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POR QUE UMA PESSOA SE MATA

Por que uma pessoa se mata?


Entenda o que gera o comportamento e como este gesto extremo pode ser evitado
Por Maria Fernanda Vomero
access_time 12 jan 2018, 17h08 - Publicado em 31 dez 2002, 22h00
O desespero beira o insuportável. A cada dia, o sofrimento – físico ou emocional – fica mais intenso e viver torna-
se um fardo pesado e angustiante. Sua dor parece incomunicável; por mais que você tente expressar a tristeza que
sente, ninguém parece escutá-lo ou compreendê-lo. A vida perde o sentido. O mundo ao seu redor fica insosso. Você
sonha com a possibilidade de fechar os olhos e acordar num mundo totalmente diferente, no qual suas necessidades
sejam saciadas e você se sinta outro. Será que a morte é o passaporte para essa nova vida?

Atire a primeira pedra quem nunca pensou em morrer para escapar de uma sensação de dor ou de impotência
extremas. Parece comum ao ser humano experimentar, pelo menos uma vez na vida, um momento de profundo
desespero e de grande falta de esperança. Os adjetivos são mesmo esses: extremo, insuportável, profundo. Mas, aos
poucos, os seus sentimentos e idéias se reorganizam. Suas experiências cotidianas passam a fazer sentido novamente
e você consegue restabelecer a confiança em si mesmo. Você descobre uma saída, procura apoio, encontra
compreensão. Aquele desejo autodestrutivo, aquela vontade de resolver todos os problemas num golpe só, se dilui.
E você segue adiante. Muitos, no entanto, não conseguem encontrar uma alternativa. O suicídio, para esses, parece
ser a última cartada, o xeque-mate contra o sofrimento, um gran finale para uma vida aparentemente sem sentido,
para um presente pesado demais ou para um futuro por demais amedrontador. E eles se matam.
Imperscrutável, no limite, o suicídio não tem explicações objetivas. Agride, estarrece, silencia. Continua sendo tabu,
motivo de vergonha ou de condenação, sinônimo de loucura, assunto proibido na conversa com filhos, pais, amigos
e até mesmo com o terapeuta. Mas as estatísticas mostram que o suicídio precisa, sim, ser discutido. Trata-se, além
de uma expressão inequívoca de sofrimento individual, de um sério problema de saúde pública. Segundo o mais
recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 804 mil pessoas se mataram no ano 2012 em
todo o mundo – uma taxa de 11,4 para cada 100 mil habitantes. Isso significa um suicídio a cada 40 segundos. A
“violência autodirigida”, como o suicídio é classificado pela OMS, é hoje a 14ª causa de morte no mundo inteiro. E
a terceira entre pessoas de 15 a 44 anos, de ambos os sexos. Não pode mais ser ignorada.

(iEverest/iStock)

Casos de suicídio muitas vezes são deliberadamente mascarados nas estatísticas oficiais. Suicídios de
crianças tidos como morte acidental ou acidentes de automóvel, causados por jovens que dirigem
alcoolizados e em alta velocidade: para os especialistas, esses são, sim, atos suicidas. “Se você investigar
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a vida dessas crianças e jovens semanas ou meses antes da morte, pode identificar sinais de que algo não
ia bem”, diz a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de
São Paulo (USP). A poeta americana Sylvia Plath (1932-1963) tentou se matar duas vezes antes de
concretizar o suicídio (tais experiências levaram-na a escrever o romance A Redoma de Vidro). Uma das
vezes foi um “acidente de carro”. Aparentemente, Sylvia perdera os sentidos no volante e deixara o carro
sair da estrada e ir ao encontro de um aeródromo. Segundo o crítico literário Alfred Alvarez, amigo da
poeta, a própria Sylvia admitiu que saíra intencionalmente da estrada, com o objetivo de morrer.
“Todos já pensamos em suicídio em algum momento na vida. É um pensamento humano. Se não
desejamos nos matar, ao menos cogitamos morrer – morrer para escapar do sofrimento, para nos vingar,
para chamar a atenção ou para ficar na história”, diz o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla,
da Sociedade Brasileira de Psicanálise, um dos maiores especialistas brasileiros em suicídio. “Mas
resolvemos continuar vivos e melhorar as nossas condições de vida. O suicídio, então, soa como um
desatino. A pergunta que fica é: por que algumas pessoas desistem e outras não?”

Por trás do comportamento suicida há uma combinação de fatores biológicos, emocionais, socioculturais,
filosóficos e até religiosos que, embaralhados, culminam numa manifestação exacerbada contra si mesmo.
Para decifrá-los, os estudiosos recorrem à “autópsia psicológica”, um procedimento que tem por
finalidade reconstruir a biografia da pessoa falecida por meio de entrevistas e, assim, delinear as
características psicossociais que a levaram à morte violenta.

“Existem causas imediatas predisponentes – como perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente
querido ou falência financeira – que agem como o último empurrão para o suicídio”, diz a psicóloga
Blanca Guevara Werlang, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS),
especialista em autópsia psicológica. “A análise das características psicossociais do indivíduo, porém,
revela os motivos que, ao longo da vida, o auxiliaram a estruturar o comportamento suicida. Pode mostrar
as razões para morrer que estavam enraizadas no estilo de vida e na personalidade.”

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query_builder 14 jan 2015 - 22h01

Fenômeno complexo, o suicídio configura um assassinato, em que vítima e agressor são a mesma pessoa.
“A definição de suicídio implica necessariamente um desejo consciente de morrer e a noção clara de que
o ato executado pode resultar nisso. Caso contrário, é considerado morte por acidente ou negligência”,
diz o psiquiatra José Manoel Bertolote, líder da Equipe de Controle de Transtornos Mentais e Cerebrais
do Departamento de Saúde Mental e Toxicomanias da OMS.

O fato de estar consciente de que vai efetuar um ato suicida não elimina, no entanto, o estado de confusão
mental que o indivíduo experimenta momentos antes da ação. “Ele não sabe se quer morrer ou viver, se
quer dormir ou ficar acordado, fugir da dor, agredir outra pessoa ou, de fato, encontrar o mundo com o
qual fantasia”, diz Roosevelt. Afinal, o suicida tem diante de si duas iniciativas complexas e contraditórias
a conciliar naquele momento: tirar a vida e morrer. O suicídio ocorreria, então, num instante em que a
pessoa se encontra quase fora de si, fragmentada, com os mecanismos de defesa do ego abalados e, por
isso, “livre” para atacar a si mesma.

Há suicídios e suicídios. Por isso, os especialistas costumam avaliar a tentativa de se matar ou o ato
propriamente dito a partir de duas variáveis: a intencionalidade e a letalidade. A primeira diz respeito à
consciência e à voluntariedade no planejamento e na preparação do ato suicida. A segunda, ao grau de
prejuízo físico que a pessoa se inflige. Existem casos em que o indivíduo demonstra evidente intenção de
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morrer e alto grau de letalidade, ao optar por um método eficiente. Em outras ocorrências, a vontade de
morrer é fraca, apesar de voluntária, e o método escolhido é pouco prejudicial. Ou seja: há casos de
suicidas propriamente ditos. E há casos em que a pessoa só está pedindo socorro, implorando para ser
resgatada. E outros, cujo objetivo é mesmo acabar com a própria vida, por desconhecimento da maneira
mais efetiva de causar danos graves a si mesmos, acabam sobrevivendo. (Aliás, esses, se não receberem
tratamento adequado, são candidatos a uma nova tentativa.)

“Minha cabeça não recupera”*

Dados da OMS indicam que o suicídio geralmente aparece associado a doenças mentais – sendo que a
mais comum, atualmente, é a depressão, responsável por 30% dos casos relatados em todo o mundo.
Estima-se que uma em cada quatro pessoas sofrerá de depressão ao longo da vida. Entre os subtipos, a
depressão bipolar – em que fases de euforia e apatia profundas se alternam – parece ser a de maior risco.
O alcoolismo responde por 18% dos casos de suicídio, a esquizofrenia por 14% e os transtornos de
personalidade – como a personalidade limítrofe e a personalidade anti-social – por 13%. Os casos restantes
são relacionados a outros diagnósticos psiquiátricos.

Estudos de autópsia psicológica (feitos com base em entrevistas com amigos, familiares e médicos do
suicida) mostram que mais de 90% das pessoas que se mataram no mundo tinham alguma doença mental.
Entretanto, doenças psiquiátricas não são condição suficiente para o comportamento suicida, já que outros
fatores – emocionais, socioculturais e filosóficos – também entram em jogo. Na verdade, essas doenças
provocam uma vulnerabilidade maior ao suicídio. “É comum que a pessoa, quando está com depressão,
tenha pensamentos pessimistas, ache que a vida não vale a pena e que talvez fosse melhor morrer”, diz o
psiquiatra Humberto Corrêa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Mas a maioria dos
deprimidos não tentará se matar. Somente os mais impulsivos e agressivos procuram o suicídio.”

(iEverest/iStock)

Hoje, sabe-se que indivíduos com alteração no metabolismo da serotonina – um dos mensageiros químicos
mais importantes do nosso cérebro – apresentam maior risco de suicídio que os demais. Em sua pesquisa
sobre a genética do comportamento suicida, Humberto analisou pacientes com depressão e esquizofrenia
e constatou que todos aqueles que haviam tentado se matar tinham a chamada função serotoninérgica
diminuída. (Ou seja, problemas no conjunto das etapas que envolvem a participação da serotonina: sua

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síntese, sua ligação com os receptores celulares e seu transporte. Se há falha em alguma etapa, a atuação
desse neurotransmissor se reduz.)

“Quanto maior a intencionalidade suicida e mais letal o método usado, menor a função cerebral da
serotonina”, diz Humberto. O próximo passo é pesquisar que genes ligados ao funcionamento da
serotonina – são mais de 20 – poderiam estar mais associados ao comportamento suicida. Diversos grupos
internacionais dedicam-se a estudos desse tipo. O psiquiatra Pavel Hrdina, diretor do Laboratório de
Neurofarmacologia da Universidade de Ottawa, Canadá, descobriu que pacientes depressivos portadores
de uma mutação no gene responsável por codificar um dos receptores da serotonina apresentavam duas
vezes mais chances de cometer suicídio que aqueles sem a mutação. “A alteração nesse gene aumenta o
risco de ideação suicida e de tentativas de autodestruição em casos de depressão grave”, diz Hrdina. Os
cientistas tentam agora entender a relação direta entre a serotonina e o suicídio.

“Há uma forte evidência de que a serotonina inibe o comportamento violento, agressivo e impulsivo. Mas
o que sabemos sobre a ligação entre esses comportamentos e o suicídio?”, escreve a psiquiatra americana
Kay Redfield Jamison, portadora de depressão bipolar, familiarizada com a ideação suicida (ela mesma
já tentou se matar) e autora do livro Quando a Noite Cai. “Embora muitos pacientes tenham planos bem
formulados para o suicídio, a cronometragem definitiva e a decisão final para a ação costumam ser
determinadas por impulso.” Portanto, os fatores biológicos são particularmente importantes para a decisão
sobre quando apertar o botão “morrer”.

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19 abr 2017 - 15h04

A participação genética no suicídio vem sendo pesquisada desde a década de 1920. Um estudo feito na
Dinamarca mostrou que os parentes biológicos de pessoas que foram adotadas quando recém-nascidas e
que se suicidaram posteriormente tinham taxas de suicídio significativamente maiores que as observadas
entre os parentes adotivos. Entre gêmeos idênticos, de acordo com uma pesquisa americana, a
possibilidade de um irmão se matar caso o outro já tenha se suicidado gira em torno de 15%. Para os
gêmeos não-idênticos, a taxa cai para 2% ou 3%.

Tal componente genético poderia explicar, em parte, os casos de suicídio numa mesma família. Filhos de
pais depressivos teriam uma predisposição maior à doença. Por isso, muitos especialistas incluem os
parentes de um suicida no grupo de risco. Mas, no caso de padrão familiar para o suicídio, não só a
genética pode exercer influência sobre o comportamento, mas também o modelo presente naquele núcleo
social. Filhos podem se inspirar na solução que pais suicidas encontraram, por exemplo, de usar a morte
como saída para um conflito.

“Desculpa, não consegui”*

O escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950), 12 anos antes de se matar com barbitúricos, tinha escrito:
“Ninguém nunca deixa de ter um bom motivo para o suicídio”. A angústia existencial do suicida sempre
vai fornecer justificativas para a sua morte. Ele sempre poderá enxergar a vida sem sentido ou ver
prevalecer em si um sentimento neurótico de desvalia, derrota e de baixa auto-estima. Daí a criação de
fantasias em torno da morte. Como se trata de um fenômeno pouco entendido e também considerado tabu,
o suicídio geralmente é recriado de acordo com as expectativas do indivíduo. O suicida não pensa, por
exemplo, que vai se decompor e virar pó.

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“O suicídio é um ato de linguagem, de comunicação. Como vivemos numa rede de relacionamentos, a


nossa morte significa algo para as outras pessoas”, diz a psicóloga Maria Luiza Dias Garcia, coordenadora
da Clínica de Psicoterapia Laços, em São Paulo, que analisou mensagens (bilhetes, cartas, gravações)
deixadas por suicidas no livro Suicídio – Testemunhos do Adeus. “Constatei, pelos discursos, que o suicida
está num quadro de embotamento, como se estivesse afogado nas próprias emoções. Ele não aproveita os
vínculos sociais para partilhar seus sentimentos e vê o mundo de uma maneira muito própria.” O suicídio,
então, torna-se um meio de expressão, uma fala que não pôde ser dita.
Os especialistas costumam diferenciar as tentativas de suicídio do ato em si, uma vez que, de acordo com
a intencionalidade e a letalidade, o gesto pode assumir sentidos diferentes. As tentativas de se matar são
vistas como um grito por ajuda, sintoma de uma falha tanto no sistema familiar quanto no grupo social.
“O indivíduo não consegue pedir socorro de outro modo, então opta por um ato extremo”, diz a psicóloga
Denise Gimenez Ramos, da PUC de São Paulo. “Por que ele não foi ouvido? Todos dão conselhos, mas
ninguém ouve o que ele tem a dizer. Esse indivíduo, portanto, fica com a impressão de que não existe
para o mundo.”

Incapazes de comunicar a própria dor, os suicidas recorrem a algumas fantasias para justificar a si mesmos
a autodestruição. A busca de uma outra vida é uma das mais comuns. O indivíduo enxerga no suicídio a
oportunidade de interromper uma existência infeliz e recomeçar, com uma nova chance para acertar.
Matar-se também pode ser um jeito de acelerar o reencontro com pessoas queridas já mortas – o pai, a
avó, um amigo, o cônjuge. Outras fantasias comuns acerca do suicídio: gesto de rebeldia, castigo ou
autopenitência. “A idéia da não-existência é tão insuportável que a mente humana inevitavelmente recorre
às fantasias para levar adiante o projeto de auto-aniquilamento”, diz Roosevelt Cassorla. Mas o indivíduo
nem sempre tem acesso consciente a essas fantasias.

O psicólogo Valdemar Angerami-Camon, do Centro de Psicoterapia Existencial, chefiou por quatro anos
o Serviço de Atendimento aos Casos de Urgência e Suicídio da Secretaria Municipal de Saúde de São
Paulo e constatou como tais fantasias estão presentes na mente daqueles que querem se matar. “O que me
impressionava eram as pessoas que tentavam suicídio dizerem que não queriam morrer”, diz Valdemar.
“Como alguém tenta o suicídio e diz que não quer morrer? Na verdade, queriam acabar com uma situação
de desespero. Como não conseguiam ver outra alternativa, recorriam ao suicídio. Mas, ao depararem com
a possibilidade concreta da morte, percebiam que não queriam, de fato, morrer.”

O psiquiatra Claudemir Rapeli, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor de dois extensos
trabalhos sobre suicídio, também constatou esse sentimento em boa parte dos suicidas que atendeu no
Hospital das Clínicas de Campinas. “O arrependimento é imediato. Reconhecem que foi uma atitude
impulsiva, desesperada, ansiosa.” Claudemir conta a história de um rapaz de 18 anos que tentou suicídio
tomando um agrotóxico letal. (A substância provoca, em algumas semanas, uma espécie de fibrose
pulmonar que impede a respiração normal e o indivíduo morre sufocado.) “Quando ele começou a sentir
que não ia melhorar, que os médicos não podiam fazer mais nada, o pânico dele foi comovente”, afirma.
“A motivação foi banal – uma briga com a namorada por achar que ela o estava traindo. Tomou o veneno
para livrar-se da rejeição, mas não queria a morte. Ele pedia a todos os médicos que não o deixassem
morrer.”

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(iEverest/iStock)

Você pode argumentar que muita gente se vê em situações de grande desespero ou solidão existencial e,
mesmo assim, não busca o suicídio. O que faz a diferença? Na verdade, não existe uma personalidade
suicida – existe, sim, uma vulnerabilidade emocional (que pode ser trabalhada com o apoio de um parente,
um psicoterapeuta ou um amigo). “Quem tem uma estrutura de ego frágil pode não suportar uma grande
perda ou um momento de crise e, num impulso, acaba cometendo o suicídio”, diz Ingrid Esslinger. O ego
se constitui a partir dos primeiros vínculos afetivos, do modo com que o bebê foi cuidado pelas figuras de
apego e da educação que a criança recebeu. Um ego fraco não tolera a frustração, não tem capacidade de
espera, não suporta lidar com a impotência, com os limites e com os “nãos” que a vida impõe.

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13h07

“O sistema mata!”*

Mesmo sendo resultado de uma escolha individual, o suicídio também é visto como uma questão social.
O pioneiro no estudo desse campo foi o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), com o clássico
O Suicídio, de 1897. “Existem vários estudos comprovando a influência da cultura, do ambiente e da
religião sobre as taxas de suicídio, seja como facilitadores, seja como limitantes”, afirma José Manoel
Bertolote. Ele e a equipe do Departamento de Saúde Mental e Toxicomanias da OMS publicaram
recentemente um estudo, numa revista científica norueguesa, mostrando que as taxas de suicídio mais
baixas encontram-se em países islâmicos, seguidos de países hinduístas, cristãos (mais baixas em católicos
que em protestantes) e budistas, nessa ordem.
As taxas mais altas vêm de países “ateus”, que compunham o antigo bloco comunista: Lituânia, Letônia,
Estônia, Rússia, Cuba e China. A religião aparece, portanto, como um mecanismo de “proteção” contra o
comportamento suicida (todas as crenças religiosas condenam, em maior ou menor grau, o suicídio).

Combinada a outras influências, a religião pode ser também fator de estímulo para os “suicídios altruístas
ou heroicos”, na definição de Durkheim. Cada membro do grupo está disposto a sacrificar a sua vida em
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prol das crenças. “Os casos mais recentes são os dos homens-bomba entre os palestinos e dos suicidas de
11 de setembro, relacionados a situações políticas muito específicas e à crença religiosa islâmica”, afirma
Maria Cecília de Souza Minayo, doutora em Saúde Pública e professora da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Embora as mulheres sejam mais propícias a ter pensamentos suicidas que os homens, as taxas de suicídio
masculino são mais elevadas. E os métodos que eles usam são mais definitivos e violentos, como uso de
arma de fogo e enforcamento. Em média, ocorrem cerca de três suicídios masculinos para um feminino –
com exceção de algumas regiões da Ásia, em especial na China, onde o número de mulheres que se matam
supera o de homens e há mais casos no meio rural que nas cidades -, o que também contraria o padrão
mundial.

Cada sociedade tem uma taxa mais ou menos constante de suicídios. No caso do Brasil, a média é de 4,5
suicídios por 100 mil habitantes nos últimos 20 anos. Número relativamente baixo, se comparado à taxa
da Finlândia, por exemplo, que é de 23,4 casos em 100 mil pessoas. As taxas brasileiras de suicídio se
elevam conforme a idade dos indivíduos, até atingir sua máxima expressão na faixa de 70 anos ou mais,
quando chegam a 7,3 suicídios em 100 mil habitantes. Dentro de um país, o Brasil ou outro, as taxas mais
altas vêm da comunidade indígena e dos imigrantes, principalmente dos núcleos que perderam muito da
sua identidade cultural. Segundo a OMS, há fatores que claramente aumentam a probabilidade de suicídio
no grupo social. Taxas de suicídio são altas durante épocas de recessão econômica e de forte desemprego.
Também se elevam em períodos de desintegração social e instabilidade política.

“A adolescência e a velhice são os dois momentos mais propícios tanto para a ideação e as tentativas de
suicídio quanto para concretização do ato, por razões diferentes”, diz Cecília. Na velhice, os motivos com
freqüência se devem à depressão, a sentimentos de rejeição e abandono e à dificuldade de aceitar certas
enfermidades dolorosas e incapacitantes, como o câncer. “Na adolescência, os problemas de conflito
familiar, de dificuldades de identificação, os sentimentos de perda ou de inferioridade, a baixa auto-
estima, em casos específicos de personalidades com tendências depressivas e de isolamento, podem se
associar e resultar em tentativas ou em atos de suicídio”, afirma ela.

O cansaço existencial e as crises constantes também alimentam


o desejo de morrer.
“Eu não deveria existir”*

Para o filósofo e escritor argelino Albert Camus (1913-1960) só há um problema filosófico


verdadeiramente sério sobre o qual o homem deve refletir: o suicídio. Segundo ele, a questão fundamental
da filosofia é responder se vale a pena ou não viver. “O homem vive num clima de absurdo e pouco pode
esperar da história. Esses obstáculos colocam a existência como um problema. Novamente, a pergunta se
impõe: viver vale a pena?”, diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, da USP. “Na perspectiva de Camus,
o suicídio está sempre no horizonte do indivíduo porque a pergunta sobre a validade da vida é permanente.
Isso não significa que a morte é a única solução. A saída pode ser o enfrentamento lúcido, ainda que um
tanto solitário, desse clima de absurdo.”

Uma reflexão filosófica mais profunda da contemporaneidade revela que a vida não é mais considerada
um valor – pois, diante da moderna sociedade de consumo, perdeu gravemente o caráter sagrado – e, por
isso, o suicídio também foi banalizado. Tornou-se alternativa descartável. “Já não representa mais um ato
de contestação ou um ato exemplar nem parece resultado de uma dor psíquica insuportável, como foi no
passado. O significado do suicídio também se perde nessa tendência ao não-pensamento que assola o
mundo contemporâneo”, diz a filósofa Olgária Mattos, também da USP. A sociedade de consumo é
falsamente hedonista: promete gratificação imediata e, ao mesmo tempo, frustra as próprias perspectivas
que oferece. O suicídio seria também uma conseqüência dessa impulsividade: uma reação às promessas
não cumpridas de felicidade e satisfação instantâneas e à decepção que daí decorre. “O suicídio, hoje, vem

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da dificuldade de entrar em contato consigo mesmo. O autoconhecimento dá trabalho, exige empenho e


tolerância à frustração”, diz Olgária.

A pergunta fundamental de Camus continua a nos martelar. “O suicídio agride porque nos diz o tempo
inteiro da nossa possibilidade de escolha. Porque, se o outro faz isso, eu também posso ter essa escolha.
Porque eu terei de me haver com o meu próprio potencial suicida, ou com o meu próprio desejo de morte”,
diz Ingrid Esslinger.

(iEverest/iStock)

Levado às últimas consequências, o suicídio também pode parecer um ato de afronta a Deus. “Tirar a
própria vida dá, ao indivíduo, a sensação de fazer algo que é divino e entrar em contato com o mistério”,
afirma Denise Ramos. “O suicida passa da extrema impotência – não posso mudar nada – à extrema
potência – acabo com a minha vida quando e como eu quero. Nesse momento, em sua fantasia, se iguala
a Deus por provocar também um ato que vai além da natureza humana.”

Para o teólogo e filósofo Renold Blank, da Pontifícia Faculdade de Teologia de São Paulo, tal atitude de
achar-se o único responsável pela própria vida ultrapassa os limites éticos. “Do ponto de vista ético, a
vida de cada ser humano tem sentido não só para si mesmo mas para os outros também”, diz ele. “Por
meio da minha vida, dou sentido à vida dos outros e, assim, a minha existência ganha significado. Se
acabo com a minha vida, acabo com todas as possibilidades de dar sentido à vida de outras pessoas. Falho
em minha responsabilidade com os demais.” As ações de cada indivíduo repercutem no grande sistema
de relações sociais e ganham uma dimensão histórica – o que é feito hoje, mesmo em âmbito pessoal, tem
sempre uma conseqüência futura. O suicídio funciona, então, como uma brusca ruptura dessa rede.

“O suicídio é um ato privado que não representa somente uma violência contra si mesmo mas também
contra mais, pelo menos, seis pessoas. Elas são forçadas a conviver com os sentimentos de vingança,
vergonha, culpa, sofrimento psicológico, medo de enlouquecer e de também cometer o suicídio”, afirma
o suicidologista australiano Diego De Leo, diretor da Associação Internacional para a Prevenção do
Suicídio (IASP, na sigla em inglês), organização não-governamental que reúne profissionais e entidades
envolvidas no estudo do comportamento suicida.

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ComportamentoPor que o suicídio não para de crescer no


Brasil?query_builder 30 maio 2017 - 17h05

“Sei que voceis me perdoarão”*

Para enfrentar o problema, a OMS lançou, em 1999, o SUPRE, um programa mundial para a prevenção
do suicídio. O objetivo é reduzir as taxas de mortalidade de “violência autodirigida”, acabar com o
preconceito em relação ao tema e prestar assistência técnica aos países para a formulação de políticas
públicas e programas de prevenção. As diretrizes se baseiam no tratamento adequado das doenças
mentais, na criação de campanhas educativas e de estratégias, como reduzir o acesso a instrumentos de
autodestruição – armas de fogo e venenos agrícolas, por exemplo. Na mesma época, a OMS criou o
SUPRE-MISS, um projeto conduzido em oito países a fim de identificar fatores de risco para o suicídio e
métodos eficazes para diminuir as tentativas de tirar a própria vida. A representante brasileira nesse estudo
é a Unicamp.

No núcleo familiar e comunitário, a melhor prevenção é falar sem temores sobre suicídio e saber
identificar os pedidos de socorro das pessoas próximas. “Ninguém precisa dar uma solução para os
problemas do outro, deve apenas aprender a ouvir. As pessoas encontram as soluções dentro de si quando
conversam e refletem sobre seus conflitos e emoções”, diz Denise.

(iEverest/iStock)

O CVV
Apostando nessa fórmula, existe o serviço de prevenção ao suicídio do Centro de Valorização da Vida
(CVV), uma entidade não-governamental de atendimento humanitário criada há 40 anos e presente em
todo o Brasil. O CVV segue os moldes dos Samaritanos, de Londres, uma entidade fundada no início dos
anos 1950 para atender pessoas angustiadas que precisavam de apoio psicológico. Todos os voluntários
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são treinados para ouvir seus interlocutores (por telefone, carta, e-mail ou pessoalmente) sem nenhum
tipo de julgamento e respeitar sua decisão, mesmo que seja a de cometer o suicídio. “Respeitamos o
sofrimento de quem nos telefona. Ele tem a liberdade de falar sobre o que quiser durante o tempo que for
necessário”, conta Adriana, voluntária do Posto da Vila Carrão, em São Paulo, e assessora de comunicação
do CVV. “Estamos disponíveis para ouvir o que cada um tem a dizer sobre seus medos, dificuldades e
angústias e ajudar a revalorizar a própria vida.”

O serviço atende, em média, 1 milhão de ligações por ano. Isso revela a necessidade que as pessoas têm
de falar sobre seus conflitos. Quando o assunto é suicídio, abrir-se pode ser terapêutico.

A experiência do CVV, dos Samaritanos e de outros programas semelhantes demonstra que o primeiro
passo para evitar o suicídio está no resgate do sentido da existência. “O que motiva o suicida é a falsa
idéia de que sua vida não tem mais valor nem para si mesmo nem para os outros”, diz Renold Blank. O
verdadeiro desafio parece fazer com que as pessoas percebam que sempre existe saída, não importa a
situação. Que há como se reinventar e trabalhar em si mesmo aspectos de que gosta menos. Que nossa
vida é importante para os outros também. E que sempre há alternativa, mesmo que, a princípio, seja
dolorida. Afinal, a única coisa para a qual não há remédio é a morte.

*Os intertítulos desta reportagem são trechos de mensagens de pessoas que se suicidaram.

“Tive medo de ser o próximo”


“Era de manhã quando recebi o telefonema avisando que meu irmão tinha se suicidado. Enforcou-se. Levei um susto
muito grande, foi um choque. No caminho até minha casa, senti vergonha por ser da família de um suicida. Tenho
três tias velhinhas, que são de uma geração em que o suicídio era ainda mais estigmatizado – e disse a elas que
devíamos contar para todos que o meu irmão havia se suicidado. Preferi não ocultar. O gesto dele me trouxe uma
sensação dolorida de que também poderia acontecer comigo. Tive medo de ser o próximo. Fiquei muito assustado.
Venho de um núcleo de morte – minha mãe morreu jovem, de câncer, quando eu era criança, e meu pai sofreu um
infarto agudo há alguns anos. Não acredito que tenham sido mortes naturais, talvez eles quisessem mesmo morrer.

Me senti muito culpado, foi inevitável. Pensei que talvez pudesse ter feito alguma coisa. O suicídio é uma violência
muito grande. Parece uma bomba, uma explosão. Era meu irmão mais velho. Acho que ele nunca desejou alguma
coisa com empenho. Tudo, para ele, tanto fazia, qualquer coisa estava bem. Era uma situação crônica. Ele entrou
em várias faculdades e não terminou de cursar nenhuma. Tentou vários empregos, mas saiu de todos eles. Foi casado,
separou-se, tinha uma namorada. Aparentemente sua vida estava estruturada. E ele não era depressivo. Talvez não
estivesse vendo perspectivas. As razões do suicídio são um mistério. Pensei muito em quais teriam sido os motivos.
Só relaxei quando assumi que não podia entendê-los. No enterro, senti uma raiva muito, muito grande. Naquele
instante, experimentei uma profunda sensação de abandono. Nunca tinha sentido isso antes. Meu irmão foi enterrado
no mesmo túmulo onde já estavam os meus pais.

Fiquei sozinho. Tenho muita vontade de viver. Acho que é uma espécie de resistência – gosto de festas, brigo pela
vida, vivo intensamente, tenho amigos, curto meu trabalho, sou afetivo… Sempre fui assim, mas o suicídio me fez
ver de maneira mais consciente que a vida é uma só. Não sou nada religioso, mas acho que todos nascemos para ser
felizes, para desfrutar.

Pensei muito nisso, logo depois do suicídio. Um dia, fiquei parado uns 15 minutos diante de uma avenida onde os
carros vinham em alta velocidade e não havia faixa de pedestres. Era só um passo, tão fácil, e tudo se acabaria.
Depois, ao visitar um novo apartamento, também contemplei a janela demoradamente… Num ato poderia resolver
tudo, todos os meus problemas. Mas prefiro os meios mais difíceis. Não acredito em outra maneira.”

E.S., médico e professor universitário, 45 anos

Para saber mais


NA LIVRARIA

https://super.abril.com.br/comportamento/por-que-uma-pessoa-se-mata/
11 /11
POR QUE UMA PESSOA SE MATA

Quando a Noite Cai – Entendendo o Suicídio


Kay Redfield Jamison. Gryphus, Rio de Janeiro, 2002
Suicídio, Testemunhos do Adeus
Maria Luiza Dias. Brasiliense, São Paulo, 1991
O Deus Selvagem – Um Estudo do Suicídio
A. Alvarez. Companhia das Letras, São Paulo, 1999
O Que é Suicídio
Roosevelt M.S. Cassorla. Brasiliense, São Paulo, 1985
Do Suicídio – Estudos Brasileiros
Roosevelt M.S. Cassorla (org.). Papirus, Campinas, 1998
Suicide and the Unconscious
Antoon Leenaars and David Lesters (ed.). Jason Aroson, Estados Unidos, 1996
Dicionário de Suicidas Ilustres
J. Toledo. Record, Rio de Janeiro, 1999
O Suicídio: Um Estudo Sociológico
Émile Durkheim. Zahar, Rio de Janeiro, 1982

NA INTERNET

CVV

World Health Organization

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