chita e camisas. Os homens, como já dissemos, ainda se vestiam por vezes, mas elas não queriam nada sobre o corpo e creio que não mudaram de ideia” (p. 99). O teólogo ainda destaca a dissimulação feminina: “Imediatamente depois de morto o

prisioneiro, a mulher (já disse que a concedem a alguns) coloca-se junto do cadáver e levanta curto pranto; digo propositadamente curto pranto porque essa mulher, tal qual o crocodilo que mata o homem e chora junto dele antes de comê-lo, lamenta-se e derrama fingidas lágrimas sobre o marido morto, mas sempre na esperança de comer-lhe um pedaço” (p. 157). Além do dissimulatio, as índias têm sua nudez e concupiscência, eventualmente voraz, veemente, destacada tanto entre os viajantes quanto na obra de alguns românticos, como Pero Vaz de Caminha (1500 A Carta) “Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir” (p. 13); Pero de Magalhães Gândavo em História da Província de Santa Cruz de

E a primeira cousa que logo lhe apresentam é uma moça, a mais fermosa e

honrada que ha na aldêa, a qual lhe dam por mulher: e daí por diante ela tem cargo de lhe dar

(1576) “[

mulheres do que aos homens: “[

].

de comer e de o guardar, e assim não vai nunca para parte que o não acompanhe” (p.33) ; e ainda Bernardo Guimarães em Jupira (de 1872) “Nas Selvas, Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das Campinas, mas esquiva e soberba como a ema, a rainha dos chapadões. Suas graças fascinaram as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a e adorando-a como um manitó caído do céu; mas a nenhum deles foi dado colher aquela peregrina flor das selvas”.

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desvios da alma; a partir do momento que lhes surgissem as fantasias com a idade, já então seriam “domesticadas”, passando a servir apenas para as tarefas de casa e para guardar silêncio: e assim se configura, da Bíblia ao sertão ameríndio, a Eva Tupinambá. Conforme a historiadora Mary Del Priore, na tese intitulada Ao sul do corpo (1990), múltiplos fatores durante o período colonial conferiram à mulher uma situação específica na sociedade que então se formava na Terra de Santa Cruz. O rico período de entrecruzamento de etnias diferentes, os diálogos entre visões diferentes de mundo, costumes, hábitos e crenças marcados pela alteridade, fecundaram a condição feminina. Para a historiadora, as brasileiras herdaram da mulher indígena o espólio de tradições que essa detinha na estrutura tribal; herdaram, da mulher branca, os modos de viver e morrer importados com a emigração de Portugal; e herdaram das sociedades africanas, do tipo sudanês e banto, comportamentos e mentalidades características do espaço que a mulher ocupava em seu interior. A autora destaca:

O processo de adestramento pelo qual passaram as mulheres coloniais foi acionado através de dois musculosos instrumentos de ação. O primeiro, um discurso sobre padrões ideais de comportamento, importado da Metrópole, teve nos moralistas, pregadores e confessores os seus mais eloquentes porta-vozes. Elementos para este discurso normatizador já se encontravam impregnados na mentalidade popular portuguesa e mesmo

cabendo à Igreja Metropolitana adaptar valores

caros e conhecidos das populações femininas, para um discurso com conteúdo e objetivo específicos. Esse discurso foi pulverizado sobre toda a atividade religiosa exercida na Colônia, dando especial sabor normativo aos sermões dominicais, às palavras ditas pelo padre no confessionário, às regras das confrarias e irmandades, aos “causos” moralizantes, aos contos populares, aos critérios com que se julgavam os infratores das normas, através da “murmuração” e da maledicência. A mentalidade colonial foi sendo assim lentamente penetrada e impregnada por este discurso (PRIORE, 1990, p. 21-22).

europeia ―, [

]

25

Outro instrumento de dominação sobre a mulher, apontando por Priore

(1990), foi o discurso normativo médico a respeito do comportamento feminino, que dava caução ao religioso, na medida em que asseverava cientificamente que

a função natural da mulher era a procriação. Com o tempo, a relação de poder,

já implícita no escravismo, reproduzia-se no nível das relações mais íntimas entre marido e mulher, condenando essa a ser uma escrava doméstica, cuja existência se justificava por cuidar da casa, cozinhar, lavar a roupa e servir ao chefe de família com o seu trabalho e seu sexo. Segundo Michel Foucault, em Microfísica do Poder, durante muito

tempo se tentou fixar as mulheres à sua sexualidade, dizendo-se a elas “Vocês são apenas o seu sexo” (FOUCAULT, 1979, p. 234, grifo no original). E o feminino, conforme acrescentavam os médicos, era então sempre frágil, quase sempre doente, e sempre indutor de doença. Tal movimento se acelerou no século XVIII

e deu origem à patologização da mulher, cujo corpo torna-se objeto médico por excelência. Segundo Maria Ângela D’Incao no capítulo intitulado Mulher e família burguesa”, da obra História das mulheres no Brasil, organizada pela

historiadora Mary Del Priore, durante o século XIX a sociedade brasileira sofreu uma série de transformações: a consolidação do capitalismo; o incremento de uma vida urbana que oferecia novas formas de convívio social, a ascensão da burguesia e o surgimento de uma nova mentalidade e também a sensibilidade e

a forma de pensar o amor” (D’INCAO, 2015, p. 223). Conforme a autora, as

mulheres da alta sociedade puderam vir à janela, mas também essa expôs a intimidade da família e permitiu que os olhares vindos de fora, não apenas do marido, cuidassem das vidas femininas. Para D’Incao, nasce uma nova figura de mulher, agora marcada pela valorização da intimidade e da maternidade. O lar é acolhedor, os filhos bem- educados, e as mulheres são ainda mais dedicadas aos maridos, às crianças, e

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desobrigadas de qualquer trabalho produtivo, sendo fiéis representantes da retidão e probidade, tesouro social imprescindível (cf. D’INCAO, 2015). Para Maria Quartim de Moraes (1979) no capítulo “A ‘nova’ moral sexual das revistas femininas”, da obra organizada por Guido Mantega, Sexo e Poder, por ainda muito tempo o discurso e a prática do “saber científico” reforçaram a ideia de um modelo engessado de mulher:

o discurso e a prática do “saber científico”, por exemplo,

reforçam a necessidade da presença da mãe nos primeiros anos de vida: a mãe que deixa seu filho em creches é uma pessoa que se explica e justifica (ou seja, com um sentimento de culpa)

muito mais do que outras cujos filhos são entregues às empregadas domésticas. A psicologia e a psicanálise vulgares, por sua vez, antes de serem críticas à estrutura autoritária da família, terminam sendo o reforço da “boa família” (não é a

instituição que importa: são as pessoas

ao descobrir atrás das

perturbações e neuroses razões do tipo “(sic) mal relacionamento com a figura materna”, “não-resolução do complexo de Édipo” e assim por diante (MORAES, 1979, p. 80-

81).

], [

)

Após quatro séculos, da descrição da Eva Tupinambá, lá do século XVI, e da moça da janela, das canções de MPB do século XX 8 , o que espera as mulheres brasileiras na centúria vindoura? O que mudará? Em resumo, podemos dizer que a ideologia de ser disseminadora do pecado, herdeira da primeira fêmea da história da humanidade, também contribui para que a mulher brasileira carregasse, ao longo de 400 anos, todo tipo de violência causada principalmente pelo macho da sua espécie. Usada e descartada como um objeto, quase nunca foi vista como alguém dotada de direitos e vontade, e sua existência consistia em agradar ao companheiro, lhe ser fiel, e guardar a casa, os filhos, a sua dignidade. Se eram amantes, nada valiam; se esposas, deveriam fingir não saber das outras, então amantes. Os

8 Em 1966 Chico Buarque cantava sobre a moça feia, debruçada na janela, pensando que a banda que passava tocava para ela. Letra anexa.

27

enfeites, os bailes, e também as janelas, serviram de vitrines, onde seus corpos eram expostos, desejados, negociados, ultrajados, violentados, descartados. Começamos a desconfiar ― pelo discurso dominante, hegemônico, disseminado ad nausean ― que às mulheres não cabia outro destino. Talvez mais bem cuidadas, se fossem filhas de pais abastados, ou se casadas com homens ricos, ou, ainda, sempre maltrapilhas e desgastadas, caso fossem escravas, ou filhas de homens sem posses, a mulher ficava subjugada a um “ser” ou “ter” independente de si, na dependência de a qual homem pertencesse. Jamais autônomas, às mulheres caberia sempre e apenas a heteronomia, mais apropriada a escravos ou a crianças, dependentes por definição legal e por incapacidade melhor dizer: impossibilidade social de se prover a subsistência. A literatura de Alciene Ribeiro, a nosso ver, é um brado contra tal status quo, já que suas personagens femininas, ainda que em sua maioria sejam dependentes financeiramente de seus maridos, ainda que trabalhem apenas em casa, já se mostram cientes de sua condição, conscientes de seus direitos. Nem sempre reclamam, mas apontam o tempo todo a sua insatisfação. É o que mostramos nesta monografia.

28

1.2 No século XX

Para Mary Del Priore, em seu livro Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil, de 2011, ainda em meados do século XX continuava-se a acreditar que ser mãe e dona de casa era o destino natural das mulheres, cabendo à masculinidade a iniciativa e a participação no mercado de trabalho, e também a força e o espírito de aventura. Sobre o comportamento, ainda não importavam os desejos ou a vontade de agir espontaneamente, mas as regras e as aparências:

Durante os chamados Anos Dourados, aquelas que

permitissem liberdades “que jamais deveriam ser consentidas por alguém que se preze em sua dignidade” acabavam sendo dispensadas e esquecidas, pois “o rapaz não se lembrará da

moça a não ser pelas liberdades concedidas9 . [

cabia

]. [

]

especialmente à jovem refrear as tentativas desesperadas do rapaz, conservando-se virgem para entrar de branco na igreja

(PRIORE, 2011, 163-164).

Em contrapartida, adverte a autora, relações sexuais de homens com várias mulheres eram não só permitidas como desejadas, tendo-se horror ao homem virgem e inexperiente. Para suas aventuras, os homens preferiam as mulheres “galinhas ou biscates”, com as quais podiam desenvolver todos os tipos de familiaridades proibidas com as “moças de família” (PRIORE, 2011, p.

166).

A historiadora ainda afirma que a medida da felicidade conjugal era baseada no bem-estar do marido, e esse seria resultado das “prendas domésticas” da companheira, afinal, a mulher conquistava pelo coração e prendia pelo estômago. A boa esposa seria a que não criticava, que evitava comentários desfavoráveis, a que se vestia sobriamente, a que limitava passeios

9 Entre as aspas estão alguns dos conselhos encontrados em revistas como O Cruzeiro, segundo Mary Del Priore.

29

quando o marido estivesse ausente, a que não era muito vaidosa nem provocava ciúmes no marido. Segundo Maria de Fátima Ribeiro Teles, em sua dissertação de mestrado de 2010, intitulada Feminilidade e resistência: mulheres, arte, política e sexualidade, a história das mulheres no Brasil tem sido marcada por estereótipos de submissão, reclusão e repressão, bem como pelas concepções de maternidade, de reprodução e de toda sorte de produção de comportamentos. Cuidavam da educação das crianças, dos afazeres domésticos e dos maridos, sendo boas filhas e irmãs cuidadosas, mas também travaram batalhas por seus direitos, por melhores condições de vida e de trabalho e, aos poucos, buscaram liberdade para seus corpos (cf. TELES, 2010, passim). Percebemos que as personagens femininas, em Filho de pinguço, situadas em meados da segunda metade do século XX, já estudam, já podem sair de casa sem a companhia dos homens e, ainda que sob resmungos, já se mostram contrariadas e fazem pequenas reclamações. Todavia, continuam sob violência dos seus pares ou mesmo de outras mulheres, ainda são vistas como objeto sexual, e ainda devem respeito e obediência aos companheiros. Por medo, conformismo ou ignorância, parecem preferir a casa e o marido à solidão. A nosso ver, Alciene Ribeiro consegue, em Filho de pinguço, dar voz às personagens femininas, todavia, explicita, na arquitetura romanesca e nos detalhes da construção narrativa, a nódoa da dominação masculina herdada dos séculos passados. Na obra, são os homens que trazem, ou deveriam trazer, o dinheiro para dentro de casa. A mulher deve permanecer no lar, cuidar dos filhos, educá-los, e priorizar o bem-estar do marido. A vontade desse, sobretudo se sexual, deve ser atendida em detrimento da falta de desejo da companheira, pois o importante, acima de tudo, era conservar o casamento, pois uma vez largada, caberia à mulher ser entregue à solidão e maledicência da sociedade. Para nós, em Filho de pinguço, Alciene Ribeiro presentifica, ficcionalizado, o referente

30

histórico, social, cultural e conjugal ainda vivenciado pelas mulheres brasileiras na segunda metade do Século XX.

2. A novela de Alciene Ribeiro

32

Nascida em 1939, Alciene Ribeiro é mineira de Ituiutaba e iniciou sua carreira como escritora de literatura em 1976 nas páginas do Suplemento Literário de Minas Gerais. A primeira obra teve como título Eu choro do palhaço. A coletânea, lançada em 1978, foi considerada o melhor livro de contos daquele ano pela União Brasileira de Escritores. Com mais de 20 títulos no mercado, a escritora atua também como ghost-writer 10 , revisa textos, realiza leituras críticas e nos anos 1990 e 2000 escreveu obras espíritas autorais. Desde 2010, retomou as obras ficcionais, e tem um romance inédito em que talvez é o que depreendemos de palavras da escritora faça uma síntese da ficcionista dos anos 1970/1980 com a tendência espiritualista das duas décadas seguintes (ver entrevista no Apêndice). Nessa entrevista, concedida por telefone, a autora nos falou sobre sua escrita, que está observando a vida o tempo todo, e que escreve a partir dos

10 Aquele que escreve para outras pessoas, por encomenda e mediante um contrato entre as partes, sobre os mais variados assuntos.

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seus sentimentos, suas dores, suas esperanças. Acredita que as mulheres ainda são tolhidas, como ela já foi, mas que pensa o casamento como um ato de auxílio mútuo entre marido e mulher, sempre ao lado um do outro. Artigo de Pauliane Amaral e Rauer Ribeiro Rodrigues (2014) informa que Alciene não concluiu na adolescência o estudo secundário, antigo ginásio, e só voltou aos bancos escolares em 1967, concluindo o curso Normal em 1971 e se licenciando em História em 1975, aos 37 anos de idade. Ao lado da trajetória doméstica, como mãe de três filhos, e da trajetória escolar e acadêmica retomada, foi líder estudantil, fundou grêmios, criou jornais, militou em teatro amador e presidiu um Centro de Estudos, que recebeu o nome de Sérgio Buarque de Hollanda 11 . Vejamos, na sequência, aspectos sobre a novela de Alciene Ribeiro.

11 Informações retiradas de texto da ppria escritora; esse texto está hoje disponível em: < http://gpalcieneribeiro.blogspot.com.br/p/alciene.html >. Acesso em: 14 mar. 2017.

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2.1 Novela infantojuvenil?

Filho de pinguço, lançado em 1983, foi apontado na época como o único texto brasileiro destinado a adolescentes e jovens cuja temática tratava, sob ótica terna e com profundo sentimento, do problema do alcoolismo. Considerado um livro tenso, de texto trabalhado e envolto de emoções, rendeu à autora o Prêmio Coleção do Pinto. A escritora também receberia, ao longo dos anos, outras premiações, como o Galeão Coutinho, da UBE, e ainda o selo “Altamente Recomendável da FNLIJ12 , para o livro infantojuvenil Drácula Tupiniquim. Novela classificada como “infantojuvenil”, Filho de pinguço apresenta densidade e profundidade no enredo ao abordar tema delicado que é, muitas vezes, vivenciado por jovens brasileiros. Na contracapa da edição de 1989, lemos que a busca de liberdade e autoconhecimento do adolescente já era então fortalecida pela informação recebida por intermédio da televisão e do rádio, e também pelos livros, que eram cada vez mais utilizados, nas escolas, como instrumentos de discussão de vida, e eram assim cada vez mais reconhecidos em seu valor pelos educadores. Fabrícia Vellasquez Paiva (2008) observa na dissertação A Literatura Infantojuvenil na formação social do leitor: a voz do especialista e a vez do professor nos discursos do PNBE 2005, que por muito tempo a literatura infantojuvenil foi entendida e estudada especialmente pelos setores da educação, sobretudo em razão de seus textos estarem ligados ao compromisso de algum ensinamento, de alguma mensagem ou, ainda, de alguma moral. Muitas vezes apontada como transmissora de uma cultura da ordem, necessária, por vezes, à sociedade capitalista, essa literatura acabou empobrecida.

12 Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

35

A autora aponta, porém, que na contemporaneidade houve mudança na literatura infantojuvenil, especialmente quanto à avaliação de sua importância para a sociedade, transformando-se não apenas em si mesma no âmbito da temática , mas também e principalmente, quanto à própria estrutura textual, de forma que a ficcionalidade e a exemplaridade tomam novo corpo, aproximando-se ainda mais dos efeitos provocados por qualquer outra modalidade literária. De tal maneira, não é errado afirmar que seu público, antes compreendido exclusivamente de jovens, também pode ser o de crianças, como também de qualquer faixa etária:

Embora os textos infantojuvenis contemporâneos apresentem ainda um discurso direcionado a um público específico constituindo-se, pois como um texto sobre e para a infância ele não exclui todos os demais leitores que queiram dele aproveitar a leitura, ou, ainda, que escolham uma obra infantojuvenil em detrimento de um livro de literatura clássica destinado exclusivamente a adultos. A obra infantojuvenil apresenta encantamentos não apenas em suas temáticas de fadas e bruxas, mas também em sua lógica interna, uma vez que é passível de leitura a qualquer idade (PAIVA, 2008, p. 97).

Filho de pinguço se enquadra, a nosso ver, nas características definidas por Fabrícia Vellasquez Paiva (2008). O tema do alcoolismo, considerado tenso, é tratado de maneira delicada por Alciene, com uma linguagem simples que pode despertar interesse de jovens e adultos. Segundo Massaud Moisés (2006), a palavra “novela” remonta ao italiano “novella”, originário da Provença, onde significa “relato, comunicação, notícia, novidade”. Em vernáculo, o termo circula com a designação de “engano”, “embuste” ou “mentira”, mas diz respeito, de maneira geral, a uma história fictícia, longa, jorrando emoções fáceis, transmitida por rádio ou televisão. Em estudos literários é empregada por vezes de modo “defeituoso” por alguns críticos, rotulada como narrativa com mais de cem e menos de duzentas páginas.

36

A novela ocupa, do ponto de vista histórico, posição menos

relevante que a do conto e do romance. Identificada com as manifestações populares de arte, atende ao desejo de aventura e fuga realizado com o mínimo de profundidade e o máximo de anestésico: raro se nivela, em matéria de requinte estético, às formas em prosa vizinhas. Prato variado mas ligeiro, não se detém no exame do dia a dia real, preocupando-se acima de tudo com o pitoresco, que é tão cedo esquecido quanto mais

Pressupondo que tudo se conheça, ou

facilmente seduz. [

que se converta em atos e acontecimentos visíveis, a novela contempla, não indaga, finge, não questiona, fantasia, não interroga. No entanto, por estar mais próxima da vida diária,

graças aos “ingênuos” e vulgares expedientes, reflete por vezes

a subjetividade do leitor [

].

]

(MOISÉS, 2006, p.112).

A opinião de Moisés se configura extravagante, para não dizer que é um equívoco. O escritor Luiz Vilela, citado por Rauer (2013), considera que a divisão das narrativas em gêneros, no que se refere ao aspecto estrutural, questão secundária, já que tanto conto, novela e romance despertam nele o mesmo interesse e importância. Para Vilela, são diferentes: o romance é grande, longo, o conto é pequeno, curto, e a novela está entre os dois quanto à extensão (cf. RAUER, 2013). Nem por ser novela, o que jamais seria justificativa de menor importância quando comparado a outro gênero de narrativa, como o conto ou o romance, tampouco pela classificação infantojuvenil, nada a nosso ver diminui a grandeza estética e literária desse Filho de pinguço. Alciene Ribeiro consegue, certamente, atingir além do público jovem, pois aborda temas ainda mais densos que o alcoolismo ― a segregação das camadas populares, a condição feminina e o desemprego são trazidos à tona. Com o drama do vício do álcool denunciado no título da obra, com poderosa força criadora da linguagem e de um universo ficcional próprio, erguido com sensibilidade, acuidade e poderosa visão de mundo, criando um narrador que evita prejulgamentos e adere emocionalmente ao drama das personagens, Alciene deixa ao leitor a palavra final diante do que lê.

37

2.2 Alcoolismo, miséria e violência: temas fortes

Na terceira edição do Filho de pinguço (Editora Lê, 1989) Duílio Gomes 13 chama atenção dos leitores para o termo usado no título, pinguço, sugerindo que seu uso pela autora foi uma forma de causar impacto. Para ele, a expressão colocada na capa tem muito mais a denunciar do que o vazio alcoólatra. Conforme sugere, a obra não se atrela a moralismos vãos, e não trata do perfil das consequências de uma simples ressaca, mas do estado psicológico e em degradação de um pai de família que, não conseguindo se desligar do vício do alcoolismo, provoca uma pequena tragédia familiar. “Pinguço”, segundo o dicionário Priberam, é adjetivo e substantivo masculino, que significa “que ou aquele que se embriaga, embriagado, bêbedo”, ou ainda, como adjetivo apenas, “diz-se dos olhos de quem bebeu álcool em demasia ou que está com muito sono”. Ainda sobre o título, e em tempos de bullying 14 , podemos antever que, para além da história do próprio “pinguço”, saberemos do seu filho, que mesmo sem querer ou merecer, já é tratado pela alcunha, cujo sinônimo não é e nunca será motivo de orgulho nem ostentação. E mais ainda para a narração da história de uma família, temos o relato da história de muitas famílias brasileiras da década de 1980, em enredo que continua atual. Há a descrição de um contexto familiar, cujo chefe não tem emprego fixo, já que é pedreiro e trabalha por obra, e que bebe mesmo sem ter dinheiro e até mesmo sem ter geladeira, que teve de vender para pagar outras contas. Ele pode ser vítima, mas também faz outras, sem que essas percebam:

13 Duílio Gomes, escritor mineiro de Mariana, foi integrante da chamada Geração 60, sendo editor do Suplemento Literário de Minas Gerais nos anos 1980, além de colaborador dos jornais Estado de Minas e Jornal do Brasil. Morreu em 2011.

14 Bullying, termo originado da palavra inglesa “bully”, que significa valentão, briguento, é uma situação caracterizada por agressões intencionais, verbais ou físicas, executadas de maneira repetida, por um ou mais alunos, contra um ou mais colegas.

38

Dinheiro não sobra, conta na porta toda hora, amolação. Vendemos a geladeira para o espanhol da esquina, não deram pela falta? (P. 13) 15 .

Alciene Ribeiro dá voz para famílias antes não lembradas pela literatura.

É a chamada “voz do oprimido”. E na verdade nos faz refletir sobre outras

vozes mais agudas, que tantas vezes são silenciadas: a das mulheres. A própria autora, no prefácio de Eu choro do palhaço (1978), afirma que

o papel da literatura é de denúncia, a “serviço do homem”, constituindo-se

retrato escrito de determinado momento da evolução histórica da sociedade, com a ressalva, entretanto, de que a literatura, sem o propósito de resolver, vem para apontar certas condições opressoras do homem. Por sua trajetória de vida, e sob a condição de resgate do “ser mulher também para o mundo”, temos que a obra de Alciene não deve encerrar apenas mais uma história para jovens, sob linguagem simples e clara, mas também se constituir em texto denunciativo e reflexivo acerca dos problemas enfrentados por aquele “novo” Brasil dos anos 80 e de seu mais genuíno representante: o povo brasileiro. Nas 48 páginas da edição de 1989 temos o retrato de uma família pobre, imersa em um novo paradigma social e político do país tropical daquela época e que, à margem da sociedade dominante, tem seus membros como algozes e vítimas uns dos outros, e que sofre calada um dos mais cruéis tipos de violência: a simbólica, assunto que será abordado no próximo capítulo de nosso trabalho. Regina Zilberman (1991) adverte que, apesar de não desejar uma literatura vista sob efeito ou reflexo de panorama extraliterário (como mudanças históricas e políticas), devemos perceber que o escritor contemporâneo interage com seu tempo e sociedade. No tocante às mudanças políticas ocorridas no Brasil, sobretudo, a partir de 1985 sob o governo de um presidente civil, percebemos na literatura a tentativa de dar expressão a

15 Nas referências à novela Filho de Pinguço, indicamos somente a página.

39

segmentos até então ausentes ou de posição secundária na literatura, resultante da emergência da voz do oprimido, de que a ficção passa a ser portadora (grifo nosso). Zilberman cita a tentativa de exposição do elemento popular, representado por personagens cujas origens estão nas camadas urbanas mais inferiorizadas, sob a presença do marginal, então representado pela figura do trabalhador desempregado, o proletário, ou subprofissional, ou ainda o mendigo. Também aparece o fora da lei que escolhe “cobrar” da sociedade o descaso com que o trata. E também há toda sorte de personagens simbólicas, que encarnam o homem do povo que corresponde, de modo geral, ao indivíduo que, dentro da pirâmide social, ocupa posição inferior. Alciene, em Filho de pinguço, aborda personagens dessas camadas populares enredadas em temas fortes como o alcoolismo, miséria e violência, enunciadas em sensível linguagem coloquial, de maneira que a novela pode ser lida tanto por adultos quanto por jovens e adolescentes. Sob esse aspecto, lembramo-nos de Antonio Candido (2011), para quem a literatura é um instrumento poderoso de instrução e educação:

A literatura confirma e nega, propõe e denuncia apoia e

combate, fornecendo a possibilidade de vivermos

dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita; a que os poderes sugerem e as que nascem dos movimentos de negação

do estado de coisas predominante (CANDIDO, 2011, p. 175).

Segundo Candido (2011), a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, uma vez que liberta do caos e, portanto, humaniza. Pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual. A linguagem simples usada por Alciene é o tipo de linguagem que Antonio Candido destaca para uma proposta de sentido efetiva:

40

o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à

coerência mental que pressupõe e que sugere. [

literária pressupõe esta superação do caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido (CANDIDO, 2011, p. 178).

Toda obra

[

]

]

Filho de pinguço, com sua linguagem fluida e clara, produz sentidos, empreende denúncia e, assim, permite a fruição da literatura e a faz como instrumento formador, conscientizador, na dialética que faz da mimese, ainda que sem catarse, a negação do referente.

41

2.3 Construção da narrativa

Narrada em terceira pessoa de forma onisciente, a novela de Alciene apresenta o tempo trabalhado de forma linear, com o enredo se desenvolvendo linearmente, com princípio, meio e fim; entretanto, ao final, não sabemos se há de fato um fim ou uma esperança de continuidade, já que longe de história romanceada o que temos é um fim nada feliz. Algo é como retomado, como se seguisse a normalidade, que não levará a lugar algum. Um eterno retorno de degradação, um oroboro que se alimenta de si mesmo e se autorreplica em uma espiral infinda. Eis a pergunta que Alciene nos deixa nas entrelinhas: como superar a desilusão permanente? Busquemos na construção, na arquitetura da narrativa, resposta para essa indagação. Segundo Massaud Moisés (2006), tal como o conto, a estrutura da novela caracteriza-se por ser plástica, concreta e horizontal; sob a perspectiva da terceira pessoa, o autor se coloca fora dos acontecimentos, ou concede a uma personagem a direção da narrativa; o novelista concentra-se em multiplicar os expedientes narrativos, formulando sucessivas células dramáticas que, formadas por justaposição, não desagradam o leitor; o enredo é visível e nada esconde, tampouco dissimula profundidades dramáticas ou psicológicas (cf. MOISÉS, 2006). Moisés ainda aponta que o tempo da novela é o histórico, marcado pelo relógio ou pelo calendário, fluindo a narrativa em temporalidade horizontal, correspondendo ao encadeamento de fatos numa linha sujeita ao princípio da causa e feito. A ação desenrola-se por inteiro no presente, aqui e agora, sendo o pretérito condensado em breves anotações. Não há interesse de seguir os passos das personagens desde o nascimento, mas surpreendê-las no momento em que estão maduras para agir. Quanto ao futuro, pertence ao imponderável, à lei do

42

acaso, que pode conduzir à morte, ao exílio, ou a formas equivalentes de sair de cena.

Verificamos, já em suas primeiras linhas, que em Filho de pinguço as personagens são apreendidas “de surpresa”, no meio da vida já “em movimento”, o que é apresentado ao leitor sem explicações anteriores:

O pai abraçou o menino, um cheiro forte de suor, cachaça e cigarro. Hê filho, dá um beijo falou apertando o garoto. Ele arranhou a boca na barba, retribuiu o abraço, um pouco de medo. Tem medo dele falante assim. Se não bebe é outro, e aí não tem o susto, mas gostosura de ser, um sossego bom. Mais tarde o pai fica bravo, já sabe, costume (p. 5).

O espaço é quase que em absoluto a casa da família, mas também

passamos pelo botequim da vizinhança, pelas ruas do bairro e pela escola. Eis o que preconiza Massaud Moisés sobre o cenário da novela como estrutura

narrativa:

Somente interessam os acidentes geográficos onde ocorre

algo de novo, trágico ou pitoresco. Por suas origens, a novela tende a desdobrar se numa geografia fictícia, que serve de cenário para a trama que enleia as personagens. O dinamismo da novela repele o estático da paisagem: é a ação que desencadeia as peripécias e incita à curiosidade (MOISÉS, 2006, p. 118).

[ ].

A personagem principal é o menino, chamado assim, tendo ainda em

destaque as personagens “pai” e “mãe”, que como o primeiro, também não recebem nomes próprios. A ausência de nomes próprios parece indicar que se trata de drama comum a muitas famílias, é como se a história pudesse ser de qualquer família, de qualquer outra pessoa, de qualquer um de nós. Outras personagens aparecem como pano de fundo, participando de algumas cenas, e outras, por vezes, são apenas citadas. São as seguintes:

compadre; Seu João (dono do botequim); freguês no bar; tias Marlene e Marina com a filharada; tio Wolninho; prima Sílvia; Francisco (Fran); Seu Juellas

43

(espanhol da esquina e pai de Fran); tia Luíza (professora do menino); Maurício; Cláudio; e Benjamim. Segundo Moisés (2006), em decorrência de sua multiplicidade dramática,

a população da novela não conhece limite. Os protagonistas tornam-se numerosos, e as personagens secundárias aparecem com frequência, em razão do entrelaçamento de dramas, embora suas ações nem sempre apresentem consequências futuras. Daí a razão de certas figuras apenas apresentarem uma espécie de paisagem humana, aparecerem e depois desaparecerem sem voltar. No caso dessa novela, as personagens descritas por Alciene parecem sair da vizinhança de algum tempo de nossas vidas. Elas não são boas, nem más, são verdadeiras. Podemos encontrá-las pelos ônibus ou pelas calçadas de qualquer cidade brasileira. Não há descrições físicas das personagens, nem atributos, com exceção do “cheiro de morrinha” vindo do pai, e mencionado pela mãe, que mesmo não se tratando de “parte tocável”, quase conseguimos senti-lo. Mesmo assim, “sem” cores ou cabelos específicos, conseguimos desnudar algumas delas, porque a novela ergue e tece com palavras suas almas, e assim como que visualizamos seus corpos, ouvimos o que dizem, sofremos suas dores. Sob suas características psicológicas, parecem saídas do cotidiano, do trivial, e sobrevivem sempre, dia após dia, parecendo não pararem muito para pensar sobre o que vivem, ou sobre aqueles com quem vivem. O pai é pedreiro e alcoólatra, e desde sexta-feira, um feriado comum, até

o domingo, bebe sem parar, sem ao menos tomar banho. É descrito como malcheiroso e violento, e exigia do filho a valentia e, em casa, uma “ordem”, a “sua”, já que se considerava importante e digno de respeito:

Às vezes chegava da rua com aqueles cheiros e se enfezava por nadinha de tudo. Gritava com a mãe, batia nos meninos, xingava. Mas antes ficava chato e era o interrogatório: só pergunta com resposta já sabida. Indagava para ouvir bis de vantagens: gracinha de criança, bonito na escola, valentia na rua. Principalmente valentia, um dever custoso ao menino (p.5).

44

Para a esposa, a “mãe” do menino, o marido é descrito como alguém que precisa plateia, gente para ouvir e bater palma para as suas histórias, uma pessoa sem juízo, um bobo, explorado por desocupados:

Ele é explorado e ainda agradece, os desocupados comem e bebem às custas do bobo! desabafa (p.7).

O “filho de pinguço” é ainda menino, e é sob sua percepção, “encarnadona figura do narrador onisciente, que deparamos com seus sentimentos ambíguos de medo, revolta, compaixão, asco e vergonha. Por um lado, a raiva da bebedeira do pai; do outro, o medo de perdê-lo pela cirrose. Tem medo da violência do pai contra a mãe, mas teme que ela, ao se defender, também o maltrate. Às vezes tem ódio pelos dois e não foge porque tem receio de ficar sozinho no mundo. Antes de tudo, é um sonhador:

A cabeça debaixo da coberta, tremura no corpo, reza. Um dia foge, um dia. Por enquanto falta coragem. Fome e frio seguram a vontade de correr. Sozinho no mundo ainda é pior do que aquele inferno.

Mãe, se a senhora empurrar o pai ele cai, igual aquele dia.

Nunca saberá o vencedor da briga. Sentimentos desencontrados de amor e raiva não definem sua torcida. Ora é pela mãe, ora pelo pai, chega a querer, muito dentro, a morte de um deles (p. 7-8).

Quem morre primeiro, a mãe ou o pai? Ela sabichona,

formada normalista, ou ele escondendo a quarta série atrás do copo?

Quarta série o quê, invencionice de político chibungo, eu

formei no curso primário, quarto ano, orador da turma, diploma e tudo. Naquele tempo a gente estudava mesmo, não era a enrolação de hoje não. Dói mais a morte de cirrose ou de doença de mulher? Mãe chorosa ou pai espancando, qual faz mais falta até ele crescer um pouco, carteira no bolso, a vida lá fora? (p. 24-25).

]. [

A mãe fica com as crianças em casa, apesar de ter estudado mais que o marido. É também descrita pelos olhos do menino, nem boa nem má, mas é “sabichona”. Depois de uma briga, é vista pelo filho por meio do seu “chorar” especial:

45

Quando a mãe chora só com o olho, é amor. O choro de raiva

envolve boca, fala, pé e mão, quer distância. Mas o choro de amor dá um troço gostoso na barriga, o mundo pode até se virar contra, nenhuma importância.

O

pai fedendo? Que me importa!

A

prima convencida? Dane-se.

O

Fran por cima? Bom proveito!

Choro barulhento é briga com o pai, choro calado acarinha

filho. [

]

(p. 39).

A mãe se denomina como uma “bobona” e uma pessoa explorada, cuja única distração é a televisão:

Antes vendessem a televisão tia Marina.

E televisão não vicia também, futebol, corrida? E minha

novela, a burra de carga precisa distração, ora mãe (p. 14).

A narrativa começa no domingo, com o pai alcoolizado desde a sexta. O menino é o responsável por pegar, sem pagamento, bebidas e cigarros para o pai no botequim do bairro, de propriedade do português Seu João. Lá se sente envergonhado por não levar dinheiro, e é alvo de chacotas por parte do comerciante e de alguns de seus fregueses, e é lá que também “sonha” em comprar alguns doces expostos na vitrine, sem que tenha coragem de comprá- los fiado, mesmo com autorização paterna. Em casa, depara-se com a “ameaça” da violência do pai, ora contra ele, ora contra a mãe. Essa, por sua vez, tem no menino o depositário de suas reclamações, que também reclama para as irmãs, quando chegam para uma visita. O menino é também ridicularizado na escola, alvo de piadinhas realizadas por colegas, que acabam por culminar em uma briga na segunda- feira, após o fim de semana prolongado. Após ser chamado de “filho de pinguço” agride e também é agredido fisicamente por um dos colegas, voltando machucado para casa. É recebido pela mãe com curativos, lágrimas, lamentações e recomendações para que não se envolva em brigas. Na chegada do pai, que mesmo tão cedo já vem alcoolizado, é tratado por esse com respeito pela valentia, que associa o comportamento agressivo do filho a ato de bravura

46

e macheza e é por fim humilhado pela mãe e pelo menino, quando descobre a razão da briga: ter sido a criança chamada de “filho de pinguço”. Como superar a desilusão permanente? Não há resposta da autora para essa pergunta, pois não há esperança de um fim diferente. A mãe é tomada de prostração e é, junto do filho, quase levada ao tombamento da realidade, já que não há meios de mudá-la. Talvez o que os mantenha em pé é justamente o fato de permanecerem juntos, mãe e filho.

O pai, sim, desmorona, alheio. Esse é o seu fim. O fim que recomeça até o final derradeiro, em algum dia, logo ou distante, não se sabe. Seu olhar é para o vácuo, não há esperança. A vida retoma seu curso. O pai dá dinheiro ao filho e diz para que compre o doce que queria comprar. Há um doce na vida que continua ― eis a esperança como palavra final do narrador de Alciene Ribeiro em Filho de pinguço.

3. A mulher em Filho de pinguço

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A obra Filho de pinguço desperta reflexões acerca de temas relevantes como: relações familiares, sujeitos marginalizados, alcoolismo e violência, entre outros. Desses, elencamos o último tema, mais especificamente a violência sofrida pelas personagens femininas da obra: embora secundárias, as personagens femininas da novela encerram aspectos cruciais no âmbito da narrativa, e como tal merecem detido estudo. Com exceção da “mãe”, que está presente ao longo de todo o enredo, muitas das personagens femininas são citadas uma única vez; são elas: tias Marlene e Marina; prima Sílvia; e tia Luíza, a professora. Segundo Massaud Moisés (2006), as personagens da novela são geralmente planas, ou bidimensionais, estáticas e definidas, carentes de profundidade. Poucas são as que se salientam, enquanto outras assumem função paisagística. Parecem por vezes bonecos, faltando-lhes a agitação íntima que constitui apanágio das individualidades e dos caracteres marcantes; vazias

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de tônus psicológico, reduzidas na exposição de inquietação interior, entregam- se à ação como se ignorassem outro destino. Não há quaisquer descrições físicas das personagens femininas de Filho de pinguço, nada que as diferenciem ou individualizem. São como “enfeites” ou “atrizes secundárias” em um teatro puramente masculino. São representadas como objetos de desejo, mães, esposas, cuidadoras do lar, empregadas e, em decorrência disso, não apresentam ações genuínas ou próprias, autônomas. As personagens femininas de Filho de pinguço parecem saídas de filmes americanos que retratam a década de 1950, aquelas donas de casa que apreciam

a televisão e seguem sua rotina de faxina, cozinha e bordado, não fosse sua

precária condição financeira, diversas dos enlatados hollywoodianos. Por não

termos suas descrições físicas, nãos as sabemos bonitas, feias, magras ou

gordas, mas suspeitamos que nem mesmo elas se descreveriam, porque seguem

a rotina, parecendo conformadas com a vida que levam, e seguem pobres,

cuidam dos filhos, e, às vezes, quase às escondidas, reclamam da própria sorte. Não parecem felizes. Seria por falta de opção? Ou medo da solidão? Medo de não cumprir a sina de ser mulher? Como a mãe o foi? E como a mãe

de sua mãe? Maria Quartim de Moraes (1975) já havia mencionado que de todas as armadilhas prontas para aprisionar o sexo feminino não existe outro maior do que a sensação de solidão, impotência e fracasso individual com que as mulheres enfrentam as dificuldades em se amoldarem aos “padrões femininos”; em viver o “destino de mulher”. Segundo a autora, como se falasse diretamente com as mulheres,

A dificuldade em encontrar a própria identidade no quadro estreito das “características psicologicamente específicas da mulher” – pois, afinal, ser mulher é provocar paixões, criar filhos ou cozinhar? ou são todas estas coisas? só é superada por esta de situar-nos socialmente, de nos entendermos como mais uma sofrendo os mesmos problemas e vivendo as mesmas perplexidades (MORAES, 1975, p. 70).

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Assim são as “filhas de Eva” também na novela de Alciene. São iguais a tantas outras que, apenas para manterem-se “situadas” socialmente (mães, esposas, filhas), sofrem caladas, e mesmo quando falantes, ao se perceberem sofredoras, seguem a vida, criando filhos e maridos, e cozinhando comida e gente, “cozinhando”, às vezes, elas mesmas. São vítimas de silenciosa violência simbólica. Este capítulo se estrutura em três tópicos: no primeiro, apresentamos o conceito de violência simbólica, no segundo, discorremos sobre o impulso libertador que lateja na obra de Alciene, no terceiro, apresentamos as diversas personagens femininas da novela Filho de pinguço, discorrendo sobre a presença delas na narrativa, tendo por fulcro a tensão entre a violência que as submete, ainda que silenciosa e simbólica, e o impulso de evasão.

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3.1 A violência simbólica

Ao longo da novela, apesar de não “presenciarmos” violência física, a sabemos por meio do pensamento do menino, que menciona o medo que sente da agressão iminente, já que a presenciara em outros momentos, como no trecho abaixo:

O menino, deitado, ouve discussões, tapa os ouvidos,

revira-se na cama. Tem medo do pai bater na mãe, dela empurrá-lo. Não bate na mãe não, pai pede baixinho.

A cabeça debaixo da coberta, tremura no corpo, reza.

Um dia foge, um dia. Por enquanto falta coragem. Fome e frio seguram a vontade de correr. Sozinho no mundo ainda é pior do que aquele inferno (p. 7).

Há também alguns gritos do pinguço, mas, sobretudo, é a violência emocional que impera naquela casa, pois que as mulheres parecem existir para os homens apenas como objetos. O castigo imposto a elas é de total abandono. Michel Foucault (1987) afirma que também as formas de punição mudaram ao longo dos séculos. Não seria mais o corpo a ser punido, mas a alma. À expiação que tripudia sobre o corpo deveria suceder um castigo sobre o coração, o intelecto, a vontade, as disposições:

Momento importante. O corpo e o sangue, velhos partidários do fausto punitivo, são substituídos. Novo personagem entra em cena, mascarado. Terminada uma tragédia, começa a comédia, com sombrias silhuetas, vozes sem rosto, entidades impalpáveis. O aparato da justiça punitiva tem que ater-se, agora, a esta nova realidade, realidade incorpórea (FOUCAULT, 1987, p. 20).

Acreditamos que as personagens femininas de Alciene são vítimas, em sua maioria, de uma violência silenciosa, cada uma sob uma forma, mas todas violentadas. Sem reconhecimento, quase sem voz, sem vontade. Sob a definição bourdieana de violência simbólica dissertaremos sobre a forma como tais personagens são, na novela, vitimadas pelos homens.

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Medeiros e Zimmermann (2014) observam que no emprego histórico da palavra violência, o substantivo é derivado da palavra vis, que tem por definição a força exercida contra alguém. Usada no plural, vis vem a nomear os órgãos sexuais masculinos e também as forças militares. Tais verbetes criam um conjunto de significados relacionados entre si, formando um campo de sentido que se resume no uso da força contra a liberdade. Vasconcellos (2002), em seus estudos sobre o sociólogo Pierre Bourdieu, aponta que o francês tentou desvendar, por meio do conceito de violência simbólica, o mecanismo que faz com que os indivíduos vejam como “natural” as representações ou as ideias sociais dominantes. Nas palavras de Bourdieu:

sempre vi na dominação masculina, e no modo como é

imposta e vivenciada, o exemplo por excelência desta

de violência simbólica,

violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas

submissão paradoxal, resultante [

] [

]

da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do

desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância,

do

(BOURDIEU, 2002, p. 5-6).

sentimento [

]

As personagens de Alciene são descritas como mulheres comuns, que apesar de uma ou outra queixa, não parecem perceber que são vítimas de violência, já que parecem não considerarem possíveis quaisquer mudanças, tampouco exigem direitos. Agem como se não houvesse outra forma de agir. Eis o referente ao qual o universo ficcional se refere:

A sexualidade feminina é prisioneira, portanto, dos estreitos

limites sociais em que se desenrola a vida da mulher. A sociedade fragmenta o indivíduo tanto por causa do modo em que as condições materiais de existência são produzidas e reproduzidas (separação do produtor dos meios de produção; atividade econômica orientada pela busca do lucro e não pela satisfação das necessidades do homem), quanto pela divisão sexual das atividades e da vida social de modo geral. A esfera pública o mundo do trabalho, da política, do poder e da autoridade é essencialmente masculina, enquanto que a “realização pessoal” da mulher encontra-se comprometida com o espaço em que se situa a esfera privada (a casa, o lar). E

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se a dicotomia público/privado é vivenciada pelo homem de maneira a privilegiar a “realização” no trabalho (no público) e, secundariamente no privado (lar-mulher-e-filhos sendo sinônimos de “repouso e refúgio do guerreiro”) a mulher recebe a esfera privada como locus apropriado para a história de sua vida (MORAES, 1975, p. 70, negritos nossos).

Parece que tudo conspira para a manutenção do silêncio e para o silenciamento da mulher e do feminino. Sob dogmas passados pela Igreja, pelas mães e mães de suas mães, e uma para as outras, ou pelo sistema político ou pela ordem econômica vigentes, cujo grande “mantenedor” é o homem, essas mulheres simplesmente parecem aceitar seu destino.

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3.2 As personagens femininas

Neste tópico, apresentamos, quase que em formato de verbetes, com abonações, as personagens femininas da novela Filho de pinguço, enfatizando a violência simbólica e a estrutura subliminar, social, familiar e psicológica, que as constrange, e o grito libertador que pulsa em cada uma, que lateja se manifestando de algum modo nas entrelinhas do narrado, pela focalização aderente do narrador ao drama feminino ou por outras estratégias narrativas.

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3.2.1. A “mãe”

A personagem mãe tem voz na verdade, resmungos. É por meio deles que demonstra em alguns momentos sua inquietação, talvez uma indignação, diante do que sofre, e por algumas vezes chegou a empurrar o marido, mas por medo ou desconhecimento, acaba por empurrar a vida. A televisão, diversão que tenta garantir, é seu único consolo, já que aqui vemos tal objeto não como um fim, mas remédio da situação que vive. Já no início da obra a vemos reclamar do domingo como sendo o dia no qual mais trabalha. Trabalho que não é reconhecido nem mesmo pelo filho:

[ ]

Mas hoje é domingo, mãe, ninguém trabalha.

Ninguém, só a bobona aqui.

Fazer comida não é trabalho, mãe!

Ah, até você, muito bonito, seu pai está fazendo escola. Não vejo a hora de acabar este domingo suspira.

A senhora não gosta de domingo?

E dá para gostar? É o pior dia da semana para mãe de

família. Vá cuidar do seu para-casa, vá, com tanto feriado você tinha de deixar para a última hora! reclama (p.7).

Moraes (1975) lembra que, se em períodos passados a unidade doméstica constituía a célula produtiva das sociedades, a separação histórica entre lar e local de trabalho processou-se concomitantemente às transformações no processo de produção, levando à perda de importância do papel econômico da família; se, por um lado, a produção fora de casa tornou-se sinônimo de trabalho, as atividades realizadas no lar passaram a não ter valor, uma vez que foram então consideradas como prolongamentos naturais das características específicas (biológicas) do sexo feminino. Para a autora, o trabalho doméstico perdeu toda a aparência de atividade produtiva, pois é realizado fora do processo capitalista de produção e

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circulação de mercadorias; entretanto, as tarefas no lar também absorvem tempo e dispêndio de energia, apesar de estarem mistificadas sob a capa do “natural”, da “vocação” feminina, da contrapartida conjugal ao pão conquistado pelo homem no mercado. A “mãe” mesmo reconhecendo que não vive um bom casamento e considerando o marido um “traste”, diz não o abandonar por temer pelos filhos, quando, na verdade, enfatiza que não o faz por ter um nome a zelar, o que é corroborado pela irmã. Mais vale aguentar a situação a ser uma mulher “largada”, na “boca do povo”:

[

]

Inferno é o meu, que tenho um nome a zelar, os

meninos; não fosse, largava o traste ― mãe.

Cruz-credo, irmã, mulher largada cai na boca do

povo ― tia Marlene [

] (p.13).

Mesmo bêbado, sem tomar banho, o marido reclama seus direitos de “esposo”, enfatizando que se o faz, faz sob reconhecimento jurídico e religioso sobre a posse da “mulher”, de seu corpo, de seu “sexo”:

Vem cá, senta aqui puxa a mãe pelo braço, malícia

no rosto.

A panela vai queimar esquiva-se, desgostosa.

Deixa queimar, uai! o pai, autoritário.

A janta, bem! Agora não posso sentar não a mãe

tenta conciliar, medrosa.

Ora a janta, mulher! Quem quer saber de janta agora,

hem? Vem cá, só falta aqui é mulher, escuta só: Brahma, futebol e mulher, a paixão do brasileiro macho, da gema ― ele diz, achando-se muito espirituoso (p. 19-20).

O desejo do homem é justificável. Se ele exige a atenção da mulher também para a relação sexual é porque é esperado que seja assim, posto que todo homem brasileiro tem por direito sua bebida, seu esporte e sua mulher. Pierre Bourdieu (2002) afirma que o princípio da inferioridade e da exclusão da mulher é o princípio de divisão de todo o universo, e é tal princípio que estabelece a dissimetria fundamental, ou seja, a do sujeito e do objeto, do

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agente e do instrumento, instaurada entre homem e mulher no terreno das trocas simbólicas, das relações de produção e reprodução do capital simbólico, cujo dispositivo principal é o mercado matrimonial. A “mãe” não tem interesse na continuação daquele diálogo, tenta se esquivar, mas é repreendida, tal a um empregado pelo seu patrão, quando na falta de uma tarefa executada. O marido, aqui na condição de sujeito, reclama seus direitos sobre o objeto que lhe pertence:

[

]

E daí, deixo o feijão queimar e depois, o quê que eu

dou para seus filhos comer? Cerveja por acaso? Cerveja? Ah,

me larga, que coisa, nem tomou banho, escovou dente.

Está importante a madame, cheia de pose hem? Mas

tem obrigação comigo, que diabo. Sou seu marido na igreja e no cartório. E comigo é na hora do pinicão. Sustento você para quê, hem, para quê? Para bater perna na rua, maldizer da vida alheia? Uma bisca sem serventia, só isso que você é, uma bisca.

Largo tudo ainda, vai ver, desapareço assim ó tenta estalar os dedos desgovernados, em vão. Fica o gesto como aviso, e reforça: E pode escrever, todo bicho vai relevar, estou coberto de razão.

― Já vai tarde ― a mãe fala baixo.

Aí, resmungar é com você mesmo, em resmungo tira

de letra, acorda e dorme reclamando, agora, assistência para o marido é neca, uma bela merda, caprichada e fedida (p.20, negritos nossos).

As reclamações do marido são para ele justificadas pela justiça dos homens e da igreja. A mãe, por outro lado, percebe que não é reconhecida, já que é somente uma trabalhadora do lar, é uma escrava, pois que não tem dia para descanso, mas não diz isso ao marido. Já Foucault (1987) afirma que o corpo também está diretamente mergulhado num campo político as relações de poder têm alcance imediato sobre o corpo na intimidade; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais:

Este investimento político do corpo está ligado, segundo

relações complexas e recíprocas, à sua utilização econômica; é, numa boa proporção, como força de produção que o corpo é

]. [

58

investido por relações de poder e de dominação; mas em compensação sua constituição como força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de sujeição (onde a necessidade é também um instrumento político cuidadosamente organizado, calculado e utilizado); o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. Essa sujeição não é obtida só pelos

instrumentos da violência ou da ideologia; pode muito bem ser direta, física, usar a força contra a força, agir sobre elementos materiais sem, no entanto, ser violenta; pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada, pode ser sutil, não fazer uso de armas nem do terror, e no entanto continuar a ser de ordem

física [

]

(FOUCAULT, 1987, p.29).

Ao descrever o domínio das instituições sobre o corpo, assujeitando o sujeito, Foucault descreve a violência física como um instrumento de dominação e um agir que, sendo “sutil”, estabelece um domínio que também é físico, por colocar o corpo alheio sob domínio da ordem, do status quo é assim que age a violência simbólica, descrita por Bourdieu: envolta pela ideologia dominante, o sujeito se assujeita a uma ordem que lhe explora, esmaga, espezinha. Eis uma das situações da novela em que tal conjunto de drama e dor se

revela:

A mãe coou o café, olhos inchados de choro e sono, nenhuma palavra, pés arrastando o cansaço de muitos domingos.

O quê que é a merenda, mãe? pergunta quando ela

lhe passa a lancheira [

] (p. 25).

Cada personagem, imerso em seu mundo, desconhece a dor alheia. A opinião da mãe também é desprezada pelo marido, quando o filho se envolve em uma briga, posto que certo é que o menino defenda a “macheza” da espécie. A ela cabe chorar:

[ ] Aquela exaltação toda do pai contou: ele passou no Seu João, mas não para acerto dos vales. A mãe conteve mal e mal um soluço e o menino se preparou para receber mais cobrança.

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Vem cá, mulher, que bobagem é essa? puxa a mãe

pelo braço. Seu filho está virando home, escuta só, trata de acostumar, você não viu nada ainda termina debochado. [ ] (p. 40).

E continua:

] [

Você tem é de orientar, dar exemplo, e fica falando

assim, mandando o filho ser marginal a mãe soluça alto.

Que marginal, mulher! Está com titica na cabeça? Moleque que não apanha na rua não vira gente.

Ele está todo machucado, não viu não? alisa o

menino. Eu não entendo você, nem parece pai abraça-se ao filho, esconde o rosto, os ombros trementes de pranto [ ]

(p.40).

Ao criticar o marido, recebe mais repreensão:

Depois de tudo eu não posso o consolo de um

traguinho? Você nem imagina o que passei hoje e me recebe com essa ladainha, inferno!

Eu aqui pelejando sozinha, o filho cheio de pancada,

que castigo é este, não mereço esta vida a mãe nem ouve. Cala a matraca, mulher, poxa, você me enerva, droga, uma coisa à-toa e parece dilúvio, o mundo não acabou não! [ ]

(p.43).

E como para uma espécie de vingança, acaba por desabafar:

] [

Minha burrice, né? Agora eu sou a ruim, mas a burra

aqui não faz filho brigar na rua, sabe por que ele brigou, hem? Sabe? ela aponta o dedo na cara do pai e desanda num choro esquisito. Não é choro alto nem calado, mais parece suspiro, gemido, como se alguma coisa tapasse a garganta, segurasse a fala. O menino não conhece este choro, um modo novo da mãe

sofrer, porque ela está sofrendo demais, está [

] (p. 43).

A mãe, sacudida da prostração, puxou o filho de lado. Abraçados, o tremor de um se prolongou no outro, quase derrubando-os. O pai desmorona no sofá e olha o vácuo, olhos de peixe morto, alheio. Os dois mal respiram, tensos (p. 44, 47).

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A mãe não está satisfeita com a vida que leva, mas com o intuito de preservar a cria e o próprio nome, aceita a violência imposta pelo marido, para além do desejo de liberdade. Com exceção de alguns resmungos, a vida segue sua normalidade, ainda que tenha medo e indignação. Cabe ao narrador, por suas estratégias narrativas, pela escolha lexical, pelas opções textuais, pelos significados discursivos construídos, pelos efeitos de sentido gerados pela arquitetura da novela, indiciar o suspiro pela liberdade e a crítica à opressão.

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3.2.2. Tias Marlene e Marina

Essas são as irmãs da “mãe” que aparecem no domingo com a filharada. Para o menino, com a chegada das tias recomeçaria a “lenga-lenga” de reclamações por parte dessas e também da mãe sobre o pai. Apesar de receberem nomes próprios, ao contrário da personagem “mãe”, percebemos que os nomes Marlene e Marina se iniciam pela partícula “mar”, que lembra “mér” em francês e que significa mãe. Ambas são mães e mulheres. Tia Marlene tem marido mulherengo e tia Marina, um que não trabalha. Elas e a irmã (“mãe”) tentam defender, cada uma delas, como sendo “sua” a desgraça maior a desgraça está no cônjuge, não é do sistema, não é da concepção civilizatória que ordena a sociedade. Elas têm consciência da opressão e de seu agente mais próximo, falta-lhes a compreensão de que são todos, agentes e pacientes, submetidos a uma ordem maior que simbolicamente os coagem. Para tia Marlene, a “mãe” do menino está melhor do que ela com um marido “beberrão”, melhor do que ela que tem um mulherengo. Para tia Marina, seu sofrimento é ter o marido em casa à toa, sem trabalho. Percebemos que para o menino, porém, que tudo observa, a tia reclama à toa, pois que o tio Wolninho, apesar de não trabalhar, cuida das crianças e ajuda na cozinha, sobrando, assim, tempo para a tia fofocar com a vizinha. Para o menino, o trabalho executado dentro de casa pelo tio, ainda que este não trabalhe, é considerado uma ajuda, e não uma obrigação, já que se trata de serviço designado às mulheres.

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O que as irmãs concordam é que pior seria ficar sem marido, pois que sem eles, seriam “mulheres largadas”. Eis o discurso que referenda a violência simbólica que as constrange e dá forma ao que pensam. Há um discurso conformado em tia Marina que acredita que, com a morte do cunhado beberrão, a irmã teria sua liberdade, era o caso apenas de ter paciência:

Paciência, um belo dia ele morre de cirrose, e sem um dedo de culpa sua; nem diante de Deus, nem diante dos meninos tia Marina sentencia (p. 14).

As tias são a representação da violência silenciosa e esta é para elas mais que justificada. A justificativa está na voz social que ecoa o modo de dominação construído pelas instituições, da religião à justiça, passando pela voz popular como se fosse a voz de Deus. Para Bourdieu (2002), a própria ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica, que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça, e que tem distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos sexos: reserva-se o mercado público aos homens e a casa, o domus, a vida restrita, às mulheres. Para essas mulheres, a liberdade não é maior do que o medo da solidão ou da maledicência. Parecem seguir a vida, sem muito questioná-la, e esperam passivas pela morte, único meio capaz de arrebentar os grilhões que as prendem a maridos inúteis aos quais desprezam. Mas, na novela de Alciene Ribeiro, assim como em suas outras obras, há sempre um suspiro de liberdade pelo qual a mulher pode escapar, pela qual seu narrador feminino, como um deus onisciente de saias e salto alto, representa a dor como denúncia, pela qual a violência simbólica e a violência física podem ser suplantadas, contornadas, uma vez que não podem ser elididas, pois o mundo encenado tem um referente que não homologa, no momento, mais do que a

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esperança. E há esperança, como há um doce na vitrine que será degustado na última linha da narrativa.

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3.2.3. Prima Sílvia

Essa é o desejo do primo, o “menino”. Na paquera com ela, afirma que a prima “é receptiva, claro”. Como o menino vê a prima, é possível descrever, inferir, divergir do estatuído socialmente ou fica bem claro que ele já a coisifica também? O pai também aponta a sobrinha da esposa como “objeto” de desejo:

Ah, entendi tudo, aquela prima dele está crescidinha, ele tem chamego pela bichinha. Você pensa que não vejo? É da idade, escuta só, ele é gamado nela. O moleque decerto sentiu pinicão e não ganhou o remédio o pai cai na gargalhada (p.

19).

Prima Sílvia ainda é jovem, mas já é objetificada, coisificada, vista como objeto da dominação masculina. Para a figura masculina, tanto do ponto de vista do pai, quanto do menino, ela é tentação, e, portanto, objeto de desejo e malícia. Como o pinguço é retratado de modo derrisório, por seus gestos, por suas palavras, pela embriaguez, pelo equilíbrio físico precário e moralmente deplorável, seu desejo quase incestuoso, sua fala exaltadora do desejo masculino sem freios e sem respeito ao desejo ou ao não-desejo feminino, eleva por antítese aqueles a quem agride. Nesse diapasão, Prima Sílvia, personagem evocada e passiva, ganha foros de agredida e desperta sentimento compassivo por oposição ao bêbado que a descreve.

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3.2.4. Tia Luiza (a professora)

Tia Luíza é professora tendo, portanto, estudado mais que as outras personagens. Ainda que sofra violência, pelo referido histórico de ser mulher, e pela razão de “abandonar” o lar, filhos ou marido, para trabalhar, isso não fica evidente na narrativa. Sua importância profissional não deve ser esquecida, já que se sabe pela história da educação que foram as mulheres as primeiras educadoras de nossas crianças. Almeida (2004) observa que a possibilidade de profissionalização feminina por meio do magistério primário foi uma forma das mulheres vislumbrarem a oportunidade de sustento sem a obrigação do casamento nem a humilhação de ter de viver da caridade alheia, marital. Durante o século XX, no Brasil, o plano educacional significou oportunidades educacionais para moças e meninas, proporcionando às mulheres, notadamente de classe média, a principal oportunidade de ingressar no mercado de trabalho. Argumenta a autora:

A possibilidade de aliar ao trabalho doméstico e à maternidade, uma profissão revestida de dignidade e prestígio social fez que ser professora se tornasse extremamente popular entre as jovens. Se, a princípio, temia-se a mulher instruída, agora tal instrução passava a ser desejável, desde que regulamentada e dirigida no sentido de não oferecer riscos sociais (ALMEIDA, 2004, p. 11).

Para Hashimoto e Simões (2012), desde as primeiras décadas do século XX tornou-se visível a presença feminina em distintos segmentos do mercado de trabalho, participação crescente entre 1920 e 1980, em meio ao processo de urbanização e industrialização da sociedade brasileira. O trabalho era importante não apenas como complemento da renda familiar, mas também por suas consequências sociais, tais como: transformações nas expectativas de

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realização pessoal e profissional, independência financeira, e alterações familiares entre a mãe e os filhos, por exemplo. Tia Luíza não está mais dentro de casa, e na sala de aula, onde exerce sua autoridade sobre os alunos, mostra-se dotada de força, capacidade e sensibilidade:

― Toda bebida que contém álcool é uma bebida alcoólica.

Atenção aqui, todo mundo, não é só ele não bate na mesa. A palavra se explica, bebida alcoólica, contém álcool. Escreve no quadro: álcool / alcoólica. Cerveja tem álcool, hem tia?

um gaiato perguntou lá atrás. Tem

olhou de soslaio para o menino, caiu em si. Vamos ao ponto,

cerveja tem álcool

quem não entendeu a fotossíntese? Voltou-se cúmplice para ele: Qualquer dúvida me procure depois da aula, viu? (p.

15).

Com posição firme sobre os alunos, ao perceber que a dúvida surgida tinha o propósito de constranger um deles, como uma figura materna, Tia Luíza demonstra compaixão para com o aluno agredido e esclarece que poderia ajudá-lo a sanar dúvidas também em outro momento, longe das chacotas dos colegas. A compaixão, com o sentido de se colocar no lugar do outro, como o faz a professora, também a liberta da rede de violência simbólica de outras personagens femininas. Na dor do outro, numa espécie de catarse, ela sai da posição de vítima e se torna autora da sua história.

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3.3 Ouço vozes?

Apesar das personagens femininas em Filho de pinguço se sujeitarem à violência simbólica, o narrador impõe elementos discursivos que indiciam um suspiro de liberdade, ainda que não concretizado. Seja pela fala da mãe quando, sob resmungos, fala da vontade de ganhar o mundo, ou pela condição da professora, Tia Luiza, que, sendo professora e tendo estudado, já se encontra no mercado do trabalho, essas mulheres procedem de modo diferente, tanto na narrativa quanto da história do século XX, na busca de oportunidades, de direitos e de liberdade. Na obra, percebemos que a mãe, na obrigação de guardar a cria, acaba por aceitar sua condição e fica ao lado daquele marido que a faz infeliz, mas o faz ensaiando queixas:

― Inferno é o meu, que tenho um nome a zelar, os meninos; não fosse, largava o traste ― mãe (p. 13).

Também em outras obras da escritora encontramos mulheres que reclamam de suas condições segregadas e que esperam a liberdade, como a personagem mãe de Nos beirais da memória (1989):

Mãe entregue, renega a dona de briga pelo acreditado nos

contrastes de ser. Parada nos olhos, não é a mãe que eu conheço, ciosa de teoria decorada defendida na raça e na língua.

O nervoso da mãe, rotina, até diverte.

― Faço jornada dupla, dois expedientes ― até três, e nada

ganho por isso. O Governo tem de pagar salário para dona de

casa, onde já se viu, exploram minha força de trabalho.

Essas ideias, mãe tira dos papeis, livros e revistas que o Tio Zil traz todo fim de semana.

Ela confirma minha certeza em ditos de que o pai nada

entende, é um alienado, insensível à luta de classes (p. 9).

] [

― Ah Deus, para que que servem as benditas aulas de Moral

e Cívica, os famigerados Estudos de Problemas Brasileiros?

Dona de Casa faz jus a salário, ela dá condições de trabalho a terceiros, ajuda na organização social. Não aparece, mas ai do

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país se entrássemos em greve, por exemplo, aí sim, dariam valor ao suor derramado no rabo do fogão (p. 13).

A personagem conhece seus direitos e tem a admiração por parte do

filho:

― Boa essa ― mãe riu. ― Mãe de família é a cinta que dá forma harmoniosa à sociedade. Não é a roupa do Presidente que eu lavo, mas lavo a de um trabalhador, peça importante ao todo orgânico. ― Oba! ― Neném aplaudiu. ― Vai falar bonito assim lá nas profundas, igual professora! (p. 13).

Alciene, no conto “Alforria para as hortênsias” (1987) apresenta esse suspiro de liberdade vindo de uma dona de casa, viúva, que se diz “a primeira mãe alforriada por tempo de serviço”, mas que, em pleno Dia das Mães, tem a alforria quebrada e se vê fazendo café enquanto os filhos e netos estão entregues à televisão:

Muitas rodadas de café depois, do alto da revolta amordaçada, diz, chega. Mas no quarto, reduto do seu fortim depredado, a trégua cheira amoníaco. O aviso de parada proibida no círculo molhado da colcha nova. De sentinela o riso do pequeno anarquista, tão recém-nascido e já no exercício do cinismo. Cata as sobras do domingo, dia das mães, e espera, torcendo o avental, que se deem ao respeito (p. 6).

Já no conto “Ave Maria das Graças Santos” (1984), o narrador assume o discurso indignado contra o feminicídio, cometido em close narrativo de violência que chega ao asco, e iguala assassino e assassinato aos que não se indignam e reagem ao narrado, e à sociedade, cúmplice do machismo que vê sua intangível honra na liberdade do corpo feminino. Algumas personagens femininas, cientes de seus direitos, almejam a liberdade e suspiram, mas ainda estão longes de quebrar a clausura imposta pelos desejos de uma sociedade patriarcal.

― A panela vai queimar ― esquiva-se, desgostosa.

― Deixa queimar, uai! ― o pai, autoritário.

69

― A janta, bem! agora não posso sentar não― a mãe tenta conciliar, medrosa (p.19).

70

3.4 Para além da desilusão

Para além da desilusão, poderia uma obra como a novela Filho de pinguço, de Alciene Ribeiro, ser direcionada a crianças ou adolescentes, se corre o risco de pouco acrescentar a vidas já sem esperança? Tal desesperança, subentendida como fecho melancólico do livro, ainda que matizada pelo doce a que a personagem-criança terá acesso, pode contribuir para uma leitura formadora de crianças, adolescentes e jovens? Como faria isso? Ou seja, do mundo circular de humilhação e medo, do pai que, em casa, está alcoolizado e que da rua chega embriagado, o que pode ser esperança, o que pode ser consciência transformadora? Como o texto pode ser lido por crianças ou adolescentes que tomam conhecimento do problema ou vivenciam pela ficção um problema doméstico, e ir além do drama insolúvel? Laura Degaspare Monte Mascaro (2011) afirma que a literatura pode ter

o papel de veicular discursos que legitimam e fazem compreender as ideias dos homens e dos povos que os proferem. A literatura é capaz de trazer a surpresa e

a inovação que carregam todos os homens enquanto seres únicos e originais. A

literatura também vem a serviço de pessoas isoladas do convívio social, ou das esferas políticas oficiais, correndo por fora e acima, disseminando discursos:

A literatura nos devolve um olhar originário para o mundo,

possibilitando que nos deparemos com a questão da identidade

e de nossa relação com o outro de forma mais autêntica, escapando à impessoalidade e à medianidade, porque descobrimos um olhar para o mundo que não ambiciona dominá-lo, ou ao outro (MASCARO, 2011, p. 203).

A leitura de Filho de pinguço, para além da desilusão, representa o papel da literatura como a garantia de direito humano, como meio de garantir o olhar crítico sobre o outro para conhecimento e reflexão. Para além do doce que finalmente terá em mãos, e que representa um objeto de desejo acalentado pela criança desde a primeira vez que vai ao bar, o modo caricato do pai descrito

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pelo narrador é derrisório, e pelo riso literário, em lição subliminar, o leitor descarta tal modo de ser, pois o vê como indigno de ser seguido. Eis a construção da narrativa, pelas escolhas que faz, construindo efeito de sentido cujo significado, entre a adesão à criança e às mulheres e a rejeição ao pai pinguço, forja visão de mundo compatível com o processo formador da criança a ser realçada em sala de aula.

No final, há um suspiro

73

Ainda que, em Filho de pinguço, a personagem central seja um menino, sobretudo pela evidência do título, e ainda que estejam ao fundo da cena, sob a aparente capa de personagens secundárias, são as personagens femininas que mereceram nossa atenção e estudo neste trabalho. A atuação das personagens femininas se destaca no drama encenado na narrativa de Alciene Ribeiro. Para descrever a novela, tivemos contato com a fortuna crítica de sua obra, fortuna ainda incipiente, e nos debruçamos sobre os poucos dados biográficos disponíveis. Aduzimos a essas informações uma pequena entrevista que realizamos com a escritora (ver Apêndice), depois de concluída nossa análise, e as declarações que colhemos da escritora homologam conclusões a que chegamos com o nosso estudo. O conceito teórico central de que nos valemos para o estudo da atuação das personagens foi o de violência simbólica, proposto por Pierre Bordieu (2002). Abrimos este trabalho de conclusão de curso com epígrafe disponível no Acervo Alciene Ribeiro, que se encontra no Programa de Pós-Graduação em

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Letras Mestrado e Doutorado da UFMS do Campus de Três Lagoas. No livro Orelhas de aluguel, o escritor, acadêmico, filólogo e professor universitário Deonísio da Silva, em dedicatória manuscrita no livro Orelhas de aluguel que enviou a Alciene, anotou:

Para Alciene, bonita, erótica, e tão boa escritora como Santa Teresa d´Ávila, com afagos do fã de vocês duas e seu leitor.

Deonísio da Silva

setembro/1988

A escritora de contos de cunho erótico não comparece à novela Filho de

pinguço. Quanto aos predicados físicos, Alciene faz comentário singelo e auto irônico (ver Apêndice). No essencial, comentou que tal dedicatória serviu para

lhe “lamber o ego”. E a qualidade da escritora, incensada por Deonísio, o estudo da novela nos demonstra e realça. Filho de pinguço, como as demais narrativas de Alciene Ribeiro, trata de problemas candentes, normalmente

transformados em dramalhões na mão de escritores menos talentosos, formatando narrativa pungente, sóbria, delicada, capaz de ser lida por adolescentes do final do ensino básico a empedernidos universitários com igual deleite e proveito.

A obra de Alciene Ribeiro se erige como eco da voz plural da mulher

brasileira do final do século XX, como choro, como ranger de dentes, como drama e dor, mas também como registro da luta e das conquistas que surgem do suspiro das mulheres no recesso do lar ou no selvagem mercado de trabalho, da conquista diária e permanente, pois Alciene Ribeiro encena em sua obra o suspiro da liberdade da mulher brasileira de seu tempo. Apesar de lançada no final do século passado, em 1983, a obra apresenta temáticas atuais e relevantes para a sociedade, como o problema do alcoolismo, que atinge milhares de famílias brasileiras, e a condição feminina. No primeiro

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capítulo, a partir de estudos amplos sobre a mulher, fizemos um breve

apanhado histórico sobre a trajetória da condição feminina no Brasil até o século XX, salientando as condicionantes sociais, culturais, históricas e institucionais herdadas pelas mulheres da atualidade.

As mulheres são, em sua maioria e desde sempre na sociedade brasileira,

segregadas pelos afazeres domésticos, a rotina familiar, o cuidado com os filhos

e a obediência aos desejos do marido; elas estão “presas” à televisão, mas

também, e principalmente, submetidas à violência simbólica, imposta ora pelo companheiro, ora pelo filho, ora pela família, ora por certo difuso entorno social, ora por outras mulheres. São vistas apenas pela função de organizadora do lar e como objeto de desejo. Ainda que insatisfeitas, demonstrando isso aqui ou ali e de modo mais evidente quando com outras mulheres, parecem preferir

aceitar os maus tratos de que são vítimas; no caso da mãe da novela, ela prefere

a verborreia do marido, sua bebedeira e a falta de dinheiro, a viver sozinha, passando a ser uma “largada” diante da sociedade.

A violência na obra não é vivenciada apenas na pele, é, sobretudo,

silenciosa, embora sensorial, pois que há (maus) cheiros, espaço degradado e gritos. A violência é principalmente contra a alma, já que a mulher tem suas vontades e desejos desrespeitados: as mulheres da novela de Alciene são vítimas constantes de maus tratos e desprezo por parte dos cônjuges. O trabalho dentro de casa não é visto como uma função útil e, sob o império do casamento, são obrigadas a servir ao marido, seja na mesa ou na cama. A condição feminina retratada nas personagens secundárias de Filho de pinguço surge em outras narrativas de Alciene como protagonista da cena. Mencionamos, ao longo deste trabalho, o romance Nos beirais da memória e alguns contos da escritora. Em cada uma dessas narrativas, seja no discurso das personagens femininas, seja no modo de narrar imposto pelo narrador, seja na focalização, seja na adesão do narrador à ótica da mulher, fica ressaltado o

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sentimento de empatia do arquinarrador 16 de Alciene Ribeiro com a superação da condição feminina sob o jugo machista patriarcal. As mulheres de hoje ― no referente histórico e social dos grandes centros urbanos brasileiros ― ocupam funções importantes em grandes empresas, já decidem quando e com quem querem ter filhos, assim como com quem morar. Não se incomodam tanto com a condição de solteiras, ainda que muitas ― a maioria ― aspirem ao casamento e, ainda que não sejam vistas com bons olhos, já não esperam que suas decisões sejam engendradas por outras pessoas. Ainda assim sofrem preconceito, são mal remuneradas mesmo que nas mesmas funções exercidas por homens, e são vistas como objetos de desejo, seja pelos homens, seja pela sociedade. Ainda são inúmeras as propagandas veiculadas pela mídia televisa ostentando mulheres em trajes minúsculos e com o título de “causadoras do pecado”. Quando ofendidas, recebem xingamentos não pelo que “fizeram” de errado, mas sempre com cunho sexual, chamadas “vagabundas”, “piranhas” etc., ou pelas suas características físicas, ditas “feias”, “horrorosas” ou “bregas”. Sua competência ainda não vale mais que seu bom corte de cabelo, nem mais que suas unhas bem-feitas e terninho impecável. E ainda são estupradas, assassinadas em nome da honra, e castigadas em nome de Eva. Os números de violência contra as mulheres são alarmantes e crescentes no Brasil e no mundo. Para se ter ideia do problema, o serviço de denúncia LIGUE 180, oferecido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, criado em 2005, e com o objetivo de receber denúncias de violência e de orientar as mulheres sobre seus direitos, registrou em 2015 o equivalente a 749.024 atendimentos 17 .

16 Conceito de Ismael Cintra. Ler <http://seer.fclar.unesp.br/letras/article/view/322>.

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A situação, porém, não é nova, e sequer se pode dizer que melhorou:

O critério de sexo tem sido fundamental para demarcar a menos valia das mulheres traçando, ao longo dos séculos, um caminho de menor titularidade. Se na Grécia Antiga as

mulheres e os escravos estavam excluídos dos direitos de cidadania, era, entretanto, teoricamente possível ao escravo alcançar a liberdade em virtude de feitos heroicos. Mas, para as mulheres não havia possibilidade de superar sua condição de

sexo [

]

(PITANGUY in BARSTED e PITANGUY, 2011, p.24).

Alciene Ribeiro, em sua obra, e na construção ficcional das personagens femininas de Filho de pinguço, é a voz feminina falando por outras mulheres. Conforme sua trajetória de vida e profissional, iniciada tardiamente, há de ter percebido, ou algumas vezes vivenciado, pequenas lacunas na vida de muitas mulheres. Há um início da quebra da violência simbólica em algumas personagens da novela. Umas já estudam, algumas já ensaiam as primeiras vozes de revolta, mas ainda estão longe ― toda elas! ― da liberdade.

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81

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LEITE, Alciene Ribeiro. Eu choro do palhaço. Prêmio Galeão Coutinho, da UBE. Belo Horizonte: Comunicação, 1978.

LEITE, Alciene Ribeiro. Filho de pinguço. Prêmio Coleção do Pinto. 3. ed. Belo Horizonte: Lê,1989.

LEITE, Alciene Ribeiro. Nos beirais da memória. Prêmio Concurso Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte”. Belo Horizonte: Prefeitura de Belo Horizonte; UFMG, 1989.

SITES CONSULTADOS

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morre-em-belo-horizonte-1.438461>. Acesso em: 20 fev. 2016.

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escritor/>. Acesso em: 18 fev. 2016.

83

Anexo

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Pagu

(Rita Lee e Zelia Duncan)

 

Uh! Uh!

Mexo, remexo na inquisição Só quem já morreu na fogueira Sabe o que é ser carvão Uh! Uh! Uh! Uh!

Eu sou pau pra toda obra Deus dá asas à minha cobra Hum! Hum! Hum! Hum!

Minha força não é bruta Não sou freira, Nem sou puta

Porque nem! Toda feiticeira é corcunda Nem! Toda brasileira é bunda Meu peito não é de silicone Sou mais macho que muito homem

Nem! Toda feiticeira é corcunda Nem!

Fama de porra louca Tudo bem! Minha mãe é Maria Ninguém Uh! Uh!

Não sou atriz Modelo, dançarina Meu buraco é mais em cima

Porque nem! Toda feiticeira é corcunda Nem! Toda brasileira é bunda Meu peito não é de silicone Sou mais macho que muito homem

Nem! Toda feiticeira é corcunda Nem! Toda brasileira é bunda Meu peito não é de silicone

Toda brasileira é bunda

Sou mais macho que muito homem

(2x)

Meu peito não é de silicone Sou mais macho que muito homem

Ratatá! Ratatatá

Hiii! Ratatá

Ratatá! Ratatá! Ratatá! Taratá! Taratá!

Taratá! Taratá!

Sou rainha do meu tanque Sou Pagu indignada no palanque Hanhan! Ah! Hanran!

Letra e áudio disponível em <

http://www.vagalume.com.br/rita-

lee/pagu.html >, acesso em 20 de março de 2016.

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Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor

A Banda

(Chico Buarque)

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e

insistiu

A lua cheia que vivia escondida surgiu

Minha cidade toda se enfeitou Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto

O

homem sério que contava dinheiro parou

O

que era doce acabou

O

faroleiro que contava vantagem parou

Tudo tomou seu lugar

A

namorada que contava as estrelas parou

Depois que a banda passou

Para ver, ouvir e dar passagem

 

E

cada qual no seu canto

A

moça triste que vivia calada sorriu

Em cada canto uma dor

A

rosa triste que vivia fechada se abriu

Depois da banda passar

E

a meninada toda se assanhou

Cantando coisas de amor

Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou

Letra e áudio disponível no site Vagalume, acesso em 20 de março de 2016.

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Apêndice

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Entrevista concedida pela escritora Alciene Ribeiro, por telefone, no dia 20 de março de 2016, a Juliana Cláudia Amorim.

Juliana - Como foi sua trajetória profissional?

Alciene Sempre gostei de escrever, mas a vontade de escrever profissionalmente veio quando já era casada. Não tinha muita experiência, mas resolvi mostrar três contos para o escritor Luiz Vilela, que me disse que dois eram perfeitamente publicáveis, mas que o terceiro era horrível. Comecei a participar de pequenos concursos na minha região, mas tudo foi muito difícil. O marido era sistemático e a sociedade não via com bons olhos uma mulher, mãe de família, nessas condições. Na tentativa de agradar ao marido resolvi usar o nome Alciene Ribeiro Leite, com o sobrenome dele ao final, mas hoje, teria feito diferente. Penso que, como marca, um nome mais curto seria melhor. Já basta que meu nome é complicado, não é? (Risos)

Juliana Filho de pinguço tem uma razão especial?

Alciene Tive um irmão alcoólatra e acompanhei todo os problemas dele, mas o enredo da história é ficcional.

Juliana Existiu uma pesquisa específica para a escrita dessa obra?

Alciene Não fiz uma pesquisa específica. Eu apenas estou observando a vida o tempo todo e escrevo o que vem de dentro. Eu quis falar do sofrimento de uma família com o problema.

Juliana Percebemos que a temática da mulher é recorrente em sua obra. Por quê?

Alciene Eu vivi um pouco isso e com a vivência é fácil falar sobre o assunto. Na obra, marido e mulher são frustrados. Ela está infeliz e não quer se aproximar daquele homem bêbado, que nem toma banho. As mulheres são às vezes muito tolhidas.

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Juliana Para a senhora, quais seriam as marcas das personagens femininas de Filho de pinguço?

Alciene As mulheres são infelizes e sem liberdade.

Juliana A mãe, em Filho de pinguço, chora só com o olho: como seria esse choro?

Alciene Quando o choro é só com o olho, há sentimento. É a mãe cuidando da cria. Quando o choro tem gritos, é sinal de revolta.

Juliana A senhora chora só com o olho?

Alciene Sim, Juliana (risos).

Juliana Percebemos que há um intervalo em sua escrita ficcional. Quando a senhora a retomou?

Alciene Sempre estive disposta a me entrosar no mundo da escrita, sendo uma das fundadoras da Associação de Escritores em Belo Horizonte, mas tudo sempre foi muito difícil, principalmente para uma mulher. Meu marido me acompanhava de certa forma, mas isso também me tolhia um pouco. Depois vieram as tecnologias, a internet, e eu ainda não me sinto à vontade. Não leio blogs nem nada, apenas tenho um e-mail.

Juliana Quando e por qual razão começou a escrever obras espíritas?

Alciene Coincidentemente, com a descoberta da doutrina espírita, achei que precisava me recolher um pouco. Achei que deveria usar o meu dom de escrever para falar a outras pessoas. Não escrevo obras mediúnicas, falo sobre a doutrina. Tenho alguns romances e histórias infantis. Passo noções de religiosidade. Muitas pessoas não entendem isso e meu recolhimento serviu para diminuir o patrulhamento.

Juliana Existe algum projeto em execução? Algum romance inédito?

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Alciene Há, sim, Juliana. Um romance nascido após minha única conversa com Chico Xavier. Um livro que reúne duas décadas de escrita e que ficou longo demais, com muitas personagens. Penso que terei que o dividir em dois volumes, e ainda terei que trabalhar bastante nele para alguns ajustes que evitem dificuldade de compreensão.

Juliana Gostaria que a senhora me falasse a respeito da dedicatória escrita por Deonísio da Silva em setembro de 1988, epígrafe de meu trabalho.

Alciene Ah, fiquei lisonjeada. Fui bonita realmente, não sou mais, mas erótica? Não sei. Não sei, mas lambeu meu ego. Gostei muito.

Juliana Meu trabalho versa sobre a representação feminina em Filho de pinguço. O que senhora pensa sobre a condição das mulheres na atualidade?

Alciene Algumas mulheres ainda estão presas, sobretudo em relação ao casamento. Eu penso que o homem e a mulher têm que entender que o casamento demanda auxílio mútuo. Eu mesma casei com um homem que era dez anos mais velho que eu e não sabia coar um café. Desconfio que não me lia, mas começou algumas leituras. Não sou a favor de um feminismo arraigado, mas, ao contrário do ditado que diz que atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher, acredito que os dois caminhem juntos, ao lado um do outro.

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Concluiu-se este trabalho em 21 de março de 2016, e a versão definitiva em abril de 2017.